segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Debate - Conferência «Escolas inovadoras, crianças criativas» na Torre do Tombo

Pensar o Universo (com os olhos da Química): Conferência de Peter Atkins no Oceanário

Conferência «Humanos do Futuro» da Fundação Francisco Manuel dos Santos

Pareceres da Comissão de Ética da Ordem dos Psicólogos Portugueses a um programa de televisão

Certos canais de comunicação social, entre os quais se contam os de televisão, têm vindo, de modo consciente e deliberado, a atentar contra os Direitos Humanos e, naturalmente, contra os valores éticos que os sustentam. Valores que, como se sabe, constituem a base da convivência, ou seja da relação eu-outro no espaço público.

A dignidade, que encabeça esses valores e lhes dá sentido, de nada vale quando se trata de obter audiências. E assim as obtêm!

Isto diz muito sobre o modo como encaramos a nossa própria dignidade (a verdade é que facilmente nos vendemos e não interessa se é por muito ou se é por pouco) e como encaramos a dignidade do outro (quanto mais ela estiver em causa, mais nos divertimos).

Esses canais de televisão têm, pois, tanto mais espectadores/seguidores quanto mais atentarem contra a dignidade. E não é a escolaridade que muda alguma coisa: países com elevados índices de escolaridade parecem andar à frente nesse atentado, que é organizado e operacionalizado por gente com formação superior, altamente especializada.

Não foi, por certo, a escolaridade que a isso conduziu mas também não o conseguiu impedir, nem vejo como o poderá fazer. Também não vejo como poderão as instituições sociais responsáveis pela mencionada convivência proceder contra programas em que pessoas adultas decidem abastardar a sua própria dignidade e a dignidade de outras pessoas, crianças e adultos.

Questões como a censura não podem ser alheadas da discussão e, nesta matéria, não sabemos bem como nos situar, confundido frequentemente tudo o que pode ser confundido, incluindo o que é do domínio da ética.
Imagem recolhida aqui

Neste cenário não será fácil o trabalho de entidades cuja vocação se situa nesse domínio, mas isso não significa que ele seja irrelevante. Em Portugal um esforço muito convergente de entidades dedicada à protecção de menores fez com que o tribunal suspendesse o programa Super Nanny  Isso foi sem dúvida uma vitória contra a exposição da privacidade e intimidade a que as crianças têm direito,

Talvez esta decisão tenha feito com que a produtora de conteúdos para a mesma estação de televisão solicitasse parecer à Comissão de Ética da Ordem dos Psicólogos Portugueses para se pronunciar sobre a intervenção profissional no programa Casados à Primeira Vista, o qual, como o leitor deve saber, consiste no casamento (!?) de pessoas que não se conhecem, aconselhado por especialistas.

O resultado consta aqui e aqui e, apesar de serem apresentados princípios genéricos, não se pode dizer que sejam propriamente favoráveis à participação dos psicólogos no tipo de programas em causa. Esta é a ideia com que fiquei depois de ler os pareceres da Ordem, bem como declarações de representante da Ordem e de psicólogo da equipa de especialistas.
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Sobre o assunto vale a pena ler o artigo de Ana Bela Ferreira intitulado "Casados à Primeira Vista": psicólogos abrem polémica com Ordem, publicado no Diário de Notícias, de 17 de Novembro: aqui).

Hubert Reeves Explica a Biodiversidade

Hubert Reeves, autor de livros de divulgação científica sobre astrofísica, que li na adolescência, é autor de uma banda desenhada recente sobre biodiversidade, publicada pela Gradiva.

"Hubert Reeves Explica a Biodiversidade" é um livro que sugiro na rubrica "Dá-me livros" da rádio Zig Zag (dirigida a crianças):

http://www.rtp.pt/play/zigzag/p2722/e373694/da-me-livros

SEMANA NACIONAL DA CIÊNCIA E TECNOLOGIA EM COIMBRA

Começou a semana da Ciência e Tecnologia. Em Coimbra no RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra começou  a Escola Ciência Viva. Na quarta feira às 18h estará a youtuber Inês Guimarães, com a sua fantástica apresentação de matemática e na quinta-feira às 21h com um debate sobre filosofia e ciência, à volta do tema da razão. Na sexta-feira o RÒMULO faz 10 anos com um Colóquio sobbre "Ciência para Todos" (as inscrições ainda estão abertas até quarta-feira, inscreva-se) e apresentação do RÒMULO DIGITAL, um projecto que vai trazer para a Web uma enorme quantidade de documentos sobre ciência  e a inauguração da exposição FEYNMAN 100 ANOS, que celebra o centenário do génio da Física poderá visitar outros sítios do país.

Clique no sítio do RÓMULO ou no Facebook para saber mais.

Última semana do Mês da Educação e Ciência da FFMS que comissario

Última semana do Mês da Educação e da Ciência
Neurociência e educação
Hoje em directo!
A investigação em neurociências tem tido avanços consideráveis: sabemos cada vez mais sobre o funcionamento do cérebro e sobre o modo como se aprende. Contudo, a aplicação deste conhecimento aos processos de ensino e aprendizagem tem levantado numerosas questões: como aplicar na educação os novos conhecimentos científicos? Como desmontar os mitos que não têm qualquer sustentação, por exemplo, o de que usamos apenas 10 por cento do cérebro? Os neuropsicólogos Joana Rato e José Morais vão debater estas questões.
Assista em streaming, a partir das 16h
Ensinar Matemática
Amanhã às 15h no Liceu Camões
O que se deve ensinar quando se ensina matemática? Como se ensina matemática em Portugal e no mundo? Quais as tendências mais recentes que se observam, tanto nos conteúdos como nos métodos, e que impactos têm tido na aprendizagem dos alunos? William Schmidt, especialista americano, explora a questão do currículo na matemática e dialoga com a responsável da Associação de Professores de Matemática Lurdes Figueiral e com Filipe Oliveira da Sociedade Portuguesa de Matemática.
Inscreva-se aqui
Conhecimento, escola e era digital?
Lotação esgotada: assista em streaming
Será que o conhecimento escolar fica desvalorizado na época da internet? E. D. Hirsch, especialista americano em educação, prestigiado crítico literário e autor de vários livros entre os quais «Why knowledge matters», analisa vários temas críticos na educação contemporânea e reflecte sobre as consequências de algumas opções pedagógicas dos últimos anos, em diálogo com o professor de Psicologia João Lopes. A lotação está esgotada, assista em directo no site da Fundação!
Dia 23 às 17h30. Assista aqui

