quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Apresentação do livro "Visão, olhos e crenças"

Certeza e incerteza, objectividade e subjectividade

Meu texto no vol. XII de "Ética Aplicada" (Edições 70), sobre "Investigação Científica", coordenado por Maria do Céu Patrão Neves e Maria da Graça Carvalho:

A ciência, que está por todo o lado nas nossas vidas, goza de uma aura de indisputabilidade. Ouve-se muitas vezes dizer que certa afirmação «foi provada pela ciência», ou que «é baseada em evidência científica». Associa-se à certeza e à objectividade. Como a certeza e a objectividade são virtudes epistémicas, a ciência detém um enorme poder social, o poder, em muitos casos, de fechar uma discussão. As relações entre ciência, certeza e objectividade, embora íntimas, não dispensam uma análise cuidada. Convém começar por definir o que são a ciência, a certeza e a objectividade (e, em contraste, o que são a não ciência, a incerteza e a subjectividade) para melhor compreender o real poder da ciência e as suas limitações.

Dado que a ciência tem um percurso histórico, que eclode de um modo muito nítido com a Revolução Científica nos séculos XVI e XVII, a consideração da história da ciência (e, ligada a esta, da fi osofi a da ciência) é muito útil para se perceber melhor a relação da ciência com os conceitos que aqui nos
interessam. Ensaiaremos uma análise dos conceitos de ciência, certeza e objectividade, numa perspectiva histórica, que inclui exemplos ilustrativos. Esta análise interessa à ética: a ciência
deve submeter-se à ética, cujos princípios estão para além da ciência, e quebras éticas acontecem quando é oferecido como ciência aquilo que o não é, o que não raro sucede quando existem falhas no apuramento da certeza e no uso da objectividade. Tem pois a ver com a ética a destrinça epistemológica que aqui se apresenta sumariamente entre ciência e não ciência, certeza e incerteza, e objectividade e subjectividade.

O que é a ciência?

O termo «ciência» designa, por um lado, um conjunto de conhecimentos que o ser humano possui sobre o mundo ou Natureza (ao qual ele próprio pertence, pelo que o homem pode ser objecto da ciência) e, por outro lado, o  método, o chamado método científico, que permite acrescentar
conhecimento ao já existente. Os dois significados estão ligados, uma vez que não poderá haver novo conhecimento sem aplicação do método referido.

Como o método científico permite alargar o nosso conhecimento do mundo, é natural defender que o segundo significado de ciência – a ciência como método de conhecer – é mais relevante do que o primeiro – a ciência como corpo de conhecimentos. Com efeito, a ciência é mais um método, que
continua a ser usado por ter dado até aqui muito bons resultados, do que um conjunto de conhecimentos, que são e serão susceptíveis de revisão. Lamentavelmente, esta valorização
nem sempre é feita no ensino e, mais em geral, na comunicação da ciência. Quem considerar os conhecimentos da ciência inabaláveis estará a menosprezar o método científico, que tem o grande poder de continuar a questionar a realidade. A ciência não é um conjunto de dogmas acriticamente aceites, como encontramos nas religiões, mas o continuado esforço humano para compreender o mundo, um esforço que tem sido bem-sucedido, pelo que podemos esperar que continue a
sê-lo. Há coisas que sabemos bem, há coisas que sabemos mal e esperamos vir a saber melhor e há coisas que simplesmente não sabemos, mas que esperamos vir um dia a saber. O nosso actual corpo de conhecimentos será, certamente, revisto e alargado no futuro.

O método científico iniciou-se com a Revolução Científica, que se deu como foi dito nos séculos XVI e XVII. Pode-se falar de ciência anterior, mas o método estabeleceu uma «nova ciência», que deu frutos extraordinários. Entre as obras marcantes dessa época estão duas do físico Galileu Galilei Mensageiro das Estrelas, de  1610, em que o autor descreve as suas primeiras observações
dos céus com o telescópio revelando novos fenómenos, e Diálogos e Demonstrações Matemáticas Acerca de Duas Novas Ciências, mais conhecido por Duas Novas Ciências, de 1638, em que descreve as experiências de queda dos corpos que realizou com a ajuda de um plano inclinado. As suas conclusões opunham-se claramente ao que se conhecia nessa época. Escreveu, em Duas Novas Ciências: «Não existe nada, na Natureza, anterior ao movimento, a respeito do qual os livros escritos pelos filósofos não são nem pouco numerosos nem pequenos. Mesmo assim, descobri através de experiências algumas propriedades notáveis e que até agora não foram observadas nem demonstradas.»

Em que consiste então o método científico, inaugurado pelos trabalhos de Galileu? Tratava-se de um novo modo de apurar a verdade a respeito de um certo assunto, entendendo-se por verdade a correspondência com a realidade. Nesse modo, a observação e a experiência desempenham um papel
fulcral. Não é fácil definir esse método, até porque existe uma grande variedade de situações no trabalho dos cientistas (variedade essa que resulta das grandes diferenças de objectos de estudo, que podem ir dos movimentos nos céus ou na Terra à psicologia e à sociologia), mas, esquematicamente, pode dizer-se que segue na maior parte dos casos, desde os trabalhos pioneiros de Galileu, três etapas:

1 – formulação de uma hipótese ou ideia sobre o funcionamento do mundo;
2 – observação e/ou experimentação, com controlo das variáveis  que possam afectar os resultados, as duas acompanhadas pelo raciocínio lógico;
3 – eventual confirmação da hipótese, que assim se pode transformar em lei, e sua comunicação à comunidade científica procurando um consenso. As leis são integradas em teorias mais gerais, e umas e outras só poderão ser descartadas perante novas observações, experimentações ou raciocínios.

Só se descobre o mundo a partir de alguma ideia prévia: a hipótese. Esta hipótese pode ser, simplesmente, como no caso da queda dos corpos, a rejeição de uma ideia que vinha da Antiguidade. Na hipótese, há um «salto mental», um «pulo» da imaginação, uma intuição criadora, pelo que é difícil apresentar para ela uma descrição genérica. A história tem, porém, ensinado que certos critérios gerais, como os da simplicidade e da beleza, são bons pontos de partida no processo de investigação científica. Esses dois conceitos estão associados de perto à matemática. A matemática revelou-se, de facto, necessária à formulação das leis naturais. Galileu escreveu no seu livro
O Ensaiador, de 1623:  «A filosofia encontra-se escrita neste grande livro que continuamente se abre perante nossos olhos – dito é o Universo –, que não se pode compreender antes de entender a língua e conhecer os caracteres com os quais está escrito. Ele está escrito em língua matemática, os caracteres são triângulos, circunferências e outras figuras geométricas, sem cujos meios é impossível entender humanamente as palavras; sem eles nós vagamos perdidos dentro de um obscuro labirinto.»

Mas o que são as leis naturais? Essas leis exprimem regularidades no funcionamento do mundo: de facto, as observações indicam que o nosso mundo segue uma certa ordem, quer dizer, não é «esquizofrénico», portando-se nas mesmas condições ora de uma maneira ora de outra. As leis naturais relacionam factos observados, integrando-os num enunciado de validade geral: por exemplo, todos os corpos caem para a Terra, como se sabe desde tempos imemoriais. Mas a observação rigorosa conjugada com o raciocínio levou Galileu a uma conclusão mais precisa contida na Lei da Queda dos Graves: descontado o efeito da resistência do ar, todos os corpos, colocados nas
mesmas condições, caem exactamente da mesma maneira. Reconhece-se aqui uma unidade na diversidade. Conhecendo a posição e a velocidade inicial de um corpo, podemos saber o seu movimento futuro. Um corpo, não importando a sua constituição e tamanho, largado na vertical, no vazio, cai ao longo de uma linha recta aumentando a sua velocidade na proporção directa do tempo decorrido. Neste exemplo, a linguagem matemática está patente em expressões como «linha recta» e «proporção directa». Se estivermos confrontados com um caso em que essa lei pareça não funcionar, deveremos examinar com cuidado se se está ou não nas mesmas circunstâncias, uma vez que as leis naturais são absolutamente prescritivas: não admitem violações. Se houvesse uma violação, a lei teria de ser substituída por outra.

O físico Isaac Newton, baseando-se nas conclusões de Galileu, propôs uma lei mais geral do movimento: a aceleração, ou taxa de variação da velocidade, é directamente proporcional à força aplicada (Segunda Lei de Newton), um enunciado contido nos Princípios Matemáticos da Filosofia
Natural, de 1687. Serve este caso para mostrar uma característica essencial da ciência: ela é cumulativa, isto é, o novo conhecimento tem de encaixar no anterior; neste caso passou-se de uma lei particular para uma lei geral que engloba a que existia, e permite uma aplicação maior, como,
por exemplo, a descrição do movimento da Lua em volta da Terra. Quando se junta novo conhecimento ao antigo, embora possa haver um reajustamento de um ou de outro aspecto, a parte mais substancial do conhecimento anterior deve permanecer. Ao contrário do que muitas vezes se pensa, em ciência o novo respeita sempre o velho, pelo que a ciência exige um processo de aprendizagem do que se sabe além da aprendizagem do modo de saber. Uma anedota ilustra
esta afirmação. O imperador da Prússia Frederico IV, numa visita que fez no século XIX ao Observatório de Bona, perguntou ao astrónomo-mor Friedrich Argelander: «Então, o que há de novo nos céus?» O seu interlocutor respondeu sabiamente: «Será que Vossa Majestade já conhece o que há de velho?» É por haver necessidade de conhecer o velho para alcançar o novo que se fala em evolução ou, se se quiser, em progresso da ciência.

