quarta-feira, 22 de março de 2017

PORQUE NOS HAVEMOS DE IMPORTAR COM A CIÊNCIA



No próximo dia 28 de Março, terça-feira, pelas 18h00, realiza-se no Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra a palestra intitulada "Porque nos havemos de importar com a ciência". A palestrante será Joana Lobo Antunes, destacada comunicadora de ciência e Investigadora do Instituto de Tecnologia Química e Biológica - António Xavier.

RESUMO DA PALESTRA:
"A ciência e tecnologia são das principais forças motrizes de uma economia
moderna, são inúmeros os exemplos que nos rodeiam e que demonstram constantemente o quanto a nossa vida mudou graças ao conhecimento e à sua aplicação. Aumento da esperança média de vida, aumento da qualidade de vida, maiores níveis de conforto, maior interacção entre pessoas distantes, melhores acessos.
É fácil compreender o impacto daquilo que chega à sociedade em forma de produtos
e serviços, no entanto a Ciência que está a ser produzida neste momento nos institutos de investigação e universidades demorará muito tempo a ser compreendida na sua plenitude. Ao mesmo tempo, é essa ciência complexa, nova e inovadora que temos de conseguir fazer chegar às pessoas, para que por um lado saibam o que é produzido pelo investimento do dinheiro dos seus impostos e por outro continuemos a alimentar a cultura científica da população, e o prazer intelectual em compreender o conhecimento gerado com quem o faz.
O principal desafio para os comunicadores de ciência hoje em dia é conseguir
traduzir este conhecimento, de forma tão estimulante quanto a paixão e empenho que os investigadores depositam nele. Para que as pessoas se importem de vez com a Ciência."

Esta palestra insere-se no ciclo "Ciência às Seis" coordenado por António Piedade.

ENTRADA LIVRE
Público-alvo: Público em Geral
Link para o evento no facebook

segunda-feira, 20 de março de 2017

Os Jesuítas e a ciência


Meu artigo na última Gazeta de Física:

Os jesuítas, que protagonizaram, nos séculos XVI e XVII, o primeiro processo de globalização, sempre se destacaram na educação e na ciência. O padre alemão Cristophorus Clavius foi aluno do Colégio das Artes, anexo à Universidade de Coimbra, antes de se tornar o maior astrónomo da época entre Copérnico e Galileu. Entre outras obras, deixou-nos uma tradução latina profusamente comentasda de “Os Elementos” de Euclides. O padre italiano Matteo Ricci, um discípulo de Clavius que estudou português em Coimbra antes de partir para a China, onde  se notabilizou como grande transmissor da ciência moderna: foi ele que traduziu para mandarim não só “Os Elementos” mas também algumas obras matemáticas de Clavius.  O padre português João Rodrigues escreveu do Oriente aos seus superiores em Roma: “Mandem-nos livros de matemática em grande quantidade.” E o padre português Cristóvão Ferreira, que é uma das figuras historicamente verídicas do mais recente filme de Martin Scorsese “Silêncio”, que descreve a sanguinária perseguição aos cristãos no Japão no século XVII, tinha bons conhecimentos científicos, tendo escrito após a sua apostasia tratados de astronomia e de medicina que descrevem a ciência ocidental.

Começa hoje a haver a percepção nítida da grave perda que adveio para a  educação e a ciência nacionais da expulsão dos jesuítas pelo Marquês de Pombal em 1759 e o fim da vasta rede de colégios na metrópole e no ultramar. Mas, nos esforços de restauração da Ordem  entre nós empreendidos pelo padre Carlos João Rademaker, a fundação dos colégios de Campolide de São Fiel, respectivamente em Lisboa (1858) e em Louriçal do Campo, Castelo Branco (1863), representou um forte reinvestimento na educação e na ciência, como bem lembra neste número da “Gazeta de Física” Francisco Romeiras.  O ensino experimental da física foi aí praticado graças à criação de laboratórios, observatórios (um astronómico em Campolide e outro meteorológico em São Fiel) e academias, para já não falar da realização expedições astronómicas a território espanhol para observação de eclipses solares. O único Prémio Nobel português em ciências, António Egas Moniz, estudou em São Fiel.
O nome de um físico do final do século XIX e início do século XX que merece ser mais conhecido é o do padre António Oliveira Pinto, que organizou o Instituto de Ciências Naturais do Colégio de Campolide e a secção de Ciências da academia desse Colégio. Discípulo de Madame Curie, foi um dos pioneiros em Portugal dos estudos da radioactividade, ao investigar a radioactividade das águas minerais. Uma curiosíssima fotografia do arquivo da Companhia de Jesus publicada no artigo de Contreiras mostra um grupo de estudantes jesuítas  que parecem tocar instrumentos de Física como se fossem instrumentos de música, uma “orquestra de física”, portanto, no Colégio de São Francisco, em Setúbal, no ano lectivo de 1892-1893.  Um dos noviços, o do telescópio, é precisamente Oliveira Pinto.


O interesse dos jesuítas pela astronomia continua nos dias de hoje. O Observatório  do Vaticano, um dos mais antigos do mundo pois foi fundado em 1572 pelo papa Gregório XIII (que instaurou o calendário gregoriano, preparado por Clavius e ainda em vigor), é actualmente dirigido por um jesuíta, o americano Guy Consolmagno. Consolmagno, o autor de “A Mecânica de Deus” (Europa-América, 2009), recebeu em 2014 a medalha Carl Sagan, da Sociedade Astronómica Americana, pelas suas extraordinárias actividades de comunicação  ao público em geral das ciências planetárias. Quer dizer, os jesuítas, tal como noutros tempos, continuam não só a praticar a ciência como a espalhar cultura científica.

"Parnasianismo pedagógico", que não é uma coisa nem outra

Com o argumento de que, com a entrada no século XXI, o mundo mudou radicalmente, muitos políticos, empresários, académicos, educadores/professores, parceiros educativos (não sei se por esta ordem) insistem na ideia de que os sistemas educativos têm de mudar, a escola tem de mudar, a sala de aula tem de mudar, os currículos têm de mudar, os recursos têm de mudar...

Aliam este argumento a outro igualmente falacioso: que as crianças e os jovens não são os mesmos dos século XX, são diferentes e, portanto, o ensino tem de mudar, a aprendizagem tem de mudar.

Essas mudanças são invariavelmente apresentadas como um dado adquirido, uma evidência, uma certeza suprema, uma inevitabilidade. Há, pois, que aceitá-las e sem questionar o que, de facto, se passa - se é que se passa alguma coisa - rumando num sentido - o problema é perceber exactamente qual é o sentido.

Mais: é preciso cumprir essas mudanças já; com toda a urgência. Não depois, mas agora, neste momento, na medida em que o seu ritmo é acelerado, é progressivamente mais acelerado, é alucinante.

Não exagerei um milímetro nesta descrição, usei (algumas das) palavras que, por dever de ofício, todos os dias tenho de ler, sou obrigada a ler, palavras que me deixam muito cansada; sendo mais sincera, direi que me deixam estafada!

Até porque são palavras que se associam a outras, que, pelo modo como são (mal) empregadas, se tornaram igualmente esgotantes: aprendizagem significativa, ensino activo, sociedade da informação, competências sociais, mercado de trabalho, emoções, afectos, literacia, criatividade, crítica, valores, cidadania, projecto, colaboração, capacidades, aptidões, educação integral, globalização, etc, etc. etc...

Combinam-se estas palavras de múltiplas maneiras, até à exaustão, não importando a ordem pela qual isso acontece.

Isto porque não interessa a sua origem e o seu sentido concreto, estão na rua e cada um usa-as como bem entende. Além disso, ninguém está empenhado em testar a (falta) de compreensão que o seu alinhamento possa revelar.

São palavras que soam bem a muitos ouvidos e isso basta para que muitas mãos componham algo que se pareça com frases, parágrafos, textos... 

É uma espécie de "parnasianismo pedagógico", sem desmérito nem para o "parnasianismo", nem para a "pedagogia", que nada têm a ver com o fenómeno.

