segunda-feira, 26 de junho de 2017

Pulseiras, homeopatia e dietas milagrosas? Não se deixe enganar

Artigo publicado no DN da autoria da jornalista Joana Capucho, acerca do livro "Não se deixe enganar", com prefácio meu e de Carlos Fiolhais, e que conta entre os seus quatro autores com João Monteiro, que também é autor do De Rerum Natura.


Há alguns anos, os investigadores Carlos Fiolhais e David Marçal tomaram uma caixa inteira de um medicamento homeopático à frente de uma plateia para provar que a homeopatia não funciona. Divulgadores de ciência e figuras empenhadas no combate à pseudociência, os cientistas assinam agora o prefácio do livro Não Se Deixe Enganar, da autoria da COMCEPT - Comunidade Cética Portuguesa. Uma espécie de guia que dá conselhos práticos sobre como pensar como um cientista, recorrendo a exemplos do dia-a-dia nos quais a ciência choca com a pseudociência, como as dietas milagrosas, a homeopatia, os movimento antivacinas ou as teorias da conspiração.
"Há pessoas que, para tirar benefícios dos outros, sejam económicos, sociais ou de promoção própria, querem fazer passar o falso pelo verdadeiro e servem-se dos mais variados truques para isso. Um dos mais comuns é a pseudociência, fazer passar por ciência o que não é", diz ao DN Carlos Fiolhais, professor catedrático no Departamento de Física da Universidade de Coimbra. Destacando que "está a querer roubar-se o crédito à ciência", o responsável pelo programa Ciência e Inovação da Fundação Francisco Manuel dos Santos diz que são apresentadas "visões do mundo completamente deturpadas, mas justificadas como se fossem a última verdade da ciência".
Para o cientista, o livro Não Se Deixe Enganar é uma ferramenta que ajuda as pessoas a "orientarem-se neste labirinto de mentira e confusão" em que vivemos. Porque o espírito científico, destaca, não é exclusivo da ciência. Fala, por exemplo, das alterações climáticas. Noventa e sete por cento dos artigos científicos referem que o clima está a aquecer, mas o mundo assistiu recentemente à saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris. "É um exemplo das patetices que são defendidas ao mais alto nível", frisa, destacando que "a ciência exige consenso". O facto de existir um trabalho que aponta num sentido não quer dizer que esse é o mais correto.
A homeopatia é, para Carlos Fiolhais, um exemplo claro de falsa ciência. "Apesar de ser muito difundida e estar na farmácia, não é por isso que atua", sublinha. Há um grau tão elevado de diluição das substâncias, explica, que, na maioria dos casos, o medicamento homeopático não tem sequer vestígios da substância ativa. "É um placebo. Imita um comprimido, mas não tem princípio ativo nenhum."
Manual de ceticismo
O livro é da autoria de Diana Barbosa, João Lourenço Monteiro, Leonor Abrantes e Marco Filipe, todos membros da COMCEPT, uma associação de cidadãos com diferentes formações académicas, que promovem o uso do pensamento crítico e racional. Ao DN, Diana Barbosa, licenciada em Biologia, diz que a ideia foi fazer um manual de ceticismo tendo como base dezenas de situações duvidosas. "Explicamos como é que podemos encarar a informação que nos chega de uma forma mais crítica, racional e tendo como base o conhecimento científico que existe em relação aos temas", esclarece.
Mas por que é que as pessoas se deixam enganar? Essa é, segundo a cofundadora da associação, uma das perguntas às quais tentam dar resposta. No caso das dietas milagrosas, Diana Barbosa diz que há um "apelo emocional". Surgem muitas vezes antes do verão. "Não há tempo para fazer um plano ou ir a um nutricionista. A resposta rápida e milagrosa é muito apelativa para um problema que não é fácil de resolver", alerta. Já no caso dos movimentos antivacinação, há "um apelo às emoções, ao medo". Ao longos dos séculos, recorda, foram usados diferentes argumentos contra as vacinas. O atual movimento antivacinação "tem como base uma fraude científica" criada por Andrew Wakefield, que associou a VASPR ao autismo. Foi promovido o medo em relação à vacina. "Ele foi desacreditado, mas a mensagem já tinha passado, até por celebridades, que a propagaram de forma mais forte." A isto, destaca, juntam-se "conspirações relacionadas com as farmacêuticas".
As pulseiras de silicone com hologramas, conhecidas como pulseiras de equilíbrio, são o exemplo de um "produto completamente inventado em que se recorria a linguagem científica. "Usavam palavras que soavam a científicas, mas que se juntam numa amálgama que não quer dizer nada."
A acupunctura, que também é referida no livro, é um "caso bicudo", como lhe chama Diana Barbosa, porque a investigação é difícil, uma vez que, ao contrário do que acontece com os medicamentos, não é possível encontrar um tratamento equivalente que funcione como controlo experimental. No entanto, ressalva, "na maior parte dos ensaios percebe-se que não há efeito da aplicação da acupunctura".

Um mar de desinformação
Diana Barbosa diz que "vivemos numa sociedade altamente tecnológica e que depende do conhecimento científico, mas, no entanto, as ferramentas são usadas para propagar anticiência e, em muitos casos, negar o que é conhecimento científico", pelo que são necessários instrumentos que permitam separar "o trigo do joio". Quando surge uma informação duvidosa, é importante perceber de onde vem, se existe alguma motivação (vender, por exemplo), o que dizem outras fontes, se se baseia em estudos científicos.
No final do livro, o leitor encontra "o bingo da pseudociência", ou seja, que argumentos esperar, nomeadamente o recurso a testemunhos e não a trabalhos científicos, bem como a figuras de autoridade, como médicos ou cientistas. "Abram a mente", "também se riram de Galileu" ou "é uma conspiração" são também frases que o devem deixar alerta. "É também usada linguagem aparentemente científica, mas que não faz sentido. Palavras como quântica, magnetismo ou epigenética."
Para Carlos Fiolhais, há um trabalho que tem de ser feito e que deve começar em casa, no sentido de transmitir ceticismo. "Não há razão nenhuma para não o incutir no processo de educação. O ceticismo é perguntar porquê", destaca o cientista. Os próprios professores, sublinha, devem passar a ideia de que "não se deve acreditar em qualquer coisa: vejam quem disse, onde disse, porque disse. A escola pode fazer um trabalho muito melhor".

domingo, 25 de junho de 2017

Sobre o desaparecimento de disciplinas fundamentais do currículo escolar

Seguindo as orientações da OCDE, vários países, incluindo o nosso, estão a realizar reformas, alterações, mudanças, ajustamentos… curriculares para que as escolas públicas respondam de modo mais rápido e efectivo às exigências do mercado de trabalho.