Newton usou uma bela metáfora para referir que o trabalho da ciência é continuado: «Se consegui ver mais longe, é porque estava aos ombros de gigantes.» Pode subentender-se que se referia aos «gigantes» que o antecederam, não só Galileu, que usou o telescópio para observar os céus ou a experiência do plano inclinado para obter a Lei da Queda dos Graves, mas também o astrónomo seu contemporâneo Johannes Kepler, que estudou os movimentos dos astros nos céus, obtendo para eles leis de expressão matemática. A junção dos dois tipos de informação – a que resulta da experimentação na Terra e a que provém da observação dos céus – permitiu a Newton uma descrição unificada (este é um bom exemplo de aplicação na ciência do critério de simplicidade!) dos fenómenos da Terra e do céu: precisamente a Lei da Gravitação Universal, mais uma vez de expressão matemática, que descreve a força de atracção entre quaisquer corpos.

No início do século XX, outro físico, Albert Einstein, sem prejudicar a validade da Lei da Gravitação Universal no domínio dos objectos com pequenas massas, formulou, num golpe de génio, uma nova teoria da gravitação: a Teoria da Relatividade Geral, segundo a qual a gravitação é o encurvamento do espaço e do tempo causado pela presença da matéria e energia. A nova teoria permitiu mais tarde englobar a descrição de fenómenos cósmicos, como o Big Bang e os buracos negros, aos quais a teoria de Newton manifestamente não se aplica. Usando o dito newtoniano, também Einstein subiu aos ombros de gigantes, elevando a «pirâmide humana». As leis de Galileu, Kepler, Newton e Einstein encaixam-se perfeitamente umas nas outras, formando um edifício coerente. Não aconteceu até à data, mas tudo leva a crer que alguém, um dia, subirá aos ombros de Einstein para ver ainda mais longe.

Uma boa teoria científica não descreve apenas o que se conhece, mas deve também ter um carácter preditivo: deve permitir prever fenómenos ainda não observados, servindo a respectiva observação para confirmar a teoria. Foi o que aconteceu de forma notável com a teoria de Newton, que permitiu, em 1846, a descoberta, só por meio de cálculos, de Neptuno, um novo planeta. No quadro da Teoria da Relatividade Geral, Einstein previu, em 1915, que a luz devia encurvar-se ao passar perto de um astro. Assim, uma estrela que enviasse raios rasantes ao Sol seria, durante um eclipse solar, observada numa posição desviada da sua posição usual. A observação de um eclipse total do Sol em 1919, no Norte do Brasil e na ilha do Príncipe, permitiu confirmar a teoria einsteiniana. Quando perguntaram ao sábio o que teria sucedido se essa confirmação não tivesse acontecido, ele respondeu: «Nesse caso eu teria pena do pobre Deus. A teoria está mesmo certa.» O êxito de Einstein espalhou-se logo. O Times de Londres titulou: «Revolução na ciência. Nova teoria do Universo.» De facto, a revolução  não punha Newton de lado, simplesmente ia mais longe do que ele tinha chegado. Na Royal Astronomical Society britânica, o retrato de Einstein passou a figurar ao lado do de Newton, não o substituindo.

 Será que vamos saber mais? Essa é a nossa esperança, bem justificada pela história da ciência. Einstein escreveu (numa carta de 1936, incluída no livro de Max JAMMER Einstein e a Religião: Física e Teologia): «Temos de admitir que o nosso conhecimento actual das leis é apenas uma obra incompleta, de modo que, em última instância, a crença na existência de leis fundamentais também se apoia numa espécie de fé. Seja como for, essa fé tem sido amplamente justificada pelo progresso na ciência.»

 Um elemento muito importante do método científico, presente tanto em Galileu e Newton como em Einstein, é a comunicação aos peers (pares), mas, mais em geral, à sociedade, dos resultados da investigação. Como vários cérebros pensam melhor do que um só, as observações e experiências devem ser repetidas para verificar se há ou não confirmação dos resultados anunciados. Por outras palavras, um dos maiores recursos do método científico é a peer review (revisão pelos pares), um processo que, não sendo perfeito, pelo menos permite corrigir alguns dos erros cometidos por indivíduos ou grupos.

 Existem várias actividades humanas além da ciência, por exemplo a arte, a religião ou a ética. É por isso normal que se façam afirmações que não possam ser consideradas científicas por não resultarem da aplicação do método científico. A arte, a religião ou a ética não têm pretensões científicas, não desejando competir com a ciência. Mas há quem pretenda fazer ciência sem o fazer efectivamente. Falamos de pseudociência quando a não ciência se tenta disfarçar de ciência. Pseudociência é qualquer tipo de informação ou actividade que se diz baseada em factos científicos e fundamentada pelo método científico, que pode até usar a linguagem científica, mas que não usa factos científicos correctos ou que não resulta do bom uso do método científico. A pseudociência está eivada de erros, que ela própria não corrige, ao contrário da ciência, que possui a virtualidade de corrigir eventuais erros pelo bom uso do método científico.

Verdade e erro 

Falemos de erro, que, segundo o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, é a «acção de actuar, proceder de forma incorrecta». Ouve-se muitas vezes dizer que a ciência procura a verdade. Essa afirmação remete para a definição de verdade, que, segundo o mesmo dicionário, é a «adequação do pensamento ou da sua expressão aos factos ou conhecimentos que se pretendem exprimir = exactidão, justeza ≠ erro, ilusão, mentira».

 A teoria do conhecimento ou epistemologia é um capítulo importante da filosofia. Não é aqui o lugar para entrar na longa discussão sobre o que é o conhecimento, bastando lembrar que, logo no tempo de Galileu, a filosofia da ciência começou a ser debatida com contributos como os que foram dados pelo jurista e filósofo Francis Bacon e pelo matemático, físico e filósofo René Descartes. Aceitando como marca de verdade a «adequação do pensamento aos factos», consideramos verdadeiras as afirmações que surgiram por aplicação do método científico, como a Lei da Queda dos Graves, a Segunda Lei de Newton, a Lei da Gravitação Universal e a descrição da gravidade pela Teoria da Relatividade Geral, embora umas tenham maior generalidade ou maior grau de precisão do que outras. Mas não podemos dizer que sejam absolutamente verdadeiras todas as afirmações científicas, essas ou quaisquer outras que conhecemos actualmente, pois a aplicação do método científico poderá no futuro trazer novidades. Podemos apenas dizer que, no quadro da sua validade, essas proposições são verdadeiras tanto quanto sabemos, por terem sido confirmadas pela pluralidade de observações realizadas.

Podemos aspirar à verdade e procurá-la com afinco, no sentido de buscar descrições da Natureza que se ajustem cada vez melhor a esta. Partindo do princípio de que a investigação científica será infindável, a ciência não será tanto a procura da verdade última, uma meta inalcançável, mas sim a procura do erro. Poderá ser impossível encontrar a verdade absoluta, mas já é possível encontrar um erro numa certa afirmação, entendendo- se por erro o desajuste entre uma certa afirmação e a realidade a que ela se refere. Em numerosos casos de interesse prático, é relativamente fácil reconhecer um erro quando uma nova observação, experiência ou raciocínio contradizem o que se julgava saber. Basta que apareça uma discrepância observacional, experimental ou lógica relativamente a uma lei científica para ela ter de ser revista.

O filósofo Karl Popper colocou a ênfase da sua filosofia precisamente no erro. Na sua visão, partilhada pela maioria dos cientistas contemporâneos (mas que tem sido naturalmente sujeita a críticas, como por exemplo as de Thomas Kuhn e Paul Feyerabend), a ciência não pode aspirar a verdades absolutas, sendo antes um meio para reduzir a nossa incerteza a respeito do mundo natural. POPPER escreveu, na sua obra Lógica da Pesquisa Científica (original de 1935): «na medida em que um enunciado científico fala sobre a realidade, tem de ser falseável; se não for, não fala sobre a realidade». E o que vem a ser um enunciado «falseável»? Segundo o mesmo filósofo, sê-lo-á se for possível mostrar que ele é falso ou se for possível refutá-lo recorrendo a rigorosos testes empíricos. POPPER acrescentou no seu livro Conjecturas e Refutações (original de 1963): «A história da ciência, como a história de todas as ideias humanas, é feita de sonhos irresponsáveis, de erros e obstinação. Mas a ciência é uma das poucas actividades humanas, talvez a única, em que os erros são criticados sistematicamente, inclusive corrigidos e valorizados. Em razão disso é que neste campo da actividade humana aprende-se muitas vezes com os erros podendo-se falar com clareza e sensatez em progresso científico.»

