terça-feira, 18 de dezembro de 2018

e-Letras convida


Este é o primeiro número de e-Letras com Vida — Revista de Humanidades e Artes, de carácter essencialmente ensaístico. A revista propõe-se a apresentar neste e nos seguintes números uma diversidade de pontos de vista, incluindo textos de investigação e de leituras críticas que lidam com a questão dos países de língua oficial portuguesa no contexto global. A e-Letras com Vida quer juntar-se ao plano das edições que reúnem pensadores de todo o mundo com vista a responder à atual necessidade de reunião de ideias entre um cá e um lá, que muitas vezes se encontram num aqui presente, que, globalizado, precisa desafiar fronteiras e ultrapassar muros, ou pular cercas vigiadas por milícias.  


Divulgue, participe, proponha!

“A poesia da ciência, a ciência da poesia"

"Algumas lições dos incêndios de 2017" por Domingos Xavier Viegas

PREFÁCIO DO "DICIONÁRIO DOS ANTIS" (IMPRENSA NACIONAL)


DICIONÁRIO DOS ANTIS
APRESENTAÇÃO

Foi há sete anos. José Eduardo Franco estava em Paris e apresentou-me o seu projeto de fazer uma história dos antis, e da cultura em negativo que estes produziram. Dada a diversidade de domínios que teria de abordar, concluiu que só a forma de dicionário permitiria fazer justiça à amplitude desta questão. A ideia seduziu-me imediatamente e, olhando para trás, perguntei a mim próprio como era possível que tal projeto nunca tivesse sido realizado. Estava diante de um daqueles conceitos simples e evidentes que mudam o ângulo de interpretação de toda a evolução humana, mas de cuja eficácia ainda ninguém se tinha apercebido. Existem, com efeito, numerosas mobilizações e organizações que foram criadas unicamente para se oporem a uma opção política, a uma ideologia, a uma religião; ou simplesmente a uma lei, a um decreto; ou então a um espetáculo ou a uma moda. Existem mesmo gerações inteiras de movimentos de oposição que forjaram múltiplos vocábulos para assinalar a radicalidade do seu desacordo.

Para um historiador contemporâneo, surgem em primeiro lugar aqueles que se ergueram contra os princípios que mudaram a sociedade em que viviam: a contrarreforma, a contrarrevolução, que manifestam o desejo de bloquear movimentos de transformação que colocavam em perigo, segundo os seus promotores, o equilíbrio do mundo. Ora, os que eram contra esperavam uma erradicação completa desses processos destrutores.

No século xx, desenvolveram-se movimentos anti fortemente implicados no terreno ideológico e partidário. É a grande época dos anticomunistas, dos antifascistas, dos antimarxistas, dos antinazis, dos antimaçónicos... De tal modo que estes termos entraram na linguagem corrente e se tornaram tema de teses e de obras de investigação. Os antis têm como ponto comum serem simétricos e pressuporem que os seus adversários se manterão ativos durante muito tempo.

De algumas décadas a esta parte, houve um sufixo entrou na linguagem corrente para desqualificar um adversário: “fóbico”. Com os islamofóbicos, os homofóbicos e outros judeofóbicos, deixou de haver uma oposição racional; o que há é uma espécie de loucura, de doença mental, que obrigará à exclusão da sociedade dos “fanáticos” que fazem tais discursos. Estamos perante um testemunho vivo daquela eufemismização da violência pensada por Norbert Elias em Dans la Dinamyque de l’Occident, onde o pensador alemão profetizou, já nos anos de 1960, uma psicologização das relações sociais, que iria ao ponto de transformar o debate publico numa polémica clínica...

A originalidade do dicionário que o leitor tem entre mãos consiste em observar as práticas sociais de hoje e as suas representações em comportamentos e argumentações muito mais antigos. E porque não desde a aurora da humanidade? Vemos assim que os antis não constituem apenas uma história reduzida às oposições pontuais, mas uma história de cada século, de tal modo que cada geração escreve a sua própria redefinição intelectual e alimenta a criação de novas instituições para efeitos de contradição e afronta.

Em suma, José Eduardo Franco e os seus colegas mostram-nos, através dos antis, como se tem desdobrado uma dimensão negativa da cultura desde a Antiguidade. Prolongando o seu propósito, compreendemos que a crítica acabou por se tornar uma forma de arte: o confronto promove o saber-fazer, modela maneiras de pensar que constituem uma afirmação. Um olhar sobre o panorama dos antis permite observar as grandes questões da civilização ocidental e as tensões que subjazem aos seus enredos. As entradas sobre ateísmo e antiateísmo ilustram bem este perceção e lançam-nos na longa duração, demonstrando que a atitude de pôr em causa as crenças está relacionada com os sistemas religiosos de cada época.

O leitor pode usar este livro para tomar conhecimento dos verbetes saborosos que aguçam a sua curiosidade e navegar aleatoriamente na história; ou regalar-se, por assim dizer, lendo a entrada sobre anticarnivorismo (antiantropofagia); ou ficar admirado ao ver o antidonjuanismo impor-se como doutrina literária. As ilustrações pertinentes favorecem esta vagabundagem ao sabor do humor, entre retratos de personagens importantes e cenas inesperadas.

Mas este dicionário permite também uma leitura contínua, como quem lê um ensaio, repleto de uma série de curtos capítulos ricos em aproximações entre os valores e os acontecimentos.

Desta leitura, podem retirar-se duas conclusões fundamentais. A primeira é que o Dicionário dos Antis constitui uma verdadeira história pluridisciplinar de Portugal, através de cujas entradas se revisitam as grandes rotações do país: a reconquista, a afirmação do poder da monarquia, os movimentos eclesiásticos, nomeadamente os Jesuítas, seguidos das tensões coloniais e partidárias... Também se pode observar de que modo filósofos, historiadores, juristas e sociólogos contribuíram, ao lado dos escritores e juntamente com os políticos, para este movimento. As mudanças, até mesmo da língua portuguesa, encontram-se nas obras pioneiras que influenciaram o futuro do estilo académico e político. Por esta via, distingue-se claramente como se formaram as normas do bem crer, do bem pensar, do bem agir.

