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sábado, 17 de março de 2018

DOENÇAS RARAS: ACORDAR, PESTANEJAR E AS AVARIAS DA FÁBRICA DA ENERGIA



Na próxima 4ª feira, dia 21 de Março, pelas 18h00, vai ocorrer no Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra a palestra “Doenças raras: Acordar, pestanejar e as avarias da fábrica da energia”, por Manuela Grazina Bioquímica, Geneticista, Professora da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, Directora e fundadora do Laboratório de Bioquímica Genética (CNC/FMUC).



Esta palestra integra-se no ciclo "Ciência às Seis"*.

Resumo da palestra:
"O funcionamento bioquímico do corpo humano revelado pela ciência faz-nos reconhecer a sua complexidade.
No que diz respeito à produção de energia no organismo humano, ela ocorre maioritariamente nos organelos denominados “mitocôndrias”, as “centrais energéticas” das nossas células, onde se forma a maior parte do ATP, a nossa “moeda” da energia, que faz tudo funcionar no nosso corpo.
Na membrana interna das mitocôndrias, existem várias unidades de produção de energia, cadeia respiratória mitocondrial (CRM), através do processo de fosforilação oxidativa.
Para que a CRM tenha todas as “peças” a funcionar, é necessário traduzir o código genético em cerca de 1.500 elementos, de ambos os genomas, nuclear e mitocondrial, tendo este último apenas 37 genes para formar 13 proteínas que integram a CRM.
Quando existem defeitos genéticos que comprometam a estrutura e/ou a função de uma dessas “peças”, podem surgir doenças, as citopatias mitocondriais ou “avarias na fábrica de energia”. São doenças complexas, muito debilitantes, e, frequentemente, fatais. A nossa equipa dedica-se há mais de 23 anos a estudar estas doenças para identificar as suas causas e esclarecer os seus mecanismos, para que haja esperança de encontrar um tratamento.
Para acordar e pestanejar, é preciso energia! Só por isso, temos de ser um bocadinho felizes todos os dias!"

*Este ciclo de palestras é coordenado por António Piedade, Bioquímico e Divulgador de Ciência.

ENTRADA LIVRE

Público-Alvo: Público em geral

Link para o evento no Facebook

sexta-feira, 23 de junho de 2017

À DESCOBERTA DE QUEM SOMOS

Artigo publicado primeiramente na imprensa regional



Está a ler este texto. Para isso teve que realizar um conjunto de movimentos (desde os oculares aos do braço, mão e dedo que clicou no botão do rato, entre outros) que de certa forma lhe parecem agora que foram automáticos, feitos de forma inconsciente. Ou seja, não teve que pensar conscientemente nos vários movimentos que teve de fazer para poder estar agora a ler este texto. Também a compreensão do que está a ler envolve inúmeras actividades realizadas em várias áreas do seu cérebro e que resultam de aprendizagens antigas, de memórias sulcadas há muito tempo e que são agora acedidas aparentemente sem esforço consciente e que permitem a compreensão do que está agora mesmo a ver/ler. Dito de outro modo, há um conjunto de actividades neuronais inconscientes que estão neste preciso momento a ocorrer no seu cérebro e que permitem que esteja a ler e a compreender o que lê.

Mas, de facto, está consciente de si desde que acordou esta manhã. Julga saber quem é e sente-se ao comando da sua vontade para efectuar as acções que tem ou quer realizar. Mas a realidade exterior que sente é aquela que o seu cérebro constrói de forma inconsciente a partir das precepções imanadas pelos órgãos dos sentidos e demais ramificações nervosas sensíveis a vários parâmetros como sejam a temperatura corporal, a posição do seu corpo, etc. A própria sensação de fome ou sede não é ditada pela sua vontade consciente, mas pela informação que o seu cérebro recebe do organismo e processa em áreas específicas neuronais de um modo inconsciente.

Estas e muitas outras considerações sobre o funcionamento do cérebro, tendo em conta os avanços mais actuais das neurociências, são exploradas e explicadas magistralmente pelo neurocientista norte-americano David Eagleman no seu livro “O Cérebro -à descoberta de quem somos”. Este livro acaba de ser publicado entre nós e em boa hora pela editora Lua de Papel.

David Eagleman é um excelente divulgador científico das neurociências. Já o tinha demonstrado em vários livros anteriores de sua autoria dirigidos ao público em geral, como seja o incontornável “Incógnito” (2012, Editorial Presença). Para além de escritor, este neurocientista é professor no departamento de Psiquiatria e Ciências do Comportamento da Universidade de Stanford (Estados Unidos) e director do Centro de Ciência e Lei, que procura analisar as relações entre a neurociência e a legislação e aplicação de leis.



Ao escrever o presente livro David Eagleman quis dirigir-se a um público sem qualquer conhecimento especializado sobre as neurociências, apelando à curiosidade e desejo de autoconhecimento por parte do leitor.

Ao longo de cerca de 200 páginas muito bem escritas, o autor descodifica os termos e conceitos mais técnicos, usando uma linguagem simples mas rigorosa, cativante mas objectiva, e aborda questões de sempre: como tomamos decisões; como percepcionamos a realidade; quem somos; como a actividade cerebral influencia as nossas escolhas para a nossa vida; como a actividade cerebral se altera com a idade; entre muitas outras

Utilizando vários casos concretos com os quais nos podemos identificar, David Eagleman guia-nos através deste livro numa viagem à descoberta de como o cérebro funciona. O livro tem seis estações (capítulos) a saber: 1 – Quem sou eu?; 2 – O que é a realidade?; 3 – Quem Comanda?; - 4 – Como decido?; 5 – Preciso de ti?; 6 – Quem seremos no futuro? Existem ainda dois outros capítulos finais: um com notas alusivas aos vários temas abordados em cada capítulo; um glossário que, apesar de não ser muito extenso, é sempre útil para recordar e aprender um ou outro conceito que ajuda a uma melhor compreensão do livro.

Esta é uma excelente obra de divulgação científica muito útil a todos, mas principalmente a quem se quiser inteirar sobre o estado actual do avanço das neurociências e tiver curiosidade em se compreender a si mesmo. Ademais, fazia falta um livro actual de divulgação das neurociências em língua portuguesa.

Por fim, este é um livro admirável sobre como o cérebro se estuda e compreende a si mesmo e nos permite deslumbrar com o Universo em que existimos.


António Piedade

terça-feira, 19 de abril de 2016

NEUROESTIMULAÇÃO: O BOM, O MAU E O DESCONHECIDO



Na próxima 5ª feira, 21 de Abril de 2016, pelas 18h realiza-se no RÓMULO Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, a palestra intitulada "Neuroestimulação: o bom, o mau e o desconhecido", com Alexandre Castro Caldas, no âmbito do ciclo Fronteiras da Ciência, coordenado por António Piedade, a decorrer até Julho de 2016.




