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sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Uma biografia de António Arnaut

Foi lançado este ano o livro "António Arnaut - Biografia", da autoria dos jornalistas Luís Godinho e Ana Luísa Delgado. 

António Arnaut (1936-2018) foi um advogado português que nasceu em Penela e viveu a maior parte da sua vida em Coimbra. Teve uma relevante participação cívica e cultural no panorama nacional: do ponto de vista político, foi um dos fundadores do Partido Socialista, foi deputado, vice-presidente da Assembleia da República e Ministro dos Assuntos Sociais; ainda enquanto político, criou e defendeu o Serviço Nacional de Saúde (SNS); foi autor de dezenas de livros de poesia, ficção e ensaios; pertenceu à maçonaria, uma instituição filantrópica, tendo exercido o cargo de Grão-Mestre do GOL. 

Sempre que possível, utilizava o espaço mediático para defender o SNS, a ética, a justiça e a igualdade, assim como para criticar a corrupção e o neoliberalismo.

O livro pode ser divido em oito partes: do capítulo 1 ao 6 é apresentada a história da criação e vicissitudes do SNS, o capítulo 7 aborda os aspetos principais da sua vida, os capítulos 8 a 10 são dedicados à sua experiência militar, o capítulo 11 centra-se na sua relação com a religião e a perda da fé, nos capítulos 12 a 15 é dada a conhecer a sua vida política, os capítulos 16 a 18 são dedicados à sua atividade literária, os capítulos 19 a 21 abordam a sua preocupação com a ética e a sua intervenção cívica e social, o capítulo 22, o último, encerra com o reconhecimento público que mereceu. 


quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

DIA 13 DE MARÇO HÁ MAIS 12 MILHÕES PARA A CIÊNCIA E CENTENAS DE NOVAS BOLSAS? ESPEREMOS QUE SIM

Nuno Crato anunciou hoje mais 12 milhões para a ciência, disponíveis num prazo de três semanas. Há que perceber que 12 milhões são estes, se são mesmo 12 milhões adicionais ou se é a velha tática de anunciar os financiamentos habituais e previstos como grandes investimentos extraordinários. Claramente o Ministério da Educação e Ciência e a Fundação para a Ciência e Tecnologia querem virar a página negativa em que estão impressos e escrever outra história sobre o momento actual da ciência em Portugal. Espero que o queiram fazer corrigindo realmente os erros que cometeram, investindo na ciência e não a tapar o Sol com a peneira.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

RESUMO DA AUDIÊNCIA COM O PRESIDENTE DA FCT A PROPOSITO DO FIM DA ÁREA DE PROMOÇÃO DE CIÊNCIA

No dia 26 de Setembro o Presidente da Fundação para a Ciência e Tecnologia concedeu uma audiência a alguns dos signatários do Manifesto pela Comunicação da Ciência em Portugal (que contínua disponível para ser subscrito), a propósito do fim da área de Promoção e Administração da Ciência e Tecnologia (PACT). Fica aqui o resumo dessa reunião, na perspectiva dos signatários do Manifesto.


Resumo da audiência com o Presidente da FCT, ocorrida a 26 de Setembro 2013

Estiveram presentes: Miguel Seabra (Presidente da FCT), Ana Godinho (coordenadora do gabinete de comunicação da FCT) e os signatários Joana Lobo Antunes, David Marçal e Bruno Pinto.

O Presidente da FCT começou por expressar o seu desagrado pela  criação do Manifesto, assim como pela publicação de artigos de opinião acerca da extinção da área de Promoção e Administração da Ciência e Tecnologia (PACT). Considera que estas iniciativas foram desajustadas, por terem ocorrido antes do pedido de uma audiência com a FCT. Explicámos que, sendo os primeiros peticionários um grupo de pessoas preocupadas com a situação, tentámos primeiro descobrir se a nossa indignação encontrava reflexo em mais cidadãos ou se estávamos sozinhos nesta luta. Afirmámos que a petição nos constitui como interlocutores e que, por isso, só depois de recolhidas 600 assinaturas, fizemos o pedido de audiência (que foi respondido nove dias e 250 assinaturas depois).

O Presidente da FCT sustentou que a área científica PACT não foi extinta e que quem quisesse submeter uma candidatura dessa natureza o poderia fazer no concurso de bolsas individuais de 2013, enquadrada noutra área. Questionámos como seria avaliada uma candidatura que tivesse parcial ou totalmente uma componente de promoção e divulgação de ciência e tecnologia. Não obtivemos uma resposta concreta, apenas a referência ao mecanismo geral que permite a convocação de avaliadores externos aos painéis, no âmbito do actual quadro de interdisciplinariedade da FCT. O Presidente da FCT afirmou não estar em condições de detalhar a solução concreta no concurso para este ano, pois ainda não haviam sido definidos os membros dos painéis. Manifestámos a nossa preocupação relativa à eficácia deste mecanismo para avaliar adequadamente projectos que tenham componente de promoção e divulgação de ciência. Defendemos que apenas avaliadores com experiência na área estão em plenas condições para avaliar a pertinência, alcance e novidade de um projecto dentro desse tema.

O Presidente da FCT afirmou que pretende adequar os processos de avaliação às melhores práticas internacionais. Na sua interpretação das melhores práticas internacionais, os painéis de avaliação devem ter mais ou menos a mesma dimensão, não fazendo sentido um painel avaliar um número reduzido de candidaturas, como tem sido o caso da área PACT. Anunciou que as áreas científicas irão ser reformuladas e que essa proposta irá estar em consulta pública nos próximos meses. Remeteu a oportunidade da fundamentação da necessidade da área PACT, para essa consulta pública das novas áreas da FCT (que serão comuns a projectos e bolsas).

Questionado sobre o que irá acontecer às bolsas PACT em curso, nomeadamente no que diz respeito a dotação orçamental para os segundos triénios das bolsas de pós doutoramento, foi-nos dito que estão em ponderação alterações às renovações para os segundos triénios de todas as bolsas de pós doutoramento, não tendo sido avançada uma posição conclusiva acerca do assunto.

Questionámos acerca do futuro do financiamento pela FCT de projectos de comunicação, divulgação ou promoção de ciência (é uma questão que nos preocupa bastante, já que, para além do fim da área PACT, os últimos financiamentos Ciência 2007 e Ciência 2008 acabam em 2014, não se conhecendo alternativas). O Presidente da FCT mostrou-se interessado em encontrar uma via de apoio financeiro a esta linha de investigação e de funções. Nesse sentido comprometeu-se em nomear alguém na FCT para fazer a ponte entre a tutela e a comunidade, e garantiu que pretendia dialogar com os “stakeholders” no sentido de encontrar soluções em conjunto.

