terça-feira, 1 de dezembro de 2020

DO ERRO DE DESCARTES AO SENTIR & SABER


 



“O homem pensa com o corpo todo” (Krestchemer, psiquiatra e filósofo alemão, 1888-1964).

De quando em vez, dou comigo em revisitar uma pasta de artigos de opinião meus publicados ("Jornal Novo", "Jornal de Notícias "Correio da Manhã", "Público",   "Diário de Coimbra"),  a partir de 1955, mais de um milhar, sem ter em conta inúmeros "post's" publicados em blogues  com destaque no “De Rerum Natura",  de que sou co-autor.

Na medida económica que a minha condição de reformado permite, acabo de comprar o livro de António Damásio: “Sentir & Saber -  A Caminho da Consciência" (Círculo dos Leitores, Nov. 2020). Este género de leitura sobre os complexos meandros da complexidade da  investigação do cérebro humano, no dizer poético, por mim roubado a Sherrington,  “um tear encantado”, desde a cultura helénica aos nossos dias,  tem despertado a atenção de filósofos e cientistas, acaba, uma vez mais,  por ser enriquecido com o último livro   de António Damásio supracitado.

Sobre este livro, que merece ser lido com tempo e devota atenção, não me sinto para já capacitado para emitir  uma mera e apressada opinião, ainda mesmo num país em que toda a gente opina sobre tudo e sobre nada do alto da sua tribuna. Assim, cito apenas o que escrevi, decorria o ano de 1995, no “Correio da Manhã” (19/09/1995), justificado pela minha paixão por esta matéria que é o desbravar  dos segredos que o funcionamento do cérebro encerra, e sobre o qual a professora  de Filosofia  do ensino secundário Regina Sardoeira (“O Independente”, 25/08/1995) pontifica atrevidamente :  “”O dualismo cartesiano: eis o erro apontado - e parece- descoberto no século XX por António Damásio!” 

E porque este novo livro de António Damásio traz para as luzes da ribalta cientifica novas e valiosas achegas, resolvi, em modesta contribuição, transcrever esse meu artigo fotografando o  que  escrevi,  em Setembro do ano de 95 , intitulado “O erro de Descartes”. Ou  seja, para não ser havido como um surfista arrivista que cavalga um onda  ocasional!

P.S.: Verificando que a foto, pela sua falta de nitidez está pouco perceptível, transcrevo o artigo em causa. Assim:


“O ERRO DE DESCARTES

(Meu artigo publicado no “Correio da Manhã”, em 19/09/1995)

Em  1987, a oito anos da publicação do ‘best-seller” de António Damásio,  ‘O erro de Descartes, nos dias 18 e 19 de Novembro, eram publicados no ‘Diário de Coimbra’ dois artigos meus, respectivamente, intitulados,  ‘Biologia e Filosofia antagonizadas’ e ‘No limiar da neurofisiologia’.

Rematava eu o segundo artigo da forma seguinte: ´Não é o cérebro corpo? Só o desconhecimento da fisiologia que preside ao funcionamento do cérebro  justifica o crime  de tentar separar os  órgãos que o vivificam , o animam e lhe dão o suporte sublime do Pensamento: cérebro, coração, pulmões e músculos’.

Neles chamei a atenção  para a subalternidade  em que a filosofia cartesiana colocou o corpo (‘res extensa’) relativamente à mente (´res cogitans’) . Essa realidade, o da ditadura do espírito sobre o corpo, está presente na crítica perfeita  que o filósofo contemporâneo Jean François Lyotard (1988) lhe faz: “Toda a energia pertence ao pensamento que diz o que diz, que quer o que quer,  matéria é o fracasso  do pensamento, a sua massa inerte, a estupidez.

Destarte,  a licenciada em filosofia, Regina Sardoeira ( “O  Independente”,  25 de Agosto de 1995), pontifica atrevidamente: “O dualismo cartesiano: eis o erro apontado – e parece- descoberto no século XX por António Damásio!”

Para esta professora de filosofia, o facto de nas suas aulas falar sobre o dualismo cartesiano parece-lhe condição mais que suficiente para que ele  não subsista.  Não pensa assim Whewel quando nos diz que “ as teorias duma época tornam-se os factos da época seguinte".

Estranha ela, para mais,  que as aulas de Filosofia não sejam havidas como suficientes para terem o título do livro de Damásio como “pompa ilusória e as quatro páginas com que ele o legitima insignificantes”.

Descartes quase permanece impune no seu erro que a ciência se nos encarregou de denunciar e para o qual chamei a atenção  em comunicação apresentada este ano num Congresso realizado em Março deste ano, em que escrevi: “Fica a esperança, portanto, que entre as conquistas do 3.º milénio muitos dos fantasmas que ainda assombram o Corpo serão definitivamente esconjurados, De entre eles,  numa neurociência inovadora e descomprometida  com a Filosofia – existo, logo penso dando lugar a existo logo penso- da autoria de António Damásio, a trabalhar nos Estados Unidos, e laureado em Portugal conjuntamente com sua mulher Hanna com o "Prémio Pessoa/93", o da escravidão do corpo ao espírito”.

Para Delfim Santos (1947), “no pensamento de cada filósofo há algo de vivo e algo de morto e o morto é, quase sempre, o científico”. Segundo Jean-Pierre Changeux (1983) Aristóteles, com lugar no pódio dos maiores filósofos da humanidade, ao debruçar-se sobre  funcionamento do corpo humano , bralhou os espíritos durante séculos por considerar o cérebro como um sistema de arrefecimento  como a sede dos sentimentos”.  Ora, o coração é apenas uma prosaica bomba muscular aspirante-premente que não ama e não odeia, não rejubila e não sofre, não age e não sonha! Mas,  mesmo ainda hoje, na tradição gestual da representação teatral é difícil de aceitar esta realidade que obriga até o próprio conhecedor do sistema nervoso a levar a mão ao peito no  sítio em que o coração galopa em tropel para exprimir à sua amada o fogo da paixão que lhe corrói as entranhas e as labaredas do amor que lhe enrubesce as faces. De igual modo, pensa Georg Gusdorf (1977): “A biologia aristotélica só foi verdadeiramente ultrapassada depois de  um intervalo de 2.000  anos”,

Mas voltemos a Descartes. Heresia das heresias, segundo Jacques-Michel Robert  (1982), este filósofo “localiza o elo da ligação da alma com o corpo na glândula pineal” que fisiologistas coevos de inspiração filogenética, confrontados com o seu obscuro significado  funcional disseram ser o vestígio de um órgão de visão por nós herdados dos répteis. Saberes recentes esclarecem , agora,  que ela segrega uma hormona (melatonina) necessária ao desempenho do ritmo biológico dia-noite.

Assim, é minha convicção que os neurofisiologistas continuam à espera  de alguém que lhes desvende os segredos ocultos por uma caixa negra (na analogia poética de neurofisiologista Sherringtonm, "um tear encantado"), sintetizada de forma perfeita, em linguagem metafórica muito expressiva, por David Kech (1979), académico muito respeitado nas ciências do cérebro: “A neuro fisiologia encontra-se num sótão escuro procurando um gato escuros sem ter a certeza que ele lá está. Seu único indício são leves ruídos que parecem miados”.

Devido a  esta tremenda complexidade, esse alguém terá que ter a coragem de um William Harvey, inicialmente ridicularizado pela própria classe médica,  por destruir, três século atrás, falaciosas teorias sobre o sistema circulatório, veiculadas pela Metafísica, tendo sido capacitado para anunciar jubilosamente os processos  “circulação do pensamento”. O estudo deste notável  fisiologista que lançou para o cesto dos papéis a teoria aristotélica sobre os fenómenos circulatórios, assumiu a importância  de um tiro de partida para a corrida célere da Biologia contemporânea de olhos postos numa perspectiva molecular, depois de séculos de imobilismo dogmático.

Num interessante artigo (Science & Vie, Outubro/94) , é-nos mostrada a imagem do córtex frontal (obtida por uma câmara de  emissão de positões), onde se metaboliza a serotonina, um dos neurotransmissores das emoções,  sob o título “A cólera em imagens”.

Sobre o futuro das ciências da mente, o neurofisiologista  Alcetis Berg não esconde o seu optimismo: “As imagens oferecidas pela Tomografia  por Emissão de Positrões permitem detectar e visualizar os processos bioquímicos cerebrais, através do consumo de glicose pelas diferentes partes do cérebro. Talvez por seu intermédio possamos um dia localizar com precisão os processos neurológicos que compõem o Pensamento”.

