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quinta-feira, 12 de abril de 2018

O QUE É A SOCIOLOGIA?

Com a devida e merecida vénia, transcrevo a seguir um texto do sociólogo Vitor Sérgio Ferreira, que foi primeiramente publicado em vários jornais regionais através do projecto "Ciência na Imprensa Regional - Ciência Viva".



"É inescapável: todos e todas estamos inserido em redes de relações sociais que nos influenciam - e que nós também influenciamos - no que pensamos, no que dizemos e no que fazemos no dia-a-dia. Desde que nascemos, na família. Na escola, entre colegas e professores. Entre os nossos amigos e os nossos vizinhos. Associamo-nos a coletivos de pessoas, uns mais formais (associações, partidos políticos, movimentos sociais, clubes ou igrejas, por exemplo), outros mais informais (o grupo de amigos do futebol ou com quem se praticam outras atividades, a banda musical que se forma, as pessoas do facebook ou de outras redes sociais com quem se interage, ou os amigos que se encontram regulamente). Integramo-nos em empresas ou em outro tipo organizações de maior ou menor porte para trabalhar, lidando diretamente com hierarquias e relações profissionais. Experimentamos vidas em comum, com amigos, conhecidos, namorados, companheiros. Construímos novas famílias, e várias, ao longo da vida.  

Enfim, a vida faz-se sempre uns com os outros, em grupos e instituições que moldam as pessoas de formas diferenciada e desigual: em função das condições económicas, sociais e culturais das famílias em que nasceram e em que vivem; das qualificações que conquistaram e as competências que desenvolvem; de ser homem, mulher ou transgénero; da idade que se tem e dos papeis que são chamados a desempenhar ao longo da vida (criança, jovem, adulto ou idoso; estudante, trabalhador ou reformado, ou filhos, pais ou avós, por exemplo); das condições laborais e profissões que se tem, as quais conferem às pessoas estatutos sociais mais ou menos valorizados e favorecidos do ponto de vista social. Herdamos redes de relações sociais e construímos outras, constantemente, numa sociedade cada vez mais complexa, fluída, globalizada e imprevisível.

É neste âmbito que, em termos gerais, encontramos a especificidade da Sociologia enquanto área do saber: a sua vocação é estudar as relações sociais que se estabelecem entre as pessoas e que constroem a vida social, ao nível mais quotidiano dos encontros sociais, ao nível mais institucional da vida das organizações, ou ao nível mais estrutural das relações transnacionais e dos problemas globais, para dar alguns exemplos. Interessa à Sociologia, portanto, descobrir como essas redes de relações sociais mais localizadas ou mais amplas são construídas, explicar como são organizadas, compreender que influências têm na vida de cada um, e que impactes têm na vida de todos, nomeadamente em termos de manutenção ou de transformação social.

Mas nada disto acontece de forma determinista e pré-determinada. A vida social tem as suas regras e regularidades, mas não tem leis universais, como tendem a procurar outras ciências. As relações sociais são sempre contextualizadas nos tempos da História coletiva e das histórias de vida, bem como nos espaços geográficos e culturais, de fronteiras cada vez mais fluídas. Dentro dessas matrizes de tempos e espaços, as pessoas vão construindo umas com as outras (em colaboração), ou umas contras as outras (em conflito), campos de possibilidades para projetar e desenvolver as suas vidas pessoais e coletivas.

Acontece que esses campos de possibilidades não são igualitários na sua «estrutura», ou seja, nas oportunidades que dão e nos constrangimentos que colocam às pessoas. As relações sociais tendem a ser caracterizadas não apenas por diferenças marcantes, mas também por desigualdades profundas. Há quem nasça em condições sociais e económicas mais favorecidas ou mais vulneráveis. Há quem adquira estatutos sociais conferidores de mais poder para si próprio e sobre os outros. Estas condições constrangem, desde logo, o espaço de possibilidades e escolhas de cada indivíduo ou grupo. Daí a sociologia, ao saber que isso acontece, ao estudar como e por que acontece, também participar frequentemente com o conhecimento que produz na fundamentação de políticas que favoreçam a igualdade de oportunidades entre as pessoas.

Considerando a relação de intimidade de toda a gente com o objeto próprio da Sociologia, a vida social, essa relação tem tanto de fascinante quando de perigosa no exercício das várias práticas profissionais dos sociólogos, seja na universidade, seja em muitos outros campos onde estes praticam o(s) saber(s) sociológico(s). Enquanto seres sociais, todos construímos juízos de valor e categorias de interpretação da vida em sociedade, as suas instituições e dinâmicas sociais. No entanto, nem todos estamos habilitados a fazer sociologia.

O que difere a Sociologia da mera opinião - mesmo que informada e sofisticada - e lhe confere o estatuto de Ciência, é o facto do conhecimento que produz ser sempre resultado de um processo de investigação empiricamente fundamentado. Esse processo, por sua, vez, implica a aplicação sistemática e controlada de um conjunto de protocolos metodológicos, técnicos e deontológicos, que orientam a produção, o tratamento e a análise de dados empíricos de natureza diversa, quantitativa ou qualitativa. É neste sentido que, muitos de vocês, caros e caras leitores e leitoras, já terão sido interpelados por sociólogos ou aprendizes de sociologia para preencher um inquérito por questionário, para responder a uma entrevista ou participar de um grupo de discussão, ou para serem observados na vossa vida quotidiana, ou acompanhados em alguma atividade específica.
Os dados que vocês, gentilmente, cedem aos sociólogos quando colaboram nas nossas pesquisas, é para nós um bem extremamente valioso, na medida em que só através deles são validadas as hipóteses de explicação e compreensão da vida social construídas com base no património conceptual historicamente acumulado no campo da Sociologia. É esta articulação cuidadosa e eticamente conduzida entre os dados que as pessoas nos facilitam, as teorias que temos e os métodos que aplicamos, que protege a Sociologia e os profissionais que a fazem das contaminações ideológicas e posições dogmáticas tão facilmente (re)produzidos na vida social. Ao invés, toma-as para si própria como objeto de estudo, desconstruindo e explicando ideias feitas, generalizações abusivas, universalismos reducionistas ou individualismos culpabilizantes, e dando a conhecer o mundo social na sua pluralidade, organicidade e complexidade.

Tal só se consegue fazer com uma sólida formação de base, em termos teóricos, metodológicos e éticos, a qual deveria começar tão cedo quanto possível. Apesar de recente, a Sociologia é, hoje em dia, um campo disciplinar consolidado em Portugal, com uma oferta formativa de qualidade internacionalmente reconhecida no ensino superior. Tem sido, no entanto, uma disciplina menosprezada na oferta formativa ao nível do ensino secundário. Resume-se hoje a uma disciplina de opção no 12º ano de escolaridade, onde os sociólogos, anacronicamente, continuam a não ser reconhecidos pelas instâncias oficiais como detentores da habilitação própria para fornecê-la aos estudantes, facilmente ultrapassados nos concursos de colocação de professores por colegas de outas áreas.

Ora, numa era em que tende a impor-se o «paradigma da pós-verdade», a revalorização escolar da Sociologia numa etapa precoce da trajetória escolar contribuiria, com certeza, para uma formação mais crítica, reflexiva, inclusiva e cidadã dos jovens estudantes, quando ancorada em conhecimento cientificamente fundamentado sobre os desafios que lhes vão ser colocados com maior intensidade pelas sociedades contemporâneas nos seus percursos de vida."


Vitor Sérgio Ferreira (Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa)

quarta-feira, 3 de maio de 2017

"SOCIOLOGIA DA CIÊNCIA E ESTUDOS SOCIAIS DA CIÊNCIA: DUAS PERSPETIVAS SOBRE UM OBJETO?"



No próximo dia 9 de Maio, terça-feira, pelas 18h00, realiza-se no Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra a palestra intitulada "Sociologia da ciência e estudos sociais da ciência: duas perspetivas sobre um objeto?"

A palestrante será a socióloga Ana DelicadoProfessora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.

Resumo da palestra:
"Nenhuma actividade humana é estranha às ciências sociais e a ciência disso não é exceção. A ciência pode pois ser um objeto de estudo para as ciências sociais e em particular a sociologia. Mas há diferentes formas de estudar a ciência. A mais tradicional/clássica olha para a ciência enquanto profissão, com as suas formas de formação, regulação e promoção. Ou enquanto campo social, com o seu capital próprio e hierarquia de posições diferenciada. Ou enquanto sistema, composto por instituições, sujeito à influência de políticas públicas.  
Mas há outras formas de estudar a ciência, que se centram em como o conhecimento científico é manufaturado, que tentam “abrir a caixa negra” dos processos de investigação e compreender a produção de ciência como uma construção social. Se a primeira é relativamente consensual e pouco discutida fora do meio académico da sociologia, a segunda “saltou a barreira” entre as ciências “duras” e “fofas” e tem suscitado algumas controvérsias e acusações de “relativismo”, ao equiparar a ciência a outros tipos de conhecimento. Serão então os estudos sociais de ciência “anti-ciência”? Ajudarão eles a minar a confiança do público na ciência? Ou poderão ter um papel na melhoria da compreensão mútua entre ciência e sociedade?"

Esta palestra insere-se no ciclo "Ciência às Seis" coordenado por António Piedade.

ENTRADA LIVRE
Público-alvo: Público em Geral 

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Premio Kluge 2012:Um reconhecimento da importância das Ciências Humanas e Sociais!


Discurso de Fernando Henrique ao receber o Prêmio Kluge, da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, considerado o Nobel de Sociologia:
(Acceptance speech for the Kluge Prizein Washington, D.C., July 10, 2012)

Ladies and gentlemen, esteemed Doctor Billington, distinguished guests, fellow Brazilians, colleagues, friends:

It is with great emotion that I stand before you this evening.

