sexta-feira, 18 de Abril de 2014

O estádio moral de um país

Os estados modernos foram criados no pressuposto de que todas pessoas nascem livres e iguais. E de que a fraternidade é o lema de vida em sociedade. Quem conseguiu levar a firmar este pressuposto em Declarações, Constituições e Leis tinha por certo que a Razão integrava a condição humana. Assim, se as pessoas pudessem exercer essa capacidade perceberiam que direitos e deveres seriam os seus e dos outros, passando o estado a ser o órgão regulador.

Assim, todas as pessoas, na medida das suas possibilidades, deveriam contribuir para o bem comum (e não para a riqueza de alguém). É certo que nem sempre os impostos foram aplicados de maneira equitativa nem respeitado o seu cumprimento, mas o princípio que os justificava afirmava-se como correcto.

Foi-se agora (também) o princípio: de medida básica de cidadania democrática, os impostos passaram a apresentar-se como meio para ganharmos algo só para nós, um carrão!

Pagar impostos passou a ser, neste país, um engodo regular, para interiorizarmos bem a ideia, e com direito a espectáculo numa estação de televisão, em tudo igual a um jogo de entretenimento!

É o nosso estádio moral, que é o estádio moral do país.
Maria Helena Damião

quinta-feira, 17 de Abril de 2014

Colóquio - Fraude académica no ensino superior

Informação chegada ao De Rerum Natura.


A fraude académica cometida por alunos é um problema grave que afeta as instituições e a comunidade académica no ensino superior. A sua ocorrência em programas de estudos avançados tem características próprias e exige respostas específicas.

Na sequência de um projeto realizado pelo Centro de Estudos Sociais - Universidade de Coimbra, tem lugar, a 8 e 9 de maio, o evento cujo programa pode ser consultado aqui.

Neste evento são apresentadas e debatidas questões relevantes para as instituições, para os alunos e para os docentes. São também apresentados resultados de um estudo amplo sobre fraude académica cometida por alunos no ensino superior português.

As inscrições são gratuitas, obrigatórias e limitadas.

PROBLEMA NOSSO

Minha crónica no Público de hoje:



Maria da Assunção Esteves, Presidente da Assembleia da República, retrata bem o grau de indigência cívica e cultural da maior parte da actual geração de políticos. A indigência cívica pode ser confirmada com uma consulta à Wikipédia: ela, em vez de receber o salário do lugar que efectivamente ocupa, correspondente à segunda posição na hierarquia do Estado, optou por receber uma pensão, relativa ao lugar que ocupou durante dez anos no Tribunal Constitucional, no valor de 7255 euros, a que acrescem 2133 euros de ajudas de custo.

Reformou-se aos 41 anos!

A situação dela e de outros políticos que beneficiam de privilégios inexplicáveis foi bem sumariada pelo capitão Salgueiro Maia, um dos protagonistas maiores do 25 de Abril, quando, numa entrevista dada em 1991, pouco antes de falecer, declarou: “Os nossos políticos têm uma grande preocupação em serem bem reformados e uma preocupação nula em serem bem formados”. 

Da indigência cultural, que contrasta com a formação recebida na Faculdade de Direito de Lisboa, há exemplos recentes que têm sido circulado amplamente: em plena presidência da Assembleia, perante uma manifestação do público, fez uma citação de Simone de Beauvoir que afinal era apócrifa (“não podemos deixar que os nossos carrascos nos criem maus costumes”) e lançou aos microfones da Rádio Renascença um chorrilho de frases abstrusas, com neologismos da sua lavra (“O meu medo é o do inconseguimento... o inconseguimento de eu estar num centro de decisão fundamental a que possa corresponder uma espécie de nível social frustracional derivado da crise”).

O primeiro exemplo mostra que Assunção Esteves, além de recordar mal as leituras que faz, não tem a sensibilidade exigível a quem está investido em funções de soberania nestes tempos difíceis. Se a assistência nas galerias exprime o seu descontentamento, esperava-se que normalizasse a situação com tranquila autoridade, em vez de acicatar os ânimos, como fez ao sugerir que os manifestantes, gente desesperada com a crise, eram torcionários nazis (Beauvoir referia-se, na passagem erradamente citada, à ocupação da França pelas tropas de Hitler).

O segundo exemplo é tão mau como o primeiro. Quando a rádio pediu à Presidente da Assembleia uma declaração de Ano Novo, seria de esperar que as suas palavras fossem não de medo e derrota, ainda por cima numa expressão esbugalhada, mas sim de coragem e determinação. Podemos, bondosamente, pensar que Assunção Esteves estava a tentar dar um ar demodéstia. Mas o que fica da afirmação sobre o “inconseguimento” é uma declaração de incapacidade por parte de um alto responsável político. É inevitável o contraste com os capitães de Abril. Alguém imagina Salgueiro Maia a sair de Santarém com o “medo do inconseguimento”?

Mas o pior ainda estava para vir.

Há dias a Presidente surgiu nas televisões declarando, de forma estranhamente agressiva, que a não comparência dos capitães de Abril na cerimónia oficial de comemoração dos 40 anos do 25 de Abril era um "problema deles". Mesmo que não concordasse com a eventual pretensão à palavra dos autores materiais do 25 de Abril, há formas mais elegantesde se expressar do que essa, mais própria de conversa de rua. A sua missão deveria ser prestigiar a Assembleia e não o contrário.

Eleita pelos representantes do povo para dirigir o Parlamento, deveria fazê-lo com a necessária gravitas, procurando representar todos os portugueses.Podia ter reforçado o convite aos militares para estarempresentes. Podia ter explicado que ali só falavam pessoas eleitas. Podia até ter dito que não ia adiantar mais nada sobre o assunto. Mas não. Na Casa da Democracia disse, com o fundo de uma campainha, o que ficou registado.

Não podemos deixar de concluir que Assunção Esteves não está, de facto, à altura do lugar que ocupa. O seu nome, que surgiu a Passos Coelho como solução derecurso após a dupla derrota de Fernando Nobre, não está definitivamente a par de nomes da nossa democracia comoVitor Crespo, Barbosa de Melo ou Mota Amaral, só para referir figuras do PSD que a antecederam no cargo. Para que fique claro, não quero defender o direito do tenente-coronel Vasco Lourenço falar do alto da tribuna parlamentar no próximo dia 25 de Abril.

Percebo que a resposta dos deputados seja negativa, depois de ele, à porta da Aula Magna, ter dito sobre o governo eleito: “Eles ou saem enquanto têm tempo ou qualquer dia... vão ser corridos à paulada, se não for pior". Uma coisa é estar insatisfeito com o governo, como eu estou e tanta gente está, outra é corrê-lo “à paulada” e não a votos.

Mas vivemos num país livre e o presidente de uma associação privada pode dizer os disparates que entender. À Presidente da Assembleia da República, exige-se-lhe, porém, contenção.

Problema deles? É, sobretudo, um problema nosso, enquanto Assunção Esteves estiver em S. Bento.

Carlos Fiolhais

quarta-feira, 16 de Abril de 2014

Uma nova "condição docente"

Extracto de um artigo que me parece de grande interesse para se repensar a "condição docente". Não para aceitar acriticamente o rumo que o trabalho do professor tem tomado, mas, antes, para consciencializar e discutir mudanças que já se operaram nos sistemas educativos e com as quais inevitavelmente nos confrontamos. O seu autor é Emilio Tenti Fanfani.
“Duas «novidades» caracterizam o contexto em que se desenvolvem as práticas laborais dos docentes e que afetam seu sentido e identidade coletiva. Uma está relacionada com a tendência a incorporar as novas tecnologias da comunicação e da informação (TIC’s) na sala de aula. As tecnologias obrigam a uma profunda redefinição das práticas e modos de fazer as coisas em sala e, portanto, dos processos de formação docente. A outra transformação se relaciona com a crise do modelo burocrático que estruturou em seus princípios a organização dos sistemas educativos e do trabalho dos docentes. 
A introdução do «novo espírito» do capitalismo no sistema e nas instituições educativas modifica profundamente as condições de trabalho nas instituições e nas salas. A introdução de critérios de concorrência (entre instituições, agentes, etc.), produtividade (em termos de rendimento das aprendizagens), avaliação, competências, autonomia das instituições, tensões entre desregulação e pressão por resultados, etc. conformam um cenário que coloca novas condições ao processo de construção da identidade do coletivo docente (…) 
[Os professores ] já não são, estritamente falando, aquela velha mistura de “missionários ou apóstolos da cultura” e funcionários públicos, mas profissionais dotados dos conhecimentos científicos e técnicos necessários para maximizar o rendimento em matéria de aprendizagem. A pressão pelos resultados medidos segundo provas estandardizadas tenderá a diluir a mística da função pública tradicional, fortemente estruturada ao redor da ideologia da “vocação”. O salário do docente não dependerá só de sua antiguidade ou qualificação, mas de sua capacidade de lograr certos resultados de aprendizagem mensuráveis em seus alunos.
Os resultados serão muito mais importantes do que os processos ou os efeitos de seu trabalho sobre outras dimensões de seus alunos (capacidade de mobilizar seu interesse e/ou curiosidade, criatividade, atitudes solidárias, etc.). Esse novo mecanismo de regulação gera, de modo geral, uma oposição por parte das organizações sindicais docentes. Muitas delas questionam a ideologia da “profissionalização” dos docentes e os efeitos da desregulação sobre sua própria autonomia profissional na medida em que estão submetidos à nova tirania das provas estandardizadas. Algumas inclusive chegam a afirmar que as consequências do “neoliberalismo” educativo são a “proletarização” do trabalho docente, na medida em que implica uma perda de controle e autonomia dos docentes sobre o sentido e conteúdo de seu trabalho nos estabelecimentos. 
Em síntese, a luta permanente pela construção social do ofício do professor se desenvolve em um novo contexto onde intervêm atores coletivos (sindicatos docentes, especialistas, altos funcionários e responsáveis políticos dos ministérios de educação, intelectuais, partidos políticos, interesses dos fornecedores privados de educação, etc.) que lutam pelo controle do trabalho docente. As distintas posições e relações de força dos atores se correspondem a visões e formas diferentes de definir o sentido da educação e do trabalho dos profissionais da educação. 
Para alguns, estes são nada mais que especialistas em ensino-aprendizagem e sua maior responsabilidade consiste em fazer que seus alunos alcancem os melhores resultados nas provas nacionais de avaliação de conhecimentos. Nessa perspectiva, o docente é um profissional técnico, ou seja, possuidor de um saber sobre os meios de ensino e aprendizagem. Em outra perspectiva, os docentes seriam profissionais críticos, ou seja, construtores de subjetividades conforme a projetos políticos relacionados com a construção de uma sociedade mais justa, livre e democrática. Em sentido estrito, seriam trabalhadores intelectuais capazes de cooperar na distribuição deste capital estratégico que são o conhecimento e a cultura nas novas gerações." 
Referência bibliográfica:
- Fanfani, E. T. (2010). Condição docente. O texto integral pode ser encontrado aqui