Ainda que, com essas reformas, alterações, mudanças, ajustamentos…, se tenha em mira a implementação de um núcleo de competências operativas naqueles que serão, a breve trecho, “capital humano”, quer-se fazer crer que a base é a “educação humanista”.

Por outra palavras, usa-se a expressão “educação humanista” para esconder o seu contrário: uma educação soft, produtora de executores indiferenciados e resignados.

O facto é que do currículo escolar está a ser estrategicamente retirado o que define a “cultura humanista”, na qual incluímos aquilo que concorre para a dignificação do ser humano e que, por isso, deve ser passado às novas gerações.

Não é, de resto, a primeira vez que isto acontece nem será a última. Trata-se, na verdade, de uma tendência recorrente por parte de quem tem poder para decidir o currículo (e são vários os sectores que têm esse poder, não apenas nem, talvez, principalmente o político), à qual é preciso prestar a maior atenção.

Deixo mais uma nota nesse sentido (ver aqui): a intervenção do escritor espanhol Luis Goytisolo (na foto ao lado), que, em Maio passado, se afirmou “muito preocupado com o declínio do ensino", nomeadamente com a supressão de disciplinas - como filosofia, historia, geografia - que são "imprescindíveis" para entender o mundo, sobretudo em momentos críticos, como este em que vivemos.

Essa supressão faz-se, em grande medida, com base no argumento de que está tudo na internet. Mas, pergunta: "como se podem encontrar os conhecimentos dessas disciplinas se não se sabe onde se devem encontrar? Está-se a converter a sociedade, no mundo inteiro, numa sociedade de gente ignorante".

sábado, 24 de junho de 2017

LIVROS PARA O VERÃO


À medida que as férias de Verão se aproximam vou fazendo um montinho de livros para ler nessa altura. Ou melhor, dois montinhos, um de ficção e outro de não ficção. Eis aqui alguns livros do primeiro montinho, isto é, de ficção publicada entre nós recentemente. Presumo que sejam bons para a canícula, apesar de não os ter lido ainda (apenas depeniquei partes de alguns). Mas também posso ter desilusões. Têm uma particularidade comum: todos eles, de uma maneira ou de outra, por vezes longínqua, por vezes secreta, têm a ver com a ciência. Aliás um livro de ficção pode ter a ver com ciência ao recusá-la deliberadamente.  A ordem é a alfabética do nome do autor.

- Canin, Ethan, “O homem que duvidava”,  Minotauro,  2017

Publicado no original em 2016 pela Random House “The Doubler’s Almanac” e anunciado como um “best-seller” (“besta célere” diria o Alexandre O’Neill) do “New Tork Times” este é o sétimo livro de um escritor norte-americano do Michigan que, antes de viver da escrita, era médico. O êxito dos seus livros permite-lhe agora concentrar-se no que mais gosta de fazer. Conta  a saga familiar de um génio matemático, uma mente ofuscante, que vai semeando o caos à sua volta...

-“Épico de Gilgames” (tradução, introdução e notas de Francisco Luís Parreira), Assírio e Alvim, 2017

Este é um dos mais antigos livros do mundo, uma vez que foi escrito em finais do segundo milénio antes de Cristo. Mas resistiu bem ao tempo. Conta a história  do poderoso rei babilónio Gilgames, “aquele que testemunhou o abismo”, conforme conta o primeiro verso da epopeia, escrita originalmente em caracteres cuneiformes em tábuas de argila. Edição muito cuidada tanto na tradução como nas eruditas notas. São relatos lendários, que nos trazem mitos do início do mundo bastante diversos dos que  nos são mais comuns.

-  Delillo, Don, “Zero K”, Sextante Editora, 2016

O famoso escritor norte-americano Don Delillo, autor entre outras obras de “Ruído Branco”  e “Submundo”, apresenta-nos  um livro de ficção científica sobre a possibilidade de resistir à morte através da criopreservação, isto é, preservação do corpo perto do zero absoluto (este zero, chamado zero kelvin, fica 273,15 graus abaixo do zero Celsius). A esperança é que um dia novos avanços da medicina permitam trazer à vida plena corpos atingidos por doenças que hoje são fatais. Parece um livro sobre a morte, mas é um livro sobre a vida, a estranha vida nos tempos de hoje.

- Perry, Sarah, “A Serpente do Essex”, Minotauro, 2017

Saído da mesma editora que “O homem que duvidava” e igualmente com uma  capa que chama a atenção (da autoria da FBA, trabalhando sobre o design do original) este romance é o segundo da autora inglesa, depois do grande êxito obtido com o primeiro. Conta  a história de uma naturalista que vai viver para o Essex, não por acaso terra natal da autora, onde se vê confrontada com a suposta aparição nos pântanos de um animal lendário, do género do monstro do “Loch Ness”. Céptica, logo quer investigar o que se passa. E é assim que conhece o padre local, iniciando-se um encontro de duas personagens diferentes que, no entanto... Este livro integrou “short-list” do prestigiado Prémio do Livro de Ciência da Wellcome de 2017, um prémio que raramente inclui obras de ficção.

