segunda-feira, 17 de maio de 2021

"Educação através da Internet"

No ponto 2 do artigo 11.º (Direito ao desenvolvimento de competências digitais) da recém publicada Carta Portuguesa de Direitos Humanos na Era Digital, diz o seguinte "educação através da Internet". 

Muito mal pensamos a educação quando a atribuímos a um recurso, seja este seja outro. A verdade é que a educação acontece entre pessoas que, eventualmente usam recursos, podendo um deles ser a internet

Esta nota não é um jogo de palavras ou um preciosismo académico, muito longe disso, na verdade é um alerta para a destituição do sentido da educação. O que, de resto, de tão comum, não consegue surpreender-me.

domingo, 16 de maio de 2021

COMUNICAÇÕES NÃO SOLICITADAS: RECAMBIADAS ou DENUNCIADAS?

Texto muitíssimo esclarecedor que nos foi enviado pelo Professor Mário Frota, especialista em Direito do Consumo.

Recebi, por três vezes consecutivas, comunicações não solicitadas da Deco-Proteste, do teor seguinte: 

“PRESO AO SEGURO DE VIDA DO SEU CRÉDITO? 

Liberte-se! Está nas suas mãos!

O simulador da DECO PROTESTE diz-lhe, em menos de 1 minuto, quais os seguros de vida mais vantajosos para si e que lhe permitem reduzir a prestação mensal do crédito ou proteger a sua família. 

Veja sem compromisso qual a Escolha Acertada para o seu caso. Pode ficar a ganhar com a mudança, mesmo que aumente o spread do seu empréstimo.”

O certo é que, sem o ter autorizado (jamais o autorizei), continuam a enviar-me comunicações destas para o meu endereço electrónico. Não se trata de um abuso? Já vi que o que me querem impingir é um seguro, agora que também já deram nisso: vendem seguros com propaganda na SIC.”

L.M. – Aveiro 

1. A Lei da Privacidade nas Comunicações Electrónicas de 18 de Agosto de 2004 (Lei 41/2004) proíbe no n.º 1 do seu artigo 13-A as comunicações não solicitadas dirigidas a pessoas singulares para efeitos de marketing directo. 

2. Eis o preceito na sua moldura: 
“1 - Está sujeito a consentimento prévio e expresso do assinante que seja pessoa singular, ou do utilizador, o envio de comunicações não solicitadas para fins de marketing directo, designadamente através da utilização de sistemas automatizados de chamada e comunicação que não dependam da intervenção humana (aparelhos de chamada automática), de aparelhos de telecópia ou de correio electrónico, incluindo SMS (serviços de mensagens curtas), EMS (serviços de mensagens melhoradas) MMS (serviços de mensagem multimédia) e outros tipos de aplicações similares.” 
3. O facto não impede que o fornecedor que haja obtido dos seus clientes, nos termos da Lei de Protecção de Dados Pessoais, no contexto da venda de um produto ou serviço, as respectivas coordenadas electrónicas de contacto, possa utilizá-las para fins de marketing directo dos seus próprios produtos ou serviços análogos aos transaccionados, desde que garanta a tais clientes, clara e explicitamente, a possibilidade de recusarem, de forma gratuita e fácil, a utilização de tais coordenadas:
§ No momento da respectiva recolha; e 
§ Por ocasião de cada mensagem, quando o cliente não tenha recusado inicialmente essa utilização.
4. A violação do preceituado no n.º 1 do artigo 13-A, noutro passo transcrito, constitui ilícito de mera ordenação social passível de coima cuja moldura é a que segue:
4.1. Se o remetente for pessoa singular, a coima (a sanção em dinheiro) oscila entre 1.500 a 25.000 €.
4.2. Tratando-se de pessoa colectiva, como no caso, já que a Deco Proteste, Ld.ª é uma sociedade mercantil, uma sociedade por quotas, a coima fixa-se entre 5.000 e 5 000 000 €.
5. É à Comissão Nacional de Protecção de Dados que compete, mediante denúncia, instruir os autos, apreciar o feito e prover à sanção respectiva. 
6. Aliás, a Deco-Proteste, Ld.ª não é virgem em procedimentos desta natureza e foi, há não muito, condenada pela Comissão Nacional de Protecção de Dados por 40 infracções à lei em relação a um só cidadão, tendo recorrido da decisão para o Tribunal da Concorrência, que manteve a condenação, conquanto lhe haja de modo inconsequente baixado a coima: coimas baixas são um convite à reincidência; é que o “crime” compensa… 
7. Pelos vistos, em manifesto desrespeito pelos consumidores, persiste em atitudes do jaez destas, por si só reveladores do seu fastio pela lei e pelos direitos dos consumidores. 
Em conclusão
a. A lei veda a remessa de comunicações não solicitadas a pessoas singulares, exigindo para tanto prévio e expresso consentimento do destinatário.
b. A violação do preceito é passível de coima e sanção acessória, sendo que aquela orça entre 5.000 a 5 000 000€,
c. A denúncia deve ser efectuada à Comissão Nacional de Protecção de Dados.
Mário Frota, apDC – DIREITO DO CONSUMO - Coimbra

sexta-feira, 14 de maio de 2021

HADLEY FREEMAN E O HOLOCAUSTO


Minha recensão no I de ontem:

Hadley Freeman (n. 1978) é uma jornalista anglo-americana (nascida em Nova Iorque, mudou-se com a família para Londres aos 11 anos) que trabalha no The Guardian. A sua especialidade é a moda, tendo escrito também para a Vogue UK e para a Harpers’ Bazaar. É autora de dois livros sobre estilo de vida (The Meaning of Sunglasses: A Guide to (Almost) All Things Fashionable, 2009, e Be Awesome: Modern Life for Modern Ladies, 2013) e de outro sobre cinema (Life Moves Pretty Fast, 2015). O seu quarto livro, no original House of Glass, que saiu em 2020 na Fourth Estate e está a ser um best-seller internacional, é sobre a história da sua família. Acaba de sair na Casa de Letras (uma chancela da LeYa) uma tradução portuguesa intitulada Segredos Estilhaçados, com tradução de Paula Caetano. O subtítulo é, em português: História e confissões de uma família judia separada pelo Holocausto.

