FCT head resigns, amid Portuguese research community survival plea

sábado, 25 de abril de 2015

"O povo não precisa de gramática"

No dia em que a "Revolução de Abril" fez quarenta e um anos, sente-se, de modo muito particular, o país, desmoralizado e descrente, a caminhar para um precipício, para uma ruptura, ou para uma inacção.

Releio palavras de Sophia de Mello Breyner dirigidas a Jorge de Sena (publicadas no livro Correspondência 1959-1978, Guerra e Paz, 2006, p. 134) e percebo melhor o que nos aconteceu e o que nos está a acontecer.

A educação das crianças e dos jovens não foi nem é uma aposta. Falo de uma aposta no conhecimento em que a inteligência cria raízes e não (apenas) na ampliação do tempo de escolaridade. Tal como há quatro décadas, a nossa tragédia é, sim, a incompetência cultural.

Fica a interrogação de Sophia...
O problema, a tragédia de toda esta revolução a sua INCOMPETÊNCIA CULTURAL. Desde a descolonização onde tudo se fez com um despabho simplícissimo, primário "ad hoc", até à reforma agrária falseada e demagógica! Passando pela constituição onde se lutou pela vitória da estupidez com o maior sucesso salvo alguns pontos que a muito custo foi possível salvar. Houve até quem no grupo parlamentar, numa reunião de discussão, respondesse à miha crítica à má redacção de um articulado, dizendo-me que o "o povo não precisa de gramática" (...). Será ainda tempo de emergirmos de todos estes erros e demagogias soezes? 
Sophia de Mello Breyner, Abril de 1976.

Sobre a herança de Gago: Minha entrevista ao Expresso

Para o Expresso de hoje respondi a três perguntas colocadas por Virgílio Azevedo:

1. A herança de Mariano Gago em termos de política científica está a ser abandonada pelo Governo?

Está, sem dúvida, a ser abandonada. Mariano Gago expandiu o sistema científico nacional, pois sabia que a massa crítica de cérebros era indispensável para o nosso desenvolvimento. Crato encolheu a ciência, com o corte no número de bolsas e a execução sumária de metade das unidades de investigação. Gago concretizou um sistema de avaliação rigoroso da ciência, reconhecido por todos. Crato montou uma farsa de avaliação, contestada por quase todos e já alvo de vários processos judiciais. Gago criou um consenso alargado acerca da política de ciência. Crato partidarizou a ciência: basta ver que a sua “avaliação” só foi segura pelos votos do PDS-CDS. Finalmente, Gago achava que para recuperar do atraso era necessária uma base de apoio social da ciência, sendo a promoção da cultura científica uma prioridade. Este governo não sabe o que é a cultura científica, tendo acabado com as áreas de História da Ciência e de Promoção da Ciência, preferindo uma ciência fechada, como a que havia no Estado Novo.

Para se ter uma política científica é necessário conhecer bem o país. Gago conhecia-o. Crato tudo leva a crer que não. Tem apenas ideias preconcebidas e sem fundamento. De facto não há hoje política científica. A não ser que se chame isso à ocupação da máquina do Estado para defender interesses particulares. Gago tinha uma visão de futuro para o país, uma visão baseada na ciência e na cultura científica. Crato, para meu grande desgosto, não tem.

2. Os resultados provisórios do último Inquérito ao Potencial Científico e Tecnológico Nacional revelam que a despesa em I&D em percentagem do PIB caiu de 1,46% para 1,36% entre 2011 e 2013. Como é possível a ciência portuguesa evoluir e  aproximar-se dos países mais desenvolvidos da UE se o investimento está a diminuir de ano para ano?

Não é possível. A ciência portuguesa fez um percurso notável nas últimas duas décadas, mas é preciso não esquecer o atraso que tínhamos para recuperar. A aproximação à Europa exigia e exige um investimento continuado. No momento em que era necessário seguir em frente, fizemos inversão de marcha, levando à emigração de cérebros. Mas é pior que desinvestimento. Ao concentrar os meios num número bastante menor de unidades, em geral da Grande Lisboa, está a coarctar-se o desenvolvimento regional e nacional. Com a “poda” de metade das unidades por um processo fraudulento de “avaliação”, a aposta continuada na ciência seria impossível mesmo com mais meios. Um euro investido numa unidade que já tem muitos tem um retorno bem menor que um euro investido numa unidade que poderá não ser tão boa mas tem bastante mais potencial para progredir e ter impacto na sua região e no país. Nunca se deve caiar um elefante que já é branco. Não faz, por exemplo, qualquer sentido pôr o erário público a sustentar grandes fundações privadas. Lá fora é precisamente ao contrário: são as fundações que ajudam o Estado.

 3. O acesso da ciência portuguesa aos fundos estruturais europeus no âmbito do Portugal 2020 só vai ser possível a partir do verão de 2015. O resultado das negociações de Portugal com a UE neste contexto foi satisfatório? A ciência portuguesa pode viver só com o Orçamento de Estado durante metade do ano?    


Boa pergunta. Há aqui uma enorme falta de transparência. Dá a ideia que o governo não soube negociar com Bruxelas. O crescimento da ciência no tempo de Gago foi muito ajudado pela União Europeia, mas parece que Crato desistiu dessa ajuda. Seria relevante conhecer os totais do orçamento para a ciência, em particular para a FCT, antes e agora, assim como saber o que se passa com os fundos europeus. Vai haver fundos estruturais que antes eram destinados à ciência  e agora ficam fora do Ministério da Educação e Ciência? Para quem, para quê e como?  

sexta-feira, 24 de abril de 2015

À LUZ DO TELESCÓPIO ESPACIAL HUBBLE

Artigo publicado primeiramente na imprensa regional.

Telescópio Espacial Hubble. Crédito NASA

A luz do Sol permitiu e sustenta a vida na Terra. Mas foi a contemplação do céu nocturno que conduziu a vida feita inteligência ao assombro de compreender o Cosmos. A observação sistemática do céu nocturno é uma constante ao longo da história da humanidade, um pulsar da cultura humana.

Contudo, a nossa visão, adaptada que está à luz visível solar, não possui a acuidade suficiente para perscrutar toda a riqueza escondida no céu nocturno.

Para reduzir esta nossa miopia cósmica, Galileu Galileu, com a sua luneta, no início do século XVII, deu mais luz à nossa retina e permitiu a revolução científica e humanística que dele herdamos. A observação instrumental do Universo permitiu progressivamente compreender melhor o nosso lugar e a composição do Cosmos.

Mas observar o céu a partir da Terra encontra uma limitação não ultrapassável mesmo com os mais modernos telescópios: a atmosfera, se por um lado protege a vida das perigosas radiações ultravioleta e raios cósmicos, por outro perturba e reduz a luz que nos chega das estrelas. “A atmosfera deixa de ser transparente para a luz de comprimento de onda abaixo de 300 nm (300 nanómetros), impedindo as observações no domínio do ultravioleta; permite a passagem da radiação visível mas deixa novamente de ser transparente para comprimentos de onda acima de cerca de 1100 nm, impedindo a observação no infravermelho longínquo”, diz-nos o astrónomo amador Guilherme de Almeida. E, como sabemos hoje, é importante observar o Universo para além da luz visível.