- Rodrigues, Alexandre Marques, “Entropia”, Teodolito, 2017

Tal como “Zero K”, este é um livro com uma palavra da termodinâmica, o ramo da física que estuda a energia, no título. O autor é um psicólogo brasileiro, nascido em Santos, São Paulo, sendo este o seu segundo romance. A segunda lei da termodinâmica ou lei da entropia aparece logo na portaria do livro, em notação matemática.  Mas o leitor não se assuste que não tem que saber física nem matemática.  Dividido em quatro capítulos, cujos títulos  foram tomados  de heróicas batalhas napoleónicas (Trafalgar, Moscovo, Leipzig e Waterloo), esta é a história de um não-herói contemporâneo.

-  Wells, H.G., “A máquina do tempo”, Antígona,  2016

O  escritor inglês Herbert George Wells, que passou um tempo em Portugal a recuperar de uma doença, é um dos grandes nomes da ficção científica. Esta é uma nova tradução (da responsabilidade de Tânia Ganho, uma escritora) de um seu clássico, que beneficia de uma introdução de Manuel Portela, professor da Universidade de Coimbra especialista em Estudos Ingleses. A capa mostra a “geringonça” que permite explorações temporais. A história  do viajante no tempo tem sido glosada à exaustão não só na literatura como no cinema e só se podem compreender as réplicas se se conhecer o original.

- Zinc, Rui, “O livro sagrado da factologia”, Teodolito, 2016

Este é um livro da era Trump, da era dos factos alternativos. Um cidadão é apanhado por uma  rede de perigosos malfeitores,  ficando o leitor suspenso do enredo, com elementos distópicos, que oscila entre o humor e o terror. Com humor,  o autor  declara que o livro responde a uma questão muito profunda que nos interessa a todos: “O futuro vai ser bem ou mal passado?” O grande problema é que não sabemos.

Bom Verão. Boas leituras!



sexta-feira, 23 de junho de 2017

À DESCOBERTA DE QUEM SOMOS

Artigo publicado primeiramente na imprensa regional



Está a ler este texto. Para isso teve que realizar um conjunto de movimentos (desde os oculares aos do braço, mão e dedo que clicou no botão do rato, entre outros) que de certa forma lhe parecem agora que foram automáticos, feitos de forma inconsciente. Ou seja, não teve que pensar conscientemente nos vários movimentos que teve de fazer para poder estar agora a ler este texto. Também a compreensão do que está a ler envolve inúmeras actividades realizadas em várias áreas do seu cérebro e que resultam de aprendizagens antigas, de memórias sulcadas há muito tempo e que são agora acedidas aparentemente sem esforço consciente e que permitem a compreensão do que está agora mesmo a ver/ler. Dito de outro modo, há um conjunto de actividades neuronais inconscientes que estão neste preciso momento a ocorrer no seu cérebro e que permitem que esteja a ler e a compreender o que lê.

Mas, de facto, está consciente de si desde que acordou esta manhã. Julga saber quem é e sente-se ao comando da sua vontade para efectuar as acções que tem ou quer realizar. Mas a realidade exterior que sente é aquela que o seu cérebro constrói de forma inconsciente a partir das precepções imanadas pelos órgãos dos sentidos e demais ramificações nervosas sensíveis a vários parâmetros como sejam a temperatura corporal, a posição do seu corpo, etc. A própria sensação de fome ou sede não é ditada pela sua vontade consciente, mas pela informação que o seu cérebro recebe do organismo e processa em áreas específicas neuronais de um modo inconsciente.

Estas e muitas outras considerações sobre o funcionamento do cérebro, tendo em conta os avanços mais actuais das neurociências, são exploradas e explicadas magistralmente pelo neurocientista norte-americano David Eagleman no seu livro “O Cérebro -à descoberta de quem somos”. Este livro acaba de ser publicado entre nós e em boa hora pela editora Lua de Papel.

David Eagleman é um excelente divulgador científico das neurociências. Já o tinha demonstrado em vários livros anteriores de sua autoria dirigidos ao público em geral, como seja o incontornável “Incógnito” (2012, Editorial Presença). Para além de escritor, este neurocientista é professor no departamento de Psiquiatria e Ciências do Comportamento da Universidade de Stanford (Estados Unidos) e director do Centro de Ciência e Lei, que procura analisar as relações entre a neurociência e a legislação e aplicação de leis.



Ao escrever o presente livro David Eagleman quis dirigir-se a um público sem qualquer conhecimento especializado sobre as neurociências, apelando à curiosidade e desejo de autoconhecimento por parte do leitor.

Ao longo de cerca de 200 páginas muito bem escritas, o autor descodifica os termos e conceitos mais técnicos, usando uma linguagem simples mas rigorosa, cativante mas objectiva, e aborda questões de sempre: como tomamos decisões; como percepcionamos a realidade; quem somos; como a actividade cerebral influencia as nossas escolhas para a nossa vida; como a actividade cerebral se altera com a idade; entre muitas outras

Utilizando vários casos concretos com os quais nos podemos identificar, David Eagleman guia-nos através deste livro numa viagem à descoberta de como o cérebro funciona. O livro tem seis estações (capítulos) a saber: 1 – Quem sou eu?; 2 – O que é a realidade?; 3 – Quem Comanda?; - 4 – Como decido?; 5 – Preciso de ti?; 6 – Quem seremos no futuro? Existem ainda dois outros capítulos finais: um com notas alusivas aos vários temas abordados em cada capítulo; um glossário que, apesar de não ser muito extenso, é sempre útil para recordar e aprender um ou outro conceito que ajuda a uma melhor compreensão do livro.

Esta é uma excelente obra de divulgação científica muito útil a todos, mas principalmente a quem se quiser inteirar sobre o estado actual do avanço das neurociências e tiver curiosidade em se compreender a si mesmo. Ademais, fazia falta um livro actual de divulgação das neurociências em língua portuguesa.

Por fim, este é um livro admirável sobre como o cérebro se estuda e compreende a si mesmo e nos permite deslumbrar com o Universo em que existimos.


António Piedade

COMUNICADO DO SNESUP SOBRE EMPREGO CIENTÍFICO

O Ensino Superior e Ciência está a ter algumas das suas mais importantes alterações no sentido da valorização e dignificação do exercício da docência e da investigação.