Os primeiros signatários desta petição apresentaram uma lista de propostas concretas ao presidente da FCT sobre o futuro do financiamento da comunicação da ciência em Portugal, que ficou em sua posse. Nomeadamente:

- Bolsas individuais de doutoramento e pós doutoramento numa nova área científica que poderia ser designada como Public Understanding of Science/Public Engagement in Science/Science in society/Estudos de Ciência na Sociedade. Porque consideramos fundamental que se continue a financiar investigação neste campo.
- Concurso semelhante ao “Investigador FCT” (“Divulgador FCT”) para projectos a cinco anos de divulgação e promoção da ciência, propostos por investigadores, apoiados por instituições. Para investigadores e divulgadores de ciência com doutoramento e experiência comprovada na área, implementando projectos inovadores de promoção da ciência.
- Prever posições de comunicação de ciência institucional em Unidades de Investigação com mais de xx investigadores. Porque as funções institucionais devem ser apoiadas pela própria estrutura, não podendo depender de bolseiros.
- Avaliar e incluir ponderação específica para actividades de outreach/disseminação/comunicação de ciência nos Projectos I&D submetidos a concursos da FCT nas mais diversas áreas científicas. Estas podem incluir acções para a comunicação da ciência com o público, colaboração com os grupos de comunicação das respectivas Unidades de Investigação ou colaboração com outros grupos de investigação na área da comunicação de ciência com os quais se estabeleça uma parceria de trabalho. Porque a divulgação e comunicação da ciência que é prevista como trabalho inerente às funções dos investigadores deve ser adequadamente valorizada e financiada.

Quando questionado sobre o concurso de bolsas individuais recentemente encerrado, o Presidente da FCT revelou terem havido cerca de 6000 candidaturas, um número semelhante ao do ano passado. Afirmou não estar em condições de dizer quantas bolsas seriam atribuídas, explicando que esse número está dependente da versão final do Orçamento de Estado para 2014. Lembrou que já foram atribuídas cerca de 400 bolsas no âmbito dos programas doutorais.

A reunião terminou com a expressão de disponibilidade mútua para dialogar no sentido de encontrar uma solução para enquadramento de investigadores em ciência e sociedade e divulgadores de ciência.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Este foi o ponto a que chegámos

“As palavras podem não significar nada.
Se forem usadas de tal modo que delas 
não possamos tirar conclusões precisas.”

Richard Feynman  (na foto)
In O significado de tudo. Lisboa: Gradiva

O desenvolvimento social, científico, técnico, ético, cultural... decorre (em grande medida) da linguagem, porque a linguagem explora, estrutura e expressa o conhecimento.

Em termos políticos (e económicos) chegámos a um ponto em que pessoas com responsabilidades não conseguem (ou não querem) explicar-se de maneira que pessoas comuns as entendem. É, pois, altura de surgirem as acusações, que podem ser mútuas. Eis um exemplo que se destaca nos jornais de hoje:

O ministro das Finanças garante então que os jornalistas interpretaram mal as palavras... (aqui)
Tudo o que não se deve fazer é tomar as pessoas por tolas, opina um jornalista (aqui).

Este foi o ponto a que chegámos, mas no qual, é certo que não podemos permanecer.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Nem todos chegaremos vivos

A cada dia que passa, as escolas detectam mais e mais crianças com fome. Treze mil, diz-se nos jornais de hoje. Agora são os hospitais que falam. Um grande hospital comunicou ao país, sem sofismas de qualquer espécie, que lhe chegam inúmeras crianças cuja doença é a fome. Não, nem todos "chegaremos vivos" aonde quer que se entenda que temos de chegar.

sábado, 10 de novembro de 2012

Empobrecer não é sinónimo de ser Frugal


Há muita gente por aí que confunde conceitos e não sabe o significado das palavras. Muitas vezes essa "confusão" é intencional e tem objetivos obscuros (entram aqui conceitos ideológicos muito perigosos), outras vezes é o resultado de se falar com o coração (sob efeito da emoção) e não se prestar a devida atenção ao que diz . 

Há uma enorme diferença entre "empobrecer" e "ser frugal". 

De facto, todos temos de viver de forma mais frugal, gastando menos recursos para realizar as mesmas, ou ainda mais, tarefas, ou seja, fazendo mais com menos

Ser frugal é uma das medidas que temos de tomar para ser mais eficientes, a par da gestão, racionalização, avaliação, responsabilização e ética.

Agora, ser frugal nada tem a ver com "empobrecer", ou seja, ter, dispor, de menores recursos, ou recuar para níveis civilizacionais do passado.

Nós não temos de empobrecer. 

Não temos, mesmo. 

Temos é de ser mais responsáveis e eficientes com a forma como usamos os recursos que conseguimos gerar. E devemos fazer tudo para gerar ainda mais recursos, ou seja, DEVEMOS ENRIQUECER. Porque com isso melhoramos a nossa vida e fazemos avançar o país.

Ser frugal é uma atitude que permite tudo isto.

É uma forma de estar na vida e, acima de tudo, de respeito pelos outros e pelos recursos públicos. 

Digo isto ainda a propósito da confusão gerada recentemente, mas MUITO AFLITO por perceber que o Governo (e os seu ideólogos) não saber a diferença entre os dois conceitos.

Aflito porque, isso sim, é MUITO GRAVE.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

PORTUGAL, UM PAÍS DE CIDADÃOS

Novo texto do Professor Galopim de Carvalho, nosso estimado colaborador.



Se é certo que a política é uma ciência que se estuda e ensina, da qual, devo começar por dizer, não tive escola, a política partidária afigura-se-me como uma arte que visa adaptar a dita ciência ao sabor de interesses, nem sempre confessados, pela qual nunca me senti atraído e pela qual me não deixei envolver, logo ensinada às juventudes partidárias e bem aprendida por estas, como está bem à vista, e apenas para citar dois exemplos, na actuação de dois dos seus rapazes mais brilhantes, bem parecidos, bem falantes e convencidos, mas sem a imprescindível preparação e experiência de vida: o que recebeu de nós a missão de governar e o que, por direito e dever, assume o principal papel da chamada oposição.

Na Grécia antiga, cidadão era aquele - nunca aquela - que gozava do direito de participar na vida política da cidade, um direito igualmente vedado a estrangeiros e a escravos. Mais tarde, na Europa, e até finais do século XVIII, foi condição de dignidade do homem – nunca da mulher - que recebia esse título honorífico. A cidadania plena é uma vitória das ideias do iluminismo e do liberalismo, saídas do pensamento de John Locke, naturalista, filósofo e político inglês do século XVII. Visa a valorização de todos os indivíduos e encoraja a cooperação entre eles, sem estabelecer distinções de sexo, de idade, de religião, de etnia ou de condição sociocultural, num propósito bem assumido de desenvolvimento das suas formações ética e estética, das suas faculdades intelectuais e profissionais e do seu bem-estar físico e social.

Há quase dois séculos e meio, Pierre Auguste Beaumarchais, dramaturgo francês, autor dos textos que inspiraram as óperas “O Barbeiro de Sevilha”, de Rossini, e “As Bodas de Fígaro”, de Mozart, gritava para uma multidão, em Paris: «Não sou nem um cortesão nem um favorito. Sou um cidadão!». Tendo por meta a defesa intransigente da liberdade individual contra a autoridade ilegítima, a cidadania ganhou dimensão com a Revolução Francesa, vingou com a tomada da Bastilha e afirmou-se com a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, proclamada em 1789 (na figura ao lado). A cidadania nasceu, assim, fundamentada na liberdade, na igualdade e na fraternidade.

A liberdade, por enquanto, está bem de saúde e recomenda-se. Conquistámo-la nós, portugueses da minha geração, há quase quatro décadas, não o esqueçamos, graças aos capitães de Abril, com cravos nos canos das espingardas. Essa liberdade temos sabido defendê-la e conservá-la e uma das evidências dessa sabedoria foi dada pelas centenas de milhares de homens e mulheres de todas as idades que, no último Sábado, saíram civilizadamente à rua, por todo o País, numa manifestação de maturidade e cidadania ímpares.