 Não existindo verdades absolutas, é óbvio que algumas afirmações da ciência são mais verdadeiras ou mais certas do que outras. Por exemplo, ninguém pode hoje duvidar de que os corpos caem para a Terra seguindo a Lei da Queda dos Graves, nem que o movimento dos corpos à superfície da Terra ou em volta da Terra é regulado pela Segunda Lei de Newton conjugada com a Lei da Gravitação Universal. Tal acontece porque, independentemente dos refinamentos devidos a Einstein (que não têm interesse prático na maioria das situações correntes), todas as observações e experiências realizadas até agora confirmaram as conclusões de Galileu e Newton dentro dos d

 No chamado «método dedutivo de prova» de Popper, parte- se de uma hipótese para uma prova empírica, passando pelas consequências lógicas que se podem extrair dela. O trabalho do cientista consiste em extrair inferências lógicas da sua conjectura inicial. Nessa prova, os testes empíricos, isto é, o confronto das previsões com a realidade, são fulcrais. Se uma ideia resistir a testes efectuados por um certo grupo de investigação, ela será suficientemente robusta para ser submetida à consideração da comunidade científica. Um único trabalho científico não é suficiente: para assegurar a sua validade, é necessário que seja confirmada por outros. A prova em ciência tem semelhanças com a prova em direito: em ciência, tenta convencer-se  a comunidade científica da validade de uma certa afirmação; em direito, a prova é o meio de convencer o juiz ou um júri dos factos em julgamento, que são apresentados pelas partes em litígio. Mas devemos lembrar que, segundo Popper, nas ciências empíricas, as provas não existem, se entendermos por prova um argumento que estabeleça de uma vez por todas a verdade de uma teoria. A Natureza é o «juiz supremo» e ela pode vir a proferir nova sentença. A propósito da metáfora jurídica, convém lembrar as palavras de Einstein, incluídas no livro de Helen DUKAS e Banesh HOFFMANN Albert Einstein, O Lado Humano: «O teórico da ciência não deve ser invejado. Uma vez que a Natureza, ou mais exactamente a experiência, é um juiz inexorável e não muito amigável do seu trabalho. Nunca diz “Sim” a uma teoria. Nos casos mais favoráveis, diz “Talvez” e, na grande maioria dos casos, diz simplesmente “Não”. Se uma experiência concorda com uma teoria, significa “Talvez”, e se não concordar, significa “Não”. Provavelmente toda teoria irá um dia experimentar o seu “Não” – a maioria das teorias, não muito depois da sua concepção.»

 O método científico foi criado e aperfeiçoado para que a missão da ciência pudesse ser cumprida da maneira mais eficaz possível, isto é, para que pudéssemos encontrar e corrigir o maior número de erros no nosso conhecimento do mundo. Ao longo da história da ciência, os cientistas sempre tentaram encontrar e corrigir erros nas descrições que iam fazendo. Eles são, por isso, muito sensíveis a erros, sabendo que a verdade só pode ser alcançada de uma forma progressiva e, portanto, sempre limitada. Uma verdade é sempre provisória.

Errar é humano. Decerto os cientistas são seres humanos e as suas ideias ou actos podem sofrer influências que prejudiquem a aplicação do método científico. Os erros involuntários são, tarde ou cedo, corrigidos pelo próprio ou pelos seus pares. Mas há seres humanos que não reconhecem os erros que lhes são apontados. Por vezes, embora em pequena escala, são os próprios cientistas quem não são fieis ao método científico. Mas, na maior parte das vezes, são outras pessoas, não cientistas, quem espalha erros, alegando o uso da ciência devido ao prestígio de que esta desfruta (de facto, nem sempre é fácil separar ciência de pseudociência). Os cientistas devem lembrar-se de que têm um compromisso forte e permanente para com o método científico, um compromisso que deve, em particular, ser valorizado quando outros factores – políticos, económicos, jornalísticos, etc. – estão em jogo. Além disso, devem lembrar-se que é sua missão  contribuir para que o público tenha acesso aos conhecimentos e ao método da ciência. Nesse esforço, devem procurar ser o mais verdadeiros possível, sempre com a preocupação da compreensibilidade. No ensino como na comunicação pública da ciência, pode ser-se rigoroso – isto é, não dizer nada de errado – prescindindo de pormenores complicados.

Muitas vezes se pensa que, se a ciência nada sabe ao certo, então tudo é possível. Nada mais errado. Há coisas que sabemos bem e que constituem constrangimentos ao nosso conhecimento futuro. O astrofísico Carl Sagan, um dos maiores comunicadores de ciência dos nossos tempos, transmitiu a ideia de que a ciência deve procurar uma posição intermédia entre conservadorismo e inovação, a manutenção de velhas ideias e a abertura às novas. Escreveu no seu livro Um Mundo Infestado de Demónios (original de 1995): «No cerne da ciência reside um equilíbrio fundamental entre duas atitudes aparentemente contraditórias – a abertura para novas ideias, por bizarras ou pouco intuitivas que sejam, e o exame céptico mais implacável de todas as ideias, velhas e novas. É assim que as verdades profundas são separadas de puros absurdos. O empreendimento colectivo do pensamento criativo e do pensamento céptico, trabalhando conjuntamente, faz avançar o conhecimento. No entanto, existe uma certa tensão entre aquelas duas atitudes aparentemente contraditórias.»

 Certeza e incerteza 

 A palavra «certeza» é, em geral, identificada com verdade. Do dicionário mencionado: «1. Característica daquilo que não levanta dúvidas, que é certo = evidência, verdade ≠ incerteza, probabilidade. 2. Aquilo que é seguro ou que se afirma como real, certo…, e acerca do qual não se tem dúvidas; dado adquirido = realidade ≠ ilusão, incerteza, invenção.» A história da ciência tem mostrado que a certeza de uma lei científica não passa de uma aspiração. SAGAN acrescentou noutro passo do referido livro: «Os seres humanos podem ansiar por certezas absolutas e aspirar a elas; podem pretender, como os adeptos de certas religiões, tê-las alcançado. Porém, a história da ciência – de longe a pretensão ao conhecimento mais bem-sucedida acessível ao homem – ensina-nos que o máximo que podemos esperar são melhoramentos sucessivos da nossa compreensão, a aprendizagem com os nossos erros, uma abordagem assimptótica do universo, mas com a limitação de sabermos que a certeza absoluta nos escapará sempre.»

Não deve ser escamoteado que a discussão e a incerteza fazem parte do processo da ciência. É precisamente a discussão científica que ajuda a reduzir a incerteza. Da discussão nasce a luz: tarde ou cedo, haverá respostas melhores do que as anteriores em resultado da aplicação do método científico.

 A palavra «evidência» pertence ao campo semântico da «certeza»: «1. Qualidade do que não oferece dúvidas, do que é evidente. 2. O que não oferece dúvidas ao espírito, o que pode ser verificado. 3. Aquilo que serve para mostrar que alguma coisa é verdadeira = prova.» Podendo ser vista como sinónimo de prova, deve, porém, esclarecer-se que este termo tem em português um significado algo diferente do inglês evidence. Em português, uma coisa evidente é algo que não precisa de prova, que pode ser considerado uma verdade. A prova revela-se necessária precisamente quando não há evidência.

 Denotando falta de certeza, «incerteza» é um termo usado, com significados diferentes, em diversas áreas, incluindo física, estatística, psicologia, economia, sociologia, etc. Em física, refere-se, em geral, ao grau de imprecisão de medidas físicas. Quando se realiza uma medida de uma grandeza física, existe sempre uma incerteza: há erros, quer ocasionais e inevitáveis, quer sistemáticos e evitáveis ou, pelo menos, minimizáveis. Por isso tem de ser realizado um conjunto de medidas em vez de apenas uma. No tratamento dos dados recorre-se à estatística, disciplina que assenta no conceito de probabilidade. A probabilidade foi introduzida no século XVII na matemática para descrever jogos de fortuna, em que ocorrem situações imprevisíveis devidas, por exemplo, ao lançamento de dados. Quando a física tratou, no século XIX, de descrever sistemas complexos, como os gases (formados por muitas partículas em movimento incessante), percebeu que tinha de recorrer à probabilidade e à estatística. As afirmações que formula nesse domínio são naturalmente incertas, sendo a probabilidade uma medida da incerteza. Em física quântica, disciplina que surgiu no início do século XX para descrever a realidade microscópica, a incerteza está incorporada a um nível mais fundamental. Verificou-se que, à escala do muito pequeno, é válido o chamado «princípio de incerteza de Heisenberg» (que, de facto, não é um princípio, mas um corolário dos princípios da teoria quântica), segundo o qual não podemos conhecer simultaneamente a posição e a velocidade de uma partícula, como por exemplo um electrão. Tanto a posição, como a velocidade de uma partícula só podem ser descritas por uma função probabilística. Einstein reagiu com a sua famosa frase «Deus não joga aos dados», que significa que para ele a realidade não podia ter uma natureza probabilística (para Einstein, Deus era sinónimo de mundo, ou melhor, de harmonia do mundo). Por outro lado, as ciências sociais e humanas situam-se em pleno reino da imprevisibilidade. O termo «incerteza» refere-se nelas a situações em que não se pode prever com precisão o efeito de uma condição ou o resultado de uma acção. Essas ciências têm procurado fazer modelações e teorizações baseadas na metodologia das ciências exactas e naturais, mas o grau de incerteza nas suas afirmações é necessariamente maior, dada a enorme variabilidade que é característica dos seus objectos de estudo.

