quarta-feira, 20 de Agosto de 2014

"Não tem horário para o ano letivo 2014/2015..."

Sem comentários (porque não são precisos), reproduzo, parcialmente, um texto que um professor de Filosofia publicou por estes dias de Agosto (aqui).
"Fui hoje informado que no próximo ano letivo terei horário zero. Terei, portanto, que concorrer. Pelo que ouvi dizer, numa escola secundária de Faro há dois horários – sem filosofia, apenas com disciplinas dos cursos profissionais e outros similares. Vivo em Faro, mas se numa das cidade próximas existisse um horário com filosofia tentaria ir para lá. Infelizmente parece que não há.
Sou professor há vinte e dois anos. Dez deles, sendo os últimos nove consecutivos, na Escola Secundária de Pinheiro e Rosa. Tive Muito Bom numa avaliação e Excelente na outra. Nos anos que levei alunos a exame a média destes foi sempre superior à média nacional e melhor que a maioria das outras disciplinas da escola (...)
Descobri que a possibilidade de ter horário zero era elevada há semanas atrás, mas tinha ainda uma esperança remota e irrealista, para não dizer estúpida, de que isso não sucedesse. Quando há minutos li a frase “não tem horário para o ano letivo 2014/2015, pelo que tem de concorrer ao Destacamento por Ausência da Componente Letiva” lembrei-me do final do romance O Processo de Franz Kafka quando K., mortalmente apunhalado no coração, murmura “Como um cão!”. E senti-me apunhalado no coração. Mas não mortalmente. Mas não mortalmente." 
Carlos Pires

terça-feira, 19 de Agosto de 2014

Há sempre sol e céu azul acima das nuvens


Por mais negras e cerradas que sejam as nuvens, há sempre sol e céu azul por cima delas.

Esta afirmação é tão imediata e evidente que já vários a disseram ou escreveram, nesta ou noutra forma com idêntico sentido.

Vem ela a propósito de um pensamento que, nos últimos tempos, me assola constantemente, quer em casa, ao abrir os jornais ou durante os noticiários da rádio ou da TV, quer na rua, face aos comentários de muitos com quem todos os dias me cruzo. E esse pensamento envolve este Portugal a viver tempos de indecoroso aviltamento, mercê de uma certa elite, entre políticos e grandes nomes do direito e das finanças, que, de há décadas, numa promiscuidade interesseira, descarada e impune, nos está a conduzir, decidida e conscientemente, no caminho do empobrecimento económico e também, estupidamente, no do definhamento científico e cultural.

Tudo isto perante a passividade de um povo “imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio”, como escreveu o grande Guerra Junqueiro, há mais de um século, e sob a magistratura conivente de um Presidente da República que pouco mais de metade dos votantes (53,14%) colocaram no mais alto cargo do Estado, numa eleição em que quase metade dos eleitores se abstiveram.

Mantidos incultos, muitos deles analfabetos funcionais, alienados pelo futebol e pelos programas televisivos de entretenimento que nos impõem e nos entram pela casa dentro a toda a hora, e, ainda, marcados por receios antigos, são muitos os portugueses que não ousam questionar um poder que os despreza e maltrata e muitos também os que, sem saberem porquê, lhe fazem respeitosa e submissa vénia.

Como nos aviões que, ao ganharem altitude, atravessam a cobertura de nuvens e atingem o esplendor do pleno azul, temos de encontrar forma, dentro da democracia, de romper com esta triste escuridão em que, com excepção de uns tantos privilegiados, fomos levados a viver.
A. Galopim de Carvalho

domingo, 17 de Agosto de 2014

A avaliação segundo Shanghai

Mais um texto recebido do investigador anónimo que é nosso correspondente no estrangeiro sobre o assunto muito actual da "avaliação" da FCT:

Os rankings das universidades valem o que valem. Mas é evidente que ignorá-los pode ter consequências bastante graves. Por exemplo, muitos alunos potenciais guiar-se-ão pelos rankings na sua escolha de uma universidade onde prosseguir uma dada especialidade. Como consequência, uma universidade portuguesa terá uma maior probabilidade de atrair alunos estrangeiros se estiver bem posicionada nesses rankings.

É também claro que os rankings contêm informação. As universidades que aparecem no topo dos vários rankings são praticamente as mesmas e ninguém negará que se trata certamente de algumas das melhores do mundo, pelo que deve haver alguma correlação com a realidade.

Podemos ainda discutir se a ordem pela qual as universidades X e Y aparecem num ranking é correcta, mas diríamos que aí o que está errado é partir do princípio que existe uma ordem – o que muitos investigadores já faziam muito antes de existirem rankings de qualquer espécie.

Quem seguiu a publicação da edição de 2014 do Academic Ranking of World Universities, mais conhecido por ranking de Shanghai, no passado dia 15, terá certamente notado que não são boas notícias para a actual direcção da FCT.

Comecemos pelo mais óbvio. A única universidade portuguesa que aparece classificada em Física é a Universidade do Minho. Sim, precisamente uma daquelas onde a FCT quer acabar com o financiamento do centro de Física, com base no julgamento de um painel contendo três ou quatro físicos. De notar ainda que, para além da Matemática (que é a área específica mais bem classificada a nível nacional) e das Ciências da Computação, ambas na Universidade de Lisboa, não há mais nenhuma disciplina (específica) a nível nacional que apareça no ARWU.

Mas há mais. Na apresentação do programa do governo para a ciência e tecnologia a 24 de Abril de 2012 na Fundação Calouste Gulbenkian, a Secretária de Estado da Ciência afirmou explicitamente que até aí o financiamento público tinha favorecido a área das Engenharias sem que isso se reflectisse nos resultados. Concluiu que, como consequência, iria haver uma mudança nas prioridades onde esse financiamento seria aplicado.

Ora o que diz o ARWU no capítulo das grandes áreas científicas? A única em que surgem universidades portuguesas é, pasme-se, a da engenharia, onde há três universidades que aparecem entre as primeiras 200 (o número considerado por este ranking ao nível de grandes áreas ou áreas específicas):

U. Aveiro (Engenharias): 151-200
U. Lisboa (Engenharias): 76-100
U. Porto (Engenharias): 151-200

(os números indicados especificam que as universidades em questão surgem entre as posições dadas, nas quais não há diferenciação e onde os nomes são ordenados alfabeticamente)

Para sermos justos para com a Secretária de Estado, devemos chamar à atenção que foi apenas em 2013 que universidades portuguesas apareceram pela primeira vez na área das Engenharias no ARWU. Mas isso só mostra que estamos a lidar com um sistema com um atraso considerável, e que portanto devemos ter muito cuidado com as medidas que se tomam e não ser o proverbial touro numa loja de porcelana.

