The rules of the game: the evaluation of Portuguese research units

sexta-feira, 31 de Outubro de 2014

ASSUNTO: PSEUDOCIÊNCIA NA FACULDADE DE FARMÁCIA


O meu artigo de opinião, publicado no "i" de hoje:

Caros docentes, discentes, displicentes, Homo sapiens em geral da Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa: chegou ao meu conhecimento, o que só prova que os vossos meios de divulgação funcionam bem, que está a ser oferecido na vossa instituição um “Curso Avançado em Medicamentos Homepáticos”. Pelo nome fico com a dúvida se terei perdido o curso básico ou se a homeopatia é sempre avançada. Mas é precisamente para  tirar dúvidas que vos escrevo. E também porque, confesso, não quero pagar os 50€ da taxa de candidatura e muito menos os 500€ de “propinas”, embora reconheça que a inclusão do número da conta bancária (IBAN) no aviso de abertura seja uma solução bastante prática.

A homeopatia, que foi inventada há 200 anos pelo médico alemão Samuel Hahnemann, tem vários princípios. Segundo um deles, a Lei dos Semelhantes, uma substância capaz de provocar um determinado sintoma numa pessoa saudável pode ser usada para tratar esse mesmo sintoma numa pessoa doente. O que me leva a supor que, se tiver algum problema grave com o fígado, o poderei resolver com uma aguardente velha. Mas este princípio, francamente, não interessa muito, tendo em conta outro, de acordo com o qual o poder curativo de uma substância será tanto maior quanto mais diluída ela for. Pouco importa se é uma aguardente velha ou a água dos dentes de uma velha. Como os remédios homeopáticos são preparados através de um grande número de diluições sucessivas, no final não sobra nada.

E aqui fica um curso básico de preparação de “medicamentos homeopáticos”: pega-se numa gota de uma substância qualquer, a chamada tintura-mãe, e dilui-se em 99 gotas de água. Dá-se três pancadinhas, pega-se numa gota dessa primeira diluição e dilui-se novamente em 99 gostas de água. Se repetirmos este procedimento 28 vezes chegamos a um preparado 30C, uma diluição (“potência”) comum em remédios homeopáticos. A diluição total de um preparado 30C é equivalente à de uma gota de tintura mãe diluída em 999999999999999999999999999999999999999999999999999999999999 gotas  de água (são 60 noves).

A chatice é que a matéria é constituída por átomos e moléculas. Não podemos dividir indefinidamente uma determinada quantidade de matéria porque a partir de certa altura ficamos com menos de um átomo ou de uma molécula. E é possível saber o número de moléculas que existem numa determinada quantidade de matéria em virtude do “número de Avogadro”, uma constante determinada por vários métodos independentes e que esteve na base do Nobel da Física de 1926. Como qualquer estudante de química do 10.º ano poderá confirmar, se partirmos de uma tintura-mãe com uma concentração de 1 molar (é uma concentração respeitável) ao fim de 12 diluições centesimais sucessivas restará menos do que uma molécula por cada litro de preparado homeopático. Claro que a concentração inicial pode ser diferente. Mas, como a diluição de um preparado homeopático 12C é tão grande, pouco importa qual é a concentração inicial da tintura-mãe. No final restarão no máximo meia dúzia de moléculas por cada litro, que nenhum efeito têm. E há remédios homeopáticos bastante mais diluídos, em que a probabilidade de se encontrar uma única molécula da tintura-mãe é equivalente à de ganhar o Euromilhões várias vezes seguidas.

Assim, gostaria de perguntar se o número de Avogadro foi revisto, e com ele boa parte da física e da química. Ou se o número de Avogadro, a física e a química que conhecemos se mantêm, e os remédios homeopáticos não têm nada a não ser água e açúcar (no caso dos comprimidos).

Também sei que muitos homeopatas dizem que isto não interessa por causa das pancadinhas dadas entre cada diluição, e que justificam que água retenha uma memória das moléculas que teve dissolvidas (ainda estou à espera da primeira auto-biografia de uma molécula de água). Sei que um artigo da autoria de um famoso cientista francês, publicado em Junho de 1988 na prestigiada revista Nature, demonstrava a existência de uma memória da água. Foi um mês glorioso para a homeopatia, mas foi só um, porque o artigo acabou denunciado como uma fraude em Julho desse mesmo ano, na mesma revista, após uma comissão independente ter tentado reproduzir os resultados.

Em coerência, os ensaios clínicos metodologicamente bem concebidos demonstram que os remédios homeopáticos funcionam tão bem como comprimidos de açúcar, porque são comprimidos de açúcar. 
Ou não será assim? Fico, então, a aguardar pela revogação do número de Avogadro, pelas provas experimentais reprodutíveis de que a água tem memória e pelo corpo de ensaios clínicos bem concebidos que demonstre a eficácia dos remédios homeopáticos. Até lá, julgo que a homeopatia não tem lugar numa faculdade de farmácia que deseje ser levada a sério.

Cordialmente,
David Marçal

quinta-feira, 30 de Outubro de 2014

Ensaios sobre património alimentar luso-brasileiro

Os Classica Digitalia têm o gosto de anunciar uma nova publicação, de parceria com a Imprensa da Universidade de Coimbra e a Annablume (São Paulo).

Série “DIAITA – Scripta & Realia” [Estudos] - Carmen Soares & Irene Coutinho de Macedo (coords.), Ensaios sobre património alimentar luso-brasileiro (Coimbra e São Paulo, Imprensa da Universidade de Coimbra, Annablume, 2014, 344 p.

Resumo. O presente livro oferece uma abordagem diacrónica de elementos patrimoniais de alguns dos padrões alimentares dos Portugueses e da forma como a receção e fusão dos mesmos se dá na cultura brasileira. A obra constitui-se de quatro partes, formadas por capítulos agregados por épocas históricas (da Antiguidade Clássica à Época Contemporânea).

Assim os capítulos reunidos na I Parte apresentam estudos sobre hábitos de consumo e rituais de convivialidade oriundos das duas grandes civilizações fundadoras da Europa, a grega e a latina, e têm por objectivo demonstrar como algumas práticas, hoje tidas irrefletidamente por hábitos dos tempos contemporâneos, são muito mais do que isso. Constituem a ligação do homem atual a um passado distante, a herança mediterrânea antiga, ainda assim modeladora da sua identidade.

Na Parte II o enfoque orienta-se para o universo da alimentação na Idade Média, quer abordando questões de ordem moral/religiosa, quer debruçando-se sobre dois dos universos mais documentados para a época em questão: a mesa dos reis e a das ordens monásticas.

Segue-se a Parte III, que permite ao leitor compreender, com base no exemplo da mesa régia e de um colégio universitário, alguns dos aspetos fundamentais da transição da Idade Média para a Idade Moderna. Os Descobrimentos portugueses provocaram um enorme impulso na produção de açúcar e, consequentemente, no fabrico, comércio e consumo de doces, temática central nesta parte da obra.

Na Parte IV, cria-se um espaço de reflexão sobre o contributo da herança cultural portuguesa na construção de um discurso sobre a cozinha brasileira e no aparecimento na sociedade, sob a influência colonial, de mitos, crenças e tabus associados ao aleitamento materno (um tema geralmente marginalizado no âmbito da História da Alimentação).

Nota: Todos os volumes dos Classica Digitalia são editados em formato tradicional de papel e também na biblioteca digital. O eBook correspondente (cujo endereço direto é dado nesta mensagem) encontra-se disponível em acesso livre. 

LITERATURA E ENSINO DE PORTUGUÊS

Tertúlia organizada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos na Pastelaria Bénard em Lisboa a propósito do livro de José Augusto Bernardes e Rui Mateus: "Literatura e Ensino de Português".

CIÊNCIA NO JARDIM DE INFÂNCIA

Apresentação de livro da Fundação Francisco Manuel dos Santos no Instituto Camões: aqui.

FILOMENA MÓNICA DESILUDIDA COM CRATO


Ler aqui resumo de artigo no jornal I.

BLOQUEIO? O MEC PASSOU-SE!

Já pouca coisa me devia espantar neste governo desgovernado. Mas o Ministério da Educação e Ciência - MEC  continua  ser para mim uma fonte permanente de espanto. Um computador deles enviou, segundo o Público, esta absurda mensagem:
Exmo.(a) Candidato(a),Informa-se que deve desconsiderar o e-mail de notificação da selecção, por bolsa de contratação de escola enviado hoje, considerando a existência de um bloqueio imprevisto no sistema de envio de emails, facto pelo qual pedimos desculpa.Com os melhores cumprimentos,A Divisão de Informática”

O MEC está a gozar com os candidatos a professor e está a gozar connosco. Passou-se. O sistema de envio de emails, bloqueado, conseguiu mandar emails? O que é, para os responsáveis do MEC, um sistema de de envio de emails? E o que significa, para eles, bloqueado? E não conseguem eles escrever uma carta em melhor português?

