quinta-feira, 4 de junho de 2020

MAIS DESIGUAIS


Meu artigo no Público de hoje: 

São factores de risco associados à covid-19 a idade avançada e doenças crónicas como a doença coronária, a hipertensão e a diabetes. Mas um outro factor de risco, que está de resto ligado aos outros, é a debilidade económica. Com o avolumar das estatísticas, tornou-se claro, no mundo em geral e em Portugal em particular, que as pessoas mais afectadas pela pandemia têm menor poder económico. Por falta de meios ou de conhecimentos, não tomam as indispensáveis medidas de protecção. 

 A crise económica, devida à travagem da produção, está aí. Os trabalhadores em lay-off viram minguar os seus salários e o desemprego subiu, mesmo que as estatísticas ainda não o reflictam. Quem era remediado está a ficar pobre e quem já era pobre está a ficar mais pobre, por vezes miserável. Se o pico da crise sanitária já passou, pelo menos entre nós, o pico da crise económica, que favorece um eventual ressurgimento da doença, ainda está por vir. A crise económica mundial vai exceder a Grande Recessão de 2007-2009, que chegou a Portugal em força em 2011, faltando saber como se vai comparar com a Grande Depressão iniciada com a queda da bolsa em Nova Iorque em 1929.

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quarta-feira, 3 de junho de 2020

Uma muito breve história da Luz

Meu capítulo no livro que acaba de sair na Imprensa da Universidade de Coimbra: Visões da Lus, Francisco Gil e Lídia Catarino, coords. (Puseram-me o texto em "novoacordês": não o pude evitar).

Resumo:

No Ano Internacional da Luz 2015 passaram-se aniversários de alguns marcos da história da Ótica. Conta-se a história da descoberta da luz, desde o primeiro tratado de Ótica do árabe al-Haytham há mil anos até à eletrodinâmica quântica de Feynman, Schwinger e Tomonaga dos anos 50 do século passado. Pelo meio passou-se uma das mais famosas polémicas da história da ciência — a que opôs os partidários da teoria corpuscular da luz como Newton e os defensores da teoria ondulatória como Huygens, Fresnel e Maxwell.

A polémica foi resolvida no início do século xx com o desenvolvimento da teoria quântica por Planck, Einstein, Bohr e outros, a qual enquadra a dualidade partícula-onda. Várias aplicações da luz foram surgindo à medida que aumentava a ciência da luz: duas das maiores foram as ondas hertzianas e os raios X, na segunda metade do século xix. Apresentam-se brevemente as primeiras experiências de raios X na Universidade de Coimbra.


Por ocasião do Ano Internacional da Luz 2015, que celebrou alguns grandes marcos da história da luz, é oportuno divulgar essa história.

A questão da Natureza da luz sempre intrigou os estudiosos dos fenómenos luminosos, dos quais um dos primeiros foi o árabe al-Haytham (965–1040), que há cerca de mil anos escreveu o primeiro tratado de Ótica. Este autor foi premonitório sobre o papel do cientista quando escreveu «Se a aprendizagem da verdade é o objetivo do cientista, então ele tem de se tornar inimigo de tudo aquilo que lê»1 (Sabra, 2003, para. 7). Desde então, muitos foram os autores que, a propósito da luz, se basearam na observação e na experiência para se tornarem inimigos daquilo que leram, fazendo avançar os conhecimentos na área da ótica.

Os instrumentos revelaram-se essenciais para a observação e experiência de fenómenos óticos. Um marco foram, decerto, as primeiras observações feitas em 1609 pelo italiano Galileu Galilei (1564–1642) com a luneta astronómica. A construção do telescópio só foi possível graças ao aperfeiçoamento no polimento de lentes. Ao ampliar o poder do olho aumentou-se também o poder da mente. O Universo passou a ser um sítio diferente: a Lua não era plana, o Sol não era absolutamente claro, Vénus tinha fases e Júpiter tinha luas. Fala-se, quando se refere essa época, de Revolução Científica, mas talvez seja revelador da continuidade o facto de um dos primeiros atlas da Lua, o tratado de selenografia do astrónomo polaco Johannes Hevelius (1611–1687), ter colocado no frontispício de um lado al-Haytham, simbolizando a razão, e do outro Galileu, simbolizando os sentidos (Figura 1.1.). Na Revolução científica junta-se o antigo e o moderno, a razão e os sentidos, estes ampliados pelo novo instrumento.

Contemporâneo de Newton foi o francês René Descartes (1596–1650) que, no seu famoso Discurso do Método, publicado em Leyden, em 1637, descreve num apêndice o arco-íris como um exemplo do poder do método. Os raios de Sol entram numa gota de água na atmosfera, desviam-se ao entrar nela (refração), refletem-se na parede posterior da gota e voltam a desviar-se (nova refração) ao saírem da gota (Figura 1.2.).


Figura 1.1. «Selenografia» de Johannes Hevelius, mostrando al-Haytham e Galileu.
Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Hevelius_Selenographia_frontispiece.png


Figura 1.2. Figura do livro Meteoros, em apêndice ao Discurso do Método de Descartes (1637), que esquematiza o fenómeno do arco-íris.
Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Descartes_Rainbow.png



As cores apareciam já dentro da gota e ainda mais cá fora. O próprio Descartes fez estudos experimentais do fenómeno da refração com garrafas de água, que o levaram a formular uma lei matemática que descreve a geometria do fenómeno (lei de Snell-Descartes).

O inglês Isaac Newton (1642–1726), na geração seguinte, deu o próximo passo ao produzir o arco-íris em sua casa, com o auxílio de dois prismas (de novo o aperfeiçoamento da indústria vidreira vinha em auxílio da ciência). Numa carta que escreveu à Royal Society de Londres, em 1672, descreve fenómenos que observou nos anos de 1665–1666, quando recolheu a sua casa no campo após ter acabado o curso, devido ao encerramento da Universidade de Cambridge por um surto de peste:

Para este fim, tendo escurecido o meu quarto e feito um pequeno buraco na minha janela para deixar passar uma quantidade conveniente de luz do Sol, coloquei o meu prisma numa entrada para que ela [a luz] pudesse ser refractada para a parede oposta. Isso foi inicialmente um divertimento muito agradável: ver todas as cores vivas e assim intensamente produzidas, mas, após um tempo dedicando-me a estudá-las mais seriamente, fiquei surpreso por vê-las…

Note-se o encantamento do grande físico, que precedeu o seu estudo pormenorizado do fenómeno do arco-íris. Newton explicou a separação das cores (chamada dispersão) já analisado por Descartes. A luz seria constituída por diferentes partículas, sendo cada tipo associado a uma cor. Ora as partículas de cor vermelha teriam dentro do vidro (ou da água) desvios diferentes do de uma partícula de luz violeta. Numa experiência dita «crucial» reparou que a luz branca do Sol era dispersa em todas as cores do arco-íris pelo prisma, mas, se recolhesse apenas raios de cor vermelha no segundo prisma, verificava-se que a luz entrava vermelha e saía vermelha (Figura 1.3.).

Isto é, o vermelho era uma cor primária, que era desviada pelo prisma mas não decomposta, ao contrário da luz branca, que era uma mistura de todas as cores. Era natural que Newton imaginasse a luz formada por partículas. Pois não se sabia desde a Antiguidade que os raios, fossem eles do Sol ou de uma outra fonte, viajavam em linha reta, como é próprio de um projétil? E não se conheciam desde tempos antigos as leis da reflexão em espelho, que descrevem uma situação idêntica à de uma bola de bilhar que bate numa tabela? Para o sábio inglês a luz branca era desdobrada em luz de várias cores no interior do prisma por ser composta por corpúsculos de tamanhos diferentes. Os maiores viajariam mais lentamente no vidro, ao passo que os menores viajariam mais rapidamente. As cores do arco-íris que apareciam no interior do vidro e surgiam mais nítidas quando o feixe emergia estariam associadas ao diferente tamanho das partículas. Newton acertou em cheio quando afirmou que a luz branca continha a luz de todas as cores e quando explicou o desdobramento das cores pela diferente velocidade das partículas, mas falhou quando imaginou partículas de diferentes tamanhos. É assim em qualquer avanço da ciência: quando sabiamente se corrige um sábio anterior, deixa-se espaço para que mais sábios venham depois a fazer alguma correção.

Figura 1.3. Experiência crucial de Newton do duplo prisma.
Fonte: http://brizhell.org/Newton_Speckles/Opticks%20-%20scan%20from%20original%20
manuscript%20-%20I.%20Newton.pdf



A teoria corpuscular da luz foi contraditada por grandes sábios da época como o inglês Robert Hooke (1635–1703), que escreveu a Newton apontando inconsistências à teoria newtoniana. Foi numa resposta que Newton escreveu a sua famosa frase: «Se consegui ver mais longe foi porque estava aos ombros de gigantes.» Os historiadores de ciência ainda hoje não sabem se era uma bela metáfora sobre a construção da ciência ou se era antes um dito perjorativo, dada a pequena estatura de Hooke. Descartes, por exemplo, era mais alto que Hooke e Newton ter-se-á baseado mais em Descartes do que em Hooke. A autoridade de Newton, que foi durante muitos anos Presidente da Royal Society, parecia ter imposto de início o conceito corpuscular de luz, mas o fenómeno da difração observado precisamente no mesmo ano de 1665 das primeiras experiências óticas de Newton (o seu livro Optics só seria publicado em 1707, após a morte do seu rival Hooke), por um padre jesuíta de Bolonha, o italiano Francesco Grimaldi (1618–1663), encerrava uma crítica muito forte à teoria de Newton. A difração consiste no espalhamento da luz quando ela passa por um pequeno orifício. Ora o projétil iria simplesmente a direito, mas a luz, como é próprio de uma onda, espalha-se nessa circunstância em todas as direções.

No arco-íris todas as cores, porque se veem, referem-se à luz dita visível. Sabemos hoje que essa banda de luz visível é apenas uma pequena parte de todo o espectro de luz, a que hoje chamamos espectro eletromagnético.

A diferença entre os vários tipos de luz do espectro pode exprimir-se pelo comprimento de onda. A primeira luz invisível foi descoberta por um astrónomo alemão que trabalhou na Inglaterra, William Herschel (1738–1822). No ano de 1800, quando estava a realizar uma experiência análoga à de Newton, notou que um termómetro colocado perto da região vermelha do ecrã assinalava uma apreciável subida de temperatura (Figura 1.4.).

Figura 1.4. Experiência de Herschel que levou à descoberta dos infravermelhos.
Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:William_Herschel%27s_experiment.gif.


Havia pois uma forma de luz ou radiação que, apesar de invisível, tinha propriedades térmicas. Tratou-se da descoberta da luz infravermelha, a primeira forma de luz invisível. A tentação de medir do outro lado do espectro, perto do violeta, foi imediata, mas nada de semelhante foi encontrado. Contudo, não demorou mais de um ano até que um químico alemão, Johann Ritter (1776–1810), que tinha ouvido falar da descoberta de Herschel, descobrisse que, do outro lado da banda visível, perto do violeta, se encontrava uma outra radiação invisível. Sabendo que o cloreto de prata era particularmente sensível à luz azul, ficando preto, Ritter experimentou colocá-lo num alvo perto da cor violeta do espectro: observou que ele ficava ainda mais preto. Ritter chamou a esta nova forma de luz raios químicos, mas raios ultravioletas foi o nome que acabou por vingar. O cloreto de prata ainda hoje é usado no papel fotográfico.

