domingo, 21 de julho de 2019

Se não paga pelo serviço, então o serviço é você!

Reprodução do quadro Cabeça de mulher velha,
de Vicent van Gogh
Foi notícia recente a disponibilização de uma aplicação no facebook (app) que, a partir de uma fotografia de alguém, "fabrica" a imagem desse alguém com mais alguns anos. Entendi que poderiam ser aqueles que o utilizador quiser. Isto significa que, no imediato, cada um de nós pode ver-se mais velho dez, vinte, trinta... cinquenta anos...

Sobre o assunto, vale a pensa ler no jornal Expresso o texto "As pessoas instalam todo o tipo de porcaria": há uma app que faz envelhecer e isso não é divertido, assinado por Hugo Tavares da Silva, que se encontra online. Para o escrever, entrevistou dois investigadores - Pedro Veiga e Luís Grangeia -, que sabem bem do que falam. 

Trata-se de um texto que, na sua clareza, assinala o que a educação não conseguiu e não está a conseguir fazer: criar uma consciência profunda do valor da privacidade.

"Mas fica desde já o aviso: se não quer que os seus dados pessoais acabem não se sabe onde, o melhor é não utilizar esta aplicação. E lembre-se: se não paga pelo serviço, então o serviço é você. «Além da asneira de instalar, as pessoas cometem a asneira de não a remover» (...). 
Trata-se da FaceApp, da empresa russa Wireless Lab, que nem é nova mas que conta com filtros novos para manipular a nossa aparência (penteados diferentes, outros traços ou toques no rosto, diferentes fases da vida, por exemplo) (...). Foi um fartote nas redes sociais, uma espécie de viagem no tempo. 
Até os jornais alinharam em publicar fotografias de atletas com uma idade mais avantajada, fazendo fácil imaginar um campeonato de veteranos de alto gabarito. 
Mas, como quase sempre, há um outro lado da história. E real. É caso para recorrer à já batida frase: se não paga pelo serviço, então o serviço é você. 
Em troca daqueles segundos de pura satisfação e partilha pelo que cada pessoa ainda não é mas será quando envelhecer, a empresa fica com uma enormidade de dados dos utilizadores, autorizada, lá está, pelos próprios utilizadores. 
Está tudo nos nove pontos da política de privacidade daquela app. Entre a autorização a acesso a contactos, fotografias e até histórico, criando uma espécie de perfil do internauta, a FaceApp admite ainda que a informação recolhida pode ser partilhada com terceiros. 
Quais terceiros? Ninguém sabe. «Isto é uma história interminável», [explica] Pedro Veiga, professor na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e ex-coordaenador do Centro Nacional de Cibersegurança. «É o mesmo que baterem à sua porta e dizerem: ‘Olhe, posso entrar e ir ali ao frigorífico comer uns iogurtes?’. E você diz que sim. É um problema de educação. As pessoas não devem instalar aplicações nos seus equipamentos quando não precisam delas. Mas acham-no divertido…» 
E continua: «As pessoas dizem que é gratuito. Bom, você não paga diretamente, paga indiretamente, dando a sua privacidade. Não há almoços grátis. Até ao histórico têm acesso… para quê!? (...) O que me interrogo neste caso é, até havendo agora o regulamento geral de proteção de dados, se a nossa entidade reguladora da proteção de dados não deveria intervir…» (...)
Luís Grangeia, especialista em segurança informática, complementa: «Eles não estão a fazer mais do que 99% das outras aplicações fazem. As pessoas nem precisavam de ler as políticas de privacidade, hoje em dia, para estarem completamente convencidas que eles vão tirar tudo e pegar naqueles dados e usá-los, vendê-los da forma que lhes der mais lucro. Isso é garantido. A não ser que paguemos por uma aplicação, não podemos ter expectativa de privacidade.» 
Grangeia revela que, para aplicarem um filtro desta natureza, recorrem a machine learning, a inteligência artificial. «Eles têm de copiar o conteúdo da foto para os servidores deles. Não é só metadados, as horas a que usamos a app ou o filtro que metemos.»
Pedro Veiga explica que o novo regulamento de proteção de dados traz uma novidade: antes, quando uma empresa queria recolher dados, deveria notificar a Comissão Nacional de Dados; agora as empresas não precisam de notificação prévia, mas, se estiverem a violar a lei, podem ser alvo de investigação. 
«Outra dimensão importante do regulamento geral de dados tem a ver com a transterritorialidade. Enquanto, antigamente, nos víamos aflitos quando a empresa que recolhia dados era no estrangeiro, agora pode fazer-se uma queixa junto da autoridade nacional, que terá a responsabilidade de interagir com os seus parceiros noutros países para resolver o problema» (...).
O professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa teme pelo futuro. «Estamos a entrar num universo extremamente complexo. As pessoas também são culpadas porque não têm cuidados, porque instalam todo o tipo de porcaria. E, depois de usarem a aplicação, esquecem-se de a remover. Além da asneira de instalar, a asneira de não remover. Estamos expostos. A privacidade acabou. O conceito que tínhamos de privacidade está a acabar. Os mais jovens já olham de uma maneira diferente da que eu olho para este tema. Para eles, é normal publicar tudo e expor a vida toda». 
Mais: «Se não houver controlo, é extremamente preocupante. O impacto nas eleições dos Estados Unidos parece mais ou menos evidente. Também o Brexit, no Reino Unido. Estou extremamente pessimista. A capacidade de intrusão nas nossas vidas é enorme». 
Para dar força a este argumento, Pedro Veiga deu o exemplo de uma família norte-americana que começou a receber panfletos sobre gravidez no correio de casa. Informações de berços, produtos para bebés, etc. «Passados dois meses, a filha de 14 anos veio anunciar que estava grávida. Não disse aos pais, então quis saber mais e andou no computador de casa a fazer pesquisas associadas à gravidez. Aquilo foi detectado e cruzaram isso com a residência deles e passaram a enviar folhetos pelo correio». 
Os lamentos sobre o tamanho e complexidade das políticas de privacidade que essas aplicações apresentam aos utilizadores antes de serem instaladas (e que os utilizadores aceitam quase sempre sem as ler) é algo que não é raro escutar. Será um dos caminhos mudar esse texto e tornar a informação mais curta e explícita? 
«Sim, é algo que grandes empresas já estão a fazer. A Google simplificou imenso, há poucos anos, os termos de privacidade… e mesmo assim são gigantes», conta Luís Grangeia. «Acho que é por aí, mas acho sobretudo que as pessoas não perceberam que a sua percepção de privacidade dos seus dados está completamente desalinhada com a das grandes empresas que trabalham na cloud e com os nossos dados. As pessoas têm de realinhar as expectativas. Tudo o que envio para a cloud, em princípio, pertence àquela empresa. Em países em que as democracias são mais frágeis, os dados podem ser usados contra nós. Funciona porque vivemos em democracias maduras, mas quando as coisas começarem a piorar (...) as pessoas têm de ter cuidado porque são ativamente perseguidas». (...) Os dados já navegam por aí, nessa atmosfera invisível (...). No fundo, estamos mais expostos do que nunca e há empresas que fazem negócio com as informações que recolhem de utilizadores que, voluntariamente, as ofereceram em troca de um qualquer serviço lúdico.

sexta-feira, 19 de julho de 2019

LETRAS E CIÊNCIAS, COM A LUA NO MEIO

Como amanhã se comemoram os 50 anos da chegada à Lua recupero um texto do meu livro "Curiosidade Apaixonada" (Gradiva, julgo que esgotado), onde a Lua entra:


É muito antiga a divisão entre as várias disciplinas. A barreira mais alta é a que se ergue entre letras e ciências, as designações tradicionais mas infelizes para conjuntos de disciplinas (em vez de letras será melhor dizer-se ciências humanas e em vez de ciências será melhor dizer-se ciências exactas e naturais). Mas há outras barreiras um pouco menores: dentro das letras, por exemplo entre a literatura e a história e, dentro das ciências, por exemplo entre a física e a biologia. Têm-se não só objectos e metodologias diferentes mas também linguagens diferentes. Quem escolhe a linguagem literária, salvo algumas excepções, é quem recusa a linguagem matemática – a linguagem das ciências exactas e naturais.

