sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

MUNDIAL DE 1966 EM 100 PÁGINAS

Apresentação de livro, na qual vou participar:


Sobre os resultados do PISA

A Sociedade Portuguesa de Matemática distribuiu um comunicado sobre os recentes resultados PISA. Vale a pena ler:

SPM felicita alunos e professores pelos melhores resultados de sempre no PISA 2015


A Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM) congratula-se com os resultados obtidos pelos alunos portugueses no Program for International Student Assessment - PISA 2015.

Portugal teve os melhores resultados de sempre nestes testes da OCDE, alcançando 501 pontos em Literacia Científica, 498 em Leitura e 492 em Matemática. Estes resultados estão integrados numa sequência crescente de dados em todos os domínios, registando-se, no caso da disciplina de Matemática, uma progressão média de cerca de 2,6 pontos por ano desde o ano 2000. Observa-se ainda que em Portugal, 95% dos alunos tiveram pelo menos 332 pontos, 75% tiveram 424 pontos ou mais, 50% tiveram pelo menos 495 pontos, 25% tiveram 561 pontos ou mais e 5% tiveram 644 pontos ou mais. Os valores dos percentis 50, 75 e 95 de Portugal são superiores aos da OCDE em 3, 8 e 10 pontos, respetivamente. Analisando os resultados por níveis de escolaridade, constata-se que em todos os anos se regista progressão positiva na sequência de dados desde 2000, salientando-se, no 3.º Ciclo, o 7.º ano de escolaridade.

A SPM felicita, em primeiro lugar, os alunos e os professores, que têm desenvolvido um trabalho meritório, muitas vezes em condições difíceis, no sentido de superar os maus resultados obtidos em 2000, aquando da primeira participação do nosso país neste estudo.

Em segundo lugar, congratula-se pelas decisões tomadas ao longo dos últimos 15 anos, que permitiram encarar este desafio com confiança e de forma empenhada. Essas decisões passaram pelo investimento de recursos na Educação mas também pela adoção de medidas decisivas. Entre elas, destacamos a implementação da avaliação externa, que possibilitou a cada escola - e portanto ao sistema em geral - ir acompanhando o desempenho dos alunos, corrigindo percursos quando necessário. Esta prática foi-se instalando progressivamente no sistema educativo português, com os frutos agora visíveis quer no TIMSS, com alunos do 4.º ano, quer agora no PISA com alunos de 15 anos. Note-se que, neste período de crescimento sustentado num período de 15 anos, foram igualmente determinantes muitos outros fatores que fizeram crescer a exigência e o rigor a todos os níveis: melhorou-se a formação de professores, enriqueceram-se os currículos e Programas, estabeleceram-se objetivos claros para o ensino – Metas Curriculares –, introduziram-se provas finais no final de cada ciclo do Ensino Básico e exigiu-se qualidade aos manuais escolares através do processo de avaliação e certificação.

Mas o trabalho em Educação nunca está terminado. O relatório do PISA 2015 evidencia bons resultados mas mostra também que não podemos diminuir o grau de exigência. Mostra que devemos continuar a trabalhar e a estabelecer medidas para que uma maior percentagem dos alunos portugueses tenha sucesso. Este relatório evidencia que uma maior percentagem de alunos deveria estar a frequentar o 10.º ano de escolaridade – ano modal do PISA – e não anos de escolaridade anteriores, por ter havido retenção.

A diminuição das taxas de retenção também é uma meta em que se tem investido e os últimos resultados apurados evidenciam uma melhoria. Se observarmos as estatísticas oficiais, no ensino básico, passou-se de 12,7% em 2000/01, para 7,9% em 2014/15 e, no ensino secundário, de 39,4% para 16,6% nos mesmos anos. Note-se no entanto que a diminuição das retenções deve traduzir uma real melhoria do desempenho dos alunos com mais dificuldades, e não ser decretada.

Em Educação não há milagres: o sucesso passa por professores bem preparados, bons programas e currículos, metas claras e rigorosas a atingir, bons manuais para estudar, e exames que monitorizem a aprendizagem.

No entanto, no dia em que foram anunciados estes resultados, já não há Certificação de manuais de Matemática, embora esteja a ser implementado um novo programa de Matemática no 12.º ano, já não há provas de avaliação no final dos 1.º e 2.º Ciclos do Ensino Básico e está em curso uma reforma que tem por objetivo reduzir em 25% os conteúdos curriculares a ensinar aos alunos.

Porquê desmantelar o que está a dar tão bons resultados?

A SPM está, como sempre esteve, interessada em contribuir para que o percurso português se faça de forma a aumentar os níveis de sucesso em Matemática e não concorda com visões catastrofistas e infundadas que há largos anos entendem as últimas mudanças curriculares como propiciadoras de futuros insucessos, em total dissonância com o que de facto se tem observado na prática desde que foram implementadas. Muito pelo contrário, a maior exigência sempre foi motivadora de sucesso se for conjugada com empenho de professores e alunos, tal como está a acontecer. Os resultados do TIMSS 4.ºano deram um sinal mais do que evidente de que se está no bom caminho, assim como os resultados agora conhecidos do PISA. Foram obtidos num contexto em que os novos Programas e Metas Curriculares estavam parcialmente implementados no Ensino Básico, e eram conhecidos há mais de três anos, constituindo uma orientação curricular fundamental para os professores de todos os níveis.

