quarta-feira, 30 de setembro de 2020

O NOSSO QUINO

Joaquín Salvador Lavado Tejón, nascido na Argentina no início dos anos trinta do passado século, é um desconhecido, já Quino, com a mesma nacionalidade mas duas a três décadas mais novo, é conhecido por todo o mundo. O primeiro faleceu hoje, o segundo é imortal. Pessoa e Artista ofereceram-nos, entre outras criações, a Mafalda. Apareceu a menina do laço na cabeça, inicialmente numa publicação com a deliciosa designação de "Primavera plana", depois noutros meios em que ela podia caminhar, denunciando sempre...


A Mafalda fica, isso é certo. E ficando, voltemos a ela, ouça-mo-la no seu discernimento impertinente, na sua segurança ingénua, na sua rispidez ternurenta.

Bem precisamos de a ouvir, pois como António Barreto explica no texto republicado neste blogue, ao contrário do que muitos esperariam, eu incluída, o pensamento não tende a abrir-se, mas a fechar-se; a linguagem não tende a apoiar a liberdade, mas a distorcê-la.

Attico Chassot - Quando Termina a Idade Média?

O QUE É A VIDA?


Meu artigo no Público de hoje (na foto Erwin Schrödinger):

Quando em 1938, depois do Anschluss, a Universidade de Graz, na Áustria, se passou a chamar Adolf Hitler, o físico austríaco Erwin Schroedinger (1887-1961), que aí ensinava e que tinha recebido o Nobel da Física em 1933 pela sua formulação da teoria quântica como uma mecânica de ondas, teve de fugir para Itália. Iniciou então um longo périplo pela Europa, que acabou em 1940, quando se fixou em Dublin, na direcção do recém-criado Instituto de Estudos Avançados. A estada de 16 anos na capital irlandesa foi um período muito fértil da sua vida: Professor estimado, era convidado a fazer conferências sobre física e não só.

Foi em Dublin que Schrödinger proferiu em 1943 um ciclo de conferências intitulado “O que é a vida?,” que resultou na edição no ano seguinte do seu livro mais famoso. O co-autor da teoria quântica deu nele um contributo essencial para a interpretação da biologia. Para ele todos os fenómenos da vida, incluindo a então misteriosa hereditariedade, eram o resultado de leis físico-químicas, designadamente as leis quânticas que explicavam as ligações químicas. A pergunta do título prolonga-se noutra: Como é que podem ser explicados pela química e pela física os fenómenos que, no espaço e no tempo, se passam no interior dos seres vivo?” A resposta vem logo a seguir:A incapacidade evidente da física e da química actuais para explicar tais fenómenos não é de modo nenhum razão para duvidar de que eles possam ser explicados por essas ciências. A afirmação de que a vida é física e química continua válida: Os modernos desenvolvimentos da biologia, alguns deles de grande impacto (designadamente a sequenciação do genoma humano em 2000), têm dado razão ao físico austríaco.

Esta resposta a respeito da essência da vida – que contraria teses animistas – foi dada vários anos antes da descoberta da estrutura molecular do ADN, realizada em 1953 pelo físico inglês Francis Crick e pelo então jovem biólogo norte-americano James Watson. Os dois reconheceram a sua dívida para com o livro de Schroedinger, o físico que tinha feito a pergunta certa na altura certa, uma pergunta à qual eles ajudaram a responder.

A vida, exibida por uma imensa variedade de seres desde a bactéria Escherichia coli ao  Homo sapiens, é um fenómeno extremamente complexo. Foi, por isso, um golpe de génio a grande unificação que o naturalista inglês Charles Darwin propôs em 1859 integrando-os a todos numa “árvore”. Sabemos hoje que todos eles são descritos pelo código genético, formado por apenas quatro letras, que Crick e Watson, usando métodos das ciências físicas (raios X), reconheceram no ADN. Nos genes, as unidades físicas do ADN, encontram-se codificadas as proteínas, as máquinas-ferramenta da vida. O físico dinamarquês Niels Bohr, autor de uma versão antiga da teoria quântica, aconselhou, a partir de certa altura, os seus discípulos a enveredarem pela biologia molecular e alguns, como Max Delbrück, alemão naturalizado norte-americano, que estudou a genética da mosca da fruta, fizeram-no com um sucesso assinalável.

O livro inclui ainda o texto de outra conferência “Espírito e matéria” (talvez em vez de “espírito” devesse estar “mente”), proferida em Cambridge em 1956. Vida, Espírito e Matéria tornou-se, traduzido em várias línguas, um best-seller mundial. Em português saiu em 1963 nas Publicações Europa-América, uma edição agora em fac-símile na colecção do PÚBLICO, com tradução da primeira parte por Germano da Fonseca Sacarrão, professor na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, e da segunda parte por S. de Miranda.

Apesar do grande sucesso obtido pela teoria quântica na descrição dos fenómenos químicos e por extensão biológicos, Schroedinger experimentou algumas dificuldades de compreensão da sua teoria. O problema maior era o papel do acaso. Para explicitar o problema, engendrou em 1935, numa discussão com Einstein, um gato que se tornou proverbial. O gato está fechado numa caixa sujeito a um dispositivo quântico. Segundo a interpretação convencional, a medição modificava aleatoriamente a “função de onda” do gato: a vida ou a morte do felino dependem da observação. Enquanto a caixa não é aberta, o gato é um zombie, está meio vivo e meio morto, passando depois a vivo ou a morto. Estranho! Mas hoje tais estados de sobreposição são usados na computação quântica: isto é, aquilo que era uma dificuldade conceptual tornou-se um artefacto técnico.

Em Vida, Espírito e Matéria não há gato. Mas há muitas questões que transcendem a ciência. “O que é a vida?” termina com uma discussão do determinismo e livre arbítrio e “Espírito e matéria” aborda quase no final as relações entre ciência e religião (conclui afirmando a “indestrutibilidade do espírito pelo tempo”). Schroedinger interessou-se pela filosofia e pela espiritualidade, em particular por religiões orientais.

Este livro ainda hoje se lê com gosto e proveito. A ciência avançou e está a avançar mais, mas algumas dos mistérios fundamentais permanecem. Schroedinger, um grande humanista, percebeu quais eles eram.



terça-feira, 29 de setembro de 2020

TEXTO DE ANTÓNIO BARRETO PARA MEDITAÇÃO

Descrição: António Barreto.jpg
 

AINDA NÂO VIMOS NADA 

Por António Barreto

 Republicanos, corporativistas, fascistas, comunistas e até democratas mostraram, nos últimos séculos, que se dedicaram com interesse à revisão selectiva da História, assim como à censura e à manipulação.

14 de Junho de 2020

É triste confessar, mas ainda estamos para ver até onde vão os revisores da História. Uma coisa é certa: com a ajuda dos movimentos anti-racistas, a colaboração de esquerdistas, a covardia de tanta gente de bem e o metabolismo habitual dos reaccionários, o movimento de correcção da História veio para ficar.

Serão anos de destruição de símbolos, de substituição de heróis, de censura de livros e de demolição de esculturas. Até de rectificação de monumentos. Além da revisão de programas escolares e da reescrita de manuais.

Tudo, com a consequente censura de livros considerados impróprios, seguida da substituição por novos livros estimados científicos, objectivos, democráticos e igualitários. A pujança deste movimento através do mundo é tal que nada conseguirá temperar os ânimos triunfadores dos novos censores, transformados em juízes da moral e árbitros da História.

Serão criadas comissões de correcção, com a missão de rever os manuais de História (e outras disciplinas sensíveis como o Português, a Literatura, a Geografia, o Meio Ambiente, as Relações Internacionais…), a fim de expurgar a visão bondosa do colonialismo, as interpretações glorificadoras dos descobrimentos e os símbolos de domínio branco, cristão, europeu e capitalista.

Comissões purificadoras procederão ao inventário das ruas e locais que devem mudar de nome, porque glorificam o papel dos colonialistas e dos traficantes de escravos. Farão ainda o levantamento das obras de arte públicas que prestam homenagem à política imperialista, assim como aos seus agentes. Já começou, aliás, com a substituição do Museu dos Descobrimentos pelo Memorial da Escravatura.

Teremos autoridades que tudo farão para retirar os objectos antes que as hordas cheguem e será o máximo de coragem de que serão capazes. Alguns concordarão com o seu depósito em pavilhões de sucata. Outros ainda deixarão destruir, gesto que incluirão na pasta de problemas resolvidos.

Entretanto, os Centros Comerciais Colombo e Vasco da Gama esperam pela hora fatal da mudança de nome.

Praças, ruas e avenidas das Descobertas, dos Descobrimentos e dos Navegantes, que abundam em Portugal, serão brevemente mudadas.

Preparemo-nos, pois, para remover monumentos com Albuquerque, Gama, Dias, Cão, Cabral, Magalhães e outros, além de, evidentemente, o Infante D. Henrique, o primeiro a passar no cadafalso. Luís de Camões e Fernando Pessoa terão o devido óbito. Os que cantaram os feitos dos exploradores e dos negreiros são tão perniciosos quanto os próprios. Talvez até mais, pois forjaram a identidade e deram sentido aos mitos da nação valente e imortal.

