segunda-feira, 8 de outubro de 2007

"ELES, NO MUNDO DA EDUCAÇÃO..."


Mais do que comentários, o texto de Maria Filomena Mónica reproduzido neste blogue no dia 2 do corrente mês, evocou-me várias perplexidades que desde há muito procuro deslindar, sem, no entanto, ter conseguido avançar muito. Fico-me por uma delas: como se relacionam os poderes políticos com os saberes académicos e com os especialistas que admitem como colaboradores.

As leituras que tenho feito sobre essas relações, nomeadamente sobre a construção e lançamento da bomba atómica, durante a Segunda Grande Guerra, ou sobre as viagens espaciais, durante a Guerra Fria, deixaram-me perceber que essas relações são tudo menos claras e desinteressadas, pois há, presumo, factores em jogo pouco partilháveis e aceitáveis. Deixaram-me perceber, também, que os especialistas rapidamente passam de heróis a vilões – por vezes acontece passarem de vilões a heróis –, arrastando nessa passagem sua a área de estudo. Deixaram-me perceber, ainda, que de um caso ou, concedamos, de vários casos, ou, se quisermos, de muitos casos se deduz a totalidade.
Se não estou errada no meu raciocínio, isto explica em grande medida que, no caso da “bomba”, os físicos tivessem saído um bocado mal vistos junto da opinião pública, bem como a física, circunstância que ainda hoje alimenta discursos contra uns e outra. E isto apesar dos esforços inglórios de alguns cientistas junto do governo americano para que a bomba não fosse lançada, sem que outras vias estivessem esgotadas.

Considerando as devidas distâncias, especulo se este quadro não se aplicará à relação que as instâncias políticas responsáveis pela educação estabelecem com os seus colaboradores da área da pedagogia. Na verdade, é frequente, quando analiso medidas da tutela apresentadas como pedagógicas ter dificuldade em perceber o que é que de pedagógico ali está e, se está, em destrinçar onde começa e acaba o que é pedagógico e o que é político. Por outro lado, se as medidas são polémicas, atribui-se, de imediato, a responsabilidade aos pedagogos, visto que são apresentadas como pedagógicas. Acresce que não é costume nomear-se este ou aquele pedagogo, mas os pedagogos e a pedagogia, e muitas vezes vai-se mais longe, acusando-se os pedagogos e a pedagogia do lamentável estado em que a educação se encontra. Como diz Maria Filomena Mónica: o “universo dos pedagogos” ou a “maré pedagógica que tem avassalado as escolas”, “o mundo totalitário criado pelas Ciências da Educação”.

Muito do que até aqui conjecturei, parece-me estar patente numa entrevista que há uns seis para sete anos, a jornalista Dulce Neto fez a Marçal Grilo, depois de este ter deixado a pasta da Educação, e da qual resultou o livro Difícil é sentá-los.

Num dado passo o entrevistado afirma: “para além dos aspectos organizativos, o problema maior é o do país, dos portugueses perceberem e assumirem a importância da educação, e tornarem-se eles próprios os factores de exigência do sistema. Isto é, os portugueses não terem interiorizado a importância da educação”. Presume-se que quem tal afirma tenha em grande conta as Ciências da Educação. Mas… não é bem assim. Pelo que se poderá perceber do extracto que aqui reproduzo, o ex-Ministro, no seu tom amável e conciliador, afirma, um pouco paradoxalmente, que nunca sentiu falta de formação nessa área, nem dos seus especialistas, a quem, no entanto, reconhece ter encomendado estudos e admite que “devem saber alguma coisa”. Explica que essa sua opinião, que assume ser um bocado herética, se deve, em grande medida, à linguagem usada pelos tais especialistas e à sua forma de pensar, que vai no sentido de simplificar, de tornar leve a tarefa de aprender. Também dá a entender que o espírito científico “deles” não deve ser muito aguçado, uma vez que equacionam os problemas em função das posições teóricas (ou será, “ideológicas”?) que têm à partida e das escolas (ou será, “capelas”?) a que pertencem. Deixa, igualmente, no ar a desconfiança acerca dos seus saberes profissionais, pois, afinal, qualquer pessoa que passe pela escola saberá alguma coisa sobre educação!