A autora expõe a sua história familiar que descobriu num trabalho longo de investigação. Tudo começou quando encontrou uma caixa de sapatos da avó com fotos e papéis velhos, continuou com entrevistas aos parentes, a busca de documentos e visitas a várias geografias. A história da família de Freeman é um pouco a história do século XX. Uma família judia que no início do século vivia no Sul da actual Polónia, num lugar que pertencia ao Império Austro-Húngaro, muda-se após a Primeira Guerra Mundial para Paris e, depois, um membro da família (Sala, a avó de Hadley) muda-se, antes da Segunda Guerra, para os arredores de Nova Iorque. 

Todas as famílias têm uma árvore genealógica (o meu pai deixou-me uma, que vai até onde ele se lembrava). A da família de Hadley surge logo a abrir o livro: A figura da avó, Sala (depois Sara), é central: teve dois filhos, um dos quais foi pai de Hadley e da sua irmã Bell. Mas igualmente relevantes são os seus três irmãos: Jehuda (Henri), Jakob (Jacques) e Sender (Alex). Os nomes entre parêntesis foram adoptados para substituir os nomes judaicos após a emigração para França

. E onde entra o Holocausto, referido no subtítulo? Jacques foi uma das muitas vitimas de Auschwitz e Alex escapou do mesmo destino por muito pouco porque saltou de um comboio em andamento que se dirigia de França para a Europa Oriental. Só o irmão mais velho Henri conseguiu escapar aos horrores nazis, apesar de ter sido denunciado. As histórias da avó e dos tios-avós foram segredos de família do qual a menina Hadley foi afastada.

A história do livro começa com os bisavôs da autora, Reuben Glahs e Chaya Rotter, que  se casaram em 1898, e com os dois irmãos de Chaya que deram origem a outros ramos da família. A terra onde viviam chama-se Chrzanow. Antes da Segunda Guerra Mundial, cerca de metade dos habitantes desse sítio eram judeus. Depois, quase nenhum: Auschwitz fica a 20 quilómetros da cidade. Reuben e Chaya eram um casal judeu, ortodoxo mas não ultraortodoxo, que teve de lutar muito para se sustentar. Em 1914 o pai partiu para a guerra, para servir o imperador austríaco, só regressando de lá em 1918 todo gaseado (o meu pai contava-me que tinha memória de pessoas gaseadas chegadas a  Portugal vindas da Flandres). O filho mais velho tornou-se o “chefe da família”, ainda mal tinha entrado na adolescência. No fim da guerra, quando a Polónia ficou independente, as autoridades polacas começaram a atacar os judeus, em pogroms violentos. A família não teve outro remédio senão fugir. O primeiro foi Jehud, que foi estudar para Praga, depois Jacob, que foi procurar trabalho em Paris, logo seguido por Sander. Só a mãe e a filha ficaram junto do pai, muito doente, num clima de crescente hostilidade anti-semita.

Chaya e Sala acabaram por se juntar aos seus familiares em Paris. De todos eles, só um haveria de voltar, nos anos 70, à sua terra-natal, para a encontrar completamente diferente. Quando os alemães, com os primeiros tiros da Segunda Guerra Mundial, ocuparam Chrzanow, os Glahs já lá não estavam. Os judeus que restavam dificilmente iriam sobreviver. O que a autora diz sobre o antissemitismo na Polónia  torna difícil  a publicação do livro na terra dos seus antepassados (o poder actual não nega o Holocausto mas nega qualquer responsabilidade polaca). Sala tornou-se Sara, uma bela francesa, ultrapassada que foi uma pleurisia de que sofreu em adolescente. As suas fotos a preto e branco são as que mais chamam a atenção entre as numerosas que enchem o livro (incluindo a capa). Logo a primeira mostra uma senhora de idade muito chique, de chapéu na cabeça, a almoçar numa praia da Normandia. Paris foi, entre as duas guerras, a terceira cidade do mundo com mais judeus (sendo Nova Iorque e Varsóvia as primeiras): no final da década de 30 eram mais de 150 000. Foi aí que a família Glahs refez a sua vida. Jakob tornou-se peleiro e o irmão Sander costureiro. Ninguém adivinharia na altura que o segundo se haveria de tornar primeiro um nome famoso de alta costura e depois um galerista de arte afamado. Conheceu Chagall, um judeu russo emigrado em Paris, e mais tarde haveria de se tornar amigo de Picasso. Mas o início foi difícil. Quando a mãe e a irmã chegaram viveram todos num pequeno quarto (o irmão ainda estava em Praga a formar-se em engenharia).

Muita coisa mudou neles, a começar pelos nomes. O nome de família Glahs passou a Glass. Sender não só se tornou Alex como inventou um apelido francês, Maguy. Hadley Freeman descreve a situação da família na França entre as guerras. “Cada um à sua maneira, todos eles estavam satisfeitos, planeando aquilo que imaginavam que seria um futuro permanente em França, a trabalharem, a viver, talvez um dia, a amar como desejavam, e sempre a uma curta distância a pé uns dos outros. Haviam escapado àquilo que pensavam ter sido os piores momentos e criado a vida deles na mais bela cidade do mundo. Naquela época, a sua imigração fora um êxito.“ Mas a autora, que sabe criar o suspense, logo acrescenta: “Contudo, poucos anos depois, tudo aquilo por que tinham trabalhado tão arduamente para alcançar votaria a ser-lhes travado pelo monstro do qual haviam tentado escapar tão desesperadamente”.

A descrição da perseguição aos judeus na França ocupada pelos alemães é o cerne do livro e não vou roubar o prazer da surpresa na leitura. Só esta parte dava um filme: Jacques alista-se na Legião estrangeira, regressa e acaba por se entregar às autoridades franceses,  depois de convocado para comparecer numa esquadra. Numa saída precária de um campo prisional, não aproveita a oportunidade para fugir, como toda a família lhe dizia. Por sua vez, Alex foi apanhado e torturado pelos nazis, após uma briga num bar. Se Jacques morreu em Auschwitz, o irmão escapou por uma unha negra, recompondo a sua vida primeiro de novo como costureiro e depois como galerista em Paris. Possuiu e expôs obras de alguns dos maiores artistas do pós-guerra, vendeu a gente famosa dos negócios e dos espectáculos e juntou uma colecção própria que faria inveja a qualquer museu. O engenheiro Henri tornou-se no pós-guerra milionário ao criar uma máquina de copiar documentos. Henri e Jacques casaram com judias, tendo tido cada um deles uma filha, mas Alex nunca casou.

