terça-feira, 15 de novembro de 2016
ComceptCon 2016: o Cérebro
sábado, 25 de janeiro de 2014
Redigiram os seus regulamentos disciplinares e... descansaram.
Quer dizer, presumo que tenham descansado, pois do que me é dado perceber, em muitas faculdades e cursos, os comportamentos problemáticos dos alunos, de esporádicos passaram a habituais (ver, por exemplo aqui) e a sua severidade aumentou... Porém, nada de relevante parece acontecer.
A impressão que formei já há algum tempo, e que tenho vindo a reforçar, é a seguinte: quem deve fazer cumprir as normas opta por "assistir ao espectáculo", para evitar problemas de maior, finge que não vê nem ouve, dissimula. Além disso, de tão envolvido que está na convivência conturbada, nem se apercebe do seu agravamento, nem que todos os dias condescende um pouco mais. Isto até deixar de distinguir o que é normal e o que é intolerável nessa convivência
As razões do cenário são muitíssimas e estão bem identificadas na literatura da especialidade, por isso salto esta parte, pois o que me interessa é dizer que, por estes dias, um professor de uma universidade portuguesa, passando por alunos cujo comportamento o inquietou não seguiu em frente, parou e interveio.
Por certo, ele saberia que nada do dissesse iria ser atendido e muito menos acatado pelos alunos, mas, ainda assim, a sua consciência não o deixou avançar. Do que se seguiu, dá conta numa mensagem aberta aos colegas, que foi divulgada na comunicação social, e que se resume em três palavras: manietado, ameaçado e insultado.
Por certo, ele saberá que a divulgação do caso não terá quaisquer consequências para os alunos (ainda que possa ter para si) mas, ainda assim, a sua consciência não o deixou parar. Avançou e contou.
É uma dupla manifestação de coragem (a segunda nada menor do que a primeira) que lhe reconheço e agradeço.
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
O QUE É QUE EXCITA A MOSQUINHA DA FRUTA
Há um século atrás Thomas Hunt Morgan, e seus colaboradores, demonstraram que os genes são “transportados” por cromossomas presentes no núcleo das células eucarióticas e são a base da hereditariedade de caracteres sexualmente transmitidos.
Entre 1909 e 1911 Morgan publicou na revista Science, artigos seminais sobre o mapeamento de genes em cromossomas, associados a características sexualmente transmitidas, da pequena mosca da fruta (nome científico Drosophila melanogaster), tornando-a num modelo animal incontornável e comum para o estudo da hereditariedade genética no século XX. Pelos seus trabalhos Thomas Hunt Morgan recebeu, em 1933, o prémio Nobel da Medicina e ou da Fisiologia.
Cem anos depois de identificadas as bases genéticas da transmissão sexual de características hereditárias, Y. Grosjean e colegas investigadores europeus, publicaram na revista Nature a identificação dos receptores olfactivos responsáveis pela forte atracção da Drosophila por frutos e mostraram que esta percepção olfactiva influencia o comportamento sexual do macho da mosca da fruta. Assim que detecta uma certa substância exalada pela fruta, o ácido fenilacético (uma auxina – hormona vegetal - resultante da carboxilação metabólica do ácido acético), o macho confirma que está na presença de um local rico em alimento (a fruta) e logo muito apropriado para a postura de ovos, pelo que inicia a corte a potenciais fêmeas acasaladoras.
Refira-se, a propósito, que o ácido acético (precursor do ácido fenilacético, como se indicou acima) resulta da oxidação do etanol – produto final da fermentação alcoólica - num processo designado também por fermentação, mas desta vez adjectivada por acética.
Um odor a ácido fenilacético, traduzido pelos órgãos olfactivos em estímulos paras a vias neuronais olfactivas, desencadeia, por sua vez no cérebro da mosca, os circuitos cerebrais responsáveis pelo comportamento complexo de corte sexual que a Drosophila macho passa a exibir.
Por isso, se reparar num ajuntamento de Drosophila numa qualquer peça de fruta madura ou no mosto da vindima, seja discreto, não interrompa o cortejo esvoaçado e dançado de acasalamento.
