segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

CARAVELAS, NAUS E GALEÕES


Mais dois artigos sobre o AO90

Tomo a liberdade de transcrever partes significativas de dois artigos saídos recentemente no jornal Público sobre o Novo Acordo Ortográfico que nos foram enviados por leitores a quem, naturalmente, agradecemos. O autor desses artigos é Nuno Pacheco.

Irreversível, o acordo ortográfico? Só uma coisa é irreversível: a morte
10 de Janeiro de 2019 
O grupo Cofina decidiu estender a aplicação do acordo ortográfico de 1990 (AO90) às restantes publicações do grupo. Já aplicado no Correio da Manhã, no Destak, no Record e na CMTV, ei-lo agora no Jornal de Negócios e nas revistas Sábado, Máxima e TV Guia
Razões? Porque “é inegável que a sua aceitação está estabilizada e é irreversível”, disse o director do Jornal de Negócios. Já a Sábado, na pequena nota que escreveu sobre o assunto, quis deixar bem claro que “o novo acordo não é perfeito, foi mais político do que técnico, mas é hoje uma realidade incontornável e definitivamente assimilada na sociedade portuguesa”. Mais: “Quando várias gerações de jovens estudantes já estudam por manuais adaptados à nova grafia e toda a administração pública está vinculada a ele, não faz sentido persistir numa atitude de resistência anacrónica.” 
Recuando seis anos, há alguma similitude com o argumento invocado pelo Correio da Manhã para “adotar” (sic) o AO90 a partir de 2 de Janeiro de 2013. “Já é seguido nos manuais escolares, nos livros, na legendagem”, diziam. Para concluir: “Nunca seremos um obstáculo à mudança.” 
Portanto, toca a “tornar a comunicação mais fácil”. Como? Escolhendo o que mais lhes convinha, claro! “Nas palavras que admitem dupla grafia optámos por manter tal como na ‘escrita antiga’.(...) 
Teme-se o pior. Mas, para lá desta mudança, que só irá contribuir para ampliar o caos ortográfico reinante a que alguns chamam “nova ortografia” (embora não passe de uma ridícula mistura de grafias a esmo, sem freio nem norte), pesemos os argumentos. 
O AO90 é mesmo uma “realidade incontornável e definitivamente assimilada na sociedade portuguesa”? E é verdade que “a sua aceitação está estabilizada e é irreversível”? (...) 
Mas recuemos a 2011, quando o XIX Governo (PSD-CDS) dizia no seu programa que “acompanhará a adopção do Acordo Ortográfico” (assim mesmo, sem AO90, senão teriam escrito “adoção”) com vista à “crescente universalização” da língua portuguesa. Na mesma altura, o então secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas, declarava ao Diário Digital: “O acordo ortográfico é uma nova norma do acordo a que se chegou e é para ser implementado. Vamos prosseguir o trabalho de implementação porque é um caminho sem retorno.” Dois anos depois, já ex-governante, o mesmo Francisco José Viegas afirmava ao jornal Record (25/3/2013): “Já não suporto falar do acordo ortográfico, acho que já ninguém o suporta. Portugal e o Brasil já não suportam o acordo ortográfico. E o que acontece é que para fechar o acordo é preciso fechar o vocabulário. Agora isso ainda não aconteceu. E o Governo anterior quis correr mais depressa, ser pioneiro nessa matéria, e impôs a entrada em vigor para 2012. Sem Angola ter dito que sim e sem o vocabulário estar concluído.” 
Chegados a 2019, eis o panorama: o dito “vocabulário” está “concluído”, não um mas vários e contraditórios entre si; Angola, tal como Moçambique, Guiné-Bissau e Timor-Leste não entregaram os instrumentos de ratificação do AO90, logo não lhe disseram “sim”; e o AO90, que inventou para Portugal um grande número de palavras que ninguém aplica noutro país (mudando até muitas que aqui e no Brasil se escreviam da mesma maneira), está “em vigor” por resoluções do Conselho de Ministros e da Assembleia da República, enquanto o acordo de 1945 se mantém em vigor por lei – que não foi revogada, nem podia ser, por resoluções ministeriais ou parlamentares. 
A finalizar, e parafraseando Francisco José Viegas, se já ninguém suportava o acordo ortográfico em 2013, o que devemos dizer agora, em 2019? Talvez isto: como várias asneiras outrora cometidas e felizmente corrigidas, esta só espera por um momento de clarividência. Porque irreversível, neste mundo, só mesmo a morte. 

De onde vêm as palavras dos dicionários? Trá-las a cegonha, como aos bebés.17 de Janeiro de 2019  
(...)  Não tencionava voltar esta semana ao tema, mas três razões vieram impor-se: os argumentos invocados por alguns comentários à minha crónica anterior; uma notícia da Rádio Agência, de Brasília, sobre o acordo ortográfico; e a edição, recente, de mais um dicionário da Texto
Comecemos pelos comentários. Num, diz-se que “o AO não é um instrumento perfeito. (…) Que tem bastantes incongruências, é verdade. Que muitas delas podem ser corrigidas, também o é.” Mas alguém as corrigirá? Outro: “Graças a si e aos demais como o sr. pensam e (pior) agem, a língua portuguesa daqui a menos de duas décadas estará num museu.” Engana-se, já está. Em São Paulo. E ainda ninguém se queixou. Outro ainda: “É pena não ver algo muito mais importante (e preocupante!), que é a (cada vez menos) subreptícia [sic] instalação de anglo-americanismos no discurso diário [PÚBLICO incluído].” Uma coisa não exclui a outra: as aberrações da “nova ortografia” são, aliás, mais recentes do que as modas dos anglicismos (antes foram os galicismos), porque o papaguear “estrangeiro” sempre foi, desde há décadas ou até séculos, forma ridícula de nos imaginarmos “maiores”; enchemos a boca dos valores do Português, mas à mínima oportunidade ignoramo-lo. Isso enquanto permitimos que o Português se deforme até ficar irreconhecível à vista e à fala. Por fim: “Qualquer entidade pública e até as empresas devia [sic] estar obrigadas por lei a aplicar somente o AO que esteja em vigor!” Pois se assim fosse, aplicariam o AO de 1945, único ainda em vigor por lei. O AO90 foi imposto por resoluções, do governo e da assembleia, e essas, como devia ser claro para todos, não têm valor para revogar tal lei. Fica claro? 
Há, no meio de tudo isto, um justo alerta: o “quase desaparecimento do ensino do Latim e do Grego do ensino secundário português, e das consequências desta situação na qualidade do ensino do Português.” É verdade, mas até isso anda associado aos efeitos nefastos do dito acordo de 1990, com a deslegitimação da etimologia em prol da fonética. Basta ver a mais recente edição do Dicionário da Língua Portuguesa da Texto (já com o AO), das mesmas autoras do Dicionário Verbo de 2006 (ainda sem AO). Num e noutro, não há indicações etimológicas (ao contrário do que sucedia no Universal da Texto de 1995, ou no da Porto Editora de 2009). De onde vêm as palavras? Não dizem. Nem grego, nem latim, nem árabe, nem qualquer língua que haja influenciado a nossa. Podemos talvez arriscar esta explicação patética: Palavras? Trá-las a cegonha, como aos bebés. Tentem agora dizer isso às crianças.
Mas já que falamos deste dicionário, que só por si há-de merecer um texto (não por ele, em particular, mas pelas aberrações que o acordês lhe impõe), registe-se a reabilitação de óptico (relativo à luz, aos olhos, à visão), deixando o ótico aos ouvidos. E sem dupla grafia! Isto contradiz o AO, claro, mas alguém se importa? Já a secção das “espetadas” ganhou curioso alinhamento. Assim: espetacular, espetáculo, espetada, espetador, espetar, espeto. No Brasil escreve-se espectador, cá não, e o Dicionário deixa isso claro, com um pêzinho ao lado de espetador, indicando que tem “uso privilegiado” [sic] em Portugal. Para quê isto, no entanto, se, como se afirma na Introdução, o AO “prevê o uso facultativo das variantes lexicais europeia e brasileira em todo o espaço lusófono”? Prevê mesmo? Olhe que não. 
No site brasileiro Português à Letra (que aplica e pretende “explicar” o AO) diz-se claramente: “Quando duas formas são indicadas como válidas, embora sejam ambas corretas [sic], não são necessariamente recomendadas em todos os países.” E mais adiante: “Por seguirem até agora a mesma norma que Portugal, considera-se que os PALOP e Timor apresentarão formas idênticas [no pós-acordo]. ” E aqui vem, em todo o esplendor, a monumental farsa que é o AO90. Continuamos a ter duas normas, a portuguesa e a brasileira, e jamais uma ortografia “unificada”. 
Se tivéssemos mantido as normas portuguesa de 1945 e a brasileira de 1943 podíamos fazer o mesmo exercício, com a vantagem de não termos de ler notícias como a que publicou no dia 10 de Janeiro a Rádio Agência, de Brasília (que transmite as sessões da Câmara dos Deputados): “Não há acordo sobre Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.” Na reportagem radiofónica (e também escrita), diz-se que o AO “só se tornou obrigatório no Brasil em 2016. Em Portugal e Cabo Verde o acordo também já é obrigatório. Mas isso ainda não ocorreu nos outros países que falam português.” Mais: “Apesar de todos os esforços, não há acordo sobre o AO, nem mesmo no Brasil.” Uma professora de Letras afirma que, “na verdade, não precisaríamos de um acordo ortográfico. (...) É alguma coisa na contramão do desenvolvimento da escrita”; um professor universitário diz, a favor do AO, que este quis “eliminar a duplicidade de ortografias que havia em português” [só que não as eliminou, pelo contrário, mudou-as para pior]; e a presidente da Comissão de Cultura da Câmara dos Deputados, Raquel Muniz (do PSD) afirma que é este o “momento para revisão da norma.” Querem parar de brincar com a nossa paciência, de uma vez por todas?

