Facts about the FCT/ESF science evaluation: the story so far

terça-feira, 23 de Setembro de 2014

A SALSICHA EM DISCURSO DIRECTO


 «aumentar a chamada salsicha educativa não é a mesma coisa que ter um bom resultado educativo. Foi assim que no passado a generalização de novos graus de ensino não corresponderam [sic] a um salto qualitativo mais exigente no produto escolar.» Pedro Passos Coelho dixit

segunda-feira, 22 de Setembro de 2014

AS MOCHILAS ESCOLARES, UM GRAVE PROBLEMA DE SAÚDE PÚBLICA

O mal não está nas mochilas, uma inteligente invenção para transportar cargas, por vezes com duas ou mais dezenas de quilos, deixando as mãos livres para tudo o que for preciso, apoiar o caminheiro segurando um varapau, tocar pífaro ou harmónica durante a marcha ou, até, caminhar de mãos nos bolsos.

Como campista de ocasião que fui, no tempo em que se podia, em segurança, praticar esta modalidade em regime selvagem, reconheço a imensa comodidade da mochila, sobretudo quando ela está equipada com uma armação de metal que torna o seu uso mais confortável. Mas uma coisa é um rapazinho ou uma rapariguinha de dez ou doze anos transportarem uma mochila carregada, durante umas horas de caminhada, uma, duas ou três vezes por ano, como campistas em tempo de férias escolares, outra coisa, é carregarem-na cheia, até mais não, de livros, cadernos e tudo o mais o que a escola determina, duas vezes, todos os dias, durante meses.

É um atentado contra a saúde futura destas hoje crianças, suficientemente denunciado por profissionais conhecedores dos riscos desta prática. Lamentavelmente, não vejo quaisquer tomadas de posição oficiais para pôr cobro a esta estupidez. Não vejo ninguém com competência e poder institucionais levantar a voz contra esta prática. Nem vejo os pais mobilizados para promoverem a petição, que se impõe, dirigida à Assembleia da República.


No tempo da minha geração, das que a antecederam e das duas ou três que se seguiram não havia tanto livro e os que havia não eram tão grandes e pesados. Os cadernos eram pequenos, nada comparáveis aos dossiers A4 dos nossos filhos e netos, nem se usavam estes “cadernões” de agora, um por disciplina, onde os alunos têm de cumprir os trabalhos de casa, que, uma vez usados, não servem ao irmão que se segue nem a quem deles necessite. E as pastas eram, comparativamente pequenas, a condizer.

Isso não impediu que estas gerações atingissem os níveis de competência profissional e cultural que atingiram.

Num País onde, com honrosíssimas excepções, a corrupção é uma desgraçada, vergonhosa e triste realidade, é-me lícito perguntar se não haverá por aí interesses escondidos.

Galopim de Carvalho

O NOVO EDUQUÊS: "SALSICHA EDUCATIVA"


O primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, no tratamento que dá à língua portuguesa, não é afinal muito diferente de Jorge Jesus. Depois de ter uma vez falado da "porcaria na ventoinha" agora, na sessão de oficial de início do ano lectivo no Conselho Nacional de Educação, falou da "salsicha educativa".  É certo que disse "chamada" antes de "salsicha educativa", mas quem é que chama assim a qualquer coisa na educação? De quem é a citação? O que será isso de aumentar a "salsicha educativa"? Que novo eduquês é esse? Parece-me uma imagem no mínimo tão infeliz quanto a "porcaria na ventoinha". Nuno Crato não é capaz de fazer um "briefing" a Passos Coelho para que ele não fale da "salsicha"? Ou terá sido Crato que lhe passou essa  ideia da "salsicha"?

Estive a ver de onde poderia vir essa da salsicha, que não parece ter pés nem cabeça. Tentei ver noutras línguas, como "educative sausage", em inglês, ou "Erziehungbratwurst", em alemão (a Alemanha é afinal a terra das salsichas). Não encontrei. De modo que não sei. Mas talvez o primeiro ministro se estivesse a referir a uma metáfora da escola como "máquina de fazer salsichas" que alguns pedagogos têm usado em discursos informais. Foi o caso de Ruben Alves, o escritor, psicanalista e teólogo brasileiro recentemente falecido que, numa crónica, falou do processo educativo como "máquina de fazer salsicha". Mas ele não se referiu ao aumento do tamanho da salsicha, mas sim em melhorar a qualidade da carne.

O melhor será o proprio Passos Coelho esclarecer o que quis dizer quando afirmou que recusa o aumento da "salsicha".

UMA ANALOGIA ERRADA


O físico Eduardo Martinho chamou-me a atenção para esta analogia errada utilizada por Marcelo Rebelo de Sousa no seu comentário televisivo  de ontem.


O Doutor Eduardo Martinho tem razão quanto à falta de cuidado do Prof. Marcelo.  O que este devia ter dito é que ficam, ou melhor podem ficar, efeitos dos raios X emitidos na TAC. De facto, a radiação ionizante, como os raios X, é prejudicial ao normal funcionamento das células ao provocar ionizações. E algumas células podem deixar de funcionar da mesma maneira. A probabilidade que haja uma disfunção relevante no organismo é muito pequena. Entra aqui a noção de risco, ligada à de probabilidade. Eu sei que a TAC representa um pequeníssimo risco, insignificante, perante o beneficio do conhecimento da doença, mas muita gente receia-a. No nosso dia a dia estamos sujeitos a radiação, absolutamente natural, que tem também como efeito a existência de ionizações. Não se deve fazer muitas TAC, para não acumular efeitos da radiação (o fenómeno está bem quantificado), mas há quem não queira fazer nenhuma. Fiquei com a ideia de que o  Marcelo Rebelo de Sousa receia a TAC até porque não deve saber muito bem o que  é. Quando os nossos comunicadores mais mediáticos não sabem suficiente ciência, espalham pseudo-ciência. Julgo que poderemos concluir que o nosso ensino das ciência e que a nossa comunicação de ciência não estão a ser suficientes. 

Na figura seguinte sobre a origem da radiação no organismo humano (clicar para ver melhor) vê-se que o uso médico de raiox X representa o equivalente à radiação vinda do interior do próprio corpo (sim, temos isótopos radioactivos naturais dentro de nós!)  e é muito menor do que a radiação proveniente da exposição ao gás radão, uma substância natural.

"CIÊNCIA E MISTÉRIO"


 
No dia 26 de Setembro de 2014, pelas 21H15, o RÓMULO – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra,  centro de recursos de divulgação e educação científica da rede Ciência Viva, organiza mais um debate sobre cultura científica na Noite Europeia dos Investigadores -  NEI 2014, nas suas instalações, no rés-do-chão do Departamento de Física  da Universidade de Coimbra.

