De Víbora na Mão é um livro autobiográfico de Hervé Bazin de 1948, publicado em Portugal pela coleção Unibolso, provavelmente em 1985. Neste livro, se os filhos são terríveis e planeiam (e tentam) o assassinato da mãe, esta não é menos ao bater-lhes e a castigá-los. Em suma, um livro terrível! Estava a lê-lo, desta vez para anotar os aspectos químicos. Mas não era tanto isso que me interessava. Interessava-me mais a geografia, os tempos envolvidos e a relação, em termos de lugares e atitudes, com A Busca do Tempo Perdido de Marcel Proust, uma obra monumental em sete volumes que acaba um pouco antes da outra começar e que também estive a reler e anotar, e, ainda, Thérèse Desqueyroux, passado nas Landes e publicado em 1927 por François Mauriac (publicado, em Portugal, recentemente pela Cavalo de Ferro, em 2015). Estava eu nisso, a viajar pela França do início do século vinte, a comparar o conservadorismo patético de uns com o sensualismo dos outros. Compararava, sem grande profundidade, é certo, as diferentes atitudes, o dinheiro que a uns, arruinados, faltaria e que, os outros, velhos burgueses, teriam em excesso. Comparava a atitude perante os banhos de mar e a praia, evitada mas verdadeira, de Le Balle na Víbora, com a Balbec imaginária da Busca.
Mas a química voltou outra vez. A verdade é que todos os livros a têm. E só falo da Víbora na Mão. Esta tem, claro, o óleo de rícino, a pólvora piroxilada, também chamada pólvora sem fumo, as gotas de beladona, o cianureto (diz-se actualmente cianeto) de potássio, a ureia e a uremia, a curiosidade de Rayon ser também um lugar, entre outros. Mas esses eu já conhecia. O que me chamou mais a atenção acabou por ser um medicamento para uma crise de fígado, chamado, no livro, Algocoline Zizine. Uma pesquisa mostrou que era uma expressão que só aparecia neste livro e que esta obra era citada ipsis verbis num artigo antroplógico a propósito da questão de serem as “doenças de fígado” uma doença tipicamente francesa. Mais umas pesquisas e estas mostraram que os laboratórios Zizine ainda existem, mas agora são dedicados ao “medicamentos alternativos,” e que “algocoline,” poderia ser outro nome para analgésico. Se fosse o caso, qual seria a sua composição? Foi aí que vi que os laboratórios Zizine não tinham fabricado o “Algocoline Zizine” mas sim o “Alcholine Zizene,” de que há bastantes caixas metálicas à venda na internet. Será que o autor se enganou? Será que teve um liberdade poética? Será que não quis usar um nome registado? Não sei, o que sei é que o Alcholine Zizene era de facto uma marca registada e descrito como um “drenante hepático” (um laxante, diríamos hoje) composto de sulfato de magnésio e pectina. E foi assim que, de uma praia redescoberta pelos parisienses, Le Balle-Escoublanc, encontrei a química de um frasco de medicamento a vajar pela França dos livros. Façamos um passeio à feira do livro e encontremos outras viagens!
terça-feira, 1 de setembro de 2020
De víbora na mão, em busca do tempo perdido, viagens pelos livros
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
O CENTENÁRIO DO TITANIC

Minha crónica publicada no "Sol" de sexta-feira passada (antes, portanto, do naufrágio do Costa Concordia nem Itália:
No próximo dia 14 de Abril, um navio de cruzeiro, com mail de mil passageiros a bordo, em trânsito de Southampton para Nova Iorque, parará nas águas gélidas do Atlântico Norte na posição de coordenadas 41° 43′ 55″ N, 49° 56′ 45″ W, onde, exactamente há cem anos, o RMS Titanic naufragou devido à colisão com um grande icebergue. Rezar-se-á uma oração pelas 1517 vítimas do acidente.
O Titanic Memorial Cruise recriará a viagem do que era, na época, o maior navio do mundo. As indumentárias da tripulação serão as da época, assim como as refeições e as músicas pela orquestra de bordo. Só o navio – o Balmoral – não será da época. Não haverá desta vez uma colisão como aquela que originou a inesperada tragédia. Algumas das razões da segurança das actuais viagens marítimas remontam ao inquérito efectuado logo após o acidente. De facto, essa investigação identificou factores que podiam ter evitado o desastre ou, pelo menos, minimizado os seus efeitos. Por exemplo, os passageiros de 3.ª classe morreram em percentagem maior que os das outras classes, porque, albergados nos níveis inferiores, não tinham acesso fácil aos botes salva-vidas, no nível superior. Aprende-se com os erros: As leis que presidem à construção naval melhoraram, os procedimentos de segurança foram reforçados (com a obrigatoriedade de salva-vidas para todas as pessoas a bordo) e até patrulhas de detecção e destruição de icebergs foram instituídas.
Uma das tecnologias que os navios modernos utilizam surgiu precisamente em virtude do desastre. Trata-se do sonar, o uso de ultra-sons para detecção de obstáculos graças ao fenómeno do eco. Já se sabia no século XIX que os morcegos tinham uma propriedade estranha: viam com os ouvidos! Mas só com as notícias do Titanic o meteorologista inglês Lewis Richardson se lembrou de criar um invento baseado no princípio que a evolução desenvolveu nos morcegos. O sonar haveria de ser aperfeiçoado durante a Primeira Grande Guerra para detecção de submarinos pelo físico francês Paul Langevin (o mesmo que teve em 1911 uma relação escandalosa com Madame Curie).
O desastre do Titanic continua a desencadear o uso de novas tecnologias. Foi assim que o oceanógrafo norte-americano Robert Ballard detectou em 1985 o sítio do naufrágio para a seguir efectuar uma campanha arqueológica, que permitiu resgatar objectos que têm andado pelo mundo em exposições. E é assim que, em Abril próximo, a recente tecnologia do cinema a três dimensões vai permitir estrear uma nova versão de um dos mais famosos filmes de sempre, o Titanic, de James Cameron, com Leonardo di Caprio e Kate Winslet nos principais papéis. Àqueles que não arranjaram lugares no Titanic Memorial Cruise resta-lhes a consolação de viverem a experiência multimédia no cinema.
sábado, 29 de outubro de 2011
segunda-feira, 8 de agosto de 2011
UMA APRAZÍVEL NAÇÃO 3
Terceira e última crónica da crónica do ensaista Eugénio Lisboa a propósito de uma visita de um cientista estrangeiro, no final do século XVIII, a Portugal (na figura, Lisboa, vista do Tejo):
Sobre a língua portuguesa, o cientista tece comentários lisonjeiros mas bem direccionados, visto que, como de costume, separa bem as águas: de um lado o povo, pelo qual tem afecto por outro, as “classes altas” que abomina. Diz assim: “Em geral a língua portuguesa, mesmo na boca do vulgar homem do povo, tem muito de bem educado e elegante. Ali não se ouve nenhum impropério, nenhuma expressão indecente, nada que se possa assemelhar ao inglês damn, ao francês f...e bougrement, ao espanhol carajo e caramba, a classe mais baixa menciona, de facto, por vezes o diabo e usa às vezes uma palavra que é igualmente habitual em todas as outras línguas. Todos os portugueses” garante Link, “são conversadores natos e, não raro, enfadonhos.” A seguir dá livre curso à sua sanha contra a nobreza lusa: “Diz-se que os nobres escondem por detrás de uma torrente de palavras delicadas e polidas uma natureza e uma alma falsas.” E sublinha, com acinte saboroso: “Não tenho nada a dizer em defesa das classes mais altas, ficam muito atrás dos espanhóis, tanto quanto o povo vulgar excede os seus vizinhos.” Depois, esclarece, numa impressionante passagem que parece escrita um pouco mais do que um pouco – para os dias de hoje: “Em todas as disposições falta de conhecimentos e de gosto, causada talvez pela total falta de obras de arte nesta terra, um governo que nunca soube ou teve oportunidade de arriscar atitude ou sentimentos nobres, a constante e opressiva proximidade da nação inglesa, que com razão se sente superior, a total decadência da literatura, estas são creio eu, as principais razões pelas quais o nobre português ocupa o último degrau de entre a nobreza europeia.” Substitua-se “nobreza” por “elites” e/ou “classes altas” e este panorama não estará muito desactualizado, principalmente quando nos lembramos de que no ano da graça de 2006, quase a virar para 2007, houve um governo que encolheu até aos miseráveis 0,4% do PIB a dotação para o Ministério da Cultura – lá fora já há muito se ultrapassou o 1% e, em países como a Argentina de Borges, era costume a Cultura exigir os 5%: mais de dez vezes o que a nós nos cabe em sorte.
Falando dos homens e das mulheres, Link de algum modo corrobora – sobretudo para os homens – o soturno diagnóstico feito por outros viajantes. Ouçamo-lo: “Em Portugal o sexo masculino não é bonito, raramente se vêem pessoas de estatura alta, mas mais corpos volumosos, gordos, baixos e atarracados. Os seus rostos são do mesmo modo raramente regulares, um nariz arqueado para cima e lábios salientes são tão vulgares que se poderia ser levado a pensar terem os portugueses misturado um pouco de sangue negro. Extraordinariamente impressionante”, observa Link, “é a diferença entre espanhóis e portugueses: aqui [em Portugal] desmesuradamente gordos, ali [Espanha] corpos franzinos, aqui narizes arrebitados, ali narizes aduncos, apenas se assemelham na cor morena e nos olhos negros.” A fealdade do macho luso deve ter de tal modo impressionado o alemão, que este se rende – supõe-se que com alguma relutância - a achá-la pior do que a dos nossos vizinhos, a quem raramente concede pontos, neste tipo de comparação. Mas as mulheres lusitanas têm, obviamente, componentes redentoras: “Sobre o sexo feminino,” diz Link, “o autor do Novíssimo Panorama de Lisboa, em francês, e o seu editor alemão, o Magister Tilesius de Leipzig, têm opiniões algo diversas – aquele elogia, este censura. Em termos gerais, o sexo feminino tem os mesmos defeitos do masculino: uma estatura demasiado baixa e uma tendência para uma figura forte e rude. Tem porém muita fisionomia, uma natureza viva e amável, olhos muito belos, cabelo invulgarmente comprido e forte, dentes muito brancos, um peito opulento e cheio e pés extraordinariamente bonitos, fazem no entanto, penso eu, uma atraente combinação e escondem outras irregularidades. Conhecedores elogiaram-me ainda confidencialmente muitas outras coisas que eu não posso repetir publicamente.”