Porém, a igualdade e a fraternidade estão cada vez mais longe de atingir o patamar eticamente exigível e legitimamente esperado pela esmagadora maioria dos povos e, entre eles, os portugueses, que o mundo do dinheiro na sociedade dita do desenvolvimento tem vindo e continua a negligenciar ou, pior ainda, a explorar.

Uma das formas de combater as flagrantes desigualdades e injustiças que, ao invés das esperanças de Abril, têm vindo a agravar-se, é alargar a cidadania onde for preciso, criá-la onde ela anda esquecida, e encorajar o cidadão a fazer pleno uso dela, como contribuição pessoal no tecido social de que é parte. Neste capítulo estamos no bom caminho. Vamos em frente! E que cada um se regozije e envaideça com a expressão inteligente e ordeira da unidade de um povo que mostrou no passado dia 15 de Setembro.

Com esta grandiosa manifestação, Portugal deu ao Mundo uma magnífica lição de cidadania.

Galopim de Carvalho

quarta-feira, 25 de julho de 2012

EU is sleepwalking toward a disaster


Um conjunto de professores de Economia do Institute for New Economic Thinking produziu um documento que recomendo que vejam. E dizem, logo a arrancar: “We believe that as of July 2012 Europe is sleepwalking toward a disaster of incalculable proportions. Over the last few weeks, the situation in the debtor countries has deteriorated dramatically.”. Mas todos os partidos portugueses atuam como se não fosse nada com eles, ao bom estilo da banda do Titanic.
Leiam e pensem por vocês mesmos.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Os Bicentenários das Cortes de Cádiz e da Constituição de 1812


Novo texto de João Boaventura:

« [les lois]…elles sont justes, puisqu’elles font le bonheur de ceux qui les adoptent. »
Platon, Les lois. Paris: Gallimard (1997: 106)

« À ce train, on admettra que le Droit, dont on nous a enseigné qu’il est constitué d’un ensemble de règles confinant au juste, et qui, par leur constance, assureraient la sécurité et le salut des individus, n’est en réalité, jamais acquis. »
A.-J. Arnaud, Le Droit trahi par la Sociologie. Paris: L.G.D.J. (1998: 247)

“A Constituição é um texto puramente proclamatório, cujo destino só pode residir no incumprimento da maior parte das suas disposições.”
Manuel Queiró, Público, de 16.7.2003

O presente tema foi sugerido pelas várias notícias publicadas na imprensa diária sobre a persistência e convicção do Primeiro Ministro, de que inscrever “os limites ao défice” na Constituição, constituiria uma “regra de ouro”, e motivando o PS a aderir à medida para os procedimentos legísticos, mas o entusiasmo de um tem reflectido o desinteresse da oposição socialista, e a indiferença dos restantes partidos.

Bem se entende que a proposta não resolveria nada a não ser a de transmitir ao FMI a boa vontade política de prometer segurar os gastos públicos futuros, inúteis e sumptuosos. Primeiro porque a Constituição está recheada de “regras de ouro”, e sabe-se como tem sido difícil ao Tribunal Constitucional, constantemente assediado para manter as 296 “regras de ouro” vigentes incólumes, encontrar a unanimidade nos acórdãos. Veja-se o mais recente exemplo de outra “regra de ouro”, configurada no projecto de criminalização do enriquecimento ilícito, e chumbada pelo Tribunal Constitucional porque violava o princípio da presunção de inocência. Acrescendo ainda a asserção do sociólogo catalão Castells, ao considerar que o FMI não passa de um “fetiche” porque, em vez de dar dinheiro, se limita a oferecer ideologicamente uma linha de crédito como forma de o país recuperar a confiança dos investidores.

Esta leitura acidental de Passos Coelho ocorrida no momento em que se comemoram os dois bicentenários, o das Cortes de Cádiz (1810-1812) e o da promulgação da Constituição espanhola de 1812 – que inspirou a Constituição portuguesa de 1822 – questiona a credibilidade das Constituições criadas, ainda que representem o fim do Antigo Regime e a adesão ao liberalismo cujos princípios radicavam no combate ao intervencionismo do Estado.

A Constituição de Cádiz importa aqui assinalá-la como a grande inspiradora da Constituição de 1822, e quase aprovada como nacional, no momento histórico marcado pelo fim das invasões francesas, exílio do Rei no Brasil, e submissão ao jugo político e militar britânico, que redundou em manifestações de soberania popular no Porto e em Lisboa, com aclamações ao Rei e desejos do seu retorno. Opinava-se que a soberania, a representação nacional, só seria exequível pelo sistema eleitoral inscrito na Constituição de Cádiz, pelo que seria oportuno jurá-la, no que alguns constituintes, entre eles Fernandes Tomás e outros vintistas se demitiram. O Soberano Congresso, apoiando-se na de Cádiz, resolveu elaborar a Constituição (entre 1820-1822), marcando a transição da monarquia absoluta para a monarquia liberal, com a aquiescência de D. João VI que, no regresso do exílio, foi o primeiro a jurar a Constituição de 1822.

A este propósito, o jornal O Atleta n.º 6, de 5.5.1838, a páginas 42, tem este desabafo:

”Além da espanhola que adoptámos como nossa no começo da revolução de 1820, contamos com a de 1822, a de 1826, e actualmente com a do ano presente (1838) tantos Códigos, e tantas vicissitudes máximas, temos experimentado no espaço de 18 anos.”

Mas este reparo à adopção da Constituição de Cádis não parece correcto. Na 15.ª sessão do Congresso, de 13.2.1820, o deputado Fernandes Thomaz observara que: "A constituição espanhola não é um evangelho. Eu sou português e estou aqui para fazer uma constituição portuguesa e não espanhola”. E o deputado Loureiro diria mais tarde que “a constituição portuguesa não era a espanhola, promotora de anarquias”.

No dia 19 de Março de 1812, Cádiz proclamou a Constituição com muitos festejos e previstas iluminações nocturnas nas fachadas das Embaixadas Portuguesa e Britânica, e da Câmara Municipal, mas as chuvas torrenciais tiveram que as adiar para o dia seguinte. E no dia 29 de Março foi publicada a Constituição, observando judiciosamente um escritor espanhol que “Cádiz tinha sido a parteira da Nação, e o berço da Constituição”, considerando que esta inscrevia e consagrava a palavra Nação.

A Ilustração Portuguesa, n.º 345, de 30.09.1912, anunciava os festejos do Primeiro Centenário das Cortes de Cádiz, com a indicação das pessoas convidadas a participar, não apenas nacionais também dos países iebroamericanos (imagem em cima).

Presentemente existe o Museu Municipal das Cortes de Cádiz, que se convida a visitar, a quem de tempo e disposição disponha, considerando as ligações umbilicais da Constituição de Cádiz com a nossa Constituição de 1822, e que as comemorações, iniciadas em 15 de Março, terminam em 31 de Maio de 2012.

João Boaventura

terça-feira, 13 de março de 2012

A Classe Média: Declínio, Implosão ou Reinvenção?


Informação recebida do Centro de Estudos Sociais de Coimbra:

Lançamento de livro e debate

A Classe Média: Declínio, Implosão ou Reinvenção?