Em segundo lugar, a obra ilustra de forma notável a grande utilidade dos estudos globais aos quais se consagra a equipa responsável por este projeto. Ao longo das suas muitas páginas, este dicionário manifesta a extraordinária conexão de Portugal com a história do mundo: reencontramos os contactos aventurosos dos navegadores, bem como o desenvolvimento de uma esfera lusófona onde circulam as palavras e os discursos de oposição; viajantes e migrantes são os promotores de uma circulação transnacional das ideias que aparecem depois com grande vitalidade em Portugal, provindas de paradigmas imaginados noutros países. É o caso, por exemplo, do anticomunismo, cujas raízes remontam, no mundo ocidental, à luta contrarrevolucionária, que atingiu o seu cume após 1917; e do antifascismo, que, nascido em Itália em 1919, se transplantou em seguida, ao ritmo da radicalização europeia, para a península Ibérica.

No fundo, os antis não têm fronteiras. As bibliografias que concluem os artigos são a maior prova da variedade de referências e da diversidade da sua proveniência. O leitor constata de que modo os argumentos passam de um país a outro, ora alumiando um debate, ora relançando uma polémica, ora inspirando certas ondas intelectuais em movimento perpétuo.

Não há dúvida, por outro lado, de que o Dicionário dos Antis vai suscitar um vasto debate internacional. Não estamos em altura de denunciar este ou aquele grupo, mas de entrar no laboratório do pensamento dialético, que é uma maneira de estimular o espírito crítico quando o falso, o virtual e o verdadeiro se misturam; que é pôr em causa os erros conspirativos e as certezas abusivas deste mundo dividido entre manipulação e informação que se tornou o nosso.

Fabrice d’Almeida
Professor Catedrático da Universidade de Paris II, Panthéon-Assas
Antigo Diretor do Instituto de História do Tempo Presente de Paris

Paris, 14 de fevereiro de 2018

APRESENTAÇÃO DE "PORTUGAL CATÓLICO" AMANHÃ NO RÓMULO


segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

"Ciência e Arte, duas faces da cultura": hoje no Palacete Araújo Porto no Porto


O físico e professor universitário Carlos Fiolhais  o segundo orador convidado do ciclo "Conferências do Politécnico - Ciência, Educação, Cultura e Sociedade" A segunda edição das Conferências do Politécnico, Ciência, Educação, Cultura e Sociedade,  iniciativa da Presidência do Politécnico do Porto, realiza-se no dia 17 de dezembro,l 21h30, no Palacete Araújo Porto (Auditório D. Pedro IV) da Santa Casa da Misericórdia.  Depois de Alexandre Quintanilha inaugurar as conferências com uma comunicação subordinada ao tema O conhecimento como base da democracia, o físico e ensaísta Carlos Fiolhais é o próximo orador desafiado com uma palestra designada Ciência e Arte, duas faces da cultura. 

Carlos Fiolhais é um dos cientistas e divulgadores de ciência mais reconhecidos em Portugal. Doutorado pela Goethe-Universität Frankfurt, é autor de mais de 60 livros, entre obras de divulgação, livros pedagógicos e obras de história. 

As Conferências do Politécnico  apresentam-se como um espaço de diálogo entre múltiplos saberes, de partilha de conhecimento e de cruzamento de experiências distintivas nos domínios da ciência, da educação e da cultura em sociedade. Os conferencistas convidados são individualidades  reconhecidas, cuja intervenção no espaço público, no âmbito das temáticas, é unanimemente reconhecida. 

Em 2019 estão confirmados nomes de individualidades como João Paulo André, Luís Portela, Guilherme d'Oliveira Martins e Isabel Pires de Lima.

Por favor confirme a sua presença para conferencias@ipp.pt.

Anticientismo - Uma entrada do "Dicionário dos Antis"


Uma das minha entradas no "Dicionário dos Antis" (IMPRENSA NACIONAL):


O cientismo ou cientificismo é uma doutrina filosófica que teve origem em França no séc. xix (o termo original é scientisme), que defende o primado, para não dizer mesmo a exclusividade, da ciência empírica na aquisição de conhecimento. Segundo os seus adeptos, nada mais interessa ao entendimento que o ser humano faz do mundo do que as descrições fornecidas pela ciência dos fenómenos naturais. Nos alvores do séc. XXI, sem prejuízo do reconhecimento do papel relevante e, em alguns casos, único da ciência na descoberta do mundo, o cientismo é considerado uma visão dogmática e ultrapassada.


A ascensão da ciência deu-se no séc. xvii com a Revolução Científica, cujos nomes cimeiros foram o italiano Galileu Galilei e o inglês Isaac Newton, na física, e o inglês William Harvey, na medicina. No século das luzes, a ciência triunfou ao conseguir descrever o funcionamento do Universo por meio de leis universais: de facto, com a teoria de Newton conseguia-se ao mesmo tempo descrever os movimentos dos astros e dos objetos em queda na superfície da Terra. Apesar de Newton ter sido claramente um teísta, foi um seu seguidor, o matemático e astrónomo francês Pierre-Simon de Laplace, que,  no séc. xviii, veio a dispensar a hipótese de Deus no seu Tratado de Mecânica Celeste, o que significava que a ciência bastava para a explicação dos fenómenos naturais (sobre a origem do mundo, Laplace e o seu contemporâneo Emmanuel Kant conjeturaram, de forma independente, sobre a origem natural do sistema solar, afastando para mais longe a eventual intervenção divina). Deus não ficou completamente excluído da descrição e explicação do cosmo, mas tornou-se bem nítida a separação entre a área do mundo material, onde a numerosa e variada fenomenologia pode ser explicada pelos métodos da ciência, e a área do espírito.