Mas, o melhor é o leitor tirar as suas próprias conclusões das palavras de Marçal Grilo:

“Nunca sentiu falta dessa formação em Ciências da Educação?
Não. Nunca me fez falta. Acho que as Ciências da Educação têm um contributo muito importante para o futuro da educação, mas têm uma linguagem e uma forma de abordar os problemas… Não me fez falta, e não sei se faz falta a alguém, em termos de política educativa. Eu não tenho nada contra as pessoas das Ciências da Educação.
Num gabinete de Ministro, ou de Secretário de Estado, faz mais falta um jurista do que alguém especialista em Ciências da Educação?
Um jurista é absolutamente indispensável.
Era uma coisa que faltava no gabinete da sua Secretária de Estado, mas havia muita gente de Ciências da Educação.
Eu nunca tive ninguém. As Ciências da Educação são uma área… Conheço uns textos, mas a linguagem… Há uma coisa em alguma da sua mensagem que me faz um bocadinho de impressão. Talvez seja heresia o que estou a dizer: à educação e formação das pessoas está ligado trabalho intenso, esforço, algum sacrifício. O estudar ou formarmo-nos não é sempre uma coisa agradável, muito colorida. O rigor, a disciplina, o trabalho, fazem parte do processo educativo e quanto mais cedo se aprender isto melhor. Acho que, aqui, as Ciências da Educação simplificam um bocadinho.
No sentido da permissividade?
Não, mas no sentido em que há uma super-vontade de aceitar tudo e de tudo desculpar, e de tudo entender, e de tudo compreender, e de tudo justificar.
(…)
Há, muitas vezes, a sensação de que as pessoas que giram em torno da educação são quase sempre as mesmas?
Não é só isso. Eles, no mundo da educação, conhecem-se todos uns aos outros. E têm ódios internos, os seus amores e as suas desavenças. Isso está permanentemente a vir ao de cima. Por exemplo, com aqueles que não gostam das Ciências da Educação (sou insuspeito nessa matéria, porque sou engenheiro mecânico… por isso estou completamente fora dessas questiúnculas), isso é perfeitamente notório.
Por isso não fala eduquês?
Pois. Nunca falei. Mas, dentro do mundo das pessoas que falam sobe educação, que fizeram teses sobre educação, há escolas entre eles, conhece-se dos júris, das teses, das faculdades, dos estudos que fizeram no estrangeiro, etc. Escrevem coisas que, muitas vezes, são reflexo das posições que têm à partida e não propriamente em relação ao tema específico. Este é mais um pretexto para voltar a afirmar determinada posição contra o senhor tal ou a senhora tal.
Reconhece-lhes algum valor, porque chamou alguns deles para fazerem estudos…
Com certeza. São doutorados, são pessoas qualificadas, com grandes qualidades, mas, na expressão das suas posições públicas, normalmente escrevem por razões que não têm a ver com o tema em si, mas com o que está por detrás disso.
Pensa, então, que há um grupo de pessoas que acha que percebe muito sobre educação e, afinal, percebe pouco?
Eu acho que devem perceber. O cidadão normal tem obrigação de saber coisas sobre educação, todos nós passamos pela escola.”

Talvez o leitor, que me associa à pedagogia, queira saber a minha opinião acerca das relações que se estabelecem entre esta disciplina e as instâncias que decidem as políticas educativas. A esse respeito, penso o seguinte:

A educação escolar tem sido particularmente permeável a “modismos” com uma forte carga doutrinária e ideológica, que emergem sem se saber bem de onde e instalam-se sem se saber bem como. Estes, mais do que as teorizações e dados empíricos dignos de crédito científico, exercem, desde há muito, uma profunda e alargada influência nas ditas políticas. Desta maneira, há um conjunto substancial de conhecimentos sobre o ensino e a aprendizagem que é sistematicamente ignorado ou afastado das decisões da tutela. Acrescento que não se trata de um “fenómeno” exclusivo do nosso país; é muito mais geral.

A finalizar, reconheço que cabe, em grande medida, aos departamentos e grupos universitários de Ciências da Educação, bem como aos seus investigadores procurar mudar a circunstância a que aludi neste texto, quer através da divulgação dos seus conhecimentos além dos círculos académicos em que se movimentam, quer através da sua intervenção construtiva, em momentos e questões essenciais.

Livro referido no texto:
Neto, D. (2001). Difícil é sentá-los. A educação de Marçal Grilo. Lisboa: Oficina do Livro, páginas 40 e 272-274.

5 comentários:

Carlos Medina Ribeiro disse...

Já que falamos de educação:

É absolutamente a não perder a crónica que António Barreto publicou no «Público» de ontem, a propósito de um saborosíssimo despacho do sr. secretário de Estado Walter Lemos.

Pode, p. ex., ser lida aqui - e de preferênca em voz alta, como o autor recomenda...

Fátima André disse...