VIEIRA, ESSE POVO DE PALAVRAS

Acaba de sair o livro com o título de cima, organizado por José Eduardo Franco et al., com um conjunto de textos que tratam vários temas em Vieira. Eu escrevi sobre "Vieira e a Ciência" o texto que se pode ler aqui (editei-o agora para estar de acordo com o capítulo do livro, excepto na obediência ao Acordo Ortográfico).

"Seguimos em frente como se nada tivesse mudado"

Vale a pena ler:

Sem fins lucrativos. Por que a democracia precisa das humanidades.

de Martha C. Nussbaum.
professora de Direito e Ética da Universidade de Chicago.

(Edição consultada: Martins Fontes São Paulo, 2015)

"Estamos no meio de uma crise de enormes proporções e de grave significado global. Não me refiro à crise económica global que começou em 2008 (...) uma crise mundial da educação.

Estão a ocorrer mudanças radicais no que as sociedades democráticas ensinam aos seus jovens e essas mudanças não têm sido bem pensadas.

Obcecados pelo PNB, os países - e os seus sistemas de educação - estão a descartar, de forma imprudente, competências indispensáveis para manter viva a democracia. Se essa tendência prosseguir, todos os países estão produzindo gerações de máquinas lucrativas em vez de cidadãos integros que possam pensar por si próprios, criticar a tradição e entender o significado dos sofrimentos e das realizações dos outros. É disso que depende o futuro da democracia.

Que mudanças fundamentais são essas? [Em todos os níveis de ensino] as humanidades e as artes estão sendo eliminadas em quase todos os países do mundo.

Considerados pelos administradores públicos como enfeites inúteis, num momento em que as nações precisam eliminar todos os elementos inúteis para se manterem competitivas no mercado global, elas perdem rapidamente lugar nos currículos e, além disso, nas mentes e nos corações dos pais e dos filhos.

De facto, o que poderíamos chamar de aspectos humanistas da ciência e das ciências humanas (...) também está perdendo terrenos, já que os países preferem correr atrás do lucro de curto prazo por meio do aperfeiçoamento das competências lucrativas e extremamente práticas adequadas à geração do lucro.

Embora esta crise esteja diante de nós, ainda não a enfrentamos. Seguimos em frente como se nada tivesse mudado, quando, na verdade, são evidentes por toda a parte mudanças importantes.

Ainda não fizémos uma verdadeira reflexão sobre essas mudanças - na verdade, nós não as escolhemos - e, no entanto, elas limitam cada vez mais o nosso futuro."

NOS OITENTA ANOS D'AS ENCRUZILHADAS DE DEUS



É com o prazer de sempre que se publica mais um texto do ensaísta Eugénio Lisboa, saído no “Jornal de Letras”:

 On peut juger de la beauté d’un livre, à la vigueur des coups de poing qu’il vous a donnés et à la longueur de temps qu’on met ensuite à en revenir (Gustave Flaubert)

 Distribuído no mercado livreiro, em Fevereiro de 1936, embora com a indicação de ser a data de edição de 1935, As Encruzilhadas de Deus foi o terceiro livro de poesia a ser publicado por José Régio. Incluindo no seu corpus o longo poema em oitavas, “Sarça Ardente”, As Encruzilhadas de Deus é um dos mais altos livros de poesia do escritor de Vila do Conde e um dos grandes livros da poesia portuguesa de todos os tempos. Saudado, enfaticamente, por espíritos tão díspares como Rodrigues Lapa, Agostinho da Silva e, of all people, Álvaro Cunhal, o livro, que levou bons dez anos de gestação, logo se impôs, nas palavras do “sage” Agostinho da Silva, pela “vigorosa audácia, o alto fogo interno, a nitidez e a sobriedade da linguagem, a amplidão das imagens, a contida paixão que anima todo o livro, o equilibrado senso crítico que acompanha a força criadora do poeta [e que nos] dão direito a colocá-lo no plano dos clássicos, sem receio de que o futuro o julgue de outro modo.” Hélas!, o “futuro” imediato e a crítica, ainda em vida do poeta, julgá-lo-iam, com alguma frequência, “de outro modo”. Já agora, de passagem, e uma vez que Luiz Pacheco se tornou numa espécie de “coqueluche” da gente mais nova, que hoje pontifica, na nossa praça literária, aqui deixo, para exemplo e proveito, o testemunho do autor de Crítica de Circunstância: “José Régio, de longe uma das grandes figuras da nossa literatura contemporânea, grande poeta, grande romancista, grande crítico, grande dramaturgo […] ainda à espera do crítico novo que estude a sua obra.” Talvez isto ajude a dissolver algum tanto o renitente preconceito e uma espécie de desconfiança, que têm estado na origem de bicadas envenenadas endereçadas ao bardo, bem como – e sobretudo – de feias e sensacionais “omissões”.

As Encruzilhadas de Deus apresenta-se, ostensivamente, como um “Poema”, mas é, na realidade, constituído por 4 “livros”, num total de 31 poemas: 8 no primeiro, 11 no segundo, 11 no terceiro e 1 – 38 esplendorosas oitavas – no quarto (“Sarça Ardente”). Obra de toada dramática e eloquente, apaixonada e vibrante, em registo de música sinfónica de orquestração ruidosa, ela antecede, de nove anos, a publicação de Mas Deus É Grande, que se aproxima, esta, mais de uma contida e austera música de câmara.