Falando das prostitutas de Lisboa, a que chama, com pudor, “mulheres da rua”, considera-as bastante discretas: “apesar de elas dizerem”, nota ele, “que a porta está aberta, que se pode entrar, a verdade é que não são de modo nenhum tão impertinentes e descaradas como as mulheres em Londres ou em Paris no Palais Royal. A descrição das mesmas no Novíssimo Panorama de Lisboa é verdadeira em alguns aspectos, no todo é exagerada.” Aqui fica, para que conste , uma visão suave sobre a profissão mais velha do mundo, na Lisboa do final do século XVIII. Deixando, com alívio, este tema penoso, Link volta de novo “às senhoras de condição” e observa: “Aquela suave graça que adorna a beleza nórdica quase não se encontra em Portugal e ficar-lhe-iam porventura tão mal os olhos ardentes como a atmosfera ardente que ela mal consegue criar. Mas também se vêem belezas sublimes em Lisboa, quando o fino porte nórdico, o branco nórdico da sua pele, se juntam às vantagens de um clima meridional, produzindo o que de mais belo a natureza pode mostrar.”
Mas este longo, minucioso e saboroso capítulo sobre a fauna lisboeta de setecentos vai terminar, hélas!, com um tema necessário mas doloroso para o alemão tão bem disposto a simpatizar connosco mas, ainda assim, cientista que não está habituado a iludir os factos: refiro-me ao tema da higiene: “De um tema tão encantador [o da beleza das mulheres lusas]”, diz ele, “tenho de passar, através de uma ligação possivelmente demasiado natural, à falta de asseio dos portugueses. Assim que se deixa a Inglaterra e se pisa o solo de França, a falta de asseio torna-se progressivamente maior à medida que se avança em direcção ao sul. Os aposentos tornam-se cada vez mais sujos, as latrinas ou não existem ou são execráveis, uma horda de bichos de toda a espécie perturba o sono do viajante. Alguma coisa se tentou mudar nas novas estalagens alemãs e inglesas em Lisboa e aí a cidade de Lisboa tem vantagem em relação a Madrid.”
Por fim, enchendo-se de coragem, o cientista viajante mergulha no assunto embaraçoso, como quem se atira à água fria: “É preciso”, diz ele, como quem suspira, “[é preciso] falar dos piolhos em Portugal, falou-se demasiado sobre este assunto, contou-se que os piolhos serviriam aos soldados em jogos de azar em vez das cartas, que seriam habitualmente esmagados entre os dentes e outras coisas do mesmo género. Nunca vi nada disto. Mas a verdade é que a gente nobre não se envergonha de matar ou mandar matar em público estes bichinhos. Conta-se que a esposa de um ministro faz isso, não raro, quando joga às cartas na presença de muita gente. Isso, com efeito, não vi. Mas quando estávamos nas Caldas no Gerês, onde se encontram banhos quentes, vi a irmã do bispo e do Governador do Porto, uma jovem e atraente viúva da antiga nobreza, pela tarde, em frente da porta, deitar a cabeça no regaço da sua criada para que esta lhe catasse os piolhos. Sei de fonte segura que as jovens donzelas, quando se visitam se catam mutuamente os piolhos como passatempo.”
É quase doloroso ter que passar por cima de tanta observação interessante: os entretenimentos em Lisboa, os arredores da capital, etc. etc. Mas não posso furtar-me a transcrever aqui o que o autor diz da religião em Portugal, que excede, em finura e perspicácia, quase tudo quanto os estrangeiros costumam dizer de nós, nesse aspecto. Em 17 anos que vivi em Inglaterra, como conselheiro cultural, na embaixada em Londres, confesso que me saturei de ouvir o cliché constantemente repetido: “Portugal é um país profundamente católico!” Eu reagia: que não era bem assim, que a religião, em Portugal, era, quase sempre, de superfície, pouco vivida em profundidade, frequentemente decorativa, para inglês ver. Que não havia, entre nós, grandes místicos, como em Espanha. Que quase ninguém lera a Bíblia, que o Novo Testamento não era conhecido da maioria dos chamados católicos, muito menos comentado no que até tem de subversivo... Não adiantava: olhavam para mim com ar desconfiado, quase escandalizado. Acho que me catalogavam de comunista e se admiravam de a embaixada dar emprego a gente como eu. Ao que as coisas chegaram... Ouçamos então Link, a este respeito:
“Como estou a falar de diversões”, diz ele – e reparem que é a propósito de “diversões” que ele vai falar de “religião” – "[como estou a falar de diversões] não posso esquecer a religião, que na Península ocupa entre estas um lugar de destaque. Vai-se à missa porque não se tem outro passeio, gosta-se das cerimónias religiosas porque se procura passar o tempo, seguem-se as procissões como quem vai à ópera. Em todos os relatos de viagens em Portugal se fala das histórias amorosas a que a missa dá azo e, como é habitual, também aqui se exagera. Como as jovens raparigas quase não saem de casa a não ser para ir à missa, é de esperar que aí o amor não perca a oportunidade única de mostrar o seu poder, e é natural que especialmente a donzela para sempre ame os locais onde pela primeira vez experimentou as emoções do amor e devoção. No campo, o motivo de um passeio à noite é muitas vezes uma imagem de Nossa Senhora, uma pessoa ajoelha e reza levanta-se e ri-se e namora-se como antes. Em geral os portugueses observam com muito rigor o lado exterior da religião, talvez mais do que os espanhóis. Quem come carne na Quaresma tem mesmo de ser muito instruído. Ouvi com prazer uma vez que a questão foi lançada: seria maior pecado comer carne na Quaresma ou infringir o sexto Mandamento? A conclusão em termos gerais foi que o último pecado seria uma ninharia em relação ao primeiro. Não obstante, a nação e mesmo o povo mais vulgar não é tão fanático como em Espanha. Podia contar uma série de coisas a este respeito, mas contento-me apenas com algumas. Assisti em Setúbal a uma procissão onde dois capitães de navios, um inglês e um dinamarquês, ao passar o Espírito Santo não tiraram o chapéu. Ninguém se preocupou com o caso, apenas um marinheiro português perguntou: quem são aqueles ali com os chapéus na cabeça? São ingleses, fideputas, replicou o outro, e com o palavrão a coisa ficou resolvida. Quando o príncipe de Waldeck foi sepultado, ouvi dizer a um homem do povo: era um herege, mas um muito bom homem.
Em seguida misturei-me com a multidão e não ouvi senão louvores e elogios ao amável Príncipe que foi precisamente levado para o cemitério protestante, soube mesmo que ele declinou o habitual convite para se tornar católico que lhe foi feito à hora da morte e verifiquei, para meu grande espanto, que esse acto obteve de um modo geral a aprovação de todos, na medida em que cada, pessoa deveria viver e morrer na sua fé.
O português considera qualquer estrangeiro um herege e é atencioso e prestável para com ele, chega mesmo a admirar-se quando vê estrangeiros católicos.”
Julgo tratar-se de uma avaliação justa e que dá à superficialidade com que os portugueses, em geral, vivem o seu catolicismo o corolário satisfatório de uma tolerância que convive mal com qualquer hipótese de fundamentalismo. Bem está o que bem acaba.
Tenho que fechar esta excursão e faço-o com tristeza e relutância. Muito haveria ainda que transcrever sobre instituições públicas, terras entre Lisboa e Coimbra e, sobretudo, desta cidade à beira do Mondego, de que diz que “as ruas são extremamente estreitas, pequenas, sinuosas e angulosas, mal pavimentadas, muito imundas e muitas vezes tão íngremes que só com esforço se conseguem subir.” Nota ainda que “nenhuma outra grande cidade em Portugal tem estalagens tão más como Coimbra” e que “nelas um forasteiro recebe aposentos miseráveis, más camas e comidas cuja apresentação requer o apetite de um botânico.” Observa ainda, de passagem – e os lisboetas que se limpem a mais este guardanapo – que “quanto mais se anda em direcção ao norte em Portugal, tanto melhor, mais bondoso e trabalhador é o povo. Pilhagens e roubos são aqui já muito raros.”Afirma que “o mais importante em Coimbra é a Universidade” e nota que, com Pombal, “o regulamento da mesma sofreu uma grande mudança, sem dúvida muito proveitosa.” Mas acrescenta, para ser objectivo, que “os regulamentos não são tudo” e que “onde falta um espírito vivo e activo as ciências não prosperam, elas exigem gastos, estímulo e uma avaliação correcta dos verdadeiros méritos, recursos com os quais (mesmo com uma constituição medíocre) mais se realiza do que com o melhor regulamento do mundo.” Diz ter encontrado, entre os professores da sua especialidade, “homens lúcidos e activos”, dos quais destaca Dom Félix de Avelar Brotero, de quem afirma: “Seria injusto para com este homem se não o colocasse categoricamente ao lado dos melhores botânicos que conheço.”
No entanto, nota isto que tem ainda hoje, infelizmente, validade no universo ainda relativamente fechado da Universidade Portuguesa: “Mas ele [Brotero] estudou oito anos em Paris, não foi educado na Universidade de Coimbra, por isso os seus colegas troçam dele, e o desgosto e a hipocondria juntos tolhem este homem de resto muito activo.”