RESUMO DA PALESTRA:
O desenvolvimento de processos capazes de ampliar as capacidades do cérebro está na ordem do dia. A principal justificação desta atividade é o tratamento das doenças do cérebro, que são responsáveis por alterações quer sensoriais e motoras, quer cognitivas ou comportamentais. O sucesso verificado na compensação destas alterações aguçam a tentação de usar os mesmos processos no sentido de potenciar funções consideradas normais, ou mesmo desenvolver competências que ultrapassam o papel biológico normal da espécie humana. Discutir-se-ão os processos e as suas implicações tanto no domínio da Saúde como no domínio das questões bioéticas.

ENTRADA LIVRE 
Público-alvo: Público em geral

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

CINCO CRENÇAS FALSAS SOBRE O CÉREBRO

Artigo primeiramente publicado na imprensa regional.



Nas últimas duas décadas assistimos a enormes avanços na nossa compreensão sobre o funcionamento do cérebro. Este avanço nas neurociências deve-se muito à implementação de várias técnicas de imagiologia cerebral, que produziram um grande volume de informação sobre a complexidade do funcionamento neuronal e com um detalhe impressionante. Mas, apesar do avanço na compreensão do cérebro e da divulgação do conhecimento adquirido, várias crenças falsas sobre este órgão, cerne da nossa inteligência, persistem no imaginário colectivo. Vejamos algumas delas.

1. Só usamos 10% do nosso cérebro?
É talvez a crença mais comum sobre o cérebro, tendo tido origem no princípio do século passado e sido bastante divulgada em diversas obras de literatura pseudocientífica e também no cinema. Todos os dados neurocientíficos que hoje possuímos, principalmente aqueles oriundos da imagiologia cerebral, a contrariam e indicam que nenhuma zona do cérebro permanece totalmente inactiva, nem sequer enquanto dormimos. De facto, até hoje, ainda não foi encontrada uma zona do cérebro à qual não esteja associada uma dada função e actividade. Para além disso, hoje sabemos que mesmo as tarefas cerebrais aparentemente mais simples, embora possam envolver mais uma dada zona cerebral, mobilizam a actividade de inúmeras outras numa complexidade de interacções espantosas. Por outro lado, o cérebro é o órgão que mais energia consome para o seu funcionamento. Gastar tanta energia para que 90% do cérebro não fizesse nada é algo que não faz sentido do ponto de vista evolutivo.

2. Dois cérebros num só
Enraizou-se a ideia de que os dois hemisférios cerebrais têm funções totalmente distintas, sendo um, o direito, mais intuitivo e artístico, e o outro, o esquerdo, mais analítico e racional. O que as neurociências têm verificado é que os dois hemisférios estão em permanente interacção, diálogo, quer estejamos a resolver um problema matemático, quer estejamos a tocar piano, por exemplo. Mais, existem inúmeros casos em que traumatismos cerebrais que afectam um dos hemisférios levam a que funções das zonas afectadas sejam transferidas para o outro hemisfério. Há pois uma grande plasticidade cerebral, uma grande conectividade e interacção entre os dois hemisférios, pelo que os dois estarão sempre de alguma forma activos independentemente da actividade em questão.

3. O tamanho do cérebro determina a inteligência
Para além da questão sobre o que é que consideramos ser a inteligência, está a crença de que somos tanto mais inteligentes quanto maior for o tamanho do nosso cérebro. A biologia mostra que existem muitos animais com cérebros maiores do que os dos seres humanos e que mais do que o tamanho per si, deve ser considerado a relação entre a massa cerebral e a massa total do corpo. E mesmo nessa relação os seres humanos não estão no topo. O que as neurociências têm demonstrado é que mais importante do que o tamanho, a quantidade e complexidade de ligações (sinapses) entre os neurónios (células do cérebro) é o que pode determinar sermos mais ou menos inteligentes. E, para além da genética que determina o tamanho, a complexidade daquelas interacções é condicionada pela aprendizagem e experiência de cada um de nós, independentemente da massa cerebral.

4. O cérebro está inactivo enquanto dormimos
O cérebro nunca descansa. A monitorização da actividade cerebral, por electroencefalogramas e pelas mais modernas imagiologias cerebrais, mostra que o cérebro está activo durante o sono. Aliás, sabemos hoje que o sono é extremamente importante para a manutenção da qualidade das ligações entre as células nervosas. Foi descoberto recentemente que durante o sono ocorrem processos de limpeza do espaço interneuronal, através de uma maior circulação do líquido encefalorraquidiano, o que promove a eliminação dos detritos resultantes da actividade em vigília. Para além disso, verifica-se que a consolidação das memórias ocorre mais intensamente durante o sono. Assim, enquanto dormimos o cérebro trata de arrumar a casa e preparar-se para o dia seguinte.

5. Cérebro masculino e cérebro feminino
É um assunto muito vulgar atribuir ao cérebro capacidades diferentes consoante o sexo. Contudo, e apesar das diferenças anatómicas e hormonais que distinguem o homem da mulher, não se encontrou até hoje nenhuma diferença distintiva na fisiologia e metabolismo do cérebro nos dois sexos. Há uma ligeira diferença de tamanhos mas, como já se disse, o tamanho não implica imediatamente uma função diferente. Contudo, devemos dizer que os neurocientistas estão apenas agora a começar a compreender como é que a complexa actividade neuronal dá origem aos fenómenos psicológicos que determinam a nossa inteligência e personalidade. Mas a diferença do corpo consoante o sexo não encontra imediata diferença no cérebro que fundamente a adjectivação de género.


António Piedade

terça-feira, 13 de maio de 2014

O FUTURO DA MENTE

Recensão primeiramente publicada na imprensa regional.


Nas últimas duas décadas temos assistido a uma evolução sem precedentes nas neurociências. Nunca se soube tanto sobre as funções íntimas do cérebro, sobre a base biológica do pensamento, das memórias, da mente. Mas também nunca se tinha percebido o quanto desconhecemos sobre a arquitectura neuronal, sobre a comunicação neuroquímica que parece ser substrato da mente pensante.

Este rasgar de horizontes nas neurociências foi possível pela conjugação de um tear interdisciplinar de conhecimentos oriundos de diferentes domínios do saber e da tecnologia. Em particular, a aplicação de modernas tecnologias de imagiologia ao cérebro. Estas novas ferramentas de prospeção cerebral foram desenvolvidas a partir de conhecimentos fundamentais da física, como sejam o electromagnetismo ou a ressonância magnética nuclear. De referir também a importância da utilização de todo o poder informático no processamento dos novos dados obtidos sobre o cérebro com as novas técnicas de imagiologia por ressonância magnética.

Assim como há 400 anos o telescópio desvendou um universo novo e quebrou mitos e lendas antigas, pulverizando visões cosmológicas que se revelaram erradas, também estas novas tecnologias de visualização cerebral abrem miríades de horizontes sobre a mente humana, e estendem as possibilidades da sua interacção com a Natureza.