I feel honored, and humbled, to receive this most prestigious prize. I must confess to you that I also feel a bit nervous, perhaps overwhelmed. This may sound slightly ridiculous, coming from someone who was the president of Brazil for eight years, and who spent many decades lecturing at universities in the United States, France, Latin America and in my own country. But I insist that it is true.

My emotions can be explained partly by circumstance. English is my fourth language, one in which I am prone to making atrocious errors. In addition, since I gave my first university lecture at the tender age of twenty one, I have preferred to speak not from a script – but in a more improvised, informal fashion. This has always been the Brazilian way; anthropologists tell us that the indigenous people of Brazil’s Tupinambá culture gathered every day at sundown to trade stories and gossip. A fine oral tradition, one that has endured. But I am afraid that the distinguished group of people gathered tonight, and the high standard set by the scholars who won this award before me, preclude me from being so daring as to speak extemporaneously.

Above all, though, I am deeply moved by one essential truth. I am deeply moved by how unexpected this honor was. I am the first Brazilian – and the first Latin American – to receive the Kluge Prize. This is a true privilege.

There was a time, not so long ago, when such an honor would have been difficult to imagine. I spent a portion of my academic career studying the relationship between the wealthy core of countries in Western Europe and North America and what was then known as the “periphery” – countries such as Brazil that were distant, economically and geographically. This division between rich and poor seemed immutable.

I remember when Jean-Paul Sartre and Simone de Beauvoir visited Sao Paulo in 1960. Brazil’s intellectual community was so small during that era that, when Sartre was to be interviewed on live television, a spontaneous call went out to the audience for someone who could translate. A young professor volunteered. The young professor did not speak perfect French, and utterly failed to do justice to Sartre’s message … That young professor was me … Luckily, Sartre never discovered the ruse.

In any case, it didn’t matter. At the time the intellectual community in Brazil was connected mainly to France. For us, the mere fact that an esteemed philosopher from the “first world” would take the time to visit a peripheral country – that was sufficient. We were surprised and delighted.

Fifty years have passed. Brazil has changed enormously. So has the world. Brazil is now the world’s number-six economy, bigger than Britain or Italy, and it is closing in on France. My country still suffers from a great many problems and injustices, but it has also become a leader in many areas. Indeed, the economic dynamism of the world has now come to depend, to a large extent, on the former “periphery” – the BRICS countries: Brazil, Russia, India, China and South Africa. Meanwhile, what we once called the “core” is now mired in a seemingly endless crisis, with an uncertain future. I must confess that most people from my generation never thought such an inversion of the global order would be possible.

In our days, by contrast, the universities of the so-called “emerging world” are growing and improving, producing ever-more leaders in research, innovation and business. Indeed, I am certain there will be many more scholars from emerging societies who will win the Kluge Prize. This shift of global power is surely one of the great defining events of our time.How did this transformation occur?

How did Brazil and other emerging countries overcome many of their problems, and give rise to a new order? How did a sociology professor born in Rio de Janeiro, into an impoverished and overwhelmingly illiterate country in the grip of a Great Depression, come to stand before you tonight – in these hallowed halls of the United States Congress?

I cannot attempt a comprehensive explanation here tonight. I hope you will forgive me if I focus instead on relating my own personal experiences, both as president and professor. I am entering my ninth decade of life, and I have found that the line between knowledge and memory becomes blurred. It also becomes more difficult for one to say something truly new. Yet I hope that, perhaps, by telling some of my own story, I might shine some light on the experiences of others, on the experiences of Brazil and other countries – on a broader, more important story. De te fabula narratur, as the ancient ones said.

Over the years, many wise people have spoken of the difficulties faced by those who attempt the dual vocations of politician and academic. Max Weber composed admirable essays about both conditions. In times of difficulty as president, when I needed to explain one political decision or another, I myself appealed to the well-established dichotomy between the ethics of responsibility – those of the public official – and the ethics of absolute, final values – those of the priest, prophet and professor. Some have said that reconciling this dichotomy requires a “pact with the devil.” That has always struck me as an exaggeration. But my story is, in many ways, deeply rooted in those same choices between values and practice – between reason … and emotion.

In the beginning, though, my choices were simple ones. Instead of choosing the established paths of law or letters, I went to study sociology at the University of Sao Paulo. In truth, I didn’t really know what I would learn. I suspect my classmates didn’t, either. We were studying to be sociologists … I think we really wanted to be socialists. But I was seventeen years old, and I wanted to change the world … or, more modestly, I wanted to improve life in Brazil.

There were so many things that needed improvement. Brazil was still deeply rooted in its past, a country that had been both a colony and the seat of a European empire – a country that had imported ten times as many slaves as the United States, and did not abolish the abominable practice until 1888. As I began university, in the late 1940s, more than half of Brazil’s population suffered from chronic malnutrition. A similar number could not afford shoes. Only one in three children attended school. In vast rural areas, half the babies did not survive to see their first birthday. The average lifespan was just 46 years, versus 69 in the United States. It was a tremendously poor, unjust country.

I came from an upper-middle class family in Rio. My father was a general, as was my grandfather. Many of my ancestors had also served both the Empire and the Republic. When I was a child, Rio de Janeiro was still Brazil’s capital, a place where the middle class clung to an insular life of small privileges. I remember taking gym classes on Copacabana Beach, and jogging up the verdant hills overlooking the city, still mostly free of favelas – the shantytowns that would soon become an indelible part of the landscape. Yet, by the time I went to university, Brazil had already begun its profound change. My desires, and my values, reflected this changing environment. The egalitarian impulse that Brazil received upon joining the Allied cause in the Second World War created a unique impetus for us to develop and democratize. Brazilian military who fought and died for democracy in Europe knew they could no longer defend an unequal dictatorship at home.

Inequality and under-development were my focus as I began my studies. Yet I must admit that some time passed before I saw the connection between my social and political concerns and the academic formation I was receiving. If Descartes – whose work was taught to us in French, by a professor from the Collège de France – could be assimilated quite easily, Kant, with his a priori principles, was more difficult to understand. In Durkheim Les Règles de la Méthode Sociologique I found the clarity Descartes advocated for. I was persistent, especially in my desire – even then – to find a link between academic practice and real-world action. I read Weber furiously – I saw in his “action with purpose,” in his descriptions of the various forms of domination, or in his vision of charisma as the counterbalance to bureaucratic banality, the first flickers of the life that awaited me.

I read with passion Karl Mannheim’s books on Ideology and Utopia and Freedom, Power and Democratic Planning. The seduction of ‘great theories’ did not preclude me from looking for empirical community studies and the functionalist method prescribed by Parsons and Merton.

I was also influenced by authors dedicated to understanding the basis for social interactions, including their constituent moral or value dimensions. Great theoretical construction based on systemic or purely structural analysis, without the dynamics of human interaction, hide more than they reveal. In dialogue with Weber, Tonnies insisted that without human will no action is possible. People relate to each other either by sharing a common experience in community life or by entering into contractual relations in societal life. For Tonnies, community and society are basic forms of sociability.

Indeed, all of the theory we studied revolved around relatively simple questions: What are the forms and mechanisms that define the relationship between the individual and the social? What forms of social cohesion are generated? What are the structures in which these interactions take place? How to justify – and legitimize – the process by which outside decisions are imposed upon the individual?

Finally, it was Marx, and authors such as Tocqueville, Mannheim and Schumpeter, among other great thinkers of structural transformation, who consolidated my vision as a sociologist. Structures are basic to explain society but they are not enough to account for change. Without taking into account value-inspired human action we cannot explain the dynamic of historical process. Drinking from these multiple sources, I gradually forged what came to be called a ‘historical-structural’ approach. Structures provide the field of possibilities for human action but it is the will of individuals, groups and classes, driven by values and ideologies, that create the opportunity for change.

That is why sociology is a human science. Or, if you prefer, as was said in the old times, a moral science.

This vision enabled me to link my academic training with my impulse to promote change and influence reality. These questions, these products of my academic instruction, were the foundation for everything that came later. And they gave me the tools that allowed many of us to the venture into the world and try, in our own small way, to chip away at that stubborn façade of Brazilian inequality, one small step at a time.

My first work as a sociologist was on that timeless Brazilian issue – race. This was the 1950s, and the official line was that Brazil was a racial democracy; that, despite our history of slavery, the country did not discriminate on the basis of skin color. It was true that there was no official segregation, as in the United States. But it was plainly obvious to everyone in Brazil that darker skin equaled greater poverty. The favelas that were appearing in Brazilian cities – on those verdant hills in Rio, and elsewhere – were dominated by people of African descent. These communities lacked even the most basic access to education, healthcare, or the broader economy. Thus, the myth of racial democracy was in fact quite pervasive. It masked reality and yet contradictory also expressed the aspiration to accede to more tolerant racial relations.

We set out to explode this myth. To do so, we needed empirical evidence. Guided by my mentor, the professor Florestan Fernandes, we ventured into poor neighborhoods in the southern state of Rio Grande do Sul – an area where slavery had not been as entrenched, and therefore the consequences would be easier to see. We must have been a strange sight – we were young white men asking pointed questions about how blacks and whites interacted in Brazil. The people we talked to were forthcoming but the data we collected was damning. There could be no doubt that the legacy of slavery continued to influence inequality in Brazil.

In my doctoral dissertation, Capitalism and Slavery in Southern Brazil, I endeavored to study the historical structure of the intricate relationship between masters and slaves. In order to understand it, I took into account the general causes that determined it, that is to say, the functioning of mercantile capitalism at the global level. However, I also stressed that the relationship between masters and slaves could only be understood if they were, at the same time, included in the specific dynamics of the Brazilian colonial society, which was not a mere extension of the international productive system.

