segunda-feira, 16 de setembro de 2019

ILUMINAR - AS IDEIAS QUE ILUMINARAM O PROJECTO POMBALINO



Marcarei presença em Oeiras no quadro deste ciclo pombalino (clicar para ver melhor):


O editor da Guerra e Paz escreve aos leitores

Venham comigo até à minha infância. Vamos brincar ao lobo mau.
Cantemos a lengalenga:
Responde o menino que faz de lobo:
O lobo ’tá ler um livro!
Oh, que antigo deve ser este lobo, que ainda lê livros. Nem é, de certeza, um lobo mau, por mais que, na sua natureza, esteja a vontade de comer a Capuchinho Vermelho. A bem dizer, já nem há lobos maus nem capuchinhos vermelhos, e ler livros começa a ser tão anacrónico como brincar ao giroflé flé flá.

Nesta rentrée de Setembro de 2019, último ano dos anos 10 do século xxi, o século em que morrerei, não gostava que morresse o livro. Devo ao livro, lobo mau que devorei com olhos tão curiosos como os da Capuchinho Vermelho, exaltações e euforias apaixonadíssimas, estremecimentos de alma com que nem São João da Cruz ou Santa Teresa d’Ávila sonharam.

Mas, enquanto o lobo não vem, deixem-me dizer o que foi mesmo o livro na minha fraca vida. O livro foi o fruto do conhecimento que, sem culpa de Eva, eu mordi com vontade. Eu vivia num mundo de descuidada inocência e, por ter comido esse fruto do conhecimento (é mentira que seja uma maçã), fui expulso do Paraíso.

Abençoada expulsão. Quem quer viver no Paraíso sem lobos maus, sem capuchinhos vermelhos, sem Evas que mordam a mesma fruta, um Paraíso onde nem ao giroflé flé flá se possa brincar?

O livro é a saudade e a consciência do Paraíso no maravilhoso mundo-lobo-mau de pecado e vida. Nesta rentrée de 2019, são esses os livros que gostaria de vos trazer. E escolho três exemplos, os melhores exemplos de fruto do conhecimento que vos quero dar a provar antes do Natal.

Um chama-se Quem É Fascista. O autor é um historiador italiano, Emilio Gentile. O fascismo é um lobo mau do século xx. No século xxi, outros lobos maus vieram brincar nas nossas globalizadas serras. O que Emilio Gentile explica é que não se devem confundir estes lobos maus, chamem-se Orbán, Trump, Bolsonaro ou Salvini, com o lobo mau fascista. Se queremos que não comam a Capuchinho Vermelho, temos de saber que lobo mau é o lobo mau fascista evitando repetir o erro dos partidos comunistas dos anos 20 que chamavam até fascistas a antifascistas que não fossem do partido. E que bem, com que inteligência, este livro tudo nos explica e guia.

Outro livro desta rentrée tem por título Alterações Climáticas – O Que Sabemos, o Que Não Sabemos. Escreveu-o a cientista americana Judith A. Curry, que há 40 anos estuda os lobos maus e bons que são os ciclones, os furacões, os vulcões e o tremendo gelo dos pólos. Judith A. Curry não vem aos gritos. É mesmo contra a gritaria de “vem aí o lobo, vem aí o lobo”, que Judith A. Curry está. Judith serve-se da ciência e diz-nos que só conhecendo – e conhecer é também reconhecer as incertezas – saberemos as razões pelas quais aqueceram as nossas desoladas serras, que já tão poucos lobos têm. Contra os alarmismos catastrofistas, a cientista Curry, uma Eva que só se quer alimentar do fruto do conhecimento, mostra-nos, neste livro, que não sabemos quanto e como o planeta aquecerá, e que afirmar o comportamento humano como razão dominante do aquecimento é uma simplificação imposta por políticos, que está por provar cientificamente. O consenso forçado é um lobo mau que nos quer impor uma única maneira de andarmos nas serras deste nosso mundo em brasa.

Um, dois, três, macaquinho português, que bonito que é o meu terceiro livro. Chama-se Assim Nasceu Uma Língua, levando como subtítulo Sobre as Origens do Português. Escreveu-o um linguista admirável, Fernando Venâncio, percorrendo, como um lobo feliz e livre, as mais longínquas serras do Norte, onde, lobo galego, a língua portuguesa nasceu. Livro encantador e livre, nele se defende a maravilhosa diversidade da língua, dispensando a imposição de uma reaccionária unidade, num claro chumbo a esse famigerado lobo mau que é o Acordo Ortográfico de 1990, “devaneio inútil e dispendioso” de uma unificação de que o mundo real – que é haver Brasis, Angolas e Portugais, e neles povos – se ri, irrevogável e irreversível.

Eis o milagre dos livros, esses lobos em vias de extinção. Recusam-nos as certezas pantanosas. Inquietam-nos, põem-nos à caça, atentos e exigentes. Parece um mundo antigo e, não obstante, como estes três livros-lobos tão bem mostram, é só de futuro que estamos a falar.

Manuel S. Fonseca
editor da Guerra e Paz

“Porquê aprender? “


Neste início de mais um ano lectivo, vem a propósito esta questão: por que razão vão as crianças e os jovens à escola; porquê aprender?
Num programa de rádio belga, encontramos uma resposta na crónica de Pascale Seys* que aqui deixamos em tradução: 
 

"Em Nápoles, em 1732, Giambattista Vico pronuncia o discurso de abertura do ano universitário, perante uma plateia de jovens estudantes e professores. 

“Porquê aprender?” Pergunta ele. 

Vico dá a esta questão uma resposta muito simples. Trata-se de aprender não para se enriquecer, nem para se vangloriar dos seus conhecimentos, nem mesmo para se tornar sábio, erudito ou sabedor. Vico invoca uma outra razão, uma outra dimensão a que chama “De mente heroica”, “o heroísmo do espírito”.  
O que pode o heroísmo do espírito? Consiste para Vico em contribuir para a felicidade humana. Considerem como a resposta é simples: é para esta única causa existir no horizonte da felicidade humana que é útil aprender, declara o filósofo.

Esta ideia remete para a concepção que Descartes tinha da generosidade e a que a filósofa Laurence Devillairs chama “a ostentação”. Em vez de ter o olhar fixado naquilo que é pequeno, trata-se antes de olhar, de aspirar, sentir, explorar uma dimensão superior. Ser um herói, neste sentido, consistiria nisto, trata-se de erguer-se na direcção de um planeta sublime procurando como se pode, mas também como se deve, e o mais frequentemente possível, libertar o espírito das coisas vulgares, apertadas e engomadas. Um provérbio chinês diz exactamente isso quando afirma que lá onde o sábio olha a lua, o idiota olha o seu dedo. 

Apaixonado pelos filósofos da Antiguidade, Vico concluía o seu discurso de 1732 com ostentação, também ele, argumentando que o mundo felizmente ainda é jovem e que resta ainda à juventude muito a aprender, todos os dias, felizmente. E por isso, para nos elevar acima dos valores do comércio, da glória ou de uma sabedoria inerte, Vico preconiza cultivar um ponto de vista generoso, competente, aberto, que faça a volta ao mundo pelos saberes, mas sempre e exclusivamente tendo como objectivo a felicidade humana. 

Desaparecido há poucos meses, Michel Serres era, também ele, um pensador aberto às dimensões enciclopédicas do saber. Ele explicava por um exemplo simples como compreender a diferença de fundo entre o pequeno e o grande, entre uma troca mercantil e a cultura, entre um euro de papel e um euro de espírito. Se uma pessoa possui um pão e uma outra um euro, dizia ele, é fácil compreender a regra da troca: por um euro eu posso comprar um pão. Mas supondo, diz Michel Serres, que uma pessoa conhece o teorema de Pitágoras ou um soneto de Verlaine e que uma outra não tem nada, o que se passa? Passa-se que ao transmitir o teorema de Pitágoras e o soneto de Verlaine àquele que não tem nada, no fim desta troca, aquele que sabia conservou o que possuía e aquele a quem este saber foi transmitido recebeu alguma coisa que ignorava. “No primeiro caso, diz Serres, há equilíbrio, é a mercadoria, no segundo há crescimento, e é a cultura.” 
video aqui

Com o Verão a terminar, o ritmo dos dias que acelera e o tempo para pensar diminui, é talvez este o único desafio heróico que temos que realçar para sermos heróis da existência quotidiana, e que consiste em responder de maneira prática à questão: como crescer, como progredir, não em rendimento ou em capital, mas em cultura, em felicidade e em humanidade? 

E vós que pensais? "

* Pascale Seys — La cronique de Pascale Seys — Musiq3 — RTBF, 11 de Setembro de 2019.Pascale Seys é doutorada em filosofia; lecciona na Universidade Católica de Louvaina, bem como no Conservatório Real de Bruxelas e na Escola Superior das Artes de Saint-Luc em Bruxelas. Colabora no programa Musiq3 há mais de 20 anos.

domingo, 15 de setembro de 2019

Novos Classica Digitalia


Os Classica Digitalia têm o gosto de anunciar 2 novas publicações com chancela editorial da Imprensa da Universidade de Coimbra. Todos os volumes dos Classica Digitalia são editados em formato tradicional de papel e também na biblioteca digital, em acesso aberto.