O que resulta é um discurso falacioso, que, pelos equívocos em que faz incorrer, impede qualquer entendimento entre as pessoas que se deveriam entender sobre o que é absolutamente crucial: a educação dos mais jovens, aqueles que estão na escola e que a escola tem o dever de ensinar.

Ainda que tal entendimento não seja conseguido, nas entrelinhas do discurso, quase de modo subliminar, passam ideias em tudo contrárias ao cumprimento desse dever.

Trata-se de um fenómeno antigo e sem fronteiras, reconheço, mas que tem ganho nos últimos meses, em Portugal, uma expressão revigorada, impondo-se despudoradamente e resistindo a qualquer tentativa de racionalidade


Este texto tem continuação

ESCÂNDALO NO MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO

O Correio da Manhã de domingo revela que uma adjunta do Secretário de Estado da Educação João Costa preparou um documento de elogio ao secretário de Estado e ao ministro que foi assinado por algumas associações de professores. Parece que a referida adjunta acumula com a direcção da Associação de Professores de Geografia, o que mostra a falta de independência, para não dizer mesmo promiscuidade, de algumas associações de professores em relação ao actual governo. Vamos ver quanto tempo permanecerá no lugar. Ver anúncio aqui e ler no jornal. Paulo Guinote comenta aqui.

O UNIVERSO QUE NOS VIU NASCER

Publico o início do meu artigo que acaba de sair na revista THEOLOGICA, 2.ª série, 51, 1 (2016), que corresponde a uma palestra que fiz em 2016 na Faculdade de Filosofia da Universidade Católica em Braga.

RESUMO

Partindo das “últimas notícias” sobre o Universo – o anúncio em 2016 da primeira detecção de ondas gravitacionais. Descrevem-se as ondas e os objectos que lhes dão origem: os buracos negros. Tanto as ondas gravitacionais como os buracos negros foram previstas há um século no quadro da teoria da relatividade geral de Einstein. Também a teoria do Big Bang – que é, de certo modo, um enorme “buraco branco” – emergiu no mesmo quadro. Como houve um movimento de considerar que a teoria do Big Bang vinha legitimar científica o relato da Criação do Génesis, sumaria-se a evolução das relações da ciência com a religião,tyendo como base as posições sobre esse assunto dos grandes astrónomos e cosmólogos como Galileu, Newton, Einstein, Lemâitre, Hubble e Hawking. Discutem-se, em particular, as posições de Lemaître (que, sendo físico e padre católico, defendeu a separação entre ciência e religião), Einstein (autor de uma muito especial “religião cósmica”)  e Hawking (um cientista ateu, que fala de Deus nos seus livros). A conclusão é, na linha do que afirmou Lemaître, que ciência e religião são independentes, mas compatíveis.

PALAVRAS-CHAVE

Universo, Ondas gravitacionais, Big Bang, Ciência, Religião

“Fascinante e tremendo: o Universo que nos viu nascer” foi o título que o núcleo de Braga da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa me propôs para uma conferência sobre a cosmologia actual na Semana de Estudos Teológicos realizada em Fevereiro de 2016. O nosso Universo é, de facto, fascinante, isto é,  tem cativado a atenção dos seres humanos desde que eles existem na Terra, e, em resultado das suas continuadas e cuidadas observações, modernamente servidas por poderosos meios tecnológicos, a conclusão é que o Universo onde vivemos é tremendo, isto é, enorme e extraordinário. Não sabemos o tamanho do Universo (provavelmente é infinito), mas, na imensidão do espaço vazio, verificámos que ele é um cenário de permanente transformação: vemos estrelas que nascem, vivem e morrem, sempre em movimento, agrupadas em galáxias, também elas em rodopio incessante. O terceiro planeta a orbitar uma estrela média numa galáxia média, entre muitas outras, visto um pouco ao longe (ainda dentro do sistema solar) não passa de um “ponto azul-claro”, conforme lhe chamou o astrofísico americano Carl Sagan [[1]]. Observado mais ao longe, nem sequer se vê. Inspirado numa foto do sistema solar tirada nos confins desse sistema, a 6,4 mil milhões de quilómetros da Terra, pela sonda Voyager 1 a 14 de Fevereiro de 1990, na qual a Terra aparecia como um minúsculo ponto azulado, Sagan comentou numa conferência que realizou na sua Universidade de Cornell em 1994 [[2]]:

Conseguimos tirar essa fotografia e, se a a olharem, vêem um ponto. É aqui. É a nossa casa. Somos nós. Nele viveram todas as pessoas de que ouviu falar, todas as pessoas que jamais existiram. O conjunto da nossa alegria e nosso sofrimento, milhares de religiões, ideologias e doutrinas económicas confiantes, cada caçador e colector, cada herói e covarde, cada criador e destruidor de civilizações, cada rei e camponês, cada jovem casal de namorados, cada mãe e pai, cada criança cheia de esperança, cada inventor e explorador, cada professor de moral, cada político corrupto, cada "superestrela", cada "líder supremo", cada santo e cada pecador na história da nossa espécie viveram ali - num grão de pó suspenso num raio de sol.
A Terra é um cenário muito pequeno numa vasta arena cósmica. Pense nos rios de sangue derramados por todos aqueles generais e imperadores, para que, na sua glória e triunfo, pudessem ser senhores momentâneos de uma fração de um ponto. Pense nas crueldades sem fim infligidas pelos moradores de um canto deste pixel aos praticamente indistinguíveis moradores de algum outro canto. Quão frequentes os seus desentendimentos, quão ávidos de matar uns aos outros, quão veementes os seus ódios. As nossas posturas, a nossa suposta autoimportância, a ilusão de termos qualquer posição de privilégio no Universo, são desafiadas por este pontinho de luz pálida.
O nosso planeta é um grão solitário na imensa escuridão cósmica que nos cerca. Na nossa obscuridade, em toda esta vastidão, não há indícios de que vá chegar ajuda de outro lugar para nos salvar de nós próprios.”

Não foi o caso de Sagan, que era ateu, mas o fascínio do Universo não raro leva a uma resposta religiosa a respeito da existência do Universo e do homem. O filósofo e cientista francês Blaise Pascal­ escreveu nos seus Pensées [[3]]:­­­­

“Ante a cegueira e a miséria do homem, diante do universo mudo, do homem sem luz, abandonado a si mesmo e como que perdido nesse rincão do universo, sem consciência de quem o colocou aí, nem do que veio fazer, nem do que lhe acontecerá depois da morte, ante o homem incapaz de qualquer conhecimento, invade-me o terror e sinto-me como alguém que levassem, durante o sono, para uma ilha deserta, e espantosa, e aí despertasse ignorante de seu paradeiro e impossibilitado de evadir-se. E maravilho-me de que não se desespere alguém ante tão miserável estado. Vejo outras pessoas ao meu lado, aparentemente iguais; pergunto-lhes se se acham mais instruídas que eu, e me respondem pela negativa; no entanto, esses miseráveis extraviados se apegam aos prazeres que encontram em torno de si. Quanto a mim, não consigo afeiçoar-me a tais objetos e, considerando que no que vejo há mais aparência do que outra coisa, procuro descobrir se Deus não deixou algum sinal próprio.
O silêncio eterno desses espaços infinitos me apavora. Quantos reinos nos ignoram!”

Mais modernamente, no século XX, um outro filósofo e cientista, o padre jesuíta francês Teilhard de Chardin, escreveu em L’Apparition de l’Homme [[4]]: “Na escala do cosmos só o fantástico tem condição de ser verdadeiro.”

Neste texto, baseado naquela conferência, começo por apresentar algumas das últimas notícias vindas do cosmos – a detecção de ondas gravitacionais emitidas pela colisão de dois buracos negros, que ilustra precisamenty a afirmação de Teilhard de Chardin – para depois expor resumidamente a actual visão científica da criação do mundo, que assenta principalmente nos trabalhos do físico suíço e norte-americano Albert Einstein, do astrofísico e padre belga George Lemaître e do astrónomo norte-americano Edwin Hubble. Comentarei no fim as relações da ciência física com a teologia, partindo das visões e vivências religiosas dessas grandes figuras. Para uma discussão mais alargada sobre ciência e religião, no contexto da cosmologia, remeto para outros escritos, de autores de referência [[5]] , ou meus. [[6]].


