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segunda-feira, 29 de agosto de 2016

"Experimenter". Um filme sobre os estudos de Stanley Milgram

Na introdução do capítulo Influência social, do livro Psicologia social, Leonel Garcia-Marques coloca esta questão:
"Se estivesse a participar numa experiência de aprendizagem por referência de aprendizagem, chegaria ao ponto de punir os erros de alguém com choques eléctricos que pusessem em risco a vida dessa pessoa? Nunca, pois não? Eu, se fosse a si não estaria tão seguro, e sabe porquê? Porque grande parte dos sujeitos que participaram em experiências de influência social fizeram coisas assim" (p. 201).
Imagem retirada daqui.
Mais adiante, no ponto 4 do mesmo capítulo, intitulado O respeitinho é muito bonito: as experiências de Milgram, Garcia-Marques explica as famosas experiências de Stanley Milgram (imagem ao lado) sobre a obediência à autoridade, publicadas em 1963 e que são objecto de um filme americano - Experimenter - recentemente estreado (imagem  abaixo).

Justifica-se a atenção passado mais de meio século, pois elas estão entre as mais amplamente discutidas dentro e fora da psicologia. "Foram discutidas em igrejas e associações cívicas, na comunicação social e em inúmeros livros dirigidos ao grande público. As filmagens das experiências foram dos mais vendidos filmes da psicologia científica e até surgiram excertos delas em filme de Hollywood" (p. 229).

Imagem retirada daqui
O psicólogo social que citamos, professor da Universidade de Lisboa, questiona: "porquê tão grande sucesso?". E aponta várias razões, destaco duas: são "surpreendentes e assustadoras" e "parecem comparáveis a acontecimentos terríveis da história recente da humanidade". Explica:

[Segundo Milgram], "a obediência é um fenómeno tanto comum como útil (...) útil porque garante o funcionamento rápido e eficaz das nossas complexas estruturas sociais (...) mas também representa um perigo para a democraticidade e humanidade da nossa civilização (...). Milgram pretendeu estudar em laboratório até onde são capazes de ir pessoas normais que se limitam a obedecer" (p. 229). E foi assim que aconteceu há 53 anos na Universidade de Yale:
"... participaram quarenta sujeitos com idades compreendidas entre os vinte e os cinquenta anos, que se apresentaram em resposta a um anúncio de jornal. As suas profissões iam desde carteiro e professor até ao engenheiro e vendedor (...).
Um sujeito crítico e uma «vítima» (comparsa do investigador) recebiam a seguinte explicação: «Presentemente sabemos muito pouco acerca do efeito de punição na aprendizagem, por se não terem realizado praticamente nenhuns estudos verdadeiramente científicos com sujeitos humanos. Por isso, estamos a juntar uma série de adultos com diferentes ocupações e idades, e estamos a pedir a alguns deles que sejam professores e a outros que sejam aprendizes. Queremos saber que efeito pessoas diferentes têm umas nas outras, enquanto professores e aprendizes, e qual é o efeito que a punição terá nesta situação. Portanto, pedirei a um de vós para ser professor e a outro para ser aprendiz. Alguém tem alguma preferência?»
O sujeito crítico e o comparsa tiravam à sorte (...) e ao primeiro calhava sempre ser professor (...) eram levados para uma sala (...) e o aprendiz era atado a uma «cadeira eléctrica»
Muito sumariamente, numa encenação criada, era dito ao «professor que seriam dadas tarefas ao «aprendiz» (por exemplo, memorização de pares de palavras) e, caso este respondesse errado, deveria aplicar-lhe choques eléctricos de intensidade crescente, podendo chegar aos que faria perigar a vida. O «professor» teria de operar numa máquina com interruptores organizados por ordem de voltagem.

A partir da aplicação de um certo patamar de «voltagem», os «professores» tendiam a protestar, recusando-se alguns a continuar, mas eram estimulados pelo investigador. Também queriam saber, caso acontecesse alguma coisa de mal ao «aprendiz», de quem era a responsabilidade, ao que o investigador respondia que seria inteiramente sua, deles, «professores». Ainda assim, muitos continuavam (trinta e cinco em quarenta), chegando a «aplicar» a voltagem capaz de matar.

A observação (directa e em vídeo) do comportamento dos sujeitos revelou uma tensão progressivamente mais acentuada: "suavam, tremiam, riam nervosamente, mordiam os lábios e murmuravam continuamente. Muitas vezes diziam que tinham de parar e... continuavam" (p.223).

Milgram não se ficou por esta experiência, fez muitas outras (sobretudo variações desta), das quais tirou diversas conclusões que em muito contribuíram para assombrar a imagem que temos da condição humana.
Uma delas é a seguinte (as palavras são do próprio investigador, que não ficou indiferente a essas mesmas conclusões): "uma proporção substancial de pessoas faz o que lhe mandam, qualquer que seja o conteúdo do acto e sem entraves de consciência, desde que considerem que o comando é emitido por uma autoridade legítima" (p. 235).
Apesar dos problemas éticos que, desde o início, esta experiência levantou pelo tipo de manipulação que envolveu (submetida agora a uma comissão de ética em investigação, certamente não seria autorizada), vale a pena (voltar a) pensar nela, no caso, pela mão do cinema.