Mas serão as linguagens das letras e das ciências mesmo antagónicas? Poder-se-ia a este respeito citar vários cientistas que se pronunciaram sobre o assunto. Mas cite-se antes um escritor, o italiano (embora nascido em Cuba)  Italo Calvino, que, em vários dos seus livros, mostra claramente uma influência científica (ver, por exemplo, as colectâneas de contos  Cosmicósmicas” e “Novas Cósmicómicas”, publicadas entre nós pela Teorema). No seu livro de ensaios  Ponto Final. Escritos sobre Literatura e Sociedade” (Teorema,  2003, tradução do original italiano “Una pietra sopra”), publicam-se duas breves entrevistas de Calvino sobre ciência e literatura. O entrevistador fala da hipotética  necessidade do escritor de vanguarda se tornar cientista” e interroga o autor de “Cósmicómicas” sobre “o que justificará a literatura em relação à ciência”? Eis a resposta:

“Não pode haver nenhuma coincidência entre a linguagem matemática e a linguagem literária, mas pode haver (precisamente pela sua extrema diversidade) um desafio, uma aposta entre elas. (...) A literatura pode servir de mola propulsora para o cientista: como exemplo de coragem na imaginação, no levar uma hipótese às extremas consequências. E pode acontecer o contrário: o modelo da linguagem matemática, da lógica formal, pode salvar o escritor do desgaste em que caíram as palavras e as imagens devido ao seu falso uso”.

Noutro passo da entrevista é abordada a afirmação feita noutra ocasião por Calvino de que Galileu seria o maior escritor italiano de sempre, o que será certamente uma grande heresia para muitos professores de literatura (bem, para dizer a verdade, Calvino queria dizer prosador, uma vez que reserva o primeiro lugar na poesia a Dante).

Recorde-se que Galileu é o autor de duas grandes revoluções que têm a ver com a linguagem. Por um lado, escreveu alguns os seus livros científicos mais importantes em italiano e não em latim: queria evidentemente ser lido, no seu país, por toda a gente e não apenas pelos eruditos. Por exemplo, o “Discurso sobre Duas Ciências Novas”, o livro fundador da mecânica e da ciência de materiais, intitulava-se no original de 1634 “Discorsi e demontrazioni mathematiche intorno a due nuove scienze attenenti alla meccanica.” Por outro lado, defendeu, com enorme vigor e clareza, que a Natureza estava escrita em linguagem matemática, isto é, que ela só se deixava compreender recorrendo a essa linguagem. Ora leia-se a este propósito este naco da saborosa prosa de Galileu, extraído de “Il Saggiatore” (1623): 

«A filosofia do Universo, esse grandíssimo livro que continuamente está aberto em frente de nossos olhos, não se pode entender sem primeiro se conhecer a linguagem e os caracteres em que está escrita. A sua linguagem é uma linguagem matemática em que os caracteres são os triângulos, os círculos e demais figuras geométricas, sem o conhecimento dos quais é impossível entender uma só das suas palavras».

Pois o que diz o escritor Calvino sobre o cientista (e obviamente também escritor) Galileu, na referida entrevista?

Galileu usa a linguagem não como elemento neutro, mas com uma consciência literária, com uma contínua participação expressiva, imaginativa, até mesmo lírica. Ao ler galileu gosto de procurar as passagens em que fala da Lua: é a primeira vez que a Lua para os homens se transforma num objecto real [lembre-se que Galileu tinha construído o primeiro telescópio, que logo usou para ver a Lua e outros astros], que é descrita minuciosamente como coisa tangível, e no entanto assim que a Lua aparece, na linguagem de Galileu sente-se uma espécie de rarefacção, de levitação: eleva-se-nos numa encantada suspensão (...) O ideal de olhar sobre o mundo que guia também o cientista Galileu alimenta-se de cultura literária”.

Não admira que Calvino, tocado pela magia da Lua, tenha escrito sobre ela em várias ocasiões. No livro “O Senhor Palomar” lamenta-se de “ninguém olhar para a Lua de tarde, quando esse é o momento em que a Lua requer mais atenção, uma vez que a sua existência ainda está em dúvida”. Curiosamente uma das grandes questões na polémica entre Einstein e Bohr a propósito da teoria quântica foi a de saber se a Lua está lá quando ninguém olha para ela... Um dos contos de “Cosmicómicas” intitula-se  A distância da Lua”. O autor descreve-nos nele um tempo em que a Lua estava tão perto de nós que ficava à distância de uma escada. De facto, diz a Física que a Lua nasceu da colisão de um astro errante com a Terra, pelo que houve um dia em que a distância entre Lua e Terra foi mesmo nula...

Um outro escritor que, no seu estilo muito próprio, cultivou a relação entre as letras e as ciências foi o argentino Jorge Luís Borges. Apetece trancrever aqui o que esse grande mestre da língua castelhana disse sobre a Lua numa entrevista:

A Lua é diferente conforme os idiomas: Lua, Lune e Moon (que é uma palavra escura e lenta) são as que melhor a nomeiam. Pelo contrário, em inglês antigo é mona e masculino: “o” lua. Em alemão, Mond, também não é lindo  [também é masculino, Der Mond]. E Selene é bastante feio, em grego.  (Pilar Bravo e Mario Paoletti, “Borges Verbal”, Assírio e Alvim”, 2002).

A nossa Lua é só uma (Júpiter, em contraste, tem muitas), mas mostra-nos diversas fases: não será a fase de lua nova mais “moon” do que propriamente “lua”?

A divisão tradicional entre letras e ciências não  hoje muito actual uma vez que linguagens aparentemente opostas têm bastante a dizer uma à outra. De facto, a conjugação dos vários saberes e das várias linguagens  em que eles se exprimem é o único meio para descrever as riquezas do mundo e também de resolver alguns dos problemas desse mesmo mundo. Por exemplo, o físico de hoje sabe que muitas questões da Física têm implicações humanas e que algumas questões da literatura ganham com o foco da Física. Todas as ciências são afinal humanas porque são feitas pelo e para o homem...

Se, no passado, o conhecimento foi excessivamente arrumado em compartimentos estanques, incomunicáveis, no futuro, ele nascerá cada vez mais do encontro de visões diversas, que ganham em interpenetrar-se. Italo Calvino diz-nos que a visão literária e a visão científica se podem e devem  articular. É óbvio que não há interdisciplinaridade sem disciplinaridade e que as visões e linguagens disciplinares não desaparecem quando se cruzam. Mas a ligação entre as disciplinas  – tão nítida no pensamento de Calvino - aparecerá cada vez mais nítida.  Querê-la não será pedir a Lua!

NEUROMITOLOGIA

Texto enviado por João Nunes, Neurologista

Cérebro, Neurologia, Mitos e pseudociência

O Cérebro, as Neurociências e a Neurologia estão na berra.



Não passa uma semana sem que sejamos confrontados com notícias espetaculares e reveladoras sobre o Cérebro e o seu funcionamento.
O interesse da opinião pública é tal que um comentador na área da ciência chegou a referir que se Andy Warhol estivesse vivo o motivo das suas próximas serigrafias seria o cérebro, deixando para trás a pobre Marilyn Monroe.

“Este é o aspecto do cérebro quando estás apaixonado”, “Descoberto o centro cerebral da religião”, “Estudo comprova que os mais distraídos são os mais inteligentes”, são exemplos de cabeçalhos encontrados na comunicação social ou nas redes sociais, frequentemente acompanhados de imagens vibrantes e coloridas do cérebro humano.
Ou então “investigadores da Universidade X (a preencher consoante a semana) descobrem teste para o diagnóstico precoce de Alzheimer”, ou “novo estudo representa promessa na cura do Parkinson”.