O tema deste ano, integrado no projecto geral de abertura da ciência aos cidadãos, é:
                                     "Ciência e Mistério"
O objectivo, à semelhança das iniciativas dos anos anteriores, é o de juntar autores de livros de ciência e história e leitores para promover a aproximação da ciência com o público em geral, afinal o grande objectivo da Noite que decorre por toda a Europa.
Os participantes serão:
- David Marçal, bioquímico, autor de "Pseudociência" (Fundação Francisco Manuel dos Santos), no prelo;
- Paulo Sousa Pinto, historiador, autor de "Os Portugueses descobriram a  Austrália?- 100 perguntas sobre factos e curiosidades dos Descobrimentos" ( A Esfera dos Livros);
- Sérgio Rodrigues, químico, autor de "Moléculas por todo o lado: Química e Literatura" (Gradiva), no prelo.

O moderador será Carlos Fiolhais (físico e Director do Centro), que declarou: “A ciência é a chave para decifrar mistérios. Mas não todos.”
Algumas das questões a debater, num ambiente informal, serão:
- Que relação existe entre ciência e mistério? Na ciência, desvendam-se mistérios?
- Quais as relações entre ciência, por um lado, e por outro história, religião e literatura, já que nestas actividades também se penetram mistérios?
- Como distinguir ciência de pseudociência? Há métodos para desvendar mistérios?

Com entrada livre, a
sessão é aberta ao público em geral e em especial aos mais curiosos que poderão fazer perguntas aos autores, num ambiente de tertúlia aberta e participada.
Para mais informações:
RÓMULOCentro Ciência Viva da Universidade de Coimbra  
                    Maria Manuela Serra e Silva
                    Telefone – 239 410 699
                    E-Mail – ccvromulocarvalho@gmail.com
                    Facebook: http://www.facebook.com/profile.php?id=100002912006773

A BASÓFIA DE JORGE JESUS TIDA COMO PROFUNDA IRONIA


 Experiência é o nome que damos aos erros que cometemos" - Oscar Wilde. 

A última resposta de um leitor anónimo ao meu post aqui publicado,  “O Futebolês” (13/09/2014), nada acrescenta  a não ser a novidade de um hábito seu: “Lamento o hiato da resposta mas só comento em blogs ao fim de semana” (bem eu sei que o hiato de uma semana tem a vantagem de o comentário passar sem ser lido e, ipso facto,  não sujeito a refutação).

Apesar de tudo, dei-me ao trabalho de verificar, com o preciosismo que utiliza na sua prosa, as datas dos seus comentários e “eureka!”: encontrei um no dia14 de Setembro, uma segunda-feira. Acha que este seu lapso, me dá o direito de lhe chamar mentiroso? Eu não, apenas de descuidado em consultar um simples calendário.
Dessa benevolência não gozei eu da sua parte, em insistência neste seu novo comentário, referindo-se, à laia de introito de crime de lesa majestade para com a simples numeração, ao meu engano na citação de 3 mil milhões de euros (em vez de 3 milhões de euros) no caso da cláusula de despedimento de Paulo Bento. E sem a benevolência que usa para com de Jorge Jesus por si havido com “profundamente irónico”, a exemplo de um André Brun
.
Depois repete o fado do coitadinho de quem tem desculpa por não ter “inclinação ou condições de estudo”, temperada pelo comentáriozinho político, nada anódino,  de “eu estar sempre disponível para vincar as diferenças de classe”. Achará, porventura, que as calinada, num mundo dominado pelo ter inferiorizam Jorge Jesus, que ganha balúrdios de euros, perante os diplomados académicos ou títulares de nobreza? E depois sou eu o elitista, como diria Eça:  “A  mim nada me é permitido. Ora sebo!”

O leitor que se debruce sobre o seu duplo comentário  escalpelizará as suas repetições argumentativas se para tanto tiver paciência de Job. A mim apenas me resta pedir ao leitor desculpa pelo incumprimento da minha palavra quando escrevi em comentário anterior:” Como escreveu Eça (cito de memória), se continuar com os seus argumentos filosóficos ou explicativos do que se passa na cabeça de Jorge Jesus, “não é um vencido que se retira, é um enfastiado que se afasta”… a menos que o seu comentário traga algo de novo e substantivo que me leve a mudar de opinião!”

E mudo de opinião para não privar o leitor da “profunda ironia” ( em adjectivação sua) que preside às intervenções públicas de Jorge Jesus, embora pedindo-lhe desculpa por ser obrigado a fundamentar a minha opinião de que ele não é profundamente irónico, apenas senhor de um ego incomensurável que raia, ou mesmo ultrapassa, a basófia do novo-rico.
Imputando a si a responsabilidade de  voltar ao assunto, sou obrigado a reportar-me, à laia de aperitivo, ao  colóquio de Jorge Jesus, intitulado “Teoria e Prática no Futebol”, realizado  no Salão Nobre da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa, destinado  a  futuros treinadores de futebol com formação académica universitária,. E, ipso facto, obrigo-me, ainda, de referenciar  a encomiástica  apresentação  de Jorge Jesus feita, na altura,  pelo professor  Manuel Sérgio de quem partiu, aliás,  o convite que lhe foi endereçado
.
 De Jorge Jesus, disse Manuel Sérgio,   ser ele  “um homem de estudo; sabe hoje que é especialista numa ciência humana”. E não se quedando por aqui, de valor bem mais alto se fez ele voz: “Assistir a um treino de Jorge Jesus é, sem exagero [repare o leitor, no reforço “sem exagero] assistir a uma aula universitária”. Malgré tout,  como que para justificar as sempre  esperadas calinadas gramaticais de Jorge Jesus utilizou Manuel Sérgio o seguinte  argumento: “Admitamos que vinha aqui um grande cientista norte-americano a procurar falar português. Dizia asneiras atrás de asneiras e no entanto era um sábio!” Analogia forçadíssima: Jesus não falou numa língua estrangeira , mas em português/futebolês. Desta forma, compará-lo a um cientista norte-americano  tornou pior  a emenda que o soneto!

Alado com asas mitológicas de Ícaro  pelas referências elogiosas feitas à sua pessoa,  Jorge Jesus, pairou sobre a sua experiência como treinador  com  respaldo num pensamento seu: “Quanto mais experiente agente estamos, mais conhecimentos temos, melhor também estamos”. E vai daí, aproveitou uma ocasião soberana para perorar, do alto do seu indesmentível e enorme ego: “Eu criei uma ciência para ter uma ideia, um modelo  de jogador, um modelo de treino” (“Jornal de Notícias”, 11/03/2013).
 