Este problema levou gerações de astrónomos no século XX a sonhar com a colocação de um telescópio no espaço, a orbitar a Terra, para além da sua atmosfera.

E, assim que a tecnologia o permitiu, um telescópio foi enviado ao encontro do conhecimento. Foi a 24 de Abril de 1990 que a NASA lançou, em colaboração com a ESA, a bordo do vaivém espacial Discovery, o Telescópio Espacial Hubble. Assim, este ano, mais precisamente hoje, celebra-se o 25º aniversário deste telescópio assim designado para homenagear Edwin Powell Hubble (1889-1953), o astrónomo norte-americano que revolucionou a astronomia ao demonstrar, entre outras coisas, que as estrelas se afastam umas das outras a uma velocidade proporcional à distância que as separa, ou seja, que o Universo está em expansão. Com o Telescópio Espacial Hubble também o nosso conhecimento se expandiu como nunca antes.

O Hubble ficou a orbitar a Terra a uma altitude de 552 km, perfazendo uma volta ao nosso planeta a cada 97 minutos. “Opticamente, o Hubble tem 2,40 m de abertura (diâmetro óptico útil), e funciona na configuração de Cassegrain, versão Ritchey-Chrétien”, especifica Guilherme de Almeida.

Acima da atmosfera, o Hubble consegue obter imagens limpas das turbulências da atmosfera terrestre e, para além da radiação visível, podem fazer-se registos nos domínios do ultravioleta e do infravermelho. Esta possibilidade permitiu ao Hubble captar imagens deslumbrantes de galáxias, nebulosas e estrelas muito distantes com uma resolução ímpar que permite o seu estudo e interpretação científica.

Ao longo destes 25 anos, a ciência feita com o Telescópio Espacial Hubble revolucionou o conhecimento de forma equiparável ao feito de Galileu há 500 anos. Este telescópio tornou-se um dos instrumentos mais produtivos ao dispor da comunidade científica, dando origem a mais de 13 mil artigos científicos.

Para David Sobral, Investigador do I.A. - Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, e do Observatório de Leiden, na Holanda, “o Hubble teve e tem uma importância incalculável para a Astronomia e Astrofísica. Ainda que não seja dos maiores telescópios que existe (tem “apenas” 2.4 metros), o facto de se encontrar numa órbita próxima foi incrivelmente importante, e já foram feitas 5 missões para “upgrade”. A primeira foi capaz de colocar o telescópio a funcionar com todo o seu potencial, mas ao longo dos anos, novos instrumentos fizeram com que o telescópio fosse ficando cada vez mais poderoso e competitivo. E hoje continua a ser dos mais concorridos e potentes. Com o Hubble é possível ver não só detalhes incríveis no nosso sistema solar e na nossa própria galáxia, mas também procurar e estudar as galáxias mais distantes alguma vez estudadas.”

Este astrónomo português que faz investigações com o Hubble destaca “a descoberta e estudo de galáxias a mais de 13 mil milhões de anos-luz”. Acrescenta que “talvez uma das grandes descobertas passou pela observação ultra-profunda de uma pequeníssima área do céu, dando-nos a imagem mais profunda alguma vez obtida pela humanidade. O Hubble mostrou que por mais pequena e negra seja uma área do céu, existem dezenas de milhares de galáxias, das mais variadas formas, cores e tamanhos.

Para João Fernandes, responsável pelo Observatório Geofísico e Astronómico da Universidade de Coimbra, “o telescópio espacial Hubble tem sido um dos mais profícuos instrumentos astronómicos de sempre. A sua ”visão” leva-nos do Sistema Solar aos confins do Universo, passando por nebulosas, estrelas e galáxias. São milhares as fantásticas imagens que hoje povoam os livros e a internet que relatam as descobertas do Hubble. São, igualmente, inúmeros os artigos científicos e avanços do conhecimento do Espaço graças ao Hubble. É difícil escolher a observação ou descoberta mais importante". "Pela proximidade com a Terra e pelas questões que a temática levantou (e levanta)”, João Fernandes destaca as observações que o Hubble fez de Plutão: “Plutão é hoje denominado um “planeta anão” (após a revisão da definição de “planeta” feita pela União Astronómica Internacional, em 2006) e tem um sistema de várias luas em seu redor. O Hubble fez das primeiras imagens da superfície de Plutão como fez também descobertas de várias dessas luas. Apesar da “desqualificação” sofrida Plutão continua a atrair muito interesse pelo que nos pode informar sobre a formação e evolução do Sistema Solar.

“Portugal, enquanto membro pleno da ESA, tem hoje acesso total ao Hubble”, diz-nos David Sobral. “Qualquer investigador a trabalhar em Portugal pode fazer uma proposta e obter tempo para observar e responder a inúmeras perguntas. No entanto, e ainda que Hubble esteja a completar 25 anos, continua a ser altamente requisitado. Por exemplo, este ano foram novamente submetidas mais de 1300 propostas dos melhores investigadores do Mundo para realizar as mais diversas observações. Isso faz com que apenas uma em cada oito propostas tenham sucesso e sejam observadas. Eu próprio submeti duas propostas para observar galáxias distantes únicas que descobrimos recentemente e que se achava que não existiam. Vamos ficar a torcer para que daqui a alguns meses o Hubble as possa estudar como só o Hubble consegue, e para que Portugal possa usar um pouco mais as capacidades únicas do Hubble”.

O Hubble, resultado de um esforço de cooperação científica internacional, envolvendo como já se disse a NASA e a ESA, contribuiu no quarto de século de existência mais pelo avanço do nosso conhecimento do Universo do que os milhares de anos anteriores de observação celeste.

António Piedade

CARTA ABERTA AOS PILOTOS DO GRUPO TAP

Documento do movimento NÃO TAP OS OLHOS, impulsionado por António Pedro Vasconcelos, que eu apoio:


O Movimento Não TAP os Olhos, que tem estado a lutar contra a Privatização da TAP, tem vindo a demonstrar, ao longo destes últimos meses, que é possível, de uma forma séria, democrática e com o apoio incondicional da grande maioria dos portugueses, denunciar os falsos argumentos e as verdadeiras intenções do Governo, e impedir a privatização da TAP Portugal.

A verdade é que o governo de Passos Coelho, não só não tem sido sério ao longo de todo este processo (quando anunciou a privatização total da empresa, em 2011, indo mais longe do que os compromissos assumidos com a Troika, a TAP não tinha problemas de tesouraria), como deixou de ter o pretexto do Memorando da Troika e, em fim de mandato, deixou de ter legitimidade política para tomar a decisão de privatizar qualquer empresa pública.

Para provar a má-fé do Governo basta dizer que, ao mesmo tempo que reconhece a importância estratégica da empresa, a necessidade de manter o Hub de Lisboa, e se escudou na defesa do interesse dos emigrantes para travar, através de uma “requisição civil” ilegal, a greve contra a privatização, decretada pela Plataforma de todos os sindicatos, pretende agora vendê-la ao desbarato a uma empresa estrangeira, com um “caderno de encargos” inquinado de ilegalidades, sem ter em conta minimamente o interesse nacional.