13 de março de 2012, 15h30, Auditório da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra

A propósito do livro «A Classe Média: Ascensão e Declínio» de Elísio Estanque, publicado pela Fundação Franscisco Manuel dos Santos

Comentadores: José Pacheco Pereira e Manuel Carvalho da Silva (CES). Com a presença de: José Reis (diretor da FEUC/CES), Carlos Fiolhais (FFMS) e Elísio Estanque (autor/CES).

Sobre o livro (da página do CES):

"Este texto representa um duplo desafio: primeiro, o de tentar teorizar e refletir sobre um tema hoje tão candente para a opinião pública como é a «classe média», com base num registo discursivo que pretendeu ser cientificamente rigoroso e ao mesmo tempo acessível a cidadãos não especialistas e não académicos; segundo, o de assumir que o conhecimento sociológico só é verdadeiramente interessante se não se limitar a uma descrição "neutra" da realidade social, mas sim se conseguir manter o equilíbrio entre o esforço de objetividade e o sentido crítico sobre o tema em análise. O conhecimento só é enriquecedor se for ao mesmo tempo transformador e recusar os clichés e "pré-noções" acerca do fenómeno em estudo, ou seja, em vez da pretensa neutralidade assética é preferível a reflexividade analítica. Estes foram alguns dos princípios que nortearam o autor deste ensaio sobre a classe média e a sociedade portuguesa, no contexto de crise e austeridade que hoje atravessamos. O livro divide-se em duas partes: uma mais de reflexão teórica sobre o conceito de «classe média», com referência a diferentes correntes de pensamento (marxismo e weberianismo); e uma parte final mais centrada no caso português e nas suas especificidades, sinalizando processos e situações que ilustram aspetos da mentalidade, da cultura e da realidade socioeconómica do país a partir da reflexão sobre a sua frágil classe média (hoje à beira do empobrecimento)."

sábado, 3 de março de 2012

O “espirro” de Cavaco e a entrada dos 40.000


Nova crónica recebida de João Boaventura:

*O Carnaval é a segunda vida do povo, baseada no princípio do riso. É a sua vida festiva.*
Mikhail Bakhitin, Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento

*O Carnaval era uma representação do mundo virada de cabeça para baixo.*
Peter Burke, Cultura Popular na Idade Moderna

Lembrança se retoma para testemunhar como, durante o regime socrático, o nosso Presidente da República passou por momentos triplamente tensos: o de ser de todos os portugueses, o de acompanhar e viver a crise, e o de defrontar um primeiro ministro de ideário diferente, transportando consigo algum distanciamento, mas o chamado regime democrático impôs-lhe aparências, exactamente como o “fair play” ou as “good manners” constituíam rituais de boas etiquetas nas cortes monárquicas, e entre os nobres, compaginadas com as marginais e humanas intrigas palacianas.

De formações e origens diferentes, esteve sempre patente o incómodo patenteado pela Presidência durante a longa travessia do regime socrático, cujos sinais se exteriorizavam no retraimento com a comunicação social, a fuga a respostas mais concretas, a evasiva a explorações mediáticas, o ar severo e retraído, o distanciamento, o fechamento como nova figuração de tabu, o quase auto-silêncio, não fossem alguns palavras a mais gerar polémicas desnecessárias, para evitar o confronto de Belém com S. Bento.

Tinha apenas o porte de Hobbes que, no seu “Leviatan”, falava muito na sua timidez e acanhamento, o que não o impediu de lançar uma nova e arrojada interpretação do homem e do Estado, que lhe valeu a perseguição dos presbiterianos ingleses e dos clericais franceses, o que, di-lo ele, o levou a tomar a atitude de “refugiado”. Até aqui fica apenas o esquisso da similitude da primeira parte do retrato entre Hobbes e Cavaco, com a ressalva de que, enquanto Hobbes tem uma concepção mecânica e matemática do mundo, onde tudo se reduz a corpos e movimentos, “onde as paixões e as emoções são movimentos interiores, determinados pelos movimentos exteriores”, resultando em “fantasias”, Cavaco vive apenas no mundo da “fantasia”, no “faz de conta”,

Acontece porém que a segunda parte do retrato se inverte porque, com a eleição de Passos Coelho, do PSD, a transfiguração do tímido e acanhado converte-se no “refugiado do outro regime” que entra no terreno da sua inscrição, no retorno ao ideário de origem. Belém e S. Bento fundem-se numa instituição, graças à colaboração do CDS, o que já lhe permite abrir o jogo político, a discordância aberta e declarada com o jovem primeiro ministro, cuja inexperiência lhe abre completamente as portas para se introduzir na área governativa e económica, sem temor. Novos horizontes se lhe abrem e em tão momentosa crise, pode apresentar-se como a oportuna e atempada salvação do país.

A insistente discordância com as medidas que Passos Coelho vai anunciando, oblitera-lhe a prudência e a contenção, porque no seu currículo constam as duas únicas maiorias nacionais alcançadas para governar, nas eleições de 1987 (50,2 votos, e apenas 28,4 abstenções), e de 1991 (50,6 votos e 32,2 de abstenções), contra a minoria governativa de Passos Coelho, nas eleições de 2011 (38,6 votos, mas 41,97 abstenções), o que, somado à sua inexperiência, à coligação pós-eleições com o CDS, e ter enfrentado uma votação da abstenção superior aos votos obtidos, o coloca em posição fragilizada. Este cenário permite-lhe afrontar o governo com uma impertinência que destoa do homem tímido e acanhado.

Acaba por criar um espectáculo incómodo entre Belém e S. Bento, a que a sociedade vai assistindo, entre o incrédulo e o espanto, que obriga Cavaco, para animar os esfomeados e inanimados portugueses, a justificar-se, por afecto, e em resposta a “milhares de cartas de idosos e pensionistas a queixarem-se de falta de meios de subsistência”, que também se sente frustrado já que “tudo somado, quase de certeza que não vai chegar para pagar as minhas despesas, porque também não recebo vencimento como Presidente da República” (CM, 20.01.2012).

Cavaco passa de “refugiado do outro regime” a “refugiado dentro do próprio regime”.

Chegados a este ponto, assiste-se agora a uma petição de 40.000 assinaturas com o fim de solicitar a demissão do Presidente da República, lembrando de certa forma o episódio da “Anábasis”, onde Xenofonte narra que, havendo uma situação de dúvida, entre o permanecerem os 10.000 homens na luta ou prosseguirem a marcha, ao espirro de um soldado foi decidido prosseguir, porque o espirro era de bom augúrio. Se a comparação é permitida, a infeliz tirada de Cavaco ressoou com um “espirro” de mau augúrio porque 40.000, não prosseguiram na marcha, entraram em combate.

Não imagino se chegados a este Carnaval lusitano se devemos rir ou chorar, mas socorramo-nos do Sermão de António Vieira à Rainha Cristina da Suécia, para nos dar a resposta:

“Demócrito ria, porque todas as coisas humanas lhe pareciam ignorâncias; Heraclito chorava porque todas lhe pareciam misérias; logo maior razão tinha Heraclito de chorar, que Demócrito de rir, porque neste mundo há muitas misérias que não são ignorância, e não há ignorância que não seja miséria”.

João Boaventura

quinta-feira, 1 de março de 2012

A "Balada da Neve", os Velhos e os Doentes


“Quem já é pecador /Sofra tormentos, enfim!/ Mas as crianças, Senhor,/ Porque lhes dais tanta dor?!.../ Porque padecem assim?!...” ( "Balada da Neve", Augusto Gil, 1873-1929).