Esperemos para liquidar a toponímia que aluda a Serpa Pinto, Ivens, Capelo e Mouzinho, heróis entre os mais recentes facínoras. Sem esquecer, seguramente, uns notáveis heróis do colonialismo, Kaúlza de Arriaga, Costa Gomes, António de Spínola, Rosa Coutinho, Otelo Saraiva de Carvalho, Mário Tomé e Vasco Lourenço.

Não serão esquecidos os cineastas, compositores, pintores, escultores, escritores e arquitectos que, nas suas obras, elogiaram os colonialistas, cúmplices da escravatura, do genocídio e do racismo. Filmes e livros serão retirados do mercado.

Pinturas murais, azulejos, esculturas, baixos-relevos, frescos e painéis de todas as espécies serão destruídos ou cobertos de cal e ácido. Outras comissões terão o encargo de proceder ao levantamento das obras de arte e do património com origem na África, na Ásia e na América Latina e que se encontram em Portugal, em mãos privadas ou em instituições públicas, a fim de as remeter prontamente aos países donde são provenientes.

Os principais monumentos erectos em homenagem à expansão, a começar pelos Jerónimos e pela Torre de Belém, serão restaurados com o cuidado de lhes retirar os elementos de identidade colonialista. Os memoriais de homenagem aos mortos em guerras do Ultramar serão reconstruídos a fim de serem transformados em edifícios de denúncia do racismo. Não há liberdade nem igualdade enquanto estes símbolos sobreviverem.

Muitos pensam que a História é feita de progresso e desenvolvimento. De crescimento e melhoramento. Esperam que se caminhe do preconceito para o rigor. Do mito para o facto. Da submissão para a liberdade.

Infelizmente, tal não é verdade. Não é sempre verdade. Republicanos, corporativistas, fascistas, comunistas e até democratas mostraram, nos últimos séculos, que se dedicaram com interesse à revisão selectiva da História, assim como à censura e à manipulação.

E, se quisermos ir mais longe no tempo, não faltam exemplos. Quando os revolucionários franceses rebaptizaram a Catedral de Estrasburgo, passando a designá-la por Templo da Razão, não estavam a aumentar o grau de racionalidade das sociedades. Quando o altar-mor de Notre Dame foi chamado de Altar da Liberdade caminharam alegremente da superstição para o preconceito.

E quando os bolchevistas ocuparam a Catedral de Kazab, em São Petersburgo e apelidaram o edifício de Museu das Religiões e do Ateísmo, não procuravam certamente a liberdade e o pluralismo. E também podemos convocar os Iconoclastas de Istambul, os Daesh de Palmira ou os Taliban de Bamiyan que destruíram símbolos, combateram a religião e tentaram apropriar-se tanto do presente como do passado.

Os senhores do seu tempo, monarcas, generais, bispos, políticos, capitalistas, deputados e sindicalistas gostam de marcar a sociedade, romper com o passado e afastar fantasmas. Deuses e comendadores, santos e revolucionários, habitam os seus pesadelos. Quem quer exercer o poder sobre o presente tem de destruir o passado.

Muitos de nós pensávamos, há cinquenta anos, que era necessário rever os manuais, repensar os mitos, submeter as crenças à prova do estudo, lutar contra a proclamação autoritária e defender com todas as forças o debate livre.

É possível que, a muitos, tenha ocorrido que faltava substituir uma ortodoxia dogmática por outra. Mas, para outros, o espírito era o de confronto de ideias, de debate permanente e de submissão à crítica pública.

O que hoje se receia é a nova dogmática feita de novos preconceitos. Não tenhamos ilusões.

Se as democracias não souberem resistir a esta espécie de vaga que se denomina libertadora e igualitária, mergulharão rapidamente em novas eras obscurantistas.»

domingo, 27 de setembro de 2020

Tesla • Trailer - A Biografia de Nicholas Tesla

TENET | O novo dilme de acção e FC de Christopher Nolan

GLACIAR, GLACIÁRIO E GLACIAL

Glaciar da Groenlândia
É frequente, em alguns textos de ensino de geologia e de geografia, o substantivo “glaciar “ser usado na qualidade de adjectivo (por exemplo: “vale glaciar”, “modelado glaciar”, “erosão glaciar”), o que, em minha opinião, não é correcto. Posso estar enganado e, se assim for, agradeço ser corrigido. 

“Glaciar” é um vocábulo comum a estas disciplinas, usado para designar uma entidade (que definirei em nota abaixo), sendo, portanto, um substantivo e é a este substantivo que corresponde o qualificativo “glaciário”. Assim, o correcto é dizer ou escrever “vale glaciário”, “modelado glaciário” ou “erosão glaciária”. Incorrecto é também o uso (menos frequente, neste discurso), do qualificativo “glacial” (do latim “glacialis”, muito frio, gélido). Este outro qualificativo alude, sim, ao gelo no sentido real ou figurado (por exemplo: “temperatura glacia”l, “olhar glacial”). 

Uma frase que tenha em conta o uso correcto destas três palavras é, por exemplo: “O vale glaciário de Serra da Estrela é o testemunho de um glaciar de vale que aqui existiu há uns 25 000 a 18 000 anos, no alto de uma montanha, num período de frio glacial”. 

Nota parta quem não sabe: 
Um glaciar é uma massa de gelo que cobre extensões maiores ou menores de terreno, em regiões climáticas, de latitude ou de altitude, nas quais a cobertura de neve é persistente. Quer nas zonas polares (Antárctida e Groenlândia) por razões climáticas próprias destas latitudes, quer nas altas montanhosos (vale glaciário de Aletsch, na Suiça, apenas um entre os muitos conhecidos), em consequência do arrefecimento do ar em altitude. Há, nestes dois ambientes, temperaturas glaciais que permitem que a água se mantenha permanentemente no estado sólido.

Glaciar de Aletsch, Suíça

Vale Vale glaciário do Zêzere

A. Galopim de Carvalho

"O DILEMA NAS REDES". CONVÉM QUE NÃO NOS HABITUEMOS À OBSERVAÇÃO TECNOLÓGICA

Com a COVID-19, em todos os níveis de escolaridade, o ensino passou a depender ainda mais de plataformas online. Algumas são gratuitas outras são pagas, mas todas permitem, em termos tecnológicos, registar, armazenar e analisar os dados que recebem, podendo estes ser usados com diversos fins. 

Há uma vertente da vida humana - não restrita à relação na sala de aula física, incluindo também disponibilização de recursos, troca de mensagens, afixação de pautas de classificação, apresentação de relatórios, etc. - que era muito da ordem do privado, ainda que guiada por fins públicos, que passa a ser acessível a desconhecidos...

Presumimos a sua afiliação, mas não conhecemos exactamente a sua identidade, nem onde estão, nem que dados lhes interessam, nem para que querem os dados... Mas que a sua presença se sente, isso sente. Convém que não nos habituemos a ela. 

Esta nota é a propósito de um documentário ainda recente com o título (traduzido) O dilema das redes. É preciso que quem tem responsabilidades educativas o veja e que pense seriamente no que viu.


Referência:
Orlowski, J. (Dir.). (2020). The social dilemma das redes. Netflix.

sábado, 26 de setembro de 2020

"QUO VADIS" PORTUGAL?


                                                                    “A falsa modéstia é o último requinte de vaidade”                                                                        (Jean de la Bruyère, moralista francês, 1645-1696).

Não sei se por coincidência ou não, nestes poucos dias que faltam para as eleições autárquicas e presidencial  (respectivamente, 25 de Outubro deste ano Janeiro do próximo ano) têm  sido noticiados escândalos acontecidos com  gastos escandalosos camarários (v.g., automóvel Audi de 86.000 adquirido pela edilidade de Coimbra e sobre o qual continua a reinar um silêncio tumular) e os casos  da Messe de Oficiais da Força Aérea gerida por um major general e um coronel, finalmente, sob a alçada da justiça como que a dar o ar que a justiça apesar de coxa ainda se move. Ela move-se trôpega e envergonhada em vésperas eleitorais, como que a modos para inglês ver,  por acordar da sua letargia em  breves espaços de épocas eleitorais.

Simples grão de areia da vida nacional, ao longo da minha vida, tenho feito os possíveis por me manter digno das homenagens que me têm sido prestadas, por exemplo, pela Faculdade  de Educação Física e Ciências do Desporto da Universidade de Coimbra (“Prestigio Profissional”, Março de 2019) e pela Federação Portuguesa de Culturismo (Julho de 2020).

Honrado por estas homenagens, ingratidão minha seria não mencionar, aqui e agora, uma declaração que me foi prestada pelo meu querido e saudoso Director da Escola do Magistério Primário de Coimbra, Dr.  Ilídio Falcão,  em que leccionei durante uma década, personalidade respeitada e respeitável de uma Escola de Valores que formou uma plêiade de excelentes professores do antigo magistério primário.

 Escreveu ele nessa declaração que transcrevo “verbo pro verbo”:

“Ilídio de Jesus Coelho Falcão, director da Escola do Magistério de Coimbra, declara, para todos os efeitos:

1.Que o licenciado em Educação Física e ex-assistente do Instituto Superior de Educação Física da Universidade do Porto - RUI VASCO JÙLIO PEREIRA DA SILVA BAPTISTA  - é professor desta Escola da área de Educação Física desde o ano escolar de1976771977, tendo sido colocado, por destacamento, na sequência de concurso nacional.