Tem sido, talvez, este aspecto de música de grande formato wagneriano que tanto tem atormentado alguns críticos linfaticamente apavorados com tanta “retórica” exuberante. O brilho orquestral de alguma poesia de Régio (não toda) tem apoquentado sobremaneira os depenados e os rarefeitos cultores de uma poesia mais descascada… “depurada”, gostam estas vestais de dizer. Ora cada uma destas espécies de poesia, como parece ser óbvio, é inteiramente legítima, na sua diferença em relação à outra. A poesia dita “depurada” e de música de raros decibéis não tem nem mais nem menos direito de cidade do que os poemas sumptuariamente sinfónicos do poeta de Biografia. Há nos céus, dizem, várias moradas, para os vários que a ele ascendem; o mesmo acontece no variado céu da poesia, em cujas diferentes moradas se acomodam tanto os pletóricos como os mais esganiçados: há lugar para todos, naquela imensidão acolhedora – cabem lá, repito, os vocalmente mais circunspectos e de menos penugem, mas também os mais decibelicamente discursivos ou indiscretamente eloquentes… ou de grande plumagem. Resumindo: se lugares há muitos, variedades poéticas também não escasseiam. Pretender estabelecer normas rígidas e redutoras, em matéria tão vasta, tão diversa e tão fluida é o mesmo que querer tapar o sol com uma peneira. A palavra “retórica” tornou-se, para alguns bizantinos exegetas da poesia, um estranho tabu. Resultado lisinho, como é de regra, de pura ignorância. Foi mesmo José Régio, com a inteligência crítica que sempre se lhe reconheceu, quem, a propósito da poesia de Junqueiro, demoliu o estranho tabu: “Nenhum significado depreciativo”, observou Régio, num artigo – “Junqueiro e a retórica” – publicado em O Comércio do Porto, de 23 de Agosto de 1955, “ [nenhum significado depreciativo] implica em si o termo retórica. Retóricos são todos os literatos, pois é de sua arte sê-lo. Grandes retóricos são todos os grandes poetas: Camões ou Bocage, por exemplo, Teixeira de Pascoaes ou Fernando Pessoa.” E acrescentava, judiciosamente: “O que sucede é variarem muito as suas formas de retórica. E, ao passo que em certos poetas assume a retórica uma tonalidade oratória ou declamatória, noutros se manifesta sob formas antes gongorizantes. Num mesmo poeta, “exemplifica Régio, “ – como, por exemplo, Fernando Pessoa – se nos evidenciam, por vezes, as duas modalidades retóricas: pois a retórica das Odes de Ricardo Reis é gongorizante e a das Odes de Álvaro de Campos declamatória.” (Seja dito, de passagem, que tenho alguma dificuldade em compreender como os mesmos que rejeitam a sumptuosidade declamatória dos versos de Régio, aplaudem, sem reservas, o estardalhaço retórico das odes do engenheiro naval…)

Portanto, ao acusar-se de “retórica” a poesia de Régio está-se simplesmente a perpetrar ou um contra-senso ou um pleonasmo. Seria ridículo pedir, para a cólera de Aquiles, na Ilíada, ou para a batalha de Aljubarrota, nos Lusíadas, a retórica contida e gongorizante, que mais se adapta à lírica dos mais belos sonetos camonianos: a fúria do guerreiro grego e o tinir de espadas do combate com o castelhano antes convocam uma retórica mais turbulenta, isto é, com mais “barulho e fúria”. O que se pode é acusar “certa” poesia de uma desproporção inaceitável entre o excesso dos meios retóricos (a técnica, a forma) e a escassez do conteúdo, o que não é, nem por sombras, o caso da poesia de Régio, em que a abundância, a intensidade e a densidade do conteúdo são patentes – e representam e representarão, por muito tempo, para o leitor sensível e inteligente, os tais “coups de poing” de que falava Flaubert. No citado artigo sobre Junqueiro, Régio alude, com lucidez, a este perigo do desequilíbrio entre “retórica” e “conteúdo”: “De certo”, observa o autor de A Chaga do Lado, “se poderá sustentar ser este o princípio de todo o academicismo, no significado desvalorativo que também este termo acabou por tomar: excesso de preocupação técnica; substituição do fim pelo meio; esquecimento da coisa a exprimir pelo cuidado e pormenorização da expressão. Sem dúvida”, conclui Régio, “no sentido depreciativo tão vulgarmente assumido pelos dois termos, há, ou pode haver, íntimas relações entre os dois termos.” Por fim, resume, deixando, muito à sua maneira, não um acervo de respostas, mas, antes, uma colheita de perguntas: ”Não irá sendo tempo de atendermos aos vários significados do termo [retórica]? às íntimas, perpétuas relações entre retórica e expressão literária? à importância das modas ou particularidades epocais sobre a aceitação desta ou aquela retórica?” A pergunta pode, pois, ser: haverá menos retórica em Pessanha e Eugénio de Andrade do que em Régio e Junqueiro? A resposta é, lisinhamente: não, há apenas duas retóricas diferentes e seria pura estultícia pretender que uma é melhor do que a outra.

As Encruzilhadas de Deus, editada, como disse, em 1935 e distribuída em 1936, foi inicialmente congeminada como uns Novos Poemas de Deus e do Diabo, tendo o poeta, depois, em 1932, pensado ainda numa segunda estrutura e com um segundo título: Poema Integral. Só à terceira vez se fixou no título e na obra tal como agora a conhecemos. Houve, até hoje, oito edições deste livro: 1ª edição, com capa e sete gravuras de Júlio, 1935/1936; 2.ª edição, 1946; 3ª edição, s/d, [1956]; 4ª edição, com desenhos de Manuel Ribeiro de Pavia e capa de João da Câmara Leme, 1960; 5.ª edição, «Obras Completas», 1966; 6ª edição, na mesma série, 1970; 7.ª edição, na mesma série. 1981; 8.ª edição, «Obra Completa», Poesia – I, 2001.