Inquérito a cientistas portugueses mostra que 46,4% quer emigrar ou já emigrou

Sugiro a leitura desta notícia:


E especialmente do relatório a que se refere:

Luís Alcácer

A nossa mão

Imagem retirada daqui.
O fenómeno é muito geral: às universidades é "pedido" que sejam empreendedoras, que se auto-financiem, que não gastem os dinheiros públicos necessários em sectores "mesmo importantes", que se deixem de dissertações abstractas que não interessam a ninguém e em nada beneficiam a economia, que façam pela vida... e isto se querem sobreviver.

A sociedade, que tanto criticou as "torres de marfim", aplaude de pé: vá, se são tão inteligentes, mostrem do que são capazes: inventem soluções, mecanismos, o que puderem, mas que seja rentável.

E (um certo) pessoal das universidades - alunos incluídos -, produto desse tipo de sociedade, diz, como muitíssimo entusiasmo, "sim senhor", arregaça as mangas e avança... É um pessoal que apenas tem como limites a sua imaginação, porque não conhece outros, nem ninguém lhes diz que os há.

Daí resultam "coisas" que dão acesso à dupla irresistível: fama e dinheiro.

Referi aqui uma dessas "coisas", "made in Portugal", que me impressionou particularmente, tanto quanto outra de que agora tomei conhecimento e que vem da Suécia: o pagamento através da "scanização" da mão, da mão de carne e osso, da nossa mão (ler, por exemplo, aqui e aqui). É como o controlo no trabalho através da impressão digital, mas acho que pior... Ou será da mesma natureza?

Tão distante que Portugal é da Suécia, não apenas em termos de quilómetros, mas também em termos sociais e, no entanto, o mesmo tipo de estudantes universitários: auto-confiantes, pró-activos, sorridentes e, sim, empreendedores, desembaraçados na palavra, como se espera que sejam... Jovens inebriados com o seu próprio sucesso a quem entregamos o futuro e que não parecem vislumbrar nada além da técnica... analfabetos nessa zona esquisita que é a condição humana. Não, não sei se isso se deve à marginalização das humanidades no currículo...

E não são apenas eles, as estrelas, que têm este perfil, os que são ouvidos sobre os "inventos" parecem iguais, não vêem qualquer problema em nada, nem na leitura da expressões faciais de clientes para potenciar a venda de produtos, nem no uso da mão que pertence ao nosso corpo para fazer pagamentos numa caixa registadora... Tudo parece normal, trivial...

Não, estes jovens não surgem do nada, é a nós que devem ser pedidas contas, nós, professores, directores de departamentos e reitores que, nas universidades, somos responsáveis pela formação de pessoas e que aceitamos "projectos" à peça sem perguntarmos o que está em causa.

Mais elucidativas que as minhas palavras é o vídeo que se pode ver aqui.
Maria Helena Damião

terça-feira, 15 de Abril de 2014

GASTRONOMIA ALENTEJANA

COZINHA DOS GANHÕES - Boneco de Estremoz das Irmãs Flores.
Fotografia de José Cartaxo
Nas múltiplas vertentes da cultura popular do alentejano são notórias o folclore, a poética, o artesanato, mas também e muito, a gastronomia. O pão que aqui se come, por tradição e em quantidade, e que hoje se fabrica em grande parte com trigo importado, sabe Deus se já geneticamente manipulado, faz parte dessa cultura. Os queijos de ovelha ainda se fazem à mão, por toda a província, no rigor da sabedoria caseira, e deles se celebrizaram os de Évora, de Serpa, de Nisa, de Borba, entre outros. Este rigor que, natural e espontaneamente, se tem sabido impor e opor à sua industrialização é a razão de ser da sua notoriedade. O queijo artesanal, não só o alentejano como o do país inteiro, apoiado e encorajado por uma procura exigente e cada vez mais numerosa, torna Portugal um caso único no mundo. Quem não se rende aos queijos da Serra, de Castelo Branco, de Rabaçal, de Serpa, de Azeitão...

Paio alentejano. Imagem retirada daqui
Os enchidos e os presuntos caseiros são outra vitória da nossa resistência à industrialização que tudo homogeneiza e adultera em nome do mercado. De Portalegre a Ourique, de Grândola a Barrancos, grande é a variedade que o alentejano soube temperar e pôr ao fumeiro. Como os queijos, não são nem melhores nem piores do que os que se fazem por todo o país. São é diferentes, como é diferente o porco preto, alimentado a bolota de azinho.
Depois de anos de algum afastamento induzido por campanhas poderosas e adversas, visando outras gorduras e outros lucros, o azeite está de volta, triunfante.

Os verões quentes e secos e as terras de xisto e de areia fazem do Alentejo uma referência nacional em matéria de vinhos de “qualidade de origem controlada”. Portalegre, Borba, Redondo, Reguengos, Vidigueira, Évora (Cartuxa), Granja, Amareleja, Moura, Terras do Sado, são hoje nomes grandes nos cardápios dos restaurantes de todo o país. Não ficam por aqui os flashs da nossa paisagem gastronómica, da qual, embora menos falados, fazem ainda parte, o mel e o pinhão, bem como os peixes e outros produtos do mar ou dos rios, que os transportes rápidos põem diariamente à nossa porta.

Não só na literatura culinária e gastronómica, como também nas da história, da geografia, da sociologia e da ficção, são muitas as reflexões sobre a cozinha alentejana. De todas elas, em grande parte coincidentes no essencial, transparece um elogio a uma comunidade muito particular, culturalmente bem caracterizada, que do «pouco fez muito e bem» (Monarca Pinheiro, 1999). Algumas dessas reflexões merecem ser divulgadas com o destaque que lhes é devido, pois são as que melhor definem as relações entre este povo e os seus comeres.

A arte de cozinhar, como também se diz, e bem, constitui uma reserva cultural imensa, transmitida de gerações em gerações, numa história tão longa quanto a do Homo sapiens. Nesta caminhada de milénios, a descoberta e a procura de sabores foram transformando o simples acto de comer e beber para sobreviver, num outro, marcado pelo prazer, primeiro o dos sentidos e depois o da convivência. Aliás, como bem lembra Manuela Barros Ferreira (in Nádia Torres, 1997), comer, do latim comedere, significa tomar os alimentos em companhia, posto que radica no verbo edere que, por si só, significa esse acto de ingestão, antecedido do elemento cum, que alude à ideia de companhia e que é o mesmo prefixo com que se fez a palavra convivência.

Com características muito próprias, a cozinha alentejana é, como quaisquer outras cozinhas regionais portuguesas, rica, não só na variedade dos produtos naturais utilizados, como nas maneiras de os confeccionar. Como elas, é uma cozinha que, diríamos, do produtor ao consumidor, isto é, com produtos idos directamente da terra ou do mar aos tachos e às panelas, sem as incorporações industriais, que marcam os dias de hoje e de que são exemplo os muitíssimos produtos da indústria alimentar: os enlatados, os congelados, os semi-feitos, os take-away, à nossa disposição no mercado. António de Oliveira Bello que, além de industrial, foi conceituado mineralogista amador, gastrónomo e fundador, em 1933, da Sociedade Portuguesa de Gastronomia, dizia: «a cozinha portuguesa é saborosa, higiénica, substancial e muito característica. As matérias-primas empregadas, de produção nacional, são, culinariamente, perfeitas. A combinação é variada, mas sem exageros». No caso do Alentejo a sua riqueza resulta, talvez, de uma imaginação levada ao extremo, no espírito do velho ditado «a necessidade é mestra de engenhos», como bem lembraram Alfredo Saramago e Manuel Fialho (1998).

