De Víbora na Mão é um livro autobiográfico de Hervé Bazin de 1948, publicado em Portugal pela coleção Unibolso, provavelmente em 1985. Neste livro, se os filhos são terríveis e planeiam (e tentam) o assassinato da mãe, esta não é menos ao bater-lhes e a castigá-los. Em suma, um livro terrível! Estava a lê-lo, desta vez para anotar os aspectos químicos. Mas não era tanto isso que me interessava. Interessava-me mais a geografia, os tempos envolvidos e a relação, em termos de lugares e atitudes, com A Busca do Tempo Perdido de Marcel Proust, uma obra monumental em sete volumes que acaba um pouco antes da outra começar e que também estive a reler e anotar, e, ainda, Thérèse Desqueyroux, passado nas Landes e publicado em 1927 por François Mauriac (publicado, em Portugal, recentemente pela Cavalo de Ferro, em 2015). Estava eu nisso, a viajar pela França do início do século vinte, a comparar o conservadorismo patético de uns com o sensualismo dos outros. Compararava, sem grande profundidade, é certo, as diferentes atitudes, o dinheiro que a uns, arruinados, faltaria e que, os outros, velhos burgueses, teriam em excesso. Comparava a atitude perante os banhos de mar e a praia, evitada mas verdadeira, de Le Balle na Víbora, com a Balbec imaginária da Busca.
Mas a química voltou outra vez. A verdade é que todos os livros a têm. E só falo da Víbora na Mão. Esta tem, claro, o óleo de rícino, a pólvora piroxilada, também chamada pólvora sem fumo, as gotas de beladona, o cianureto (diz-se actualmente cianeto) de potássio, a ureia e a uremia, a curiosidade de Rayon ser também um lugar, entre outros. Mas esses eu já conhecia. O que me chamou mais a atenção acabou por ser um medicamento para uma crise de fígado, chamado, no livro, Algocoline Zizine. Uma pesquisa mostrou que era uma expressão que só aparecia neste livro e que esta obra era citada ipsis verbis num artigo antroplógico a propósito da questão de serem as “doenças de fígado” uma doença tipicamente francesa. Mais umas pesquisas e estas mostraram que os laboratórios Zizine ainda existem, mas agora são dedicados ao “medicamentos alternativos,” e que “algocoline,” poderia ser outro nome para analgésico. Se fosse o caso, qual seria a sua composição? Foi aí que vi que os laboratórios Zizine não tinham fabricado o “Algocoline Zizine” mas sim o “Alcholine Zizene,” de que há bastantes caixas metálicas à venda na internet. Será que o autor se enganou? Será que teve um liberdade poética? Será que não quis usar um nome registado? Não sei, o que sei é que o Alcholine Zizene era de facto uma marca registada e descrito como um “drenante hepático” (um laxante, diríamos hoje) composto de sulfato de magnésio e pectina. E foi assim que, de uma praia redescoberta pelos parisienses, Le Balle-Escoublanc, encontrei a química de um frasco de medicamento a vajar pela França dos livros. Façamos um passeio à feira do livro e encontremos outras viagens!
terça-feira, 1 de setembro de 2020
De víbora na mão, em busca do tempo perdido, viagens pelos livros
segunda-feira, 31 de agosto de 2020
domingo, 30 de agosto de 2020
NO PROSCÉNIO DA POLÍTICA PORTUGUESA
“A oposição é a arte de estar contra,
mas com uma habilidade tal que logo se possa estar a favor”
(Maurice deTayllerand-Périgord, politico e diplomata francês, 1754-1838).
1. Um Governo Dinástico do Tipo Pensão Familiar:
Nesta parcela da península ibérica existe um país em que o “nosso primeiro" (ministro) nada ou pouco resolve.
Desta forma simplificada e simplista, os problemas do país são secundários, secundaríssimos, desde que as famílias de marido, mulher e filhos, repimpados em cadeiras do poder ( a sorte é não haver netos em idade para serem ministros ou secretários de Estado) a pesarem que nem chumbo no erário público porque, como nos diz o ditado, "o tempo tudo cura" e mesmo que não cure o que importa se essas famílias de eleitos estiverem felizes e aos pulos de contentamento.