(...)


[1] Carl Sagan, O Ponto Azul-Claro. Uma visão do futuro do homem no espaço, Lisboa: Gradiva,  1995.

[3] Fragmento 72 do livro “Pensamentos” de Blaise Pascal. Extraído do volume Pensadores Franceses”da coleção Clássicos Jackson, vol. XII. Rio de Janeiro, S. Paulo e Porto Alegre: W.M. Jackson, 1952. Tradução de J. Brito Broca e Wilson Lousada. Disponível em http://revistacarbono.com/artigos/01o-homem-perante-a-natureza/

[4] Teilhard de Chardin: L’Apparition de l’Homme, Paris, Editions du Seuil, p. 234. Tradução minha.

[5] Enciclopédia Interdisciplinar de Ciência e Fé. Cultura Científica. Filosofia e Teologia, vol. I Agno-Wepis, Lisboa: Verbo, 2008  (Manuel da Costa Freitas, coord.). Ver, em particular, os artigos “Cosmologia”, de William R. Stoger, pp. 386-401, “Cosmos, Observação do”, de F. Duccio Machetto, pp. 401-411,  e  “Criação”, de Giuseppe Tanzela-Nitti, pp. 411-432;  The Cambridge Companion to Science and Religion, Peter Harrison (ed.). Cambridge: Cambridge University Press, 2019; e Hans Kueng, O Princípio de Todas as Coisas, Ciência e Religião,  Lisboa: Edições 70, 2011.

[6] “Ciência e Religião” (debate com o bispo do Porto, D. Manuel Clemente, na Reitoria da Universidade do Porto em 2009) http://dererummundi.blogspot.pt/2010/02/ciencia-e-religiao.html ; Carlos Fiolhais, “Em Busca de Sentido: Ciência e Religião”, in  Secretariado Diocesano da Evangelização e Catequese. Em busca de Sentido: Ateísmo e Crença na Construção da Pessoa que Ama,  Gráfica de Coimbra 2, 2011, pp. 45-61; C. Fiolhais, prefácio a Bruno Nobre e Pedro Lind, Dois dedos de conversa sobre o dentro das coisas, Braga: Frente e Verso, pp. 15-21; Carlos Fiolhais, “A ciência e o divino”, in Deus ainda tem futuro?, Anselmo Borges (coord.), Lisboa: Gradiva, 2014, pp. 53-70.


Meus livros

Actualizei a lista dos meus livros. Está aqui com links para as fichas no catálogo das bibliotecas da Universidade de Coimbra. Totais:
       
       Teses: 2
       Manuais escolares: 30
       Divulgação, história  e política da ciência: 21
              
       Capítulos de livros: 47
       Prefácios: 32

       Traduções: 8

O AVÔ E OS NETOS FALAM DE GEOLOGIA


O meu próximo livro, da Âncora Editora, com ilustrações de Francisco Bilou, estará disponível a partir de 1 de Junho, Dia da Criança, na Feira do Livro de Lisboa. 


Embora o título sugira uma obra destinada a juvenis, "O AVÔ E OS NETOS FALAM DE GEOLOGIA", escrito em estilo de diálogo, foi concebido a pensar nos Professores que ensinam Geologia nas nossas Escolas, nos seus alunos e, ainda, na generalidade dos leitores interessados em descobrir a maravilhosa história do nosso Planeta.

Esta realização nasceu da experiência que mantive e continuo a manter, proferindo lições por todo o país e em todos os níveis, do Básico ao Secundário e, até, nos Jardins-Escolas.

Sem perda de rigor científico, criei e aprendi a usar o discurso pedagógico mais adequado a cada um destes níveis. E é esse discurso que coloco aqui à disposição dos leitores.

É minha convicção e sempre o afirmei, falando ou escrevendo, que o professor tem de saber muito mais do que o estampado, tantas vezes acriticmente, no "livro adoptado". Tem de ter um complemento cultural sobre as matérias do programa oficial.

Isto para dizer que neste livro, a pensar nos professores, há muita informação que extravasa o dito programa, além de que revela maneiras praticas de expor determinadas matérias que a experiência me ensinou.

Como apoio destas conversas, o docente pode contar e deve contar com o manancial de belíssimas imagens fixas em livros e na net e em vídeos da National Geographic e no Youtube