Além do usual circuito de distribuição da IUC, a versão impressa das novas publicações encontra-se disponível em todas as lojas Amazon.

NOVIDADES EDITORIAIS

Série “Classica Instrumenta” [Catálogo e Estudo]

 - Diana Rodríguez Pérez & Thomas Mannack, La cerámica ática y su historiografía (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2019). 198 p.

[Este libro tiene su origen en la publicación que con el título Beazley and Christ Church. 250 Years of Scholarship on Greek Vases acompañó la exposición epónima celebrada en la biblioteca del Christ Church College en Oxford, entre el 26 de enero y el 6 de mayo de 2016. El trabajo actualmente presentado está basado en aquella publicación, pero ha sido profundamente revisado y ampliado.]

Varia” [Estudos]

- Francisco de Oliveira & Ramón Martínez (Coord.), Europatrida (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2019). 293 p.

[Este volume reúne contributos de autores de dezasseis países europeus que procuram as suas raízes na herança grega clássica e em especial em textos literários ou epigráficos escritos em grego antigo, bizantino, renascentista ou de épocas posteriores. Com isso procuram aclarar a ideia da sua própria nacionalidade no contexto da construção de uma Europa multifacetada, com personalidade histórica, do passado ao presente.]

Visite o catálogo completo dos Classica Digitalia.  

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

António Sampaio da Nóvoa: "Ciência, Educação e Cultura no Mundo Global: a visão da UNESCO"


Ciência, Educação e Cultura no Mundo Global: a visão da UNESCO 

 No próximo dia 17 de Setembro, terça-feira, pelas 18 horas, no RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, situado no piso 0 do Departamento de Física da FCTUC, António Sampaio da Nóvoa, Embaixador Português da UNESCO, virá falar sobre “Ciência, Educação e Cultura no Mundo Global: a visão da UNESCO”. A sessão, moderada pelo directo do RÒMULO Carlos Fiolhais,  é destinada ao público geral, havendo lugar a diálogo com o palestrante.

 Biografia 

 António Manuel Sampaio da Nóvoa nasceu em Valença em 1954. É doutor em Ciências da Educação pela Universidade de Genève, Suíça (1986) e doutor em História Moderna e Contemporânea pela Universidade de Paris IV-Sorbonne (2006). A sua vida como docente universitário iniciou-se na Universidade de Genève, Suíça, como assistente, em 1982.

A partir de 1986, ingressa na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Lisboa, tendo-se tornado professor catedrático em 1996. É professor convidado de várias universidades internacionais, nomeadamente Wisconsin (1993/1994), Paris V (1995), Oxford (2001), Columbia – New York (2002), Brasília (2014) e Federal do Rio de Janeiro (2017).

Entre 1996 e 1999, foi consultor para os assuntos da educação da Casa Civil do Presidente da República Jorge Sampaio. Entre 2000 e 2003, foi Presidente da International Standing Conference for the History of Education (ISCHE). Em 2012, presidiu às comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.

Entre 2006 e 2013, foi Reitor da Universidade de Lisboa, conduzindo o processo de fusão da Universidade de Lisboa e da Universidade Técnica de Lisboa. Em 2014, esteve no Brasil numa missão internacional da UNESCO junto do Governo Brasileiro. É Doutor Honoris Causa pela Universidade do Algarve (2015), Universidade de Brasília (2015), Universidade Lusófona (2016), Universidade Federal do Rio de Janeiro (2017) e Universidade Federal de Santa Maria (2019). A partir de Abril de 2018, é o Representante Permanente de Portugal junto da UNESCO.


Para mais informações: RÓMULO – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra Maria Manuela Serra e Silva Telefone – 239 410 699 E-Mail – ccvromulocarvalho@gmail.com Facebook: http://www.facebook.com/profile.php?id=100002912006773

INEBRIANTE…

Texto que nos foi enviado pelo Professor Mário Frota, especialista em Direito do Consumo e que muito agradecemos. Saiu antes no jornal As Beiras de 11 de Setembro de 2019,

Inebriante significa “que inebria”.

Inebriar, por seu turno, quer dizer “embriagar”.

O pequeno ecrã, que a tantos seduz, inebria, embriaga, não de modo figurado (“extasiar, arroubar; deliciar; encantar”), mas no sentido próprio do termo.

Dele como que emana a “essência” do vinho e do mais subsumível no conceito de bebida alcoólica.

As libações alcoólicas a que se assiste e a irresistível mãozinha para o copo têm lugar assegurado a qualquer hora do dia na pantalha.

E já ninguém parece estranhar pela circunstância de o facto (a sistemática violação da lei, na letra e no espírito, e a nula intervenção dos reguladores) se haver tornado normal.

O Código de Auto-regulação, nas suas especificidades, é autêntica letra morta.

O Código da Publicidade, aliás, de forma adequada, ao que se nos afigura, e no quadro dos padrões por que se regem as nações civilizadas, estatui um sem-número de restrições, a saber:

ESTAÇÕES DE RADIODIFUSÃO ÁUDIO E AUDIOVISUAL

A publicidade a bebidas alcoólicas é vedada, na televisão e na rádio, entre as 7 horas e as 22 horas e 30 minutos.

PUBLICIDADE LÍCITA

A publicidade a bebidas alcoólicas, independentemente do suporte adoptado para a sua difusão, só é lícita se
  • Não se dirigir especificamente a menores e, em particular, os não apresentar a consumir tais bebidas;
  • Não encorajar consumos excessivos;
  • Não menosprezar os não consumidores;
  • Não sugerir sucesso, êxito social ou especiais aptidões por efeito do consumo;
  • Não sugerir a existência, nas bebidas alcoólicas, de propriedades terapêuticas ou de efeitos estimulantes ou sedativos;
  • Não associar o consumo de tais bebidas ao exercício físico ou à condução de veículos;
  • Não sublinhar o teor de álcool como qualidade positiva. 
PUBLICIDADE E SÍMBOLOS NACIONAIS

Não é lícito se associe a publicidade de bebidas alcoólicas aos símbolos nacionais, tal como consagrados constitucionalmente.

COMUNICAÇÕES COMERCIAIS & MENORES

As comunicações comerciais e a publicidade de quaisquer eventos em que participem menores, designadamente actividades desportivas, culturais, recreativas ou outras, não devem exibir ou fazer qualquer menção, implícita ou explícita, a marca ou marcas de bebidas alcoólicas.

Nos locais onde decorram tais eventos não podem ser exibidas ou de alguma forma publicitadas marcas de bebidas alcoólicas.

Não se respeitam as normas auto-regulatórias como se não observa o Código da Publicidade.

Quer se trate de patrocínio quer de publicidade, parece que, em fraude à lei, se enxameia o pequeno ecrã de contínuos apelos ao consumo pela exposição superlativa, dentro dos horários a tal vedados, de produtos, marcas, experiências e o mais que de forma alarve é dado ver a quem quer...

Com o futebol, não escapa a "colocação de produto ("product placement") com a cerveja a emoldurar o "púlpito", de onde os lentes da bola encenam as suas magistrais prelecções (e que já nem há sequer rebuço em esconder ou dissimular...).

E as apresentadoras de televisão, mais que os apresentadores, a insistir nos "brindes", deleitadas, a fazer da bebida uma "exaltação permanente” e boçal, com o copo sempre à mão e a oferecer um péssimo exemplo a quem os tem como modelo.

Nos estádios em que decorram actividades desportivas, mormente o futebol, exibe-se a escâncaras as marcas de cerveja que patrocinam clubes e escalões, ainda que de petizes, a juvenis e juniores, do primeiro escalão.

Denunciámos o que se passa no Olival, onde tais espectáculos decorrem. Mas, nos outros, o “espectáculo” será decerto análogo…

Nas festividades escolares a cerveja prepondera, sem qualquer rebuço!

Um canal desportivo apresentava, há dias, no decurso de uma partida de futebol do Girabola angolano, publicidade directa, a entrecortar a transmissão, de um whisky, a espaços enxertado na emissão.

Os programas que por cenário têm as diferentes regiões do País encharcam os espectadores de vinho e de bebidas licorosas, em horário nobre, sem o mínimo pudor: e a exaltação que os apresentadores fazem dos distintos néctares é mais que um hino de louvor a Baco. Parece ser o retorno do “Beber vinho é dar de comer a um milhão de portugueses” em que se exaltava a base das “sopas de cavalo cansado” que forneciam energia e iludiam a fome dos que a ostentavam… sem banco alimentar que as amparasse!

As sucessivas denúncias a tal propósito deduzidas perante quem de direito caem sistematicamente em saco roto.

Claro que poderá haver programas convenientemente estruturados, ainda que no assinalado horário, em que se mostre o segmento vitivinícola do País sem se cair nos excessos que se apontam e violam flagrantemente a lei, menos ainda que constituam patrocínio ou publicidade dissimulada.