2.Que, no exercício das suas funções, sempre relevou excepcional competência, zelo e disponibilidade, quer na área científica, quer na cultural e pedagógica, quer ainda no relacionamento humano.

Testemunham este juízo de valor vários factos relevantes: o elevado nível da sua docência, reconhecido por alunos-mestres e professores; a extensão das suas acções deformação de professores, porque constantemente solicitado; os variados seminários, cursos e apoios de natureza científica e pedagógica efectuados, dentro e fora da Escola; os colóquios realizados e as conferências proferidas a nível interno ou a nível externo, caso dos Rotários, Direcção-Geral dos Desportos e outras instituições sociais e educacionais.

A sua excepcional capacidade empática permite-lhe um relacionamento espontâneo  com toda a população da Escola: alunos, colegas e funcionários, sabendo criar um clima aberto de verdadeira amizade. Bem pode dizer-se que constitui um verdadeiro Educador.

Coimbra – 26 de Abril de 1989.”

Contemplado com homenagens académicas,  informações elogiosas sobre a minha docência e um louvor em Boletim Oficial de Moçambique pelo meu cargo de Inspector de Educação Física, de mal ficaria com a minha consciência por omissão de  um sem número de comentários elogiosos com que me têm honrado antigos alunos da mui saudosa Escola Industrial Mouzinho de Lourenço Marques. Aproveito esta  ocasião soberana para dar este exemplo que espelha muitos outos que se têm afogado num “mare magnum” de não citações. Que me saibam perdoar os seus autores a sua omissão.

Reporta-se este comentário  a um texto aqui publicado há dias da autoria de Carlo Silva. Reproduzo-o:

Parabéns pelos seus excelentes artigos publicados ao longo de décadas e sobre vários temas. Mas como são politicamente  incorrectos,  os "mídia" e poder politico são uns cobardes salvo raras excepções. 90 anos [ligeira correcção minha, 89 anos] e ainda ter capacidade intelectual para exprimir desta maneira merecia ser homenageado.” E, como tal, era aí sugerido a edição de um livro de todos artigos por mim  escritos ate à presente data [só em artigos de jornais nacionais e regionais, de entre eles o “Público”, remontam eles a um milhar]. O nosso amigo Big Samuel Slam talvez pudesse ajudar com  os que regressaram de Moçambique, os que ainda estão vivos e espalhados pelo mundo, seus filhos e familiares ,pelo menos cobrissem os custos. E mais tarde os netos e bisnetos irão até á Torre do Tombo á procura do livro.

Saúde quanto baste para si e para os seus

Abraços. Carlos Silva.”

Da minha parte, mereceu este comentário a seguinte resposta:

“Estimadíssimo Carlos Silva: Agradeço comovido a sua mensagem embora a considere uma utopia, ainda que, como escreveu alguém, a utopia seja um sonho por realizar. No meu caso é um sonhar alto de mais para as minhas asas. Tenho-me preocupado em mante-me igual a mim próprio ao longo dos meus anos de vida. O que confesso me basta, assim como o respeito e amizade com que tenho sido cumulado por antigos e muitos estimados alunos da Escola Industrial Mouzinho de Albuquerque de Lourenço Marques, uma verdadeira Escola de Valores.  Aproveito a ocasião para dar o meu testemunho de muita gratidão por tal facto.

Rui Baptista”.

Nem de propósito, vi, dias atrás, um pequeno filme na televisão, não sei se “fake new” ou não, em que o presidente da Guine Bissau, perseguia e esmurrava forte e feio, entre carros arrumados num parque de estacionamento , o respectivo ministro da Saúde acusado de ter desviados fundos do combate à epidemia do coronavírus, em justiça que em Portugal é chamada  de “Justiça de Fafe”.

E aqui surge-me outra dúvida: haverá um  primeiro-ministro lusitano com coragem e moral suficientes para esmurrar os governantes que delapidam a fazenda pública com os seus roubos mantendo-se  os atingidos expectantes  que a justiça os libe,  por serem defendidos por nomes sonantes da advocacia. ou que os crimes prescrevam?

Para isso, nem seria preciso tirar-lhes  “selfies”, de frente e de perfis,  com a indicação: PROCURAM-SE! Eles passeiam-se, descaradamente,  à vista de toda a gente,  quais recém-nascidos nuzinhos, puros e imaculados como a neve caída do céu antes de ser conspurcada por um chão imundo de corrupção! "Quo vadis" Portugal?"

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

GEOLOGIA E SOCIEDADE (1)

A importância da Geologia 

“Não é puxar a brasa à minha sardinha”, como soe dizer-se, mas a verdade é que a importância da Geologia na sociedade coloca-a na primeira linha em termos das respostas que dá às solicitações inerentes ao desenvolvimento sustentado. 

Se não, vejamos:
1) Entre os recursos geológicos (georrecursos) com interesse económico, exploramos: matérias-primas metálicas, como são, entre outros, os minérios de ferro, cobre, estanho, ouro, prata e zinco, e não metálicas, entre as quais areias, argilas, gesso, sal-gema, sais de potássio, nitratos e boratos; pedras ornamentais (mármores, granitos), preciosas e industriais; combustíveis fósseis (carvão, petróleo, gás natural, betumes); combustíveis nucleares (minerais de urânio); recursos geotérmicos; e águas subterrâneas. 
2) A Geologia sabe que, ao contrário dos recursos vivos, com ciclos de renovabilidade muito curtos, à escala temporal da vida humana, os recursos geológicos necessitam de muito tempo, na ordem das dezenas ou centenas de milhões de anos, para se renovarem e reincorporarem na crosta. Imagine-se, a título de exemplo, o grande número de navios afundados no Pacífico durante a 2ª Guerra Mundial. Aí, a par do substrato basáltico do fundo e dos sedimentos que o cobrem, jazem milhares de toneladas de ferro usado na construção desses vasos de guerra. Cita-se o ferro por ser, sem dúvida, o elemento mais representativo neste tipo de equipamentos bélicos. Mas há outros como cobre, chumbo, alumínio, titânio, volfrâmio (tungsténio), etc., etc. Acompanhando a dinâmica da litosfera, estas massas metálicas, daqui a muitos milhões de anos, acabarão por mergulhar em zonas de subducção, onde atingirão profundidades que determinam a sua transformação e incorporação, sob a forma de novos minerais, nas rochas aí em formação. Na continuação deste processo geotectónico, assim imaginado, e passados mais uns tantos milhões de anos, essas rochas elevar-se-ão, dando nascimento a uma cadeia montanhosa e, só muitos milhões de anos mais tarde, a erosão porá a descoberto, entre outros, os minerais formados com o ferro e os outros metais consumidos na construção dessas máquinas de guerra flutuantes, criadas pelo “Homo sapiens”. 
 
3) A Geologia sabe e de há muito que alerta, que, do ponto de vista da sociedade, os recursos geológicos são considerados recursos naturais não renováveis, que acabarão por se esgotar, mais tarde ou mais cedo, ainda no horizonte da sociedade humana, uma realidade de que andamos esquecidos, a par de outras como a poluição do ar e da água, o aquecimento global e a destruição da camada de ozono. Exceptuam-se desta condição as águas subterrâneas, cujos aquíferos são renováveis à nossa escala temporal, se não forem destruídos por má exploração, e a energia geotérmica cuja duração, como fenómeno geológico, é muitíssimo superior ao nosso horizonte de vida como espécie ou como sociedade. 
4) Quase tudo o que nos rodeia e de que constantemente nos servimos, ou com o qual nos articulamos diariamente, resultou das conquistas da Ciência e da Tecnologia e, nestes domínios, a Geologia teve e continua a ter papel importante, muitas vezes subavaliado ou esquecido. Os alimentos, os medicamentos, os transportes e comunicações, os equipamentos mais variados (da indústria, da saúde, da cultura, do lazer) radicam, em boa parte, nestas conquistas do génio humano, e nestas conquistas são fundamentais as conseguidas nos domínios da Geologia. Em suma, a Geologia e as tecnologias com ela relacionadas são alguns dos pilares sobre os quais assentam as sociedades humanas, o progresso social e o bem-estar da humanidade. 
Mas há mais: 
1) A Geologia dá apoio à Engenharia, na caracterização dos terrenos, com vista à implantação de barragens, pontes, rodovias e ferrovias, centrais nucleares, grandes edifícios, portos e estruturas de protecção do litoral. 
2) A Geologia tem, ainda, um papel fundamental na identificação, previsão e prevenção de riscos naturais, com destaque para a actividade vulcânica, a ocorrência de sismos (pela caracterização da sismicidade de uma dada região), as cheias e os problemas de erosão litoral ou em terra (deslizamentos em vertentes), etc. 
3) Problemas da sociedade do desenvolvimento, como são a poluição do ar e das águas e os efeitos decorrentes das escombreiras de minas abandonadas, deram lugar a uma nova disciplina em franco progresso, designada Geologia do Ambiente. 
4) É ainda a Geologia que sustenta uma nova maneira de encarar as rochas e algumas das suas ocorrências como georrecursos culturais, também eles, não renováveis. Elas são, com efeito, documentos naturais da História da Terra, da Vida e do Homem. Alguns destes documentos, reconhecidos aqui e ali (geossítios), têm grandiosidade e, até, monumentalidade, que lhes confere a designação de geomonumentos, uns à escala do afloramento, no geral métrica a decamétrica, outros à escala do sítio, com extensão hectométrica, e, outros, ainda, à escala da paisagem, ocupando áreas quilométricas. 