Tanta sapiência, “, veio a ser notícia de jornal  fazendo-o cair das alturas a que o tinham elevado com asas de cera e penas: “O treinador do Benfica considera-se o melhor do mundo e não acredita que alguém saiba mais de futebol do que ele. Nem Mourinho o supera”(“Jornal I”, 27/08/2014).

Estabeleço agora  a diferença entre a basófia de  Jorge Jesus e a humildade grata  de  José Mourinho. que, quando do seu doutoramento “honoris causa”, pela Universidade Técnica de Lisboa, declarou: “Seria sempre treinador de futebol, mas  sem a faculdade seria assim-assim e nunca muito bom” (“Record”, 24/03/2009).

Já anos atrás, José Mourinho, em entrevista concedida a Anabela Mota Ribeiro, em resposta à pergunta  ”de que outras coisas tem de saber?”, respondeu: “De tudo. Há áreas científicas que nos podem ajudar no nosso trabalho, nomeadamente psicologia, pedagogia, fisiologia. Posso falar com o meu departamento médico sobre lesões, músculos, biomecânica, teoria do treino. São temas que domino. Dominar as competências psicológicas é fundamental. Pode fazer a diferença” (“Selecções  do  Reader’s Digest”, Junho 2003).

São estes dois homens, Mourinho, um teórico com formação académica, e Jorge Jesus, um prático com pretensões a cientista (em palavras de  Ortega y Gasset: “Podemos pretender ser quanto queiramos, mas não é lícito fingir que somos o que não somos”), que estiveram, por estes dias nas páginas dos jornais  em que Jorge Jesus , sobre a alegada cobiça de que Talisca foi alvo por parte de clubes ingleses,  evoca  a famosa personagem de Alexandre Dumas: “Conheciam tanto o Talisca como eu o D’Artagnan!”

Ironia, ou simples gracejo, que lhe mereceu a estocada mortal de José Mourinho de ele “andar aos pontapés e a agredir a pobre gramática” ( “MOURINHO  ARRASA JESUS”, “Record”, 1.ª página, em letras garrafais,  19/09/2014)  Ou seja, “quem com ferros mata com ferros morre!”

Isso mesmo teve a clarividência de reconhecer Jorge Jesus , quando, em entrevista exclusiva à TVI,  com ar seráfico de menino de coro e em exaltação nacionalista apela à concórdia entre ambos : “Não vamos arranjar polémicas, não as quero até para bem do futebol português. Ele está em Inglaterra  e eu estou em Portugal”. Ou seja, cada galo no seu poleiro e nada de bicadas!


domingo, 21 de Setembro de 2014

Voltei a fazer as contas

Fiz contas há dois anos (aqui) e voltei a fazê-las agora.

Uma família com dois filhos, um no segundo ou terceiro ciclo do ensino básico e outro no secundário, gasta em manuais escolares pelo menos quinhentos euros.

Quinhentos euros é mais do que um ordenado mínimo nacional. E há muita, muita gente a ganhar o ordenado mínimo nacional.

Cada manual custa entre vinte e tal e quarenta e tal euros, logo, é fazer as contas. Não sei se, em termos de mercados, os preços são justos ou não, talvez sejam, o que sei que é quinhentos euros é bastante dinheiro para cada vez mais pessoas.

De modo que os manuais se pudessem reaproveitar de um irmão, primo ou vizinho para outro, foi reivindicada e, felizmente, publicada uma lei que obriga que cada manual se mantenha no mercado por seis anos. Várias entidades mobilizaram-se para fazer recolhas e distribuições, houve quem beneficiasse disso.

Porém, neste ano lectivo, em virtude da recente publicação das Metas curriculares para várias disciplinas, as editoras apresentaram novos manuais e as escolas optam, em geral, pelas versões acabadas de sair.

Nas disciplinas em que o Programa mudou, por exemplo Matemática, enfim, pode compreender-se, a mudança de manuais, mas nas disciplinas onde o Programa se manteve, e a partir dele forem construídas as Metas, não há qualquer justificação para a publicação de novos manuais e para a exigência das escolas.

Neste país à beira de vários abismos, o financeiro é só um deles, talvez pudéssemos, independentemente do nível de decisão em que nos situamos, dar mais atenção ao que se passa à nossa volta.
Maria Helena Damião

Resposta a Nuno Crato na Visão sobre avaliação científica.


A última "Visão" publicou, em artigo de opinião, a minha resposta a Nuno Crato sobre a escandalosa avaliação das unidades de investigação que ele está a patrocinar (por que é que não pede também desculpa?). O texto está aqui.

A entrevista, publicada a 11 de Setembro, está aqui. Destaco a parte à qual respondo de uma forma muito clara:

Qual é a sua opinião sobre o processo de avaliação dos centros de investigação?
A ciência é uma das áreas que mais e melhor se desenvolveu, e, em grande parte, devido ao facto de existir avaliação externa sistemática. A ciência tinha atingido um determinado nível, que implicava uma nova fase de desenvolvimento. E para esta nova fase lançámos uma avaliação com características inéditas: há uma entidade externa que fica totalmente com a responsabilidade dessa avaliação, a European Science Foundation...

Que a fez sem se deslocar a Portugal e sem falar com os investigadores?
Na primeira parte da avaliação, fê-lo sem isso, sim. Mas é uma entidade externa - reduzimos os conflitos de interesse ao contratá-la - que avaliou tanto os laboratórios associados como os centros de investigação.

Com indicações para chumbar 50%?
Não houve indicações para chumbar 50 por cento. Houve uma estimativa, com base no histórico - a experiência internacional -, que foi necessária para a European Science Foundation poder estimar os seus custos. Não pense que estão chumbados 50% dos centros.

Não? O professor Carlos Fiolhais escreveu um artigo no Público [O Pior do Crato, 9 de julho] onde apresenta estes dados com muita clareza.
Deixe-me também falar com muita clareza: 7 em cada 10 dos investigadores submetidos a este processo de avaliação passaram à chamada segunda fase. Dois em cada dez dos restantes ficaram com o financiamento mínimo, só um em cada 10 é que ficou sem financiamento, neste momento do processo. Portanto, falar da liquidação de 50% da ciência é falso. E a avaliação não terminou. Agora estamos na fase em que essa classificação pode ser contestada pelas unidades. O importante é dizer que nove em cada 10 investigadores portugueses abrangidos pela avaliação têm financiamento.