Afinal, em certos aspectos a arte, pela liberdade interpretativa que lhe é característica, pode explorar aspectos do humano que a ciência, com todas as suas (necessárias) amarras de objectividade não pode.

Referência bibliográficaGarcia-Marques, L. (1997). Influência social. In J. Vala & M. B. Monteiro. Psicologia social (pp. 201-257). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.


quarta-feira, 9 de março de 2016

A descoberta de um gene

Tal como precisamos de todas as peças de um puzzle para podermos entender na sua plenitude a imagem que compõe, em investigação científica precisamos conhecer muitos detalhes bioquímicos dos processos para podermos dizer, com rigor, que determinados genes têm funções específicas.

Foi o que fizeram os investigadores do Laboratório de Fisiologia Celular e Ressonância Magnética, do ITQB NOVA, que descobriram uma nova via para a síntese de fosfolípidos, componentes fundamentais das membranas celulares, e os genes responsáveis, com resultados publicados em julho de 2015,na Environmental Microbiology.



Hoje às 12h, no auditório do ITQB NOVA, em Oeiras, a investigadora Carla Jorge conta-nos sobre o processo desta descoberta. A entrada é livre.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Da engenharia verde

E se o petróleo fosse gradualmente substituído por resíduos da agricultura e jardins? Obteríamos combustível "verde", com vantagens para o ambiente e ecossistemas. Os primeiros passos foram dados por uma equipa de investigadores portugueses, do LNEG, e já obtiveram resultados promissores que poderão ser alavancados se implementados a uma escala industrial.

Este projeto foi vencedor nos Green Project Awards. Assistam à entrevista ao investigador César Fonseca, na SIC Notícias:



terça-feira, 25 de março de 2014

MAIS UMA CAMPANHA DO GOVERNO CONTRA A CIÊNCIA EM PORTUGAL

Mais uma arma de arremesso da vergonhosa da campanha deste governo contra a ciência, para alimentar a narrativa desonesta de que está tudo mal com a ciência em Portugal e de que é preciso acabar com ela. A Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência, que não sabe quantificar a fuga de cérebros, produziu um relatório comparativo sobre o impacto da ciência em Portugal e na Europa, sem ter em conta as diferenças de financiamento nos vários países.

De acordo com esse relatório, estaríamos na cauda da Europa no que diz respeito ao impacto da ciência produzida em Portugal, avaliada pelo número de citações médio por artigo científico, que em Portugal é de 5,58 citações por artigo, na UE15 é s 6,29 e na Dinamarca de 8,49.


Gráfico: DGEEC

Como muito bem nota a jornalista Ana Gerschenfeld no PÚBLICO, o investimento na ciência entre Portugal e o da média da UE15 são ainda mais díspares do que o impacto das publicações. No nosso país o investimento na ciência é de 275,9€ por habitante, ao passo que a média da UE15 é de 610€ por habitante. Mais baixo só mesmo na Grécia, que investe na ciência apenas 126€ por habitante.


terça-feira, 4 de outubro de 2011

PROJECTO SOBRE DESPERDÍCIO ALIMENTAR GANHA PRÉMIO IDEIAS VERDES 2011


O Prémio Ideias Verdes, promovido pela Fundação Luso e pelo Jornal Expresso, foi este ano atribuído ao projecto PERDA – Projecto de Estudo e Reflexão sobre Desperdício Alimentar”, da autoria de Sofia Guedes Vaz que tem como objectivos estudar e sensibilizar para o desperdício alimentar.

Um vídeo apresentado durante a cerimónia de entrega do prémio, que decorreu durante o Green Festival:

“Taste the Waste“ — the trailer from tastethewaste.com on Vimeo.

Segundo o anúncio do prémio:

O projecto premiado tem como objecto a investigação e sensibilização ambiental, centradas na análise do desperdício alimentar em Portugal, focando na sua dimensão social e ambiental. Visa estimular a mudança de comportamento, e prevê utilizar como ferramentas de trabalho e divulgação, um diário de bordo online onde cidadãos e investigadores podem deixar contributos, kits pedagógicos para professores e um livro científico. O estudo concentrar-se-à nos três grandes segmentos do sistema alimentar: produção agrícola,distribuição e consumo.

O trabalho será levado a cabo por sete investigadores, de institutos académico e áreas de estudo diferentes: Sofia Guedes Vaz, Graça Martinho e Ana Isabel Silveira da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, Iva Miranda Pires da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas -UNL, Cláudia Soares da Universidade Católica, David Sousa e Susana Valente do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.

A temática da alimentação saudável e do desperdício alimentar é, sem dúvida, de grande actualidade, face às dificuldades económicas que as famílias portuguesas atravessam. A divulgação deste estudo (que se realizará no prazo de um ano) permitirá transmitir, de uma forma acessível e apelativa, o conhecimento científico e a sua aplicação no quotidiano nacional.