Apesar da reação romântica, a ciência continuou o seu trajeto ascensional ao longo do séc. xix não só na física, com o desenvolvimento da termodinâmica e do electromagnetismo, mas também na química, separada da alquimia pelos trabalhos do francês Antoine-Laurent Lavoisier, ainda antes de o séc. xviii terminar, na biologia, com a Teoria da Evolução do naturalista inglês Charles Darwin, que integrou a espécie humana na gigantesca árvore da vida, e na geologia, com o reconhecimento de uma história lenta da Terra divulgada na obra do geólogo inglês Charles Lyell, substituindo a ideia de uma criação rápida, como o Génesis narra. Na medicina, triunfou no mesmo século o raciocínio hipotético-dedutivo graças ao médico francês Claude Bernard. Todos os ramos do conhecimento passaram, pois, a adotar o método científico, fundado na observação, na prática experimental e no raciocínio lógico-matemático. Por outro lado, a Revolução Industrial, iniciada com a invenção da máquina a vapor pelo escocês James Watt no séc. xviii, expandia-se rapidamente não só na Grã-Bretanha como na Europa do Norte, levando a economia a um caminho de crescimento extremamente rápido. Não admira que na filosofia se tenham afirmado as ideias inspiradas pela ciência conhecidas por positivismo, devidas principalmente ao sociólogo francês Auguste Comte. Algumas dessas ideias de inspiração científica chegaram à política, e procurou-se passar para a sociedade noções como a do evolucionismo, que tão boas provas tinham dado na biologia. A evolução era entendida como um movimento no sentido do progresso, uma noção que foi enfatizada pelo biólogo, sociólogo e filósofo inglês Herbert Spencer. E o progresso era desejável no governo dos povos.


Em Portugal, tal como no mundo ocidental em geral, foram grandes as expectativas no progresso da ciência, alicerçadas nos progressos da investigação científica e suas aplicações, e, por extensão, no progresso da sociedade. A ciência não se desenvolveu, porém, entre nós com o mesmo ritmo que no estrangeiro; chegou com o atraso provocado pela distância que vai do centro para a periferia, embora essa distância começasse a ser vencida por meios tecnológicos como o caminho de ferro e o telégrafo. A Revolução Industrial chegou a Portugal bastante tarde e, quando chegada, não conheceu aqui as proporções atingidas noutros países do Norte da Europa e da América do Norte. De qualquer modo, a criação de escolas politécnicas em Lisboa e da Academia Politécnica no Porto, em 1837, assim como, no mesmo ano, das escolas médico-cirúrgicas nas referidas cidades, reflete, nos tempos que se seguiram à Revolução Liberal de 1820, a vontade de uma melhor adaptação do ensino superior à sociedade em rápido desenvolvimento. A escola do Porto, em particular, soube cultivar uma boa relação com a Associação Industrial Portuense que, fundada em 1849  por um seu professor, o Eng. José Vitorino Damásio (que desenvolveu entre nós a rede do telégrafo eléctrico), e por um grupo de homens de negócios da região, deu depois lugar à Associação Empresarial de Portugal. . Já antes, em 1837, tinha sido fundada em Lisboa a Associação Industrial Portuguesa.

            A defesa do cientismo foi crescendo em Portugal ao longo do séc. xix, à medida que a visibilidade da ciência avançava na sociedade. O cientismo está ligado de perto ao positivismo, ao naturalismo e ao materialismo. O positivismo terá entrado no nosso país através dos professores de matemática de Escola Politécnica do Porto e de Lisboa. O principal defensor do positivismo foi, porém, um homem de letras, Teófilo Braga, formado em Direito em Coimbra mas mais tarde professor do Curso Superior de Letras de Lisboa, que, em 1878, fundou e dirigiu, com o médico Júlio de Matos, a revista O Positivismo. Foi membro do partido republicano e presidiu ao governo provisório que adveio logo após a Revolução de 5 de outubro de 1910, tendo em 1915 chegado, ainda que por pouco tempo, a Presidente da República. A ideia republicana desenvolveu-se em Portugal ao longo da segunda metade do séc. xix, muito assente em ideias científicas e ideias filosóficas baseadas na ciência.


Nomes grandes simultaneamente do movimento republicano e das ideologias positivista e naturalista foram dois médicos da área da psiquiatria: Miguel Bombarda, professor da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, e o já referido Júlio de Matos, da Escola Médico-Cirúrgica do Porto, embora depois se tenha transferido para Lisboa. O primeiro protagonizou uma famosa polémica com o padre jesuíta Manuel Fernandes Santana, que reflete bem o laicismo republicano. O confronto, que ficou conhecido como polémica entre ciência e religião, iniciou-se em 1897 com uma conferência de Bombarda, e continuou com um comentário do Jesuíta intitulado Evisceração da Consciência e Livre Arbítrio do Sr. Dr. Miguel Bombarda; após a publicação de Consciência e Livre Arbítrio, de Bombarda (1898), o sacerdote replicou com Materialismo em Face da Ciência (1899) e Curso de Religião: Apologetica, vol. i, Bases Científicas da Religião (1900). A polémica só terminou após a morte de Santana, quando Bombarda publicou A Ciência e o Jesuitismo – Réplica a um Padre Sábio (1900). Este confronto, que se revestiu amiúde de alguma agressividade (principalmente por parte de Bombarda), impregnou o cientismo português de um forte tom anticlerical (&Anticlericalismo). Assinale-se que o interesse dos Jesuítas por temas científicos cresceu logo no início do séc. xx, o que se manifestou pela criação do Colégio de S. Fiel, em Castelo Branco, em 1902, e pela fundação da revista Brotéria – Revista de Sciencias Naturaes, que continuava a publicar-se no começo do séc. xxi, embora com um teor mais cultural do que científico.
Mas houve outras reações contra o cientismo além das que vieram do lado da Igreja. Deve destacar-se o pensamento de Antero de Quental, o poeta e filósofo da Geração de 70 que, embora reconhecendo os méritos da ciência e admirando os progressos que ela conseguia, reconhecia a necessidade de uma exigência espiritual. Em Tendências Gerais da Filosofia na Segunda Metade do Século XIX (1890), Quental escrevia: “Esta concepção de Universo, resultado da elaboração científica de quatro séculos, aparece-nos como alguma coisa simples e grandiosa e, ao mesmo tempo, tenebrosa e desolada. É imensa e todavia falta-nos o ar. É que esta conceção não é um produto harmónico de todas as faculdades do espírito humano, mas somente o produto especial de algumas de certas [...]. Desta sua atitude em face da realidade resulta um ponto de vista limitado, o que quer dizer incompleto. É a experiência no seu máximo de organização, mas é sempre a experiência. A base do seu edifício é estreita: generaliza impressões e delas tira inferências, mas os resultados mais elaborados deste processo lá trazem sempre o cunho da origem, que é sensual”.


