“Os verdadeiros progressistas são os que partem de um profundo respeito pelo passado” (Ernest Renan, 1823-1892).
No ano em curso, umas vezes por boas razões, outras por más razões, encontra-se, uma vez mais, a tradição académica coimbrã nas bocas do mundo, em páginas de jornais nacionais e até do estrangeiro.
Assim, por estes dias, essa tradição transpôs os claustros universitários, ecoando pela urbe e espalhando-se pelo país fora por más razões. Em contrapartida, por boas razões, atravessou as águas do Atlântico, reproduzindo-se aqui um excerto de um post, publicado neste blogue, com o título “A cidade dos vampiros”, da autoria de Carlos Fiolhais. No respectivo parágrafo inicial, escreveu este professor universitário das margens do Mondego:
“Coimbra mereceu honras de artigo recente no New York Times. Um jornalista norte-americano passou por Coimbra e escreveu uma curiosa crónica. Ficou sobretudo impressionado com o pitoresco dos estudantes de capa e batina, cuja aparência ele, neste tempo da Saga do Crepúsculo, não hesitou em designar de ‘vampiresca’. Com uma pitada de humor, acrescentou que nenhum deles lhe tentou sugar o sangue…”
Nesse post, teci o comentário que transcrevo:
“Apenas é de lamentar o aspecto descuidado – mesmo para além das festividades da ‘Queima das Fitas’, em que o álcool tolda as mentes e, muitas vezes, transfigura os comportamentos habituais – com que grande número dos utilizadores da capa e batina, que deviam cuidar pela dignidade de ser estudante universitário (e actualmente do ensino politécnico), se apresentam em público. Os rapazes, apenas, de calças e colete pretos e camisa branca de mangas arregaçadas e as raparigas de saia e colete pretos e camisa branca como se a democratização do ensino fosse razão de desculpa ou o clima quente da bacia do Mondego sem alteração climatérica desde o tempo em que as trupes zelavam pela utilização a rigor da capa e batina.
Ou seja, das duas uma: ou os estudantes vestem o traje académico como a praxe impõe ou usam uma vestimenta que não tenha a pretensãode identificar quem não merece ser identificado como estudante da velha e tradicional academia coimbrã. Mas talvez isto não passe de minudências ou de um desabafo sem razão de ser. Concedo! Mas até para ser vampiro há um certo cerimonial a cumprir: ou se é vampiro a sério ou vampiro de telenovela adaptadaaos tempos que correm…de um fazer de conta!”
Pela gravosa actuação de um estudante universitário de Ciências da Educação de Coimbra, a praxe académica encontra-se suspensa por o Conselho de Veteranos, órgão que a tutela, ter recebido queixa de duas alunasde Psicologia com indícios que justificam uma investigação (sendo até adiantadoque o caso deverá ser entregue no Ministério Público). Esta situação, que assume contornos de oportunismo político-partidário por parte do Bloco de Esquerda, terá ocorrido em Outubro/Novembro do ano passado.
Segundo um jornal conseguiu apurar, as referidas alunas terão sido “agredidas com cabeçadas e bofetadas por parte do referido aluno durante uma praxe realizada às quatro da madrugada em frente da faculdade". E prossegue a notícia, “há, no entanto, duas versões do episódio: uma diz que as agredidas são caloiras que se recusaram a ser praxadas e a assinar o documento de rejeição da praxe; outra que são duas alunas não caloiras que chamaram a atenção da violência da praxe que estava a ser feita à chuva e acabaram agredidas pelos comentários feitos” ("Praxe suspensa em Coimbra depois deagressão a duas alunas de Psicologia”, Público, 01/04/2012). Disto resultou, ainda segundo esta notícia, que “as duas agredidas tiveram de receber tratamento hospitalar, sendo examinadas por médicos do Instituto de Medicina Legal”.
Em anos transactos, foram apresentadas queixas por más e inqualificáveis práticas da praxe académica, ocorridas numa escola de ensino politécnico agrário de Coimbra e numa escola de ex-engenheiros agrícolas da Universidade de Évora, que atingiram proporções selváticas devidamente punidas.Aqui chegado, não posso deixar de me interrogar se esta proibição do Conselho de Veteranos obriga ao seu cumprimento (e punição) os estudantes da já pujante academia de escolas do ensino politécnico de Coimbra. Apesar da promiscuidade que têm havido nestes dois subsistemas do ensino superior, julgo que não!