Mas tenho que terminar, até porque o viajante alemão diz muito pouco de Aveiro para além de afirmar que “não há outra cidade em Portugal que tenha em seu redor uma planície tão extensa e tão grandes pântanos de água doce como Aveiro.” É pouco mas não ofende.
Minhas senhoras e meus senhores: o grande Montaigne, homem de excelente companhia e de franco falar – a minha inevitável escolha para uma ilha deserta – dizia: “Eu respondo normalmente àqueles que me perguntam sobre as razões das minhas viagens: sei muito bem de que fujo mas não o que procuro.” Henrich Friedrich Link não pertencia a esta paróquia de viajantes: viajou, não para fugir da Alemanha mas sim para investigar a flora portuguesa. Tinha um objectivo muito claro. De caminho, investigou outras coisas, entre elas, o bicho lusitano. Disso nos deixou um relato vivo e aprazível, cumprindo na íntegra o caderno de encargos que a si próprio impôs, nestes termos: “Na descrição procurei evitar, tanto quanto possível, tudo o que fosse enfadonho, ainda que deste modo me possa tornar suspeito de ser menos exacto. Não possuo o talento de muitos escritores para, através de um estilo difuso, enfadonho e obscuro, expor observações que foram feitas de uma forma ligeira, como se de coisas pesadas e importantes se tratasse. Prefiro”, conclui ele, “verter de uma forma fácil o que exigiu longo tempo de observação.” Enfadonho, Link, nunca o é. Se, transcrevendo-o com abundância, me tornei eu próprio enfadonho, a culpa não pertence, por certo, à certeira vivacidade e olho lesto do esforçado cientista e viajante alemão.
Eugénio Lisboa
REFERÊNCIAS
(1) Richard Croker, “Viagens através de Várias Províncias de Espanha e Portugal”, carta XXV, in Portugal Visto pelos Ingleses, org. Maria Laura Bettencourt Pires, Instituto Nacional de Investigação Científica, Lisboa, 1981, p. 112.
(2) Idem, p. 110
(3) Notas de uma Viagem a Portugal e através de França e Espanha, tradução, introdução e notas de Fernando Clara, Biblioteca Nacional, Lisboa, 2005.
(4) in Portugal Visto pelos Ingleses, pp.40-41
(5) in Portugal Visto pelos Ingleses, p. 26
sábado, 6 de agosto de 2011
UMA APRAZÍVEL NAÇÃO 2
Continuação do artigo de Eugénio Lisboa sobre o relato da visita de Link a Portugal:
Quanto a estalagens portuguesas, Link fala com certa abundância, mas reteremos apenas que, segundo ele, “quem tem a boca fina terá certamente alguma coisa a objectar, mas não se pode imaginar como é desagradável depois de uma longa jornada ter de se preocupar com o mínimo pormenor. Encontrámos um serviço rápido e bom, a comida não era má, e a bonita e amável estalajadeira tinha a vivacidade, uns olhos lindos e conversadores e a decência que tão notavelmente singularizam e distinguem este povo. Que distância entre Badajoz e Elvas a este respeito!” Limpem-se a este guardanapo os nuestros hermanos. Elvas impressiona-o bem: “Na cidade,” diz, “tanto quanto era dado ver, estava tudo em boa ordem na Primavera de 1798: a fortaleza estava bem guarnecida e faziam-se novas obras. Em Badajoz parecia tudo vazio e abandonado. Via-se”, conclui com astúcia, “[via-se] que Portugal tinha receio, mas Espanha não”. Sobre o nosso exército diz coisas lisonjeiras, à sua maneira cândida: “As tropas portuguesas não são más. Conheço regimentos que manobram bem e disparam certeiro, mesmo quando os comparo com os muitos e variados exércitos que vi em manobras.” E mostra uma comiserada simpatia pelos da arma de cavalaria: “A cavalaria”, diz ele, “tal como a espanhola, tem apenas alazões, os cavalos são porém mais robustos que os da cavalaria espanhola. Não montam mal, mas a farda não lhes fica bem. Os soldados são miseravelmente pagos, um soldado recebe diariamente dois vinténs ou 40 reis (600 fazem um táler), dos quais ainda tem de descontar alguma coisa para a farda, um soldo extraordinariamente miserável num país tão caro como é Portugal, especialmente Lisboa. Pão, uma sardinha e um vinho mau são a invariável alimentação diária destes homens, que nunca, ou porventura raramente, têm carne ou hortaliças para comer. No ano de 1798”, acrescenta Link, “foi incorporada à força uma quantidade de jovens e muitos regimentos foram aumentados em 500 homens. Tiraram as gentes dos seus trabalhos no campo. Foram buscá-los a todo o lado, o governo prometeu recompensas aos juizes de fora que conseguissem muitos recrutas e o resultado foi que muitas vezes se encontravam bandos inteiros que eram conduzidos numa longa fila com as mãos atadas, como criminosos. Era uma desgraça ver esta gente, que porventura podia viver confortavelmente em casa dos frutos do seu trabalho e agora era arrastada para a cidade para aí passar fome. Muitas vezes à noite em Lisboa, frente às casernas do regimento de Gomes Freire, era-me pedida esmola pela sentinela, que tinha a justo título direito à minha compaixão. Poder-se-á condenar a nação portuguesa”, pergunta Link, “por ela, em face destas circunstâncias, detestar o serviço militar?” O único comentário que gostaria de aqui fazer é que, mais de um século e meio depois quando eu próprio fiz o serviço militar, as condições não eram substancialmente melhores – e o amor ao serviço militar não tinha crescido de modo visível...
Não vou poder demorar-me em tanta passagem apetecida, para não me alongar demasiadamente, e não vou, sobretudo, demorar-me no Alentejo, minha província favorita. No entanto, não posso deixar de permitir ao botânico que Link também foi que aqui diga duas ou três belas coisas sobre as charnecas do Alentejo, até porque é surpreendente a intensidade do entusiasmo: “Vimos estas charnecas na mais bonita estação do ano, no início da Primavera. As belas urzes, os encantadores cistos da Europa do Sul, estavam quase todos a florir e um ar ameno e calmo estava cheio dos mais variados aromas. Quem subitamente fosse transportado da Alemanha para uma charneca como esta acharia a vista extraordinariamente bela e decerto não pensaria em fazer qualquer comparação com a charneca de Lüneburg ou mesmo com uma charneca inglesa. A variedade dos arbustos é excepcionalmente grande, a beleza dos mesmos excede de longe a maior parte das nossas plantas nórdicas, além disso estes estão sempre verdes e justamente no Inverno muitíssimo bonitos.” Mas não há bela sem senão e, neste, como em muitos outros pontos, Link dá-nos prova da sua vontade de objectividade, ao assinalar uma nódoa no esplendor natural que acaba de nos descrever: “Mas pondo de parte esta variedade de flores,”, diz ele, “estas charnecas rapidamente se tornam desagradáveis, até mesmo ali, nos sítios onde são mais belas. Sem cultura não há paisagem que agrade, se não tiver um estilo sublime.”
Chegando a Lisboa, vindo do Sul, o espectáculo, visto da outra margem, deixa-o literalmente embasbacado: “A vista de Lisboa”, nota ele, “quando se atravessa o rio vindo de Aldeia Galega, da Moita ou de Cacilhas, é extraordinariamente bela. Não conheço nenhuma cidade que se exiba tão majestosamente. A grande superfície de água, um caudal que em alguns sítios tem uma largura superior a duas milhas alemãs, a quantidade de navios mesmo junto ao rio, a cidade grande que se estende pelas colinas como um anfiteatro, com uma série de igrejas, jardins e oliveiras – tudo isto é por certo uma invulgar combinação de raras belezas. A uma distância maior, quase não se distinguindo a cidade propriamente dita porque toda a margem do rio é uma cidade, a majestosa, rochosa e pontiaguda serra de Sintra forma ao longe o pano de fundo deste quadro, depois de já a alta serra da Arrábida, do lado sul do rio, nos ter surpreendido no meio das charnecas. À medida que uma pessoa se aproxima, começa-se finalmente a distinguir a cidade que ocupa as colinas até aos seus cimos, descobre-se a bela praça do Comércio, as novas ruas, o Arsenal, o Terreiro do Trigo, vê-se como o rio se estreita junto à foz e, coberto de grandes navios, desagua no mar por entre colinas que aqui, do lado sul habitualmente plano, também se elevam, admiram-se estas colinas do lado norte com Belém, a Ajuda e a sua igreja resplandecente, com a Tapada Real, e do lado sul adornada com a vila de Almada, cuja igreja se encontra no cimo do primeiro cume. Poder-se-á levar a mal aos portugueses”, pergunta Link, “quando num passeio pelo rio eles dizem que Lisboa é a mais bela cidade do mundo? Cheio de razão diz a este respeito o provérbio: quem não tem visto Lisboa não tem visto coisa boa. Quem não viu Lisboa não viu nada. Porque uma vista destas não existe em nenhum outro lado.”
Um tal entusiasmo faz um contraste quase impensável com, por exemplo, as páginas do diário do grande romancista inglês, Henry Fielding, o celebrado autor do romance Tom Jones, à sua chegada a Portugal, em 1754. Deve ter-se em conta o estado de espírito de Fielding: com 47 anos apenas, mas coxo e com os pulmões devastados, o grande romancista inglês, que publicara a sua obra-prima 5 anos antes, chegava a Lisboa quase moribundo – viria a morrer pouco depois da sua chegada, encontrando-se hoje sepultado na capital portuguesa. Doente, diminuído, amargurado, a sua visão reflecte o seu estado de espírito. Com a data de 7 de Agosto de 1754, o seu diário regista, sem complacências, o seguinte, escrito apenas quatro décadas antes da visita de Link:
“Lisboa, perante a qual nós agora estamos ancorados, dizem que foi construída sobre o mesmo número de colinas que a velha Roma, mas não se vêem da água, pelo contrário, daqui vê-se uma vasta e alta montanha e um rochedo, com edifícios erguendo-se uns acima dos outros, e isto de modo tão inclinado e quase perpendicular, que todos eles parecem ter apenas um alicerce.