“Na verdade, é frequente, quando analiso medidas da tutela apresentadas como pedagógicas ter dificuldade em perceber o que é que de pedagógico ali está e, se está, em destrinçar onde começa e acaba o que é pedagógico e o que é político.”
Pegando na supracitada afirmação da Helena quero fazer notar o seguinte:
(1) Esta é uma dificuldade que só é colocada por quem está habituado a analisar a realidade com rigor, exigência e objectividade;
(2) Critérios que gostaria de sublinhar como condição sine qua non o sistema educativo “tarde ou nunca se endireita”, para utilizar uma expressão que todos entenderão.
(3) Como falar em rigor, exigência e objectividade é uma linguagem quase proibida, ou mesmo proibida, porque tem sido banida dos normativos e demais orientações curriculares em vigor… utilizá-la pode ser uma arma apontada para nós (docentes) se pensarmos que vamos ter sempre alguém a avaliar o nosso desempenho docente, ou o Coordenador de Departamento, ou, no caso deste, um Inspector…
Não será que temos que repensar esta nossa “teimosia” de analisarmos tudo com rigor, transparência, objectividade…? Afinal o idioma da subjectividade até está mais próximo do coração… não têm sido os nossos políticos e 1º ministros apaixonados pelas questões da educação nas últimas duas ou três décadas? E onde é que nos têm conduzido as paixões??? Talvez ao mar de rosas e à ilusão de que TUDO É MUITO BOM (não querendo roubar créditos ao autor bíblico do relato da criação). Uma conclusão a que qualquer leitor atento pode chegar (não é preciso ter formação base ou especialização em Ciências da Educação). Qualquer leigo na matéria, mas preocupado com a educação, numa leitura atenta aos documentos curriculares mais recentes (LBSE-Lei 49/2005 e DL 6/2001) pode ver o teor das ideias repassadas: (1) todos os valores são relativos, construídos, subjectivos, equivalentes; (2) os alunos possuem capacidade de auto-orientação no plano axiológico; (3) a escola não pode impor valores particulares, deve respeitar a liberdade de escolha…
E, especulo eu… “E O MINISTÉRIO VIU QUE TUDO ERA MUITO BOM”… faltam é resultados… diria alguém mais importante do que eu: “MINHA CARA FÁTIMA, O IMPORTANTE NÃO SÃO OS RESULTADOS, É O PROCESSO!”…

Anónimo disse...

"A educação escolar, tem sido particularmente permeável a “modismos”" - ok, mas a vírgula entre sujeito e predicado é que não está lá a fazer nada, não é? Sobretudo em textos sobre a educação e o ensino seria talvez conveniente dar um pouco de atenção a estes detalhes...

Anónimo disse...

Pena mesmo é que Marçal Grilo enquanto Ministro tivesse pactuado com aquilo que critica e que se incrustou na Secretaria de Estado da "Inovação" (salvo erro) entregue a Ana Benavente.

Fátima André disse...

Ainda sobre o post da Helena e porque em educação os paradoxos são em abundância, em cada discurso, em cada linha…
…quando o caminho a seguir parece ser o da subjectividade… nem sempre é assim… daí as perplexidades da Helena, de longa data e que incansavelmente procura deslindar, mas com pouco ou nenhum sucesso. Compreensível! Naturalmente que sim, já que os critérios da transparência e da honestidade não parecem estar subjacentes nas prioridades educativas. Onde é que já se viu estar constantemente a mudar as regras do jogo durante uma jogada, o mesmo é dizer, a meio do ano lectivo? Só mesmo a tutela o faz na maior, sem quaisquer escrúpulos. Já o fez várias vezes em relação às avaliações das aprendizagens dos alunos e agora prepara-se para o fazer com a avaliação do desempenho dos docentes, aprovando daqui a um mês ou dois mais uns decretos regulamentares do ECD, mas vão ter efeitos no presente ano lectivo… Quando nem sequer a maioria dos docentes conhece essas novas regras (porque ainda estão a ser discutidas), com que legitimidade são elas aplicadas a um ano lectivo que já se iniciou? Isso é falta de honestidade, de transparência... para além de poder criar graves injustiças. Naturalmente que medidas desinteressadas não devem ser, mas pouco claras são. São tão dúbias que a tutela nem se preocupa em dar a conhecer aos docentes as suas intenções… são os sindicatos a fazê-lo. Aqui fica um link para os interessados:

http://www.fenprof.pt/?aba=27&cat=95&doc=2698&mid=115

Ainda que se trate de um projecto regulamentar… (cheio de boas intenções, espero) o seu conteúdo e as grelhas apresentadas parecem inspiradas num modelo que vídeo-vigilância em que os avaliadores vão registando os “incidentes críticos”… se alguma coisa falhar… há sempre o registo de vídeo :)) (já estou a ver o filme… será a próxima medida da Srª D. Milú?... de escrever sobre o assunto até já me parece uma medida real… e se um dos seus especialistas ou colaboradores se lembrar dessa???) Chiça, o melhor é pensar positivo :))

"Nós, professores, já não lemos. Nem sequer estudamos."

O artigo que aqui traduzimos, assinado por Diego Garrocho, não traz nada de novo, mas o que traz é importante, fundamental, precisa de ser r...