Introdução
Naquele Verão, era quase sempre com o Sol a descer para lá do Oceano, que o avô falava das muitas coisas que haviam preenchido o seu mundo como geólogo e professor de geologia. Sob o alpendre coberto de hera, no pequeno terraço anexo à casa, uma grande mesa com tampo de ardósia, onde se podia escrever com giz, e algumas cadeiras eram o centro preferido para estas conversas com os três netos.
Liberta a mesa de tudo o que servira o jantar, o Domingos e os gémeos Francisca e Mateus, rodeando o avô, tinham nos olhos o brilho da curiosidade. Mais velho, o Domingos, terminara o 7.º ano de escolaridade. O Mateus e a Francisca tinham concluído o 6.º.
O tempo de férias era agora todo deles, com praia pela manhã, jogos e leituras, dentro de casa, nas horas mais quentes da tarde e aquele apetecido convívio ao fim do dia, que os conduzia a maravilhosas viagens e aventuras. Embalados nas palavras do avô, “caminhavam” sobre rochedos em altas montanhas, “corriam” no solo fofo das estepes e pradarias, “pisavam” o chão áspero e duro dos vales secos e gélidos da Antárctida, “respiravam” a humidade quente e perfumada da floresta amazónica, “mergulhavam” nas profundezas do oceano e “nadavam” nas águas tropicais, límpidas e mornas, por entre corais e peixinhos de todas as cores.
Ouvindo as histórias que o avô contava, “subiam” ao topo de vulcões jorrando lavas incandescentes ou projectando nuvens imensas de cinza, “escorregavam” nas dunas escaldantes no deserto do Sahara ou “percorriam” grutas repletas de cristais e imaginavam-se entre dinossáurios e muitos outros animais desaparecidos. Encorajado pelo interesse e pela atenção dos netos, o avô não parava de falar. Paisagens que percorrera, profundas minas a que descera, museus que visitara, grandes figuras que conhecera e episódios que vivera ou presenciara eram condimentados com ensinamentos nos domínios em que trabalhara e que, ao mesmo tempo, estivessem entre as matérias constantes dos programas escolares destes três elementos do seu pequeno e interessado auditório. E era tudo tão agradável e entusiasmante.
Ouvir o avô era como ver um filme ao lado de alguém que explicava e tornava fácil o que parecia difícil de entender. A cada passo, as novas palavras necessárias ao discurso iam sendo descodificadas, “traduzidas por miúdos”, como dizia o avô, ganhando significado. 
Como exemplo demonstrativo do estilo adoptado, mostra-se aqui dois dos 33 capítulos do livro .
É PRECISO DESCODIFICAR AS PALAVRAS 
A tarde estivera particularmente quente e foi ainda no final do jantar, servido na mesa do terraço, enquanto saboreava o gelado trazido do supermercado, que a Francisca perguntou ao avô qual seria o assunto da primeira das conversas prometidas, a terem lugar ali, à semelhança do que acontecera nas férias de verão do ano anterior. Seriam, certamente, mais uma daquelas lições, dadas num jeito de contar histórias, que dava gosto ouvir.
- Nas conversas que vamos ter este ano, - começou o avô - acho que vou começar com algumas reflexões sobre as palavras que irão ouvir, muitas delas novas e sem significado, se não forem convenientemente explicadas.
- Diga avô. Adiantou-se o Mateus.
- Vamos, então, começar pelo significado das palavras. Todos se acordo?
- Sim, avô. – Disseram, quase ao mesmo tempo, a Francisca e o Mateus.
- E eu também. – Disse, logo a seguir, o Domingos.
- Uma grande verdade que eu aprendi em quarenta anos de professor e muitos mais como divulgador de ciência a todos os níveis, é que «o discurso do professor tem de ser simples, sem perda de rigor, apelativo e, sempre que possível, agradável». Só assim o aluno ou quem o escuta ou lê tem gosto em aprender e aprende.
- É como faz o avô. A gente aprende logo. Quase que não precisa estudar. – Disse este neto.
- Todas as actividades, sejam elas quais forem, das mais simples às mais complicadas, precisam de palavras para dar nomes a todas as ferramentas ou utensílios de que se servem e a tudo o que nelas se faz ou produz. Por exemplo, os cozinheiros servem-se de facas, tachos e panelas, fritam, cozem e assam. Os alfaiates e as costureiras mexem em tesouras, agulhas, linhas e botões, fazem casacos e vestidos e falam de lã, algodão, seda e linho. Todos eles usam palavras que toda a gente conhece, mas também usam outras que nós nem pensamos que existem. Passa-se o mesmo com os médicos, os economistas, os juristas e todos os cientistas e técnicos dos mais variados ramos. Também eles falam de nomes do dia-a-dia de toda a gente, mas atiram-nos à cara muitos outros que só eles e muito poucos entendem. Em suma e simplificando, tudo o que se pensa ou faz e tudo em que se mexe tem um nome. Com a geologia é a mesma coisa. Além das palavras vulgares esta ciência que estuda a Terra criou as suas próprias palavras.
- É mesmo isso. – Interrompeu o neto mais velho. - Quando o avô ou a minha professora falam de coisas da geologia, aparecem sempre palavras novas.
- Os cientistas estão sempre a descobrir coisas novas e, assim têm de criar neologismos. Aqui têm os meus netos, uma palavra que vem mesmo a calhar. Neologismo é o nome que se dá a uma palavra criada de novo e que foi feita a partir dos elementos gregos, neo, que quer dizer novo, e logos, que significa estudo, conhecimento.
- Então, temos de aprender grego? – Perguntou o Mateus com ar de alguma preocupação.
- Não. Basta que saibam o significado dos termos que entram na composição dos vocábulos próprios das disciplinas que têm de estudar. Uns vêm do grego, outros do latim.
- Vocábulos, Avô? – Interrompeu, de novo, o Mateus.
- Aí tens tu uma palavra tirada do latim vocabulu que quer dizer nome de uma coisa. Mesa, copo, lápis, areia, piscina, mar e todos os nomes que conheces e não conheces são vocábulos. Entre os vocábulos usados em geologia, por exemplo, há palavras que toda a gente conhece, como montanha, rocha, areia, erosão, mina, vulcão, e palavras só usadas pelos profissionais, como turbitito, gliptogénese, anatexia, piroclasto, orógeno, hialoclastito e muitíssimas outras, em número de centenas. São nomes que, de momento, nada vos dizem e que, a seu tempo, poderão vir a conhecer.
- E são essas que vamos aprender? – Perguntou o Domingos.
- Por agora nem todas, mas, mais tarde, certamente que sim. - Continuou o avô. - Eu costumo dizer que são palavras “caras” que é preciso “trocar por miúdos”. No século XVIII, quando as ciências começaram a ganhar importância, estudar e criar conhecimento era uma actividade, praticamente, só exercida no seio do clero, por padres e monges, e também por alguns representantes da nobreza. O latim e o grego faziam parte das disciplinas habituais no ensino a que, nesse tempo, só estas classes tinham acesso. O povo, dizia-se, não precisava estudar. Bastava-lhe a força dos braços e a habilidade das mãos. Estava-se muito longe de o ensino ser obrigatório para toda a gente.
- A cabeça do povo era só para pôr o chapéu ou o barrete.
- Entrou na conversa a avó, atenta à conversa. – O clero e a nobreza sabiam muito bem que os seus privilégios assentavam na ignorância do povo.
- E fiquem a saber - acrescentou a mãe das crianças, atenta a esta conversa - que, mesmo depois e por muito tempo, estudar era uma actividade só acessível aos homens. As mulheres não tinham essa possibilidade. Serviam para tudo menos para estudar. Estavam destinadas a serem boas esposas, boas mães e boas donas de casa. Ainda pouco na geração da avó, mas depois, felizmente, na minha, as raparigas já puderam estudar lado a lado com os rapazes.
- Era como ainda hoje em algumas sociedades dominadas por fundamentalistas religiosos, em que as raparigas estão proibidas de ir à escola. – Lembrou a avó.
 - Hoje, nas nossas escolas, - continuou a mãe das crianças - praticamente, ninguém estuda latim ou grego. Só na Universidade e, mesmo assim, são poucos os alunos que frequentam estas disciplinas. O latim que os romanos falavam já não se fala em parte nenhuma, nem em Itália. E o grego que se fala na Grécia já sofreu grandes alterações.
- Bom, mas continuemos. - Interrompeu o avô. - Os cientistas têm de dar nomes às coisas que vão descobrindo ou, por outras palavras, como já dissemos, têm de criar neologismos. E, respeitando a tradição, fazem-no a partir de nomes que vão buscar a essas duas línguas da Antiguidade. São palavras que, praticamente, só eles e os seus pares entendem.
- E geologia é outra dessas palavras, não é, avô? – Disse o Mateus. - Aí temos nós mais um bom exemplo para começar. – Continuou o avô.
- A palavra geologia foi feita juntando dois elementos também de origem grega, geo, que significa Terra, e logos, que quer dizer estudo, conhecimento. Geologia é hoje uma palavra conhecida de muita gente mas, no século XVIII, quando foi introduzida com o significado que lhe damos, só os mais eruditos a conheciam. Eruditos, Avô? Isso é outra palavra cara? – Perguntou o Mateus, a rir.
- É uma palavra que fomos buscar ao latim eruditu e que se aplicava a uma pessoa que sabia muito. E quem diz geologia diz muitas outras. Por exemplo, a palavra cassiterite, nome que foi dado ao mineral de estanho que podem ver aí na colecção que o Domingos começou a fazer, teve origem no grego, kassiteros, que significa estanho, e a que se acrescentou o elemento ite com que terminam os nomes da maioria dos minerais.
- A minha professora também explica as palavras mais esquisitas. - Disse o Domingos.
- À medida que formos falando de geologia – continuou o avô - iremos sempre explicando como nasceram as novas palavras que forem aparecendo, o que torna fácil tudo aquilo que parece difícil. Se souberem o significado dos elementos de que são feitos os nomes que forem aprendendo, eles passam a fazer uma parte sólida do vosso conhecimento.
- Diga mais palavras dessas. Avô. – Pediu a Francisca. - Digo só mais uma que iremos usar muitas vezes,
- Diga, avô. – Entusiasmou-se a neta.
- Litosfera, que é o nome que se dá à camada exterior da Terra, toda ela formada por rochas. Analisando esta palavra verificamos que, também ela, foi feita juntando dois nomes gregos: lithós que significa pedra ou rocha, e sphaira que, está-se mesmo a ver, quer dizer esfera.
- Assim, fica tudo mais fácil. Obrigado, avô.
- Por hoje já chega. Para terminar, vamos meter bem na cabeça que todos os vocábulos que ouvirmos ou lermos, à medida que formos avançando no nosso estudo, têm de ser explicados. Se não tivermos este cuidado, não passam de palavrões sem significado que decoramos para podermos responder no exame e que, depois, se esquecem para sempre. E agora vão brincar um bocadinho, antes de irem para a cama.  
À SEMELHANÇA DE UMA CEREJA 
- Ó avô, - começou o Domingos, naquele fim de tarde, com o Sol a esconder-se no horizonte,
- Este ano, lá na escola, aprendemos que a Terra tem um núcleo, um manto e uma crosta. Como é que se pode saber isso se ninguém lá foi ao fundo?
- Ninguém foi nem ninguém poderá ir. – Respondeu o avô. - O calor lá bem no fundo é tanto que derrete o ferro e a pressão é tão forte que se lá pudéssemos chegar, como disse o teu pai, ficávamos mais pequeninos do que um caroço de azeitona.
- Ó avô, mas como é que a pressão faz as coisas mais pequeninas? – Perguntou a Francisca. - É muito simples, minha neta. A resposta é «Porque aperta». Pega num bocado de miolo de pão e aperta-o bem na tua mão e vê o que é que acontece.
- Já percebi, avô.
- Ó avô, explique lá isso do calor. A gente põe os pés aqui no chão e sente a pedra fria. Como é que está quente lá por baixo? – Perguntou, interessado, o Mateus.
- Primeiro vamos procurar saber como é que o nosso planeta é por dentro. - É como se fosse uma cereja, disse a minha professora. – Adiantou o irmão mais velho.
- Do que temos por baixo dos nossos pés, - começou o avô - só podemos ver e estudar, directamente, as rochas que escavamos nas minas e as que trazemos à superfície através de sondagens. Mas isso leva-nos a profundidades que não são nada quando comparadas com os mais de 6300 km de raio desta grande bola que é a Terra.
- Ó avô, nós já descemos a uma mina, mas eu não sei o que é uma sondagem. – Disse, de imediato, o Mateus.
- Foi em Loulé, na mina de sal. – Acrescentou a Francisca. - Fomos todos num elevador até lá abaixo.
- Uma sondagem em geologia, meu neto, é um furo no chão para se colherem as rochas em profundidade e as podermos estudar. Vou explicar-te, da maneira mais fácil de entender, o que é uma sondagem. Vai buscar uma maçã e o descaroçador com que se prepara para a assar no forno. A correr, o neto entrou em casa e saiu, instantes depois, com o solicitado. Atravessando o fruto com o dito utensílio, o avô retirou dele aquele rolinho do seu interior que contém as sementes.
- Estás a ver? – Disse o avô. – Este rolinho traz cá para fora e deixa ver a parte de dentro da maçã. Se fizeres o mesmo nesta floreira, tiras dois ou três centímetros da terra que está escondida. Uma sondagem faz o mesmo. Vai furando chão adentro e traz para a superfície amostras das rochas que vai atravessando.
- A minha professora mostrou um vídeo onde pudemos ver os homens a fazerem uma sondagem à procura de petróleo. - Comentou o Domingos.
- Sempre que se deseja construir uma barragem, uma ponte, um grande edifício ou qualquer outra obra suficientemente importante, é fundamental saber se o terreno que está por baixo, ou seja, se as rochas que lhe servem de suporte aguentam a respectiva sobrecarga. Nesse sentido fazem-se tantas sondagens quantas as julgadas necessárias. A procura de petróleo, de gás natural e de águas subterrâneas ou, ainda, outros estudos, não dispensam o uso de sondagens.
- A minha professora disse ainda que o mais fundo onde o homem já chegou é numa mina de ouro, na África do Sul, onde se pode descer até cerca de 4 quilómetros de profundidade, e que a sondagem mais profunda ultrapassa os 12 km.
- E disse muito bem, Domingos. Tiveste uma boa professora. Essa sondagem foi feita na Península de Kola, na Rússia, e o que, parecendo muito, face à dificuldade e ao tempo gasto a fazê-la, é muito pouco, pois trouxe para a superfície rochas só da parte mais superficial da crosta terrestre, cuja espessura média, como se devem lembrar, é da ordem dos 35 quilómetros. Mesmo esses quilómetros todos representam muito pouco quando comparados com os já referidos mais de 6300 km do raio da Terra.
- Mas podemos ir ainda mais fundo. Não é avô? – Disse o Domingos
- Podemos, sim senhor, através de rochas do manto trazidas cá para cima, dentro da lava de alguns vulcões. Mais adiante, quando falarmos do manto, voltaremos a este assunto.
- São os xenólitos, avô. – Apressou-se o neto a dizer. - Já lá iremos.
- Moderou o avô. – Mas fiquem a saber que podemos ir ainda mais fundo, não com rochas vindas dessas profundidades, mas com outros conhecimentos. Já temos hoje uma ideia muito razoável sobre o interior do nosso planeta, sobretudo com base no estudo dos sismos, ou seja, dos tremores de terra. Um tema sobre o qual falaremos um dia destes.
- Eu dei essa matéria lá na Escola, mas foi tudo muito à pressa. - Disse o Domingos.
- Mais tarde hão-de saber como e porquê, mas por agora basta que saibam que, com base nos registos dos sismos muito fortes, podemos saber que o nosso planeta tem um núcleo, rodeado por um capa esférica muito espessa, a que damos o nome de manto que, por sua vez, está rodeado por outra capa relativamente muito fininha que é a crosta.
- Ó avô, faz de conta que o caroço da cereja é o núcleo, aquilo que a gente come é o manto e que a pele é a crosta. – Insistiu o neto em dizer.
- Correcto. Essa é uma boa imagem para explicar a estrutura interna do nosso planeta e, já agora, Domingos, “aquilo que a gente come” chama-se polpa.
- Eu sabia, avô, mas saiu assim.
- Muito bem. – Pôs fim à conversa, o avô. – Hoje ficamos por aqui. O tempo é todo vosso até serem horas de deitar.
A. Galopim de Carvalho