TOP TEN DA FRAUDE CIENTÍFICA

Ontem no Yes Meeting na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto falei sobre "Fraude Científica ao longo da História". Escolhi 7 casos famosos, por limitação de tempo:

 Some famous cases of scientific fraud:

1- Phrenology (1796)- Franz Joseph Gall (Germany)
2- Martian canals (1877)- Giovanni Schiaparelli (Italy) and Percival Lovell (USA)
3- N-rays (1903)- René Blondlot (France)
4- Piltdown man (1912) - Charles Dawson (UK)
5- Memory of water (1988)- Jacque Benveniste (France)
6- Cold fusion (1989) - Martin Fleischmann (UK) and Stanley Pons (USA)
7- False stem cells (2004) - Woo-Suk Hwang (South Korea)

 Mas podia ter acrescentado, para fazer um top ten da aldrabice científica (agora, fora da ordem cronológica anterior):

8- Hereditarity and inleligence (1971), Cyril Burt (UK)
 9- Vaccines and autism (1999)- Andrew Wakefield (UK)
10- Plastic transistors (2001)- Jan Hendrik Schoen (Germany)

APRESENTAÇÃO DO LIVRO "LIMITES DA CIÊNCIA" DE JORGE CALADO NO MUSEU DE CIÊNCIA DE LISBOA

sábado, 20 de Setembro de 2014

Um triângulo

Em resposta/comentário a comentários de dois leitores a um texto que publiquei ontem.

"A educação não deve ser um negócio ou estar dependente de um negócio", diz um leitor. Diz também que "não deve estar ideologicamente e unicamente dependente das orientações doutrinárias de um Estado, de uma política partidária ou de uma religião". Outro leitor diz que "são poucos os que não se deixam levar pelos seus verdadeiros interesses".

Estou de acordo. A educação de crianças e jovens é, antes de mais, um dever (altruísta) que as gerações mais velhas têm para com as novas gerações (como outras anteriores tiveram para com elas). Tornar humanas as pequenas pessoas que chegam ao mundo (pelo processo de apropriação do conhecimento da humanidade) é uma tarefa que tem valor em si e por si; não pode depender de interesses próprios nem de oportunidades ou de estratégias de mercado.

Isto é assim para as diversas vertentes da educação, incluindo a educação escolar. Esta vertente que, no Ocidente, durante algumas décadas, se pensou finalmente (e felizmente) assumida pelos Estados, tem sido neste início de século progressivamente transferida para particulares. Entre estes particulares estão grupos ideologicamente marcados e empresários à espreita de um bom negócio.

Nem tais grupos nem tais empresários entendem o que significa "dever de educar", "dever de humanizar" nem isso lhes interessa nada. Os grupos querem assegurar seguidores, os empresários querem assegurar lucros. Em ambos os casos as crianças e os jovens não são vistos como seres cujo destino deveria ser o (livre)pensamento.

Mas, mais uma vez, aqui o discurso "pedagógico" ajuda uns e outros: é o bem das crianças e jovens que apregoam; o bom funcionamento da sociedade que dizem procurar. Isto nas palavras mais sedutoras que técnicos, bem pagos, escolhem. Para que se acredite. E resulta.

Os políticos estão alheados? Não, de modo algum: consentem. Há um triângulo que se tem vindo a consolidar e expandir: grupos com interesses, empresários e políticos. É neste triângulo que se "fabrica" o currículo... que a sociedade aplaude.

sexta-feira, 19 de Setembro de 2014

“Não estão nisto por gostarem dos miúdos ou por estarem interessados na educação"

Nós, portugueses, que tão impelidos somos a seguir modelos pedagógicos inovadores, a citar autores que não lemos, a dissertar sobre teorias exóticas, em vez de seguirmos critérios filosóficos racionais e conhecimentos científicos confiáveis, deveríamos pensar duas vezes antes de adoptarmos e insistirmos em medidas educativas que não oferecem garantia, por referência ao que é certo e justo. Estas características mas não exclusivamente nossas, bem sei, mas são muito nossas.

Uma das recentes modas que seguimos, muito acriticamente, é a de confiar a educação pública a empresas privadas e só encontrar nisso vantagens, desde as mais elevadas, como o direito de escolha da escola dos filhos e a melhoria da aprendizagem, até às mais pragmáticas, como as de uma gestão financeira mais benéfica e transparente (os exemplos não terão sido os melhores porque, bem vistas as coisas, ambos caem por terra).

Estados Unidos da América e Suécia adoptaram, em grande escala, o discurso e a estratégia da empresarialização da educação formal. Mas, ambos os países têm analisados resultados académicos e feito contas. Não, não resulta! E, estão a voltar à ideia de que ao Estado cabe proporcionar uma escola para todos.

Mas não são apenas os resultados e as contas que, nesta questão, têm sido destacadas pelos analistas. Assinalam um outro factor que faz toda a diferença: as empresas “não estão nisto por gostarem dos miúdos ou por estarem interessados na educação. Estão nisto porque querem fazer dinheiro rapidamente”.

Quem está na educação por outra razão que não seja a educação, não pode ser consentido na educação.

Sobre esta questão poderá ler-se o recente artigo Suecos decepcionados com o sistema de educação, da autoria de Helen Warrell (Financial Times) e traduzido para português por Ana Pina.

Ver, ler e passear em família

Escola e família devem assumir o dever de educar. Nisso toda a gente estará de acordo. E toda a gente estará de acordo que os miúdos podem ficar beneficiados quando a acção educativa da escola e da família se complementam.

Mas, muito importante, complementaridade não é sobreposição: o dever de educar da escola é um; o dever de educar da família é outro.

Porém, o que acontece é que a família entra na escola e nos assuntos da escola como se fosse especialista em instrução; a escola entra na casa de cada aluno e na relação familiar como se tivesse legitimidade para tanto.

Isto é assim, ninguém estranha, acha-se uma coisa normal.

E, portanto, não podia de estar presente nos manuais escolares (que é e há-de continuar a ser o "verdadeiro" e "único" currículo!).

Exemplo: Num novo manual de História, acabado de sair, "de acordo com as metas curriculares", constam, no final de cada tema, as seguintes sugestões.
Ver [filmes]... em família
Passear... e aprender em família.
Passear... em família
Ler... em família 
Desde que não prejudique os menores, o que as famílias vêem e lêem, que passeios dão, é com elas. Têm até o direito de não ver filme algum, de não ler seja que livro for, e de não passear para lado nenhum.

É à escola que, entendendo que um filme, um livro, um passeio permite concretizar os propósitos instrutivos, cabe providenciar a sua concretização.

Deixarem-se estas tarefas ao encargo das famílias, está-se, obviamente, a contribuir para a criação ou acentuação de desigualdades. Umas famílias podem proporcionar estes bens culturais e outras não.
E, se são bens fundamentais em termos de instrução, têm de ser para todos.