É, portanto, nesta perspectiva que o livro ,“O erro de Descartes”, assume o inconcusso valor de trazer luminosidade ao sótão escuro de que nos fala David Krech. Em contrapartida, tentar demonstrar que  a dicotomia cartesiana não  continua a influenciar o nosso século é desmentido pelo historiador Robert Aron quando responsabiliza a demasiada assimilação do cartesianismo pela actual fraqueza do mundo ocidental, pese embora a informação colhida em Regina Sardoeira de que “Descartes e o Discurso do Método” têm sido temas  dos programas de Filosofia do ensino secundário”.


domingo, 29 de novembro de 2020

MAIS VALE PREVENIR DO QUE REMEDIAR



 

Acabo de ler no "Público" (28/11/2020) esta notícia que, com a devida vénia, transcrevo parcialmente, que dá conta da  indefinição que reina (facto que tem merecido vários artigos meus, um deles publicado hoje no “De Rerum Natura”) no que tange à vacinação corona vírus. Assina a notícia a eurodeputada do PSD Maria da Graça Carvalho, na foto.:


"Em Portugal, se uma campanha preparada todos os anos atravessa dificuldades, o que esperar de uma campanha que nunca antes foi montada?

O anúncio de que duas vacinas apoiadas por fundos comunitários – a Curevac e a BioNTech – estão na linha da frente para a resposta à covid-19 é uma vitória para a Comissão Europeia e mais uma prova clara da importância do investimento em investigação científica. Pela primeira vez, nestes longos meses de incerteza, há uma saída à vista para esta crise de saúde pública. Temos de estar prontos para a colocar em prática o mais rapidamente possível.

A importância de preparar cuidadosamente, mas sem hesitações, o arranque da vacinação tem sido enfatizada pela Comissão, que pediu aos Estados-membros para terem as suas estratégias de vacinação concluídas até ao final deste mês, e antecipou-lhes até parte do trabalho de casa, divulgando uma série de recomendações. Estas abrangem desde os grupos prioritários a vacinar – tais como maiores de 60 anos, pessoas com sistemas imunitários comprometidos, profissionais de saúde, outros profissionais de setores fundamentais – às redes de distribuição, meios técnicos de armazenamento (nomeadamente de refrigeração) e pessoal qualificado a colocar no terreno (...).

AS SABICHONAS


 “É uma ideia tonta que a vacinação não priorize os mais idosos” (Marcelo Rebelo de Sousa).

No passado dia 20 deste mês a findar, publiquei aqui um “post” titulado: “Corona Vírus e Dúvidas Sobre Prioridades”.

Hoje, passados que são nove dias, tenho a sensação que Portugal, neste aspecto, é um navio à deriva com duas timoneiras cursadas em escola náutica duvidosa sob a direcção de António Costa.

Nele publiquei uma imagem, de autor não identificado,  com os seguintes dizeres: “As crianças são o melhor que o mundo possui e todas merecem amor e cuidado pois nas sua mãos vive o futuro”.

Entretanto, a exemplo do Titanic que naufragou por ter embatido num gigantesco iceberg, parece-me que o país  se afunda com as medidas a tomar nesta emergência em que o gelo da indecisão faz com que haja uma vasoconstrição  dos vasos que irrigam o cérebro da ministra e da directora-geral da Saúde que discutem nos bastidores as novas prioridades dos cidadãos a serem vacinados contra o corona  vírus.

Pelo que deduzo,  discutem entre elas e António Costa as prioridades desta vacinação, ou seja o nó górdio duma questão com mãos frágeis que empunham a espada que o deveria cortar sob o ponto de vista psicofísico carecendo de força física e anímica para o fazer  sem tibiezas ou dúvidas.

Força anímica para que se sintam bem grudadas para permanecerem de pedra e cal nos seus lugares como lapas agarradas aos rochedos dos cargos que desempenham por um devotado amor à “res publica”, nunca por “os velhos terem tanta necessidade  de afecto como de sol", em opinião de Victor Hugo.

E aqui reside outro busílis desta questão: tempos houve, escassos nove dias atrás, que seriam os velhos os primeiros a serem vacinados não por altruísmo mas, quiçá,  para manter vivo o enorme arsenal de sabedoria que trazem na  bagagem de vida com a utilidade de poderem vir a  servir para indicarem  a rota da prosperidade a este país exaurido pelos danos económicos e financeiros na hora que passa.

Receio, portanto, que como paga aos serviços prestados à pátria esses “patriotas” achem dever serem  os primeiros a serem vacinados por parte  dos diversos quadrantes políticos e, por arrasto,  suas famílias deixando para trás os velhos  que até ao aparecimento milagroso das respectivas vacinas faziam perigar, por contágio,  a vida de concidadãos  do país de lés a lés!

E o mais espantoso de tudo isto é o facto da Organização Mundial de Saúde formada por “ignorantes chapados” ter como prioridade a vacinação dos velhos. Ou seja, as entidades senhoris que presidem à Saúde dos portugueses são mais papistas que a própria Organização Mundial  de Saúde e mais casmurras que os velhos!

Das pessoa mais credenciadas academicamente para este estudo epidemiológico é o bioquímico David Marçal, com vários artigos de natureza científica sobre esta temática que, de parceria com Carlos Fiolhais, pessoa altamente credenciada no âmbito científico, acabam de escrever o livro “Apanhados pelo vírus” (Gradiva).

Porventura, descendo dos seus tamanquinhos parlamentares e governantes , consultaram as suas doutas opiniões ou dar-se-á o facto de estarem  mais virados e atentos a bolas de cristal de ignorantes das medicinas alternativas que abundam profusamente neste país em herança deixada em trevas medievais? Vá lá a gente saber numa época em que o segredo é a alma do negócio de quem governa sem dar cavaco a um povo de pseudo  ignorantes.

P.S.: Para melhor compreenderem esta minha  tomada de posição num tempo em que, em opinião de Simone de Beauvoir, “a velhice denuncia o fracasso da nossa civilização”, tenho por conveniente que os leitores consultem  o meu  artigo aqui publicado (20/11/2020) e citado no primeiro parágrafo deste meu texto: “Corona Virus e Dúvidas Sobre Prioridades”.

sábado, 28 de novembro de 2020

VIGÉSIMO PRIMEIRO CONGRESSO DO PCP


Depois de grandes controvérsias, e discussões sobre a legitimidade da realização deste Congresso, controvérsias que tiveram inclusivamente destaque constitucional, encontra-se ele a decorrer, com a promessa formal do PCP que seriam tomadas todas medidas para que não constitui-se  nenhum perigo para a Saúde Pública em luta sanitária contra a pandemia provocada pelo fatal corona vírus

Substituiu-se, portanto, esta espécie de garantia, a uma tomada de posição enérgica das Ministra da Saúde e da Directora Geral deste ministério. Ou seja, em linguagem popular quem não tem cão caça com gato, ou seja, “mutatis mutandi”, quem não tem a garantia de quem devia dar o aval a esta realização teve de se contentar com a garantia do PCP, ainda que não lavrada em conservatória porque palavras leva-as o vento e de promessas está o inferno cheio.

Sem delírios persecutórios, apenas porque fiel ao principio de que uma imagem vale por mil palavras, peço a atenção dos leitores para esta foto de uma das sessões deste congresso. Embora sem uma fita métrica para medir o espaço que medeia entre os congressistas, mais me parece serem espectadores de um qualquer teatro de vilória, num dia invernoso sem aquecimento central, em que os espectadores se aproximam uns dos outros para se aquecerem com o calor humano exalado dos seus corpos.

Acho eu, acompanhado num país tradicionalmente  de achismos de opiniões pessoais, com tal controversas, em que a  liberdade  de opinião deixou de ser coartada por censura oficial de estados totalitários ou como aconteceu, durante o regime  do Estado Novo, com o lápis azul dos coronéis  da Censura do Palácio Foz.

P.S.: A não se coagido por algum comentário, no direito legítimo de contestação, deixo descer o pano de qualquer novo texto meu sobre esta temática, com os votos sinceros de que este Congresso não tenha constituído perigo para a Saúde Pública de um povo causticado pelo traiçoeiro corona virus, e que nos dê a esperança  ( inatingível a breve prazo?) de um Partido renovado porque o mundo político português não deve ficar enclausurado num passado solidário,ontem, com "Moscovo sol da terra" (Cunhal), hoje, com o  comunismo da Coreia do Norte!