domingo, 19 de março de 2017

Mais quatro pareceres acerca do “Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória”

A nota que deixo abaixo é, reconheço, extemporânea, mas completa a que fomos disponibilizado sobre os produtos resultantes da discussão pública do "Perfil do aluno à saída da escolaridade obrigatória". Eis os pareceres de mais quatro entidades:

Associação de Professores de Geografia - aqui.

Associação de Professores de Matemática - aqui.

Sociedade Portuguesa de Educação Física - aqui

Conselho Nacional de Associações de Professores e Profissionais de Educação Física - aqui.

“ARRIBA” versus “FALÉSIA” e outras considerações a propósito

Arriba fóssil da Costa da Cparica
Para o geógrafo ou para o geólogo o termo “arriba” designa os escarpados menos ou mais elevados, próprios de margens de rios muito encaixados (p. ex. no vale do Douro Internacional) ou de litorais catamórficos (forma erudita de dizer que estão expostos à erosão das vagas), observáveis em grandes extensões da Costa Vicentina ou nos Cabos Espichel, da Roca e Mondego.

Podemos encontrar este mesmo conceito referido pelo termo “falésia”. Acontece que ambos os termos podem ser lidos tanto em textos científicos como em outros pedagógicos, de divulgação ou de ficção.

Arriba e falésia são duas maneiras de dizer a mesma coisa. Arriba é uma palavra antiga que fomos buscar ao latim “ripa”. Falésia é um aportuguesamento relativamente recente da palavra francesa “falaise”. Autores há que, numa atitude purista da língua, repudiam este último termo, apodando-o de francesismo desnecessário.

O meu professor Carlos Teixeira (1910-1982), grande referência no engrandecimento e valorização da Geologia em Portugal, senhor de uma linguagem escrita sem intenções ou preocupações de estilo literário, mas impecavelmente correcta, repudiava liminarmente o vocábulo “falésia” e riscava-o, nos muitos textos dos seus alunos e colaboradores, entre os quais me contei, que pacientemente lia e corrigia, ensinando-nos a escrever em bom português.

Também o Prof. Orlando Ribeiro, geógrafo e humanista de craveira internacional, senhor de muitos saberes, que expunha numa linguagem falada e escrita de invulgar correcção e beleza, não raras vezes poética, que marcou a minha maneira de encarar as ciências da Terra, a um tempo, naturalista e cultural, rejeitava, igualmente, o termo “falésia”.

Acontece, porém, que na toponímia oficial, a par de designações como “Arribas do Douro”, no Parque Natural do mesmo nome, no distrito de Bragança, e “Paisagem Protegida da Arriba Fóssil da Costa de Caparica”, conhecemos as de “Aldeia da Falésia” e “Praia da Falésia”, no Algarve.

Praia da Falésia
Uma atitude idêntica destes mestres tinha lugar face aos vocábulos “barranco” e “ravina”, duas formas de referir os sulcos menos ou mais profundos escavados pela enxurradas pluviais nas cabeceiras dos cursos de água. O mesmo se passando com os termos derivados “abarrancado” e “ravinado” e “abarrancamento” e “ravinamento”.