Se fosse necessário invocar um testemunho insuspeito, em Fevereiro deste ano, e já em pleno processo de privatização, o presidente da administração da TAP veio dizer, preto no branco, o seguinte: “Há empresas que têm de ser privatizadas ou fecham. Não é o nosso caso, que é sustentável. Tivemos resultados positivos nos últimos cinco anos – ou nos últimos oito, se esquecermos 2008.”

Foi isto que a Plataforma dos sindicatos defendeu quando anunciaram a greve de Dezembro, que o governo sabotou, dividindo os trabalhadores, seduzindo com promessas demagógicas alguns sindicatos. Não é isso que defendem agora os pilotos com a anunciada greve de dez dias. De facto, esta greve anunciada não é contra a privatização da TAP. Pelo contrário, é uma greve a favor de uma privatização que lhes permita retirar miríficos dividendos da privatização da companhia nacional, nomeadamente 10% a 20% das acções da empresa ou a devolução das diuturnidades suspensas pela Lei do Orçamento Geral do Estado.

Com esta atitude, os pilotos não só demonstram um total desprezo pelos seus colegas da manutenção, de cabine e de terra, pretendendo vir a ser os seus patrões, como estão a dar pretextos ao governo para diabolizar o direito à greve, pôr a opinião pública contra os trabalhadores e reforçar a sua desculpa para a urgência em vender a TAP a qualquer preço.

Por isso, o Movimento Não TAP os Olhos declara-se inequivocamente contra esta greve marcada pelo Sindicato dos Pilotos da Aviação Civil, que considera autista, por ser uma quebra de solidariedade com os restantes trabalhadores, e porque em nada contribui para credibilizar o protesto de milhões de portugueses que, em Portugal e na diáspora portuguesa, querem que a TAP se mantenha nas mãos do Estado.


Pelos motivos acima referidos, o Movimento Não TAP os Olhos apela a todos os Pilotos do Grupo TAP que cancelem esta greve, por ser inoportuna, politicamente suicida e que, sem descurar os seus direitos legítimos, se batam, isso sim, contra a privatização da empresa que, além de privar Portugal de um instrumento estratégico para a ligação do universo lusófono espalhado por vários continentes, seria ruinosa para a nossa economia e para o futuro dos trabalhadores da empresa. 

HOJE O TELESCÓPIO HUBBLE FAZ 25 ANOS

Minhas declarações à Antena 1 (no imagem foto do céu profundo tirada pelo Hubble):



http://www.rtp.pt/noticias/index.php?article=823057&tm=94&layout=123&visual=61

quinta-feira, 23 de abril de 2015

O sentido do escoamento da água numa pia é diferente acima ou abaixo do equador?

MInha resposta no jornal I de hoje:


É pseudocientífica essa afirmação. Existe, de facto, uma força, chamada força de Coriolis, associada à rotação da Terra, que faz com que os ciclones tenham sentidos contrários acima e abaixo do equador, mas ela não é suficiente para causar efeitos desse tipo na pequena porção de água de uma pia.  Pode-se realizar a experiência repetidamente no hemisfério de residência e verificar que não há qualquer regularidade. Em vez de acreditar em qualquer patranha o melhor é realizar a experiência.

NO DIA MUNDIAL DO LIVRO E DOS DIREITOS DE AUTOR

Alfabetos, do italiano Claudio Magri, uma colectânea de textos, grande parte deles publicados no jornal Corriere della Sera, é uma reflexão sobre a literatura, sobre os livros mais marcantes. 
Lê-se na contracapa "... é uma viagem pela literatura, através dos livros, uma de entre milhares de viagens possíveis à descoberta dos livros, dos seus autores, e de nós próprios. Os livros que nos formam, os que nos ferem, os que nos curam, os que permitem que conheçamos o mundo e organizemos a visão que dele temos."

Ao longo de 450 páginas encontramos textos variados, onde o autor fala dos livros que marcaram a sua vida, analisa personagens, relaciona autores e obras, de várias épocas e de vários quadrantes.

Logo no primeiro texto afirma:

"Deveria, neste ponto, falar dos livros que me deixaram uma marca absoluta, que se tornaram o próprio modo de sentir o mundo e a relação entre a vida e a verdade, que ora se unem como os dois lados da mesma moeda, ora parecem contrapor-se: a Ilíada, a Odisseia — o livro dos livros, no qual já está tudo, as sereias, mas também as personagens svevianas que escamoteiam obliquamente a sua inépcia ao escutar e enfrentar o seu canto —, os trágicos gregos, Shakespeare que revela o âmago extremo da condição humana, os discursos de Buda e as parábolas de Zhuangzi; acima de todos, estavam o Antigo e o Novo Testamento, depois dos quais não se teme mais nenhum príncipe deste mundo e se compreende que a pedra mais vil, aquela desprezada pelos construtores, é a verdadeira pedra angular."

Lê-se mais adiante:

" Um livro, dizia Kafka, deve atingir-nos como um punho, deixar uma marca profunda, mudar — ainda que impercetivelmente — a vida do leitor."

Claudio Magris, Alfabetos, Quetzal, 2013

A EUROPEAN SCIENCE FOUNDATION: UMA INSTITUIÇÃO FALIDA

Um responsável pela European Science Foundation publicou um artigo sobre essa instituição, a autora material da "poda" de metade das unidades de investigação nacional perpetrada em estreito conluio com a FCT (a actual Presidente da FCT ainda não reviu o processo, continuando a estudar os dossiers). Aí se revela:

- a ESF, no ano transacto, quando foi ajudada com o cheque de quase meio milhão de euros da FCT, ficou quase na falência, provavelmente por desorientação e má gestão. A ajuda portuguesa veio na hora H, salvando-a num momento de aflição.

- a ESF tem uma experiência muito limitada de avaliação de sistemas científicos nacionais: o artigo revela avaliações parciais na Lituânia e na Hungria. Mais importante que tudo: o autor não menciona a "avaliação" da ciência em Portugal, o que significa que não se orgulham disso.

Neste momento, está claro para todos que Miguel Seabra ao entregar a avaliação a uma entidade desqualificada cometeu um erro monumental, um erro que foi muito caro não só para a reputação dele (viu-se obrigado a demitir-se no meio do maior tumulto de sempre da ciência nacional) como sobretudo para a ciência portuguesa.

"EGO" EM COIMBRA E AVEIRO


Informação recebida da marionet:

Últimas duas apresentações de EGO em Coimbra

No próximo fim de semana, o público de Coimbra terá as duas últimas oportunidades para assistir a EGO, de Carl Djerassi, em cena no Teatro da Cerca de São Bernardo. A peça será apresentada no sábado, 25 de Abril, às 21h30 e no domingo, 26, às 16h.