Sabemos atualmente que vemos luz visível e não infravermelhos (alguns répteis veem infravermelho) ou ultravioletas (as abelhas veem ultravioleta) devido simplesmente ao fenómeno de adaptação darwiniana. Os seres humanos, ao longo do lento processo da evolução biológica, adaptaram-se a ver melhor a luz que o Sol envia em maior abundância. A nossa estrela emite luz de todos os comprimentos de onda, mas tem um pico bem mais pronunciado para os comprimentos de onda da luz visível.

Hoje conhecemos outras radiações invisíveis emitidas pelo Sol, os raios X e os raios gama, mas essas radiações invísiveis perigosas do chamado espectro eletromagnético são absorvidas pela atmosfera, que funciona como um escudo protetor da vida. O Sol visto do espaço, por exemplo da Estação Espacial Internacional, é branco, pois todas as cores do arco-íris se encontram misturadas, mas, visto da Terra, aparece-nos com uma cor amarelo-alaranjado, devido à presença da atmosfera que capta alguma luz colorida.

Uma teoria que concorreu com a teoria corpuscular da luz de Newton foi a teoria ondulatória do físico holandês Christiaan Huygens (1629–1695). No seu livro Traité de la Lumière, publicado em Leyden, em 1678, ele avançou a ideia de que a luz se propaga na forma de ondas (Figura 1.5.).

Figura 1.5. Traité de la Lumière de Huygens, que apresenta a teoria ondulatória da luz.
Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Treatise_on_Light#/media/File:Web_Huygens690.jpg.


Tanto a reflexão como a refração podem ser explicadas por ondas, assim como as duas são explicadas por partículas. Mas, na verdade, ondas são muito diferentes de partículas: uma partícula está num sítio enquanto uma onda está em todo o lado. Por outro lado, as ondas interferem umas com as outras, podendo mesmo duas ondas sobrepor-se de modo a anularem-se completamente. No entanto, duas partículas que colidem nunca se podem anular. Apesar das observações do Padre Grimaldi e de outras em favor da descrição ondulatória, dada a autoridade de Newton, só no início do século xix a teoria newtoniana viria a ser descartada. Uma experiência com passagem de luz por dois orifícios efetuada em 1803 (três anos após a experiência de Herschel e dois da de Ritter), pelo médico e polímato inglês Thomas Young (1773–1829) mostrou, sem apelo nem agravo, que a luz era um fenómeno ondulatório. Verificava-se não apenas difração em cada orifício, mas também interferência — isto é, sobreposição construtiva ou destrutiva — da luz que provinha das duas aberturas (Figura 1.6.). Num ecrã verificavam-se franjas de luz e sombra.

Figura 1.6. Experiência de Young das duas fendas que mostra dois fenómenos ondulatórios: difração e interferência.
Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Young_Diffraction.png.


Pouco depois era feita uma experiência com muitos orifícios, um efeito conseguido por uma rede, dita de difração. O alemão Joseph von Fraunhofer (1787–1826) ficou conhecido pelas suas experiências realizadas em 1814 da observação da luz solar com a ajuda de uma rede de difração.

Com essa rede consegue-se o mesmo efeito que com um prisma. Fraunhofer teve o mérito de, com a ajuda do novo instrumento (o telescópio associado à rede de difração), ter inaugurado um novo ramo da física e da química, a espectroscopia, que permite identificar substâncias químicas. Fraunhofer observou riscas no espectro da luz do Sol, que revelavam a presença de elementos químicos no Sol, o mais importante dos quais era o hidrogénio, o primeiro elemento da Tabela Periódica, que também existe na Terra (por exemplo, na água, combinado com o oxigénio para formar as moléculas H2O). Foi graças à espectroscopia que, no século xix, se descobriu no Sol o segundo elemento da Tabela Periódica, o hélio (este nome vem precisamente da palavra grega para Sol).

Fez em 2015, Ano Internacional da Luz, 200 anos que o físico francês Augustin-Jean Fresnel (1788–1827) descreveu matematicamente as ondas de luz, que se manifestavam na experiência de Grimaldi ou na de Young. Um seu contemporâneo, o francês Siméon Poisson (1781–1840), duvidou dessa teoria, por ela prever, por interferência construtiva, a observação de um ponto luminoso na sombra que se forma por detrás de um pequeno objeto esférico opaco, como a cabeça de um alfinete. O presidente da Academia Francesa, François Arago (1786–1853) fez o que se deve fazer em polémicas semelhantes: mandou que se realizasse cuidadosamente a experiência, que foi conclusiva. O ponto existia mesmo e é uma ironia da história que ele tenha o nome da pessoa que duvidou da sua existência: «Ponto de Poisson».

Na mesma época fizeram-se progressos enormes na determinação da velocidade da luz. Já se conhecia, pelas observações do dinamarquês Ole Rømer (1644–1710) e do britânico James Bradley (1693–1762), o valor aproximado dessa velocidade a partir de fenómenos astronómicos (cerca de 300.000 km/s), mas só a meio do século xix foi possível medir num laboratório terrestre a velocidade da luz. As experiências dos franceses Hippolyte Fizeau (1819–1896) e Léon Foucault (1819–1868), realizadas por volta de 1850 (os dois trabalharam primeiro em conjunto e depois separadamente, usando espelhos rotativos, que desviavam a luz de um espelho fixo para sítios diferentes), mostraram que a luz é mais lenta na água do que no ar, ao contrário do que a teoria corpuscular previa. Era o último prego no caixão da teoria ondulatória de Newton…

Mas uma onda é a propagação de uma perturbação qualquer. O que seria no caso? Fez exatamente 150 anos no Ano Internacional da Luz que o físico escocês James Clerk Maxwell (1831–1879), num golpe de génio, conseguiu descrever todos os fenómenos elétricos e magnéticos. Ficou então claro o que era a luz. As forças elétricas e magnéticas exercidas à distância podiam, conforme tinha sugerido o inglês Michael Faraday (1791–1867) ser descritas pelo conceito de campo: ora a luz não passava, depois de combinadas as quatro equações de Maxwell do eletromagnetismo (Figura 1.10.), da propagação de perturbações dos campos elétrico e magnético, que neste contexto aparecem sempre associados um ao outro.

Mas uma onda é a propagação de uma perturbação qualquer. O que seria no caso? Fez exatamente 150 anos no Ano Internacional da Luz que o físico escocês James Clerk Maxwell (1831–1879), num golpe de génio, conseguiu descrever todos os fenómenos elétricos e magnéticos. Ficou então claro o que era a luz. As forças elétricas e magnéticas exercidas à distância podiam, conforme tinha sugerido o inglês Michael Faraday (1791–1867) ser descritas pelo conceito de campo: ora a luz não passava, depois de combinadas as quatro equações de Maxwell do eletromagnetismo (Figura 1.10.), da propagação de perturbações dos campos elétrico e magnético, que neste contexto aparecem sempre associados um ao outro.

𝛁.𝑬=𝜌 /𝜀o
𝛁.𝑩=0
𝛁𝑥𝑬=−𝜕𝑩/𝜕t
𝛁𝑥𝑩=𝜇o 𝑱 + 𝜇o 𝜀o 𝜕𝑬/𝜕t

Figura 1.7. As quatro equações de Maxwell.


Cargas em movimento causam não só um campo elétrico mas também um campo magnético, que lhe é perpendicular. A luz era nada mais, nada menos do que onda eletromagnética, isto é, campos elétricos e magnéticos que vibram no espaço, avançando à velocidade da luz. No tempo de Maxwell pensava-se que tinha de haver um meio a suportar os campos — o éter — mas hoje sabemos que não existe éter e que as variações de campo se podem propagar no vazio. Essencial no raciocínio de Maxwell foi verificar que a velocidade das ondas eletromagnéticas, calculada a partir de propriedades elétricas e magnéticas, coincidia com a velocidade da luz determinada por Fizeau.

A unificação, conseguida por via matemática, por Maxwell da eletricidade e do magnetismo foi um dos maiores feitos da física. E a confirmação teórica da natureza ondulatória da luz foi um dos seus grandes corolários. A ótica passou a ser uma consequência do eletromagnetismo. Comentou muito mais tarde o Prémio Nobel da Física Richard Feynman (1918–1988):

Numa visão de longo prazo da história da humanidade, visto de, digamos, daqui a dez mil anos, não pode haver qualquer dúvida de que o acontecimento mais significativo do século xix será a descoberta das leis do electromagnetismo de Maxwell.


A teoria de Maxwell previa a existência de outras formas de luz invisível para além dos infravermelhos e dos ultravioletas. Bastava para as conseguir agitar cargas elétricas de modo adequado num dispositivo que hoje chamamos antena. Essa luz invisível poderia fazer agitar cargas numa outra antena mais à frente. Em 1886, o físico alemão Heinrich Hertz (1857–1894) mostrou, no seu laboratório, que era possível emitir e recolher luz invisível de comprimento de onda muito maior do que os da luz visível.

Essas ondas foram chamadas ondas hertzianas ou ondas de rádio. A sua diferença relativamente à luz visível consistia no facto de ter muito maior comprimento de onda. Parecia agora que a teoria corpuscular de Newton estava morta e enterrada. A ciência de Hertz rapidamente se tornou em tecnologia, quando o italiano Guglielmo Marconi (1874–1937) conseguiu estabelecer comunicações de longa distância usando as ondas hertzianas. O mundo passou a estar ligado à velocidade da luz.

O século xix, que foi o século da descoberta das radiações invisíveis, não haveria de terminar sem que fossem encontradas duas novas formas de luz, radiação de comprimento de onda mais curto e com maior poder energético: os raios X e os raios gama. Em 1895 o alemão Wilhelm Roentgen (1845–1923) realizava experiências de raios catódicos (que sabemos hoje serem feixes eletrónicos), que são descargas elétricas num tubo de gás.

Descobriu, ficando justamente alvoroçado, que placas fotográficas que se encontravam, convenientemente protegidas, no escuro ficavam impressionadas por uma radiação misteriosa que provinha do choque dos raios catódicos com o vidro. Passaram a ser chamados raios X, embora na Alemanha ainda hoje se chamem raios de Roentgen («Röentgenstrahlung»). Como é que eles tinham impressionado as chapas protegidas? Acontece que os raios X têm a fantástica propriedade de atravessar os corpos opacos. É essa propriedade que permitiu rapidamente o seu uso para a visualização do interior do corpo humano. Roentgen interpôs a mão da sua esposa entre o tubo e a placa e nesta logo apareceram os ossos da mão: o marido estava surpreendentemente a ver o interior da sua mulher! A descoberta dos raios X valeu a Roentgen, em 1901, o primeiro Prémio Nobel da Física.

É curioso referir que o único Prémio Nobel português em ciências, António Egas Moniz, iniciou a sua familiariação com a ciência vendo raios X. No início do ano de 1896 era ele estudante de Medicina em Coimbra quando teve a oportunidade de colaborar com o seu professor de Física, Henrique Teixeira Bastos, na primeira reprodução em Portugal das experiências de raios X, passados dois escassos meses da descoberta daqueles raios por Wilhelm Roentgen na Alemanha. Escreveu ele muitos anos mais tarde sobre as suas experiências com os raios X:

O facto era conhecido, mesmo no vivo, pois nenhuma descoberta teve até hoje aplicação mais rápida e imediata que a de Roentgen. Em Coimbra, porém, não se tinha feito e lembro-me da alegria que tal acontecimento determinou na minha vida.


Os últimos raios invisíveis vieram do núcleo atómico, embora nessa altura este ainda não fosse conhecido. Em 1900, o francês Paul Villard (1860–1934) detetou uma radiação nuclear, proveniente do rádio, um novo elemento químico que tinha sido identificado pouco antes por Marie Curie, mais conhecida por Madame Curie (1867–1934), em trabalhos que acabaram por lhe valer dois prémios Nobel: um da Física em 1913 com o marido, Pierre Curie (1859–1906), e com o descobridor da radioatividade, Antoine-Henri Becquerel (1852–1908), e outro da Química, sozinha, em 1911. Ainda hoje Madame Curie é a única pessoa que recebeu dois prémios Nobel em duas áreas científicas distintas.