De onde vem todo este interesse pelo Cérebro e pelas Neurociências?
Para além do apelo natural da descoberta dos segredos por detrás do centro que comanda todas as nossas acções e emoções, e que tem motivado cientistas ao longo de séculos, a popularidade recente junto das massas tem a ver, entre outros motivos, com o aparecimento de métodos de imagem que analisam o funcionamento do cerebral, estudando as áreas que estão a consumir mais oxigénio quando o cérebro está a realizar uma determinada função.
E´o caso da chamada Ressonância Magnética Funcional (RMf), que permite a obtenção de imagens de diferentes cores do cérebro, consoante determinada zona está mais ou menos ativa.
Por exemplo se o indivíduo mexer a mão direita é possível através deste método ver uma área cerebral  a “iluminar-se”, a ficar vermelha por estar mais ativa, neste caso uma zona do lado esquerdo do cérebro.
Estes métodos de estudo com imagens, coloridos, apelativos, são obviamente mais interessantes para o público generalista.
Mas há cuidados a ter com esta nova “janela da mente”, obrigando a tratamento estatístico rigoroso dos dados obtidos, e se tal não acontecer podem ser obtidos os resultados que os investigadores antecipadamente querem, o chamado viés de confirmação, ao atropelo do método científico, o que pode ser inconsciente ou nem tanto.
E´ possível, com “Photoshop” estatístico, arranjar atividade cerebral onde ela não existe, como aconteceu num estudo famoso, provocatório, em que os autores, com a utilização da RMf, “demonstraram” atividade, obviamente falsa, no cérebro dum salmão morto, só pelo recurso a tratamento estatístico levado ao extremo.
As notícias que localizam as emoções em diversos pontos do cérebro, devem ser encaradas de forma saudavelmente cética. Nestes casos o que está em jogo são geralmente múltiplas áreas associadas e não uma única área “mágica”.

O grande número de notícias relacionadas com o Cérebro e as Neurociências, tem também a ver com a necessidade de promoção dos Centros de Investigação, de forma a conseguirem visibilidade e financiamento para os seus projectos. Isto faz com que estudos preliminares, “in vitro”, ou em animais, sejam promovidos de forma prematura, em situações de doenças neurológicas com grande visibilidade junto da opinião pública, como a Demência de Alzheimer ou a doença de Parkinson, por exemplo. Por isso há quem defenda que no título da publicação ou artigo científico deve ser referido que o estudo é feito em animais ou que ainda está na fase do tubo de ensaio.

Outros mitos associados a esta área são relativamente inócuos, embora desprovidos de senso comum.
Um dos mais populares, com a ajuda de séries televisivas e filmes, é a de que usamos apenas 10% da nossa capacidade cerebral.
Colocado de forma simples: é falsa a ideia de que só utilizamos um décimo do nosso potencial cerebral, não faria sentido que um órgão que gasta mais de um quinto do total da energia do organismo, tivesse apenas uma pequena parte a trabalhar. Há hoje evidência de que o cérebro está sempre a funcionar na sua totalidade, mesmo durante o sono, embora as áreas mais ativas mudem consoante a tarefa.

Uma outra ideia errada na área das neurociências é a de que a nossa personalidade e forma de pensar dependeria mais de um lado do cérebro. Assim os indivíduos com o lado direito dominante seriam mais criativos, imaginativos, intuitivos e artísticos. Os que tivessem como lado dominante o esquerdo seriam mais organizados, lógicos, analíticos e proficientes a matemática. Este é um conceito errado segundo os atuais conhecimentos neurológicos, embora já tenha permitido a venda de milhões de livros de pseudopsicologia. Todas as tarefas complexas que o nosso cérebro realiza exigem participação dos dois lados do cérebro, existindo extensas ligações entre ambos os lados. Podemos falar do exemplo da linguagem, embora o lado esquerdo seja fundamental para a compreensão e expressão da linguagem, o lado direito é determinante para compreender o contexto e tom das palavras. E na matemática, enquanto o lado esquerdo é importante para a resolução de equações, o lado direito dedica-se a comparações e estimativas.

O interesse que a Neurologia e Neurociências motivam tem também a ver com a nossa procura do Santo Graal cerebral, a  pílula ou suplemento mágico que nos aumente a memória e a concentração, que nos torne mais inteligentes, que nos livre do declínio cerebral associado à idade, ou nos torne as máquinas intelectuais que a atual sociedade ultracompetitiva exige.
Há uma indústria de milhões à volta deste problema, com produtos com designações sugestivas , muitas vezes com nomes associados ao elefante e à sua proverbial memória, comercializados em farmácias, em lojas de produtos naturais e online.
Substâncias como o Omega 3, o Gingko biloba, o Ginseng, o Chá Verde, as bagas Goji e uma miríade de Vitaminas, entre muitos outros, são usados na produção de suplementos milagrosos.
Qual o sumo que se extrai desta multidão de embalagens, suplementos, anúncios? Zero ou muito perto disso. O efeito destes suplementos a nível das nossas capacidades cognitivas ou da memória é praticamente inexistente, e não digo completamente inexistente porque produtos como as Vitaminas ou o Omega 3 poderão ter interesse em grávidas e em pessoas com déficites nutricionais, por exemplo a suplementação com vitaminas do complexo B pode ser necessária em indivíduos com regime alimentar Vegan.

Outra face da mesma moeda é a moda atual, sem qualquer evidência científica, de que é importante, para a nossa saúde, incluindo o funcionamento cerebral, evitar determinados alimentos como o glúten ou o leite animal. Esta corrente só pode ser entendida como uma forma de marketing para produtos que não contenham aqueles “venenos”, e que hoje em dia se encontram por todo o lado. O glúten e o leite foram utilizados tranquilamente pela raça humana durante milénios, mas são agora denunciados como a fonte de todos os males do Homo sapiens ou quase.
A realidade é que, tirando situações muito raras, como é o caso da Doença celíaca no caso do Glúten, ou das pessoas com uma deficiência grave de Lactase (enzima responsável pela digestão da Lactose constituinte do leite) no caso do leite, é perfeitamente seguro e útil o consumo de glúten e de leite na nossa alimentação.
Uma alimentação variada e equilibrada é necessária e suficiente para a nutrição do nosso corpo, incluindo o cérebro.

Outra indústria de milhões associada a uma pretensa acção sobre o funcionamento cerebral é a da venda de produtos de software de treino cerebral, geralmente online e sob a forma de aplicações.
Uma pesquisa feita junto de lojas online de aplicações para telemóveis, revela dezenas de aplicações promovidas com o intuito de manter ou melhorar a memória e a capacidade intelectual. Infelizmente não há estudos fiáveis que mostrem a utilidade de qualquer destes programas, pelos menos isoladamente.
Melhoram a tarefa que é treinada durante o jogo de computador, mas não são úteis no dia a dia, não melhoram a capacidade de ir às compras num idoso com dificuldades cognitivas, ou os resultados dos exames num estudante universitário por exemplo. A promoção dos pretensos efeitos miraculosos destes produtos sobre a capacidade cerebral levou a uma tomada de posição conjunta de cientistas da área a desmitificar o seu efeito.
A sua utilização nos indivíduos com declínio cerebral poderá, no entanto, ser complementar de outros aspetos tão ou mais importantes, como a atividade física, a interacção social, a leitura, tocar um instrumento musical, etc.

A patologia neurológica, dada a riqueza de sintomas que determina, é também fonte de muitos mitos populares e ideias erradas. Um apanhado exaustivo exige o espaço de um livro de texto. Vou referir alguns dos mais frequentes:
O mito de que Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) são doenças exclusivamente dos idosos. Embora sejam mais frequentes na população mais idosa, os AVC podem ocorrer em jovens, pelo que mesmo em grupos etários mais baixos seja importante a prevenção dos fatores de risco conhecidos, como a Hipertensão, a Diabetes, o Tabagismo, a Obesidade e os valores altos do Colesterol.
Fulcral é a ida emergente à Urgência hospitalar em caso de suspeita de AVC, com recurso ao INEM e à via verde hospitalar, o que permite às vezes desobstruir o vaso entupido que está a causar o problema. Para mais esclarecimentos deve ser consultado o site da DGS a este respeito.
Algumas pessoas ainda têm a ideia errada de que a Epilepsia é uma doença associada a menores capacidades intelectuais. A realidade é que, tirando algumas formas graves e raras , os doentes epiléticos podem fazer uma vida normal, com um controle quase total das crises , o que pode ser atribuído, em parte, à eficácia e variedade da medicação atualmente existente.
Ainda no campo das crises epiléticas existe a noção errónea de que deve ser colocado um objeto na boca da pessoa em crise para evitar que morda a língua, mas tal só vai dificultar a respiração da pessoa, que deve ser colocada de lado, num sítio em que não se magoe, e sem nada a dificultar a circulação de ar.
Outro conceito errado tem a ver com as Demências. Embora a grande maioria seja progressiva e irreversível, existem casos de Demências tratáveis, pelo que é importante a consulta por um médico Neurologista. Exemplos são o déficite de vitamina B12, as Hidrocefalias com acumulação excessiva de líquido no interior do cérebro ou os Hematomas cerebrais crónicos provocados por traumatismos cranianos, entre outras causas tratáveis.

