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sábado, 1 de junho de 2013

Temos de nos preocupar com outros riscos

No dia 1 de Junho, por ser o Dia Mundial da Criança.

“A preocupação do risco depende, 
 evidentemente, do lugar que a criança 
ocupa nas preocupações da sociedade” 
Maria Antónia Lopes (historiadora), 2004.

“A criança deve ser protegida contra todas 
 as formas de abandono, crueldade e exploração.”
Artigo 9.º da Declaração dos Direitos da Criança
(20 de Novembro de 1959).

No “século da criança” evidenciaram-se vários riscos que fazem perigar o desenvolvimento biológico, físico, afectivo, relacional dos mais jovens: alimentação, higiene, conforto, segurança... No mundo ocidental foram tomadas medidas fundamentais que é preciso preservar: No momento critico pelo qual passamos, temos de fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para que essas medidas continuem a ser asseguradas.

Mas, neste século, estarão as crianças sujeitas a antigos riscos mistificados ou a novos riscos indetectáveis? Sim, estão.

Eis alguns, de entre os mais evidentes:

- O risco de não brincar (limitada que está a uma panóplia de jogos, brinquedos e máquinas "apelativas" que se lhe impõem);
- O risco de não ser vista como igual (por via do discurso "politicamente correcto" do "direito à diferença");
- O risco de não poder ter um espaço de privacidade e de intimidade (por via da constante intrusão nesse espaço e do exemplo social);
- O risco de ser manipulada (pelas mais diversas entidades comerciais, ideológicas que pretendem afirmar-se no mercado, na escola);
- O risco de não reconhecer valores fundamentais e de não ser disciplinada (tendo em conta o pensamento vigente que afirma os valores como relativos, subjetivos e, nessa medida, dependentes de si própria);
- O risco de não adquirir conhecimentos relevantes (tendo em conta o pensamento vigente que afirma a supremacia do valor utilitário acima de tudo o resto);


terça-feira, 10 de abril de 2012

Não seria de começar pela educação?

A opinião pública acorda, os governos seguem-na. Portugal não é excepção.

Parece que a sociedade percebeu que os bandos de crianças e adolescentes fazem demasiado barulho pelas ruas quando os adultos decidem dormir, que partem o que lhes aparece à frente, que sujam as ruas e os becos...

Parece que a sociedade percebeu que esses bandos não lhe provocam apenas perturbação mas também preocupação: aparecem espancados, violados, doentes, mortos...

Quem pode ficar indiferente a isso?

E, devemos continuar a perguntar: está certo deixar as crianças e adolescentes entregues si próprios e uns aos outros, quando se sabe bem que correm todos os riscos do alargado menú que cidades grandes ou pequenas, vilas e aldeias disponibilizam?

Se não está certo, porque é que se chegou a um estado de (quase) abandono, de negligência dos que são mais vulneráveis e que, por isso mesmo, os adultos deveriam proteger?

É pelo medo de se parecer moralista, retrógrado, antigo? De não se "desintegrarem" os menores dos seus grupos, de não lhes causar sentimentos de "marginalização" ou outros que se supõem negativos? De não se querer negar-lhes direitos que reivindicam, de se confiar incondicionalmente neles? De desejar a sua felicidade, de não lhe impor qualquer impedimento na concretização da sua juventude? É isto tudo, numa mistura confusa, na qual não se quer pensar?

Ou, é simplesmente porque se entende que as coisas se foram tornando assim, e estão assim, e não há nada a fazer, restando pagar-se-lhes um táxi, dar-se-lhe um telemóvel e rezar para que enviem um sms e para que nada de (muito) dramático lhes aconteça?

O nosso governo anunciou ontem que este não é o caminho, que pais, professores e sociedade em geral têm de assumir o controlo da situação. Há que tomar medidas...

Sim senhor, vamos a medidas: quais são elas?

Ao que percebi só uma e tão gasta quanto inútil: proibir o acesso a bebidas alcoólicas a todos o que ainda não completaram os 18 anos para os "desincentivar de beber"... e vigiar e punir (as palavras de Michel Foucault constantemente repetidas) as entidades que prevariquem... Como se faz noutros países...

Médicos aplaudiram tal medida, tão preocupados que estão com o estado em que lhes chegam os seus jovens doentes, cada vez mais jovens e cada vez mais doentes. Percebo-os.

Mas não seria de começar pela educação? Não seria de alguém (mas quem?) dizer, serena mas afirmativamente, que os adultos que têm de assumir, em consciência, o dever de cuidar e de educar os mais novos?