Hoje em dia usamos os infravermelhos, para além dos comandos de televisão, em câmaras que servem para ver no escuro, em termómetros, na análise de obras de arte, em lâmpadas para aquecer os alimentos, etc. Por seu lado, usamos os ultravioletas, para além da fotografia, na deteção de notas falsas, na impressão de circuitos digitais, na esterilização e desinfeção, em certas formas de terapia dermatológica, etc. As ondas de rádio, tal como as micro-ondas podem ser vistas como ondas com comprimentos de onda inferiores a um metro e maiores do que um milímetro. Os raios X são usados em medicina, para diagnóstico e tratamento, nos aeroportos para inspeção de bagagens, no exame de obras de arte, em astronomia (com os detetores a bordo de satélites), etc. Finalmente, os raios gama são usados para tratamentos médicos, para esterilizações, também em astronomia como os raios X, etc.

Se o século xix foi o século do eletromagnetismo e dos raios invisíveis, o século xx seria o século da teoria dos átomos e da luz: a teoria quântica, que explica a interação entre os átomos e a luz. Em 1900, o alemão Max Planck (1858–1947) avançava com a extraordinária hipótese quântica para explicar o «problema do corpo negro» (Figura 1.8.): a radiação existente num forno (um espaço com paredes a uma temperatura uniforme, que ficou conhecida por corpo negro) tinha de ser emitida e absorvida pelas paredes do forno em pacotes, a fim de se descrever matematicamente a distribuição da potência de luz irradiada por toda a banda de comprimentos de onda, visível e invisível (já atrás se referiu o exemplo da luz emitida pelo Sol, que um tanto paradoxalmente pode ser considerado um corpo negro). A ideia era algo extravagante pois até aí pensava-se que a luz podia ser emitida ou absorvida em qualquer quantidade de energia. Os quanta são os pacotes de luz, sendo quanta o plural de quantum, que significa em latim «quantidade».

Figura 1.8. Descrição matemática feita por Planck da radiação do corpo negro.
Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Radia%C3%A7%C3%A3o_espectral.png.


Demorou apenas cinco anos até que o físico suíço nascido na Alemanha Albert Einstein (1879–1955) afirmasse que a luz não só era emitida e absorvida em pacotes como existia em pacotes. Ao tentar interpretar um outro fenómeno estudado no laboratório por Hertz, sem qualquer relação direta com as ondas hertzianas, chegou à conclusão de que a luz é afinal formada por partículas. O fenómeno era o chamado «efeito fotoelétrico». Luz ultavioleta, ao incidir numa placa metálica, conseguia arrancar eletrões, que percorriam um circuito fechado: de certo modo, a energia luminosa era convertida em energia elétrica (Figura 1.9.). O choque da luz com os eletrões só podia ser explicado pensando que um grão de luz batia num eletrão. Não interessava tanto a intensidade da luz mas mais o comprimento de onda da luz. Não foi Einstein quem chamou fotões a esses grãos, mas sim mais tarde o químico norte-americano Gilbert Lewis (1875–1946). Einstein chamou-lhes, em alemão, Lichtquanta («quantidades de luz»). Ele foi mais longe que Planck ao afirmar que a luz não só era emitida e absorvida em pacotes, mas também existia em pacotes, ou pelo menos manifestava-se em pacotes noutras circunstâncias, designadamente quando interagia em certas condições com eletrões. Einstein ganhou o Prémio Nobel da Física de 1921 devido a essa sua hipótese e não à sua teoria da relatividade, que parte de uma ideia sobre a luz: a invariância da velocidade da luz para todos os observadores. Einstein estava certo quanto à nova natureza cospuscular da luz e agora só faltava conciliar melhor os aparentemente opostos, isto é, desenvolver uma teoria consistente que permitisse explicar o caráter dual da luz.


Figura 1.9. Efeito fotoelétrico, interpretado por Einstein.
Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Photoelectric_effect.svg.



A teoria iniciada por Planck e Einstein acabou por fazer o seu caminho.

O dinamarquês Niels Bohr (1885–1962) deu um grande passo em frente quando propôs que os átomos só podiam emitir ou absorver luz de alguns comprimentos de onda: a emissão ou absorção de fotões dá-se, respetivamente, quando um átomo passa de um estado excitado para um estado de energia mais baixa ou ao contrário (Figura 1.10.). Conseguiu assim descrever a emissão e absorção de luz por um átomo de hidrogénio e, embora de forma aproximada, de hélio, dando uma base teórica às observações espectroscópicas que vinham do século xix.


Figura 1.10. Modelo do átomo de Bohr.
Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Bohr_atom_model.svg.



A teoria continuou com a ideia do francês Louis de Broglie (1892–1987), avançada na sua tese doutoral de 1924, da dualidade onda-corpúsculo: tal como a luz, uma partícula material como um eletrão podia ser vista quer como partícula quer como onda. A experiência de Young foi realizada em 1961 com eletrões, confirmando a ideia de Broglie: já foi chamada pela revista Physics World «a mais bela experiência de Física».

A teoria quântica acabaria por ficar praticamente pronta em 1926, com artigos no mesmo ano do alemão Werner Heisenberg (1901–1976) e do austríaco Erwin Schroedinger (1887–1961). Os dois usaram técnicas matemáticas diferentes — respetivamente matrizes e uma equação diferencial — mas as descrições conduziam aos mesmos resultados, reproduzindo os resultados mais importantes obtidos por Bohr para os estados possíveis do átomo de hidrogénio. A teoria quântica permite-nos hoje descever a luz e a interação da luz com a matéria. Pode parecer esquizofrénico, mas a luz é, por vezes, partícula — o fotão — e, por vezes, onda. Tudo depende do dispositivo e do modo de observação.

A experiência de duas fendas, realizada em primeiro lugar por Young, pode hoje ser realizada num laboratório escolar com uma fonte laser (o laser, um feixe de luz coerente e monocromática, é uma outra ideia luminosa de Einstein!) de fraca intensidade, que emite fotões um a um. Se esperarmos o tempo suficiente conseguimos detetar, usando aparelhos chamados fotomultiplicadores, que convertem luz em corrente elétrica (um processo algo semelhante ao que se passa com os cones na nossa retina), a chegada dos fotões, um a um, sobre um ecrã, afastado dos dois orifícios. Verificamos que, em cada posição do ecrã, a luz só chega num número inteiro que é o número de fotões, isto é, a distribuição de luz que parecia contínua é afinal discreta. A teoria quântica permite prever o padrão de luz e sombra, a figura de interferência, mas — estranhamente — já não permite prever deterministicamente quando chega um eletrão a um certo sítio. Só permite prever probabilidades. Por que orifício passa a luz? Temos de dizer que passa pelos dois, embora seja emitida e recolhida sob a forma de fotões. Se pretendermos averiguar a passagem de luz num certo orifício, destrói-se com a medida o padrão de interferência, isto é, a coisa observada depende do procedimento do observador. Para Feynman o fenómeno patente na experiência de dupla fenda é «impossível de explicar de um modo clássico, tendo nele o coração da teoria quântica. Na verdade contém o único mistério [dessa teoria]» 2 (Feynman, Leighton, & Sands, 2005).

A luz tem, portanto, duas caras: tanto aparece na forma de partícula como na forma de onda. Newton e Einstein têm razão. Como também a têm Huygens, Fresnel e Maxwell. Uma maneira de descrever esse seu comportamento dual consiste em dizer que viaja como uma onda mas é observada como uma partícula ou grão de luz. A teoria quântica permite conciliar esses dois aspetos aparentemente contrários, pois uma onda está espalhada por todo o lado ao passo que uma partícula está localizada num ponto do espaço. Não se olha: é onda. Mas se olha, então já é partícula.

O físico português José Tito de Mendonça, no seu livro Uma biografia da luz. Ou a triste história do fotão cansado fala assim da estranha natureza da luz: «Há nomes de pessoas que são estereótipos de esquizofrenia: Ortega y Gasset, Costa e Silva, Cotton-Mouton ou Cohen-Tannoudji, o sábio de Tunes. Dois personagens numa só pessoa. O mesmo dilema se encontra na luz, que não sabe se é onda ou se é partícula. E tem que ser as duas coisas ao mesmo tempo.» (2015).

A eletrodinâmica quântica (QED, do inglês Quantum Electrodynamics) que valeu em 1965 o Nobel a Richard Feynman, ao norte-americano Julian Schwinger (1918–1994) e ao japonês Schin’ichiró Tomonaga (1906–1979), que reúne coerentemente a teoria quântica com a teoria da relatividade restrita de Einstein para explicar a interação entre eletrões e luz que se realiza nos átomos e moléculas, é hoje uma coroa de glória da física mais moderna. Ela, para além de proporcionar compreensão aprofundada do dualismo corpúsculo-onda através do conceito de campo quântico, consegue fazer previsões com uma precisão extraordinária. Estamos longe de saber tudo sobre a luz, mas sabemos bastante.

Notas:

1 Tradução livre do autor. No original, «if learning the truth is his goal, is to make himself an enemy of all that he reads» (Sabra, 2003, para. 7).
2 Tradução livre do autor.

Referências

Calado, J. (2015). Haja Luz! Uma história da química através de tudo (3.ª ed.). Lisboa: ISTPress.
Feynman, R. (2015). QED - A estranha teoria da Luz e da matéria, Lisboa: Gradiva.
Feynman, R., Leighton, R. B., & Sands, M. (2005). The Feynman Lectures on Physics (2.ª ed.). Boston, Massachusetts, EUA: Addison-Wesley.
Mendonça, J. T. de (2015). Uma biografia da luz. Ou a triste história do fotão cansado. Lisboa: Gradiva.
Simonyi, K. (1990). Kulturgeschischte der Physik, Thun_Frankfurt am Main: Harri Deutsch.
Sabra, A. I. (2003, Sep.-Oct.). Ibn al-Haytham. Harvard Magazine. Consultado em 1 de out. 2015. Disponível em https://harvardmagazine.com/2003/09/ibn-al-haytham-html.
Weiss, R. J. (1996). A Brief History of Light and those that lit the way. Singapore: World Scientific.

HISTORIOGRAFIA ANTIJESUÍTICA EM PORTUGAL ANTES DA RESTAURAÇÃO DA COMPANHIA DE JESUS



Texto de José Eduardo Franco e meu, que constitui um dos capítulos do livro (com excelente design das Edições Esgotadas) FRANCO, José Eduardo ; VENTURA, Ricardo, coords. - A Sombra dos Demónios. Para uma história da cultura em negativo. Vol. 0 do Dicionário dos Antis. Lisboa: Edições Esgotadas, 2020, ISBN 9789899015050, p. 93-106.

        A história da Companhia de Jesus (doravante Companhia) está ligada à História de Portugal dos últimos 500 anos. Portugal foi a primeira monarquia a acolher e a patrocinar, através do Rei D. João III, a novíssima Ordem de Santo Inácio. Em terras lusitanas a Companhia encontrou espaço para uma afirmação fulgurante. Aqui se fundou a primeira província da Ordem em 1546 e no padroado português, espalhado por quatro continentes, multiplicaram-se as suas obras com a rápida criação de dezenas de colégios e missões. A Companhia tornou-se a ordem religiosa mais influente na corte e na alta nobreza, passando a fornecer confessores e conselheiros à família real e às famílias mais poderosas. Mas, por ironia da história, também foi a monarquia portuguesa que, em 1759, pela mão do Marquês de Pombal, iniciou a sequência de expulsões dos Jesuítas que culminariam na sua extinção universal pelo Papa Clemente XIV em 1773.