No que diz respeito às doenças neurológicas, um aspeto que prejudica também o tratamento dos pacientes, é o recurso às terapias alternativas.
O seu uso e abuso leva ao atraso no início de tratamentos eficazes, pode levar à interferência das mezinhas com os medicamentos úteis, e troca falsas esperanças por gastos elevados em inutilidades.
Como exemplos apontaria a promoção da acunpuntura, da homeopatia, da osteopatia, da naturopatia e outras no tratamento de diversas doenças neurológicas.
Não há qualquer evidência científica séria que as suporte, mas são promovidas nos meios de comunicação social, inclusive do Estado, como é típico dos programas televisivos matinais.
Relativamente à Acunpuntura, que tem sido publicitada para o tratamento de doenças Neurológicas como a Enxaqueca, existem estudos que mostram que não é mais que um placebo, com resultados iguais quer seja praticada por principiantes ou por mestres, existindo inclusive um estudo em os resultados foram iguais usando agulhas de Acunpuntura ou palitos!
A Osteopatia e a as terapias Quiropráticas utilizam manipulações cervicais, apregoadas como tratamento para quase tudo, mas uma das complicações possíveis já descrita e publicada em revistas científicas, é o facto destas manipulações cervicais poderem danificar artérias do pescoço que levam sangue para o cérebro e poderem causar acidentes vasculares cerebrais.
  
Mais grave é o canto de sereia com que são atraídos doentes desesperados, pelas clínicas internacionais com tratamentos de pretensa base científica, mas ainda em fase de investigação, como é o caso das células estaminais e das vacinas dendríticas.
Os doentes pagam fortunas em troca de tratamentos experimentais, ainda ineficazes ou pouco seguros, acabando por regressar ao nosso SNS piores do que quando foram para essas clínicas, como é triste exemplo famosa clinica alemã, que conta com inescrupulosos angariadores nacionais, principalmente junto de doentes oncológicos.

Falando do Cérebro e de Tumores, outra dúvida com que muitos se confrontam diz respeito à associação dos telemóveis e dos tumores cerebrais.
Não há estudos sólidos que mostrem aumento do número de novos casos de tumores cerebrais após o início da utilização maciça de telemóveis. Tambem não há relação demonstrada entre este e outros tipos de tumores com as redes Wifi, 4G ou 5G, ou micro-ondas, que é, hoje em dia, uma das teorias da conspiração prediletas na internet.

Em conclusão, neste tempo de “fake news” devemos manter um saudável ceticismo, e daí a importância da literacia científica na área das neurociências.
Desconfiemos das fabulosas descobertas e curas espantosas promovidas nos media e redes sociais, mas que não têm grande repercussão junto da comunidade científica.
Se parece demasiado bom para ser verdade é porque provavelmente não é.
Desconfiemos dos suplementos miraculosos, dos programas de software que nos vão pôr a pensar melhor, e das curas e tratamentos alternativos, cuja utilidade é principalmente financeira para quem as pratica.

(Ep. 67) "Um neurocirurgião em construção" de João Lobo Antunes

(Ep. 68) "O drama de Magalhães e a volta ao mundo sem querer"

Um beco com saída


Início do texto inédito do jornalista do PÚBLICO Nuno Pacheco, que fecha o seu livro  Acordo ortográfico. Um beco com saída, que acaba de sair na Gradiva (também eu sou contra o Novo Acordo Ortográfico, para o qual nunca encontrei explicação suficiente):

O Acordo Ortográfico de 1990 nasceu de um perigoso casamento: o do medo com a mentira. O medo, antigo, é de que no Brasil se ouça finalmente o há muito brandido grito do Ipiranga linguístico e a língua portuguesa, ali, passe a denominar‑se «brasileiro». A mentira, muitas vezes repetida, é a de que o português seria a única língua com duas ortografias oficiais. O acordo, sob a capa da unificação ortográfica (uma «causa» de décadas), viria assim travar a desagregação do universo da língua portuguesa e criar, enfim, uma ortografia unificada.

 Sobre estes dois temas, já muitos textos foram escritos, esgrimindo argumentos com bases científicas ou simplesmente brandindo opiniões fundadas apenas em crenças. Não valerá a pena remexer nelas, a não ser para sublinhar o óbvio: a causa do «brasileiro» será tanto mais forte quanto mais se insistir na miragem da «unificação»; e a ortografia, por mais que se afiance o contrário, tende a ser plural nos idiomas mais difundidos no Universo (veja‑se o inglês, o francês, o espanhol ou o árabe com, respectivamente, 18, 15, 21 e 16 variantes ortográficas reconhecidas) e não unificado. Por uma razão bem simples: a cada desenvolvimento de uma língua e respectiva escrita, corresponde uma matriz cultural de séculos, que a vai moldando, alterando, reconfigurando. Não só na criação de novos vocábulos como na morfologia de várias palavras, nos seus significados e nas estruturas frásicas, ou seja, na sintaxe. A cada ano que passa, a ideia de uma uniformização afasta‑se naturalmente, para se aproximar do reino das quimeras. Os seus arautos, ainda que não o saibam (ou não queiram saber), são já parte de um pequeno exército retrógrado, a lutar contra a inexorabilidade deste destino.

Porém, mesmo assim, surgiu no universo da língua portuguesa (e foi aprovado, por força de duvidosas convicções políticas) algo de que nenhuma outra língua nacional precisou para sobreviver, singrar ou até expandir‑se no globo: um acordo ortográfico. É uma originalidade estranha, que só vingou devido ao perigoso casamento a que se aludiu no início do texto. Medo e mentira, juntos, ao longo da História, têm sido adubo para inúmeras carnificinas e monstruosidades, das quais só se acorda quando o mal está feito. Não é exactamente o caso deste «acordo», que não provocou a morte de ninguém, embora os seus malefícios tenham, na escrita, no entendimento dela e até mesmo na fonética, graves efeitos a médio prazo. O máximo a que nos conduziu, e que persiste, foi a um clima de animosidades, desconfianças, a erros feitos norma, a um caos ortográfico desnecessário e a um empreendimento desastroso do qual não é visível qualquer benefício, dos tantos propalados no início eufórico desta triste aventura. Encontramo‑nos, pois, no fundo do abismo. Sorte nossa, ainda nos restam cordas para tentar a escalada, íngreme, fincar de novo os pés na terra e evitar futuras quedas. 

Se pudéssemos retroceder uns séculos (e isso é possível com uma paciente consulta de livros em bibliotecas nacionais, aqui como no Brasil), veríamos que a ortografia, embora fosse já motivo de discussão desde o século xvii (primeiro com Bento Pereira ou João Franco Barreto e posteriormente, já no século xviii, com Luís António Verney ou Moreira Feijó), não era uniforme em Portugal ou no Brasil. Escritores houve que tinham várias ortografias, usando‑as consoante os seus escritos fossem cartas, livros ou outros documentos. A ideia de uma simplificação, vinda já de Verney (no seu Verdadeiro Método de Estudar, 1.ª edição impressa em Nápoles, 1746), havia de encontrar eco mais tarde, no início do século xx.

 Foi a Academia Brasileira de Letras que deu o primeiro passo, em 1907. E nomeou, em Maio desse ano, uma comissão para levar a cabo uma reforma ortográfica. Como escreveu mais tarde o académico Evanildo Bechara, num prefácio ao livro de actas da ABL, «a Academia conseguiu, àquela primeira fase, discutir a sistematização ortográfica, divididas as hostes entre os fonetistas, com Medeiros de Albuquerque à frente, e os etimologistas, chefiados por Salvador Um beco com saída 189 Mendonça». Após várias sessões, a proposta foi aprovada em 17 de Agosto de 1907, ainda com Machado de Assis presidente da ABL, cargo que ocupou de 1896 a 1908. Não contavam os Brasileiros que, em Portugal, o advento do republicanismo levasse ao derrube da monarquia em 5 de Outubro de 1910 e que, em consequência de tal revolução política, os Portugueses resolvessem avançar com a sua própria reforma ortográfica, destinada a, diziam, «favorecer o ensino fácil da leitura e da escrita, tanto quanto um idioma secularmente literário o permite» (Nova Ortografia Portuguesa, Oficialmente Adoptada, Porto, 1911). Foi uma reforma unicamente portuguesa, alheia ao Brasil; que aliás, como se viu, avançara anos antes com a sua, sem nenhuma preocupação com «unificações». O que não impediu os Brasileiros de apontarem um dedo acusador a Portugal: «Apesar de tudo [da escrita consuetudinária e das variações ortográficas consoante autores, escolas, épocas e lugares] não existia o problema, se prevalecia o critério etimológico. Em 1911 dele se apartou Portugal, com o sistema simplificado que Gonçalves Viana preconizara.» Isto pode ser lido na edição do livrinho Acordo Ortográfico entre o Brasil e Portugal, publicado no Brasil, em 1947, pelo Jornal do Commercio, e que incluía o texto do Acordo Ortográfico de 1945. O texto, que omite o passo dado pela ABL em 1907 no sentido de uma reforma unilateral do Brasil, conclui: «Em 1931 verificaram as Academias brasileira e portuguesa que, devido àquela atitude isolada, realmente se cindira o idioma em duas escritas, a fonética e a etimológica.» É aqui, neste pequeno e singelo momento, que se esboça a mentira.