Voltando ao ranking deste ano, vemos que não há nada nas Ciências da Saúde, Médicas ou Sociais, nem ao nível das grande áreas nem ao nível das áreas específicas, como aliás em anos anteriores. De acordo com o ARWU, Portugal é inexistente nesses campos. Será que também necessita de uma harmonização como a que foi feita com as notas da avaliação em curso?

Se raciocinarmos como a actual direcção da FCT, podemos (e devemos) concluir que Engenharias, Ciências da Computação, Física e Matemática são as únicas áreas em Portugal que são excelentes e com visibilidade internacional. Citando António Coutinho, “a investigação em C&T globalizou-se e não existe qualidade quando a relevância é só local, regional ou nacional.” Continuando com a mesma lógica, concluíremos também que as restantes unidades de investigaçao são mediocres, na melhor das hipóteses com alguma dessa relevância local. Deverão, por isso, ser excluídas de receber qualquer financiamento público.

Obviamente que fazer isso seria um disparate completo, e a lista de erros que poderiam ser apontados à sequência que levou a essa conclusão seria enorme. De facto, seria quase tão grande como a lista de erros que têm sido apontados à avaliação em curso. Mas com uma diferença fundamental: acima não alterámos as regras nem fizemos batota para distorcer os resultados por forma a que se adaptassem às nossas ideias pré-concebidas.


É verdade que os rankings valem o que valem, mas que haja tantos dados e factos (não estamos apenas a falar dos relacionados com o ARWU, como é óbvio) que estão em oposição à visão da direcção da FCT sobre o panorama científico em Portugal ou o modo como uma avaliação deve ser levada a cabo, deveriam deixar qualquer um preocupado.

Um Sonho

"Oaristos", livro de poesia muito esquecido de
Eugénio de Castro, um poeta muito esquecido.

Nele há poemas como este de 1989: "Um sonho"

Como todos os poemas precisa de tempo.
Requer uma leitura, outra e outra...
até que as palavras e a sua musicalidade
fiquem com o leitor...


Um Sonho 

Na messe, que enlourece, estremece a quermesse...
O sol, o celestial girassol, esmorece...
E as cantilenas de serenos sons amenos
Fogem fluidas, fluindo à fina flor dos fenos...

As estrelas em seus halos
Brilham com brilhos sinistros...
Cornamusas e crotalos,
Cítolas, cítaras, sistros,
Soam suaves, sonolentos,
Sonolentos e suaves,
Em suaves,
Suaves, lentos lamentos
De acentos
Graves,
Suaves.

Flor! enquanto na messe estremece a quermesse
E o sol, o celestial girassol esmorece,
Deixemos estes sons tão serenos e amenos,
Fujamos, Flor! à flor destes floridos fenos...

Soam vesperais as Vésperas...
Uns com brilhos de alabastros,
Outros louros como nêsperas,
No céu pardo ardem os astros...

Como aqui se está bem! Além freme a quermesse...
 – Não sentes um gemer dolente que esmorece?
São os amantes delirantes que em amenos
Beijos se beijam, Flor! à flor dos frescos fenos...

As estrelas em seus halos
Brilham com brilhos sinistros...
Cornamusas e crotalos,
Cítólas, cítaras, sistros,
Soam suaves, sonolentos,
Sonolentos e suaves,
Em suaves,
Suaves, lentos lamentos
De acentos
Graves,
Suaves...

Esmaiece na messe o rumor da quermesse...
– Não ouves este ai que esmaiece e esmorece?
É um noivo a quem fugiu a Flor de olhos amenos,
E chora a sua morta, absorto, à flor dos fenos...

Soam vesperais as Vésperas...
Uns com brilhos de alabastros,
Outros louros como nêsperas,
No céu pardo ardem os astros...

Penumbra de veludo. Esmorece a quermesse...
Sob o meu braço lasso o meu Lírio esmorece...
Beijo-lhe os boreais belos lábios amenos,
Beijo que freme e foge à flor dos flóreos fenos...

As estrelas em seus halos
Brilham com brilhos sinistros...
Cornamusas e crotalos,
Cítolas, cítaras, sistros,
Soam suaves, sonolentos,
Sonolentos e suaves,
Em suaves,
Suaves, lentos lamentos
De acento
Graves,
Suaves...

Teus lábios de cinábrio, entreabre-os! Da quermesse
O rumor amolece, esmaiece, esmorece...
Dá-me que eu beije os teus' morenos e amenos
Peitos! Rolemos, Flor! à flor dos flóreos fenos...

Soam vesperais as Vêsperas...
Uns com brilhos de alabastros,
Outros louros como nêsperas,
No céu pardo ardem os astros...

Ah! não resistas mais a meus ais! Da quermesse
O atroador clangor, o rumor esmorece...
Rolemos, morena! em contactos amenos!
– Vibram três tiros à florida flor dos fenos...

As estrelas em seus halos
Brilham com brilhos sinistros...
Cornamusas e crotalos,
Citolas, cítaras, sistros,
Soam suaves, sonolentos,
Sonolentos e suaves,
Em suaves,
Suaves, lentos lamentos
De acentos
Graves,
Suaves...

Três da manhã. Desperto incerto... E essa quermesse?
E a Flor que sonho? e o sonho? Ah! tudo isso esmorece!
No meu quarto uma luz luz com lumes amenos,
Chora o vento lá fora, à flor dos flóreos fenos...

Sociedade Portuguesa de Matemática também contra a "avaliação" da FCT

Para quem esteja menos atento, lembro que o recente comunicado da Comissão Nacional de Matemática aqui divulgado reflecte a posição da Sociedade Portuguesa de Matemática muito crítica  à "avaliação" da FCT das unidades de investigação.

Já se sabia a posição do novo Presidente da SPM, mas agora é oficial. Aquela sociedade juntou-se às Sociedades Portuguesas de Física, de Química e de Filosofia, para já não falar de outras associações, que levantaram a voz da ciência contra o esquema a que podemos chamar "pseudo-ciência" que a FCT quer instalar entre nós. A organização de que Nuno Crato não há muito tempo foi Presidente distancia-se assim do seu anterior dirigente que, ocupando hoje um cargo ministerial, esqueceu tanto as suas origens, como os seus estandartes e os seus companheiros de jornada.