E, em contrapartida, o povo chora as sua mágoas sem ter, sequer, um lenço para enxugar as lágrimas! Longe vai o tempo em que os filhos de pessoa inteligentes podiam nascer burras e os filhos de pessoas honesta podiam nascer assaltantes de bancos. Hoje não, a inteligência herda-se como a cor dos olhos, por exemplo, não sendo necessário dar provas que os descendentes de gente ungida desta graça tenham as idênticas capacidades, através de entrevistas e exames psicotécnicos exigentes. E como os lugares, mesmo num governo tão cheio de governantes, como carruagem de metro em hora de ponta, não há lugar para todas essas intelijumências, havendo, como tal, que mexer os cordelinhos da cunha para encaixar uma legião de medíocres em lugares bem remunerados da função pública ou privada.
Época remota houve, em que era dito que quem não tinha padrinhos morria mouro. Hoje, por falta de padrinhos, pessoas ainda que de posse de licenciaturas ou mestrados, obtidos em universidades públicas e honestidade impoluta, estiolam, por vezes, em empregos mixurucos como caixas de supermercados ou vivem mesmo nas garras do desespero por estarem desempregadas pela não subserviência a juventudes partidárias que berram em megafones slogans ou agitam frenéticos bandeiras ao vento.
2. As reviravoltas do mundo da política: Face à inacção, ou falta de pulso, de António Costa em resolver os graves problemas da vida nacional varrendo-os para debaixo do tapete, o Bloco de Esquerda, pela voz de Catarina Martins, denuncia a intenção de um divórcio entre este partido e o PS paras as eleições autárquicas que se avizinham. Ou seja,“nada de novo na frente ocidental”, título de um livro com relatos da “I Guerra Mundial”, da autoria de Erich Maria Remarque, por mim não previsto e escrito várias vezes, de ser um casamento de conveniência em risco de um divórcio litigioso de grande estardalhaço público.
Inopinadamente, chega agora a notícia, que nunca me passou sequer pela pela cabeça, de estar o Partido Socialista a lançar olhares cupidos ao CHEGA para, ao que creio, embora "a profecia ser algo muito difícil de prever , especialmente em relação ao futuro" (Mark Twain), uma hipotética aliança para as eleições autárquicas que se aproximam. Embora no panorama político nacional seja difícil traçar um linha que delimite a esquerda e a direita e os seus extremos, nanja que eu considere o CHEGA um partido de extrema-direita, como tal diabolizado, como fazem, ou melhor queriam fazer crer, até hoje, certos “democratas” da ocidental praia lusitana. Basta de tamanho descaramento de um socialismo que pretende manter-se à tona de água, esbracejando, qual indivíduo preste a perder o pé, procurando boia de salvação, num acordo, "contra natura", com o CHEGA sem qualquer dignidade.
Chega de tanta hipocrisia. Há limites para tudo, até para levarem os socialistas um pontapé nos fundilhos das calças. Desta forma, o Partido Socialista acaba de dar um tiro nos próprios pés por fazer com que as pessoas indecisas em quem votar transformem essa indecisão em certeza de votarem num partido que tem um programa de acção bem delineado e sem tergiversações que tanto parece incomodar o presidente da Assembleia da República, pai tirano do CHEGA e pai permissivo de outros partidos vivendo, aparentemente, com eles como Deus com os anjos.
E, em contrapartida, o povo chora as sua mágoas sem ter, sequer, um lenço para enxugar as lágrimas! Longe vai o tempo em que os filhos de pessoa inteligentes podiam nascer burras e os filhos de pessoas honesta podiam nascer assaltantes de bancos. Hoje não, a inteligência herda-se como a cor dos olhos, por exemplo, não sendo necessário dar provas que os descendentes de gente ungida desta graça tenham as idênticas capacidades, através de entrevistas e exames psicotécnicos exigentes. E como os lugares, mesmo num governo tão cheio de governantes, como carruagem de metro em hora de ponta, não há lugar para todas essas intelijumências, havendo, como tal, que mexer os cordelinhos da cunha para encaixar uma legião de medíocres em lugares bem remunerados da função pública ou privada.
Época remota houve, em que era dito que quem não tinha padrinhos morria mouro. Hoje, por falta de padrinhos, pessoas ainda que de posse de licenciaturas ou mestrados, obtidos em universidades públicas e honestidade impoluta, estiolam, por vezes, em empregos mixurucos como caixas de supermercados ou vivem mesmo nas garras do desespero por estarem desempregadas pela não subserviência a juventudes partidárias que berram em megafones slogans ou agitam frenéticos bandeiras ao vento.