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

JOAQUIM NAMORADO E A BANDEIRA DA POESIA


Minha recensão no jornal I de quinta-feira passada:

Sob uma Bandeira [Obra Poética] é o título do livro que reúne a maior parte da poesia do poeta Joaquim Namorado (Alter do Chão, 1914 - Coimbra 1986) que acaba de sair numa magnífica edição com a chancela da Modo de Ler, do Porto (do veterano editor José da Cruz Santos), com organização, prefácio e notas de José Carlos Seabra Pereira, professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.  A colecção é “As Mãos e os Frutos”, que abriu com 36 Poemas e uma Aleluia Erótica, de Frederico García Lorca, traduzidos por Eugénio de Andrade. A edição, com design de Rui Mendonça, teve o apoio da Associação Promotora do Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, que guarda o espólio literário de Namorado. Conforme explica no final uma nota desta associação, o autor esteve na génese do Museu e deixou-lhe o seu espólio literário, entre o qual se encontrava, organizado por ele e com o mesmo título, a reunião da sua obra poética. Não é ainda a obra completa, mas é uma boa tentativa.

Tive o gosto de conviver com Joaquim Namorado, quando regressei em 1982 do meu doutoramento na Alemanha. Bastante mais velho, ele era assistente de Matemática na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), onde tinha feito o curso de Ciência Matemáticas, que concluiu em 1943. Por ser militante do Partido Comunista desde a década de 30, foi-lhe coarctada a possibilidade de seguir uma carreira académica (incluindo a realização de doutoramento) e só após o 25 de Abril de 1974 pôde entrar na função pública. Antes de ingressar na Universidade, Namorado tinha andado no Liceu Normal de D. João III (hoje Escola Secundária José Falcão), que eu, muito depois, também frequentei.

Lembro-me de o ver nos cafés da Praça da República, em Coimbra, com a boina na cabeça o seu modo muito próprio de interpelar as pessoas. Tinha um humor muito especial, tão lúcido quanto ácido. Estive num jantar em sua homenagem em Junho de 1984, quando se reformou, no qual foi distribuída uma “plaquete” de poemas seus relacionados com a matemática: os Falsos Poemas Lógicos, incluídos no presente volume. Estive também no seu funeral, que teve direito a honras académicas e a um eloquente panegírico (não faltou a bandeira do PC sobre a urna).

Joaquim Namorado foi não só um intelectual resistente ao regime anterior, mas também um grande criador literário que merece maior reconhecimento do que aquele que teve hoje. Devido a várias circunstâncias da sua vida (julgo que viveu durante muitos anos de explicações particulares) e da censura reinante, não publicou muitos livros. Uma consulta ao catálogo da Biblioteca Nacional assinala essencialmente três: Aviso à Navegação: poemas (s.n., 1941), Incomodidade (Atlântida, 1945), A Poesia Necessária (Vértice, 1966). Mas na Biblioteca Rómulo, na Universidade de Coimbra, encontra-se também Zoo: poemas (FCTUC, s.d.). Alguma da sua prosa está em Obras, Ensaios e Críticas. Joaquim Namorado; organização, prefácio e notas de António Pedro Pita (Caminho, 1994). Escreveu Vida e Obra de Frederico García Lorca (s.n., 1943). Prefaciou livros de escritores seus contemporâneos: Fogo na Noite Escura, de Fernando Namora, Fanga, de Alves Redol, e Voz de Prisão, de Manuel Ferreira.

São vários os escritos sobre a vida e obra de Namorado, a maior parte deles obras colectivas da iniciativa da Câmara da Figueira da Foz (o poeta tinha uma casa de na Figueira e doou os seus livros à Biblioteca local, razão pela qual a edilidade criou um prémio literário com o seu nome) e do Museu do Neo-Realismo:  Homenagem ao escritor Joaquim Namorado (Câmara Municipal da Figueira da Foz, 1990; Joaquim Namorado - Vida e obra: catálogo (idem, 1990); Incomodidade necessária: depoimentos (Câmara Municipal de Coimbra, 1991); Joaquim Namorado: arte e intervenção, 1941, 50 anos depois (Museu do Neo-Realismo, 1993); Tudo existe o que se inventa é a descrição: Joaquim Namorado, 100 anos, organização de Fátima Faria Roque e António Pedro Pita (idem, 2014); e Joaquim Namorado: o herói no "Neo-realismo mágico": no centenário do seu nascimento, de Jaime Couto Ferreira (Lápis de Memórias, 2014).

Namorado é um autor do Neo-Realismo, o movimemto que despontou em Portugal em 1936-1937, sendo uma sua marca de água as preocupações social e política. Nesse movimento foi um dos poetas do "Novo Cancioneiro" (1941-1944), uma colecção onde além dele publicaram Fernando Namora, Álvaro Feijó, Carlos de Oliveira, Políbio Gomes dos Santos, Francisco José Tenreiro, João José Cochofel (de quem a Imprensa Nacional acaba de publicar a obra completa), Mário Dionísio, Sidónio Muralha e Manuel da Fonseca (de quem acaba de sair uma entrevista a Amália Rodrigues, Amália nas suas Palavras, Porto Editora). Namorado colaborou em várias revistas culturais que agitaram o país entre os anos 30 e 50 do século passado como O Diabo, Sol Nascente, Altitude, Síntese, Liberdade e Seara Nova. Participou na reformulação da revista Vértice em 1945, da qual foi director entre 1975 e 1981.

Comemorou-se a 24 de Novembro o dia de aniversário do professor de Física e Química Rómulo de Carvalho, de pseudónimo António Gedeão, que é também o Dia Nacional da Cultura Científica. Embora Gedeão não caiba no Neo-Realismo, encontramos nalguns seus poemas, como “Poema da Pedra Lioz” e “Calçada de Carriche”, as preocupações sociais dos neorrealistas. Por outro lado, tal como Gedeão, Namorado abordou amiúde temas científicos, o que não admira dada a sua formação.

Seabra Pereira escalpeliza muito bem a lírica de Namorado. Mas o melhor aqui será mostrar alguns exemplos. Os dois primeiros livros de Namorado são marcados pela Segunda Guerra Mundial. O título do primeiro é retirado do poema “Aviso à Navegação”, que é por si só uma bandeira de resistência: “Alto lá!/ Aviso à navegação!/ Eu não morri:/ Estou aqui / na ilha sem nome, / sem latitude nem longitude,/ perdida nos mapas,/ perdida no mar Tenebroso!// Sim, eu,/ o perigo para a navegação!/ o dos saques e das abordagens,/ o capitão da fragata/ cem vezes torpedeada,/ cem vezes afundada,/ mas sempre ressuscitada!// Eu que aportei/ com os porões inundados, / as torres desmoronadas,/ os mastros e os lemes quebrados/ - mas aportei!// Não espereis de mim a paz!/ Aviso à navegação:/ Não espereis de mim a paz!// Que quanto mais me afundo/ maior é a minha ânsia de salvar-me!/(…)”. No segundo livro, Incomodidade, o tom trágico-cómico está patente no poema “Tragédia Antiga”: “Deitem-me às feras do circo!// Que me importa/ que a multidão se debruce das bancadas/ e o César obeso e debochado/ me olhe de través/pelo óculo de esmeraldas?!// Amanhã vou à manicure... “ E o tom irónico está em “Mania das Grandezas”: “Pois bem, confesso:/ fui eu quem destruiu as Babilónias/ e descobriu a pólvora.../ Acredite,/ a estrela Sirius, de primeira grandeza,/ (única no mercado)/ deixou-ma meu tio-avô em testamento./ No meu bolso esconde-se o segredo/ das alquimias/ e a metafísica das religiões/ — tudo por inspiração!/ Que querem/ Sou poeta/ tenho a mania das grandezas...// Talvez ainda venha a ser Presidente da República...” Gosto, em particular, pela concisão e pelo humor, de três poemas muito curtos: “O Caruncho do Eterno”: “Se nós não existíssemos/ Cervantes nunca seria imortal”; “Aventura nos Mares do Sul”: “Eu não fui lá…”; e “Fábula”: “No tempo em que os animais falavam.../ Liberdade!/ Igualdade!/ Fraternidade!”

No mesmo livro destaco, sobre a pobreza, o poema ”Caridade”, segundo o autor uma das “cinco virtudes mortais”: “As senhoras da sociedade/ deram um baile a rigor/ para vestir a pobreza/ e a pobreza horas a fio/ cortou, coseu, enfeitou/ os vestidos deslumbrantes/ que a caridade exibiu./ Depois das contas bem feitas/ bem tiradas as despesas/ arranjou um namorado/ a mais nova das Fonsecas;/ esteve bem a viscondessa,/ veio o nome e o retrato  da comissão nos jornais,/ e o doutor, o Menezes,/ o senhor desembargador,/ estiveram muito engraçados,/ dançaram o tiro-liro/ já meio-tombados.../ Parece que ainda sobrou/ algum dinheiro para chita/ para vestir a pobreza/ numa festa comovente  com discursos de homenagem/ e uma missa.../ a que assistiu toda a gente”.