MInha entrevista a Peter Atkins no Público de hoje

https://www.publico.pt/2018/11/19/ciencia/entrevista/peter-atkins-ciencia-religiao-sao-totalmente-incompativeis-1851383

A Razão, hoje: perspetivas interdisciplinares,


A conferência A Razão, hojeperspetivas interdisciplinares, que terá lugar no próximo dia 22 de Novembro na FLUC e no RÓMULO, reune um conjunto de especialistas de diferentes áreas como a Filosofia, os Estudos Clássicos, a Teoria Crítica, a Ciência e a Economia, para fazer um ponto de situação sobre o estatuto da razão e da racionalidade nos dias que correm, perante a ameaça de um retorno ao irracional. Discutir-se-ão questões como: o que significa a razão, ou ser racional, em diferentes áreas? Como pensar a interação entre diferentes formas de racionalidade numa perspetiva interdisciplinar? Como manter uma perspetiva crítica, plural e aberta sobre a razão?

A entrada é livre.


Programa

Conferência A Razão, Hoje: Perspetivas Interdisciplinares

22 de Novembro de 2018

Sala do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos
Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra
5º Piso

10:45-11:00 – Sessão de Abertura

Delfim Ferreira Leão, Maria Luísa Portocarrero, Gonçalo Marcelo

11:00-13:00 – Sessão 1: Razão Filosófica, Razão Humanística: Estudos Clássicos, Hermenêutica e Dialética
Moderadora: Teresa Nunes (CECH, Univ. de Coimbra)

Maria do Céu Zambujo Fialho (CECH, Univ. de Coimbra) – O Logos Gosta de se Esconder

Maria Luísa Portocarrero (CECH, Univ. de Coimbra) – A Racionalidade Hermenêutica

Diogo Ferrer (CECH, Univ. de Coimbra) – Racionalidade: Uma Perspectiva Hegeliana Hoje

13:00-15:00 – Almoço livre

15:00-16:30 – Sessão 2: A Crítica da Razão: Teoria da Justiça, Filosofia Social e Teoria Crítica
Moderadora: Maria Luísa Portocarrero (CECH, Univ. de Coimbra)

Teresa Nunes (CECH, Univ. de Coimbra) – Razão, Justiça e Literatura: um diálogo mediado pelo pensamento de Paul Ricœur

Gonçalo Marcelo (CECH, Univ. de Coimbra / Católica Porto Business School) – Razão Crítica, Crítica da Razão: Filosofia Social e Teoria Crítica

16:30 – Coffee Break

17:00-18:30 – Sessão 3: A Racionalidade na Teoria Económica: uma perspetiva crítica
Moderador: João Rodrigues (CES, Univ. de Coimbra)

Nuno Ornelas Martins (CEGE, Católica Porto Business School) – Crítica da Economia Pura

José Reis (FEUC) – A Economia como Ordem Relacional: modos de ação instrumental e não instrumental

19:00-21:00 – Jantar livre

21:00-22:30 – Sessão 4: Razão, Ciência e Sociedade: Desafios Contemporâneos
Local: RÓMULO – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra
Departamento de Física FCTUC, Piso 0
Moderador: Gonçalo Marcelo (CECH, Univ. de Coimbra / Católica Porto Business School)

Debate com Carlos Fiolhais (RÓMULO – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra) e João Bettencourt Relvas (i3s, Universidade do Porto)

Organização:

Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra

em parceria com

RÓMULO – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra

Comissão Científica:
Gonçalo Marcelo (CECH, Univ. de Coimbra / Católica Porto Business School)
Maria Luísa Portocarrero (CECH, Univ. de Coimbra)

Comissão Organizadora:
Gonçalo Marcelo (CECH, Univ. de Coimbra / Católica Porto Business School)
Teresa Nunes (CECH, Univ. de Coimbra)


(Ep. 36) "A Ordem do Tempo": "A Ordem do Tempo" de Carlo Rovelli

domingo, 18 de novembro de 2018

PENSAMENTO E FILOSOFIA

Deixei passar o Dia Mundial da Filosofia e, ao ler agora o texto de Helena Damião, neste blogue, de 16 de Novembro, alusivo à efeméride, parece-me oportuno deixar aqui algumas reflexões em torno deste tema.

O pensamento, todos sabemos, é um produto imaterial do cérebro e o cérebro é matéria, é oxigénio, hidrogénio, carbono, azoto e umas pitadas de outros elementos químicos Não tem dimensão física.

Não tem volume nem massa, nem peso, nem cor, não é quente nem frio e não ocupa espaço. Para ele não há gravidade nem distâncias, nem fronteiras materiais. É ubiquista, podendo estar, ao mesmo tempo e a qualquer momento, aqui e nos quasares mais longínquos, nos confins do Universo, a milhares de milhões de anos-luz.

Não surgiu da noite para o dia, por obra e graça divina. É o culminar de uma evolução da matéria surgida com o começo do Universo, há cerca de 13 800 milhões de anos.

O cérebro, cuja estrutura vai sendo a pouco e pouco desvendada, adquiriu, na espécie humana, complexidade que lhe permite pensar, criar conhecimento. Feito dos mesmos átomos do universo que conhecemos, o cérebro humano, aceite como fruto dessa evolução, além de coordenar toda a actividade vegetativa do corpo em que está inserido, é matéria que atingiu o superior patamar do pensamento, criando e combinando ideias a partir das percepções que os sentidos lhe fornecem do mundo físico que o rodeia.