Alguns responsáveis do MEC parecem analfabetos, tanto faz que sejam os que operam os computadores da contratação dos professores como os que operam os  computadores da FCT.  O secretário de Estado do Ensino Básico e Secundário mudou mas nada parece ter mudado. O ministro ainda é o mesmo.

Promenades littéraires dans «la mer des ténèbres»


O mundo ficou boquiaberto com a atribuição do prémio nobel da literatura a P. Modiano. Um dos argumentos a favor da prosa do escritor francês foi o seu contributo para a perpetuação da memória de Paris, do génio do lugar. 

Por exemplo, no livro Um Circo Que Passa são frequentes as referências a ruas e a monumentos míticos da cidade, na década de sessenta. Nesta novela dois adolescentes, enamorados e separados dos pais, erram por Paris. Ele quer ser escritor e tem uma proposta de emprego como bibliotecário, enquanto ela esconde-lhe o seu nome verdadeiro e a vida de prostituta que leva, após abandonar um circo de cafés. No fim a jovem tem um acidente de automóvel.

A memória de Modiano é a memória, quase cinematográfica, da tragédia. Mas não faz qualquer sentido compará-lo ao genial Marcel Proust. Este último refletira sobre os grandes temas da humanidade: o amor, o vício, o crime e a política.
Patrick Kéchichian, num artigo publicado em dezembro de 2006 no jornal francês Le Monde, já considerava Modiano entre os melhores escritores que escreveram sobre Paris (com algum exagero, basta lembrar L.F. Céline e F.S. Fitzgerald):
En 1937, Paul Valéry écrivait ceci: «…[PARIS c’est lui qui met ce nom en majuscules…] est bien autre chose qu’une capitale politique et un centre insdustriel, q’un port de première importance est un marche de toutes valeurs, q’un paradis artificiel et un sanctuaire de la culture. Sa singularité consiste d’abord en ceci que toutes les caractéristiques s’y combinent, ne demeurent pas étrangères les unes aux autres» Que faire, que conclure, alors, de cette «singularité?» «Penser PARIS? Plus on y songe, plus se sent-on, tout au contraire, pensé par Paris
Tous les amateurs, amoureux et autre piétons de Paris ne feront pas de cette remarque une énigme. L’idée d ‘abord de l’organisme solidaire, du réseau, du tout formé par d ‘innombrables «caractéristiques», parle immédiatement à leur esprit. Ils peuvent, tous ces marcheurs, éprouver cela au présent. Mais pour traduire cet étrange sentiment de plenitude plurielle, de totalité éclatée, il faut avoir recours à la littérature. Là, en quelques pages de Mercier, Hugo ou Baudelaire, de Huysmans, de Patrick Modiano, Jacques Réda ou Olivier Rolin, on entendra les bruits, le souffle et les melodies internes de cet organisme vivant qui ignore le repos.
La littérature qui a pris et prend encore Paris pour thème est immense. Elle accompagne l’histoire de la ville, s’y arrête, revient en arrière, rêve à partir d’elle.
Marie-Claire bancquart vient de publier le troisième volet d’une trilogie consacrée à la littérature de Paris. Aprés la Belle Epoque et le surréalisme (les deux réédités à La Différence), c’est de Paris dans la littérature française après 1945 (éd. de La Différence, 280 p.) qu’il est question. Le plus récentes mutations de la capitale donnent une tonalité particulière à la prose et à la poésie des écrivains. La mémoire, comme chez Modiano, joue un rôle essentiel, ainsi qu’une volonté d’inscrire dans les phrases ce que la realité est un train d’annihiler.(…)
  O meu nome, para receber o Nobel, seria o do poeta espanhol, António Gamoneda.                                         

DAVID ARRASA A PSEUDOCIÊNCIA

Artigo da jornalista Raquel Lito, publicado hoje na Sábado, acerca do meu novo livro "Pseudociência", que transcrevo.


Cuidado com os génios com síndrome de Galileu. Atenção às agulhas de acupunctura: são ineficazes. As interrogações de quem já tomou medicamentos homeopáticos - e ficou na mesma.  

Por Raquel Lito  

Houve um alegado génio, de origem iraniana, Fereydoon Batmanghelidj, que entre 1979 e 1982 se gabou de ter curado 600 companheiros de prisão com água. Mais outro candidato ao título de génio, desta vez britânico, Andrew Wakefield fez uma curiosa associação em 1998: a vacina tríplice (contra o sarampo, papeira e rubéola) poderia causar autismo.  

São dois casos fraudulentos apontados por David Marçal, de 37 anos, doutorado em Bioquímica pela Universidade Nova de Lisboa, que até faz o diagnóstico: sofrem de "síndrome do novo Galileu". Apresentam-se como figuras de autoridade, com uma ideia inédita, usando linguagem científica, na tentativa de se colarem à ciência. Num patamar abaixo, refere uma médica "chica-esperta" que, em 2002, anunciou algo bombástico: exames de mamografia por satélite a mulheres de São Bartolomeu de Messines.  

Tudo isto entra no mesmo saco: pseudociência, o termo com que o autor intitula o seu novo livro, da colecção de Ensaios da Fundação Francisco Manuel dos Santos e que é apresentado esta sexta-feira, dia 31, no Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa.  

Overdose de placebos  

"Num nível erudito, a pseudociência manifesta-se através de cientistas que realizam deliberadamente erros. Noutro extremo ficam os curandeiros, que usam um grande comboio de títulos honoríficos", diz o autor à SÁBADO. Exemplifica com o professor Karamba, "Grande e Poderoso Médium Africano".  

Os partidários das medicinas tradicionais e alternativas provavelmente não vão gostar de ler o que se segue. Feito o aviso, o cientista analisa, na página 25 do ensaio, os medicamentos homeopáticos. "Não são bebidos aos litros, mas em gotinhas, que podem ser escorridas para cima de umas bolinhas de açúcar [comprimidos]". Sim, são placebos que dão a ilusão de melhoras, de forma transitória "porque somos alvo de atenção médica."  

A prová-lo, o próprio, juntamente com Carlos Fiolhais (professor catedrático da Universidade de Coimbra), tomou uma caixa de um medicamento deste tipo contra a gripe, diante de 30 pessoas, em Novembro de 2012. "Foi uma overdose homeopática", conta, mas sem efeito. Ficaram na mesma.  

Sobre a acupunctura (estimulação de pontos específicos do corpo com agulhas), David Marçal também é céptico. Primeiro, porque tem um efeito insignificante e apenas em algumas condições clínicas, como a dor. Ou não tem efeito nenhum, além do placebo - quando comparado com tratamentos simulados, "em que se espetam agulhas em sítios não indicados para a condição clínica."  
Depois, porque a organização internacional Cochrane Collaboration concluiu que os ensaios clínicos para tratar insónias, dores menstruais e no pescoço eram inconclusivos e pouco rigorosos.  

quarta-feira, 29 de Outubro de 2014

Jardins de Cristais, Química e Literatura



Um pequeno excerto do meu livro Jardins de Cristais, Química e Literatura, editado pela Gradiva:


Há uma pequena história num dos cinco volumes de O Guia Galáctico do Pendura, do escritor britânico Douglas Adams, mais concretamente no volume intitulado O Restaurante no Fim do Universo, que retrata bem o papel, aparentemente modesto, mas fundamental, que a química tem em muitas histórias e na vida em geral. A história tem a ver com um poeta cuja obra é alterada, acabando por desaparecer, no decurso de viagens no tempo efectuadas por um grupo de empresários que o querem convencer a participar num anúncio de um líquido corrector. Mais tarde, a obra do poeta acaba por ser reconstruída a partir de uma cópia vinda do futuro, e, ao lermos a história, fixamos-nos nas grandes questões: o Universo e tudo o resto, em particular na possibilidade de efectuar viagens no tempo e nos paradoxos que essa possibilidade causa. No entanto, esta história só é possível porque um químico criou uma coisa que passa quase despercebida, mas tem um papel fundamental para o desenrolar da história: o líquido corrector.

O livro está disponível a partir de hoje nas livrarias, página da Gradiva e ainda na Wook.

PAPA FALA SOBRE BIG BANG E EVOLUÇÃO


Artigo do DN de hoje sobre ciência e religião, para o qual fiz declarações.