É neste contexto que se destaca o novo livro do famoso e iminente físico, também popular divulgador de ciência, Michio Kaku. Intitulado “O Futuro da Mente”, foi agora publicado entre nós pela Editorial Bizâncio.
Neste livro, Michio Kaku começa por nos apresentar, na perspectiva de um físico, uma descrição do conhecimento actual sobre o cérebro e as suas funções, para depois nos guiar através das veredas mais sinuosas que são substância de perguntas milenares sobre a essência da mente humana. E descreve-nos quais e como funcionam as tecnologias mais modernas que são hoje usadas para obter as respostas que procuramos sobre o funcionamento do cérebro.

Nunca se afastando do rigor científico conferido pelas leis da física, Michio Kaku partilha connosco o quotidiano de dezenas de cientistas que investigam actualmente o cérebro nas mais diversas perspectivas e aplicações. Ancorado no método científico, Kaku coloca várias hipóteses sobre qual o futuro vislumbrável para as neurociências, qual o futuro da mente.

Esta primeira edição portuguesa é de saudar por ter ocorrido poucos meses depois da publicação do original em inglês, no início de 2014. A tradução do inglês é da autoria de Fernanda Barão e Isabel Fernandes e consegue manter o tom coloquial e a linguagem acessível a todos, que está presente na versão original e que é característica do excelente divulgador científico que é Michio Kaku.

“O Futuro da Mente” é um livro que se recomenda a todos aqueles que querem saber mais sobre a natureza da mente humana. Através dele ganhamos consciência do que se sabe hoje sobre como funciona o cérebro e somos levados a pensar sobre as questões pertinentes que o envolvem. 

Depois de lermos este livro ficamos mais próximos do futuro das neurociências.



António Piedade

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Dia Internacional da Memória

Nota prévia: Os meus cumprimentos a todos os leitores. Para primeira publicação no blogue, achei pertinente apresentar-me. Faço-o de corpo inteiro, com um video. 

Declaro o dia de hoje, unilateralmente, Dia Internacional da Memória.

Há precisamente um ano atrás, nesse dia, estreou em Coimbra, no Centro de Neurociências e Biologia Celular, a peça da marionet 'MIM - My Inner Mind', tendo por temas centrais o cérebro, a memória e o esquecimento.

O público deambulava pelos corredores e salas daquele centro de investigação, participava num conjunto de cenas que por aí iam sucedendo, e era convidado a usar o telemóvel ou outros dispositivos de gravação para captar imagens dessa experiência.

Este video é uma montagem, incluindo algumas dessas gravações, de uma das cenas da peça intitulada "Um dia fez-se luz na minha cabeça."

Um bom Dia Internacional da Memória para todos, com boas recordações!


terça-feira, 30 de abril de 2013

UMA VISITA POLITICAMENTE INCORRECTA AO CÉREBRO HUMANO

Recensão publicada primeiramente na imprensa regional.

«Será a mente humana capaz de descobrir qualquer coisa que a transcenda» questiona o eminente neurocientista Alexandre Castro Caldas na introdução do seu mais recente livro “Uma visita POLITICAMENTE INCORRECTA ao cérebro humano”.
Publicado em Fevereiro de 2013 pela editora Guerra & Paz, este livro apresenta e desvenda as novidades do conhecimento que as neurociências têm alcançado sobre esse órgão, o cérebro, que o leitor está a usar para entender o que está a ler agora mesmo.

«Quem somos então, o que somos nós, o que é que o cérebro e as suas funções?» pergunta-nos Alexandre Castro Caldas, para logo responder que as “páginas deste livro não pretendem ser resposta, mas pretendem abrir portas para a reflexão”.

No panorama actual da literatura de divulgação científica portuguesa em geral, e das neurociências em particular, este livro destaca-se pela sua actualidade científica, pela sua simplicidade rigorosa e pela sua utilidade para o leitor que com ele se compreende melhor.

Os diversos casos clínicos que ajudam a entender melhor como o nosso cérebro funciona, são apresentados despedidos de jargões técnicos, para que qualquer um de nós os entenda e logo entenda melhor como o seu próprio cérebro funciona. As notas e as referências bibliografias são dispensadas nesta visita POLITICAMENTE INCORRECTA ao cérebro humano, o que torna fluida a leitura deste livro. 


A propósito do autor, diga-se que Alexandre Castro Caldas começou a sua vastíssima e relevante carreira de investigação científica de excelência com António Damásio, em 1970, e que ficou a dirigir o Laboratório de Estudos de Linguagem, quando, em 1975, Damásio saiu de Portugal.

Mas voltemos ao livro. Está estruturado em dez capítulos que o leitor pode ler pela ordem que entender, eventualmente movido pela sua maior curiosidade, ou interesse por um dado aspecto do nosso cérebro.
No 1.º capítulo “reflecte-se sobre a forma como acreditamos nas coisas”.
No 2.º discute-se como a consciência humana pode ter começado “num sonho”.
Conhece-te a ti mesmo” é o título do 3.º capítulo, no qual de descreve “como o cérebro interage com o sensível”.
No 4.º, intitulado “quem fui eu, quem sou eu”, Castro Caldas discute a questão da identidade.
“Quem és tu? Que casa é esta”, intitula o 5º capítulo que apresenta casos em que o cérebro processa mal a informação sobre o que lhe está próximo, como sejam as pessoas da sua família e os locais que lhe são habituais.
O 6.º capítulo é dedicado a aspectos marcantes da personalidade: “quando se faz aquilo que se não quer fazer” e sobre “o livre-arbítrio”, levando-nos a reflectir sobre a questão da vontade própria.
Abordando aspectos anatómicos, mas funcionais, o 7.º capítulo apresenta ao leitor a realidade da “Dominância Cerebral” e discute-se sobre qual manda, se o hemisfério esquerdo se o direito e quando.
O género sexual e a sua influência sobre o cérebro, um “tema que tanto estimula a imaginação”, é tratado no 8.º capítulo.
Numa época em que vivemos sob a influência de uma nova e globalmente esmagadora tecnologia de informação, Castro Caldas descreve no 9.º capítulo como “Manter o cérebro em forma” numa aproximação aos desafios modernos da “interacção entre o natural e o artificial”.
Por fim, o 10.º capítulo, o qual, como os outros, pode ser lido em primeiro lugar: “Experiências de quase-morte” é o seu título e nele se desmistificam as fantasias, as ilusões geradas pelo cérebro sobre a memória de experiências traumáticas na “fronteira abrupta” entre a vida e a morte.

A leitura deste livro é uma experiência rica em que o autor nos ajuda a compreender melhor o mundo em que vivemos ao explicar à luz do conhecimento actual como é que o cérebro compreende e funciona no mundo em que vive.

António Piedade

quinta-feira, 11 de abril de 2013

UM NOVO MUNDO PARA O CÉREBRO

Crónica publicada na revista Papel


Vemos com o cérebro.