Nesta peça o escritor e cientista norte-americano não esconde a sua admiração por Fernando Pessoa e a sua extraordinária criação heteronímica ao torná-los motivação central para o suicídio forjado de uma das personagens. Stephen Marx, escritor de sucesso, anseia por saber se a sua obra ficará na história da literatura, o que o leva a planear a própria morte com o intuito de renascer como um seu heterónimo. Mas a sua futura viúva, uma verdadeira força da natureza, constitui uma oposição que não será fácil ultrapassar. Entre os dois está um psicanalista, que vê a sua ética profissional permanentemente ameaçada e que no final não voltará a ser o mesmo.

EGO é uma apetitosa comédia polvilhada de um humor subtil e recheada de referências literárias, culinárias e freudianas. 

Logo após o espectáculo de domingo, 26 de Abril, cerca das 18h, acontecerá uma conversa em torno da obra dramática de Carl Djerassi, com particular ênfase nas peças que teve traduzidas e representadas em Portugal. Teremos como convidados especiais o actor e encenador Júlio Cardoso, director da Seiva Trupe, e o químico e professor universitário Manuel João Monte, que encenaram e traduziram, respectivamente, duas peças do escritor norte-americano que foram produzidas por aquela companhia portuense. Manuel João Monte foi também o padrinho do Doutoramento Honoris Causa que Djerassi recebeu da Universidade do Porto em 2001.

EGO em Aveiro, nos dias 1 e 2 de Maio


EGO será apresentada em Aveiro nos próximos dias 1 e 2 de Maio, sexta e sábado, às 21h30, no Estaleiro Teatral. Será a primeira vez que uma obra dramática de Carl Djerassi será representada nesta cidade portuguesa.

DIVULGAÇÃO DA FÍSICA NUCLEAR

O físico Eduardo Martinho oferece-nos aqui uma lista dos links para os seus artigos de divulgação sobre Física Nuclear no jornal O Mirante de Santarém. Clicar aqui.

Parabéns Pedro Vieira!

Pedro Vieira, um físico formado na Universidade do Porto e a trabalhar numa das instituições de maior prestígio da Física - o Perimeter Institute do Canadá - foi recentemente premiado com a medalha Gribov depois de ter ganho uma das famosas bolsas Sloan. Cá parece que não tem lugar. A unidade onde ele se formou foi, de resto, maltratada pela FCT-ESF. Emigrou e lá fora é um dos melhores do mundo. Há mais casos como este. Está à vista o resultado de uma política desastrada de desperdício de talentos.

 Ver
http://noticias.up.pt/alumnus-da-faculdade-de-ciencias-conquista-medalha-gribov/

Minha Entrevista ao Açoriano Oriental

Entrevista que dei a Ana Carvalho Melo do Açoriano Oriental, o mais antigo jornal português em actividade e um dos mais antigos do mundo (destaques meus a amarelo):

P- Afirmou que "Hoje o drama é o analfabetismo cientifico". Termos uma população com melhor educação em ciência, não significa que sejamos todos cientistas, mas antes uma melhor compreensão do mundo. Dado que tem dedicado muito da sua carreira cientifica à divulgação cientifica, o que falta fazer?

R-  De facto, se nos últimos 20-30 anos houve um crescimento enorme da ciência em Portugal, temos de reconhecer que o ponto de partida era baixíssimo. Nas Conferências do Casino de 1871 o açoriano Antero de Quental dizia: "A Europa culta engrandeceu-se, nobilitou-se, subiu sobretudo pela ciência: foi sobretudo pela falta de ciência que nós descemos, que nos degradámos, que nos anulámos." Se no final do século XIX o nosso nível científico era baixo e nos primeiros três quartos do século XX não melhorou muito. O próprio Antero referiu nas causas do nosso atraso a défice de educação e o tipo de educação que tínhamos. estou convencido que a falta de ciência tem muito a ver com falta de educação. No final do século XIX Portugal era um caso tremendo de analfabetismo, em contraste com a maioria dos países europeus, e em 1974 ainda havia 29% de analfabetos. Hoje em dia ainda há cerca de 5% de analfabetismo, mas o nosso drama, que importa para a relação da sociedade com a ciência, é o analfabetismo que consiste em ignorar e por vezes mesmo desprezar a ciência. Não é tanto saber ler em geral que nos deve preocupar, mas mais a não compreensão da ciência. Saber é poder e mais saber é mais poder. A ciência está presente no mundo moderno, por vezes tão presente que se torna invisível (nem reparamos que está altamente concentrada por exemplo nos telemóveis). E, no entanto, em muitos sítios como em Portugal a sociedade ainda desconhece a natureza, os objectivos e o método da ciência. Ora, como já alguém disse, esta mistura entre saber, só para alguns, e ignorância, da população em geral é explosiva. Pode acontecer que a sociedade a certa altura não perceba a necessidade de investimento contínuo na ciência e toda a nossa civilização estará em causa. O que falta fazer? Espalhar mais a ciência. Mais e melhor ciência tanto na escola como fora dela,.designadamente nos media. Há bons exemplos, mas falta que eles sejam mais seguidos. Tiro meu chapéu ao "Açoriano Oriental", ainda mais antigo que o Antero de Quental, e que se tem interessado pela difusão da ciência.

P- A educação em ciência deve começar em que ciclo de ensino?

R-  O mais cedo possível, portanto logo no 1,.º ciclo do ensino básico ou, ainda antes, no jardim de  infância. A criança, quando nasce, vem equipada coma curiosidade, que é a mola da ciência. Ainda antes de entrar na escola e já quer saber como é o mundo. Agarra objectos antes de falar. E quando fala pergunta o que é e por que é. Experiência de "ciência a brincar" deviam ser a introdução à ciência para todos, agora que entre nós a educação pré-escolar se generalizou. Depois na escola, a formalização da ciência seria mais fácil. E já não haveria receio da ciência como "bicho-papão". Por vezes desiste-se da ciência, por medo dela, quando nem sequer se sabe o que é. O método científico é algo bem simples: consiste em perguntar ao mundo como ele é.

P-  Por outro lado tem-se mostrado muito crítico em relação ao futuro da ciência em Portugal.

R-  Eu não sou crítico quanto ao futuro da ciência em Portugal.Quero até ser optimista, como são em geral os cientistas. Acredito no futuro da ciência em Portugal. penso, de resto, que sem ciência Portugal dificilmente terá futuro. Basta olhar para os países hoje mais desenvolvidos para reparar que eles são mais desenvolvidas precisamente porque acolheram a ciência há bastante tempo e não mais a largaram. Estou crítico é de um governo que diminui drasticamente o número de bolseiros de ciência, que corta os projectos a torto e a direito e que decide, à falsa fé, encerrar metade dos centros de investigação nacionais. O governo voltou as costas à ciência. Quer abandonar um grande número dos cientistas à sua sorte. Em particular, desprezou a ligação forte entre ciência e sociedade que dá pelo nome de cultura científica. Não procurou cultivar o conhecimento da ciência, nem na escola nem fora dela.