 Desde então, a busca de «um tratado que de novo a unificasse» (a escrita, bem entendido) não mais parou. Reuniões, conclaves, consultas, esboços de acordos, acordos assinados e depois rasgados, modificações parcelares, tudo em busca do almejado graal. Não houve, ao longo de todo esse tempo, entre os negociadores, alguém que parasse por um momento a avaliar o enorme absurdo de tal empreitada. O objectivo era tudo: unificar, mesmo que isso já não existisse antes. Ninguém pensou, por um só segundo, na insanidade que seria voltar atrás noutras coisas (países, bandeiras, hábitos, culturas), mas a escrita sim, devia voltar «ao que era».  E o que era, antes? O que se sabe: herança de séculos, um belo idioma que se foi desenvolvendo e tomando novos sons e formas consoante as geografias. Não seria isso unidade bastante? Como a de pais e filhos, que não têm de ser iguais nas opções de vida ou nos gostos para partilharem o mesmo sangue? Não. E insistiu‑se no acordo «unificador».

(...)

Nuno Pacheco

UM MAU SERVIÇO À EDUCAÇÃO

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Meu artigo de opinião para o site Ponto SJ:


Foi há semanas anunciado que o Colégio dos Jesuítas em Cernache, perto de Coimbra, denominado “Colégio da Imaculada Conceição” (CAIC), foi forçado a fechar portas, devido ao “final dos contratos de associação com o Estado Português, em vigor há 40 anos. Tratou-se de uma opção repentina e unilateral tomada, na altura [2016], pelo Ministério da Educação,  à qual o CAIC foi alheio e à qual se opôs desde a primeira hora, mas sem sucesso” (transcrevo do comunicado afixado como no sítio da Internet que era do CAIC).

Resido em Coimbra e conheço o trabalho do CAIC. Conheci alguns professores que lá trabalharam e fui lá uma vez, convidado, dar uma palestra sobre Física para os alunos. Considero que foi um erro grave a extinção, imposta pelo governo, de um estabelecimento de ensino com amplas provas dadas, desde 1955, na formação de numerosos alunos, mais de dez mil, de uma região periférica – e bastante desfavorecida – de Coimbra. Ouvi alguns debates sobre o fim dos referidos Contratos de Associação e pareceram-me, em geral, tolhidos pela ideologia:  os defensores da medida governamental partem do princípio de que um serviço público só pode ser prestado por uma entidade pública, o que não é verdade, por abundarem os exemplos, entre nós e lá fora, de serviços públicos prestados por entidades privadas com o necessário apoio estatal. O ponto principal, julgo que incontestável, é que o encerramento da escola – para além do prejuízo dos professores e funcionários, alguns deles com carreiras de muitos anos – redundou num claro prejuízo para os alunos, que não dispõem de uma solução com as mesmas proximidade e  qualidade. Costuma dizer-se que os colégios são, em Portugal, lugares dos “meninos ricos”. Mas este não era seguramente o caso do CAIC, frequentado maioritariamente por crianças e jovens de camadas sociais baixas, como mostram as estatísticas dos resultados escolares (é conhecida a correlação entre estes e o estatuto económico-social das famílias dos alunos).

Um aspecto que merece relevo é a aparente ignorância da história que mostraram os nossos actuais políticos, que determinaram ou permitiram o fecho desta escola. Não sabem, por exemplo, que uma das mais antigas casas de formação dos jesuítas em todo o mundo foi o Colégio de Jesus, em Coimbra, fundado no ano de 1542 (o seu edifício é hoje parte da Universidade de Coimbra e, portanto, Património Mundial da Humanidade; no Museu da Ciência, que ocupa uma parte dele, tem estado uma exposição sobre os Jesuítas e a ciência). A Companhia de Jesus, fundada sob o forte impulso de Inácio de Loiola e reconhecida por bula papal em 1540, chegou a Portugal neste mesmo ano. O Colégio de Messina, na Sicília, foi fundado pelo próprio Loiola em 1548. O Colégio Romano, que tomou o de Messina como modelo, só foi fundado em 1551, isto é, quase uma década após as primeiras casas portuguesas (em 1542 também tinha surgido o Colégio de Santo Antão em Lisboa), mas logo se constituiu o nó central de uma rede pedagógica que, com a ajuda da plataforma portuguesa, se estendeu rapidamente a todos os continentes. Pode dizer-se que Portugal, que acolheu S. Francisco Xavier e Simão Rodrigues, ambos do grupo inicial de Loiola, foi a “rampa de lançamento” dos Jesuítas no mundo. É algo paradoxal que Coimbra, que instalou uma das primeiras escolas dos Jesuítas do mundo, não tenha agora nenhuma. Um filósofo espanhol que visitou há anos a Lusa Atenas perguntou-me onde estavam os Jesuítas, sabendo bem da influência que tiveram os Conimbricenses no século XVII (até Descartes, embora torcendo o nariz, estudou por eles no Colégio de La Flèche, o mais importante de França). Respondi-lhe que havia muito poucos na cidade: tinham uma casa próximo da Universidade e um colégio nas vizinhanças. Agora o colégio já não existe…  Os governantes que na prática mandaram fechar o CAIC, prestando um mau serviço à educação, desconhecem provavelmente os contributos dos Jesuítas para o ensino, para  a ciência e para a cultura. Não devem saber, por exemplo, o que foi o Ratio Studiorum, o código das orientações pedagógicas que, oriundas do Colégio Romano, se espalharam ao longo de uma rede global.  O mesmo se aplica aos autarcas  de Coimbra, que não se moveram em defesa dos interesses dos munícipes afectados.

A história dos Jesuítas em Portugal é trágica. Em 1759 o Marquês de Pombal expulsou-os, fechando ou reconvertendo as suas escolas. Os historiadores tendem hoje a concordar que a interrupção da rede de colégios inacianos conduziu a uma ruptura do ensino secundário de que o país demorou a recuperar. Não havia alunos em número suficiente para alimentar a reformada Universidade de Coimbra (reforma que, em muitos aspectos, era de resto necessária). Os Jesuítas regressaram a Portugal em 1829, mas só permaneceram cinco escassos anos. Regressaram de novo em 1848, mas voltaram a ser expulsos em 1910, para regressarem de novo em 1923.

Hoje só existem dois colégios jesuítas em Portugal: o das Caldinhas, em Santo Tirso, que remonta a 1932, e o de S. João de Brito, em Lisboa, inaugurado em 1947. Um maior conhecimento da história assim como uma melhor ponderação do interesse dos alunos teria levado a uma decisão diferente da que excluiu Coimbra e a região Centro do país de uma escola que se integrava uma rede que tem feito jus ao seu lema, “educar para servir.”

quinta-feira, 18 de julho de 2019

Minha entrevista a Ricardo Lopes ("The Dissenter", no YouTube)

Introdução à edição portuguesa de "O Cálculo da Felicidade"



Prefácio especialmente escrito pelo autor para a edição portuguesa de "O Cálculo da Felicidade" que acaba de sair na colecção Ciências Aberta da Gradiva:

A Universidade de Coimbra, uma das mais antigas do mundo, teve um papel pioneiro nas aplicações práticas da matemática. O famoso matemático português Pedro Nunes foi responsável pelo ensino da matemática  na Universidade de Coimbra,  em meados do século XVI;  os seus ensinamentos, as obras que escreveu, os seus inventos revolucionaram a ciência da navegação.