Em medida do actual governo, passa a contar para efeitos de desconto do IRS apenas 10% de despesas de saúde do contribuinte agravadas por um determinado tecto, enquanto, em anos anteriores, essa dedução abrangia 30% sem qualquer limitação. Ou seja, em Portugal, país de brandos costumes para quem não merece e de mão de ferro para quem não deve, a condição de velho e doente crónico, em vez de ser havida com uma desgraça, passa a ser taxada como um luxo.

Notícias do tempo do consulado de José Sócrates davam-nos conta da possível aplicação de taxas moderadoras diferenciadas em função dos rendimentos auferidos pelos doentes. Ora, como se sabe, o valor do IRS e os descontos para a ADSE (no caso dos funcionários públicos) não são iguais para todos, fazendo com que os que declaram maior rendimento comparticipem em dose maior nas despesas de saúde. Além disso, uma possível bondade de taxas moderadoras diferenciadas seria contrariada, ab initio, pelo facto de nem sempre o valor colectável ser digno de crédito, pese embora o esforço da máquina tributária em contrariar tal situação motivada pela dificuldade em evitar a fuga aos impostos devido a paraísos fiscais e à impossibilidade de acesso a contas bancárias.

Digno de crítica me parece, igualmente, porque afectando pessoas idosas muito diminuídas por doenças graves e/ou crónicas, “com pesares que os ralam na aridez e na secura da sua desconsoladora velhice” (Garrett), uma outra medida do Partido Socialista que defendia uma redução do plafond com as despesas de saúde para efeitos de IRS, penalizando, desta forma, inevitáveis gastos com médicos e medicamentos. Aliás, medida aproveitada pelo actual Governo em terreno previamente adubado pela governação de Sócrates.

Como escreveu Jean-Baptiste Colbert, ministro de Estado e da Economia de Luís XIV, o acto detributar é idêntico ao depenar de um ganso, procurando obter o máximo de penas com a menor gritaria”. Pelos vistos, os queixumes dos velhos e os gemidos dos doentes vítimas desta penalizante redução não serão suficientemente ruidosos para evitar o actual depenar dos que sofrem. Mas não deverá ser obrigação de qualquer governo de rosto humano a constante preocupação com a saúde dos seus cidadãos? Ou seja, a bem ou a mal, como advertiu, já no século XIX, Henry Thoreau, "os cidadãos hão-de aprender que a política não é moral ocupando-se apenas do que é oportuno".

Simples contas de cabeça são suficientes para demonstrar a falta de razoabilidade em deixar adoecer a população por poupança forçada nos respectivos cuidados de saúde que terão como desfecho trágico passar a gastar rios de dinheiro da fazenda pública com o subsequente estado de agravamento de doenças em estratos de pessoas menos abastadas. Aliás, a excepção das grandes fortunas confirma a regra de uma pobreza quase generalizada por um desemprego crescente e diminuição acelerada do poder de compra, fazendo com que a classe média seja substituída por uma legião de remediados obrigados a contar os cêntimos no dia-a-dia gastos para sobreviver com um mínimo de vergonha na cara para não acumular dívidas difíceis de saldar.

É reconhecida a humanização da saúde em países com preocupação de natureza social. Só se ignora em Portugal onde, por exemplo, foi defendida, por Manuela Ferreira Leite, na SIC Notícias (10/01/2012), a medida economicista de serem restringidos os gastos com a saúde, através da não comparticipação estatal de sessões de hemodiálise para maiores de 70 anos. Desta forma desapiedada (em que a partir dos 70 anos de idade os pobres e remediados perderiam o “direito à vida”, consignado no artigo III da Declaração Universal dos Direitos Humanos) seriam reduzidas as despesas com as reformas e com a saúde dos portugueses vítimas de letais patologias dos rins.

Mas abandonar os doentes à sua triste sina nem sequer é original. Segundo Séneca (4 a.C – 65 d.C ), “matam-se os cães quando estão com raiva; exterminam-se os touros bravios; cortam-se as cabeças das ovelhas enfermas para que as demais não sejam contaminadas; matamos os fetos e os recém-nascidos monstruosos se nascerem defeituosos e monstruosos. Afogamo-los, não devido ao ódio, mas à razão, para distinguirmos as coisas inúteis das saudáveis “.

Ou seja, por a doença ser tida, ao longo dos tempos, como pesado fardo de uma sociedade que encara a saúde em termos de gastos públicos, os recém-nascidos da Roma Antiga, com malformações congénitas, e os actuais doentes renais, no Portugal do século XXI, com 70 ou mais anos de idade e carências económicas, necessitados da hemodiálise para sobreviver como que se identificariam num destino trágico. Daqui, a reevocação adaptada que faço da Balada da Neve: “Mas os velhos e doentes, senhores governantes,/ Porque lhes dais tanta dor?!... / Porque padecem assim?!...”

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

A Academia do Demónio


As primárias republicanas que decorrem actualmente nos Estados Unidos da América são o reflexo de um país muito peculiar. Rick Santorum, que em várias sondagens é dado como favorito para disputar as eleições presidenciais com Barack Obama em Novembro, afirmava há não muito tempo que o problema dos Estados Unidos não é nem político nem económico, mas antes espiritual.
Segundo ele, Satanás em pessoa decidiu atacar directamente os americanos. A sua estratégia terá sido a seguinte: começou por corromper o mundo académico, os professores universitários e os investigadores em geral. Foram uma preza fácil. Sucumbiram pelo orgulho, por pensarem ser mais inteligentes do que os restantes mortais. Por já terem sido conquistados por Satanás, Santorum advoga que não se deve dar ouvidos ao que dizem, pois falam com a "voz do inferno".

A partir de aí, os académicos, já possuídos pelo demónio, terão infectado toda a sociedade americana, uma vez que são eles que formam as elites do país. Com a ajuda de Satanás, claro, que lançou em simultâneo um ataque feroz a todas as instituições americanas, corrompendo-as pela vaidade e pela sensualidade.

Note-se que nada disto é no sentido figurado. Este discurso pode ser ouvido na primeira pessoa aqui.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Do Infantilismo Político ao Suicídio da Democracia


Post convidado de João Boaventura:

Causa: “O Infantilismo é uma espécie de sensação de bem estar que está ligado ao acto de querer regredir no tempo e voltar a ser criança (bebé) agindo e actuando como tal" (ver aqui).

Efeito: “Democracy never lasts long. It soon wastes, exhausts and murders itself. There was never a democracy that did not commit suicide.” (John Adams (1797-1801), segundo Presidente (1797-1801) dos Estados Unidos da América)

Desconhece-se se uma relação de causa e efeito se processa quando se associa infantilismo político a suicídio da democracia, ou se será na morbodemocracia que se desencadeia o infantilismo, expresso nas perturbações linguísticas e comportamentais a que vamos assistindo no panorama político europeu e nacional, porque os sinais, se não são demasiadamente claros pelo seu descaramento, serão pelo menos assustadores, não só pela sua frequência, mas também porque parecem apostados em superarem-se uns aos outros, como que constituindo uma moda.