Uma pesquisa pela vasta e variada bibliografia alusiva à cozinha alentejana põe em evidência as condicionantes físicas e humanas dos seus sabores, uns doces e outros bem amargos, que têm sido, ao longo dos séculos, uma característica forte dos seus comeres. «Comeres frugais são estes que ora se apresentam, feitos de coisas simples, pequenas, do dia-a-dia e do que as pessoas tinham à mão»...«fazer das tripas coração e inventar sopas e condutos, enganando a vontade de comer» ou, ainda, «compensar a magreza do caldo com ouropéis mágicos de ervas, cheiros e misturas que dão sabores disfarceiros das pobrezas», escreveu Helder Pacheco (in Falcato Alves, 1994). Na verdade, ervas e cheiros foi coisa que a natureza nunca nos negou.

Em «Cozinha Alentejana», numa edição, sem autoria expressa, da Câmara Municipal de Évora, em 1988, lê-se: «A mágica da cozinha alentejana encontra expressão de, como, com produtos simples e pobres, elaborar pratos onde o gosto e o prazer de comer constituem um efectivo acto cultural».

Os bons sabores da cozinha alentejana resultam, com efeito, de uma procura de prazer numa terra pobre onde, como disse Orlando Ribeiro (1987), «comer foi, acima de tudo, encher a barriga e iludir a sensação de fome». Com efeito, como afirmou Domingos Lobo (in Marília Abel e Carlos Consiglieri, 2000), «A fome espevita sempre a imaginação dos povos».

Poejo. Imagem retirada daqui.
«Aproveitando ao máximo a riqueza dos seus recursos e sabendo compensar com extraordinária habilidade as suas limitações, o alentejano criou uma cozinha única, sólida, nutritiva e surpreendentemente saborosa, que não é mais, afinal, do que o espelho fiel da sua própria maneira de ser», são palavras do meu conterrâneo e amigo, Manuel Fialho (1992). Noutro descrito, Rui Camboias (1999) opina que a cozinha alentejana «é caracterizada por um conjunto muito variado de condimentos, também chamados “temperos” ou “cheiros”, muitos dos quais são ervas aromáticas existentes nos campos da região ou outras que, não “morando” nestas paragens, foram perfeitamente assimiladas pelas gentes desta zona». Uma tal cozinha distingue-se por conservar e valorizar os aromas e os sabores dos produtos utilizados, sem recurso a molhos especiais e a sofisticações culinárias. Entre as ervas e os cheiros ganharam relevo beldroegas, acelgas, labaças, cardos, espargos, saramagos, tomilho, orégão, alecrim, murta, coentro, hortelã, hortelã da ribeira e poejo, o mais alentejano dos cheiros, quanto a mim, com direito à posição de ex-libris.

Já Estrabão, o grande geógrafo grego dos finais do século I a. C., reconhecera esta grande região a sul do Tejo como o «paraíso das ervas frescas». Destas e de outras análises fica a ideia de que, num quadro geográfico e social marcado por carências e necessidades suficientemente apontadas, a cozinha alentejana soube tirar proveito dos produtos ao seu alcance, onde, para além dos que produzia, trabalhando a terra e cuidando do gado, têm particular importância as ervas e os cheiros. Deve, no entanto, acentuar-se que este quadro existe noutros locais envolvendo outras gentes. No seu interessante livro «Comer como Diós manda», Jacinto Garcia (1999) escreve: “A cozinha mais admirável é aquela capaz de conseguir um prato suculento e harmonioso utilizando somente um conjunto díspar de humildes alimentos”.

Do receituário que sempre se comeu nos montes fazem parte, em primeiro lugar, o pão, uma constante, na quantidade necessária para encher a barriga, logo a seguir o azeite e as gorduras do porco, para cozinhar e dar sustento, depois o alho, a cebola, o vinagre, os cheiros, usados como «disfarces para a falta de condutos» (Monarca Pinheiro, 1999), e algo mais que podiam colher na horta. Tudo o mais que se lhe acrescentasse, em particular as carnes e o peixe, fazia a diferença entre os que tinham posses e os que as não tinham. Como fez notar Alfredo Saramago (1997), no Alentejo não há grande contraste entre uma cozinha de rico e uma cozinha de pobre. As práticas alimentares são as mesmas. As diferenças mais marcantes, segundo este autor, estavam no valor nutritivo dos ingredientes usados nas confecções e na frequência com que certos pratos iam às respectivas mesas. Diz o ilustre gastrónomo: «A açorda dos ricos tinha mais azeite e as migas mais carne. Uns comiam mais chouriço e paio, outros mais toucinho e farinheira».

As receitas, em si, algumas com mais de mil anos, foram sempre as mesmas e, segundo ele, «nunca constituíram sinais de distinção». Não obstante o ataque cerrado feito à cozinha alentejana por nutricionistas, dietistas e alguma indústria agro-alimentar, esta sobreviveu e afirmou-se sem perda de identidade, sendo hoje um importante recurso em termos de oferta turística. Com efeito e em palavras do mesmo autor, «azeite de mau passou a óptimo, as gorduras animais, bem vistas as coisas, eram necessárias, o pão indispensável e outros produtos que conheceram execração vêem-se hoje reabilitados». Eis, pois, de novo, o azeite vitorioso na açorda, do mesmo modo que o toucinho e o chouriço fritos nas migas tão apetecidas e procuradas.

A identidade e a singularidade da cozinha alentejana, no contexto da cozinha portuguesa, assentam em duas características: a intemporalidade e a diversidade (Alfredo Saramago e Manuel Fialho, 1998). A intemporalidade está demonstrada nos documentos estudados pelos historiadores e a diversidade é um facto que podemos constatar e que é tanto mais notável quanto parcos sempre foram os seus recursos em terras de sequeiro. A este propósito escreveu Francisco Guedes, em 1997, «Terra de planícies extensas de trigo e sol, de vinho e paz, de ervas aromáticas e solidão, o Alentejo é também uma região ímpar no aproveitamento culinariamente imaginoso dos seus recursos».
Seara de trigo. Imagem retirada daqui.
Joaquim Ferreira Canário, presidente da Câmara de Castelo de Vide, no prefácio de «Comida de Cheiros» uma edição desta autarquia, em 1999, lembra e bem que a gastronomia alentejana «tem sido, ao contrário de outros usos e costumes, um elemento excepcionalmente resistente ao tempo e às influências estranhas e constituiu um valor etnográfico muito especial». Uma síntese destas diversas mas coincidentes reflexões está no dizer de Mariana Cascais (in Noémia T. Vaz Freire, 1997): «a gastronomia alentejana é um ingrediente essencial da imagem do Alentejo».

É verdade que o alentejano usa e abusa do pão, quer na mão, em grandes nacos a condutar com umas falhinhas de queijo ou de linguiça, quer nas migas, nas açordas e noutras sopas de pão. Sopas de pão molhado, como dizia a menina nascida e criada em Lisboa, filha de pai alentejano e de mãe alfacinha de Arroios, a passar férias com os avós no monte.
- Não gosto de sopas de pão molhado. O meu pai é que gosta, mas a minha mãe nunca faz. Diz que engordam e que fazem borbulhas na cara.
- Pois olha, isto é que alimenta – contrapunha o avô, bem torneado de carnes, sorridente e vermelhusco de rosto, às voltas com uma lauta açorda de poejos com sardinhas, assadas no fogareiro de carvão, a fumegarem na rua, à porta da cozinha. – Essas águas-palhas que te dão lá em Lisboa não enchem barriga. Experimenta e verás como vais daqui mais bonita. Anda, experimenta lá...
Este diálogo entre dois tempos e dois lugares podia alargar-se às migas, aos ensopados e a muitos outros sabores, tantos quantos os que marcaram a diferença entre mim e a cidade que há muitas décadas me acolheu. O alfacinha pega nas sopas de favas de uma qualquer receita alentejana, tira-lhe o pão, corta-lhe no alho e nos coentros e faz dela uma delicada e excelente sopa, bem batida num aveludado creme que, quando muito e eventualmente, servirá com umas migalhitas de pão torrado. O alentejano, ao contrário, agarra numa ligeira sopa de alface saloia, carrega-lhe no alho e nos coentros, acrescenta-lhe queijo, escalfa-lhe uns ovos, miga-lhe pão em quantidade e transforma-a numas fartas e perfumadas sopas de alface. É esta mesma cozinha que começa a ser servida pelos restaurantes não só do Alentejo como por alguns fora dele, em resposta a uma clientela conhecedora, em crescimento, a testemunhar o sucesso reconhecido deste renascer a que felizmente se assiste.

A cozinha alentejana é a que nos foi proporcionada pelos enquadramentos físico e humano que tivemos, evolucionando numa dialéctica entre muitas culturas. «Cozinha que, apesar da intemporalidade, tem sabido ser dinâmica, ajustando-se às circunstâncias, às maneiras e aos modos» (Alfredo Saramago, 2001). Numa certa fase, por exemplo, tal dialéctica estabeleceu-se entre os hábitos alimentares de fenícios e de celtas. Os primeiros, como povo mediterrâneo, vivendo mais dos cereais, do azeite, do vinho, dos legumes e das frutas, recursos compatíveis com um certo sedentarismo, e os segundos, nómadas e guerreiros, tidos por grandes consumidores de carne que caçavam. Mais tarde, aos hábitos alimentares transformados e introduzidos pelas ocupações romana e bárbaras (sobretudo a visigótica) sobrepuseram-se os de árabes e mouros.