In ensuing years, the topics of my research would change. But the objectives never did: I wanted to understand what was happening in contemporary Brazil. I wanted to tear down myths and expose truths – on both “left” and “right.

One of these myths was the assumption of a potential alliance between progressive entrepreneurs and the working class to oppose the block made up by agrarian landowners and foreign interests. My research in the book Industrial entrepreneurs and economic development in Brazil demonstrated that this interpretation was a mere illusion.

In 1964 reacting against the call for land and other structural reforms most businessmen supported the military coup-d’état to stop the so-called populist subversion.

As part of the wave of repression I was forced to leave the country with my family. We moved to Santiago of Chile, then a haven of freedom in South America. These were times of political radicalization. The Cuban revolution at the height of the Cold War led to an extreme polarization between revolutionary movements and military repression.

Within this framework, a theory became fashionable to explain underdevelopment in Latin America. The so-called periphery was condemned to a permanent state of submission by the rich countries of the core. This theory held that only a total rupture – a global socialist revolution – would be capable of changing the capitalist order, thus removing the obstacles to economic development.

Working with my colleague Enzo Faletto, we wrote a book – Dependency and Development in Latin America – that described a far more complex and dynamic world. Starting with the economic analysis of Raul Prebisch and other thinkers of the Economic Commission for Latin America (ECLA), we realized that the periphery was far from being homogeneous and static. We underlined the historical formation of social classes, of the state as well as the different linkages with the world market. These differences paved the way for alternative forms of economic and social development contingent upon human agency. That is to say we were not condemned to permanent backwardness but challenged to find the appropriate ways to overcome structural barriers.

This seems evident today, but I can assure you it was considered heresy at the time. We were one of the first, in the late sixties, to talk about the internationalization of domestic markets. This process, in retrospect, was in the initial pahse of what later became known as ‘globalization.’ It started in the seventies, extended to the financial market in the nineties, going much beyond the internationalization of domestic markets to encompass the global productive system. This force, and the ability of governments to properly harness it, would be absolutely critical in determining the rise of the BRICS countries, some years later.

After living abroad with my family from 1964 to 1968, working in Chile and teaching at the University of Paris I returned to Brazil in October 1968. At the time democratic pressures seemed to be opening space for some degrees of freedom. Illusion again. A coup by the military hardliners in December 1968 led to a re-imposition of torture and repression. I was stripped of my professorship and forced by the military into early retirement – at the age of only thirty-seven.

Many people, fearing for my personal safety, urged me to leave Brazil again. My decision on these very difficult days was to stay and resist, doing the utmost to preserve spaces for critical thinking. This decision was not without risks. My work was frequently censored. I had to endure long hours of questioning in one of the most notorious center of torture in São Paulo. Many friends and colleagues had to pay a much higher price.

But with many other groups of civil society and political opposition we managed to pursue a ten-year struggle to restore freedom and democracy to Brazil. We founded an independent think tank – CEBRAP – that became a kind of monastery in the Dark Ages keeping alive the flame of resistance.

I published one of the first books openly criticizing the authoritarian regime – Authoritarianism and Democracy – and exploring the ways leading to a political transition from military rule to democracy.

The dictatorship spoke of a “Brazilian miracle,” but there was far less progress than met the eye. CEBRAP published a book called Sao Paulo: Growth and Poverty. The book showed that during the years of the so-called miracle, 80 percent of Brazil’s population suffered a decline in real income. This was a product of an authoritarian system that benefited only a small percentage of society. In such a system, no country can experience authentic progress.

This role I assumed of a public intellectual committed to democracy led me to engage in political life. I ran for the Senate in 1978 on behalf of the opposition party and was elected as deputy senator from the state of São Paulo. In 1983 I became a full senator until my election as president. In 1988 I helped to form a new political party (PSDB).

Did this political engagement imply a “pact with the devil?” No, it did not. Did it imply a rejection of my principles, or the academic work I had done? Quite the contrary. The exercise of politics required an ability to clearly diagnose Brazil’s problems, to understand the structures that were available to affect change, and to accurately gauge what was possible in our society. This was the work of a sociologist. In that sense, the academic and the politician – reason and emotion – they were not only complementary. They were both essential.

If there was ever a situation that demanded the skills of a sociologist, it may have been the chaos that confronted Brazil in the early and mid-1990s.

Ours was a country in crisis. While Brazil had recently returned to democracy, the transition had been difficult. Our first democratic president tragically passed away just before taking office; our second was impeached under a cloud of suspicion. Meanwhile, our economy was suffering the cumulative effects of years of mismanagement and growing inequality. Perhaps the clearest symptom was inflation – in 1993, it reached in average the inconceivable level of 25 percent per month. Brazil had seen seven different failed currencies in the last eight years. People were using words like “basketcase” and “pariah” to describe our country. This was perhaps the period when that regrettable saying by Stefan Zweig, about Brazil being the eternal country of the future, was heard most frequently.

I was then serving as foreign minister when President Itamar Franco called me late one night in New York and asked me to become finance minister. I recoiled in horror. I was not a trained economist, and I feared the position would be a political death sentence. I told Itamar that I was honored, but it would be better not make another change of finance minister which would have been the fourth in seven months. I went to sleep. The next morning, I began receiving phone calls from journalists, congratulating me on my new position – and asking me what would be my first decision as finance minister.

I knew we had to confront inflation, for political and moral reasons. The truth about inflation was that it damaged the poor the most – it left the majority of society unable to save, or invest, or plan, and thus it perpetuated inequality.

We decided to resolve the problem by introducing another new currency, called the “real.” The plan itself was concocted by young economists who were brilliant in their financial engineering. My contribution had more to do with the way the plan was presented and in assuring the necessary political support in Congress and Society. Previous attempts to introduce new currencies depended upon surprise and secrecy to try and slow the inflationary spiral. They all failed. As a sociologist, I knew that in open societies, confidence is just as important as technical competence. Communication between leaders and society is just as critical as the quality of the policies being implemented. Consequently, I took great pains to explain our logic, and our plans, to the Brazilian public for months in advance before the real was launched. I truly believe that this transparency was the determining factor of our success.

Inflation would fall from 25 percent per month in 1993 to 5 percent per year by 1995. The effect on Brazilian society was instant and profound. People who were living in abject poverty could now retain the value of their money, and buy basic things like yogurt and chicken – others, of greater income, could now save to purchase TVs and cars for the first time. It was the very definition of a policy that would both create wealth and reduce inequality. That is why I was elected President in October 1994 by majority vote in the first round.

In my two consecutive mandates we took many other steps to make a more prosperous and equal Brazil. We implemented compensatory policies, to address inequalities, including racial, that I had documented so many years before. We implemented progressive policies on AIDS prevention and land distribution that would address the needs of the poorest members of society. We gave a firm impulse in universal education and health care.We sought to invigorate the economy by breaking monopolies and privatizing some state companies, without ever abdicating the state’s necessary role as an economic agent, both in promoting development and in playing a direct role in some strategic areas, as petroleum and finances.

My beloved late wife Ruth, an accomplished academic in her own right, established a program called Comunidade Solidária, which broke with the traditional patronage of social programs. The focus passed from merely satisfying necessities to strengthening people and communities.

The Plano Real, the opening of the economy and the policies to reduce poverty and inequality were pursued by successive governments, under different political parties, expressing a growing consensus around a common ground.

Along the way, inevitably we made mistakes. Yet all these steps, in conjunction, allowed Brazil to take advantage of that positive force that we had begun to perceive in the 1960s. The collapse of the Berlin Wall had accelerated globalization, and given rise to an unprecedented wave of wealth creation throughout the world. By stabilizing the economy, establishing a political consensus behind responsible policymaking, and addressing the needs of our poorest, we were able to ensure that Brazil fully harnessed that titanic force.

Looking at the world today, the challenges and problems facing all of us are in many ways familiar to me. In several countries, including some in the former “core,” deep inequality has paralyzed progress. Other countries still face the tyranny of a tiny elite that refuses to let go of power, and continues to dominate wealth and privilege.

Experience has taught me to be optimistic. Brazil’s example shows that even a country deemed “hopeless” can reverse its fortune quickly. Plus, there are new structures and tools available to us for social change that are more far-reaching, and more immediate, than the ones I first studied at the University of Sao Paulo some six decades ago. In some respects, there has been a re-encounter with concepts such as humanity and community.

Social structures, social classes and national states by themselves no longer account for the diversity of actors engaged with global problem and challenges affecting the whole of mankind. As outlined by Alain Touraine, global social movements of an incredible variety express a point of view of humanity.

New forms of identity and community are being recreated without necessarily implying a face to face relationship. The positive role of social media such as Facebook and Twitter in marshaling social change and causing a rupture in existing social structures, in cases such as the Arab Spring, has been well documented, among others, by Manuel Castells. It’s as if we need to rediscover the dialectic between the thinking of Rousseau and Montesquieu in order to allow for a future synthesis, or at least an accommodation between the institutional order and spontaneous movements.

I don’t know what will come of this relationship in the future, but it’s clear that some of the old concepts are now insufficient to understand today’s world.

Yet, that doesn’t mean we should turn our backs on the classic lessons or methods of the social sciences. Far from it. This group of distinguished people gathered here tonight is a celebration of the great and important role that the humanities can play in our modern world – in politics, academics, and human thought more broadly.

I hope that people will look at the Brazilian experience and realize the importance of tolerance and diversity. I mentioned earlier that the notion of a ‘racial democracy’ was both a myth and the expression of a genuine desire for this to be true. Today, thanks to the compensatory social policies and the pressure toward greater democratization, combined with the lack of big cultural divides, there is a growing trend toward the acceptance of differences and even tolerance of conflicts. This attitude, strongly criticized in the past as proof of a permanent political conciliation among the elites, now takes a much more positive meaning.