O Doutor Cooper, Cinturas Finas e Biceps Volumosos, Mitos e Falácias

“Os processos da ciência são característicos da acção 
humana, porque se movem pela indissolúvel união do 
facto empírico e do pensamento racional.”
(Jacob Bronowski).

Em encontro ocasional havido com o Professor Helder Araújo, catedrático na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, este ilustre académico da Ciência Robótica ainda hoje praticante de musculação e corrida, manifestou o interesse colhido na leitura do meu livro: “Os Pesos e Halteres, a função cardiopulmonar e o doutor Cooper” (Lourenço Marques/1973).

Breves dias depois, em análise que muito me honra, escreveu ele:
“Tive, há alguns dias, a oportunidade de conhecer pessoalmente o Prof. Rui Baptista. Em 73/74 eu, e alguns amigos, praticávamos, de forma relativamente "artesanal", pesos e halteres em Quelimane. Para planearmos e prepararmos os nossos treinos tínhamos acesso a algumas publicações norte-americanas. Muitos dos nossos colegas e amigos nos criticavam, considerando tal tipo de exercício físico como prejudicial à saúde. É então, que, por acaso, compro numa livraria um pequeno livro cujo título era "Os Pesos e Halteres, a Função Cardiopulmonar e o Doutor Cooper", do Prof. Rui Baptista. Esse livro foi realmente fundamental para nós, na altura, por desmistificar as críticas que eram feitas a esse tipo de actividade física. Desde sempre fiquei grato ao Prof. Rui Baptista pelo trabalho que descreve nesse livro e que fez com atletas em Lourenço Marques. O livro foi muito importante para aquele pequeno grupo de jovens atletas. O meu obrigado ao Prof. Rui Baptista!”

Na minha vida profissional, tive momentos de desânimo por me sentir, na minha defesa irredutível do benefício para a saúde dos pesos e halteres, um proscrito perante os próprios colegas de profissão, os praticantes de diversas outras formas de modalidades desportivas e a sociedade em geral que abjuravam os halteres presos ao mito de fazerem mal ao coração, prenderem os músculos e sei lá eu que mais!

Alturas outras houve, em que me senti como que “vingado” como, por exemplo:
1. Na entrada dos Pesos e Halteres pela porta grande da Sociedade de Estudos de Moçambique (“Palmas de Ouro” da Academia de Ciências de Lisboa), através da conferência que aí proferi, intitulada “Os Pesos e Halteres, a função cardiopulmonar e o doutor Cooper, génese do meu livro com idêntico título.
2. Na minha consequente nomeação para presidente da respectiva Secção de Ciências.
3. Na análise/crítica feita pelo Doutor José Santarem ao meu livro.
4. No testemunho do Professor Helder Araújo de eu ter contribuído para desmistificar as críticas de muitos colegas e amigos do seu tempo de estudante por considerarem os pesos e halteres prejudiciais à saúde,
Vivia-se então um tempo tenebroso de crenças, mitos e falácias sem fundamento científico sobre os malefícios dos “ferros” denunciado, com muita autoridade, pelo Doutor José Maria Santarem, um dos maiores especialistas mundiais sobre os efeitos do treinamento de pesos e halteres, ele próprio praticante desta modalidade de exercícios , com um currículo extenso e valioso: fundador e coordenador do Centro de Estudos em Ciências da Actividade Física, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, Coordenador dos cursos de pós-graduação em Fisiologia do Exercício e Treinamento Resistido na Saúde, na Doença e no Envelhecimento, Coordenador da Disciplina de Medicina de Exercício para o curso de graduação da Faculdade de Medicina, Coordenador dos cursos para formação de técnicos em exercícios com pesos da Federação Paulista e Confederação Brasileira de Musculação, ordenador dos cursos de pós-graduação do Centro de Estudos em Ciências da Acividade Física, da Faculdade de Medicina da Universidade São Paulo.

Quem melhor do que ele para se pronunciar sobre o meu livro? Como tal, enderecei-o por via postal com essa intenção. Passado tempo, num mail que me enviou para o Centro de Estudos de Biocinética, da Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física da Universidade de Coimbra (2001), de que eu na altura era docente, escreveu ele:
“ Com muita alegria recebi o seu livro e a sua carta.
Nossos ideais são comuns, e nossas dificuldades históricas também. Felizmente hoje as evidências nos apoiam e somos ouvidos, mas é sempre emocionante lembrar os tempos em que éramos quase ignorados. Gostei muito do seu texto que, naturalmente, deve ser lido com a lembrança da situação do conhecimento de então. Como me pediu, segue em nexo um texto meu actual, eu é um capítulo de livro de medicina do exporte, ainda a ser editado.
Meu desejo é que um dia possamos nos encontrar e rir bastante com as dificuldades do passado. Um fraterno abraço.
Santarem.”
Do meu livro (que seria ampliado, com um “Estudo Sobre o Efeito dos Pesos e Halteres nos Valores das Pressões Arteriais Máxima, Mínima e Diferencial”) extraio o texto da” Conferência na Sociedade de Estudos de Moçambique”, por mim proferida em 2 de Julho de 1973, e que serviu de tema a uma Comunicação por mim apresentada no 7.º Congresso Europeu, “Vida Activa da escola à comunidade”, 10 a 14 de Abril de 1966, Universidade de Coimbra:
"Anos atrás, fui confrontado com um livro do famoso Doutor Kenneth Cooper, criador do famoso método de seu nome, que descrevia os malefícios sem conta trazidos pelo treino com pesos e halteres na modalidade de Culturismo. Tendo, na altura, a meu cargo uma classe dessa modalidade no Clube Ferroviário de Moçambique recaía sobre mim a responsabilidade profissional e moral desses (possíveis) prejuízos recaírem sobre os alunos a meu cargo.
Escreveu Cooper:
“Na minha especialização, as aparências enganam. Alguns homens excepcional e fisicamente aptos, testados em nossos laboratórios, eram de meia-idade, franzinos inclusive, de vez em quando surgia um meio barrigudo. Os mais inaptos que tivemos eram rapazes fortes, com má condição física. Desculpem se o que acabo de dizer desfaz qualquer ilusão sobre cinturas finas e bíceps musculosos com chave de boa saúde. Não influem, nem garantem. São apenas um elemento secundário” (Aptidão Física em Qualquer Idade, p. 10, Cooper, Kenneth H, 5.ª edição, Forum Editôra, 1972, Rio de Janeiro).
Para desfazer dúvidas, havia que utilizar as “armas” de Cooper: a sujeição dos praticantes de pesos e halteres por mim treinados (os tais de “cintura fina e bíceps musculosos”), que não praticavam qualquer outro desporto, ao seu teste de aptidão física. Para o efeito, solicitei a colaboração do conceituado treinador de atletismo do Desportivo de Lourenço Marques, António Matos, que não só pôs à minha disposição alguns dos seus praticantes de atletismo como registou os tempos obtidos e atestou todos os outros dados colhidos na pista de atletismo do Parque José Cabral, em Agosto de 72. Para ele, o testemunho público da minha gratidão.