Depois de Incomodidade o organizador colocou o poema “Combate”, a muito conhecida letra de uma das “Canções Heróicas” de Fernando Lopes Graça: “nada poderá deter-nos/nada poderá vencer-nos.” As pessoas da minha geração ouvem a música quando lêem o poema…

No final do livro A Poesia Necessária, o autor volta ao tema da pobreza, no poema “Edital”, com algumas palavras em maiúsculas: “Foi afixado/ nos locais do costume/ que É PROIBIDO MENDIGAR.// Logo mão que se descobre/ escreveu a tinta por baixo/ MAS NÃO É PROIBIDO SER POBRE. “

O primeiro poema de Zoo é “Serenata”: “Metam o burro na gaiola/ de douradas grades/ e tratem-no a alpista/ se quiserem/ —  é só um despropósito./ Mas esperar dele o trinar/ do canário melodioso/ é simplesmente tolo.”  Um dos Falsos Poemas Lógicos é "O que é, era": “Quando Cristóvão Colombo/ descobriu a América/ a América estava lá;/ o sangue já circulava/ antes de descrever Harvey a sua circulação;/ a gente respirava sem saber/ que respirar é uma oxidação:// Tudo existe./ O que se inventa é a descrição.” Ora aqui está uma boa tirada poético-filosófica sobre descoberta e invenção.

 

UMA BIBLIOTECA DO FUTURO


Bibliografia também publicada na revista BICA:

Woody Allen diz que gosta muita do futuro, porque “é lá que vai passar o resto dos seus dias.” Eu também gosto. E, por isso, há muito que tenho umas estantes da minha biblioteca  dedicadas a esse tema. Arrumei-a agora, tendo verificado que, passado o tempo, tenho vários livros do século passado que previam como ia ser o mundo no ano 2020. Separei-os para ver como falharam, pois, o futuro é sempre uma surpresa. Apesar ou talvez por causa dos erros de previsão, prever é sempre um desafio interessante. Alinhei aqui uma lista de doze livros, publicados em português nos últimos dez anos, que dizem como vão ser as próximas décadas. Denominadores comuns são as mudanças tecnológicas e as alterações climáticas. Não podiam prever o vírus que nos apanhou neste ano. A ordem é a alfabética do apelido do autor:

1-Daniel Franklin (coord.). Megatech. As grandes inovações do futuro, Lisboa: Clube de Autor, 2017 este é um livro ligado à revista The Economist, que trata da alimentação, saúde, energia e transporte no futuro, enfatizando as mudanças causadas por mudanças tecnológicas. O livro baseia-se na opinião de empresários e filantropos como Melinda Gates, cientistas como o Nobel da Física Frank Wilczek, para além de um grupo de jornalistas da revista.

2- Jean-Gabriel Ganascia, O Mito da Singularidade. Devemos temer a inteligência artificial? Lisboa: Temas e Debates - Círculo de Leitores, 2018. Um autor francês, professor na Universidade Pierre e Marie Curie, desmonta o mito da “singularidade”, uma previsão que alguns fazem do momento em que a inteligência artificial superará a inteligência humana, iniciando-se em futuro transhumano.

3- Yuval Noah Harari, Homo Deus. História breve do amanhã, Amadora, Elsinore, 2019. O autor é um historiador israelita que é actualmente o maior autor de best-sellers de não-ficção: este seguiu-se a Sapiens. Hstória breve da Humanidade. É uma visão macro-histórica, fundamentada no passado na relação entre história e biologia, e no futuro sobre a relação entre seres humanos e máquinas. A tradução é do escritor Bruno Vieira Amaral.

4-Daniel Innerarity, O Futuro e os seus Inimigos. Uma defesa da esperança política, Lisboa: Teorema, 2011. O filósofo político espanhol, professor na Universidade de Saragoça  e professor convidado na Sorbonne em Paris (foi lá que deu as lições que originaram o livro), é considerado um dos maiores pensadores dos nossos tempos. Pretende uma reorientação da política para o futuro. O livro é elogiado por Madeleine Albright, ex-secretaria de Estado dos EUA, e por Walter Isaacson, autor de biografas famosas.

5- Michio Kaku, A Física do Futuro, Como a ciência moldará o mundo nos próximos cem anos, Lisboa: Bizâncio, Lisboa, 2011. O autor, professor de Física Teórica  no City College de Nova Iorque, é autor de vários best-sellers de prospectiva, que incluem a Física do Impossível, Visões e  O Futuro da Humanidade. Com presença assídua na rádio e TV norte-americanas, faz previsões a muito longo prazo. Entrevistei o autor para o Público quando ele veio a Lisboa.

6- Elizabeth Kolbert, A Sexta Extinção, Lisboa: Elsinore, 2018 (1.ª ed., Lisboa: Vogais, 2014). Da autoria de uma jornalista do New York Times, este livro discute extinções que ocorreram no passado e fala da eventual extinção da espécie humana devido às alterações climáticas globais. O livro foi premiado com o prémio Pulitzer de não-ficção em 2015. Tem um elogio de Al Gore na badana.

7– Paul Mason, Um Futuro Livre e Radioso. Uma defesa apaixonada da humanidade, Lisboa:  Objectiva, 2019. O autor é um jornalista e ensaísta premiado, que já tinha tido êxito com o livro Pós-capitalismo-um guia para o nosso futuro. Nesta obra critica o capitalismo neo-liberal, aponta o dedo á desintegração intelectual, económica e política e, numa visão humanista, entrevê o futuro.

8- Joseph S. Nye, Jr. O Futuro do Poder, Lisboa: Temas e Debates - Círculo de Leitores, 2018. Um rofessor universitário e político norte-americano, membro de varias academias e laureado com vários prémios, explica como o poder tradicional vai ser mudado pela evolução tecnológica. O panorama geoestratégico está a mudar de um modo acelerado.

9- Tim O’Reilly, Como Será o Futuro e porque defende de nós. Lisboa: D. Quixote, 2018. O autor é fundador e CEO das O’Reilly Media, uma empresa de Silicon Valley que fornece ensino à distância, conferências e publicações, além de ser gestor de um fundo de capital de risco. Fala do mundo governado por algoritmos  e das novas empresas como a Uber. Na capa diz que é um best-seller WTF, o que significa Where’s the Flow.

10- Robert Shapiro, O Futuro, uma Visão Global do Amanhã. Como as superpotências, populações me a globalização vão mudar a forma como vivemos e trabalhamos Lisboa: Actual, 2010. Fundador e presidente de uma empresa de consultadoria, o autor, professor da Universidade de Harvard, foi político na administração Clinton. Discute a demografia, a globalização, a tecnologia e as crises.

11- Eric Schmidt e Jared Cohen, A Nova Era Digital. Reformulando o futuro das pessoas, das nações e da economia. Lisboa: D. Quixote, 2013.  Este é um best-seller do New York Times escrito pelo fundador e chairman da Google, depois de ter sido CEO muitos anos, e pelo director da Google Ideas.  Esses visionários expõem o que pensam sobre o nosso futuro digital. Não se trata apenas de tecnologia, mas também de vida e política. Alguns dos nomes que abonam o livro na badana são Bill Clinton, Henri Kissinger e Tony Blair.

12– David Wallace- Wells, A Terra Inabitável, Lisboa: Lua de Papel, 2019.  Jornalista da revista New York faz uma previsão que solicita o nosso alerta urgente , num ensaio que começou por ser publicada  naquela revista, sobre o futuro do nosso planeta, ameaçado como está pela acção humana, num livro que está a ser bastante lido e discutido em todo o mundo. Escrevi o prefácio.

SABER O FUTURO


Meu artigo no último número da revista BICA:

Foi o realizador norte-americano Woody Allen que disse “gosto muito do futuro porque é lá que vou passar o resto dos meus dias.” Será difícil não concordar. Daí as constantes e múltiplas tentativas que a Humanidade tem empreendido para preparar o futuro. O futuro é connosco no sentido em que, usando o nosso melhor conhecimento e os melhores meios tecnológicos proporcionados por esse conhecimento, podemos criar condições de vida que irão perdurar. Se é certo que o conhecimento ajuda muito na construção do futuro, não é menos certo que ele se tem revelado sempre uma caixinha de surpresas. Quem faz previsões e arrisca-se sempre a errar.