I believe that the current power shift underway means that the Western world, in order to assure its continued influence and legitimacy, must become more accepting and inclusive of other countries’ cultures. Brazil’s story shows how a diverse country can become part of the modern world. The globalization of the economy, and the acceptance of the market as the regulating force in many aspects of life, cannot become a straitjacket. There will always be room for cultural alternatives, for national morals and behaviors that will keep things from becoming flat and boring in this world. Hopefully Brazil, with its unique creativity and imagination, can be an active agent in the construction of a political and economic order which allows not only for increases in GDP – but in the happiness of countries. Perhaps I have played my small part in furthering this debate.

As for me, I continue to remain active, focusing not on day-to-day Brazilian politics, which I abandoned upon leaving the presidency – but on international issues such as democratic global governance, the restructuring of the financial order, and international drug policy. I have lost many loved ones in recent years, among them dear Ruth. This has been difficult; it reminds us that time is passing, and that soon nothing will be left to judge us but history. Yet I continue to try to do my small part, still relying upon those reserves of reason and emotion.

Standing before you tonight, perhaps that dichotomy is a bit out of balance. As I said at the beginning of my remarks, it is emotion that I feel most acutely at this moment. I feel truly overwhelmed – overwhelmed by gratitude – gratitude to my country, gratitude to this institution, and gratitude to all of you … for making tonight possible. Thank you for this great honor. Thank you so very much.

Fernando Henrique Cardoso

terça-feira, 13 de março de 2012

A Classe Média: Declínio, Implosão ou Reinvenção?


Informação recebida do Centro de Estudos Sociais de Coimbra:

Lançamento de livro e debate

A Classe Média: Declínio, Implosão ou Reinvenção?

13 de março de 2012, 15h30, Auditório da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra

A propósito do livro «A Classe Média: Ascensão e Declínio» de Elísio Estanque, publicado pela Fundação Franscisco Manuel dos Santos

Comentadores: José Pacheco Pereira e Manuel Carvalho da Silva (CES). Com a presença de: José Reis (diretor da FEUC/CES), Carlos Fiolhais (FFMS) e Elísio Estanque (autor/CES).

Sobre o livro (da página do CES):

"Este texto representa um duplo desafio: primeiro, o de tentar teorizar e refletir sobre um tema hoje tão candente para a opinião pública como é a «classe média», com base num registo discursivo que pretendeu ser cientificamente rigoroso e ao mesmo tempo acessível a cidadãos não especialistas e não académicos; segundo, o de assumir que o conhecimento sociológico só é verdadeiramente interessante se não se limitar a uma descrição "neutra" da realidade social, mas sim se conseguir manter o equilíbrio entre o esforço de objetividade e o sentido crítico sobre o tema em análise. O conhecimento só é enriquecedor se for ao mesmo tempo transformador e recusar os clichés e "pré-noções" acerca do fenómeno em estudo, ou seja, em vez da pretensa neutralidade assética é preferível a reflexividade analítica. Estes foram alguns dos princípios que nortearam o autor deste ensaio sobre a classe média e a sociedade portuguesa, no contexto de crise e austeridade que hoje atravessamos. O livro divide-se em duas partes: uma mais de reflexão teórica sobre o conceito de «classe média», com referência a diferentes correntes de pensamento (marxismo e weberianismo); e uma parte final mais centrada no caso português e nas suas especificidades, sinalizando processos e situações que ilustram aspetos da mentalidade, da cultura e da realidade socioeconómica do país a partir da reflexão sobre a sua frágil classe média (hoje à beira do empobrecimento)."

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

MUITO DE TUDO


Minha crónica no "Público" de hoje (na imagem a jabuticaba):

Foi o filósofo Agostinho da Silva que disse que o “brasileiro é um português à solta”, um português longe da sua terra e com muito espaço em volta. Ele devia saber do que falava pois, nascido no Porto, viveu no Brasil entre 1947 e 1969. Mas o escritor Miguel Real já o emendou dizendo que o brasileiro é “muito mais do que um português à solta”. De facto, há muitos brasileiros, alguns mais à solta do que outros, e cabem todos no Brasil. Há brasileiros portugueses como há brasileiros alemães e japoneses, para além de haver, claro, brasileiros descendentes dos índios.

Conforme me respondeu com tanta exactidão como concisão um colega brasileiro, quando lhe perguntei em visita recente se ainda havia muitos bandidos: “Aqui tem muito de tudo”. O que mais impressiona quem visita o Brasil é a imensa variedade de pessoas e coisas. Algumas trazidas há muito de Portugal: por exemplo, no restaurante Manoel e Juaquim, em Copacabana, no Rio de Janeiro, há bom bacalhau e o passante é convidado a entrar por um letreiro que diz “Aqui desde 1500”. Muitas outras trazidas de diversas partes do mundo. O Rio foi descoberto pelos franceses antes de ser conquistado pelos portugueses. E, antes disso, foi índio. Os franceses confratenizaram alegremente com os índios tupinambás e os lusitanos não puderam dispensar, no assalto ao morro, a ajuda dos índios temiminós. Mas antes de ser português o Rio não era Rio. O escalabitano Estácio de Sá fundou a cidade do Rio de Janeiro no ano de 1565, pelo que há um erro óbvio na tabuleta (o anúncio é um pouco “solto”, como aliás a publicidade brasileira em geral). O professor, de origem transmontana, que me elucidou sobre a abundância no Brasil olvidou, porém, tanto os franceses como os índios: para ele “sô” Estácio foi o primeiro carioca.

Hoje, com o eixo do crescimento económico a deslocar-se para Oriente e para Sul, há cada vez mais de tudo no Brasil. E, no entanto, encontra-se uma certa unidade na imensa variedade. Como escreveu a filósofa paulista Marilena Chauí, “tem um povo pacífico, ordeiro, generoso, alegre e sensual, mesmo quando sofredor, é um país sem preconceitos... desconhecendo discriminação de raça e credo, e praticando a mestiçagem como padrão fortificador da raça, é um país acolhedor para todos os que nele desejam trabalhar e, aqui, só não melhora e só não progride quem não trabalha... é um ‘país dos contrastes’ regionais, destinado por isso à pluralidade económica e cultural”. Falta o desenvolvimento, assegurado pela ciência e pela tecnologia? Faltava. Hoje não falta nada, e o país, depois dos governos de Fernando Henrique Cardoso e de Lula da Silva, vai em frente com um crescimento que aos portugueses faz inveja. A economia brasileira cresceu 7,5 por cento em 2010 relativamente ao ano anterior, o maior crescimento num quarto de século. O Brasil é conhecido pelas paradinhas de Pelé e pela bossa-nova de João Gilberto. Mas bem podia ser, como divulga a última revista Veja, pelos comandos neurológicos inventados pelo médico paulista Miguel Nicolelis, que quer abrir a Copa do Mundo de 2014 com um pontapé dado por um adolescente tetraplégico, ou pelo walkman inventado pelo brasileiro-alemão Andreas Pavel que permitiu aos seus utentes “soltar a franga que têm dentro”. Para não falar já do avião movido a álcool, o Ipanema da Embraer, do engenheiro Satoshi Yokota, de origem japonesa, ou do sucesso mundial da marca Havaianas obtido pela empresa Alpargatas de São Paulo. Fiquei até com a ideia que, se a crise aqui se agravar, o Brasil nos pode dar “uma mãozinha”. Temos, graças a “sô” Estácio, uma rede onde cair...

O Brasil é também o país da auto-crítica, condição indispensável do progresso. O meu amigo brasileiro ensinou-me o que era a jabuticaba, um fruto tropical que há muito por lá. Vende-se no Rio no meio das longas filas de trânsito (muitos carros vão e vêm às horas de ponta para a Barra da Tijuca, os subúrbios onde pululam os shoppings). E explicou-me: “Se só há no Brasil e não é jabuticaba, pode está certo que está errado”.

PS) Emendei o nome do restaurante portugues no Rio para "Manoel e Juaquim", mesmo assim com 0 u e o o trocados (agradeço a indicação a Manuel Mota).

sábado, 7 de maio de 2011

Um facilitismo alastrante

Ernâni Lopes (ao lado, em fotografia de Rui Marto), economista, político, professor, considerado um homem duro mas de grande inteligência, que se definia como "um cidadão honesto que estuda e trabalha", deu, próximo da sua morte, várias entrevistas onde denotava grande lucidez em relação ao estado do nosso país, em geral, e da educação, em particular. Com atraso, pude ler hoje uma dessas entrevistas, conduzida por Maria João Alexandre, intitulada O guro da nação e publicada no n.º de Outubro-Dezembro de 2010 da CGD (páginas 55-59).



O que se passa na Nação? Falta de coragem aos políticos e aos empresários? Há inércia nos jovens? A culpa é dos professores desses jovens ou dos seus pais, que nunca souberam o que era poupar ou fazer sacrifícios.
Tenho colocado essa questão a mim próprio, pois sou professor há uma eternidade, desde 1965. Primeiro, verifico a evidência de um «facilitismo alastrante». Este termo, que inventei para lhe responder, nunca tinha dito isto na minha vida, sintetiza a sua questão. Considero este facilitismo absolutamente inaceitável, como pai, avô – bisavô não chegarei lá. Há, por outro lado, uma incapacidade ou uma vontade colectiva de não transmitir exigência, disciplina e rigor. Como se fosse algo errado, quando é a única coisa certa. Um sistema ou uma pessoa que, quando está a transmitir conhecimento e a educar, rejeita transmitir a exigência está a auto-negar-se. Nega-se a si próprio e perante os alunos. O aluno com o tempo, vai verificar que foi enganado e nunca perdoará aos seus professores. Eu não sei o que faria se me lembrasse de os meus professores me terem enganado.