Temos trabalhado afincadamente para inverter o quadro de precariedade e desvalorização que se tornou regra, por culpa, quer do subfinanciamento, quer das lógicas que se institucionalizaram e se tornaram predominantes.

Por todas estas razões, o PREVPAP é uma oportunidade de vinculação que nenhuma instituição deveria perder. Mais ainda quando estamos a falar de pessoal altamente qualificado.

Assim, o SNESup enviou um convite ao CRUP e ao CCISP para podermos reunir e trabalhar sobre estas matérias em conjunto, por forma a que possamos ter um melhor Ensino Superior e Ciência.

Dignificar e valorizar as carreiras é uma questão que depende da ação de todos e que nos deve unir a todos.

Chamamos a atenção para o artigo de opinião do colega Paulo Granjo, que foi publicado no jornal I, o qual incide sobre a palavra "só" inscrita na portaria que regula o PREVPAP. Tal como é dito (e muito bem), esta palavra surge para delimitar o inscrito no n.º 3 do art.º 1.º, indicando que "exercício de funções que, por força de legislação específica, SÓ são tituladas por vínculos de duração limitada”. São situações muito específicas em que não existe outro qualquer tipo de vínculo para o exercício daquelas funções (como o exemplo dado no Exército). Nada têm a ver com a realidade do Ensino Superior e Ciência.

Já em comunicados anteriores tínhamos chamado a atenção para esta matéria, indicando que este não era um critério de exclusão que pudesse ser aplicado.

Numa reunião entre um grupo de Investigadores FCT e o ministro, os próprios membros do gabinete do ministro instaram os investigadores a candidatarem-se, o que vai em linha de conta com as declarações do MCTES ao jornal Público indicando a aplicação do programa a docentes e investigadores.

Se é verdade que no politécnico têm existido avanços significativos no combate à precariedade (esperando-se que o PREVPAP possa permitir resolver os problemas pendentes), a verdade é que o Conselho de Reitores (ou alguns dos seus membros) parece concentrado em desperdiçar esta oportunidade, refugiando-se em argumentos que não só nada adiantam a seu abono, como prejudicam de facto o país.

A ênfase no concurso patrocinado demonstra mais sobre a tentativa de alguém manter o controlo sobre quem pode votar para os Conselhos Gerais, do que uma efetiva aposta na qualidade. Mais ainda quando são conhecidas as críticas e a suspeita sobre a lisura sobre grande parte dos concursos.

No caso dos Investigadores FCT, que foram admitidos por concurso internacional altamente competitivo, é de ficar estupefacto com a resistência das equipas reitorais.

Mais, na Universidade de Lisboa, apesar destes investigadores serem responsáveis por conseguirem obter financiamento na ordem dos vários milhões de euros ao vencerem concursos internacionais altamente competitivos, o discurso da reitoria continua a ser apenas o da contratação de alguns Professores Auxiliares,
como se a missão da universidade estivesse restringida ao Ensino, esquecendo-se daqueles que muito têm contribuído para os indicadores da Universidade na Ciência. O número de Investigadores FCT nesta universidade fala por si. Mantê-los sobre contratos precários, desperdiçando o PREVPAP demonstra as enormes debilidades do sistema presente.

Por vezes, as crenças estão de tal modo enraizadas que não permitem aos colegas perceber a oportunidade que temos pela frente. Mais ainda num sistema que se encontra envelhecido e depauperado.

É do interesse de todos que possamos resolver o problema da precariedade que existe no Ensino Superior e Ciência, sobretudo quando estamos a falar no setor mais qualificado de todos. Este é um momento histórico, que não podemos desperdiçar por incúria, ou velhos hábitos institucionalizados.

Por esse motivo também instamos os colegas que se encontram nas situações de vínculos precários que suprem necessidades permanentes, a efetuar a sua candidatura ao programa. Recordamos que a data limite é dia 30 de junho (não espere pelos últimos dias!).

O SNESup mantém-se firme no seu trabalho de transformação para um melhor Ensino Superior e Ciência.

Contamos consigo!

A Direção do SNESup
21 de junho de 2017
  

VERDADE E BELEZA: A NATUREZA COMO OBRA DE ARTE


Já está nas bancas a revista "Epicur", com o tema principal das estrelas, para a qual contribuí com um "long read" com o título de cima. Fica aqui o início para abrir o apetite:

 Todos nós guardamos na memória belas paisagens. Vimo-las com os nossos olhos e o nosso cérebro guarda-as muito bem guardadas. Eu nunca mais me esqueço de Limone sul Garda (Figura), uma pequena localidade à beira do grande lago de Garda, no Norte de Itália, onde o azul do lago dá lugar ao cinzento das rochas, aqui e ali pintado de verde, subindo rapidamente até a terra dar lugar ao céu, dominado pelo Sol mas pincelado por nuvens caprichosas. Também não me esqueço dos fantásticos pores do Sol que vi sobre o Atlântico em praias portuguesas, como a da Gala, na foz do Mondego, na Figueira da Foz: em poucos minutos, à medida que o disco solar mergulha sobre o oceano, no céu sucedem-se tonalidades de vermelho que rapidamente se extinguem.


Limone sul Garda

 Não é fácil definir o belo. Cada um de nós achará sempre um belo que seja seu. Mas todos concordarão em dizer que a Natureza é bela e, em certos sítios e em certas ocasiões, superlativamente bela. Não admira, por isso, que, desde tempos imemoriais, os artistas, isto é aqueles de nós que procuram o belo ao longo da sua vida, tenham tomado a Natureza como modelo. A arte sempre procurou representar a Natureza, sejam as montanhas, as praias desertas, ou o mundo vivo, do qual somos evidentemente parte. O alcantilado das casas, decoradas com canteiros multicolores, em Limone sul Garda chega para mostrar como, na Terra, o homem pode modificar a Natureza, acrescentando-lhe beleza. Também a ciência, que é a descoberta pelo homem do mundo à sua volta, se tem esforçado, desde o seu início, que podemos remontar à Antiguidade Grega, por descrever a Natureza – a palavra Física vem precisamente do grego physis, que significa Natureza. Os movimentos dos astros no céu ou os fenómenos ópticos, como o reflexo das casas na água do lago, por apresentarem regularidades, cedo foram encapsulados pela ciência.