Podem as teoria do Big Bang e da evolução das espécies conjugar- se com a doutrina católica para explicar a origem do universo e da vida? A ideia foi defendida pelo Papa Francisco, num discurso na Academia Pontifícia de Ciências, em Roma. O DN perguntou a um cientista, Carlos Fiolhais, e a uma teóloga, Teresa Toldy, se a ciência pode servir de base à religião. Fiolhais confessou maiores reservas, admitindo mesmo que este pode ser um caminho “perigoso”.

No seu discurso, o Papa Francisco admitiu não ser boa ideia interpretar à letra o Génesis, capítulo da Bíblia que nos diz que os céus resultam de uma “expansão das águas”, as estrelas servem “para iluminar a Terra” à noite, Deus criou o homem “à sua imagem” e foi por terem provado o fruto “da árvore do conhecimento” que Adão e Eva acabaram expulsos do jardim do Éden.

“Quando lemos sobre a criação no Génesis, corremos o risco de imaginar que Deus era um mágico, com uma varinha de condão capaz de fazer tudo”, reconheceu.

Francisco – que teve formação como químico antes de se tornar padre – prosseguiu assumindo a relevância das duas teorias referidas, ainda que não deixando de encaixar nas mesmas a intervenção divina: “O Big Bang, que hoje consideramos ser a origem do mundo, não contradiz a intervenção do divino criador mas, antes, precisa dela”, defendeu. E “a evolução na natureza não é inconsistente com a noção de criação, porque a evolução exige a criação de seres que evoluem”.

“Fundamentos para a crença”

É precisamente este “casamento” entre religião e ciência que incomoda Carlos Fiolhais, físico e um dos mais conhecidos divulgadores científicos portugueses. “Isso é um pouco mais perigoso. O perigo está em uma pessoa querer ir buscar à ciência fundamentos para a crença”, explica. “A crença em Deus, segundo penso, radica num ato que de modo algum tem sustentação científica. A fé, a crença, é um salto, que algumas pessoas conseguem dar e outras não, que é um impulso para o desconhecido. Fé é querer o desconhecido.”

Significa isto que não podemos ser crentes e cientistas? Nada disso, diz. “O que digo é que são coisas diferentes, que podem ser feitas pela mesma pessoa. Um dos criadores da teoria do Big Bang foi um padre católico belga, Georges Lemaître. Mas ele sabia que, quando estava num laboratório, no instituto, não estava na capela.” Outro exemplo, Galileu Galilei, perseguido pela Igreja por ter refutado a crença de que a Terra estava no centro do universo: “Galileu sempre foi um homem católico. Nunca deixou de o ser. Mas ao mesmo tempo dizia: ‘ O Espírito Santo ensina- nos como ir para o céu, não como é o céu.”

Fé e explicações são compatíveis

Teresa Toldy, teóloga e professora universitária, também entende que “o discurso religioso é uma coisa e o discurso científico outra”. Mas não considera que o Papa Francisco estivesse a tentar encaixar as duas variáveis numa só

Acho que o que ele está a dizer é que uma não é incompatível com a outra”, defende. “Nós podemos, por exemplo, falar do afeto a partir da poesia, da literatura ou da ciência. Todas são tentativas de interpretação do afeto. Não podemos dizer que são discursos incompatíveis. O que não podemos é afirmar que é a partir da literatura que se explicam os processos neuronais que levam ao afeto.”

A teóloga acrescenta que, embora a fé, por definição, dispense a apresentação de provas, isso não significa que tenha de ser acrítica: “Uma coisa é dizer que a fé é uma evidência [ em si mesma]. Outra coisa é dizer que, pelo facto de ser uma evidência, é irracional. Não procura explicações. Não é a mesma coisa”, defende

Num aspeto, cientista e teóloga estão de acordo: há muito que a ciência deixou de ser encarada como uma ameaça às convicções da Igreja e aos ensinamentos das escrituras: “Nesse aspeto, o que o Papa disse não é novidade”, diz Teresa Toldy. “Há quase cem anos que a Igreja não faz uma interpretação literal da Bíblia.”

Ainda existem “grupos mais fundamentalistas”, admite. “Mas no catolicismo e não na Igreja Católica”. E o mesmo acontece na comunidade científica, diz Carlos Fiolhais: “Nunca percebi as cruzadas da ciência contra a religião. Essas pessoas também estão a levar a Bíblia à letra. Séculos depois, ainda não entenderam Galileu.”

Pedro Sousa Tavares

Investigação entregue aos bichos


José Vítor Malheiros comenta no Público de hoje a provada incompetência da FCT e  da ESF no caso da "avaliação" das unidades de investigação que agora, devido a uma carta do Conselho dos Reitores, está nas mãos do ministro Nuno Crato. Vamos a ver como ele decide, isto é, se, para usar expressão de Malheiros, continua a deixar tudo entregue aos bichos. Para já, sabe-se que a sua porta-voz, Ana Machado, repetiu aquilo aquilo que a FCT tem dito, como um papagaio. Como este blog, citado no artigo, tem acompanhado este escandaloso processo, transcrevemos aqui o artigo de José Vítor Malheiros com a devida vénia:

A avaliação dos centros de investigação portugueses que a Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) encomendou à European Science Foundation (ESF), e que se poderá traduzir no corte do financiamento e consequente morte para metade destes centros, arrisca-se a ficar na história de ambas as instituições como o momento menos honroso das suas vidas.

pesar das inúmeras falhas detectadas, documentadas e denunciadas no processo, apesar das irregularidades processuais conhecidas e noticiadas, apesar da descarada batota de tentar impor à partida um resultado com 50 por cento de chumbos a essa avaliação e da mais descarada ainda tentativa de negar essa evidência apesar de ela constar de um contrato assinado, tanto a FCT como a ESF continuam a tentar encobrir o sol com uma peneira, tentando dar a entender que quem critica a avaliação o faz apenas porque viu os seus interesses beliscados e não devido ao monte de erros, falhas, irregularidades e batotas do processo.

Na semana passada, ficámos a conhecer mais uma peça do enredo, com a publicação de uma carta do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas (CRUP) dirigida ao ministro da Educação e Ciência, Nuno Crato, cuja acção política neste e noutros domínios se tem resumido a fazer de morto e esperar que o tempo passe.

O CRUP, numa posição consensual assumida pelos seus 15 reitores, escreveu que já não lhe era possível dar o “benefício da dúvida” ao actual processo de avaliação e declarava recusar "a morte anunciada de quase 50% do tecido científico português". Note-se que o CRUP e os reitores têm sido de uma enorme benevolência para com o Governo, apesar dos cortes que têm afectado e vão continuar a afectar a ciência e o ensino superior. É por isso significativo que tenham finalmente perdido a paciência. O documento do CRUP mostra que, mesmo para aqueles que aceitam a retórica da austeridade e estão sempre dispostos a fazer um jeitinho ao poder, a situação se tornou insustentável. “Para que um sistema de avaliação seja capaz de promover a excelência tem de, ele próprio, ser pelo menos excelente, se não excepcional. Não é o caso”, diz a carta. Os reitores afirmam ainda que os painéis de avaliação, mesmo quando confrontados com os "inúmeros erros de avaliação, muitos inteiramente factuais", se "desculparam de diversas formas para não retirar daí consequências, mantendo avaliações inexplicáveis" e concluem que o processo de avaliação se traduziu num "falhanço pleno" e numa "oportunidade perdida". A tomada de posição do CRUP é tardia, mas não podia ser mais clara.

O que irá fazer o ministro? Corrigir ou anular o processo de avaliação? Provavelmente vai fingir que não leu ou leu mas não percebeu ou telefonar a este ou àquele reitor para deitar água na fervura e pedir-lhe ainda mais um jeitinho, mas a verdade é que já não é possível disfarçar a incompetência do processo liderado pela ESF, nem a falta de lisura dos métodos da FCT, nem a agenda de estrangulamento da investigação do ministro Nuno Crato e da secretária de Estado Leonor Parreira.

E o que irá fazer o CRUP? Perceberá que, depois desta carta, não pode simplesmente comer e calar?

2. Na semana passada também se conheceu uma outra carta, enviada pela ESF à revista Nature, na sequência de uma primeira carta que a mesma ESF tinha dirigido a uma investigadora espanhola que aí tinha publicado um artigo de opinião denunciando falhas no processo de avaliação dos centros de investigação portugueses. Na primeira carta, a ESF ameaçava a autora do artigo de um processo judicial se não mudasse de opinião e se não se retractasse, o que suscitou uma avalanche de críticas contra a ESF por toda a Europa. Desta vez, a ESF decidiu enviar uma mensagem revista e corrigida, para tentar fazer esquecer o tom rufia da primeira, mas volta a considerar que as referências a erros no processo de avaliação "não são sustentadas". É aborrecido que o diga porque, quando uma organização quer provar o seu rigor, deve evitar mentir com este descaramento. 