A Sofia Guedes Vaz, autora do projecto, é uma das Cientistas de Pé, projecto que venceu o mesmo prémio no ano passado, portanto uma bicampeã de Ideias Verdes!

sábado, 13 de novembro de 2010

"Nunca é tarde"

José Morais, professor jubilado de Psicologia da Universidade Livre de Bruxelas (na imagem ao lado), Paulo Ventura, professor da Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa, integram uma equipa internacional, liderada por Stanislas Dehaene do Instituto Nacional da Saúde e da Investigação Médica francês, que desenvolveu o primeiro estudo cujo objectivo era comparar o funcionamento cerebral de analfabetos, ex-analfabetos e letrados. Isto ao abrigo da teoria da reciclagem neuronal, defendida por Stanislas Dehaene.

O artigo - How Learning to Read Changes the Cortical Networks for Vision and Language - em que se dá conta desse estudo foi publicado na versão online da revista Science há dois dias e dá conta do impacto da aprendizagem da leitura no córtex cerebral.

Ao jornal Público José Morais explicou que "o cérebro dos ex-analfabetos só em poucas coisas difere do dos alfabetizados, está muito mais próximo destes (...). Ensinar alguém a ler na idade adulta tem os mesmos efeitos do que ensinar uma criança. É uma boa notícia, não há razão para desistir dos iletrados". As diferenças entre o cérebro leitor e aquele dos que nunca aprenderam a ler é que são todo um rol.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Da informação ao conhecimento e do conhecimento à sabedoria

No ano passado, teve lugar em Estocolmo um congresso organizado pela Academia Europea e pela Fundação Wenner-Gren intitulado "From Information to Knowledge and from Knowledge to Wisdom" no qual fiz uma intervenção convidada sobre as bibliotecas da Universidade de Coimbra. O livro com as várias contribuições acaba de ser publicado pela Portland Press: aqui. A minha contribuição, "Conserving ancient knowledge for the modern world", está aqui.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

O sucesso da Critical Software



A Critical Software (http://www.criticalsoftware.com) obteve a mais prestigiada e reconhecida certificação de qualidade no domínio da Engenharia de Software – o CMMI Nível 5. Esta certificação é concedida pelo Software Engineering Institute (SEI), uma autoridade no que toca às melhores práticas em engenharia de software....

Estudos recentes indicam que as empresas, em média, gastam 65% do tempo das equipas responsáveis pelas suas aplicações informáticas a resolver problemas, corrigir bugs, ou redesenhar funcionalidades mal concebidas; na prática, isso significa que apenas cerca de um terço do tempo de tais equipas é dedicado à definição e construção das soluções que os seus negócios exigem.

Com o modelo CMMI5, e aplicando técnicas de six-sigma, a Critical Software está a trabalhar para entregar software 99,9997% livre de erros e encurtar o seu ciclo de desenvolvimento; o mesmo modelo e técnicas são utilizados para melhorar a precisão e consistência das suas estimativas para o desenvolvimento de soluções. Tal significa maior eficácia, maior eficiência, e maior previsibilidade – ou capacidade de planear, antecipar, dimensionar. Em resumo, maior valor para o investimento dos nossos clientes.

Continuando a política de rigor e exigência que a guia desde o início, a Critical Software junta-se agora a um grupo de empresas altamente respeitado, detentoras do mais relevante certificado de qualidade na área de engenharia de software. Um grupo que, na Europa, contará apenas com cerca de 20 empresas.

É um orgulho, como Português e como cidadão de Coimbra, ver a Critical Software colocar o seu nome na base de dados do SEI (http://sas.sei.cmu.edu/pars/pars.aspx) – e de ser a primeira empresa portuguesa a conseguir fazê-lo.

Cinco estrelas!!!

Parabéns ao Gonçalo Quadros e a toda a equipa da Critical Software.

Sobre a Critical Software (Radar de Negócios, RTP2, 2009):


Aqui há emprego, Grande Reportagem RTP1 (2009):

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

PROJECTO DEGÓIS DE CURRÍCULA


Informação recebida do projecto DeGóis - Fundação de Ciência e Tecnologia (na figura Damião de Góis):

A plataforma DeGóis de curricula científicos http://www.degois.pt/ deu mais um passo na sua consolidação como plataforma de suporte à informação curricular da comunidade científica nacional com a possibilidade de utilização do CV DeGóis nos concursos da FCT iniciada em 2009.

No ano de 2009 a Plataforma DeGóis teve um grande desenvolvimento junta das instituições, algumas das quais tem promovido estratégias internas de adesão conseguindo grande mobilização dos seus investigadores. Outras instituições irão promover iniciativas nesse sentido proximamente. Contamos, como complemento das iniciativas das instituições, com a participação activa das faculdades/escolas, dos departamento e dos centro de investigação na mobilização dos seus investigadores e caso necessário poderão contar com a nossa ajuda para o desenvolvimento de estratégias locais.

Actualmente já há:

- 7800 investigadores registados cujos CV já ultrapassam as 20.000 visualizações mensais;

- 47 instituições aderentes (universidades, institutos politécnicos e institutos de investigação) mais 4 em fase de adesão;
- mais de 120.000 referências científicas registadas;
- mais de 51.000 referências técnicas registadas;
- mais de 800 referências artísticas/culturais registadas;
- mais de 85 patentes registadas.