Semelhante rejeição do cientismo, sem ser acompanhada de inteira rejeição da ciência, ocorreu com o filósofo Sampaio Bruno, contemporâneo de Antero, segundo o qual a ciência não é antagónica do espírito, podendo ajudar na procura da verdade, mas está decididamente longe de satisfazer aos maiores desejos humanos. Estas ideias antimaterialistas (m;Antimaterialismo) e antipositivistas (m;Antipositivismo) renasceram na Primeira República, em 1912, com a chamada Renascença Portuguesa, um movimento filosófico-literário de pendor nacionalista e até sebastianista que integrou, entre outros, o poeta Teixeira de Pascoais, diretor da revista Águia, publicada no Porto, e o filósofo Leonardo Coimbra, que tentou conciliar de um modo bastante original ciência e espiritualidade na sua obra O Criacionismo (1912), tese do seu concurso para professor universitário, para a qual não obteve aprovação. Surgiram depois os seguidores do neopositivismo, inspirados pelo Círculo de Viena, criado nos anos 20, mas, como num novo balanço do pêndulo, logo irrompeu entre nós, em 1943, o movimento chamado da Filosofia Portuguesa, animado por Álvaro Ribeiro (o autor de O Problema da Filosofia Portuguesa, publicado nesse mesmo ano), José Marinho e António Quadros, com um claro pendor antipositivista, na esteira das ideias de Sampaio Bruno e Leonardo Coimbra. Aos valores da universalidade proporcionados pela ciência e pela modernidade, obtida com a ajuda da técnica, estes pensadores opunham outros valores: o nacionalismo e a tradição.


Ainda no quadro da filosofia, deve acrescentar-se que ideias pós-modernas como as que foram apresentadas pelo sociólogo Boaventura de Sousa Santos nos seus livros O Discurso sobre a Ciências (1987) e Introdução a uma Ciência Pós-Moderna (1989) constituem uma forte crítica à ciência moderna.


Do ponto de vista político, se a Primeira República se afirmou favorável à ciência, já o mesmo não se poderá dizer do Estado Novo, o regime que vigorou entre 1933 e 1974, sob a forte liderança, primeiro e na maior parte do tempo, de António de Oliveira Salazar e, depois, de Marcello Caetano. Só assim se poderão compreender as purgas que atingiram um grande número de cientistas portugueses antes e depois da Segunda Guerra Mundial, respetivamente em 1935 (Abel Salazar e Aurélio Quintanilha) e 1947 (Mário Silva e Ruy Luís Gomes, entre vários outros). Salazar, o professor de direito da Universidade de Coimbra que começou a sua carreira governativa em 1926 como ministro das Finanças, almejava um país rural, projetado em ideais históricos, como se viu em 1943, nas Comemorações do Duplo Centenário da Nacionalidade (fundação e restauração). Já Marcello Caetano, o professor de direito da Universidade de Lisboa e político que lhe sucedeu em 1968 na Presidência do Conselho de Ministros, reconhecia relevância à investigação científica, mas mais nas colónias e não tanto na metrópole. Escrevia ele nos anos 50, após ter ocupado o cargo de ministro das Colónias: “No Ministério da Educação Nacional, a investigação científica pode, na ordem das preocupações, ocupar o quarto, o quinto, o sexto lugar; no Ministério das Colónias trata-se de uma preocupação de primeiro plano”. Por sua vez, Alberto Franco Nogueira, ministro dos Negócios Estrangeiros de Salazar, afirmou em 1969: “Buscou-se na ciência e na técnica a resposta aos anseios insofridos. A ciência e a técnica, todavia, são monopólio dos povos ricos e altamente desenvolvidos”.


            Com a Revolução de 25 de abril de 1974, e mais ainda com a integração de Portugal na União Europeia em 1986, o anticientismo de cariz político desvaneceu-se. Quanto ao anticientismo de cariz religioso, já há muito tempo se havia desvanecido. No começo do séc. xxi, não era difícil reconhecer que o cientismo deixara de fazer sentido e que a ciência é uma dimensão do ser humano, tal como a política e a religião. E essas dimensões podem comprovadamente coexistir, influenciando-se mutuamente, mas sem ingerências nem preponderâncias despropositadas.


Bibliog.: BERNARDO, Luís Miguel, Cultura Científica em Portugal. Uma Perspectiva Histórica, Porto, Universidade do Porto Editorial, 2013; CATROGA, Fernando, O Republicanismo em Portugal. Da Formação ao 5 de Outubro de 1910, 2.ª ed., 2 vols., Lisboa, Editorial Notícias, 2001; Id.,Cientismo Político” e “Anticlericalismo”, in MATTOSO, José, História de Portugal, vol. V, Lisboa, Círculo de Leitores, 1993, pp. 583-593; QUENTAL, Antero de, Tendências Gerais da Filosofia na Segunda Metade do Século XIX, in QUENTAL, Antero de Obras Completas. Filosofia, org., introd. e notas Joel Serrão, Universidade dos Açores - Editorial Comunicação, 1991.
Carlos Fiolhais


"DICIONÁRIO DOS ANTIS" APRESENTADO EM COIMBRA

DICIONÁRIO DOS ANTIS
CULTURA PORTUGUESA EM NEGATIVO
2 vols.


Uma obra singular e inesperada sobre o poder dos estereótipos e os mecanismos  da formação das culturas e das mentalidades intolerantes

Lançamento: dia 19 de dezembro, 18h30, no Rómulo – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra. Apresentam: Fernando Catroga, José Pedro Paiva e Luísa Schmidt.


Sinopse

Esta é uma obra surpreendente e que pode surpreender os leitores pela dimensão e diversidade de olhares sobre o “lado negativo” da cultura portuguesa.

Esta obra apresenta um olhar diferente, um olhar sobre o avesso da cultura portuguesa em articulação com os dinamismos construtivos e disruptivos das suas congéneres internacionais.  Fomos habituados, na escola, a aprender fundamentalmente aquilo a que podemos chamar a cultura positiva, a visão afirmativa da história. Este dicionário, em contrapartida, propõe uma visão diametralmente oposta: uma viagem pelas correntes, as etnias, as religiões as instituições, as figuras a partir do olhar do adversário, de quem discordou, de quem atacou, de quem pensou o contrário.

Este Dicionário pretende, com efeito, apresentar o resultado da investigação e da análise crítica das correntes e dos discursos centrados com base na perceção negativa dos outros (o judeu, o padre, o inglês, o muçulmano, o comunista, o maçon, o castelhano...) na história de Portugal, desde os primórdios da nossa cultura e civilização até aos nossos dias. Esta abordagem permitirá compreender em que medida tais discursos criaram estereótipos e demonizaram diferenças. Trata-se de analisar a história da cultura numa espécie de imagem em negativo, para empregar uma metáfora fotográfica.