De facto, a ESF recebeu inúmeras críticas, correcções e queixas feitas directamente pelos próprios centros, seguindo canais oficiais, no âmbito do processo de contestação e revisão das avaliações. As principais críticas podem ainda ser lidas no blog De Rerum Natura, que inclui mesmo posts em inglês, que a ESF poderia (e deveria) ter consultado caso quisesse honestamente informar-se das críticas feitas ao seu trabalho.

Quando a ESF nega a existência evidente dessa sustentação às críticas de que foi objecto, apenas nos conforta na convicção de que foi a organização errada para este trabalho e de que a sua idoneidade está muito abaixo do nível exigido a uma organização europeia com a sua pretensão. Que os dirigentes da FCT não o vejam é mais uma prova lamentável da sua baixa exigência e de que, no processo de avaliação realizado, apenas interessava chegar a um valor pré-definido, independentemente dos métodos usados.

José Vítor Malheiros

Petição contra a proposta de Revisão da Carreira de Investigação Científica apresentada pela ANICT

Foi criada uma petição contra a proposta de revisão da carreira de investigação científica apresentada pela ANICT. A petição está disponível aqui:

terça-feira, 28 de Outubro de 2014

UMA NOITE DE EMOÇÕES

BCC - Blind Carbon Copy
Uma Noite de Emoções no Rómulo - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra

A par da construção da nova peça de palco dedicada ao tema da expressão das emoções [a apresentar no Teatro da Cerca de São Bernardo, de 25 a 27 de Novembro] a marionet vai recriar uma experiência realizada por Charles Darwin, numa sessão pública que terá lugar no Rómulo – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, já no dia 30 de Outubro, pelas 21h. Vamos também discutir este tema com vários investigadores e artistas que, de alguma forma, trabalham habitualmente o tema das emoções.

Um dos pontos de partida para o novo trabalho da marionet foi a obra “The Expression of the Emotions in Man and Animals” publicada por Darwin em 1872, onde apresentava o seu estudo sobre a relação entre as expressões faciais e estados emotivos de pessoas e animais. Uma das fontes para a sua investigação foi o trabalho do médico e fisiólogo francês Guillaume Duchenne que na sua obra “Mecanisme de la Physionomie Humaine” apresenta o resultado das suas experiências onde aplicava choques eléctricos em determinadas zonas da cara de pacientes para identificar os músculos envolvidos na expressão facial de determinadas emoções. A sua obra é acompanhada por imagens fotográficas das experiências, que Duchenne considerava o melhor método para o registo deste seu trabalho. Foram estas imagens que Darwin, uns anos depois, utilizou em experiências numa série de serões caseiros com um grupo de amigos, pedindo-lhes para identificar a emoção na expressão dos pacientes das imagens de Duchenne.

Conseguiremos ainda reconhecer as emoções básicas? Como reconhecemos o outro?

  
UMA NOITE DE EMOÇÕES30 de Outubro, 21h00
Rómulo – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra
Departamento de Física da FCTUC, Piso 0
(na Rua Larga, entre a Praça de D. Dinis e a Porta Férrea)

Participação: Inês Almeida (neurocientista), João Peça (neurocientista), Luís Santos (investigador em robótica), Marcos Marques (actor), Mário Montenegro (actor), Paula Rita Lourenço (actriz), Pedro Andrade (artista plástico) e Susana Paiva (fotógrafa). Moderação: Carlos Fiolhais.

Co-produção: marionet | Rómulo – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra

Apoios: Câmara Municipal de Coimbra, Fundação Bissaya Barreto, Ilídio Design, MAFIA – Federação Cultural de Coimbra

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Na sexta, apresentação de "Pseudociência" de David Marçal

Informação recebida da Fundação Francisco Manuel dos Santos:

31 de Outubro | 18h30 - Pavilhão do Conhecimento / Ciência Viva
Pseudociência
Jorge Buescu apresenta o livro de David Marçal no Pavilhão do Conhecimento/Ciência Viva, em Lisboa, e contará ainda com a presença de António Araújo, director de publicações da Fundação.

No novo título da colecção Ensaios da Fundação o autor debruça-se sobre a definição de pseudociência, por oposição à ciência propriamente, dando exemplos das suas mais diversas manifestações, assim como das estratégias utilizadas na sua validação e promoção, como o uso abusivo de linguagem aparentemente científica e a evocação de figuras de autoridade, entre outros.

O livro já está á venda na site da Fundação, nas livrarias e nos supermercados.                                       

Hoje, Ensino da Leitura no Instituto Camões

Informação recebida da Fundação Francisco Manuel dos Santos:
28 de Outubro | 17h30 - Instituto Camões
Ensino da Leitura no 1º Ciclo do Ensino
No dia 28 de Outubro, às 17h30 no Instituto Camões, João Lopes e Célia Ribeiro apresentam o novo estudo da Fundação "O ensino da leitura no 1.º Ciclo do Ensino Básico – crenças, conhecimentos e práticas dos professores". Estarão presentes Isabel Festas e Ana Maria Seixas (Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação e Universidade de Coimbra.

Como se ensinam as nossas crianças a ler? Os professores têm conhecimento que lhes permita ensinar as crianças de acordo com o que sabe serem as melhores práticas? Um inquérito nacional permitiu perceber o que os professores sabem e o que pensam que sabem, com implicações para o tipo de formação que deveriam receber são algumas das questões que serão debatidas.  

O estudo está disponível no site da Fundação.                                      

IGNORÂNCIA E PRECONCEITO NAS «COISAS DA CHINA»

Guilherme Valente escreveu no QI do DN sobre a China:

 Para o Henrique Lages Ribeiro. Para Pierre Ryckmans, in memoriam.

 Conta-se que em vários momentos da História em que numa lógica Ocidental seria «natural» a China retomar a administração do território de Macau, nunca o quis fazer. O último desses momentos - e eu estava lá - foi no tempo da Revolução Cultural, quando, na sequência de uma situação delicada para as duas comunidades, se decidiu que as forças de segurança tivessem uma presença discreta. O policiamento da cidade e a protecção de pessoas e bens, foram assumidos nesse breve período pelas associações cívicas chinesas. E nada, nem ninguém, foi molestado, como jamais esquecerei. 

Iguais a nós próprios, voltámos rapidamente a afagar a reconfortante ilusão da nossa presença ser uma necessidade incontornável para a China. O momento anterior foi quando o Exército de Libertação Popular, comandado por Lin Piao (o general que nunca perdeu uma batalha), expulsou o exército de Chiang Kai-Chek do Sul da China e parou às portas de Macau. Fala-se mesmo de uma mensagem de Mao a ordenar ao general invencível que não entrasse na cidade.

 Anos antes, na Segunda Guerra Mundial, também o exército japonês, que tomara Hong Kong e flagelava cruelmente a região, não ocupou Macau, na altura aparentemente protegida pela neutralidade de Portugal na Guerra. Foi um período terrível, em que se manifestou uma solidariedade exemplar dos portugueses com os chineses, especialmente os refugiados. História que continua a ser completamente ignorada em Portugal, mas que a China não esquece.

 Em todas essas ocasiões de ameaça dramática, terá havido mesmo por isso quem lembrasse a ideia antiga de um destino milagroso a proteger a Cidade do Nome de Deus...

 E foi ainda, talvez, por essa memória de um fim sempre adiado que foi atribuído ao Governo de Portugal no 25 de Abril aquilo que, afinal, terá sido apenas o previsível propósito de alguns oficiais de uma corrente bem caracterizada do MFA em Macau: a entrega imediata da administração do Território à China. Mas nem nessas circunstâncias a situação de Macau se alterou. Na realidade, Macau nunca fora uma colónia e a China, antiga, sábia e vasta, acertou com Portugal que a questão de Macau, «herança da História», fosse resolvida com tempo, sensatez e sem drama.

 A palavra-chave na filosofia chinesa é "harmonia". Harmonia na sociedade (Confúcio), harmonia dos homens com o Cosmos (Lao Tsé). Por isso o horror dos Chineses às convulsões sociais. (Na invasão mongol, séc. XII) morreu um terço da população, 25 milhões; na invasão manchú, um sexto.) Por isso o horror do povo e a fobia do poder político chinês à possibilidade de repetição de algo tão contra-cultura como foi, no passado mais recente, a tragédia, ainda tão viva, da Revolução Cultural (o episódio de Tiananman deve ser visto a esta luz). O que legitima e manterá o apoio da imensa maioria da população ao poder do PCC é a preservação da paz social, a prosperidade, a unidade e a integridade do território. Tudo isto está inscrito na história, na cultura e na civilização chinesas. Como ensinou Confúcio: «Se o soberano governa bem, mantém a fidelidade do povo».