Através dele, o homem adquiriu capacidade de intervir no seu próprio curso e no da Natureza que o criou e lhe permite viver, seguindo por caminhos ditados pela sua imensa capacidade de decisão

Na sua possibilidade de obter conhecimento, de deduzir, inferir e de o transmitir, o cérebro humano, surgido à superfície da Terra, é a expressão mais complexa de uma dinâmica própria da evolução da matéria, na qual foi consumida a totalidade do tempo do Universo, os ditos cerca de 13 800 milhões de anos

Pelos testemunhos que deixaram, sabemos, sem sombra de dúvida, que os nossos antepassados pré-históricos exerceram actividade psíquica, ou seja, que pensaram. Se tivermos em atenção a evolução do ser humano, desde o mais antigo primata, até ao “Homo sapiens” actual, passando pelos australopitecos e pelos outros hominídeos que os estudiosos têm descoberto e descrito, as perguntas que se ocorre fazer são:
- Em que patamar evolutivo da hominização surge o pensamento mais elaborado do que o dos animais vulgarmente tidos por irracionais? 
- Foi no do “Neanderthal”, aparecido há umas centenas de milhares de anos, ou foi só no do “Cro-Magnon”, que se pensa ter exterminado aqueles, há uns trinta ou quarenta mil anos?
Cingindo-nos ao “Homo sapiens”, a Pré-história ensina que, ao longo da sua evolução física e psíquica, este nosso antepassado observou, experimentou e estabeleceu relações de causa-efeito, transmitindo aos descendentes o saber que foi acumulando, servindo-se para tal da linguagem de que dispunha, de início o gesto e, mais tarde e progressivamente, a fala. Fez tudo isto e muito mais antes dos sumérios terem iniciado a arte de escrever, há cerca de 5000 anos.

E foi só, a partir do momento em que passou a viver em grupos progressivamente mais alargados, que se deparou com questões associadas aos valores morais, estéticos, políticos e religiosos. Foi nesta caminhada que surgiram os primitivos filósofos, designação genérica pela qual são habitualmente referidos matemáticos, geógrafos, historiadores, astrónomos e outros pensadores desse tempo

Foi o confronto entre a realidade que se lhes deparou e as ideias que, a partir dessa realidade, foram formulando, que conduziu o pensamento no caminho de uma ciência embrionária que, nessa fase, se confunde com a filosofia, no sentido de interesse ou preocupação pelo saber. É nesta fase que a filosofia ganha o estatuto de “mãe de todas as ciências". Foi a admiração e, por vezes, a perplexidade decorrentes de tudo o que os sentidos traziam ao seu conhecimento, que desencadearam neles esta atitude mental que está na base do maravilhoso edifício do conhecimento científico e tecnológico que temos ao nosso alcance.

Alistoriadores, classificados por alguns como “orientalistas”, defendem que a filosofia grega teria sido herança e posterior desenvolvimento de uma sabedoria vinda de povos orientais. Tem havido controvérsias sobre a origem desta forma de organização do pensamento, se na Grécia, se em civilizações orientais mais antigas, na Pérsia, na Índia, na China...

Actualmente parece haver unanimidade em considerar a Grécia como o berço da filosofia, o que parece ser confirmado por estudos recentes, com ênfase nos arqueológicos.

Terá sido, então, que foi entre os gregos que começou a audácia e a grande aventura do pensamento. Terá sido no decurso do século VII a. C., com o desenvolvimento e progresso nos trabalhos diários, que alguns gregos começaram a esboçar explicações racionais que foram conduzindo à progressiva rejeição das explicações míticas da realidade.

É hoje consensual que a filosofia, como superior elaboração do pensamento, nasceu da recusa ao carácter sobrenatural dos mitos, que então dominavam as crenças, não só da sociedade grega, mas de toda a Ásia Menor.

A passagem de uma mentalidade fundamentada em crenças de carácter religioso, a uma outra, assente no raciocínio, marca, pois, o início da filosofia.

A filosofia surge, assim, como uma espécie de rompimento com a visão mítica do mundo grego. Enquanto que os mitos não dispunham de qualquer suporte racional, a filosofia inaugurava o discurso abstrato e universal, amparado na reflexão e argumentação, formulando concepções do mundo isentas de contradições e imperfeições no que respeita o raciocínio lógico.

Ao contrário da religião, baseada na fé, que não contesta, respeita e, praticamente, não se afasta da tradição e dos textos sagrados, a filosofia serve-se exclusivamente da razão para aceitar ou rejeitar as teses que se lhe deparam.
A. Galopim de Carvalho

sábado, 17 de novembro de 2018

ALERTA DE DERROCADA NAS PEGADAS DE DINOSSÁURIOS DA PRAIA GRANDE (COLARES, SINTRA)

Estive ontem, com um grupo de alunos e respectivos professores, junto das pegadas de dinossáurios da Praia Grande (Colares, Sintra).

E estive, como se costuma dizer, «com o coração ao pé da boca», desejoso de tirar dali, especialmente as crianças. Uma parte da camada de calcário (sobrejacente à que contém as pegadas), com perto de uma dezena de toneladas, ESTÁ PRESTES A RUIR.

O projecto de reutilização da escada que liga a Praia à estrada de Almoçageme e dá acesso às pegadas (diga-se que muito bem protegida por um sólido corrimão), concebeu, e bem, um
pequeno patamar, frente a um dos trilhos, com capacidade para uma dúzia de adultos. Pois é, precisamente, sobre as cabeças de quem ali estiver que irá cair, SUSPEITO QUE A QUALQUER MOMENTO, a dita porção de rocha.

Já há mais de uma quinzena de anos, consciente da vulnerabilidade, face às intempéries, das camadas de calcário, ali empinadas quase à vertical, junto à dita escada, solicitei o parecer de um técnico do Laboratório Nacional de Engenharia Civil que, não só confirmou os meus receios, como indicou o tipo de intervenção a fazer, designadamente, a impermeabilização e consolidação do topo das camadas.

Desde então as correspondentes autoridades têm conhecimento (mas nada fizeram) desta dramática situação e do risco que isso representa como perda, para todo o sempre, de um testemunho valioso e raro do nosso passado mais antigo. Esta vulnerabilidade do grande afloramento rochoso representa, ainda, um risco latente para os utilizadores desta escada e dos que, cá em baixo, frequentam a praia.


De então para cá, a jazida com pegadas de dinossáurios da Praia Grande já ruiu e bem, uma vez, felizmente sem causar danos pessoais. Esta derrocada levou-lhe a parte superior da camada, atulhando e atravancando a dita escada, no troço que lhe fica na base, privando os utentes habituais de usar aquele útil percurso.

Recentemente aberta e beneficiada pelo referido corrimão, convida a visitar as pegadas.