Mas em que consiste o tão famoso (e espalhado urbi et orbi) “Teste de Cooper”™? Resumidamente, em correr ou caminhar, sem qualquer paragem, a maior distância plana possível durante 12 minutos para a partir daí interpretar os dados obtidos com base no quadro seguinte:

A preceder a realização das provas de corrida foram realizadas outros testes e medições. Foram eles:Observação: Para homens entre 40-49 anos de idade, segundo Cooper, a distância percorrida entre 2100 – 2500 metros, é classificada como boa.

1. Registo do número de pulsações/minuto, em repouso e na posição de pé: Foi realizado este registo (na posição de pé) por ser aceite que o treino físiico produz uma bradicardia em repouso. O número de pulsações após a corrida não foi anotado devido à dificuldade em o fazer, motivada pela chegada em pelotão de alguns atletas. Convém esclarecer que os valores obtidos foram condicionados pelo natural nervosismo dos atletas antes de entrarem em prova.

2. Medição dos perímetros toráxicos máximo, mínimo e diferencial: A fim de obstar a que a contracção da massa muscular dos dorsais pudesse influenciar a medição do perímetro toráxico máximo foi ela realizada com os braços encostados ao tronco. Estes valores dão-nos conta da flexibilização da caixa toráxica, isto é da possibilidade da “caixa de ar” aumentar os seus diâmetros ântero-posterior e transversal, ainda que não registe o aumento vertical a cargo da descida do músculo diafragma. O perímetro toráxico diferencial define a elasticidade costo-esterno-vertebral.

3. Capacidade vital: Representa a quantidade litros de ar que um sujeito é capaz de expelir dos pulmões, numa expiração forçada antecedida de um inspiração máxima. Num individuo não sujeito à exercitação Física, embora em condições normais de saúde pulmonar, a capacidade vital cifra-se em aproximadamente 3.5 litros., enquanto que num outro sujeito a treinamento físico intenso esse valor chega aos cinco seis litros. Este factor nem sempre coincidente com a faculdade de captação de oxigénio por parte dos glóbulos vermelhos ou hemácias e respectivo transporte e cedência ao nível do tecido muscular, relação conhecida por coeficiente e de utilização de oxigénio.

Resultados dos praticantes de atletismo no Teste de Cooper: 

Resultados dos praticantes de culturismo no Teste de Cooper:


Em face destes resultados conclui-se:

1.º – Os cinco melhores valores da capacidade vital foram obtidos pelos culturistas, cabendo a José Soares o valor máximo de seis litros.

2.º – Igualmente alcançaram os culturista os cinco melhores valores de perímetro toráxico diferencial, dando-se o caso de Rui Baptista obter o maior valor (17 centímetros), tendo na altura 41 anos de idade e, como tal, teoricamente, dever ter a mobilidade esterno-costo-vertebral diminuída.

3.º – Os três melhores valores das pulsações em repouso foram obtidos por três culturistas, respectivamente, 66, 78 e 84, este ultimo obtido, igualmente, pelo corredor Vitor Candeias.

4.º – Por o treinamento de uma determinada modalidade desportiva conduzir a uma diminuição de sinergias onerosas, os resultados do Teste de Cooper, naturalmente, favoreceram os praticantes de atletismo; contudo, o culturista José Guimarães, classificando-se em 4.º lugar, obteve resultado superior ao dos praticantes de atletismo, Rogério Costa, Carlos Pais e Sérgio Aniceto.

A terminar, volvidas décadas este trabalho de investigação mantém o interesse por ter testado culturistas que não consumiam esteroides anabolizantes. Hoje em dia, o culturismo de competição (eleição de indivíduos com massas musculares disformes) foi invadido por essas “criminosas” substâncias, não sendo possível estabelecer uma fronteira entre os efeitos do treino propriamente dito e a utilização do arsenal químico a ele associado. Por outro lado, os culturistas testados não praticavam a corrida, ao contrário dos culturistas actuais que a utilizam, em preito aos benefícios colhidos com a corrida aeróbica e para «queimar gorduras»".

Houve, portanto, períodos na vida em que me senti útil pelo meu contributo para uma Educação Física que, ao ser amputada de alguns dos seus objectivos, pudesse ser pasto da crítica do Doutor Hans Krauss, professor de Medicina Física da Universidade de Nova York, ao escrever:
“São poucos também os professores de Educação Física que demonstram respeito pelos músculos, ao invés de cuidar para que os jovens cresçam com músculos firmes e flexíveis, a maioria deles se preocupa apenas em treinar times que vençam campeonatos!”
Pese embora Ernest Krestchemer (médico, cientista alemão ee doutor “honoris causa” em Filosofia 1888-1964) ter afirmado que “o homem pensa com o corpo todo”, infelizmente, a crítica a uma Educação Física de “brutamontes”, por vezes, ainda vigora na intelectualidade portuguesa em resquícios de um inefável pedantismo que se acoita na proporcionalidade inversa entre inteligência e músculos, aqueles músculos que o grande Almada-Negreiros endeusou, ao proclamar: “É preciso criar a adoração dos músculos”! 

Na assumida responsabilidade de ter sido campeão de Moçambique de Pesos e Halteres, acredite, leitor, que não sou um Frei Tomás do género “faz o que eu digo, não faças o que eu faço!” Ao contrário dele, continuo a fazer aquilo que digo, como demonstra a minha prática de musculação, três vezes por semana, aos meus 83 anos de idade, cumpridos no passado mês de Maio!

Last but not least, a minha grande gratidão pelo testemunho de uma vivência de exercitação física vivida com o entusiamo da juventude e descrita, com laivos de generosidade para comigo, por um notável académico de Coimbra. Bem haja, Professor Helder Araújo!

Rui Baptista

quinta-feira, 18 de Setembro de 2014

O ESPECTRO LARGO DA CORRUPÇÃO

As recentes condenações de ex-ministros do PS (Armando Vara e Maria de Lurdes Rodrigues) por casos de corrupção ou prevaricação podem fazer crer que casos desse tipo são exclusivos de um dos partidos do "arco da governação". Ora está longe de ser assim: Não há muito tempo tinha sido condenado um ex-ministro do PSD (Isaltino Morais). O PS, o PSD e o CDS, que têm ocupado a máquina do Estado, têm, a respeito de atropelo a normas da ética e do estado de Direito, muito mais a uni-los do que a separá-los.