1º Congresso Internacional de História da Ciência no Ensino

Informação recebida no blogue (estarei presente com palestra convidada):

Convidamos os colegas a participarem e agradecemos a divulgação do 1º Congresso Internacional de História da Ciência no Ensino/The 1st International Congress on the History of Science in Education. Submissão de resumos até 31 de janeiro.

 Link: https://www.utad.pt/gform/event/1o-congresso-internacional-de-historia-da-ciencia-no-ensino/

O 1º Congresso Internacional de História da Ciência no Ensino (1CIHCE) é uma organização conjunta da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), Universidade do Porto (UP), Universidade de Coimbra (UC) e Universidade de S. Paulo (USP), e terá lugar nos dias 30, 31 de Maio e 1 de junho de 2019, na Aula Magna da UTAD.

 O 1CIHCE visa juntar investigadores, professores e estudantes, interessados na história e no ensino da Biologia, Geologia, Química, Física e Matemática, assim como das Ciências da Educação, Engenharias, Medicina, Farmácia, Bioquímica, Antropologia, Astronomia, Psicologia, Economia, Sociologia, Ecologia, Biologia Molecular e Nanociências, entre outras, num debate multicentrado e multidisciplinar. Para além de trabalhos focados no ensino, educação, didática e divulgação das ciências, o 1CIHCE procura congregar reflexões e estudos de carácter mais geral, disciplinares ou interdisciplinares, de história da cultura, da técnica e da indústria, assim como estudos epistemológicos, historiográficos, biográficos ou prosopográficos. Outros temas relevantes para a história da ciência e para o ensino, como sejam os estudos de género, o ensino das ciências em língua estrangeira e, de forma geral, as várias vertentes das interações entre as ciências, as tecnologias e as humanidades, são muito bem vindos para o espaço de diálogo que o 1CIHCE procura criar.

A espantosa variedade do mundo

"A espantosa variedade do Mundo" from Padrão dos Descobrimentos on Vimeo.

NOVOS CLASSICA DIGITALIA

Os Classica Digitalia têm o gosto de anunciar 2 novas publicações, com chancela editorial da Imprensa da Universidade de Coimbra.

Todos os volumes dos Classica Digitalia são editados em formato tradicional de papel e também na biblioteca digital, em acesso aberto.

Além do usual circuito de distribuição da IUC, a versão impressa das novas publicações encontra-se disponível em todas as lojas Amazon.

NOVIDADES EDITORIAIS

Série “Humanitas Supplementum" [Estudos]

José Luís Brandão & Paula Barata Dias (coords.), O Melhor é a Água: da Antiguidade Clássica aos nossos dias (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2018). 290 p.

[Este volume propõe-se apresentar múltiplas leituras sobre o tema da água, desde a sua utilização concreta e material à dimensão simbólica, metafórica e imaterial: como elemento primordial associado à criação do mundo, fonte de vida e de morte, espaço de lazer, elemento constituinte de rituais, via de comunicação ou de separação entre as gentes, meio e sinal de civilização e elemento estruturante da cidade. As fontes usadas provêm da filosofia antiga, da religião, da poesia, da dramaturgia, da história e biografia, da arqueologia, tanto na antiguidade como na receção humanista e contemporânea.]
  
Tereza Virgínia Ribeiro Barbosa, Matheus Trevizam & Júlia Batista Castilho de Avellar, Tempestades clássicas: dos Antigos à Era dos Descobrimentos (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2018). 348 p.

[Nesta obra, a partir das ideias, encontradas nas poéticas clássicas, de topos, imitação e emulação, que são expostas na Introdução e no Capítulo 1, dá-se prosseguimento à análise de cenas de tempestades, preferencialmente marinhas, em várias obras das literaturas grega, latina e portuguesa. Segue-se uma linha condutora de Homero – passando por Calímaco – aos poetas romanos Virgílio e Ovídio, para enfim chegar a Camões e a vários cronistas lusos da Era dos Descobrimentos.]

(Ep. 44) "Caravelas, naus e galeões : séculos XV e XVI"

NOVA "ATLANTIS"

A   revista “Atlantís” acaba de publicar o seu último número (em acesso aberto). Convidamos a consultar o sumário da revista para aceder à informação.

Imprensa da Universidade de Coimbra
Atlantís - review
v. 25 (2019)

Sumário
http://impactum-journals.uc.pt/atlantis/issue/view/354

[Recensão a] REINHARTZ, Adele, Bible and Cinema. An Introduction, New York, Routledge, 2013, 286 pp. ISBN: 978-0-415-77948-7.
Filipe Paiva Cardoso

[Recensão a] MAYOR, Adrienne, The Amazons. Lives and Legends of Warrior Women across the Ancient World, Princeton, Princeton University Press, 2014, 536 pp. ISBN: 978-0-691-17027-5.
José Malheiro Magalhães

[Recensão a] ANGUISSOLA, Anna, Intimità a Pompei. Riservatezza, condivisione e prestigio negli ambienti ad alcove di Pompei, Berlin/Boston, Walter De Gruyter GmbH, 2010, 664 pp. ISBN: 978-3-11-024089-4.
Nuno Simões Rodrigues

[Recensão a] LABARTA-GÓMEZ, Ana, Anillos de la Península Ibérica. 711-1611, Valencia, Editorial Ángeles Carrillo Baeza, 2017, 324 pp. ISBN: 978-84-946437-5-0.
Raquel Gonzaga

[Recensão a] ARTIGAS, Esther & HOMAR, Roser, L’escena antiga, Barcelona, Adesiara Editorial, 2016, 409 pp. ISBN: 978-84-16948-00-0.
Vivian Lorena Navarro Martínez

________________________________________________________________________
Atlantís
http://impactum-journals.uc.pt/atlantis

domingo, 20 de janeiro de 2019

Eugénio Lisboa e o novo acordo ortográfico


Com dedicatória amiga, recebi, dias atrás, o último livro de Eugénio Lisboa, intitulado “APERTO LIBRO”, personalidade da vida literária portuguesa de um longo e prestigiante acervo biográfico e obra literária.