Sara foi parar à América por um casamento imprevisto. Tinha a intenção de ser desenhadora de moda e de casar com o seu noivo francês, estudante de Medicina Dentária, quando apareceu um judeu americano, apresentado pelo irmão Alex, que a assediou de uma maneira ostensiva e  de inicio prontamente rechaçada. Mas ele não desistiu telefonando-lhe e escrevendo-lhe da América todos os dias, com mil promessas. A rapariga, sem vontade nenhuma, acabou, em 1937, impulsionada pelos irmãos, por atravessar de barco o Atlântico. Fê-lo porque pensava que a família se ia juntar a ela, quando já se antevia o que, na Europa, ia acontecer aos judeus.  Casou com o desconhecido logo à chegada, iniciando uma longa relação que, de amor, pelo menos de início, nada tinha. Mas a família nunca lhe foi no encalço, deixando-a prisioneira do seu casamento americano. Ao contrário do que lhe tinha contado, o marido não era nenhum ricalhaço nova-iorquino, mas sim um modesto gestor de uma bomba de gasolina, em Long Island. Tornou-se a senhora Freiman porque o marido, também judeu (falavam em ídiche já que ela não sabia inglês) se chamava William Freiman, um apelido que mais tarde seria transformado em Freeman. A senhora Freeman conservou-se tanto no interior como no exterior francesa. Subindo na vida, o casal mudou-se para Nova Iorque. Vestia-se sempre o melhor que podia, com adereços da moda parisiense (dado o gosto pela moda da sua avó e o estatuto elevada na costuraria alcançado pelo seu tio-avô, não admira que Hadley Freeman tenha escolhido o jornalismo de moda). Apesar de lá ter vivido várias décadas, a verdade é que Sara nunca se integrou verdadeiramente nos Estados Unidos. Sintomático da sua tristeza de exilada é o facto de ter rasgado algumas fotografias da sua juventude francesa, contidas na caixa de sapatos.

Alex gostava muito da sua irmã mais nova, a quem ofereceu um desenho de Picasso. Uma foto no livro de Sara a cumprimentar Picasso confirma as boas relações do seu irmão com o criador do cubismo. Hadley Freeman comenta a posse pela sua avó do desenho de Picasso, que ficou escondido num armário perto da caixa de sapatos: “Esta era uma prova real do quão extraordinária fora vida deles: começara numa shtetl [cidadezinha, em ídiche] na Polónia e, muitos anos mais tarde, Alex enviara só para ela, para a sua casa nos Estados Unidos, um desenho de um dos maiores artistas de todos os tempos. Era os segredo deles e o segredo dela e, à semelhança de tantas outras coisas, ela manteve-o até morrer.”

O segredo do Picasso foi agora estilhaçado, tal como outros segredos da família Freeman. Há muitas famílias judias em Nova Iorque e em todo o lado do mundo e cada uma transporta a sua própria história, que nem sempre conta. A história de uma família, aqui tão bem contada por Hadley Freeman, é muito mais do que uma história de família: é a história de um século horrível, que foi marcado pelos pogroms e pelo Holocausto, mas também de um século belo, iluminado pelas pinturas de Chagall e de Picasso. É natural que muitos judeus não queiram falar do seu passado que foi extremamente traumático. Mas a esta autora judia fala dos seus ascendentes com grande coragem. Fiquei, depois da leitura, a conhecer melhor os destinos, bem diversos, dos judeus no século passado.

 

 

Original é a Cultura na SIC: a Cidade e as Terras

 https://sicnoticias.pt/cultura/2021-05-14-Original-e-a-Cultura-A-Cidade-e-as-Terras-1c68c60c

quinta-feira, 13 de maio de 2021

A LÍNGUA PORTUGUESA (CONTINUAÇÃO)

 Segunda parte do artigo de Eugénio Lisboa sobre a língua portuguesa: 

Em entrada anterior, neste blog, publicámos uma breve antologia de testemunhos/homenagem à língua portuguesa, precedidos de algumas considerações sobre a riqueza dela e modos de a usar.  Hoje juntamos mais algumas homenagens, em verso e em prosa.

 

AFONSO LOPES VIEIRA

(1878 – 1946) 

A LÍNGUA PORTUGUESA

 

Ó Portuguesa língua, quando um dia

Floresceste nos rústicos cantares,

Quem te diria que por sobre os mares,

Com tua alma o teu génio cresceria!

 

Soou na Terra a tua melodia

E pelo orbe criou nações e lares;

Com teu ritmo de impulsos e vagares

Foste laço de povos e harmonia.

 

DAVID MOURÃO-FERREIRA

(1927 – 1996) 

EXCERTO DO LIVRO

Magia, Palavra, Corpo1993 

Faça-se todo o possível – mesmo o possível impossível – para que os povos de língua portuguesa leiam cada vez mais os autores de língua portuguesa qualquer que seja a nacionalidade a que pertençam: angolanos, brasileiros, caboverdianos, portugueses, santomenses, sem prejuízo, aliás, do estimulante conhecimento de autores de outras línguas, e pouco a pouco virá a verificar-se a crescente e saborosa mestiçagem do idioma que de Portugal “banzou”, não para “xingar” os demais povos nem para com eles “cutucar”, mas para que a todos servisse de vivo instrumento de fraterna aproximação.

 

ALBERTO DE LACERDA

(1928 – 2007)

A LÍNGUA PORTUGUESA 

Esta língua que eu amo

Com seu bárbaro lanho

Seu mel

Seu helénico sal

E azeitona

Esta limpidez

Que se nimba

De surda

Quanta vez

Esta maravilha

Assassinadíssima

Por quase todos que a falam

Este requebro

Esta ânfora

Cantante

Esta máscula espada

Graciosíssima

Capaz de brandir os caminhos todos

De todos os ares

De todas as danças

Esta voz

Esta língua

Soberba

Capaz de todas as cores

Todos os riscos

De expressão

(E ganha sempre a partida)

Esta língua portuguesa

Capaz de tudo

Como uma mulher realmente

Apaixonada

Esta língua

É minha Índia constante

Minha núpcia ininterrupta

Meu amor para sempre

Minha libertinagem

Minha eterna

Virgindade

  

EUGÉNIO LISBOA

(1930 -     ) 

OUTRO SONETO À LÍNGUA PORTUGUESA

 

Com a língua portuguesa me caso,

com ela vivo quando é preciso;

a língua portuguesa não tem prazo

e veste-se de luxo e conciso.