António Piedade
domingo, 17 de outubro de 2010
A Mente Moral
Marc Hauser é um cientista da cognição que se dedica ao estudo da cognição em primatas, procurando uma compreensão da evolução da mente. Foi também, até agora, uma das estrelas mais cintilantes da Universidade de Harvard por se ter dedicado a abordar conceitos como a evolução da moralidade. Publicou mais de 200 artigos em revistas de muito elevado impacto, como a Science e a Nature, e recebeu Young Investigator Award da National Science Foundation americana. Disse foi, porque Marc Hauser foi há pouco considerado culpado de falta de ética científica pela sua própria universidade. Uma comissão nomeada pelo Reitor da Universidade de Harvard, analisou e passou a pente fino a investigação de Hauser, durante três anos, analisando todos os trabalhos desde 2002 e chegou à conclusão de que Hauser violou os princípios da conduta científica em oito situações. Três correspondem a artigos publicados e as restantes cinco a material em submissão ou de relatórios internos. Um dos artigos publicados, na Cognition, foi retirado, outro foi corrigido e o terceiro, na Science, está em discussão com os editores.
Isto foi particularmente perturbador para mim que tinha Hauser em grande consideração. Era um dos grandes cientistas da cognição. Em 2003 mostrou (Proceedins of the Royal Society) que pequenos primatas tamarins, ou Saguis-de-cabeça-branca, eram capazes de ter uma atitude diferente para outros animais da mesma espécie consoante eles os tivessem ajudado antes ou não – tendiam a ajudar mais os que lhes tinham prestado ajuda antes –, levantando questões muitíssimo interessantes sobre a evolução de conceitos éticos. Este artigo não foi alvo de críticas.
Um breve parêntesis aqui:
[A ideia feita mais comum é a de que a ética será exclusivamente humana, porque apenas nós somos seres racionais capazes de ter ética. Além de que a ética seria um produto eminentemente cultural. Passemos de lado o atestado de estupidez a nós próprios ao considerar que somos os únicos animais racionais – como se os outros fossem autómatos sem pensamento (pensem nisso quando observarem o comportamento do vosso cão e já agora leiam o excelente ‘Livro da Consciência’ de Damásio). E se não for exclusiva? Se tiver bases mais profundas presentes em culturas de outros animais?]
Mas outros trabalhos foram considerados contendo erros intencionais que conduziram a conclusões incorrectas, de forma intencional.
O que apurou a investigação de facto? Que Hauser manipulou a informação em várias situações (oito), quer na codificação/interpretação dos comportamentos observados, quer no seu tratamento estatístico.
O que sucedeu? Numa das experiências para determinar se os saguis tinham respostas diferentes perante discurso humano normal ou manipulado, com o objectivo de saber se eram capazes de reconhecimento de padrões vocais, Hauser e o aluno que fez as experiências codificaram os comportamentos dos animais, a partir de vídeos gravados das experiências. Esta prática comum visa garantir que não há enviesamentos na observação do comportamento. É comum os investigadores guardarem as cassetes para posterior inspecção por outros, se solicitado. Desta vez os resultados de Hauser indicavam um efeito e os do aluno não. Este propôs que os vídeos fossem visionados por um terceiro observador independente, o que Hauser recusou. O aluno fez isso sem o seu conhecimento e os resultados entre os alunos foram idênticos. Quando abordaram o assunto no laboratório com outros alunos, ficaram a saber que esta não era a primeira vez que isso sucedia, o que os levou a denunciar a situação à Faculdade.
Hauser foi considerado o único responsável pelos enviesamentos de interpretação.
Hauser tinha a tendência para abordar assuntos difíceis e potencialmente polémicos: evolução da linguagem, evolução da moral. Esta é também uma forma de conseguir muita visibilidade. Mas a pressão para publicar resultados surpreendentes terá sido demasiada. Ou então ele convenceu-se de que estava certo. Mas os resultados ainda não concordavam com ele. E ele não tinha tempo a perder...
Recentemente Marc Hauser publicou Moral Minds: How Nature Designed Our Universal Sense of Right and Wrong. Eu, que adquiri o livro e o comecei a ler, estou agora num dilema moral: confiar ou não no pensamento dele? É caso para dizer que faltou a moral a quem tanto queria dissecá-la.
E agora? Bem, a dúvida alastra a todo o seu trabalho, apesar de apenas se terem encontrado falhas em alguns dos muitos trabalhos analisados e muitas das suas experiências terem sido replicadas por outros com resultados concordantes.
Entre os cientistas da cognição perpassa um arrepio com receio da má fama que Hauser possa trazer a uma área de estudo tão sólida e controlada experimentalmente como outras, mas mais susceptível por envolver comparações connosco.
Grandes cientistas da cognição como Gordon Gallup, ou Franz de Waal, estão furiosos com Hauser e não lhe perdoam a sua falha de conduta.
Para já a Universidade de Harvard concedeu-lhe uma licença sabática e estou convencido de será convidado a sair. Uma falha destas é demasiado grave para ser limpa por uma retractação pública.