Como as casas, conventos, igrejas, etc. são grandes e construídos com pedra branca, todos parecem muito belos, à distância, mas quando nos aproximamos mais, vemos que lhes falta qualquer ornamento e toda a ideia de beleza desaparece.
Cerca das sete da tarde entrei para uma liteira no cais e fui conduzido através da mais feia cidade do mundo, embora ao mesmo tempo uma das mais populosas, a uma espécie de café, que está agradavelmente situado no cimo de uma colina, a cerca de 1 milha da cidade e tem uma bela vista do rio Tejo de Lisboa até ao mar.” (5)
Repare-se no acinte: Lisboa é a “mais feia cidade do mundo” – não apenas uma das mais feias, mas simplesmente, “a mais feia”. Fielding não vai jantar a um café, mas sim “a uma espécie de café” e o próprio jantar, se lhe concede ser “bom”, diminui-lhe o aprazimento qualificando-o de “caro”... Não há dúvida de que o autor de Tom Jones não estava, naquele momento, para graças... Este texto do diário do escritor inglês é um bom exemplo, em que vale a pena meditar, de como a subjectividade do viajante, alimentada de uma variedade de especiarias mas também de venenos, pode dar ao seu relato os coloridos e as tonalidades mais diversas: do encanto à repulsa, do entusiasmo ao tédio, do apreço ao denegrimento.
Link dedica um generoso número de páginas a Lisboa e, seja dito de passagem, corrobora Fielding ao negar a existência de sete colinas que reduz apenas a três. E, dando provas sobejas de imparcialidade, faz um abundante acervo de observações em flagrante contraste com o entusiasmo que lhe causaram as primeiras impressões. “A primeira coisa que uma pessoa não pode deixar de notar em Lisboa” diz o nosso viajante, “é o mau policiamento [como se vê, não é só de hoje...]. A imundície das ruas está amontoada por todo o lado, nas ruas mais pequenas e estreitas, onde a chuva não lava, forma verdadeiras colinas, e para uma pessoa não se afundar no meio dela tem de conhecer muito bem o carreiro. (...) Pense-se na quantidade de pessoas que diariamente fazem este caminho, nos galegos com as suas enormes cargas de que ninguém se pode afastar ou evitar, pense-se igualmente que as carroças passam tão perto das casas quanto possível, para não deixar os cavalos enterrar-se na lama profunda, e pense-se ainda que toda a imundície e porcaria da pior espécie é deitada às cegas para cima dos passantes. E agora a noite. Antigamente a cidade era iluminada, agora já não, e como as lojas fecham cedo nada alumia a escuridão das vielas estreitas e mal pavimentadas. Uma horda de cães sem dono que se alimentam à custa do público erra pela cidade como lobos esfaimados e, pior ainda do que estes, é a horda de bandidos. Muitos se admiraram como nós tínhamos ousado, nestes tempos de guerra, viajar para Portugal por terra, eu garantia que esta não é de longe uma empresa tão audaz como ir de Belém a Marvila, no extremo oriental da cidade, por volta da meia noite. Como pode um povo, entre o qual se encontram afinal homens esclarecidos, aguentar horrores deste género, que põe Lisboa ainda abaixo de Constantinopla?”
O Carnaval em Lisboa também lhe não deixou gratas recordações: “As diversões do Carnaval”, diz ele, “são sempre feitas segundo o gosto dominante da nação. E em que é que consistirão em Lisboa? Nobres e gente do povo divertem-se em atirar toda a espécie de sujidade e imundície aos passantes que, de acordo com o costume e para evitar maus encontros, aguentam pacientemente este tipo de coisas. Uma encantadora dama de condição despejou um bacio sobre mim, não me deixando qualquer consolo a não ser o de esperar que o bacio fosse o seu.” Falando de banditismo, Link denuncia, com perspicácia, a atitude lusa de complacência ou, mesmo, quase cumplicidade admirativa para com o prevaricador: “Era-se ousado”, observa ele, “ao ponto de se assaltar carruagens. O criminoso escapa quase sempre, em virtude de uma compaixão verdadeira e genuinamente portuguesa, toda a gente lhe facilita a fuga. Coitadinho, pobre homem, dizem, e tudo lhe corre de feição. A pena de morte foi completamente abolida, enviam-se os criminosos para a Índia ou para Angola, uma pena que contudo nunca faz tanto efeito como a pena de morte, apesar de não ser insignificante, tendo em conta o clima doentio de ambos os países.”
Quanto à caracterização do criminoso, Link não temia o politicamente incorrecto, visto tais conceitos não estarem ainda em vigor, na altura em que escrevia. Por isso, com escarolada candura, observa: “Uma grande parte dos ladrões são negros, que existem aqui em grande número, talvez mais do que em qualquer outra cidade da Europa, sem exceptuar Londres. Muitos têm já aqui ocupações burguesas, não sendo raro ver negros ser apresentados como bons e honestos cidadãos, alcançam um alto grau de destreza e habilidade. No entanto uma grande parte são pedintes, ladrões, alcoviteiros e alcoviteiras..” E continua, caracterizando Lisboa, cuja fauna lhe parece bem pior do que a do restante país: “Há uma grande quantidade de ralé em Lisboa, pois todas as gentes inúteis das províncias afluem para a capital, e podem sair-se bem com facilidade na cidade aberta. (...) Um médico pode encontrar aqui algumas raras e curiosas doenças de pele, observei muitas vezes um verdadeiro leproso e através de observações deste género procurei manter-me incólume ao asco que elas inspiram. Os mendigos recebem esmolas copiosas, do mal entendido serviço religioso nos países católicos faz parte dar esmolas. Muitas vezes têm manhas refinadas para conseguir estas esmolas. Lembro-me de um homem velho que se atirava para o chão à nossa frente por causa da fome, como ele depois dizia, apanhando assim rapidamente ao meu jovem acompanhante uma considerável moeda de ouro. Eu um bocado mais frio do que ele, reparei na queda teatral, retraí-me na minha dádiva, examinei a coisa e verifiquei que a minha suposição era fundada. Outro peditório é pelas almas do Purgatório. (...) Em Portugal tudo acontece pelo amor de Deus e pelas almas.” Outro grande tema que parece ter fascinado o viajante alemão é o do rapé: “O rapé”, diz ele, “é uma grande necessidade da nação inteira, de todas as classes, de ambos os sexos e de todas as idades. Pode-se ficar muito bem relacionado com um português comum e vulgar oferecendo-lhe uma pitada de bom tabaco. Vi uma pedinte atascar de tabaco o nariz da criança que trazia ainda ao colo. Numa excursão botânica pelos arredores de Lisboa, encontrei uma mulher muito bem vestida que me pediu uma pitada de rapé porque tinha perdido a sua caixa de tabaco. Quando lhe disse que nunca trazia tabaco comigo, respondeu-me com a expressão da mais violenta dor: estou desesperada. Não se pode pois levar a mal a Afonso IV”, comenta Link, com ironia alemã, “o facto de, depois da batalha do Ameixial, ter mandado oferecer a todos os soldados ingleses, que por ele tão valentemente lutaram, duas libras de rapé.”
Ainda neste capítulo, Link critica autores que, como Murphy, julgam todo o Portugal como se se tratasse de Lisboa: “Quem quiser julgar a nação a partir de Lisboa corre o risco de se enganar muito. A cidade é o ponto de concentração de todos os gatunos, vigaristas e patifes do Reino inteiro e uma grande parte dos estrangeiros de condição mais baixa pertence do mesmo modo à escumalha das suas nações.”
Eugénio Lisboa
(continua)
quarta-feira, 3 de agosto de 2011
“UMA APRAZÍVEL NAÇÃO” - PORTUGAL VISTO PELO CIENTISTA ALEMÃO HEINRICH FRIEDRICH LINK - 1
Novo texto do ensaista Eugénio Lisboa, este dividido em várias partes dada a sua extensão (na imagem H. F. Link):
Nos séculos XVIII, XIX e XX, Portugal foi visitado por gente estrangeira dos mais variados formatos e orientações. E existem, felizmente , relatos abundantes – e nem sempre edificantes - de como estes visitantes nos viram ou julgaram que somos.