A futurologia é a disciplina que, com base no actual conhecimento, efectua previsões, naturalmente falíveis. Grandes nome da futurologia, que encontraram ampla audiência pública, são os norte-americanos Rachel Carson (1907-1964), Daniel Bell (1919-2011), Hermann Kahn (1922-1983), Alvin Toffler (1928 -2016), e os franceses Bertrand de Jouvenel (1903-1987) e Jean Fourastié (1907-1990). Na actualidade têm-se destacado os norte-americanos Michio Kaku (n. 1947) e Ray Kurzweil (n. 1948), e o israelita Yuval Harari (n. 1976).  

Os computadores são hoje em dia um instrumento imprescindível para fazer previsões, não só porque acumulam informações mas também permitem correr simulações. Mas as melhores previsões ainda continuam a ser feitas por humanos, eventualmente servindo-se de computadores. Um projecto particularmente interessante é o do psicólogo canadiano Philip Tetlock (n. 1954), autor do livro Superprevisões: A Arte e a Ciência da Previsão (2015), escrito com Dan Gardner. A ideia dele, financiada por agências de segurança dos Estados Unidos, é que se pode, com treino adequado, desenvolver capacidades de previsão em pessoas que não são necessariamente génios.

O passado é o melhor guia

Há algumas coisas que podemos prever com confiança guiados pelo nossa experiência passada. Uma daquelas em que mais acredito – e tenho boas razões para acreditar - é de que, no futuro, vamos saber mais do que sabemos hoje. Já no século XVI, o médico português Garcia da Orta (c.1501-1568) escreveu, com manifesto optimismo, que “o que não sabemos hoje amanhã saberemos.” Foi nos séculos XVI e XVII – no tempo da chamada Revolução Científica – que surgiu o método científico que tem guiado o caminho da Humanidade desde então. O físico britânico David Deutsch (n. 1953) no seu livro O Início do Infinito (2011), diz que com a Revolução Científica se iniciou um processo sistemático de ampliação do conhecimento, uma vez que passámos a dispor de um meio para criar conhecimento seguro. No século XVIII surgiu, na sequência dessa Revolução, uma outra, a Revolução Industrial, que permitiu substituir o trabalho animal e algum trabalho humano por trabalho de máquinas (um marco foi a máquina a vapor de James Watt em 1776). Já não se via uma mudança tão grande na vida da Humanidade desde a Revolução Neolítica, há cerca de 10.000 anos, quando os caçadores–colectores passaram a fazer agricultura e pecuária perto das suas habitações, aglomeradas em povoações. No século XIX ocorreu uma segunda vaga da Revolução Industrial com a substituição gradual das máquinas a vapor por máquinas eléctricas (um marco foi o primeiro dínamo de Faraday em 1831). Já no século XX ocorreu uma terceira vaga da Revolução Industrial, com o desenvolvimento da electrónica (um marco foi a invenção do transístor em 1947) e dos computadores (marcos foram o aparecimento do computador pessoal em 1974 e a World Wide Web em 1990). 

A Revolução Industrial levou a um crescimento explosivo da economia, um crescimento que continua nos tempos de hoje. É lícito esperar que essa tendência prossiga no futuro, isto é, que se produza cada vez mais riqueza, embora existam nítidas e persistentes desigualdades na sua distribuição.

A maior riqueza permitiu a mais gente ter acesso a um conjunto de bens que a ciência e a técnica foram proporcionando. O século XIX viu nascer, falando de inventos mais ligados à física: a telegrafia, eléctrica e sem fios, o telefone, a lâmpada eléctrica e a electrificação, os raios X, a bicicleta, o automóvel e o comboio. O século XX viu nascer o avião, a rádio e a televisão, a energia nuclear, os electrodomésticos, os computadores, os lasers e as fibras ópticas, os satélites e as viagens espaciais, a Internet e o GPS. Mas, nos dois últimos séculos, houve muitos outros inventos, incluido alguns ligados à química (os adubos, o plástico e  a pílula anticoncepcional) e outros ligados à biologia e à medicina (o conhecimento dos gérmens, as vacinas, a aspirina, a penicilina, a estrutura do ADN e o projecto do genoma humano). Avanços no saneamento, na nutrição e na medicina conduziram a um contínuo aumento da longevidade humana que continua nos días de hoje. Baseado em todos esses avanços do passado, será seguro prever a continuação desse progresso material e do maior conforto do homem como habitante do planeta.

Erros de previsão

E, no entanto, algumas destas invenções, que hoje são banais nas nossas vidas, foram imprevisíveis. Ninguém previu, por exemplo, no alvor da última década do século pasado, o aparecimento da World Wide Web no CERN, um laboratório de ciência fundamental, nem o seu rápido crescimento em todo o globo, mudando completamente a nossa vida.

Mas já antes tinha havido grandes dificuldades e falhas de previsão, tanto na ciência como na tecnología. Alguns grandes nomes da ficção científica como o francês Júlio Verne  (1828-1905) fizeram  previsões bem sucedidas, como a da viagem à Lua ou a de grandes viagens submarinas, mas no século XIX não era de todo possível conceber  o que seria o século XX. Muitos sábios falharam. O físico norte-americano Albert Michelson (1852-1931), coautor da famosa experiência que permitiu eliminar a hipótese do éter como meio de propagação das ondas electromagnéticas, afirmou em 1894: Parece provável que a maior parte dos grandes princípios já estão firmemente estabelecidos e que os avanços futuros precisam de ser procurados arduamente na aplicação rigorosa desses princípios a todos os fenómenos de que temos conhecimento. (…) As verdades futuras da física devem ser procuradas na sexta casa decimal.” Não tinham ainda passados dez anos e já havia teorias físicas completamente novas: a teoria quântica e a teoria da relatividade, que haveriam de permanecer inabaláveis até aos dias de hoje. Houve quem tivesse boas premonições. O britânico Lord Kelvin (1824-1907), um dos maiores físicos do século XIX, numa conferência na Royal Institution de Londres em 1900, que havia, na física clásica, dois pequenos problemas por resolver: “A beleza e a claridade da teoria dinâmica, que coloca calor e luz como modos de movimento, está presentemente obscurecida por duas nuvens.” Essas duas “nuvens” deram lugar às duas teorias referidas, que são os pilares da física moderna e que, em particular a teoría quântica, proporcionaram enormes transformações do nosso modo de vida.

No inicio do século XX houve algumas previsões que se revelaram acertadas Por exemplo, o grande autor britânico da ficção científica Herbert George Wells (1866-1946) previu as comunicações rápidas, a bomba atómica, os lasers, a engenharia genética, etc. Mas outras pessoas notáveis falharam nas suas previsões. O marechal francês Ferdinand Foch (1851-1929), professor de Estratégia na Escola Superior de Guera em Paris, que seria comandante das forças aliadas no frente oeste durante a Primeira Guerra Mundial, declarou em 1911 que “os aviões são brinquedos interessantes, mas não têm qualquer valor military.” No entanto, naquela guerra os aviões começaram a revelar a sua enorme utilidade, tendo-se revelado decisivos na guerra mundial seguinte.

Sobre os computadores, que proliferaram no mundo de forma vertiginosa nos últimos 40 anos, também há todo um reportório de previsões falhadas. Vejamos, como exemplos, os grandes erros de três líderes norte-americanos da indústria informática. Em 1943, Thomas Watson (1874-1956), fundador da IBM, afirmou: Penso que no mundo só há mercado para talvez uns cinco computadores.” Mais tarde, em 1977, Ken Olsen (1926-2011), fundador da, uma companhia pioneira na indústria de computadores,  declarou: “Não há nenhuma razão para que um cidadão comum queira ter um computador em sua casa.”  E Bill Gates (n. 1955), fundador da Microsoft declarou, em 1981, que “Uma memória de 640 k deve ser suficiente para qualquer pessoa”. Todas essas frases parecem-nos hoje ridículas. Houve, porém, quem conseguisse fazer previsões acertadas a longo prazo. O engenheiro norte-americano Gordon Moore (n. 1929), fundador da Intel, previu em 1965 que os chips dos computadores iriam duplicar o número dos seus transistores a cada 18 meses - a famosa lei de Moore-, e essa previsão acabou por ser cumprida ao longo de décadas. Há quem diga que uma das razões é que a Intel controlava a indústria…

Ninguém foi capaz de prever a libertação da energia nuclear, tal como ocorreu no final da Segunda Guerra Mundial. É certo que Pierre Curie (1859-1906), o marido de Madame Curie e um dos pioneiros da radioactividade, tinha dito, na sua Conferência Nobel em 1905: “Pode-se inclusive considerar que o rádio pode tornar-se muito perigoso em mãos criminosas e, aqui, levanta-se a questão quanto à capacidade da humanidade de se beneficiar do conhecimento dos segredos da natureza, se está pronta para lucrar com isso e se essa sabedoria não será prejudicial.” Mas ninguém podia adivinhar o uso bélico dado à energia nuclear. Os militares não previram. Em 1945, o almirante norte-americano William Leahy (1875-1959), disse ao presidente Truman em 1945 a respeito da bomba atómica: Esta é a maior tolice de sempre. A bomba atómica nao explodirá nunca, e falo como especialista em explosivos.” As explosões de Hiroshimna e Nagasaki calaram-no. Os átomos passaram depois da guerra a servir para a paz, mas ninguém conseguiu prever Chernobyl nem Fukushima. Assim como ninguém conseguiu prever quando haverá uma instalação prática que permita fornecer energia nuclear de fusão, um dos santos grais da Física para produzir energia limpa em abundância.