P-  Quais as suas principais preocupações? Na escola gostaria que a ciência começasse mais cedo, com educadores e professores a incutirem nos mais novos o gosto pela experimentação. As crianças são verdadeiras esponjas: absorvem o que lhes transmite em tenra idade e absorvem sobretudo o que aprendem com o cérebro ligado às mãos. No secundário vejo com mágoa que a física e a química não são valorizadas, estando a física e a química reduzidas a resíduos no 12..º ano. No superior as instituições estão à míngua, com cortes até ao osso. Não há autonomia nem confiança nas instituições de ensino superior. Aposta-se ainda na ciência em institutos fora das universidade, estranhamente alguns privados, enquanto se desinveste das universidades. Há agora uma preocupação obsessiva com o emprego, que eu percebo, mas que na prática desvaloriza os cursos superiores de ciências básicas. Ao unir o Ministério da Ciência e Ensino Superior com o Ministério da Educação, assistimos ao apagamento político da ciência. A ciência não se senta à mesa do orçamento, sendo na prática preterida por interesses que estão muito afastados dela. Certas pessoas que ora nos governam ignoram que a ciência, em particular a ciência fundamental, é a fonte do desenvolvimento económico.

P- Quais as consequências da realidade actual para o futuro do nosso país?

R-  Em consequência do desinvestimento na ciência e de uma politica míope que relega as universidades e politécnicos para segundo plano as novas gerações, aquelas mais qualificadas, não estão a encontrar trabalho científico e estão a emigrar. Se não se estanca essa corrente para fora, o país ficará, como já está, bloqueado. Claro que precisamos de cientistas e engenheiros, mas qualquer dia, a continuar assim o êxodo, não os teremos cá. Estarão nos sítios onde eles são acarinhados a fazer coisas que nós pagaremos muito caro para termos. Se se pensa que a ciência é cara, vão ver o que nos vai custar a falta dela.

P-  A mudança no panorama científico depende só do Estado ou também da indústria?

R-  Depende dos dois. Mas a ciência fundamental, com rendimento só a médio ou longo prazo, é mais uma obrigação do Estado. As empresas têm tendência em verem só o curto prazo. É até compreensível. Muitas pequenas empresas, que dominam em Portugal, lutam pela sobrevivência no dia a dia e não podem pensar em mais nada. Mas é preciso que os empresários portugueses conheçam a extraordinária mais valia que reside nos cérebros dos nossos doutores e mestres. Eles estão mortos por ajudar o país e o país precisa da ajuda deles. O seu recrutamento não pode ser apenas uma missão do Estado, tem de ser - e cada vez mais - uma missão das empresas. Ciência e economia têm entre nós de se aproximar, mas isso não se faz contraindo a ciência, mas sim continuando a expandi-la até pelo menos chegarmos a níveis médios europeus.

P-  E a ciência nos Açores?

 R- Os Açores são um sítio único no mundo. .São um laboratório natural: de sismologia, de vulcanologia, de meteorologia, de recursos marinhos, de biodiversidade. Há condições para colocar aqui um centro internacional activo nessas áreas mas para isso é necessária diplomacia científica de Portugal e da Europa com os Estados Unidos. os Açores estão a meio caminho entre o Novo e o Velho Continente. A ciência pode não ser o único factor de desenvolvimento, mas deve ser um factor a considerar entre outros, assegurando emprego a pessoas qualificadas e atraindo pessoas de fora. Um grande projecto exige uma grande visão. Pode ser que ela um dia apareça.

TENDÊNCIAS - O MUNDO DA CIÊNCIA EM 2015

Artigo de Helena Peralta na revista do Montepio, para o qual dei algumas contribuições: 

 A nível mundial

 Vamos continuar a assistir, durante 2015, ao crescimento da investigação na China. Este país tornou-se o segundo maior investidor em ciência e investigação, ultrapassando o Japão e ficando apenas atrás dos Estados Unidos. Já na Europa espera-se que comece a sério, como afirma o físico Carlos Fiolhais, o Horizonte 2020, o programa comunitário de investigação e inovação, dotado de 77 mil milhões de euros destinados à investigação.

Raquel Seruca, investigadora e vice-presidente do Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto, refere que a investigação científica está a beneficiar de uma abordagem multidisciplinar, que tende a continuar em 2015. A especialista avança que há um grande investimento na saúde pública, nomeadamente no combate a doenças como a malária e o ébola.

Na área da Física, Carlos Fiolhais, docente e investigador na Universidade de Coimbra, prevê que a continuada expansão das nossas possibilidades de cálculo continue a dar aso a simulações sobre matéria condensada e matéria complexa.

O interesse pelo sistema solar vai continuar. No caso português, Fiolhais espera que em 2015 haja uma inversão na política científica de retração do investimento. “É previsível que a mudança de política traga a necessária reposição de confiança na gestão da ciência em Portugal, que neste momento está muito abalada”, diz.

 ÁSIA

 Uma importante movimentação surge na Ásia, já que se acredita que a China possa vir rapidamente a suplantar os EUA como superpotência mundial

PRINCIPAIS TENDÊNCIAS NA CIÊNCIA

1 A China vai continuar a ser um dos maiores investidores em investigação e ciência
2 A investigação beneficia de uma abordagem multidisciplinar muito importante
3 Acentua-se a investigação no campo da saúde, sobretudo das doenças da pobreza, como a malária
4 Doenças neurodegenerativas e cancro estão a atrair maior atenção da comunidade científica
5 Novas tecnologias, sobretudo na imagem, estão ser muito úteis nas ciências da saúde
6 Na Física continuará a expansão das possibilidades de cálculo. A Universidade de Coimbra instalará o maior supercomputador português
7 Interesse pelo sistema solar vai continuar, estando prevista para julho a passagem da sonda New Horizon pelo planeta Plutão
8 Entra [de novo] em funcionamento o acelerador LHC, o maior acelerador de partículas construído pelo homem.

Helena Peralta

Tesouros da fotografia portuguesa do século XIX


Tesouros da Fotografia Portuguesa do século XIX apresenta, pela primeira vez, um conjunto significativo de autores e fotografias provenientes dos mais importantes acervos públicos e privados da história da fotografia portuguesa, colocando em diálogo os acervos fotográficos de diversas instituições públicas que têm como missão a salvaguarda do património fotográfico nacional, realçando a necessidade e a premência de abordagens integradas no acesso, estudo e divulgação da fotografia portuguesa.

A apresentação aos media tem lugar no dia 29 de abril às 12h00 no MNAC. Conta com a presença das curadoras Emília Tavares e Margarida Medeiros.

Em www.museuartecontemporanea.pt/informações/imprensa estão disponíveis para download a Nota de Imprensa, imagens em alta resolução e respetivos créditos.

SUSANA PAIVA EXPÕE NUM ALFARRABISTA DE COIMBRA


Mais e melhor ciência (artigo de 1998)

A 30 de Outubro de 1998, três anos após existir o Ministério da Ciência e Tecnologia eis o que escrevi no Público a extraordinária mudança que o ministro José Mariano Gago estava a levar a cabo no país:

"O anunciado aumento de 26 por cento do orçamento do Ministério da Ciência e da Tecnologia, que faz a despesa em investigação e desenvolvimento no próximo ano alcançar 0,8 por cento do Produto Interno Bruto (PIB) português, constitui motivo de contentamento para todos aqueles que têm defendido a ciência em Portugal. Representa uma clara vitória política do ministro José Mariano Gago, que assim consolida um projecto anunciado há anos no seu livro “Manifesto para uma Ciência em Portugal”. Corresponde ao esforço da nossa comunidade científica, cada vez mais jovem e activa. E é também e sobretudo o materializar de uma necessidade inadiável de modernidade. Embora a civilização se possa medir de várias maneiras, a percentagem do investimento científico é um indicador obrigatório. Estaríamos a fugir do futuro se não avançássemos urgentemente nesse número.