Do mundo suicidário do século XVIII de que nos fala John Adams, até ao século XXI, com José Saramago (DN, 25.03.2004) e Boaventura de Sousa Santos (CM, 23.01.2012) a debruçar-se sobre o mesmo tema, foi, sem dúvida, Claude Julien, em Le Suicide des Democraties (Grasset, 1972), quem ressuscitou o claro aviso de John Adams face à crise que a Europa e o mundo atravessava, uma crise que Leonel Franca antecipara em A Crise do Mundo Moderno (Pro Domo, 1945). O escritor José Saramago disse que “a democracia se suicida diariamente, perde espessura e se desgasta, diminuindo a sua densidade.” E o sociólogo Boaventura Sousa Santos opinou que o país vive "numa democracia de baixa intensidade", que "caminha para o suicídio", defendendo como solução uma aposta na participação dos cidadãos nas decisões que lhes dizem respeito.

Mas dever-se-ia antes falar, quando se pretende falar de democracia, do diálogo permanente e equilibrado entre a sociedade civil e o Estado que, permitindo a este satisfazer as necessidades daquela, evitaria ou resolveria conflitos sociais. Ocorre que o problema surge invertido quando o Estado opta pela conflitualidade, ou patenteia falta de soluções. Uma vez que tem força legitimada, cria um condomínio fechado, como se, di-lo Matthieu de Nanteuil, o Estado considerasse “les humains comme une collection d'êtres abstraits, sans corps ni visage, désincarnés”. É assim que se justifica a linguagem infantilizada e apiedada, que substituiu o discurso político de Estado de Direito exigido pelo ambiente incerto em que vivemos.

Não se pode, porém, concluir que a democracia se suicidou, mas que terá dado um primeiro passo, um passo de expectativa, a que outros se seguirão, para um destino incerto e desconhecido, mas seguramente inesperado e incómodo.

O mal tornou-se epidémico. Como aconteceu com Nikolas Sarkozy que, em 2005, reagiu da pior forma às insurreições nos bairros periféricos de Paris, clamando que mandaria “varrer com mangueiras de alta pressão o lixo social” (os emigrantes), o que fez aumentar a revolta. Ou como aconteceu com David Cameron que, em 2011, perante o vandalismo que assolou Londres, declarou que a culpa do comportamento dos jovens “residia nos pais” e no Parlamento afirmou que o vandalismo “não tinha resultado da pobreza mas da falta de cultura”, como se o papel do Estado fosse o de mero espectador e não lhe competisse tomar medidas preventivas que evitassem as repressivas.

A outra face da moeda é a importância atribuível a coisas menores que, se na arte têm relevância, aqui perdem qualquer valor. É a inconcebível concepção opinativa de uma Angela Merkel sobre as pontes e estradas da Madeira, como se, na Alemanha, não houvesse nada mais importante em que pensar do que um ponto perdido no meio do Atlântico. É o inconcebível discurso político, enigmático, fugidio, destemperado, entre o dionisíaco e o apolíneo dos líderes da União Europeia, à falta de engenho e capacidade para gerir o caminho político europeu, ainda pequeno embora já demasiado longo.

E de coisas menores e infantis se ocupam entre nós os que pensam em milhões de milhões de euros, porque nem na metafísica de Aristóteles alcançam qualquer representatividade. Na peugada de Scrooge, ou do Tio Patinhas, vão buscar à sua velha arca coisas avulsas: tiram o brinquedo do Carnaval, subtraem uns euros aos vencimentos, incomodam os historiadores com cortes na memória histórica e desafiam a Igreja a competir no corte de feriados. Se misturarmos todas estas coisas menores com os milhões de milhões de euros, teremos o paradigma do infantilismo político posto a preceito.

A nível nacional o infantilismo assumiu uma dimensão e cenários que aqui me dispenso de reavivar, mas que se exibe nas falas e deixas, nas incontinências verbais e nas frases à procura de textos e contextos onde se inscreverem, com que os políticos, incluindo o nosso Presidente da República, nos vão distraindo, porventura com boas intenções, nestes tempos escuros e mal seguros.

Apesar de, para lá do infantilismo político, haver uma democracia insensível ou mesmo porventura uma democracia a caminho do suicídio, indubitavelmente que o Homem deverá perguntar se terá sido a maior descoberta da Humanidade. E se o dramaturgo grego Sófocles ainda terá razão quando disse: “muitos prodígios há; porém, nenhum maior do que o Homem”.

João Boaventura

Na imagem: Busto de Sófocles (496 a.C - 406 a.C) (Museu Britânico)

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

DE VOLTA À LUA?


Destaque para a coluna What's New do físico Robert Park:

"LUNACY: BACK TO THE APOLLO MOON RACE?

Newt Gingrich, the other top contender of the US Presidential election, wants to construct a permanent human base on the Moon before China does. In fact, Gingrich says he would like to see six or seven lunar launches every week. Doing what? It's been 40 years sincea human traveled beyond low Earth orbit. Since then, space has become an essential element of the fastest growing segment of our economy: Space communications, weather observations, remote viewing, global positioning, climate monitoring, exploration of the solar system, the discovery of exoplanets, and global climate change studies, are all robotic. Nothing of significance has been learned from human spaceflight.

Apollo itself was a political mission. The space shuttle was terminated and the ISS, which produced nothing of value, now belongs to an international consortium. For an American astronaut to visit the ISS, a ticket on a Russian rocket would have to be purchased. We already have a word for those who clamor to send Americans back to the moon: "lunatics." It's a popular idea in Florida, which lost a lot of space jobs. Mitt Romney warns that the Gingrich plan would be "an enormous expense." It's worse than that; it's insane. Gingrich says his Moon base would be "90% private sector." How do you persuade the private sector to get involved in something as useless as a Moon base? Gingrich says he will offer incentives to the private sector in the form of "prizes" for meeting specific technical goals. Is a prize cheaper than a contract?"

Robert Park

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

PORTUGAL EM CAMBRIDGE


Minha crónica no Público de hoje (na imagem o Corpus Christi Colege, em Cambridge):

Uma das ruas mais pitorescas de Cambridge dá pelo nome de Portugal Street. Desemboca na Portugal Place, perto dos agradáveis greens daquela cidade universitária inglesa que se estendem à volta da cidade, alguns nas traseiras dos colégios mais famosos, ao longo do rio Cam. Parece que o nome da praça e da rua, de belas e antigas casas alinhadas, se deve à proximidade do cais onde era desembarcado o vinho do Porto que vinha para as mesas dos colégios, designadamente para as high tables, onde só o master, os fellows e os seus convidados têm lugar.

Outra presença portuguesa em Cambridge encontra-se na mais movimentada St. Andrew Street: é o restaurante Nando, onde é servido o renomado peri-peri chicken (o churrasco tão gabado pelo ministro da Economia Álvaro Santos Pereira), que pode ser acompanhado por portuguesíssimas cervejas, e finalizado com um pastel de nata e uma bica.

Na Cambridge inglesa (tal como aliás, na não menos universitária Cambridge norte-americana, perto de Boston, no Massachusetts), há bastantes portugueses. Alguns são emigrantes tradicionais, ou filhos deles, tal como, por exemplo, as duas portuguesas a trabalhar na hotelaria que encontrei no University Arms Hotel e que, graças à Ryan Air, um autocarro aéreo, conseguem dar um pulo fácil às suas terras natais. Mas outros são emigrantes especiais, estudantes em busca de formação especializada e ainda cientistas já especializados, aos quais vulgarmente se chama “cérebros fugidos”. Na Universidade de Cambridge há numerosos estudantes portugueses a fazer a licenciatura e o doutoramento. E também há, embora em menor número, investigadores e professores, como o Tiago Rodrigues, que, nascido em Paredes de Coura, no Alto Minho, depois de ter concluído o doutoramento em bioquímica na Universidade de Coimbra, trabalhou em Madrid e está agora em Cambridge a investigar o cancro. Recentemente guiou-ne, com indisfarçável entusiasmo, pelo colégio de Corpus Christi, ao qual está associado, gabando-lhe as facilidades e contando-me as tradições ainda mais ancestrais do que as que conheceu em Coimbra.