Já disponibilizámos nas últimas semanas, às instituições que o solicitaram, uma ferramenta que permitirá a todas instituições e respectivas unidades orgânicas (universidades, politécnicos, faculdades, escolas, departamentos e centros de investigação) ter acesso à informação dos seus investigadores para efeitos de gestão e acompanhamento da produção científica e técnica dos seus membros e para produção automática de relatórios de produção científica.

Também já está disponível a integração do DeGóis com o RCAAP http://www.rcaap.pt/ e respectivos repositórios institucionais, num trabalho conjunto entre as equipas das duas plataformas. Esta integração permite que depósitos efectuados nos repositórios institucionais enviem automaticamente a informação para os CV dos investigadores e vice-versa.

Mas a aposta mais importante de 2010 será na qualidade da informação registada nos CV e a adesão generalizada dos investigadores, para isso gostaríamos de poder contar com a colaboração de todos os investigadores na actualização permanente do seu CV e na mobilização dos investigadores ainda não aderentes.

A criação e actualização do CV é feita em http://curriculum.degois.pt/, caso não se recorde dos dados de autenticação poderá usar a respectiva opção para os recuperar, o sistema envia-os automaticamente para o e-mail registado no CV. Para pesquisar CV use a opção “Visualizar curriculum” em http://www.degois.pt.

Caso seja responsável por uma unidade orgânica de uma instituição aderente (universidade, instituto, centro, faculdade, escola, departamento, etc) pode solicitar-nos uma conta para acesso à área institucional onde poderá ter acesso à produção dos investigadores dessa unidade em forma de relatório.

Documentos de apoio:

Manual de básico de utilização: https://curriculum.degois.pt/Downloader?tp=UERG&fn=SGVscC9HdWlhUHJlZW5jaGltZW50b0NWLnBkZg==&title=Guia de Preenchimento do CV

Áreas de conhecimento (FOS 2007) http://www.degois.pt/FOS2007PlatDegois.pdf

Leonel Santos
(Projecto DeGóis – Fundação para a Ciência e a Tecnologia)

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

HUMOR: INVESTIGAÇÃO 2

HUMOR - INVESTIGAÇÃO 1

INVESTIGAÇÃO: A CONSTRUÇÃO DO SABER


Agora que se está a tratar da avaliação dos professores do ensino superior é oportuno voltar ao tema da missão da universidade. Recupero, para isso, um texto, que publiquei em "A Coisa Mais Preciosa que temos" (Gradiva, 2002), um volume quase esgotado:

O sociólogo António Barreto elencou numa página do jornal “Público”, para melhor as sujeitar a exame, algumas ideias feitas sobre o ensino em Portugal. Uma delas é que “a universidade existe para ensinar”. Logo um professor do ensino secundário lhe saiu ao caminho, admiradíssimo, interrogando-se e interrogando-nos: “Mas para que mais é que pode servir?”

A culpa da ignorância do professor poderá não ser só dele. Será obviamente também da universidade onde deve ter andado pelo menos quatro anos, tempo esse que, pelos vistos, não foi suficiente para ter reparado na primeira função dessa escola superior. Podia ao menos ter lido os livros do autor que pretendia contradizer, para melhor preparar a sua crítica. Se o tivesse feito, teria reparado que António Barreto, no seu livro “Os Silêncios do Regime”, saído em 1992 na Editorial Estampa, fazia a necessária pedagogia:

“As Universidades portuguesas sempre fizeram sobressair, entre todas, a função primordial do ensino. Isto, em detrimento do que deveria ser o seu principal objectivo: o conhecimento. Ou, noutras palavras, a aquisição, o desenvolvimento, a crítica e a renovação do conhecimento. (...) Consagrado o primado do ensino, termos como ‘cientista’ ou ‘investigador’ têm pouco uso nas nossas escola, ao contrário de ‘docente’ na sua mais redutora visão.

Um outro autor, o matemático João Queiró (in “A Universidade Portuguesa – Uma Reflexão”, Gradiva, 1995) disse o mesmo por outras palavras:

“A universidade é um sítio onde se estuda. Não é um sítio onde se ensina, muito menos um sítio onde se avalia, muito menos ainda um sítio onde se passam diplomas.

Essa função primordial da universidade não é nova. Foi enunciada pelo alemão Alexander von Humboldt no século XIX: a universidade serve, em primeiro lugar, para investigar, serve para disseminar cultura e serve, ainda, para ensinar. Esta missão plural da universidade contrasta com a função exclusiva de formação profissional, que prevaleceu na Idade Média quando as faculdades principais eram Teologia, Cânones (Direito Canónico), Leis e Medicina. Modernamente acrescenta-se à trilogia de Humboldt a prestação de serviços à comunidade, a qual nem sempre se faz sem prejuízo da criação de saber ou da difusão de cultura.

Numa universidade que se preze, em primeiro lugar cria-se, constrói-se saber. Se assim não fosse, o ensino aí professado depressa se tornaria anquilosado. Ensinar-se-iam repetida e acriticamente as mesmas matérias... Uma universidade em que só se ensine devia antes ser chamada liceu superior. O crítico de Barreto deve ter andado num liceu superior, mero retransmissor de conhecimentos, formador (formador? talvez melhor informador) de pessoas que poucas possibilidades terão de criar conhecimento novo e original.