Sim. Vemos com o cérebro. Apesar de a integridade do sistema visual ser decisiva para a sua sensação visual da Papel, as imagens captadas pelos seus olhos, mais precisamente pelas células fotossensíveis existentes nas suas retinas, são traduzidas em milhões de impulsos nervosos canalizados pelos nervos ópticos até ao seu córtex visual. E é algures nesta zona do cérebro que essas imagens são primeiramente interpretadas e comparadas com memórias e experiências anteriormente guardadas em vias neuronais um pouco por todo o cérebro.

Resulta dessa integração neuroquímica a consciência do que vemos. E é por isso que é o nosso cérebro que vê. E sabemos isto porque é possível experienciarmos imagens com os olhos fechados. Os neurocientistas sabem disso também pelas inúmeras histórias clínicas de pacientes cuja visão ficou afectada após certos traumatismos cerebrais que não afectaram os componentes do sistema da visão.

Mas como é que vemos o nosso cérebro? Como é que sabemos como é que ele vê o que os nossos olhos captam?

Há mais de um século que o incontornável histologista espanhol Ramón y Cajal (Prémio Nobel da Medicina em 1906) identificou e desenhou meticulosamente as subtilezas da arquitectura celular que define o nosso cérebro. A pormenorizada cartografia celular do cérebro efectuada por ele e seus colaboradores, levou-o a afirmar, então, que já se conhecia tudo sobre o cérebro.

Hoje, mais de cem anos depois, e apesar dos avanços impressionantes registados nas últimas décadas nas ciências do cérebro (psicologia, psiquiatria, neurologia, entre outras) a sensação generalizada entre os principais investigadores é a de que começamos a ter uma ideia superficial de como o cérebro funciona. Sobre como conseguimos pensar, processar as sensações do mundo à nossa volta, imaginar para além dos sentidos, criar, sonhar, amar, ler a Papel apaixonadamente.

As tecnologias farmacêuticas, bioquímicas e de ressonância magnética nuclear funcional contribuíram decisivamente para a forma como hoje vemos, conhecemos e compreendemos o pulsar da nossa mente, mas também o que lhe subjaz nas profundezas daquilo a que chamamos inconsciente.

Essa terra de que não temos memória mas que guarda e cuida das nossas memórias. Esses territórios feitos de vias e circuitos de milhões de neurónios interligados com outros milhões de neurónios em redes que ridicularizam a World Wide Web. A nova biologia do cérebro é feita de moléculas que mudam o nosso estado de humor, que enraízam a nossa tristeza, que florescem a nossa alegria, que anunciam em sinfonias coloridas as nossas paixões.


As novas técnicas de imagiologia cerebral rasgaram a pesada cortina que ocultava o palco em que milhares de milhões de neurónios e células da glia (células de suportam e nutrem os neurónios) e permitiram que os neurocientistas tenham começado a identificar o papel de cada uma das vias neuronais, começado a traçar o caminho por onde passam os impulsos que regulam a actividade cerebral, desde o contolo neuromotor às actividades associadas ao pensamento abstracto, criativo, à consciência do desconhecimento.

As novas tecnologias computadorizadas têm-nos brindado com imagens espectaculares dessas vias que nos fazer sorrir de espanto, desses núcleos neuronais que nos regulam o bater coronário, que nos permitem entrelaçar o espaço com o corpo rodeado de música.

Depois de cem anos a olhar para as sombras da actividade cerebral projectadas numa caverna craniana, eis que nos voltámos para ver directamente o mundo dos nossos neurónios a acontecer em tempo real. Começamos a transformar a ideia do cérebro como um órgão feio e repulsivo, mas sede da nossa criatividade. Começamos a cartografar com cores vivas, não as células (como tinham feito Ramon y Cajal e tantos outros) mas a actividade e o papel de cada uma das vias que ficam activas quando executamos determinada tarefa, ou quando pensamos em algo como seja... o que quiser.

Para dar novos mundos e fundos ao estudo do cérebro, os EUA, pela pessoa do seu Presidente Barack Obama, acabam de anunciar o orçamento (100 milhões de dólares para o ano 2014) para um novo e ambicioso programa de investigação em neurociências. O projecto, apresentado pela designação “Brain Research Through Advancing Innovative Neurotechnologies”, ou simplesmente “BRAIN, visa “acelerar o desenvolvimento e a aplicação de novas tecnologias que permitam aos investigadores produzir imagens dinâmicas do cérebro, mostrando como as células individuais e os sistemas neurais complexos interagem à velocidade do pensamento”, segundo o que pode ler no comunicado então divulgado.


Em janeiro deste ano, também foi anunciado um projecto europeu designado por “Projecto Cérebro Humano”, da iniciativa Tecnologias Futuras e Emergentes da União Europeia, o qual visa simular o cérebro num supercomputador para perceber como funciona.

Refira-se, ainda a propósito, que o mapeamento das vias cerebrais tem vindo a ser efectuado pelo Projecto do Conectoma Humano. O objectivo é o de recolher a maior quantidade de informação sobre o cérebro de 1200 adultos saudáveis através de tecnologias de imagiologia cerebral de última geração. Sublinhe-se que este projecto tem fornecido imagens de uma rara beleza introspectiva sobre o nosso cérebro em plena actividade.


Abrem-se novos meios para descobrir o futuro do conhecimento. É o cérebro a decidir conhecer-se a si próprio. Mas há uma nuance abissal naquele projecto científico agora anunciado: é que não sabemos muito bem o que vamos encontrar e há uma componente tecnológica e de engenharia num esforço criativo para gerar novas ferramentas para potenciar novas descobertas. É assim que ciência e tecnologia cooperam para produzir conhecimento.

Estamos a mudar a imagem que temos do nosso cérebro. Ou, estamos a ver o cérebro com outros olhos.

António Piedade

terça-feira, 9 de abril de 2013

«VER» OS SONHOS

Crónica publicada primeiramente no Diário de Coimbra e em outra imprensa regional.


“Eles não sabem, nem sonham, que o sonho comanda a vida”, disse-nos um dia o poeta cientista António Gedeão.

Alguns neurocientistas actuais que estudam a evolução do cérebro e das competências que nos tornam especificamente humanos, consideram, como hipótese de trabalho, ter sido o sonho a antecâmara da consciência.

Vejamos por partes. Considerando o sono uma função natural que é resultado de um estado funcional particular do cérebro, ele é tão importante para a sua boa saúde como é natural a necessidade de respirar. Durante o sono, enquanto o corpo restante está em repouso relaxado, o cérebro apresenta uma actividade considerável. Uma dessas actividades em particular caracteriza-se por períodos designados por sono REM (rapid eye movements, ou movimento rápido dos olhos) que, sendo breve, se repete quatro ou cinco vezes durante uma noite de sono. Nestes períodos sonhamos.