        Os Jesuítas atraíram desde cedo admiradores incondicionais; mas, por outro lado, o seu fulgurante sucesso gerou uma corrente de adversários que viam na ação da Companhia um factor de atraso e de ruína do país. Esta relação de amor-ódio reflecte-se na historiografia. Até ao século XX, é dificil encontrar avaliações equilibradas ou moderadas sobre o legado dos Jesuítas. Se quisermos hoje estudar a Companhia, necessitamos de realizar dois auto-exorcismos: o do demónio do encantamento pela organização, eficácia e obra dos Jesuítas, impingido pelos livros filojesuíticos, e o do demónio da acusação da sua ação perversa, inculcado pelos mananciais de literatura anti-jesuítica que deixaram estereótipos na cultura lusitana. É necessária uma ascese intelectual para abrir caminho a uma história crítica que nos distancie da história partidária ou história tribunal, que dividiu a historiografia portuguesa desde o Marquês de Pombal até ao século XX.[1]

        O mito jesuíta tornou-se um dos mais significativos da cultura portuguesa, congénere do mito internacional. Os seus primeiros mentores foram eclesiásticos. No Iluminismo, a tradição antijesuítica foi desenvolvida empenhadamente pelos adversários regalistas da supremacia do poder papal, para, depois, no Liberalismo e no Republicanismo, ser herdada pelas elites culturais de filiação laica e anticlerical. Nas bibliotecas e arquivos portugueses e estrangeiros, encontramos mananciais de documentação antijesuítica. A grande dificuldade está em traçar a fronteira entre o que é história e o que é literatura, pois há obras que se apresentam como de investigação histórica, mas que não passam de ficção.

        O mito negativo criado pela documentação antijesuítica inscreve-se no género mais amplos dos mitos conspiracionistas (v.g., complots templário, judeu, maçónico), desenvolve uma figuração do jesuíta como o Outro, não um estrangeiro normal, mas alguém alheio a qualquer fidelidade a não ser à sua instituição, considerada uma "máquina" geradora da ruína das nações. que visaria instalar o domínio universal da Companhia. O mito da conspiração, multipresente nas sociedades ocidentais, é um sistema de interpretação da história, no quadro do qual esta se reduz a um só princípio explicativo [2]. O mito antijesuíta, assente no receio de uma poderosa instituição de obediência ultramontana, teve em Portugal como fundador Sebastião José de Carvalho e Melo, Marquês de Pombal (doravante Pombal). Ele forjou nos seus catecismos antijesuíticos a imagem negra dos Jesuítas, dados como conspiradores. Pombal investiu na tradução desses livros nas principais línguas a fim de propagar às monarquias europeias a sua campanha contra a instituição que ele via como uma doença contagiosa corruptora da sociedade. Chamamos antijesuitismo pombalino à corrente de pensamento e de acção política que levou ao combate a uma instituição considerada chave da leitura histórica do reino.

         Na abundante literatura antijesuítica portuguesa encontram-se tratados históricos, romances, pareceres governamentais, relatórios, narrações de viagens, leis estatais, representações dos povos, tratados apologéticos, polémicas, compilações e recompilações, catecismos, tratados teológicos, sátiras, poesias, tratados jurídicos, teses académicas, editais, pastorais, sermões, programas partidários, folhetos de propaganda, conferências, crónicas jornalísticas, peças teatrais, cantigas, anedotas, orações, gravuras,caricaturas, etc. Este conjunto está marcado psicologicamente pela fobia e socialmente pelo combate contra um inimigo que se imagina em todo o lado. A posterior escola antijesuíta reeditou as teses pombalinas, enriquecendo-as com adaptações e acrescentos. Ela foi, como é natural, objecto de um forte contra-ataque dos Jesuítas. Os historiadores da Companhia elaboraram um conjunto de obras onde arrolaram documentação para desautorizar a visão oposta. Esta historiografia, que corrige muitos erros históricos dos adversários, não se exime, porém, de uma marca filojesuítica. Nelas a imagem negra da Companhia é interpretada como lenda e não como mito. A análise da imagem antijesuítica como mito é, porém, mais adequada ao seu entendimento. O estudo na perspectiva lendária torna toda a campanha antijesuítica um mero processo de falsificação, prestando-se à instrumentalização típica da história tribunal. O entendimento da imagem dos Jesuítas como mito leva-nos à compreensão do significado histórico de uma desfocagem, valorizando menos a destrinça entre o verdadeiro e o falso do que a função sociopolítica e cultural do processo de mitificação.

        A importância do mito de complot jesuítico de matriz pombalina está menos no facto de ter criado uma imagiologia mítica como construção teórica, mas mais em ter, pela força desse mito, urdido uma mentalidade antijesuítica, que reagia contra os sinais, configurações e modelos condenados por essa matriz mítica. A cultura e mentalidade antijesuíticas passaram a disseminar-se cada vez mais nas elites que lutavam contra o statu quo. Essas correntes usavam os clichés oferecidos pelo mito jesuíta, contra o regresso dos Jesuítas, ou contra manifestações da velha ordem social. O mito do jesuitismo tendeu a estilizar-se, sedimentando-se culturalmente, como explicação de um mal simplificado, determinando uma forma de reagir contra um adversário temido[3].

        Embora tenha herdado uma tradição antijesuítica, Pombal inaugurou um tempo novo ao criar uma escola ideológica. Reelaborou essa tradição, dando-lhe coesão e conteúdo para justificar as medidas de combate à Companhia. O seu esforço de estruturação exaustiva de uma visão destes religiosos, condensado em obras paradigmáticas, confere-lhe o estatuto de pai do mito dos Jesuítas. O jesuitismo, entendido como uma filosofia de acção, explicava tudo o que de negativo tinha acontecido no país desde a entrada da Companhia em Portugal. O antijesuitismo, com Pombal, deixa de ser um conjunto de manifestações esparsas, que careciam de unidade doutrinal e de eficácia. Agora, o mito, com toda a sua força simbólica e mobilizadora, emerge como um modelo explicativo global. Ele instaura uma leitura do passado que justifica as reformas do absolutismo iluminado. O mito cinzelado pelo poderoso ministro de D. José sustenta e orienta o programa político do governo.

        Pombal tornou-se uma das personagens mais controversas da história portuguesa em boa parte pela perseguição que moveu aos Jesuítas e, ligada a esta, pelo desenvolvimento de uma política regalista que conduziu à subalternização da Igreja em relação ao Estado. As explicações unilaterais dividiram, num passado não muito distante, os historiadores que se deixaram imbuir por visões ideologizadas. Os campos extremaram-se, vendo-se de um lado os autores simpatizantes do antijesuitismo a valorizarem Pombal e do outro os filojesuítas a criminalizá-lo[4]. Procuraremos desmontar o mito pombalino analisando o universo cultural, político e social, no qual ele foi construído, procurando descortinar o conjunto de motivações, oportunidades e necessidades que permitiram a emergência do complot jesuítico. Este processo ideológico. com consequências culturais de longa duração em Portugal, não pode ser visto como um mero resultado do mau carácter do ministro, mas sim, e acima de tudo, no contexto de um confronto de paradigmas culturais e políticos. O nosso fito hermenêutico será o de conhecer as motivações, compreender os problemas e analisar as soluções ensaiadas historicamente, de modo a contribuir para o cumprimento da função da História como alargamento do campo da consciência.

        Pombal sistematizou eficazmente o descontentamento em relação aos Jesuítas, surgido no Brasil. No longo reinado de D. João V, duas figuras contraminaram a influência dos Jesuítas na corte, caucionando os interesses dos colonos. Uma foi um antigo governador, Bernardo Pereira de Berredo, que desvalorizava os aborígenes. A outra foi Paulo da Silva Nunes, antigo colaborador de Berredo, que reclamou com veemência a secularização das missões. O conflito acabou por recrudescer na primeira metade do século XVIII. Um outro grande crítico dos Jesuítas foi Diogo de Conceição, que atacou, em 1738, numa petição ao monarca o sistema das missões jesuítas. Como solução reiterou a proposta de Silva Nunes de entrega das missões ao clero secular. Os Jesuítas contiveram a corrente que disputava o controlo das suas zonas de influência, mas não por muito tempo. Não conseguiram manter inclinado a seu favor o fiel da balança da corte, uma vez que os colonos acabaram por ver satisfeito o seu desejo de banir os Jesuítas. A desgraça dos Jesuítas que atingiu o seu cume com a expulsão pombalina foi o coroar de uma tendência que se vinha acentuando. O braço de ferro entre Jesuítas e colonos colocava em confronto o projecto dos colonos, que viam no esclavagismo o meio de viabilizar economicamente o território brasileiro, e os Jesuítas, que valorizavam as questões pastorais.

         A Companhia cedo percebeu que a missionação brasileira tinha contornos especiais: as comunidades locais exigiam uma estratégia de aproximação intercultural. Assim, a Companhia quis ir mais além do que o simples exercício do culto, em nome do seu programa de transformação dos homens e das sociedades. E, com o seu pragmatismo, concluiu que precisava do poder político e económico, enredando-se com isso em dilemas que os seus adversários exploraram. Não poucas vezes, para levar avante os seus projectos missionários, os Jesuítas tiveram que escolher entre expandir a missionação, o que implicava a aceitação de propriedades e a utilização de escravos, ou abdicar dessa expansão. Optaram pela via da actividade comercial de modo a sustentar a sua empresa religiosa. Seria difícil que a sua acção deixasse de incomodar uma vez que mexia com interesses no terreno. A questão económica esteve sempre no centro das controvérsias antijesuíticas no Brasil. As controvérsias de que os Jesuítas foram alvo no Brasil inocularam uma visão negativa da Companhia, que Pombal saberá usar como um espantalho para explicar os males do reino e do império.

        Para compreender o antijesuitismo de Pombal temos de olher para a dialéctica pombalismo-antipombalismo. Condicionadas pela campanha antijesuítica pombalina, muitos dos estudos sobre Pombal enfermam ideologicamente. Encontra-se tanto o maior elogio como a mais feroz crítica. Compreende-se, portanto, o pedido de Marc Bloch aos historiadores portugueses: «Pombalistas, antipombalistas, dizei-nos tão-somente quem foi Pombal»[5]. Este é um dos períodos mais marcado por «interpretações ideológicas da história», dividindo opiniões e perspectivas de recomposição do passado[6]. Devemos despir a roupagem ideológica e tentar desbravar as motivações profundas que permitam entender o mito criaado pelo pombalismo. Procuraremos fazê-lo num quadro de uma mudança da mentalidade política e social: é necessário discernir quais são «as forças sociais em presença», assim como «os meios disponíveis» e «os projectos que se desenvolviam»[7]. Além disso é necessário caracterizar a filosofia política que esteve na base da acção do Marquês.

        Não serão de desprezar as causas temperamentais da pertinácia persecutória do Marquês de Pombal. Como também não serão de desprezar as motivações económicas, dado que «a ordem inaciana possuía, em Portugal e seus domínios, grandes bens e «o erário régio encontrava-se carente, por vezes mesmo exausto e era necessário preenchê-lo»[8]. Mas o que legitima estas razões é o sistema político-ideológico que lhes subjaz e que é, aliás, alegado para justificar o programa de governo. Este ideário político exprimia-se na utopia pombalina: a reforma da nação portuguesa pelos padrões europeus, a fim de curar a frustação colectiva vinda após a gesta dos Descobrimentos. A Companhia foi elegida, no quadro deste ideário utópico-político, para ser a contra-utopia[9] explicativa, condensando a negatividade a combater. Mas este ideário utópico brota de uma teoria da natureza e do exercício do poder que orienta um projecto e uma prática política. Na questão do poder, ou melhor na razão política nas suas relações com o religioso, reside a chave para compreender o mito jesuíta.