Teremos, pois, no futuro mais ciência. Esse facto não ajudará a auto-estima nacional tanto como uma esporádica feira mundial ou um oportuno prémio Nobel. Mas trata-se de algo mais duradouro e profundo, e que merece apreciação: o investimento que fazemos hoje em ciência e tecnologia é condição para desfrutarmos amanhã de riqueza e cultura acrescidas. Sem ele, continuaremos pobres mesmo que organizemos feiras à beira-rio.

Não nos devemos, porém, iludir. O avanço que agora se divulga só é tão nítido porque há anos e anos de atraso que em nada ajuda (algum do tempo perdeu-se na fase terminal do cavaquismo, quando o progresso económico não teve contrapartida científico-técnica). Por outro lado, ainda estamos longe dos países mais desenvolvidos: estes gastam cerca  de 2 por cento do PIB em ciência e tecnologia e alguns países com quem nos queremos comparar estão à nossa frente (a Espanha anunciou para 1999 1 por cento, embora aqui se incluam projectos do Ministério da Defesa).

Temos, por isso, de ser exigentes. Temos de querer não só mais como também melhor. Temos de assegurar empregos aos jovens que decidiram apostar em carreiras de investigação (e para quem a vida está incerta). Temos de rejuvenescer as universidades, que em parte estão anquilosadas e nem sempre reconhecem o trabalho científico. Temos de sacudir a burocracia e a rotina dos Laboratórios do Estado (cuja avaliação tarda a produzir efeitos visíveis). Temos de aumentar a qualidade dos projectos e de procurar publicar os resultados nas melhores revistas (para que a “Nature” não fale de Portugal apenas a propósito das vacas loucas).Temos de reforçar a avaliação científica de centros e projectos, financiar em conformidade e simplificar os processos administrativos associados aos financiamentos. Temos de combater os regionalismos na actividade científica (não há o electrão da Beira Litoral nem o da Beira Interior). Temos de participar mais nos grandes e pequenos laboratórios internacionais — o Laboratório Europeu de Física de Partículas (CERN) foi um bom exemplo de como a internacionalização pode ajudar um país periférico a sair da periferia, mas deve ser seguido por outros. Temos de enraizar a ciência no nosso tecido produtivo (e assegurar que a inovação não seja só o nome de uma agência, mas a chave da qualidade no quotidiano). Temos de levar a ciência às escolas, para o que se impõe um casamento mais fecundo do Ministério da Ciência e Tecnologia e o da Educação (a nossa educação científica continua lastimosa, debilitada por pseudo-teorias da aprendizagem; não têm valido de muito as piedosas intenções do programa “Ciência Viva”, com uma boa ideia forte — a experimentação — mas cuja descoordenação com a educação  é manifesta). Temos de levar a ciência aos cidadãos, quer criando novos museus e audiovisuais quer usando meios mais antigos como a imprensa e os livros (não há em português uma revista de divulgação científica decente, em Espanha há três!). Temos de saber utilizar as novas e as velhas tecnologias de modo a que a sociedade da informação seja também a sociedade do conhecimento (aqui as intenções do programa “Nónio - Século XXI”, iniciativa do Ministério da Educação para usar computadores nas escolas, nem serão piedosas mas tão só propagandísticas).

Depende do nosso grau de exigência ter não apenas mais ciência, mas também melhor ciência."

30 ANO DA ADESÃO DE PORTUGAL AO CERN


Informação recebida do Ciência Viva:

Na tarde do próximo domingo, 26 de abril, o LIP e a Ciência Viva celebram os 30 anos da adesão de Portugal ao CERN, no Auditório do Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa.

Esta tarde será agora também dedicada à memória de José Mariano Gago, impulsionador dessa adesão, fundador e presidente do LIP e fundador da Ciência Viva. José Mariano Gago empenhou-se pessoalmente na preparação desta celebração, trabalhando no programa até ao fim.

Às 15.00 será apresentada a estreia nacional do documentário Particle Fever, do realizador Mark Levinson, sobre o CERN, o arranque do acelerador LHC e a procura e descoberta do bosão de Higgs. Para responder a questões sobre os temas abordados no filme e sobre a presença de Portugal no CERN estarão presentes os investigadores João Varela, Patrícia Conde Muíño, Augusto Barroso, Jorge Romão e Gaspar Barreira, Director do LIP e Delegado de Portugal no Conselho do CERN.

Às 17.30 terá lugar a sessão dedicada à celebração oficial da adesão de Portugal ao CERN e à memória de José Mariano Gago, com depoimentos de personalidades nacionais e do CERN. Destacamos a participação de Luigi Rolandi e de Pier Giorgio Innocenti, do CERN, de Christian Fabjan, da Academia Austríaca das Ciências e ainda de representantes das instituições associadas do LIP (FCT, IST, Universidade de Lisboa, Universidade de Coimbra, Universidade do Minho, ANIMEE). O passado, presente e futuro do CERN marcam presença nesta sessão através das mensagens de Herwig Schopper, Director Geral aquando da adesão, Rolf Heuer, actual Director Geral, e Fabiola Gianotti, futura Directora Geral.

No final da sessão será atribuído o nome de José Mariano Gago ao Auditório do Pavilhão do Conhecimento - Ciência Viva.

Agradecemos que se inscreva aqui Os lugares são limitados.



quarta-feira, 22 de abril de 2015

A ERA DO DESLUMBRAMENTO


Informação recebida da Gradiva:
NÚMERO 100 DA COLECÇÃO «TRAJECTOS»!

MAIS DE 700 PÁGINAS
25 EUROS 
PREÇO ESPECIAL
SÓ VENDA DIRECTA
 | www.gradiva.pt

A Gradiva vai comemorar a publicação do número 100 da colecção «Trajectos» com a edição especial de uma obra singular.

Esta edição será vendida com pré-encomenda, a preço especial, apenas em pedido directo à Gradiva.

Para garantir a possibilidade desta edição especial será necessário assegurarmos a venda de um mínimo de 500 exemplares, pedindo aos leitores interessados que, a partir de agora e até ao final de Maio de 2015, nos comuniquem o seu interesse em adquirir esta obra através do e-mail: 


encomendas@gradiva.mail.pt

A Era do Deslumbramento é um livro único, de história e de história da ciência, que venceu o Prémio da Royal Society. Segundo o próprio autor, o reputadíssimo Richard Holmes, «é uma corrida de estafetas de histórias científicas, que se interligam para explorar a narrativa histórica mais abrangente» de uma época. Incide sobre a revolução científica que teve início na Grã-Bretanha no final do século XVIII e produziu uma nova visão da ciência e do mundo.