Outros colegas estão a preparar-se para replicar algumas das suas experiências e confirmar ou não os resultados. E acho que é mesmo isso o que há a fazer.
sexta-feira, 16 de abril de 2010
CIÊNCIA EM FAMÍLIA
Informação recebida do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra:
DESCOBRE OS ANOS INCRÍVEIS | 18 DE ABRIL (11H00)
Birras, protestos, desobediência, intolerância à frustração ou mesmo agressividade: todos pais são diariamente confrontados com as atitudes desafiadoras das crianças. Mas será que lhes respondem da melhor maneira? O programa "Anos Incríveis" já chegou a Portugal e promete ajudar as famílias a lidar com os problemas de comportamento dos mais novos. Um projecto a conhecer no Museu da Ciência da Universidade de Coimbra.
Nos EUA existe há mais de três décadas e está agora a ser implementado em Portugal para ajudar pais e educadores a prevenir comportamentos problemáticos nas crianças, desde uma simples birra à manifestação de atitudes agressivas. O programa "Anos Incríveis" vai estar em destaque no Museu da Ciência da Universidade de Coimbra. No dia 18 de Abril às 11 horas, pais e crianças são convidados a participar numa sessão que promete ajudar as famílias a interagir melhor com os mais novos.
"O grande objectivo do programa 'Anos Incríveis' é ajudar os pais a lidar com todos aqueles comportamentos mais desafiadores e difíceis - por exemplo, comportamentos agressivos, opositivos, falta de tolerância à frustração, birras e não obediência", explicam as investigadoras da FPCEUC, Andreia Azevedo e Tatiana Carvalho Homem. Mas não só: "paralelamente, pretende aumentar as competências sociais das crianças, melhorar as suas estratégias de resolução de problemas e gestão das emoções e promover as suas competências académicas e prontidão escolar", sublinham.
Segundo as investigadoras, que participam num projecto da FPCEUC sobre aplicação do programa em Portugal, "de uma forma geral, os pais que recorrem ao programa sentem-se mais competentes para lidar com os problemas de comportamento das crianças e utilizam mais estratégias positivas".
De resto, o objectivo é ajudar todas as famílias. "O programa pode ser utilizado com crianças de famílias ditas saudáveis , bem como com crianças com perturbação de comportamento já diagnosticada", frisam.
No programa 'Anos Incríveis" são trabalhadas aptidões como brincar, elogiar e recompensar a criança, dar ordens de forma eficaz, estabelecer limites, ignorar, aplicar consequências e promover estratégias de resolução de problemas.
No Museu da Ciência, Andreia Azevedo e Tatiana Carvalho Homem vão apresentar aos pais a filosofia e as principais ideias do programa "Anos Incríveis" e dinamizarão algumas actividades pensadas para os mais novos. "As crianças serão convidadas a brincar, fantasiar, desenhar, pintar, ler livros, fazer jogos, de acordo com os princípios-chave do programa. O grande objectivo é proporcionar um tempo especial a estas crianças, seguindo as suas brincadeiras e criatividade, assim como um tempo especial entre pais e filhos", revelam.
Criado há mais de três décadas nos EUA, o projecto "Anos Incríveis" tem evidenciado "resultados positivos na diminuição dos comportamentos problemáticos das crianças, no incremento das competências parentais, na interacção pais-filhos e na manutenção destes ganhos ao longo do tempo", reconhecem as investigadoras da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação.
Em Portugal, o programa tem vindo a ser dinamizado por Maria Filomena Gaspar e Maria João Seabra Santos, da FPCEUC, pioneiras no país na investigação e implementação dos "Anos Incríveis". As duas professoras coordenam, de resto, o projecto de investigação do qual fazem parte Andreia Azevedo e Tatiana Carvalho Homem e que avalia a aplicação do programa em grupos de pais de Coimbra, Lisboa e Porto. Saiba mais
domingo, 28 de fevereiro de 2010
Ensino e aprendizagem em sala de aula
Tertúlia em torno do livro Comportamento, aprendizagem e ensinagem na sala de aula, com o seu autor João A. Lopes, organizada pela Psiquilibros Edições e Fnac.
Será no dia 3 de Março, pelas 21.30h, no Fórum Fnac Braga.