Este dicionário, com efeito, oferece-nos, entre outros contributos, um mapeamento de largo espectro, um repertório criticamente interpretado do poder os estereótipos e da sua capacidade de gerar culturas e mentalidades intolerantes, segregadoras, sectárias, exclusivas e excludentes.

Neste momento, está já em estado avançado de preparação uma versão brasileiras desta obra sob o título Dicionário dos Antis: A Cultura Brasileira em Negativo. Outras universidades e investigadores de outros países com quem temos trabalhado em torno deste tema estão a gizar obras semelhantes para ampliar este campo de investigação das Culturas em Negativo como via fundamental para a compreensão e desconstrução dos mecanismos que geram culturas e mentalidades intolerantes e como via para criar uma cultura mais esclarecida e consolidadora de sociedades livres, plurais e maduramente democráticas. Merece, com efeito, nota especial o facto deste ser um projeto de perfil interdisciplinar desenvolvido primeiramente em Portugal que está a suscitar interesse internacional, estando a sua matriz a ser adaptada para o desenvolvimento de estudos da herança cultural anti de outros países.



NO ANO DO FRANKENSTEIN: MINHAS DECLARAÇÕES À TSF SOBRE O LIVRO


https://www.tsf.pt/sociedade/ciencia-e-tecnologia/interior/limites-e-humanidade-frankenstein-tem-200-anos-mas-esta-mais-atual-do-que-nunca-10309050.html

CONVERSA COM O PRESIDENTE TEÓFILO BRAGA, EM TORNO DO POSITIVISMO DA AUGUSTE COMTE

Foi no Alto de São Bento, em Évora, uma colina essencialmente granítica, que a Autarquia está a valorizar como um núcleo museológico, envolvendo áreas do conhecimento que vão da Geologia à Etnografia, passando pela Arqueologia, pela Botânica e pela História.

O dia começara ameno, depois de uma daquelas raras noites tropicais que, lá de quando em vez, ocorrem em terras alentejanas. Não havia ninguém por perto, nem vento, e o silêncio só era quebrado aqui e ali pelo cantar de um passarinho.

Eu estava a ultimar a observação da superfície rochosa do topo deste pequeno relevo, onde no passado, cinco moinhos de vento transformaram cereal em farinha.

Fora a diversidade de elementos de natureza geológica, geomorfológica, petrográfica e mineralógica que me tinham levado a propor, à Autarquia, a musealização do local como um geossítio com interesse pedagógico e, eventualmente, turístico, a valorizar em conjunto com as valências citadas atrás.

Foi aqui que sentado numa pedra, junto a um dos moinhos em ruínas, vi um idoso de cabelos brancos, barbicha no queixo e bigode igualmente brancos.

Vestia uma roupa ao estilo de começos do século XX e o seu porte era distinto.