    Obras do antijesuitismo pombalino 

        Diversos escritos se orientaram, sob o patrocínio de Pombal, para promover a política antijesuítica do Estado. Os enunciados do mito jesuíta estruturam as principais obras dessa literatura antijesuítica. Eles desdobram-se repetidamente [10], de forma quase invariável.

        Na documentação antijesuítica surgida sob a inspiração e supervisão de Pombal, sobressaem cinco obras que estabelecem o mito, apresentando o seu significado, enumerando os argumentos e definindo um estilo. Nelas se enunciam as razões do combate a uma ordem apresentada como detentora de um poder hiperbolizado, situada no lado negro da história. Todas elas são perpassadas pela obsessão antijesuítica que constitui os Jesuítas como a causa diabólica dos males nacionais. Estes libelos, que estruturam e sistematizam a doutrina na base do mito, têm todos o timbre de Pombal. O ministro tinha ao seu serviço uma equipa de intelectuais bem preparados, que muniram os seus livros com prolixa aparelhagem erudita, casuística e argumentativa, embora tivessem vindo a lume quer de forma anónima, quer com nome emprestado, quer ainda com autoria institucional, quer dizer, escondendo a influência do Marquês. Mas a unidade autoral que a unidade estilística e ideológica denuncia é confirmada por testemunhos históricos. Mesmo que Pombal não tivesse sido o redactor dessas obras, foi decerto o seu mentor, num serviço que para ele era de combate patriótico a um mal nacional. A retórica destinava-se a convencer os leitores da maldade dos Jesuítas, carregando-os com as cores mais negras.

    Relação abreviada


         A primeira obra fundadora do mito jesuíta pombalino foi um opúsculo publicado em 1757 no rescaldo da execução do Tratado dos Limites no Brasil: Relação abreviada da República que os Religiosos Jesuítas das Províncias de Portugal, e Espanha, estabeleceram nos Domínios Ultramarinos das duas Monarquias, e da guerra, que neles tem movido, e sustentado contra os Exercitos Hespanhoes, e Portugueses…[11]. Relata as obstruções levantadas pelos Jesuítas às comissões oficiais portuguesas e espanholas que realizavam no Brasil as demarcações fronteiriças. Surgiu em Lisboa, sem nome de autor, lugar e data, e sem as licenças das instituições censórias. A tiragem foi de 20.000 exemplares, o que significa na época uma divulgação maciça. Pombal enviou este libelo, que ficou conhecido por Relação abreviada, às maiores personalidades de Portugal, a fim de inculpar os Jesuítas do desastroso processo de demarcação das fronteiras e da reorganização dos seus aldeamentos missionários. Ordenou também a sua difusão pelos canais diplomáticos (o diplomata português na Santa Sé ofereceu-o ao Papa Bento XIV [12]). Depois de ter sido editada duas vezes em Lisboa, a Relação abreviada conheceu edições em francês, espanhol, alemão, italiano e latim, encontrando grande aceitação nos meios antijesuíticos europeus[13].
        
        A Relação abreviada é um relatório administrativo-militar sobre uma surpreendente descoberta feita no Brasil pelas comissões demarcatórias luso-espanholas. Os jesuítas teriam erguido uma república oculta e autónoma nos territórios missionários do Paraguai à revelia dos Estados ibéricos. Em anexo apresenta-se documentação alegadamente extraída da correspondência entre os comissários e os governos peninsulares, a qual pretende provar a narrativa. O seu conteúdo é tão curioso quanto fantástico pelo insólito da pretensa descoberta. De facto, não era novidade: reproduz o romance histórico forjado do rei Nicolau I do Paraguai que corria pela Europa[14]. Pombal inaugura assim uma campanha antijesuítica que começou a operar-se em várias frentes, na qual as medidas coactivas são subsidiadas por uma forte propaganda que extravasava o país. A Relação abreviada estabelece um dos elementos do mito de complot dos Jesuítas em Portugal: o seu projecto e um império de amplitude universal, cujo ponto de partida seria essa formidável República dos Guaranis. O empenho do governo de Pombal na divulgação do opúsculo denuncia claramente o seu autor. Tanto assim é que uma Carta Régia de 1759 confirma que o documento foi publicado por ordem do Rei, que tinha o seu ministro como mentor[15].

        A Relação abreviada inaugura o a gravidade dos juízos e o aparato retórico que marcaram a literatura antijesuítica. Torna-se uma peça-chave da campanha pombalina e uma referência incontornável da ideologia antijesuítica. O mito vai-se estender ao reino e à Europa, chegando mesmo aos cantos mais longínquos onde os Jesuítas tinham presença.

        Erros ímpios e sediciosos

        Em 1759, e na sequência da sentença proferida para condenar os presumíveis culpados do atentado ao Rei, de que os Jesuítas seriam os mentores, veio a lume novo opúsculo que denunciava as doutrinas da Companhia: Erros ímpios, e sediciosos que os Religiosos da Companhia de Jesus ensinarão aos Reos, que forão justiçados, e pretenderão Espalhar nos Póvos destes Reynos. Este pequeno texto, impresso em Lisboa por Miguel Rodrigues, tipógrafo do Cardeal Patriarca, circulou primeiro anónima e autonomamente e foi depois enviado, apenso à Carta régia de 1759, aos bispos da metrópole e do ultramar para que estes prevenissem os fiéis em relação às perniciosas doutrinas destes religiosos. O livro pretende transmitir uma imagem paradigmática do sistema moral dos Jesuítas. Pretende revelar os princípios que orientam as suas práticas e que teriam inspirado o atentado regicida.

        Neste documento são atribuídos aos jesuítas quatro conjuntos de erros sediciosos: a moral jesuítica é dada como uma forma refinada de maquiavelismo. O primeiro erro é a plausibilidade de, através de capciosos artifícios, se caluniar e difamar monarcas e governos para destruir a obra governativa. O segundo consiste em fundamentar homicídios em favor do interesse dos mandantes. Citam-se passagens de diversos teólogos que teriam pertencido à Companhia para demonstrar asserções desse erro. A possibilidade de usar mentiras para proteger a saúde, a honra e o património, constitui o terceiro erro imputado aos Jesuítas, fundamentado com citações de padresv dessa Ordem, as quais são colocadas em oposição teólogos e doutores da Igreja. O libelo completa-se com o quarto erro com base numa carta que um bispo antijesuíta espanhol teria dirigido em 1649 ao Papa. A Companhia é acusada de possuir uma dimensão secreta, orientada por «constituições particulares» e «ocultas», que é considerado ilegal e anticanónico. Nas «Instituições impenetráveis, e que esconde todo o mais que pertence ao seu governo, como se fosse um mistério», só um pequeno grupo de iniciados de entre os membros da Companhia têm acesso: congeminam-se aí os mais hediondos crimes e produzem os mais degradantes erros contra o Estado e a sociedade. Depois da denunciar a ilegalidade e imoralidade desta organização secreta, imputa aos iniciados a congeminação da monstruosa moral jesuítica e a sua concretização em Portugal no atentado regicida, naquele «horroríssimo insulto».

        Para fundamentar as acusações ao governo secreto da Companhia, o documento inspira-se num dos mais denegridores catecismos europeus escritos contra os Jesuítas no século anterior: os célebres Monita Secreta[16]. A Companhia é apresentada como uma organização críptica, cujos íntimos segredos só são acessíveis a iniciados. Denominar-se-iam a si próprios e aos não jesuítas de modo sugestivo: Os Jesuítas seriam os «Nossos» e os outros seriam os «Externos». Os Nossos estariam sempre em concorrência com os Externos, a fim de beneficiar a sua instituição. Também invoca uma série de autoridades antijesuíticas, para mostrar que os seus avisos e profecias eram exactos e que o governo português tinha desmascarado a já grave extensão do domínio jesuítico.

        Este libelo contra a moral e a organização dos Jesuítas assenta em ilações sem fundamento, tanto mais que uma parte dos autores que são alegados doutrinadores jesuítas não fizeram parte da Ordem. Ele exerceu, porém, forte influência na modelação da opinião eclesiástica e secular[17]. Os bispos extraíram daí a ideografia para armar a sua pregação e as suas pastorais.

        Dedução cronológica e analítica

        Os dois livros anteriores, publicados na primeira década do governo pombalino, foram na década seguinte incorporadas ou disseminadas[18] na volumosa obra que podemos considerar a bíblia do antijesuitismo pombalino: a Dedução cronológica e analítica. Este obra foi publicado pela primeira vez em três tomos, luxuosamente encadernados, em 1767 e 1768, sendo feita uma segunda impressão em cinco volumes em 1768, num total de 1387 páginas. Foi editada em Lisboa com «Privilégio Real» por Miguel Manescal da Costa, Impressor do Santo Ofício, sem problema de licença, pois o governo já controlava os organismos censórios. O subtítulo elucida o seu sentido: Na qual se manifesta pela sucessiva serie de cada hum dos Reynados da Monarquia Portuguesa, que decorrerão desde o governo do Senhor Rey D. João III até o presente, os horrorosos estragos, que a ‘Companhia’ denominada de ‘Jesus’ fez em Portugal, e todos seus Domínios por hum Plano, e systema por ella inalteravelmente seguido desde que entrou neste Reyno, até que delle foi proscripta, e expulsa pela justa, sabia, e providente Ley de 3 de Setembro de 1759. A obra era atribuída ao Doutor José de Seabra da Silva, Chanceler da Casa da Suplicação e Procurador da Coroa.

        A primeira parte analisa a história portuguesa nos últimos dois séculos, pretendendo provar que a decadência das instituições políticas do reino se devia aos Jesuítas. A segunda parte da obra é dedicada à acção nefasta dos Jesuítas no seio da Igreja, que teria conduzido esta a um estado de declínio: Na qual se manifesta o que sucessivamente passou nas diferentes épocas da Igreja sobre a censura, proibição e impressão de livros: demonstrando-se os intoleráveis prejuízo, que com o abuso dellas se tem feito à mesma Igreja de Deos, a todas as monarquias, a todos os Estados soberanos, e ao socego público de todo o universo. Descreve as perversões dos Jesuítas que poriam em causa a Igreja e reflecte o intento do ideário regalista de retirar prerrogativas à Igreja. O último tomo contém alegadas provas, englobando documentação diversa, recolhida, segundo é dito, nos Arquivos do Reino.

        Embora a obra ostente como autor Seabra da Silva, na realidade, a sua idealização e direcção foi de Pombal, provavelmente com a colaboração, além de Seabra da Silva, de Frei Manuel do Cenáculo e de António Pereira de Figueiredo. Tal conclusão é abonada por vários testemunhos, a começar pelo do próprio Seabra da Silva que era um das testas-de-ferro da política antijesuítica: Após ter sido exilado no Ultramar por Pombal, confessou não ter sido ele o autor, tendo sido antes mero colaborador[19]. A mesma autoria pombalina é reiterada numa carta do Pe. António Pereira de Figueiredo, outro colaborador íntimo e sempre fiel de Pombal, dirigida a um seu confrade oratoriano em Goa, em 1771[20] e o mesmo é confirmado por Frei Cenáculo no seu Diário[21]. E, se dúvidas houvesse, existe a prova paleográfica da autoria pombalina da obra que é dada pelo manuscrito original, que contém correcções e acrescentos escritos pelo próprio Pombal[22].