A promulgação dos Estatutos Pombalinos de 1772 veio reforçar ainda mais a importância do estudo da matemática e das suas aplicações. O símbolo da Academia de Ciências de Lisboa, fundada alguns anos depois, em 1779, tem inscrita essa visão da matemática – contém o texto em latim “Nisi utile quod facimus, stulta est gloria”, que significa “Se não for útil o que fizermos, a nossa glória será vã.”

Um requisito dos Estatutos de 1772 foi a exigência de que os livros de matemática fossem disponibilizados (em português) aos estudantes portugueses. Esta edição do livro O Cálculo da Felicidade honra, à sua maneira, o espírito daquela exigência – todos os estudantes portugueses devem ter acesso a uma educação matemática de qualidade superior e manter a tradição portuguesa de valorizar as aplicações da matemática.

Como os autores portugueses que reconheceram a utilidade deste tema, também eu acredito firmemente na aplicabilidade intrínseca da matemática, sou por formação um profissional da matemática aplicada. Essa foi a minha motivação para escrever O Cálculo da Felicidade. Já foram escritos muitos livros sobre as aplicações da matemática nas ciências, nas engenharias e noutras áreas do conhecimento. Mas foram relativamente poucas as obras que se concentraram nos usos práticos e pessoais da matemática que aprendemos na nossa juventude. Os tópicos que aprendemos – que incluem conceitos como funções, logaritmos ou probabilidades – são frequentemente aplicados em contextos que o cidadão comum não experimenta (por exemplo, medir o período de decaimento de um isótopo radioactivo). Assim, não nos pode surpreender que, quando ensinada desse modo, a matemática adquira, ao longo do tempo, uma conotação de estudo abstracto de várias fórmulas que nunca serão usadas fora da sala de aula.

O Cálculo da Felicidade é uma refutação directa dessa abordagem do ensino da matemática. É um livro projectado para mostrar as aplicações da matemática dos ensinos básico e secundário que são particularmente relevantes no nosso dia a dia. Ensina-nos como a matemática nos pode ajudar a ser mais saudáveis. Ou como poderemos lidar melhor com as nossas finanças pessoais. E até ilustrará como é possível quantificar vários aspectos das nossas relações, tanto românticas como não românticas.

Mais importante ainda, O Cálculo da Felicidade possui um objectivo central: incentivar os leitores a adoptarem uma abordagem matemática da vida. A matemática é um dos assuntos mais antigos que é universalmente reconhecido ao longo da história da humanidade como um pilar essencial da educação de cada pessoa. Uma das razões é que a matemática não é uma colecção de fórmulas, mas sim um desenvolvimento sistemático e cumulativo de ideias e pensamentos lógicos, limitados apenas pela imaginação. Uma grande parte da matemática consiste, portanto, em trabalhar matemática, e não apenas em ler matemática. Por isso, sugiro vivamente que trabalhem ao longo do livro e experimentem o que irão aprender para apreciarem realmente o que quero dizer com “adoptar uma abordagem matemática da vida”.

A concluir deixo aqui algumas palavras de incentivo dizendo que serão capazes de aprender, apreciar e dominar a matemática. Ela já está à vossa volta, mesmo no interior de cada um de vós, antes de eu me esforçar por vos convencer disso neste livro; tal como no caso da aprendizagem de uma língua nova, apenas vão precisar de imergir nela, praticá-la e trabalhar para melhorar a vossa fluência.

Espero que aprecie O Cálculo da Felicidade.

Oscar Fernandez

Professor associado de Matemática
Departamento de Matemática
Wellesley College, Wellesley, MA, EUA

NOVIDADES DA GRADIVA EM JULHO

Lista de novidades que a Gradiva publica no mês de Julho de 2019, recebida da editora: 

O Cálculo da FelicidadeOscar E. Fernandez
Saiba como a matemática tem as chaves para melhorar a saúde, a riqueza e o amor!
O matemático norte-americano Oscar Fernandez, usando apenas alguma matemática dos ensinos básico e secundário, mostra-nos como esta fornece indicações preciosas para melhorar a nossa vida. O Cálculo da Felicidade ensina-nos o enorme poder da matemática.
«Ciência Aberta», 248 pp., 15,00 €
https://www.gradiva.pt/catalogo/46521/o-calculo-da-felicidade


Acordo Ortográfico - Um Beco com Saída Nuno Pacheco

Os arautos do pseudo Acordo Ortográfico são um exército retrógrado, a lutar contra a evolução natural da escrita, porque esta passa pela fixação e reconhecimento das variantes ortográficas nacionais e não pela sua «unificação».
O Acordo Ortográfico é um embuste. Meteu-nos num beco, mas esse beco
tem saída.






«Trajectos Portugueses», 208 pp., 13,00 €
https://www.gradiva.pt/catalogo/46522/acordo-ortografico:


A Religião dos Fracos – O que o jihadismo diz de nós
Jean Birnbaum

«Nós amamos a morte como vós amais a vida»: com esta frase, o jihadista obriga-nos a dizer «nós». Revela a fragilidade do «nosso» universalismo. E somos por isso obrigados a ver de modo diferente as relações de força passadas e presentes, a ver com
um novo olhar as liberdades que distinguem a Europa como civilização. Ao espelho do jihadismo, descobrimos aquilo em que as nossas convicções se tornaram: a Religião dos Fracos
«Trajectos», 208 pp., 15,00 €
https://www.gradiva.pt/catalogo/46525/a-religiao-dos-fracos


Inquisição e Cristãos–Novos 
António José Saraiva


«O processo inquisitorial era secreto, sem apelo, deixava nas mãos dos inquisidores o poder praticamente absoluto e arbitrário de condenar ou absolver. E o Tribunal do Santo Ofício, que vivia dos bens confiscados dos réus, era parte interessada nos processos.» Inquisição e Cristãos-Novos é, 50 anos após quatro edições fulgurantes, a melhor introdução a um universo kafkiano que o presente imita sob outras formas.

«Obras de AJS», 304 pp., 16,00 €
https://www.gradiva.pt/catalogo/46526/inquisicao-e-cristaos-novos



Prometeu e a Caixa de PandoraLuc Ferry , Giuseppe Baiguera, Clotilde Bruneau 
Nos Clássicos gregos está tudo, para a eternidade: o amor, a amizade, o ódio, a lealdade e a traição, a liberdade, a opressão, a angústia, o espanto, o racional, o irracional, tudo.
Um conjunto de bandas desenhadas que respeitam os textos fundadores originais, enriquecidas por dossiers complementares PROMETEU E A CAIXA DE PANDORA é o primeiro livro desta colecção publicado pela Gradiva.

A guerra dos Olimpianos contra os Titãs terminou com a vitória dos primeiros, conduzidos por Zeus. Mas a euforia rapidamente dá lugar ao tédio. Já não se passa nada no Universo. Então, para distrair os deuses que a paz anestesia lentamente, Zeus pede a Prometeu que faça seres mortais, para que a história e a vida regressem ao cosmos. Prometeu engendra então uma espécie que, dotada do fogo e das técnicas, ultrapassa todas as outras. Isto vai valer-lhe a fúria do rei dos deuses, convencido de que a Humanidade ameaça agora a ordem do mundo...
Por Luc Ferry
Luc Ferry é um autor de referência sobre a mitologia grega, com várias obras publicadas acerca do tema. Nascido em Colombes em 1951, Luc Ferry é um filósofo e político francês. Foi Ministro da Educação em dois governos sucessivos. É autor de muitas obras filosóficas, incluindo Le Nouvel ordre écologique (Prémio Médicis de ensaios e Jean-Jacques Rousseau em 1992). Entre outros temas, dedica-se ao estudo das ligações entre a filosofia e a mitologia grega, no qual se enquadra Prometeu e a Caixa de Pandora

A Sabedoria dos Mitos, 56 pp., 16,50 
https://www.gradiva.pt/catalogo/46527/prometeu-e-a-caixa-de-pandora



As Pálidas Colinas de NagasáquiKazuo Ishiguro
A história de Etsuko, uma japonesa que vive sozinha em Inglaterra, chorando o suicídio recente da filha.
Refugiando-se no passado, dá consigo a reviver um Verão particularmente quente em Nagasáqui, quando ela e as amigas se esforçavam por reconstruir as vidas após a guerra.
«Um enigma arrepiante e irrepreensivelmente engendrado.»
Sunday Times

«Um romance delicado e irónico, com personagens extraordinariamente convincentes.»
New York Times Book Review

«Um génio original e notável.»
New York Times

«Gradiva», 224 pp., 15,00 €
https://www.gradiva.pt/catalogo/46520/as-palidas-colinas-de-nagasaqui


Movimentos anti-vacinas no século XIX - David Marçal na Rádio Renascença

O segundo dos cinco episódios da minha participação no programa Tim-Tim por Tim-Tim da Rádio Renascença (2/5).

quarta-feira, 17 de julho de 2019

As pedras são os livros onde estão escritas as histórias da Terra e da Vida...