Promiscuidade fomentada pelo ensino politécnico para satisfazer a paridade absoluta com o ensino universitário, embora tenha redundado numa imitação que não lhe atribui um “esprit de corps” que o liberte de um travesti de usos e costumes de âmbito universitário que levaram séculos aconseguir e a consolidar. Para a tanto obstar, só criando cerimónias e festividades próprias que levem os alunos do politécnico a sentir orgulho numa identidade própria. Nem melhor nem pior. Apenas diferente!
Em recolha de páginas de um livro da minha autoria, a dada altura, escrevi:
“Recuando a um passado próximo, nas festividades da ‘Queima das Fitas da Universidade de Coimbra’ era vedada às escolas e institutos politécnicos a participação no cortejo dos respectivos carros alegóricos. Salvo erro, no ano seguinte, passaram os carros do ensino politécnico a estar estacionados numa rua que conflui com a Praça da República para aí se integrarem no cortejo, apenas, como caudatários.
Tempos depois, participam directamente no séquito, embora sob a condição de ocuparem os últimos lugares de um cortejo que assume proporções de corso carnavalesco que se transformou numa mole imensa, descaracterizada e desorganizada de carros em desfile que nada contribuem para um espectáculo condigno de uma festividade académica, verdadeiro ‘ex libris’ de Coimbra e da sua Universidade.
Entretanto, mantendo a tradição, o ‘Baile de Gala’ (e, de certo modo, as ‘Noites do Queimódromo’, em que cada uma das suas noites se destina às suas faculdades) mantém-se cerimónia restrita aos finalistas das suas oito faculdades: Direito, Letras, Medicina, Farmácia, Ciências e Tecnologia, Economia, Psicologia e Ciências da Educação e Ciências do Desporto e Educação Física” (“O Leito de Procusto”, Rui Baptista, SNPL, Outubro de 2005, pp. 114 e 115).
A propósito do desvirtuamento da praxe académica, sem deixar assentar a poeira, “um grupo de docentes da Faculdade de Letras de Coimbra pôs a circular entre os colegas um abaixo-assinado a solicitar aos órgão da universidade a interdição de certas formas de praxe académica que consideram indignas. Catarina Martins, uma das promotoras do abaixo-assinado, disse à agência Lusa que tais práticas, dentro e fora das instalações da faculdade, põem em causa a imagem da instituição, e são atentatórias ‘ao que deve ser a universidade e a sua função’ de educação para a cidadania, promoção dos direitos individuais, do saber e do sentido crítico’. Afirma que os docentes promotores do documento entendem que ‘não podem continuara ficar passivos face à passividade dos órgãos responsáveis’” (TSF, 01/04/2012).
No que respeita à prática de praxes intra-muros das faculdades ou às suas portas com práticas insultuosas que possam ofender a dignidade dos docentes e desabonar a atitude dos discentes, tenho-as como absolutamente necessárias, podendo até, em casos extremos, exigir a intervenção comedida de forças de segurança pública dissuasórias.
Quanto às praxes, fora do raio de acção das faculdades, corre-se o risco de se estar a criar uma espécie de estado de emergência, retirando, com isso, autoridade e poderes ao Conselho de Veteranos, com mandato para o efeito, que já tomou, no caso em discussão, medidas contra praxes verdadeiramente bárbaras e sádicas que chegam ao seu conhecimento decretando a interrupção de todas elas até ao apuramento de quaisquer responsabilidades, sem o recurso a cargas policiais de triste memória. Mas, por outro lado, também, sem tratar os praxistas como miúdos de calções ou meninas de laçarotes nas tranças do cabelo a quem os professores puxam as orelhas ou dão açoites para evitar diabruras. Acresce ser tarde demais para apelar ao sábio princípio de Albert Einstein, já por mim citado outras vezes: “É fundamental que o estudante adquira uma compreensão e uma percepção nítida dos valores”. Agora, em citação de um aforisma popular (“é de pequenino que se torce o pepino”), esses valores deveriam ter sido inculcados desde os primeiros anos dos bancos de escola.
Finalmente, no tema em causa, com um número irrelevante de prevaricadores em face de milhares de estudantes universitários, trata-se de preservar a tradição de uma multissecular Torre que se debruça sobre as margens do rio Mondego. Mesmo que “infringir a tradição também seja uma tradição” (Alexandre Block), assim deverá continuar a acontecer, com a excepção de ocorrências graves e continuadas que exijam medidas draconianas. Não é este o panorama da actual conjuntura!