        A Dedução Cronológica conheceu em língua portuguesa duas impressões de milhares de exemplares entrados nos circuitos livreiros e enviados pelo Marquês às autoridades civis e religiosas do Reino e colónias. No plano internacional, foram feitas várias traduções e impressões integrais e parciais destes volumes, a expensas do governo português. Destaque-se a tradução em latim por Pereira de Figueiredo[23]. Em italiano conhecem-se duas edições feitas para encharcar os meios curiais das razões pombalinas[24]. Foram feitas ainda edições em francês[25], alemão[26] e espanhol[27].. Mas o mais espantoso foi a preocupação de Pombal em promover a tradução de um resumo em língua chinesa[28]. Nas traduções da Dedução Cronológica, os responsáveis tendem a apresentá-la como um modelo para os leitores se precaverem dos jesuítas, como afirma em prefácio o tradutor espanhol

        Este monumento da literatura antijesuítica, que já foi qualificada como a obra «peut-être le plus important de tous ceux qui ont été publiés contre la Compagnie de Jésus»[29] não pode ser desenquadrado da tensão que, ao longo da década de 60, se adensou entre Portugal e a Cúria Romana. Este desacordo subiu ao rubro com o defraudar das expectativas portuguesas ao saírem os breves filojesuíticos de Clemente XIII. A Dedução Cronológica pretendia legitimar, por um lado, a expulsão daquela Ordem de Portugal, que tinha sido seguida por outras monarquias e, por outro, mostrar, de forma exaustiva, as razões que tinham motivado tal medida de modo a inculcar a necessidade de lhe dar aplicação universal.
        
        A Dedução Cronológica é, entre as obras da literatura antijesuítica pombalina, aquela que, de forma mais extensiva e elaborada, sistematiza os vectores ideológicos do mito da Companhia. Escreve Borges de Macedo que «com a Dedução Cronológica inaugurou-se uma historiografia oficial abertamente partidária e que continuou até aos nossos dias»[30]. Reflectem-se, nestes volumes, as teses sobre a fundamentação e prática do absolutismo e regalismo. Esse manual do antijesuitismo português, onde se entrelaçam as fundamentações jurídica, canónica e histórica, é, acima de tudo, uma obra ideológico-política[31], que visa afirmar o poder supremo do Rei, que prevalece não só sobre a Igreja, mas também sobre a nobreza. Só a monarquia absoluta seria garante da restauração da dignidade do reino e da consumação da utopia das Luzes em Portugal, por contraste a um passado que se devia revogar. É uma obra arquitectada para advogar teses, perfilando dogmaticamente as conclusões mais coadunadas aos idealizados interesses do reino.

        Além do impacto que a obra teve na construção da imagem negativa dos Jesuítas, a sua influência transbordou a época. Não foi só a obra fundadora do mito jesuítico, mas também um modelo para o antijesuitismo pós-pombalino. Marca um ciclo novo, um ciclo anti-reaccionário, antiobscurantista, antiescolástico. No fundo, instaurará uma mundividência e uma historiografia. Aliás, em grande medida o antijesuitismo viverá da reverberação da Dedução Cronológica.

         Compêndio histórico

        O Marquês patrocinou e supervisionou uma obra essencial para a avaliação negativa da acção pedagógica dos Jesuítas desenvolvida a partir da Universidade de Coimbra: o Compendio historico do estado da universidade de Coimbra no tempo da invasão dos denominados jesuítas, saído em 1771[32]. O paradigma educativo que a reforma pombalina queria substituir é ali identificado com o jesuitismo pedagógico e este com a escolástica que teria feito mergulhar as letras e as ciências lusitanas numa escuridão que urgia desfazer por uma reforma radical. Nesse relatório são averiguadas as causas do declínio do ensino e da ciência naquela universidade, constituída como fonte da decadência no ensino em geral.

        O livro, de autoria colectiva, como o primeiro trabalho da Junta de Providência Literária, que tinha sido instituída pela Carta régia de 1770, imputa à orientação pedagógica da Companhia o desprestígio em que teria tombado a Universidade. A obra veio a público para apoiar o Estado na reforma universitária. O texto volume de quase 500 páginas relata os «estragos» e os «estratagemas» que os regulares inacianos teriam feito e usado desde o seu estabelecimento em Portugal[33]. Na primeira parte, faz-se a análise diacrónica da decadência do ensino universitário[34]. Na segunda, analisam-se os prejuízos nas várias cátedras e cursos. O esquema histórico-ideológico de análise é decalcado do da Dedução Cronológica. Além da perspectiva ser idêntica, idênticas são as conclusões, transitando até algumas passagens ipsis verbis. A obra apresenta um Apendix enumerando as «atrocidades» cometidas pelos Jesuítas.

        Na ideação deste relatório participaram alguns dos membros mais bem preparados da Junta, dirigida pelo Marquês: Frei Manuel do Cenáculo[35], da Ordem de São Francisco, Bispo de Beja e Presidente da Real Mesa Censória, Francisco de Lemos Pereira Coutinho, deputado da Inquisição e Reitor da Universidade de Coimbra desde 1770 e futuro Bispo de Zenópolis, e o Desembargador José de Seabra da Silva. A redacção do Apendix foi atribuída ao Pe. Pereira de Figueiredo, como este recorda em carta a Frei Cenáculo em 1774[36]. O título original era Appendix ao capítulo segundo da segunda parte para servir de supplemento ao sexto dos Estragos e Impedimentos que a Sociedade Jesuítica fez e acumulou para corromper e impossibilitar e estado da Jurisprudência canónica e civil com a introdução e propagação da Moral de Aristóteles[37]. Este trabalho, que circulou impresso separadamente[38], é quase uma cópia do libelo francês Assertions des Jésuites que apareceu em 1766 em Paris[39]. A versão de Figueiredo chegou a ser editada em latim com o patrocínio real, mas sem indicação de autor[40]. A obra apresenta-se como uma recolha de máximas que expressam as doutrinas atribuídas à cogitação maligna dos padres da Companhia. Não são citações de obras de Jesuítas, mas um sumário cujo conteúdo é acomodado para o fim de macular o património intelectual e científico dos professores da Companhia. O Appendix de Figueiredo está organizado em 22 atrocidades, acrescentando aos da obra similar francesa aquelas que teriam sido realizadas em Portugal: a Companhia teria instrumentalizado a confissão para conquistar professores e alunos para as suas doutrinas «mundanas, carnais e horrorosas» e, em Coimbra, teria havido imposição da ética e da metafísica de Aristóteles.

        A actuação pedagógica dos mestres jesuítas deturparia a moral cristã. A ruína da Universidade teria começado em 1598, quando saíram novos Estatutos, atribuídos aos Jesuítas. A fonte dessa ruína teria sido a opção pela moral de Aristóteles, «filósofo pagão», que teria pervertido a vida universitária e degradado as Letras e as Ciências. Isto concorda com o que vai ser dito nos novos Estatutos que foram também redigidos pela referida Junta[41] e editados no ano seguinte ao do Compêndio. Por isso, o Compêndio, o seu Appendix e os Estatutos formam um todo que marca uma nova etapa do ensino universitário em Portugal[42]. A ética de Aristóteles é classificada como «indigna das escolas cristã” e os Jesuítas tinham pretendido «corromper os espíritos de todo o universo para o dominar» [43]. Estes documentos imputam aos Jesuítas a total responsabilidade pelo ensino universitário até Pombal e fazem deles mentores e gestores desta instituição. No entanto, os Jesuítas só estivessem incumbidos das escolas menores, que funcionavam no Colégio das Artes.

         Regimento Pombalino da Inquisição

           O modelo do antijesuitismo pombalino também está patente no Regimento pombalino do Santo Ofício [44]. Inserido no programa de reforma da censura e do sistema de vigilância da ortodoxia religiosa e moral em Portugal, já encetada com a criação da Real Mesa Censória e completada com este último regimento da Inquisição, pretende colocar nas mãos do Estado estas poderosas instituições de controlo social.

        O Regimento é introduzido por uma instrução do cardeal Cunha, «Arcebispo de Évora, do Conselho de Estado e Gabinete d’El-Rei, Regedor das Justiças e Inquisidor Geral nestes Reinos e Senhorios de Portugal». O texto está organizado em três livros. O primeiro trata «dos ministros e oficiais do Santo Ofício e das coisas que nele há-de haver para expedição do seu ministério»; o segundo legisla a «forma e ordem por que hão-de ser processados os réus de delitos que pertencem ao conhecimento do Santo Ofício» e o terceiro estabelece uma tipologia criminológica e define as penalidades. A edição é completada com o Alvará Régio que aprova a nova legislação, seguido da promulgação como Lei de Pombal, corroborada por João Baptista de Araújo e José Basílio da Gama, a quem é atribuída a redacção[45]. De facto, este Regimento foi redigido sob os auspícios de Pombal[46] pelo brasileiro Basílio da Gama, autor do poema épico antijesuítico Uraguai. O documento é apresentado como necessário para limpar a má imagem que Portugal tinha na Europa, que o via como um país obscurantista subjugado pela Inquisição.

        No Regimento a Companhia é esvurmada, sendo-lhe atribuída toda a responsabilidade pela legislação e procedimentos que fizeram deste Tribunal um símbolo de terror. A história persecutória da Inquisição não teria sido mais do que um instrumento do jesuitismo para oprimir o país. O novo regimento deveria completar o projecto pombalino de iluminar o Reino e combater o «império das trevas» perpetrado pelos Jesuítas. Esta obra institui um dos temas do mito jesuíta: a íntima aliança entre Jesuítas e a Inquisição na demolição do prestígio nacional.

        Análise da literatura antijesuítica pombalina

         As peças da literatura pombalina caracterizam-se por um estilo que, juntamente com o modelo hermenêutico que instituem, se reproduz numa série de outros textos. O estilo é prolixo e monótono, recheado de uma adjectivação metaforizante, todo ele orientado para distinguir dois mundos irreconciliáveis: a luz e as trevas, o bem e o mal, a doença e a saúde[47]. A doutrina veiculada por essa literatura cinde maniqueisticamente um passado que se quer apagar de um futuro que se quer abrir. Produzidas no quadro do exacerbamento do absolutismo em Portugal, estas obras reflectem a crença de que o Estado está acima de qualquer crítica. Como obras estruturantes do mito dos Jesuítas, elas não só fundam um estilo literário como criam um esquema de interpretação que deveria orientar a leitura da realidade sócio-política, cultural, religiosa e educativa, apelando a um reformismo urgente, precisamente o oposto do jesuitismo. Havendo duas imagens oficiais em confronto, uma considerada a superação da outra, os Jesuítas teriam de ser o alvo cimeiro das reformas instituídas pela vontade iluminada do soberano e do seu ministro.

         O mito pombalino dos Jesuítas consubstancia-se numa leitura dogmática da história de Portugal. Transpõe-se para a história do Reino a acção nefasta dos Jesuítas iniciada no Brasil. É dada uma amplitude maior ao projecto secreto de dominação universal atribuído à Companhia, situando a sua génese nos primórdios da Ordem e atribuindo-lhe um crescendo até ao tempo das Luzes. A prossecução deste plano é apresentada como uma epopeia negativa por oposição à epopeia positiva que a nação portuguesa teria realizado até à chegada dos jesuítas[48]. A Relação abreviada pretendeu denunciar o avanço da concretização do dito plano jesuítico nos planos sócio-político e económico. Os Erros ímpios equiseram desvelar o esteio dos princípios teológico-morais na base da praxis da Companhia. A Dedução cronológica operacionaliza o conceito do complot dos Jesuítas, aplicando-o à história do Reino e integrando na longa duração a acção conspiracionista para explicar a decadência de Portugal. Finalmente, o Compêndio e o Regimento destinam-se a mudar radicalmente duas instituições nacionais.