Não cabe aqui analisar nem rever as inúmeras teorias interpretativas sobre os sonhos. Mas há espaço para divulgar a ideia de que ao longo da longa noite da evolução da mente humana (em rigor, dos animais com cérebro) esses momentos oníricos (do grego óneiros, que significa sonho) exercitaram a capacidade de o cérebro interligar sensações experienciadas durante o estado de vigília e retidas em memórias, criando composições integradas ou imaginadas mas desligadas do nexo da realidade sensorial. 

Estes períodos (sonhos) de composição e integração de memórias aparentemente desconexas podem ter robustecido o tear das vias neuronais que, fora do sono, durante a vigília, se foram consolidando para produzirem uma nova aptidão para o cérebro: a capacidade de gerar pensamentos conscientes e eventualmente independentes da realidade sensorial. Assim o sonho fora a antecâmara da capacidade de pensar concreta ou abstractamente!

Investigar os sonhos sempre foi um tema interessante e por vezes decisivo para o destino de civilizações. Por isso é com entusiasmo que se divulga o artigo que uma equipa de Investigadores Japoneses publicou, na edição online de dia 4 de Abril da prestigiada revista Science. Nele são apresentados os resultados do estudo efectuado por imagiologia por ressonância magnética funcional (fMRI) de pessoas a sonhar. Através do uso de um algoritmo para isso desenvolvido, os investigadores foram capazes de descodificar a actividade cerebral e prever com uma precisão de cerca de 60% as imagens que as pessoas estudadas estiveram a sonhar!

Esta visualização dos sonhos, agora possível pelo grande desenvolvimento verificado nas técnicas de imagiologia cerebral nas últimas décadas, poderá permitir novas ferramentas de diagnóstico de perturbações e patologias numa maior aproximação a cada caso individual. Na realidade, esta nova ferramenta permite dizer-nos que não sabemos ainda o que vamos encontrar, que ilhas ou continentes os neurocientistas vão descobrir no mar dos sonhos.

A publicação deste artigo surge na mesma semana em que os EUA, pela pessoa do seu Presidente Barack Obama, acabam de anunciar o orçamento (100 milhões de dólares para o ano 2014) para um novo e ambicioso programa de investigação em neurociências. O projecto, apresentado pela desiganção “Brain Research Through Advancing Innovative Neurotechnologies”, ou simplesmente “BRAIN, visa “acelerar o desenvolvimento e aplicação de novas tecnologias que permitam aos investigadores produzir imagens dinâmicas do cérebro, mostrando como as células individuais e os sistemas neurais complexos interagem à velocidade do pensamento”.

Abrem-se novos meios para descobrir o futuro do conhecimento. É o cérebro a decidir conhecer-se a si próprio. A desvendar o sonho imemorial da nossa evolução.

António Piedade

sábado, 11 de agosto de 2012

Entrevista a Alexandra Nobre sobre "A Espiral da Vida"


Entrevista a Alexandra Nobre (Professora Auxiliar do Departamento deBiologia da Universidade do Minho), tradutora e revisora científica da edição portuguesa de "A Espiral da Vida - As Dez Mais NotáveisInvenções da Evolução", livro premiado do Bioquímico Nick Lane, publicado agora em Julho na Colecção "Ciência Aberta" da Editora Gradiva. 





Alexandra Nobre



António Piedade - O livro surpreendeu-a? De que forma?
Alexandra Nobre - Paradoxalmente, sim e não. Sim, porque o livro é uma surpresa a cada esquina, que é como quem diz, a cada virar de página. Não, porque já tinha tido acesso ao “Power, Sex, Suicide: Mitochondria and the Meaning of Life” do mesmo autor, editado há uns anos e, se bem que os livros não se repitam, há algumas temáticas que se imiscuem (aliás, em “Life Ascending” Nick Lane remete para este por diversas vezes) e um estilo comum muito próprio de nos prender.

António Piedade - Este livro mudou algo na forma como olha agora para a evolução da vida no Universo?
Alexandra Nobre - Inevitável e irremediavelmente. Ao longo destes meses, por diversas vezes me questionei se eu elencaria estas dez invenções como as mais notáveis da evolução. “...Começamos com a origem da vida em si e terminamos com a nossa própria morte e procura de imortalidade, passando por pontos altos como o ADN, a fotossíntese, as células complexas, o sexo, o movimento, a visão, o sangue quente e a consciência...” Se bem que algumas me pareçam incontornáveis como o ADN, a fotossíntese e o sexo, outras como o sangue quente, a visão ou mesmo o movimento, à partida já não me parecem tão óbvias e consensuais. É natural que assim seja. Aliás, Nick Lane teve conselhos noutros sentidos. Por exemplo, refere “No início discuti esta lista com um amigo que me propôs o tubo digestivo como emblemático nos animais em substituição do movimento”. Mas Nick Lane, logo na introdução refere os quatro critérios que o levaram a seleccionar estas dez invenções, e legitima deste modo a sua escolha.
Inevitável e irremediavelmente, dizia eu. Mas não de modo fixo e para todo o sempre. A cada dia somos confrontados com novas “evidências”, que põem em causa verdades ainda na véspera consideradas inabaláveis. Haja curiosidade e “Curiosity” e a história da evolução da vida no Universo não terá um ponto final, e muito menos um ponto final parágrafo.

António Piedade - Quais as dificuldades que encontrou na tradução?
Alexandra Nobre - Por um lado, as comparações constantes ao longo do texto que tornam claros, mesmo para leigos no assunto, intrincados mecanismos bioquímicos e/ou fisiológicos, não me tornaram a vida nada fácil. Por outro, o estilo de Nick Lane, muito metafórico, rico em imagens/ figuras de estilo, pejado de duplos e de triplos sentidos que dão todo um colorido e lufada de ar fresco à escrita, também foram, por vezes, nós difíceis de desatar. Mas o osso mesmo duro de roer, o que me deixou por vezes uma mulher à beira de um ataque de nervos, foi sem dúvida arranjar paralelo para algumas expressões idiomáticas ou mesmo provérbios com que tropecei frequentemente. Tentei sempre manter o cariz humorístico, irónico e mesmo sarcástico de Nick Lane e ser o mais fiel possível ao fluir do raciocínio e das ideias. Não sei se consegui. E em simultâneo, acumulei também as funções de revisão técnica e científica. Eram muitas “antenas” sintonizadas ao mesmo tempo...