Quanto custa ao SNS e ao futuro o efeito deletério da comunicação comercial ilícita e da publicidade a escâncaras a que se assiste na pantalha?
Mário Frota 
apDC – DIREITO DO CONSUMO - Coimbra

A PRODIGIOSA AVENTURA DAS PLANTAS


Início do capítulo 0 (sem notas) da "Prodigiosa Aventura das Plantas", de Jean-Marie Pelt e Jean-Pierre Cuny, livro de que acaba de sair a 4.ª edição na colecção Ciência Aberta da Gradiva:

O qual, no entanto, é mais consistente do que um iogurte — este só existindo porque existe a erva — e pretende em particular estabelecer a precedência do grão sobre o borrego

 Porquê a aventura das plantas? Primeiro porque é a nossa. Diz a Bíblia: «Toda a carne é erva.» De facto, sem a gramínea, não havia entrecosto para ninguém. Sem erva, não há vitela; nem à sombra dos salgueiros, nem à mesa dos escritores; e, portanto, acabava a literatura. Imaginem, se tivessem de comer como bons vegetarianos: espigavam com certeza.

Porque o homem depende das saladas.

Na era do nuclear, da qual se faz muita espécie, é tempo de nos lembrarmos de que as plantas conheceram — cem, duzentos, trezentos, quatrocentos, quinhentos milhões de anos antes de nós — civilizações marcadas por grandes invenções, enquanto o sinantropo e o pitecantropo ainda estavam às escuras, para não falar do homosaintropo.

 E todos os anos, pela Primavera, deveríamos celebrar a mais extraordinária, a mais incrível, a mais sumptuosa  invenção jamais realizada: a fotossíntese, de modo que o macaco nu, que ainda não sabe imitá‑la, bem podia ir‑se vestir. Por exemplo, o rabanete. J

á agora, pega‑se pela rama. Que é que se vê? Uma raiz cheia de vitamina B.

O que, para o rabanete — já os estou a ouvir —, é o B‑A = BA. Está‑se mesmo a ver!

Mas para lá chegar foi preciso passar do oceano cinzento ao oceano verde, das algas aos musgos, dos musgos aos fetos, conceber a folha, o caule, a raiz e a semente de madeira de prateleira, enquanto berravam os dinossauros, e inventar a flor: ao todo, uns milhões de anos de «reflexão» vegetal!

 — Claro — diz o cientista que nos está a ler, e que é muito coca‑plantinhas3 —, agora (já estávamos à espera) põe‑se a dizer disparates: está a atribuir poder de reflexão ao rabanete! O seu livro vai‑se vender, de certeza, com aqueles que servem como aperitivo salada de óvni com asteca tártaro; com os que pretendem que o Albinoni não é bom para os chorões, que já choram o suficiente. Enquanto o Marco Paulo é conveniente para o crescimento do nabo, o reggae para o do cânhamo indiano, etc.: o seu livro é bom para ler na casa de banho! Outro, levado pelo desprezo, elogia‑nos:

— Se não é mesmo uma vergonha descrever as plantas dessa maneira! A «reflexão do rabanete»! E a seguir? Parece São Raoul de Chardin!

 Ora, se não se importam, vamos lá a ter calma: não dissemos que o rabanete tem ideias. Dissemos sim —  quem afirmará o contrário? — que há ideias no rabanete. Para mais, é claro que o povo vegetal, esse povo irmão dos homens, persegue essas ideias, com muitos outros, desde há muito, o que é bom de ver, porque as plantas primitivas, que continuam sem folhas, nem raízes, ainda estão à nossa vista, como aborígenes; assim como as inúmeras plantas que, entretanto, e aqui para nós, levaram pancada em todos os continentes, de todas as maneiras, antes mesmo que a separação destes fosse decidida de comum acordo. E não acaba aqui, porque se vai ver, no Capítulo 10, que a planta do futuro já existe.

Ou seja, não é porque as plantas fazem as coisas com tempo que não vivem uma aventura fascinante. E se o rabanete não inventou a pólvora, é porque descobriu muito melhor do que isso.

 E então é de bom‑tom dizer que «isso foi durante a evolução».

 Fórmula admirável, cujo jesuitismo beato lhe diz que a sua filha é muda porque não é dotada de fala e cuja parte mais interessante é a forma passiva: «Isso foi...»; ninguém tem lata para acrescentar «sozinho», mas é mesmo por pouco.

No entanto, foi preciso que o rabanete fosse concebido, ou, se preferirem, que se concebesse.

 O que não justifica que se apele ao Criador. Não vamos cair na armadilha, lá porque ele é crucífero, de proclamar o rabanete católico. Assim como não vamos dizer, lá porque o hábito, antes de comer, é retirar‑lhe um bocado, que ele foi concebido para ser circuncidado.

E muito menos, porque ele é simpático e barrigudo, que ele se entrega a qualquer meditação radical‑budista, ou que foi feito para Confúcio, ou vice‑versa.

Para mais, o rabanete desconfiava, dado que geralmente é oco por dentro.

Portanto, longe de nós a intenção de insinuar que as plantas pensam: «Cresço, logo existo.»

Mas já se pode dizer que as plantas são pensadas6 pela evolução, pelo menos tanto como os animais, e como eles remodeladas, aperfeiçoadas, com uma teimosia e um génio que os botânicos, até agora, só souberam descrever em latim. Teimosia admirável, de certa maneira, graças à qual conseguiram estabelecer entre eles uma linguagem internacional. Se disser a um botânico chinês «balsamina‑selvagem », vai olhar para si com os olhos ainda mais embicados, se possível, sob o efeito da desconfiança e da perplexidade. Se disser: «Impatiens parviflora», o olhar dele, desta vez, vai iluminar‑se. E vai mostrar‑lhe no seu herbário a balsamina, a qual, em chinês, pode perfeitamente chamar‑se balsaming, ou outra coisa qualquer, porque o que interessa é o latim.

Quando percorreram a África, a Ásia e a América, bastou aos repórteres encarregados de filmar as plantas para a nossa série televisiva citar os nomes latinos: os botânicos locais compreendiam‑nos tanto na Tailândia como nas Canárias, tanto na Califórnia como no Var.

 Mas a internacional botânica não salvará o género ignorante. Fecha‑se demasiado na sistemática, para aí melhor cortar os estames ao meio, e veste‑se de uma linguagem de enxotar o zé.

Abro ao acaso uma obra de «vulgarização», a qual certamente não deixa de ter méritos e pretende ensinar‑vos muito mais do que a nossa; na condição  de assimilar, por exemplo, isto à primeira: «Sendo as gramíneas monocotiledóneas, as folhas têm um crescimento basal. Formam bainhas, que suportam o caule oco, protegendo ao mesmo tempo o gomo apical e as regiões de crescimento basal dos entrenós situadas mesmo acima dos nós.»

Se tentarmos lê‑la de novo com cuidado, uma frase como esta é até muito clara; se bem que o termo «monocotiledónea», aqui para nós, me tivesse sempre provocado uma certa dor de cabeça e que essa história de «entrenós situados mesmo acima do nó» me pareça um bocado estranha.

Mas há pior: a frase que atira definitivamente o homem da rua para a sarjeta. Encontro‑a noutra obra, que a encadernação a cores parece dirigir ao grande público. Um, dois, três, aí vai:

«As ulotricales, ordem n.o 1 da 3.a subclasse das septoficídeas, classe das cloroficíneas, divisão das cloroficófitas, possuem células unicleadas e incluem um cloroplasta parietal geralmente perfurado.»

Pois, pois.

Para tentar saber de onde se partiu para chegar a isto, vou duas páginas atrás, com muito cuidadinho para não perder nenhum cruzamento. E o que é que aparece? Adivinhem!... Um grupo muito conhecido da família das ulváceas, caracterizado por um talo cenocítico, e sobre o qual me informam que se trata de algas sifonadas: não admira.

E as ulváceas, sabem o que são? Têm‑nas visto nas praias a flutuar, a flutuar um pouco por todo o lado, verdes e um bocado moles, parecendo‑se tanto com as frágeis alfaces dos supermercados que dão a impressão de estar a sair de algum caixote naufragado. Leiam o que dizemos sobre elas no fim do Capítulo 1. É muito mais simples. Vão saber, só, que são um dos antepassados visíveis de todas as plantas terrestres. O pior é que vão perceber porquê.

Porque é assim que lhes vamos contar as fabulosas atribulações do povo vegetal: sem recear, no fundo, a simplicidade; e mesmo a boa disposição; sem recear as comparações, que se impõem por si, com as aventuras semelhantes do povo dos homens.

Então vão compreender que para chegar a uma simples planta crucífera como o rabanete foi uma cruz, justamente, para esse povo irmão da clorofila, que foi muito mais longe: até ao edelvaisse, que, vê‑lo‑ão no Capítulo 12, é uma Suíça em ponto pequeno; até à orquídea, que é, vão sabê‑lo também, o equivalente ao homem na civilização das flores.

 Porque, quanto mais avançarem neste livro, a menos que já sejam botânicos, mais se admirarão ao descobrir até que ponto o povo vegetal é irmão do nosso.