Academic Ranking of World Universities 2014 Press Release

De Xangai chegam notícias dos mais recentes rankings universitários. As melhores universidades portuguesas são, por esta ordem, Lisboa, Porto e Coimbra. Grande azar para a FCT: Nos rankings por disciplina aparecem as Engenharias da Universidade de Lisboa (onde está a sede do Instituto de Telecomunicações que foi chumbado pela FCT), a Matemática  da Universidade de Lisboa (onde a FCT chumbou vários centros) e a Física da Universidade do Minho  (cujo Centro de Física foi também chumbado pela FCT). Isto é, o que a FCT diz que é medíocre é aquilo que os melhores rankings internacionais dizem que é excelente! É entre outras, por essa razão que a "avaliação" da FCT tem de ser escrita entre aspas: usa o nome de avaliação sem que a designação tenha a ver com o conceito internacionalmente aceite. Quem quer verdadeiramente uma avaliação, tem de rejeitar a "avaliação" da actual FCT. 

"The 2014 Academic Ranking of World Universities (ARWU) is released on August 15th by the Center for World-Class Universities at Shanghai Jiao Tong University. Starting from 2003, ARWU has been presenting the world Top 500 universities annually based on transparent methodology and reliable data. It has been recognized as the precursor of global university rankings and the most trustworthy one. 

Who are the best? 

Harvard University remains the number one in the world for the 12th year, other Top 10 universities are: Stanford, MIT, Berkeley, Cambridge, Princeton, Caltech, Columbia, Chicago and Oxford. ETH Zurich (19th) takes first place in Continental Europe, followed by Pierre & Marie Curie (35th), University of Copenhagen (39th) overtakes Paris-Sud (42nd) in France as the third best university in Continental Europe. University of Tokyo (21st) and Kyoto University (26th) top other universities in Asia. University of Melbourne (44th) becomes the highest ranked university in this region in the history of ARWU. 

EPFL’s first appearance in Top 100 (96th) increases the number of Top 100 universities in Switzerland to 5, which is the 3rd highest number across all countries. UC Santa Cruz (93rd), KU Leuven (96th), Georgia Tech (99th) and VU University Amsterdam (100th) enter the Top 100 list for the first time. There are totally 25 universities breaking into the Top 500 list in 2014, among which Deakin University in Australia and other nine universities make their first appearance. 


Top 5 Universities in Each Field and Subject 

The Center for World-Class Universities also releases the 2014 Academic Ranking of World Universities by Broad Subject Fields (ARWU-FIELD) and 2014 Academic Ranking of World Universities by Subject Fields (ARWU-SUBJECT). Top 200 universities in five broad subject fields and in five selected subject fields are listed, where the best five universities are: 

Natural Sciences and Mathematics: 
Berkeley, Harvard, Princeton, Stanford and Caltech 

Engineering/Technology and Computer Sciences: 
MIT, Stanford, Berkeley, UIUC and UT Austin 

Life and Agriculture Sciences: 
Harvard, Cambridge, Stanford, MIT and UC San Francisco 

Clinical Medicine and Pharmacy: 
Harvard, UC San Francisco, Washington (Seattle), Johns Hopkins and Stanford 

Social Sciences: 
Harvard, Chicago, MIT, Berkeley and Columbia 

Mathematics: 
Princeton, Harvard, Berkeley, Pierre & Marie Curie and Stanford 

Physics: 
Berkeley, Princeton, MIT, Harvard and Caltech 

Chemistry: 
Berkeley, Harvard, Stanford, Northwestern (Evanston) and Cambridge 

Computer Science: 
Stanford, MIT, Berkeley, Harvard and Princeton 

Economics/Business: 
Harvard, Chicago, MIT, Berkeley and Princeton 


The complete lists and detailed methodologies can be found at the Academic Ranking of World Universities website at www.ShanghaiRanking.com.   G

Jorge Buescu escreve sobre as novas medalhas Fields

Depois das acertadas previsões, Jorge Buescu escreve sobre as mais recentes medalhas Fields no Observador:

sábado, 16 de Agosto de 2014

Pensar Outra Vez



O meu livro Pensar Outra Vez: Filosofia, Valor e Verdade, está só hoje com desconto de 70% na Amazon, e apenas na versão Kindle. E está em 5.º lugar no top de vendas. Obrigado a todos os leitores!




sexta-feira, 15 de Agosto de 2014

A CASA DA MINHA AVÓ

A avó Isabel foi o meu primeiro contacto com uma pessoa, nesse tempo, considerada idosa, teria ela sessenta e poucos anos. A sua imagem está entre as minhas primeiras tomadas de consciência do mundo que me rodeava, tinha eu dois para três anos. Sempre de preto, dos sapatos ao lenço, como mandavam os usos que se vestissem as viúvas, a mãe da minha mãe foi a única, de entre os meus avós, com quem me foi dado conviver. O marido, o avô Vicente, que já não conheci, era oriundo da região de Alcanede, de uma família de curtidores de peles e, também ele, curtidor de profissão.

Mãe de sete filhos, a todos criou, dentro dos condicionalismos do tempo e das suas limitadas posses.

Quando a conheci, esta minha avó vivia só, numa velha casa da rua de Frei Braz, em Évora. De pavimento já empedrado nessa altura, esta rua representava um avanço considerável sobre muitas outras da cidade, então ainda de terra batida, com calcetamento apenas nas regueiras, uma de cada lado, sob os beirais. Ficou-me esta casa, entretanto demolida, bem mais gravada na memória do que a dos meus pais, onde vivia com mais quatro irmãos, todos mais velhos do que eu, situada na mesma rua, três portas mais acima.

Vinda de finais do século XVIII, nela se entrava por uma grossa porta de madeira com postigo. Esverdeada, no tom que restava de uma velha pintura, tinha uma fechadura enorme e um pesado batente de ferro. Por cima, no primeiro andar, uma janela de peito. Do lado direito da fachada, saliente da parede, sempre caiada de branco, subia a chaminé, larga e bem acima do telhado. Num prego, a meia altura, ao lado da ombreira da porta, uma gaiola com um pintassilgo. Sobre o parapeito da janela, do lado de fora, um “craveiro” com “malvas” e um outro com brincos-de-rainha. A avó chamava craveiro a qualquer vaso para plantas, e malvas às sardinheiras vermelhas. Por detrás das vidraças, alvejavam as cortinas de croché, com os desenhos de dois pavões virados um para o outro, rodeados de motivos florais um tanto geométricos.

A casa tinha quatro divisões em dois pisos. Duas ficavam no rés-do-chão, a de entrada, servindo simultaneamente de cozinha e de sala de todas as serventias, e uma outra, interior. Sempre aberta, a porta da rua, meio escancarada durante o dia, como única fonte de iluminação, dava-nos a liberdade de entrar e sair vezes sem fim entre o brincar e o pedir pão ou água. No poial, ao fundo desta divisão, as bilhas de barro vermelho, tapados com um texto também de barro, tinham sempre água fresca com um sabor a terra, muito especial e apreciado. Junto deles, sempre à mão, o copo de água, de vidro grosso com relevos, tinha forma de campânula e pé alto e estava sempre tapado com um pequeno napperon. Atrás, empinados à parede, arrumavam-se os alguidares de barro vidrado.