2. As reviravoltas do mundo da política: Face à inacção, ou falta de pulso, de António Costa em resolver os graves problemas da vida nacional varrendo-os para debaixo do tapete, o Bloco de Esquerda, pela voz de Catarina Martins, denuncia a intenção de um divórcio entre este partido e o PS paras as eleições autárquicas que se avizinham. Ou seja,“nada de novo na frente ocidental”, título de um livro com relatos da “I Guerra Mundial”, da autoria de Erich Maria Remarque, por mim não previsto e escrito várias vezes, de ser um casamento de conveniência em risco de um divórcio litigioso de grande estardalhaço público.
Inopinadamente, chega agora a notícia, que nunca me passou sequer pela pela cabeça, de estar o Partido Socialista a lançar olhares cupidos ao CHEGA para, ao que creio, embora "a profecia ser algo muito difícil de prever , especialmente em relação ao futuro" (Mark Twain), uma hipotética aliança para as eleições autárquicas que se aproximam. Embora no panorama político nacional seja difícil traçar um linha que delimite a esquerda e a direita e os seus extremos, nanja que eu considere o CHEGA um partido de extrema-direita, como tal diabolizado, como fazem, ou melhor queriam fazer crer, até hoje, certos “democratas” da ocidental praia lusitana. Basta de tamanho descaramento de um socialismo que pretende manter-se à tona de água, esbracejando, qual indivíduo preste a perder o pé, procurando boia de salvação, num acordo, "contra natura", com o CHEGA sem qualquer dignidade.
Chega de tanta hipocrisia. Há limites para tudo, até para levarem os socialistas um pontapé nos fundilhos das calças. Desta forma, o Partido Socialista acaba de dar um tiro nos próprios pés por fazer com que as pessoas indecisas em quem votar transformem essa indecisão em certeza de votarem num partido que tem um programa de acção bem delineado e sem tergiversações que tanto parece incomodar o presidente da Assembleia da República, pai tirano do CHEGA e pai permissivo de outros partidos vivendo, aparentemente, com eles como Deus com os anjos.
Deu-nos um retrato perfeito deste “status quo”, António José Saraiva, no seu “Panegírico de um Oportunista”, ao escrever, em citação que faço: “Diz-se que um oportunista é um sujeito sem princípios. Não é verdade. O oportunista tem todos esses princípios necessários aos seus fins. O oportunista é um homem de fins, e tem tantos e tão diversos princípios, conforme o tempo e as circunstâncias. (…) Talvez seja até o único tipo de homem cem por cento coerente, visto que nele não há contradição entre os princípios e os fins. Os fins são sempre idênticos: o interesse e a ambição do oportunista; e os princípios os mais apropriados a esses fins”.
Bem nos disse Paul Ricoeur, que “a história é uma mediação entre o passado e o presente num círculo hermenêutico”. Para infelicidade daqueles que se querem fazer passar por heróicos e denotados combatentes de uma estória de conveniências e traições, não passando de figurantes de triste figura de bastidores deste tenebroso “status quo”!
É bem certo o provérbio de “quem o alheio veste na praça o despe”!
Bem nos disse Paul Ricoeur, que “a história é uma mediação entre o passado e o presente num círculo hermenêutico”. Para infelicidade daqueles que se querem fazer passar por heróicos e denotados combatentes de uma estória de conveniências e traições, não passando de figurantes de triste figura de bastidores deste tenebroso “status quo”!
É bem certo o provérbio de “quem o alheio veste na praça o despe”!
sexta-feira, 28 de agosto de 2020
"CONSUMATUM EST", A FESTA DO AVANTE?
“Acreditai que nenhum mundo,
que nada nem ninguém vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la”
Jorge de Sena, “Carta a Meus Filhos”)
Tive um amigo que quando lhe perguntava a opinião, sobre um determinado filme, que não era do seu agrado, respondia-me ser como o peixe espada!
Pouco dado, que sou, a charadas, indaguei-o o que tinha a ver a sua resposta sobre a minha pergunta a um determinado filme, que ele tinha como sendo de natureza ictiológica, por evocar o peixe espada. Prontamente, esclarecia-me ser chato e comprido!
Por não me considerar falho de todo em todo de massa cinzenta o que me leva a ter dúvidas que exponho publicamente, mudo de agulha ao comboio das minhas inquietações por não ser do género de aceitar tudo que me querem impingir.
"Ipso facto”, ressurgem-me as dúvidas não resolvidas por mim expressas no meu “post” aqui publicado com o título: “Jerónimo de Sousa e a Festa do Avante”(17/08/2020).
Dele cito um pequeno aperitivo de uma suculenta refeição: “É natural que as restrições impostas pelo coronavírus faça diminuir o lucro da festa por um número menor de assistentes e, portanto, o número de infectados e de mortes. Nem que fosse uma só morte já seria bom por não haver dinheiro que pague uma única vida humana”.