A investigação consiste precisamente na construção de novo saber. Poder-se-ia fazer um inquérito sociológico e perguntar à população nacional o que é investigar. Para alguns, as que só andaram num liceu ou num liceu superior, investigar talvez seja sinónimo de ler. De facto, quem investiga lê muito. Mas ler não é sinónimo de investigar (está equivocado aquele professor universitário que afirmou que investigava, sim senhor, pois até preparava as suas aulas). Talvez outros associem a investigação à pesquisa criminal. Com efeito, um agente da Polícia Judiciária é vulgarmente conhecido por investigador. Talvez esta acepção esteja mais próxima da verdadeira do que a anterior. Sherlock Holmes, ao descobrir o autor de um crime, está afinal a fazer algo parecido com o que faz um investigador científico.

Qual é então uma boa definição de investigação? Investigar é realizar uma “pesquisa crítica e sistemática, com base por exemplo na experimentação, que se destina a rever conclusões aceites à luz de factos novos.” Repita-se para esclarecimento dos que pensam que investigar é simplesmente ler o que alguém escreveu: “Rever conclusões aceites à luz de factos novos”.

É evidente que investigar não é tarefa fácil. Se o fosse, o número de investigadores seria muito maior. Conforme notou Henry Rosovsky, professor de economia que foi “dean” da Faculdade de Artes e Ciências da Universidade de Harvard, em Boston, e escreveu o interessante livro sobre a missão das universidades “University: An Owner’s Manual” (vem lá a definição anterior de investigação), mesmo nos Estados Unidos, que tem as melhores universidades do mundo (como precisamente a de Harvard), poucos professores universitários são investigadores. Nas chamadas “research universities”, todos os professores são investigadores, sendo escolhidos justamente pelo seu currículo de investigação. Mas, em muitos “community colleges”, que são a maior parte das escolas superiores, os docentes são pessoas que pouca ou nenhuma ideia terão sobre o que é a investigação. Em Portugal não há ainda bons “rankings” de universidades, mas, quando os houver, semelhante destrinça será decerto feita.

Há quem diga que não se pode fazer tudo bem ao mesmo tempo. Um bom investigador não pode ser um bom professor. E um bom professor não pode ser um bom investigador. Se há tempo para uma coisa não haverá para a outra. Rosovsky pergunta então quais poderão ser as motivações para um aluno ingressar numa “research university”, isto é uma verdadeira universidade, em vez de ir para um “university college”. E dá a resposta, enumerando três ordens de razões.

1) Um professor que também constrói o conhecimento é um optimista. Ele acredita que é possível saber e faz por isso. É uma pessoa curiosa a respeito do mundo e, portanto, necessariamente mais interessante aos olhos dos seus alunos. Na peça “Jacques Le Fataliste”, que Dennis Diderot escreveu e que Milan Kundera reescreveu, um pessimista afirma repetidamente que “está tudo escrito lá em cima”. Ora bem, para um investigador, não está tudo escrito lá em cima: pelo contrário, pode escrever-se cá em baixo e ele escreve...

2) Um professor em exclusivo, uma vez atingido o topo da carreira, tende a “enferrujar” se for repetindo as mesmas matérias. Mas o mesmo não se passa com um investigador activo, que tem sempre problemas novos em que pensar, locais novos onde ir e pessoas interessantes para conhecer. Escreve artigos e frequenta congressos, evitando o tédio. O romancista inglês David Lodge diz justamente que as três tecnologias que mudaram a universidade foram a fotocopiadora, o telefone e... o avião a jacto.

3) Embora seja difícil medir a produtividade pedagógica (pode tentar medir-se a qualidade da docência analisando inquéritos dos alunos, mas este processo não deixa de ser falível), é relativamente fácil medir a produtividade científica: basta atentar no número de “papers” aceites, no número de citações que tiveram, no impacto das revistas que os publicaram, etc. É menos provável cometer um erro ao contratar um professor universitário atendendo apenas ao seu currículo científico do que atendendo apenas ao seu currículo pedagógico. Claro que a investigação é hoje uma actividade onde nem sempre se respeitam regras (o pacato Dr. Arrowsmith, do livro de Sinclair Lewis, não se compara aos cientistas em tremenda competição de “A Dupla Hélice”, o livro auto-biográfico de James Watson), mas, apesar de tudo, uma avaliação científica é bem mais justa do que uma avaliação pedagógica.

Em resumo: conhecer é uma obrigação essencial da universidade moderna.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

SOLUÇÕES À PROCURA DE PROBLEMAS

Post convidado de José Luis Pinto de Sá:

Numa crónica de Julho passado num jornal diário, Pacheco Pereira recordava como, nos seus tempos de estudante universitário de Filosofia há 40 anos, era regra os Professores ensinarem o que lhes interessava pessoalmente e até, em particular, o que tinham investigado longamente nos seus doutoramentos, com pouca ligação com o que faria sentido do ponto de vista de uma licenciatura coerente.