Com tampo de lousa, o “pial”, como dizia a avó, era uma espécie de balcão de alvenaria, construído junto de uma parede, com espaços abobadados por baixo – as buracas – onde se guardavam diversos utensílios de cozinha, louças de barro e outras.

– Tapa o copo, por causa dessas malditas moscas! – Recomendava a avó sempre que um dos netos entrava para beber, esbraseado pelo calor e pelas correrias.

O poço da casa ficava nesta divisão, no vão da escada que subia para os quartos. Coberto com uma grande tampa de madeira e sempre muito caiado, deixava ver as capas sucessivas de tanta caiança. Ao lado, no rebordo, o balde com a respectiva corda e o cesto de arame que servia para nele se descer, a refrescar, melões, melancias ou uma garrafa de vinho. Por cima, num prego, pendurava-se a fateixa, espécie de âncora ou gancho de muita utilidade para trazer de volta o balde que, escapando-se a corda das mãos, muitas vezes, se deixava cair ao fundo e que aí ficaria confirmando os princípios de Newton e de Arquimedes.

– Saiam “d’ó pé” do poço! – Ordenava a avó sempre que, destapando-o, espreitávamos a rodela de espelho, lá em baixo, onde mal se desenhavam os contornos das nossas cabeças que fazíamos tremer, lançando-lhe pequenas pedrinhas. Tinha um gosto particular esta água do poço da avó. Era salobra, como ela dizia, e muito boa para ajudar a digestão, ou para “desmoer” o almoço, na sua maneira de falar.

A chaminé, grande e própria para lume de chão, tinha varas suspensas onde, em vida do avô, no tempo da matança, se enfiavam os enchidos a pendurar ao fumeiro. Nela cabia uma pequena mesa com uma gavetinha para os talheres, onde se podia almoçar ou jantar confortavelmente sentado numa cadeirinha baixa, ao pé do borralho. De Inverno era bom sentarmo-nos todos em roda do lume, uns em cadeirinhas outras em mochos, ouvindo histórias, embalados no crepitar da lenha, presos os olhos na luz azul-lilás saída de entre os paus de azinho, apoiados num grande toro. Este madeiro, no geral também de azinho e às vezes de sobro, era encostado à “boneca”, ao centro e ao fundo da chaminé. Reminiscência do passado, a boneca era uma espécie de figura antropomórfica de pedra ou de tijoleira, um pouco saliente da parede caiada, protegendo-a do calor e do negro dos fumos.

Às vezes, nas brasas do borralho, assavam-se pedaços de toucinho, de farinheira ou de chouriço, misturando o odor que exalavam ao da lenha a arder. Comia-se com pão caseiro e café de cevada, feito ali, numa chocolateira de barro a que se juntava, no fim, uma brasinha para assentar o pé.

– Não mexas no lume! – Ralhava a avó a todo aquele que, insistindo para além do necessário, mexericava nos tições do braseiro. – Quem mexe no lume faz xixi na cama! – advertia ela, tentando fazer-nos acreditar naquela relação causa-efeito.

Passado o rigor do Inverno, não se acendia a lareira e os cozinhados era feitos num fogareiro a carvão. Nas noites mais amenas, a avó e outras vizinhas levavam para a rua, cada uma, a sua cadeirinha baixa, e aí ficavam conversando, enquanto a miudagem dava largas à energia, sempre muita, brincando e correndo. Nessa altura já havia iluminação pública que, embora muito fraca, permitia este tipo de confraternização. Muitas casas já estavam electrificadas, mas esta vinha de outros tempos e, para o que ali se fazia à noite (a avó não sabia ler) bastavam o candeeiro de petróleo sobre a mesa, para que se visse onde se estava e onde se mexia, e a palmatória com uma vela, que se acendia para subir aos quartos.

Nesse tempo não havia televisão e a rádio ainda estava longe de entrar nas casas de família. O cinema já existia, mas ainda não tinha chegado à cidade. Assim, os contos e as histórias que se contavam e ouviam, ou as conversas que se faziam, eram os nossos folhetins radiofónicos ou as nossas telenovelas. Eram os contos de final feliz, mas também histórias de meter medo, com bruxas, feiticeiras, ladrões e salteadores. Que arrepios no alto da cabeça e pela espinha abaixo!

O chão de todas as divisões era de ladrilhos quadrados e grandes. No Verão, quando eram molhados para se varrer ou, simplesmente, para refrescar a casa, exalavam o mesmo cheiro das bilhas com água. Muito gastos, deixavam sobressair em acentuado e incómodo relevo os seixos contidos no barro mal cuidado de que eram feitos. A casa de entrada era o espaço principal, funcionando como cozinha e casa de estar. Podia, ainda, reunir todos os netos à mesa, pois que tinha também os cómodos precisos numa casa de jantar. Para funcionar ainda como sala de visitas esta mesma divisão dispunha de um elegante canapé com quatro almofadas de veludo e cetim, pintadas à mão.

Nas paredes, emolduradas, duas gravuras de muita estimação. Uma era alusiva à Proclamação da República,

e outra à travessia aérea do Atlântico Sul, com os retratos do Gago Coutinho e do Sacadura Cabral e um belo hidroavião, ao centro.

O tecto desta divisão era formado por conjuntos de grossas traves de madeira colocadas no sentido transversal da casa, suportando uma outra fiada de traves mais finas, cruzadas com as anteriores, sobre as quais assentavam outros ladrilhos. Na outra divisão térrea, a selha de lavar a roupa era feita de meias aduelas de madeira sustidas por aros de ferro, como nas pipas de vinho. Quase sempre com água de sabão usada, enchia o ambiente de um cheiro húmido, característico e inesquecível.

Num canto, tapado com uma tampa de madeira, estava o indispensável pote, ou «tigela da casa», como se lhe chamava, e que, todos os dias, a avó lançava na pia dos despejos, deitando-lhe depois, no fundo, por causa dos maus cheiros, um pouco de água e uma golada de creolina que íamos comprar à drogaria. Nas situações em que fosse necessário perfumar a casa, colocava-se alecrim na pá do lixo, nesse tempo de folha de ferro, e sobre ele, uma brasa. De pá na mão, deixando libertar os fumos, percorriam-se as divisões necessitadas desse cuidado.