No vocabulário gastronómico, aos muitos termos de origem latina, como pão, vinho, peixe, sal, carne, favas, ervilhas, couve, nabo, sertã, panela, fogão foram acrescentados muitos mais, de raiz árabe, entre os quais açorda, alcaparras, albricoques, almôndegas, alguidar, almotolia, alface, alfitetes, escabeche, azeitonas e azeite, este em substituição do óleo de oliva dos romanos, expressão que persiste nas línguas de povos onde se não fez sentir a influência islâmica, como a francesa (houile d’ olive) ou a inglesa (olive oil).

Poder-se-á perguntar: o que é que têm a ver apontamentos de cariz histórico, num texto como este, que não pretende ter preocupações de erudição? A resposta é imediata. Todas as oportunidades são boas para aprender, e aprendizagem significa valorização pessoal.

Se um leitor interessado em culinária e, caso não saiba, puder ficar a saber que, ao contrário do que a escola nos ensinou, a ocupação muçulmana constituiu um ponto alto da nossa História, não só na vida quotidiana, como nas letras, nas artes e nas ciências, já ganhou algo. Mouros, sarracenos, infiéis, têm sido nomes com carga pejorativa, pois assim no-lo eram ensinados na escola e, quase sempre, em relação com grandes derrotas infringidas por nós, cristãos, os “bons”.

É evidente que nesse ensino, o que se praticava na minha geração, estava a influência de uma Igreja Católica tão retrógrada quanto o regime, a mesma Igreja que, em nome de Deus, criou o Tribunal do Santo Ofício, queimou vivo o pensador Giordono Bruno e perseguiu Lutero, Galileu, Copérnico, Descartes, Erasmo, Pascal, Buffon, Lamarck, Darwin, e a que não escaparam portugueses como Damião de Góis, Garcia de Orta, ou Francisco Xavier de Oliveira, também conhecido por Cavaleiro de Oliveira.

A. Galopim de Carvalho

RECOMENDAÇÕES RELATIVAS AO PROCEDIMENTO DISCIPLINAR EM CASO DE ERRO DO PROFESSOR

Nessa mesma Conferência Especial Intergovernamental sobre a Condição Docente (UNESCO), realizada em 1966, foi também enunciado um conjunto procedimentos no caso de serem detectados erros profissionais no desempenho dos professores. No capítulo VII - Emprego e carreira - pode ler-se o seguinte:
1. Todas as medidas disciplinares deverão ser claramente definidas. As acusações e eventuais sanções não poderão tornar-se públicas a não ser a pedido do interessado. Constituem excepções os casos em que o professor seja proibido de ensinar e em que a segurança e o bem-estar dos alunos estejam ameaçados.
2. As autoridades e os órgãos legalmente habilitados a propor ou aplicar as sanções disciplinares deverão ser previamente designadas.
3. As entidades que representam os professores deverão ser consultadas no respeitante à prescrição de processos disciplinares.
4. Ao longo do processo  disciplinar, devem ser garantido aos professores os direitos:
a) de se manter informado das denúncias e das circunstâncias em que ocorreram;
b) de ter acesso ao processo;
c) de se defender e ser defendido por um representante de sua escolha bem como de contar com tempo suficiente para preparar a defesa;
d) de ser informado por escrito das decisões tomadas em relação a si próprio;
e) de apelar a autoridades e órgãos legais.
As autoridades deverão reconhecer que a disciplina e as garantias da sua aplicação ganham se no processo participarem outros professores.
As disposições anteriores não impedem a aplicação da lei do país.
Trata-se de uma visão interessante do erro - arcaica, poderíamos dizer - muito próxima de acto malévolo. A investigação de que o erro tem sido objecto permitiu separar estas duas noções e, naturalmente, ponderar os procedimentos a ter num e noutro caso.
Maria Helena Damião

RECOMENDAÇÕES RELATIVAS À LIBERDADE PROFISSIONAL DO PROFESSOR



Em 1966, há quase meio século, era aprovado, em Paris, na Conferência Especial Intergovernamental sobre a Condição Docente, patrocinada pela UNESCO, um conjunto de recomendações para a condução do ensino. Eis as que se contam no capítulo VIII - Direitos e deveres dos professores - relativas às Liberdades profissionais.

1. Deverá ser assegurada aos professores liberdade académica para exercer as suas funções. Estando qualificados para avaliar os recursos e métodos de ensino mais adequados aos alunos, cabe-lhes a selecção e adaptação de recursos didácticos, na escolha dos materiais pedagógicos e dos métodos no âmbito dos programas aprovados com a colaboração dos coordenadores e gestores escolares.

2. Os professores e as organizações de professores deverão participar da elaboração dos novos programas, manuais e meios auxiliares de ensino.

3. O sistema de inspecção ou de controlo deverá ser concebido de modo a incentivar e ajudar os professores no cumprimento de suas tarefas profissionais e também de modo a evitar restringir-lhes a liberdade, a iniciativa e a responsabilidade.

4.1) A avaliação da actividade docente deverá ser objectiva e comunicada ao professores. 2) Os professores deverão ter o direito de recorrer de avaliação que considerem injusta.

5. Deverá ser assegurada plena liberdade ao professor para aplicar as técnicas de avaliação que julgue adequadas para consolidar o progresso de seus alunos, esperando-se que esteja atento para não cometer injustiças.

6. As autoridades deverão ter em consideração as recomendações dos professores referentes ao ensino mais adequado aos alunos assim como a orientação de seus estudos.

7. Deverão ser empreendidos esforços para favorecer – no interesse dos alunos – a cooperação entre pais e professores, porém os professores deverão estar protegidos contra qualquer ingerência injustificada dos pais em áreas que são essencialmente de sua competência profissional.

8.1) Os pais que pretendam apresentar queixas contra uma escola ou um professor deverão ter a possibilidade de, primeiramente, discuti-las com o director e com o professor. As queixas apresentadas posteriormente às autoridades superiores deverá também ser apresentada por escrito ao reclamado. 2) O processo deverá permitir que o professor defender-se antes que seja publicitado.

9. Considerando que a prevenção de acidentes deve ser uma preocupação da comunidade escolar, as escolas deverão contratar apólices de seguros que cubram os danos ou prejuízos no caso de algum aluno ser vítima de acidente tanto na escola quanto no decurso de qualquer actividade fora do estabelecimento.

10. Dependendo, em grande medida, a condição docente do comportamento dos professores, estes deverão esforçar-se por alcançar os mais altos níveis de desempenho em todas as actividades profissionais.

11. A definição e respeito pelas normas profissionais deverão ser assegurados com o apoio dos sindicatos dos professores.

12. Os professores deverão cooperar com outros profissionais e autoridades no interesse dos alunos, da educação e da sociedade.

13. Deverão ser redigidos códigos de ética e de conduta, pois as normas que contêm contribuem para assegurar o prestígio da profissão e o cumprimento dos deveres profissionais de acordo com os princípios estabelecidos.

14. Os docentes deverão estar dispostos a participar das atividades extracurriculares.

UNESCO (1966). Recommendation concerning the Status of Teachers, adopted by the Special Intergovernmental Conference on the Status of Teachers, Paris.

Portugal, 1957

Publicação convidada, da arqueóloga Leonor Medeiros, investigadora na Michigan Technological University.

Nos passados anos 50 a American Geographical Society (fundada em 1851) publicou uma série de livros sobre vários países do mundo, todos com o mesmo formato e apresentação gráfica, apesar de escritos por diferentes autores. Nota-se neles um interesse pela cultura, história, geografia, gastronomia, e indústria dos países, embora sempre de um modo ligeiro, fazendo lembrar guias de viagens.

São o retrato de uma época, da abertura dos Estados Unidos ao mundo e da sua política internacional. No que diz respeito a Portugal, o livro à laia de guia tem muito do discurso típico do Estado Novo: os descobrimentos, o "somos pequenos mas grandes" e os estereótipos das regiões, mas também diz muito do país que fomos há já mais de meio século.

Kish, George. (1957) Portugal. New York: American Geographical Society









Para outra viagem no tempo, o guia da ex-Jugoslávia está disponível online.

Leonor Medeiros

segunda-feira, 14 de Abril de 2014

O Perfeito Diplomata e a "Realpolitik"


A pedido do DRN, e enviado por Eugénio Lisboa, publica-se mais este brilhante e cáustico texto, saído no Jornal de Letras, que nos traz à memória a ironia da pena de Eça:” O riso é a mais antiga e ainda a mais terrível forma de crítica:”            
                                                                                
“A palavra foi dada ao homem para disfarçar o seu pensamento”.
Talleyrand.

Tem-se, de longa data, tentado definir as qualidades e qualificações essenciais a um “perfeito diplomata” ou, sendo menos exigente, a um diplomata tão perfeito quanto possível. Ottavio Maggi, por exemplo, publicou, em 1596, uma tese intitulada De Legato, na qual defende que um enviado diplomático – ou, para o caso, um ministro dos negócios estrangeiros -  deveria ter formação teológica, conhecimento dos filósofos gregos e ser especialista nas ciências matemáticas, incluindo-se, nestas, a astronomia e a física; deveria, ainda, ser competente em direito, música e poesia e ser especialmente conhecedor de ciência militar; sem esquecer proficiência em grego, latim, francês, alemão, espanhol e turco; deveria, além disso, ser aristocrata, de nascimento, ser rico e bem-parecido.