Paradoxalmente, encontro opinião idêntica em Estaline, secretário-geral do Partido Comunista (1922-1935) quando defende que “a morte de um homem é uma tragédia”. Ora, aqui está a confirmação de que uma frase desinserida do contexto em que foi escrita é tremendamente perigosa. A frase completa de Estaline é esta: ”A morte de um homem é uma tragédia, a de um milhão uma estatística”!
Bem sei eu, que a hipótese de mortes motivada pelo coronavírus na “Festa do Avante”, se, por hipótese, for levada avante, não correrá o risco de um milhão de mortes, mas de uma coisa tenho eu a certeza de ser o Partido Comunista Português um Estado dentro do próprio Estado pela força, persistência e sucesso do braço de ferro entre este partido e a directora-geral da Saúde em desnorte sobre o caminho a seguir durante a vigente e tormentosa pandemia metendo, como tal, os pés pelas mãos!
A própria Justiça hesita em resolver, "in loco”, este diferendo enviando a providência cautelar recebida no Tribunal do Seixal para Lisboa. É do seguinte teor esse documento contestatório, subscrito por Carlos Valente: “Se temos as discotecas fechadas, os festivais adiados, indigno-me perante a realização de um evento como Avante que vai reunir mais de 33mil pessoas que vão partilhar o mesmo espaço durante três dias, comer juntos e acampar durante a noite”.
E este adiamento da decisão final, quase em cima da hora da realização da festa (de 4 a 6 do próximo mês), é uma afronta para quem nela trabalha, noite e dia “pro bono”, para a sua realização, a não ser que o PCP tenha a certeza da sua realização por um segredo colhido nos corredores do governo. E este facto é tanto mais insólito por demonstrar o poderio do 4.º partido saído das eleições legislativas de 2019 sem que António Costa assopre o apito de árbitro pondo fim a um jogo altamente perigoso, em que em longos conciliábulos, ou meras conversas de chacha, entre esta força política e a ministra e a directora-geral da Saúde agacham-se elas perante este partido sendo adiada sua solução a favor do primeiro, perante o mutismo de António Costa deixando correr o marfim.
Posição diferente, com resultados excepcionais, tomou a Alemanha, pela voz corajosa e poderosa da sua chanceler, que tinha proibido festivais até 31 de Agosto deste mês, tendo alargada essa proibição até Novembro de 2020.
Será que na Alemanha existe o ditado desprezado em Portugal que “mais vale prevenir do que remediar”, apesar de em 16 de Abril deste ano ter havido naquele país apenas 315 mortos para na presente data esse número ter descido vertiginosamente para três? Tem a Alemanha cerca de oitenta milhões de habitantes, isto é oito vezes mais do que Portugal.
A área destes dois países é sensivelmente para a Alemanha de 377 mil quilómetros quadrados e para Portugal de 92 mil quilómetros quadrados.
Tempos houve que Portugal deu novos mundos ao mundo não querendo hoje, por orgulho ou estupidez desmedidos, aprender sobre a melhor forma de diminuir o número de vítimas do coronavírus (des)informando a população lusa com, senhores mui respeitáveis e outros nem tanto, em longas exposições esotéricas nos meios de comunicação social sobre esta temática em que nem eles se entendem entre si. Inditoso país em que a foice da morte encontra martelo, para matar à fartazana.
Por fim, repiso a pergunta do título deste meu texto:”Consummatum est” a Festa do Avante? "Ou é ela, em palavras pessoanas, “um cadáver que procria?” As respostas a ambas impõe-se em nome de uma Democracia em que é lícito um cidadão pedir explicações ao governo do seu país e por ele ser esclarecido sem jogadas de bastidores. Já chega de brincar ao gato e ao rato numa questão de declarada Saúde Pública e, muito menos, de com ela jogar perigosamente à roleta russa. “Alea jacta est”!
quinta-feira, 27 de agosto de 2020
H.G. WELLS, OS DIREITOS DO HOMEM E PORTUGAL
Minha recensão no jornal I de hoje:
https://ionline.sapo.pt/artigo/707008/h-g-wells-os-direitos-humanos-e-portugal?seccao=Mais_i
Nikias Skapinakis
Foi no C.O.M. de 1952-53, que conheci o Nikias Skapinakis, alto, magro, de óculos grossos e um bivaque mal enfiado, no alto da cabeça.