Nada se fez, porém, quanto à consolidação da jazida e das camadas de rocha associadas, para além da informação do perigo latente, em dois painéis afixados no topo da escada.

A. Galopim de Carvalho

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Nos dias mundiais da Filosofia e da Tolerância: "perceber o que cada cultura tem de universal"

 

A UNESCO instituiu, em 1995, o Dia Internacional da Tolerância e, em 2005, o Dia Internacional da Filosofia. A celebração calha em meados do mês de Novembro. Neste ano calhou no dia de ontem e de hoje. A Diretora-Geral desta organização, Audrey Azoulay, escreveu dois breves mas fortes textos que convergem na necessidade e na urgência de pensar: de pensarmos, de levarmos a pensar.

Não posso deixar de sublinhar que pensar de um certo modo (substancial, profundo e alargado, com base em conhecimento e tendo sempre por horizonte os valores éticos, que são universais) se aprende, em grande medida, na escola. Trata-se de uma aprendizagem que, muitas vezes, tem de incluir o "posicionar-se contra": contra o instituído, contra o senso-comum, contra o dogma, contra a passividade, contra os interesses particulares, contra a mentira...

Daí a imprescindibilidade do ensino, do trabalho dos professores, com destaque aqui para os de Filosofia. Trabalho tão fundamental quanto duro neste presente que os desvia (e alguns, não parecendo perceber a sua importância, se desviam) do essencial, da relação com os alunos.

Nesta perspectiva, destaco, desses textos, as seguintes passagens:

Texto para assinalar o Dia Mundial da Tolerância (aqui):
Nas últimas décadas, a globalização conheceu uma aceleração desenfreada. Este fenómeno parece estar caracterizado por uma forte ambivalência: por um lado, a globalização aproxima os Estados e os cidadãos, permite uma cooperação profícua em numerosos domínios; por outro lado, gera desequilíbrios, suscita medos e cria novas tensões. 
Os populismos, os discursos de incitação ao ódio e à exclusão prosperam com base na ansiedade provocada pelas desigualdades socioeconómicas, as migrações forçadas de populações, as recomposições sociais, o desafio ecológico. 
Este [dia] é uma ocasião para relembrar que a diversidade cultural é consubstancial às sociedades humanas, que é uma força, um motor de desenvolvimento, uma riqueza da qual todos nós podemos retirar um benefício desde (...) que percebamos o que cada cultura tem de universal e que adotemos uma atitude de tolerância perante o que nos parece, à primeira vista, estranho e diferente. 
A tolerância não deve ser entendida como a mera disposição para tolerar o outro, mas como a aptidão para o respeitar e apreciar, compreender o valor profundo da sua cultura e reconhecer a igualdade de direitos de que gozam todas as pessoas enquanto ser humano. A tolerância, que é simultaneamente virtude moral e princípio político, é um sólido baluarte contra o racismo e contra todas as discriminações. É um vetor de paz, que devemos cultivar e reforçar.
Texto para assinalar o Dia Mundial da Filosofia (aqui)
A filosofia ajuda-nos a superar a tirania do instante e a analisar os desafios que se nos colocam com o necessário distanciamento histórico e rigor intelectual. 
A filosofia também nos ajuda a refletir, precisamente, sobre as normas que sustentam a nossa vida coletiva: ao levantar questões de justiça, de paz, de ética, de moral. 
Estas questões são particularmente relevantes na sociedade atual, onde os progressos alcançados no domínio da inteligência artificial parecem redefinir as fronteiras do humano. 
Por fim, a filosofia implica uma abordagem e uma atitude específicas: a abertura ao diálogo e ao intercâmbio de argumentos, a predisposição para acolher o que parece estranho e diferente, a coragem intelectual de questionar os estereótipos e de desconstruir os dogmatismos.

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Carlos Fiolhais: Intervenção na Gulbenkian sobre o P. Manuel Antunes e a ciência

"As primeiras representações da Ciência no Teatro : um percurso de aldrabões" por Mário Montenegro

“A MATEMÁTICA É UM SUPERPODER”




Na próxima 4ª feira, dia 21 de Novembro de 2018, pelas 18h00, vai ocorrer no Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra a palestra A MATEMÁTICA É UM SUPERPODER”, por Inês Guimarães, estudante de matemática Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, youtuber muito popular, criadora do canal MathGurl”.

No final da palestra, os interessados poderão adquirir o livro "Desafios Matemáticos que te vão Enlouquecer" e obter um autógrafo da Inês Guimarães.

Esta palestra integra-se no ciclo "Ciência às Seis - Terceira temporada"*.

Sinopse da palestra:
Há uma verdade profunda que escapa à maior parte de nós — a matemática não é apenas uma disciplina maquiavélica que somos obrigados a ter na escola, mas sim uma linguagem poderosíssima para descrever ideias. Misteriosamente presente em tudo o que nos rodeia, ela permite-nos dar asas à imaginação e pensar de forma criativa e abstrata sobre uma montanha de coisas, conduzindo-nos a conclusões sublimes e desvendando as relações escondidas entre os elementos do universo. Numa mistura de magia, fantasia e realidade, veremos que saber matemática é, afinal, um superpoder.

*Este ciclo de palestras é coordenado por António Piedade, Bioquímico, escritor e Divulgador de Ciência.

ENTRADA LIVRE

Público-Alvo: Público em geral
Link para o evento no Facebook

O incrível Hulk

Em homenagem ao criativo da Marvel Stan Lee, autor do Homem Aranha, de Hulk e de vários outros personagens de comics, cujo falecimento foi ontem anunciado, publico o texto sobre Hulk que saiu no livro "Darwin aos Tiros" (Gradiva) que escrevi com David Marçal em 2011:

"Não, o verdadeiro Hulk não é um destacado jogador do Futebol Clube do Porto. Hulk é uma versão moderna de Frankenstein , a mítica personagem do Romantismo saída da pena de Mary Shelley (1797- 1851), em 1818, que passou ao cinema pouco depois de essa arte e tecnologia ter surgido no mundo. Frankenstein e Hulk podem ser vistos como a encarnação do medo sentido pelo homem que ousa desafiar a Natureza empreendendo experiências inusitadas. O século XIX, de algum modo em reacção ao século das Luzes, imaginou histórias fantásticas, como essa da criatura que, inopinadamente, foge ao controlo do seu criador. Criou monstros onde antes existia a razão. O p pintor espanhol Francisco Goya bem o previu, ao inscrever numa sua gravura de 1 79 9 : « O sono da razão gera monstros . »