Sobre o livro: O ensino é em si mesmo terapêutico, pelo que uma das melhores formas de promover a saúde mental dos alunos é ensiná-los bem, com entusiasmo e persistência. Alienar as responsabilidades dos professores em terapeutas, assistentes sociais, administradores, etc. é a forma mais directa de exibir impotência e incapacidade perante os alunos (os quais, como se sabe, raramente perdoam as fraquezas alheias) e abrir uma caixa de Pandora de (im)previsíveis consequências
Sobre o autor: João A. Lopes é Professor na Escola de Psicologia da Universidade do Minho, e é Director dos Mestrados em Psicologia desta Universidade. Autor ou co-autor de artigos, capítulos e livros sobre problemas comportamentais e de aprendizagem
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
PREVENÇÃO RODOVIÁRIA

Texto do nosso leitor João Boaventura alusivo à campanha brasileira de prevenção rodoviária (cartaz na imagem):
A propósito da Prevenção Rodoviária Brasileira, lembrei-me da que foi utilizada na África do Sul, depois do primeiro transplante do coração realizado com sucesso pelo Dr. Christiaan Barnard, onde os cartazes espalhados nas estradas rezavam: “Dr. Barnard waiting for your heart”.
Como curiosidade, o Dr. Barnard já tinha realizado transplantes de coração em 50 cães, e o primeiro homem que se submeteu à operação tinha uma doença terminal pelo que não teve dúvidas em executá-la porque, argumentava: “For a dying man it is not a difficult decision because he knows he is at the end. If a lion chases you to the bank of a river filled with crocodiles, you will leap into the water, convinced you have a chance to swim to the other side.”
O 3 de Dezembro próximo relembra o que aconteceu há 42 anos.
João Boaventura
segunda-feira, 6 de abril de 2009
Preservativos

Como é habitual e ainda a tempo, a crónica de J. L. Pio de Abreu no "Destak" de sexta-feira passada:
Sempre foram a solução mais simples para fruir o prazer sem conclamar as dores - de parto e outras. Os nossos antepassados conheceram-nos em materiais primitivos e incómodos, como a tripa de carneiro. Hoje, os novos materiais permitem que eles existam em todos os tamanhos, texturas, cores, cheiros e sabores. São objectos artísticos de uso amigável mas destino efémero.
Tal como a privacidade do uso, a sua circulação era outrora secreta. Comprados a meia voz ao farmacêutico de confiança, logo voavam para os esconderijos dos psichés. Mas também isso mudou: oferecem-se agora em instituições de saúde, saem, a troco de uma moeda, de caixas colocadas em paredes oportunas, circulam em porta-chaves e apresentam-se num encontro quente ocasional como sinal de jogo limpo e sábia precaução.
A utilização do preservativo assinala que a relação não tem intenções malévolas. Não consta que os violadores o usem, como não o usam aqueles que querem condicionar os parceiros. Também o não usa quem, consciente ou inconscientemente, se move pelo desejo oculto de espalhar nos outros o mal que transporta. Neste tempo, um relacionamento sexual desprotegido pode ser assassino.
Com a privacidade cada vez mais difícil, existem hoje prazeres alternativos, como o protagonismo público. Às vezes, basta dizer certas palavras para se alcançar um orgasmo mediático. São em geral palavras insólitas, mas as malévolas e assassinas produzem o mesmo efeito. É aqui que os preservativos podem ser de novo úteis. Basta colocá-los na língua durante o protagonismo público.
sábado, 3 de maio de 2008
A contar no berço


Há umas semanas, escrevi um post sobre as capacidades muito precoces reveladas por bébés de apenas 6 meses, que distinguiram acções intencionais de não intencionais e entre seres autónomos e corpos inanimados. Volto a este assunto com mais algumas evidências das capacidades notáveis que os membros da nossa espécie conseguem evidenciar, em fases muito precoces do seu desenvolvimento cognitivo, e que suscitam muitas interrogações sobre como aprendemos uma parte do que sabemos acerca do mundo em em vivemos.
A questão interessa-me particularmente porque as capacidades são demasiado elaboradas para surgirem do nada e aparecem demasiado cedo para poderem ser ensinadas. Como se desenvolvem essas competências? Que papel teve a evolução na configuração destes processo de desenvolvimento?
Um considerável número de experiências realizadas ao longo das últimas décadas permitiu perceber que bébés com apenas alguns meses têm noções incríveis sobre a física do mundo que os rodeia. Percebem que o mundo é constituido por corpos sólidos coesos, que mantêm a forma quando imóveis ou quando se deslocam; que não se influenciam (não se empurram) à distância, tendo que contactar fisicamente; que um corpo geralmente desce um plano inclinado, mas não sobe sozinho; que se uma caixa chega à extremidade de uma mesa e continuar a ser empurrada cai, não fica a levitar; que os objectos continuam a existir mesmo quando não estão visíveis. E várias experiências sugerem a percepção do conceito de ‘força’ que, quando aplicada a um objecto, produz efeitos. Será uma espécie de ‘física popular’, mas que surge antes de a criança experimentar directamente. Se aprende, fá-lo muito rapidamente e a partir de uma observação penetrante e claramente dirigida.