Em vez das elegantes botas altas usava, como eu, polainas de cabedal, pretas, alargadas na barriga da perna, idênticas às das praças da GNR. Mal fardado, era o oposto de alguns dos esbeltos e vistosos cadetes que, não fora a estrelinha que todos usávamos nos ombros da camisa ou do blusão, se confundiam com os jovens e elegantes oficiais subalternos nossos instrutores.
Em vez das elegantes botas altas usava, como eu, polainas de cabedal, pretas, alargadas na barriga da perna, idênticas às das praças da GNR. Mal fardado, era o oposto de alguns dos esbeltos e vistosos cadetes que, não fora a estrelinha que todos usávamos nos ombros da camisa ou do blusão, se confundiam com os jovens e elegantes oficiais subalternos nossos instrutores.
Este lisboeta de nascimento, cujo nome apontava a sua origem grega, e que, só muito depois, soube ser uma personalidade importante na pintura contemporânea, denunciou-se, desde logo, como um contestatário ao regime, frontal e tanto mais corajoso, quanto, então, era arriscado sê-lo e, sobretudo, mostrá-lo. Nunca falámos muito um com o outro, mas a análise que fiz a partir das posições que tomava, era evidente que, para ele, como para mim, aquela tropa que servíamos por obrigação era, na altura, como disse atrás, um dos sustentáculos do regime ilegítimo que conduzia os destinos de um Portugal amordaçado.
Conservo dele a memória de um militar por obrigação, um tanto introvertido, mal esgalhado numa farda que pouco lhe dizia.
Guardo ainda um esboço de retrato feito com caneta de tinta azul num pedaço de papel, apanhando-me de perfil, num daqueles serões, no Café Ribeiro, onde esperávamos pelo toque de recolher.
Esta relíquia, assim lhe posso chamar, cuja existência desconhecia, ofereceu-ma, quarenta e três anos depois, após nos termos reencontrado na exposição que apresentou no Museu do Chiado, em 1996.
Sempre alheio aquele mundo fardado, o cadete Nikias abordava, sempre que a oportunidade surgisse, assuntos então considerados tabu, relacionados com a vida política nacional ou internacional. Fazia-o, se fosse necessário, na frente dos superiores.
Destes, lembro-me, havia os que reagiam, patrioticamente, contrapondo-se-lhe, e os que prefeririam não o ter ouvido e que, numa situação desconfortável, não sabiam ou não queriam tomar posição.
A. Galopim de Carvalho
UM CRIME CONTRA O PATRIMÓNIO NATURAL
Neste momento estamos a viver um período em que temos outras urgências bem mais gritantes (a da saúde, a da economia…) não é oportuno insistir na concretização do projecto de construção do Museu e Centro de Interpretação de Pego Longo (Carenque), anexo à jazida com pegadas de dinossáurio, da antiga pedreira de Santa Luzia, aprovado pela autarquia sintrense em 2001, há, portanto, quase vinte anos.
Mas é necessário e urgente travar a degradação e destruição, em curso, da laje que contém as pegadas, protegendo eficazmente o que resta da jazida, na espera de melhores dias.
Mas também é necessário denunciar um crime contra um importante património natural, classificado oficialmente, como Monumento Natural, em 1897 (Decreto nº 19/97, de 5 de Maio), por proposta minha, enquanto director do Museu Nacional de História Natural.
E esse crime é o total abandono deste património, ao longo destes quase vinte anos, por parte dos responsáveis, por lei, em protegê-la, não obstante as muitas insistências que foram feiras, quer directa e pessoalmente, quer através da comunicação social.
Diz o Artigo 7º, do mesmo Decreto, que cabe ao Instituto de Conservação da Natureza “e das Florestas” e à Câmara Municipal de Sintra a fiscalização e, portanto, a protecção deste Monumento Natural.
A verdade é que, nestes quase 20 anos, gastos que foram cerca de 8 milhões de euros (na abertura dos dois túneis da CREL) a jazida está transformada numa autêntica lixeira, onde a vegetação arbustiva e arbórea cresce livremente, destruindo a delgada laje que contém as pegadas.
Lembremos que a dita laje corresponde a uma camada de calcário argiloso muito delgada (10 a 15 cm de espessura) e frágil, com cerca de duas centenas de pegadas, de onde sobressai, pela sua excepcional importância, um trilho com 132 metros de comprimento, no troço visível, formado por marcas subcirculares, com 50 a 60cm de diâmetro, atribuídas a um dinossáurio bípede.
Além deste, considerado, na altura (e ainda é), o mais longo trilho contínuo da Europa, identificaram-se, na mesma superfície, pegadas tridáctilas, atribuíveis a carnívoros (terópodes), parte delas igualmente organizadas em trilhos.