Hulk, ou, melhor, Bruce Banner, o seu verdadeiro nome, é mesmo incrível. Trata-se de um físico nuclear experimental . Numa experiência secreta de teste de uma arma por ele criada, Banner foi submetido a uma forte radiação gama que lhe permitiu metamorfosear-se em Hulk, monstro de forma humana, mas de cor verde, que e m certas ocasiões consegue aterrorizar tudo e todos. Bruce é uma pessoa inteligente e sensível, mas, quando se irrita, fica um débil mental, de corpo enorme ( figura 9 ) . Não é inteiramente mau, mas, se provocado, arrasa toda a gente que lhe surja pela frente. Muito pior do que o avançado Hulk faz às defesas adversárias . . .

 O filme do francês Louis Leterrier O Incrível Hulk estreou em 2008, três anos depois de ter estreado entre nós um outro filme sobre o mesmo super-herói, Hulk, realizado pelo chinês Ang Lee. Hulk, apesar de novo nos cinemas, já não era propriamente j ovem: tinha nascido em 1962, nos livros de banda desenhada da Marvel, onde aliás continua, e passado pelos ecrãs da televisão antes de chegar ao grande ecrã. Já nessa altura Hulk tinha de enfrentar um poderoso general norte-americano que, para aumentar a intensidade dramática, é pai de uma bela rapariga apaixonada por Bruce. No novo filme, o general comanda um ambicioso capitão, de origem russa (claramente um resquício da Guerra Fria nos anos 60), que também acaba por se transformar num monstro, pois era preciso um vilão à a ltura para combater Hulk num grandioso duelo final . Mas nem a vida é bem como nos filmes, nem a ciência é tão má como nas fitas de terror. A ciência desses filmes, apesar de irreal, não deixa de cumprir uma função. Hulk, ao actualizar Frankenstein na era do nuclear, alerta-nos para a necessidade de manter a razão acordada. O escritor e médico francês François Rabelais (1494- 1553) tinha dito que ciência sem consciência é a « ruína da alma » . Ciência com consciência é ciência que não se deixa adormecer. É alma que não se deixa arruinar."

Meu prefácio ao novo livro de António Piedade "Íris científica 5"




Diz o povo que não há duas sem três, mas António Piedade diz que não há três sem quatro e que não há quatro sem cinco.  Este é o quinto volume da série Íris Científica, que são colectâneas de crónicas sobre ciência escritas por aquele autor para órgãos da imprensa regional, principalmente o Diário de Coimbra, onde mantém uma colaboração regular há vários anos.  O primeiro volume saiu em 20o5, na editora Mar da Palavra.  Ainda me lembro de ter estado no Museu Nacional da Ciência e da Técnica Doutor Mário Silva nesse ano, que ficou assinalado como o Ano Internacional da Física para se celebrarem os cem anos dos principais trabalhos de Albert Einstein. O segundo, após uma pausa, saiu em 2014, em edição de autor. O terceiro em 2016 e o quarto em 2017, os dois também em edição de autor, o que torna os livros raridades bibliográficas. O título permanece o mesmo, porque se trata de abrir os olhos a realizações da ciência. O título significa que entra luz. Íris é a parte colorida do olho, cuja função é controlar a quantidade luz que entra no olho. Essa  função é comprida abrindo e fechando o orifício central da íris chamado pupila. A íris está para a pupila, como, numa máquina fotográfica, o diafragma está para a abertura. A minha íris deixa, neste momento, entrar a luz que vem das capas dos primeiros quatro Íris científicas, que estão sobre a minha secretária, todas elas variando na cor, mas sempre mostrando imagens científicas.

Desde 2011 que o António Piedade, bioquímico de formação, tem dinamizado o projecto “Ciência na Imprensa Regional”, apoiado pela Agência Ciência Viva para a promoção da cultura científica e tecnológica (http://imprensaregional.cienciaviva.pt/), uma ideia muito original que consiste em oferecer aos jornais regionais e, portanto, ao público generalista espalhado por todo o território nacional, e também na emigração, oportunos artigos de divulgação da ciência, escritos por cientistas ou por comunicadores de ciência.  Não, a Internet não acabou com os jornais em papel que são de norte a sul no Portugal Continental, e também nas ilhas e na Diáspora, vozes de comunidades locais. Essa imprensa tem mostrado uma notável capacidade de sobrevivência, que se deve em larga medida à sua grande proximidade às populações. Por exemplo, O Açoriano Oriental, publicado em Ponta Delgada, Açores, e incluído no catálogo do referido projecto, tem saído pontualmente desde 1835, sendo por isso o mais antigo jornal português com publicação contínua e um dos mais antigos do mundo. Os textos sobre ciência do António e de outros autores portugueses, entre os quais me incluo com muito gosto, têm saído em jornais regionais de todo o país. Isso significa que a ciência está próxima das pessoas, onde quer que elas se encontrem.  Dou os meus parabéns ao autor por porfiar ao fim de sete anos nessa admirável tarefa de disseminar a ciência em jornais de pequena circulação, mas de grande impacto afectivo, como o Correio do Minho, O Campeão das Províncias e a Voz do Algarve, entre muitos outros. Já merece o prémio “Ciência nos Media.”