Esse período romântico é, de uma forma simbólica, balizado por duas célebres viagens de exploração: a expedição de circum‑navegação do capitão James Cook a bordo do Endeavour, em 1768, e a viagem de Charles Darwin às ilhas Galápagos, a bordo do Beagle, em 1831. Essa é a A Era do Deslumbramento, quetrouxe intensidade imaginativa e carácter empolgante ao trabalho científico. Esta manifestou-se, entre outros aspectos, pela ligação das descobertas a personalidades individuais. 

Richard Holmes é um excelente contador de histórias e, por isso, trata as teorias focando-se nas pessoas. Apresenta e reflecte sobre as várias questões da ciência, mas tudo se traduz no fim, afinal, numa narrativa admirável de histórias humanas empolgantes e factos históricos decisivos. Richard Holmes capta o pulsar das descobertas científicas e o sentimento dos homens que as realizaram, reconstituindo o contexto dessa época tão marcante no percurso da aventura humana.

Considerado o Melhor Livro do Ano para o New York Times Book Review, A Era do Deslumbramento é uma obra de grande fôlego, informativa e de leitura compulsiva, acessível e cativante.

Lançamento previsto para Julho... a tempo das suas férias!

«Extraordinário... Uma fusão ambiciosa e inteligente de história, arte,
ciência, filosofia e biografia.»

The New York Times


«Copioso e brilhante, um livro maravilhoso.»

Claire Tomalin, Guardian


«Emocionante: um quadro de uma ousada aventura nas estrelas, pelos oceanos, na profundeza da matéria, da poesia e da psique humana.»

Independent
Autor(es)
Richard Holmes é fellow da British Academy e foi professor de Estudos Biográficos na Universidade de East Anglia. É doutor honoris causa pelas universidades de East Anglia, East London e Kingston e foi agraciado com a Ordem do Império Britânico em 1992. O seu primeiro livro, Shelley: The Pursuit, venceu o Prémio Somerset Maugham em 1974. Coleridge: Early Visions venceu o Prémio Livro do Ano Whitbread em 1989 e Dr Johnson & Mr Savage venceu o Prémio James Tait Black. Coleridge: Darker Reflections venceu o Prémio Duff Cooper e o Prémio Heinemann. Publicou dois estudos sobre a biografia europeia, Footsteps: Adventures of a Romantic Biographer em 1985 eSidetracks: Explorations of a Romantic Biographer em 2000. Vive em Londres e em Norfolk com a romancista Rose Tremain.

AMAYA MORO MARTIN FALA DA CIÊNCIA EUROPEIA E LEMBRA MARIANO GAGO


Ler aqui artigo no Euroscientist das atrofísica espanhola a trabalhar nos EUA Amaya Moro Martin. Extracto sobre a "poda" da ciência portuguesa teorizada por Coutinho e posta em prática por Seabra, o presidente da FCT de tão má memória, e sobre o ex-ministro da Ciência Mariano Gago:

"But the Portuguese chapter described in Carlos Fiolhais’s article is particularly dramatic, given that 50% of the country’s research units might be facing closure. Let me repeat that: half of the research units of an entire country, at both research centres and universities, might be facing closure. We are talking about a country with a relatively young research system. We are talking about wide-spread closures that will undoubtedly cripple all the research-based activities of an entire country for decades to come. "

(...)

"Our dearest José Mariano, you contributed tremendously to European research development and we are extremely grateful for your restless work.
Un último abrazo,"


Leitura integral da "Odisseia"

Informação chegada ao De Rerum Natura.

Faça-se acompanhar do seu exemplar da Odisseia e venha ouvir Homero!

Será a primeira leitura pública integral da Odisseia. A iniciativa é da Sociedade Homero e do Centro de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Nos dias 5 e 6 de Maio, das 9h00 às 16h00, no Anfiteatro III da Faculdade de Letras, a obra será lida na tradução de Frederico Lourenço (Ed. Cotovia).

Gostava de ler também? Poderá inscrever-se até 30 de Abril para participar, através do preenchimento do formulário disponível aqui.

Mais informações aqui.

Rainer Maria Rilke: Poema Do Livro de Horas


Rilke pensava que o caminho, para Deus, era o da pobreza e da miséria. Em seus poemas, via os pobres a multiplicarem-se. No Livro de Horas, esta ideia está presente; assim como o ódio que o poeta tinha às elites das grandes cidades, à corrupção e aos vícios das mesmas. As viagens que fizera à Rússia, com Lou Andreas-Salomé, foram determinantes na consolidação do seu pensamento.
O poeta não se enganara – os pobres crescem, hoje, como bagas de floresta. E Deus talvez esteja em boa companhia.






Quando alguma coisa me cai da janela
(mesmo que fosse a coisa mais pequena)
como se precipita a lei da gravidade
violenta como um verbo do mar profundo
sobre cada bola e cada baga à vontade
e a transporta para o cerne do mundo.
 

Cada coisa é vigiada
por bondade pronta a voar
como cada pedra e cada flor
e cada criança pequena de noite guardada.
Apenas nós nos apressamos, na nossa amabilidade,
a partir de alguns enquadramentos
para o espaço vazio de uma liberdade,
em vez de, entregues a forças prudentes
como uma árvore nos ergueremos.
Em vez de nos trilhos mais distantes
serena e voluntariamente nos dispormos,
enlaçamo-nos em muitas variantes,
e quem se exclui desse em conjunto viver,
anonimamente só acaba por se ver.

 
Então tem de todas as coisas aprender,
como uma criança começar,
porque elas no coração de Deus estavam a pender,
dele não se vieram afastar.
Uma coisa terá de voltar a poder:
pacientemente no peso descomprimir,
que se atreveu a todos os pássaros no ar
no seu voo antecipar.
 

(Pois também os Anjos deixam de voar.
A pássaros pesados assemelham-se os Serafins,
que à volta dele se sentam e meditam;
a destroços de pássaros,
pinguins assemelham-se quando definham…)

Aniversário da fundação de Roma


Salue dies natalis

ROMA  PATRIA  OMNIVM

a. d. XI Kal. Maias [ 11 dias antes das Calendas de Maio ]

21 de Abril de 753 a.C.  — Esta é, segundo a tradição, e os cálculos de Varrão, a data da fundação da cidade de Roma.
Foi neste dia que Rómulo, filho do deus Marte e da Vestal Reia Sílvia, fundou a cidade de Roma.
Roma, uma pequena aldeia de pastores e agricultores, no monte Palatino, que viria a tornar-se o centro de um grande império.

terça-feira, 21 de abril de 2015

A POSIÇÃO DE JOSÉ MARIANO GAGO SOBRE A "AVALIAÇÃO" ESF-FCT

Depoimento do holandês Peter Tindemnans, secretário-geral do Euroscience aqui:

 "Mariano and I spoke at length in December 2014 initially about the evaluation of the Funding Agency FCT in Portugal, because I wanted his advice on whether EuroScience should issue a statement. His view was straightforward: the various actors have made such a mess of this evaluation that no minister will dare to implement its results."