A China é uma cultura pragmática. Em 1997, no gabinete que eu ocupava no palácio do governo na Praia Grande, um jovem doutorado numa das grandes universidades americanas, filho de uma das personalidades chinesas mais respeitadas e influentes no Território, com representação na Assembleia Nacional Popular em Pequim, transmitiu-me o que me pareceu ser uma seguramente bem informada convicção: "Se não houvesse a questão de Hong Kong, muito provavelmente a administração portuguesa prolongar-se-ia em Macau». E a China não teria dificuldade em encontrar algumas boas razões para isso. Na diversidade de peripécias e contextos históricos vividos por portugueses e chineses nesses tão longos 500 anos, na dimensão de poder dos dois Estados em presença, no jogo do interesse mútuo, regional ou imperial, que, efectivamente, em vários períodos, se verificou, e mesmo nas particularidades de modos de ser dos dois povos (como gostamos de invocar), foram muitos e diversos, naturalmente, os factores que foram determinando e explicam a continuidade, aparentemente intrigante ou mesmo milagrosa, da experiência singular que é Macau.

Mas há, todavia, em todos esses momentos, uma realidade subjacente à pluralidade de todas as razões que, em última instância, a determinou. Realidade que a distância cultural que nos separa da China leva a que tenhamos dificuldade em reconhecer. Essa realidade, de uma ordem de conhecimento que, lamentavelmente, continua ausente das intervenções de muitos analistas e, digamos, da apreciação da consciência comum, é a cultura. (Alguns desses analistas, aliás, exibem hoje a mesma ignorância e preconceito que manifestaram no passado, mas agora com sinal contrário.) Como tão expressivamente escreveu Goethe, «Não me desloco a lugar nenhum fora do meu País que não seja para descobrir as particularidades de cada cultura e chegar através delas ao universal humano que existe espalhado pela Terra inteira», e, mais de dois mil anos antes, surpreendentemente ensinara Confúcio, «A natureza dos homens é a mesma. São os seus hábitos que os separam», há só uma Humanidade (por isso os mesmos grandes valores e aspirações, uma história de grandezas e misérias bem distribuídas pelo mundo todo), mas uma pluralidade de culturas (e, claro, a individualidade de cada ser humano, sempre a multiplicar-se, como sublinhou, contra o senso comum, Lévi-Strauss). Banalidades, afinal, que hoje ninguém realmente instruído contesta, mas que geralmente não se praticam na apreciação e no relacionamento com o «outro" (distante ou próximo, «diferente» ou «igual), individuo ou realidade cultural. Isto é, sabe-se, mas não se age de acordo com o que se sabe. E todavia, como disse Todorov, o melhor do encontro com o «outro» (isto é, da descoberta dele na sua verdadeira identidade) é o olhar crítico que voltamos para nós próprios depois de iluminados pela visão do «outro». Bloqueado pela ignorância e pelo preconceito, ou pela simples ausência da virtude tão cristã da compaixão («põe-te no meu lugar», "se estivesses no meu lugar...", diz a sabedoria popular), esse jogo especular identitário, que devia traduzir-se numa dialéctica de reconhecimento e autoiluminação (também neste registo dar é receber), torna-se, pelo contrário, frequentemente, numa dialéctica de ocultação, de efeitos pessoais culturais e sociais autodevastadores, que nas situações extremas conduz ao obscurantismo. Obscurantismo cujo mal, como bem se pode compreender, é ao próprio que o exerce, indivíduo ou cultura, que mais profunda e prolongadamente fere.

 No que se refere à China, dada a referida distância cultural a que se encontra de nós, essa redução do outro à nossa própria identidade tem uma dimensão e efeitos mais dramáticos. E a China, como Nixon e Kissinger então perceberam e praticaram com o êxito que se conhece, mais do que uma cultura diferente, é mesmo outra civilização. Foi isso mesmo que senti e fui depois descobrindo deslumbrado quando, há 50 anos, depois duma viagem inumanamente vertiginosa, acordei em Macau aos sons aparentemente dissonantes emitidos por um rádio próximo. Era, afinal, música, música admirável, como depois aprendi a apreciar. Percebi, então, que chegara a outro mundo, diferente, mas também estranhamente familiar, teria já vivido nele? Macau, cidade mágica e mítica que hoje me habita entre a memória e a imaginação. A tal realidade subjacente à diversidade de todos os factores explicativos que, nos vários momentos históricos determinou (e continua a determinar) a tão longa continuidade da presença portuguesa em Macau, na China, é, pois, enfim, de ordem cultural e está ligada, concretamente, à importância singular da História na civilização chinesa, ao sentimento e à relação singulares do povo chinês com a sua história. Ao contrário da ignorância da História, da indiferença pelo passado histórico, distante ou mesmo próximo, que entre nós se verifica (que também o ensino que temos tido se empenhou em promover), na China a história está sempre viva. Por isso as figuras do passado são uma referência recorrente. Sem o conhecimento desse passado e dessa relação dos Chineses com a sua história, nada se entenderá da China, nada é possível pensar, dizer, escrever com acerto sobre nenhum domínio da realidade chinesa, da economia e da política, às ambições nacionais, do que aconteceu e virá.

 Em Novembro de 1793, quando da impressionante embaixada inglesa à corte de Quianlong, momento da última oportunidade do Império chinês para a abertura à modernidade que, porventura, lhe teria evitado a decadência dilacerante, teve lugar um curioso diálogo a que o autor da obra de onde o transcrevo chamou «Diálogo Secreto»: Os britânicos preparam-se para seguir para Cantão, uns por mar, outros por terra. Estão longe de sonhar que entretanto se desenrola, através do correio imperial, um diálogo implacável entre os dois pontos extremos da sua travessia chinesa. De Pequim, Qianlong dirigira, no dia 21 de Outubro, um edito ao governador militar de Cantão, bem como a todos os governadores das províncias costeiras: informava-os dos «pedidos inconvenientes» dos bárbaros, que reclamavam «uma pequena ilha onde pudessem residir permanentemente», ou no Zhoushan, ou perto de Cantão. Guo Shixun respondeu no dia 1 de Novembro e apenas doze dias mais tarde, 12 de Novembro, Qianlong anotava a sua resposta a tinta vermelha. Eis esse diálogo, que selou o malogro da embaixada de Macartney: Guo Shixun:

Os ingleses, quando chegam a Macau, têm de arrendar as suas habitações aos portugueses. A sua situação é a de convidados perante um anfitrião. Foi por isso que o enviado (britânico) pediu lhe fosse concedido um lugar onde pudessem colocar as suas mercadorias, que seria o equivalente ao que Macau é para os portugueses.

 Qianlong: É ABSOLUTAMENTE IMPOSSÍVEL.~

 Guo Shixun: Por aqui podemos medir bem toda a cobiça e astúcia dos ingleses.

 Qianlong: EXACTAMENTE!

 Guo Shixun: A instalação dos portugueses remonta aos Ming, há mais de duzentos anos. Esses bárbaros acabaram por amar aquelas terras e mergulharam na influência benéfica do imperador. Não se diferenciam do resto do Império. Torna-se ainda mais impossível deixar bárbaros ingleses instalarem-se neste litoral por ser próximo de Cantão,

 Qianlong: EXACTAMENTE!

 Guo Shixun: Aquilo que o enviado inconsideradamente pede não lhe sairá do espírito com facilidade. É necessário, de acordo com as vossas santas instruções, que a defesa costeira seja rigorosa. Os bárbaros ingleses não deverão poder instalar-se na menor parcela do território do Império.

 Qianlong: EXECUÇÃO IMEDIATA. Isso DEVE SER INTEIRAMENTE CONTRARIADO.

 Aconteceu que esses "bárbaros" se instalaram mesmo na China pela força. O que tenho vindo a sugerir contribuirá também, porventura, para nos aproximar da explicação para o facto, igualmente intrigante (e «milagroso», se o soubermos aproveitar), da China, cujo investimento é disputadíssimo por todos os países europeus, querer investir em Portugal. Para contrariedade, ao que parece, de alguns nossos iluminados cérebros...

 Há um provérbio antigo na China que os Chineses gostam de lembrar no convívio com os Portugueses: "Bebemos a água, mas não nos esquecemos de quem abriu o poço". Tive o privilégio e o gosto de acompanhar Umberto Eco numa semana de descoberta de Macau. Impressionado com a realidade física e a experiência de realização humana única que a cidade na sua história e vivências é, Umberto Eco, na conferência de imprensa de despedida, definiu Macau com uma metáfora perfeita: "Macau é uma câmara de descompressão antropológica". Macau, afinal, foi sempre isso. O que Portugal estará hoje a ser para os Chineses na Europa.