As duas divisões do piso superior eram o quarto da avó, com janela para a rua, e uma outra, interior, de arrumações. No quarto, a cómoda, de pinho e sem estilo, onde uma lamparina de azeite, sempre acesa, tremeluzia junto aos santinhos da devoção da avó, era a peça importante do mobiliário. Tinha três grandes e fundas gavetas onde ela guardava as roupas, perfumadas com saquinhos de pano fino cheios de alfazema ou de rosmaninho. Coberta com uma toalha orlada de renda, feita à medida do móvel, mais parecia um altar. Aliás, era essa a intenção da mãe da minha mãe que, apesar de muito temente a Deus, não ia à missa nem se confessava porque, para ela, um padre era sempre um homem como outro qualquer. Suportada por dois cavaletes, uma velha arca de madeira, forrada de cabedal ressequido e ornada de preguetas amarelas, guardavam roupas antigas, sem uso, perfumadas com saquinhos de alfazema e amarelecidas pelos anos.

Perto da janela, a cama de ferro tinha com enxergão de palha de centeio, sobre o qual assentava o colchão de lã, fofo e quente. Os lençóis eram de linho, com bordados de abertos na dobra, e a colcha, de renda, feita com fio de algodão muito grosso, tinha cadilhos até ao chão. Sobre a cabeceira da cama via-se uma oleogravura emoldurada com uma imagem de Jesus, deixando ver as chagas da crucificação e exibindo o Seu Sagrado Coração, cravado de espinhos, irradiando fios de luz.

Para uso nas suas orações da noite, a avó tinha, suspenso numa das maçanetas de latão, da cabeceira, um terço benzido, trazido de Fátima por uma vizinha e amiga que ali fora em peregrinação. De um dos lados da cama a “banquinha-de-cabeceira” tinha o tampo de mármore parcialmente coberto com um napperon de renda. Sobre ele um pequeno crucifixo com a imagem em casquinha prateada e a cruz em madeira lacada a preto, muito leve. Ao lado, a palmatória de estanho com uma vela de cera e a caixa dos fósforos. Havia ainda ali a garrafinha de água em vidro acobreado com florinhas pintadas, daquelas com prato por baixo e copo emborcado no gargalo, que a mãe lhe comprara na feira de S. João.

O lavatório era uma armação de ferro pintada de branco, com jarro de faiança, tapado com mais outro napperon, bacia da mesma loiça e balde de ferro zincado, que era preciso despejar regularmente. Por cima do balde, numa base circular, estavam a saboneteira de loiça e uma escova de cabelo com um pente cravado. De cada lado tinha suspensas duas toalhas de rosto, em linho grosso e de cor crua, com lindos cadilhos, ali colocadas só para fazer decoração. Em frente, colado à parede, havia um pequeno espelho numa moldura branca com um friso dourado. Duas cadeiras holandesas com fundo de palhinha completavam o mobiliário.

O quarto interior era o das arrumações. Além de mais duas grandes arcas, tinha duas camas de ferro onde, algumas vezes, um ou outro dos netos dormia. Era aí que estava o lavatório com as toalhas de uso, onde, sempre à pressa, me lavei mal e porcamente, numa operação que consistia em molhar os olhos com as pontas dos dedos e encharcar o cabelo para que, penteado e brilhante de água, me desse um certo ar de asseio. Nas manhãs desses dias, a avó fazia-me papas com farinha, água, uma colherzinha de banha de porco, em sua opinião, “para dar sustento”, e uma casquinha de limão. No borralho da chaminé, mexendo sempre com a colher de pau, vigiava-as até engrossarem. Na fase final, a libertação do vapor, vencendo a viscosidade da mistura, começava a fazer bolhas espessas e sonoras.

– Já está a dar bufas! – dizia, logo que as via rebentar, grandes, lentas e grossas.

Aí, juntava-lhes umas colheres de açúcar amarelo, que era o que havia, e mexia-as bem durante um tempo sabiamente calculado. Retirava-as, por fim, do lume e vazava-as nuns pratinhos rasos para arrefecerem mais depressa. Mais açúcar, agora só para as polvilhar por cima e, por fim, canela, a fazer enfeites.

Já frias, mas não muito, porque a pressa de as provar as não deixava arrefecer, rijas na colher que as trazia à boca, capinha bem doce, da última dose de açúcar, e perfumadas pela canela, não havia manjar como aquele.

Ainda hoje as faço, não com água mas com leite, nesse tempo um bem raro, e não lhes ponho banha, porque o sustento, sabemos hoje, não está na gordura.
A. Galopim de Carvalho

quinta-feira, 14 de Agosto de 2014

Comunicado da Comissão Nacional de Matemática sobre o processo de avaliação em curso das unidades de investigação financiadas pela Fundação para a Ciência e Tecnologia

A Comissão Nacional de Matemática (CNM) foi criada por despacho do Ministro da Ciência e Tecnologia a 27 de Março de 2002, tendo como objectivo principal estabelecer a ligação entre a comunidade nacional de investigadores na área de matemática e a União Matemática Internacional (IMU). Para cumprir esse objectivo, a CNM é composta por um representante de cada um dos centros de investigação em matemática acreditados pela FCT, e por um representante da Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM) e outro da Sociedade Portuguesa de Estatística (SPE).

A CNM encontra-se portanto numa posição ímpar no panorama nacional no sentido em que é provavelmente a única associação que reúne formalmente todos os centros financiados pela FCT numa área específica. Isto permite-lhe ter uma visão global tanto da área a nível nacional como desta avaliação em particular.

Os centros que compõem a comissão estão, como todas as outras unidades de investigação no país, habituados a ser avaliados periodicamente e consideram essa avaliação como fundamental para o seu desenvolvimento, devendo os seus resultados implicar uma diferenciação a nível do financiamento de cada unidade.

Essa diferenciação no financiamento deve, no entanto, ter como objectivo a optimização do crescimento qualitativo e quantitativo da investigação de forma global e sustentada a nível nacional. Não deve, ao concentrar de forma artificial e descontínua o financiamento num número reduzido de unidades, ter como consequência o esvaziamento do que se faz nas diferentes zonas geográficas onde vários investigadores continuarão a existir mas sem os recursos que lhes permitam contribuir para esse crescimento. Não deve, também, levar a afunilamentos ao nível das sub-áreas científicas.

Tudo isto torna-se ainda mais relevante quando o único indicador que apresenta uma correlação forte com a passagem à segunda fase é a dimensão da unidade – aqui é importante sublinhar que a noção de massa crítica em matemática não é a mesma nem tem as mesmas consequências que no caso, por exemplo, de uma disciplina experimental.

A percepção bastante completa que a CNM tem da qualidade dos centros de matemática existentes em Portugal que se apresentaram a esta avaliação não é de todo compatível com os resultados divulgados que levaram à separação que foi feita na primeira fase.