Conclusão

Como tenho afirmado em diversas ocasiões, é fundamental intensificar o ensino da geologia nas nossas escolas. Intensificar, porque é necessário e urgente pôr termo à secundarização desta disciplina nos curricula escolares. Uma tal intensificação inclui regionalizar, expressão que encontrei para dizer que as escolas, para além de um programa de base, elaborado por quem o saiba fazer, deverão insistir nos temas geológicos mais marcantes nas regiões onde se inserem. Por exemplo, que os estudantes dos Açores deem especial atenção à sismologia, ao vulcanismo e à geomorfologia associada, que os setubalenses estudem a estratigrafia e a tectónica da Serra da Arrábida, que os da grande Lisboa conheçam a Serra de Sintra, essa pérola da petrografia nacional, que os do grande Porto se detenham a observar e a compreender o Complexo Metamórfico da Foz do Douro e que os alentejanos saibam o porquê e conheçam o valor da faixa piritosa, etc., etc.

Há, em cada região do país, temas de interesse, observáveis pelos seus estudantes, temas que lhe darão uma visão concreta e prática da disciplina. E, a partir daí, ganho o interesse pela disciplina, tudo será mais fácil. Não se aceita que o estudante açoriano ou madeirense dê ao vulcanismo o mesmo desenvolvimento (praticamente, nenhum) que um transmontano ou um algarvio, assim como não se aceita que um aluno da Covilhã dê à geomorfologia glaciária da Serra da Estrela, o mesmo desenvolvimento que é dado nas escolas da Madeira ou do Alentejo.

A. Galopim de Carvalho

JOÂO PEDRO GRABATO: UMA GENIAL OFICINA

Do académico Eugénio Lisboa e crítico literário, recebemos este texto, publicado no "Jornal de Letras", que reproduzimos com o prazer de sempre:
e not affraid of greatness 
(Shakespeare) 

António Cabrita publicou na revista Caliban, de 14 de Novembro de 2016, um notável e justiceiro artigo dedicado a uma das mais fascinantes figuras de artista do século XX português: João Pedro Grabato Dias, heterónimo poético do pintor António Quadros e ainda heterónimo de outros poetas, como Frey Ioannes Garabatus e Mutimati Barnabé João. 

Pintor, poeta, professor (de altíssimo quilate), ceramista, arquitecto (singularmente inovador), apicultor, agrónomo, artista gráfico, construtor naval, nas horas vagas, descobridor e divulgador da obra de Rosa Ramalho, este verdadeiro homem da Renascença, como, muito adequadamente, lhe chama António Cabrita, com ser uma das mais ricas, complexas e bem adestradas figuras do nosso mundo cultural – e não só! – é também uma das menos frequentemente citadas, quando se trata de ressalvar um reduzido punhado de eminentes poetas ou de artistas plásticos de relevo.

E, no entanto, comparados com ele, a maior parte dos nossos festejados poetas não passam de canhestros aprendizes de feiticeiro. Que a grandeza de Grabato seja por alguns reconhecida mas cuidadosamente não promovida nem divulgada diz muito da pequenez do nosso mundo cultural (faça-se aqui uma ressalva para a grande actriz Maria do Céu Guerra que, com enorme empenho e arte, tem divulgado alguns aspectos da poesia de Grabato Dias).

Observava, com subtil e certeira ironia, o grande ensaísta Daniel Boorstin que “alguns nascem grandes, outros ascendem à grandeza e outros contratam um bom oficial de relações públicas”. Quantas reputações, entre nós, se não fazem nos escritórios de esforçados agentes de relações públicas! Aí, o que menos conta é o mérito real.

Não vou citar nomes: são demasiado conhecidos, ainda que minuciosamente protegidos. A verdadeira grandeza quase sempre assusta e fomenta, rapidamente, a reacção corporativa dos falsos grandes. Dizia o grande biólogo francês, Jean Rostand, que é também um notabilíssimo aforista na língua de Chamfort, que “a grandeza, para se fazer reconhecer, deve, frequentemente, imitar a verdadeira grandeza”. 

Dura verdade, mas também muitas vezes irreconciliável com temperamentos orgulhosos e reclusos de homens como Grabato Dias. A estes, resta-lhes, como único trunfo, o mérito real, valor a que só o tempo – e muito lentamente – permite que se dê o devido acolhimento. O autor de livros notabilíssimos, como 40 e Tal Poemas de Amor e Circunstância e Uma Canção Desesperada, O Morto, A Arca, Quybyrycas, Eu, o Povo, Pressaga, entre outros, é um dos mais inventivos, singulares, turbulentos e luxuosos manipuladores de palavras, metáforas, mitos, ritmos e rimas de que pode orgulhar-se o universo poético lusíada. Desassossegador de alto quilate, o autor desse livro único que é a “Ode Didáctica” O Morto surpreende-nos e agride-nos com algumas das mais fulgurantes e dilacerantes sondagens ao âmago do coração humano que regista a poesia lusa.

No citado e belo artigo de António Cabrita, podemos ler o seguinte: 
“Tem sido um destino. De cinco em cinco anos vejo-me obrigado a reeditar este texto, pelo mesmíssimo motivo: a insuportável obscuridade que caiu sobre um dos mais interessantes e completos espíritos da literatura e da arte portuguesa do século XX: António Quadros / Grabato Dias (1933 - 1994), pintor, poeta, ceramista, pedagogo, apicultor e um homem da Renascença como antes dele só houve um Almada Negreiros. Vivendo no limbo, entre Moçambique e Portugal, ninguém o reivindica e a todos faz sombra e a sua obra está toda por reeditar.” António Cabrita tem toda a razão, excepto num pequeno ponto: quando diz: “ninguém o reivindica e a todos faz sombra”, deveria substituir a copulativa “e” pela causal “porque”.
O vertiginoso ofício poético deste grande fabbro ofusca, ofende e aterroriza poetas que não decifram os mais elementares segredos e buzinas de uma arte poética que de todo se lhes furta. Poetas como Grabato Dias, Reinaldo Ferreira ou David Mourão-Ferreira ou Régio são sub-repticiamente “ocultados” como inconvenientes, embora excepcionais artesãos de uma arte milenar, mas, hoje, perversamente contornada. Quadros / Grabato Dias era minucioso em tudo o que aprendia e aprendia devagar. A apicultura, a cerâmica, a pintura não se improvisam: aprendem-se. A poesia, também. No meu terceiro volume de memórias, escrevi isto:
“O Quadros era um verdadeiro fenómeno de saberes e técnicas de vários feitios (…).  Nada lhe escapava, tudo aprendia, com empenho, atenção esforçada, lentidão… Não ia em evidências nem brilharetes. Cada território novo do saber era, para ele, um terreno armadilhado de dificuldades. Via obstáculos onde os outros viam facilidades. Percebia devagar, mas com obstinação. Na escola, chegaram a considerá-lo “atrasado”. Cada disciplina nova era um tormento: nada era fácil, mas, quando se punha a “escarafunchar”, chegava onde ninguém tinha chegado antes dele. Andava devagar, mas escavava fundo. O que aprendia era para sempre. O que descobria ficava. (Lembro-me só de um como ele, também “estúpido” e vagaroso no compreender – chamava-se Einstein).” 
A maior parte da sua obra poética foi escrita em Moçambique, ao mesmo tempo que pintava e dava lições gratuitas a alunos locais, no Núcleo de Arte. Foram seus alunos atentos os hoje famosos Malangatana Valente (pintor) e Chissano (escultor). Quadros era um docente notável, esforçado e admiravelmente sensível às dificuldades dos alunos. Era de uma extrema minúcia em tudo o que fazia. Lembro-me, com grande saudade, de noites prolongadas até de madrugada, na nossa casa, em Lourenço Marques, com o António Quadros a desvendar-nos todos os mistérios da vida e percursos das abelhas. Era assim com tudo: um dedicado e autêntico profissional.

Enquanto escrevia o seu longo poema satírico – Quybyrycas, prefaciadas por Jorge de Sena –, mais longo que os Lusíadas, tinha fixado na parede um gráfico em que mostrava o progresso diário do poema, em estrofes concluídas. Tanto o Quadros, pintor, como o Grabato Dias, poeta, se consideravam, orgulhosamente, simples operários. O preço dos quadros que vendia nada tinha a ver com a enorme reputação de que já então desfrutava: era rigorosamente calculado em função do número de horas de trabalho investidas na obra. Preços dignos, mas razoáveis.

Dado que a maioria dos compradores era gente bastante endinheirada, que estava disposta a pagar-lhe o que ele pedisse, a sua contenção “operária” era tanto mais admirável. Generoso e atrevido, quando o jornal A Voz de Moçambique se viu perseguido pelos poderes do dinheiro, aliados aos do Estado Novo, sendo-lhe vedado o acesso a todas as tipografias (endividadas ao Banco Nacional Ultramarino e portanto nas mãos dele), o António Quadros, recentemente chegado a Moçambique, caiu-nos do céu na redacção do jornal, ensinando-nos a fazê-lo pelo processo offset, um dos seus inúmeros saberes.