Sobre o espaço, a colocação em órbita do primeiro satélite artificial, o Sputnik-1, em 1957, foi uma surpresa para muita gente. Em particular, para os norte-americanos. Em resposta, o presidente John Kennedy previu, em 1962 que os EUA seria o primeiro país a chegar à Lua, ainda antes do fim dessa década, uma profecia que foi concretizada em 1969 graças aos avultados meios colocados à disposição da NASA. É, como no caso da Intel, o que se pode chamar uma profecia que se auto-realiza. Quando as leis da física o permitem e o profeta tem os meios para concretizar a profecia, é fácil ser um profeta bem sucedido.

Em contraste, as previsões feitas no século passado e mesmo neste sobre a ida a Marte dificilmente se concretizaram. Eu próprio escrevi um artigo em 1990 na revista Omnia (intitulado “A Difícil arte de prever o futuro”) em que, com um optimismo temperado por um ponto de interrogação, dizia que a primeira viagem a Marte poderia ocorrer em 2015. Já passaram cinco anos sobre essa data e não só ainda não se foi ao planeta vermelho como ninguém consegue prever com segurança quando se lá irá. A viagem é permitida pelas leis da física e o grande roblema são os avultados meios para efectivar a viagem.

A aposta Ehrlich-Simon

Há uma coisa que devemos aprender com a história no que respeita à previsão do futuro. Não devemos nunca desprezar a capacidade humana de inovar e, portanto, os desenvolvimentos tecnológicos que pode surgir. Nos anos 80 houve uma aposta envolvendo previsões que ilustra bem esta essa capacidade.

O norte-americano Paul Ehrlich (n. 1932), professor de Biologia na Universidade de Stanford, é um dos ecologistas mais conhecidos pelos seus avisos sobre os efeitos do crescimento populacional. Publicou em 1968 um livro, que se tornou rapidamente um clássico, sobre o crescimento populacional e suas consequências (A Bomba Populacional), que teve uma sequela  (A Explosão da População, 1990). Nessas obras expôs as razões para temer para o futuro. Os motivos pareciam evidentes: A curva da população mundial estava a subir vertiginosamente, mas os recursos existentes na Terra para satisfazer as necessidades dessa população eram finitos. A certa altura teria de haver pessoas com necessidades.

Os pessimistas costumam ter optimistas por opositores. Julian Simon (1932 –1998), professor de Economia na Universidade de Maryland, depois de ter estudado a questão levantado por Ehrlich, concluiu que poderia haver um ou outro problema local relacionado com o excesso de habitantes na Terra, mas que no global não haveria problema nenhum. Quanto mais cabeças houvesse na Terra maior seria a pool de criatividade de onde novas ideias e soluções poderiam surgir. Simon publicou em 1980 na Science um artigo em que criticava as conclusões dos ecologistas pessimistas como Ehrlich. Se há mais gente a procurar mais matérias-primas e estas são limitadas, Ehrlich concluía que elas tinham de aumentar de preço, conforme manda a lei de oferta e da procura da economia. Errado, resplicou Simon, explicando: devido ao progresso das tecnologias que são necessárias para as suas extracção e transformação, o preço desses recursos não ia, a prazo, subir mas sim baixar. Ehrlich e Simon resolveram adoptar um exemplo concreto para confrontar as suas posições. Em 1980 fizeram uma aposta sobre o preço daí a dez anos de um conjunto de metais de utilização comum (cobre, crómio, estanho, níquel e tungsténio). Ehrlich previa que iam ser mais caros, ao passo que Simon previa que iam ficar mais baratos. Em 1990, foi a altura de verificar quem tinha ganho.

Ganhou Simon. Corrigindo os preços para levar em conta a inflacção, esses metais tinham de facto descido de preço. Aliás não era praticamente necessária essa correcção porque a descida era bastante acentuada. Ehrlich não teve mais do que pagar ao seu antagonista. As razões da descida de preço eram claras e corroboravam a tese de Simon: tinham-se desenvolvido novas tecnologias de detecção e extracção de jazidas metálicas e tinham-se substituído alguns materiais por outros. Foram, designadamente, descobertas novas jazidas de níquel, o crómio passou a ser extraído de uma forma mais eficaz, o tungsténio foi substituído por cerâmica em utensílios de cozinha, e o cobre passou a ser substituído por fibra óptica, que é feita de areia, muito mais abundante.

O boom da população mundial

A questão do crescimento da população e da escassez de recursos do planeta esteve também subjacente a um famoso relatório do Clube de Roma, um grupo de notáveis fundado em 1968, que tem debatido a economia, o ambiente e o desenvolvimento sustentável. O relatório intitulou-se Os Limites do Crescimento (1972), elaborado por uma equipa do MIT, contratada pelo Clube de Roma e chefiada pela ecologista norte-americana Donella Meadows (1941-2001). A visão era pessimista: usando sofisticados modelos matemáticos, os cientistas do MIT chegaram à conclusão de que o planeta não suportaria o crescimento populacional devido à pressão gerada sobre os recursos naturais, incluindo as fontes de energia, e devido ao aumento da poluição, mesmo levando em conta os previsíveis avanços tecnológicos. Haveria problemas na qualidade de vida, a começar logo pela saúde. O relatório vendeu mais de 30 milhões de exemplares em 30 línguas, tendo-se tornado o livro sobre ambiente mais vendido de sempre.

Mas, décadas volvidas, podemos confrontar com a realidade as conclusões do relatório Meadows. Vários analistas concluíram que as equações dos modelos eram muito sensíveis a pequenas variações de alguns parâmetros, pelo que as suas previsões não se podiam considerar fiáveis. Além disso, ocorreram inovações, que, por definição, são imprevistas.

A previsão do crescimento da população mundial resistiu à prova do tempo. Projecções da ONU têm augurado o crescimento contínuo dessa população, que ultrapassou há pouco tempo os sete mil milhões de pessoas, de modo a ultrapassar os dez mil milhões antes do fim do actual século (em 2019 a ONU previa que os habitantes da Terra seriam 10,9 mil milhões nessa altura). No entanto, essas previsões podem revelar-se falíveis. Segundo um estudo do Instituto de Medição e Avaliação de Saúde da Universidade de Washington, publicado em Julho de 2020, no fim do corrente século a população mundial estará dois mil milhões abaixo das previsões da ONU. Haverá um pico de 9,7 mil milhões por volta do ano 2064, caindo para 8,8 mil milhões em 2100. A razão é a queda da natalidade em numerosos países. Portugal é um exemplo concreto: devido à falta de nascimentos, a população portuguesa cairá para metade antes do fim do século, tornando-se um dos países mais envelhecidos do mundo. À escala global, essas são boas notícias para o ambiente, uma vez haverá menos pressão sobre ele. Mas para a economia dos países com maior decréscimo populacional, como é o caso português, as notícias não são boas. Não se vê como melhorar a situação a não ser com incentivos à natalidade e à imigração.

O clima e a energia

O relatório do Clube de Roma não foi alarmante sobre o aquecimento global. Esse é, porém, um problema que a ciência tem vindo desde então, e cada vez mais, a evidenciar, chamando a atenção dos políticos e da população em geral. Não restam dúvidas de que o nosso planeta está, em média, a aquecer e que esse aquecimento se deve à acção humana, designadamente aos processos de produção de energia, industriais e de mobilidade que levam a emissões de dióxido de carbono, que causam um excesso de efeito estufa. O Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, da ONU tem produzido sucessivos relatórios alertando para as consequências em vários domínios que vão da meteorologia à saúde, passando pela biodiversidade. Fala-se até de uma nova era, o Antropoceno, caracterizada pelo nefasto primado da acção humana sobre o ambiente. Em 1997 foi assinado o Protocolo de Quioto, uma resposta política global á ameaça anunciada. Na sua sequência, foi, em 2015, assinado o Tratado de Paris por quase todos os países do mundo (os Estados Unidos assinaram, mas não ratificaram), um acordo para a diminuição das emissões de dióxido de carbono. As previsões sobre o clima e o ambiente a curto e médio prazo são feitas com bastante segurança, mas, como o problema é extremamente complexo, existe alguma incerteza quanto à amplitude da questão num prazo mais longo. Este é decerto um dos problemas maiores do nundo de hoje e paira a dúvida sobre o que vai acontecer.