Irão saber — já era tempo — que as flores mais banais, a que vocês não ligam nenhuma, puseram a funcionar mecanismos espectaculares. Ser‑vos‑á dito, e é verdade, que os órgãos sexuais de certas flores podem reagir, ao primeiro toque, com um vigor perfeitamente animal. Irão verificar que a flor não é essa encantadora palerma entregue aos contactos febris do Casanova borboleta apalpadora, mas que, na maior parte dos casos, é ela que tem o seu diploma de piloto lepidóptero. E, bem entendido, terão, de vez em quando, a página da coluna social. Irão estremecer com as façanhas da flor que assassina os bebés‑moscas; da flor vampira da Indonésia, e nem digo mais.

 Irão saber também que uma flor pode ser roubada, como à esquina da rua, por um insecto que pensava conhecer.

(...)

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

"Não matem a História"

Mais uma professora a pronunciar-se publicamente sobre a redução, no currículo escolar, da disciplina de História. Não matem a História é o título do artigo que escreveu Maria José Gonçalves, docente dessa disciplina (in Público de 10 de Setembro de 2019). Devemos ler e reler esse artigo com a maior atenção, estejamos ou não ligados ao sistema de ensino, focalizando a atenção no destaque que a autora dá à "incoerência manifesta entre a acção e o discurso político": são precisamente aqueles que elogiam a História (e todas as Humanidades e as Artes e as Ciências). Maria Helena Damião & Isaltina Martins

Estive ausente do ensino 15 meses. Regressei à escola e constatei muitas mudanças - para pior. A mais dolorosa, a mais preocupante, é a mudança ocorrida com a minha disciplina, História, que viu reduzida a sua carga horária semanal nos 8.º e 9.º anos de escolaridade. 
Em 2017, a disciplina de História era leccionada em dois tempos semanais (90+ 45 minutos). Porém, partir de 2018, passou a ser leccionada em dois tempos lectivos de 45 minutos, no 8.º ano, acontecendo o mesmo, a partir deste ano lectivo, no 9.º ano. 
Não quero acreditar. Vou ter que ensinar História «a correr» e História ensinada «a correr» corre o risco de morrer. 
A incoerência entre a acção e o discurso político neste assunto é manifesta. Senão, vejamos. 
A 31 de Agosto, na página oficial da Presidência da República, para assinalar os 80 anos do início da Segunda Guerra Mundial, o Presidente da República afirmava: «Devemos, pois, ensinar às gerações mais novas o que foi a Segunda Guerra Mundial, para que os milhões de mortos não tenham perecido em vão». Gostaria que o senhor Presidente da República soubesse que, a partir deste ano lectivo, os alunos do 9.º ano de escolaridade, da minha escola e da maioria das escolas portuguesas, vão ter apenas quatro ou cinco aulas de 45 minutos para estudar «Da Grande Depressão à Segunda Guerra Mundial». 
O senhor ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, numa entrevista recente, afirmava: «É fundamental que as disciplinas mais tradicionais continuem a ser adensadas». Não será a História uma disciplina tradicional? Será adensar sinónimo de reduzir? 
O senhor secretário de Estado da Educação, João Costa, no âmbito do I Encontro de Educação, em Cantanhede, afirmou: «Não cortem nas disciplinas de Ciências Humanas, nomeadamente na disciplina de História, pois um povo sem memória é um país doente». 
Senhor Presidente da República, senhor ministro da Educação, senhor secretário de Estado da Educação, factos são factos, a História está a ser assassinada. 
Neste novo ano lectivo, na minha escola e na maioria das escolas portuguesas, a disciplina de História vê reduzida em um terço a sua carga horária curricular semanal. Sem tempo, a aula de História converte-se provavelmente num monólogo. 
Pelo que as consequências pedagógicas deste novo espartilhar da disciplina de História entra em clara contradição com o que se encontra plasmado no próprio decreto-lei da Flexibilidade Curricular, que prevê a implementação de metodologias de trabalho que permitam, entre outras, a promoção de capacidades de pesquisa, de relação e de análise, assim como o domínio de técnicas de exposição e de argumentação. 
Quando assistimos aos avanços dos populismos, das fake news, do revisionismo dos factos históricos, e quando continuamos a ter baixíssimos níveis de participação cívica, não é sensato diminuir o peso de uma disciplina que tem um papel indiscutível na compreensão do mundo em que vivemos. 
Se não querem «um povo sem memória» e «um país doente», façam qualquer coisa. Não matem a História.

NOVIDADES DA GRADIVA EM SETEMBRO

Informação recebida da Gradiva:

A Prodigiosa Aventura das Plantas 
 Jean‑Marie Pelt e Jean‑Pierre Cuny

 Um clássico hoje ainda mais admirável! «[...] as plantas, imóveis, silenciosas, em que é que elas se parecem connosco? Tal como os animais, viveram uma grande epopeia: a epopeia da evolução. Assim como nós, têm uma história. Ao vê‑las viver, descobrimos nelas ‘hábitos’, ‘comportamentos’, que nos pertencem também. Porque, para lá das aparências, a vida é una: e as plantas obedecem, como nós, a leis imutáveis. Para tornar inteligível a sua vida misteriosa, era necessário o olhar novo.» In Introdução
 «Ciência Aberta», 248 pp., 18,00 €
https://www.gradiva.pt/catalogo/13546/a-prodigiosa-aventura-das-plantas


Introdução à Bioinformática via Linha de Comando 
 Francisco M. Couto

 A bioinformática é uma área fundamental na gestão da enorme quantidade de informação a ser gerada nas áreas das ciências da vida e da saúde. Este livro é particularmente relevante para especialistas ou estudantes dessas áreas que desejam aprender de forma simples como processar dados e textos, e ao mesmo tempo facilitar e motivar a aquisição de competências bioinformáticas mais profundas no futuro. Um livro directo e claro, por um especialista na matéria, pioneiro no ensino da bioinformática.
 «Trajectos Ciência», 212 pp., 17,00 €
 https://www.gradiva.pt/catalogo/46792/introducao-a-bioinformatica-via-linha-de-comando 


 Manual de Investigação em Ciências Sociais 
 Luc Van Campenhoudt, Jacques Marquet e Raymond Quivy

 Reformulado, complementado, actualizado

 Após quase 30 anos de sucesso, muitas traduções e centenas de milhares de utilizadores no mundo, a presente edição foi profundamente reformulada e complementada para responder ainda melhor às necessidades dos estudantes e professores de hoje: os exemplos e as aplicações concretas incidem sobre questões relacionadas com os problemas da actualidade; a recolha e a análise das informações abrangem os métodos quantitativos e qualitativos; são expostos procedimentos indutivos e dedutivos. Uma edição indispensável sobre a metodologia da investigação.

 «Trajectos», 424 pp., 18,00 € 
https://www.gradiva.pt/catalogo/13647/manual-de-investigacao-em-ciencias-sociais 



A Ordem Liberal Internacional Terá Chegado ao Fim? 
 Niall Ferguson vs. Fareed Zakaria

 Desde o fim da 2.ª Guerra Mundial, as relações internacionais têm sido definidas por uma liberdade crescente de circulação de pessoas e mercadorias, pela definição de regras internacionais e por uma valorização dos benefícios para todos num mundo mais interdependente. Em conjunto, estes factores definiram a ordem liberal internacional. Mas hoje os pilares do liberalismo mundial estão a ser abalados pelo regresso dos nacionalismos. Estaremos a assistir ao princípio do fim da ordem liberal internacional? Leia neste livro o estimulante debate sobre o tema, entre Niall Ferguson e Fareed Zakaria.

 «Trajectos», 88 pp., 11,00 €
 https://www.gradiva.pt/catalogo/46840/a-ordem-liberal-internacional-tera-chegado-ao-fim?


Édipo
 Luc Ferry, Clotilde Bruneau, e Diego Oddi

 Um novo livro da série «A Sabedoria dos Mitos», concebida e escrita por Luc Ferry. Depois do volume dedicado ao mito de Prometeu, um álbum imperdível sobre um dos mitos mais conhecidos. O rei Laio e a sua mulher Jocasta abandonam o filho recém‑nascido no monte Citéron. O pequeno Édipo é salvo e acolhido pelo rei de Corinto, tendo crescido sem saber o segredo das suas origens. Um dia, um bêbedo insulta‑o e afirma que ele é adoptado. O jovem decide tirar tudo a limpo. Para isso, consulta o oráculo de Delfos e este revela‑lhe um destino terrível: Édipo matará o pai e desposará a mãe.