Em noitadas de calor e humidade sufocante, de tronco nú, ofereceu-nos, gratuitamente, maquetes inesquecíveis, paginando o jornal de ponta a ponta e assim nos ajudando a baratinar a malandragem no poder. 

Termino com uma passagem da homenagem que lhe prestei nas minhas memórias: 
“Como poeta, como pintor, como fazedor, como criador, como intrépido desvendador de territórios ignotos, António Quadros foi um dos raros génios que tive o privilégio de conhecer, em vida. Não me apetece, neste caso, estar com cuidado a medir as palavras: disse “génio” e disse bem”.

Eugénio Lisboa 

TRINH XUAN THUAN E A VERTIGEM CÓSMICA

 


Meu artigo no jornal I de ontem:

O infinito sempre nos perturbou. É uma noção que tem desafiado a matemática, a física, a filosofia  e a teologia. Na matemática a noção de infinito decorre desde logo do facto de a sucessão dos números naturais 1, 2, 3,… nunca acabar. Um infinito pode conter o outro: o conjunto desses números é infinito, mas ele contém dentro deles o conjunto dos números pares, 2, 4, 6,…, que também é infinito. E os números reais, que contêm os naturais, são também em número infinito.

Na física, uma questão perturbadora tem sido a aplicação do conceito de infinito ao espaço e ao tempo. A teoria da relatividade geral de Albert Einstein prevê infinitos (“singularidades”) no espaço e no tempo, nos chamados “buracos negros” e nesse evento primordial de onde tudo veio, o “buraco branco” que foi o Big Bang, ocorrido há 14 mil milhões de anos. Os astrofísicos concordam hoje que vivemos num Universo que, no tempo, é “semi-infinito”, isto é, infinito para a frente, mas não infinito para trás, porque começou a certa altura. Como não temos acesso a nenhuma informação anterior, não podemos dizer nada sobre o hipotético tempo anterior. E, mesmo sobre os primeiros instantes do Universo, podemos dizer muito pouco. Por outro lado, no que respeita ao espaço, permanece a questão de saber se o Universo é finito ou infinito. Talvez seja infinito, mas não temos a certeza. Se é infinito, começou logo infinito. No entanto, devido ao Big Bang, só podemos observar dentro de um certo horizonte, uma superfície esférica com 42 mil milhões de anos-luz de raio, mais do que 14 mil milhões porque o universo está em expansão.

O infinito sempre nos causou vertigens. Ao olharmos para o céu, não podemos deixar de pensar na extensão do espaço sideral. Blaise Pascal declarou: “O silêncio eterno desses espaços infinitos assusta-me.” Se olharmos para a fotografias proporcionadas pela NASA do “campo profundo” do telescópio espacial Hubble em que as galáxias não passam de pontos, não podemos deixar de pensar no poema de William Blake: “Veja o mundo num grão de areia,/ veja o céu num campo florido,/ guarde o infinito na palma da mão,/ e a eternidade em uma hora de vida!”

Trinh Xuan Thuan (o nome de família é Trinh, apesar de vir em primeiro) é um astrofísico vietnamita que é professor na Universidade de Virgínia nos Estados Unidos e é investigador associado ao Instituto de Astrofísica de Paris. É ele o autor do livro A Vertigem do Cosmos, com o subtítulo Uma Breve História do Céu (piscando o olho a Stephen Hawking), que acaba de sair pelo Círculo de Leitores e pela Temas e Debates. É uma obra de popularização da astrofísica muito bem feita que relata como as observações e medidas do céu se foram, ao longo do tempo, ampliando e com elas o nosso entendimento do cosmos. Tal como Universo o nosso conhecimento está em expansão.

Trinh nasceu em Hanói em 1948 (recorde-se que um dos primeiros astrónomos no Vietname, então chamado Cochinchina, foi Christophoro Borri, um italiano, contemporâneo de Galileu, que foi de Portugal e aqui voltou), e doutorou-se na Universidade de Princeton. É especialista em astronomia fora da nossa galáxia, em particular na origem das galáxias: identificou em imagens do Hubble a mais jovem galáxia até hoje conhecida. Publicou cerca de 15 livros, desde 1988, quando saiu o que terá sido o seu maior êxito, A Melodia Secreta: ...E o homem criou o universo (Bizâncio, 2002), com tradução de Máximo Ferreira (eu costumo dizer que “o céu é o Máximo”). Em português existem ainda O Caos e a Harmonia: a Fabricação do real (Terramar, 1999) e O Infinito na Palma da Mão: Budismo, ciência e salvação, com Matthieu Richard (Notícias, 2001). Ganhou em 2009 o Prémio Kalinga da UNESCO de divulgação científica e em 2012 o Prix mondial Cino Del Duca do Institut de France, que reconhece autores cuja obra constitua uma mensagem de humanismo.

A primeira parte de A Vertigem do Cosmos, publicada no ano passado em Paris pela Flammarion (a editora fundada no século XIX por um irmão de Camille Flammarion, um dos maiores divulgadores de ciência de sempre), de Paris, é uma história da astronomia global, como hoje se diz. Começa por falar do universo mágico e mítico do homem antigo para depois abordar a observação do céu no Egipto, na Mesopotâmia, na Mesoamérica, na África, na Índia e na China. A origem asiática do autor  ajuda a que exponha  mitos e histórias que no Ocidente conhecemos mal. Passa depois a descrever o universo de Isaac Newton, ordenado por leis naturais, e o universo, “estranho e maravilhoso,” de Einstein, cuja teoria da relatividade é necessária para descrever os buracos negros, o Big Bang, e as ondas gravitacionais recentemente descobertas (que já vêm no livro).

O capítulo seguinte “Na profundidade do espaço, um universo finito ou infinito?” discute a infinidade do espaço. Já no capítulo sobre Newton, Trinh tinha referido a cosmovisão de Nicolau Copérnico, em cuja obra maior, saída em 1543, o universo era fechado. Foi Giordano Bruno o primeiro a propor um universo infinito no seu livro Sobre o Infinito, o Universo e os Mundos (1584). Recordo o seu texto: "Existem incontáveis sóis; incontáveis terras giram em torno destes sóis de maneira semelhante à forma como os sete planetas giram em torno do nosso sol”. Foi queimado pela Inquisição em 1600, não por essa mas outras heresias. Galileu escreveu em Diálogos sobre os dois principais sistemas do mundo (1632): “Que vamos fazer agora (…) com as estrelas fixas? Vamos dispersá-las nos imensos abismos do universo a diferentes distâncias de um qualquer ponto determinado, ou então vamos colocá-las sobre uma única superfície esfericamente esticada em redor do seu centro, estando então todas a uma distância igual desse centro? (…) Não sabeis que ainda não está decidido (e creio que continuará a sê-lo para ciência humana) se o universo é finito ou infinito?” A questão para ele era de natureza metafisica e não podia ser apreendida pela razão. Mas não arriscou pronunciar-se, por conhecer o destino que teve Bruno. Na esfera protestante, o astrónomo seu contemporâneo Johannes Kepler, embora concordando com Galileu em que a questão era metafisica, imaginava um universo finito pela simples razão de que a noite era escura: se o Universo fosse infinito e estivesse todo eles povoado de estrelas, haveria sempre luz. Trinh cita o escritor oitocentista Edgar Allan Poe que, no seu poema em prosa Eureka (1848), deu a explicação correcta. Se a luz viaja a uma velocidade finita, a luz de infinitamente longe demoraria um tempo infinito a chegar. Hoje sabemos que, de além do horizonte observável, não vem qualquer luz. Portanto, o facto de a noite ser escura é uma prova da teoria do Big Bang. Conclui Trinh: “O universo de curvatura nula como o nosso pode ser finito ou infinito.” Não sabemos, portanto, se o nosso mundo é finito ou infinito. É aliás difícil distinguir um universo infinito de um universo finito que seja suficientemente grande. O astrofísico vietnamita encanta-nos com uma metáfora: “O universo, tal como uma mulher coquete que se recusa a revelar a sua idade, continua a esconder-nos a sua dimensão.”

O autor fala depois do tempo e da “flecha do tempo”, da distinção entre passado e futuro, não se esquecendo de referir que, para além do tempo físico (o tempo marcado pelos relógios), há um tempo humano, psicológico, subjectivo. Há quem diga que o tempo não existe, que é uma pura construção mental.

O livro termina com um capítulo intitulado “O sagrado e o profano”. O tema do sagrado é muito caro ao autor, que, sendo confucionista, se declara fascinado com a ideia de Einstein (que, em larga medida, é a de Espinosa) segundo a qual Deus é o próprio mundo. Xinh tem procurado aprofundar as ligações entre ciência e religião: foi, por exemplo, fundador da Sociedade Internacional para Ciência e Religião. Para ele, como declara no título de uma das últimas secções a espiritualidade é “companheira de caminhada da ciência”.