Não pude deixar de sorrir ao ler isso porque essa situação é também uma tendência nas tecnologias. Não é assim em todas as escolas, não era assim no tempo de estudante de Pacheco Pereira, e mesmo ultimamente a coisa melhorou com a maturação do corpo docente, mas há uns anos nas engenharias também era vulgar um recém-doutorado criar pelo menos uma disciplina de opção sobre o tema que investigara e, em alguns casos, criar até especialidades inteiras de Mestrado e mesmo licenciaturas. A multiplicação de cursos basicamente similares resultou dessa proliferação de doutorados, todos à procura do seu "espaço" próprio, assumida pelas estratégias de algumas escolas.

Como disse, nos últimos anos a coisa melhorou, mas há um domínio em que esse subjectivismo persiste e tem cura difícil: o dos temas de investigação. É frequente o recém-doutorado, sobretudo se o seu doutoramento foi um desses tradicionais "à francesa" que o ocupou 6 anos a investigar um assunto muito especializado, quase tudo sobre quase nada, como ironizam alguns, enquanto ia esquecendo o resto que aprendera, é frequente, dizia, continuar a investigar o mesmo tema depois do doutoramento, concorrendo a subsídios e fundos públicos ou europeus por muitos anos.

E, quando confrontado com o reparo de que deve procurar ligações à sociedade, aí vai ele à procura de problemas a que possa aplicar os temas que conhece e em que deseja continuar a publicar, dada a importação do lema americano do publish or perish. E muitas vezes conclui que a tal sociedade é atrasada e não o merece, visto não apresentar nenhum problema para a solução que ele domina e que lhe parece evidente ser o centro do mundo. E, se quando fez o doutoramento não era já docente universitário, vira-se para o Estado e exige-lhe emprego.

Claro que é possível inverter os termos deste binómio solução-problemas. Mas para isso é preciso que o Estado que financia os doutoramentos incorpore as entidades empregadoras na própria definição dos seus temas. Há muitos países avançados onde o Estado só financia investigações universitárias em tecnologia se houver comparticipação empresarial nesses financiamentos. Claro que para tal é preciso que as empresas (privadas e públicas) tenham estratégias tecnológicas, e para ter estratégia tecnológica é precisa segurança financeira, sem o que uma empresa vive obcecada pelas vendas e compromissos de pagamentos, a prazo não superior a um ou dois anos; e é preciso que, se for pública, não viva apenas para fazer boa figura perante a tutela governativa, que tem um ciclo de vida não superior ao ciclo eleitoral.

Ora nenhum desenvolvimento tecnológico leva tão pouco tempo a criar e a chegar a frutos, a não ser que consista na simples compra "chaves na mão" de algo feito lá fora, para eleitor ver...

Mas, também nas áreas não-tecnológicas o Estado pode promover uma maior ligação entre os temas de Investigação e as necessidades sociais. Porque há-de o Estado português financiar bolsas de doutoramento em História sobre a representação material da realeza assíria, por exemplo, quando não temos nenhuma base de conhecimento particular nem interesses estratégicos no Iraque, e deixar a outros a investigação histórica sobre a formação das cidades angolanas, coisa que devia interessar ao nosso Ministério de Negócios Estrangeiros (nos EUA é a CIA que muitas vezes apoia essas investigações)? Ou porque não se relacionam os doutoramentos em Sociologia às necessidades de integração das minorias étnicas imigrantes, com o apoio das Câmaras Municipais, como nos EUA? Ou ainda, porque não disponibiliza o Ministério da Defesa uma pequena percentagem do seu orçamento para, em conjunto com as nossas empresas, os nossos brilhantes académicos de Automação e Robótica que vivem nuns EUA virtuais terem algo de útil com que se ocupar, como por exemplo o desenvolvimento de um drone português?

Tenho um colega mais novo que se doutorou nos EUA há uns anos sobre a aplicação da teoria dos jogos e em particular dos conceitos de Nash à formação de preços em mercados competitivos de energia. O projecto era financiado por uma entidade interessada, e provavelmente a primeira em que pensarão será numa qualquer petrolífera. Mas não. Quem financiava esse projecto era o equivalente ao nosso Ministério Público, que queria ter meios para a detecção de fenómenos de cartelização na referida formação de preços. Imaginem termos também um Ministério Público assim...

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Investigação Científica



As PME (Pequenas e Médias Empresas), que representam 90% do nosso tecido industrial e sensivelmente a mesma percentagem do emprego, não têm capacidade financeira, nem de recursos humanos, para fazer investimento de longo prazo em I&D e muito menos de suportar I&D de risco. Na verdade, o I&D de risco é muito importante porque permite avanços significativos, em caso de sucesso na investigação, e produtos que podem ser diferenciadores no mercado. O problema é que empresas pequenas, sem cultura de investimento em I&D, não o podem fazer.

É aqui que entra o Estado e a política de I&D nacional. Um governo tem de ter uma acção concertada no apoio às empresas (o que significa apoio às PME porque, de facto, elas são a economia) e no apoio ao seu desenvolvimento. Eis algumas coisas aparentemente simples, mas que se tornam complicadas em Portugal. O Estado tem de:

1. Pagar a tempo e horas.

2. Incentivar a exportação, reduzindo impostos de forma significativa a empresas exportadoras. Isto tem de ser um imperativo nacional.

3. Incentivar a contratação efectiva de pessoas com formação superior, reduzindo os impostos às empresas que o fazem. Isto é apostar no futuro.