 «Gradiva BD», 56 pp., 16,50 €
 https://www.gradiva.pt/catalogo/46795/edipo 

 Conversas com Anselmo Borges
 Anselmo Borges

 «Ao longo das páginas deste livro, que reúne entrevistas que cobrem o período cronológico entre 2007 e 2019, vemos como o percurso existencial, a religião, os valores, a morte, o sagrado e Deus constituem os temas de eleição. Nenhuma apresentação está feita num registo normativo apriorístico, porque a dilucidação de cada assunto percorre um caminho em que a dúvida começa por ser o ponto de partida — até para o próprio autor — e a resposta um ponto de chegada susceptível de aprofundamento futuro.» Jaime Gama, in Prefácio
 «Fora de Colecção», 452 pp., 18,00 €
https://www.gradiva.pt/catalogo/46794/conversas-com-anselmo-borges 

 E ainda, na ficção, um romance  e um livro de poesia, os dois premiados:

Um Passo para Sul
 Judite Canha Fernandes
 Prémio Revelação Agustina Bessa‑Luís 2018
 Um livro cuja acção decorre entre os quatro arquipélagos atlânticos onde se fala português. O júri do prémio considerou Um Passo para Sul um romance com um «alcance humano e social mais profundo». Com «uma linguagem literária muito estimulante», aqui está presente o amor, mas também a violência terrível exercida sobre as mulheres. «No Atlântico moram povos de várias margens. Não têm guelras, já que respiram pouco.»
 «Gradiva», 208 pp., 17,00 €
 https://www.gradiva.pt/catalogo/46790/um-passo-para-sul 

 A Casa do Ser
 António Canteiro
 Prémio de Poesia Bocage 2018

 «A Casa do Ser [...] denota a intenção do poeta em querer recentrar a atenção do leitor na necessidade de valorizar a pessoa, descobrindo‑se como sendo a própria casa que habita e nele habita. Uma linguagem íntima e persuasiva que realça a importância do ser enquanto elemento essencial da vida, da condição humana.» In acta do júri do Concurso Literário Manuel Maria Barbosa du Bocage 2018
 «Fora de Colecção», 40 pp., 11,00 €
 https://www.gradiva.pt/catalogo/46793/a-casa-do-ser

BIOLOGIA E SOCIEDADE



Na próxima 4ª feira, dia 18 de Setembro de 2019, pelas 18h00, vai ocorrer no Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra a palestra BIOLOGIA E SOCIEDADE”, por José Matos, Bastonário da Ordem dos Biólogos.

Esta palestra integra-se no já popular ciclo "Ciência às Seis - Terceira temporada", coordenado por António Piedade, Bioquímico, escritor e Divulgador de Ciência.

Sinopse da palestra: “A Biologia é talvez o ramo da ciência que mais pontes estabelece com as outras ciências: Bioquímica, Biofísica, Biomatemática, Bioinformática, são inúmeras as áreas do conhecimento que se renovam e se transcendem (transdisciplinaridade) com base na Biologia, a ciência que estuda a vida.
Por outro lado, o nosso dia-a-dia está repleto de bens, serviços e de conhecimentos de base biológica, na maior parte das vezes sem que nos apercebamos disso. Na Saúde, no Ambiente, na Educação, na Biotecnologia, mas também no lazer e no turismo são inúmeros os exemplos de situações com base no conhecimento biológico, desde o medicamento que tomamos à cor da roupa que vestimos.
Contudo, a faceta mais visível da profissão de biólogo junto da sociedade civil é o ambiente e a sua conservação. Num momento em que, finalmente, todos nós começamos a ter consciência de que os problemas ambientais não são uma questão longínqua que apenas afeta os outros, mas sim um problema global, o que distingue um ecólogo (biólogo especialista em Ecologia) de um ecologista, o que distingue uma medida baseada na ciência de outra baseada na crença?
É a altura certa para debatermos estes temas e tentarmos responder a estas questões.”

ENTRADA LIVREPúblico-Alvo: Público em geral

CINEMA SOBRE ASTRONÁUTICA NA FIGUEIRA DA FOZ




Informação recebida dos organizadores (em cima trailer de "O primeiro Homem na Lua"):

O LIP e o Observatório Astronómico e Geofísico da UC juntamente com a organização do Festival de Cinema da Figueira da Foz FilmArt
(http://figueirafilmart.com/) dedicam 3 sessões de cinema aos 50 anos da chegada do homem à Lua. Estas decorrerão nos dias 13 e 14 de setembro no Centro de Artes e Espetáculos da Figueira da Foz (CAE):

O programa das sessões dedicadas aos 50 anos da ida à Lua está dividido da seguinte maneira:

- Sexta 13:     17:30 - "Apollo 13" e conversa no final da sessão com a presença de Miguel Gonçalves astrónomo do programa da manhã da RTP e membro da Sociedade Planetária;
- Sábado 14: 15:30 - "Os Eleitos";
                        17:30 - "O Primeiro Homem na Lua" e conversa no início deste filme com o Prof. Carlos Fiolhais.

As entradas são de 3€ para uma sessão e de 5€ para as 3 sessões.

A organização:
Rui Silva, João Fernandes e Teresa Barata

AS ROCHAS, NUMA CAMINHADA DE MAIS DE 2000 ANOS.

Desde, pelo menos, a Antiguidade grega e durante séculos, o termo pedra tanto indicava uma rocha como um mineral. Hoje não confundimos e sabemos que, para termos uma ideia, ainda que básica, sobre as rochas, temos de saber o que são os minerais e, para sabermos algo sobre os minerais, não podemos prescindir de alguns conhecimentos sobre as rochas.

Todos falamos hoje de minas e minerais, com base num saber empírico e vulgar ligado à experiência quotidiana. Mina é uma palavra do vocabulário popular ligada a uma actividade tradicional. Quem vive no campo, sem a comodidade do abastecimento de água canalizada, sabe que uma mina de água é uma escavação na horizontal, feita numa encosta do terreno, a fim de captar a água que aí circula no seu interior. Palavra que se julga radicada na cultura céltica, trazida por um povo portador da metalurgia do ferro, mina significa escavação na terra. Minerar é, pois, escavar e mineral é o que da terra se retira por escavação. Minar é escavar e é, também, fossar e fossa é uma escavação. E é por isso que, no passado, até ao século XVIII, “fóssil” era todo o material (com excepção do orgânico) que se desenterrava ou extraía de dentro da terra (do latim "fossile", desenterrado), o que abrangia, não só os minerais e as rochas, como também os “petrificados” (nome que se dava aos fósseis, no sentido que hoje damos ao termo) e os achados arqueológicos.

No Livro das Pedras, de Aristóteles (384-322 a. C.), que se julga não ser da autoria deste filósofo e fundador do Liceu de Atenas, mas sim uma compilação das suas ideias feita por um anónimo, provavelmente um árabe posterior ao século IX, além de pedras comuns, distinguem-se gemas, metais e sais, e disserta-se sobre a influência dos astros, em geral, e do Sol, em particular, no nascimento destes objectos naturais. A sua visão acerca das “influências celestiais” era a de que, sob o efeito dos raios solares, certas exalações se escapavam para a atmosfera. Destas, as chamadas “exalações secas”, associadas às trovoadas, condensavam e caíam na Terra, sob as formas de chuva de pedra (granizo) e de pedras vindas do espaço (meteoritos). Segundo a mesma visão, havia outras exalações susceptíveis de gerar pedras, incluindo nesta designação rochas, minerais e fósseis surgidos e desenvolvidos à superfície e no subsolo, por efeito de “virtudes petrificantes” originárias do céu e dos diversos corpos celestes, nomeadamente os planetas e as estrelas, entre as quais o Sol tinha papel de destaque.

O seu discípulo mais notável, Teofrasto (372-287 a. C), continuador do dito Liceu, debruçou-se mais objectivamente sobre estes produtos naturais e, entre as várias obras que deixou, sobressaem vestígios de um tratado sobre as pedras. Tido como a primeira obra escrita neste domínio, envolve, ainda, minerais, minas e metalurgia. Deve-se a Teofrasto um esboço de classificação dos ditos produtos, com base nas respectivas utilidades. Entre eles, figuram o calcário, o xisto argiloso, o basalto, o pórfiro, o ofito (dolerito) e o mármore, indicando ainda as suas utilizações práticas na indústria e na arte.

Pouco mais de três séculos depois, Plínio, o Velho, (23-79 d.C.), o grande enciclopedista romano, baseia-se na obra de Teofrasto em muitas das suas alusões às rochas, ainda não designadas como tal, mas sim como pedras. Estes conhecimentos mantiveram-se até finais do século XV, em finais da Idade Média.

Na idade Média, o persa, Abu Ali al-Hussein ibn Abd-Allah ibn Sina (980-1037), mais conhecido por Avicena, médico, filósofo e alquimista de cultura enciclopédica, deixava-nos um outro tratado sobre as pedras, “De Lapidibus” (na tradução latina), do qual consta a primeira classificação dos objectos do chamado “Reino Mineral”, numa época em que, como se disse atrás, ainda se não fazia a distinção entre rochas, minerais e fósseis. Desta classificação constam quatro classes: “pedras e terras”, “minerais fusíveis e sulfurosos”, “metais” e “sais”.

No século XIII, também o dominicano Albert von Bollstadt (1206 -1280) se interessou pelas pedras no seu todo. Doutor da Igreja, foi figura grande no universo da ciência do seu tempo, o que lhe valeu ter ficado na história como Alberto de Colónia, Alberto Magno ou Alberto, o Grande. O seu livro “De Mineralibus et Rebus Metallicis”, escrito por volta de 1260 e publicado, pela primeira vez, em Pádua, em 1476 é, em grande parte e ao contrário do que era hábito, expressão das suas próprias investigações. Diz aí que as gemas diferem dos restantes minerais e pedras pelo seu maior conteúdo no “elemento água” (um dos 4 elementos atribuídos a Aristóteles - terra, água, ar e fogo) sendo, por isso, mais claras e transparentes, propondo a respectiva classificação pela cor. Ele tratou como minerais todo o tipo de pedras e os metais. Estudou as propriedades do enxofre e de muitos sais metálicos.