Evolução na continuidade


A nova Presidente da FCT, Maria Arménia Carrondo, já tomou posse. Falou e não deixou quaisquer dúvidas ao que vem: ela quer mais do mesmo, quer continuar a política desastrada de amputação do sistema científica nacional e quer continuar a diminuição drástica do número de bolsas, contribuindo para a emigração de jovens altamente qualificados. Leia-se aqui:



Carrondo não conhece as prioridades. Diz que vai estudar os dossiers para saber quais são as prioridades. Difícil de perceber para quem assessorou a direcção da FCT durante dois anos...

Quanto a Nuno Crato, continua ausente. Agora diz que deixa o "barco em boas mãos". Ele esquece-se que ele é que devia estar ao leme da ciência.  A comparação entre José Mariano Gago e Nuno Crato é inevitável.

FCT head resigns, amid Portuguese research community survival plea

Texto publicado no Euroscientist, uma publicação da associação de investigadores EuroScience (na foto a direcção da FCT agora reconduzida por Nuno Crato, excepto Miguel Seabra):

Portugal not yet cleared of the ESF evaluation fallout, despite FCT president’s resignation

Until a few weeks ago, Miguel Seabra was president of the Portuguese Foundation for Science and Technology (FCT). He resigned on 7th April 2015, invoking personal reasons, as rumours about him having kept his position at Imperial College while being at FCT were beginning to circulate. Maria Arménia Carrondo, a researcher from the same laboratory as Seabra has just been appointed by the government as his successor. Portuguese scientists are waiting to see whether she will maintain the status quo or attempt to find constructive solutions. Above all, the Portuguese science community is now calling for increase in transparency and integrity.
In any event, Seabra’s position at the helm of the Portuguese funding agency was becoming untenable. He had been under tremendous pressure following the discredit shed on the FCT by a controversial evaluation of Portugal’s research units, outsourced to the European Science Foundation (ESF). The move was designed to select units that would need to be closed as part of a national austerity drive and due a reduction of European funds that may be used for research. A big question mark has been hanging over the quality of the evaluation since the Portuguese science community started to realise that, in many ways, those bound to survive the cut were not to do so on scientific merit.
Before Seabra resigned, an unexpected 40% cut on the funding of top ranked research units was announced. This follows the planned elimination of 50% of all research units in the country, made public in June 2014. In addition, FCT also announced further restrictions on doctoral and post-doctoral grants. This move will push many researchers into either unemployment or towards emigration, due to lack of alternatives.

Flawed evaluation

As the questionable conditions of the FCT evaluation emerged, the disastrous situation for the Portuguese research community became increasingly obvious to international observers. As it turns out, Spanish astrophysicist Amaya Moro Martin was right. In October 2014, she wrote an opinion piece in Nature, regarding science policy in Europe. She included a reference to Portugal saying: “Already reeling from budget cuts of 50% for universities and research centres, Portugal may now have to close half of its research units because of a flawed evaluation process supported by the ESF.”
Shortly after that, the head of science support of ESF, Jean-Claude Worms, wrote an email to Amaya, threatening her with a lawsuit. ESF backed off on this ridiculous intention a week later, perhaps realising that victimising a young researcher was not a good move. The ESF wikipedia entry sums up the impact the move has had on ESF’s reputation in the following terms: “ESF was very much discredited after a controversial evaluation of the Portuguese research centres.”
To say that the evaluation process is flawed is an understatement. It was a scam setup to justify the closure of half of the research units in the country and concentrate the major financial resources on a small number of units; incidentally, the units related to the current science policy makers in Portugal were awarded generous funding.
Some of the flaws have been identified by members of the Portuguese science community—with details described here and here. They include changing the rules when the process was well underway. And they also involve the use of incorrect bibliometric data. The Council of Rectors of Portuguese Universities (CRUP), in November 2014, protested with strong words, qualifying the evaluation as ‘a total failure.’ Three of the more outrageous issues identified, include the use of hidden quotas, an inadequate evaluation panel and the arbitrary allocation of funding.

Hidden quotas

But let’s get further into the details of what went wrong. The evaluation was carried out in two stages. Only the units proceeding to stage two were eligible for the large part of the funding available. The others will have no funding at all or funding at such a low level that it will not allow them to pursue any activity. In short, units that are not proceeding to stage two are condemned to disappear.
What nobody knew at first is that half of the research units were condemned even before the evaluation had started. After legal pressure FCT made public the contract with ESF. It then became obvious that ESF had been explicitly instructed to a priori exclude 50% of the units from stage two. The work plan for the panels spells it out in the following terms: “Stage 1 evaluation will result in a short list of half of the research units that will be selected to proceed to stage 2.” ESF complied. To this day FCT stills denies the existence of quotas, making their own very peculiar interpretation of what is written in the contract (please check for yourself). Stage one did not include site visits, as is mandatory by law. Sitting at their desks, ESF evaluators simply killed half of the Portuguese research units at a stroke of the keyboard

Light evaluation panel

However, this was not, by far, the only issue. When it comes to the adequacy of the review panels, the operation details of the evaluation speak for themselves. ESF set up a very small number of panels. For example, in the 2007 international evaluation 15 mathematicians, six physicists and seven chemists were gathered in three panels to analyse the units of the corresponding disciplines.
In 2014, the ESF formed a single panel for the three disciplines, with only 11 members (one engineer, three physicists, four chemists and three mathematicians). This panel, which decided to shut down several condensed matter physics labs in the country, had a single condensed matter physicist. In stage two, a team of evaluators visiting an architecture unit did not include a single architect and there were several other examples of clear mismatches between panels and the units they were supposed to evaluate.

Arbitrary funding

Furthermore, the most recent FCT funding allocation does not display a clear correlation with the ESF assessment, considering comparable unit sizes and laboratory intensity. There are 11 units classified as ‘exceptional,’ which is the highest possible grade. Of the five units with the highest funding awarded, only one was classified as exceptional. The unit with the highest funding per capita is in the humanities and is headed by a former chair of an ESF scientific committee.
So FCT asked ESF to make an assessment and, in the end, “modulated”—this is the actual FCT word —the output to award funds in an almost arbitrary way. This means that FCT called ESF as external institution to enforce predetermined funding intentions, regardless of scientific merit. ESF, who was paid a consultancy fee, was only too happy to oblige.
Out of the 322 research units being evaluated, 178 made it to stage two. Meanwhile, the majority of those, which did not make the grade, have appealed the decision, first to FCT, and then by demanding a new evaluation process. The latter is to be carried out by a different panel according to FCT’s own regulations. Four lawsuits are already underway. Out of the 178 “lucky ones,” 123 filed complaints regarding the second stage results, failing to see the logic of the process. As a final despicable move, FCT gave a three-day deadline for units to accept whatever funding befell them.
Portuguese scientists clearly have reasons to be concerned, but maybe they should not be the only ones. Miguel Seabra still remains president of Brussels-based research advocacy group Science Europe, whose aim is to influence European research policies. With current European commission winds blowing against fundamental research, having someone with such a track record in science management cannot be a good omen.
Professor of Physics, University of Coimbra , Portugal.