Mais uma vez, como no caso da aposta Ehrlich-Simon é bastante possível que a inovação venha em nosso auxílio. Há já muito que se desenvolvem e aplicam tecnologias para obter energias por fontes alternativas aos combustíveis fósseis (recorrendo às energias eólica, solar, hídrica, etc.), que se procuram processos industriais mais sustentáveis (com menores emissões de gases de efeito estufa), e que se desenvolvem veículos com menos ou nenhumas emissões (os veículos híbridos ou eléctricos).

O caso do petróleo é particularmente interessante. Vários especialistas têm tentado prever o fim do petróleo, uma vez que as reservas são evidentemente limitadas. Alguns disseram que estava quase a acabar. Mas o facto é que as novas tecnologias, como a extracção do petróleo de xisto, levaram a que ainda tenhamos reservas para cerca de 50 anos, continuando o consumo actual. A procura está a baixar, como é indicado pelos preços que, em média, estão a descer desde 2008 (na actual crise pandémica atingiu-se um mínimo de duas décadas). Embora seja desejável não depender dos combustíveis fosseis, o certo é que ainda dependemos em larga medida e não sabemos bem quando estaremos em condições de deixar de depender. Apesar dos seus riscos, o tema da energia nuclear voltou à baila, uma vez que não tem emissões de dióxido de carbono. Fala-se hoje muito em economia do hidrogénio, mas as previsões da sua implementação são muito incertas.

Os computadores e o futuro

Um desenvolvimento tecnológico vertiginoso e em larga medida inesperado ocorreu na área dos computadores. Se o mesmo desenvolvimento tivesse ocorrido na indústria automóvel hoje andaríamos de Ferrari pelo preço de uma bicicleta. São os nossos computadores mais poderosos que nos permitem fazer previsões sobre o futuro: num certo sentido, são as nossas bolas de cristal. No início da década de 60, quando os computadores pessoais ainda não existiam e a computação implicava grandes e dispendiosos monstros electrónicos, previa-se o triunfo a curto prazo da inteligência artificial, com os computadores a desempenharem muitas das tarefas humanas. Mas, apesar de o progresso ter sido lento, hoje o tema da inteligência artificial voltou em força (um marco desse desenvolvimento foi a derrota, em 1997, do campeão mundial de xadrez, Garry Kasparov, num jogo com uma máquina da IBM). Há quem anteveja que a inteligência artificial se vai desenvolver de tal maneira que haverá o que se chama uma “singularidade” daqui a cerca de 30 ou 40 anos, quando os computadores tiverem mais capacidade do que o cérebro humano. Seria o que poderíamos chamar “fim da história humana” e o começo de uma “história transhumana”.

A ideia, apesar de ser hoje muito debatida (Stephen Hawking  e Ellon Musk chamaram a atenção para o perigo de um futuro transhumano) não é propriamente nova. O engenheiro norte-americano de origem austríaca Hans Moravec (n. 1948), da Universidade de Carnegie-Mellon, previu no seu livro Homens e Robôs. O futuro das inteligências humana e robótica (1988), que robôs inteligentes iriam acabar por prevalecer sobre os seus criadores. Tal supremacia deveria  correr cerca do ano 2040. Por essa altura, poder-se-ia fazer o download da mente humana para dentro de um robô, assegurando assim uma vida eterna. Em defesa da sua tese, Moravec confessa que nunca percebeu por que razão o Pinóquio, um boneco de pau, queria ser humano. Ele em criança sonhava ser Pinóquio, o que lhe garantia uma recupeação fácil na oficina do Mestre Gepeto em caso de um eventual acidente. O professor de Robótica diz que as pessoas preferirão ser robôs, com o hardware imperecível, e um software com capacidade para expansão para além dos actuais e frágeis limites humanos.

Não sei, tenho dúvidas… Os computadores são velozes processadores de informação, mas não são ainda conscientes. Nem se sabe se algum dia poderão ser: não falte quem diga que não. E, para um futuro decente, a consciência é essencial.


quinta-feira, 26 de novembro de 2020

NOVOS CLASSICA DIGITALIA

  Os Classica Digitalia têm o gosto de anunciar 2 novas publicações com chancela editorial da Imprensa da Universidade de Coimbra. Os volumes dos Classica Digitalia estão disponíveis em formato tradicional de papel e também na biblioteca digital, em Acesso Aberto.

NOVIDADES EDITORIAIS

Volumes de Homenagem a Nair de Nazaré Castro Soares

António Rebelo & Margarida Miranda (Coords.), O Mundo Clássico e a Universalidade do seus Valores – Homenagem a Nair de Nazaré Castro Soares. Vol. I (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2020). 490 p.

DOI: https://doi.org/10.14195/978-989-26-2032-9.

António Rebelo & Margarida Miranda (Coords.), O Mundo Clássico e a Universalidade do seus Valores – Homenagem a Nair de Nazaré Castro Soares. Vol. II (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2020). 496 p.

DOI: https://doi.org/10.14195/978-989-26-2034-3.  

[Esta obra em dois volumes pretende homenagear a Prof. Doutora Nair de Nazaré Castro Soares, Professora Catedrática Jubilada da Universidade de Coimbra, num ato de reconhecimento pela sua carreira académica, que se desdobrou num profícuo e longo magistério, e numa investigação de excelência. Da sua longa e proveitosa atividade ao serviço da educação e da ciência beneficiaram muitas gerações de alunos e de investigadores, em Portugal e no estrangeiro. São esses discípulos, colegas e amigos que agora contribuem para a composição deste livro, com trabalhos que versam as várias áreas do saber em que ela se distinguiu e que conferem estrutura à organização desta obra: a literatura e a cultura greco-latinas, a tradição clássica medieval, os estudos do Humanismo e Renascimento, e a herança clássica no mundo moderno e contemporâneo.] 

Universidade e Indústria: financiamento da cooperação em Portugal

A GATARIA DE S.BENTO


“Para ser tolerante é preciso fixar os limites da intolerância”                                                                         (Umberto Eco).

Reavivam-se os protestos ao facto de eu ter tido a “Festa do Avante” e ter o “Congresso do PCP deste fim-de-semana como possíveis responsáveis pela propagação do coronavírus na zona da Grande Lisboa, com grande incidência no perímetro da cidade de Loures qual nódoa de gordura que se espalha.

 A Democracia, se não adulterada, tem a vantagem de cada um expor o seu ponto de vista sem ser em carneirada a balir em rebanho. Quanto ao grande ajuntamento de pessoas nada ter a ver com o coronavírus, para mais em acampamentos de três dias, como o acontecido com a última "Festa do Avante", permito-me discordar porque apoiado em cientistas que dizem precisamente o contrário, sem estarem carimbados com o estatuto de estupidez.

 Surge agora o sabichão camarário Fernando Medina na TV a afiançar-nos de cátedra que a realização do Congresso do Partido Comunista, numa altura em que o número de mortes pelo coronavírus atinge números de verdadeira tragédia mundial, se trata apenas de "um combate político"! 

O meu declarado anticomunismo emparelha com o meu antinazismo ambos culpados pela morte de milhões de pessoas em campos de concentração ou em estepes geladas. Um coisa nada despicienda distingue o nazismo que matou em massa judeus, que dominavam a banca alemã, por se terem recusado a comparticipar no esforço económico-militar da II Guerra Mundial, enquanto o comunismo cometeu esse crime de lesa Pátria contra os próprios concidadãos que se opunham ao comunismo criminoso de Estaline. Humanismo é o que falta à Humanidade, desde os seus primórdios aos dias de hoje. Nuvens medievas de trevas acastelam-se, novamente, perigosamente num horizonte plúmbeo. 

Quanto à consideração que tenho pelos meus discordantes que não utilizam a chicana ou o insulto barato não sai maculada com esta discordância. A coisa que mais abomino é o silêncio cobarde que leva a calarmo-nos "engolindo sapos vivos"! Desse mal, perdoe-se-me a imodéstia, julgo que não sofro. 

Mais critico, com veemência, os deputados de S. Bento que se esgatanham, quais gatos com cio, nos debates no Parlamento a merecer a leitura de artigos de jornal, publicados no livro “Os Gatos”, de Fialho de Almeida (1857-1911), sobre a comédia da vida portuguesa. E, ao que se diz, de que eu não posso servir de testemunha por não pertencer a essa ruidoso cenáculo de comensais que, depois de dizerem cobras e lagartos uns dos outros, vão jantar todos juntos em comunidade ruidosa de amigos de infância. 