Na viragem da Idade Média para a Moderna, Agricola, médico alemão, de nome Georgius Bauer (1495-1555), reviu as classificações das pedras, elaboradas por Teofrasto, Plínio, o Velho, Avicena e Alberto Magno, enaltecendo os seus autores, distinguindo e designando por “mármores”, o mármore propriamente dito, o basalto antigo e o alabastro, e por “Pedras de construção”, o calcário e o arenito, nomeadamente o Bundsandstein, nome então atribuído ao arenito fino do Triásico germânico. Assinale-se que o basalto antigo (não o resultante das erupções vulcânicas que se podiam presenciar na região mediterrânea), já conhecido na Europa do Norte, não era associado ao vulcanismo. Referido então por “mármore negro”, como lhe chamou Plínio, este basalto era visto, erroneamente, como uma “rocha precipitada no fundo do mar”.

Entretanto, surgia em Itália, em 1596, o termo “granito”, radicado no latim granum, que significa grão, introduzido por Andrea Caesalpino (1519-1603).

Já no século XVIII, num período da história da Europa, em que os textos eruditos e, entre eles, os de cariz científica, eram maioritariamente escritos em latim, o teólogo e mineralogista alemão, John Lukas Woltersdorf (1721-1772), deixou cair o termo “pedra” e, pela primeira vez e, sob a designação latina de lapidis, considerou as rochas como uma classe à parte. Na sua classificação dos produtos do “Reino Mineral”, conhecida por Sistema Woltersdorf, divulgada em 1748, distinguiu sete classes: Terrae (terras), Lapidis (rochas), Salia (sais), Bitumina (betumes ou asfaltos), Semimetala (semimetais), Metala (metais) e Petrifada (“petrificados” ou fósseis, no sentido que hoje damos à palavra).

Da mesma época, a proposta de classificação do alemão Albert Frederic Cronstedt (1722-1765), conhecida por Sistema de Cronstedt (1771), introduziu o termo latino saxus, igualmente com o significado de rocha (saxa, no plural), definido como “o conjunto dos materiais que formam as grandes massas montanhosas”, exemplificados, entre outros, pelo “ofito” (dolerito), o “pórfido” (pórfiro) e o trapp (basalto). Valorizada pelas referências aos chamados “princípios constituintes” (os elementos químicos então possíveis de reconhecer), esta classificação estava ainda longe de abordar a verdadeira natureza das rochas e, assim, compreender os respectivos significados geológicos.

Uma década depois, o sueco Torbern Olof Bergman (1735 -1784), na classificação dos produtos do “Reino Mineral”, conhecida por Sistema de Bergman (1782), considerou nove classes: “ares”, “águas”, “enxofre”, “ácidos”, “alcalis”, “terras”, “substâncias metálicas”, “sais neutros” e “fósseis”.
Na última classe, a dos “fósseis” (no sentido que ainda se dava à palavra, isto é, como se disse atrás, todo o material que se desenterrava ou extraía de dentro da terra, do latim fossile, desenterrado) o autor incluiu as “pedras simples” (os minerais), as “pedras compostas” (as rochas) e os fósseis (no sentido que hoje lhe damos). Entre as “pedras compostas” distinguia as “pedras compostas cristalizadas”, onde se arrumavam granitos e gnaisses, as “pedras compostas empastadas cristalizadas”, representadas pelos “pórfidos” (pórfiros), as “pedras vulcânicas”, a que pertenciam as “lavas compactas e porosas”, os basaltos, o “rapilo” (lapili), a pozolana, a pedra-pomes, o vidro vulcânico (obsidiana ou Pechstein), as brechas vulcânicas, e, ainda, as “pedras compostas não cristalizadas”, como conglomerados e brechas de natureza sedimentar. Dado o carácter homogéneo, tanto o vidro vulcânico como o mármore, o quartzito, o calcário e alguns xistos não figuravam entre as rochas, mas sim entre os minerais. O livro onde Bergman divulgou esta sua classificação foi traduzido para português, em 1799, por Andrade Machado, com o título “Manual do Mineralógico ou Esboço do Reino Mineral”.

Até meados do século XIX o estudo das rochas limitava-se: à identificação, dos respectivos minerais, à vista desarmada ou com o auxílio de uma simples lente de aumentar 10 vezes ou pouco mais; à descrição da textura, ou seja, o arranjo espacial dos respectivos minerais, tendo em conta as suas dimensões, forma e orientação; e à quantificação rudimentar dos seus constituintes químicos, na medida dos conhecimentos de então.

Em 1858, o geólogo inglês Henry Clifton Sorby (1826 -1908) abriu as portas ao estudo das rochas em termos modernos, pela adaptação, ao microscópio óptico, de um dispositivo (nicol) que permite operar com luz polarizada. O microscópio assim equipado passou a ser apelidado de polarizante ou petrográfico. Nasce aí a petrografia, a disciplina científica que visa a identificação dos minerais constituintes das rochas e a caracterização das respectivas texturas com vista às suas descrição e classificação no contexto da imensa variedade de tipos rochosos. Foi a petrografia que permitiu o estudo das rochas com dimensão de ciência, a que foi dado o nome de petrologia, um tema a desenvolver mais adiante.
A. Galopim de Carvalho

DESMAZELO DOS JARDINS DE COIMBRA


Coimbra tem os seus jardins e parques ao abandono - um munícipe foi ontem à reunião da Câmara Municipal dizer o que todos sabem porque vêem. A Câmara socialista (sempre com uma ajuda comunista quando é preciso) não tem qualquer sensibilidade para as zonas verdes sendo o contraste flagrante com outras cidades. Demos voz ao cidadão (via As Beiras):

O estado em que se encontram alguns jardins da cidade de Coimbra

Na qualidade de munícipe, nesta última segunda-feira, levei à reunião camarária um assunto que, certamente, preocupa a maioria dos conimbricenses:

Ex.mo Senhor Presidente da Câmara Municipal de Coimbra, senhores vereadores: 
Nas últimas reuniões de Câmara tenho vindo a apresentar factores que na cidade, enquanto espaço de fruição pública, assentam, dão sustentabilidade e a transformam em atractivo para dar mais gozo e concentrar quem dela usufrui diariamente ou em turismo. Hoje, como é hábito pedindo esclarecimentos que nunca me são dados, venho falar do estado em que se encontram alguns jardins da cidade e, mais em particular, sobre zonas ajardinadas da Baixa. 
Um jardim no burgo, globalmente, é um espaço criado pelo homem com o objectivo de manter a ligação entre o estratificado impessoal e frio da pedra e do betão e o bucolismo da natureza, exaltando as belezas da vida campestre. Se recuarmos a construções dos séculos XII e seguintes, apercebemo-nos que uma grande parte do interior dos palácios, conventos e casas senhoriais, era destinado a área particular enfeitada com flores.
Com o passar subsequente da centúria e contínua valorização dos solos nos tempos hodiernos, contrariando o costume, o jardim democratizou-se e, de lugar privado, passou a ser frequentado publicamente por todos os burgueses. Falando de Coimbra, exceptuando os de propriedade privada com acesso condicionado, ao longo de todo o século XX, os edis, onde se inclui o senhor, foram combinando o desenvolvimento harmónico da cidade com o edificado construído e, dentro do possível, incluindo recintos ajardinados. 
Para além disso, como cartão de identidade e projecção de sensibilidade, fosse pela familiaridade da rosa à Padroeira ou não, sempre primaram pelo cuidado extremo em manter a urbe florida. Mesmo com recurso ao postal ilustrado da década de 1970/80, quem não lembra o Parque Dr. Manuel Braga com os seus exuberantes canteiros floridos? 
Sem fazer levantar o senhor presidente e os senhores vereadores das cadeiras onde se acomodam, tomo a liberdade de os convidar a um pequeno passeio virtual. Então, comecemos aqui pelo Jardim da Manga, nas traseiras deste edifício. Com inestéticos andaimes colocados desde Junho, sem servirem o fim para que foram colocados e somente para calar as reclamações, com os lagos sem água e canteiros mal cuidados, é bem o modelo de uma falta de auto-estima cidadã que nos deveria fazer pensar. 
Prosseguindo, subimos em direcção à Praça da República. Entramos no jardim da Avenida Sá da Bandeira. Pelo abandono perceptível, pela descuidada manutenção dos canteiros sem relva, pelos troncos de palmeiras cortados sem que lhe fosse feito um arranjo necessário e utilitário, pelas floreiras de pedra vazias, pelos lagos como depósito de lixo, pelas folhas secas amontoadas em altura de dez centímetros, aposto que os senhores sentem o mesmo desalento que me atormenta. 
Passando no Aqueduto de São Sebastião, nos Arcos do Jardim, e vendo que mesmo o verde que emoldura a rotunda do Papa está mal ajardinada, entramos na estrada paralela ao Jardim Botânico e verificamos que os separadores entre vias estão num estado calamitoso. 
Continuamos e vamos em direcção ao Parque Verde. O desmazelo é a variável mais recorrente. Espero que os senhores, na qualidade de administradores da cidade, não se revoltem consigo-mesmo e comecem a esbofetear-se pela incúria. 
Damos um passo mais para o lado e entramos no mítico Parque da Cidade. O mesmo descuido, a mesma desprotecção, com canteiros de terra sem verde, arbustos periféricos escassos e alguns secos, o emblema da cidade completamente impreciso e a desaparecer, os lagos sem água e, sem glória, indiferentes ao olhar humano. 
Estamos agora no Largo da Portagem. Mesmo aqui, que sendo a porta de entrada da cidade, embora valorizado, não se encontra no seu melhor. Prosseguimos e entramos no Largo das Olarias, junto à Loja do Cidadão. Damos de caras com cerca de uma dúzia de floreiras com aspecto de grande secura. Vejo que o senhor vicepresidente, na qualidade de vereador responsável, arranha na cabeça. Ficou sem palavras
Vamos em direcção à Estação Velha. Paramos um pouco junto da menina dos seus olhos, como quem diz, a rotunda da Cidazunda. Pelo franzir do seu rosto, dá para ver que está desanimado. E acabamos no Jardim da Casa do Sal. Com lixo espalhado ao deusdará e terra sem cultura florística, os senhores já nem ousam aproximar-se. 
Tanto quanto julgo saber, foi hoje aqui analisada a proposta final de candidatura ao programa Horizonte 2020, do projecto de regeneração urbana dos centros históricos das cidades “Culturas Conectantes”, instituído pela UNESCO. Foi incluído a reestruturação dos jardins públicos da cidade? Se não, na qualidade de munícipe, responda: vai fazer alguma coisa para mudar este situacionismo?.
Luis Fernandes Quintans