António Piedade - Quais são os aspectos mais conseguidos e menos conseguidos, na sua perspectiva, pelo Nick Lane, ao abordar as 10 "invenções da evolução"?
Alexandra Nobre - O mais conseguido foi o modo como a história foi sendo desenrolada, capítulo a capítulo, numa lógica coerente, com uma linguagem rica, ora mais poética, ora mais brejeira, de forma clara, agradável e com uns laivos de romance policial à mistura, que nos deixavam expectantes e mesmo em suspense, de um parágrafo para o outro. Também me agradou que, sem prejuízo desta lógica, cada capítulo se bastasse e si próprio e fizesse sentido só por si. Quero com isto dizer que, na minha óptica, podemos encarar cada um dos capítulos como um “mini-livro independente” e escolher a ordem por que os lemos, sem desvirtuar o sentido de toda a obra.
A meu ver, menos conseguido talvez seja o modo como, em todos os capítulos, mais nuns do que noutros, a dada altura começamos a andar em círculos e a repetir as mesmas ideias por outras palavras. É como se Nick Lane nos quisesse ajudar a mastigar muito bem todos os ingredientes que vai apresentando. E às tantas, é também como se já os tivéssemos engolido e fossemos obrigados a regurgitar novamente para mais uma “mastigadela”.

António Piedade - Pode contar-nos como experienciou, do ponto de vista racional e emocional, a tradução do livro?
Alexandra Nobre - O que é que posso dizer? Que foi uma tarefa ciclópica porque: nunca tinha feito nada de minimamente semelhante; o livro é, literalmente, de peso; tive que me multiplicar (ou dividir, sei lá...) em diversas tarefas e a responsabilidade me pesava nos ombros a cada segundo. Mas também que, não obstante tudo isto, voltava a aceitar a empreitada.
Neste momento ainda estou demasiado envolvida em todo este processo para poder responder de modo racional e isento de emoções. Quer fazer-me esta pergunta novamente daqui a uns tempos, António?

terça-feira, 12 de junho de 2012

O Livro da Consciência

Informação chegada ao De Rerum Natura

O “Café, Livros e Ciência” da próxima quinta-feira, 14 de junho, às 18h00, é dedicado ao "O Livro da Consciência”, de António Damásio.

A sessão, na cafetaria do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra (UC), será dinamizada por Catarina Resende, diretora do Centro de Neurociências e Biologia Celular (CNC).

Como é que o cérebro constrói uma mente? Como é que o cérebro torna essa mente consciente? Qual a estrutura necessária ao cérebro humano e de que forma o cérebro tem de funcionar para que surjam mentes conscientes?

Catarina Resende considera que “O Livro da Consciência” foi formulado como um “recomeço”, quando a reflexão sobre descobertas importantes da investigação, recentes e antigas, alterou profundamente o seu ponto de vista sobre a origem e a natureza dos sentimentos e os mecanismos por detrás do “eu”.

Mais informações aqui.

domingo, 31 de julho de 2011

BEM-ME-QUER?



Um dos meus doze textos participantes no "Cordel de Ciência", iniciativa inaugurada no Pavilhão do Conhecimento aquando da comemoração do seu 12º Aniversário, no passado dia 21 de Julho de 2011. Passe por lá e leve-os consigo pela mão!

Sentada na margem do rio, Helena contempla o reflexo de uma flor no espelho das águas calmas.

A flor que segura na mão é uma espécie de bem-me-quer, ou margarida, nomes vulgares do científico Leucanthemum vulgare.

Mas de vulgar, só a abundância com que cobre os campos. Até porque a sua beleza simples desponta da aparência de ser só uma flor. Numa observação mais íntima, Helena reconhece que tem na mão um exemplo de inflorescência, na qual as folhas marginais, modificadas em pétalas brancas, coroam centenas de pequeníssimas flores amarelas e femininas, concentradas num disco central.

Helena inspira o aroma próprio e intenso das minúsculas flores amarelas. A sensação olfactiva é, simultaneamente, acompanhada por uma imagem floral mental. Ao fechar as pálpebras para abrir a os “olhos” do seu pensamento, o aroma parece associar-se à imagem de uma memória de flor! É como se estas duas sensações estivessem associadas algures no seu cérebro. É como se existisse um bem-me-quer feito de inúmeros neurónios cerebrais!

Helena recorda ter lido algures que precisamos do cérebro para ver! O mesmo deve acontecer para os outros sentidos, pensa, ao mesmo tempo que faz rodar a inflorescência, entre os dedos polegar e indicador da sua mão. Desvia o olhar para a superfície aquosa do rio e concentra-se na sensação táctil, no movimento rotativo da haste floral entre as falangetas digitais oponíveis.

A reconstrução imagética da flor a rodar entre os seus dedos, leva Helena a pensar que deve existir também uma memória do movimento, sediada numa estrutura cerebral específica. Em que parte do cérebro estará funcional?

A percepção visual, do mundo exterior, é transmitida ao cérebro pelos nervos ópticos. A sensação olfactiva, pelos nervos olfactivos. A interiorização do som, através dos nervos auditivos ou nervos vestíbulo-cocleares. As sensações do paladar, através de nervos cranianos do tracto solitário. As sensações tácteis, pelos nervos com o mesmo nome. Todas estas percepções, da nossa interacção com o envolvente, são conduzidas por nervos, mais ou menos periféricos, até ao cérebro, que integra e processa a informação nervosa recebida e lhe dá significado funcional e orgânico, ou conteúdo simbólico.

Mas e o movimento? Será ele o resultado, a reacção, do processamento e integração dos vários sentidos? Ou terá, para além disso, uma estrutura cerebral a ele dedicada para o coordenar, para o modelar com memórias, para desenhar no espaço o gesto suave de uma carícia, para controlar o rodopio bailarino de uma haste florida entre os dedos?

Helena arranca uma pétala branca da inflorescência. Um sussurro de uma lengalenga primaveril instala-se no seu pensamento, o que desencadeia uma sequência gestual familiar: bem-me-quer, malmequer, bem-me-quer, malmequer… Cada pétala solta do disco florido cai, desde o gesto, até à superfície da água do rio, e desencadeia ondas circulares que se propagam também numa lengalenga periódica.

De novo, com as pálpebras cobrindo as íris dos seus olhos, Helena concentra-se na lengalenga gestual. Constata que os seus gestos continuam a remover pétala após pétala com toda a eficácia delicada. De facto, está a ver, “só” com o cérebro, os seus dedos a remover a coroa branca da inflorescência amarela. Sente que a essência do gesto, que a acção de todos os músculos que permitem os movimentos dos seus dedos, mão e braço, reside algures no seu cérebro. Mas aonde?

- No corpo estriado dos gânglios basais do teu cérebro. - Diz Rui, um amigo de Helena que, discretamente, e sem a perturbar, a tinha estado a observar na sua interrogação gestual. - Tanto quanto sabemos hoje – continua Rui - existe um grupo de neurónios do tipo piramidal, “sensíveis” ao neurotransmissor dopamina, que, constituindo uma via neuronal no hipotálamo designada por nigroestriatal, estão envolvidos, quer na aprendizagem, quer na execução de gestos sequenciais como esses que tu estiveste a realizar.

- É fantástico Rui! - Responde Helena. – Tudo parece estar tão sincronizado como as ondas na superfície deste rio.