 

Vive de tristeza e de alegria,

sossega, como sabe, os aflitos

e sabe matizar a euforia,

apaziguando, suave, os altos gritos!

 

Enfeita-se com cores e buzinas,

desperta, com clamores bem sentidos

e com ares de grande dançarina,

 

aqueles que andando adormecidos

acordam àquele toque de alerta:

a língua é clamor e é oferta!

  

TERESA RITA LOPES

(1937 -     ) 

A LÍNGUA É UMA PÁTRIA 

- é dito de Junqueiro e de Pessoa

mil vezes repetido

mas não sei se sentido.

Foi sobretudo no exílio que saboreei

 

essa verdade amarga e doce.

Quando o chão do meu país me faltava

debaixo dos pés,

errava sonâmbula dia e noite

agarrada às palavras

- meu colo minha respiração meu sustento.

Hoje orgulho-me de partilhar a pátria pobre

que somos

com miríades de irmãos constelando os céus

de todos os continentes.

A riqueza maior que ter podemos

não está em cofres, bancos ou acções

mas na música da nossa língua, ecoando

por milhões e milhões de gargantas.

 

Assim damos por concluída esta modesta mas sentida homenagem à língua de Camões e Vieira.

 

Eugénio Lisboa

 

sexta-feira, 7 de maio de 2021

Dia do ICBAS 2021: Sessão de homenagem a Maria de Sousa

Ciência às Seis (on-line) com Tiago Fleming Outeiro: sobre as origens da doença de Parkinson


Na próxima terça-feira, dia
11 de Maio às 18h, via plataforma Zoom, realiza-se a palestra intitulada "Por mares nunca dantes navegados: à descoberta das origens da doença de Parkinson" com Tiago Fleming Outeiro, Professor Catedrático, Director do Departamento de Neurodegeneração Experimental, no Centro Médico Universitário da Universidade de Goettingen, Alemanha.

Sessão inserida no ciclo Ciência às Seis, iniciativa do RÓMULO com a coordenação de Carlos Fiolhais e colaboração de António Piedade, em formato Digital 💻📱Destinada ao público em geral, a sessão é de participação livre e não necessita de inscrição.

Aceda à sessão no Zoom através do link: https://videoconf-colibri.zoom.us/j/83537248708
ou ID da reunião: 835 3724 8708


Resumo da Palestra:

A pandemia, o tema dominante da atualidade, mudou as nossas vidas. Mudou a forma como nos relacionamos, como vivemos, e como viajamos. Mudou a percepção que temos do mundo, e agudizou problemas sociais, económicos, e sanitários.

Mudou as manifestações artísticas e culturais, e mudou também a forma como fazemos ciência. Mas mostrou que, quando as sociedades se unem e investem, a ciência e o conhecimento ajudam a achar soluções para os problemas.

As doenças neurodegenerativas, como Parkinson, Alzheimer, ou esclerose lateral amiotrófica, são problemas sérios, afetando milhões de pessoas em todo o mundo, e continuam sem tratamentos eficazes. Assim, importa estudar a base molecular dessas doenças, no sentido de achar novos mecanismos e alvos para possíveis intervenções terapêuticas.

Como escreveu Fernando Pessoa, "O homem é do tamanho do seu sonho". Devemos alimentar aqueles que ousam sonhar, para que possam voar e fazer o mundo avançar.

 

Biografia do Orador:

Tiago Outeiro é licenciado em Bioquímica pela Universidade do Porto, em Portugal. Realizou a sua tese de doutoramento no Whitehead Institute for Biomedical research – MIT, em Boston, nos Estados Unidos. Foi depois investigador postdoc na MGH-Harvard Medical School, na mesma cidade. Em 2007, iniciou o seu grupo de investigação no Instituto de Medicina Molecular em Lisboa, que liderou até 2014. Desde Outubro de 2010, é Professor Catedrático e Director do Departamento de Neurodegeneração Experimental do Centro Médico Universitário em Goettingen, na Alemanha. Desde Novembro de 2017 é também Professor Catedrático de Neurociências na Universidade de Newcastle no Reino Unido. Desde Novembro de 2019, é Professor Visitante do Instituto de Química na Universidade Federal do Rio de Janeiro no Brasil. É também Professor Convidado da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.

Evento no Site | Evento no Facebook

As últimas palestras do Rómulo estão disponíveis no Canal YouTube

 

RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra

COMO BIBLIOTEQUEI EM TOMAR


Minha contribuição para uma ovra sobre o Bibliotecando em Tomar, que amanhã é apresentada naquela cidade:

“Bibliotequei” em Tomar duas vezes. Uma em 2014, no encontro sobre “Leituras de lendas e mitos,”  no qual  falei sobre “Mitos da ciência”, e outra em 2018, no encontro sobre “Ética e estética: leituras possíveis”, no qual falei sobre “Estética da Ciência,” no Complexo Cultural da Levada (o sítio foi uma agradável surpresa!).

Sei que houve mais “Bibliotecandos em Tomar”, no total de dez edições entre 2010 e 2019, uma série que só a pandemia interrompeu. O evento cultural soube crescer e ganhar reconhecimento, a partir de uma iniciativa de uma escola secundária, da rede de bibliotecas escolares e do Instituto Politécnico de Tomar, ao agregar vários agrupamentos escolares, o Centro de Formação de Professores e o Centro Nacional de  Cultura. Os “Bibliotecandos”  são a prova de que, na cultura, uma semente pode crescer para dar uma árvore e rapidamente  apetecíveis frutos, se vários forem os cuidadores.

Com que impressões fiquei desses encontros na cidade que, pelo menos em parte, inspirou Umberto Eco na escrita de “O Pêndulo de Foucault”? Pois recordo a qualidade da organização, a pluridisciplinaridade do programa, a variedade e qualidade dos oradores, e a boa afluência e participação do público, principalmente professores. Lembro-me da feira do livro, dos almoços (saudades dos tempos de antes da pandemia!) e de visitas nas redondezas, como a da Casa dos Cubos. Não me esqueci de um simpático convite que recebi para fazer uma visita mais demorada a essa cidade que é cada vez mais uma cidade de cultura. E os livros e as bibliotecas são a melhor porta de entrada na cultura.