Este quinto volume continua os anteriores porque a ciência continua viva, tal como a necessidade de comunicar ciência. Temos ciência, mas precisamos de mais ciência. Continuam, portanto, as saborosas crónicas curtas do autor sobre variados temas científicos, aproveitando uma efeméride ou uma novidade, as quais, desde o terceiro volume, aparecem nos livros arrumadas em dois grandes capítulos: “Além no espaço” e “Aqui na Terra”. A Astronomia é um dos temas predilectos do António, de acordo aliás ao interesse do público. O espaço longínquo e longevo é um grande mistério a cujo conhecimento todos nós aspiramos. Por exemplo, neste volume o autor trata os recentemente descobertos exoplanetas, que são planetas como os que existem no sistema solar, mas situados bem mais longe de nós (andamos à procura de novas Terras, onde eventualmente possa haver vida), e o maior telescópio de luz visível que temos hoje à disposição na Terra, que se situa em altas montanhas do Chile e, pelo seu tamanho, é justamente chamado Very Large Telescope.  Por outro lado, em “Aqui na Terra” o António fala-nos das causas dos terramotos, como aqueles que causam devastadores tsunamis, e desvenda-nos alguns dos impressionantes progressos da genómica, como aqueles que são trazidos pela sequenciação completa dos genomas do trigo, do sobreiro e dos seres humanos.  A moderna bioquímica revelou-nos que o código genético permite uma descrição unificada de todas as plantas e animais, estando nós incluídos  neste segundo grupo: por fazermos parte da gigantesca “árvore da vida”, somos ao fim e ao cabo parentes do trigo e do sobreiro. O autor fala também de avanços na medicina e farmácia, como o diagnóstico e tratamento do cancro ou o uso de novos antibióticos para debelar doenças, por saber que os humanos têm uma natural preocupação com a sua saúde. Qualquer que seja o tópico, o António procura destacar a ciência portuguesa, isto é, a ciência feita por portugueses, reflectindo o facto de hoje termos excelente ciência em Portugal numa variedade de domínios.

Realço o uso adequado da língua portuguesa. António Piedade escreve bem. Não só constrói e encadeia as frases com a nítida preocupação da legibilidade como, mais do que isso, nota-se aqui e ali o que poderei chamar “leveza poética”. Na senda de Galileu, cuja prosa subia alto quando se tratava de descrever a Lua que ele via com o seu telescópio, também aqui a prosa parece levitar quando a íris do autor se foca em temas, sejam do espaço ou da Terra, que nos fazem subir acima das comezinhas questões do dia-a-dia. A ciência eleva-nos e a linguagem pode e deve ajudar nesse processo!

Por último deixo uma nota que tem uma marca pessoal, por eu ter um particular carinho por livros de divulgação de ciência, como aqueles que hoje enchem as estantes do RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra (alguns deles vindos do extinto Museu Nacional da Ciência e da Técnica). Algumas das crónicas deste volume debruçam-se sobre livros desse tipo, designadamente sobre obras desses gigantes contemporâneos da escrita a cujos ombros nós, leitores, subimos que são Hubert Reeves, Carl Sagan e Stephen Hawking. Como na imprensa portuguesa, seja ela nacional ou regional, quase não se encontram críticas de livros de ciência vejo com gosto aqui arquivados, sob a forma que espero perene do papel, algumas recensões de livros dessa índole, em particular da colecção “Ciência Aberta”, da Gradiva, que tenho actualmente orgulho em dirigir. A minha vocação para a ciência despertou por via da leitura de livros de ciência e espero não constituir caso isolado. Os livros de ciência alimentam a nossa curiosidade.

Apesar de muitas destes escritos terem saído em jornais entretanto deitados fora, ou estarem reproduzidos algures nessa imensa Babel que é a Internet (nomeadamente no blogue De Rerum Natura, para o qual o António e eu contribuímos), o leitor deve dar-se por feliz por os ter ao alcance da sua íris, sob a forma tão ergonómica de livro. Assim como serão felizes os vindouros cujas íris os encontrem. Um livro é uma  máquina do tempo: chegará garantidamente às próximas gerações, permitindo-lhes saber quem as precedeu. Boas leituras, qualquer que seja o tempo em que forem feitas!


Nota: encomendas de livros autografados pelo autor podem ser solicitadas pelo email apiedade@ci.uc.pt

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Médico e ativista alerta para pseudociência que se faz passar por ciência




Despacho da Lusa saído no DN sobre a inter
venção de Ben Goldacre em Viseu no quadro do Mês da Educação e Ciência da Fundação Francisco Manuel dos Santos:

O médico e ativista britânico Ben Goldacre, alertou hoje para a existência de muitos artigos e publicações pseudocientíficos que se fazem passar por ciência para terem credibilidade.

 Lusa 06 Novembro 2018 —

Ao falar em Viseu, na conferência "Ciência ou pseudociência?", Ben Goldacre considerou que se vive uma fase de transição: antes eram os jornalistas e os editores que divulgavam informações incorretas, agora há "um mundo caótico, com o bom e o mau", devido à Internet.

 Questionado pelo professor catedrático Carlos Fiolhais sobre como saber em que informações se deve confiar, Ben Goldacre respondeu que "não há uma solução", fazendo uma comparação com uma conversa entre duas pessoas, em que uma está a tentar perceber se o que a outra diz é verdade.

 Durante a conferência, o epidemiologista mostrou vários artigos publicados em jornais, como um do Daily Mail com uma listagem de "coisas que podem causar cancro", na qual estavam o divórcio, o wi-fi e o café. Este último voltava a aparecer na lista de "coisas que podem evitar o cancro".

 O académico e autor premiado gracejou que pode haver interesses por detrás destes estudos e deu mais um exemplo com os títulos: "o trabalho doméstico previne o cancro nas mulheres" e "ir às compras pode tornar os homens impotentes". Segundo o investigador da Universidade de Oxford, em ciência não interessam os títulos académicos que as pessoas têm ou dizem que têm, mas sim as provas. A esse propósito, deu o exemplo de uma mulher que dizia ser médica e que dava conselhos de saúde na televisão, quando afinal tinha um curso por correspondência e um certificado da Associação Americana dos Consultores Nutricionais. Ben Goldacre conseguiu este mesmo certificado para a sua gata, tendo para isso apenas de preencher um formulário pela Internet e pagar. "Ela diz coisas como: 'as folhas verdes têm muita clorofila e vão oxigenar-nos o sangue'", contou, questionando como será isso possível, se a clorofila apenas faz oxigénio com a luz do sol e dentro dos intestinos está muito escuro.

 Ben Goldacre mostrou ainda exemplos de gráficos que induzem as pessoas a tirar conclusões erradas e também como é possível adulterar os dados dos estudos, mesmo antes de serem recolhidos. "Há ensaios muito maus, que são encomendados", frisou, acrescentando que há também muitos estudos que nem chegam a ser divulgados, porque os seus resultados não corresponderam ao que era esperado.

 A conferência "Ciência e pseudociência" está integrada no mês da Educação e da Ciência da Fundação Francisco Manuel dos Santos.