- Não me conheceis. – Disse, quando me aproximei. Sou uma simples aparição, como se fosse um holograma. Sou a memória do que fui em vida. Fiquei conhecido por Teófilo Braga, mas o meu nome completo era Joaquim Teófilo Fernandes Braga. Nasci em Ponta Delgada, a 24 de Fevereiro de 1843, e faleci em Lisboa, a 28 de Janeiro de 1924, aos 81 anos.
- Não. Sinceramente, não vos reconheci. Sei que fostes Presidente da República no período perturbado que se seguiu à queda da monarquia e, sobretudo, que fostes um intelectual de reconhecido mérito. A história recente de Portugal lembra-vos como um positivista.
- É verdade que em muitas das minhas preocupações literárias, filosóficas e políticas mostrei ser um positivista, na estricta linha de Auguste Comte, o grande filósofo francês, da primeira metade do século XIX. Como ele, acredito, sem qualquer sombra de dúvida, que o conhecimento científico é a única forma de conhecimento verdadeiro e, também como ele, rejeito liminarmente o sobrenatural e todo o tipo de crenças religiosas, crendices, mitos e lendas. O positivismo de Comte tem por base a realidade do mundo físico e a experimentação. Além disso, acrescenta-lhe uma componente ética, social e política. É este, pois, o meu positivismo.
- Posso dizer que o positivismo é, à partida, uma forma de materialismo?
- Sim, mas é mais do que isso. O materialismo advoga que todas as coisas são feitas de matéria e que todos os fenómenos são o resultado de interações materiais. O termo foi criado em começos do século XVIII, pelo filósofo alemão Gottfried Leibniz, mas a origem desta ideia é bem mais antiga. Temos de ir buscá-la aos filósofos gregos pré-socráticos, do século V a.C., Leucipo de Mileto e Demócrito de Abdera. Está mais próximo do Empirismo ou experimentalismo do franciscano Roger Bacon, o filósofo e alquimista inglês, do século XIII, lembrado como o “Doctor Mirabilis”. O positivismo de Comte é para mim e acima de tudo, uma doutrina filosófica, sociológica e política e foi com esta que, desde muito cedo, me identifiquei e que orientou toda a minha acção como homem e como político.
- Eu também rejeito liminarmente o sobrenatural é por isso que a vossa aparição, assim, como num sonho, contraria tudo o que penso sobre o mundo que me rodeia.
- Podemos partir da ideia que somos protagonistas de um sonho que a ficção consente, dando-me voz. Um sonho onde encarno a memória do que fui em vida e que, em parte, pode ser lida na história recente de Portugal.
- Daquilo que retive da disciplina de Filosofia, do Professor Piedade Morais, no meu 7.º ano do Liceu, há cerca de 70 anos, Auguste Comte foi também um matemático, mas foi como filósofo que ganhou desenvolvimento e seguidores na Europa, na segunda metade do século XIX e começo do XX. Mas desculpai a interrupção, senhor Presidente. Queira continuar.
- Conhecedor das crises social e moral de finais da Idade Média e perante o desabrochar da sociedade industrial, Comte partiu do Iluminismo e dos ideais da Revolução francesa e desenvolveu-os numa vertente essencialmente sociológica, em que associou conhecimento científico e ética, com radical afastamento de preocupações teológicas e metafísicas.
- A evolução do pensamento, seja ele científico ou filosófico é como uma escada. De um degrau se sobe a outro e é assim até onde se queira.
- Exacto. Para não ir mais longe na nossa procura, partamos do degrau do iluminismo que, como sabemos, tem abaixo deles muitos outros. Entre os mais próximos lembremos, no século XVII, o pensamento racionalista do francês René Descartes, o criticismo bíblico do holandês, nascido de uma família de judeus portugueses, Bento Espinoza, o materialismo do filósofo e matemático alemão Gottfried Leibniz e da abertura ao método científico moderno, protagonizado por Galileu Galilei, em Itália, e por Isac Newton, em Inglaterra. Valia a pena desenvolver, não só cada uma destas contribuições filosóficas e científicas, como muitas outras que as antecederam. Podemos deixá-las para uma próxima conversa.
- Parece-me uma boa ideia, mas, voltando ao iluminismo, julgo saber, senhor Presidente, que começou por ser um movimento, a um tempo, filosófico, social, político, económico, científico e cultural de uma elite intelectual europeia do século XVIII.
- Sim, um movimento que, diga-se, saiu dos salões para a rua e que “explodiu” com a Revolução Francesa, quanto a mim, um dos acontecimentos mais importantes da História da humanidade. Retornando agora ao nosso tema inicial, estou convicto que o conhecimento científico é a única forma de conhecer a verdade do mundo real. E daí a minha preocupação, como cidadão e como político, pela instrução pública. No meu tempo falava-se, e bem, em Ministério da Instrução, um nome bem mais consentâneo com a realidade, do que o actual Ministério da Educação, triste reminiscência do defunto Estado Novo. A educação começa e continua em casa. A escola foi feita para ensinar ou instruir. Pode participar na educação, mas a sua função primeira é ensinar.
- Quer Auguste Comte, quer o filósofo inglês de Stuart Mill, um pouco mais recente, só aceitavam uma teoria como verdadeira se ela fosse comprovada através de métodos científicos válidos, onde a experiência estivesse sempre presente. Poderemos, então, dizer que esta afirmação podia ser atribuída a Roger Bacon, o alquimista inglês do século XIII, atrás referido?
- Convenhamos que sim. É, com efeito, uma afirmação que pressupõe o primado do experimentalismo.
- Ou seja, o empirismo baconiano transportado para os acuais laboratórios científicos.
- Exacto. As crenças, superstição ou quaisquer outras ideias que não possam ser comprovadas cientificamente, são radicalmente excluídas do pensamento positivista. O positivista observa a realidade material, ou seja, o mundo físico e, com base na experiência sensível e nos dados concretos obtidos, produz conhecimento científico. A subjectividade não tem aqui qualquer lugar.
- É, afinal, o que se passa hoje com a investigação científica.
- Como positivista, sempre acreditei que o progresso da sociedade humana depende exclusivamente dos avanços científicos que for conseguindo.
- É nessa media que os países mais desenvolvidos são aqueles que mais apoiaram a investigação científica.
- Acrescentarei, por último, que o positivismo foi a recusa absoluta ao idealismo transcendental do filósofo alemão do século XVIII, Immanuel Kant. Afastou-se do romantismo, surgido na mesma época, cuja visão do mundo era contrária ao racionalismo e ao iluminismo.. Substituiu o culto a Deus pelo culto à ciência, o mundo espiritual pelo mundo humano, o espírito pela matéria.
- Sei, pela História e confirmo, agora, pela nossa conversa, que sois filósofo.
- Digamos que sim. De facto, escrevi bastante sobre filosofia, fortemente influenciada pelo positivismo, sobretudo, quando já a residir em Lisboa. Cheguei, mesmo, a fundar, em 1878, e dirigir, com o meu cunhado Júlio de Matos a revista “O Positivismo”.
- O vosso positivismo é, certamente, o de Auguste Comte. Digo isto, porque há outros.
- Há outros, de facto, mas nada têm a ver com o original. Só conservam o nome mas referem outras correntes de pensamento. Estou a lembrar-me do positivismo jurídico, do filósofo e político austríaco Hans Kelsen, e do positivismo lógico do “Wiener Kreis” (Círculo de Viena).
- Lembro-me que há, todavia, uma componente mística no positivismo de Comte, que o tempo já me varreu da memória,.
- Há e bem definida. Vale a pena determo-nos um pouco neste capítulo, verdadeiramente interessante, da sua filosofia. Para ele, as religiões em geral, as que conhecemos e muitas outras, eram apenas formas provisórias da única e verdadeira – a “Religião da Humanidade” - ligada a um novo conceito, o do “Ser Supremo”, entendido como sendo a Humanidade no seu todo, que alguns referem por “Grão Ser” dos positivistas. Comte aceitava-a e defendia-a como sendo a religião positiva e caracterizava-a, não pelo sobrenatural implícito na ideia clássica de Deus, mas sim pela busca da unidade moral entre os homens.
- Quer isso dizer que tem um fundamento ético apreciável?
- Certamente e é esse o aspecto mais interessante e positivo do positivismo. Esta religião tem, de facto, como primeiro objectivo, a regeneração social e moral da humanidade, servindo-se da verdade científica para o estabelecimento da referida unidade. Assim como a Religião Cristã está fundamentada nas sagradas escrituras, a Religião da Humanidade tem por base a ciência e envolve o conjunto dos seres de todas as gerações, passadas, presentes e futuras, que contribuíram, contribuem e contribuirão para o desenvolvimento e aperfeiçoamento humano.
- Um objectivo, diga-se, ainda muito longe de alcançar. Sei que devemos a Comte a palavra "altruísmo".
- É uma só palavra mas que resume o ideal da religião positivista, uma religião do “amor”, a “ordem” e do “progresso" e que tem por preceitos viver às claras, na transparência e para os outros. O positivismo deu-me imensa força em momentos difíceis da minha vida. Quando, em 1880, no interior do Partido Republicano e em colaboração com Ramalho Ortigão, organizei as comemorações do Tricentenário de Camões, tive em mente substituir o culto a Deus e aos santos pelo culto aos grandes Homens.
- Mas não vos ficastes pela filosofia?!
(continua)
A. Galopim de Carvalho

domingo, 16 de dezembro de 2018

NOVOS CLASSICA DIGITALIA

Os Classica Digitalia têm o gosto de anunciar 2 novas publicações, com chancela editorial da Imprensa da Universidade de Coimbra. Todos os volumes dos Classica Digitalia são editados em formato tradicional de papel e também na biblioteca digital, em acesso aberto.