Depois do vinho do Porto e do frango de churrasco, temos, portanto, a exportação de cérebros como uma das formas contemporâneas de ligação entre Portugal e o Reino Unido. Os estudantes e cientistas portugueses em terras de Sua Magestade britânica estão organizados no PARSUK, a Portuguese Association of Researchers and Students in the United Kingdom, que é muito activa em organizar encontros e outras actividades (do outro lado do Atlântico, há uma instituição similar, a PAPS, Portuguese American Post-Graduate Society). Falam inglês tão bem como os nativos e estudam ou fazem ciência tão bem ou, nalguns casos, bem melhor do que os nativos. A Universidade de Cambridge é uma escola de élite, um sítio por onde andaram Isaac Newton, Charles Darwin e Francis Crick, só para referir alguns cientistas, ou Francis Bacon, Bertrand Russell e Ludwig Wittgenstein, só para acrescentar alguns filósofos. Mas isso não intimida os cérebros portugueses, que aí triunfam com idêntica facilidade, embora menos publicidade, do que fazem os nossos melhores treinadores e futebolistas que actuam lá fora. Não há desmentido possível: o treinador do Chelsea, André Villas-Boas, e o jogador do mesmo clube Raul Meireles são mais conhecidos em Portugal do que qualquer um dos nossos cientistas no Reino Unido. Dou uma informação curiosa sobre futebol: as suas primeiras regras têm o nome de Cambridge Rules por terem sido estabelecidas nessa cidade em 1848 e logo ensaiadas num enorme green junto ao University Arms Hotel.

O Tiago e os seus colegas merecem ser mais conhecidos cá dentro. Não só mais conhecidos mas também mais aproveitados. Eles não receiam o futuro, que, no seu ponto de vista, tanto pode ser lá fora como cá dentro. Têm uma grande vontade de ajudar o país, o que podem fazer em qualquer um dos lados, embora, para nós, fosse evidentemente preferível que o fizessem cá dentro. Deviam poder ter a escolha, que cada vez têm menos, entre permanecer e regressar. Numa época em que a economia prevalecente no mundo não é o comércio do vinho do porto ou do pastel de nata, nem a microeconomia do futebol, mas sim a economia do conhecimento, custa ouvir os incitamentos do primeiro-ministro Pedro Passos Coelho e do ministro-adjunto Miguel Relvas à fuga de cérebros e, ainda por cima, tentar dirigi-los, com argumentos bacocos, para o Terceiro Mundo, desprezando a Europa e os Estados Unidos. O nosso maior potencial não está no vinho nem nos pastéis, muito menos nos músculos dos jogadores, mas sim nos cérebros, em particular os jovens, que activamente se ocupam, em Portugal e por esse mundo fora, na ciência, na tecnologia, na filosofia e nas artes. Tudo leva a crer que as afirmações de Passos Coelho e de Relvas não foram lapsus linguae. Foram, isso sim, o resultado de um profundo equívoco.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Os avós levaram malas de cartão. Os netos trazem diplomas*


Transcrevemos um recente post do nosso leitor João Boaventura inserto no seu blogue "Desporto e Economia" na sexta-feira passada:

O Plauto português, Gil Vicente, nas suas obras, já denunciava o abandono dos campos e a desertificação do país, provocados pelas políticas de acumulação de riqueza dos Nobres, da Igreja e da Coroa Real.

Voltamos à desmistificação do jogo de palavras que enrolam pensamentos obtusos, confusos, pouco claros, escondidos os esconjuros, mas exteriorizando com limpidez cristalina o que se pretende disfarçar com o dito que não foi dito, depois de claramente dito.

Depois de o Secretário de Estado do Desporto e Juventude ter apostado na elaboração do Livro Branco da Juventude, convidou os jovens a emigrar para deixarem o aconchego da família, fez o jogo das contradições ou das inutilidades, porque perante tal convite ficava-se por saber a quem se destinaria o Livro perante a fuga da juventude, a menos que o manuscrito iria fazer jus ao título.

Como os políticos, apesar de adultos mantêm espírito adolescente, produto dos tempos de chefes de turma e de camaradagem escolar, logo o Ministro Adjunto se apressou a vir ao terreiro defender a classe, apoiando as declarações do seu subordinado, não fosse a plebe pedir a cabeça do Secretário de Estado pelo atrevimento de querer expulsar os jovens para os poupar de ler o Livro Branco da Juventude, ou para se poupar de o escrever perante a ausência e leitores. Com a agravante de o Ministro Adjunto, metido numa vara de onze camisas, apoiar-se na tese de os navegadores de antanho, a desbravar mundos – em vez de primeiro desbravar cá dentro - sem lhes dar as naves. E não satisfeito com esta arenga permitiu-se, em reunião alegre com angolanos, enaltecer, como prova do que vinha afirmando, os portugueses instalados no estrangeiro a fazerem figura, em vez de se penalizar de não poderem fazer figura na própria pátria. Os alçapões são tremendos.

E como a camaradagem é o emblema do Governo – um por todos e todos por um – logo o Primeiro Ministro se apressou a saltar à arena já que, ostracizados os alunos, os professores ficariam desempregados, pelo que, em recurso, e para salvar os seus hierárquicos, aconselhava também os mestres a acompanhar os alunos, sugerindo as ex-colónias para continuar a colonização interrompida abruptamente. O que ia em contraponto com a opinião do secretário de Estado das Comunidades, António Braga, que anunciava, em 21 de Junho de 2005, a intenção do Governo de acabar com o envio de professores de português para o estrangeiro, e tinha inaugurado, em Outubro de 2009, o Gabinete de Emergência Consular que funcionava 24 horas por dia para prestar apoio aos portugueses no estrangeiro que se encontrassem em situações de emergência.

Para este Governo não há situações de emergência. Para a frente e cara alegre.

Postas as coisas nestes termos para que a memória do futuro não o esqueça nos seus arquivos, somos despertos pelas trombetas dos arautos do semanário Sol, do dia de hoje, com esta diatribe, que brama como um rastilho:

Passos Coelho tinha sugerido que os jovens alarguem o seu mercado de trabalho e, posteriormente, o euro-deputado do PSD Paulo Rangel chegou mesmo a sugerir, na última reunião do Conselho Nacional, a criação de uma agência nacional para ajudar os portugueses que queiram emigrar.

Chama-se a isto a difusão de ideias difusas, provocadas pela sensação de que Portugal afinal anda de mente perdida, que não há uma nova forma de fazer política, mas uma nova forma de perder a vergonha, e de argumento em argumento, deixando a História percorrer os trilhos dos dias que correm, Portugal tende a desaparecer dentro dos próximos 50 anos.