A CNM quer deixar bem claro que não é apenas o financiamento em si que está em causa, mas também a forma como esta avaliação amplificou diferenças entre os centros muito para além do que considera aceitável. Um reflexo disso está na afirmação, da parte da FCT, que os centros que não transitaram para a segunda fase terão ajuda para se re-estruturarem, quando, de facto, as diferenças para outros que passaram à segunda fase são mínimas.

Ao fazer tábua rasa de toda a experiência acumulada em avaliações internacionais anteriores, as quais tiveram um impacto extremamente positivo no aumento da qualidade da investigação em matemática produzida em Portugal, corre-se o risco de introduzir sérias descontinuidades no sistema e de voltar a cometer alguns dos erros iniciais dos quais os mais flagrantes foram certamente o desconhecimento do enquadramento nacional da investigação e enviesamentos em relação a certas áreas da matemática.

A título de exemplo desta última situação na avaliação em curso, podemos mencionar a área da estatística, actualmente em forte expansão internacional devido, por exemplo, à sua importância no tratamento de dados que fazem cada vez mais parte do nosso dia-a-dia. Um dos centros mais importantes em estatística no país, e de facto o único exclusivamente da área, o Centro de Estatística e Aplicações da Universidade de Lisboa, foi afastado da segunda fase, não obstante a avaliação dos três relatores ter colocado a unidade em termos absolutos claramente acima dos mínimos necessários. A unidade foi, no entanto, eliminada pelo painel, apesar de este não ter nenhum especialista na área.

Isto está, aliás, relacionado com a deficiente cobertura das diferentes sub-áreas que o processo actual proporciona, ao incluir apenas três matemáticos no painel. Não se percebe a vantagem da passagem de um sistema de avaliação com um painel internacional exclusivo na área da matemática composto por 15 matemáticos como na avaliação anterior, o qual tinha uma visão global das diferentes unidades, para um processo onde um painel já de si reduzido avalia áreas bastante diferentes como a química e a matemática. Isto é agravado pelo facto de não se perceber qual o papel dos peritos externos que foram consultados, uma vez que com uma frequência não negligenciável os painéis optaram por ignorar os seus pareceres.

Acresce ainda que, ao nível da execução, a avaliação da qualidade do trabalho de investigação parece ter sido pouco profunda e estar a ser feita essencialmente com base no prestígio percebido pelo painel das revistas onde se publica; a subjectividade de tal apreciação é patente nos diferentes destaques dados nos pareceres e nos relatórios apresentados. Por outro lado, o painel abstém-se de mencionar algumas das mesmas revistas no caso de relatórios de centros que não propõe para passar à segunda fase.

A ênfase dada pelo relatório de consenso à estratégia de contratação nalguns casos leva a crer que o painel julga estar em causa financiamento para a contratação de investigadores, quando só bolsas temporárias estão envolvidas, ou que as unidades de investigação têm um papel directo em contratações a longo prazo. E como algumas das questões formuladas nesse relatório fazem prever, corre-se o risco de parte da discussão durante as visitas se centrar em questões que ultrapassam completamente as competências e as disponibilidades financeiras da gestão dos centros.

É difícil não concluir que o painel não dispunha da informação necessária sobre o modo de funcionamento das unidades de investigação no país, a sua integração nas universidades e outros pontos fundamentais para poder fazer uma avaliação informada.

Estes são apenas alguns dos muitos pontos pouco claros no modo como a primeira fase da avaliação foi programada e que nos colocam sérias reservas sobre a sua robustez e fiabilidade, mesmo em relação aos propósitos enunciados, e para os quais consideramos não ter havido, até agora, os esclarecimentos devidos da parte da FCT que se limita a negar os factos apontados.

A CNM está também extremamente preocupada com o futuro dos investigadores pertencentes aos centros que não passaram à segunda fase. Os fundos disponibilizados são, claramente, insuficientes para permitir o tipo de interacções necessárias a nível internacional para um desenvolvimento continuado e não endogâmico. Isso já é verdade para investigadores estabelecidos e com projecção internacional, mas toma proporções muito mais graves no caso de jovens investigadores para quem não se pode esperar que todas as despesas com deslocações e convites sejam cobertas pelas instituições estrangeiras ou pela organização de conferências. Aliás, e aquando da discussão pública do documento que estabelece as regras da presente avaliação, várias instituições chamaram à atenção da FCT para o facto de a remoção de um financiamento base continuado que permita a cada centro manter-se minimamente activo seria um erro com consequências dramáticas. 

comunidade de matemáticos profissionais em Portugal, como em qualquer outra parte do mundo, não se compõe apenas de grupos isolados, e muito menos apenas de grupos excepcionais. As interacções entre investigadores de diferentes unidades são também fundamentais, tanto a nível científico como de realizações comunitárias. Estas últimas serão certamente afectadas a curto prazo com esta opção política. Desde a organização conjunta de conferências à assinatura de bases de dados bibliográficas, todas irão sofrer em maior ou menor grau. E mais uma vez não se trata apenas de uma questão financeira, mas também da percepção da existência de uma comunidade que fica em risco com uma intervenção deste tipo.

A CNM não pode pois deixar de ver com grande apreensão a continuação deste processo de avaliação, considerando que não estão garantidas condições que proporcionem a estabilidade necessária e a optimização de um desenvolvimento global continuado da investigação em matemática a nível nacional, como tem sido o caso nos últimos 20 anos.

CNM, 8 de Agosto de 2014 

Livros com Química: O Conde de Monte Cristo de Alexande Dumas


Nos textos que tenho aqui publicado sobre as relações entre a química e a literatura tenho evitado as referências (mais ou menos óbvias) a livros em que a química está ligada a venenos. Uma nova leitura ao Conde de Monte Cristo de Alexandre Dumas, livro datado de 1844, fez-me mudar de ideias. Não só existem neste livro aspectos detalhados e muito positivos sobre a química, como as questões levantadas pelos venenos referidos são muito mais interessante do que pareceria à primeira vista.

Na Prisão de If, Edmond Dantès conhece o abade Faria de origem italiana, notável personagem inspirada numa outra real e com o mesmo nome mas de origem portuguesa, segundo um notável estudo do Professor Egas Moniz. Faria mostra a Dantès, o qual depois de escapar da prisão assume o nome de conde de Monte Cristo, como conseguiu na prisão, com os seus conhecimentos de química, obter folhas em quantidade para escrever a partir de uma camisa, fazer velas a partir de gordura dos alimentos e fabricar tinta a partir da fuligem. Ao longo de toda a história, o Conde de Monte Cristo apresenta-se como químico amador que tem um remédio maravilhoso (que nunca sabemos bem o que é), o qual em pequena quantidade cura mas em grande quantidade mata.