A destituição do ser humano da sua humanidade

Estou perfeitamente consciente de que me encontro entre os muitíssimos milhões de pessoas que desconhecem em grande medida o rumo que o mundo está a tomar. Não porque o mundo tenha vontade própria, mas porque há quem decida esse rumo e o apresente, na altura certa, como pronto e inevitável; não porque recuse informar-me mas porque a mudança é demasiado rápida para ser possível acompanhá-la.

Nesse rumo marca presença de destaque a tecnologia. Noto que, sendo ela a face visível das inquietações que legitimamente desencadeia, não é a sua origem. O que, de facto, deve inquietar é a nova maneira de a encarar: ela passou a valer por si, tudo justificando.

A questão não é, pois, a sua invenção e o seu uso (na verdade, obra da humanidade) mas o distanciamento crescente que provoca face ao sentido do humano (de tal modo que este se afigura muito difícil de recuperar). 

É de defender, de facto, a tecnologia que concorre para o que eticamente está certo - por exemplo, salvar vidas ou melhorá-las, proporcionar o acesso à cultura -, mas como aceitar a que é usada contra este desígnio? A que é usada para substituir pessoas em tarefas que requerem inteligência? A que é usada para as vigiar e controlar, atentando contra a sua liberdade e dignidade? 

Como é possível que pessoas dêem forma humana a máquinas? Como é possível que "humanizem" máquinas? Como é possível que pretiram outras pessoas em favor de máquinasComo é possível que subjuguem outras pessoas a máquinas?

Nunca antes na nossa história tivemos tanta gente escolarizada no mundo e a chegar tão longe, a níveis superiores. Mas, certamente, o essencial foi esquecido, desvirtuado.

E o que é, afinal, o essencial? É "tornar éticos ou morais os educandos, inculcar-lhes valores éticos, torná-los pessoas morais" (Barros de Oliveira,1997, p. 53). Acontece que essa tarefa requer "uma permanente conquista pois "na sua ausência o ser regressa à barbárie e à animalidade" (Antunes, 1973, p. 33). 

Chegámos a um momento em que, muito seriamente, devíamos parar para pensar. Mas isso não vai, por certo, acontecer e, portanto, a vertigem de destituição do ser humano da sua humanidade prossegue, como se percebe no exemplo abaixo, anunciado ao mundo depois de estar pronto e a funcionar em pleno. 
"... agência de notícias do governo chinês, anunciou que fará uso de pivots para ler as notícias em vídeo, aproximando-nos um pouco mais do eventual futuro distópico que tanto receamos em que os robots tomam controlo do mundo. Como pode ver pelo vídeo, a IA em questão toma como base imagem de um pivot real, editando apenas a zona da boca de forma a que esteja sincronizada com as notícias que são lidas com uma voz sintetizada. Haverá dois pivôs de IA (um para inglês e outro para chinês) e “trabalharão 24 horas no site oficial e em várias redes sociais, reduzindo os custos de produção de notícias e melhorando a eficiência”. Tendo em conta a forma como o governo chinês tem integrado tecnologia nas cidades – de modo a melhorar os níveis de vigilância governamental, recorrendo até a reconhecimento facial) – e pretende implementar nos próximos anos crédito social que pode acentuar disparidades sociais, é natural que estes pivôs artificiais estejam a ser vistos com algum receio" (Miguel Patinhas Dias, 8 de Novembro de 2018).
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Notícias aqui, aqui, aqui e aqui
Referências bibliográficas:
- Antunes, M. (1973). Educação e sociedade. Lisboa: Sampedro.
- Oliveira, J.H.B. (1997). Filosofia e Psicanálise Educação. Coimbra: Livraria Almedina.

Michael Moore's "Fahrenheit 11/9" Extended Trailer

TRAILER | Ex Libris: The New York Public Library by Frederick Wiseman

Minha entrevista ao JL sobre o Mês da Educação e Ciência da Fundação Francisco Manuel dos Santos

Entrevista feita por Manuel Halpern no Jornal de Letras /Educação ):

 Novembro é o mês da Educação e da Ciência, da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS). Uma iniciativa que leva oito conferências (quatro de Educação e quatro de Ciência), seguidas de debates, a palcos do norte a sul do país, incluindo a Região Autónoma da Madeira. Juntam-se especialistas portugueses e estrangeiros, de diversas áreas, para aprofundar e debater ideias sobre assuntos tão atuais quanto as novas tecnologias ou a necessidade de distinguir ciência de pseudociência. O JL falou com o primeiro responsável pela organização deste ciclo, Carlos Fiolhais - 62 anos, físico, prof. catedrático da Universidade de Coimbra, de cuja Biblioteca Geral foi diretor e onde dirige o Centro de Física Computacional e o "Rómulo", Centro de Ciência Viva, com uma vasta e premiada obra como cientista e, sobretudo, divulgador de Ciência, com mais de 4o livros publicados.

 JL: Quais são os principais objetivos deste mês da Educação e da Ciência da FFMS? 

Carlos Fiolhais: Desde 2010 que a Fundação promove o mês da Educação. E desde há cinco, seis anos que há o mês da Ciência. A novidade este ano é que juntámos os dois. Pelo que, a primeira mensagem é que as duas coisas andam juntas.

 Porque resolveram juntá-las? 

Primeiro porque a Educação transmite Ciência, não só o corpo de conhecimentos, mas também o método para adquiri los. Por outro lado, a Ciência exige Educação, ninguém pode chegar a conhecimentos novos sem ter recebido os conhecimentos existentes. A educação é um fenómeno social, um meio que a sociedade inventou para preparar pessoas para a vida. assim sendo, pode também ser estudada pelas ciências. Por exemplo, as Neurociências avançaram tão extraordinariamente que é altura da Ciência da aprendizagem poder dizer alguma coisa sobre o melhor modo como se aprende e ensina. Queremos reforçar esta ligação. Por isso temos quatro conferências de Educação e quatro de Ciência, mas com ligações óbvias entre as áreas.

Aliás, o ciclo já começou. De que se tem falado? 