De origem pré-romana, barranco (ou barroca) é palavra popular autóctone adoptada no vocabulário geográfico e geológico. À semelhança de falésia, ravina entrou-nos por aportuguesamento do francês “ravine”, num testemunho da francofonia que foi tónica no nosso meio académico nos anos que antecederam o último quartel do século XX.

Neste período áureo da penetração da inteligência gaulesa na nossa vida cultural e científica, em particular no ensino superior e na investigação científica, a língua de Molière dominava nos compêndios e manuais de estudo. Porém, os anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial (1939-1945) deram hegemonia ao inglês, situação que se tem vindo a acentuar com a globalização de múltiplos sectores da actividade dos povos deste planeta já referido por alguns por “aldeia global”. No léxico geológico assisti à invasão de vocábulos como riple, rifte, silte, gnaisse, grauvaque, loess, intertidal, e muitos outros, por aportuguesamento de termos anglo-saxónicos e, por falta de termos nacionais, à adopção pura e simples de termos estrangeiros, como “horst”, “graben”, “iceberg”, tsunami”, “terra rossa”, “raña”, “palygorskite”, entre muitos outros.

Praticamente, todos os dias a nossa língua vê o seu léxico aumentado por via dos progressos científicos e tecnológicos. Eu próprio criei, em 1988, o neologismo “exomuseu” incluído na expressão “Exomuseu da Natureza”, designação ainda não oficial de uma estrutura museológica dispersa no território nacional, constituída por vários pólos situados onde quer que ocorram elementos considerados de interesse em termos de património natural, fazendo parte de um conjunto coordenado a partir de um ou mais centros com competências científica e pedagógica adequadas. Não constando ainda dos dicionários, o termo “exomuseu” existe nos protocolos assinados entre o Museu Nacional de História Natural e diversas Autarquias.

A miscigenação cultural decorrente da facilidade e rapidez das comunicações na sociedade cada vez mais mundializada é outra via para o dito aumento.

Não prescindimos hoje de palavras da nossa vida corrente como, por exemplo, “evoluir” “implementar” e “controlar”. E que dizer de “clicar” e outros termos hoje habituais na sociedade das novíssimas tecnologias e da informática?

A história ensinou-nos que quem faz a língua é quem a fala e escreve e estou em crer que todos estes e muitos outros termos, goste-se ou não, vieram para ficar.

A. Gapoim de Carvalho

sexta-feira, 17 de março de 2017

Pensar o emprego científico

A questão do emprego científica continua entre nós na ordem do dia. Gonçalo Leite Velho, docente do  ensino superior e presidente da Direcção do SNESUP; escreveu ontem no DN um artigo, que reproduzimos com a devida vénia:

A Comissão Parlamentar de Educação e Ciência tem em mãos a melhoria do diploma do Emprego Científico (DL 57/2016). Foi importante que o Parlamento tenha chamado a si este diploma. Manuel Heitor cometeu erros crassos, que o fragilizaram (e muito). Foi salvo pelos partidos que apoiaram a formação do governo, estando por verificar se compreendeu esse auxilio.

No teor das propostas conhecidas há um marco que se conseguiu instaurar (graças também à ação do GP-PS), reorientando para a inserção na carreira. É um ponto de consenso à esquerda, que permite a consolidação de um sistema em envelhecimento. Algumas dúvidas do CDS-PP devem ser vencidas, a bem da defesa do interesse nacional. Sem um sistema científico estável e com condições, Portugal torna-se um país frágil. Olhar para os EUA é verificara forçadas suas agências de Estado, fundamento do seu desenvolvimento. As questões de sustentabilidade implicam reforçar o consenso sobre a ciência, uma qualidade herdada de Adriano Moreira.

O PSD pode fazer a diferença fundamental, permitindo retirar algo de positivo de uma pasta que não lhe correu bem quando esteve no governo. A visão de valorização, com vencimentos competitivos a nível internacional (que existia no programa Investigador FCT), permite uma política de captação de talentos, impedindo a política de desvalorização e baixos salários de Manuel Heitor (pior, só os docentes de baixo custo propostos por um certo reitor).

 O consenso alargado sobre o valor da ciência é por vezes quebrado por um lugar-comum que vem de tempos idos. Insiste-se num Portugal pobre, de nichos exclusivos. Um erro tão mais grave quanto o quadro de qualificação alargada que tem vindo a sair por culpa de tal ideia.

Pensar é vencer lugares-comuns. Como o de que o emprego científico deve ser precário para aumentar a produtividade. É falso. Veja-se o que diz a European Science Foundation. A precariedade é propensa a métricas. Reflete a procura pelo que permite alcançar o lugar estável. Tais métricas podem esconder uma produção estéril. Contudo, a ESF demonstra que os investigadores de carreira não só mantêm as dinâmicas de publicação como produzem com maior impacto social e económico, incluindo maior entrosamento na comunidade e influência nas decisões públicas. Em ciência a estabilidade é fundamental, permitindo uma maior e melhor produtividade.

Sabemos o que se fez de errado. Subverteram-se as bolsas (um apoio à formação) utilizando-as como instrumento de contratação. Um conjunto de interesses e de circunstâncias ditou que a contratação por fundos europeus se concentrasse na figura do bolseiro. Desvalorizou-se, precarizou-se e descapitalizou-se a Segurança Social, de tal forma que em breve teremos mesmo investigadores de nível mundial com reformas de valor mínimo.

Os estudos da OCDE apresentam Portugal como o pior nos níveis de precariedade dos mais qualificados, seja na economia em geral seja no espaço do ensino superior e ciência. Uma desvalorização da qualificação, que nos condena.

O estudo da ESF demonstra o problema maior. as economias do Sul da Europa possuem um crescimento em muito alimentado pelo crescimento do turismo (restauração, alojamento), o que contrasta como dos países do Norte. O resultado é a emigração qualificada do Sul para o Norte, descapitalizando de investimento e acentuando o carácter periférico.

Há uma diferença entre economias que criam o smartphone e as que apenas desenvolvem aplicações para o smartphone. A capacidade do sistema tecnológico, científico e de ensino superior é a chave para as primeiras. Um ensino superior e ciência fortes são matéria que exige condições e recursos, possuindo outros agentes a nível global capacidade política e financeira para os fazer afirmar. É geopolítica.

Não podemos condenar o Sul da Europa à mera reprodução e aplicação do que é desenvolvido no Norte, ou à circulação em passeio de notáveis. É necessária uma rede consistente e sustentável, com fileiras de formação e pesquisa, orientada para dar resposta aos desafios societais, que permitem os avanços que nos capitalizam. Temos de o orientar para tal, definindo-o. Viciar na aplicação de inovação incremental é atrofiar para perder. Desbaratar pessoal qualificado no remedeio do imediato é um erro. Ser incauto é usar a galinha dos ovos de ouro para fazer canja, ou arroz e cabidela.

Gonçalo Leite Velho


quarta-feira, 15 de março de 2017

Final 'Ciência em Cena' | 18 de março, na Fundação Gulbenkian

Um projecto no qual tenha a honra de participar:


A contagem decrescente para a Final do “Ciência em Cena” já começou. 
Assim, o Gulbenkian Descobrir e a Associação Maratona da Saúde gostariam de vos convidar a assistir à Final do “Ciência em Cena”, no dia 18 de março, às 16h00, no auditório 2 da Fundação Calouste Gulbenkian. Neste dia, os dez finalistas sobem ao palco!

Alunos de várias escolas de todo o país foram desafiados a abordar as doenças cardiovasculares sob a forma de vídeo criativo e informativo com uma duração máxima de três minutos. Entre os 10 vídeos finalistas encontram-se diferentes e originais abordagens ao tema, com o uso de teatro, desenho, música e a mímica a servirem o propósito de passar uma mensagem sobre os riscos, os sintomas e as consequências das doenças associadas ao coração, assim como conselhos para a prevenção e para uma vida saudável.