 A beleza do arco-íris




 O arco-íris de Descartes


 Sendo a Natureza prodigiosamente variada, encontramos o belo por todo o lado. Encontramo-lo, escalando, no branco dos mas altos cumes ou até, mergulhando, em paisagens submarinas, onde a luz solar nunca chega. Por vezes, numa paisagem aparentemente banal (que só o é por estarmos habituados a ela), a Natureza surpreende-nos, como acontece quando ocorre um eclipse, ou, com maior frequência, um arco-íris. Um eclipse do Sol foi explicado pelo filósofo pré-socrático Tales de Mileto, quando afirmou que, em vez de um capricho dos deuses, se tratava apenas da passagem da Lua à frente do Sol. Porém, só no século XVII, com a mecânica celeste do físico inglês Isaac Newton, os eclipses passaram a ser previsíveis com precisão. Também o arco-íris foi de início considerado um sinal divino – está escrito no Genesis que é um sinal da aliança que Deus estabeleceu com os homens no fim do grande dilúvio. Os gregos antigos registaram as suas observações do arco-íris assim como os seus primeiros ensaios de interpretação, mas só a partir da Revolução Científica, a ciência se começou a apropriar do fenómeno. O filósofo francês René Descartes criou um arco-íris doméstico, usando garrafas de água para refractar a luz. Percebeu que eram as gotas de água presentes na atmosfera num dia chuvoso as responsáveis pelo espalhamento da luz branca, vinda do Sol, em luzes de várias cores, não apenas sete como reza a tradição mas uma infinidade delas, uma vez que a cor muda continuamente do vermelho ao violeta. Descartes foi pioneiro a oferecer uma descrição matemática da refracção: a luz quebra-se ao passar do ar para o vidro ou para a água de acordo com uma regra geométrica bem definida (Figura). Na geração seguinte à de Descartes, Newton conseguiu ver mais, como ele próprio disse, porque “subiu aos ombros de gigantes” (Descartes era decerto um deles). Substituindo uma garrafa por um prisma de vidro, produziu um belo arco-iris no seu quarto. E forneceu uma explicação científica mais elaborada para o fenómeno: para ele haveria partículas de luz associadas a diferentes cores que mudavam de direcção dentro do prisma, devido à sua diferente velocidade no vidro. As partículas de luz vermelha moviam-se, no vidro, com velocidade diferente das de luz violeta, sendo a luz branca feita de partículas de todas as cores. Newton não só conseguiu desdobrar a luz do Sol nas cores do arco-íris como também conseguiu, com um segundo prisma, fundir as cores, reconstituindo a luz branca original. Um simples prisma bastava para fazer passes de mágica com a luz. A mim, que me encanto sempre que vejo um arco-íris, a decifração científica do fenómeno não estraga o júbilo e o prazer que tenho ao vê-lo. O encantamento ressurge quando volto a ver o arco da velha no céu (o “velha” refere-se à aliança bíblica), mesmo que tenha feito a experiência de Newton há muitos anos na escola e a tenha ensinado vezes sem conta.

(...)

A OBRA ABERTA DE FILIPE RAPOSO

Ontem estive no CCB a gravar para a Rádio Renascença o programa "Obra Aberta", um diálogo sobre livros e muito mais com o pianista de jazz Filipe Raposo, que passará naquela rádio na próxima segunda feira pelas 11h. Entretanto, fica aqui a música do Filipe:

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Homeopatia (pseudo)pedagógica

“sem esforço não se aprende; esforçar-se não é sofrer; 
há que conservar o que é valioso e inovar a partir do 
que conhecemos, baseando-nos na evidência e na experiência; 
o fim da escola não pode ser a felicidade mas o conhecimento” 
Alberto Rojo, 2017. 


Alberto Rojo é um professor espanhol, de Música, que, na linha de pensadores como Zygmunt Bauman, se detém em características que marcam a sociedade actual – como sejam, o efémero, o rápido, o superficial – e que se percebem nas mais diversas esferas da nossa vida, com destaque para a educação escolar. 

Publicou recentemente mais um livro – A sociedade gasosa – onde desenvolve este cenário e que constituiu pretexto para uma entrevista realizada por Carlota Fominaya (aqui). 

Tomámos a liberdade de extrair (e traduzir) dessa entrevista tudo aquilo que se refere à educação escolar por se nos afigurar ser (mais) um contributo de especial interesse para uma discussão aberta e racionalmente equilibrada que urge ser feita também em Portugal.