E, em termos de I&D, tem de:

4. Fomentar o aparecimento de novas empresas que resultem da I&D efectuado em Universidades e Centros de Investigação: incubação de ideias e empresas, apoio no desenvolvimento de projectos, aceleração de empresas e apoio a parques de ciência e tecnologia.

5. Incentivar a relação entre empresas e as instituições de I&D portuguesas, apoiando de forma efectiva projectos de I&D em consórcio que tenham em mente resultados de médio e longo prazo: apoiar significa investir, colocar dinheiro em projectos em consórcio cujo valor científico tenha avaliação internacional. Só as Universidades e Centros de I&D podem apoiar o I&D de risco, tendo por base fórmulas de financiamento que incluem uma parte pública nacional (via FCT), uma parte pública internacional (via União Europeia) e uma parte privada (das empresas).

6. Definir com clareza as áreas prioritárias para o país, canalizando para essas áreas o investimento público em I&D. Não é possível que um país tão pequeno como Portugal disperse o pouco dinheiro que tem por todas as áreas científicas. Não pode, não faz sentido. Tem de ter a coragem e a clarividência de definir prioridades, concentrando uma percentagem significativa do seu investimento nessas áreas. Ou seja, o investimento tem de ser estratificado por prioridades. É uma questão de gestão de recursos. Aliás, a União Europeia (UE) faz isso mesmo com os seus programas-quadro. Define uma agenda de I&D e abre concursos somente nas áreas que definiu.

7. Apoiar efectivamente a presença dos grupos de I&D portugueses nos programas-quadro da UE, complementando assim o financiamento nacional e equilibrando o investimento nas áreas não prioritárias que não obtiveram financiamento nacional. Verifica-se um menor sucesso nacional em projectos europeus. Isso significa que Portugal tem de ter uma presença efectiva nos centros de decisão, nas várias unidades de I&D da UE, com capacidade de influência e de apoio na elaboração e acompanhamento de candidaturas. A noção que tenho, depois de vários projectos europeus que tive aprovados, é que o apoio nacional é muito incipiente.

Em vez de gastar rios de dinheiro em obras públicas (estilo TGV), que beneficiam essencialmente empresas de fora do país (fornecedoras de tecnologia), dão emprego a pessoas pouco qualificadas e essencialmente constituídas por emigrantes (nada contra, mas não é, penso eu, prioridade do país dar emprego a emigrantes), e são investimentos sem retorno, faria todo o sentido investir na "alta velocidade" que é criar condições para tirar partido dos Portugueses: das suas instituições de I&D (muito boas e preparadas), dos projectos em consórcio (como forma de fazer avançar as empresas com I&D de risco) e do investimento nas pessoas com formação superior (a melhor forma de transferência de conhecimento entre as Universidades e a sociedade). Isso significa perceber que temos de contar connosco próprios e com aquilo que formos capazes de aprender e construir.

Mas isso coloca o foco na necessidade de planear e definir objectivos nacionais, uma coisa complicada num país que não gosta de planear e muito menos de avaliar.

My two cents...

SOBRE A INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA

Outro excerto da entrevista que dei a Fábio Rodrigues, aluno de Comunicação Social da Universidade de Coimbra:

FR- O que é que o preenche mais: passar o seu saber a novos alunos ou desbravar novo conhecimento?

CF- A nível do ensino superior, não se pode simplesmente ser professor sem se ser também investigador porque estamos a tentar passar conhecimento ao mais alto nível. Para fazer isso temos de estar não só actualizados, mas também familiarizados com o método científico, com a maneira de chegar ao conhecimento. Não podemos servir aos alunos coisas feitas e acabadas, dizendo “isto é assim e acabou-se”, mas temos antes de dizer “isto é assim e vocês, pelo menos alguns de vocês, têm a possibilidade de fazer mais”. Isto não pode ser dito por alguém que não tenha capacidade para fazer mais, de acrescentar ele próprio pedras ao edifício científico. Para mim perguntarem-me se gosto mais do ensino ou da investigação é como perguntarem-me se gosto mais do pai ou da mãe... Tive uma altura que me dediquei com maior intensidade à investigação do que hoje, mas é sempre uma actividade apaixonante. Quando dou aulas, o que também é apaixonante, sirvo-me dos conhecimentos mas também das capacidades que adquiri e adquiro na investigação. Na relação professor-aluno deve passar uma outra coisa muito importante, a atitude de prevenção perante o erro. O cepticismo é uma das atitudes fundamentais que temos de transmitir na ciência, temos de ensinar a não acreditar naquilo que outros ou mesmo o próprio acreditam, porque, muitas vezes, o segredo da ciência está em descobrir erros em pequenas coisas. No fundo, ensinar só aquilo que se sabe sem ensinar como se pode saber mais é ensinar muito pouco.

FR- Falando de investigação científica, já afirmou publicamente que, em Portugal, este sector estava ainda pouco desenvolvido...