A topografia do terreno permite uma boa adaptação do local aos fins em vista, dispondo do lado SW de um pequeno relevo (residual da exploração da pedreira) adaptável, por excelência, a miradouro, de onde se pode observar, de um só golpe de vista e no conjunto, toda a camada – uma imensa laje pejada de pegadas – levemente basculada no sentido do local do observador, numa panorâmica de justificada e invulgar grandiosidade.
Sempre procurei mostrar que o grande potencial turístico deste Monumento Natural está ainda no facto de a jazida se situar na vizinhança de uma grande metrópole e numa região de intensa procura turística (Sintra, Queluz, Belas) e, ainda, o de ser servida por duas importantes rodovias, a via rápida Lisboa-Sintra (IC-19), por Queluz, e a Circular Regional Externa de Lisboa (CREL-A9) que a torna acessível pelo nó de Belas e, no futuro, mais comodamente, pelo de Colaride.
A. Galopim de Carvalho
quarta-feira, 26 de agosto de 2020
PORTUGAL, PAÍS DE ACHISMOS
“Tudo o que sucede, sucede por alguma razão”
(Gabriel Garcia Marquez).
Neste país há o culto exagerado da conjugação do verbo achar: “Eu acho, tu achas, ele acha”!
E logo surge da algibeira dos inúmeros “achistas” o milagroso “doutor Google” que com o simples carregar de teclas responde às mais complexas e simplórias perguntas da ciência, da cultura, das artes, do desporto como, por exemplo, ter chegado o dia milagroso, que perante a “complexidade” de saber, de cor e salteado, quem foi o primeiro Rei de Portugal se obtém como resposta, um momento que vou ver.
Vai daí, sacando da algibeira o telemóvel, do mais elevado topo de gama, que substitui o cérebro de galinha, encontra-se a milagrosa e complexa resposta, a exemplo das personagens dos filmes de cowboys americanos de antigamente que retiravam do coldre, com a rapidez de “Speedy Gonzalez”, o revólver para se defenderem de inimigos que punham em perigo a sua vida.
Ocorre-me ao caso, a picaresca estória do indivíduo que sentado na bancada de um estádio de futebol sentindo algo a cair-lhe em cima da cabeça levando a mão ao cocuruto, vira-se se para os amigos e diz: “Querem ver que parti a cabeça!” Falso alarme, não era massa sanguinolenta mas dejecto de pombo com disenteria.
Outra história me bate à porta da memória, esta que se contava na “Minerva” (Deusa da Sabedoria), conhecida livraria da antiga Lourenço Marques. Um tipo novo-rico pede para ver livros. Ao ser-lhe perguntado se tinha preferência por autores, responde que não, acrescentando quero tantos metros de livros de rica e vistosa encadernação para encher as prateleiras de uma luxuosa estante que mandei fazer.
Após me iniciar tardiamente no mundo imenso das novas tecnologias em que me sinto um náufrago de jangada na busca, com pouco ou nenhum êxito, que me leve a uma praia de “experiência de saber feito “ (Camões) em que possa trocar a minha tanga em farrapos por um traje decente, já nem falo por uma casaca preta do tipo do grilo falante do Pinóquio, mas apenas por um terno de ir à missa aos domingos e dias santos. Mas porque ”burro velho não aprende línguas”, no dizer sábio do povo, nem isso consegui tendo-me que contentar com a minha veste remendada com que naveguei à deriva em mares procelosos.
Se por acaso alguém souber, por um qualquer coscuvilheiro, que tenho em casa luxuosos volumes da Enciclopédia Portuguesa Brasileira, desde já esclareço que muitos dias e horas passei a folheá-la e a lê-la na busca esforçada de encontrar resposta para as minhas inquietações no alcance de uma luz que alumiasse a minha ignorância, ou resguardasse a minha memória do estudo de anos a cargo dos meus neurónios que, devido à minha idade avançada, tenho a obrigação de fazer descansar de falhas que a minha idade avançada justifica, embora me possa considerar um privilegiado nesse aspecto.
Aquilo que sei, para além do conhecimento escolar, e até mesmo esse, devo-a, em grande parte, a minha mãe (na fotografia aqui publicada), senhora de notável cultura literária profunda conhecedora e admiradora dos grandes vultos de escritores portugueses, com predilecção por Eça, vírus queirosiano que me deixou em herança que muito prezo e não só, como Émile Zola, de que me relatava as dores horríveis de uma das suas personagens que padecida de gota.