Neste seu livro, já em Outubro de 1986, tendo passado, entretanto, muita água debaixo das pontes (e quanta haverá de passar mais?), criticava Eugénio Lisboa o Novo Acordo Ortográfico com o texto extraído da supracitada obra (página 100) que se transcreve imediatamente abaixo numa altura em que a solução deste imbróglio corre o risco de se estender por mais anos pela prática bem portuguesa de deixar correr o marfim deixando para amanhã o que pode (e deve!) ser feito hoje:
"Novo acordo ortográfico – idiota e completamente fútil. Pretende-se uma ‘unificação’ à qual os factos vão, necessária e melancolicamente, dizer não. Esta ânsia de acordo a todo o custo, de mais um acordo, descontados os casos dos que se perduram nele ou para darem nas vistas ou para fazerem umas viagens à custa do contribuinte, pode também ter que ver – quem sabe?– com a angústia de se ter perdido um império e o acordo passar a ser uma espécie de compensação. Anda muita gente à procura de um ‘quinto império’ qualquer. De resto, como já tenho observado, alguma da nossa esquerda anda transcendental, ocultista, irracionalista e bandarrista. E fútil. De tanto querer ser ‘imparcial’, acaba por aceitar o inaceitável. Em Portugal, hoje em dia, quase ninguém faz aquele esforço continuado, concentrado e articulado, que antigamente dava pelo nome de pensar. Hoje, as pessoas preferem dizer coisas giras, coisas que dão nas vistas. Quanto mais surpreendem ou ultrajam a razão razoável, melhor. E há sempre dois ou três intelectuais, com alguma responsabilidade, para darem corda a este relógio”. 
Como diria Pessoa, deixemos no bengaleiro a inclinação de discutir os assuntos. O acordo ortográfico está mais do que discutido. Falta, apenas, dar-lhe um enterro condigno para não apodrecer em vala-comum, como mais uma ‘boutade’ nacional, em que o estudo da origem latina e grega do nosso léxico atapeta o chão das causas perdidas com folhas outonais que desbotaram o verde da esperança!

"Ninguém nos pode fazer achar que o conhecimento é um anátema"


Oby Ezekwesili, co-fundadora do movimento nigeriano "Bring back our girls" e, agora, candidata à presidência da república da Nigéria foi convidada no programa "GPS - Fareed Zakaria", transmitido hoje na RTP Notícias (aqui). A propósito do rapto, há já cinco anos, das mais de duzentas alunas raptadas da escola que frequentavam disse (ver a partir dos 28m40s):
"Algo muito importante é dar primazia ao ser humano. Quero que a educação substitua o petróleo. Quero que tudo na nova economia tenha como base a educação.
Quando as 107 raparigas foram libertadas achámos que estariam tão destroçadas que seria difícil recomporem-se (...) 106 delas estão a estudar e têm-se saído razoavelmente, só uma delas decidiu não ingressar no ensino superior. Para mim isso foi o mais importante. Raparigas que passaram por aquele tipo de trauma escolheram continuar a estudar. Isso mostra que eles não derrotaram a civilização humana. Ninguém nos pode fazer achar que o conhecimento é um anátema. O conhecimento é o que está na base do progresso humano. Temos de lutar com todas as forças que afirmam que o conhecimento é algo abominável."

Escolas inovem porque a "educação é a base da economia"

Não será difícil perceber que a "mudança", a "inovação" que está a ser implementada nos sistemas de ensino por entidades como o Bando Mundial (BM), a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) e a União Europeia (UE) tem uma relação estreita com a economia mundial (desenhada para beneficiar uma parte da população em detrimento da outra parte).

Imagem retirada daqui
E não será difícil perceber porque isso é reconhecido abertamente: "a educação é a base da nossa economia", diz um tal Phil McKinney, que se apresenta como especialista em inovação e tecnologia (ver aqui).

Não é, porém, nada inovador nesta declaração: ela está em todo o lado, sem procurar muito, poderia citar uns quantos outros nomes. Mas já que estou a falar desse especialista (que não o é em educação), detenho-me na sua página online (subscrita por diversas empresas de medicamentos, de diversão, de tecnologia...).

Há um texto que, pela proximidade com o discurso que apresenta a próxima conferência da OCDE “Innovation in education: What has changed in the classroom in the past decade?", vale a pena ler. O seu  título é Innovation in the classroom: why education needs to be more innovative e no essencial diz o seguinte (a tradução não é integral)
"O que aprendemos na escola e como aprendemos determina a pessoa em que nos tornamos mas também o nosso sucesso ao longo da vida: como resolvemos problemas, como trabalhamos com os outros e como olhamos para o mundo à nossa volta. 
Na actual economia de inovação, a educação torna-se particularmente importante para o desenvolvimento da próxima geração, que terá de ser inovadora e criativa. 
Existe, porém, uma lacuna significativa entre o que pode ser a educação e o que muitos estudantes estão a aprender. Isto compreende-se porque a implementação de ideias inovadoras é, em geral, lenta no campo educativo.Assim, muitos educadores ainda usam métodos antigos, que se revelam cada vez mais ineficazes. 
Usar métodos inovadores no ensino de modo a promover o pensamento inovador nos alunos e levá-los a reconhecer os seus benefícios é muito diferente de "encher" as suas cabeças, é levá-los e ter apaixonarem-se pela aprendizagem, fazendo-os ter consciências das ferramentas que lhes serão necessárias para terem sucesso na economia. 
Entre esses métodos estão as "tecnologia na sala de aula", que, além de proporcionarem um acesso rápido ao conhecimento, facilitam a comunicação e a colaboração, tornando a aprendizagem interessante e envolvente, especialmente para as novas gerações, já nativa-digital, desenvolvendo também competências tecnológicas. 
Porque a tecnologia, por si só, não estimula a inovação na sala de aula, é preciso usá-la de maneiras inovadoras, de que exemplos os "robots-professores" ou os dados recolhidos em "perfis de alunos".
No que respeita aos "perfis", assim como as empresas usam os dados para avaliar os resultados das campanhas de marketing ou para obter informações sobre seu público, os educadores podem usar dados de aprendizagem para determinar a eficácia dos métodos de ensino e obter uma informação pormenorizada dos pontos fortes e fracos dos alunos no sentido de escolher aquilo de que precisam para terem sucesso. Esses dados também podem ajudar as escolas a avaliar a eficácia e o desempenho dos professores. 
A inovação não é importante apenas para as empresas, a educação beneficia ainda mais com ela, sobretudo se ela for introduzida na sala de aula. Assim, os educadores podem ter um enorme impacto no futuro do nosso mundo."

Vigilância na escola e na sala de aula. Quem pode acreditar que sirva para ensinar e para aprender?

Vale a pena ver ou rever um recente documentário do programa da CBS "60 minutos" sobre os extraordinários avanços da designada "inteligência artificial" aplicados à escala da mundial em diversas áreas da actividade humana, nomeadamente na educação escolar (aqui).

Neste contexto, os dados reconhecidos da postura corporal dos alunos, com destaque para a expressão facial, faz presumir, a cada momento, o seu estado de atenção e emocional.