 Link de acesso ao evento, a decorrer dia 8 de maio de 2021, às 10h00.

https://bit.ly/Bibliotecando

À ESPERA DA BAZUCA

 


Início do meu artigo de opinião saído na quinta-feira no Público:

Ninguém sabe como vai ser o tempo pós-pandemia, mas o governo está ansiosamente à espera da “bazuca.” O nome, que vem da arma antitanque (e antes disso de um instrumento musical), mas, no presente contexto, significa a entrada de muito dinheiro, a maior parte a fundo perdido, da União Europeia. Não gosto da metáfora bélica, que tem subjacente a ideia de um grande poder financeiro para vencer a crise que atravessamos.

Usando uma outra famosa metáfora trata-se de uma “pipa de massa”: cerca de 17 mil milhões (14 mil milhões de subvenções e 3 mil milhões em empréstimo, aos quais poderão acrescer 2 mil milhões) para seis anos. Não foi fácil encontrar a versão revista do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) recentemente entregue na Comissão Europeia, apesar de existir um “portal da transparência.” Encontrada, foi penosa a releitura das 343 páginas do documento, pois está escrito em “tecnocratês”, polvilhado dos termos da moda e sem grande cuidado com a língua portuguesa. Por exemplo, a palavra “resiliência” aparece 181 vezes, “transição” 364 vezes, “clima” e seus derivados 218 vezes, e “digital” e seus derivados 553 vezes. Bem sei que o guião foi escrito em Bruxelas e havia só que o traduzir do inglês, mas podiam ter arranjado uns sinónimos e, além disso, ter pedido a ajuda de um revisor linguístico.

(...)

Ver o resto em https://www.publico.pt/2021/05/06/opiniao/noticia/espera-bazuca-1961292

SAFO POR EUGÉNIO


Minha recensão no Inevitável de ontem:

Estamos num tempo, em que para compensar uma injustiça histórica, estão a ser lembradas, nalguns casos mesmo descobertas, notáveis contribuições das mulheres para a cultura. Por exemplo na música, a alemã Hildergarda Bingen (1098-1179), monja, mística e compositora, foi homenageada há poucos anos quando o seu nome foi dado a uma cratera lunar.  Na pintura,a italiana Artemisia Gentileschi (1593-1656) teve uma grande exposição na National Gallery de Londres. Na ciência, a naturalista e artista alemã Maria Sibylla Merian (1647-1717), que trabalhou na América do Sul,  foi há poucos anos homenageada na sua terra natal, Frankfurt am Main, com o nome de um centro de investigação em biodiversidade.

Na poesia a autoria feminina consegue ir muito mais atrás no tempo. A autora mais antiga foi Enheduanna (2285-2250 a.C), uma princesa, sacerdotisa e poetisa  suméria. Porém, a autora mais conhecida da Antiguidade é, sem dúvida, Safo de Lesbos (c. 630 – c. 570 a.C.), que escreveu poesia lírica, isto é, poesia para ser cantada ao som da lira, que embora só parcialmente e de modo muito fragmentado, chegou até aos nossos dias.  Acaba de sair na Assírio & Alvim o livro “Poemas e Fragmentos” de Safo, que essencialmente encerra toda a sua obra conhecida. Foi seu tradutor o grande poeta português Eugénio de Andrade (1923-2005), cuja obra completa “Poesia e Prosa (1940-1986)”, em três volumes, foi publicada em 1987 pelo Círculo de Leitores. Apaixonado pela escrita de Safo, resolveu, como explica na Introdução (“Amada voz, rouxinol”) traduzi-la, apesar de não saber grego: valeu-se de traduções em inglês, francês, espanhol e italiano, que lista na bibliografia. E valeu-se  acima de tudo da sua enorme sensibilidade poética para além do seu imenso domínio da língua de Camões. Além da obra de Safo, Eugénio traduziu a poesia do espanhol Garcia Lorca e o grego Yiannis Ritsos, para além das cartas em francês da freira de Beja, Mariana Alcoforado, que, sendo prosa, não deixam de ter um tom poético,

A edição original do livro agora saído veio a lume na editora Limitar do Porto em 1974. Mas, dada a procura, tem, havido outras edições. A que tenho em mãos, com bela capa, capa dura e bom papel, é a reimpressão da segunda edição, de 1982, também na Limiar (saiu em 1995, portanto, ainda em vida do tradutor). uma quinta edição, do prelo da Fundação Eugénio de Andrade. Escreve Eugénio na sua Introdução: “Não é a primeira vez que o afirmo: esta mulher é uma das minhas fascinações mais antigas. Não admira, portanto, que aolongo da vida tenha ido coleccionando traduções da sua obra. E um dia não resisto: meti-me também eu a traduzi-la. A traduzi-la é uma maneira de falar. O que aí está, dada a minha ignorância do grego, foi-me dado a saber por outros olhos (…) foram duas ou três semanas febris, como de criação pessoal se tratasse, e nunca um outro trabalho me deu prazer semelhante.” Conclui assim a sua introdução: “Tenho esperança que o perfume a violetas das tranças de Safo não esteja de todo ausente destes versos.” Não está, de todo.

Sabe-se muito pouco sobre Safo. Segundo um epigrama atribuído a Platão ela foi a décima das musas (tradicionalmente eram só nove). A sua vida está envolta em mistério e lenda. A  sua obra perdeu-se quase por completo. Safo foi uma poetisa prolixa: terá escrito cerca de 10 000 linhas de poesia, mas só 650 sobreviveram De facto só há dois poemas que chegaram até nós na íntegra: “Ode a Afrodite”, que nos foi transmitido por Dionísio de Halicarnasso, o poema que abre o livro da Assírio & Alvim, e “Titónio”, que não está incluído pois só foram descobertos no Egipto já neste século papiros que permitiram completá-lo. É uma pena que o tempo, esse “grande destruidor”, tenha corroído o seu testemunho poético. Contudo, a sua fama ficou: se Homero, personagem inexistente, era “o poeta”, Safo era “a poetisa”. Pouco se sabendo da sua vida, o facto mais notável é ter dirigido uma escola para raparigas, em Mitilene, na sua ilha de Lesbos, a terceira maior ilha grega, onde se aprendia não só poesia e filosofia como música e dança. Na Antiguidade grega a educação era só para homens (os Jogos Olímpicos também eram só para homens). As “companheiras” de Safo vinham de todo o lado da Grécia para aprenderem com ela. Há varias reminiscências dessa companhia feminina nos fragmentos, que Eugénio dedicadamente traduziu.