 Disse-o já – Biblos, vol. 2, p. 275 – e transcrevo-o, para não andar a fabricar paráfrases mais ou menos disfarçadas, que As Encruzilhadas de Deus “retomam, aprofundam e dramatizam , com maior ênfase, temas anteriores (…) dos seus livros: auto-análise e desespero, eu e os outros, o céu e o inferno, a tentação da morte e do absoluto, «o fértil desespero», a confissão e a máscara, cansaço de viver e heroísmo de viver, lucidez e emoção, necessidade de amor e impossibilidade de amor, amizade e traição, (…) verdade, mentira e ironia, etc.” Falando frequentemente, com musical majestade, de coisas muito grandes e de coisas muito pequenas, como dizia Chesterton que fazem todos os grandes poetas, Régio, ao publicar, há oitenta anos, As Encruzilhadas de Deus, entregou-nos, como quem se desobriga, um dos mais altos testemunhos líricos da língua portuguesa.

Eugénio Lisboa

RETÓRICA, ARGUMENTAÇÃO E FILOSOFIA

Informação chegada ao De Rerum Natura.




Apresentação do livro

RETÓRICA, ARGUMENTAÇÃO E FILOSOFIA: ESTUDOS SISTEMÁTICOS E HISTÓRICO-FILOSÓFICOS

da autoria de Henrique Jales Ribeiro
com edição da MinervaCoimbra

Será na Sala Victor de Matos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (6.º piso) na próxima quinta-feira, 
dia 15 de dezembro de 2016, pelas 18 horas.

Mais informações aqui.




quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

A áreas fundamentais do currículo escolar

O sociólogo inglês Michael Young, depois de ter feito uma corajosa revisão dos seus pressupostos teóricos, tem destacado a importância de se proporcionar a todos os alunos um currículo que integre diversas áreas de conhecimentos e não apenas os que se vêem como funcionais, para a vida quotidiana e do trabalho.

Estes "conhecimentos poderosos", que só a escola pode trabalhar convenientemente, potenciam o desenvolvimento de capacidades de pensamento e uma maior justiça social.

Valerá a pena ver a conferência que fez no Brasil em 2013, intitulada Construindo uma Base Nacional Comum.


O leitor também poderá ver aqui a conferência que, no ano seguinte, o mesmo investigador fez no Conselho Nacional de Educação.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Se conseguimos dar um passo tão positivo, talvez possamos pensar noutro

Ouvido um programa de rádio e lidas algumas notícias acerca dos resultados que os alunos portugueses de quinze anos obtiveram na última testagem do PISA (Programa International de Avaliação de Estudantes), analisada também alguma da informação disponibilizada pelo IAVE (Instituto de Avaliação Educacional), noto dois aspectos que tendem a ficar na penumbra e que, no meu entender, deviam ser consciencializados e discutidos.

1. O mencionado programa não mede, nem seria de esperar que medisse, todas as aprendizagens escolares. Mede algumas aprendizagens que se se determina que os alunos adquiram em algumas áreas disciplinares (Matemática, Ciências e Língua materna).

Sendo da responsabilidade da OCDE, e de modo coerente com as finalidades desta Organização - Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico -, o programa mede, em concreto, as competências funcionais que essas áreas proporcionam "na resolução de situações relacionadas com o dia a dia", que consideram como especialmente adequadas para o desenvolvimento económico-financeiro dos "países ou economias" que nele participam.

O facto de os nossos alunos terem demonstrado um bom desempenho no referente a essas competências deve alegrar-nos, uma vez que se trata de desempenhos necessários para si próprios e para a sociedade.

2. Porém, devemos perguntar: está o nosso sistema educativo, à semelhança de muitos outros, a investir, de modo similar, noutras aprendizagens que são igualmente da sua responsabilidade

De modo mais explícito: está a dar a mesma atenção (legislativa, curricular e de ensino) a aprendizagens que têm "valor em si" mas nas quais não se vislumbra valor instrumental?

Não me parece. As artes e as humanidades, os domínios clássicos, muito conotados com esse valor, mas que não se reduzem a ele, têm sido afastados, secundarizados, o mesmo acontecendo a dimensões do trio matemática-ciências-línguas às quais não se atribui utilidade imediata.

Estes dois aspectos que se traduzem em verdadeiros problemas não são, é certo, exclusivos do nosso país, mas nem por isso os devemos descuidar. De facto, eles deveriam começar a preocupar-nos seriamente.

Se conseguimos dar um passo tão positivo no que respeita à demonstração das mencionadas competências funcionais, talvez agora possamos pensar em retomar o que na aprendizagem escolar tem sido sacrificado, em nome dessa demonstração.