A máquina, além de dar indicações ao professor, que pode estar distante da sala de aula, para agir de imediato, cria perfis de desempenho individualizados.



Tudo isto em nome da educação, da ajuda aos professores e aos alunos para ensinarem e aprenderem melhor. Quem pode acreditar nisto?!
__________
Nota: Em Portugal pelo menos uma equipa trabalha no mesmo tipo de projecto: aqui.

Inovem! Têm de inovar! Diz a OCDE


Vai realizar-se daqui a poucos dias, em Paris, a conferência “Innovation in education: What has changed in the classroom in the past decade?". A organização é do "Centro de Pesquisa e Inovação Educacional" (CERI) da "Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico" (OCDE).

Aí será apresentado mais um relatório elaborado por esse Centro (da série "Measuring Innovation in Education") e analisadas as suas conclusões (baseadas na observação de cerca de 150 práticas pedagógicas) sobre o que mudou, que constitui inovação, no ensino básico e secundário na última década, tanto em sistemas da OCDE como de fora da OCDE.

Em concreto, analisar-se-ão aspectos captados em sala de aula, tais como:
- uso das tecnologias da informação e da comunicação;
- papel da avaliação para aferir o ensino e a aprendizagem;
- feedback proporcionado aos alunos acerca da sua aprendizagem;
- actividades didácticas que implicam o trabalho dos alunos a pares.

E, claro:
- se os alunos ainda (destaco o "ainda") são levados a memorizar factos e procedimentos.

Analisar-se-ão, em complemento:
- ligações entre inovação e desempenho dos sistemas educativos.;
- como medir a inovação na educação;
- modos diferenciados de concretização da inovação em diferentes países.

Além disso, dar-se-á conta da próxima fase do projecto de investigação do CERI (que decorrerá em 2019-20, com o apoio da Comissão Europeia) cujo objectivo é perceber a ligação entre mudança e melhores resultados educacionais (traduzidos em melhores resultados académicos dos alunos?).  Em concreto, o foco será colocado na mudança:
- de práticas pedagógicas nas salas de aula;
- de orientação pedagógica das organizações educacionais;
- do modo como os alunos usam os recursos de aprendizagem;
- do modo como os professores concretizam o seu desenvolvimento profissional;
- do modo como as escolas se relacionam com os encarregados de educação;

Qual o sentido da recolha de dados já feita e a fazer? Diz o CERI: apoiar decisões de políticas e medidas educativas, ajustar reformas em curso ao que se encontra determinado, direccionar intervenções pontuais para os sistemas e escolas, racionalizar recursos...

Em suma, a OCDE (entidade que não tem, na sua origem, vocação educativa, mas que, neste momento dita, através das suas diversas entidades, as políticas e medidas educativas à  escala global), aperta o cerco aos sistemas, às escolas, aos professores para que inovem.

Melhor, para que inovem em função do que a OCDE diz que é a inovação.

sábado, 19 de janeiro de 2019

O alargamento das dimensões científica e pedagógica da formação contínua de professores

Assinado por dois Secretários de Estado da Educação, o Despacho n.º 779/2019, recém publicado, estabelece as prioridades de formação contínua dos professores e esclarece a 
dimensão científica e pedagógica."

Esclarece-se no preâmbulo:
"Assume-se (...) uma ligação estreita entre o desempenho profissional dos docentes e a formação contínua na sua dimensão científica e pedagógica".
Sim, é razoável estabelecer esta ligação: entre a preparação científica e a preparação pedagógica (por esta ordem) que os professores têm e o seu desempenho profissional (ainda que a sua formação não possa ficar reduzida a estas duas dimensões).

Segue-se o reconhecimento de:

"... alguns constrangimentos no sistema implantado, porquanto existem casos em que os docentes lecionam disciplinas não inseridas no seu grupo de recrutamento ou exercem outras funções não diretamente relacionadas com a lecionação e fazem formação com vista a melhorar o seu desempenho no âmbito das disciplinas que lecionam ou das funções que exercem, não relevando essa formação para os 50 % na sua dimensão científica e pedagógica."
O que se segue é, porém, que deveras preocupante, De facto:
nos seus artigo 2.º e 3.º submetem-se as prioridades de formação contínua à política da actual equipa governativa do Ministério da Educação, alargando-se as dimensões científica e pedagógica ao que for considerado de relevo para concretizar a tríade: promoção do sucesso escolar, implementação do novo currículo e do regime jurídico da educação inclusiva (tal como definido nos famosos Decretos-lei n.º 55 e n.º 54 de 2018).

ESCRITURÁRIO

Escriturário ou empregado de escritório, foi a profissão do meu pai na antiga Companhia Alentejana de Seguros, “A Pátria”, e, aos fins de semana, em mais uma ou duas pequenas empresas (os filhos a criar eram muitos). A vê-lo trabalhar, aprendi o que era, nesses anos, esta profissão, na maioria dos casos, masculina. Havia, mas eram raras as mulheres escriturárias.

Escriturário, nos anos 30 e 40 do século que passou, era aquele que fazia a escrita de quaisquer instituições ou empresas comerciais e industriais com dimensão que exigisse essa actividade. E dessa escrita fazia parte a contabilidade, o expediente, a administração e tudo o que envolvesse trabalho feito à secretária, de caneta ou lápis na mão.

Ser escriturário ou guarda-livros, como também se dizia, nesses anos, tinha estatuto social acima do dos empregados de comércio, designados por caixeiros, e dos operários das poucas indústrias. Não tinha salário, tinha ordenado, em média, acima do destes profissionais.

Usava chapéu de feltro do tipo vulgar nos homens desses anos. Digo vulgar porque havia um “chapéu à diplomata”, com abas enroladas para cima, usado por alguns eborenses tidos ou assumidos como mais importantes do que o vulgo. Por dever de ofício, o meu pai vestia fato completo, de calça, colete e casaco, e camisa com gravata. Alguns homens desta classe usavam “polainitos” de feltro a cobrir os sapatos. Botas, só se fossem de cabedal fino.

Nos casos de que me lembro, os escriturários gozavam do regime laboral dito de “semana inglesa”, isto é, além do Domingo de folga, tinham também as tardes de Sábado.

Nos cafés e nas sociedades recreativas conviviam com patrões do comércio local e da pequena indústria, graduados do exército e profissões liberais. Daí que a expressão “manga-de-alpaca” que, em sentido figurado, se lhes referia, era dita depreciativamente, em tom de despeito, por uns, e no de desdém, por outros.

Em sentido real, as mangas de alpaca eram duas mangas postiças, uma para cada braço, numa prática vinda do século anterior e ainda utilizada pelos escriturários da primeira metade do século XX. Eram feitas de um tecido leve, primitivamente alpaca, vestidas por cima do casaco ou da camisa, desde os punhos até ligeiramente acima dos cotovelos e apertadas nas extremidades com um elástico, de forma a não danificar as respectivas mangas durante o serviço.

Como o nome indica, o escriturário escrevia, não como hoje, nos teclados dos computadores, mas à mão, com caneta e aparos de molhar na tinta (solução aquosa de pigmentos e outros aditivos), via de regra, a azul e, para determinados destaques, a vermelho. Escreviam em livros e, daí, o nome de “guarda-livros” que também se lhes dava. Esses livros, adequados ao tipo da empresa, registavam a respectiva contabilidade e outros procedimentos da administração, incluindo, balanços e actas das reuniões da direcção ou das assembleias no caso das sociedades.