Como é que se consegue experimentar tudo isto com bébés que não falam?
Graças a uma técnica fantástica, descoberta já há uns anos, que assenta na constatação de que um bébé presta muito mais tempo de atenção a algo novo, surpreendente ou inesperado que a algo que lhe seja familiar ou esperado. Assim, medindo o tempo de atenção quando lhes eram mostradas cenas num ecrã em que se empurrava um copo ao longo de uma mesa, foi possível verificar que os bébés ficavam surpreendidos e aumentavam consideravelmente a sua atenção se o copo continuasse para lá do tampo da mesa sem cair, ficando a ‘levitar’ sobre o chão.
Igualmente notável foi a constatação de que os bébés têm noções básicas de aritmética, através de experiências conduzidas por Karen Wynn e seus colaboradores. Numa situação (A) eram apresentados dois objectos que depois eram tapados por uma cortina. Em seguida um operador removia um dos objectos que se encontrava atrás da cortina. Quando a cortina descia, se estivessem dois objectos na mesma, o tempo de atenção aumentava imenso. Noutra situação (B), a 1 objecto inicialmente visível era adicionado outro, mas com a cortina presente. O observador também se revelava surpreendido se só aparecesse um objectos após remoção da cortina. Ou na situação em que eram colocados dois objectos, mas apareciam três quando a cortina desaparecia. Perante várias manipulações, se o resultado fosse diferente de uma aritmética correcta o observador revelava-se perplexo. E reparem que a situações referidas implicam capacidade de enumerar, não é uma mera questão de percepção. Quando olhamos para uma imagem contendo vários objectos e depois nos mostram outra semelhante e nos perguntam se falta algum, estamos a lidar com a percepção (e, claro, a memória visual). Mas, a criança sabe que 1 objecto mais 1 objecto = 2 objectos, embora não os tenha visto juntos antes. Sabe que a adição ou a subtracção resulta na alteração do número de objectos.
Como é possível saber tão cedo que 1 + 1 = 2? E sem tutor? Quando a complexidade da tarefa cognitiva é demasiado elevada para que o seu surgimento possa ocorrer por mera tentativa e erro, há poucas alternativas explicativas: ou o organismo já sabe, isto é, a informação está programada nos seus genes – como acontece com o código da dança das abelhas, ou as tarefas estereotipadas das vespas solitárias ao introduzirem um presa no seu ninho escavado no solo, como Baerends descreveu tão notavelmente – ou aprendem muito depressa e de forma muito dirigida, o que requer a intervenção de programas genéticos sobre o desenvolvimento cognitivo.
Será que as crianças já nascem com crenças sobre os objectos e as suas propriedades físicas, ou elas possuem um mecanismo que guia as sua aquisição de conhecimentos sobre os objectos? Em qualquer dos casos os genes estão em acção. A primeira possibilidade implica que nascemos já com algumas noções de aritmética. A segunda possibilidade implica a existência de mecanismos muito específicos que definem períodos sensíveis para o indivíduo aprender um determinado tipo de informação e não qualquer tipo de informação. Na fase sensível, as regiões do cérebro implicadas estão em formação ou estruturação e muito disponíveis para recolher esse tipo de informação. A aprendizagem é guiada por programas genéticos específicos destinados a garantir que o indivíduo adquire aquela informação. Porque desenhou a selecção natural um dispositivo destes para os nossos conhecimentos básicos de física e de aritmética? Isso é algo que não tem ainda resposta. Mas, há hipóteses. Estes conhecimentos podem ser fundamentais para que o indivíduo possa ter um conjunto básico de princípios que o ajudam a obter e estruturar informação que obtém subsequentemente. Ou podem ser conhecimentos essenciais para evitar acidentes em fases precoces da vida.
Em todo o caso, é evidente que não somos à partida uma pedra polida à espera de ser esculpida, ou um quadro de lousa (hoje em dia, de polímeros sintéticos) vazio à espera que os tutores nele escrevam. Cada um de nós, desde muito cedo constroi parte importante da sua própria aprendizagem, se é que não está já presente à nascença. E a propensão para aprender essas coisas é guiada pelos nossos genes.