Maria Helena Damião & Isaltina Martins
P: Multiplicam-se os especialistas que oferecem uma visão inovadora da educação, na qual se detecta uma permanente procura da felicidade do aluno. A relação entre aprendizagem e felicidade é assim tão importante?  
R: Por vezes, nós, os que defendemos a cultura, o conhecimento, o esforço e a exigência permitimos que determinados gurus e supostos especialistas se apropriem de conceitos tão importantes como a emoção ou a beleza, que são inerentes ao conhecimento. Permitimos-lhes que vinculem o saber ao sofrimento, à frieza e ao aborrecimento, quando não há nada mais apaixonante do que aprender. A emoção não pode desligar-se do conhecimento. É através do conhecimento e da emoção que provoca que podemos apreciar o que é belo. É difícil desfrutar com profundidade de algo belo, sem ter um certo conhecimento. Por isso discuto esse empenho em fazer alunos e filhos felizes. Quem não quer que eles o sejam? Mas, acontece que uma escola não é uma clínica terapêutica, nem um espaço de ócio, nem de autoajuda; é um lugar onde se transmite conhecimento e cultura. E há que destacar que o conhecimento e a cultura não nos fazem infelizes! Não devemos admitir que a escola se converta noutra coisa. Não podemos ceder ante a voragem anti-intelectual e fomentadora da mediocridade que impera. Temos de continuar a defender aquilo em que acreditamos, ainda que as convicções nos possam trazer inimigos. O surpreendente é que estas figuras da «educação-espectáculo», poucas vezes são professores. Elaboram teorias peregrinas para que nós, professores, as apliquemos (…). 
P: Na actualidade temos uma situação muito paradoxal: parece que a sociedade desconfia dos professores, mas delega por completo na escola a educação dos mais jovens, esperando que esta os devolva educados e com valores. 
R: Há uma desconfiança generalizada entre todos aqueles que intervêm neste processo tão amplo que se designa por educação. Os pais desconfiam dos professores, a sociedade desconfia dos professores, os professores desconfiam dos pais, os políticos e os professores desconfiam uns dos outros… É preciso que nos ocupemos cada um da parcela que lhe está confiada e que confiemos que o outro está a fazer bem, talvez (…) possamos assim evitar que os mais jovens fiquem a perder. Volto às convicções: sem esforço não se aprende; esforçar-se não é sofrer; há que conservar o que é valioso e inovar a partir do que conhecemos, baseando-nos na evidência e na experiência; o fim da escola não pode ser a felicidade mas o conhecimento porque os pais podem fazer o possível por proporcionar felicidade aos seus filhos (e isto não é garantia de que sejam felizes), mas na escola devem aprender o que os pais, por motivos óbvios, não lhes podem ensinar. Deve ser o conhecimento a desencadear a motivação e não o contrário (…); o aluno, mesmo o mais capaz (…) necessita de se esforçar; e não pode manifestar pensamento crítico sem ter adquirido conhecimento (…); uma pessoa que não sabe nada não pode ser autenticamente criativa; etc. Penso que se não estivermos de acordo em relação a aspectos tão essenciais como estes, temos um problema sério. 
P: Nos seus escritos é muito crítico com aqueles que defendem uma nova educação que requer saberes e ferramentas distintas das tradicionais. 
R: Creio que é importante insistir no facto de os saberes não prescreverem. Não são produtos perecíveis, ainda que seja preciso estar atento às novas ferramentas, claro. Mas, precisamente nestas circunstâncias “tão mutáveis”, de que todo o mundo fala, é ainda mais importante ter convicções e agarrarmo-nos aos saberes permanentes e às evidências nos processos de aprendizagem, em vez de querermos ser sempre tão “modernos”, deixando-nos seduzir pelos cantos de sereia da neuropedagogia [por exemplo] (…) Quanto às ferramentas, ninguém nega que os avanços tecnológicos são proveitosos, mas isso não nos pode levar a prostrarmo-nos perante eles e pensar que nos permitem renunciar ao esforço ou ao trabalho individual. É fantástico poder aceder à versão interactiva de Dom Quixote na página web da Biblioteca Nacional, à música da época (…) mas continuamos a precisar das nossas capacidades de atenção, constância e memória e também de conhecimentos, sem os quais é impossível que alguém possa aprender por si mesmo, apenas com acesso à internet. Por isso, o papel do professor é crucial: um professor que saiba quanto mais melhor (recordemos a máxima da escolástica medieval: Primum discere, deinde docere) e que queira ensinar o que sabe com entusiasmo de modo a despertar nos alunos o querer saber cada vez mais. O que acontece é que aqui há muitos interesses (também económicos) que se traduzem no comércio de produtos “milagrosos” que quase sempre recorrem à estratégia do fácil e do cómodo, bem como à técnica de marketing de desprezar o tradicional sem nenhum critério, envolvendo-o num halo fantasmagórico, para criar a necessidade de adoptar aquilo que interessa vender e que, no fundo, mostra muito pouco respeito intelectual pelos alunos. Estamos na era da pós-verdade, e também da pós-educação, da educação entendida como espectáculo. Há que dizer claramente que não é possível aprender sem pagar um preço, mas este preço é muito menor do que o de quem faz comércio com a educação (…). Nada daquilo que defendo é incompatível com o poder desfrutar da aprendizagem nem exclui, bem pelo contrário, que o professor se aproxime dos alunos e os trate de forma afectuosa, precisamente porque o professor que considera que os seus alunos merecem ser pessoas cultas e formadas é o que mais apreço demonstra por eles. 
P: Uma das novas correntes contesta a aprendizagem de memória. Muitos adolescentes ou pais perguntam-se para quê estudar os rios (…) se logo se vão esquecer deles. 
R: Temos de começar por entender uma coisa: não há transformação importante no cérebro humano que dispense o esforço, isto não sou eu que o digo, é um neurocientista, Mariano Sigman, que defende que isso é importante “não pelo mero facto de recordar para sempre os rios mas para exercitar a memória”. Nada pode substituir o esforço individual. 
P: Hoje é também habitual ouvir muitas teorias sobre a motivação e o prazer como dois dos factores principais na aprendizagem. 
R: De facto a motivação é importante mas não é o único factor a intervir na aprendizagem. É o conhecimento que deve desencadear a motivação [não podemos sentir-nos motivados por algo de que nada conhecemos e o prazer não deve substituir os conteúdos] (…). Claro que o professor deve procurar que a sua disciplina seja atractiva, aproximando-a, de alguma forma, dos interesses e do contexto dos alunos, seleccionando as actividades que podem prendê-los, mas com isto não se pode banalizar o conhecimento (…) o poder que ele, por si mesmo, tem para deleitar. E nunca se pode esquecer que o prazer por aprender surge com o envolvimento no estudo. Condicionar tudo ao desfrute (…) imediato e superficial (…) é um erro e uma má lição de vida para os nossos alunos. Temos de os convencer de que aprender algo que não lhes desperte interesse à partida também é bom, pois hão-de encontrar-se muitas vezes em situações não desejadas que têm de enfrentar. 
P: E o que tem a dizer do lúdico na aprendizagem, que tanto se apregoa hoje em dia? 
R: Quando digo que aprender implica esforço, não falo de sacrifícios desumanos nem de sofrimentos inadmissíveis. E o que implica algum esforço tem mais valor para nós, pois a satisfação de conseguirmos algo é maior do que quando nos dão as coisas já feitas (…). Aqui há que distinguir bem algo que nem sempre se faz: as etapas educativas e a idade dos alunos. Na educação infantil o lúdico tem todo o sentido, no ensino primário o jogo pode ter interesse, mas no ensino secundário, onde se devem aprofundar os conteúdos nem tudo pode ser lúdico, ainda que possa utilizar-se o jogo como recurso, coisa que todos fazemos (o que é improvisar música se não jogar?). 
P: No livro La sociedad gaseosa recorre à ideia (…) de falta de maturidade. 
R: (…) Os nossos alunos são super-protegidos (…) em lugar de os ensinarmos a enfrentar as dificuldades, ensinamo-los a evitá-las (…) É óbvio que nenhum professor quer que os seus alunos se sintam mal na aula, mas a sua responsabilidade é ensiná-los (…). 
P: Alguns especialistas falam do papel do professor como «dinamizador», ou como alguém que se adapta às necessidades dos alunos do século XXI. 
R: Sim, querem que o professor seja uma espécie de médium (…). O que um bom professor tem de fazer é abrir os olhos dos seus alunos para um mundo desconhecido (…). Entendo o ensino de uma forma muito distinta daquela em que o aluno é o centro, tendo o sistema de se adaptar a ele. A minha posição é que, com recursos e total envolvimento, há que conseguir que pouco a pouco sejam os alunos a adaptar-se à escola. Quando terminarem a escola, a universidade... vai adaptar-se o mundo a eles?... ou vão adaptar-se eles às situações que vão encontrando?... Falo já não apenas em transmitir conhecimentos mas também em proporcionar-lhes ferramentas que lhes vão ser úteis. Coloquemos-lhes desafios e ajudemo-los a superá-los. 
P: O seu livro é híper crítico quanto às novas modas pedagógicas, em concreto em relação à teoria das inteligências múltiplas, ao «brain-gym», à inteligência emocional… 
R: Na minha opinião, muitas das novas práticas docentes promovidas por essas modas podem ser muito prejudiciais. É difícil encontrar uma base científica para elas. São efeito placebo, pura homeopatia pedagógica. Há algo que me parece especialmente grave: que algumas delas nos sejam vendidas como garantia da igualdade ou de ajuda a alunos em dificuldades, procurando fazer crer que quem as contesta apenas está preocupado com os melhores. Isso é redondamente falso. De facto, está mais que demonstrado que baixar o nível de exigência tem efeitos negativos sobretudo junto dos alunos com mais dificuldades, isto ao mesmo tempo que promove a percentagem de alunos medíocres e é injusto com os brilhantes. 
P: É o “nivelamento por baixo”. Como deve ser, então, um bom sistema educativo? 
R: Um bom sistema educativo deve permitir que cada aluno, independentemente da sua capacidade, possa desenvolver ao máximo o seu potencial, proporcionando o apoio de que necessite àquele que tenha mais dificuldades (…). O que não podemos é admitir teorias mais sedutoras mas não reais como a das inteligências múltiplas, só porque se nos afigura mais cómodo pensar que todos somos inteligentes em algo. Há uma inteligência (…) ainda que possamos ter mais habilidade para umas actividades do que para outras (…). 
P: Que opinião tem em relação à correntes que advogam a supressão de exames (…)? 
R: O que vejo novamente é uma absoluta desconfiança. O professor não avalia de uma forma arbitrária, nem atira os exames ao ar para ver quantos caem de um lado e de outro. Nem, tão pouco, é só o exame que decide a nota do aluno. Avaliar é o modo como o professor, a partir da sua posição autorizada e de profissional de ensino, se pronuncia sobre se o aluno adquiriu os conhecimentos que devia ter adquirido. Não vejo aqui nada de traumático (…). 