Depois de trabalharem intensamente nas suas propostas e passarem um fim de semana em ensaios com os formadores Catarina Requeijo, David Marçal e Romeu Costa, está na altura de se apresentarem perante o público e um júri de especialistas em ciência e em comunicação:
- Elizabeth Silva (responsável pelo setor das Ciências da Comissão Nacional da UNESCO)
- José Carlos Malato (apresentador de televisão na RTP)
- Miguel Mendes (presidente da Sociedade Portuguesa de Cardiologia)

Vale a pena ver o esforço, a criatividade e o empenho destes jovens finalistas! Esperamos por vocês! E passem a palavra. 

Podem ver os vídeos dos 10 finalistas em www.cienciaemcena.pt, como também, acompanhar em direto o espetáculo.

terça-feira, 14 de março de 2017

Parecer da Fenprof acerca do “Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória”

Pela importância de que se reveste para o país, a discussão do “Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória”, disponibiliza-se outro parecer enviado para o Ministério da Educação. 

Trata-se do Parecer da FENPROF, "Federação Nacional dos Professores", que pode se encontrado aqui.

Parecer do Conselho de Escolas “Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória”

Disponibiliza-se o Parecer do "Conselho de Escolas" ("conselho consultivo que representa, junto do Ministério da Educação, os estabelecimentos de educação da rede pública no tocante à definição das políticas pertinentes para a educação pré-escolar e dos ensinos básico e secundário") acerca do “Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória”.

É o Parecer n.º 01/2017 (aqui

Parecer acerca do "Perfil dos alunos à saída da escolaridade obrigatória"

Entendo que a consulta pública de documentos curriculares deve ser acompanhada de informação mas também de algum recato, isto para que as pessoas e entidades que entendam pronunciar-se o façam com esclarecimento sem, no entanto, serem sujeitas a condicionamentos. 

Tencionando apresentar ao Ministério da Educação uma contribuição no processo de consulta do documento “Perfil dos alunos à saída da escolaridade obrigatória”, que terminou ontem, dia 13 de Março, evitei apresentar no De Rerum Natura a leitura que fiz dele. 

Uma vez terminado esse processo, disponibilizo o meu parecer aqui.

segunda-feira, 13 de março de 2017

POSIÇÃO DA SPM SOBRE O NOVO PERFIL DO ALUNO

Sou sócio da Sociedade Portuguesa de Matemática e recebi dela esta posição sobre o "Perfil do Aluno" que o Ministério da Educação pôs à discussão (ver o link para um parecer técnico no fim). Lembro que o Ministério afastou deliberadamente a SPM do "Processo em Curso de Reforma Educativa", desconsiderando os sócios que são muitos professores de Matemática e disciplinas afins:

A SPM considera que a proposta designada por “Perfil do aluno à saída da escolaridade
obrigatória” apresentada pela Ministério da Educação e em consulta pública:

1. É um documento pouco claro e, em grande parte, enunciando princípios vagos
suscetíveis de ter implicações práticas mutuamente contraditórias. Nessa medida,
dificilmente poderá orientar as escolas no que respeita à elaboração de planos de trabalho
e de projetos educativos;

2. A redundância e a opacidade de que se reveste são fortes obstáculos a uma discussão
objetiva suscetível de culminar na elaboração de propostas concretas de melhoria do
texto, conducentes a um documento que se possa efetivamente constituir orientador do
ensino;

3. Nos pontos dos quais se pode extrair alguma ideia mais objetiva, o documento não
traduz a evolução moderna do conhecimento sobre a aprendizagem e o ensino. Pelo
contrário, assenta em princípios e conceções que nada têm de recente e que a prática tem
desacreditado. Em particular, alguns desses princípios e conceções estavam em voga num
tempo em que os desempenhos dos nossos alunos eram bem mais fracos do que aqueles
que hoje demonstram;

4. Nem tão pouco introduz ideias claras e capazes de contribuir para prosseguirmos em
direção a uma escola melhor. Por um lado, contradiz a psicologia cognitiva moderna, que
conclui que a aprendizagem é muito mais rápida e consistente quando é orientada por
metas claras e avaliáveis, e não por projetos gerais de natureza indefinida. Por outro, ao
privilegiarem-se abordagens partindo da diversificada experiência quotidiana dos alunos,
dificilmente se pode deixar de sacrificar a aquisição adequadamente progressiva e
estruturada do corpo de conhecimentos de cada disciplina, o que é um obstáculo a que se
possa vir a ter uma escola socialmente mais justa;~

5. O documento condiciona explicitamente as práticas pedagógicas dos professores, o que,
por um lado, contraria a liberdade consagrada nos atuais programas que permite tirar
partido do confronto saudável da experiência acumulada de gerações de docentes, e por
outro, ultrapassa os limites do que é razoável ao Ministério da Educação estabelecer;

6. Esta proposta enfraquece de modo vincado o carácter estruturado e objetivo dos
curricula organizados por metas avaliáveis e retorna ao dirigismo pedagógico que
caracterizou durante décadas os documentos curriculares, pelo que é limitativa de um
progresso sólido do sistema de ensino e da efetiva valorização do conhecimento.

Assim, a SPM deixa os seguintes alertas:

1. Um referencial desta natureza deve estabelecer orientações fundamentadas,
estruturadas e verificáveis, objetivo que este documento está longe de alcançar, pela sua
redundância e opacidade.

2. Esta proposta, bem como as alterações curriculares que dela podem vir a decorrer,
encerram o perigo de conduzir as escolas a atividades pedagógicas desorganizadas e sem
conteúdos claros, fruto de uma imposta doutrinação metodológica. Estes elementos são
fortemente suscetíveis de reverter alguns dos bons desempenhos recentemente obtidos -
nomeadamente em Matemática – pelos alunos portugueses.

3. Foi com liberdade metodológica, aliada a incentivos, recursos e metas claras, que os
professores portugueses conseguiram conduzir os nossos alunos e o sistema educativo em
geral a registar melhorias progressivas, medidas objectivamente pela progressão
consistente nos resultados das avaliações internacionais TIMSS e PISA desde 2000,
culminando nos melhores resultados de sempre em 2015.

4. A contextualização da aprendizagem, recorrentemente defendida no documento, tende
a acentuar a influência das origens económico-sociais nos desempenhos dos alunos,
estando, por isso, em total desacordo com o direito à educação e à igualdade de
oportunidades, consagrado na Declaração Universal dos Direitos Humanos, na
Constituição da República Portuguesa e na Lei de Bases do Sistema Educativo.

5. As propostas formuladas ao longo do texto – enquadramento, competências-chave,
abordagem pedagógica, práticas pedagógicas – são adversas ao ensino estruturado,
requerido por disciplinas como a Matemática, umas das componentes imprescindíveis na
formação humanística dos alunos.

6. O documento contém pressupostos desajustados às necessidades de um sistema
educativo em que persistem fatores de insucesso que devem continuar a ser contrariados.

Em suma,

É preciso proporcionar aos alunos reais possibilidades de aprendizagem ao longo de todo o
percurso escolar o que requer uma valorização do conhecimento, aliado a exigência e
rigor, bem como objetivos claros para o ensino e processos robustos de acompanhamento
das escolas, dos professores e dos alunos. Pelos motivos acima referidos, o documento em
apreço não serve estes propósitos.

Direcção da SPM

 Para mais informações consulte: http://www.spm.pt/files/Parecer_aluno_spm.pdf

Como será o trabalho do futuro?

O trabalho do futuro, discutido no novo programa da Fundação Francisco Manuel dos Santos na RTP3:


Até 2055, só nas 5 principais economias europeias, a automatização do trabalho poderá afectar 62 milhões de postos de trabalho. Como vão viver estes desempregados? O mercado tem capacidade para os absorver? A que custo? Na Finlândia, o governo está a testar soluções sociais inovadoras para lidar com estes problemas: começou a atribuir a duas mil pessoas um rendimento básico mensal de 560 euros, com o qual espera estimular o trabalho. Será uma solução?