É  curioso verificar as diferenças entre as versões eugenianas  e  as  versões da grande classicista da Universidade de Coimbra Maria Helena Rocha Pereira, que talvez seja mais fiel ao original, mas que talvez não será tão fiel às musas. Eugénio informa-nos que a sábia gostou das suas traduções, embora tenha feito alguns reparos. Mas vejamos alguns fragmentos de Safo  segundo a pena de Eugénio. Uns falam apenas do grupo de mulheres em festas ou celebrações:

“(…) Vem, Cípris, a fronte cingida, e nas taças/ de oiro voluptuosamente entorna/ o caro vinho e a alegria.”

  “Com os pés ligeiros, assim dançavam/ noutro tempo as raparigas de Creta/
à roda do altar; frescas eram/ e frágeis as flores de relva que pisavam”.

“Cheia brilha a lua, e as raparigas/ de pé como a vida de um altar…”

“Para alegria das minhas companheiras/ quero cantar agora uma canção.”

Mas outros vão um pouco mais longe no que diz respeito à proximidade entre as mulheres:

“Ah, pudesses tu dormir/ no peito da mais terna amiga” (talvez o poema mais homoerótico) .

 “Pudesse esta noite durar/ não uma mas duas noites inteiras…”

“… abrasas-me…” (o poema mais curto)

“ ‘Virgindade, virgindade, para onde vais?’/  ‘A ti não voltarei, não voltarei jamais.’ ”

“De novo me torturas e quebras os membros, Eros, doce-amarga indomável serpente.”

 “Eros me afecta o coração – assim nos montes / o vento sacode os carvalhos” (escolhido para a contracapa do livro).

“Desejo e ardo.”

“… Na noite, em vigília, cantam as raparigas, cantam a tua amada, de violetas tingida”

 “… pegai na lira,/ cantai um seio de violetas.”

O nome lésbica vem da ilha de Lesbos e está associado a Safo (talvez também a palavra “safado”). Mas, de facto, não bá a certeza de que Safo tenha sido lésbica. Como se vê, os poemas não são sexualmente explícitos, mas apenas sugestivos. Segundo os relatos da Antiguidade, Safo seria uma mulher heterossexual, a quem é atribuída alguma licenciosidade. Teria tido um filho. Há quem a considere amante de Alceu de Mitilene, (c. 630 -  c. 580 a. C., portanto seu conterrâneo e contemporâneo). Por vezes as obras dos dois estão reunidas, como    na  tradução que fez o poeta Albano Martins para a Imprensa Naciona l- Casa da Moeda,  na colecção “O essencial”, “Alceu e Safo” (1986), que se pode descarregar gratuitamente do site daquela editora. Só no período helenístico é que a suspeita de ligações eróticas de Safo a  mulheres se começou a adensar. Na Idade Média a poetisa foi quase esquecida, embora Bocaccio lhe tenha feito referência. No romantismo, o inglês Alfred Tennyson foi influenciado por ela, em especial pela “Ode a Afrodite”. Mas foi no final do século XIX, no período dito decadentista, que Safo passou a ser considerada lésbica. Um dos autores que o fez foi o francês Charles  Baudelaire (1821 - 1867, portanto nascido há 200 anos). Hoje Safo entrou na cultura popular,  sendo uma figura de referência dos movimentos LGBT. Mas a controvérsia continua, entre os especialistas, sobre a sua sexualidade.

Há um livro curioso de um autor português pouco conhecido, Visconde de Vila Moura (1877-1935), de seu nome completo Bento de Oliveira Cardoso e Castro Guedes de Carvalho,  publicado em Lisboa na Livraria Ferreira, em 1912, que se intitula “Nova Safo”. Há duas edições mais recentes, uma com o subtítulo “Tragédia estranha” com apresentação de Aníbal Fernandes e publicada pela Sistema Solar em 2017. E outra uma edição apenas em forma de livro electrónico (INDEX e-books), disponível na Amazon.  A personagem principal é Maria Peregrina, uma minhota rica que vai estudar para Londres, onde descobre o amor sensual. Na introdução, a professora norte-americana de Literatura Portuguesa Ana M. Koblucka diz que é  “a primeira e, de longe, a mais ambiciosa obra literária de Vila Moura (...) uma obra literária quase esquecida, considerada como o único romance decadente da literatura portuguesa (…) que merece ser resgatada do esquecimento por uma grande variedade de razões, não sendo uma das menores, a figura inédita (e única, mesmo no século seguinte da literatura lusófona) da sua protagonista, uma lésbica intelectualmente e sexualmente assertiva e uma poetisa genial.” O Visconde de Vila Moura  teve  uma vida política durante a monarquia, mas abandonou-a com a implantação da República, para se dedicar por inteiro à vida literária: pertenceu à Renascença Portuguesa, embora pouco tenha a ver com este movimento. Como não podia deixar de ser as suas referências à homossexualidade originaram polémica na época.

Termino com um dos poemas que mais gosto do livro: “No ramo alto, alta no ramo/ mais alto, a maçã/ vermelha/ ali ficou esquecida. Esquecida? Não, em vão tentaram colhê-la."

 

 

A LÍNGUA PORTUGUESA

Novo texto de Eugénio Lisboa:

Ao Nuno Pacheco, persistente e corajoso campeão, na aguerrida luta contra o Acordo Ortográfico, que tanto tem desfigurado a ortografia da língua portuguesa. 

 Passou em 5 de Maio o Dia Mundial da Língua Portuguesa. Fui, com prazer, participar numa sessão de gravação de um programa que a Câmara de Oeiras em boa hora promoveu, para assinalar esse Dia. Tive o prazer de aí ter tido, como parceiro de conversa, o Dr. Rui Soares, grande autoridade internacional na área do Provérbio, e, como moderador inteligente, culto e dinâmico, o Dr. Mário José Silva. Tinha pensado em ali ler algumas homenagens prestadas à língua de Camões, ao longo dos séculos, por alguns poetas de Portugal e do Brasil. Porém o rumo que tomou a conversa não o proporcionou e quero, portanto, fazê-lo aqui.