Transcrevo a este propósito um parágrafo do final: “O desenvolvimento da ciência fez com que o espaço do homem moderno tenha perdido o seu carácter sagrado. Tornou-se profano. Mas foi também o homem de ciência que permitiu que o homem redescobrisse o sentido do sagrado, não venerando deuses personificados e construindo edifícios para sacralizar a Terra, mas ao redescobrir e determinar a sua antiga aliança com um cosmos que foi regulado de uma forma extremamente exacta para o seu aparecimento. Ao revelar a sua interdependência com as estrelas e ao maravilhar-se perante a beleza, a harmonia e a unidade do cosmos”.

O profano ocupa hoje lugares que já foram do sagrado, como céu. Mas o céu, seja ele finito ou infinito, continuou a deslumbrar-nos, a causar-nos vertigens à medida que a ciência ia avançando. Autores de ciência como Carl Sagan, Hubert Reeves e Trinh Xuan Thuan transmitem-nos um arrepio cósmico que tem algo de religioso. No profano – é essa a mensagem de Trinh - há algo de sagrado.


quinta-feira, 24 de setembro de 2020

A VIDA POLÍTICA PORTUGUESA



“A memória é a consciência inserida no tempo” 
(Fernando Pessoa). 

Perante a apatia nacional, mais ou menos generalizada, sobre o que se passa na vida política portuguesa, admito uma quota-parte nesta apatia, embora não pertença à legião dos que se demitem definitivamente, sem fé nem esperança, das suas responsabilidade de portuguesismo, palavra em desuso actualmente! 

Tento saldar esta minha dívida de cidadão, protestando com a minha prosa, embora sabendo ser uma voz a reclamar no deserto da indiferença dos ricos e poderosos. Desta forma desejo apenas cumprir o desígnio de não ser conivente, em citação de A. Einstein, “de um mundo lugar perigoso para se viver não por causa dos que fazem o mal, mas por causa daqueles que o observam e deixam o mal acontecer”.   

Num país pobre dito socialista, em que “a maior desgraça de uma nação pobre é produzir ricos em vez de produzir riqueza” (Mia Couto), uma pequena legião de nacionais dorme na rua e, um grande número de nacionais passa fome enquanto políticos da Assembleia da República, por dez reis de mel coado, se empanturram no respectivo restaurante.

Ademais, vá lá gente entender os nossos caritativos governantes de olhos fechados ao que se passa à sua volta sonhando em serem santificados como Santa Teresa de Calcutá dando abrigo farto a refugiados de países do continente africano que, por vezes, causam desacatos em território das cinco quinas, sem estarem fugidos de zonas do continente africano em estado de guerra. Em resumo, a caridade portuguesa devia passar por dar, prioritariamente, assistência condigna aos seus muitos sem-teto que dormem ao relento acompanhados dos seus cães de estimação, verdadeiros e fiéis amigos, repartindo as suas migalhas com eles ou mesmo deixando de as comer se necessário para lhas dar. 

Quando se forma um partido político, sem ser para dar emprego a juventudes inúteis que se entretêm em festanças de multidões em disseminar o coronavírus, deve ele atender à miséria mais desgraçada, a melhorar a vida dos remediados, a não enriquecer ainda mais os milionários deste país com fortunas multimilionárias nascidas à vista de olhos cegos, ou simplesmente míopes, quais tortulhos germinados em terrenos húmidos de desavergonha nacional. 

Como tal, caem em descrédito partidos políticos criados para dar trabalho bem remunerado a quem na vida pouco ou nada sabe fazer a não ser vender a alma ao diabo a troco de benesses espúrias. Mas mesmo que eu fosse um dos numerosos mentirosos que juram a pés juntos não estarem ao serviço da política para dela se servirem , a minha condição de velho de 89 anos preocupado com a sua honra pessoal não me permitiria tal condição atribuindo-me apenas a possibilidade de emitir opiniões cíticas de cidadania ao serviço da "polis".

Ora, dessa posição não abdico por viver num país em que ainda é permitido o direito à liberdade de expressão, ainda que, por vezes, condicionada pelos poderosos que têm a faca e o queijo dos media nas mãos, apenas contrariados pelas novas tecnologias que democratizaram esse direito, tendo eu a obrigação de honrar a memória de meu avô materno, José Pereira da Silva, presidente da Câmara Municipal do Porto (1927) e de meu falecido sogro, Jerónimo Carlos da Silveira, tenente coronel médico, com o reconhecimento público de valorosos serviços prestados à Pátria (outra palavra caída em desuso) com a comenda da Ordem Militar de Aviz e a insígnia de Cavaleiro da Ordem dos Templários. Eu apenas desejo continuar a ser recordado, como até aqui, como um homem honrado na modéstia da minha vida por meus alunos de uma docência de 18 anos na saudosa Escola Industrial Mouzinho de Albuquerque de Lourenço Marques e outros tantos por outros locais dos ensinos secundário, médio e universitário públicos em que lecionei.

São estas teias que, para além de fontes documentais, que a memória teceu em mim e nelas me enreda,  enquanto a memória me permitir, desejando-as eu perpetuadas em minhas gerações presentes e futuras consanguíneas dignas de seus avoengos.

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

O POPÓ DA PRESIDÊNCIA DA CÂMARA MUNICIPAL DE COIMBRA

"Pecar pelo silêncio, quando se deve protestar, transforma os homens em covardes”
(Abraham Licoln).


Poucos dias atrás, através da Net, tomei conhecimento, confirmado pelo “Polígrafo”, que pela edilidade de Coimbra tinha sido adquirido, por 83 mil euros, um automóvel topo de gama da marca “Audi”. 

Curiosamente, esta notícia nenhuma atenção (por ser corriqueira?) mereceu por parte do "Diário a Beiras", de Coimbra, tendo sido noticiada com o destaque devido, apenas, num “post” do jornalista Mário Martins, acompanhado por uma fotografia, como é uso dizer-se, uma imagem vale por mil palavras, em que surge o bólide, pago com impostos municipais de todos nós, estacionado imponente à frente do magnifico Edifício da Câmara, à vista de “gente, ignorada e pisada, como pedra do chão, e, mais do que pedra humilhada e calcada" (Sophia de Mello Breyner) que, de lancheira debaixo do braço, a pé ou de bicicleta, vai para ou regressa do trabalho para ganhar o pão de cada dia com o suor do rosto. 

Eu que me sinto desiludido do presente, em que ao abrir-se diariamente as páginas dos jornais, ou ouvindo e vendo os noticiários televisivos, nos deparamos com escândalos de pequena ou elevada corrupção, sem esperança no futuro, em que encontro, apenas, lenitivo no passado de gerações honradas de governantes e edis do início do século passado.

De entre eles, meu avô materno, José Pereira da Silva, antigo presidente da Câmara Municipal do Porto, homem pobro, íntegro e fiel ao seu ideário republicano, tendo sido deportado político para Angola por ter participado na falhada “Revolução do Porto de Fevereiro de 1927”. Extraído da obra (volumes I e II) “Presidentes da Câmara Municipal do Porto”, da autoria de Fernando de Sousa, professor catedrático, da Universidade do Porto, traço um brevíssimo esboço biográfico, deste meu ancestral, que reproduzo abaixo:
“José Pereira da Silva, Presidente do Senado da Câmara Municipal, no primeiro trimestre de 1925, durante a ausência de António José de Sousa Júnior [Ministro da Instrução Pública da I República], demitiu-se a seu pedido, desse cargo tendo-lhe sido tecidos, em sessão camarária de despedida, os mais elevados elogios, sendo-lhe sido reconhecido «inteligência lúcida, dedicado e sempre pronto e firme na defesa dos direitos municipais, salientando que tinha desempenhado aquele cargo com tanta justiça, com tanta competência e imparcialidade que é lamentável que ele o abandone, sendo mesmo lavrado em acta um voto de agradecimento." 
É este exemplo de verticalidade que meu avô me deixou em herança. de que muito me orgulho, para além de muitos e outros motivos, por me permitir escrever este texto sobre dois homens, ambos antigos presidentes de edis municipais, em século diferentes: um das margens do Mondego, Manuel Machado, outro do serpenteante Douro, José Pereira da Silva.

Para não me tornar juiz em causa própria, o leitor que tire a ilações devidas deste meu texto com esperança em D. Quixote que dirigindo-se a Sancho lhe diz: “Mudar o mundo, não é loucura, não é utopia, é justiça”!

Entretanto, vamos sobrevivendo em mundo de loucura e utopia em vã esperança de uma justiça que tarda em chegar! Ou nunca chegará, ainda que mesmo num dia de nevoeiro! 