As observações destes transeuntes são sempre úteis por nos darem uma perspectiva diferente, que pode conter um lado justo, ainda que para nós inesperado, e um lado menos justo quando não mesmo ofensivo. A verdade é que o viajante num país de usos e costumes muito diferentes dos do seu próprio país tem muitas vezes tendência a só ver o argueiro no olho do vizinho. Por isso, a escritora Mary Ellen Kelly notava, com mais do que alguma pertinência, que “os nativos que batem tambores para afastarem os espíritos malignos são alvo da galhofa dos americanos espertos que passam a vida a buzinar para se desenrascarem dos engarrafamentos de tráfego.” Na realidade, o efeito é o mesmo: os espíritos não se afastam, até porque não existem, e o tráfego não se resolve, até porque existe prodigiosamente. Por outro lado, nem sempre o visitante possui nem a argúcia nem a cultura nem a sensibilidade que lhe permitam tirar substancial partido das longas viagens que faz. Acumula milhas, colecciona cidades, países, vales, montanhas, museus, mas, no fundo, observa pouco e aprende menos. Por isso notava alguém que “um turista é um cavalheiro que guia durante milhares de milhas só para se poder fazer fotografar encostado ao seu automóvel.” Viajar não chega para uma pessoa se cultivar. Tudo depende de como se viaja ou, por outras palavras, do bom uso que se dê ao viajar. Tudo depende em suma, do que já trazemos dentro de nós. Era por estas e outras que o conhecido filósofo americano Henry David Thoreau avisava: “Não vale a pena dar a volta ao mundo só para se contar o número de gatos que existem no Zanzibar.” A geografia – ou a mudança de uma para outra -, só por si, não torna produtiva a viagem. Há muito que se sabe isto ou que o sabem, pelo menos, os que não vivem à superfície das coisas. Horácio, nas suas Epítolas, cunhou-o em imperecível medalha, quando disse: “Os que se precipitam através dos mares, mudam de clima, mas não mudam de alma.” Um soldado inglês que, em 1917, andava pelo Médio Oriente, achou maneira de escrever aos seus, na distante pátria amada, nos seguintes termos: “Querida gente, eis-me em Belém, onde nasceu Jesus Cristo. Quem me dera estar em Wigan, onde nasci eu.” O nosso soldado mudara de céu e de clima, mas a alma ficara intacta, isto é, pequena e mal alimentada. Como dizia Thomas Fuller, “se um burro vai de viagem, não regressa a casa transformado em cavalo.” Às vezes, quando observamos bem o comportamento de certos viajantes, até suspeitamos de que certas pessoas só viajam para terem o prazer de poderem regressar a casa. Nem sempre se viaja com o apetite bem orientado ou, pior ainda, nem sempre se viaja com apetite. Viaja-se porque o vizinho viaja e fica mal não fazer o mesmo. Que, de faltas de apetite, está o mundo cheio! Se muitos aspirantes a turistas fossem sinceros, subscreveriam com gosto e aplauso um célebre “cartoon” do New Yorker, que dizia assim: “Henry quer que eu faça uma viagem à volta do mundo, mas eu, francamente, preferiria ir a outro lado qualquer.”
Tudo o que acima digo quer apenas servir de aviso para o cuidado que deve ter-se com os tão populares relatos de viagem. Não chega, repito, ter viajado muito e ter visto muito para se produzir um relato inteligente, justo e, se possível, profundo. De relatos incrivelmente grotescos e injustos, porque o relator é o que é e a mais não é obrigado, estão as prateleiras das bibliotecas cheias. Dou-vos só um exemplo, mas é um que vai fazer doer. Em 1780, o capitão do 99.º Regimento de Infantaria inglês, Richard Croker, passando por Lisboa, escrevia para um conterrâneo, em Londres, oferecendo-lhe as suas observações originais sobre os portugueses. Elas iam nestes termos carinhosos: “Os homens portugueses são, sem dúvida, a raça mais feia da Europa. Bem podem eles considerar a denominação de «ombre blanco» - homem branco – como uma distinção. Os portugueses descendem de uma mistura de Judeus, Mouros, Negros e Franceses, [e], pela sua aparência e qualidade, parecem ter reservado para si as piores partes de cada um destes povos.” E acrescentava, como quem deita mais sal numa ferida já assanhada: “Tal como os judeus são mesquinhos, enganadores, cruéis e vingativos. Tal como os povos de cor, são servis, pouco dóceis e falsos e parecem-se com os franceses na vaidade, artifício e gabarolice.” (1) Não há como os nossos mais antigos aliados para terem, sobre nós, estas opiniões mimosas. No entanto, e por uma questão de “fair-play”, não quero deixar de mencionar que, embora Richard Croker pensasse o pior possível dos homens portugueses, tinha, em compensação, uma opinião bem mais lisonjeira da mulher portuguesa. Numa outra carta para a pátria, dizia isto: “As mulheres portuguesas são agradáveis, elegantes no vestir, com lindos olhos e dentes e belo cabelo muito abundante: nos seus penteados misturam fitas e flores com muito bom gosto e isto mesmo mulheres de classes baixas, pois não nos foi dado ver outras. Em resumo, tem que se admitir que há mulheres mais bonitas e melhores mulas em Portugal do que na Andaluzia.”(2)
Mas o viajante que hoje nos traz aqui não pertence a esta categoria antipática a que não raro pertencem representantes acreditados da nossa mais velha aliada. O homem que atravessou a fronteira de Elvas em 11 de Fevereiro de 1798, Heinrich Friedrich Link, alemão, que se lhe vê no nome e na cara, era, para começar, um cientista, isto é, um homem habituado a observar, sem preconceitos e sem se colocar em pedestais por si próprio erigidos. Aquilo que dele vou apresentar-vos, consta do precioso livro Notas de uma Viagem a Portugal e através de França e Espanha, que Fernando Clara traduziu para a Biblioteca Nacional, acrescentando-lhe uma útil e bem informada introdução e juntando-lhe algumas esclarecedoras notas. (3) O que eu fiz foi apenas ler com não pouco gozo o livro todo, dele seleccionando, para vosso não menor gozo – espero eu –algumas capitosas passagens. O livro, como disse, não é nunca antipático, embora nem sempre seja elogioso.
“O autor do relato de viagem”, elucida-nos Fernando Clara – e transcrevo-o simplesmente, de preferência a construir paráfrases – “[o autor], que aqui pela primeira vez se apresenta em tradução portuguesa, nasceu a 2 de Fevereiro de 1767 em Poggenhagen Hildersheim, na casa adjacente à igreja de Santa Ana, onde o seu pai era capelão. Educado juntamente com a sua numerosa família (quatro irmãs e três irmãos mais novos) na fé luterana, Link faz os seus estudo liceais naquela cidade e em 1786, quatro anos depois do falecimento do seu pai, entra na Universidade de Göttingen para estudar Medicina e Ciências Naturais. Em 1790 recebe o título de doutor em Medicina e permanece naquela Universidade durante dois anos mais como docente. Em 1792 é chamado para a Universidade de Rostock na qualidade de professor de Zoologia, Botânica e Química, onde ficará até 1811. Em 1793 casa com a filha mais velha do professor e cirurgião Josephi e em 1797 obtém do duque-reinante de Mecklenburg uma licença de dois anos para acompanhar o conde de Hoffmansegg a Portugal numa viagem que tinha por objectivo o estudo sistemático da flora portuguesa. Regressado a Rostock em 1799, retoma a actividade docente e começa a trabalhar na Flore Portugaise (cujos dois volumes, publicados a expensas do conde de Hoffmansegg, surgirão em fascículos entre 1809 e 1840). Link produz ainda uma série de estudos e artigos sobre Portugal, entre os quais se encontra o presente relato de viagem.”
Fecho aqui a citação, que tem a informação biográfica suficiente, embora a vida de Link se prolongue até ao dia 1 de Janeiro de 1851, data em que viria a falecer, em Berlim, depois de uma vida cheia de obras e títulos de grande prestígio (director do Jardim Botânico de Berlim, director do Jardim da Universidade [Berlim] e do Herbário Imperial, reitor da Universidade de Berlim, membro da Academia de Ciências de Berlim, etc. etc.) Como se pode ver, um senhor ligeiramente mais qualificado do que o capitão de Infantaria Richard Croker que nos mimoseou com os qualificativos que já tive a honra de servir-vos. Não é só agora que o relato do cientista alemão chega até nós – a tradução de Fernando Clara é de 2005 – embora só agora ele nos chegue em português. Mas, como nota o tradutor, na longa e muito bem informada introdução ao seu trabalho, quer em traduções francesas ou inglesas, desde Oliveira Martins, as observações de Link têm sido compulsadas, lidas e meditadas por um leque alargado de criadores e intelectuais lusos: Maria Amália Vaz de Carvalho, Teófilo Braga, Júlio Dantas, Vitorino Nemésio, Agustina Bessa-Luís leram-no e citaram-no. Oliveira Martins, num elogio não mitigado, considera o relato de Link indispensável para um bom conhecimento do século XVIII português. Outros poderão criticar-lhe algumas imprecisões, ou vistas desfocadas, ou alguma dose de simpático paternalismo ou mesmo erros de facto, pura e simplesmente. Mas haverá sempre que ter em conta não haver relatos da natureza deste que não sofram de maior ou menor número de imperfeições. E, se a simpatia com que o autor nos olha não é garante de estrita objectividade, não raro a antipatia e mesmo a hostilidade do viajante distorcem mais o retrato do que o faz a empatia. O protocolo que preside a livros como este induz sempre uma certa dose de impressionismo e, portanto, algum teor de sondagem à vol d’oiseau. Mas, ao contrário de muitos outros viajantes, Link procura ser imparcial e defende a imagem dos portugueses contra distorções e parcialidades. Nas suas próprias palavras, que aqui cito com gosto: “Quando regressei [de Portugal], li todos os relatos de viagens em Portugal que consegui obter. Descobri que nenhum entre todos aqueles viajantes tinha visto tanto do país como nós, encontrei ainda, na maior parte deles, uma profunda ignorância da língua e uma série de notícias falsas, daquelas que só se aplicam aos habitantes da capital, mas que erradamente se haviam generalizado a todo o país. Sobre os portugueses, preguiçosos, beatos e rapaces, encontrei apenas queixas, vi com indignação que ninguém tinha descrito os encantadores vales do Minho, onde a cultura portuguesa rivaliza com a inglesa, vi ainda que ninguém louvava a tolerância das gentes do povo, da qual conheci vários exemplos (não me refiro aos padres, que se assemelham em todo o lado onde quer que um governo os apoie), vi também que ninguém elogiava a segurança num país onde, nas minhas excursões botânicas por regiões desconhecidas e cansado pelo calor, pude despreocupadamente adormecer à beira do caminho. Peguei na pena em defesa dos meus portugueses, queria descrever imparcialmente o carácter dos seus habitantes, o seu modo de vida, a sua agricultura, que em virtude das minhas ocupações eu tão bem conhecia e, sem dar por isso, uma apologia transformou-se num relato de viagem.” Note-se o carinho com que se refere aos “meus portugueses”, mas note-se, sobretudo, a pertinência com que fustiga, na maior parte dos viajantes que a nós se referem, “a profunda ignorância da língua” – mazela que desde logo impede um contacto, em profundidade, com as pessoas e com a sua específica cultura. Era o filósofo americano Ralph Waldo Emerson quem notava, precisamente a este respeito: “Ninguém devia viajar até ter aprendido a língua do país que visita. Caso contrário, fará de si próprio, deliberadamente, um perfeito bébé – desamparado e ridículo.” E note-se, por fim, o que tem validade ainda nos dias de hoje – o cuidado com que distingue “os habitantes da capital”, que lhe não merecem grande carinho, dos habitantes de “todo o país”, tão diferentes dos alfacinhas: cuidado que não tiveram, sublinha Link, os relatores de viagens, cujos depoimentos teve o escrupuloso cuidado de compulsar.