 Objectivo e subjectivo 

Embora estejam relacionadas, objectividade não é o mesmo que verdade ou certeza. O conceito é  bastante mais moderno. Objectividade significa a procura da fidelidade ao real. Preocupa-se com a filtragem das variações que provocam incertezas. Mas comecemos por ver a definição do termo «objectivo» no referido dicionário: «1. Que é relativo a um objecto. 2. Que existe por si, independentemente do conhecimento, do pensamento ou do sujeito. 3. Que é válido para todos e não para um indivíduo em particular. 4. Que assenta na observação, na experiência.» Em contraste, «subjectivo» é: «1. Que é próprio do sujeito pensante ou relativo a ele. 2. Que é próprio do sujeito individual, que assenta na interioridade, no modo de ser de cada pessoa = pessoal. 3. Que emite juízos de valor sobre a realidade das coisas. 4. Que não corresponde a nenhuma realidade, que é aparente, ilusório.» Embora possa parecer clara a dicotomia entre objectivo e subjectivo – entre o que é próprio do mundo exterior e aquilo que é próprio do eu interior –, essa dicotomia é um dos temas da filosofia, por não ser fácil separar o eu do mundo.

 É curiosa a deriva semântica que ocorreu com as palavras «objectivo» e «subjectivo». Os escolásticos medievais, como Guilherme de Ockham, usavam essas palavras com significado oposto ao actual, isto é, objectivo dizia respeito a uma impressão individual e subjectivo, a uma comum (e ainda em Descartes se encontram marcas desse uso primitivo). Só com o filósofo Immanuel Kant, no século XVIII, se iniciou o uso moderno dos termos; e só a partir de 1820 os dicionários começaram a introduzir o significado actual.

 A ideia de objectividade remonta a um tempo anterior a Kant: nos Princípios de Filosofia de Descartes encontramos as qualidades primárias (tamanho, forma, movimento), que diríamos hoje objectivas, e as secundárias (cores, odores, sabores), que diríamos subjectivas, e no Novo Órgão de Bacon surgem os «ídolos da caverna», que bloqueiam a mente de um indivíduo. Mas só a meio do século XIX, após Kant, o conceito de objectivo ganhou um consenso alargado tanto na filosofia como na ciência. A Crítica da Razão Pura, de 1781, obra principal da teoria do conhecimento de Kant, foi a primeira das suas três Críticas: as outras foram a Crítica da Razão Prática, de 1788, e a Crítica do Juízo, de 1790. A «validade objectiva» de Kant refere- se não a objectos externos, mas a «formas de sensibilidade», como o tempo, o espaço e a causalidade, que são condições da experiência. Para ele, subjectivo aplica-se a sensações meramente empíricas. A distinção é, portanto, entre o universal e o particular, em vez de ser entre o mundo e o indivíduo. Escreveu KANT na sua Crítica da Razão Pura: «Se algo for válido para todos os que estejam na posse da razão, seus fundamentos serão objectivos e suficientes.» O significado de objectivo ficou operacional com cientistas como o físico e médico Hermann von Helmholtz, o médico Claude Bernard e o biólogo Thomas Huxley: o primeiro, muito influenciado por Kant, ensaiou criar uma física do corpo humano; o segundo criou a medicina experimental ou baseada na evidência; e o terceiro foi o maior defensor da teoria da evolução de Darwin.

Como conseguir a objectividade em ciência? Os instrumentos que permitem registos sempre foram meios de procurar a objectividade, uma vez que uma visão individual, que é aliás difícil de partilhar, pode não ser segura. A fotografia surgiu em 1826 e a sua utilidade na ciência sobressaiu logo nessa altura: as imagens fotográficas são vistas da mesma maneira por todos os observadores. Uma fotografia da Lua feita com uma câmara primitiva acoplada ao telescópio era mais objectiva do que um dos desenhos que Galileu fez do nosso satélite enquanto a observava com o seu telescópio. E uma fotografia feita com uma câmara moderna é ainda mais objectiva, no sentido de ser mais fiel à realidade. Mas em que medida serão as imagens fotográficas objectivas? Mesmo um instrumento como uma câmara fotográfica pode não fornecer um meio de prova objectiva. Já na época de Galileu, houve quem afirmasse que as lentes podiam ter defeitos que alterassem as imagens. E o mesmo pode, afinal, ser dito de uma lente moderna. A fotografia é uma tecnologia baseada na ciência, mas também é uma arte, sendo passível de manipulação. Essa possibilidade tornou-se particularmente evidente no mundo digital em que vivemos hoje, no qual o Photoshop é tecnologia  comum. O certo é que uma imagem é sempre diferente de um objecto real. Podem-se tirar, em várias circunstâncias e de vários modos, várias imagens do mesmo objecto, que diferirão necessariamente. O juízo treinado de um cientista é que permitirá escolher as imagens que mais se aproximam da realidade.

Os filósofos de ciência Lorraine Daston e Peter Galison escreveram uma história da objectividade em que enfatizam o poder da imagem; distinguem três fases na evolução histórica: a fidelidade à Natureza (uma ancestral preocupação da ciência), a objectividade mecânica (recorrendo, por exemplo, à câmara fotográfica) e o juízo treinado (um cientista experiente não se deixa enganar por uma imagem). O caminho para a objectividade não se faz sem dificuldades. Segundo aqueles autores, «a objectividade está para a epistemologia como o extremo ascetismo está para a moralidade».

 Terminemos com a ética. Kant começou por estudar mecânica celeste, antes de enveredar pela filosofia. Na conclusão da Crítica da Razão Prática, KANT contrasta o mundo exterior, regulado por leis imperativas, e o eu, no qual as leis morais surgem: «Duas coisas enchem o ânimo de admiração e veneração sempre novas e crescentes, quanto mais frequentemente e com maior assiduidade delas se ocupa a reflexão: O céu estrelado sobre mim e a lei moral em mim. Não as hei-de procurar e simplesmente presumir a ambas como envoltas em obscuridades ou no transcendente, fora do meu horizonte; vejo-as perante mim e religo-as imediatamente com a consciência da minha existência.» De acordo com o programa iluminista, não existe nem ciência nem moralidade sem consciência.

Referências e leituras recomendadas

CARAÇA, João, Ciência, Lisboa, Difusão Cultural, 1997.

DASTON, Lorraine e GALISON, Peter, Objectivity, Nova Iorque, Zone Books, 2007.

Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, 2 vols., Lisboa, Academia das Ciências de Lisboa e Verbo, 2001.

DUKAS, Helen e HOFFMANN, Banesh (org.), Albert Einstein, O Lado Humano, Brasília, Universidade de Brasília, 1979.

FIOLHAIS, Carlos, A Coisa Mais Preciosa Que Temos, Lisboa, Gradiva, 2002.

FIOLHAIS, Carlos e MARÇAL, David, A Ciência e os Seus Inimigos, Lisboa, Gradiva, 2017.

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SAGAN, Carl, Um Mundo Infestado de Demónios, Lisboa, Gradiva, 1997.
Etica

CIÊNCIA E LITERATURA: ENCONTROS E DESENCONTROS

Meu artigo no último numero da revista “Atlântida”, do Instituto Açoriano de Cultura:

.Contrariando a distância que muita gente crê existir entre ciência e literatura, são apresentados neste artigo vários exemplos de encontros entre a ciência e a literatura portuguesa, tanto em verso como em prosa, incluindo não só grandes nomes do cânone nacional como Luís de Camões, Eça de Queiroz e Fernando Pessoa, mas também autores mais recentes como António Gedeão, Adília Lopes e Gonçalo M. Tavares. Incluem-se escritores açorianos como Antero de Quental e Vitorino Nemésio. O primeiro é, por exemplo, autor de um notável soneto intitulado “Evolução”, marcado pela visão darwinista, e o segundo de vários poemas, no livro “Limite de Idade”, claramente influenciados pela física e biologia modernas.

A ciência e literatura têm mais pontes entre si do que normalmente se crê. A literatura alimenta-se, por vezes, da ciência. Sem a ciência algumas das grandes páginas da literatura não teriam decerto sido possíveis. E, por outro lado, a ciência também não se dispensa de, por vezes, se alimentar da literatura. Como disse o biólogo Thomas Huxley: “Ciência e literatura não são duas coisas diferentes, mas dois lados da mesma coisa”.