P.S: Por o ter como mais sugestivo, alterei o título deste meu post. Onde escrevi popó, tinha escrito "Audi"!

domingo, 20 de setembro de 2020

SERENATA COM A LUA POR PERTO

 


Deixo aqui o guião da minha intervenção ontem no Concerto "Serenata com a Lua por perto", tocada pela Orquestra Clássica do Centro em Condeixa no ãmbito do festival das Artes de Conímbriga - MUSAS:

SERENATA COM A LUA POR PERTO

Orquestra Clássica do Centro no Festival de Conímbriga, 19/9/2020


1.ª Intervenção

É um prazer estar em Condeixa, no último concerto do primeiro Festival das Artes de Conímbriga - MUSAS. Parabéns à Câmara Municipal de Condeixa-a-Nova pela iniciativa, assim como a todos mos seus parceiros. Hoje, aqui neste magnífico sítio do museu POROS, quando a Lua está no início de quarto crescente, vai haver um concerto muito especial, com a Lua por perto. Ela está a 384.000 km, pouco mais do que um segundo-luz, que é a distância que o luar demora até chegar até nós. A Lua e os astros em geral sempre inspiraram os grandes criadores musicais.  Os antigos falavam da “música das esferas,” isto é, os astros, com os seus movimentos, formavam uma melodia. E a busca da ordem dentro do mistério – da luz dentro da escuridão – sempre foi um tema da arte e também da ciência. As duas, sendo diferentes, estão juntas na procura de iluminação.

 Muitos dos temas que vamos escutar hoje têm a ver com o amor, que é um fenómeno físico-químico no nosso cérebro e no nosso corpo, e que é também algo que as artes tentam descrever. A ciência do amor é difícil de fazer e de transmitir. Mas uma música que descreve um sentimento de amor é algo que entra em nós facilmente porque o nosso cérebro é extraordinariamente sensível à música.

A Serenata de hoje é grande música, na maior parte excertos de óperas, um género musical que tem uma particular relação com a ciência. A ópera nasceu em Florença no século XVI, na mesma altura em que a ciência moderna estava a nascer. Mas, mais do que isso, um dos primeiros adeptos da ópera foi Vincenzo Galilei, alaudista na corte dos Medici, que foi pai de Galileu Galilei, o primeiro a observar a Lua com um telescópio mostrando montes e vales que ninguém tinha visto antes. A Lua é, afinal, montanhosa como a Terra. Mas, à medida que a ópera se foi desenvolvendo, houve curiosas intersecções com a ciência. Num livro recente, Poções e Paixões - Química e Ópera, o meu colega João Paulo André fala do papel da química num sem número de óperas. O amor é um tema recorrente em óperas e, para favorecer ou fenecer a química do amor, existem várias poções, desde a que aparece no Elixir do Amor, de Donizetti, que é uma bebida preparada por um impostor simpático, até ao veneno de Romeu e Julieta, de Gounod.

Perante vós está a Orquestra Clássica do Centro, a qual, sob a notável batuta de Emília Cabral Martins, tem protagonizado a grande música em Coimbra. O seu maestro hoje é José Eduardo Gomes. Natural de Vila Nova de Famalicão, onde iniciou a sua formação musical, prosseguiu os seus estudos no Norte do país. Estudou direcção de orquestra na Haute École de Musique de Genève (Suíça). Como clarinetista, foi fundador de grupos de câmara e laureado em vários concursos. É maestro da Orquestra Clássica da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e professor na Escola Superior de Música e das Artes do Espetáculo do Porto, onde tem trabalhado com várias outras orquestras. Já foi maestro da Orquestra Clássica do Centro, da Orquestra Clássica do Sul, do coro do Círculo Portuense de Ópera e da Orchestre de Chambre de Carouge, na Suíça. Foi recentemente laureado com o 1º prémio e o prémio Beethoven no concurso de direção de orquestra da União Europeia

A soprano Lara Martins é natural de Coimbra, mas tem fortes ligações a Tomar (Condeixa está entre uma e outra terra!). Tinha seis anos quando o pai, um grande amante de música, lhe contou a história de La Traviata através das imagens que estavam impressas na capa do disco de vinil. A ópera fazia parte do quotidiano da família mas só mais tarde, quando já estava no Conservatório, é que ela decidiu ser cantora. Como bolseira da Fundação Gulbenkian, formou-se na Guildhall School of Music and Drama em Londres, onde terminou o curso superior de canto, com a nota mais alta (Lara Martins é capaz das notas mais altas…) Muito ecléctica, brilhou em Londres no musical dos musicais, O Fantasma da Ópera.

O tenor Paulo Ferreira, natural de Santa Maria da Feira, é o tenor português com maior notoriedade internacional. Foi bolseiro da Fundação Gulbenkian, estudou piano, violoncelo e canto na academia de música da sua terra e concluiu o curso de canto da ESMAE, no Porto. Aperfeiçoou-se em Itália, tendo estudado com grandes nomes. Em 2011 estreou-se na grande sala de concertos da Philharmonie de Colónia, ao lado de Anna Netrebko. Paulo Ferreira tem-se apresentado por toda a Europa, em palcos como os de Bilbau, Cardiff, Nápoles, Hanôver, Bayreuth e Basileia, como protagonista masculino em grandes óperas. Estreou-se há dois anos na Filarmónica de Berlim como tenor solista do Requiem de Verdi.

Passo a apresentar e comentar as quatro primeiras composições desta Serenata.

1-Abertura do Barbeiro de Sevilha, de Gioachino Rossini. Instrumental.

A abertura é de uma ópera bufa do italiano Gioachino Rossini (1792 - 1838), que foi um fracasso na sua estreia em 1816 em Roma, mas que depois conheceu um retumbante êxito. O argumento do escritor francês Beaumarchais começa com uma serenata do conde Almaviva a Rosina, uma jovem tutorada por um médico, o Dr. Bartolo, que também a quer. Há uma curiosa ligação do 2.º acto à meteorologia, que hoje não nos favorece, quando a orquestra faz a descrição musical de uma tempestade, com trovoada. O interesse pela electricidade era enorme na época romântica…

2- “Ah tardai troppo”, de Linda di Chamounix, de Daetano Donizetti. Soprano.

Linda di Chamounix é um melodrama operático de Daetano Donizetti (1797 - 1848), o famoso compositor contemporâneo de Rossini que nasceu em Bérgamo, no norte de Itália, que foi há meses o centro da COVID-19, e morreu na mesma cidade, de neurosífilis, após ter escrito 75 óperas.  A sua última ópera tem a ver com Portugal: D. Sebastião.  A ópera Linda di Chamounix estreou em 1842 em Viena. “Ah tardai troppo”, “Ó cheguei tarde”, é um recitativo do 1.º acto, que conta o enamoramento de Linda por Carlo, um artista pobre:  "Cheguei tarde ao nosso/ local preferido e não encontrei/ o meu querido Carlo./ Ninguém sabe/ o que ele terá sofrido.” No 2.º acto, Linda ficará demente devido aos seus problemas amorosos. As cenas de loucura eram muito do gosto do público do século XIX, quando a psiquiatria ainda era incipiente.

3- Prelúdio do 1.º acto de La Traviata, de Giuseppe Verdi. Instrumental.

Esta ópera do genial Giuseppe Verdi (1813 - 1901), em três actos, estreada em 1853 em Veneza, baseia-se no romance Dama das Camélias, de Alexandre Dumas. La Traviata, a mulher caída, é Violeta, que se apaixona sem revelar que está gravemente enferma. No final, Violeta morre, vítima de tuberculose, nos braços do seu amado, Alfredo. É uma doença que dizimou muita gente no século XIX, incluindo numerosos artistas (entre nós Júlio Dinis, António Nobre, Cesário Verde, etc.). Mas isso é só no fim da ópera, vamos ouvir o prelúdio. Só uma nota sobre a morte do próprio Verdi, de derrame cerebral: as suas exéquias foram impressionantes, com mais de 200.000 pessoas a cantar “Va Pensiero”, uma área de Nabucco, tocada por uma grande orquestra dirigida por Toscanini.

4- “Lunge da Lei” de La Traviata, de Giuseppe Verdi. Tenor.

A área seguinte é também de La Traviata. Alfredo, no 2.º acto, repleto de felicidade por estar junto da sua amada, ilustra bem o seu enamoramento na ária «Lunge da Lei», “Longe dela”, onde confessa que esqueceu o mundo e quase mora no céu. A letra diz: “Três luas já voaram/ desde que a minha Violeta/ me deixou… Aqui ao lado dela sinto-me renascido”. Na química amorosa, para além das hormonas sexuais existem as substâncias do amor romântico, que desempenham um papel essencial no processo da paixão. Uma molécula importante é a serotonina, que está associada à primeira fase do amor romântico, em particular à tendência para fantasiar revelada nesta ária.

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2.ª Intervenção

Passo a comentar as quatro composições que vamos ouvir em seguida:

5- Intermezzo de Cavalleria Rusticana, de Pietro Mascagni. Instrumental.

Cavalleria Rusticana (em português “Cavalheirismo, ou nobreza, rústica”) é uma ópera num só acto do italiano Pietro Mascagni (1863 - 1945), com libreto extraído de uma novela de Giovanni Verga, que foi estreada em 1890 em Roma. Mascagni, um adepto de Mussolini, morreu pobre logo após a libertação da Itália, há 75 anos. Apesar de estar pouca gente nessa estreia tornou-se um sucesso imediato. Dividida em duas partes, separadas pelo intermezzo que vamos escutar, a Cavalleria Rusticana é uma das primeiras composições do realismo operático italiano. Trata-se de uma história de amor, ciúme e morte que termina num duelo. Esta composição tem sido usada como banda sonora de séries e filmes. Uma nota curiosa: O êxito de Mascagni deve-se à sua esposa, que enviou a ópera sem ele saber para um concurso musical, no qual obteve o primeiro lugar. Arrás de um grande homem…

6- “O Mio Babbino Caro” de Gianni Schichi, de Giacomo Puccini. Soprano.