No dia 11 de Fevereiro de 1798, atravessa pois, a fronteira perto de Elvas. E logo, antes de a atravessar, vê o nosso país com evidente apreço: “Deste lado”, nota ele, “Portugal parece extraordinário. Em vez dos vastos descampados, das aldeias afastadas, encontra-se uma terra povoada por casas isoladas e dispersas, cujo aspecto parece indicar uma cultura e uma civilização superiores. À medida que nos aproximamos de Elvas vemos os primeiros laranjais abertos ao longo do caminho, apesar de em Badajoz se ver já uma grande quantidade desses frutos. O traje, mesmo do português vulgar, é melhor: um gibão castanho escuro ou preto e um chapéu são mais frequentes do que os casacos e barretes castanhos dos espanhóis. As mulheres são mais amáveis e comunicativas do que as castelhanas e parecidas com as biscaínhas, trazem geralmente o cabelo solto, apenas ligeiramente apanhado por uma fita ou por um lenço. A cortesia, a maneira de ser fácil, alegre e amável do povo mais humilde fazem com que de imediato se simpatize mais com a nação portuguesa do que com a espanhola. E esta opinião”, sublinha Link e peço, para isto a vossa atenção, “não se altera enquanto neste país se ficar entre as classes mais baixas, experimentando-se porém uma opinião totalmente oposta assim que se conhecem as classes mais altas.” Resumindo, Portugal é encantador, desde que se excluam Lisboa e as classes mais altas – já nessa altura, parece, o nosso problema estava onde supostas são estar as nossas elites... Ainda assim, não deixa de ser consolador vermo-nos deste modo acarinhados, sobretudo quando comparamos depoimentos como este com, por exemplo, o produzido pela neta do grade poeta inglês William Wordsworth, que Fernando Pessoa traduziu como quem recria poesia inglesa em idioma português. De facto, Dorothy Wordsworth, segunda filha do bardo dos Lagos, que foi casada com Edward Quillinan – nascido no Porto e um dos vários tradutores de Os Lusíadas- veio para Portugal com o marido, aqui vindo a falecer em 1847. É dela um Journal of a few months residence in Portugal and glimpses of the South of Spain, do qual se podem extrair várias e saborosas passagens, entre elas, esta, referente a animais domésticos em Portugal: “A propósito,” diz a filha do poeta e mulher do tradutor de poetas, “[a propósito], embora o nosso porco mascote fosse um porco muito bonito – um chinês estranho – os porcos desta região são geralmente terrivelmente feios. São uns animais enormes com grandes orelhas compridas, lombos imensos, erguendo-se no centro como um arco, costados ocos e cobertos de uma espécie de pelos curtos e macios, mas tão ralos, que se vê distintamente a pele preta por baixo. Apesar disso, os aldeões consideram estas criaturas como animais domésticos – que respondem aos nomes que lhes põem e vêm quando os chamam, como os cães, e gostam muito que lhes falem e [os] acariciem.” E acrescentava: “Quase todas as casas têm um cão, e são uma boa maçada estes rafeiros. Na Foz e nos arredores do Porto, vêm ladrar às pernas dos nossos cavalos, saindo de todas as portas, até que se tem uma matilha completa atrás de nós antes de chegar ao fim da rua e, se nos deixarem aí, podemos ter a certeza de encontrar outro bando à nossa espera na próxima rua.” Dorothy terminava o seu relato vingativo, desta maneira: “Há um ano ou dois os magistrados, para reduzir este incómodo, ofereceram um tanto pela cabeça de cada cão que fosse encontrado a vaguear na rua sem dono que se reponsabilizasse por ele. Apareceram inúmeras cabeças de cães para a recompensa na esquadra da polícia e o negócio da decapitação dos cães prosperou durante alguns dias, até que se descobriu que nem uma só cabeça, nem um só pelo de qualquer dos rafeiros contra os quais o edital canino tinha saído tinha sofrido, mas sim todos os cães dos fidalgos que tinham podido ser apanhados e todos os cães de luxo das senhoras...” (4)
Mas deixemos, de vez, os nossos mais antigos aliados e regressemos às notações do alemão. Atravessada a fronteira, surpreende-o, desde logo, o “leve sibilar soprado” da língua portuguesa: “Mal atravessámos o Caia”, diz ele, “chegou-me aos ouvidos o som pouco familiar da língua portuguesa. A maior parte das palavras de ambas as línguas são semelhantes, a pronúncia é extraordinariamente diferente. Ali os sons sonoros, profundos e guturais, aqui um leve sibilar soprado dos lábios, ali longas e graciosas palavras sonantes, aqui um curto palavrear entrecortado. Em Badajoz nunca se ouve falar português, em Elvas nunca se ouve falar espanhol. Quem já tiver o ouvido habituado à pronúncia diferente e souber uma das línguas, compreende facilmente a outra, ainda que não a tenha aprendido.”
Eugénio Lisboa
Continua
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
Afinal fazemos parte de uma rede pan-europeia-palopiana de combate ao desemprego
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
VENTO DE CAUDA

Minha crónica saída hoje na revista "Tabu" do semanário "Sol":
Sei que o Sol é cada vez mais lido em Angola por mensagens que de lá me chegam. Uma das últimas veio de um engenheiro português a trabalhar em Luanda numa empresa de construção, que me informou que, no seu grupo de trabalho, havia uma grande discussão sobre os tempos de voos de longa distância. Como fazem essas viagens várias vezes ao ano, tinham concluído que demoram praticamente o mesmo as viagens aéreas Lisboa - Luanda e Luanda - Lisboa, portanto quer se vá de norte para sul quer se vá de sul para norte, atravessando o equador em qualquer um dos casos. Mas a dúvida era sobre os tempos dos voos mais ou menos paralelos ao equador. Perguntava-me o leitor se demoraria o mesmo a ir de este para oeste, de Lisboa para Nova Iorque, digamos, ou de oeste para este, de Nova Iorque para Lisboa? Teria a rotação da Terra (que se faz de oeste para este, no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio) alguma influência sobre o tempo de voo?
Na sua opinião, um avião deveria demorar menos se voasse no sentido contrário ao da rotação da Terra. Não era essa, porém, a opinião de alguns dos seus amigos. Discutiam acaloradamente conceitos físicos como os de velocidade absoluta e de velocidade relativa, velocidade angular, efeito da força centrífuga, etc. Havia já apostas de jantares e tudo. Sendo eu físico, pedia-me a resposta certa, dando razão a quem a tinha.
A resposta certa é que, à latitude de Lisboa, os voos de oeste para este demoram menos do que os voos de este para oeste. É mais rápida a viagem de Nova Iorque para Lisboa (7 horas) do que de Lisboa para Nova Iorque (8 horas e 20 minutos, que é mais ou menos o mesmo que demora a viagem de Lisboa a Luanda ou vice-versa). A rotação da Terra não desempenha aqui nenhum papel até porque se ganha tempo quando se vai no mesmo sentido que o da rotação da Terra. A razão para a irrelevância do factor rotação é que a atmosfera se movimenta com a Terra, quer dizer, é arrastada pela Terra quando esta roda. Se não fosse assim, sentir-se-ia um vento terrível à superfície da Terra: no equador seria de cerca de 1700 km/h e, em Lisboa, de cerca de 1300 km/h.
A ajuda vem do vento. À latitude de Lisboa, os ventos dominantes são de oeste para este. E o facto de o vento bater de cauda em vez de bater de frente ajuda a encurtar o tempo de viagem. Entre os 30 e os 60 graus de latitude norte (a latitude de Lisboa é de 38 graus norte) e à altitude das rotas dos aviões comerciais, os ventos podem ultrapassar os 200 km/h (é o chamado “jet stream”). Trata-se de uma ajuda significativa para um avião, como um Boeing 777, com uma velocidade de cruzeiro de 900 km/h.
Lá terá o estimado leitor de pagar o jantar de muamba. Bom apetite para todos!
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
PREVENIR O TERRORISMO AÉREO

Minha crónica no "Sol" de hoje:
O passado dia 25 de Dezembro podia ter sido um dia trágico na história da aviação. No voo 253 da Northwest Airlines, de Amsterdão para Detroit, quase houve uma explosão provocada por um terrorrista nigeriano, ligado à Al-Qaeda, Umar Abdulmutallab. O jovem de 23 anos tinha escondido dentro da roupa interior, podendo confundir-se com os testículos, 80 gramas de um poderoso explosivo, o tetranitrato de pentaeritrina (PETN). Os passageiros apagaram rapidamente o fogo, iniciado pela introdução de um líquido, com uma seringa, no explosivo sólido, e dominaram o terrorista, que sobreviveu apenas com queimaduras de segundo grau na zona genital. O mesmo explosivo tinha sido usado por um outro terrorrista da mesma organização, o inglês Richard Reid, que o colocou na sola dos sapatos para fazer explodir o voo 63 da American Airlines, de Paris para Miami, a 22 de Dezembro de 2001. O PETN foi sintetizado pela primeira vez em 1891, por um químico alemão, Bernhard Tollens, que, curiosamente, havia estado, uns anos antes, na Universidade de Coimbra a dirigir os trabalhos práticos do Laboratório Chimico (morou mesmo nesse Laboratório, onde hoje funciona o Museu da Ciência).