Para tal, os interessados nesta profissão saíam do curso de Comércio da então Escola Industrial e Comercial Gabriel Pereira (situada no edifício do antigo Colégio do Espírito Santo), onde, além das disciplinas teóricas adequadas e da dactilografia, aprendiam a escrever em caligrafias convencionais, então muito em uso, como a francesa, a inglesa e a alemã ou gótica, usadas em títulos, em palavras e frases a destacar. Havia aparos próprios para cada um destes tipos de caligrafia. Fendidos na ponta, alguns deles permitiam desenhar letras com traço mais fino ou mais largo (fazendo mais ou menos pressão sobre o papel) no respeito pelo tipo de caligrafia escolhido. A caneta de tinta permanente, uma invenção de escrever a tinta, sem precisar de tinteiro, já fazia parte do material escolar dos alunos do Liceu, mas não era a mais usada no escritório.

O uso de tinta líquida exigia o uso do “mata-borrão”, um papel encorpado, sem goma na sua constituição e, por isso, bom absorvente da tinta. Assim evitava-se que algo que passasse sobre a escrita acabada de fazer, a borrasse. Um pequeno suporte baloiçante, de uso manual, com uma superfície cilíndrica forrada com este papel, fazia parte dos objetos colocados sobre a secretária.

À mão do escriturário e indispensáveis ao seu trabalho, havia ainda a “raspadeira”, uma lâmina muito afiada, adaptada à ponta de um cabo, no género de um bisturi, com a qual raspava uma letra, uma palavra ou uma frase que tivessem de ser apagadas. Com o mesmo fim, podia utilizar os líquidos de dois frasquinhos, um com água, para diluir a tinta da palavra ou do conjunto a apagar, molhando com a ajuda de uma pequena vareta de vidro fixa à respectiva rolha e outro, com um soluto de hipoclorito de sódio (o mesmo da vulgar lixívia), colocado logo a seguir, com idêntico procedimento, o que, imediatamente, exercia a sua acção branqueadora.
A. Galopim de Carvalho

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

CIÊNCIA PARA TODOS



Conclusões do Debate CIÊNCIA PARA TODOS no RÓMULO – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra a 23/11/2018 (na imagem José Mariano Gago no RÒMULO)

O Futuro da Comunicação de Ciência em Portugal

Sumário executivo

Têm sido grandes os avanços na comunicação da ciência e na compreensão pública da ciência em Portugal desde que existe a Ciência Viva - Agência Nacional para a Promoção da Cultura Científica e Tecnológica.  No entanto, atendendo ao facto de se terem passado cerca de duas décadas desde o seu estabelecimento, e de estar consolidado o sistema científico e tecnológico português (porém, ainda em busca de convergência com a União Europeia) as necessidades são hoje bem diferentes das do início. A escala é muito diferente e há bastante experiência adquirida que pode ser útil para perspectivar o futuro, que deve ser também iluminado pela experiência nesta área de países mais desenvolvidos. Neste quadro, e reconhecendo o enorme mérito da Ciência Viva, parece ser necessário alargar a sua visão e o seu quadro de actuação, sem prejuízo de esta coexistir com outras instituições e iniciativas, de um modo o mais colaborativo possível.
Com base no conhecimento da actual situação da comunicação de ciência em Portugal, foram discutidas as várias questões levantadas pelas comunicações apresentadas, tentando identificar  ideias e caminhos de futuro. Os temas discutidos, com identificação das maiores necessidades, assentaram em quatro eixos principais

1.      Aproximação da ciência e do conhecimento gerado da sociedade em geral
2.      Acréscimo de profissionais de Comunicação de Ciência
3.      Financiamento de projectos em Comunicação de Ciência
4.      Ferramentas e especialistas para a medição de impacto das iniciativas de Comunicação de Ciência

1.      Aproximação da ciência e do conhecimento gerado da sociedade em geral

o   Relevância da divulgação e comunicação de ciência de modo a tornar a actividade científica socialmente sustentável: existe pouco conhecimento do que se tem passado em todo o país ao longo do tempo. É preciso, por isso, fomentar a difusão desse conhecimento através não só de redes sociais como de repositórios, no quadro da “ciência aberta”, criando, por exemplo, um repositório digital que documente de forma o mais exaustiva possível as várias actividades que se realizam.
o   Necessidade de levar a ciência a todos, isto é, chegar mais além dos “convertidos”, encontrando formas e meios não convencionais que possam atingir públicos desligados da ciência. Endereçar públicos, como o conjunto das pessoas que ainda não vão a museus e a centros de ciência, os habitantes do interior desertificado do pais e populações urbanas socialmente isoladas e desinteressadas.
o   Reconhecimento acrescido do papel dos cientistas, protagonistas maiores dos processos de criação científica, na cadeia de difusão do conhecimento que geram, procurando alargar a sua contribuição. Será preciso dinamizar acções que melhorem a sua formação nesta área. Os cientistas precisam, por exemplo, de saber falar com os media e de usar as redes sociais. A criação de sites listando especialistas consultáveis em várias áreas poderia ajudar.
o   Necessidade de estratégias de ultrapassagem de barreiras socio-culturais típicas da cultura portuguesa, como a que representa o uso generalizado de títulos académicos pelos cientistas, que aumenta a distância entre eles e o público.
o   Necessidade não só de boa coabitação, mas também de trabalho conjunto dos diversos agentes da comunicação da ciência: cientistas, jornalistas, comunicadores de ciência, educadores, etc.
o   Aumento do entrosamento das ciências que são comunicadas: as equipas de comunicação serão melhores se forem interdisciplinares
o   Necessidade de maior e melhor exploração das ferramentas digitais que chegam ao maior número possível de pessoas, como as redes sociais (enfrentando-as no seu próprio terreno de jogo).
o   Melhoria da disseminação da cultura e da ciência nas famílias, fomentando o acompanhamento destas dos processos educativos formais, uma vez que as escolas só por si não chegam para assegurar a frutificação dos processos de conhecimento. As crianças são muito receptivas à ciência e, quanto mais cedo começarem com actividades de “brincadeira científica,” acompanhadas pelas pessoas de referência, maior será a possibilidade de êxito na tarefa da compreensão pública da ciência.
o   Maior facilidade de acesso à cultura científica, isto é, ultrapassagem do problema que pode constituir em Portugal, um país economicamente ainda débil e com grandes desigualdades sociais os preços de entrada em museus e centros de ciência.

2.      Acréscimo de profissionais de Comunicação de Ciência

o   Identificação e satisfação da necessidade de mais profissionais de Comunicação de Ciência, inserindo sem ambiguidades essa categoria na questão do emprego científico.
o   Aumento do entrosamento das várias áreas em que divide a Comunicação de Ciência e dos vários tipos de contribuições de modo a tornar a comunicação de ciência mais rica.
o   Desenvolvimento de técnicas de Comunicação de Ciência, usando conhecimentos da biomedicina, como as neurociências, e das ciências sociais, como a psicologia e sociologia, para tentar chegar a mais pessoas.
o   Necessidade de aumentar a descentralização de projectos e acções de comunicação de ciência, o que passa pela sustentação e alargamento da rede de centros Ciência Viva (são precisos critérios claros para existência de centros com essa marca, devidamente financiados de uma forma transparente).