Os desafios da quarta revolução industrial vão analisados por Manuela Veloso, Manuel Carvalho da Silva, António Moniz e João Paulo Oliveira no próximo programa Fronteiras XXI. Dia 15, às 22h na RTP3. Mais informação e streaming aqui: https://fronteirasxxi.pt/trabalhodofuturo/

Apresentação da candidatura ‘Somos Coimbra’


Coimbra tem sido alvo de chacota nacional nos últimas dias pelo facto de  o  presidente da Câmara ter decidido comemorar o Dia Internacional da Mulher contratando uma praticante de dança no varão para se exibir numa instalação municipal . Não admira que  cresça todos os dias a onda de adesão ao movimento independente "Somos Coimbra", que apoio. Deixo aqui a declaração de lançamento de candidatura lida na quinta-feira passada no Café de Santa Cruz pelo candidato à Presidência da Câmara José Manuel Silva (ex-bastonário da Ordem dos Médicos):

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Caras Amigas e Caros Amigos

 Muito Boa tarde a todas e a todos!

Começo por agradecer à gerência deste magnífico e emblemático Café Santa Cruz, no coração da cidade de Coimbra e perto dos primeiros monarcas portugueses, por ter acedido a acolher o lançamento do movimento “Somos Coimbra”, uma candidatura independente, inclusiva e construtiva à Câmara Municipal de Coimbra.

 Em nome do “Somos Coimbra”, sou candidato à Câmara Municipal de Coimbra.

 Sente-se no Concelho de Coimbra, em cada uma das suas 18 freguesias e em cada um dos seus quase 150.000 habitantes, a vontade e a necessidade de mudança e desenvolvimento, sob os fortes alicerces de uma riquíssima história política, socio-económica, cultural, científica, universitária, patrimonial, etc. Acima de tudo uma riquíssima história humana, um legado de gerações que foram dando o melhor de si em benefício de todos.

 Apesar disso e por deficiente acção ou inacção ou longo das últimas décadas, os problemas de Coimbra são hoje múltiplos e complexos. Estão devidamente identificados, conhecemo-los bem porque os sofremos na pele todos os dias, os que cá vivem e os que saíram por falta de oportunidades e perspectivas.

 Esta não é, porém, uma candidatura de desfiar e carpir os problemas, nem de lamentar qualquer fado, mas sim de elencar e concretizar ideias e soluções para desenvolver o Concelho de Coimbra, para dinamizar as pessoas e as instituições, para recuperar o saudável e e de modo nenhum umbiguista sentimento de orgulho, de entusiasmo e até de irreverência de sermos Coimbra. Daí o nosso lema “Somos Coimbra”.

 Cultivamos uma rigorosa independência. Mas nada nos move e nada temos contra ninguém. Respeitamos todas as candidaturas, prezamos todos os partidos políticos e os seus militantes e reconhecemos a sua importância na sociedade e no país.

 Todavia, o nosso Partido é Coimbra, a nossa política é por Coimbra, a nossa onda e a nossa força são as mulheres e os homens de Coimbra, sem qualquer discriminação partidária, social, cultural, etária ou religiosa.

Somos uma candidatura transversal e inclusiva, que conta com todas as pessoas e instituições do Concelho de Coimbra, com as quais iremos dialogar de agora em diante. Todas “Somos Coimbra”

 Em equipa, com muito trabalho, com competência, com qualidade e, além do mais, com uma enorme determinação, vamos recuperar o espaço, o protagonismo, a capacidade, a relevância e a voz do Concelho de Coimbra no panorama nacional e internacional

 Queremos um futuro para Coimbra, queremos ser um exemplo para o país, queremos ser uma marca para o mundo.

Sabemos como desenvolver e potenciar as imensas qualidades e recursos do nosso Concelho, em conjunto com toda a Região Centro, na educação, na saúde, nos serviços qualificados, na investigação, na inovação, na criatividade, na cultura, no património, no turismo.

Queremos atrair investimento, desenvolver a indústria e comércio locais, promover a agricultura de qualidade.

Queremos, sobretudo, colocar Coimbra no mapa, conquistando-lhe o respeito e o lugar no país e no mundo que tem capacidade para alcançar.

 Queremos que as instituições do Concelho de Coimbra dialoguem entre si e assim multipliquem exponencialmente as suas caraterísticas, potencialidades e sinergias.

 Queremos respeitar, aproveitar e intensificar as enormes capacidades e competências esquecidas e desprezadas da estrutura e das pessoas da Câmara Municipal de Coimbra e de todas as instituições e forças da Cidade e do Concelho.

 Queremos um governo competente para a cidade, que pratique a democracia no município e nas freguesias, com uma gestão municipal democrática, transparente, descentralizada, com absoluto respeito pelo funcionamento de todos os órgãos municipais.

Com igual respeito e valorizando os concelhos vizinhos, que integram a região, iremos com eles cooperar pelo desenvolvimento da Região Centro.

 Queremos envolver e ouvir os munícipes de Coimbra. Em particular, queremos destinar uma verba significativa para um orçamento participativo que vá ao encontro dos desejos e necessidades das pessoas. Seremos proactivos na definição de políticas públicas municipais, para as quais os cidadãos vão ser ouvidos.

 Saberemos procurar activamente os investimentos, aproveitando todas as oportunidades de atracção de investidores. Criaremos para isso os necessários incentivos de modo a sermos competitivos com outras regiões do país e de modo a fomentarmos o estabelecimento de empresas e a criação de empregos no concelho de Coimbra .

Afirmaremos as marcas distintivas de Coimbra, em conjunto com os parceiros naturais da Câmara, de modo a aumentarmos a visibilidade nacional e internacional que a cidade já tem. Queremos Coimbra como destino e reconhecimento nacional e internacional como cidade da educação, cidade universitária, cidade do património mundial, cidade dos estudantes, cidade da irreverência, cidade da ciência e da inovação, cidade da saúde, cidade das oportunidades para os jovens, cidade do envelhecimento activo, cidade do urbanismo e da arquitectura qualificadas, cidade da oferta cultural rica e diversificada, cidade dos congressos e encontros, cidade da solidariedade e da inclusão, cidade eclética e cosmopolita, enfim uma cidade como devem ser as cidades modernas da nossa dimensão.

 Da nossa história, da nossa cultura, da nossa geografia, do nosso maltratado rio Mondego, das nossas enormes e multifacetadas competências, do nosso capital humano faremos vigorosos factores de criação de riqueza, de empregabilidade, de desenvolvimento e de melhoria da qualidade de vida das pessoas.

 Poderão dizer alguns que o que até agora afirmámos não passa de boas intenções e promessas eleitorais iguais a outras. O que nos distingue, então? O que pode constituir um selo e uma garantia de qualidade, de verdade e de sucesso? O que pode motivar o voto das mulheres e dos homens de Coimbra neste projecto diferente, que tem tanto de arrojado como de estimulante?

 O que nos distingue é a nossa independência, a nossa liberdade de pensamento, palavra e acção, a nossa coragem, a nossa determinação, o nosso diversificado percurso académico, científico, técnico, profissional, pessoal e associativo, as nossas capacidades e competências, o que fizemos nas nossas tão variadas profissões, a nossa maneira de ser e de agir demonstrada ao longo da vida.

 Nenhum de nós depende ou vive da política. Nenhum de nós necessita de promoção pessoal. Estamos aqui porque queremos servir o interesse público, porque queremos servir Coimbra e o país, porque queremos dar um novo futuro e uma voz forte a Coimbra. A nossa motivação intrínseca é o amor por Coimbra, que merece muito mais e muito melhor.

Não temos nem financiamento nem quaisquer condicionamentos. Por isso vamos abrir uma acção de “crowdfunding” para fazer face às despesas mínimas e obrigatórias do processo eleitoral e da campanha. Qualquer eventual excedente será distribuído pelas organizações de solidariedade do Concelho de Coimbra, sendo as contas finais publicadas.

Contamos com todas e com todos. Precisamos da Vossa ajuda, precisamos da ajuda de quem sente e quer ser Coimbra. “Somos Coimbra”, a onda é nossa e há espaço para todas e para todos.

 A candidatura está lançada. Obrigado pela Vossa presença e vamos agora ao trabalho conjunto!

José Manuel Silva
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