Ora bem, eu não vou ao ponto de pensar que o nosso emérito Ministro dos Negócios Estrangeiros ou os nossos diplomatas de carreira acreditados por esse mundo fora tenham que satisfazer este exigentíssimo e bizantino caderno de encargos: teologia, astronomia, física, grego, turco – os deuses nos protejam: não, de modo nenhum!

Aristocrata, bem-parecido, não, decididamente, não! Os aristocratas deixaram de existir, no nosso país, desde o dia 18 de Outubro de 1910: temos, pois, queiramo-lo ou não, que viver sem eles, mesmo no aparatoso Palácio das Necessidades, ali ao Largo do Rilvas! E não é bem parecido quem quer, mesmo indivíduos com uma indiscutível e irresistível vocação para a arte de Richelieu ou de Talleyrand! O saber de Maquiavel não foi inventado para ser manipulado exclusivamente por borrachos! Valham-nos os deuses todos do Olimpo!

Eu aceito, perfeitamente, que o Dr. Rui Machete não saiba turco, não toque piano nem flauta, não seja conde e não componha, nas suas horas de lazer, um soneto bem boleado ou uma ode impetuosa. Até aceito que não seja um pêssego! Não será isso que fará dele um ministro menos astuto, menos eficaz, menos competente! E também acho que o desconhecimento do segundo princípio da Termodinâmica ou das Leis de Kepler não vai afectar, de maior, a inteligência matreira com que defenda, em prélios diplomáticos aquecidos, os interesses da lusa pátria! Não, não exijo nada disso! Vou mais longe, na minha descontracção curricular: não vejo grande necessidade de o Dr. Rui Machete se pôr a queimar as pestanas, em leituras tardiamente nocturnas, de calhamaços de teologia ou em aprofundamentos desnecessários de remotas filosofias gregas. Nem sequer me parece justo exigir ao actual detentor da pasta dos Estrangeiros a leitura empolgante dos relatos que Júlio César fez das suas campanhas na Gália ou o manuseamento de pedregulhos de estratégia militar, daqueles que saboreadamente devorava o inesquecível general Patton! Quanto a mim, o Dr. Rui Machete pode perfeitamente dispensar estes exercícios fatigantes e destruidores de energia anímica, cunhando uma frase de um político célebre.

Ao que o Dr. Rui Machete já não pode ou não deve furtar-se é ao estudo de uns quantos clássicos da diplomacia realpolitik sempre de útil maneio, em situações de entaladela difícil de gerir: Maquiavel, Richelieu, Talleyrand, Bismarch, Kissinger (Adolfo Hitler, se quiser, mas às escondidas, tendo o cuidado de não o citar!).

Muitos pensam que a realpolitik foi inventada por Bismark, o Chanceler de Ferro, que existiu e actuou muitas décadas antes da Dama de Ferro britânica. Mas não foi assim: o termo realpolitik foi cunhado pelo escritor e político alemão Ludwig von Rochau, em 1853, no seu livro de título deliciosamente comprido, à alemã: Grandsätze der Realpolitik angewendet nauf die strtlichen Zustände Deutschlands. Digo bem: o termo. Porque o conceito, em si, vem de longe e nem sequer começou com Talleyrand ou Richelieu. Eu diria que toda a diplomacia, com maior ou menor grau de subtileza, vive, alimenta-se de – é realpolitik. O termo, tal como foi inventado na Alemanha, até não quis ter um teor negativo por aí além: opõe “realismo”  (pragmatismo) a “idealismo”. Na realpolitik, engolem-se sapos (às vezes, elefantes), para se levar a nossa água ao nosso moinho. A ideia é fazer a outra parte engolir um sapo (ou um elefante) ainda maior. No exercício da realpolitik, mandam-se pela borda fora os princípios e a ética (manda-se, tenhamos fair-play, o mínimo possível deles, mas manda-se o que for necessário, para que os objectivos visados sejam atingidos). Os grandes mestres da realpolitik, como Richelieu ou Talleyrand disseram coisas afrontosas, porque isso fazia parte do seu “equipamento”. Talleyrand, por exemplo, não se acanhava muito para proferir coisas como esta: “No zelo, entram sempre três quartas partes de estupidez.” Isto não anda muito longe de outro aforismo dele: “Sobretudo, nada de zelo em excesso” (máxima muito útil quando se trabalha nos serviços públicos portugueses, onde o zelo é mal visto). Outro aforismo, também de Talleyrand, não menos “fresco”: “Uma mulher perdoará a um homem tentar seduzi-la, mas não ao homem que perde essa oportunidade, quando lhe é oferecida.” Ou ainda este aforismo célebre, que pus em epígrafe desta crónica: “A palavra foi dada ao homem para disfarçar o seu pensamento.”

Com tudo isto, quis apenas significar que não foi o exercício da realpolitik feito pelo Dr. Rui Machete, ao dar o seu assentimento à entrada da Guiné Equatorial no seio da CPLP – não foi esse exercício de realpolitik, em si, como exercício, que me surpreendeu ou perturbou. Como já insinuei, ou, mesmo, disse, a realpolitik é o próprio miolo da diplomacia. Muito embora esta também às vezes exija, como recomendou o conhecido diplomata e escritor Harold Nicholson, quatro qualidades, nem sempre dispensáveis: veracidade, precisão, calma e despretensiosidade. Mas fiquemo-nos pela realpolitik: não se trata de o Dr. Machete ter ou não ter usado deste instrumento diplomático. Trata-se, isso sim, da dimensão do elefante engolido! O Dr. Rui Machete e os seus antecessores, até há pouco tempo, exigiam determinadas condições, para que se permitisse o acesso daquele “reino das trevas” – a Guiné Equatorial -  ao seio da CPLP: em resumo, teria que adoptar a língua portuguesa como uma das línguas oficiais em curso, abolir a pena de morte e não violar de modo demasiado flagrante os mais elementares direitos humanos. Só, apresentando provas de estar a dar cumprimento a este caderno de encargos, se poderia começar a considerar a entrada do país de Obianga – “the heart of darkness” – na comunidade dos países de língua portuguesa. Ora o Sr. Obianga não deu cumprimento a nada disto: prometeu fazê-lo. E nem sequer acabou com a pena de morte: suspendeu-a, para poder voltar a ela, quando lhe convier. E o Dr. Rui Machete, com grande panache, afirma não ter razão para duvidar da palavra dada por Obianga, como se aquele senhor fosse um “honourable gentleman”. Mas, precisamente, isso é que ele não é: todo o seu sinistro curriculum de opressão, atropelo, genocídio e apropriação indevida das riquezas do país, nos convidam a ficarmos de sério sobreaviso contra a palavra dele. Dali, só factos, não palavras. Eis o que um verdadeiro mestre da realpolitik deveria ter feito: não vender princípios valiosos por um prato de lentilhas (um pífio cheque para o BANIF? Mas que interesse tem o BANIF para o povo português?)

E já que estamos no reino da realpolitik, sempre gostaria de deixar aqui, para benefício do actual detentor dos negócios estrangeiros, um aforismo de ouro de mestre Talleyrand. Reza assim: “Sim e não são as palavras mais fáceis de serem pronunciadas e também as que exigem maior reflexão.” Talvez o Dr. Rui Machete devesse ter reflectido um pouco mais, antes de ter dito “sim” ao Imperador Jones* da Guiné Equatorial. Ter-nos-ia dado a todos menos vergonha de sermos portugueses.

*Emperor Jones" é o título de uma das mais famosas e impressionantes peças de teatro do grande dramaturgo americano, Eugene O’Neill. Recomendo vivamente a sua leitura ao Dr. Rui Machete.

Eugénio Lisboa

domingo, 13 de Abril de 2014

PROBLEMA DELA E PROBLEMA NOSSO


A actual Presidente da Assembleia da República, Maria da Assunção Esteves, é  bem o retrato do grau de indigência da maior parte da nossa geração de políticos. É bem sabido que se trata de uma "reformada de luxo", que recebe uma reforma  relativa a um lugar no Tribunal Constitucional, em vez de receber o salário do lugar que ocupa, correspondente ao de segunda figura do Estado. Não tem  capacidade nem de pensamento nem de discurso, tendo chegado ao ponto de inventar palavras talvez por desconhecer as existentes. Não tem a sensibilidade política para se aperceber que devia representar todos os portugueses. Não tem qualquer sensibilidade social, que seria o mínimo exigível nestes tempos penosos.  Ao dizer, como agora disse de forma sumária e intempestiva, que o problema da não comparência dos "capitães de Abril" na cerimónia oficial de comemoração dos 40 anos do 25 de Abril era um "problema deles", não podemos deixar de concluir que não está, de facto, à altura do lugar que ocupa. Mesmo que não concordasse com as pretensões dos autores materiais do 25 de Abril, há formas mais elegantes de se expressar do que essa, mais própria de uma conversa de rua. Desprestigiou a Assembleia da República quando o seu papel era o de prestigiar. É, decerto, um problema dela, mas é, sobretudo, um problema nosso, enquanto a tivermos em S. Bento.

ÚLTIMOS LIVROS DA CIÊNCIA ABERTA

Em Junho de 2013 era publicado o n.º 201 da colecção Ciência Aberta da Gradiva. Tratava-se do 1.º número publicado após a direcção do criador da colecção Guilherme Valente, que escolheu duas centenas de bons livros. Como estávamos no Ano Internacional da Estatística escolhi um clássico sobre o assunto que estava por publicar entre nós: "Como Mentir com a Estatística", de Darrell Huff.