A língua portuguesa, como todas as línguas vivas, tem evoluído, enriquecendo-se de novos vocábulos a que o progresso obriga e de novos enfoques e conotações que um novo contexto sugere. Os escritores, sobretudo os poetas, mas não só, acrescentam-na, com imaginação e com vigor, não só criando novo léxico como, também, como acima dissemos, usando palavras conhecidas, em contexto diferente e com sentido um pouco distante do usual, com efeitos inesperados. O poeta Paul Claudel dizia isto mesmo, numa formulação inconfundível: “Ce sont les mots de tous les jours et ce ne sont pas les mêmes” (“São as palavras de todos os dias e não são as mesmas.”) Quando Cesário Verde, num poema, se mostra embevecido por uma mulher “aromática e normal”, o adjectivo “normal” parece aqui um pouco frágil e deslocado para significar o que uma mulher possa ter de particularmente atraente: ninguém se lembraria de incluir, entre as seduções de uma mulher, a sua cinzenta “normalidade”. Simplesmente, para o Cesário tuberculoso e condenado a uma morte prematura, a mulher “normal”, isto é, saudável, isto é, “vigorosa”, reveste-se de suprema sedução. Ela era a vitalidade, a força que ele já não tinha e que, da força dela, se alimentava. Nada atrai tanto o frágil e vulnerável como o forte e saudável: o normal. Quem as leu, nunca esquecerá as páginas extraordinárias de Tolstoi, na sua pequena novela, A Morte de Ivan Ilitch, nas quais nos dá o protagonista, um idoso juiz, a morrer de cancro, já muito debilitado, mas a sentir-se todos os dias revigorado, quando um forte mujique lhe dava banho e o ajudava a cuidar-se, com os seus braços possantes: era como se a energia rude mujique se transmitisse, por milagre, ao pobre moribundo. A palavra “normal”, no verso célebre de Cesário, foi ali colocada com sábia pontaria, adquirindo um poderoso significado que não é o significado corrente e baço que lhe é dado por quem a usa.

Os poetas, os escritores em geral, em suma: os autores, são aqueles que aumentam a língua. Auctor era o título que os antigos romanos davam aos seus generais que acrescentavam o território, por conquista. Os verdadeiros escritores também aumentam o território da língua, de várias maneiras. Os três grandes acrescentadores da língua são o povo, as crianças e os escritores. Não os filólogos. O grande Anatole France, que merecidamente herdou o manto de Voltaire, escreveu estas belas palavras sobre os fazedores das línguas: “O povo faz bem as línguas. Fá-las imaginosas e claras, vivas e expressivas. Se fossem os sábios a fazê-las, seriam baças e pesadas.” O que é bem verdade. Conta-se que um dia no Porto, Camilo Castelo Branco ia por uma rua e viu uma vendedora, que era guapa de cima a baixo. Não resistiu a fazer-lhe um piropo. Camilo tinha, como se sabe, a cara picada das bexigas. A vendedora, ao ouvir o piropo atrevido, virou-se para ele e, fitando-o, disparou: “Cale-se, aí, seu cara de areia mijada!” Se isto não é fazer um uso criativo da língua, criando espontaneamente uma imagem inesquecível, vou ali e já venho. E são inúmeros os dizeres populares magnificamente expressivos e contundentes: “Meter o Rossio na Rua da Betesga”; “Diz o roto ao nu”; “Chove a potes”; “Nunca mais é sábado”; “Ficar a ver navios”; “Tirar o cavalinho da chuva”; “Quem tem boca vai a Roma”; “À sombra da bananeira”; “Engolir sapos”; “Dor de cotovelo”, etc. Poderia citar para cima de uma centena de expressões populares tão vivas e imaginosas como estas.

 Por fim, as crianças: há quem tenha coleccionado dizeres espontâneos de crianças, revelando uma imaginação associativa prodigiosa e invejável. Dizia um poeta que todas as crianças têm génio, mas que os adultos acabam por fazê-lo embotar, por não o reconhecerem e até o travarem. Um só exemplo: uma criança a quem o pai deu, pela primeira vez, uma bebida gasosa, reagiu com estas palavras: “Sabe a pé dormente…”, assim construindo uma sinestesia não indigna da que fez Rimbaud, no célebre soneto das vogais coloridas. 

A língua é, muitas vezes, a única pátria possível para os que já não têm a sua pátria de origem. O escritor francês Antoine de Rivarol (1753 – 1801), monárquico em tempos de revolução, teve de fugir de França, para salvar a vida. Como tantos outros escritores, andou por vários países, mas nunca mais regressou à sua pátria, que se afundara no Terror. Sem pátria, agarrou-se à única que lhe restava e gravou, para a posteridade, esta cintilante medalha: “A minha pátria é a língua francesa.” Rivarol foi um notável pensador aforista: embora conotado à direita, deixou aforismos que qualquer aforista de esquerda teria reivindicado. Por exemplo: “É preciso haver fome de pobreza para se gozar bem de riqueza.” A sua intensa assunção da língua, como pátria substituta, teve herdeiros: Fernando Pessoa (“A minha pátria é a língua portuguesa”); Hermann Hesse (1877 – 1962), grande escritor alemão fugido ao nazismo e tendo-se fixado na Suíça, escreveu: “A minha pátria é a língua alemã”; e Albert Camus (1913 – 1960), tendo perdido a sua Argélia sem completamente ter ganho a França, assim resumiu a solução para o conflito que o dilacerava: “Tenho uma pátria: a língua francesa.”

 Fernando Pessoa viveu sempre em Portugal, depois de ter crescido linguística e culturalmente na inglesa Durban, o que o levaria a sentir-se sempre um pouco estranho, no meio de portugueses, que não eram bem como ele: caracterizou-os com acutilância de quem os via de fora, chegando mesmo a achá-los cómicos. Sem pátria que se dissesse, agarrou-se ao português deslumbrante de Vieira e tornou-se poeta português. Mas Pessoa dominava de facto duas línguas e foi o conhecimento profundo do inglês que o ajudou a melhor aprofundar o português. A comparação de duas línguas fomenta o melhor conhecimento de ambas. Já o grande Goethe o dissera: “Quem não conhece línguas estrangeiras, não sabe nada sobre a própria.” Os escritores portugueses que mais contribuíram para a modernização do português foram os que andaram lá por fora: Garrett, , Eça de Queirós, Fernando Pessoa, Jorge de Sena. 