"REGRESSO AO ADMIRÁVEL MUNDO NOVO" ORGANIZADO PELA FFMS NA CULTURGEST

UM BURRO NO TELHADO



Minha crónica no "Público" de hoje (na imagem "O Burro no telhado", de Marc Chagall):

 A expressão latina “Asinus in tegulis” vem no Satyricon, a obra clássica de Petrónio. Significa literalmente “um burro no telhado” e tem o duplo sentido de “coisa nunca vista” e de um “ignorante que subiu alto”. Foi essa a expressão que terá ocorrido a muita gente quando, contrariando as melhores previsões, Donald Trump foi eleito Presidente da nação americana. A chegada ao topo do poder de um candidato sem qualquer experiência política é, de facto, algo nunca visto. Por outro lado, são conhecidas as suas limitações quanto ao conhecimento do mundo: por exemplo, em Junho passado, declarou num comício que a Bélgica era “uma bonita cidade”. A alguém com dificuldades básicas em geografia seria evidentemente pedir muito que dominasse temas científicos elaborados como os riscos para a humanidade do aquecimento global. O dito do Satyricon afigura-se tanto mais apropriado quanto Trump habita numa penthouse da Trump Tower, o arranha céus da 5.ª avenida que simboliza bem a sua elevada ascensão na construção civil.

 Há quem pense que qualquer presidente de um país democrático, por muitas limitações que tenha, será sempre normalizado por todo um sistema de checks and balances que impede a excessiva concentração do poder. Receio que isso só em parte acontecerá. A ignorância não é uma fatalidade, mas exige algum empenhamento do próprio para a ultrapassar e até lá alguma contenção. E verifico que há no presidente eleito dos Estados Unidos um irreprimível impulso para o sound byte, que parece não ter sido curado pela vitória eleitoral. Veja-se a afirmação recente através do Twitter, a arma que prefere para disparar palavras, de que “tinha ganho o voto popular se se descontarem os milhões de pessoas que votaram ilegalmente”. Não só não apresentou qualquer prova abonatória como se trata de um óbvio tiro no pé, pois estava a declarar que a eleição ganha por ele, com o reconhecimento da sua principal opositora, tinha afinal sido fraudulenta. Mesmo que os tweets passem a ser filtrados por assessores, a tendência de Trump para o disparate parece difícil de controlar. Já agora um pouco mais de latim: "disparate" e "disparar" estão semanticamente relacionados, pois o primeiro vem de disparatus, que significa disparar flechas em todas as direcções em vez de as dirigir a um alvo. Vamos, vaticino, continuar a assistir a tiros aleatórios, alguns com gravidade do ponto de vista diplomático. Por exemplo, num alegado diálogo telefónico de Trump com o primeiro-ministro do Paquistão, o futuro presidente terá dito: “estou disposto a desempenhar qualquer papel que você queira para encontrar soluções para os problemas pendentes.”

 Claro que, em democracia, se deve respeitar o voto popular. Mas têm também de ser respeitados os métodos comprovados para apurar a verdade, como por exemplo a lógica. Serão a democracia e a lógica incompatíveis? Poderá o número pi ser, pelo voto, igual a 3,2 em vez de 3,141592654...? De facto a Assembleia do Estado de Indiana discutiu uma lei que teria essa consequência matemática. Mas tal aconteceu em 1897 e essa lei não passou porque estava na assembleia um professor de Matemática. Convém que alguém evite a promulgação de “pi = 3,2” ou, ainda pior, “2 + 2 = 5”, o slogan político que Orwell colocou em 1984.

 Que a Europa não está ao abrigo do pior populismo é mostrado pela recente votação italiana. O primeiro-ministro demissionário, Matteo Renzi, permitiu, com a questão referendária que levantou, que “vozes de burro” ficassem mais perto do céu. O ex-comediante Beppe Grillo, que tem as suas parecenças com Trump (também se tornou popular à custa de espectáculos televisivos), apressou-se a cantar vitória. Silvio Berlusconi, talvez o político italiano mais parecido com Trump (é também um milionário enredado em problemas judiciais), não deixou de sorrir ao saber do “não”, sonhando regressar. E Matteo Salvini, o líder da Liga Nord, que tem em comum com Trump o manejo rápido do Twitter, tweetou logo que foram anunciados os resultados do referendo: “Viva Trump, viva Putin, viva Le Pen e viva a Liga.” Os antigos romanos diziam: “Asinus asinum fricat”, isto é, “um burro coça outro.”

A que se deve o facto de sermos o país que mais subiu no PISA?

Desde o início deste século que os sistemas de ensino do vasto espaço que é a OCDE e do espaço mais restrito que é a UE se têm concentrado cada vez mais na preparação dos alunos para mostrarem resultados nos programas internacionais de avaliação, nomeadamente o PISA e o TIMSS.

Os currículos são aferidos pelas opções que dão forma a esses programas: tem valor o que eles medem, perde valor o que não medem. As políticas educativas são julgadas pelos resultados e mudam-se em função disso mesmo. 

Estas evidências e outras levam-me a ter cada vez menos simpatia por tais programas. 

Posto isto, não posso deixar de registar a subida dos resultados académicos dos nossos alunos - em ciências, matemática e língua materna - que foram divulgados na passada semana, do TIMSS, e nesta semana, no PISA.

A que se deve isso? A que se deve o facto de sermos o país que mais subiu no PISA? 

Não certamente apenas e só às políticas e às mudanças curriculares, que é o que sobressai nas notícias nacionais e internacionais, mas também, e talvez sobretudo, ao trabalho dos professores que, muitas vezes em condições adversas, não desistem de ensinar.

Mais um referencial de educação para a cidadania

Foi recentemente posto a discussão pública mais um documento curricular destinado a orientar a educação para a saúde Referencial de Educação para a Saúde -, uma das quinze áreas de educação para a cidadania, que pode ser adoptada na educação pré-escolar, no ensino básico e no ensino secundário

Outras áreas - educação financeira, educação para o empreendedorismo, educação para a paz, educação para o risco, e dimensão europeia da educação - já tinham, além de múltiplos documentos e recursos, um referencial próprio.