Para além disso, dominava ela, perfeitamente, de forma oral e escrita, para além da língua materna, francês, inglês, espanhol, italiano e russo. Da língua russa, conto o caso de um médico meu amigo de Lourenço Marques se me ter lamentado de aprender russo com a dificuldade de não encontrar nesta cidade alguém com pudesse trocar uma palavras.
Tive uma ideia salvadora! Como vais a Lisboa de graciosa (licença paga pelo Estado a funcionários públicos do Ultramar para gozarem férias, de tantos em tantos anos, em Portugal continental) dou-te a morada de minha mãe que sabe um pouco de russo. Regressado a Lourenço Marques, logo ele me procurou para, com júbilo incontido, me dizer: “Tua mãe não sabe um pouco de russo, sabe muito”!
Eu do pouco que sei, sem a modéstia do filósofo ateniense Sócrates, “só sei que nada sei”, devo-o, em parte, à minha progenitora com a exclusão das línguas estrangeiras de que sou um verdadeiro nabo com excepção do inglês e francês escritos que traduzo razoavelmente. Assim, por exemplo, sempre que lhe perguntava o significado de uma palavra mais esotérica, respondia-me vai ver ao dicionário a que eu contrapunha, agora não posso porque já vou atrasado para as aulas do liceu, sem que a minha desculpa a demovesse. Mas “rien de rien”, escreve num papel e quando regressares a casa vai ver ao dicionário.
Era minha mãe para além da sua cultura uma pedagoga de mão cheia, ensinando-me que o esforço compensa contrariando o princípio dos nossos dias de cotas para negros e brancos, homens e mulheres, inferiorizando à partida ambos com se não existisse entre eles cidadãos ocupando, por mérito próprio, lugares de topo dentro da hierarquia social sem necessidade de serem levados ao colo de uma sociedade complacente em contraste com o âmbito desportivo em que os lugares do pódio são apenas três para aqueles que lutam noite e dia, quer faça sol ou chuva, seja verão ou inverno para ascenderem a lugares de destaque e em que os negros têm um papel de grande relevo em corridas de velocidade no atletismo pelo facto do respectivo endomísio das fibras musculares ter maior teor de viscosidade.
Claro que no domínio do conhecimento cognitivo as diferenças serão esbatidas, ou mesmo desaparecidas, quando for possível pôr “cheaps” nas crianças ao nascer sem se tonar um negócio rendoso só acessível a progenitores de maiores meios de riqueza. Como costumo dizer a expressão de que o sol quando nasce é para todos sofre tratos de polé por a generalidade dos cidadãos gozarem o sol à soleira dos casebres e os privilegiados em hotéis de 5 estrelas nas ilhas Bermudas.
Bem mais democrático é o desporto que obedece ao princípio a cada um segundo as suas possibilidades em que os melhores jogam em clubes de futebol do topo mundial e outros em clubes da distrital dos respectivos países.
O princípio marxista "a cada um conforme as suas necessidades" entrou em falência pelo facto imoral da respectiva nomenklatura ter vários automóveis de luxo na garagem, luxuosas datchas e outros um simples pedaleira para se irem e virem do serviço com a algibeiras, no fim de um mês, em trabalhos árduos, com uma centenas de rublos que pouco valem em termo de euros.
No caminho que tracei para a minha vida nunca arredei, por maior que pudessem ter sido as vantagens, um milímetro que fosse da minha honra, porque acredito, como Jean-Jacques Rousseau, que “uma sociedade só é democrática quando ninguém for tão rico que possa comprar alguém e ninguém tão pobre que tenha de se vender a alguém”! É esta a sociedade que desejava para o meu país sem pretensões de educar o mundo, sonhando, apenas, em ser cidadão de uma sociedade sem pulhas!
Que triste se torna o meu acordar com o pesadelo da desgraçada realidade!
segunda-feira, 24 de agosto de 2020
A POLÉMICA PORTUGUESA DO SÉCULO XIX AOS DIAS DE HOJE
“Um dia, quando olhares para trás,
verás que os dias mais belos foram aqueles em que lutaste"
(Sigmund Freud)
A polémica com uma forte componente agonística tem raízes profundas na tradição portuguesa e no contexto europeu. Mas para que se afirme em toda a plenitude e riqueza argumentativa é condição, sine qua non, não haver despotismo que combata ferozmente a liberdade de expressão. Um ataque sem quartel a este direito teve lugar na Inglaterra, no decurso do século XVIII, quando o bispo e filósofo George Berkeley (1685-1753) escreveu e fez publicar, no jornal Guardian, uma série de artigos contra os livres pensadores.