CF- Estava e, se compararmos o nosso país com outros mais desenvolvidos, ainda está. Tem havido progresso, havendo cada vez mais pessoas a fazer ciência, mas a situação era tão má há umas dezenas de anos atrás, que pior era difícil. Quando dizemos que não somos um país avançado, devíamos dizer, para sermos mais rigorosos, que não somos um país tão avançado como podíamos ser. Não se trata aqui de uma mera competição, não se trata de ganhar uma medalha como nos Jogos Olímpicos. De facto, não é coincidência que os países mais avançados na ciência sejam também os países mais ricos, é algo que faz sentido. Não será uma relação directa e imediata, mas os países que geram mais riqueza são também os detentores de maior conhecimento. Se quisermos tomar o caminho adequado para nos tornamos mais ricos temos, necessariamente, de tomar o caminho para nos tornarmos mais sábios.

FR- Devido a esse baixo nível de desenvolvimento comparado, há cientistas que se auto-limitam por escolherem trabalhar em Portugal?

CF- A questão de trabalhar em Portugal é uma falsa questão porque em ciência não há fronteiras. Por exemplo, na física o objecto de estudo é todo o Universo, e este é único, habitado por todos, pelo que a física é a mesma para um chinês ou para um americano ou para um português. A ciência é um trabalho internacional: não há ciência portuguesa, mas sim ciência feita por portugueses ou ciência feita em Portugal. Como é evidente, sendo a ciência feita em conjunto em todo o mundo, uma das molas da investigação é a circulação de pessoas. As pessoas têm de circular. A forma que temos para evitar erros é haver uma comunicação permanente de resultados, o que se faz melhor em directo e ao vivo. Sendo assim, há pessoas que saem e que entram do país. Contudo tenho a impressão que esse saldo nos tem sido positivo nos últimos tempos. Houve um tempo que para fazer ciência se tinha de emigrar e ficar lá por fora, mas, hoje em dia, a situação é bem diferente. Há evidentemente uma questão de mercado e alguns dos profissionais com maiores capacidades são naturalmente chamados a trabalhar nos países mais desenvolvidos a nível científico. É importante perceber que a ciência feita aqui nos é mais relevante, porque nos vai chegar mais depressa e se pode tornar mais rapidamente em riqueza. Desse ponto de vista, todo o estímulo que puder ser dado para manter cientistas aqui será uma maneira de permitir uma mais fácil comunicação, também aqui, entre criação científica e bem-estar material.

FR- Falando de mercado, qual pensa ser o papel dos privados na investigação científica?

CF- Essa é uma questão muito interessante e actual, porque um dos progressos que fizemos nos últimos tempos foi o aumento de empresas privadas a apostar na investigação, mas a percentagem de participação dos privados no investimento em ciência ainda é baixa, quando comparanda com a dos países mais desenvolvidos. Nesses países, uma parte importante desse investimento é pública, mas há uma outra parte ainda mais importante que é privada. Essa parte pode e deve crescer mais entre nós. Um dos meios para o desenvolvimento passa pela percepção das empresas privadas de que apostar na investigação pode ser lucrativo para elas. O problema, desde logo, é que algumas das empresas que trabalham entre nós são multinacionais, o que significa que a gestão e a investigação não residem aqui. Quanto às tão faladas pequenas e médias empresas, muitas delas têm de facto a ver com a ciência e tecnologia, mas a sua preocupação, e isso é muito típico dos empresários portugueses, tem sido mais a procura do lucro imediato. Uma forma para tornar uma empresa sustentável e lucrativa a longo prazo pode ser investir na investigação. Para isso, terá de se abdicar de pequenos lucros rápidos, em favor do futuro, o que, entre nós, é uma questão de mudança de mentalidade. É preciso saber planear e investir, distinguindo o curto e o longo prazo, pois uma solução para o curto prazo pode não ser a melhor opção para o longo prazo. Em geral, não é.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Sem Comentários - Fundação para a Ciência e Tecnologia de PORTUGAL




Email recebido por um colega investigador, enviado pela FCT - Fundação para a Ciência e Tecnologia.

*** Início de cópia de email ***

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Referência do projecto: PTDC/EBB-EBI/xxxxxx/xxxx
Título: xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx.
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Exmo. Senhor yyyyyyy,

Na sequência da N/ comunicação, em  2009/xx/yy, da proposta de decisão do resultado da avaliação da candidatura mencionada em epígrafe, vimos informar que a mesma passou a decisão final, tendo sido superiormente homologada em  2009/11/30.

Mais informamos que o montante concedido ao projecto, no valor de €0,00, tem enquadramento no âmbito do Projecto 3599 - Promover a Produção Científica, O Desenvolvimento Tecnológico e a Inovação.

Com os melhores cumprimentos,

Pedro Leite
Director do Departamento de Programas e Projectos de ICDT

*** Fim de cópia de email ***

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Os 20 anos da "Robótica"

A revista "Robótica" é uma das mais antigas revistas técnico-científicas portuguesas, que eu tenho o gosto e orgulho de servir, como director, desde 1998-99. Faz agora 20 anos de vida. A sessão de comemoração do vigésimo aniversário decorre no dia 13 de Novembro de 2009 em Coimbra (Pavilhão Centro de Portugal).

Convite: http://www.robotica.pt/mesa_redonda_20anos.html

O novo site da revista é: http://www.robotica.pt
A versão electrónica da revista está online no mesmo sítio.

:-)