Ensinar é saber dar aulas?
Ensinar é dar-se. É dar-se a si próprio, é algo irrepetível. Esta noção é inseparável do acto de ensinar e de aprender. Caso contrário, é mentira; os professores vão ficar com uma má consciência até morrerem e os alunos vão descobrir mais tarde que foram enganados e não vão perdoar… Por outro lado, os exemplos negativos abundam. Temos de valorizar os professores de qualidade e que vivem a vida nesse acto de transmitir e de se darem e, ainda, de perceber que é a actividade mais nobre do ser humano. Importa referir que há muita gente boa em Portugal, mas que não se vê…

Essas pessoas não se vêem por que razão?
Porque se vê, sobretudo, o facilitismo alastrante que é transmitido ao longo da carreira de comando. Este é um quadro que dura há décadas e cujo custo irá projectar-se para várias décadas.

NOTA: Uma outra entrevista interessantíssima dada Ernâni Lopes a um canal de televisão, no programa Plano Inclinado, pode ser vista aqui.

domingo, 6 de março de 2011

O organismo Terra


Destacamos do último "Destak" o artigo de opinião de J.L. Pio Abreu:

Desde há quatro mil milhões de anos, a vida na Terra desenvolveu-se em diversos nichos ecológicos que tinham vida e alguma autonomia.

O bicho humano ligou todos os nichos mas ficou acantonado no interior das suas culturas e dos Estados Nação, que se mantinham independentes. Com a globalização das trocas comerciais, da sua regulação pelos mercados e da troca de informações, a Terra é hoje inteiramente interdependente, como se fosse um só organismo vivo.

Com os audiovisuais e a Internet, o sistema nervoso da Terra está inteiramente desenvolvido. Os seis biliões de células – as pessoas que nela habitam – podem agora ligar-se sem fronteiras e aceder a toda a informação. A tendência é para a imitação, pois os mecanismos de organização e diferenciação de funções, que antes pertenciam aos Estados-Nação, estão em dissolução.

Para se tornar um organismo viável, a Terra precisava ainda de um sistema controlado de produção, transformação e distribuição de matéria-energia. Os Mercados poderiam ser o embrião desse sistema, mas dedicam-se apenas a uma distribuição assimétrica, qual coração com artérias entupidas. Por outro lado, em vez de produzir energia, a Terra recorreu às suas reservas que, de tão escassas e valiosas, ficaram sob uma guarda pretoriana que se está a desvanecer.

Este novo organismo global tem problemas de energia. Tem células interligadas e prontas a produzir, mas o coração não as alimenta por igual nem se submete à sua rede. Será viável?

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Progresso e religião

Como aqui temos abordado as relações entre ciência e religião, republicamos aqui, com autorização do autor, um texto do físico Nicolás Lori, que é investigador na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, saído no "Público" em 12 de Maio passado (na foto Jürgen Habermas):

Num artigo recente de opinião no New York Times faz-se uma afirmação que a muitos promotores do "progresso" em Portugal pareceria chocante: diz-se que o que falta à cultura secular é a religião. A afirmação não é feita por uma pessoa religiosa, mas por um ateu secular e proeminente filósofo, Jürgen Habermas.

Nos seus trabalhos iniciais, Habermas deu-nos conta da sua convicção de que o papel estruturante que a religião tinha desempenhado na sociedade seria no futuro feito através de uma ética discursiva, onde a melhor resposta seria obtida através do consenso. Mas para o actual Habermas, o racionalismo falha no sentido em que não tem nenhum mecanismo para tomar consciência dos "interesses" que estão sempre presentes, com as suas implicações, mas que não são reconhecidos. Esta situação causa um problema: os Estados seculares não conseguem que os seus cidadãos se afastem do egocentrismo em direcção a comportamentos mais virtuosos.

Quando se fala do diálogo entre a fé e a razão, começa-se muitas vezes mal, quando se diz que o seu sentido é extremamente vago. O que tipicamente se está a fazer é a assumir que a fé é um estado de enamoramento com o transcendente, entendendo-se por fé o "amor que inclui o transcendente". Esta visão da fé, que penso ser a definição que as pessoas comummente usam, não é o que introduz a falta de claridade na discussão. A expressão é pouco clara, porque não explica se o diálogo é entre o amor e a razão e/ou entre o transcendente e a razão. Entendemos por razão o pensamento que tenta interpretar o universo através da dinâmica causa-efeito, sendo as causas as razões que a razão utiliza. Penso também que esta é a definição tipicamente utilizada. Uma outra definição de razão, que é menos comum mas que é muito utilizada na economia, considera não uma dinâmica causa-efeito mas uma dinâmica de efeito-causa, onde a razão tenta encontrar a causa que proporciona o efeito pretendido, sendo esse efeito a real razão da acção. A utilização destas duas definições divergentes para representar dois fenómenos muito diferentes é um defeito da linguagem comummente utilizada, porque, na prática, apenas a segunda deveria ser chamada racional (algo com o correcto balanço/ratio económico), sendo a primeira chamada "razoável" (algo que tem uma razão). Discriminando estes dois termos, podemos dizer que a razão é razoável, mas também que o amor que baseia a sua esperança no que vai acontecer e não no que aconteceu é fundamentalmente racional. O bem que o amor busca não é o dinheiro, como acontece na economia. O transcendente confronta-se com o racional no sentido de que é infinito e, por isso, não é passível de ser considerado uma utilidade. O transcendente confronta-se com o razoável no sentido de que é espontaneamente não causado, e por isso não razoável. O confronto dá-se pois entre os três elementos do triângulo: razão, amor, transcendente.

Kant considerou o conflito entre a razão e o desejo humano como a possibilidade da realização do amor e considerou-o intransponível para a prática, uma vez que tal realização necessita da existência da possibilidade de liberdade de acção, o que para ele seria incompreensível. Para que o transcendente liberte o ser humano das algemas de um futuro completamente determinado pelo passado onde o espírito humano não tem lugar ou importância, é necessário que esse transcendente limite a razoabilidade do universo e eleve a sua racionalidade. Ou, em outras palavras, que esse transcendente seja poderoso e bom. O poder do transcendente apareceria para um observador como sendo a aleatoriedade não controlável através de processos causais, e a sua bondade apareceria como uma tendência da evolução a trazer mundos cada vez melhores. Mas para que essa liberdade trazida por um transcendente poderoso e bom possa ser considerada compatível com a livre vontade é necessário, e suficiente, que essa liberdade que ocorre numa pessoa seja aquilo que constitui a individualidade dessa pessoa. Ou seja, que se considere que é o transcendente que possibilita a individualidade da pessoa. A função da religião na sociedade é pois não a busca da fé mas a religação de cada um de nós à importância do transcendente na nossa vida, e mesmo depois. Consiste em religarmo-nos, que assim aparece como a fonte da possibilidade de um equilíbrio entre a razão e o amor que é o transcendente. Para que tal aconteça, torna-se necessário um enorme esforço para que nos tornemos indiferentes às causas da razão e aos objectivos do amor. Esta busca da indiferença é, apesar das diferenças entre elas, comum a todas as grandes religiões da Terra (e.g. cristianismo, islão, hinduísmo e budismo). É este religar, segundo Habermas, que a razão secular não consegue realizar, porque essa razão é cega à sua própria necessidade de ter razões que não podem ser alcançadas por observações do passado. Esta foi a cegueira vista por Saramago, mas o que Habermas afirma é que a cegueira não é causada pela religião mas pela sua ausência.

Nicolás Lori

sexta-feira, 19 de março de 2010

A segunda pele

Do "Destak" de hoje destacamos a crónica do médico psiquiatra José Luís Pio de Abreu:

Todos temos uma segunda pele por cima da nossa. Está na roupa que usamos, nos símbolos que ostentamos, no nome que temos e nos títulos que o precedem, nos cheiros e cores que nos enfeitam, nas perfurações e plásticas com que moldamos a pele ou o corpo que a natureza nos deu. É idealizada e construída por nós e por quem nos é próximo. É aquilo que nos representa e nos apresenta aos outros. É a nossa identidade.

É pela identidade que vivemos. É ela que nos liga aos nossos próximos e aos vários colectivos a que pertencemos. É ela que liga cada pessoa ao seu passado e lhe dá coerência. É também ela que viaja para o futuro onde encontra a esperança ou o desespero. Por isso, condiciona tudo o que fazemos. É ela que faz de nós pessoas e que nos torna humanos.

A identidade é tão óbvia que só pensamos nela quando se avaria. Às vezes idealiza-se tanto que se desliga do passado e nada tem a ver connosco. Outras vezes desdobra-se em várias ou usa a pele de outra pessoa, viva ou morta. Às vezes, pura e simplesmente, desaparece. São patologias que enchem os consultórios psiquiátricos e o espectáculo das seitas religiosas.

Com ou sem patologia, a identidade está em crise no mundo ocidental. O choque de culturas, a dissolução dos colectivos, o peso do presente e o temor do futuro fazem com que a segunda pele fique descomposta. Ficamos bizarros uns para os outros, excepto quando temos de nos entender no trabalho. Resta-nos então a identidade profissional. Por isso, já não lutamos por ideais: lutamos pela nossa corporação.