MALÁRIA - TÃO SIMPLES E TÃO COMPLEXO



No próximo dia 27 de Junho, terça-feira, pelas 18h00, realiza-se no Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra a palestra intitulada Malária - tão simples e tão complexo”. A palestrante será Maria MotaInvestigadora e Directora Executiva do Instituto de Medicina Molecular de Lisboa (IMM). Maria Mota Foi Prémio Pessoa em 2013 e têm-se distinguido internacionalmente na investigação sobre a malária.



Esta palestra insere-se no ciclo "Ciência às Seis" coordenado por António Piedade.

Entrada livre
Público em geral

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quarta-feira, 21 de junho de 2017

AINDA (E SEMPRE) A ORDEM DOS PROFESSORES


“A idade empurra-nos em direcção ao silêncio. As pessoas querem que não façamos nada. As pessoas querem que não faças nada. Tenta evitar isso continuando em frente. A necessidade de escrever mais e mais é uma preocupação constante.” Vidiadhar Napaul (Prémio Nobel da Literatura, 2001).

Começo por agradecer a FC o segundo comentário feito ao meu post aqui publicado com o título “ORDENS PROFISSIONAIS E SINDICATOS DE PROFESSORES” (17/06/2017). Comentário esse que esclareceu possíveis  erros de interpretação do seu primeiro comentário de que eu me tenha de penitenciar aproveitando a ocasião  para me referir  à enumeração por si feita de 16 ordens profissionais e respectivas atribuições a que acrescentarei a Ordem dos Engenheiros Técnicos, de criação mais recente (2011).

Defensor acérrimo  da criação da Ordem dos Professores (quiçá por fazer fé em Freud: “Um dia, quando olhares para trás, verás que os dias mais belos forma aqueles em que lutaste”) embrenhei-me  numa  aturada consulta em bibliotecas públicas sobre ordens profissionais desde a legislação que criou o Estatuto Judiciário (Decreto Lei 13.907/27, 22 de Junho). Ou seja, tudo o que tenho escrito (que ascende a muitas centenas de páginas publicadas em letra de forma) não foi de “pena ao vento” (Eça de Queiroz).