Devido a casos como estes, as medidas de segurança nos aeroportos de todo o mundo têm-se intensificado. Hoje, não podemos levar líquidos a bordo para além de certas quantidades e somos obrigados a tirar os sapatos, colocando-os numa máquina de raios X. Mas haverá mais: estão em teste novas máquinas de raios X que permitem uma espécie de strip-tease digital. Qual é a ciência por detrás de tais dispositivos? Ao contrário das máquinas correntes que verificam a nossa bagagem de mão (e também a de porão), cujo funcionamento se baseia na diferente absorção de raios X pelos vários materiais, os novos scanners emitem raios X de baixa intensidade que são reflectidos pelo corpo da pessoa, produzindo-se num écrã uma imagem anatómica. É como se o sujeito estivesse a ser cientificamente “apalpado”! Com esses detectores teria sido possível encontrar o PETN nas partes íntimas do nigeriano.
Os novos detectores colocam vários tipos de problemas, que estão a ser muito discutidos. Talvez o principal seja a defesa da liberdade individual perante uma óbvia invasão de privacidade. Mas há outras questões, como a do alto custo dos aparelhos, que recairá inevitavelmente no público, e a demora adicional nos aeroportos. E há ainda a questão da protecção relativamente às radiações: este problema será, porém, o menor de todos, pois um passageiro, durante um voo de poucas horas, está sujeito a maior radiação natural do que durante os curtos instantes do exame. Seria preciso que um viajante fizesse 2000 exames deste tipo por ano para ultrapassar o limite de segurança. Há, de facto, passageiros frequentes, mas não assim tanto...
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
sábado, 16 de janeiro de 2010
HUMOR: SEGURANÇA NOS AEROPORTOS 3

Legenda: "A sério, mãe! Tu estás na capa da "Scanboy"! És uma estrela!".Em cima: imagens recolhidas pelos scanners que estão a ser instalados em vários aeroportos.
NOVA BIBLIOTECA DE ALEXANDRIA 2



Já aqui mostrámos a nova Biblioteca de Alexandria, no Egipto, por fora. Por amabilidade do Dr. Víctor Lobo, a quem agradecemos, partilhamos com os leitores imagens que ele próprio tirou recentemente do interior dessa Biblioteca. Em cima um dos rolos do tempo da antiga biblioteca.
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
Que o Mar Fosse Tinta e o Céu Papel

Informação recebida da Câmara Municipal de Montemor-o-Velho:
O ciclo de conferências “Que o mar fosse tinta e o céu papel” abre oficialmente as comemorações dos 500 anos sobre o nascimento de Fernão Mendes Pinto, na quinta-feira (dia 14), pelas 21h00, na Biblioteca Municipal de Montemor-o-Velho.
Sob o tema “Literatura, Viagens, Literatura Como Viagem”, os conferencistas são Vasco Graça Moura e Gonçalo Cadilhe, que dão início a um programa comemorativo que decorrerá até 2011.
A par do ciclo de conferências, as comemorações têm o apoio de um conjunto diversificado de instituições, dando origem a um vasto conjunto de iniciativas de homenagem Fernão Mendes Pinto, perpetuando a mensagem de interculturalidade protagonizada pelo viajante português e autor da Peregrinação.
As acções comemorativas passam pelo projecto teatral Peregrinações, dinamizado pel’O Teatrão, a exposição com itinerância nacional e internacional “Fernão Mendes Pinto, Deslumbramentos do Olhar”, levada a cabo pelo Instituto Camões, o lançamento de um selo comemorativo pelos CTT, a emissão de uma moeda de 2 euros pela Imprensa Nacional Casa da Moeda e a publicação facsimilada da 2.ª edição portuguesa da Peregrinação, datada de 1678, adquirida pela Câmara Municipal de Montemor-o-Velho.
Decorrendo até Outubro de 2010 e com a coordenação de António Pedro Pita, director regional da Cultura do Centro, o ciclo de conferências “Que o Mar Fosse Tinta e o Céu Papel” é uma organização da Câmara Municipal de Montemor-o-Velho, d’“O Teatrão” e do Ministério da Cultura.
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
Wellcome Collection em Londres
Deixo três fotos da exposição da Wellcome Collection em Londres, que visitei recentemente. Para além da vista da galeria histórica intitulada "Medicine Man", mostro uma escultura moderna alusiva à obesidade e uma instalação também moderna que simula os cromossomas humanos através de peúgas...
Tudo isto é no primeiro andar. No rés-do-chão há uma interessante exposição temporária sobre a identidade humana.
segunda-feira, 28 de dezembro de 2009
PARQUE BIOLÓGICO DA SERRA DA LOUSÃ
Em Miranda do Corvo, perto de Coimbra, nas faldas da Serra da Lousã, impulsionado pelo médico Jaime Ramos, há um novo Parque Biológico que merece uma visita, designadamente para famílias com crianças.
sábado, 5 de dezembro de 2009
UMA VISITA A BIRMINGHAM
Na continuação das minhas crónicas de viagem, desta vez conto a ida a uma grande cidade que é um destino turístico improvável mas, mesmo assim, muito interessante (na foto uma imagem do Thinktank, o Museu de Ciência de Birmingham):Birminghan, a maior cidade inglesa depois de Londres, fica no interior profundo da Inglaterra, no meio do meio (a região é mesmo chamada Midlands, literalmente “terras do meio”). O aeroporto internacional de Birmingham permite conexões à Europa Continental, evitando passar por Londres.
A Revolução Industrial começou aqui, dada a existência de abundantes recursos naturais como o carvão. Não admira por isso que a cidade tenha ganho uma reputação de “feia, porca e má”. É uma fama hoje tornada injusta: Birminghan empreendeu há muito num plano de remodelação urbana que lhe permite hoje apresentar-se limpa (até entrou para o “top-ten” das cidades mais limpas de Inglaterra!) e bonita (tem havido, por exemplo, um programa de plantação de árvores, que leva Birmingham a reclamar o lugar de cidade com mais árvores em todo o Reino Unido). Os canais, que alguns dizem serem mais do que em Veneza (para alguns Birmingham disputará com Brugges o título de “Veneza do Norte”, mas trata-se de um exagero, a encantadora Brugges não permite meças a esse nível), foram limpos.
O centro de Birmingham, em torno de estação ferroviária de New Street (que no tempo da Revolução Industrial foi uma das primeiras estações do mundo, uma vez que o comboio nasceu por essa altura e por estes lados), é uma zona de comércio. A própria estação está hoje embebida no meio de um centro comercial. Saindo da estação ao longo da New Street – uma rua pedonal frequentada por gente de muitas raças e cores, que dão à baixa um ar cosmopolita - na encontra-se um prédio de forma muita estranha, uma espécie de cogumelo gigante, com uma cobertura de escamas de alumínio – é o edifício dos Selfridges, que é um marco de um certo estilo de arquitectura dos anos setenta hoje reconhecidamente datado (entrando lá dentro, o ambiente não difere muito do de um bar da “Laranja Mecânica”, um dos primeiros filmes de Stanley Kubrick). O estilo contrasta fortemente com o da igreja neogótica próxima e com muitos outros edifícios em redor. Arquitectonicamente, Birmingham é uma cidade de contrastes: os estilos arquitectónicos aparecem salpicados e até as casas vitorianas, tão comuns noutras cidades inglesas (Londres, Manchester, etc.), se encontram aqui mas sem vizinhas com quem possam falar.
Tão contrastante como a arquitectura é o nível do comércio na “down-town”. Há de tudo e para todos. Como é próprio da baixa das grandes cidades compra-se e vende-se de tudo. Quem achar o comércio do bizarro Selfridges bom demais encontrará muito perto um armazém com tecto de chapa de zinco que, lá dentro, é uma autêntica Feira de Carcavelos.
Chove, chove sempre, por todo o lado. Os turistas podem, como é proverbial, refugiar-se da chuva nos museus ou nas igrejas: o Museu de Birmingham, bem perto da estação de New Street, alberga uma colecção de pré-rafaelistas e também alguns impressionistas e a Igreja principal, com o seu verde cemitério à volta, vale também uma visita não só para fugir da chuva mas para conhecer melhor a Church of England.
Mas o melhor museu, na opinião deste visitante, é o “Thinks Tank”, situado num grande e moderno edifício chamado Milennium, sempre a “walking distance” da estação. Trata-se de um museu de ciência que alberga desde uma interessantíssima colecção de máquinas históricas, no rés do chão, que nos faz mergulhar nas entranhas da Idade Industrial, em minas, fábricas de têxteis, oficinas, etc., até uma galeria interactiva, no cimo, que nos faz entrar directamente no futuro. Os temas aqui são, como não poderiam deixar de ser, as nanotecnologias, a biónica, a engenharia genética, os novos materiais, o aeroespacial, etc. Entre esses pisos encontra-se uma galeria para as crianças brincarem com a ciência. Destacam-se as actividades de medicina e biologia, ciências que estão progressivamente a ganhar lugar nos museus de ciência.
E o melhor do museu é, sem dúvida, o grande “hall” das máquinas, que faz lembrar o do “Science Museum” de Londres e que alberga desde máquinas a vapor gigantes, algumas das quais ainda funcionam, até uma locomotiva descomunal, que repousa cansada depois de durante muitos anos ter feito o serviço de Londres para Glasgow. As máquinas a vapor estão no sítio certo, pois foram elas que aqui proporcionaram a tal revolução industrial que transformou radicalmente a cidade.