terça-feira, 10 de setembro de 2019

Minha entrevista a Luís Caetano inserta no livro "Debaixo da Língua"

ENTREVISTA A CARLOS FIOLHAIS  FEITA POR LUÍS CAETANO  (ligeiramente ediatada) IN "DEBAIXO DA LÌNGUA" (Almada: Câmara Municipal, 2019)

“Alguns dos primeiros livros de ciência no mundo são escritos em português. É uma língua culta e uma língua de cultura.” 

Físico, professor catedrático, um apaixonado divulgador de ciência e um grande amante dos livros. Afirma-se mesmo o resultado das leituras que fez. É director do Rómulo - Centro de Ciência Viva da Universidade de Coimbra e coordena a colecção Ciência Aberta da editora Gradiva.

LCP- Participou há dias nos encontros Récherche et Création, uma reunião de cientistas r artistas de diferentes áreas, evento que faz parte do Festival de Teatro de Avignon. Em debate esteve a questão de o que é criar. Que diferenças existem no processo criativo entre as artes e as ciências? Chegaram a uma resposta?

CF- A resposta é a procura continuada. Em Avignon estiveram cientistas, investigadores de diferentes disciplinas, e também autores teatrais  e encenadores, entre outros. Gente da criação científica e da artística. Em comum, são criadores de mundos. E todos querem ir para além daquilo que já existe, do que já é conhecido, e penetrar no mistério. Fazem-no é de diferentes maneiras. Os cientistas usam um método aperfeiçoado ao longo do tempo, que passa pela observação, experimentação, o raciocínio lógico, que constituem a forma a verificar se o que foi descoberto corresponde à realidade. Já no caso da arte, cria-se uma realidade, esta é uma construção do próprio artista. Mas ambos estão a gerar novos mundos, e ambos usam um grande instrumento que é a imaginação. É ela que nos permite ir além das nossas circunstâncias.

LC- A curiosidade e a imaginação são chão comum às artes e às ciências, mas na ciência também há espaço para a emoção e para a fantasia?

CF- O cientista pode e deve tentar dominar as suas emoções, porque elas existirão sempre. Mas ele está a trabalhar com objectos fora dele, fixos, e como observador deve respeitar a distância, não se deixando levar pelo lhe é particular, pessoal. O resultado é algo que tem de ser partilhado com outros. Porém, se na arte se procura em geral o belo, na ciência também se é motivado pelo impulso estético, pela busca da harmonia, pela proporção. O processo científico procura o harmonioso, procura que as partes encaixem, procura a ordem do mundo. É o caso das leis da física, por exemplo, que estão por detrás de tudo. Na descoberta, aí sim, existe emoção.

LC- A Inteligência Artificial traz-lhe mais fascínio ou inquietude?

CF- Eu estou mais curioso do que inquieto, mas há, de facto, quem esteja muito inquieto, preocupado. A Inteligência Artificial é a tentativa de descoberta daquilo que há de mais radical em nós, que é o cérebro. O órgão do nosso corpo que nos conduz à ciência e à arte, à ética e ao amor. A Inteligência Artificial é uma demanda em que tentamos substituir algumas das funções que o cérebro executa por algo que sabemos controlar – tentamos que uma máquina imite o nosso cérebro, programa-mo-la para jogar ou para reconhecer padrões. Mas poderá algum dia ela amar, odiar, ter um impulso religioso?

LC- O que lhe diz a sua intuição?

CF- É só isso que posso ter, uma intuição. Estou convencido que não. Muito do que é humano pode ser imitado, mas não tudo. Claro que não faltarão tentativas. Contudo, aquela teoria de que um dia as máquinas nos vão substituir, portanto a morte do ser humano,  julgo que é manifestamente exagerada, evocando Mark Twain.

LC- A língua portuguesa é uma língua de ciência?

CF- Sim. É uma língua antiga, que sempre se soube adaptar às novas disciplinas e aos novos saberes. É uma língua culta e uma língua de cultura. Alguns dos primeiros livros de ciência no mundo foram escritos em português. A obra "Colóquios dos Simples", de Garcia de Orta, por exemplo, que descreve as virtudes medicinais das plantas do Oriente. Estava-se no século XVI, uma altura em que a ciência estava a aparecer, a ciência moderna baseada na observação, na experiência, no raciocínio. É um livro publicado em Goa, no ano de 1563, que descreve novas realidades: novas plantas e as suas propriedades. O português tornou-se nessa altura uma língua global, e ainda hoje é a sexta língua mais falada no mundo, sendo a mais falada no hemisfério sul. A nossa língua, mais tarde, no século XIX, incorporou as ciências sociais quando elas nasceram. Hoje, apesar de vivermos no império do inglês, convém lembrar que tudo pode ser dito e apresentado em língua portuguesa, e que devemos pugnar por manter o português como língua de cultura. Não devemos permitir que se imponham apenas em inglês as coisas da física, da medicina, de todas as disciplinas. O português é a nossa língua... Porque dizemos "deep learning" quando podemos dizer "aprendizagem profunda"? Ou "machine learning" quando podemos  dizer "aprendizagem por uma máquina"? Habituámo-nos a usar termos importados, mas eu importo-me que os usemos. A nossa língua devia ser mais afirmativa e devia reclamar novas realidades, parece-me que isso é mais importante do que a polémica do acordo ortográfico. Devíamos procurar ser mais afirmativos na Internet, até porque temos um tão grande património de criação literária e de criação científica. É muito fácil encontrar hoje livros portugueses dos séculos XVIII ou  XIX, por exemplo, na Internet porque grandes bibliotecas americanas ou europeias os digitalizaram ou deixaram digitalizar. Porque não tomamos a digitalização do nosso património como um desígnio nacional e não fazemos uma defesa activa da língua, espalhando-a neste mundo global 0com os meios que a técnica proporciona?

LC- É isso que tem sido feito em Coimbra através do Rómulo Digital, um projecto do Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra?

CF- Sim, é um projecto que coloca a nossa cultura acessível a todos. Trata-se da digitalização de um espólio considerével de livros, periódicos e outros documentos que vão do século XVIII ao século XX e nos descrevem a relação entre a ciência e a saúde, a ciência e o direito, a ciência e a sociedade em Portugal e no mundo, porque a importância da ciência vem de ela  se relacionar com os vários aspectos da nossa vida. Temos de respeitar os direitos de autor, por isso são edições só até 1950, mais ou menos, mas estamos a colocar na Internet centenas de livros que continuam actuais. Os livros nunca perdem a actualidade mesmo quando parecem antigos. Porque são os livros de outrora que, em confronto com a nossa experiência e o nosso conhecimento de agora, nos dão uma dimensão essencial que é a dimensão de história. Dão-nos a ideia de caminho, a noção de que somos o resultado de uma herança. É nossa obrigação preservar o património que nos foi deixado sob a forma escrita. No Rómulo estamos a colocar cultura científica ao alcance de todos para percebermos que sempre houve ciência em Portugal - com maiores ou menores dificuldades – ela existe há séculos entre nós, desde o início da língua, na cultura portuguesa. O Rómulo Digital está no sítio da Internet Alma Mater, da Universidade de Coimbra, que eu convido a visitar. É um sítio riquíssimo, com milhares de documentos e livros, mapas antigos, as obras mais valiosas da Biblioteca Geral da Universidade.