        Esta historiologia assenta numa visão mítica do passado, em que todos os males são atribuídos a uma só entidade. Ao projecto malevolente dos jesuítas é atribuído um poder desmedido. Nesta construção, a palavra «maquinação», que aparece abundantemente, tem um sentido conspiracionista, ligado à destruição das instituições sociais. O discurso que forma esta «história exemplar» é tipicamente iluminista, cindindo a história entre o bem e o mal, através dos binómios luz/trevas, progresso/decadência, obscurantismo/iluminismo, etc.[49]

        O argumento estruturante desta visão da história do reino é elencado logo no início da Dedução cronológica. Concebe-se aqui uma idade de ouro que florescia quando os primeiros jesuítas entraram em Portugal. Os padres que chegaram a Portugal, em conivência de interesses com o resto do grupo, teriam desencadeado uma idade de decadência em Portugal. A Dedução Cronológica caracteriza num tom requisitório esta acção decadentista. A actividade da Companhia é comparada a uma campanha militar, com o fim de arruinar o reino e submetê-lo ao domínio da Ordem. Esta analogia é bem clara pelo uso dos termos «invasão», «domínio», «subjugação», «destruição», «guerra sem tréguas», «armas”. «Maquinação» ganha o sentido de «máquina de guerra», a ideia de que a Ordem seria um monstruoso engenho, de que os seus membros seriam peças, em obediência ao Padre Geral.

        Recordando os ataques contra a Companhia desde a sua génese, depositados na memória da tradição antijesuítica, o autor daquela obra salienta que o seu críptico plano destruidor já tinha sido gizado desde há algum tempo. Embora a degeneração da Companhia seja colocada na sua génese, Pombal não toca na santidade de Santo Inácio, para não contraditar o juízo oficial da Igreja. Assim, o início da decadência da Companhia é atribuído ao seu sucessor, Diogo Laynes, de origem judaica, o desvirtuamento do projecto inaciano.

        A acção jesuítica é associada à semântica da doença. A decomposição do «corpo glorioso» de Portugal, nos antípodas da epopeia mítica do Reino de Portugal (ao qual a historiografia patriótica conferia a dignidade de reino eleito pelos Céus), é atribuído ao trabalho educativo dos Jesuítas. A partir do ensino eles teriam feito decair todos os sectores do reino. Além de instrumentalizarem a educação, teriam procurado lugares influentes junto dos monarcas e dos grandes do reino para, pelo dolo e pela intriga, realizarem o seu plano.

         Esta antiepopeia jesuítica era inspirada pela sua moral antinómica da moral cristã, guiada pela aspiração de domínio universal, de que Portugal seria rampa de lançamento. É deste diabólico plano, metodicamente levado a cabo pela conspiração contra as autoridades legítimas, que Pombal se erige como denunciador: «E todos os principais Autores da corrompida moral dos ditos chamados Jesuítas, manifestando que eles especulativa e praticamente ensinaram e executaram sempre (por um sistema uniforme e sucessivamente seguido por quase duzentos anos) as abomináveis atrocidades; de arruinarem com calúnias todas quantas pessoas intentam tirar do seu caminho; de prestarem e aconselharem para os fins dos seus interesses falsos juramentos; de armarem os povos contra os seus soberanos para destruírem o público e reduzirem o mundo a uma monarcomaquia, na qual não haja suprema autoridade que possa coibi-los (...)»[50].

        No início do reinado de D. José, a Companhia teria atingido o ponto máximo da sua epopeia demolidora. Tinha reunido as condições para edificar o seu domínio sobre as ruínas do império português. Mas, pela determinação de um rei iluminado e dos seus esclarecidos ministros, o curso da destruição jesuítica tinha sido estancado. Entre outras acções maléficas no início deste reinado, destacam-se o atentado contra o rei em 1758. Este atentado teria sido congeminado pelo «sinédrio» secreto da Ordem, num acto de desespero. Com D. José, ter-se-ia começado a «reparar os estragos» que os Jesuítas tinham causado no reino. Tal renovatio temporum assentaria no tema mais relevante da filosofia absolutista: o reforço da autoridade régia. Pela concentração de poderes tinha sido promovida a restauração do reino com vista ao regresso da idade de ouro.

        A inauguração em 1775 da estátua do Rei D. José I, com o medalhão mostrando o seu ministro, constituiu a apoteose do governo pombalino e do seu líder. A estátua, símbolo das luzes, foi erguida no centro do Terreiro do Paço em Lisboa erguido das cinzas do terramoto. E, como nota Lúcio d’Azevedo: «sob a figura do soberano era o ministro divinizado»[51]. Este monumento ao pombalismo significa a nova idade de ouro. O monarca em pose equestre não era mais do que uma eminência simbólica, sob a sombra da qual, o Marquês foi o verdadeiro mentor, lutando contra os obstáculos representados pelas serpentes que o cavalo real calca. A estampa em bronze da figura do Marquês no monumento real denuncia a paternidade da reforma política aqui celebrada.
    
        Nas Observações secretíssimas de Pombal dirigidas ao Rei em 1775, o ministro tece um panegírico à sua obra aprofundando o significado da dita inauguração[52]. Declara concretizada a utopia das Luzes em Portugal. Pombal, embora atribua a sua obra ao rei[53], afirma o triunfo da idade da razão por contraponto à idade das trevas. Subentende que, com o seu governo, se verificou uma refundação da nacionalidade, atingindo uma plenitude histórica. O ministro afirma que a reforma teria causado «assombro a todas as nações nacionais e estrangeiras»[54]. Apresenta exemplos de áreas de progresso: a economia, as artes liberais, a educação, o comércio, a harmonia social, o respeito pelas instituições e pela autoridade do Estado. Esse discurso encomiástico contrastava com as dificuldades reais da sociedade portuguesa. Muitas das reformas revelaram-se incapazes de debelar a crise económica que grassou nos últimos anos de D. José. No entanto, a política pombalina deverá ser avaliada mais no longo do que no curto ou médio prazo: Pombal teve, sem dúvida, o mérito de insuflar de forma irreversível nos espíritos os novos ventos políticos em voga na Europa[55].

        Tanto na Dedução cronológica como nas Observações secretíssimas Pombal apresenta a história nacional consubstanciada em três idades: a idade de ouro anterior aos Jesuítas, a idade de ferro durante a presença destes, e a idade luminosa erigida pela política pombalina. O ministro de D. José constrói uma história mítica, na qual, com base em pressupostos ideológicos, o passado é reconstruído para inculcar a moderna visão. O conceito de história que subjaz à construção desta visão do passado está bem claro na Dedução cronológica: é uma história tribunal, na qual as conclusões são condicionadas pelo intuito ideológico. A imagem é construída dialecticamente, contrapondo o presente e o passado. É nesta encenação discursiva que se desenha o grito de refundação da nacionalidade nos moldes iluministas. Em suma, a visão da história que brota do mito pombalino dos Jesuítas põe em confronto dois mitos: o da idade jesuítica e o da idade das luzes. Trata-se de uma verdadeira heteropia.

        A cultura e a mentalidade antijesuíticas passaram a disseminar-se nas elites e nas correntes mais progressistas, perdurando a matriz pombalina. Exemplo uma tradução manuscrita de uma obra italiana anónima de 1800 com o título O jesuíta errante, ou cartas do Padre Afonso, jesuíta português ao Geral da sua Ordem em Roma. É um conjunto de cartas atribuídas a um jesuíta português[56], onde se incriminam os Jesuítas. O tradutor português, também anónimo, declara «uma antipatia, a mais decidida, a tudo o que tem nome de eclesiástico»[57]. Assiste-se aqui a um primeiro deslize do antijesuitismo para o anticlericalismo. O tradutor pretende dizer «duas palavras deste animal, que chama jesuíta», acrescentando que acha não ser «mal posto no rancho dos animais». Salienta que a ordem foi concebida por Inácio num estado de debilidade mental para demonizar toda a acção posterior. Chega a afirmar que os Jesuítas nunca tiveram a intenção de combater os infiéis, mas apenas a de difundir a raça jesuítica. Pela primeira vez em Portugal, os Jesuítas são figurados como uma nova raça. O autor identifica o espírito jesuíta com o Demónio: «Foi, sem dúvida, um jesuíta o que deu a Eva o pomo fatal, de que seu marido não comeria senão por conselho de um jesuíta.”[58].

           Em resumo: O mito jesuíta construído por Pombal foi fruto do seu tempo. A supressão da Companhia em Portugal e mais tarde em todo o globo corresponde a uma fase de crise profunda do poder da Igreja. No apogeu da Idade da Razão, os ministros das monarquias católicas arrebataram do Papa o documento eliminador dos Jesuítas. Foi mais do que a extinção de uma das mais fortes ordens da Igreja Católica: foi a subjugação da Igreja aos Estados. A abolição dos Jesuítas representa, de facto, uma redefinição das relações Igreja-Estado e um avanço na secularização.


NOTAS:

[1] Ver Jorge Borges de Macedo, Vias de expressão da cultura e da sociedade portuguesa nos séculos XVII e XVIII, Separata da Revista da Academia Internacional de Cultura Portuguesa, Lisboa, 1968, pp. 345-364; e idem, O Marquês de Pombal (1699-1782), Lisboa, 1982.

[2] Cf. Lucian Boia, op. cit., p. 192 e ss.

[3] Michel Leroy, Le mythe jésuite, op. cit., pp. 368-369 ; e cf. M. Soullard, Les Jésuites en question. Écrites polémiques de 1815 à nos jours, Paris, 1982.

[4] E.g., Menendez Pelayo chama obra de canibais à obra política de Pombal. V. Gustavo Cordeiro Ramos, “A propósito das comemorações do 4.º Centenário da extinta universidade de Évora”, in Memórias da Academia das Ciências de Lisboa, Vol. 45, fasc. III, p. 215. Alguns viram-se nas medidas antijesuíticas uma conspiração contra a Igreja, dada a alegada filiação maçónica do Marquês. V.g. A. Neves da Costa, Pombal. Mentira histórica, Lisboa, 1968. O jesuíta António Lopes procurou explicar psiquiatricamente a pertinácia antijesuítica do Marquês. Cf. António Lopes, Enigma Pombal. Nova documentação. Tentativa de interpretação, Lisboa, 2002.

[5] Apelo registado por Joel Serrão, “Repensar Pombal”, in Maria Helena Carvalho dos Santos (coord.), Pombal revisitado, Vol. I, Lisboa, 1984, p. 353.

[6] Luís Reis Torgal, História e ideologia, op. cit., p. 47.

[7] Jorge Borges de Macedo, op. cit., p. 16. Macedo alerta para a urgência dos historiadores superarem a tradição na qual as histórias do Marquês não passavam de um prolongamento da Dedução Cronológica e Analítica. Ibidem, p. 16.

[8] Manuel Antunes, «O Marquês de Pombal e os Jesuítas», in Como interpretar Pombal?, op. cit., p. 132.

[9] Ver Luís Filipe Barreto, “Utopia e heteropia”, in Brotéria, Vol. 106, 1978, pp. 275-279.

[10] Durand apresenta a repetição como a função típica que advém da própria estrutura do mito: «Le mythe est un répétition rythmique, avec de légères variantes, d’une création». Ibidem, p. 417. Ver também Vilfredo Pareto, Mythes et idéologies, Paris, 1966.

[11] Edições mais recentes deste documento pombalino saíram no Brasil: República jesuítica ultramarina, Porto Alegre, 1989; Idem, Os Jesuítas do Brasil, Paraguai e Uruguai segundo (...). Documento de 1757, Bahia, s.d.. Foi feita uma transcrição da Relação abreviada no Apêndice da obra de José Caeiro, s.j., História da Expulsão, op. cit., Vol. I, pp. 315-330.

[12] Cf. Collecção dos Negócios de Roma, op. cit., p. 41 e ss.