Assumir o dever de educar é, afinal, preparar o outro, que ainda não é adulto, para o exercício duma faculdade especificamente humana que define o adulto: o livre arbítrio.

domingo, 25 de setembro de 2011

Como cães ou galos de luta

Como cães ou galos de luta, metidos numa jaula de rede, talvez para não ferirem a assistência, rodeados de publicidade e de adultos de olhar fixo, assim foram postas crianças a digladiarem-se.

Divulgou-se recentemente que isto se passava (ou passa?) neste primeiros anos do século XXI na velha Europa, mais precisamente na erudita Inglaterra.

Os adultos que se pronunciaram sobre o assunto parecem pessoas “normais”, daquelas que encontramos no nosso dia-a-dia: bem vestidas e arranjadas, bem falantes, gestos aceitáveis. Nada as denuncia.

As que assistem e instigam as crianças estão como se se tratasse de um vulgar jogo de futebol; os pais justificam a autorização de deixar os seus próprios filhos participar com argumentos "psicológicos" e “pedagógicos” que, possivelmente, registaram de programas de televisão para as famílias; os donos do clube onde tal aconteceu, obviamente que não lhes ficam atrás e mostram muita estranheza por algumas entidades responsáveis pela segurança na infância se indignarem com as imagens postas na grande paraça pública que é a internet; ao que li até a própria polícia local não vê bem onde estará uma razão para intervir.

É talvez a "banalidade do mal", mas parece-me que numa forma algo diferente daquela que H. Arendt viu.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

A persistente confusão entre brincadeira e trabalho

Uma criança de dez anos é vestida, maquilhada, arranjada de diversas maneiras. É fotografada em poses várias e as fotografias publicadas numa revista internacional de moda. Mais: é capa.

Olha-se para a criança e não se diz que é uma menina, diz-se que é uma mulher. Mas não uma mulher qualquer. Com base nos referenciais que usamos para discriminar o quotidiano, não me parece haver lugar para equívocos: o modelo de “produção” subjacente é “de mulher fatal”.

Jornais, revistas, televisão, internet apresentaram e comentam o caso, convocam-se os direitos dos menores, a profissão e os comentários dos pais, a exploração do trabalho infantil, ouvem-se especialistas, profissionais, pessoas anónimas… o comum.

Detenho-me numa entrevista dada ontem ao Diário de Notícias por uma estilista portuguesa, que também prepara e selecciona manequins. Afirma a senhora, em várias passagens, que a menina em causa terá encarado a fabricação da personagem e a sua exposição como uma brincadeira. Todas as meninas com a idade daquela menina gostam de vestir aos fatos e calçarem os sapatos das suas mães, de se maquilharem como elas e de usarem as suas jóias. Isto é brincar. Um brincar de que as crianças, particularmente, gostam.

Mais uma vez a confusão entre a brincadeira e o trabalho.

A brincadeira das crianças é entre elas, sem interferência (directa) de adultos. São elas que decidem ao que brincar e como brincar... Quando os adultos dizem às crianças o que fazer e como fazer, não é brincadeira e muito menos se daí resultam benefícios financeiros. Neste caso, é trabalho. Mais concretamente, trabalho infantil.

Onde é que está a dúvida? Será que um século – o Século da Criança, que foi o século XX – não bastou para alicerçar este conceito? Ou será que os efeitos de tanto pensar sobre o assunto se estão a esbater?

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Passeios com química, árvores e crianças na rua


Uma sugestão atrasada para o Dia da Criança, mas talvez ainda actual. Aproveitar o Ano Internacional da Química e das Florestas e sair para a rua com as crianças à procura de química e das árvores.

Nos Arcos do Jardim ou em construções de betão podem ver-se as estalactites artificiais que se formaram por precipitação de carbonato de cálcio, o principal componente das rochas calcárias. Nalguns casos podem ver-se manchas castanhas de sais, provavelmente, de ferro. Nos monumentos podem ainda observar-se as marcas das chuvas ácidas, a formação de gesso (camadas pouco compactas de material branco) e o aparecimento das crostas negras devidas ao carbono, compostos muito ricos neste elemento e poeiras que circulam no ar. Notar que é a mesma cor negra que adquirem as pastilhas elásticas, as quais, infelizmente, se vão encontrando pelo chão por todo o lado. (Uma oportunidade educacional, mas convém não exagerar!)