Na Educação, falámos de o que é a inovação e a criatividade nas escolas. Sobre a relação entre a inovação e conhecimento. Tivemos uma educadora britânica, a Daisy Christodoulou, que nos disse que não se pode transmitir a atividade em abstracto, esta deve ser sempre baseada em conhecimentos concretos. Em diálogo com ela, tivemos o professor Rui Lima, que defende que o ensino do primeiro ciclo se deve basear mais em projetos.

O público essencial são professores? 

Sim, temos já essa tradição de chegar aos professores, ao vivo, ou online. Nesta última conferência houve muitos . Mas os pais e as famílias e os políticos e gestores de Educação são também o nosso alvo. E queremos chegar aos próprios intervenientes, os jovens. A conversa de ontem, no Teatro Viriato, já foi com estudantes do ensino secundário. O tema foi Ciência e Pseudociência, a diferença entre verdade e mentira. Temos um mundo inundado dos chamados factos alternativos. E há um médico britânico, Ben Goldacre, colunista do The Guardian, que nos vem falar daqueles que querem fazer passar por ciência o que realmente não é. Ele tem um livro chamado Ciência da Treta G G Quando o poder se casa com a ignorância é explosivo. E pode explodir-nos na cara. Nós queremos evitá-lo. Só há uma alternativa: mais educação e mais ciência e outra Farmacêuticas da Treta, onde demonstra que há meio mundo a querer enganar a outra metade.

 E mais à frente? O que a ainda se pode assistir? 

No final do mês, vamos ter um sobre Neurociência, pelo neurolinguística José Morais e e pela prof.a Joana Rato, onde vamos tentar compreender como é que se aprende e ensina melhor. Haverá meios preferenciais para aprender melhor? O que será que as ciências do cérebro nos podem dizer sobre isso? Esse vai ser o debate que vamos ter em Coimbra. Depois, o programa de Educação termina no final de novembro, na Business School de Carcavelos, com um professor da Universidade de Virginia, de cerca de 90 anos, Eric Hirsch, a falar sobre a escola, conhecimento e sociedade digital. A questão é saber, neste mundo em que a informação circula à velocidade da luz, como é que a escola vai fazer para transformar essa informação em conhecimento. Ou seja, informação há muita, mas temos de usar a que aparece no Google de forma criteriosa. O algoritmo funciona por popularidade, mas a popularidade não é critério de verdade. Há ainda uma outra conferência, no Liceu Camões, sobre o currículo da matemática, um professor de Michigan, William Schmidt. Ele vem falar de um problema: como e o que deve ser ensinado na matemática? Será um debate entre duas correntes.

E na ciência? 

Peter Atkins, professor de físico- -química e escritor best-seller, vai debruçar-se sobre a inquietações metafísicas da criação. Será que com o conhecimento que temos de ciência podemos dizer coisas sobre o início do mundo? Sobre a passagem do nada para o ser? Como aparece a natureza e as suas leis?

Outra conferência será em Aveiro, com cientistas da rede GPS - Global Portuguese Scientists, formada pela FFMS. Pedimos a três cientistas portugueses que estão lá fora, para falar-nos sobre os humanos do futuro. Nos laboratórios estão a desenhar-se soluções que vão aparecer na nossa vida corrente. Soluções, por exemplo, para enfrentar doenças. Dou um exemplo: a inteligência artificial no tratamento de dados, para nos permitir tirar conclusões nos meios diagnósticos e de tratamento. Vêm apresentar- -nos questões de medicina, o que se está a fazer na fronteira do conhecimento, e que poderemos beneficiar no futuro.

E também vão à Madeira, numa conferência que está diretamente ligada com o próprio arquipélago. De que se trata? 

As ilhas são sítios muito particulares para o estudo da Biologia e sobretudo da teoria da evolução. Quando se introduzem novas espécies, tornam-se em laboratórios vivos. Apesar de nunca ter estado lá, Darwin fala várias da ilha, a propósitos dos relatos de naturalistas que fizeram um levantamento sobre fauna e flora. Assim, vamos ter dois cientistas portugueses a falar sobre Darwin e a Madeira.

Quais são as expectativas de repercussão das conferências? 

Já temos alguma experiência da realização deste tipo de conferência. Conseguimos atingir um grande número de pessoas direta ou indiretamente. Estas são iniciativas ligadas à Educação e à Ciência que vêm da sociedade civil. Por isso queremos trazer novas ideias, novas pessoas, usamos os dados da Pordata e levar isso ao maior número possível de pessoas, para que tenham opiniões mais informadas. Dou um exemplo claro das carência da sociedade portuguesa. Vivemos na sociedade do conhecimento mas sem conhecimentos suficientes. Olhamos para a Pordata e verificamos que um dos índice mais dramáticos é o da população ativa sem ensino secundário ou superior. Em Portugal 52% não tem escolaridade suficiente. Na Europa, a média é de 22.%. É uma catástrofe. Sem chegar ao conhecimento não podemos chegar à riqueza. O drama é esse, não a falta de petróleo. O petróleo é a capacidade dos nossos cérebros tirarem conclusões através do informação que existe. Aqui estamos em penúltimo lugar no ranking europeu. Na Lituânia só 5% das pessoas não tem o ensino secundário ou superior.

 Em Portugal houve uma grande evolução no período democrático, mas o que falta para chegar a esses patamares? 

Quer na Educação quer na Ciência houve uma grande evolução desde 1974. E em 1986 houve ajudas grandes vindas da União Europeia, canalizadas para essas áreas. O que faz falta é continuar no mesmo caminho. Aqui não há uma revolução com um clique. Nem é comprando equipamentos para carregar no botão e haver milagres. Há renovações geracionais a fazer. Isto não se resolve de forma automática. Pode haver formação de adultos, mas isso não se faz de maneira universal. Tem de haver melhor escola e mais escola para mais gente. É verdade que diminuímos o abandono escolar, mas ainda assim estamos atrás da média europeia. Aumentámos o número de pessoas licenciadas, mas mesmo assim, no intervalo entre 30 e 34 anos, estamos atrás da média europeia. É preciso continuar pelo mesmo caminho, não podemos abandonar a corrida. Isto não se faz por iluminação de nenhum governo, mas tendo a consciência social da existência do problema. É uma ilusão acharmos que temos doutores a mais. Pessoas com melhor formação, em princípio, poderão fazer melhores escolhas, a todos os níveis. Quem não tem educação corre o risco de ter outros a  escolher o seu destino.