O inventor da máquina a vapor – James Watt – que andou por estas paragens é adequadamente recordado no “Thinktank”. Não se pense que ele era um mecânico: ele era um cientista que integrou uma sociedade de cientistas livres pensadores, a “Lunar Society” que, no século XVIII, se juntava aqui todos os meses, ou melhor, todas as luas novas. E fica bem lembrar que um amigo de Watt foi o português, natural de Aveiro, João Jacinto Magalhães que, na altura, estava exilado em Inglaterra e que foi um grande intermediário de ideias e instrumentos científicos.
Um outro museu de Birmingham que vale a pena ver, encontra-se a um quarto de hora de New Street. É preciso tomar o comboio até à estação da Universidade. A Universidade de Birmingham é enorme e dispõe de um verdíssimo “campus”, onde não falta uma torre florentina (parecida com a torre do “campus” de Berkeley, em São Francisco, EUA) e um edifício ao estilo de palácio oriental onde está o gabinete do “chancellor” universitário. Pois no interior do campus encontra-se um edifício neo-clássico que alberga uma pequena mas notável colecção de arte, a “Barber Collection”. O edifício tem no rés-do-chão um auditório para espectáculos e no piso de cima as famosas colecções: há um quadro apenas de cada artista, mas tratam-se sempre de artistas famosos. Vem-nos à memória o nome de Gulbenkian e a semelhança torna-se mais notória quando ficamos a saber que Barber era um “wealthy man” que investiu a sua fortuna em obras de arte para depois a doar generosamente à universidade.
Outra visita que se pode fazer facilmente de comboio a partir da New Street de Birminghan é a Stratford upon Avon, a encantadora terra natal de Shakespeare. Paradoxalmente o berço da indústria não é longe do berço do maior bardo da literatura anglo-saxónica...
Ir a Inglaterra para a maioria dos portugueses é sinónimo de ir a Londres. Está bem que Londres vale não uma mas várias visitas, mas por que não ir, pelo menos uma vez, a Birmingham e às Midlands?
sábado, 28 de novembro de 2009
SOUTH KENSINGTON EM LONDRES

Continuo aqui a minha série de crónicas de viagem, do meu livro "Curiosidade Apaixonada" (Gradiva). Depois de Bruxelas e Frankfurt, esta é sobre Londres, tendo eu efectuado algumas ligeiras actualizações. Na imagem o Museum of Natural History.
Os voos para Londres são mais económicos do que os voos para a maior parte dos outros destinos europeus, incluindo alguns mais próximos como por exemplo Madrid. É por isso sempre tentador ir a Londres. Convém procurar a melhor tarifa porque dois passageiros que vão sentados lado a lado no mesmo avião podem ter pago preços muito diferentes pela mesmíssima viagem (as companhias aéreas têm razões que a razão desconhece!).
Londres é tão grande que o seu conhecimento exige uma estada prolongada. Se o visitante só puder estar na capital da Grã-Bretanha por escassos dois ou três dias, em vez de andar ao desatino por tudo quanto é sítio, o melhor é apontar a uma zona precisa e tentar conhecê-la bem. Mesmo assim há zonas para as quais não chegam dois ou três dias...
Qual é a melhor zona de Londres? A resposta variará conforme os interesses do visitante, mas, se me fizerem a pergunta, responderei que é, sem dúvida, South Kensington. Não é propriamente o centro de Londres, onde há na minha opinião gente demais, mas não está longe do centro. Usando o metro e partindo da estação de South Kensington são quatro estações até Westminster, pelas linhas Circle ou District, e são também quatro estações até Picadilly Circus, pela Picadilly Line. O “tube” (nome por que que é conhecido o mais antigo metro do mundo, já que remonta a 1863) é bastante profundo e estreito, mas funciona com uma eficácia e regularidade espantosas.
South Kensington começa por ser uma zona elegante e, por isso, cara para se viver. Para se ter uma ideia da qualidade do bairro bastará ao turista sair das profundezas da Terra em South Kensington e dirigir-se à Old Brompton Road. Encontra logo à entrada uma loja que vende Lamborghinis. E encontra ao longo da rua todo um conjunto de serviços de qualidade, que vão desde restaurantes com jazz ao vivo até mercearias abertas “around the clock” passando por bancos e livrarias. South Kensigton tem, como Myfair e outros bairros londrinos, bonitas residências do século XIX. É uma zona de embaixadas e consulados, facilmente reconhecíveis pela placa e bandeira à porta (algumas embaixadas junto ao Palácio de Kensington são belíssimos palacetes). South Kensington tem também o Hyde Park, que se junta harmoniosamente aos jardins do palácio de Kensington. Antiga coutada, o parque é hoje uma enorme zona de lazer, onde o visitante se pode deitar em espreguiçadeiras alugadas, alimentar os patos e outras aves que chapinam no grande pântano, andar de barco na Serpentine (lago artificial onde se afogou a mulher do poeta Percy Shelley, quando os suicídios românticos estavam na moda), ver uma exposição de arte moderna na galeria Serpentine e apreciar pavilhão do arquitectura moderna. Não longe do Hyde Park, na Brompton Road, encontra-se o Harrods, o mais espectacular armazém do mundo, onde vale a pena uma visita aos “Food Halls” embora os preços refreiem um pouco o apetite das compras. Como o palácio de Kensigton era ocupado pela princesa Diana e o Harrods era da família do seu último namorado, South Kensigton está portanto associado de perto ao mais famoso drama, para não dizer melodrama, britânico dos últimos tempos.
Mas a atracção de South Kensington está muito longe de se resumir a esse drama recente. De facto, o principal interesse de South Kensigton é cultural e bem antigo. É nessa zona que se situa o Royal Albert Hall, onde no Verão se realizam os famosos concertos Promenade. O programa pode ser comprado em qualquer quiosque e os bilhetes são relativamente fáceis de obter, excepto o do concerto final, em que a multidão canta em coro patriótico com a orquestra temas de Elgar e de outros compositores britânicos. Junto ao Royal Albert Hall, do lado do Hyde Park e no local onde em 1851 se realizou a Grande Exposição de Londres, ergue-se um grandioso monumento edificado pela rainha Vitória em memória do seu marido Albert, falecido de febre tifóide com apenas 41 anos, em 1861 (o monarca não chegou, portanto, andar de metro!). Vale a pena acrescentar, para benefício de quem não tem as datas históricas presentes, que a rainha Vitória, cujo pudor obrigava a tapar com longas toalhas as pernas das mesas, sobreviveu 40 anos ao seu consorte: ela reinou de 1837 a 1901 à frente de um vasto império, dominando o século XIX. South Kensington é também o sítio do Victoria and Albert Museum, dedicado às artes aplicadas e que é um excelente repositório da época do casal real. Tudo nessa zona de Londres nos faz lembrar a próspera época vitoriana!
Quando se fala de cultura tem também de se falar de ciência. South Kensington é um centro de cultura e é também um centro de ciência. Situam-se lá, bem ao lado do Museu Victoria and Albert, dois dos maiores e melhores museus de ciência do mundo, o Science Museum e o Museum of Natural History. Construídos na segunda metade do século XIX, são produtos da época vitoriana. Os dois são acessíveis a partir da estação de South Kensington por um longo túnel, cujo chão está gasto de tanto ser calcorreado pelos adultos e principalmente pelas crianças e jovens que demandam os museus. O Museu de História Natural consegue ser maior do que o seu vizinho Museu de Ciência, já de si grande. De resto, o seu edifício enche mais o olho: o impressionante estilo neo-gótico faz o museu parecer um mosteiro. É obrigatório referir o arquitecto Alfred Waterhouse, autor desse “mosteiro da história natural” cuja fachada está ornamentada com motivos naturais em vez de anjos e santos. O “hall” do Museu tem uma dimensão que torna anão o enorme dinossauro que ocupa o centro. Por falar em dinossauros, a ala dos dinossauros é uma das principais atracções do Museu. Pode ser vista à entrada virando logo à esquerda. Como nos outros museus públicos britânicos, a visita ao Museu não se paga (há mum contributo facultativo), excepto as exposições especiais. O Museu de História Natural tem-se modernizado incluindo hoje o Centro Darwin, que homenageia o maior naturalista de todos os tempos, contemporâneo da rainha Vitória, cuja estátua domina o "hall".
Mas, como se faz tarde, ala para o vizinho Museu de Ciência... Se por fora o edifício não é nada de especial, a grande sala de base impressiona o visitante pelo número e tamanho das máquinas, que documentam a origem da riqueza da época vitoriana: a Revolução Industrial, que começou ainda no século XVIII com as máquinas a vapor mas ganhou alento no século XIX com as máquinas eléctricas. Tal como o Museu de História Natural, o Museu de Ciência demora algum tempo a ser visto: entre os seus inúmeros tesouros sobressai a colecção do rei George de instrumentos científicos, que é semelhante mas ainda melhor que a colecção do Gabinete de Física da Universidade de Coimbra. No ano 2000, foi inaugurada um novo espaço que permitiu acrescentar cerca de 30% ao Museu. Esse novo espaço, que inclui um IMAX (cinema de grande ecrã), encontra-se no lado oposto à entrada principal, depois de atravessar quer a sala das grandes máquinas quer uma galeria dedicada à exploração espacial. No rés do chão há um café-restaurante com luzes que dão um ar de ficção científica. Na cave há um zona de brincadeiras científicas para os mais pequeninos, género “Ciência Viva”, onde eles podem mexer à vontade. Nos primeiro e segundo andares há exposições bem montadas sobre moderna ciência e tecnologia. No último andar há jogos electrónicos sobre a vida no futuro, para serem jogados colectivamente sobre mesas futuristicamente inclinadas. Os miúdos não querem sair de lá...
Muito mais haveria a dizer sobre South Kensington... “Last but not least”, tem de se referir que mesmo atrás do Museu de Ciência fica o Imperial College, uma dos melhores escolas de ciência do mundo. Aí trabalha o astrofísico português João Magueijo, que era o mais famoso português em Londres antes de lá ter chegado José Mourinho...