- É realmente fascinante o funcionamento do nosso universo neuronal - acrescenta Rui. - É espantoso como a interacção de um número astronómico de ondas salinas, propagadas por acção potencial electroquímica, e modeladas por neurotransmissores específicos, conseguem, a partir de uma arquitectura de uma via neuronal, efectivar-se num gesto, simples ou complexo.

- Esta pétala é para ti. – Estende Helena num movimento grato.

- Que belo gesto!

António Piedade

segunda-feira, 4 de abril de 2011

OLHAR AROMAS


Minha crónica semanal no "Diário de Coimbra".


O hino do Jardim-Escola João de Deus, cantado pelos alunos do 4.º ano, impregnava com outras emoções a atmosfera primaveril e enobrecia as celebrações do 1.º centenário da mais antiga e primeira escola infantil em Portugal.

Às árvores, algumas delas também companheiras centenárias da firme longevidade de um método frutuoso, associavam-se outras espécies vegetais rendilhadas no muro do Jardim-Escola. Uma dança de fragrâncias malvas, a irradiar de cachos floridos das belíssimas glicínias (Wisteria sinensis), debruavam a inspiração.

António vivia o momento à altura dos olhos de seu avô João, que o elevava, num colo seguro, para que ele pudesse ver para além do longe. Enquanto o hino ecoava nas memórias, o aroma das glicínias impregnava a satisfação de dever cumprido. A sua atenção, despertada pela sensação olfactiva, transportou uma pergunta ao ouvido do seu avô: porque é que aquelas flores, assim como outras, doavam perfumes às emoções?

Com olhar marejado de sonhos guardados em outras flores, o avô respondeu-lhe num sussurro para que o ouvisse melhor. “O nosso cérebro é composto de um número grande de células nervosas, os neurónios. Em zonas específicas do cérebro, neurónios determinados dedicam-se a receber informação sensorial do mundo que nos rodeia, processando-a, guardando-a, comparando-a com sensações anteriores guardadas em padrões memoriais. Muitas vezes, a recordação é complexa e associa não só um aroma, mas também imagens, gestos, nomes, outros sons, e algures uma emoção, um tom de vida. O nosso cérebro é capaz de traduzir aromas em emoções, gestos em canções.”

De facto, em miríades de redes de neurónios, interligados entre si por milhares de conexões funcionais, residem ressonâncias de impulsos nervosos estimulados por uma dada informação sensorial. Um fragmento pode evocar o mundo inteiro. Também por isso a substância transcende a forma e um gesto poder bastar para dirigir uma orquestra de emoções.

No caso em questão a sensação é olfactiva. Essa informação é primeiramente captada por células sensoriais especializadas que possuem terminações, ricas em receptores (glicoproteínas membranares) olfactivos, estrategicamente colocadas nas membranas de um epitélio existente no céu das fossas nasais.

Milhares de receptores diferentes e sensíveis a moléculas ditas aromáticas (mas não só) são estimulados na presença das mesmas. As interacções e reconhecimentos moleculares são traduzidos para outro tipo de informação celular que desagua a paleta sensitiva num órgão designado por bolbo olfactivo, antecâmara de entrada desta informação para o cérebro.

No bolbo olfactivo, ocorre um primeiro processamento da informação. Um tipo de células nervosas específicas e designadas por mitrais recolhe e processa a transdução dos aromas sentidos em impulsos nervosos. Estes são enviados através de nervos olfactivos para o córtex cerebral, mas também para estruturas mais internas do sistema límbico cerebral, como o hipotálamo, onde a informação é comparada com padrões de experiências anteriores.

Ressonâncias nervosas, desencadeadas pelo aroma inspirado, podem despertar memórias de outras sensações antigas e dissipar o véu de emoções resilientes. Uma brisa primaveril pode, assim, evocar uma recordação da nossa infância, descobrir uma emoção.

Noutro registo, neurocientistas norte-americanos publicaram, na página online da revista Nature da semana passada, as primeiras "cartografias" de circuitos e actividades neuronais do córtex olfactivo (em modelos animais), obtidas através de uma técnica nova.

A possibilidade de mapear a estrutura neuronal subjacente à função sensorial e ao seu processamento cortical e límbico, antecipa futuras descobertas, novas emoções para aromas primevos.

António Piedade

segunda-feira, 21 de março de 2011

NEURÓNIO & COMPANHIA: PARA ALÉM DO NEURÓNIO.



Minha crónica semanal no "Diário de Coimbra".

Todos os órgãos e sistemas de órgãos que, em conjunto, organizam e compõem o nosso corpo são constituídos por diversos tipos de tecidos de células. Algumas células são específicas desse órgão, ou seja, encontram-se nele maioritariamente no organismo, outras são mais generalistas encontrando-se em vários tecidos e órgãos diferentes.

Por isso não é de estranhar que outro tipo de células que não só os neurónios co-existam nos vários órgãos do sistema nervoso, como sejam as diversas estruturas encefálicas, da medula espinal, dos que enervam músculos e outros órgãos como a pele e, entre outros, os específicos aos sentidos ou à percepção sensorial do que nos envolve.

Na semana passada indicou-se a crescente atenção que os neurocientistas e neurobiólogos têm vindo a dedicar a um conjunto de células, genericamente designado por células da glia ou só glia. Como se disse, glia deriva da palavra grega para cola. Esta ideia de que a glia era a "cola" que mantinha os neurónios plasticamente "unidos" e de que era essa a sua principal função no sistema nervoso vigorou durante muito tempo.


As células da glia foram primeiramente “notadas” entre neurónios de moluscos, em 1824, pelo médico francês Rene Dutrochet. Mas o seu baptismo ocorreu em 1856, pelo “pai” da patologia moderna e da medicina social, o alemão Rudolf Virchow (1821 – 1902), numa procura dirigida exactamente para a identificação de qual seria o tecido conectivo, não celular, no cérebro.

Quase principescamente, as funções de inteligência e outras associadas antropocentricamente ao género Homo, centralizaram-se num único tipo de célula do tecido nervoso e essa célula foi o neurónio. A glia seria a argamassa viva que matinha os neurónios nas suas apropriadas posições funcionais, nos seus recantos processuais, na centralidade da nossa identidade.

Dissipar os processos envolvidos no pensamento, no sonho, na consciência, entre outras habilidades cerebrais, por mais do que um tipo de células seria, por ventura, fixar a excelsa unicidade do pensamento humano numa matriz de base orgânica, fisicamente tangível como quaisquer outros tecidos do organismo, esses sim, como por exemplo o muscular, feitos de vários blocos construtores, porque mais mecânicos e animais.

Aliás, estabelecer uma base histológica, fisiológica, física, material, para o pensamento e para a consciência ainda hoje é, por si só, assunto de pudor controverso, apesar das inúmeras e crescentes evidências que as imagiologias cerebrais funcionais tem dado ao cérebro que é, simultaneamente, o observador e o observado.