José Luís Pio de Abreu

domingo, 31 de janeiro de 2010

A força das convicções


("Two Men" de Pavel Filonov, 1938)

(Coluna "Olhares da UC", Jornal As Beiras, 25 de Janeiro de 2010)

O Governo apresentou na Assembleia da República uma proposta de lei que consagra o casamento entre pessoas do mesmo sexo. A referida proposta foi aprovada na generalidade no dia 8 de Janeiro. As propostas alternativas de partidos da oposição que incluíam o direito de adopção de crianças foram rejeitadas, assim como a proposta para a realização de um referendo. Parece legítimo concluir que a maioria do parlamento pensa que o casamento de pessoas do mesmo sexo deve ser permitido, mas não deve ser autorizada a adopção de crianças, nem deve existir um amplo debate nacional sobre esta questão.

Não há nada de mais errado, e tudo isto mostra bem a ausência de convicções daqueles que nos governam e daqueles que nos representam na Assembleia da Republica.

Elenco as várias razões que me levam a pensar assim:
1. O casamento entre pessoas do mesmo sexo é um assunto muito importante, mas não é uma prioridade do momento. A acção governativa deve ser pautada pela definição de prioridades. Ora, existem muitos outros assuntos que exigem a nossa concentração e energia, pelo que esta parece ser uma forma de desviar a atenção sobre esses assuntos.
2. Mas sejamos claros. O conceito de família mudou. Essa realidade é difícil de entender para muitas pessoas, nomeadamente para as pessoas mais velhas, mas a verdade é que a família tradicional constituída por um pai, uma mãe e filhos biológicos do casal não é a única hipótese de família. Existem outras possibilidades que devem ser igualmente protegidas pela lei: entre elas as famílias compostas por casais homossexuais com ou sem filhos, de outros relacionamentos ou adoptados, e as famílias compostas por casais heterossexuais que não podem ter filhos. Tudo isto são famílias, e a lei do casamento não pode descriminá-las tendo por base a orientação sexual do casal, e muito menos a possibilidade física ou biológica de terem filhos.
3. É preciso perceber que as sociedades mudam e que estamos perante uma mudança civilizacional que tem de ser encarada com responsabilidade. Se é desejável que a lei reconheça e proteja as novas formas de organização familiar, também é igualmente necessário perceber e entender que não se alteram os pilares básicos na nossa actual organização social de forma leviana, sem o necessário debate. Sem dogmas, mas com discussão e esclarecimento.

Nessa perspectiva, penso que o Presidente da República deveria devolver o diploma à Assembleia da República sem promulgar a lei. Deveria fazê-lo alertando o parlamento e os portugueses para a necessidade de promover um amplo debate nacional sobre esta alteração na estrutura da sociedade em que vivemos. Um debate onde devem ficar claras as respostas às seguintes questões:

1. Devem as famílias de casais homossexuais ser abrangidas pela lei do casamento? (Em minha opinião, sim devem).
2. Devem todas as famílias, independentemente da sua orientação sexual, ter os mesmos direitos e deveres, o que inclui o direito de casar, adoptar crianças, etc? (Em minha opinião, sim devem).

As alterações fazem-se debatendo com os cidadãos convencendo-os com a força das nossas convicções. Mas todos têm o direito de pensar, discernir e decidir.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Manhosos, manhosos, manhosos, e mais manhosos


Este ano passam 40 anos sobre a morte de Almada Negreiros (ainda me lembro de o ver numa entrevista no programa "Zip-Zip" da RTP). Ora leia-se esta sua intervenção de 1933 e veja-se se o pintor, poeta e publicista perdeu a actualidade:

"Há, sim senhor!
Há um Portugal sério, um Portugal que trabalha, que estuda; curioso, atento e honrado! Há um Portugal verdadeiro que não perde o seu tempo com inimigos fantásticos e cujo único desejo é apenas e grandemente ser Ele próprio! Há um Portugal, o único que deve haver e que afinal é o único que não anda por causa dos vários Portugais inventados de todos os lados de Portugal! Há um Portugal profissionalista, civil e insubornável! Há, sim senhores! Mas entretanto...
Entretanto, a nossa querida terra está cheia de manhosos, de manhosos e de manhosos, e de mais manhosos. E numa terra de manhosos não se pode chegar senão a falsos prestígios. É o que há mais agora por aí em Portugal: os falsos prestígios. E vai-se dizer de quem é a culpa de haver manhosos e falsos prestígios: a culpa é nossa, e só nossa!"

José de Almada Negreiros, In Diário de Lisboa de 3 de Novembro de 1933

terça-feira, 25 de agosto de 2009

PORTUGAL, DISFUNCIONALIDADE SOCIAL E RELIGIÃO

Na revista Newsweek de 24-31 de Agosto, Sharon Bagley, no artigo intitulado "(Un)wired for God. Religioun beliefs may not be innate", refere Portugal como um país próximo dos Estados Unidos, por ser ao mesmo tempo socialmente muito disfuncional (medido por taxas de homicídios, abortos, gravidez de adolescentes, doenças sexualmente transmissíveis, desemprego e pobreza) e muito religioso (medida pela auto-afirmação da fé, frequência da igreja, hábitos de oração, etc.). A autora baseia-se em Paul Gregory, um paleontólogo interessado por assuntos de sociologia e de religião. Transcrevo:
"In brief, the number of American non-believers has doubled since 1990, a 2008 Pew survey found, and increased even more in some other advanced democracies. What's curious is not so much the overall decline of belief (which has caused the Vatican to lament the de-Christianization of Europe) as the pattern. In a paper last month in the online journal Evolutionary Psychology, Gregory Paul finds that countries with the lowest rates of social dysfunction—based on 25 measures, including rates of homicide, abortion, teen pregnancy, sexually transmitted disease, unemployment, and poverty—have become the most secular. Those with the most dysfunction, such as Portugal and the U.S., are the most religious, as measured by self-professed belief, church attendance, habits of prayer, and the like.

I'll leave to braver souls the question of whether rel
igiosity leads to social dysfunction, as the new breed of public atheists contends. More interesting is the fact that if social progress can snuff out religious belief in millions of people, as Paul notes, then one must question "the idea that religiosity and belief in the supernatural is the default mode of the brain," he told me. "
Fui consultar o artigo recente de Gregory e que está aqui (há um sítio do autor sobre o assunto: aqui). Não encontrei nenhuma referência directa a Portugal. Contudo, num artigo anterior (aqui) do mesmo autor sobre o mesmo tema, Portugal é, de facto, mencionado como um país ao mesmo tempo socialmente disfuncional e religioso. Claro que correlação não significa causalidade... Aliás, o artigo anterior de Gregory foi criticado por vários autores, usando argumentos técnicos relativos ao tratamento dos dados.



Deixando de lado a questão da religião, vale a pena acrescentar que a proximidade de Portugal aos Estados Unidos do ponto de vista social também aparece num livro recente dos ingleses Richard Wilkinson e Kate Pickett, The Spirit Level: Why More Equal Societies Almost Always Do Better, Allen Lane, 2009) (ver recensão do Guardian aqui, que refere Portugal). Em ambos os países existe maior número de problemas de saúde e sociais e também maior desigualdade de rendimentos, considerando apenas os países mais desenvolvidos (ver o gráfico de cima, extraído do livro, que relaciona problemas de saúde e sociais com desigualdade social: Portugal está no canto superior direito, entre o Reino Unido e os Estados Unidos). Para usar uma expressão que Gregory usou, Portugal parece ser um país do "segundo mundo". Somos, de facto, um "case study", por estarmos no extremo de algumas escalas com que se medem os países mais desenvolvidos...

sexta-feira, 8 de maio de 2009

AS DUAS CULTURAS

No dia 7 de Maio de 1959, fez ontem 50 anos, Charles Percy Snow deu a sua histórica palestra Rede na Universidade de Cambridge. Com esta intervenção, cunhou a expressão "As duas culturas", passando-a ao domínio público. Uma cultura era a ciência, representada pelos cientistas e a outra, as humanidades, representada pelos "intelectuais das letras". Snow diagnosticou uma total impossibilidade de estas duas culturas se compreenderem, por não serem capazes de cruzar essa fenda profunda que, culturalmente, as separava.
Este diagnóstico cultural tornava-se extremamente claro, segundo Snow, depois do seguinte desafio: "Uma ou duas vezes fui provocado e perguntei [aos intelectuais das letras] quantos deles poderiam descrever a Segunda Lei da Termodinâmica. A resposta foi fria; também foi negativa. No entanto, eu perguntava algo que equivaleria em termos científicos a 'já leu uma obra de Shakespeare'?"
Nessa mesma palestra de há já 50 anos, Snow argumentava que esta falta de convergência entre as duas culturas e a inexistência de cientistas em posições de poder, teria consequências desastrosas para a sociedade moderna.
Passado meio século, e com a crescente tendência para a especialização do conhecimento, não estaremos cada vez mais a aumentar a profundidade desta fissura?
(ver também Literacia científica: à procura do arco-íris)

segunda-feira, 16 de março de 2009

O GPS DO INFORTÚNIO

Com a devida vénia, transcrevemos parte da coluna do sociólogo Alberto Gonçalves que foi publicada no "Diário de Notícias" de ontem:

"Parece que, após ouvir na rádio a história de uma mulher assassinada pelo namorado, o dr. Carlos Encarnação, presidente da Câmara Municipal de Coimbra, decidiu baptizar uma rua da cidade com o nome da falecida. Para não perder a deixa, o dr. Moita-Flores, famoso comentador televisivo e menos famoso edil, anunciou iniciativa semelhante em Santarém. Ambos os gestos provavelmente indiciam uma moda que, até às "autárquicas", varrerá a nação de norte a sul: imortalizar os alvos de companheiros psicóticos, enquanto, diga-se de passagem, os companheiros psicóticos são jovialmente mandados em paz pela polícia (sucedeu agora em Portimão).