3.      Financiamento de projectos em Comunicação de Ciência

o   Necessidade de uma estratégia a médio e longo prazo de difusão da cultura científica, que passe, por exemplo, pelo estabelecimento de uma percentagem para a cultura científica do orçamento total de I&D. Só uma previsão atempada de apoios pode possibilitar iniciativas continuadas. Actualmente, e descontando alguns projectos europeus, quase não há financiamento de Comunicação de Ciência para além daquele que cada instituição investe nas suas próprias acções.
o   Necessidade de investimento continuado e diversificado das acções de comunicação de ciência para se conseguir um impacto mais alargado na população portuguesa, identificando melhor as várias faixas de público alvo.
o   Necessidade de aumento da transparência, autonomia e responsabilização em todos os processos de financiamento e de gestão.
o   Necessidade de concursos de financiamento regulares para Comunicação de Ciência, tal como há para a investigação científica, separando o que é comunicação de ciência do que é investigação sobre comunicação de ciência, que é um ramo das ciências sociais.
o   Necessidade de financiamento para a Comunicação de Ciência chegar a certas populações: por exemplo, doentes e respectivas famílias, públicos mais ligados às ciências sociais e humanidades, etc.
o   Necessidade  de parcerias com o poder local e com empresas  de base científico-técnica, nomeadamente nas áreas da saúde.  O desejável aumento do investimento privado na ciência deve corresponder também ao aumento da comunicação de ciência tendo em vista o interesse público, isto é, que não seja mero marketing empresarial.

4.       Ferramentas e especialistas para medição de impacto das actividades e iniciativas de comunicação de ciência

o   Necessidade de maior e melhor conhecimento e aplicação de meios e técnicas já desenvolvidos noutros sítios para avaliar acções de comunicação de ciência e estudar o respectivo impacto. A avaliação deve ser feita por equipas externas a quem é avaliado, evitando processos endogâmicos. A avaliação deve permitir conhecer o grau de satisfação e a amplitude do impacto de modo a melhorar processos.


Estiveram presentes no encontro (por ordem alfabética do 1.º nome):
Ana Delicado
António Granado
António Piedade
Carlos Fiolhais
Helena Mendonça
Joana Lobo Antunes
Júlio Borlido Santos
Pedro Pombo

E mais 50 participantes da comunidade científica, comunicadores de ciência, cientistas e outras pessoas interessadas.

Lisboa, 7 de Janeiro 2018

CIENTISTAS NO PALÁCIO DE BELÉM

Falei  antenteontem para jovens de Faro e Sintra no Palácio de Belém sobre a História da Ciência em Portugal: Aqui está o comentário final do Prof. Marcelo Rebelo de Sousa:

http://www.presidencia.pt/?idc=37&idi=158985

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Uma nota que faz toda a diferença: os manuais escolares são apenas manuais escolares

No mundo hiper-conectado em que vivemos, o estado de sobressalto é constante: ora é isto, ora é aquilo... Hoje, vá lá, nesta semana, muita discussão, muita oposição, muita acusação a propósito de uma coisa, na próxima semana o que encheu jornais, televisões, internet será uma vaga lembrança, e na seguinte já passou, submergido por discussões, oposições, acusações sobre outra coisa e mais outra e ainda uma outra... E, de repente, volta uma coisa antiga para a qual olhamos como se fosse novidade...

Foi neste cenário que li a recente notícia sobre a supressão, num manual de português, de uma passagem de um poema emblemático (não interessa qual é) de um escritor maior da nossa Literatura (não interessa quem é) da responsabilidade de uma editora (não interessa qual é). E não interessam aqui nomes porque isto não é novidade nenhuma, é frequente. Falo apenas no presente.

Sim, as editoras de manuais escolares fazem supressões de passagens de textos literários e também fazem alterações nesses textos. Fiquemo-nos pelas supressões que têm, pelo menos, dois sentidos:
- economizar: apercebo-me da tendência de integrar as obras a estudar nos manuais, dispensando os alunos de as terem, de lhe mexerem, de as anotarem, de as lerem ou de só lhe passarem os olhos... Evidentemente que essa integração implica uma selecção, pois nenhum manual pode suportar todas as obras a estudar;
- evitar problemas: as obras literárias têm passagens difíceis e contestáveis, diz-se, logo devem ser retiradas frases e palavras que os alunos desconhecem para não os desmotivar, defendem alguns, ou que sejam "politicamente incorrectas" mantendo ou acentuando preconceitos e estereótipos, defendem outros.
Penso que o caso a que me refiro, cujo brado chegou à "Bola", jornal especializado em desporto, é enquadrável neste segundo sentido: a tentativa da empresa não arranjar problemas, o que acabou por lhe arranjar problemas.

Não estou a culpar nem a desculpar a editora: tratando-se de uma empresa, é a partir desse estatuto que a sua decisão deve ser entendida. O que acontece é que o sistema de ensino se tem tornado cada vez mais dependente dos manuais escolares (para professores e alunos) a que acresce uma panóplia sempre em crescimento de "recursos pedagógicos", que lhes são anexos, como se tudo isto fosse o currículo (programas, metas, aprendizagens essenciais, planificação disciplinar, etc.). Não é. Proporcionar os textos originais e integrais aos alunos é, em grande medida, responsabilidade das escolas e dos professores.

Dirá o leitor, sobretudo se for professor, que as múltiplas tarefas burocráticas, o ambiente escolar, o desalento que envolve a docência... não lhe permite fazer esse trabalho. Compreendo, sei que é assim. É assim mas não pode continuar assim. Os professores como profissionais, como intelectuais, que são têm o dever de fazer chegar o conhecimento aos seus alunos, sem as limitações dos manuais e sem as amarras que grupos de pressão consolidam.

Posto isto, esta grande celeuma vai-se esquecer por agora e daqui a uns temos tê-la-emos de volta.

A CIENTISTA DIANA PRATA CRITICA O AMBIENTE CIENTÌFICO EM PORTUGAL NA ÁREA BIOMÈDICA


Excerto de entrevista GPS a Diana Prata (Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa):
(...)
Que apreciação faz do panorama científico português, tanto na sua área como de uma forma mais geral?

Em geral, acho que falta ainda espírito de inovação e coragem, e humildade. Ironicamente, por um lado há uma inércia, uma imobilização em procurar perguntas, estratégias, metodologias e colaborações novas; talvez por medo de errar, dar passos em falso, de “ser falado” - em geral somos um povo desconfiado, acho. Por outro lado, embora haja medo, há ao mesmo tempo, falta de humildade; há muito "argumento de autoridade" como justificação para as decisões (de conselhos científicos, comissões de ética, diretores de departamento e de instituições - que chegam a ver um questionamento dessas decisões não justificadas, como uma ofensa) mesmo no meio científico e médico, onde seria de menos esperar. Há muita preocupação com a manutenção de hierarquia, sem olhar a meios: chegando mesmo ao bullying às claras, e as críticas destrutivas, e à quase total omissão de elogios e incentivos. Os decisores e líderes esquecem-se que o são para servir os outros (para os ajudar a fazer o seu trabalho), e não ao contrário. Portanto temos por vezes o medo misturado com a arrogância. Por exemplo, a resposta à falta de familiaridade em relação a um novo ramo de investigação ou metodologia, é, em vez de ser a assunção corajosa dessa ignorância e a procura de ajuda de quem sabe, mesmo que hierarquicamente inferior (ou mais novo ou mulher…), é infelizmente um maior fecho ao desconhecido (à metodologia inovadora) que se pode traduzir na sua não-facilitação ou até bloqueio. Tudo, possivelmente, por que se tem medo de deixar transparecer essa ignorância. Em Ciência, isto não faz sentido nenhum. A ignorância é uma oportunidade de aprender, para inovar. É um ponto de partida, se a assumirmos como um desafio. É um desconforto benigno, até imprescindível, em Ciência.
Fui notando desde que cheguei há 3 anos estes sintomas na investigação académica portuguesa (em particular a biomédica), justamente porque a minha área da neurociência cognitiva e psiquiátrica em humanos é bastante pouco representada no país. No início pensei que os impedimentos e atrasos advinham apenas de falta de familiaridade, ou profissionalismo, mas agora percebo que é mais cultural que isso. Há um clima de medo e arrogância, misturados - que se alimentam um ao outro. O ano passado alguém me disse: “Quando a Diana ganhou o (3.º) prémio de cientista mais promissora das Acções Marie Curie, eu fiquei logo preocupada consigo…” Pergunto: Será a meritocracia, portanto, desconcertante, na ciência portuguesa? Já me tinham avisado antes de voltar - nomeadamente muitos colegas na minha situação que voltaram a sair do país e os que cá estão mas frustrado e cínicos - mas eu, sendo optimista, fiquei e (ainda) não me arrependi. Estou contente com as contribuições que fiz e faço. A vantagem é que há muito por fazer, e ainda muito mais do que pensava quando cheguei. Isso motiva, pelos menos os mais esperançados e energéticos. Ficar, é com paciência, amor pelo desafio, e espírito de missão. E é a cultura que há que mudar. Não é o dinheiro que falta, esse até há e é meritocrático, do Estado, da UE, nem é a vontade de a diáspora regressar que falta, essa também existe e está mortinha por isso, como eu estive. A título de exemplo, eu tenho bastante dinheiro para investigar e não o consigo gastar com o ritmo devido, porque estou a aguardar resposta de uma comissão de ética há 9 meses para um projeto, 1 ano para o outro, 6 meses para o mais recente… Ao fim e ao cabo, mudar a cultura “takes more than two”, e por isso não me revejo na atitude de “está tudo tão mal, mas não vou ser eu a mexer-me…” - isto não se resolve sendo ignorado, ou com mais medo ou arrogância. Espero poder continuar a contribuir, e pelo menos com as fantásticas pessoas mais jovens (e ainda menos aculturadas) que vou tendo a oportunidade de ajudar a treinar e a fazer com que tenham condições de trabalho na minha área, já vamos sendo alguns a mudar a cultura pouco a pouco, e quando preciso, batalha a batalha.