Observemos os metais que nos rodeiam. O aspecto e a cor característicos da ferrugem, comparados com a cor do ferro e do aço não enferrujados, o verde da oxidação do cobre, em contraste com a sua bem conhecida cor castanha. A cor cinzenta, por vezes com manchas de diferentes tonalidades, do aço galvanizado (revestido de zinco) e a sua resistência à corrosão. Usar um íman para testar se os metais têm comportamento (ferro)magnético: verificar que o cobre e o alumínio não são magnéticos em contraste com o ferro. Testar as moedas de dois a dez cêntimos e concluir que por baixo do seu cobre exterior deverá haver ferro ou outro metal magnético. Notar o comportamento magnético do ferro galvanizado e das latas de refrigerantes (mas não da tampa de abertura fácil, porquê?). Mas, ao mesmo tempo, como verdadeiros cientistas, estarem preparados para encontrar factos aparentemente discrepantes: alguns tipos de aço inox não são magnéticos por terem uma estrutura cristalina que não origina o comportamento ferromagnético.

No Jardim Botânico podem ser recolhidas folhas (no chão) de diferentes eucaliptos. Um momento para prestar atenção aos odores. Notar o cheiro da relva acabada de cortar, das flores, da terra molhada. E voltando aos metais: porque parecem as moedas ter cheiro quando lhes tocamos? Os químicos já investigaram: porque, nas nossas mãos, os metais catalisam reacções de formação de compostos com odores característicos a partir dos compostos nosso suor. Nem sempre temos explicação para tudo, mas é isso que torna a vida interessante. Quem não tem dúvidas, ou sabe tudo, aborrece-se muito!

Olhar com atenção para as árvores dos parques e das ruas. Reparar nos seus frutos (alguns comestíveis, outros não), folhas e flores. Sentir os seus cheiros, tentar identificar os seus nomes e conhecer as suas histórias. Coleccionar folhas, observar os pássaros. Tomar notas, observar, desenhar. Aprender que o esforço e a dedicação dão os melhores frutos. Contar montes de terra das toupeiras, encontrar grilos (mas não os molestar). Sujar as mão com terra e depois fazer experiências a lavá-las. Primeiro só com água e depois com sabão para confirmar que a sujidade que não saiu com água se manifesta de forma bem visível (experimentar na parede do lavatório antes de sujar a toalha.)

Agora que começa o calor, podemos fazer algumas experiência simples com água na rua. Verificar que o gelo flutua e que o nível da água não se altera. E que os pedaços de maça flutuam, mas não os de batata, notando que estes últimos podem ser levados a flutuar se a água tiver muito sal dissolvido. Colocar clips de metal a flutuar num copo com água para observar o efeito da tensão superficial. Ou modelar pequenos barcos em folha de alumínio. Juntar uma gota de detergente e ver que os clips e alguns barcos se afundam, mas não as bolas de papel de alumínio, porquê? Relacionar as observações com os insectos que caminham sobre a água (os alfaiates) e com os patos que nadam no rio.

O indicador de couve rocha é muito fácil de preparar: ferver umas folhas deste legume em água, deixar arrefecer e já está. O vinagre, o limão e outros materiais ácidos, em contacto com esta solução, ficam de um vermelho muito intenso, enquanto os materiais básicos apresentam gradações de azul, verde ou amarelo. Os detergentes das máquinas de lavar e a lixívia são os materiais mais básicos e também os mais perigosos. Aqui pode relembrar-se às crianças os símbolos de perigo que são colocados nestes produtos. Podem também preparar-se sumos naturais e artificiais de framboesa ou uva e usar bicarbonato e vinagre para testar quais são os que têm corantes naturais e artificiais (os últimos não mudam de cor).

Podemos ainda extrair com um íman o ferro dos cereais enriquecidos neste elemento, depois de os triturarmos bem. Separar os corantes alimentares de doces coloridos, ou os corantes artificiais usados nas canetas de feltro, usando uma técnica da cromatografia rudimentar: colocar uma tira de papel com as manchas dos corantes num copo pequeno com uma pequena quantidade de álcool e observar.

Actividades mais elaboradas, acompanhadas por monitores entusiastas e bem preparados, podem ser encontradas no Museu da Ciência da Universidade de Coimbra ou no Exploratório Infante D. Henrique, claro. Mas não é o mesmo que sermos nós a fazê-las, mesmo correndo o risco de falhar. E a frustração e o erro podem também ser momentos de aprendizagem.

Hoje em dia quase já não há conjuntos de química para as crianças brincarem, e, os que existem, apenas contêm produtos relativamente inócuos como gelatina, sal e bicarbonato. Para além de fazer um pega-monstro com cola, água e borax, juntar vinagre e bicarbonato num recipiente de boca estreita para encher um balão, ou fazer um pseudo-vulcão, parecem ser as maiores emoções químicas permitidas às crianças. E no entanto, a mesma sociedade tão sensível aos potenciais riscos, vai encolhendo os ombros à velocidade excessiva nas estradas e ruas, ao excesso de doces e gorduras e a um ensino que cada vez menos valoriza a capacidade de fazer, a manipulação dos materiais e o espírito crítico.