UM ERRO É UM ERRO: FINALMENTE CRATO ADMITIU UM ERRO!

Um erro é um erro e não percebo por que é que o ministro Nuno Crato não o viu logo. É algo tão evidente, que só se ele tivesse esquecido toda a matemática que aprendeu e ensinou é que não via.

 Transcrevo notícia de há pouco tempo do Observador:

"Segundo o ministro, foi detetado um problema de “compatibilização de escalas”, que levou a que os critérios em que os professores são avaliados não tenham sido “harmonizadas como deviam”."

Estas palavras ("compatibilização" e "harmonizadas") são usadas em vez das palavras mais adequadas ("grande disparate" e "asneira da grossa"). Mas mais vale tarde do que nunca: o ministro reconheceu a falha dos serviços que dirige e também, o que é verdade, a má redacção da lei. O seu comentário de que só afectar 1% dos professores é desnecessário: bastaria que afectasse um para ter de ser corrigido. Além disso, quem comete grandes disparates para "pouca" gente também a comete para "muita". Erro ainda é o ministro dizer que os professores já colocados ao abrigo do erro continuarão a sê-lo: eles devem ser substituídos pelos professores mais habilitados que merecem um lugar. Ninguém pode ter um emprego, em desfavor de outro, por causa de uma fraude, ainda que ele não tenha culpa dela. É a decência que impõe isso.

O ministro, para reganhar o direito à nossa consideração, tem ainda de fazer duas coisas.

1) Demitir imediatamente um dos maiores responsáveis pelo erro, Mário Pereira, Director Geral da Administração Geral, que ainda há pouco teimava que estava tudo bem e que, se havia algo errado a culpa ra dos professores. O Director Geral é obviamente incompetente para o lugar e o despacho de nomeação no Diário da República tem afirmações não provadas, como a  de dizer que ele "tem competência técnica" e "aptidão". Basta olhar para o currículo anexo para se ver que não tem. Ao pé dle, Mário Nogueira parecia um "génio da matemática". Infelizmente, o Ministério está cheio de funcionários assim.

2) Aprender com a lição e ir ele próprio ver a incompetência que reina nos serviços que ele tutela. Não é só na educação: na ciência, o ministro se quiser ser também ministro da ciência e for ver a confusão que vai pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, perceberá por si próprio o que, no caso da educação, está a perceber, certamente com mágoa sua. Os erros na recente avaliação de unidades de investigação não são menores do que os da colocação dos professores: há quotas escondidas, atropelos aos regulamentos e agora, pasme-se, uma modificação a posteriori de uma tabela  que serviu de base à avaliação. O ministro que não venha dizer que os erros só afectam alguns centros de investigação: os procedimentos estão inquinados, existindo um atropelo ao Estado de Direito. Mas mesmo que fosse afectasse apenas um centro já era demais!

quarta-feira, 17 de Setembro de 2014

Novo livro do Prof. Galopim de Carvalho
é lançado dia 25 na Reitoria da UL

O novo livro do prof. Galopim de Carvalho, Evolução do Pensamento Geológico (da Âncora Editora) vai ser lançado no próximo dia 25 (uma quarta-feira) na Reitoria da Universidade de Lisboa. A sessão terá lugar na Sala de Conferências, pelas 18.30 horas.

Nesta sessão o livro será apresentado pelo Prof. Doutor José Barata-Moura.

Escolas - 2

Na sequência da publicação do meu texto Escolas -1, dedicado ao livro O Berço da desigualdade, da autoria de Sebastião Salgado (fotografias) e Cristovam Buarque (textos), o leitor Manuel Silva deixou uma pergunta: "tem esse livro fotografias de África, países pobres, zonas rurais...?"

Sim, tem. E belíssimas. Duas das minhas preferidas são a que abaixo reproduzo: uma tirada no Quénia e outra no Brasil.

Quénia: Escola para jovens refugiados do sul do Sudão, Sebastião Salgado,1993
Brasil: Escola itinerante do Movimento dos Sem Terra, 1996, Sebastião Salgado
A recordação do leitor traduz o que nelas é essencial:
"Vi em tempos algumas fotos de uma escola numa zona dessas, com os alunos sentados no chão, o professor de pé, um pedaço de ardósia velha e partida pendurada por um fio na «parede». Nada mais. Mas olhares vivos, cheios de curiosidade, interessados, alegres, havia-os em todos os alunos, que seriam uns 15 ou 20."
E acrescenta:
"A escola, para além de nos por a todos num patamar mais elevado de conhecimento, tem ajudado a igualar muita gente muito desigual à partida."
É essa, aliás, a função da escola. Tendo interesse por esta ideia, poderá ler um extracto do livro Escola, igualdade e diferença, da autoria de Joaquim Valentim (aqui) ou ler o livro integralmente.

Maria Helena Damião

Prefácio ao livro "As Curandeiras Chinesas. Um motim que abalou a I República"

Informação chegada ao De Rerum Natura

O prefácio de Miguel Real ao recente romance de Joaquim Fernandes As Curandeiras Chinesas. Um motim que abalou a I República (Gradiva, 2014) pode ser lido aqui.

Erros de colocação de professores e outros estão a destruir o sistema público de ensino

Estou cada vez mais convencida de que uma parte substancial do conhecimento científico que se conegue na área da Pedagogia, e com ampla divulgação entre os mais diversos parceiros educativos, é ignorado ou desprezado. Esses parceiros até poderão estar a par do que se publica e concordar com os resultados veiculados mas isso não faz qualquer diferença nas suas opções práticas

A verdade é que há conhecimento que não interessa a ninguém: não interessa a departamentos universitários porque têm as suas linhas de investigação traçadas e mudá-las está longe dos seus horizontes; não interessa a decisores políticos porque conflitua com os modos estratégicos de tomar medidas; não interessa a escolas e professores porque destoa da "tradição" que, acriticamente, seguem.

Como em tudo, há excepções, mas, entendo eu, são excepções. Refiro-me, em concreto ao nosso país.

Dou um exemplo que se tornou recorrente na comunicação social (e bem porque dá conta de uma situação absolutamente intolerável no sistema público de ensino): os erros na colocação de professores e as injustiças que acarretam.

Erros que se afiguram cada vez mais graves e que são descaradamente desvalorizados por parte de quem os comete ou dá a cara pelas instituições. A sua não correcção é o desfecho lógico desta atitude. Infelizmente.