 1. INTRODUÇÃO

 Faz neste ano de 2018 dois séculos que foi publicada uma obra-prima da literatura mundial, que fazia uma crítica forte à ciência, uma crítica tão forte que chegou até aos dias de hoje: a ciência podia criar monstros, isto é, criaturas terríveis que escapassem ao controlo do seu criador. Refiro-me a Frankenstein [1] da inglesa Mary Shelley (1797-1851), que foi mulher do escritor romântico Percy Shelley (1792-1822), autor do prefácio da obra publicada na primeira edição sob anonimato e que ostentava o sugestivo subtítulo “O Moderno Prometeu”. A obra é icónica do movimento do Romantismo, que teve lugar na primeira metade do século XIX, um movimento que se insurge contra a moderna ciência que, irrompendo com a Revolução Científica nos séculos XVI e XVII, conheceu um triunfo com o Iluminismo do século XVIII que não podia deixar de ter uma reacção. A ciência, que tinha crescido tanto, era afinal perigosa. Mais do que satisfação de curiosidade a ciência estava a dar aso a artefactos cuja utilização colocava por vezes questões éticas. Mesmo a omnipresença da ciência na satisfação da curiosidade humana a respeito da natureza parecia demasiada. O poeta inglês John Keats (1795-1821) escreveu em 1819 o poema “Lamia” [2], em que lamentava que a ciência estava a desfazer o arco-íris.Um excerto é o seguinte (tradução de João da Mata):

“Todos os encantos não se vão 
Ao mero toque da fria filosofia? 
Existia um maravilhoso arco-íris no firmamento:
 Conhecemos sua trama, a sua textura, aparece 
No frio catálogo das coisas comuns.
 A filosofia podará as asas de um Anjo,
 Decifrará os mistérios por instrumentos, 
Esvaziará o encanto do ar e o tesouro escondido – 
Desvendará o arco-íris.”

 Em Portugal, o movimento romântico chegou relativamente tarde, como tarde chegaram outros movimentos de renovação intelectual, artística, social e política. Apesar de os Portugueses terem sido percursores da Revolução Científica, com os Descobrimentos, e de terem tido um claro papel na sua transferência do Ocidente para o Oriente, circunstâncias várias, designadamente de ordem religiosa e política, impediram que as ideias de Galileu, Descartes e Newton (a “nova ciência”) florescessem em solo nacional. Mas encontramos eco do movimento anti-científico nas palavras de João de Almeida Garrett (1799-1854), um dos expoentes do nosso romantismo, que nas Viagens na Minha Terra (1846) [3] escreve:

“A ciência deste século é uma grandessíssima tola. E como tal, presunçosa e cheia do orgulho dos néscios.”

No entanto, esses desencontros com a ciência, internacionais e nacionais, tão visíveis em certos autores e obras literárias mesmo na actualidade (basta lembrar, por exemplo, a invectiva de José Saramago contra a viagem a Marte no discurso de atribuição do Nobel que proferiu em Estocolmo: “Chega-se mais facilmente a Marte do que ao nosso próprio semelhante” [4]), deixaram de ter a mesma frequência e força. De resto, no século XIX, a ciência continuou a crescer de modo imparável. Bem podia lamentar-se o romântico Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832) de não conseguir descrever as plantas e as nuvens (ver, por exemplo, [5] e [6]), apesar das suas porfiadas tentativas, mas o certo é que a ciência e a literatura foram aparecendo mescladas em obras de literatura, que ou davam conta de avanços da ciência de uma forma admirada ou criticavam a ciência de uma forma muito mais suave. Podemos falar de encontros entre ciência e literatura, encontros que se têm revelado fecundos ao contribuir para a unidade da cultura.

 Pretendemos neste artigo apresentar uma antologia necessariamente breve de alguns desses encontros entre literatura e ciência portuguesa, incluindo prosa e poesia. Mais do que tentar fazer uma selecção crítica, queremos apresentar de uma forma sugestiva exemplos que, não ultrapassando as margens de um curto ensaio, dêem uma ideia da riqueza com que a literatura portuguesa fez e faz o acompanhamento da ciência.

Vivemos num tempo em que traços profundos de paralelismo entre ciência e literatura têm sido apontados. Ambas são manifestações da criatividade humana. Essa criatividade manifesta-se no facto de o homem tentar unir, por um processo mental, aquilo que parece estar separado. Uma metáfora é precisamente isto, assim como, num outro nível, uma analogia científica e, de um modo mais evidente, uma lei física.

Escreveu o matemático e ensaísta Jacob Bronowski (1908-1974) em A Responsabilidade do Cientista e outros Escritos (1992) [7]:

“As descobertas da ciência, os trabalhos de arte, são explorações – ou antes, são explosões de uma semelhança oculta. O investigador científico ou o artista apresentam neles dois aspectos da natureza e funde-os num só. É o acto da criação que nasce um pensamento original, e o acto é o mesmo na ciência ou nas artes.”

Curiosamente, já um autor português, o matemático tal como Bronowski António Lobo Vilela (1902-1966), tinha escrito em 1955, no seu livro Ciência e Poesia [8]:

“Radicou-se há muito no meu espírito a convicção de que entre sábios e poetas existem íntimas afinidades, contrariamente a uma opinião muito vulgarizada.”

E forneceu, entre outros exemplos, uma frase de um autor português do século XIX, Guerra Junqueiro (1850-1923), já da fase pós-romântica que ficou conhecida por realismo (prefácio de A Morte de D. João, 2.ª ed., 1887, [10]):

“A poesia é a verdade transformada em sentimento. A lei descoberta por Newton tanto pode ser explicada num livro de física, como cantada num livro de versos. O sábio analisa-a, demonstra-a, e o poeta, partindo dessa demonstração, tira dos factos todas as consequências morais, sociais e religiosas, traduzindo-as numa forma sentimental. A ciência, neste caso, dá o convencimento, a certeza; a poesia dá a emoção, o entusiasmo.”

É verdadeiramente notável que Lobo Vilela tivesse escrito o seu livro pouco antes da famosa conferência Rede sobre As Duas Culturas [9], que teve lugar em 1959, do romancista e físico-químico inglês Charles P. Snow (1905-1980), uma obra emblemática e também polémica sobre a separação entre a cultura literária e a cultura científica.

2. ENCONTROS ENTRE CIÊNCIA E LITERATURA AO LONGO DA HISTÒRIA

 Que a língua portuguesa sempre acompanhou os desenvolvimentos do saber é provado, à exaustão, pela publicação em curso de Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa [11]. Uma delas é pioneira por, embora tenha sido escrita em português num tempo em que a ciência era escrita em latim, ter revelado ao mundo as virtudes medicinais de algumas plantas orientais: Garcia de Orta (c. 1501-1568), Colóquio dos Simples (1563) [12]. Esse livro é bem conhecido e não podia deixar de ser considerado uma obra pioneira da cultura portuguesa. Mas menos conhecido é o facto de o nosso maior poeta, Luís de Camões (c. 1524-c. 1580), que na Índia foi contemporâneo e amigo de Orta, ter escrito, numa introdução poética ao livro, os seus primeiros versos impressos (ortografia actualizada):

AO CONDE DO REDONDO, 
VICE-REI DA ÍNDIA 

(…) “Favorecei a antiga 
Ciência que já Aquiles estimou; 
Olhai que vos obriga, 
Verdes que em vosso tempo se mostrou 
O fruto daquela Orta onde florescem
 Plantas novas, que os doutos não conhecem. 

Olhai que em vossos anos 
Produz uma Orta insigne várias ervas 
Nos campos lusitanos, 
As quais, aquelas doutas protervas 
Medeia e Circe nunca conheceram, 
Posto que as leis da Mágica excederam (…)”

Os Lusíadas [13] foram publicados pouco depois (em 1572) e neles Camões mostra amplos conhecimentos de astronomia e botânica: Acima de tudo, é valorizada a experiência que os marinheiros tinham no seu trabalho a bordo, o saber empírico que contrastava com o saber livresco, imperante até então:

EXCERTO DO CANTO V 

Os casos vi, que os rudos marinheiros,
 Que têm por mestra a longa experiência, 
Contam por certos sempre e verdadeiros,
 Julgando as cousas só pola aparência, 
E que os que têm juízos mais inteiros, 
Que só por puro engenho e por ciência 
Vêm do mundo os segredos escondidos, 
Julgam por falsos ou mal entendidos.” 

Passando por cima do período romântico, damos um salto até à literatura realista ou naturalista que caracterizou a nossa segunda metade do século XIX, em particular após a brilhante geração de 70: o expoente dessa geração foi Antero de Quental (1842-1891), natural de Ponta Delgada, ilha de S. Miguel, nos Açores. Quental escreveu em 1882 um soneto intitulado “Evolução”, no qual, após apontar que o homem é o resultado da História Natural, num processo que envolve longas e profundas transformações geológicas e biológicas e no qual se misturam o acaso e a necessidade, acentua que o futuro permanece em aberto, como uma possibilidade de realização do homem, ao exercer a sua liberdade (Sonetos Completos [14]):

EVOLUÇÃO

 “Fui rocha em tempo, e fui, no mundo antigo, 
tronco ou ramo na incógnita floresta… 
Onda, espumei, quebrando-me na aresta 
Do granito, antiquíssimo inimigo…

 Rugi, fera talvez, buscando abrigo 
Na caverna que ensombra urze e giesta; 
Ou, monstro primitivo, ergui a testa 
No limoso paul, glauco pascigo… 

Hoje sou homem - e na sombra enorme 
Vejo, a meus pés, a escada multiforme, 
Que desce, em espirais, da imensidade…

 Interrogo o infinito e às vezes choro… 
Mas, estendendo as mãos no vácuo, adoro 
E aspiro unicamente à liberdade.” 