 Ainda hoje assisti, via TV, em S. Bento, durante a votação do Orçamento do Estado/2021, ao corrupio de última hora de deputados a levantarem-se desordeiramente das suas bancadas, quais alunos indisciplinados de turma de professor “bananóide”, para regatearem entre si a tentativa de consensos.

 Esta situação transformou uma espécie de gata borralheira maltratada, segundo lamúrias suas pela cruel madrasta Bloco de Esquerda em desprezo pelo seu “altruísmo” em se manter em representação isolada na Assembleia da República que o manganão do dinheiro ganho ao fim do mês justifica. Refiro-me à apagada Joacine Katar feita “superstar” ao ser visitada no seu cantinho onde se mantém muda e queda na esperança de lhe arrancarem um simples voto que possa ser decisivo em caso de empate na votação do Orçamento do Estado, como, aliás, se veio a confirmar poucas horas depois de eu ter escrito esta previsão, qual adivinha de “branco é galinha o pôs”!

 E o que dizer às conversas bichanadas entre deputados das diversas bancadas (com excepção do Chega e do CDS nada titubeantes no caminho a seguir) cabulando entre si uma matéria que devia estar bem estudada por não ser colada a cuspe de última hora. 

 E assim caminha, sob o domínio do improviso e do desenrascanço, este pobre pais que esteve, uma vez mais, em risco de voltar a ser espoliado nos seus bolsos deserdados de fortuna que vivem do pão amassado pelo diabo para subsistirem no seu dia-a-dia de quase miséria. Refiro-me aos inúmeros milhões de euros pessimamente geridos por "banqueiros" que têm só arte em mendigar que os salvem em momentos de enrascanço por eles criados. Só que desta vez saíram-lhe os intentos furados por iniciativa do Bloco de Esquerda. Justiça lhe seja feita!

Do muito frio ao muito quente | 12º Aniversário do Rómulo

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

«As Pedras na Ciência e na Cultura» : Novo livro de Galopim de Carvalho

 


Apresentação por José Batista d'Ascenção:


O livro «As Pedras na Ciência e na Cultura» é uma «viagem» extraordinária pelo universo das rochas, de que a generalidade das pessoas tem um conhecimento superficial. Numa escrita primorosa, o rigor da informação e a objectividade são conseguidos com uma liberdade de exposição e uma «tonalidade» de escrita só ao alcance de quem possui uma vastidão de conhecimentos e uma capacidade de comunicação fantásticas, baseadas na paixão pelo saber e na vontade de o partilhar com o público.


Muito ganha o leitor ao iniciar esta «viagem». Porque pode seguir como quiser, do início ao fim, ou saltar pelos temas, voltar atrás, ou começar até do fim para o princípio, que não perde por isso. É como se navegasse num livro impresso tradicional, porquanto, cada tema ou capítulo é claro e atractivo em si mesmo e harmoniza-se com os restantes. Pode seguir ou «vaguear» por diversos «percursos», tamanha é a riqueza dos conteúdos, em termos científicos, mas também de cultura geral, onde cabem a explicitação dos étimos, a poesia, os adágios, o conto, a escultura, a arquitectura, a toponímia, ou a referência aos vultos que engrandece(ra)m a História do conhecimento geológico. Em qualquer caso, o leitor é transportado muito para além do estudo específico de minerais e rochas, como sejam as relações de uns e de outras com a economia dos povos e seus usos e costumes – a sua cultura, ou o modo como influencia(ra)m paisagens e seres vivos ao longo dos tempos.


Como se não bastasse, para entendimento do que é esta bola planetária em que nos cabe viver, há ainda a explicação alargada, em linguagem simples, dos impactos de corpos rochosos na Terra e das cicatrizes que deixaram nela, como que a transportar-nos para os limites do entendimento de quem somos no universo. Acresce, a cada passo, a revelação de curiosidades pertinentes que aumentam o prazer da leitura e a bagagem de conhecimentos.


Naturalmente, o livro também se presta valiosamente a visitas curtas ou consultas pontuais, em qualquer altura, aos seus diversíssimos temas ou a algum dos seus dois glossários finais.


Ao elucidar os fenómenos naturais (e artificiais) da origem e alteração de minerais e rochas, além de explicitar com clareza muitas das condições, das técnicas e das tecnologias com que o ser humano, desde as suas origens, procedeu à sua exploração e emprego, o livro «As Pedras na Ciência e na Cultura» poderia, resumidamente, classificar-se como uma obra de decifração (em linguagem acessível) do que as «pedras» são, da sua importância na litosfera (do grego lithos, rocha, e sphaira, esfera), das suas utilizações possíveis e da informação que nos podem fornecer. Como as «pedras» são o suporte em que a Natureza registou a sua História, não há como estudá-las para se entender o passado da Terra, imensamente anterior ao aparecimento da espécie humana, e conhecer os mecanismos geodinâmicos fundamentais, prevendo ou antecipando, de algum modo, os fenómenos geológicos que podem ocorrer no presente e no futuro, com implicações mais ou menos dramáticas no mundo vivo e nas realizações humanas. Esse estudo importa ainda como meio de alargar os conhecimentos que permitam explorar e transformar sustentavelmente os recursos minerais, assegurando a qualidade ambiental e o respeito pela importância dos geomonumentos.


É muito importante a divulgação e a compreensão, mesmo pelas pessoas comuns, dos mecanismos básicos e gerais da origem das diferentes rochas e das condições em que podem converter-se umas nas outras, ao longo do tempo geológico, num ciclo (petrogenético) não perceptível à escala temporal dos humanos, porque de uma dimensão muitíssimo mais longa. O Professor Galopim de Carvalho, no seu labor incansável e fecundo, fala-nos de tudo isso com a paixão serena de quem ama o que sabe e se dedica inexcedivelmente a divulgar o que estudou e aprendeu.


E fá-lo como poucos, contagiando com o seu entusiasmo os que tiveram o privilégio de terem sido seus alunos e muitos dos que leem o que escreve (em livros e revistas, em jornais, em blogues diversos ou nas redes sociais) ou ouvem as suas comunicações, sejam crianças de tenra idade, jovens ou adultos.


Por consequência, este livro nasceu com tanto empenho e generosidade, quanto o desejo de aumentar a literacia dos portugueses, numa área em que a preparação geral é tendencialmente fraca. Uma parte muito significativa do público-alvo são (ou deviam ser) os professores do 3º ciclo do ensino básico (7º - 9º anos de escolaridade) e do ensino secundário. Especialmente para esses, a obra surge plena de oportunidade. Da acção pedagógica dos professores depende a formação dos jovens, a qual, no que se refere à Geologia, e devido a factores vários, continua a revelar falhas comprometedoras e notória impreparação geral. Ora, nada melhor que (in)formação rigorosa e fundamentada, de preferência exposta com o dom da clareza, da elegância e da economia de palavras, numa escrita plena de harmonia nos termos e nos conceitos, no discurso, nas ideias e nos conhecimentos, que o saber e a arte do autor tornam próxima e convidativa. Livros assim são como que «acções de formação» (cómoda, fácil, agradável e proveitosa) sobre conteúdos relevantes prontos a assimilar e sempre disponíveis.


Mas o livro «As Pedras na Ciência e na Cultura» pode também ser muito útil no ensino universitário, sobretudo para os estudantes de ciências geológicas e áreas relacionadas dos primeiros anos, quer pelas falhas de preparação de anos anteriores, quer pela visão integrada e global da abordagem às «pedras» que proporciona.

Assim, ganham todos os leitores interessados numa cultura geral abrangente ou em conhecimentos específicos, desde o fabrico da cal e do cimento, às aplicações artesanais e industriais do barro, à elaboração da calçada portuguesa, à exploração de adubos, do gesso, do sal, do alumínio, do ferro, dos carvões ou das pedras preciosas, passando pela informação fornecida pelo estudo dos meteoritos, tudo isso e muito mais aqui harmoniosamente tratado pela pena do Professor Galopim de Carvalho. E de que ele nos fornece vastíssimos exemplos, por todo o território português ou em quaisquer locais do planeta - a “bola colorida” que é a nossa casa e onde temos que encontrar e gerir responsavelmente tudo o que precisamos para sobrevivermos enquanto espécie biológica.


Em boa hora este livro viu a luz do dia. Lê-lo é um prazer que faz crescer. É essa a sua função. Aproveitemos, em benefício próprio e em homenagem ao Bom Mestre e Homem Bom que o produziu.


Com admiração profunda e sentido agradecimento”.


José Batista d’Ascenção