Infelizmente por causa da falta de credibilidade que esses erros acarretam ao sistema público de ensino; infelizmente por causa dos prejuízos que trazem a muito professores competentes; infelizmente sobretudo por causa dos seus efeitos na aprendizagem dos nossos alunos. Cada um deles só tem uma vida e é no início dessa vida e na escola que se joga muito do futuro dessa vida.

Isto deveria preocupar muito, muitíssimo o país inteiro e não só os directamente visados: alguns professores que não ficaram colocados, que ficaram com horário zero, que foram deslocados das suas escolas a contragosto, que se sentiram impelidos para uma reforma antecipada... Muitos desses professores são profissionais de excelência, mas é como se não fossem. Tratados como números, submetidos a fórmulas esquisitas; ou como objectos, tirados daqui para colocar ali.

Efectivamente, o modo como os professores são tratados deveria preocupar-nos como país, pois, e voltando ao princípio deste texto, sabemos que um dos factores que mais relevância tem no sucesso da aprendizagem é o ensino.

E ninguém com responsabilidades educativas poderá alegar desconhecer isso, pois num dos vários documentos que mais presença têm ganho nos sistemas educativos - Education at a glance - publicado pela OCDE - tem destacado isso de modo muito claro:
"... os professores são fundamentais para os esforços de melhoria da escola. Melhorar a eficiência das escolas depende, em grande medida, em garantir que pessoas competentes queiram trabalhar como professores” (Relatório de 2012, página 489). 
"... para garantir o trabalho docente qualificado, devem ser feitos esforços não apenas para recrutar e selecionar apenas os professores mais competentes e qualificados, mas também para reter professores eficazes." (Relatório de 2013, página 380).
"Os professores são um recurso essencial para a aprendizagem: a qualidade de um sistema de ensino depende da qualidade de seu professores. De acordo com os resultados do PISA, as escolas em que os professores são menos qualificados tendem a ter menor pontuações nos resultados da aprendizagem. Assim, atrair e reter professores eficazes é uma prioridade para as políticas públicas e o desafio é maior nas escolas públicas (sobretudo nas escolas desfavorecidas)" (Relatório de 2014, página 410).

Récit d'une destruction organisée sous les auspices de la European Science Foundation

http://www.urgence-emploi-scientifique.org/content/requiem-pour-la-recherche-portugaise-r%C3%A9cit-dune-destruction-organis%C3%A9e-sous-les-auspices-de

PORTUGAL IN A RESEARCH MAELSTROM / PORTUGAL: TEMPESTADE NA CIÊNCIA


Ver http://www.euroscientist.com/blog/2014/09/16/portugal-research-maelstrom/

UM ERRO CRASSO DO MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E CIÊNCIA (MEC)


O  artigo sobre a média na colocação de professores saído no Observador foi muito visto, mas o problema continua actual pois o MEC está surdo, cego e mudo, neste problema como noutros (como os da escandalosa avaliação da  ciência). Estive a ver melhor e agora, depois de ter visto e ouvido, eis o que tenho a dizer:

- A fórmula aplicada no programa  GPC/2 + CE/2  (onde GPC = Graduação Profissional do Candidato e CE = Critérios da Escola; aparentemente na lei não está uma fórmula mas uma descrição por palavras, mal escrita, como acontece com muitas leis do MEC) é simplesmente idiota. Não faz sentido nenhum pois como diz o seu artigo não se somam coisas de duas escalas diferentes para no fim dividir por dois. É absurdo, é somar alhos com bugalhos.

- A fórmula GPC/2 + GPC/2 x CE, proposta por um professor, também não serve.  Outras fórmulas, como uma que vi publicada em comentário ao artigo, também não serve.

- O que se tema fazer é muito simples. Normalizar para a mesma escala as as duas classificações GPC e CE e só depois dividir por dois. A 2.-ª está numa escala de 0 a 100 (com um máximo que não oferece dúvidas, pois por definição não pode haver 101%). Então tem simplesmente de se ver quanto é 100% para a 1.ª, GPC. O máximo resulta de somar 20 (máximo de valores) a 10 (máximo de anos para aqueles professores, não acredito que sejam mais, mas se forem 15 ponha-se 15). Depois por uma proporção simples, passa-se o máximo para 100% e o GPC  fica dado em percentagem. Têm-se então 2 percentagens faz-se a média aritmética simples (somar e dividir por dois) e fica-se com uma ordenação em percentagens. Ficam todos ordenados de acordo com a lei que mandar dar peso idêntico a cada factor.

- O que está feito, seja para 2, para 20 ou para 2000 professores está errado. Como eu disse à jornalista Catarina Martins do Observador é injusto, por dar muito mais valor à CE do que ao  GPC, e ilegal, por não cumprir a lei.

- O MEC tem de emendar isso. A 5 de Outubro está pejada de pessoas que nem calcular uma proporção sabem. O ministro sabe, mas não os pode despedir (apesar da incompetência deles), nem, o que é pior, os quer emendar. Está refém deles! O problema é a existência de  professores inocentes que são vítimas da incompetência dessa gente e da falta de respeito à verdade e falta de coragem do ministro.  Se há professores colocados ao abrigo desse erro devem ser imediatamente descolocados, pois um erro deve emendar-se imediatamente. Não há nenhuns direitos adquiridos: se o meu banco me transferir dinheiro que não é meu para a minha conta, eu terei de devolver o dinheiro. O emprego não é de quem o ganhou com uma trapaça, embora não feita pelo próprio. 

A desculpa que se tem feito assim, i.e., que há uma tradição nesta matéria, é ridícula. É algo parecido com defender a escravatura ou a proibição de voto das mulheres com base na tradição. O ano passado fizeram um disparate (minorado, pois parece que a 2.ª parcela tinha o máximo de 10 e não de 100). Se o MEC o quer repetir, significa que é incapaz de aprender. Como quer que os outros aprendam? Como quer esta gente supervisionar o ensino?

PREVISÕES

Aproximam-se, no mundo e em Portugal, três eleições renhidas. Eis as minhas previsões, que por serem previsões podem naturalmente falhar:

- No referendo sobre a  independência da Escócia vai ganhar o não, embora por pouco. À última hora o "conservadorismo" vai prevalecer, porque os escoceses vão recear uma aventura que não sabem onde irá desembocar.

- Nas primárias do PS ganhará António Costa claramente. Não, não participo, porque esse é um problema interno do PS, mas não terei qualquer dificuldade em escolher nas próximas legislativas.

- Nas eleições presidenciais do Brasil, Dilma e Marisa passarão à segunda volta, ou turno como eles dizem. Depois é imprevisível: Quem ganhar vai ser por uma unha negra. Talvez Marina, por muitos brasileiros estarem desiludidos com Dilma.

Não aposto. A minha avó dizia: teima, teima, mas nunca apostes.