Um referencial é, basicamente, um conjunto de standards, de metas (na tradução portuguesa) que, com base em determinados conteúdos, indica os desempenhos que os alunos devem demonstrar no final de um período de ensino.

Ora, neste caso, os conteúdos, melhor, os temas são cinco: saúde mental e prevenção da violência, educação alimentar, actividade física, comportamentos aditivos e dependências, e afectos e educação para a sexualidade.

Temas diversos que dificilmente encontram um ponto em comum e que, como se perceberá, são tratados (ou, se não são, deviam sê-lo) no âmbito das disciplinas escolares, nomeadamente, do estudo do meio, das ciências da natureza, da biologia, da educação física, da filosofia. Tudo o que vai além disso, não sendo escolar, não deve estar na escola.

O que consta neste referencial é basicamente uma arrumação daquilo que se encontrava disperso em vários documentos - normativos, programas, materiais de apoio a actividades - que, a pouco e pouco se foram introduzindo no sistema de ensino, sobretudo pela mão de profissionais de saúde. Está, neste aspecto, longe de introduzir qualquer novidade. Mantém, também, em continuidade, um forte carácter doutrinal e doutrinador, como é infelizmente apanágio dos documentos congéneres.

Esperemos que as escolas e os professores tenham o bom-senso de perceber tudo isto.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Brinquedos que (nos) espiam

“Estamos habituados (...) a falar mais de segurança dos brinquedos no que diz respeito à segurança física: perigo de asfixia, químicos, a questão das idades adequadas… Essas costumavam ser as questões de segurança dos brinquedos, mas aquilo que verificamos é que cada vez mais temos de verificar a segurança dos dados pessoais da criança.”
Palavras de um jurista da Associação Portuguesa para a Defesa dos Consumidores (Deco), Diogo Nunes, a propósito do que o leitor por perceber neste inquietante vídeo.


Notícia consultadas: aqui.

EDUCAÇÃO, TECNOLOGIAS E CONECTIVIDADE



Educação, Tecnologias e Conectividade" é o título da palestra que António Dias de Figueiredo vai proferir no próximo dia 13 de Dezembro, pelas 18h00, no Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra. Esta palestra insere-se no ciclo "Ciência às Seis" coordenado por António Piedade.




Resumo da palestra:
"Que desafios se colocam à educação e à escola num mundo onde se esbate a distinção entre presencial e distante, real e virtual, ativo e interativo? Que papel para as tecnologias? Que mudanças socioculturais? Que virtudes e que perigos? Que potencialidades para a escola? Que papel para nós próprios, enquanto pais, professores e eternos estudantes? Nesta palestra e no debate que se lhe seguirá procurar-se-á abrir um espaço de reflexão sobre estas questões."

ENTRADA LIVRE
Público-alvo: Público em geral


Evento no facebook

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

"PORTUGAL: AMBIENTES DE MUDANÇA", DE LUÍSA SCHMIDT

Está nas livrarias e no Círculo de Leitores o novo livro de Luísa Schmidt, a incansável cronista no Expresso sobre assuntos de ambiente ("Qualidade devida") que acaba com todo o mérito de ganhar o Prémio Ciência Viva Media.

PARABÉNS MUSEU DE CIÊNCIA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA!


O Museu de Ciência da Universidade de Coimbra faz hoje 10 anos, inaugurando uma exposição sobre mapas antigos. Vale a pena a visita.

domingo, 4 de dezembro de 2016

"o bicho humano, para ser feliz, necessita de uma utopia"

Faleceu Ferreira Gullar, um dos grandes poetas brasileiros da actualidade.

Connosco deixou a sua arte, que nunca morre.


"A arte existe porque a vida não basta" 

"Eu não tenho dúvida alguma de que a arte é necessária porque a vida não é suficiente, porque senão qual era a necessidade de inventar a arte? A necessidade é essa: as pessoas necessitam dela, por mais que aconteça coisa no mundo, a arte sobrevive, como uma forma de acordo com o momento, com a época, ela é uma coisa necessária, como a ciência é necessária, como a filosofia é necessária, como a religião é necessária, como a política é necessária".

Ferreira Gullar (São Luís, 10 de Setembro de 1930 – Rio de Janeiro, 4 de Dezembro de 2016).

É mais fácil e mais barato responsabilizar o indivíduo

Na continuação de texto anterior.

São vários os seus "ingredientes" do novo modo de pensar que se instalou na educação escolar e a determina. Não é fácil reuni-los, captar o seu sentido e operacionalizá-los, nem perceber a sua interligação.

Expressões como auto-estima, auto-conceito, auto-conhecimento; inteligência emocional e, até, espiritual, inteligências múltiplas; afectos e emoções, e gestão dos ditos afectos e emoções; informação e sociedade do conhecimento; tecnologias e múltiplas das suas especificações; games, gamificação, ludicidade; diferenciação e colaboração; terapias várias nas quais se inclui a do riso, empreendedorismo, iniciativa e resiliência; coaching e mindfulness... devem constituir o novo vocabulário de quem se quer mostrar moderno no campo da pedagogia.

Trata-se de expressões que, na sua maioria, são importadas de outros campos, nomeadamente da psicologia (geral e clínica) e das tecnologias, mas, talvez, sobretudo do quotidiano social, com todas as suas forças de expressão e de pressão.