 Guilherme Valente

FCT cada vez mais só

Carta recebida do SNESUP- Sindicato Nacional do Ensino Superior:

Quando no início do Verão se conheceram os primeiros resultados do processo de avaliação da unidades de investigação levada a cabo pela Fundação para a Ciência e Tecnologia em colaboração com a European Science Foundation (ESF), desde logo se fizeram ouvir diversas críticas à forma como o processo havia sido definido e irregularidades na sua concretização. A indignação da comunidade académica e científica deixou bem evidente que este se tratava de um processo extremamente grave e que hipotecava o futuro da Ciência em Portugal.

Perante todas as evidências de irregularidades, vários diretores de unidades de investigação, o SNESup e outras organizações entregaram ao Ministro Nuno Crato ainda no mês de julho um pedido de suspensão do processo de avaliação  por forma a que pudesse ser realizada uma reavaliação das Unidades de Investigação. O Ministro veio depois a público reforçar que tudo estaria bem no reino da FCT.

O SNESup apresentou então, em setembro, uma denúncia ao Ministério Público onde referiu várias das irregularidades e ilegalidades do processo, peticionando a anulação do processo de avaliação em causa. O processo está em curso.

Mas nem mesmo com notícia da reapreciação de avaliações que permitiu que algumas unidades de investigação passassem à 2ª fase, as críticas abrandaram.
Pelo contrário, tomaram uma proporção internacional que levaram ao apelo à subscrição de uma carta aberta europeia em apoio da Ciência  (que se ainda não a assinou pode ainda fazê-lo), ou mesmo a que a astrofísica espanhola Amaya Moro-Martin, que criticou o processo de avaliação conduzido pela ESF num artigo de opinião  publicado na revista Nature, tenha sido ameaçada ameaçada pela ESF com um processo judicial. ESF que viria recentemente a publicar um artigo de resposta, sob o título "Stop the cuts, not the evaluations", passando ao lado das irregularidades e ilegalidades apontadas ao processo.

Na passada sexta-feira, foi conhecida uma comunicação assinada pelo Presidente em exercício do CRUP e pelo Presidente eleito e dirigida ao Ministro Nuno Crato sobre o processo em causa. Na carta, que expressa o resultado da reunião do passado dia 14, vem o próprio CRUP assumir também uma posição crítica sobre o processo em causa de avaliação das unidades de investigação e a forma enviesada como o mesmo decorreu.

Está assim a FCT cada vez mais isolada acreditando que o processo em causa terá sido um sucesso. Uma visão distorcida da realidade e que as várias evidências contrariam. Houvesse quem avaliasse a FCT e talvez não tivesse também obtido classificação para passar à fase seguinte. Tivessem os seus responsáveis o bom senso e a humildade para corrigir os erros e reparar as trapalhadas e dezenas de unidades de investigação e centenas de investigadores poderiam dedicar-se de facto ao desenvolvimento de conhecimento e à produção científica.

A Direção do SNESup
em 27 de outubro de 2014


SNESup - Sindicato Nacional do Ensino Superior
Associação Sindical de Docentes e Investigadores
www.snesup.pt

segunda-feira, 27 de Outubro de 2014

O avaliaquês


Recebemos  este post do investigador português no estrangeiro que aqui tem analisado a avaliação da FCT/ESF das unidades de investigação em ciência e tecnologia (devidamente identificado perante os coordenadores do blogue):

A corrente (?) “avaliação” das unidades de investigação do duo FCT/ESF apresenta uma ironia que tem aparentemente passado despercebida mas que se torna por demais evidente à medida que vamos conhecendo mais factos.

Dizia o ministro Nuno Crato antes de o ser, que para se ensinar uma disciplina é necessário sabê-la. Para ensinar química, não chega ser-se um especialista em pedagogia. É necessário, em primeiro lugar e acima de tudo, não só ter conhecimentos sólidos de química, como também saber muito mais do que o que se tem de ensinar.

Ora parece que a FCT e a ESF não são dessa opinião e, debaixo das barbas do ministro, desenvolveram o que, esperando não sermos acusado de plágio, chamaríamos o avaliaquês. Trata-se de uma actividade onde os avaliadores são, aparentemente, especialistas em avaliação, mas percebem muito pouco ou nada do que estão a avaliar.

Isto era claro desde o início desta “avaliação” com a compactificação da totalidade das diferentes áreas em apenas seis painéis, mais um multidisciplinar. Já tivemos aqui oportunidade de indicar que as possibilidades combinatóricas permitidas são interessantes, com algumas curiosidades como seja ter investigadores em ciências florestais a avaliar investigadores em ciências do mar.

Mas a dupla FCT/ESF defende que se trata de peritos em gestão de grupos científicos e por isso são competentes para o efeito. Mais do que isso, não só estão perfeitamente à vontade para fazer este tipo de trabalho como são, de facto, os avaliadores perfeitos para o fazer. Soa familiar, Senhor Ministro?

Ponham o infatigável físico molecular da Open University na presença de um centro de matemática e num instante ele será capaz de determinar o que está errado com a investigação dessa unidade e, obviamente, porque é que não merece passar à segunda fase. Ou, no caso das que passaram, porque é que só merece ter muito bom. O facto de o dito físico ser incapaz de distinguir um grupo abeliano de uma uva abeliana (perde-se na tradução do inglês) é irrelevante.

De facto, e como se pode ver da variedade de relatórios de consenso que têm vindo a ser divulgados nas diferentes áreas, há já várias frases feitas e técnicas desenvolvidas para cada fim que, temos a certeza, o ministro será capaz de apreciar devidamente.

Os relatórios dos três avaliadores indicam que a unidade “shows a very good scientific output” mas é necessário chumbá-la? Não há problema. Copie-se a frase alterando o grau do adjectivo para “shows a good scientific output”.

O centro satisfaz todos os critérios para passar à segunda fase mas já não há quota? Culpe-se o “feroz ambiente competitivo” - que, quando muito, faria sentido havendo as quotas que a FCT continua a negar existirem.

O avaliador que de facto percebe alguma coisa do que está a avaliar quer dar uma nota que iria contrariar o que os avaliaquêses pensam? Obrigue-se o avaliador a baixar essa nota.

Desenganem-se, no entanto, os que pensavam que já tínhamos visto tudo neste capítulo. À medida que nos aproximamos do fim e que os avaliadores que estão dispostos a participar no circo começam a escassear, a dupla ESF/FCT tem tido de se tornar mais criativa – cumpre terminar a avaliação, custe o que custar, mesmo que no fim já só haja um avaliador!

Uma nova fase do avaliaquês teve início com um grupo de visitas em que faltou um dos membros do painel. Com apenas 3 avaliadores, atropelou-se mais uma vez as regras que estão descritas no guião de avaliação, as quais indicam que as visitas serão feitas por 4 ou 5 especialistas. Neste caso com a agravante que pelo menos um deles não era especialista em coisa nenhuma relacionada com os centros avaliados (sim, tratava-se do infatigável físico molecular que neste caso dirigiu as visitas dos centros da área de matemática!). Mas é certamente um especialista em avaliaquês, pelo que pode supervisionar esta avaliação e, caso seja necessário, poderá ainda fazer uma avaliação no painel ao lado.

Mas as coisas não ficaram por aí e, no meio de adiamentos vários das visitas tivemos, por exemplo, um grupo de avaliaquêses que não incluíam um único arquitecto a avaliar um centro de arquitectura (parece que, entre outras coisas, nunca tinham ouvido falar no Siza ou nos prémios Pritzkel). Também tinham algumas falhas no conhecimento do modo de financiamento das unidades de investigação em Portugal, pelo que presumimos que a visita tenha sido, de facto, bastante instrutiva – afinal não é todos os dias que descobrimos que existe um equivalente a um prémio Nobel numa dada área ou que ficamos a saber como é que as coisas funcionam num outro país que está no topo de uma certa área.

Nos próximos dias haverá também engenheiros civis a visitar unidades de biologia, peritos em literatura italiana a visitar unidades de psicologia, etc. Um autêntico festival de avaliaquês, que permitirá certamente aos irredutíveis membros dos painéis que ainda restam mostrarem o seu virtuosismo! Põe-se obviamente a questão de saber como é que serão as reuniões presenciais dos painéis que terão lugar no fim das visitas...