Depois desse já saíram mais seis livros, devendo sair em Junho próximo o número 208 da colecção, perfazendo, portanto, um total de oito títulos num ano. Esse número está acima da média dos últimos 31 anos, pois que entre Junho de 2012 e maio de 2013 se publicaram 200 volumes, isto é 6,5 volumes por ano. 

Listo aqui os livros escolhidos:

201-  "Como Mentir com a Estatística",  Darrell Huff.
202- "O Diabo no Mundo Quântico", Luís Alcácer
203- "O Início do Infinito", David Deutsch
204 "Como Respiram os Astronautas", Manuel Paiva (reedição revista, com novo prefácio)
205- "Onde cresce o perigo surge também a salvação", Hubert Reeves
206- "A Minha Breve História", Stephen Hawking
207- "Experiência Antárctida", José Xavier
208- "A Partícula no fim do Universo", Sean Carroll

Nos oito livros saídos há 3 autores portugueses (um químico, um físico e um biólogo) para além de dois autores clássicos da colecção, Reeves e Hawking, que já vêm de há 30 anos ou quase. Numa altura em que as vendas dos livros não são o que eram, em resultado da crise económica, da degradação educativa e, também, do surgimento do digital em concorrência com o pape, apraz registar que a colecção mantém os seus leitores, para além de ter ganho novos. José Xavier faz parte da "geração Gradiva", os cientistas agora na casa dos 30 anos que encontraram os livros da Ciência Aberta nos eu período de formação. Recomendo vivamente os eu relato da vida científica na Antárctida.

Mas qual é para mim o melhor dos livros enumerados? O que me fez mais pensar, e por isso para mim o melhor, foi "O início do Infinito", do físico Deutsch. Quem não o ler está a perder boa parte da discussão científica contemporãnea. 


SETE ANOS DO BLOGUE "DE RERUM NATURA"

No passado dia 7 de Março passaram sete anos desde o primeiro post neste blogue. Não se pode dizer que não tenhamos sido persistentes, e na maior parte dos casos coerentes, a falar de ciência, e educação e cultura, para além de tudo o mais de que aqui falámos (até porque está tudo ligado!).

 Esperámos um bocadinho para anunciar este aniversário pois fizemos um lifting no design (com a ligação a redes sociais como o Facebook: agora é muito mais fácil com a ajuda dos botãozinhos por baixo dos posts partilhá-los) e convidámos o Prof. Galopim de Carvalho, geólogo e um dos decanos da divulgação de ciência, que nos deu o gosto de aceitar integrar a nossa multifacetada equipa. Já vinha desde há algum tempo a colaborar connosco e agora é um de nós, o primeiro da nossa lista, com grande orgulho nosso.

Por último: estamos quase, quase a ultrapassar os quatro milhões de visitantes, o que dá uma média de 571 mil por ano e 1756 por dia. O número de posts publicados até à data foi de  quase nove mil, mais precisamente 8976, o que dá uma média de 1282 por ano e 3,5 por dia. Sempre expressando a pluralidade de opiniões dos autores e com os comentários, também plurais, dos leitores.

Vamos, claro, continuar. Em nome de toda a equipa, obrigado pela atenção de todos os leitores!

Prémios Novos

Transcrevo do Dinheiro Vivo de 08/04/2014 a notícia sobre os Prémios Novos 2014, a atribuir na Culturgent num programa organizada por Fernando Alvim:
 
"Os vencedores dos Prémios Novos 2014, com menos de 35 anos, nas mais diversas áreas da sociedade portuguesa, vão ser apresentados dia 15 de abril, pelas 21.30h.

Oriundos de 15 categorias, os premiados forma escolhidos por um júri que inclui nomes como os de Julião Sarmento, Carlos Fiolhais, Miguel Valverde, Pedro Rocha Vieira, João Vasconcelos, Henrique Amaro, Miguel Cadete, José Mário Silva, Rui Monteiro, Nuno Azinheira, Francisco José Viegas, entre outros.

A apresentação dos vencedores, com entrada livre, será feita pelo humorista Fernando Alvim e pela atriz Inês Castel-Branco, numa cerimónia que se realizará na Fundação CGD - Culturgest. A apresentação contará ainda com as atuações de Gisela João, Salvador Martinha, Joana Gama (pianista) e Isaque Ferreira (poesia).

Os Prémios Novos são uma produção da Cego Surdo e Mudo, de Fernando Alvim, e contam com o apoio da Caixa Geral de Depósitos, Delta Cafés e Guronsan.

E aqui ficam os nomeados nas diversas categorias:

Arquitetura: Ivo Barão, Miguel Marcelino e Godofredo Pereira
Artes Plásticas: Alice Joana Gonçalves, Eduardo Guerra e  Igor Jesus
Ciência: Nélio Gonçalves, Miguel Melo e Inês Gonçalves
Cinema: Paulo Castilho, Gabriel Abrantes e André Marques
Criatividade: Hugo Veiga, Miguel Durão e Tiago Mesquita.
Desporto: William Carvalho, João Sousa e Rui Costa
Empreendedorismo: Afonso Santos, Gaspar D´Orey e Jaime Jorge
Gastronomia: Kiko Martins, Miguel Laffan e Marlene Vieira
Humor: Luís Franco Bastos, Rui Cruz e Joana Marques&Daniel Leitão
Internet: Mário Rui André, Daniela Campino e Luis Marques
Literatura: Bruno Vieira Amaral, Raquel Ribeiro e Joana Bértholo
Moda: Daniela Barros, Ricardo Andrez e Hugo Costa
Música: Gisela João, Filho da Mãe e Joana Sá
Teatro: Jonh Romão, João Pedro Mamede e Sara Carinhas
Televisão: João Paulo Sousa, Vitória Guerra e Sara Matos."

A triste e insuportável realidade das salas de aula deste país

Carta à Directora de António Cândido Miguéis, publicada há dias no Público sobre a polémica entre Maria Filomena Mónica e Paulo Guinote:

Paulo Guinote (P.G.), no seu ambíguo artigo intitulado “O cerco à sala de aula” (PÚBLICO, 5 de Abril), veio criticar, subliminarmente, o mais recente livro de Maria Filomena Mónica (aliás não é um, mas dois livros, um deles prefaciado por M.F.M. e com depoimentos de duas professoras, quatro alunas e uma mãe), bem como, de caminho, veio censurar as considerações que Carlos Fiolhais tem expressado em recentes artigos publicados neste mesmo jornal sobre o iminente colapso das escolas, colapso este tanto mais presumível quanto será certo que a degradação educativa e ética (continua); a indisciplina (é permanente); o relaxamento (é acentuado) e a insana burocracia (submerge). Estas variáveis – a que se poderão juntar outras – invadiram o ambiente escolar, contribuindo para a sua pestilência. Na verdade, os retratos que delineiam Maria Filomena Mónica e Carlos Fiolhais sobre o estado da educação no nosso país têm sido lapidares e, no entanto, P.G. julga que “são perigosos, porque traçados em tons excessivos com aparente suporte académico, divulgados de forma sensacionalista, hiperbolizando um cenário de desordem generalizada e ignorando o que de bom e muito bom ainda acontece pelas escolas e salas de aula”. Bem se poderá dizer que P.G. tem uma visão algo panglossiana do preocupante problema…

Ora acontece que a dr.ª Maria Filomena Mónica, não gostando do que escreveu o dr. Paulo Guinote, no pretérito dia 7 de Abril – e um poucochinho assanhada –, elucidou-o posteriormente num artigo intitulado “A Escola pública” dado à estampa no PÚBLICO (e fez muito bem). No entanto, o dr. Paulo Guinote, algo melindrado e relapso, voltou à carga num artigo publicado neste jornal no dia 9 de Abril, artigo  intitulado “Num debate, prefiro as ideias aos adjectivos”. Não trouxe nada de novo à polémica e considero que o retrato que traça M.F.M. é realista e proficiente, expondo a triste realidade das salas de aulas deste país (porventura até pecará por defeito). Será também certo que no livro de M.F.M. Sala de Aula e mais propriamente na abordagem que a autora faz da autonomia das escolas será necessário cautela e previdência pelos novos problemas que essa hipotética autonomia poderá trazer, como seja o compadrio, a partidarite, o nepotismo, o caciquismo, o arbítrio, o abuso de poder… Estas serão facetas que poderão desabrochar, enroupadas em cortinas nebulosas de cumplicidades várias (en)cobrindo inescrupulosas personagens de variável jaez nesta prefulgente democracia austeritária.

Voltando à polémica. Naturalmente que existem coisas boas nas escolas e nas salas de aulas, dr. Paulo Guinote (seria um total descalabro se não existissem), mas, contudo, vêm-se avolumando exponencialmente sinais de contínua indisciplina, sinais de verdadeiro sufoco que configuram situações sindromáticas de burn-out, situações de extremo desgaste psíquico e físico que atingem particularmente os professores mais velhos que se aproximam da idade de reforma (mas está tão longe neste verdadeiro ambiente de batalha em que se transformaram as salas de aula!), não tendo a certeza se irão usufruir dessa reforma, tal é a imprevisibilidade do putativo crescimento económico do país.