A polémica entre realismo e romantismo, patente na questão “Bom Senso e Bom Gosto” entre António Feliciano de Castilho (1800-1875) e Antero de Quental, que eclodiu no ano de 1865, está literariamente também patente na resposta que Quental dá, em forma poética, nesse mesmo ano, a João de Deus (1830-1876), que tinha sido autor de um poema no qual o Sol era metáfora de crença (“Luz da fé”). O Sol passava agora a ser razão em vez de crença (em Odes Modernas. Primaveras Românticas [15]):

LUZ DO SOL, LUZ DA RAZÃO 

“(…) Mas se a razão, surgindo, 
Nossa alma esclareceu, 
Também tu, sol, no espaço 
Surges, razão do céu… 

Por isso é que me alegras, 
Ó luz, o coração! 
Por isso vos estimo… 
Tu, sol, e tu, razão!” 

Eça de Queiroz (1845-1900), um pouco mais novo do que Quental e seu grande admirador, é o autor do romance Os Maias (1988) [16], no qual um dos personagens principais, João da Ega, que pode ser considerado o seu alter-ego, admira os progressos trazidos por Darwin à compreensão do mundo vivo (a teoria da evolução das espécies de Darwin é de 1859, ano de publicação de A Origem das Espécies [17]) e só nega Darwin quando está completamente embriagado:

“— Se vocês soubessem que corpo de mulher! — gritou ele de repente. — Oh! meninos, que corpo de mulher… imaginem vocês um peito… 

— Não queremos saber — disse Carlos. — Cala-te, tu estás bêbedo, miserável! 

Ega ergueu-se, retesando a perna, arrimado de lado à mesa. 

Bêbedo! Ele? Ora essa!… Era coisa que não podia, era empiteirar-se. Tinha feito o possível, bebido tudo, até aguarrás. Nunca! Não podia… 

- Olha, vou pôr aquela garrafa à boca, tu verás… E fico frio, fico impassível. A discutir filosofia… Queres que te diga o que penso de Darwin? É uma besta… Ora aí tens. Dá cá a garrafa.”

Eça de Queiroz foi cônsul em Newcastle e Bristol entre 1874 e 1878 e teve decerto conhecimento das polémicas em que a teoria de evolução esteve envolvida, e na qual Darwin se absteve de participar. No seu livro póstumo Cartas de Inglaterra (1905) [18] conta o ambiente na época, designadamente quando descreve a exposição de um gorila africano (o hipotético antepassado do homem) num parque em Londres, num texto de 1877:

“Darwin é, como sabem (é quase ridículo lembrá-lo), o grande filósofo e naturalista que primeiro estabeleceu a teoria da descendência do homem, e declarou-o nascido directamente do macaco. Parecia natural que Pongo, vendo pela primeira vez o sábio ilustre que lhe deu uma tão alta posição na criação, fazendo-o pai do género humano, lhe daria ao menos um shake-hands cordial. Pois não senhor! Detesta-o. Com uma ingratidão africana, apenas o avista, franze a testa, arreganha os dentes, fita-o e volta-lhe as costas. E todavia se há uma bela e doce fisionomia, é a de Darwin com a sua longa barba branca!” 

Já no século XX, o modernismo de Fernando Pessoa (1888- -1935) está bem patente na admiração estética da ciência que o seu heterónimo Álvaro de Campos, engenheiro naval nascido em Tavira, mostra num poema escrito c. 1915 [19, ortografia actualizada]:

“O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo. 
O que há é pouca gente para dar por isso (…)”. 

Possivelmente esta comparação é uma paráfrase de outra que o italiano Filippo Marinetti (1876-1944), introdutor do futurismo, fez no seu “Manifesto Futurista” (1909) entre a Vitória de Samotrácia e um carro de corrida. O escritor Mário de Sá-Carneiro (1890-1916), um amigo de Fernando Pessoa, que se costuma associar mais à poesia do que à prosa, mas que é também um prosador notável, escreveu um conto fantástico, ou talvez melhor de ficção científica, intitulado A Estranha Morte do Professor Antena [20], no qual se encontra um grande elogio da ciência:

 “Com efeito um grande sábio cria – imagina tanto ou mais do que o Artista. A Ciência é talvez a maior das artes – erguendo-se a mais sobrenatural, a mais irreal, a mais longe em Além. O artista adivinha. Fazer arte é Prever. Eis pelo que Newton e Shakespeare, se se não excedem, se igualam.”

Já na segunda metade do século XX, outro açoriano, Vitorino Nemésio (1901-1978), este natural da Praia da Vitória, na ilha da Terceira, publicou em 1972, perto do final da sua vida, o livro Limite de Idade [21], dedicado ao seu amigo também açoriano Aurélio Quintanilha (1892-1987), biólogo ilustre que conheceu a desgraça do afastamento do país. Esse livro é um repositório de poemas que falam de vários ramos da ciência - a astronomia, a física, química, mas sobretudo a biologia, então em franca mudança após a descoberta da estrutura do ADN e os grandes desenvolvimentos da biologia molecular que vieram ajudar a compreender a doutrina de Darwin. Nemésio nasceu em 1901, o ano em que se deu o fenómeno astronó mico que ficou conhecido como “Grande Perturbação de Júpiter”, uma alteração da grande mancha de Júpiter. O fenó - meno é aqui misturado com referências pessoais e familiares num poema escrito em 1971:

JÚPITER 1901 

“Nasci no ano em que se descobriu a Grande Perturbação de Júpiter. 
Minha Mãe não deu por nada, meu Pai não era 
astrónomo, 
Mas houve lá em casa uma grande perturbação 
na água do banho, 
Que meu Pai, músico, acompanhava regulando encantado 
o seu metrónomo.
 E Júpiter, assim mimado, com pai por ele, saiu poeta, 
Com seus doze satélites, quatro deles principais: 
Serafina, Lourdes, Lídia, Isaura, 

A Primeira Grande Perturbação de Júpiter 
No ano em que nasci. 
Elas em roda da banheira, 
Meu Pai tocando flauta 
(Serpentes? no ninho em mim) 
E um céu de vapor de água, 
Difracção de satélites… 
Júpiter! Júpiter! 
Tu és o Toiro de fumo 
Que nunca terás Europa.” 

Um outro poema de Nemésio refere-se à química (curiosamente, a escrita da fórmula química da água está mal, com o 2 em sobreíndice em vez de subíndice, mas vai como saiu grafado no livro):

FRAGMENTO DE UM MADRIGAL EXTRAVIADO

 “… 
Deutério moderador 
(Para alguns água pesada) 
De teus dedos me dirija 
A reacção encadeada. 
Que eu só acelero por Amor 
Por morrer com Energia. 
Não chores mais, flor do isótopo, 
Que tudo isto é poesia 
E tempestade num copo 
De H2O bem comum: 
Sem número de massas nem Z antes,
 Que seu destino é nenhum.” 

Um dos mais extraordinários exemplos de simbiose entre ciência e poesia encontra-se Rómulo de Carvalho (1906- -1997) o professor de Física e Química que foi também poeta, sob o pseudónimo de António Gedeão. Eis dois dos seus poemas, que contrastam a pequeez do homem em comparação com a amplidão do mundo, mas também expressam com uma sensibilidade rara a metáfora do homem como espelho do mundo (os dois de Máquina de Fogo, 1961 [22]):

AMOSTRA SEM VALOR 

“Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.
 Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível: 
com ele se entretém 
e se julga intangível. 

Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,
 sei que o Mundo é maior do que o bairro onde
 habito, 
que o respirar de um só, mesmo que seja o meu, 
não pesa num total que tende para infinito. 

Eu sei que as dimensões impiedosos da Vida 
ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo, 
nesta insignificância, gratuita e desvalida, 
Universo sou eu, com nebulosas e tudo.” 

MÁQUINA DO MUNDO

“O universo é feito essencialmente de coisa
 nenhuma. 
Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea. 
Espaço vazio, em suma. 
O resto, é a matéria. 
Daí, que este arrepio, 
este chamá-lo e tê-lo,
 erguê-lo e defrontá-lo,
 esta fresta de nada aberta no vazio,
 deve ser um intervalo.” 

O nosso único Prémio Nobel da Literatura José Saramago (1922-2010), embora não seja grande cultor de termas científicos, escreveu um notável poema sobre a luz onde a ciência entra luminosamente (In Poemas Possíveis, [23], 1985).

FÍSICA

“Colho esta luz solar à minha volta,
 No meu prisma a disperso e recomponho: 
Rumor de sete cores, silêncio branco.

 Como flechas disparadas do seu arco, 
Do violeta ao vermelho percorremos
 O inteiro espaço que aberto num suspiro 
Se remata convulso em grito rouco. 

 Depois todo o rumor se reconverte, 
Tornando as cores ao prisma que define, 
À luz solar de ti e ao silêncio.”