[13] Cf. Publicações do Ministro de D. José I, APPCJ, pasta 615, nº 2. Além de uma 2.ª edição feita em Lisboa nas oficinas de Miguel Rodrigues em 1758, saíram diversas edições com variações titulares, e.g. La République des Jésuites, ou le Paraguay renversée contenent une Relation authentique de la Guerre que ces Religieux ont osé soutenir contre les Monarques d’ Espagne & de Portugal en Amerique (…), A Amsterdam, 1758 ; e Relazione breve della Republica che i religiosi gesuiti delle province di Portogallo (...), Lisboa, 1757 (2ª ed. Lugano, 1759).

[14] V. F. Mateos, Historia de la Compañía de Jesús en la Provincia de Paraguaay, según los documentos originales del Archivo General de Índias, Madrid, 1949.

[15] Cf. Collecção dos negócios de Roma, parte I, p. 78;

[16] Ibidem.

[17] As invectivas deste libelo foram traduzidas e integradas noutros documentos que sustentaram a campanha antijesuítica internacional, como: Les jésuites criminels de leze magesté dans la théorie et dans la pratique, Haye, 1759.

[18] A Relação abreviada aparece no volume de provas relativa à primeira parte da Dedução cronológica, como a prova LXI.

[19] Cf. J. Barbosa Canaes Figueiredo Castello-Branco, Estudos biographicos ou noticias das pessoas retratadas nos quadros históricos pertencentes à Biblioteca Nacional de Lisboa, Lisboa, 1854, p. 313; e ver “Cópia do Aviso em que D. Maria I manda vir do degredo a José de Seabra da Sylva”, BNL, Secção de reservados, cód. 10971.

[20] Carta de 24 de Abril de 1771, António Pereira de Figueiredo; Luís António Verney, Cartas aos Padres da Congregação do Oratório, Nova Goa, 1858, p. 15.

[21] Em Janeiro de 1768 Frei Cenáculo aponta que Pombal lhe tinha mandado a II parte da «sua» Dedução Cronológica. Informação de António Lopes, Vieira, o Encoberto, op. cit., p. 24.

[22] Cf. BNL, Colecção pombalina, códs. 444-446. Ver ilustração n.º 4. Além disso, o facto de Pombal ter outras obras com títulos e estilo semelhantes é outro argumento em favor desta autoria, como a Dedução chronologica de algumas infracções dos Tratados de paz, praticados pelos ingleses. Cf. BNL, Secção de reservados, cód. 13287.

[23] Josephi de Seabra Sivii, Deductio chronologica analytica (...), Olisipone, 1771.

[24] Idem, Deduzione cronologica e analitica, in cui, per la sucessiva serie di tutti governi della Monarchia portoghese, decorsi dal Re D. Giovanni III tino al presente (...),3 Vols., In Lisbona, Lisboa, 1767. E uma 2.ª edição feita com passagens da Dedução juntamente com o processo que conduziu à incriminação dos jesuítas no atentado ao Rei: Idem, Prove, e confessioni autentiche, estratte dal Processo che dimonstrano la reità de’ gesuiti nell’attentato regicidio di S.M. Fedelissima D. Giuseppe II, re di Portogallo: e compendio di quanto è passato nel suo regno (...), Venezia, 1768.

[25] Idem, Recueil chronologique et analytique de tout ce qu’a fait en Portugal la Société dite de Jésus, depuis son entrée dans ce royaune, en 1540, jusqu'à son expulsion en 1759, 3 Vols., Lisbonne, 1769.

[26] Idem, Vorstellung der Umstände, in welchen sich die Portugiesische Monarhie befindet, seit die Gesellshaft Jesu aus Frankreich und Spanien verbannt ist, Wittenberg, s.n., 1770.

[27] Doctor Joseph de Seabra da Sylva, Deducion chronologica y analitica (...), Traducida del idioma portugues por el Doctor Joseph Maymó y Ribes, abogado del colegio de esta Corte, (3 Tomos), Madrid, 1768, prólogo.

[28] Da tradução chinesa foi encarregado Frei Juan Rodriguez, que primeiro compilou um sumário adequado à realidade chinesa, e traduzido com o título de Espelho Moral. Cf. “Dedução chronologica vertida em Chinês”, in Archivo Universal, 3ª Série, Nº 19, Maio, 1860; pp. 322-323; e cf. ANTT, Livros das Monções, Nº 152, fl. 242.

[29] Augustin Theiner, Histoire du Pontificat de Clément XIV, D’après des documents inédits des Archives Secrètes du Vatican, Tomo I, Paris, 1852, p. 94.

[30] Jorge Borges de Macedo, “Marquês de Pombal”, in Joel Serrão (dir.), op. cit., Vol. V, pp. 113.

[31] José Sebastião da Silva Dias, Pombalismo e teoria política, op. cit., p. 10. Deve-se juntar esta obra de Pombal à Tentativa Teológica de Pereira de Figueiredo para formar o grupo dos tratados do ultra-regalismo português.

[32] Desta obra fez-se uma primeira edição luxuosa “na régia oficina tipográfica” em 1771, sendo no ano seguinte feita segunda impressão noutro formato para facilitar a divulgação.

[33] Também aqui o extenso título resume o conteúdo da obra: Compendio histórico do estado da Universidade de Coimbra no tempo da invasão dos denominados Jesuítas e dos estragos feitos nas sciencias e nos professores, e Directores que a regiam pelas maquinações e publicações dos novos estatutos por elles fabricados, Lisboa, 1771.

[34] Ibidem, pp. 1-96.

[35] Este eclesiástico informa, no seu Diário, informa que se reuniam na casa do Marquês ou do Cardeal Cunha. Teófilo Braga transcreveu esse Diário na sua História da Universidade de Coimbra, op. cit., Vol. III, pp. 398-414.

[36] Cf. BPE, cód. CXI/2-11, nº1.

[37] BPE, cód. CXI/2-11, nº1.

[38] Doutrinas da Igreja sacrilegamente offendidas pelas atrocidades da moral jesuítica, que foram expostas no ‘Appendix’ do Compendio Historico, e deduzidas pela mesma ordem numeral do referido ‘Appendix’, para servirem de correcção aos abomináveis erros, e execrandas impiedades daquella pretendida Moral, inventada pela Sociedade Jesuítica para a Conquista, e destruição de todos os Reinos, e Estados Soberanos; Lisboa, 1772.

[39] Cf. Recueil par ordre de dates, de tous les Arrêts du Parlement de Paris, déclarations, Edits, Lettres Patents du Roi, autres Pieces, concernant les ci-devant soi-disan Jésuites, Tomo II, A Paris, 1762.

[40] Probationes appendicis breviario historico subjectae .Existe um exemplar na BPE, cód. CXI/2-11, nº 1.

[41] Estatutos da Universidade de Coimbra, compilados debaixo da imediata e suprema inspecção de El-Rei D. José I, Nosso Senhor para a restauração das Sciencias, e Artes Liberais nestes reinos, e todos os seus domínios ultimamente roborados por Sua Majestade na sua Lei de 28 de Agosto deste presente anno, Lisboa, 1772, p. 107. Estão organizados em três livros: o primeiro sobre Teologia, o segundo sobre Direito e o terceiro sobre Ciências.

[42] Cf. Joaquim Ferreira Gomes, “A reforma pombalina da Universidade”, in Revista Portuguesa de Pedagogia, Ano VI, Coimbra, 1972, pp. 25-63; e Idem, “Pombal e a reforma da Universidade”, in Brotéria, Vol. 114, Lisboa, 1982, pp. 536-552.

[43] Estatutos da Universidade, op. cit., p. 90. Quer o Compêndio histórico quer os Estatutos foram traduzidos para latim por Pereira de Figueiredo com o fito de mostrar à Europa a renovação portuguesa.

[44] Regimento do Santo Ofício da Inquisição dos Reinos de Portugal, ordenando com o Real Beneplácito, e Regio auxílio pelo Eminentissimo, e Reverendissimo Senhor Cardeal da Cunha, dos Conselhos de Estado, e Gabinete de Sua Majestade, e Inquisidor Geral nestes Reinos, em em todos os seus domínios, Lisboa, 1774. No frontispício da edição pontificam as armas reais, denotando estatatização desta instituição.

[45] V. Raul Rego, O último Regimento da Inquisição portuguesa, Lisboa, 1971. Em 1811 foi feita uma impressão do regimento pombalino da Inquisição no livro de Hipólito José Pereira Furtado. Este jornalista dá-nos uma «Narrativa da perseguição» de que foi alvo e coloca em apêndice os regimentos inquisitoriais de 1640 e de 1774.

[46] Pereira Caldas escreveu que «passa, no entanto, como certo, que o ditara o Marquês de Pombal escrevendo-o o oficial de Secretaria do reino José Basílio da Gama”. Pereira Caldas, Os Regimentos da Inquisição em Portugal, Braga, 1877, p. 5; e cf. Jácome Ratton, Recordações (...) sobre ocorrências do seu tempo em Portugal (...) 1747 [até] 1810, 2ª ed., coord. J. M. Teixeira de Carvalho, Lisboa, 1920.

[47] Cf. Gilbert Durand, Les structures, op. cit.; e Michel Leroy, Mythe, religion et politique, op. cit.

[48] Usamos aqui a termo de epopeia negativa por oposição à epopeia da fundação e afirmação da nacionalidade portuguesa e da sua exaltação na época dos Descobrimentos.

[49] V. Pedro Calafate, “A Filosofia da História”, in Pedro Calafate (dir.), op. cit., Vol. III, pp. 23-44.

[50] Ibidem, pp. VI-VII.

[51] João Lúcio d’Azevedo, O Marquês de Pombal, op. cit., p. 320.

[52] Cf. “Observações secretíssimas do Marquez de Pombal, Sebastião José de Carvalho e Melo na ocasião da Inauguração da Estatua Equestre no dia 6 de Junho de 1775, e entregues por ele mesmo 8 dias depois ao Senhor Rei D. José I”, in Marquez de Pombal, Cartas e outras obras selectas, 4ª ed., Tomo I, Lisboa, 1848, pp. 15-39.

[53] Neste discurso panegírico do rei, a era de prosperidade é atribuída aos méritos dele, como não podia deixar de ser. Mas Pombal sabia que lhe eram dirigidas as críticas e os louvores pelas transformações no país. O seu protagonismo está nas entrelinhas pelo excessivo esforço em salientar a sua negação. João Lúcio d’Azevedo, O Marquês de Pombal, op. cit., p. 321

[54] Ibidem, p. 17.

[55] Muitas das leis pombalinas foram, de facto, inovadoras: e.g. a reforma universitária, a estatização da censura e a limitação da Inquisição, a abolição do esclavagismo no reino, a centralização da Fazenda Pública e a uniformização da fiscalização, etc.. Símbolo da política pombalina foi a reconstrução de Lisboa após o terramoto de 1755. Cf. Kenneth Maxwell, O Marquês de Pombal, op. cit., pp. 36 e ss., e Joaquim Veríssimo Serrão, O Marquês de Pombal, op. cit., cap. XII.

[56] Conhece-se apenas a edição em francês: Le jesuite errant ou lettres du P. Alphonse, jesuite portugais, au Général de son Ordre, à Rome, avec les reponses de ce dernier, sur la conspiration de Lisbonne & ses effets (traduit de l’Italien), par le ch** E.S.R.I.S., A Rome, s.l.

[57] “O jesuita errante ou cartas do padre Affonso, jesuíta portuguez ao geral da sua Ordem em Roma: com as respostas deste, sobre a conjuração de Lisboa, e seus cruéis efeitos, por ch. Xxx. D.E.S.R.T.S., En Rome, 1800”, ACL, Manuscritos vermelhos, cód. 854, fl. 20.

[58] Ibidem, fl. 22.