Passado mais de um século, neste rectângulo peninsular assistiu-se a uma polémica de grande escândalo nacional com o encerramento das chamadas “Conferências do Casino”, por ordem do tristemente célebre ministro Ávila e Bolama. Este “acto tolo” (Antero) suscitou o protesto veemente dos seus organizadores: “Em nome da liberdade de pensamento, da liberdade da palavra, da liberdade de reunião, bases de todo o direito público, únicas garantias da justiça social, protestamos, ainda mais contristados que indignados, contra a portaria que manda arbitrariamente encerrar as salas das Conferências democráticas”.
Uma das finalidades consignadas no programa dessas conferências por doze dos seus doze mentores, rezava: “Abrir uma tribuna onde tenham voz as ideias e os trabalhos que caracterizam este movimento do século, preocupando-nos sobretudo com a transformação social, moral e política dos povos”. Sem desprimor para todos os outros subscritores, nesta tribuna de ideias e críticas sociais destacaram-se personalidades da vida cultural e política nacional como Eça, Antero, Teófilo Braga e Manuel de Arriaga que viria a ser o primeiro presidente da República Portuguesa sendo sucedido por Teófilo Braga.
Vivia-se então em plena época de ouro da polémica em Portugal em que pontuava a verrina de Camilo - segundo Jacinto Prado Coelho “o demónio da polémica violenta estava-lhe na massa do sangue” - arrogando-se ao direito “em não respeitar os tolos”. Igualmente, com a pujança da sua figura atlética, retratada por ele próprio quando diz ter nascido para “hércules de feira”, destaca-se a Ramalhal figura que “retesa o arco com toda a musculosa força da sua prosa” (João Maia) para escrever, de parceria com Eça, As Farpas.
Eça de Queiroz (1845-1900), pairando no domínio doutrinário, pugnou para que a polémica se desenrolasse num clima de plena igualdade entre os contendores: “Estabeleçam-se forças lisas e desatravanque-se a arena. Não se admitem cá tiaras que resguardem as frontes, nem degraus a que não seja lícito subir, nem púrpuras roçagantes em que seja fácil tropeçar. Os atletas querem-se nus como os típicos lutadores da estatuária grega”.
- As Grandes Polémicas Portuguesas, II volume, Editorial Verbo, Lisboa. 1967.
- As Farpas, coordenação geral e introdução de Maria Filomena Mónica, PRINCIPIA, Publicações universitárias e científicas S. João do Estoril, Cascais, 1.ª edição, 2004.
- As Polémicas de Camilo, recolha, prefácio e notas de Alexandre Cabral, tomos I,II e III, Portugália Editora, Lisboa 1967.
Os enigmas da "Narrativa da Educação do Século XXI" - 2
Agradeço à leitora Fátima André o comentário que teve a amabilidade de fazer ao texto Os enigmas da "Narrativa da Educação do Século XXI, no qual apresenta a informação que me permite escrever este apontamento.
Apelando aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) estabelecidos na Agenda 2030 das Nações Unidas, teve o foco, como se percebe, nos "desafios" que a pandemia colocou à "comunidade educativa global", os quais implicam necessariamente uma renovação tecnológica. Nas palavras da DGE:
[Os destinatários eram] responsáveis do setor da Educação, professores, responsáveis de recursos humanos, bem como profissionais de PME’s e grandes empresas, que procuram conhecer os mais recentes avanços, pesquisas e resultados educativos e tecnológicos face à crise da COVID-19. As temáticas [situaram-se] em quatro grandes blocos:Demorei algum tempo a percorrer a informação disponível e devo dizer que não encontrei nada de novo nem de interessante: repetiram-se, repisaram-se slogans superficiais, mistificações e contradições, ingredientes fundamentais da "narrativa da educação do século XXI".
- Desenvolvimentos exponenciais em Educação e Formação;
- Quarta revolução industrial: novos contextos, novas exigências;
- Inovação para uma Educação de qualidade e inclusiva na pós-pandemia;
- Iniciativas de impacto no desenvolvimento de novas competências cognitivas.
Importa, contudo, ver a intervenção desse representante da OCDE que incidiu (mais uma vez!!!) num slogan que é também um enigma "Educar os aprendizes para o seu futuro, não para o passado":
E, também, a intervenção do Ministro da Educação de Portugal:
Este evento terá continuação no Congresso Mundial Virtual Educa" que se realiza em Novembro deste ano em Lisboa (ver aqui e aqui).
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