... e as letras dessa escrita são, sobretudo, os minerais e os fósseis, mas também os elementos químicos e os isótopos Na imagem, uma escultura do espanhol José Manuel Lopez.

A. Galopim de Carvalho

Sobre previsões falhadas - David Marçal na Rádio Renascença

Minha participação no programa Tim-Tim por Tim-Tim da Rádio Renascença. Aqui, o primeiro dos cinco episódios (1/5)

MIL CENTO E QUARENTA VEZES A HISTÓRIA DE PORTUGAL

(Do meu livro “COMO BOLA COLORIDA – A Terra, Património da Humanidade”, Âncora Editora, Lisboa, 2007).


No dia-a-dia, o tempo mede-se em horas, minutos e segundos nos mostradores dos nossos relógios de pulso. Na História, mede-se em anos, séculos e milénios, usando, para tal, pergaminhos, tabuletas de barro, papeis e outros documentos com significado cronológico.

Na Pré-história do Homem faz-se outro tanto com base em utensílios e outros objectos e fala-se de milhares e, nalguns casos, de milhões de anos. A escala do tempo dilata-se ao historiarmos o passado geológico e ainda mais se recuarmos aos começos do Sistema Solar e do Universo, onde os milhares de milhões de anos marcam as etapas percorridas com uma imprecisão que se esfuma nessa “eternidade”.

Mil milhões de anos a mais ou a menos, nos primórdios da matéria de que somos, representam o mesmo grau de imprecisão do milhão de anos a mais ou a menos no tempo dos dinossáurios, do mais ou menos um ano na história do velho Egipto, ou do mais dia - menos dia, mais minuto - menos minuto, no tempo que estamos a viver, mais segundo-menos segundo nos cronómetros dos corredores desportivos.

No decurso da nossa existência revemos, sem dificuldade, o nosso tempo, o dos avós e até o da História, mas é com esforço que abarcamos ou evocamos a vastidão do tempo geológico, com cifras que só encontram paralelo na imensidão das distâncias astronómicas. Como na História, também a Geologia necessita de documentos e esses temo-los nas rochas, quer sejam os fósseis, quer alguns dos seus minerais contendo isótopos radioactivos.

Entre as variáveis susceptíveis de serem correlacionadas com o tempo, apenas duas têm lugar de forma irreversível, uma vez que, qualquer destes dois processos se desenvolve apenas num sentido: a evolução biológica e a desintegração radioactiva natural. Porque de uma história se trata, a Geologia tem no tempo um dos seus pilares, sendo aí encarado sob duas perspectivas distintas: a de tempo relativo e a de tempo absoluto.

Na de TEMPO RELATIVO procura-se saber se um dado evento ocorreu antes, depois ou em simultâneo com outro, isto é, se lhe foi anterior, posterior ou contemporâneo. De há muito que as relações geométricas, observáveis no terreno, entre os diversos corpos rochosos aflorantes, têm sido utilizadas no estabelecimento da ordenação cronológica dos acontecimentos geológicos de que são testemunhos.

Uma tal ordenação é particularmente evidente nas rochas estratificadas, nas quais os estratos ou camadas se sucedem numa imediata sugestão de sequência no tempo. Tal ordenação é a mesma patenteada numa pilha de papéis na secretária de um burocrata. A relação entre o empilhamento dos estratos rochosos e o curso do tempo chamou a atenção do dinamarquês Nicolau Steno, no século XVII, constituindo uma das primeiras ideias fundamentais da geologia, conhecida por Princípio da Sobreposição, segundo o qual, “numa sequência estratificada não deformada, qualquer camada é mais moderna do que as que lhe ficam por baixo e mais antiga do que as que se lhe sobrepõem”.

Evidente à luz dos conhecimentos actuais, este princípio representa um avanço notável para a época em que foi enunciado. Nele se relacionam, pela primeira vez, as rochas estratificadas com o processo de deposição progressiva dos sedimentos que as integram, a que corresponde uma ideia de sucessão no tempo. Como marcos cronológicos, também os fósseis, escalonados na cadeia evolutiva da biodiversidade, nos permitem uma abordagem do tempo relativo.

No que se refere à evolução biológica, desde há muito que se constatou, através dos fósseis, que as espécies animais e vegetais do passado foram surgindo ao longo da história da Terra, se mantiveram durante períodos mais ou menos longos, acabando, quase sempre, por se extinguir, não voltando a aparecer. Leonardo da Vinci (1452-1519) foi o primeiro a reconhecer os fósseis como testemunhos de outras vidas em épocas passadas. Até então e mesmo depois dele, os fósseis eram vistos como caprichos da natureza.

Só no século XVIII se estabeleceu definitivamente a sua interpretação como restos de seres vivos do passado. Os fósseis representam os elos de uma cadeia de complexidade crescente. Neste entendimento, e graças ao muito trabalho dos paleontólogos, sabemos, por exemplo, que as camadas de rochas sedimentares com fósseis de trilobites são mais antigas (Paleozóico) do que as que conservam ossadas de dinossáurios (Mesozóico) e que estas, por sua vez, são anteriores às que serviram de jazida aos mamutes ou aos australopitecos (Cenozóico), nossos avós.

Este raciocínio, aqui exemplificado para grandes intervalos de tempo, ao nível das eras geológicas, faz-se correntemente para intervalos mais curtos, como são os representados pelos sistemas (períodos), séries (épocas), andares (idades), subandares e outros ainda mais reduzidos.

O mesmo tipo de conhecimentos habilita-nos a considerar geologicamente contemporâneas todas as rochas que, em quaisquer lugares, contenham os mesmos fósseis. Aplicável a muitíssimas espécies fósseis conhecidas, estes raciocínios têm vindo, a partir do século XIX, a permitir escalonar no tempo o conjunto das sequências de rochas sedimentares (e também em rochas metamórficas, num grau de intensidade relativamente baixo, como é o das séries paleozóicas de Norte a Sul de Portugal), onde se encontra o essencial do registo fóssil de toda a biodiversidade que nos antecedeu.

Na outra perspectiva, a do TEMPO ABSOLUTO, passível de quantificação, esta variável tem o sentido de duração e, assim, refere o intervalo que medeia dois acontecimentos ou o que decorreu entre um deles e o momento presente, isto é, a sua idade. Uma das vias mais frutuosas na medição do tempo geológico nasceu com a descoberta da radioactividade por Henri Becquerel, em 1896, e ganhou corpo com os trabalhos sobre a constituição e funcionamento do núcleo atómico levados a efeito por Marie e Pierre Curie e muitos outros físicos.

Tais avanços da ciência, com reflexos na medição do tempo, foram sabiamente aproveitados por vários investigadores, entre os quais o geólogo inglês Arthur Holmes, que “só não foi prémio Nobel porque a Geologia não figura entre as disciplinas contempladas no respectivo regulamento”.

Executadas por rotina em muitos laboratórios de todo o mundo, as determinações de idade isotópica (baseada no comportamento natural de alguns isótopos radioactivos) de alguns minerais (feldspatos potássicos, moscovite, biotite, entre muitos outros) permitiram-nos enquadrar, em termos de cronologia absoluta, as grandes etapas da história da Terra a da Vida, muitas delas, de há muito definidas em termos de idade relativa.

Sabemos hoje que a Terra se formou há aproximadamente 4540 Ma (idade ainda em discussão), que os “dinossáurios não avianos” (as aves, hoje aceites como descendentes de um certo grupo de dinossáurios, são, assim, “dinossáurios avianos”) fizeram a sua aparição há cerca de 235 Ma e que desapareceram, de vez, há 65 Ma. Sabemos que o granito do Porto tem 560 Ma, que o das Beiras tem à volta de 300 e que o de Sintra, apenas 85 Ma. E a lista de rochas e de acontecimentos de que conhecemos a idade absoluta é imensa e não para de crescer.