Que ferramentas do GPS lhe parecem particularmente interessantes, e porquê?
Penso que é importante dar-se visibilidade à diáspora portuguesa não só para valorizar a preparação geralmente adequada que os cientistas portugueses como alunos recebem em Portugal mas também as condições menos convidativas em Portugal para investigação que são um dos motores para a saída de cientistas. Em segundo lugar, permite potenciar as colaborações entre portugueses no estrangeiro. Para colaborar, qualquer razão é boa. E aproveitar o vinculo cultural que existe naturalmente entre portugueses - especialmente os que estiveram ou estão fora - é inteligente.

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

"O acordo ortográfico criou uma solução para um problema que não havia"

Na sequência da publicação do post de Carlos Fiolhais "Não há acordo sobre Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa", um leitor teve a amabilidade de nos mandar a ligação para um artigo de Viriato Teles intitulado "O «Acordo» que ninguém quer" e publicado em 12 de Outubro de 2018. Tomamos a liberdade de transcrever uma parte substancial do texto.
(...) Uma boa notícia chegou de Luanda, onde esta semana a Academia Angolana de Letras pediu formalmente ao governo de João Lourenço que não ratifique o AO. Se seguida a sugestão, como se espera, Angola dará um passo decisivo para reverter um «acordo» que, como sublinha a AAL, «trouxe mais problemas do que resolveu». 
Com uma lucidez que não se tem revelado nas instituições de aquém-mar, os angolanos colocam o dedo na ferida: «Face aos constrangimentos identificados e ao facto de não ser possível a verificação científica dos postulados de todas as bases do AO, factor determinante para a garantia da sua utilização adequada, a AAL é desfavorável à ratificação por parte do Estado angolano.» 
As razões apresentadas são as mesmas que, por cá, os vários grupos de resistência cívica ao «acordo» têm sublinhado, com destaque para o «número elevado de excepções à regra» (as absurdas «facultatividades») que «não concorre para a unificação da grafia do idioma, não facilita a alfabetização e nem converge para a sua promoção e difusão». 
A melhor definição do AO ouvi-a ao humorista brasileiro Gregório Duvivier: «O acordo ortográfico é como a tomada de três pinos: criou uma solução para um problema que não havia.» Só que o problema, que não havia antes, passou a existir depois. A confusão instalou-se, alastrou à semântica e à sintaxe, e na formulação escrita da língua portuguesa passou a vigorar a regra do «faz-como-te-der-jeito» – aliás uma constante em documentos oficiais, a começar pelo Diário da República, onde diariamente coincidem na mesma frase as ortografias de antes e de depois do «acordo», e às vezes até outras, inventadas ou induzidas pelo caos em volta. 
A verdade é que, tirando Malaca Casteleiro e os seus prosélitos, é quase impossível encontrar defensores do «acordo». Porque é comprovadamente mau e ninguém gosta dele, nem sequer os que, por funções de Estado, se sentem no dever de o aplicar. Só tem faltado quem tenha a coragem de dar o primeiro passo para lhe pôr fim. 
É um assunto incómodo para o governo, mesmo se, nele, o vate que ministra na Cultura assobia para o lado porque tanto se lhe dá escrever assim como assado. Felizmente o mesmo não pensa o ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, que até faz parte do grupo de Professores Contra o Acordo Ortográfico, no Facebook. Não chega, mas é um bom princípio. 
Mas este é também um tema desconfortável para a oposição. Afinal, o «acordo» foi impulsionado politicamente, em Portugal, por duas das mais labruscas figuras que geriram o país e a cultura dele (Cavaco e Santana, sim, é bom lembrar) e atravessou a inércia dos sucessivos governos desde então. No parlamento, apenas o PCP levantou reservas e recentemente propôs a reversão. Os demais, à direita e à esquerda, continuam a preferir varrer a areia para debaixo do tapete. 
Talvez o impulso da Academia Angolana de Letras ajude Portugal a, de uma vez por todas, encarar a questão de frente, colocando-lhe o ponto final que merece. Querem fazer um acordo? Pois então comecem por concordar em acabar com este, que não tem ponta por onde se lhe pegue. 
(Em jeito de nota de rodapé, esclareça-se que a tomada de três pinos referida no texto foi adoptada como norma no Brasil, poucos anos atrás, como parte de um «plano de segurança» da rede eléctrica nacional. Um plano que, tal como o AO, se revelou inútil – porém muito lucrativo para a indústria de material eléctrico, e particularmente para a multinacional que esteve na origem da criação deste suposto «sistema de segurança». Que não é eficaz e mais ninguém usa, mas potencialmente obrigou à substituição de tomadas em 60 milhões de casas em todo o Brasil, operação que terá movimentado para cima de 1400 milhões de reais, algo como 325 milhões de euros. Qualquer semelhança com os negócios que o AO gerou é, naturalmente, mera coincidência.)

domingo, 13 de janeiro de 2019

A ESCOLA CIÊNCIA VIVA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA RECEBEU A VISITA DA TSF (a partir do min. 9.12)

https://www.tsf.pt/programa/tsf-pais-e-filhos/emissao/mesadas-porquinhos-mealheiros-e-uma-escola-da-ciencia-10432610.html?autoplay=true

À ATENÇÃO DAS PROFESSORAS E PROFESSORES DAS NOSSAS ESCOLAS.


Se não acrescentarmos algo de cultural e/ou de histórico às matérias curriculares da nossa responsabilidade, ficamos como os papagaios e os nossos alunos também. Maneira singela de dizer que, se nos limitarmos a debitar o manual em uso, estamos a amestrar os alunos a acertarem nas perguntas a afrontarem nos exames, mas não estamos a formar cidadãos.