Certamente que o ministro saberá, melhor que ninguém, apreciar as consequências a médio e longo prazo deste tipo de situações. Sem esquecer a péssima imagem que esta direcção da FCT está a passar para fora do país, dando a entender que o que é importante é finalizar a avaliação, custe o que custar, contra tudo e contra (quase) todos, sendo as condições em que esta é feita completamente irrelevantes, uma vez que é "robusta" e segue "os mais altos padrões internacionais".

Com a colecção de disparates dos diferentes relatórios que já foi possível compilar, esperamos que em breve seja possível produzir “O avaliaquês em discurso directo”. Tendo o ministro direito a aceder a todos os relatórios, listas de avaliadores, etc, não quererá ele dar início aos trabalhos?



domingo, 26 de Outubro de 2014

Quando os meios são elevados à condição de fins

"Podia muito bem acontecer que cada palavra, 
literalmente cada uma das palavras dos livros de História
fosse pura fantasia, incluindo as coisas 
que as pessoas acreditavam sem hesitar."

George Orwell, 1984.

Dois textos que escrevi recentemente para este blogue (aqui e aqui) e outros que escrevei antes podem dar a entender que sou contra a entrada de novas tecnologias na escola. Não é o caso.

As novas tecnologias (os computadores, por exemplo), são como as antigas tecnologias (um livro, por exemplo): meios para ensinar e para aprender.

Mas, como é por demais sabido, os meios não se podem confundir com os fins.

E são os fins, não os meios, o cerne da discussão educativa. Nesta medida, as tecnologias, sejam elas novas ou antigas, decorrem dos fins, servem a sua concretização, são da ordem do instrumental.

Efectivamente, a grande questão que tem ocupado a mente dos filósofos da educação, e que não pode, em circunstância alguma, ser alienada é a seguinte: que tipo de pessoas queremos deixar para o futuro.

Como o leitor pensará, as respostas não foram sempre as que mais beneficiam as próprias pessoas, a sociedade a que pertencem e a humanidade como um todo; muitas respostas tiveram o sentido contrário, ainda que fossem apresentadas como imaculadas.

Assim, até ao presente, as tecnologias postas ao serviço da educação serviram ambas as respostas. E, portanto, as que agora temos por "novas", não constituem excepção. Podem ser "boas" ou "más" em função dos propósitos que lhe estão subjacentes.

O que afirmo é fácil de perceber se tomarmos por referência os manuais escolares. Múltiplos estudos que têm incidido sobre eles, sobretudo depois dos anos sessenta do passado século, denunciam o doutrinamento político, religioso e outros que absorvem, a ideologia de classe, de género, de cultura, etc. que veiculam; a escolha nada inocente de textos, de imagens, de perguntas que fazem...

Tudo nos (antigos) manuais parece condenável. Em contrapartida, tudo nos computadores, nos programas e acessos que permitem, é apresentado como perfeito.

Esta leitura enviesada dá a entender que desde que se disponha de novas tecnologias, a educação (que educação?) está garantida. E põe-se, dogmaticamente, um ponto final no assunto.

É preciso ter a coragem de tirar esse ponto final e dizer, desassombradamente, que as novas tecnologias não constituam um bem em si. É preciso perceber que fins últimos as justificam.

Porém, aqui deparamo-nos com um enorme problema: grande parte dos textos de instâncias internacionais e nacionais com responsabilidades educativas que incidem sobre as novas tecnologias omitem esses fins, ou apresentam objectivos triviais como se de fins se tratasse, ou misturam os fins com os meios numa trama ininteligível.

Desta maneira, é impossível discutir o que quer que seja. Vence não quem tem razão com base em conhecimento, mas quem tem mais força.


Afinal, o que mudou?

Voltei ao relatório The NMC Horizon Report Europe: 2014 Schools Edition (União Europeia), a que já dediquei um texto neste blogue (aqui), pois, como suspeitava, a sua implantação no terreno é uma realidade. Não se trata de mais um documento proveniente de instâncias internacionais para académicos analisarem e citarem; trata-se de uma cartilha que está a ser posta em prática.

Essa cartilha avança, de facto, impondo novas tecnologias de informação e da comunicação na escola e na sala de aula. E isto no pressuposto de que as tecnologias valem por si. São a solução para a aprendizagem. Em sequência, corroboram-se princípios pedagógicos mais que muito duvidosos e justificam-se metodologias que não se coadunam com o "modo como se aprende".

A estratégia é paulatina e discreta: com a autonomia das escolas reforçada, envolve um processo de conversação caso-a-caso; o seu acolhimento depende substancialmente dos directores. É, pois, diferente do "Programa e.escola", que, na década passada, foi assumido como bandeira nacional por um governo, um primeiro ministro e pelo menos uma ministra da educação.

A ideia propagandeada é, no entanto, a mesma: (todos) os problemas da educação escolar serão resolvidos quando cada aluno tiver um computador ou um aparelho electrónico. As entidades (ou pelo menos algumas delas) mantêm-se, bem como as pessoas (ou pelo menos algumas delas). Mantêm-se também as (nublosas) ligações entre os sectores público e privado.

Mas, talvez mais grave do que tudo isto: desprezava-se antes e despreza-se agora a essência da escola e que é adquirir conhecimentos que não se podem adquirir noutro lado (pelo menos na profundidade e extensão que esta instituição pode proporcionar) e, com base no conhecimento, desenvolver a inteligência (tal como Isaltina Martins, a partir da etimologia, aqui a descreveu). Basta analisar os discursos anteriores e os actuais (constantes, por exemplo, no documento acima identificado) para perceber que é assim.

Vejo esse desprezo também como desprezo pelo professor. Sabemos que nada o pode substituir na duríssima e interminável tarefa que é ensinar, sabemos que a sua tarefa não pode deixar de ser "artesanal", concretizada em pequenos passos, por vezes demorados e falíveis, mas insistimos em passos de mágica, que, levianamente, dão a ilusão de sucesso total e imediato. E quando estes passos são ditados por instâncias internacionais, alcançam um toque sagrado, ficam acima de qualquer suspeita e crítica.

O leitor compreenderá melhor este texto se se detiver em duas entrevistas ao único representante de Portugal (apresentado como especialista entre cinquenta e três de diversos países) no relatório The NMC Horizon Report Europe: 2014 Schools Edition:

- uma realizada pela jornalista Rosa Pedroso Lima, publicada em 2009, no jornal Expresso e pode ser lida aqui;

- outra, de 2014, disponível no Youtube, podendo ser vista a partir da ligação ao lado.


Meu depoimento ao Público sobre Nuno Crato

Depoimento  sobre Nuno Crato que enviei à jornalista Andreia Sanches do Público e que foi aproveitado num perfil do ministro que saiu hoje nesse jornal: "O ministro no seu labirinto".


"Tenho muita pena do que está a acontecer no Ministério da Educação e Ciência com Nuno Crato. Ele não se soube rodear de pessoas competentes nem soube controlar uma máquina devoradora de ministros. O Nuno Crato cientista, divulgador e historiador de ciência é muito, muito melhor do que este ministro, que acaba destruído pela máquina que ele queria implodir. O Nuno Crato que eu conheci e com quem estive alinhado defendia a livre iniciativa dos bons professores e a autonomia das escolas. Pugnava pela melhoria dos meios de investigação, para além de ser um combatente da cultura científica. Em vez disso, o actual ministro não respeita os professores e as escolas, esmagados por plataformas informáticas, e está a permitir a destruição de metade dos institutos de ciência nacionais através de um processo de “avaliação” inqualificável e inacreditável. E uma das coisas que mais me pesa é ele ter desistido da disseminação da cultura e história da ciência nas escolas e na sociedade.

O Nuno Crato que foi para ministro tinha boas intenções. Tentei no início ajudar no que me foi pedido (reuni uma equipa para repensar as metas e programas de Ciências Físico-Químicas), mas, no último ano, verifiquei que o ministro se tinha isolado, só ouvia as pessoas mais próximas e não revelava capacidade para empreender  uma transformação positiva. Deixei por isso de poder colaborar com ele e com o seu Ministério. Disse-lho e afirmei-o publicamente. O famigerado exame para professores não correu nada bem ao ministro: foi uma medida inútil, que só serviu para pôr todos os professores contra ele, incluindo os muitos bons professores que temos. Mas a confusão não tem sido só na educação, já que, na ciência, a Fundação para a Ciência e Tecnologia -  FCT trata mal os cientistas, que são afinal a sua razão de ser. A FCT quer impedir muitos investigadores de investigar, delapidando recursos que custaram esforço, tempo e muito dinheiro. Parece-me que Nuno Crato desistiu, logo no início, de ser ministro da Ciência.