Há muitos outros aspectos químicos que podem ser explorados neste livro, mas aqui vou referir apenas a brucina, um veneno muito presente no livro, o qual sabemos hoje ser obtido das mesmas espécies de árvores de onde se obtém a estricnina. Umas décadas antes da publicação do livro, a brucina tornou-se tristemente famosa devido a uma fraude com consequências trágicas, contada em detalhe por John Buckingham em Bitter Nemesis: The Intimate History of Strychnine, de 2007. Um elixir amargo similar ao de casca de chichona (que contém quinina), mas sem as propriedades curativas deste, o qual era obtido a partir da casca de uma árvore denominada angostura, causou várias mortes por altura de 1800. A causa dessas mortes foi associada a uma suposta falsa angustura que durante muito tempo não se soube de onde provinha. Quando se pensou ter identificado essa árvore como sendo uma Brucea, Pelletier e Caventou, que haviam já identificado a estricnina nas árvores do género Strychnos, analisaram a casca dessa árvore e encontraram uma substância muito similar à estricnica que denominaram brucina. De facto, embora os dois compostos parecessem de ter vindo de árvores diferentes, só em 1937 se confirmou que Pelletier e Caventou tinham analisado partes diferentes do mesmo tipo de árvore do género Strychnos. Além disso, a estricnina obtida por estes químicos continha brucina como mais tarde se verificou. Muito medicamentos da altura, supostamente de estricnina, continham também brucina, sendo a dosagem assim, durante bastante tempo, um problema delicado e perigoso.

Não sabemos se Alexande Dumas estaria informado dos últimos desenvolvimentos sobre a origem da brucina, pois no livro ainda refere a sua origem a partir da falsa Angustura. Em qualquer dos casos, a novidade e os aspectos misteriosos da origem deste veneno, assim como as suas propriedades e os testes com ácidos que confirmam a sua presença, devem tê-lo fascinado e por isso preferiu dar-lhe mais importância do que à estricnina, a qual é mais venenosa do que a brucina. De facto, além de menos tóxica, a brucina é detectável de forma mais fácil do que a estricnina por reacção com ácidos fortes, sob a acção dos quais origina compostos com uma forte cor vermelha, um aspecto referido por Alexandre Dumas no livro. Em qualquer dos casos, os sintomas são idênticos e facilmente identificáveis, sendo só vagamente semelhantes aos do tétano.

Jock Murray no artigo Medicine in Alexandre Dumas père's The Count of Monte Cristo, de 2002, cita as memórias de Alexandre Dumas para apontar como fonte das informações sobre química e medicina presentes neste livro um jovem médico, o Dr. Thibaud. Além dos apsectos médicos, Murray comenta ainda ser surpreendente que um livro referido como sendo de literatura juvenil contenha, entre outras coisas, uma envenenadora em série, dois infanticídios, assassinatos e mortes em abundância, três suicídios, cenas de tortura e execução, drogas e fantasias sexuais envolvendo drogas, travestismo e lesbianismo, aspectos que terão sido suavizados nas traduções inglesas. Encontramos, no entanto, níveis de violência da mesma ordem noutros livros de literatura juvenil do século XIX, por exemplo nos de Emilio Salgari, o que, em qualquer dos casos, não agradava nada aos moralistas da altura.

terça-feira, 12 de Agosto de 2014

Verdade e razão em democracia

Em tempos de intensa manipulação e omissão de informação que a todos diz respeito e de propaganda feroz (que se vê aumentar à medida que a informação objectiva e honesta diminui), em tempos de grande fragilidade democrática (daí resultante, não obstante a reiterada afirmação de normalidade política e social) é importante (mais importante do que em circunstâncias menos adversas) ler ou voltar a ler quem pensou nas particularidades de tempos semelhantes.

Depois da II Grande Guerra, e muito em virtude dela, Aldous Huxley escreveu um livro que tem por título Regresso ao Admirável Mundo Novo (a publicação original é de 1959 e em português de 2004, Livros do Brasil). Nesse livro, na página 106, diz o seguinte:

“A sobrevivência da democracia depende da aptidão de grandes maiorias para fazerem escolhas de modo realista à luz de uma informação sólida. Uma ditadura, pelo contrário, mantem-se censurando ou deformando os factos, e apelando, não pela razão, não para o interesse próprio esclarecido, mas para a paixão e para o preconceito (…) presentes nas profundidades inconscientes de cada espírio humano.
No Ocidente, os princípios democráticos são proclamados, e muitos publicistas capazes e conscienciosos fazer o possível para fornecer aos leitores informações seguras, e convencê-los, por intermédio de argumentos racionais, a fazerem escolhas realistas à luz dessa informação. Tudo isso é muito bem.
Mas, infelizmente, a propaganda, nas democracias ocidentais, acima de tudo ma América, tem duas faces e um personalidade dividida. Como chefe da redacção encontra-se muitas veze um democrático Dr. Jekyll – um propagandista que seria muito feliz se pudesse provar que John Dewey tinha razão no que dizia acerca da aptidão da natureza humana para reagir à verdade e à razão. Mas este valioso homem só controla uma parte do maquinismo de comunicação com as massas.
No serviço de publicidade encontramos um antidemocrático, porque anti-racionalista Sr. Hyde – ou antes Dr. Hyde, porque Hyde é agora doutorado em Psicologia e também tem uma licenciatura em Ciências Sociais. Este Dr. Hyde seria de facto muito infeliz se as pessoas se mostrassem sempre dignas da confiança que John Dewey depositava na natureza humana.
Verdade e razão fazem parte das atribuições de Jekyll, não das suas. Hyde é um analista das Motivações, e o seu objectivo é estudar as fraquezas e falências humanas, investigar esses desejos e medos inconscientes pelos quais é determinado o pensamento consciente e o comportamento exterior de tantos homens.
E fá-lo, não com o espírito do moralista que gostaria de tornar as pessoas melhores, ou do médico que gostaria de lhes melhorar a saúde, mas simplesmente com o objectivo de estabelecer a melhor maneira de tirar vantagens da sua ignorância e explorar-lhe a irracionalidade para benefício pecuniário dos seus patrões.
São as actividades de Hyde compatíveis a longo prazo com as de Jekyll? Pode uma campanha a favor da racionalidade ter sucesso quando apanhada nas mandíbulas de outra, e ainda mais vigorosa, campanha a favor da irracionalidade?"