Esclareço que limito estas linhas ao ensino da Geologia, embora colegas me digam que outro tanto se passa em outras áreas. Por outro lado, faço questão de tornar claro que estou, sobretudo, a visar o sistema
- em que, insensatamente, as sucessivas tutelas parecem estar mais interessadas nas estatísticas do que na qualidade do ensino;
- em que os programas oficiais amarram os professores, não lhes dando tempo para “divagações desnecessárias”;
- em que os professores vivem sobrecarregados em tarefas administrativas e outras de que deveriam estar rigorosamente libertos;
- em que muitos deles vivem longe das famílias ou perdem horas nos caminhos diários de ida e volta a casa e a contarem os tostões;
- numa sociedade que lhes retirou a dignidade e o respeito a que têm direito.
É, pois, neste quadro e na convicção de que os que ensinam (hoje são mais as professoras do que os professores) devem saber muito mais do que o estereotipado no deficiente manual de ensino, que aqui deixo um exemplo que poderá ser ideal mas, nem por isso, recusável.

Suponhamos que temos de falar de calcários. Para além de sabermos qual a sua natureza, o seu significado como documentos indispensáveis para o conhecimento da história da Terra e o seu interesse como importantíssima matéria-prima, será interessante sabermos que a palavra radica no latim “calcariu”-, termo relativo a cal, que cal, também do latim, “calx”, traduz a ideia de pedra e, a partir daqui, podermos abrir portas a duas das mais importantes e úteis capacidades do ser humano – aprender e pensar.

Um parêntese para lembrar que, desde que haja apetência, a nossa capacidade para aprender é praticamente ilimitada. Cabe a quem ensina ter arte de criar essa apetência.

Neste texto, que exemplifica uma possibilidade de complementar a, matéria curricular com algo de cultural e/ou histórico que contribua para a formação dos alunos como cidadãos, destaco, em maiúsculas, as principais palavras do léxico português radicadas no acima referido étimo “calx”.
Comecemos pelo CÁLCIO, o elemento químico isolado pela primeira vez em 1808, pelo químico inglês Humphry Davy, que hoje sabemos ser o 5.º mais abundante na crosta terrestre, com 3,6% na escala ponderal, e que entra na composição do mineral CALCITE, já conhecido ao tempo de Plínio. o Velho (século I), que hoje sabemos ser um carbonato de cálcio (CaCO3) descrito, em 1836, pelo alemão Johann Carl Freiesleben, mineral essencial na constituição do CALCÁRIO
Vulgarmente conhecido por pedra-de-cal, o calcário é a rocha sedimentar que, submetida a CALCINAÇÃO (decomposição térmica), produz CAL, o óxido de cálcio (CaO), substância sólida, branca e alcalina, vulgarmente referida por cal-viva. 
Uma vez regado com água, o óxido de cálcio gera o respectivo hidróxido ((OH)2Ca), bem conhecido por cal-apagada que, em suspensão aquosa, dá a cal com que ainda se branqueiam as paredes nas aldeias e montes que caracterizam o Alentejo e o Algarve. Cal designa, ainda, a argamassa de cal-apagada que se usava antes da era do cimento. CALEIRA ou CAIEIRA (termo usado no Alentejo) é o forno de cal, CALEIRO ou CAIEIRO, o homem que a fabrica e/ou a vende, e CAIADOR, o que se serve da cal para CAIAR. Lá longe, nos mares recifais das Caraíbas, onde sabemos ter sido importante a presença dos portugueses (lembremos a muito provável naturalidade de Cristóvão Colombo na vila alentejana de Cuba), deu-se o nome de CAIOS (Caio Largo e Caio Coco) às pequenas ilhas cubanas, rasas e exclusivamente feitas de areia calcária bioclástica. 
CALEIRA refere ainda o sulco ou rego inicialmente empedrado, tendo o nome sido generalizado, depois, ao mesmo tipo de aparato, ainda que feito com outros materiais. CALCIMETRIA é o procedimento químico destinado a quantificar o teor de cálcio, do seu óxido ou do seu carbonato, em rochas ou em terrenos, CALCÍMETRO, o aparelho que, no laboratório, é usado com esse fim, e CALCEMIA, o teor de cálcio ionizado no sangue. 
Era com pedras, a servirem de lastro, que se CALAVAM os barcos quando, sem carga, se faziam ao mar. Com o mesmo étimo, dá-se o nome de CALADO à profundidade a que se encontra o ponto mais baixo do casco de uma embarcação, em relação à superfície da água onde se encontra mergulhada. 
Com a mesma origem, CALÇADA é o revestimento de ruas e praças com pedras e CALCETEIRO, o artista que celebrizou no mundo a calçada portuguesa. Paralelamente, CALÇAR tanto é enfiar o pé no CALÇADO, como é meter um CALÇO por baixo daquilo que queremos que fique firme, e CALCAR o chão é dar-lhe a compactação da pedra. CALCANHAR e o respectivo osso, o CALCÂNEO, têm a mesma etimologia. 
A terminar, a palavra CÁLCULO, do latim calculus (de calx (pedra) + sufixo diminutivo -ulus), que significa pedrinha, é o termo erudito para designar a pedra nas litíases biliar e renal e CALCULISTA, a pessoa que tudo calcula ou que não procede senão por interesse. Na Antiguidade, era com pedrinhas (cálculos) que se contava e se faziam contas, ou seja, se CALCULAVA, operação que hoje fazemos, por via electrónica, nas modernas CALCULADORAS.
Na sequência desta exploração semântica, poderíamos dissertar, menos ou mais detalhadamente, sobre cada uma das palavras lembradas atrás, mas fixemo-nos, por exemplo, em CALCÁRIO e CALÇADA e, aqui, vale a pena começar por dizer que, no essencial, a “calçada portuguesa” consiste no calcetamento com pedras de calcário brancas e pretas (que, na realidade, são cinzentas), criando figurações plásticas de notada beleza.

Na origem, as pedras pretas eram de basalto, que há muito na região de Lisboa, tenho sido aqui intensamente explorado, num passado recente. São Sebastião da Pedreira deve o nome à pedreira de basalto que ali existiu.

Há, ainda, pedras de calcário de outras cores (avermelhadas e amareladas), mas apenas usadas em casos pontuais. No que se refere às referidas pedras, basta olhar para o chão de praças ou avenidas, ou navegar na “Net”, para vermos que umas não têm talhe uniformizado, ditas ao “malhete”, e que outras, nas calçadas mais aperfeiçoadas, foram aparelhadas ao “quadrado” ou “sextavadas”.

A “calçada portuguesa” surgiu em Lisboa, em 1842, com o calcetamento de parques, praças, passeios e outros espaços pedonais, com um simples motivo em zigue-zague (“ondas do mar largo”), a branco e preto, realizado por “grilhetas”, nome que, na época, se dava aos presidiários. A calçada portuguesa alastrou rapidamente por todo o país, pelo Brasil, pelas então colónias e pelo estrangeiro, numa expressão de arte muito nossa, tendo sido criada, em 1986, uma Escola de Calceteiros da Câmara Municipal de Lisboa.

Imagem encontrada aqui
Em 2015, a Agência de Publicidade MSTF Paterns, promoveu a implantação, na rua Garrett (em Lisboa), do primeiro código QR (sigla de Quik Response, ou código de resposta rápida), feito em calçada portuguesa, com pedras brancas e pretas, talhadas ao quadrado. Com uma área de, aproximadamente, um metro quadrado, esta novidade mundial da calçada portuguesa permite aceder a informações turísticas sobre esta zona de Lisboa.
Como nota final, saiba-se que o Código QR, de múltiplas utilizações, à semelhança do já familiar Código de Barras, foi inventado no Japão em 1994.

Sugiro a visita aos “sites”, de que há muitos e bons no Google, alusivos à calçada portuguesa.

A. Galopim de Carvalho