Na contemporaneidade, e considerando a partir de agora auto - res vivos, veja-se a óbvia presença da ciência, seja ela a física e a matemática, na poesia experimental do poeta ou engenheiro têxtil E. M. de Melo e Castro (nascido em 1932) (os dois poe - mas foram retirados da sua Antologia para Inici-Antes [24]):

PÊNDULO 



SONETO SOMA 14x 

 1 4 3 4 2
 2 3 3 0 6 
4 1 6 1 2 
3 2 2 1 6 

5 0 0 1 8
 2 1 2 5 4 
1 4 0 1 8
 3 2 4 1 4 

3 1 2 3 5 
5 4 1 2 2
 3 0 4 2 5 

4 3 3 1 3 
5 1 2 1 5
 8 9 3 5 3

Vale a pena ler o seguinte breve poema de inspiração astronómica do poeta e médico (com a especialidade de obstetrícia) Jorge Sousa Braga (n. 1957). O poema foi publicado original mente em De manhã vamos todos acordar com uma pérola no cu (1981), mas está contido na sua antologia O poeta nu [poesia reunida] [25]):

POEMA DE AMOR 

“Esta noite sonhei oferecer-te o anel de Saturno 
e quase ia morrendo com o receio de que não
 te coubesse no dedo.”

 Sousa Braga é também autor de outros poemas contendo intersecções com a ciência, como nos livros de poesia infantil (mas que são para todos) Herbário, de 1999 [26], e Pó de estrelas, de 2004 [27]), respectivamente sobre botânica e astronomia.

A poetisa Adília Lopes (n. 1960), pseudónimo literário de Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira, estudou Física na Universidade de Lisboa sem nunca ter concluído o curso. É uma voz singular na moderna poesia portuguesa, surgindo amiúde temas científicos na sua obra. Veja-se como aborda a questão da seta do tempo, manifesta na Segunda Lei da Termodinâmica, ou Lei do Não Decréscimo da Entropia (em sistemas isolados), no seguinte poema [28]:

MEMÓRIAS DAS INFÂNCIAS 

“Gostávamos muito de doce de framboesa 
e deram-nos um prato com mais doce de framboesa 
do que era costume
 mas
 a nossa criada a nossa tia-avó no doce de framboesa 
para nosso bem
 porque estávamos doentes 
esconderam colheres do remédio 
que sabia mal 
o doce de framboesa não sabia à mesma coisa 
e tinha fiapos brancos 
isso aconteceu-nos uma vez e chegou 
nunca mais demos pulos por ir haver
 doce de framboesa à sobremesa
 nunca mais demos pulos nenhuns 
não podemos dizer
 como o remédio da nossa infância sabia mal! 
como era doce o doce de framboesa da nossa 
infância! 
ao descobrir a mistura 
do doce de framboesa com o remédio 
ficámos calados 
depois ouvimos falar da entropia aprendemos que 
não se separa de graça
 o doce de framboesa do remédio misturados 
é assim nos livros
 é assim nas infâncias 
e os livros são como as infâncias 
que são como as pombinhas da Catrina
 uma é minha 
outra é tua
 outra é doutra pessoa.” 

De facto, na nossa vida, apesar de os seres humanos serem sistemas abertos, há sempre algo perdido quando se envelhece, tal como, num sistema isolado, o crescimento inexorável da entropia dá conta da evolução do passado para o futuro.

Finalmente, um prosador e poeta contemporâneo cuja obra está já amplamente traduzida no estrangeiro é o poeta Gonçalo M. Tavares (n. 1970), autor de alguns textos literários de clara inspiração filosófica, que escreveu um poema quase aforístico sobre o alegre optimismo dos cientistas, em Breves notas sobre a ciência [29], de 2006:

UMA HIPÓTESE 

“A alegria é um catalisador de uma experiência 
científica; a tristeza um inibidor. 
A tristeza encolhe; como pode um homem triste 
descobrir algo? 
Só quem é alegre arrisca. 
A tristeza é anticientífica.” 

3. CONCLUSÃO

 Ciência e literatura são partes do grande corpo da cultura humana [30-34]. Não há duas culturas, mas uma só. Tanto a arte como a ciência procuram decifrar mistérios do mundo e tanto uma como outra usam para isso a poderosa arma da imaginação. A ciência e literatura têm, portanto, mais pontes do que normalmente se crê. A literatura alimenta-se, por vezes, da ciência. Sem a ciência algumas das grandes páginas da literatura não teriam decerto sido possíveis (ver duas recentes antologias sobre poesia portuguesa relacionada com a ciência [35-36]). E, por outro lado, a ciência também por vezes se alimenta da literatura, como transparece da inspiração que alguns cientistas encontram em textos de ficção científica. Como disse o biólogo inglês Thomas Henry Huxley (1825-1895), um dos maiores responsáveis pelo espalhamento da fama de Darwin: “Ciência e literatura não são duas coisas diferentes, mas dois lados da mesma coisa” [37]. [

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[3] Almeida Garrett (2013), Viagens na minha terra, Porto: Civilização. Original (1846): 2 vols., Lisboa, Typ. Gazeta dos Tribunais.
[4] José Saramago (1999), Discursos de Estocolmo, Lisboa: Caminho.
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[9] António Lobo Vilela (1955). Ciência e Poesia, Lisboa: Portugália, 2.ª ed. (2012): Lisboa: António da Costa Lobo Vilela.
 [10] Guerra Junqueiro (1887), A Morte de D. João, Lisboa: Livraria António Maria Pereira, 4.ª ed., “Prefácio da Segunda Edição,” p. 10.
 [11] José Eduardo Franco e Carlos Fiolhais (coords.) (2017- ), Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa, 30 vols., Lisboa: Círculo de Leitores.
[12] Garcia da Orta (2011), Colóquio dos Simples e Drogas da Índia, 2 vols., 3.ª ed., reproduzida em fac-simile da ed. de 1987, 2.ª ed. reproduzida em fac-símile da ed. de 1891 dirigida e anotada pelo Conde de Ficalho, Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda. Original (1563): Goa: Ioannes de Endem.
[13] Luiz Vaz de Camões (2017), Os Lusíadas, in Obras Completas de Luiz Vaz de Camões, 1.º vol. Épica e Cartas, introdução e organização de Maria Vitalina Leal de Matos, Lisboa: E-primatur. Original (1572): Lisboa: António Gonçalves.
[14] Antero de Quental (2018), Poesia II. Sonetos Completos, edição crítica de Luiz Fagundes Duarte, Lisboa: Abysmo. Original (1861): Sonetos de Anthero, Coimbra: Sténio.
[15] Antero de Quental (2016), Poesia I. Odes Modernas. Primaveras Românticas, edição crítica de Luiz Fagundes Duarte, Lisboa: Abysmo. Original (1865): Odes Modernas, Coimbra: Imprensa da Universidade.
[16] Eça de Queiroz (2017), Os Maias, Lisboa: Livros do Brasil. Original (1888): Porto: Livraria Internacional de Ernesto Chadron.
[17] Charles Darwin (2011), A Origem das Espécies, Lisboa: Verbo. Original (1859): The Origin of Species, London: John Murray.
 [18] Eça de Queiroz (s.d.), Cartas de Inglaterra e Crónicas de Londres, fixação e notas de Helena Cidade Moura, Lisboa: Livros do Brasil Original (1905).
[19] Fernando Pessoa, in Jerónimo Pizarro e António Cardiello (eds.) (2014). Obra Completa de Álvaro de Campos, Lisboa: Tinta da China. Original (1944): Poesias de Álvaro de Campos. Lisboa: Ática.
20] Mário de Sá-Carneiro (2000), A estranha morte do professor Antena, Colares: Colares Editora. Original (1914).
[21] Vitorino Nemésio (1989), Limite de Idade, in Obras Completas. Vol. II – Poesia, prefácio, organização e fixação e texto de Fátima Freitas Morna, Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda). Original (1972).
[22] António Gedeão (2004), Obra Completa, Lisboa: Relógio d’Água. Original (1961): Máquina de Fogo, Coimbra: Atlântida editora.
[23] José Saramago (1985), Poemas Possíveis, Lisboa: Caminho.
[24] E. M. de Melo e Castro (2003), Antologia para Inici-Antes, Vila Nova de Gaia: Ausência. [25] Adília Lopes (2009), O Decote da Dama de Espadas, in Dobra. Poesia Reunida 1983-2007, Lisboa: Assírio e Alvim. Original (1988): Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda.
[26] Jorge Sousa Braga (2007), De manhã vamos todos acordar com uma pérola no cu, in O poeta nu [poesia reunida], Original (1981): Coimbra: Fenda.
[27] Jorge Sousa Braga (2014), Herbário, Lisboa: Assírio e Alvim. [28] Jorge Sousa Braga (2014), Pó das estrelas, Lisboa: Assírio e Alvim.
[29] Gonçalo M. Tavares (2006), Breves notas sobre a ciência, Lisboa: Relógio d’Água.
[30] Carlos Fiolhais (1994). Universo, computadores e tudo o resto, Lisboa: Gradiva.
[31] Carlos Fiolhais (2008). “Imaginação, ciência e arte”, Biblos, n.º 4, 2.ª série, pp. 3-16.
 [32] Carlos Fiolhais (2013). “Einstein: entre a Ciência e Arte”, in J. Carvalho (coord.), Arte e Ciências em Diálogo, Coimbra: Grácio Editor, pp. 27-35.
[33] Carlos Fiolhais (2015). “Ciência e Humanismo. A visão da ciência de Erwin Schrödinger,” Biblos, n.º 1, 3.ª série, pp. 127-151.
[34] Carlos Fiolhais, “ ‘Estranhas mas irmãs’: revisitando a questão das duas culturas”, Revista Lusófona de Estudos Culturais, vol. 3, n.º 2, pp. 103-111. [35] Vasco Graça Moura e Maria Bochicchio (orgs.) (2011). O binómio de Newton e A Vénus de Milo. Poesia e Ciência na Literatura Portuguesa, Lisboa: Alêtheia.
 [36] Rui Malhó (org.) (2014). O Bosão do João. 88 Poemas com ciência, Lisboa: By the Book.
[37] Thomas V. Huxley and Henrietta A. Huxley (eds.) (1908), Aphorisms and Reflections from the works of T. H. Huxley, London: Macmillan and Co. Lim.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

ESCOLA CIÊNCIA VIVA NO RÓMULO EM COIMBRA

ETHICS, SCIENCE & SOCIETY: CHALLENGES IN BIOPOLITICS

Minha intervenção anteontem no Pavilhão do Conhecimento em Lisboa, no Congresso com o título em cima, organizado por Maria do Céu Patrão Neves:

We are living longer and better due to science and technology. And advances in science and technology remain our best hope for living longer and better in the future. But these advances now, as before, pose ethical and legal challenges to society at large. I congratulate Maria do Céu Patrão Neves not only for organizing this meeting but also for the publication of the 12 volumes of "Practical Ethics", which is indeed a notable achievement.