O trabalho monumental empreendido pelos paleontólogos, ao longo dos séculos XIX e XX, permitiu, como se disse, um aceitável escalonamento no tempo, baseado nos fósseis, e o estabelecimento de eras, períodos, épocas e outras divisões temporais mais finas. Posteriormente, mercê dos avanços no conhecimento geológico e dos progressos da física dos isótopos e das tecnologias de análise, dispomos hoje de uma escala cronostratigráfica na qual, com pormenor sempre melhorado, as divisões temporais, baseadas nos fósseis, estão agrupadas em intervalos de tempo de diferentes hierarquias, cotados por valores numéricos referidos à unidade de tempo geológico adoptada, isto é, o milhão de anos, nada menos do que dez mil séculos, uma enormidade no horizonte temporal das nossas vidas, mil cento e quarenta vezes a história de Portugal, mas uma migalha no tempo da Terra.

A. Galopim de Carvalho

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Todos já deveríamos saber como acabam as ideologias quando mistificadas em educação.

A criação do "homem novo" é (compreensivelmente) uma tentação dos sistemas políticos totalitários. Na Modernidade, tal tentação é, muito visivelmente, concretizada nos sistemas de ensino nacionais, tanto de esquerda como de direita.

Acontece que, desde finais do século XX, é assumida por organizações supra e internacionais que, há muito preparavam o caminho para tal. O "homem novo" que tornará a Europa a maior e mais competitiva economia do planeta (União Europeia, Declaração de Lisboa), que salvará a economia global e tornará "o mundo melhor", nas Agendas 2020 e 2030 da Organização das Nações Unidas, respectivamente.

Pede-se (exige-se) à escola, que deixe de ser um espaço e um tempo de educação, para se tornar um campo de doutrinamento. Isso acontece em democracia, naquela em que vivemos, neste e noutros países. E muito pouca gente parece dar conta.

Por isso mesmo, reproduzo a seguir extractos de um artigo escrito por alguém que dá conta do que acima mencionei. Trata-se de Luís Filipe Torgal, professor de História de uma escola do interior (Oliveira do Hospital), investigador no mesmo centro de investigação a que pertenço (Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra - CEIS20). O artigo, publicado anteontem no jornal Observador, tem por título "Uma escola nova, um Homem novo"
"Todos debitam opiniões e convicções, mas poucos sustentam os seus argumentos na experiência quotidiana vivida no interior das escolas e no soalho da sala de aula ou na articulação entre a prática pedagógica sistemática e a investigação persistente. 
Devemos reconhecer que a educação em Portugal progrediu muito nas últimas décadas (...). Segundo os dados do PISA, ao longo dos anos 2000, Portugal galgou lugares, nos domínios das ciências, leitura e matemática, encontrando-se acima da média dos países da OCDE (a lógica economicista do PISA não o vocacionou para medir os conhecimentos de História e de outros domínios das humanidades!). 
Tornou-se, por isso, uma «estrela ascendente da educação internacional». Porém, o país encontra-se ainda abaixo da Finlândia, Singapura, Japão, Canadá, Suíça, Suécia, Nova Zelândia e de pouco mais de uma dezena de outros países desenvolvidos. Por conseguinte, atrás de países que ostentam outros valores de crescimento económico, social e cultural. Que estão ausentes dos primeiros lugares nos rankings de corrupção e tráfico de influências. Que não têm uma cultura da «cunha», do nepotismo e do amiguismo. Países onde os encarregados de educação possuem habilitações académicas bem mais elevadas. Que tratam os seus professores com maior dignidade. Que cuidam equitativamente de todo o seu território nacional. Que suprimiram as «escolas-pardieiros» e desconhecem mega-agrupamentos providos com recursos tecnológicos primitivos. 
Não obstante os bons resultados obtidos, decidiu-se que Portugal deve alcançar imediatamente os países acima citados, apesar dos anos-luz que nos separam deles. Para isso tem de suprimir as reprovações no ensino básico e no secundário. Em terra abençoada por milagres e epifanias, o governo português e os seus gurus do movimento da escola moderna tiraram da cartola um novo milagre de Nossa Senhora de Fátima: chama-se Autonomia e Flexibilidade Curricular. 
Pedagogias construtivistas, trabalhos cooperativos de projeto, ensino por núcleos de aprendizagens, onde os alunos decidem como e o que querem aprender, diferenciação pedagógica que atenda aos ritmos de aprendizagem de cada aluno, desvalorização dos conhecimentos científicos, redução extrema do peso dos testes escritos no processo avaliativo, etc. 
Tudo isto propagado por um eduquês tão eloquente quanto cabalístico vertido em decretos-lei e declamado por teóricos obstinados ou praticantes extasiados de uma cartilha inspirada, dogmaticamente, em diversos autores. Por exemplo, no velho psicólogo marxista Vygotsky, no antigo pedagogo anarquista Freinet, na venerável médica pedagoga Montessori, no saudoso filósofo diletante Agostinho da Silva, ou no sociólogo Edgar Morin, com a sua complexa visão multidimensional, universal e cívica da educação. 
Eis, pois, a última panaceia educativa, a «novel» receita miraculosa do sucesso que vai, enfim, transformar a vil escola de massas numa verdadeira escola inclusiva, libertadora e criadora de cidadãos resplandecentes. 
Como se os professores da «escola retrógrada», que produziu os resultados acima descritos, ignorassem estes e outros autores mais as suas filosofias e pedagogias e não desenvolvessem há anos uma miríade de atividades cooperativas, cívicas e inclusivas com os seus alunos, que complementam os conteúdos formais apreendidos em sala de aula: clube europeu, clubes de jornal, rádio, teatro, cinema, património, ambiente e saúde, visitas de estudo, intercâmbios com escolas estrangeiras, palestras, exposições, desporto escolar, evocações de efemérides, saraus, quizes temáticos, jogos de Matemática, concursos de leitura e escrita, feiras do livro, projetos de ciência viva, Parlamento dos Jovens, salas de estudo com apoio individualizado, e muitas coisas mais!   
Todavia, subsistem «detalhes» que podem atrapalhar a consagração dos conceitos tecnocráticos pós-modernos de «sucesso» educativo e «excelência» académica vertidos na flexibilidade curricular. E quais são esses «detalhes»? 
Muitas das fórmulas da nova escola agora decretadas não são consensuais entre professores, pedagogos e «cientistas da educação». 
Várias das soluções promulgadas por esta nova reforma foram implementadas sem êxito no tempo da secretária de estado da educação Ana Benavente (1995-2001). 
A promoção da educação para a cidadania contrasta com a redução da carga horária das disciplinas de História e Geografia. 
O Ministério da Educação persiste em negligenciar a formação científica dos professores nas diversas áreas disciplinares. 
E reduziu escandalosamente o orçamento atribuído às escolas, a ponto de os seus diretores não disporem de meios para realizarem obras básicas de manutenção dos seus edifícios, repararem os seus decrépitos recursos tecnológicos, acionarem o aquecimento central nos dias mais gélidos do inverno ou para reembolsarem, no tempo adequado, os seus professores classificadores, pelas deslocações às delegações regionais do JNI, a fim de receberem e devolverem as provas e exames nacionais. 
Last, but not least: muitas das «novas» metodologias pedagógicas são impraticáveis nas escolas portuguesas, onde, entre outros aspetos atrás enumerados, no 2.º e 3.º ciclos do ensino básico e no secundário existe pluridocência, provas de final de ciclo, exames nacionais, e a maioria dos professores tem mais de seis turmas, bem mais de 100 alunos, um ou dois tempos semanais de 50 minutos (...). 
Mas que interessa isto? Evidentemente, tudo isto são minudências para os políticos, os tecnocratas, os gurus, os missionários e os «controleiros» da proclamada «educação ética». 
Na escola da flexibilidade não há lugar para incrédulos - quem denuncia os riscos, as contradições e as inviabilidades desta cartilha é rotulado de professor ignorante, ocioso, senil e falastrão, aluno arrogante ou mãe e pai elitistas e reacionários. Os prosélitos da pedagogia «pura» já decidiram que a «escola retrógrada» provocou um «verdadeiro genocídio educacional» em Portugal e creem - e uma crença não se discute - que este novo espetáculo educativo vai proporcionar o nascimento de um Homem novo. Ora, todos sabemos como acabaram as ideologias que profetizaram a criação de um Homem novo…"