LC- Vou abrir ao acaso uma das obras que podemos encontrar no Rómulo Digital...e eis que me surge um livro do francês Camille Flammarion: As terras do céo: viagens astronomicas aos outros mundos e descripção das condições actuaes da vida nos diversos planetas do systema solar, editado em 1900 e com as marcas do português de então…

CF-  É muito curioso, porque Flammarion era bastante lido em Portugal, os seus livros tinham grandes tiragens – maiores se calhar do que a maioria dos livros hoje – sendo por isso lido por imensa gente. Hoje os livros vão reduzindo as tiragens. A mim espanta-me, por exemplo, como é que a colecção que Bento de Jesus Caraça dirigiu na editora Cosmos, em condições muito difíceis, ao tempo da II Guerra Mundial, conseguiu tiragens fabulosas de dezenas de milhares de exemplares! Ele foi um "apóstolo" da ciência, espalhando-a através dos livros que editava, num país que estava atrasado em muita coisa, a começar pela ciência. Eu acho que a história da cultura científica em Portugal está ainda por escrever. Aquilo que a Cosmos fazia é uma lição para os nossos dias – juntar as ciências, sejam elas exactas e naturais ou sociais e humanas, com as artes. E lá temos a música, a medicina, tudo o resto. A cultura é essa junção. Uma das grandes dificuldades do nosso tempo é juntar as partes que estão separadas. Não é fácil tentar falar numa linguagem que se entenda e procurar entender a linguagem dos outros. E dessa forma quebrar barreiras.

LC- Não há melhor exemplo disso do que o professor que dá nome ao Centro de Ciência Viva da Universidade de Coimbra – Rómulo de Carvalho. Ele deixou bem claro que a composição das lágrimas é igual, independentemente da cor da pele, num dos mais belos poemas da língua portuguesa…

CF- Ele disse algo muito profundo em poucos versos, contestou o racismo com poesia, nesse Lágrima de Preta: (…) “Nem sinais de negro, /nem vestígios de ódio./ Água (quase tudo) /e cloreto de sódio.” Foi um professor de física e química que usou a poesia para dizer que o racismo é indefensável. Rómulo de Carvalho foi  inspirador.

LC- Um autor que contribuiu para que dedicasse a sua vida à ciência e à cultura. Carlos Fiolhais dirigiu também a Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, que inclui a Biblioteca Joanina, uma das mais belas do mundo, e dirige agora a coleção Ciência Aberta, da editora Gradiva. Uma editora onde tinha já publicado vários livros, nomeadamente Física Divertida, em 1991, que foi um sucesso, com mais de vinte mil  exemplares vendidos. Enquanto leitor, autor e também coordenador desta coleção, desde o número 200, como é que vai observando o gosto pela leitura hoje? Dos livros de divulgação científica e não só.

CF-  A coleção Ciência Aberta continua a ter leitores. Ela começou em 1981 e não há muitas colecções de livros que possam invocar esta longevidade, extensão e diversidade. Dela constam o Carl Sagan, o Stephen Jay Gould, o Richard Feynman… O

LC-  O próprio Albert Einstein, Stephen Hawking...

CF- Exactamente. Esta colecção alicerçou-se em gigantes. Eu tinha acabado de chegar do meu doutoramento, em 1982, quando a conheci. Estávamos num tempo áureo da confiança social na ciência. Acreditava-se nela como uma força transformadora, havia esperança e interesse pelo conhccimento. E havia uma aragem nova na educação em Portugal que eu sentia à minha volta, com as pessoas a aprenderem com os livros,  com estes livros. Muitos ainda me dizem que os leram na altura certa e que eles contribuíram para as suas escolhas de vida. Tiro o meu chapéu ao editor Guilherme Valente que teve esta visão transformadora. A ciência começou a aparecer nos jornais e na rádio, não tanto na televisão. Hoje já não há, infelizmente, tanta gente a comprar livros... Pode verificar-se isso pela tiragem das edições. Existem várias razões para isso: as pessoas passam muito tempo a olhar para ecrãs, os jovens em particular. Eles, na maioria, deixam de ler a partir de uma certa idade. E depois há razões económicas: o país viveu uma crise e cortou em bens que não são de primeira necessidade. Para mim são, porque se não lesse, morria. Por isso gosto de fazer listas de recomendações de leitura. Há bons livros que, muitas vezes, passam entre nós despercebidos.

LC- Nomeadamente nas livrarias, onde tantas vezes o destaque vai para livros que não valem nada, incluindo alguns de pseudociência…

CF-  É uma ameaça do mundo contemporâneo, a relativização, a desconfiança em relação à ciência, e o espalhamento da pseudociência, daquilo que se afirma como ciência só para atrair os incautos, usando a respeitabilidade que a ciência foi conquistando ao longo do tempo. Vivemos num mundo estranho, num mundo até perigoso em certos aspectos, e não podemos desistir de denunciar aquilo que se faz passar por ciência sem o ser.

LC- Até que ponto a sua vida foi marcada pelos livros?

CF- Sou o resultado dos livros que li, e espero ter inspirado também alguém com aquilo que escrevi, traduzi, ou editei. No fundo, o que mais prazer me dá é ler e dar a ler. Ler é sempre enriquecermo-nos. E eu não quero ficar rico sozinho, quero que todos o fiquemos.

LC- E para quando um álbum com o seu dinossauro Plunk, que desenhava no início dos anos 70? Pranchas que eram publicadas no jornal O Mocho, da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra?

CF-  Ah, entretanto a minha mão fugiu para a escrita e perdeu o jeito do desenho. Eram cartoons humorísticos… Ainda me lembro de algumas dessas histórias com dinossauros que assistiam ao que se passava  no século XX. Era uma irreverência de juventude.

CF-  Dê-nos a sugestão de algumas leituras para o Sol deste Verão.

CF-  Com gosto. Sugiro Gonçalo M. Tavares, que acompanho com muito interesse. Ele publicou agora Histórias Falsas, na Relógio d’Água. Também um livro que demorou algum tempo a chegar a Portugal, mas que vale muito a pena: Sem Fins Lucrativos. Porque Precisa a Democracia das Humanidades, de Martha Nussbaum, nas Edições 70 – É uma das filósofas americanas mais importantes que aqui fala da necessidade das humanidades. Nos tempos de hoje é uma defesa que é preciso fazer. E de Voltaire, a Ficção Completa, que saiu na E-Primatur. Ele que é uma das minhas figuras do século XVIII. É a ele que é atribuída a frase “Posso não concordar com o que diz, mas defenderei até à morte o seu direito de o dizer”.

Ciência e Sociedade - Mónica Bettencourt-Dias (IGC) em Coimbra



Informação recebida do Rómulo:

No próximo dia 11 de Setembro, quarta-feira, pelas 18 horas, no RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, situado no piso 0 do Departamento de Física da FCTUC, a Doutora Mónica Bettencourt-Dias, bioquímica e Directora do Instituto Gulbenkian de Ciência, que virá falar sobre  “Ciência e Sociedade”, em particular sobre as actividades que a Fundação Gulbenkian desenvolve nesse domínio, para além de falar do seu percurso científico e dos desafios, nos quadros nacional e  internacional, do lugar que presentemente ocupa. 

A sessão integra-se no ciclo 10 ANOS – 10 FIGURAS que o RÓMULO está a organizar para assinalar o seu 10.º aniversário e com a qual o RÓMULO presta homenagem a algumas figuras proeminentes da cultura e da ciência nacionais. Nesse ciclo já passaram o matemático Jorge Buescu, o poeta e divulgador cultural José Fanha, o historiador de Arte e museólogo António Filipe Pimentel, o editor Guilherme Valente, e os historiadores Francisco Contente Domingues e  José Eduardo Franco.

A sessão consistirá numa conversa informal moderada pelo físico Carlos Fiolhais (director do Centro), é destinada ao público geral, havendo lugar a diálogo deste com a homenageada. Questões sobre a relação entre a ciência que se faz no Instituto Gulbenkian de Ciência e a sociedade estarão no centro do diálogo. Como é que a sociedade portuguesa vê hoje a ciência? Como deve ver? Qual é o papel do Estado e das instituições privadas como a Fundação Gulbenkian? Como podemos aproximar-nos dos países europeus mais desenvolvidos?

Entrada livre.  O RÓMULO convida os cidadãos interessados em vir falar com uma das mais brilhantes cientistas portuguesas.

Biografia
Mónica Bettencourt-Dias é desde Fevereiro de 2018 Directora do Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC), sedeado em Oeiras. Doutorou-se pela University College de Londres em Bioquímica e Biologia Molecular e também tem um diploma em comunicação de ciência do Birkbeck College de Londres. Fez o pós-doutoramento na Universidade de Londres e no Birbeck College, tendo voltado a Portugal em 2006. É investigadora principal do IGC desde 2006 e lidera o Laboratório de Regulação do Ciclo Celular Ao longo do seu percurso científico teve  duas bolsas do Conselho Europeu de Investigação (ERC, na sigla em inglês) em 2010 e 2015.  Recebeu o Pfizer Award for Basic Research, o Keith Porter da Sociedade Americana de Biologia Celular  e o  Eppendorf Young European Investigator Award. Foi eleita em 2015 membro da Organização Europeia de Biologia Molecular.