We have seen in the past the arise of new ethical and legal questions. For example, the emergence of commercial aviation forced a debate on property rights: aviation would be impossible if all landowners had to authorize the overflight of their land. Another well-known example, this one pertinent in the digital age: the ease of copying and sharing music, video, and software still poses difficulties in managing copyright.

Today we live in an extraordinary moment, in which the advances that can transform our lives fall into extraordinarily complex areas. We find obvious examples of this complexity in the fields genetics, artificial intelligence (this one sometimes combined with the former), nanotechnologies, robotics, etc. Even the well-known case of climate change, where the issues at stake are now clear, is of great complexity, and requires a great effort of public communication. Ethical decisions about these issues cannot be left only to scientists since they belong to everybody.

For the public to participate in the discussion there is a need for public understanding, at a relevant although admittedly superficial level. The public needs to know enough to have an informed opinion. The general public does not need to know the details, but should know the principles, be aware of the potential and limitations of the science and technologies involved.

However, beyond the buzzwords in the media – we find genetics, artificial intelligence, etc. in the headlines - , most people have access to very little information about these advances in science and technology that can transform society. They did not learn about the issues in the school and it is not always easy learn them from the media.

How can people have an opinion without this basic knowledge? Irrational fear or uncritical enthusiasm are the options left. We see irrational fear prevailing in this world where the enemies of science are abundant (I wrote a book with David Marçal entitled "Science and its  enemies", taking the inspiration from Karl Popper “Open society and its enemies”).

The above-mentioned involved research topics have led to absolutely exciting possibilities. And it happened very quickly in the last decades. It has been too fast for its meaningful integration into formal education (curriculum change takes time). The decisions we have to make are just around the corner and not decades away.

Science communication has therefore a strategic and irreplaceable role in the public understanding of these complex issues. But science communication, like formal education, has been slow to react. In formal education, the delay is better understood. In communication science I think it is inexcusable. There are some good exceptions to this situation, but they are unfortunately isolated cases.

Progress in the last decades in the field of genetics – namely the whole sequencing of the human genome -  has been tremendous. It costed millions of dollars to sequence the first genome but mine has been sequenced for just 700$. The 100$ goal is foreseen for the near future. These advances they have largely gone unnoticed. The possibility of sequencing individual genomes poses security and data privacy issues. We are on the verge of being able to treat genetic diseases by modifying our genes. And we can do a lot more, like preventing diseases. For instance, Angelina Jolie has done a mastectomy based on genetic data. These are extremely complex techniques with tremendous ethical implications. Look at the recent case of the Chinese MD who disappeared after making an announcement about genes manipulation… And it seems to me that we were caught by surprise. We have to make up for lost time and quickly inform the public about these issues. Are we ready for this? Some associations made by scientists, like the “Living Science” Association created by Maria Mota, or the PAPS (Portuguese-American Post graduated Society) led by Silvia Curado, are fully aware about CRISP and all that. But do they have enough means to help improving public understanding of science?

Another example is artificial intelligence: I do not know of any good scientific exhibition in Portugal about it, including its applications in medicine. However, every day artificial intelligence algorithms are part of our lives. When these algorithms suggest us a book in the Amazon; or a movie to watch on Netflix. But what do we know about tese technologies? In the very near future these algorithms will be able to make important decisions for us in the field of medicine. It is difficult to explain them in common language. The head of IST, Arlindo Oliveira, has been explaining the issue in newspapers, and VISÃO, where Sara Sá diligently works,  already published some very interesting stuff on the subject, but it should be addressed more often and more widely as a topic in science communication.

The case of vaccines is also a case of ethical decisions associated with complex scientific issues. Vaccinating is not, in fact, an individual decision since It has public health implications. It is also an area where there is a lot of misinformation and lies circulating. That is why it is important to do things right to gain public trust. The recent approval of three vaccines for the national vaccination plan by the Portuguese parliament gives a completely wrong signal, by replacing specialized scientific expertise with politics. David Marçal, one of our best science communicators, wrote recently na article, in Público, stating that science should inform politics and not the other way around. I agree completely. In Portugal at the political level we see a lot of misunderstanding.

I recognize that it is very difficult for the public to understand the involved epidemiological studies used to recommend the inclusion of a vaccine in the national vaccination plan. The public needs to know this better. Transparency is a mark of science. And more transparency is needed. The right message needs to be translated into a language that many can understand. This is the role of the science communicators. Are we doing it?

Scientists should present choices. Society takes decisions, grounded on ethics. The public needs to minimally understand scientific issues to take decisions. This is essentital to the confidence in science and to have meaningful ethical debates. And this is the role of science communication. There can be no meaningful ethical debates without good communication of science.

The price of not occupying the public space on these matters with correct information is to leave that space for charlatans. This is very easy to happen. This is already happening in this time of controlled social media and of fake-news, in this time where extreme ignorance appears combined with extreme power. Carl Sagan already warned us i n 1998 in his book "Science as a candle in the dark" that “extreme power combined with extreme ignorance may explode in our face”

There is therefore an urgency in engaging science communication in the new  complex issues with major ethical implications. The time is now. I am afraid that if we start tomorrow it may be too late. But I am sure, knowing some of the people who are present in this conference, that we are going to start now. We are going to take the challenge.

"Dicionário dos Antis:" lançamento hoje em Lisboa


Dicionário dos Antis:  a cultura portuguesa em negativo

LANÇAMENTO | 12 dez. ’18 | 18h00 | Auditório da Biblioteca Nacional de Portugal | Entrada livre

A apresentação dos volumes 1 e 2 desta edição da Imprensa Nacional, com direção de José Eduardo Franco, é realizada por António Costa Pinto, Eduardo Vera Cruz, Guilherme d´Oliveira Martins, Luís Caetano e Ricardo Araújo Pereira. 

«O Dicionário dos Antis constitui-se como uma espécie de história da cultura portuguesa, olhada do ângulo dos dinamismos de oposição e de contradição», escreve Duarte Azinheira, na nota editorial.

Os volumes 1 e 2 da obra têm coordenação de Adelino Cardoso, Aida Sampaio Lemos, António Castro Henriques, Carlos Fiolhais, Helena Mateus Jerónimo, João Relvão Caetano, Joaquim Pintassilgo, José Carlos Lopes de Miranda, Luís Machado de Abreu, Luiz Eduardo Oliveira, Manuel Curado, Manuel Marques, Micaela Ramon, Pedro Barbas Homem e Ricardo Ventura. 

Como lembra Fabrice d'Almeida, no prefácio da obra, existem desde a Antiguidade «numerosas mobilizações e organizações que foram criadas unicamente para se oporem a uma opção política, a uma ideologia, a uma religião; ou simplesmente a uma lei, a um decreto; ou então a um espetáculo ou a uma moda. Existem mesmo gerações inteiras de movimentos de oposição que forjaram múltiplos vocábulos para assinalar a radicalidade do seu desacordo».

Trazendo ao leitor a história dos antis e da cultura em negativo que estes produziram, «o Dicionário dos Antis constitui uma verdadeira história pluridisciplinar de Portugal, através de cujas entradas se revisitam as grandes rotações do país: a reconquista, a afirmação do poder da monarquia, os movimentos eclesiásticos, nomeadamente os Jesuítas, seguidos das tensões coloniais e partidárias…Também se pode observar de que modo filósofos, historiadores, juristas e sociólogos contribuíram, ao lado dos escritores e juntamente com os políticos, para este movimento», sublinha Fabrice d´Almeida.


A obra pioneira, que pretende estimular o debate internacional, resulta de um trabalho interdisciplinar que envolve especialistas e investigadores de universidades portuguesas e estrangeiras, inaugurando a publicação dos resultados de um projeto de pesquisa financiado pela IN que, segundo o Diretor da Instituição, «começa a ser bem acolhido e a ter seguimento como linha de investigação de pontas noutros países».