Quanto aos professores mais novos, na casa dos 30, 40 e 50 anos, estes ainda vão aguentando – como podem e com os cabelos em pé, é certo – a turbulência das salas de aula (aconselho a ler o irónico e divertido livro da autoria de José Alberto Quaresma intitulado Direito ao Erro – A Batalha da Educação em Portugal) porque ainda lhes sobeja alguma resiliência para os desmandos, para a indisciplina (não será de mais repetir que este é o verdadeiro problema da escola pública a que ninguém quer pôr termo), para a selvajaria e má-criação de um considerável número de alunos que frequentam as salas de aula e  que deambulam pelos recreios desta triste e agónica escola pública.

Esta é a realidade, meu caro Paulo Guinote. Não pretenda desvalorizar globalmente o livro de M.F.M. – nalguns aspectos não subscreverei totalmente a visão da investigadora – e queira acreditar que as árvores educativas das “coisas boas que ainda se fazem (e existem, de facto) nas salas de aula” não impedem de vermos e sentirmos a medonha e lúgubre floresta educativa que nos vai cerceando, oprimindo e acabrunhando… Até quando? Sabe a resposta? Eu não.

António Cândido Miguéis, Vila Real

AS FALHAS NA EDUCAÇÃO DE EXCELÊNCIA DE DURÃO BARROSO

"No Portugal não democrático, no Portugal pré-União Europeia e pré-Comunidade Europeia havia ensino de excelência apesar do regime político em que se vivia e isso era possível porque numa escola era desejável reforçar a própria cultura de excelência da escola. Não estou seguro que aconteça hoje o mesmo em muitas escolas portuguesas e europeias", afirmou o presidente da Comissão Europeia.
Esqueceu-se de mencionar que em 1961 havia 13 116 alunos no ensino secundário em Portugal e que em 2003 havia 385 589 (dados da PORDATA) A escola era para uma elite. São falhas da educação de excelência de Durão Barroso, não atenuadas pela miltância maoísta na juventude.

A escola democrática tem que ser exigente e inclusiva. Se for só inclusiva é um centro de ocupação dos tempos livres, se for só exigente é uma escola elitista. Se estivermos dispostos, através da exigência dos exames e da selecção social, a reduzirmos os actuais alunos do ensino secundário aos 13 116 que existiam em 1961, poderemos ser tão exigentes com esses quanto quisermos. Ser exigente, excluindo, é fácil.

sábado, 12 de Abril de 2014

OS SEDIMENTOS E A PAISAGEM FÍSICA

Ex librum lapidum historia mundi (A história do mundo no livro das rochas). Pintura de Martins Barata

Na enciclopédia escrita no século X pelos Irmãos da Pureza pode ler-se: a erosão destrói perpetuamente as montanhas e o escorrer das águas pluviais arrasta rochedos, pedras e areia para o leito das torrentes e rios que, por seu turno, ao escoarem-se, acarretam tais materiais para os pântanos, lagos e mares, onde os acumulam sob a forma de camadas sobrepostas.

We could read the Earth’s history in geological record of its stratified sedimentary rocks.
(James Hutton, 1726-1797).

O “Livro dos Sedimentos”, reconstruído pelo esforço de diversas gerações de geólogos, equivale a um extensíssimo documento histórico, ao lado do qual todos os alentados volumes da História da Humanidade não passam de insignificantes opúsculos (George Gamov, 1941).

O CONCEITO DE SEDIMENTO

Em geologia, o conceito de sedimento [1] abarca os fragmentos ou clastos de origem terrígena ou orgânica transportados por agentes naturais e que acabam por se depositar e acumular, via de regra, sob a forma de estratos ou camadas. Num leque dimensional que vai dos grandes blocos de rocha (como os das moreias glaciárias) às finíssimas partículas da dimensão das argilas, passando por seixos, areias e bioclastos (como conchas de moluscos e seus fragmentos), estes sedimentos, passiveis de serem transportados pelas águas pluviais, de escorrência e fluviais, por correntes marinhas, pelo gelo, pelo vento ou por simples acção da gravidade, constituem o material que, ao longo do tempo geológico, se transforma na chamadas rochas sedimentares [2].

Mas o termo sedimento tanto designa a partícula individual sujeita à dinâmica sedimentar, como a população de partículas envolvidas nesse processo, mesmo que ainda em trânsito, como também o corpo sedimentar depositado e imobilizado, isto é, o próprio depósito, no seu conjunto. Por outras palavras, sedimento tanto é o conjunto de partículas transportado como o depósito material das mesmas. Dado o seu carácter não coeso, um sedimento, neste outro sentido, é um corpo geológico instável, temporário, passível de ser retomado. É, pois, um depósito dinâmico e, nesta perspectiva, alguns autores têm-lhe dado o nome de rocha móvel. Todavia, destituídos de coesão entre os seus constituintes, este tipo de materiais escapa ao conceito vulgar de rocha, tal como ele é normalmente usado (o de pedra coesa e rígida), quer na linguagem corrente, quer na dos profissionais da construção civil que usam, habitualmente a expressão rocha firme (o bedrock, dos ingleses).

Fala-se, com efeito, de sedimentos em suspensão, sedimentos remobilizados, sedimentos transportados eolicamente, sedimentos consolidados, sedimentos litificados, etc. O uso do termo foi proposto pelo alemão Arnold Lasaulx (1875), na sua classificação geral das rochas, ao estabelecer a classe “sedimentos puros”, na qual incluiu os calhaus ou seixos fluviais e de praia, as areias de rio, de praia e de duna, e ainda, os Löss, termo vulgar germânico que adoptou para indicar os sedimentos mais finos, isto é, os siltes e as argilas. Actualmente, o termo refere um depósito silto-argilo-calcário, de origem eólica, não coeso, depositado em regime periglaciário, com capacidade agrícola reconhecida. Com a grafia internacionalizada loess, o termo radica no alemão lose, que significa friável, não coeso.

Na sistemática petrográfica, as rochas sedimentares abarcam não só os materiais coesos, como calcários, conglomerados, arenitos, sílex, entre muitos outros, como também os sedimentos recentes, via de regra incoesos ou móveis, nos termos em que assim os referimos [3]. O estudo comparativo destes com as rochas sedimentares, entendidas como sedimentos antigos, constitui o pilar da interpretação destas rochas sob os mais variados aspectos. Com efeito, partindo do princípio que, tanto hoje como no passado, as mesmas causas produzem os mesmos efeitos [4], é viável reconhecer tipos de ambientes geográficos e geológicos, mais ou menos remotos, comparando as características das respectivas rochas com as dos materiais actualmente em formação nos diversos ambientes do presente que temos a possibilidade de ver “funcionar”. É, pois, com base neste pressuposto que pudemos tomar conhecimento da existência de glaciações no Precâmbrico e no Carbónico, de desertos no Devónico da Grã Bretanha e da América do Norte, de florestas húmidas e quentes no Carbónico da Europa e da América do Norte, de lagunas evaporíticas no Triásico europeu, etc..

Os sedimentos revelam quase sempre, de maneira mais ou menos evidente, a natureza das rochas de onde provêm, isto é, a respectiva filiação. Para uma dada região, podem reflectir as características do relevo e do clima existentes à altura da sua formação, os agentes de erosão e transporte que os actuaram, bem como o ambiente onde, finalmente, se depositaram. Podem ainda, em determinados casos, indicar a respectiva idade. Nestes termos, é muitas vezes possível correlacionar os sedimentos e as rochas sedimentares com a geologia, a geomorfologia e o clima seus contemporâneos e procurar decifrar, na sucessão dos estratos ou camadas, a correspondente sequência dos acontecimentos geológicos e, portanto, a evolução geomorfológica correlativa.

Ao introduzir o conceito de “formação correlativa”, Walter Penk (1888-1923), geógrafo austríaco, filho de um outro geógrafo, Albrecht Penk (1858-1945), que foi o pioneiro no estudo dos sedimentos como via de investigação no âmbito da geografia física. Entendida como o conjunto dos depósitos sedimentares resultantes da erosão de um dado relevo, a dita formação correlativa testemunha, pelas suas características sedimentológicas, a história da evolução desse relevo, além de que permite investigar o tipo de erosão que o afectou e o clima sob o qual se processou essa erosão. Este conceito deu um novo rumo a esta disciplina, que passou a associar o estudo dos sedimentos à tradicional observação dos elementos da paisagem, que caracterizou a obra dos clássicos geógrafos, abrindo portas à moderna geomorfologia. Foi assim que a sedimentologia e os seus diversos procedimentos analíticos entraram nas preocupações dos geógrafos e geólogos do século XX. O livro “Morphological Analysis of Landforms”, da autoria deste autor, falecido prematuramente aos 35 anos de idade, foi publicado, a título póstumo, pelo seu pai, em 1924, sendo considerado um marco na geomorfologia à escala internacional.

Entre outros geógrafos e geólogos, o francês Pierre Birot e o português Orlando Ribeiro encorajaram o uso desta via. O primeiro criou um laboratório de sedimentologia no Institut de Géographie de Paris, que frequentei nos anos de 1962 a 1964, e o segundo dotou o Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa, de um outro, no mesmo domínio que, a seu convite, montei e no qual trabalhei de 1965 a 1981.