Disse durante algum tempo que se algo não funcionava bem no Ministério era o próprio Ministério, mas agora as coisas assumiram proporções demasiado graves, uma vez que o ministro não soube, perante erros brutais das máquinas da educação e da ciência, tomar o partido dos professores e dos investigadores, muito em especial dos melhores profissionais. Não esteve também do lado dos alunos e das suas famílias, que querem um ensino de melhor qualidade nem do lado dos bolseiros, que querem promover a ciência e encontrar oportunidades de carreira. Ele não tem maneira de alijar as responsabilidades no actual estado caótico da educação e da ciência em Portugal.

Para mim esta metamorfose do Nuno, excelente matemático e divulgador da ciência, para ministro que consente por exemplo a diminuição da excelência na matemática (permitindo a condenação de centros excelentes, entre os quais o dele próprio) e ignora o valor da cultura científica e divulgação foi absolutamente surpreendente. Não sei por que é que essa mudança aconteceu e só posso conjecturar: os meandros que desconheço da política, as imposições da troika, os interesses mais ou menos escondidos ou os novos "amigos" que sempre se fazem quando se está no poder. Sei lá eu.

Espero que, não podendo concretizar as melhorias na educação e na ciência que tinha em vista, o ministro volte rapidamente às suas origens.  Seria excelente que o Nuno Crato pudesse voltar a escrever livros como “A Matemática das Coisas”, a olhar para as estrelas com um telescópio, a conviver com os amigos da cultura científica e da história das ciências, como tanto gostava de fazer. Tenho saudades do Nuno."     

SETE ERROS CAPITAIS DA AVALIAÇÃO DA ESF/FCT

Os Reitores das Universidades portugueses escreveram ao ministro Nuno Crato uma carta demolidora da "avaliação" do sistema científico nacional. "Avaliação" vai entre aspas, pois não se trata de uma verdadeira avaliação por pares, que todos os cientistas não só defendem como exigem, mas sim de um processo político, que visa em primeiro lugar a eliminação de metade do sistema científico-tecnológico nacional, ferindo de morte uma comunidade que estava a apresentar um crescimento notável tanto em quantidade como em qualidade.

Há numerosos erros de conteúdo científico em pareceres emitidos, por falta de capacidade e experiência da entidade organizadora (a ESF - European Science Foundation). Eles são, na sua maior parte, conhecidos em pormenor, pelo que me limito aqui a sumariar alguns erros graves formais de organização do processo por parte da FCT - a Fundação para a Ciência e Tecnologia (ver, no entanto, 5 e 7 para algumas novidades).

Agradeço aos muitos colegas que, em defesa da ciência, fizeram chegar a este blogue muitas informações sobre o processo de "avaliação", algumas já divulgadas e outras a divulgar em breve.

1. Quotas escondidas.

A FCT encomendou à ESF, uma entidade sem suficiente experiência na avaliação de unidades nem, pelo que tem vindo a lume ultimamente,  sem suficiente idoneidade, a avaliação de todas as unidades de investigação em Portugal. Essa avaliação é absoluta, ou seja as unidades de investigação são avaliadas numa escala de seis níveis (mediocre, regular, bom, muito bom, excelente e excepcional). Repare-se no logro semântico, de "bom" ser uma nota negativa. A avaliação abarca duas fases, passando à segunda apenas as unidades com classificação igual ou superior a "muito bom". No entanto, e apesar de afirmar o contrário, a FCT não permitiu que as unidades fossem livremente classificadas com base apenas no mérito. Impôs uma quota definida no contrato que firmou com a ESF, que apenas metade das unidades passariam à segunda fase. Isto significa que as classificações tiveram que se encaixar nesta quota, ou seja as classificações de várias unidades tiveram que ser revistas em baixo para se encaixarem nessa quota (um exemplo que já é público de rebaixamento da nota foi divulgado pelo Conselho de Ciências Sociais e Humanas da FCT) . A existência desta quota foi desconhecida dos investigadores até depois da primeira fase de avaliação ter terminado, sendo apenas revelada quando, após grande pressão jurídica, a FCT revelou o contrato que assinou com a ESF. A análise dos resultados revelou que a quota imposta foi seguida em todos os painéis, talvez por não ter havido acordo sobre uma distribuição não uniforme do corte imposto..

2. Falta de transparência

Durante toda a primeira fase de avaliação o contrato que a FCT firmou com a ESF foi escondido, desconhecendo-se a existência da quota. Ainda hoje,  estando a avaliação em plena segunda fase, a FCT recusa   mostrar as adendas que fez ao contrato. É evidente que o contrato deve ser público na totalidade e conhecido com a devida antecedência, não fazendo sentido, por exemplo, que o contrato vá sendo alterado à medida que o seu cumprimento prossegue.

3. Avaliações feitas por não especialistas

Em relação a processos de avaliação anteriores, o número de painéis temáticos foi bastante reduzido, assim como o número de membros do painel. Assim, foram agregadas áreas muito diversas num mesmo painel que não eram abarcadas pelos membros do painel. Por exemplo no painel de ciência exactas, que juntou a química, a física, a matemática, as ciências dos materiais e as nanociências, muitos domínios de cada uma destas disciplinas não eram abarcadas pela especialização dos membros do painel. Ora um processo sério de avaliação exige a avaliação por áreas disciplinares, como era dantes feito.

4. Notas não comparáveis e arbitrariedade

Com o intuito de "compensar" a austeridade de painéis, a ESF recorreu a um grande número de avaliadores externos aos painéis (mais de 600), tendo cada centro sido avaliado por dois destes avaliadores externos. Tendo em conta o número de centros (322) e de avaliadores, a maior parte dos avaliadores externos terá avaliado um único centro, ou que significa que as notas entre os centros não são comparáveis porque foram dadas por avaliadores diferentes. Assim, as classificações dos vários avaliadores foram levadas em consideração pelos membros do painel de modo arbitrário. Ou seja, classificações elevadas dadas pelos avaliadores externos resultaram, por vezes, num resultado global muito mais baixo. O número de avaliadores externos para cada centro avaliado deixa muito a desejar (segundo alguns especialistas, incluindo o secretário de Estado do Ensino Superior, seriam precisos pelo menos cinco para haver a necessária robustez). A capacidade dos avaliadores dos painéis também deixa a desejar, designadamente uma situação clara de conflito de interesses (um coordenador de um dos painéis tinha mais de 40 artigos com um dos grupos que avaliou, isto é, construiu uma boa parte da sua carreira à custa desse grupo).

5. Avaliação feita sem visitas aos centros

A avaliação decorreu numa primeira fase sem  as visitas aos centros que são obrigatórias legalmente pelo decreto-lei 125/99 que enquadra toda a avaliação (artigo 28- n.º 3). Como é óbvio, uma avaliação remota e meramente documental não pode dar conta das realidades concretas dos sítios. Não são visitadas as instalações, permitindo aquilatar das condições de trabalho, e não existe o indispensável diálogo com os investigadores das unidades, espalhadas ao longo do país, funcionando em condições muito diferentes. Se não houver visitas a todas as unidades o processo está necessariamente ferido de ilegalidade. Para além de ilegalidade, há a questão ética da equidade: nem todas as unidades foram tratadas da mesma maneira: umas foram filhas e outras enteadas.

6. Uso de dados errados

A tabela com a produção científica por investigador em cada centro que foi fornecidas aos avaliadores estava errada por um factor de 2. Os avaliadores classificaram as unidades partindo da premissa que a produção científica de cada unidade em Portugal era metade do que na realidade é. Isto retira o fundamento de muita argumentação produzida a respeito de falta de produtividade.  A correcção do erro foi efectuada pela FCT não só a posteriori como à sucapa.

7. Mudança de regras a meio do processo

Com a avaliação a decorrer, a FCT divulgou um documento a que chamou "Informação suplementar" e que na prática introduziu mudanças profundas ao regulamento divulgado. Por exemplo, o número de avaliadores de cada unidade que podia ir até ao máximo de 5 foi reduzido para 3 em todos os casos e o  avaliador indicado pela unidade foi excluído da discussão do relatório de consenso. O ministro disse que as regras iniciais tinham de ser respeitadas até ao fim e isso não foi, de facto, o que aconteceu. A segunda fase da avaliação está a decorrer de uma forma atabalhoada, não só com diminuição do número de avaliadores (parece que nem todos os membros dos painéis compareceram) mas, o que é bastante pior, com o recurso a não especialistas nas áreas avaliadas. Só para dar um exemplo, um centro de investigação na área de Arquitectura foi visitado por um painel que não incluía quaisquer arquitectos. Mas, infelizmente, há mais exemplos.

Ainda alguém pode achar que está tudo bem? Está tudo bem, senhor ministro?