Ainda que correndo o risco de cometer heresia face ao que se encontra estabelecido e é dado como verdade inabalável, algumas pessoas da área da pedagogia e de fora dela começam a publicar reflexões interessantes e importantes a que devemos dar atenção.

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Uma dessas reflexões concentra-se na expressão mindfulness, mais precisamente no seu sentido e substância.

Transcrevemos abaixo partes (com adaptações) de um texto publicado no The New York Times, que, de modo muito claro, cumpre esse requisito, até porque o mindfulness é elevado, neste momento, no nosso país, a medida capaz de concorrer para o sucesso escolar (Mind up), tendo, nessa medida, sido adoptado em várias escolas.


Ruth Whippman
A técnica da atenção plena (mindfulness) é, supostamente, uma defesa face às pressões da vida moderna mas, de forma suspeita, começa a tornar-se em mais outra pressão – é um círculo especial do inferno do autodesenvolvimento (...). 
Trata-se de uma filosofia certamente mais recompensadora para aqueles cujas vidas se pautam por momentos privilegiados, em comparação com quem se depara com horas de trabalho, humilhação e exaustão. 
Aconselharem-nos a viver mais no presente, em atenção plena, contém muitas vezes uma dose de presunção moralizante; é uma espécie de "momento de vergonha" dos mais distraídos, como um professor severo que nos repreende por não estarmos concentrados na aula (...). A verdade é que as nossas vidas são muito mais interessantes vivendo fora do presente do que nele (…).
Uma das mais magníficas actividades do nosso cérebro é a capacidade de equacionar alternativas passadas, presentes e futuras em paralelo, de modo a ultrapassar o tédio da vida quotidiana. O que diferencia os humanos dos animais é precisamente esta capacidade de nos desligarmos do que está a acontecer num exacto momento, dando-lhe contexto e significado. (…)
A implicação [da filosofia subjacente ao mindfulness] é que, descurando viver o momento no momento, somos ingratos e não-espontâneos, estamos a desperdiçar as nossas vidas, e portanto, se somos infelizes, a culpa é nossa e só nossa. 
Esta atitude moralista é parte de uma longa história de auto-ajuda baseada no pensamento cultural de policiamento. É o "movimento de pensamento positivo" a transformar os problemas quotidianos em "pensamentos problemáticos". A "atenção plena" torna-se o foco do nosso apetite pelo auto-aperfeiçoamento interior. 
Quando antes se entendia que os problemas, mesmo os mais complexos e enraizados – desde um casamento infeliz ou stress laboral até à pobreza e discriminação racial – deviam ser encarados para serem superados, agora a ideia é "instruir os aflitos" a serem mais conscientes desses problemas.
Isto é uma espécie de neoliberalismo das emoções, em que a felicidade é vista, não como uma resposta às nossas circunstâncias, mas como resultado do esforço mental individual, e, naturalmente, como uma recompensa para quem o consegue e, por isso, o merece. 
O problema não é a nossa renda de casa altíssima ou o salário miserável, os nossos chefes corruptos ou a pilha gigante de pratos sujos para lavar – o problema somos nós. 
É, naturalmente, mais fácil e mais barato responsabilizar o indivíduo pelos seus pensamentos errados do que abordar as causas espinhosas da infelicidade, que, bem vistas as coisas não é só dele. 
Assim, damos aulas de mindfulness em vez de nos debruçarmos sobre a desigualdade educacional e instruímos trabalhadores exaustos para uma respiração atenta, em vez de lhes providenciar férias pagas ou melhores cuidados de saúde. 
Embora alguns dos estudos demonstrem que o mindfulness ou exercícios semelhantes possam ter alguns benefícios, quando comparados com outras técnicas de relaxamento (...), verifica-se que as pessoas não conseguem, com isso, um melhor desempenho (...). 
Assim, em vez de gastarmos a nossa energia lutando para permanecermos no momento presente com atenção plena, talvez devêssemos simplesmente estar gratos pelo facto de o nosso cérebro nos permitir estar noutro lugar.
Maria Helena Damião e Joana Branco 

Designação precisa-se...

As mentalidades ou certos aspectos delas podem mudar muito rapidamente, basta que a orientação (ou pressão) seja a certa, bem engendrada e melhor executada, sempre, claro está, dissimulada.

No campo da educação escolar, há duas décadas, talvez um pouco mais, vimos alicerçar-se um modo de pensar que Marçal Grilo, ex-ministro da educação, designou por eduquês. Não vale a pena voltarmos à sua caracterização pois os leitores deste blogue, sobretudo os que o acompanham tê-la-ão presente.

Acontece que, nos anos mais recentes, esse modo de pensar tem-se desvanecido, foi sendo esquecido, deixou de estar na moda; ao mesmo tempo um outro modo de pensar foi-se infiltrando nos discursos e nas práticas pedagógicas, passando a ser a moda.

Este novo modo de pensar, tal como o anterior, impõe-se como o único válido, como aquele que salvará as novas gerações, o mundo... No caso, sem ele não haverá, não poderá haver, salvação; só ele pode garantir o futuro, o século XXI.

Como já estamos atrasados para o futuro - afinal, já entrámos nesse século -, é preciso mudar rápida e radicalmente a escola, os espaços e os recursos de aprendizagem, os modos de aprendizagem, o rol de literacias e as competências que lhes estão associadas... tudo, mas tudo o que vem de trás, do passado, mesmo que o passado seja presente, por ser catalogado como tradicional, como obsoleto, não serve, tem de ser recusado, mudado, inovado...