NOTAS
[1] Do latim sedimentum, que significa partícula sólida em suspensão num fluido e que assenta, por gravidade, quando em repouso.
[2] Só mais tarde, em 1868, o geólogo alemão Karl Wilhelm von Gümbel (1823-1898) deu o nome de diagénese (do grego dia, através de, e genesis, origem) ao conjunto de processos que transformam os sedimentos em pedra ou, por outras palavras, os petrificam, lapidificam ou litificam. Petrificar, do latim petra (pedra), deu petrificação, lapidificar, do latim lapis (pedra), deu lapidificação, e litificar, do grego lythós (pedra), deu litificação. Quatro palavras para designar o mesmo fenómeno geológico. 
[3] Abarcam, ainda, por definição, os combustíveis fósseis. Se não nos choca aceitar a hulha ou a antracite como rochas (a expressão carvão de pedra, de uso popular, assim o comprova), o mesmo não sucede com o petróleo bruto (crude oil) ou com o gás natural. Embora estes materiais não se transformem em “pedra”, sabemos, todavia, que satisfazem as condições definidas para a petrogénese sedimentar, inclusivamente as que cabem no âmbito da diagénese.
[4] “Princípio das Causas Actuais”. 

A. Galopim de Carvalho

O REACENDER DA POLÉMICA SOBRE O ACESSO AO ENSINO SUPERIOR


“A luta é legítima. Eu não respeito as suas ideias, respeito-o a si” (Fialho de Almeida).

Com a data de ontem, acabo de ler este comentário, insisto no meu post “A Diplomocracia” (10/04/2014) que, pelo tom correcto em que está redigido, merece que lhe dê uma reposta que não desmereça uma discussão séria  que se não atenha a posições extremistas ou mesmo dogmáticas..
Transcrevo esse comentário na íntegra: “Caro senhor, tenho apenas um reparo a fazer: o acesso ao ensino superior para maiores de 23 anos é apenas um processo de selecção normativo para os alunos que não ingressam directamente do ensino secundário. O curso, esse tem que ser concluído pelos trâmites normais, como é exigido a qualquer outro aluno. Não creio que seja justo colocar esta situação a par de equivalências, transformações ou Novas Oportunidades.”
A resposta a este comentário colho-a num meu artigo de opinião, saído no “Público” (04/09/2011), e transcrito no “De Rerum Natura”, nesse mesmo dia, intitulado: “Ingresso no ensino superior: o antigo exame ad hoc e as actuais provas de acesso para maiores de 23 anos”. Julgo poder ele servir de base a um futura clarificação de uma situação que  abriu o acesso ao ensino superior a muito ignorante, sem, com isto, pretender, de forma alguma, generalizar esta minha crítica, conhecedor que sou do brocardo: "A excepção confirma a regra" .
Sem mais delongas, segue o texto completo da minha intervenção, que trago aqui à colação, renegando a evocação do argumento sobre uma possível experiência de vida, equiparada a dedicados e responsáveis estudos teóricos, que me traz à lembrança a ironia cáustica de Oscar Wilde: “Experiência, eis o nome que damos aos erros que cometemos!” Transcrevo-o verbo pro verbo:
Num sistema educativo, com fracos caboucos de uma deficiente instrução primária’, abrindo brechas nas paredes do 2.º e 3.º ciclos do ensino básico e em que o ensino secundário tenta que as suas traves de madeira não sejam atacadas pelo caruncho da ignorância, com a Lei de Bases do Sistema Educativo, corporizou-se a louvável exigência que deve presidir à entrada no ensino superior com o seguinte articulado: “O acesso a cada curso do ensino superior deve ter em conta as necessidades em quadros qualificados e a elevação do nível educativo, cultural e científico do País, podendo ainda ser condicionado pela necessidade de garantir a qualidade do ensino” (Lei 46/86, de 14 de Outubro, art.º 12, n.º 3). Todavia, não descortina vestígios dessa qualidade “legal” a professora universitária Maria Filomena Mónica quando escreve: “Devido à irresponsabilidade dos governos, ao populismo dos parlamentares à cobardia dos docentes, a universidade degradou-se para além do razoável” (“Público”, 08/12/2003).

Porém, e lamentavelmente, anos depois, o Decreto-Lei 64/2006, de 21 de Março, passa a atribuir “a organização e realização das provas da competência a júris nomeados pelo órgão legal e estatutariamente competente do estabelecimento de ensino superior a que se destinam”. Ou seja, passam-se a abrir, de par em par, janelas de ignorância a escolas de ensino superior que se debatiam com a falta de candidatos à respectiva matrícula deixando-os, agora, entrar à balda para não terem que encerrar portas criadas em quase cada esquina em tempo de vacas gordas.

O ensino superior, que eu denomino de pré-facilitismo (mesmo deixando de fora as exigências do Estado Novo) por não pactuar com atentados à sua seriedade, exigia, como condição,
sine qua non de acesso, o curso do ensino secundário ou equivalente ou, em alternativa a verdadeiros autodidactas, o exame ad hoc. Em contrapartida, o ensino superior pós-facilitismo contenta-se com "provas de acesso ao ensino superior para maiores de 23 anos” elaboradas e levadas a efeito nas próprias escolas como que a modos de um salto à vara com a fasquia a um palmo do solo.
Ou seja, o Estado, ele próprio, fomenta todo este processo que constitui um verdadeiro atentado para com o esforço e a própria dignidade de todo e qualquer aluno que se tenha sujeitado em árduo trabalho a um ensino secundário regular que nada tem a ver com a escandalosa facilidade das Novas Oportunidades.

Mas detenhamo-nos, agora, sobre o exame ad hoc para maiores de 25 anos a quem o laissez faire, laissez passer do actual sistema de ensino superior passou uma criminosa certidão de óbito sem atender ao facto de que “não há nada mais relevante para a vida social do que a formação do sentimento de justiça”, como sentenciou o jurisconsulto Ruy Barbosa, co-autor da Constituição da Primeira República do Brasil.

A responsabilidade da elaboração da prova de Língua Portuguesa do exame ad hoc era cometida a um júri nacional, constituído por seis individualidades que, para além disso, procediam à classificação das provas tendo poderes para decidirem sobre os pedidos de reapreciação. Sem classificação positiva nesta prova era o candidato eliminado à partida por se considerar que quem não dominasse suficientemente esta importante matéria não devia transpor os umbrais do ensino superior. Depois seguiam-se provas específicas versando matérias dos programas do ensino secundário. Por exemplo, para a Faculdade de Direito de Coimbra essas provas determinavam conhecimentos de História, Filosofia e uma Língua viva. Os dados relativos ao exame ad hoc do ano de 2001 dão-no conta da inscrição de 3658 candidatos ao ensino superior tendo sido admitidos para a prova de Língua Portuguesa 1135 e aprovados apenas 647.

Mas para que se não pense poder eu estar a tirar conclusões depreciativas, por um qualquer parti pris, das provas de acesso para maiores de 23 anos, trago ao conhecimento público elementos que não são ignorados pelas instâncias oficiais por a lei determinar expressamente que “o Observatório da Ciência e do Ensino Superior deve ser informado com dados estatísticos relativos aos resultados das provas de acesso para maiores de 23 anos”.

Um desses exemplos reporta-se aos resultados de uma escola superior de gestão do ensino politécnico em que os resultados das provas de acesso para maiores de 23 anos foram os seguintes (2011/2012): candidataram-se 43 indivíduos, não compareceram 2 , tendo sido aprovados, portanto, 41, o que em termos estatísticos dá 100% de aprovações. E, quiçá, por se tratar de um escol de verdadeiros” autodidactas” houve um 18, um 17, dois 16, senso a média geral dos candidatos de 14 valores.

Não se fosse dar o caso de se tratar de excepções “excepcionais” debrucei-me, depois, sobre os resultados, desse mesmo ano lectivo, de uma escola superior de tecnologia também do ensino politécnico. Os resultados foram ainda mais reveladores: dos 34 candidatos houve uma percentagem de 100% de aprovações, destacando-se nas classificações mais elevadas dois 19, quatro 18, seis 17, sendo a média geral dos candidatos de 15 valores.

Sem necessidade de mais comentários, porque, como diz o povo, pelo andar da carruagem se vê quem vai lá dentro, perante estas duas situações que não me atrevo, sequer, a adjectivar quando comparadas, por exemplo, com os exames do 12.º ano, só me resta evocar Albert Einstein: “É fundamental que o estudante adquira uma compreensão e uma percepção nítida dos valores”.

Mas será possível “uma percepção nítida dos valores” com as “Provas Especialmente Destinadas a Avaliar a Capacidade de Frequência do Ensino Superior dos Maiores de 23 anos”? Mesmo com esta nova e extensa nomenclatura, como se fosse possível que mudando o nome às coisas elas mudassem também. Não mudam! Mesmo que a nudez do rei tenha a cobri-la uma cabeça coroada à medida das suas conveniências”
(fim de citação).

A terminar, perante o facilitismo que disse eu ( e continuo a dizer) ter feito escola no sistema educativo nacional, encontro respaldo para esta minha intransigência em Miguel Torga: “O homem quando perde a sua capacidade de indignação perde a própria razão de ser”. Aliás, percepciono, em seu comentário, idêntica indignação por entender ter eu metido no mesmo saco Novas Oportunidades e Provas de Acesso ao Ensino Superior. Fugindo a estereótipos, julgo ter sido esta uma ocasião soberana para termos debatido, e continuarmos, se necessário,  a debater, esta temática.  Pois, como sentenciou Ortega y Gasset,  “cultura é, frente ao dogma, discussão permanente!”