No mínimo, a tendência é curiosa. Com acerto discutível, a toponímia tradicional ficava-se por exemplos de bravura, inovação, eficácia, criatividade, generosidade, etc. As senhoras em questão são exemplos do quê? Do azar? De péssimas escolhas sentimentais? Do lado negro do casamento (um alerta aos gays)? E o que rezarão as placas, "Avenida Manuela Pires, Receptora de Tareias Conjugais (1977 - 2009)"? Sinceramente, não sei.

Sei que, se a ideia é transformar os desafortunados em modelos, não há razão para que as vítimas de violência doméstica mereçam mais atenção que as vítimas de violência pública e de incidentes em geral. Urge que outros autarcas com apetites publicitários e fome eleitoral garantam ruas aos mortos em consequência de assaltos à mão armada, acidentes rodoviários, doenças infecto-contagiosas, suicídios, negligência médica e tombos mal dados. Aliás, as vítimas nem precisam de ser mortais: só um coração empedernido negaria praceta ou simples viela a cidadãos diabéticos, órfãos e adeptos do Sporting.

Para terminar com uma nota de erudição, recordo o episódio antigo dos Simpsons no qual um rapazinho acidentado é erguido a herói. Herói porquê? Porque, explica Homer à filha, o rapazinho caiu a um poço e não consegue sair. Não conheço melhor metáfora do nosso tempo e das referências que o guiam."

Alberto Gonçalves

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

AINDA A IDADE DOS NOBEL


Para que servem os prémios Nobel, perguntava José Vitor Malheiros no seu recente artigo no "Público"? Servem em primeiro lugar para cumprir as inesperadas (a família nem queria acreditar) disposições testamentárias do sueco Alfred Nobel, acima retratado:
"The whole of my remaining realizable estate shall be dealt with in the following way: the capital, invested in safe securities by my executors, shall constitute a fund, the interest on which shall be annually distributed in the form of prizes to those who, during the preceding year, shall have conferred the greatest benefit on mankind. The said interest shall be divided into five equal parts, which shall be apportioned as follows: one part to the person who shall have made the most important discovery or invention within the field of physics; one part to the person who shall have made the most important chemical discovery or improvement (...)."
Em segundo lugar são um símbolo: Os Nobel são prémios de enorme prestígio e garantem aos domínios em causa uma oportunidade mediática. No caso do Nobel da Física, que tem sido dado mais por uma descoberta do que para uma invenção, tal prestígio foi ganho logo desde o início, com a atribuição em 1901 ao descobridor dos raios X, o alemão Wilhelm Roentgen, e mantido ao longo dos mais de cem anos que o prémio já leva.

Não se trata de premiar pelo conjunto da obra, mas sim, como está no testamento, uma descoberta ou invenção. Talvez seja por isso físicos como os americanos John Wheeler e Freeman Dyson não tiveram o prémio. Além da vontade do doador, há uma prática instituída pela Academia Sueca onde se podem descortinar alguns padrões. Assim, o prémio tem vindo a ser dado nos últimos anos a mais do que um indivíduo (há um limite máximo de três), até porque há a tendência crescente de descobertas ou invenções serem feitas em conjunto. E espera-se que uma descoberta teórica tenha sido verificada experimentalmente. Talvez seja por isso que os britânicos Stephen Hawking e Peter Higgs não tenham recebido ainda o prémio. Há um único caso de uma pessoa ter recebido o Nobel da Física duas vezes: foi o americano John Bardeen que o ganhou em 1956 pela invenção do transístor e, muitos anos mais tarde, em 1972, pela descoberta da teoria da supercondutividade, das duas vezes em coautoria.

Em geral, o prémio tem sido incontroverso na Física e na Química (ao contrário da Literatura e na Paz, onde, respectivamente, Churchill e Kissinger receberam prémios), até porque o processo de nomeação é muito rigoroso e participado (todos os anos muitos físicos de todo o mundo são convidados a indicar nomes). Mas há casos famosos de injustiças - como o prémio de 1921 atribuído tarde e a más horas a Einstein não pela teoria da relatividade, mas pela teoria do efeito fotoeléctrico, e o esquecimento de algumas mulheres, como a inglesa Jocelyn Bell Burnell, desde que não partilhou o prémio dado em 1974 ao seu supervisor Antony Hewish pela descoberta dos pulsares e a austríaca Lise Meitner que devia ter recebido o Nobel da Química com o alemão Otto Hahn em 1945 pela cisão do urânio. A propósito, em Física, Química e não só, há muito poucas mulheres premiadas. Na Física só há além da polaco-francesa Madame Curie a alemã Maria Mayer (uma das autoras do modelo em camadas nuclear) e na Química além de Madame Curie, que teve portanto dois Nobel, só há a sua filha Irène Joliot-Curie e a britânica Dorothy Hodgkin.

O prémio da Física (como, em geral, os das ciências), a partir dos anos 50 passou a ser dado mais a norte-americanos, que beneficiaram da "fuga de cérebros", embora nos últimos anos essa tendência tenha diminuído, com várioos europeus a ganhar o prémio (este ano foram três japoneses).

O Prémio da Física é, de todos os Nobel, o que tem sido dado a pessoas mais novas. Na lista das 13 pessoas mais novas que receberam que receberam o prémio (todas com menos de 33 anos) há sete físicos, dos quais cinco estão nos lugares da frente. O recorde da juventude é de Lawrence Bragg, com 25 anos, que recebeu o prémio juntamente com o seu pai por trabalhos com raios X (é curioso este gene do Nobel: há vários casos de pais e filhos Nobel, não só na Quyímica mas também na Física com os Thomson pai e filho e os Bohr pai e filho). Ele é também o mais novo laureado em qualquer área! Tal como disse Hardy para a matemática, a física será um "desporto dos novos"... A idade média dos laureados na Física é de 51 anos, o que contrasta com os 63 da literatura (o mais novo da literatura, o inglês Kipling, tinha 42 anos quando foi premiado). Mas a época dos físicos que receberam o Nobel muito novos ocorreu na primeira metade do século passado. Os "jovens turcos" que criaram a teoria quântica, como o alemão Werner Heisenberg e o inglês Paul Dirac, obtiveram o Nobel aos 31 anos, por descobertas feitas cerca de cinco anos antes, o que é realmente extraordinário... Cada vez mais os Nobel da Física são cientistas muito experientes, para não lhes chamar velhos, havendo até quem diga que a primeira condição para se ter um Nobel da Física é a longevidade: na lista dos 11 mais velhos (todos com mais de 85 anos) de todos os prémios Nobel, só há três Nobel da Física, mas os três são recentes: o recém-premiado Yoichiro Nambu tem 87 anos! Este aumento da idade terá a ver com o aumento da esperança média de vida, com o aumento da actividade científica na meia idade e com o facto de o comité querer ter a certeza que não se engana (há vários casos na Física, como o de Nambu, que tiveram de esperar várias décadas depois de feita a sua descoberta ou invenção até terem o reconhecimento).

Por outro lado, cada vez é mais difícil a escolha por haver muita gente "nobelizável". Cada vez há mais cientistas - hoje há mais cientistas do que em todas as gerações anteriores- e não é fácil comparar o mérito relativo em áreas muito diferentes. A ISI Thomson, que faz e analisa estatísticas de artigos e de citações, todos os anos efectua previsões para as várias áreas científicas, mas na Física não tem acertado muito já que o número de citações não parece ser um bom indicador. Há estudos que mostram que já foi um bom indicador na primeira metade do século XX, quando havia um pico de citações antes do prémio, mas agora já não é assim.

Uma curiosidade: há outros estudos que indicam que o Nobel prolonga a vida já que os laureados têm vivido mais tempo do que aqueles que foram nomeados mas não laureados. Portanto, o Prémio Nobel seria uma espécie de elixir de longa vida. Ora aqui está, depois da da dinamite, outra grande invenção de Alfred Nobel...

domingo, 11 de maio de 2008

Redesenhando a vida humana


Informação recebida do Centro de Estudos Sociais de Coimbra:

Colóquio:

Redesenhando a vida humana: reprodução medicamente assistida, células estaminais e genética

13 de Maio, 15h30, Auditório 3 da Fundação Calouste Gulbenkian

No âmbito do ciclo “Ciências da Vida e da Sociedade: Desafios da era pós-genómica”

Apresentação:

Com que traços se redesenha a vida humana na era pós-genómica? Esta é a questão central que será discutida na última sessão do ciclo “Ciências da Vida e Sociedade: Desafios da era pós-genómica”. No fundo, analisar-se-á de que forma as novas tecnologias poderão afectar o modo como se define um ser humano e quais as intervenções que é lícito permitir em termos de património genético e medicina regenerativa.

O Projecto do Genoma Humano suscitou as expectativas de, num futuro próximo, se dispor de informação sobre a constituição genética de indivíduos que tornaria possível a identificação precoce de predisposições e vulnerabilidades. Dessa forma, seria possível actuar de maneira precoce sobre um conjunto de problemas de saúde. Paradoxalmente, essas expectativas surgiram ao mesmo tempo que se vão tornando claras as limitações de abordagens centradas na genética para a prevenção de doenças. Noutro plano, o desenvolvimento de tecnologias de procriação medicamente assistida (PMA), a doação de embriões e gâmetas e a criopreservação, transferência de material entre gâmetas ou a maternidade de substituição têm vindo a transformar as definições da paternidade e da maternidade. Um outro domínio em que está em causa a definição do que significa ser humano e de como se constitui a vida humana é o da investigação sobre células estaminais e o seu potencial para o desenvolvimento de terapias regenerativas, especialmente quando associada à questão da utilização de embriões humanos para esse tipo de investigação.