Assim, é compreensível que, durante a infância das neurociências, as células neuronais fossem as únicas consideradas e dotadas com a capacidade de receber, processar e transmitir informação, comunicar com outros neurónios através da síntese e libertação de moléculas especificas à essa sua função, os neurotransmissores, para e de espaços delimitados pelas membranas sinápticas neuronais.

Às células da glia cabiam (e “chegavam”) as funções de suporte físico; de regulação e “fiscalização” do ambiente nas vizinhanças neuronais, no fluido que envolve e banha os neurónios; de “construção” de vias de aceleração da transmissão do impulso nervosos através da síntese de bainhas isolantes ao longo dos axónios neuronais; de nutrição e “limpeza”, especialmente nas terminações sinápticas e detríticas, locais de grande actividade e consumo energético, de elevado “trânsito” de moléculas e iões, fluxo físico de informação em sucessivas vagas de “hora de ponta biomolecular”; de protecção contra agentes patogénicos que por ventura atentem contra os neurónios; entre outras e hoje conhecidas funções.

Hoje sabe-se que as células da glia possuem outras e excitantes funções para além destas.

Quais? (brevemente numa crónica perto de si)

António Piedade

segunda-feira, 14 de março de 2011

NEURÓNIOS & COMPANHIA: A GLIA DE EINSTEIN!


A minha crónica semanal no "Diário de Coimbra".

É do conhecimento comum que o sistema nervoso, o cérebro e sistemas de outros órgãos e tecidos que estão neste momento a processar a informação que está a ler nestas linhas, é constituído por centenas de biliões de neurónios, células eficientemente especializadas na tarefa de receber, processar e transmitir informação de e para milhares de outros neurónios.

A ideia da centralidade neuronal na função cerebral é pelo menos centenária. As famosas e pioneiras ilustrações da realidade microscópica do cérebro, efectuadas pelo neurocientista espanhol e laureado Nobel, Santiago Ramon e Cajal (1852 – 1934), apresentam essencialmente diversos tipos de neurónios. Muitas dessas ilustrações, saídas da pena artística daquele que muitos consideram o pai da neurociência moderna, continuam a ser utilizadas em aulas, livros e artigos científicos, para ilustrar quer a diversa estrutura neuronal quer a filigrana arquitectura das redes que estabelecem.

Nas últimas décadas, os avanços verificados nas neurociências, nas tecnologias de visualização histológicas (tecidos e células) e imagiologias funcionais (ressonâncias magnéticas, por exemplo), têm permitido aos especialistas considerarem a centralidade neuronal das funções cerebrais como uma imagem incompleta da realidade do sistema nervoso.

Nova e crescente atenção tem sido dada a outras células, que sempre existiram nos tecidos nervosos: as células da glia. A sua função foi durante muito tempo considerada como “só” de suporte, protecção e nutrição dos neurónios. O próprio nome “glia” deriva do nome grego para “cola”, denotando a ideia de que as células da glia sejam blocos de suporte e de adesão celular na fina arquitectura dos edifícios cerebral e restante sistema nervoso. A propósito, refira-se que Ramon e Cajal também desenhou células da glia como se pode ver na imagem ao lado.

Por cada neurónio existem em média cerca de dez células da glia! Assim, se o número de neurónios num cérebro é astronómico, o número de células da glia será de uma grandeza cósmica!

Curiosamente, reanálises anatómicas e histológicas recentes do cérebro de Einstein revelaram, para além de diversas peculiaridades anatómicas (alteração no Sulco de Sílvio, entre outras estruturas), a existência de uma maior percentagem significativa de células da glia, em comparação com a de cérebros de outras pessoas (anónimas e aparentemente menos inteligentes) com idade aproximada à da morte de Einstein (64 anos). Independente de outras funções, isto indicaria haver um maior número de células da glia a nutrir e a cuidar os neurónios do último gigante da ciência.

Recentemente, revistas científicas de referência como a Nature e a Science, mais generalistas como a Scientific Americam ou de especialidade nesta área como o European Journal of Neuroscience, incluindo a própria Sociedade Internacional de Neurociências, têm vindo a reunir e sistematizar o conhecimento entretanto acumulado sobre o papel das células da glia na actividade do sistema nervoso: de “simples cuidadodoras” dos neurónios, para modeladoras da actividade neuronal e mesmo parte integrante da solução da equação “receber, integrar, decidir e transmitir uma dada informação”.

De cuidadoras para decisoras em algumas acções, as células da glia “dizem-nos” que há um outro cérebro para além dos neurónios.


Nesta Semana Internacional do Cérebro, se tiver oportunidade de falar com um neurocientista, não hesite em lhe perguntar sobre as células da glia. Há um mundo novo a descobrir dentro de si.
(continua)

António Piedade

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Sfumato na Dopamina de Mona Lisa!


"Uma equipa de investigadores, constituída por neurobiólogos, imagiologistas e matemáticos, estudaram durante duas semanas o rosto de Mona Lisa no famoso retrato de Leonardo da Vinci.

Os resultados foram agora divulgados em conferência de imprensa e vão ser publicados numa revista científica de elevado prestígio.

O objectivo da investigação foi o de determinar se existe ou não concordância entre o enigmático sorriso e os níveis de dopamina (o neurotransmissor mais associado ao prazer da recompensa) no encéfalo do modelo, Lisa del Giocondo, durante a pintura do retrato.

Neste estudo foram usados algoritmos que analisam o estado de contracção relaxação dos cerca de 50 músculos faciais que sustentam a arquitectura do sorriso e interpolam os níveis de actividade das vias neuronais responsáveis por tal controlo. As soluções são depois sobrepostas com os níveis de actividade das vias dopaminérgicas responsáveis por um tal sorriso e calculado o grau de verosimilhança da emoção por de trás do mesmo.

Para grande espanto de todos os envolvidos, a equipa de cientistas chegou à conclusão de que o conhecimento actual é insuficiente para interpretar os resultados obtidos: a incerteza associada aos valores determinados sustentaria qualquer conclusão!

De facto, um problema técnico impediu os cientistas de eliminar o efeito da técnica sfumato, utilizada por Leonardo, a qual causa interferência aleatória na informação medida, impedindo a distinção entre as diferentes amostragens e os respectivos valores de controlo.

Por isso, a equipa de cientistas, depois de acérrima votação de braço no ar, decidiu efectuar uma segunda visita ao Museu do Louvre, onde está exposta a obra do génio renascentista, quando o conhecimento e a tecnologia permitir repetir a experiência e obter resultados claros sobre se Mona Lisa estaria ou não a sorrir neuronalmente. Ou seja, se o sorriso corresponde de facto ao que Lisa del Giocondo estava a sentir quando foi pintada por Leonardo da Vinci entre 1503 e 1507.

A próxima visita ficou agendada para o ano de 2015."

Este é um texto de pura ficção. Mas já agora, o que é o afasta da realidade actual?

António Piedade