Da maior relevância me parece referir um bem elaborado Estudo Nacional encomendado pela Associação Nacional de Professores Licenciados (não confundir com o Sindicato Nacional dos Professores Licenciados de que me demiti por uma aliança contranatura entre o SNPL, em defesa estatutária de licenciados por universidades, e a Fenprof que chegou a admitir a inscrição de sócios sem qualquer preocupação por habilitações académicas, embora Ramalho Ortigão tenha sentenciado que “nem tratante se pode ser sem alguma instrução ou tirocínio”). É esta última organização sindical ferrenha opositora à criação de uma Ordem de Professores com argumentos velhos e relhos que fizeram história no século XVIII em período da Revolução Industrial

Do extenso Estudo Nacional supracitado, intitulado “Ser Professor – Satisfação Profissional e Papel das Organizações de Professores”, realizado pelo Instituto Politécnico de Castelo Branco e coordenado por João Ruivo, com isenção que me apraz registar por referenciar a acção do SNPL em prol da criação de uma associação pública de professores, respigo:
“De acordo com Baptista (2006), já em 20 de Junho de 1996 o SNPL submeteu à Assembleia da República uma proposta de estatutos da possível Ordem a criar. Mais tarde, a 25 de Fevereiro de 2004, este sindicato submeteu, também à Assembleia da República, uma petição para a criação da Ordem, contendo 7857 assinaturas. Por último, e de acordo com o autor supra mencionado, no dia 2 de Dezembro de 2005 debateu-se na Assembleia da República a petição n.º 74/IX (2.-ª) do SNPL e outros para a criação da Ordem. As várias intervenções proferidas pelos deputados dos diversos grupos parlamentares também não denotaram convergência de opinião relativamente a esta matéria. A deputada do PCP, Luísa Mesquita, centrou a sua intervenção na necessidade de haver uma maior autonomia profissional, cabendo aos professores a decisão de se criar um código deontológico para essa classe profissional.”
Despiciendo me não parece esclarecer que o relator da referida petição, numa espécie de raposa a quem é entregue a guarda do galinheiro, foi João Bernardo, deputado do Partido Socialista, professor do 1.º ciclo do ensino básico e vice-secretário-geral do Sindep (sindicato desafecto à criação de uma Ordem dos Professores) que no referido plenário pautou a sua intervenção argumentando com a conflitualidade de competências entre sindicatos e ordens profissionais, pese embora ter sido no consulado de António Guterres que deu os primeiros vagidos a Ordem dos Enfermeiros. E aqui, ocorre-me o conselho de Mario Perniola, reputado filósofo italiano e professor universitário de Estética: “Quanto mais extrema, intransigente  e radical é uma afirmação tanto mais ela solicita e reclama a afirmação oposta.”

A oposição à criação de uma Ordem dos Professores tentou encontrar fraco respaldo numa prosa urdida por João Rios, secretário-geral do Sindep, quando este, qual magister dixit, em entrevista pública e largamente publicitada, nos brinda com este libelo acusatório: “A criação de uma ordem dos professores seria apenas mais uma maneira de criar conflitos entre os mecanismos existentes e que necessariamente prejudicariam os professores por a ordem se constituir em mais um mecanismo de tutela e num acréscimo de despesa”. E conclui sentenciosamente: “Nada justifica a criação de uma ordem de professores”. Ou seja, terá ele tido a pretensão, mesmo sem o saber, de se  tornar intérprete dos belíssimos versos de Reinaldo Ferreira “Mínimo sou / Mas quando ao Nada empresto / A minha elementar realidade / O Nada é só o resto”?

E esta preocupação com os dinheiros da fazenda pública é tanto mais de estranhar porquanto a direcção de determinados sindicatos de professores está entregue a “professores” profissionalizados nestas andanças  que se enquistam, quais lapas agarradas a rochedos, eternizando-se em lugares  pagos pelos nossos impostos. Ou seja bem prega Frei Tomaz! Desse mal não padecem as ordens profissionais em que o lugar de bastonário é desempenhado num reduzido espaço de tempo devidamente definido em textos legais.

“J’acuse” (título de uma carta aberta de Émile Zola) a indiferença que este statu quo tem merecido dos professores que se remetem a um silêncio  cúmplice, porque, com alguém escreveu não fazer é deixar que os outros façam por nós, como se a docência se pudesse contentar com um estatuto de escravo grego ao serviço dos filhos dos senhores de Roma. E, assim,  permitindo  que a Fenprof sentencie urbi et orbi: “Os problemas de natureza ética e deontológica para serem assumidos pela classe docente não necessitam de vigilância ou da orientação de uma ordem profissional.”

Ou seja, reclama para si a Fenprof o orgulho daquela mãe que ao ver o seu filho desfilar em vistosa parada militar diz para os circunstantes que a rodeiam: “Todos levam o passo trocado, só o meu filho leva o passo certo!” Perante a oposição destes sindicatos à criação de uma Ordem dos Professores, será que os muito milhares de profissionais representados por ordens profissionais são tão destituídos de razão a ponto de se não aperceberem dos prejuízos sem conta que as associações públicas  acarretam?

Em consequência, não deve ser admitida qualquer tipo de deserção. O recrutamento é para todos aqueles inscritos em ordens profissionais: abominem os que vos arrastaram para isso; encerrem as portas das vossas associações públicas; queimem os vossos estatutos; rasguem as vossas cédulas profissionais; por fim, responsabilizem a Assembleia da República por ter consentido na vossa desgraça.

Depois, libertos dos grilhos de um aviltante escravatura, sejam solidários com os vossos sindicatos, aliem-se incondicionalmente a eles, combatam à sombra da suas manifestações, embriaguem-se com o cheiro acre da pólvora e, por fim, lutem até à morte contra um perigoso inimigo comum: AS MALÉFICAS ORDENS PROFISSIONAIS!