Oradores:
Peter Taylor (University of Massachusetts, Boston, USA)
Scott Gilbert (Swarthmore College, Pennsylvania, USA)
Lenny Moss (University of Exeter, UK)
Jane Calvert (University of Edinburgh, UK)
Guido Van Steendam (Katholieke Universiteit Leuven, Belgium)

Organização
Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (CES)
Centro de Neurociências e Biologia Celular (CNC)

terça-feira, 13 de novembro de 2007

SUCESSO E INSUCESSO: ESCOLA, ECONOMIA E SOCIEDADE


Informação recebida da Fundação Gulbenkian:


SUCESSO E INSUCESSO: ESCOLA, ECONOMIA E SOCIEDADE, 19-20 de Novembro de 2007

Portugal acumulou historicamente um enorme atraso no processo de escolarização de massas. Se as causas do fenómeno são relativamente conhecidas, já as suas prolongadas consequências são-no bastante menos. O considerável investimento escolar feito no país, no decurso das últimas décadas, tem sido contudo insuficiente para gerar o desejável «capital humano», mostrando que a recuperação quantitativa das taxas de escolarização não basta para abolir as marcas qualitativas deixadas pelo atraso histórico. Com efeito, é sobretudo esse défice de «capital humano» que explica a extrema dificuldade com que a economia portuguesa está a enfrentar os desafios da competitividade à escala global. O funcionamento do sistema escolar tem nisso a sua parte mas não toda, pois ele próprio está por seu turno imerso, tanto do lado dos docentes como dos discentes e famílias, numa sociedade cujos valores e práticas históricas não geraram essa confiança inter-pessoal e esse «capital social» que afectam de modo tão decisivo o sucesso ou insucesso dos desempenhos pessoais e colectivos.

Durante os dois dias da conferência, que se integra na série anual organizada pelo Serviço de Educação e Bolsas da Fundação, especialistas nacionais e estrangeiros analisarão assim alguns dos principais factores envolvidos no sucesso ou insucesso dos processos de aprendizagem, na perspectiva da formação de «capital humano» e de «capital social» em Portugal. No primeiro painel, será abordada a contribuição das neuro-ciências para a compreensão da natureza da aprendizagem e para as ciências da educação em geral; no segundo, serão discutidos os factores de sucesso e insucesso escolar individual e colectivo; no terceiro, será analisado o processo de formação do «capital humano», simultaneamente na perspectiva da educação e da economia; no último painel, serão por fim discutidos os problemas da produção de «capital social» e do seu impacto na vida económica e social, bem como na governança pública e privada, numa perspectiva comparada. A conferência de abertura [“keynote address”] será proferida pelo Professor Alexandre Castro Caldas (Instituto de Ciências da Saúde da Universidade Católica Portuguesa) e a Conferência de encerramento será da responsabilidade do Professor John Field (University of Stirling).

Junho/2007

Manuel Villaverde Cabral – Comissário da Conferência

PROGRAMA

Dia 19 de Novembro

9h30 – Abertura – Ministra da Educação e Presidente da Fundação Calouste Gulbenkian

10h00-10h45 – Conferência “Sucesso só vem antes do trabalho no dicionário”, Alexandre Castro Caldas

10h45 – Intervalo

11h00 – 13h00 Presidente: Alexandre Castro Caldas, Relações entre Neuro-Ciências e Educação, Isabel Hub Faria e Sarah Blakemore

13h00 – Pausa para Almoço

14h30-17h00 Presidente: Manuel Carmelo Rosa. Sucesso ou Insucesso Escolar. Luis César Queiroz Ribeiro, Madalena Matos e José Verdasca

17h00 – Intervalo

17h15 – Mesa Redonda. Moderador: António José Teixeira, com Nuno Crato, Maria José Nogueira Pinto e José Ferreira Gomes

Dia 20 de Novembro

9h30 -13h00 Presidente: Jaime Reis. Economia da Educação e Formação de Capital Humano. Anna Vignolles. Pedro Teixeira e António Candeias

13h00 Pausa para Almoço

14h30 – 17h00 Presidente: Eduardo Marçal Grilo. Sociedade Civil e Formação de Capital Social. Michael Woolcock, Victor Pérez Días e João Freire

17h00 – Intervalo

17h15 - Conferência – Educação e Capital Social, John Field

18h00 - Sessão de Encerramento, Eduardo Marçal Grilo, Manuel Villaverde Cabral, António José Teixeira

domingo, 14 de outubro de 2007

Desafios da era pós-genómica

Informação recebida do Centro de Estudos Sociais de Coimbra:

Ciclo “Ciências da Vida e Sociedade: Desafios da era Pós-Genómica”

Organizado pelo Centro de Estudos Sociais (CES) e o Centro de Neurociências e Biologia Celular da Universidade de Coimbra (CNC), o ciclo tem por fim a criação dum fórum que traga para um mesmo espaço cientistas (nacionais e internacionais) da área da genética molecular e das ciências sociais e humanas numa discussão aberta, intensiva e transdisciplinar sobre alguns dos novos desafios que estão a emergir na Biologia, bem como sobre as respostas a esses desafios.

O Ciclo “Ciências da Vida e Sociedade: Desafios da era Pós-Genómica” pretende ser um espaço de reflexão e discussão sobre os grandes dilemas levantados pela Biologia no século XXI. Pela sua importância e pelas questões que levantam, estes dilemas têm um claro impacto social, que impelem a uma avaliação transdisciplinar dos mesmos. Nas três etapas que constituirão o ciclo, investigadores das ciências sociais, da biologia e da genética molecular, oriundos dos EUA, Europa e Hemisfério Sul partilharão perspectivas, conhecimentos e experiências sobre temas como procriação medicamente assistida, células estaminais, mercadorização da vida e saúde e doença.

O ciclo terá a forma de três encontros fechados com os participantes convidados, cada um deles seguido de um colóquio em que os assuntos neles abordados e as suas conclusões retiradas serão partilhados com o público geral.

A primeira sessão do ciclo intitulada Saúde e doença na intersecção da biologia, ambiente e sociedade focará os recentes avanços na investigação biomédica e de que modo podem afectar a prestação de serviços de saúde. O colóquio terá lugar no dia 23 de Outubro, no Anfiteatro do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, pelas 15h30.

O Colóquio contará com a participação de:

Anne Fausto-Sterling (Brown University, EUA),
Adele Clarke (University of California, San Francisco, EUA),
Ana Soto e Carlos Sonnenschein (Tufts University, EUA),
Vololona Rabeharisoa (Centre de Sociologie de l'Innovation, França),
Carlos Machado de Freitas (Fundação Oswaldo Cruz - Brasil),
Jorge Sequeiros (Instituto de Biologia Molecular e Celular, Portugal)

Esta iniciativa, coordenada por João Arriscado Nunes (CES) e João Ramalho Santos (CNC), conta com o alto patrocínio da Fundação Calouste Gulbenkian e com o apoio da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, Bristish Council e Museu da Ciência da Universidade de Coimbra.

Além do colóquio de 23 de Outubro, estão previstos outros dois colóquios:

A mercadorização da vida, saúde e ambiente: desafios e respostas
12 de Fevereiro de 2008, 15:30, Auditório da Reitoria da Universidade de Coimbra

Redesenhando a vida humana: reprodução medicamente assistida, células estaminais e genética
13 de Maio de 2008, 15:30, Fundação Calouste Gulbenkian

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Daniel Cardoso
Centro de Estudos Sociais
Laboratório Associado
Colégio S. Jerónimo, Apartado 3087
3001-401 Coimbra
Phone: +351 239 855 583
Fax: + 351 239 855 589
E-mail: gestorinfo@ces.uc.pt
Web: www.ces.uc.pt

domingo, 29 de julho de 2007

O cancro da mama, a arte e a internet

















O cancro da mama é um tipo de cancro que afecta uma elevadíssima percentagem de mulheres em todo o mundo. Calcula-se que cerca de 1 em cada 10 mulheres virá a desenvolver cancro da mama ao longo da sua vida. Apesar dos desenvolvimentos terapêuticos, continua a ser a principal causa de morte nas mulheres, entre os 35 e os 55 anos e a segunda entre mulheres de todas as idades.

Em Portugal, anualmente são detectados cerca de 4500 novos casos de cancro da mama, e 1500 mulheres morrem com esta doença.

Apesar de uma propensão familiar ser um dos factores de risco, há muitos outros a considerar, entre os quais, não ter filhos, exposição a substâncias cancerígenas, uma menarca precoce e uma menopausa tardia.

Recebi uma informação sobre os prémios CES (Centro de estudos Sociais – Coimbra) para jovens cientistas sociais, que apresentava um dos textos premiados, reflectindo sobre este drama feminino.

Passo a transcrever:
“Susana de Noronha vence em ex aequo a 5ª edição internacional do Prémio CES para Jovens Cientistas Sociais de Língua Oficial Portuguesa atribuído pelo Centro de Estudos Sociais (Laboratório Associado da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra).

O texto premiado (A Tinta, a Mariposa e a Metástase: a arte enquanto experiência, conhecimento e acção transformativa na instalação do cancro entre a pele da mama e o lugar digital) destaca as relações entre arte, doença oncológica e conhecimento através de um trânsito entre a experiência incorporada, o objecto de arte e os espaços internéticos da sua exposição.

Os resultados da 5ª edição do referido prémio destacam a produção feminina de conhecimento académico, atribuindo o galardão ex aequo e duas menções honrosas a quatro jovens investigadoras.

Prémio ex aequo: Susana de Noronha e Clara Santos
Menções Honrosas: Jacqueline Sinhoretto e Maria Carvalho”

Para quê este gongorismo discursivo? Será que a clareza é difícil, ou desinteressante?