Acresce dizer que tal como o velho eduquês, este "modo de pensar" permite estabelecer uma linha bem definida entre "crentes" e "hereges", ou seja, entre aqueles que o aceitam tal e qual e aqueles o submetem, como convém num ambiente intelectual digno desse nome, a crítica.

Também como o anterior modo de pensar, este ganhou reconhecimento académico (surgiram especialistas, livros e artigos, revistas temáticas, teses, congressos e outros eventos, tudo com a marca de científico) e legitimidade curricular (organismos internacionais avançam orientações e recomendações; os poderes, políticos e escolares, acolhem-nas e determinam).

E, assim, o novo modo de pensar, a que falta uma designação, instala-se para ficar. Pelo menos por umas décadas...

"Há uma estupidez enorme nas reformas" do ensino

Nuccio Ordine, autor do livro A inutilidade do inútil, sobre a educação escolar que temos e que teremos.

Em entrevista recente ao jornal Folha de São Paulo:

"O que escrevi é também uma crítica à pedagogia moderna que quer ensinar os jovens através do jogo, da superficialidade sem esforço. É um erro enorme, o saber não é um dom, é uma conquista quotidiana que é preciso fazer." 
"Hoje infelizmente as escolas e as universidades tornaram-se empresas, que vendem diplomas, e os alunos clientes, que compram diplomas; nessa perspectiva, nesse espírito de comércio, as ideias de cultura, de conhecimento e de educação são destruídas." 
"Há uma estupidez enorme nas reformas que estão a ser feitas em países da Europa, segundo a ideia de que a escola moderna deve ser conectada com a internet em todo o lado e que o estudante tenha um tablet ou um computador diante de si. Isso é uma estupidez enorme. A escola moderna não é a conexão, a tecnologia mas a escola com bons professores porque eles geram bons alunos."
E no mencionado livro, na segunda parte, páginas 101 e seguintes:
"... trata-se de uma revolução copernicana que nos próximos anos mudará radicalmente o papel dos professores e a qualidade do ensino. 
Quase todos os países europeus parecem estar orientados para uma redução dos níveis de dificuldade a fim de permitir que os estudantes passem nos exames com maior facilidade, na tentativa (ilusória) de resolver o problema daqueles que não acompanham regularmente os cursos. 
Para diplomar os estudantes no tempo exigido pela lei e para tornar a aprendizagem mais «agradável» não se exigem esforços adicionais mas ao contrário, procura-se seduzir os estudantes com a perversa redução progressiva dos programas e com a transformação das aulas num jogo interactivo superficial, baseado em projecções em power point e na aplicação de questionários de escolha múltipla."

É muito importante tornar a humanidade mais humana

“Não temos consciência de que a literatura e os saberes humanísticos,
a cultura e o ensino constituem o líquido amniótico ideal no qual as ideias
de democracia, liberdade, justiça, laicidade, igualdade, direito à crítica, 
tolerância e solidariedade podem experimentar um vigoroso desenvolvimento”. 

A frase acima reproduzida é de Nuccio Ordine, professor italino de literatura, que recentemente publicou um livro - A inutilidade do inútil - que deveria se lido por todos os que têm responsabilidade no currículo escolar, desde decisores políticos, até aos professores e directores, passando pelos pais e encarregados da educação. O leitor perceberá porquê se vir o pequeno vídeo que se segue:


sábado, 3 de dezembro de 2016

NOVOS CLASSICA DIGITALIA

Os Classica Digitalia têm o gosto de anunciar 2 novas publicações, com chancela editorial da Imprensa da Universidade de Coimbra e Annablume (São Paulo).

Todos os volumes dos Classica Digitalia são editados em formato tradicional de papel e também na biblioteca digital. O eBook correspondente encontra-se disponível em acesso aberto. 

NOVIDADES EDITORIAIS

Série “DIAITA: Scripta & Realia”
  Carmen Soares, Arquéstrato: iguarias do mundo grego. Guia gastronómico do Mediterrâneo antigo (Coimbra e São Paulo, Imprensa da Universidade de Coimbra e Annablume, 2016). 120 p.                                 [Tradução para português do texto grego de literatura gastronómica mais antigo a ter chegado aos nossos dias, ainda que apenas sob a forma de fragmentos. O poema do siciliano Arquéstrato (séc. IV a. C.) é um retrato da alimentação requintada das elites aristocráticas, com poder económico para comprar o mais caro dos ingredientes (o peixe fresco de qualidade) e para realizar as rotas gastronómicas implícitas no texto. No cap. I procede-se à análise dos dados biográficos do autor e à história da transmissão e receção da sua obra até aos nossos dias. Segue-se a tradução dos 60 fragmentos que a compõem (cap. II), acompanhada de notas explicativas e de fotos de algumas das iguarias (reproduzidas da forma mais fidedigna possível). No cap. III realiza-se uma análise detalhada do contributo do poema para a história da alimentação na Grécia antiga.]


Série “Autores Gregos e Latinos” (monografias breves)
   Cláudia Teixeira, Estrutura, personagens e enganos: introdução à leitura de As Báquides de Plauto (Coimbra e São Paulo, Imprensa da Universidade de Coimbra e Annablume, 2016). 83 p.                                    
DOI: https://doi.org/10.14195/978-989-26-1276-8

[Estudo introdutório e didático à leitura de As Báquides de Plauto, no qual se analisam o contexto e as características da peça, a estrutura e as personagens, e ainda o problema da originalidade plautina na conceptualização do ‘terceiro engano’.]