Além do usual circuito de distribuição da IUC, a versão impressa das novas publicações encontra-se disponível em todas as lojas Amazon.

NOVIDADES EDITORIAIS

Série “Humanitas - Supplementum " [Estudos]

Carmen Soares, José Luís Brandão & Pedro C. Carvalho (coords.), História Antiga: Relações Interdisciplinares. Fontes, Artes, Filosofia, Política, Religião e Receção (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2018). 421 p.

 - Carmen Soares, José Luís Brandão & Pedro C. Carvalho (coords.), História Antiga: Relações Interdisciplinares. Paisagens Urbanas, Rurais & Sociais (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2018). 463 p.

[O estudo da História Antiga é um processo que envolve diversas áreas do saber, variados métodos, diversos tipos de fontes e que implica, por vezes, comparações com outras civilizações da antiguidade ou de outras épocas. Os textos historiográficos suscitam uma metódica crítica na qual entram os dados da arqueologia, mas também da literatura, e, dentro desta, do teatro, da retórica, dos diálogos e dos tratados específicos das várias disciplinas. Como reflexo de tal multidisciplinaridade, nestes dois volumes compila-se uma série de textos em que a História Antiga entra em diálogo com outras áreas temáticas, a saber: hermenêutica das fontes, literatura e artes, retórica política, filosofia, religião e receção da História Antiga na modernidade.]

Visite o catálogo completo dos Classica Digitalia.  

"FITescola": poupar em saúde e encontrar atletas de sucesso

No mês passado, no âmbito da Web Summit, que aconteceu em Lisboa, uma empresa internacional de "telecomunicações, conteúdos, media, entretenimento e publicidade, fundada e liderada por [um] bilionário" e com uma forte presença na Europa, incluindo Portugal, promoveu uma conferência "dedicada ao futuro das crianças".

Aí foi apresentada uma plataforma integrada no designado "Programa dos Alunos Ativos:
FITescola", lançado em 2016 e destinado a avaliar, no âmbito da Educação Física, a aptidão e a actividade física dos alunos do ensino básico e secundário bem como promover estilos de vida saudáveis.

São parceiros, agora, a mencionada empresa, uma universidade portuguesa e o ministério da educação de Portugal. De resto, foi o actual Ministro (na fotografia ao lado, muito sintomaticamente com o logótipo da empresa em pano de fundo) que anunciou tal plataforma numa sessão do evento designada por “Igualdade de (Oportunidades – Tecnologia ao serviço da Educação”. São também parceiros a Sociedade Portuguesa de Educação Física (SPEF) e o Conselho Nacional de Associações de Professores de Educação Física e Desporto (CNAPEF).

Os dados recolhidos pelos professores da dita disciplina, com base em instruções específicas, são introduzidos por eles na plataforma. Caso os encarregados de educação dêem autorização por escrito às escolas, tais dados, depois de tratados, terão dois usos:
1) Serão disponibilizadas informações aos professores relativas a cada turma e a cada aluno (situando-os na zona saudável, na zona precisa de melhoria ou na zona atlética). Serão também disponibilizadas informações às famílias sobre os seus educandos, facultando-lhe "dicas" (e alimentação, de auto-conhecimento, desportivas, etc.) que se dizem concorrer para "uma vida mais saudável".
2) Encaminhamento para o Comité Olímpico Português, que "sinalizará" (sic) e "aconselhará" (sic) os alunos mais promissores para terem sucesso em competições internacionais.
Entretanto, à semelhança de diversos outros programas (de educação financeira, para o empreendedorismo, para a saúde, para a sexualidade, etc, etc, etc.), que assentam na declarada boa intenção de salvar todas as verdes almas de todos os males terrenos, também este tem promovido, com a força institucional e financeira que se lhe percebe, uma multiplicidade de eventos: acções junto das escolas (na forma de road show), formação de professores (na forma de oficina de formação), encontros de tipo científico (na forma de simpósios e de congressos), etc. Não faltam, claro está, instruções para os professores realizarem as  mediçõesmateriais para conduzirem as suas actividades de ensino.

Aqui está um programa criado numa perspectiva altruísta, a pensar única e exclusivamente no bem das crianças e dos jovens, pensará o leitor. Bom... ainda que fosse essa a única intenção, ela não justificaria, de modo algum, os meios (agentes externos ao sistema educativo implicados, recolha de dados sensíveis de menores, intrusão na esfera da família, intrusão na esfera de trabalho do professor, etc.). Mas não é só nem principalmente isso que está em causa: além da tentativa de descobrir "o próximo campeão olímpico" há gastos em saúde (de  "900 milhões de euros por ano”, disse o actual ministro da Educação), que é preciso reduzir.

Ver notícias aquiaqui, aqui, aqui.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Apresentação do livro "Visão, olhos e crenças"

Certeza e incerteza, objectividade e subjectividade

Meu texto no vol. XII de "Ética Aplicada" (Edições 70), sobre "Investigação Científica", coordenado por Maria do Céu Patrão Neves e Maria da Graça Carvalho:

A ciência, que está por todo o lado nas nossas vidas, goza de uma aura de indisputabilidade. Ouve-se muitas vezes dizer que certa afirmação «foi provada pela ciência», ou que «é baseada em evidência científica». Associa-se à certeza e à objectividade. Como a certeza e a objectividade são virtudes epistémicas, a ciência detém um enorme poder social, o poder, em muitos casos, de fechar uma discussão. As relações entre ciência, certeza e objectividade, embora íntimas, não dispensam uma análise cuidada. Convém começar por definir o que são a ciência, a certeza e a objectividade (e, em contraste, o que são a não ciência, a incerteza e a subjectividade) para melhor compreender o real poder da ciência e as suas limitações.

Dado que a ciência tem um percurso histórico, que eclode de um modo muito nítido com a Revolução Científica nos séculos XVI e XVII, a consideração da história da ciência (e, ligada a esta, da fi osofi a da ciência) é muito útil para se perceber melhor a relação da ciência com os conceitos que aqui nos
interessam. Ensaiaremos uma análise dos conceitos de ciência, certeza e objectividade, numa perspectiva histórica, que inclui exemplos ilustrativos. Esta análise interessa à ética: a ciência
deve submeter-se à ética, cujos princípios estão para além da ciência, e quebras éticas acontecem quando é oferecido como ciência aquilo que o não é, o que não raro sucede quando existem falhas no apuramento da certeza e no uso da objectividade. Tem pois a ver com a ética a destrinça epistemológica que aqui se apresenta sumariamente entre ciência e não ciência, certeza e incerteza, e objectividade e subjectividade.