É provável que, perante a crise que nos arrasta, a única solução viável para Portugal se realizar seja esse: espalhar alunos e professores nas malas diplomáticas para o estrangeiro e esperar de volta pelos netos aptos a negar a asserção de Júlio César:

Ali para os lados da Lusitânia há um povo que não governa nem se deixa governar

João Boaventura
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*O título deste Post, com a devida vénia, foi tirado do de um artigo publicado no Jornal i, no dia 17.12.2010, abordando o Dia Internacional do Migrante - o 18 de Outubro de 2010 – para dar a conhecer o mundo dos luso-descendentes em Portugal.

sábado, 21 de janeiro de 2012

George Bernard Shaw e os "interesses britânicos"



Com muito agrado do DRN, e provável desagrado dos súbditos de Sua Majestade, aqui se publica mais um texto do ensaísta e crítico literário Eugénio Lisboa:

Na última cimeira europeia, o primeiro ministro britânico, David Cameron, auto-excluíu-se do processo em curso, alegando estar ali apenas para defender os sagrados “interesses britânicos”. Quando um primeiro ministro de Sua Majestade britânica invoca este poluído cliché, já se sabe que o faz por estar a ter, no seu próprio país, problemas graves, que ameaçam a sua continuação no poder. O toque de clarim destinado à mobilização nacional tenta descortinar um inimigo comum, que desvie, por algum tempo, a atenção dos eleitores, dos graves problemas internos, para supostos inimigos externos. Os “interesses britânicos” costumam surtir grande efeito, em situações como estas. É xenófobo, egoísta e um tanto reles, mas os políticos de Sua Majestade não costumam hesitar: apelar para a defes adesses “interesses” é um verdadeiro grito de “Às armas!”, que anula, instantaneamente, toda a racionalidade e decência e une os cidadãos até aídivididos, dispondo-os, na sua grande maioria, a apoiar o ministro, que, até há pouco, quereriam derrubar.

George Bernard Shaw, o grande dramaturgo irlandês, que conhecia os ingleses como ninguém – os irlandeses conhecem bem os ingleses, pelas piores razões possíveis – não os poupava, desmascarando-lhes as intenções torpes, por debaixo da nobreza dos princípios invocados. Era, precisamente, o autor de Pigmaleão quem observava, com tiro certeiro: “Um inglês faz tudo, invocando princípios: luta contra ti, ao abrigo de princípios patrióticos; rouba-te, invocando princípios de negócios; escraviza-te, alegando princípios imperiais.” Tudo – porrada, roubalheira, opressão – sob a alçada de um discurso nobilíssimo e alevantado.

O recurso a um chauvinismo nacionalista, em pleno palco de uma cimeira europeia, que deveria, por isso mesmo que é europeia, fazer esbater todos os pruridos nacionalistas, dá bem a medida do modo de ser insular daquela curiosa e, aliás, corajosa gente. “O nacionalismo”, observava um romancista de entre as duas guerras (Richard Aldington), “é um galo tonto a cacarejar no seu próprio chiqueiro.” Eis um anglo-saxão lúcido e sem medo de dar o nome aos bois. Outro – Robert Snayerson– oferece-nos esta medalha bem polida: “O orgulho nacional é a forma moderna do tribalismo.” Eis o que o inglês médio, mesmo no século XXI, ainda não compreendeu: de aí, persistir, absurdamente, na libra, na condução pela esquerda e no ódio ao sistema decimal. Admirável coerência, se quiserem, mas alimentada em pura obtusidade.

Voltando a Cameron, típico produto do pior conservadorismo inglês, é mais do que provável que o primeiro ministro britânico tenha julgado “necessário”, para salvaguardar o seu futuro político, recorrer ao chauvinismomais desbragado. Mas todos sabemos onde podem levar as chamadas “necessidades políticas”. O já citado George Bernard Shaw, persistente Nemésis dos vícios disfarçados dos ingleses, notava, provavelmente a pensar nestes, que “as necessidades políticas se revelam, por vezes, erros políticos.

A invocação inoportuna dos “interesses britânicos”, particularmente no contexto de uma cimeira europeia, trouxe-me irresistivelmente à memória uma passagem célebre de uma das peças mais famosas do grande dramaturgo irlandês: Santa Joana. Numa reunião em que se congeminava o julgamento de Joana d’Arc, estando presentes o bispo Cauchon, Lord Warwick e um sanguíneo capelão inglês, Cauchon adverte: “Eu não sou meramente um bispo político: a minha fé é, para mim, o que a vossa honra é para vós; e se houver uma saída por onde esta baptizada filha de Deus possa esgueirar-se para obter a salvação, guiá-la-ei nessa direcção.” Isto irrita os ingleses, que querem “despachar” o julgamento e levar, rapidamente, a Donzela à fogueira. Iracundo, o capelão inglês reage, chamando “traidor” ao bispo francês, que se exalta e responde altivamente, nestes termos: “Vós mentis, padre. Se vos atreverdes a fazer o que esta mulher [Joana d’Arc] fez – pôr o vosso país acima da Santa Igreja Católica – ireis para a fogueira com ela.” Warwick, pragmático, conciliador, dirige-se, apreensivamente, ao bispo: “Meu Senhor: peço-vos desculpa pela palavra [traidor] usada por Messire John Stogumber. Não significa em Inglaterra o mesmo que em França. Na vossa língua, traidor significa aquele que trai: alguém que é pérfido, traiçoeiro, desonesto,d esleal. No nosso país, significa simplesmente alguém que não é totalmente devotado aos nossos interesses ingleses.”

Esta flecha envenenada, atirada por Shaw aos ingleses, desvela bem as grandes prioridades da pátria de Shakespeare, que se escondem um pouco por detrás daquele hipócrita “simplesmente” – os “interesses” são tãos agrados que o não total empenho na sua defesa seria – e é – nada menos do quealta traição, mais grave, de longe, do que o estupro ou o assassínio. Vem, a propósito, citar o romancista Malcolm Bradbury, quando dizia: “Gosto dos ingleses. Têm o código de imoralidade mais rígido do mundo.” E, também, digo eu, o mais original...

Os ingleses estão tão convencidos da sua superioridade em relação ao resto do mundo, que Cecil Rhodes afirmava que ter nascido inglês era o mesmo que ganhar a taluda, na lotaria da vida. E um personagem de uma peça de Shaw não hesita em afirmar: “Nós não fomos lealmente batidos, my Lord. Nenhum inglês é jamais lealmente batido.”

Há neste convencimento cego uma estreiteza, uma espécie de incesto sufocante e grotesco de que toda a gente se apercebe, menos o singleses. O romancista e historiador H. G. Wells, espírito universalista e, sob tantos aspectos, tão pouco inglês, bem avisava: “A democracia ateniense sofreu muito devido à estreiteza do patriotismo, que é a ruína de todas as nações.” Mais malcriados e directos, os franceses dizem-no de outra maneira: “O casamento produz cornudos e o patriotismo produz imbecis” (Paul Léautaud, Journal). Mas foi, afinal, Bernard Shaw (sempre ele!) quem disse o óbvio: “O patriotismo é a nossa convicção de que o nosso país é superior a todos os outros, por termos nascido nele.

David Cameron e os ingleses, em geral, deviam meditar nestas verdades simples e humildes, para evitarem falar de “interesses britânicos”, em ocasiões em que o tom apropriado seria coesão e solidariedade. O anúncio recente de estarem a preparar uma grande armada para repescarem súbditos britânicos de uma alegadamente falida Europa continental vai direitinho para um exigente antologia de disparates de dimensão galáctica!

Eugénio Lisboa

Na fotografia: David Cameron.