Darei agora alguns exemplos de homenagens prestadas por autores de língua portuguesa à língua que lhes foi pátria e casa. Darei, por agora, alguns, deixando para o meu próximo “post” o resto-

 ANTÓNIO FERREIRA (1528 – 1569) 

 Floresça, fale, cante, ouça-se e viva

A Portuguesa Língua e já onde for 

Senhora vá de si soberba e altiva. 

Se téqui esteve baixa e sem louvor 

Culpa é dos que mal a executaram. 

Carta a Pedro de Andrade Caminha (Excerto) 


OLAVO BILAC (1865 – 1918) 

 LÍNGUA PORTUGUESA


 ´´Ultima flor do Lácio, inculta e bela, 

És, a um tempo, flor e sepultura: 

Ouro nativo que, na ganga impura 

A bruta mina entre os cascalhos vela…


 Amo-te assim, desconhecida e obscura, 

Tuba de alto clangor, lira singela, 

Que tens o trom e o silvo da procela 

E o arrolo da saudade e da ternura. 

 

 Amo o teu viço agreste e o teu aroma 

De virgens selvas e de oceano largo! 

Amo-te ó rude e doloroso idioma, 

 

Em que da voz materna ouvi: “meu filho”! 

E em que Camões chorou, no exílio amargo, 

O génio sem ventura e o amor sem brilho. 


 TERESA RITA LOPES (1937 - ) 

 PALAVRAR 

 As crianças começam a chilrear palavras

 antes de saber falar. 

Saboreiam-nas como a mama das mães. 

 Ficou-me na língua desde então 

 o gosto das palavras. 

 O dicionário não regista o termo 

 - ignorância sua! 

 O neologismo é do Pessoa. 

 Palavrar faz crescer, dilatar as papilas,

 apetecer comer o mundo,

 apura o paladar do ser que somos.

 Sempre os homens, através dos tempos,

 precisaram de palavras 

 a falar ou a cantar, 

 às vezes a rimar, 

 para pôr as palavras a namorar 

 umas com as outras! 

 A Natália exclamou que “a poesia é para se comer!” 

 É verdade que a poesia é o modo mais cristalino 

 ou mais em fogo 

 de palavrar! 

O Miguel Torga elogiou a pobreza franciscana 

 da nossa língua: 

 “Para pedir pão serve às maravilhas!”

 P’ró que lhe havia de dar 

 a sua mania do parco e do pouco! 

 A nossa língua é o mais suculento manjar imaginável! 

 Por mais pobres que nos façam ser 

 os ricos que nos roubam 

 podemo-nos gabar de ter para falar e escrever 

 e comer

 e até amar 

 uma das mais esplêndidas línguas do mundo!

 (Inédito) 


 FERNANDO PESSOA (1888 – 1935) 

 O português é (1) a mais rica e mais complexa das línguas românicas, (2) uma das cinco línguas imperiais, (3) é falada, senão por muita gente, pelo menos do Oriente ao Ocidente, ao contrário de todas as línguas menos o inglês, e, até certo ponto o francês, (4) é fácil de aprender a quem saiba já espanhol (castelhano) e, em certo modo, italiano – isto é, não é uma língua isolada, (5) é a língua falada num grande país crescente – o Brasil (podia ser falada de Oriente a Ocidente e não ser assim falada por uma grande nação).

 (in A Língua Portuguesa) 

 Nota: no próximo post, incluiremos testemunhos de Afonso Lopes Vieira, David Mourão- Ferreira, Teresa Rita Lopes (outro inédito) e Eugénio Lisboa.

 Eugénio Lisboa

segunda-feira, 3 de maio de 2021

CLASSICA DIGITALIA: NOVIDADES EDITORIAIS

Novas edições:

Série “DIAITA - Scripta & Realia” [estudos]

 - Carmen Soares, Anny Jackeline Torres Silveira & Bruno Laurioux, Mesa dos Sentidos & Sentidos da Mesa. Vol. II (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2021). 492 p.

DOI: https://doi.org/10.14195/978-989-26-2060-2 

[Na sua mais ampla aceção, a “mesa” remete para universos onde interagem produtos, pessoas e ideias. Espaço de sobrevivência, mas também de deleite, de formação, de culto e de sociabilidade, cada “mesa” retrata mentalidades, serve de metáfora de valores, abre lugar à transformação de quem nela interage e participa. Da experiência sinestésica proporcionada pelos bens alimentares e ambientes que os envolvem nasce a “Mesa dos Sentidos”. Os 21 capítulos que compõem o volume II estruturam-se em torno de três temáticas centrais. O papel dos códigos de valores de âmbito religioso ou laico (militar) nas dinâmicas alimentares são tratados na Parte I (Mesas sagradas e mesas profanas). A “mesa” como espaço e instrumento de poder(es) social, político, económico e cultural é a temática abordada na Parte II (Mesas de poder e poderes da mesa). A reflexão sobre a “mesa” como expressão da identidade cultural coletiva e veículo de afirmação de saberes/sabores alimentares recebidos ou legados discute-se na Parte III (Identidade e património alimentar).]

Fora de Série [estudos]

- António Manuel Lopes Andrade & Maria Cristina Carrington (Coords.), Do manuscrito ao livro impresso II (Aveiro/Coimbra, UA Editora – Universidade de Aveiro, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2020). 394 p.

DOI:  https://doi.org/10.14195/978-989-26-2074-9

[Este livro vem dar continuidade ao projeto de publicar as contribuições decorrentes do Ciclo de Conferências “Do manuscrito ao livro impresso”, reunindo agora, num segundo volume, os estudos da terceira e quarta edições (2017/18 e 2018/19), que tiveram lugar no Departamento de Línguas e Culturas da Universidade de Aveiro, no âmbito da Licenciatura em Línguas e Estudos Editoriais e do Mestrado em Estudos Editoriais. A realização desta iniciativa tem o propósito de fomentar e aprofundar a articulação entre investigação e ensino, proporcionando aos estudantes um contacto privilegiado com os múltiplos aspetos da História do Livro e da Edição. Os estudos do presente volume versam sobre temas vários da História do Livro e da Edição e constituem um dos resultados mais visíveis de um projeto que se vem renovando, e que se propõe contribuir para a propagação das Artes do Livro.]