O Grande Podador: Os erros de António Coutinho

Só se conhecia uma voz favorável à "avaliação" das unidades de investigação da responsabilidade da FCT. Era de alguém que de uma forma muito redutora via o mundo a preto e branco - os medíocres e os excelentes. Agora, após a publicação de um artigo de opinião de António Coutinho no último Expresso só se continua a conhecer uma e a mesma voz:  a dele. A sua opinião não é surpreendente, pois ele declarou a paternidade da "teoria da poda", segundo a qual havia que abater uma  enorme parte do sistema científico e tecnológico nacional. Acontece porém que Coutinho, eminente especialista em biomedicina, nada sabe de poda. Quer fazer uma grande poda sem saber podar. Se soubesse alguma coisa, reconheceria que não se poda o pomar da ciência cortando pela base do caule "à machadada" (a expressão é do presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática) um grande número de unidades de investigação, escolhidas de um modo quase aleatório. Coutinho só quer saber da sua árvore, que deixa intacta com os raminhos todos, mesmo os secos, mas quer cortar pela raiz muitas outras, mesmo que dêem bons frutos. Quer cortar, entre outras, unidades de investigação em ciências agrárias que lhe podiam ensinar como se faz uma poda bem feita: tem de ir a todas as árvores e só cortar as partes mortas, com muito cuidado para não ferir o resto.

Eis alguns erros factuais graves no artigo de António Coutinho no  Expresso:

1. Coutinho começa por dizer que os resultados desta avaliação das unidades de investigação são idênticos aos da avaliação de 2007. Não são. Em primeiro lugar a escala de classificações é diferente. Em 2007 esta tinha 5 níveis e em 2014 tem 6. Um Bom, terceiro nível numa escala de 6, é agora uma nota negativa. Afirmar que é a mesma a percentagem de unidades abaixo de Muito Bom que em 2007 não faz nenhum sentido porque a escala mudou. Em segundo lugar, como nota Coutinho no parágrafo seguinte, a avaliação de 2007 não abrangeu os 26 laboratórios associados, avaliados nessa altura num processo próprio (a vantagem ou desvantagem de os avaliar em conjunto com as restantes unidades é irrelevante para a comparação quantitativa que Coutinho pretendeu fazer). Esses 26 laboratórios associados passaram à segunda fase, todos menos um. Portanto, para além da escala, também o universo não é comparável. Declarar que os resultados são idênticos é um erro factual grave. Um erro lamentável para um grande cientista ainda que (julgo) aposentado. Acresce que, se em cada exercício de avaliação forem sempre eliminadas metade das unidades, daqui a alguns anos ficaremos apenas com uma unidade e talvez tenhamos que a cortar ao meio para chumbar a metade que não agrada a António Coutinho.

2. António Coutinho parte do principio de que a avaliação mais recente é virtuosa. Para ele isso é um dogma, portanto algo indiscutível. Ignora os gravíssimos erros que foram apontados por muitos e conceituados investigadores. Sobre esses erros, devidamente fundamentados, Coutinho não diz uma única palavra. Passou ao lado dos argumentos da ampla contestação, como se estes não existissem. Em ciência seria como se ignorasse por completo os artigos dos outros sobre o mesmo assunto. Não referiu que as notas dos vários centros da mesma área são incomparáveis, porque cada unidade foi classificada  por avaliadores diferentes. Não referiu que os painéis de avaliação são menos que em 2007 e que cada painel abarca uma tão grande diversidade de áreas que os seus membros não incluem especialistas de todas as áreas e subáreas que avaliam. Isto é, esta não foi uma avaliação por pares!  E é também por isso que ela é controversa ao contrário da anterior.  Não se pronunciou sobre a quota estabelecida a priori de 50 por cento de 
chumbos, constantes do contrato celebrado entre a FCT e a ESF, que corrompeu a 
justiça e a validade da avaliação. Essa percentagem de aprovações forçou a uma redução artificial e arbitrária de classificações de alguns centros, transformando a "avaliação" que Coutinho elogia numa lotaria, quer dizer, numa verdadeira fraude. O contraste entre as notas atribuídas, que Coutinho não se deu ao trabalho de analisar, é digno de análise.  Em ciência seria como escrever um artigo sem olhar para os dados. Passando ao lado de tudo isto, ainda se permitiu divagar sobre a "reinvenção da roda" que, na sua opinião, se faz nalguns centros chumbados e afirmar que o seu financiamento seria alimentar a mediocridade. Quer Coutinho, como se de tudo soubesse, permitir-se avaliar, ele próprio, as unidades de matemática, física, química, sociologia, estudos clássicos, etc.? Em suma, Coutinho comete um erro factual grave: parte do principio, e contra toda a evidência, que a avaliação foi boa. E não foi. Foi  uma fraude, eivada como está de erros grosseiros.  Não corrigir imediatamente um erro quando ele salta à vista viola as mais elementares regras da ciência.

3. Nuno Crato afirmou recentemente que as criticas ao processo de avaliação das unidades de investigação são feitas por pessoas que não são isentas, por estas serem partes interessadas. E este elogio, até agora singular, à "avaliação"? É difícil imaginar uma parte mais interessada do que António Coutinho, coordenador do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia (CNCT), um órgão criado pelo actual governo e presidido por Pedro Passos Coelho. A propósito: onde anda o CNCT? A avaliação das unidades e a sua avassaladora contestação (reitores, sociedades cientificas, etc.) não é tema que mereça um conselho do órgão que tem por missão aconselhar o governo nestes temas? Ou agora o CNCT é um órgão unipessoal, exercido por Coutinho, para evitar vozes dissonantes, mesmo entre as vozes escolhidas pelo governo? O CNCT ainda existe ou suicidou-se quando se deixou condicionar a propósito do corte brutal nas bolsas de investigação? O CNCT bem poderia contribuir para a unidade da ciência em Portugal pugnando contra a sua amputação.

4. António Coutinho parece considerar que o ensino superior pode ser assegurado por professores que não fazem investigação. De que ensino estará ele a falar? Será que Coutinho sabe o que é uma universidade na moderna definição de Humboldt? Está a defender o abate de algumas universidades? Quais e porquê? A avaliação da FCT pretenderá eliminar universidades? Se sim, quais? Quanto aos bons investigadores abatidos ele quer transferi-los de universidade? Talvez do Minho para Lisboa? E os investigadores sobrantes quer mandá-los para as empresas estrangeiras já que as de cá não os têm sabido ou conseguido receber? E por que é que os outros, supostamente melhores, não vão para a indústria que tanto precisa de gente que inove? Seria bom que esclarecesse. 

 Tinha António Coutinho em alta consideração antes de ele ter anunciado a sua autocrática "teoria da poda", ou melhor da "grande poda", pois mais não faz do que destruir metade da ciência nacional. Quando ele se informar mais e melhor sobre a "poda", quando ele se informar mais e melhor não só sobre a gestão da ciência mas também sobre a gestão de universidades e empresas, nessa altura, se for como quero crer que é intelectualmente honesto, reconhecerá que se enganou. 

 Carlos Fiolhais