Regressa a nossa soprano para cantar a ária “O Mio Babbino Caro”, “Ó meu paizinho querido”, imortalizada pela voz de Maria Callas, que pertence a uma ópera cómica num só acto do italiano Giacomo Puccini (1858 – 1924) – Puccini não podia faltar neste espectáculo! – baseada numa história relatada na Divina Comédia de Dante e estreada em 1918, por altura da gripe espanhola, em Nova Iorque. Esta obra imortal de Dante apresenta o modelo cosmológico de Ptolomeu, no qual se situam o Paraíso e o Inferno, o Paraíso no alto do céu e o Inferno no interior da Terra. Schichi, um inimigo de Dante, é colocado por este no Inferno. Na área que vamos ouvir Lauretta, que está loucamente apaixonada por Rinuccio, tenta amolecer o coração do pai, que resiste a aprovar o namoro: ''Oh meu paizinho querido./ Eu amo-o, ele é tão belo./ Quero ir à Porta Rossa/ para comprar o  anel!” Puccini tem uma interessante relação com a física: sofrendo de um cancro da garganta foi das primeiras pessoas a ser sujeita a radioterapia. Infelizmente, não resistiu à doença.

7-  “E Lucevan le stelle” de Tosca, de Giacomo Puccini, Tenor.

De novo o grande Puccini, num ária cantada pelo nosso tenor. A Tosca, uma ópera trágica em três actos estreou em Roma em 1900, ano em que surgiu a teoria quântica, que hoje nos explica os átomos e as estrelas. O título usa o nome de uma prima dona que é a personagem principal numa história de amor. Na época da estreia, a atmosfera política na Itália era tensa, com muita agitação socialista e anarquista. A rainha e o primeiro-ministro assistiriam à estreia, e temia-se que o teatro fosse alvo de um ataque terrorista, mas tal não ocorreu. Porém, seis meses mais tarde, o rei italiano era assassinado por um militante anarquista. Tudo isto se passou oito anos antes do regicídio em Lisboa de D. Carlos. Esta ária do 3.º acto ilustra bem o enamoramento sob o céu estrelado. Mário, o amado de Tosca, canta: “E luziam as estrelas/ E o solo exarava um aroma./ Rangeu a porta do jardim./ E um passo leve sobre a areia./ Ela entrou com o seu perfume,/ E caiu-me nos braços./ Ó doces beijos, o suaves carícias/ Enquanto eu, trémulo,/ as belas formas livrava dos véus,/ esvaneceu-se para sempre/ o meu sonho.”

8- “O Soave Fanciulla” de La Bohème, de Giacomo Puccini. Dueto.

Ainda Puccini, três vezes Puccini portanto, agora com a soprano e o tenor em palco. "O soave fanciulla" (“Oh doce menina”) é um dueto romântico da famosa ópera estreada em 1896, ano da descoberta da radioactividade. É cantada a fechar o 1.º acto por Rodolfo e Mimì. Os dos apaixonam-se mal se vêem pela primeira vez, o que hoje os neurocientistas explicam através de uma substância química, a β‑feniletilamina, que actua como como neurotransmissor cerebral. A letra diz: “Ó doce menina,/ ó doce rosto/ banhado no suave luar,/ em ti eu vejo/ o sonho com que sempre sonhei!”. 

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3.ª Intervenção

Passo a comentar as três penúltimas peças desta Serenata.

9- Abertura de Cavalaria Ligeira, de Franz von Suppé. Instrumental.

Vamos escutar uma peça instrumental: a abertura muito conhecida da opereta Cavalaria Ligeira, do croata Franz von Suppé (1819 - 1895), que estreou em Viena em 1866. Embora esta opereta só raramente seja executada ou gravada, a sua abertura é uma das composições mais populares do compositor, tendo ganho vida própria. Muitas orquestras têm a peça no seu reportório e o seu tema principal foi citado inúmeras vezes no cinema, incluindo desenhos animados. É um tema de sabor militar, com o solo de trompete, a jeito de fanfarra, a chamar os outros instrumentos.

10- “Meine Lippen sie küssen so heiß,” de Giuditta, de Franz Lehár. Soprano.

Vamos agora ouvir uma ária para soprano de uma comédia musical em cinco cenas do compositor austro-húngaro) Franz Lehar (1870 - 1948), que foi o  seu último trabalho. Surge quase no final, no 3.º acto: “Os meus lábios beijam ardentemente” canta Giuditta, a heroína da peça com o mesmo título estreada em 1934. Giuditta abandona o seu marido e foge com Octavio, um oficial do exército, para o Norte da África. Devido à sua profissão, Octavio deixa a sua amada, que se torna uma dançarina de um clube nocturno. Vem a descobri-la após ter deixado a sua unidade. Giuditta alcança sucesso na sua nova profissão, mas a auto-estima de Octavio fica arrasada. Ela canta: “Os meus lábios beijam tão ardentemente./ Os meus braços são tão macios e brancos./ Nas estrelas está escrito:/ Deves-me beijar, deves-me amar!” Isto claro não é astronomia, mas sim astrologia. Dá muito jeito para namoros…

11- “Lippen schweigen”, de Viúva Alegre, de Franz Lehár. Dueto.

De novo os lábios e de novo uma obra de Léhar, num actuação em dueto. Há pouco os lábios estavam abertos, agora estão fechados.  “Lippen schweigen”, “Fechar os lábios” é uma ária do final do 3.º acto da Viúva Alegre, uma divertida opereta em três actos, na comédia francesa. Estreada em 1905, o ano da teoria da relatividade de Einstein, em Viena, a peça pertence à época dourada da opereta. No enredo, várias pessoas tentam casar uma viúva rica para captar o seu património. Diz a canção, do 3.º acto, que lembra uma valsa: “Embora os lábios estejam fechados, os violinos sussurram:/ Cuida de mim!/ Todos os nossos passos de dança me dizem:/ Cuida de mim!/ Os nossos dedos apertados parecem tão certos para mim/ dizendo-me claramente: É verdade,/ tu queres saber de mim!”

----------------------------------------------------------------------------------------------------4.ª Intervenção

Aproximamo-nos do final. E terminamos em grande beleza.

 

12- “O sole mio”, de Eduardo di Capua. Tenor.

De noite reinam a Lua e as estrelas. Mas de dia reina o Sol, do qual depende toda a vida na Terra. “O meu Sol” é uma célebre canção napolitana, composta em 1891 pelo napolitano Eduardo di Capua (1865 - 1917), que Luciano Pavarotti, entre outros grandes nomes, tão bem cantava. A letra diz: “Que bela coisa uma jornada de sol, /um ar sereno depois de uma tempestade./ Pelo ar fresco parece já uma festa./ Que bela coisa uma jornada de sol./ Mas um outro sol/ mais belo não há/ O meu sol,/ está na tua fronte.../ O sol, o meu sol,/ está na tua fronte.”

13- “Brindisi” de La Traviata, de Giuseppe Verdi. Dueto.

Vamos ouvir o terceiro e último excerto de La Traviata, de Verdi, neste espectáculo, com o regresso do dueto, Lara Martins e Paulo Ferreira. O “Brindisi” ou "Libiamo ne' lieti calici", um dueto que na ópera é acompanhado por um coro, é uma das mais célebres melodias da história da ópera. Surge no 1.º acto de La Traviata, cantada por Violeta e Alfredo, durante uma festa em casa de Violeta. Um “brindisi” (que significa “saúde,” a palavra de um brinde) é uma canção de bebida em grupo. O álcool, quimicamente C2H6O, modifica o espírito, neste como em vários outros brindes operáticos. Alfredo canta: “Bebamos, bebamos deste cálice de alegria./ Isto reforça a beleza/ Que no fugaz instante/ prevaleça a volúpia./ Bebamos àquele doce êxtase/ que o amor desperta./ O olhar penetrante/ Aponta directamente ao coração./ Bebamos ao amor, e as nossas bebidas/ tornarão os nossos beijos mais ardentes.” Também aqui, neste grande final, a música nos vai animar a todos. Não há álcool, mas ergamos simbolicamente a nossa taça a esta orquestra, a este maestro e a estes dois extraordinários solistas. Muito obrigado pela vossa inspirada serenata de hoje!

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Intervenção final

Encore - “Blue Moon”,  de Richard Rodgers (1902-1979) e Lorenz Hart (1895-1943). Dueto.

O encore, um tema de música americana fora do universo da ópera, fala da Lua Azul. Escrita em 1934, “Blue Moon” é uma canção clássica do século XX. Foi cantada por grandes artistas como Billie Holiday, Elvis Presley, Bob Dylan e Cliff Richard. Na cultura popular, a canção já apareceu em filmes musicais como Grease e Blue Moon. É o hino do Manchester City, onde está o português Bernardo Silva. A Lua Azul é um acontecimento astronómico relativamente raro: chama-se assim a segunda lua cheia que acontece num mês. Fiquem atentos: a próxima “Blue Moon” será no próximo dia 31 de Outubro, dias antes da eleição americana. Boa Lua Azul em Outubro! Foi um prazer a Vossa companhia. E muito boa noite para todos.