O que é a ciência?

O termo «ciência» designa, por um lado, um conjunto de conhecimentos que o ser humano possui sobre o mundo ou Natureza (ao qual ele próprio pertence, pelo que o homem pode ser objecto da ciência) e, por outro lado, o  método, o chamado método científico, que permite acrescentar
conhecimento ao já existente. Os dois significados estão ligados, uma vez que não poderá haver novo conhecimento sem aplicação do método referido.

Como o método científico permite alargar o nosso conhecimento do mundo, é natural defender que o segundo significado de ciência – a ciência como método de conhecer – é mais relevante do que o primeiro – a ciência como corpo de conhecimentos. Com efeito, a ciência é mais um método, que
continua a ser usado por ter dado até aqui muito bons resultados, do que um conjunto de conhecimentos, que são e serão susceptíveis de revisão. Lamentavelmente, esta valorização
nem sempre é feita no ensino e, mais em geral, na comunicação da ciência. Quem considerar os conhecimentos da ciência inabaláveis estará a menosprezar o método científico, que tem o grande poder de continuar a questionar a realidade. A ciência não é um conjunto de dogmas acriticamente aceites, como encontramos nas religiões, mas o continuado esforço humano para compreender o mundo, um esforço que tem sido bem-sucedido, pelo que podemos esperar que continue a
sê-lo. Há coisas que sabemos bem, há coisas que sabemos mal e esperamos vir a saber melhor e há coisas que simplesmente não sabemos, mas que esperamos vir um dia a saber. O nosso actual corpo de conhecimentos será, certamente, revisto e alargado no futuro.

O método científico iniciou-se com a Revolução Científica, que se deu como foi dito nos séculos XVI e XVII. Pode-se falar de ciência anterior, mas o método estabeleceu uma «nova ciência», que deu frutos extraordinários. Entre as obras marcantes dessa época estão duas do físico Galileu Galilei Mensageiro das Estrelas, de  1610, em que o autor descreve as suas primeiras observações
dos céus com o telescópio revelando novos fenómenos, e Diálogos e Demonstrações Matemáticas Acerca de Duas Novas Ciências, mais conhecido por Duas Novas Ciências, de 1638, em que descreve as experiências de queda dos corpos que realizou com a ajuda de um plano inclinado. As suas conclusões opunham-se claramente ao que se conhecia nessa época. Escreveu, em Duas Novas Ciências: «Não existe nada, na Natureza, anterior ao movimento, a respeito do qual os livros escritos pelos filósofos não são nem pouco numerosos nem pequenos. Mesmo assim, descobri através de experiências algumas propriedades notáveis e que até agora não foram observadas nem demonstradas.»

Em que consiste então o método científico, inaugurado pelos trabalhos de Galileu? Tratava-se de um novo modo de apurar a verdade a respeito de um certo assunto, entendendo-se por verdade a correspondência com a realidade. Nesse modo, a observação e a experiência desempenham um papel
fulcral. Não é fácil definir esse método, até porque existe uma grande variedade de situações no trabalho dos cientistas (variedade essa que resulta das grandes diferenças de objectos de estudo, que podem ir dos movimentos nos céus ou na Terra à psicologia e à sociologia), mas, esquematicamente, pode dizer-se que segue na maior parte dos casos, desde os trabalhos pioneiros de Galileu, três etapas:

1 – formulação de uma hipótese ou ideia sobre o funcionamento do mundo;
2 – observação e/ou experimentação, com controlo das variáveis  que possam afectar os resultados, as duas acompanhadas pelo raciocínio lógico;
3 – eventual confirmação da hipótese, que assim se pode transformar em lei, e sua comunicação à comunidade científica procurando um consenso. As leis são integradas em teorias mais gerais, e umas e outras só poderão ser descartadas perante novas observações, experimentações ou raciocínios.

Só se descobre o mundo a partir de alguma ideia prévia: a hipótese. Esta hipótese pode ser, simplesmente, como no caso da queda dos corpos, a rejeição de uma ideia que vinha da Antiguidade. Na hipótese, há um «salto mental», um «pulo» da imaginação, uma intuição criadora, pelo que é difícil apresentar para ela uma descrição genérica. A história tem, porém, ensinado que certos critérios gerais, como os da simplicidade e da beleza, são bons pontos de partida no processo de investigação científica. Esses dois conceitos estão associados de perto à matemática. A matemática revelou-se, de facto, necessária à formulação das leis naturais. Galileu escreveu no seu livro
O Ensaiador, de 1623:  «A filosofia encontra-se escrita neste grande livro que continuamente se abre perante nossos olhos – dito é o Universo –, que não se pode compreender antes de entender a língua e conhecer os caracteres com os quais está escrito. Ele está escrito em língua matemática, os caracteres são triângulos, circunferências e outras figuras geométricas, sem cujos meios é impossível entender humanamente as palavras; sem eles nós vagamos perdidos dentro de um obscuro labirinto.»

Mas o que são as leis naturais? Essas leis exprimem regularidades no funcionamento do mundo: de facto, as observações indicam que o nosso mundo segue uma certa ordem, quer dizer, não é «esquizofrénico», portando-se nas mesmas condições ora de uma maneira ora de outra. As leis naturais relacionam factos observados, integrando-os num enunciado de validade geral: por exemplo, todos os corpos caem para a Terra, como se sabe desde tempos imemoriais. Mas a observação rigorosa conjugada com o raciocínio levou Galileu a uma conclusão mais precisa contida na Lei da Queda dos Graves: descontado o efeito da resistência do ar, todos os corpos, colocados nas
mesmas condições, caem exactamente da mesma maneira. Reconhece-se aqui uma unidade na diversidade. Conhecendo a posição e a velocidade inicial de um corpo, podemos saber o seu movimento futuro. Um corpo, não importando a sua constituição e tamanho, largado na vertical, no vazio, cai ao longo de uma linha recta aumentando a sua velocidade na proporção directa do tempo decorrido. Neste exemplo, a linguagem matemática está patente em expressões como «linha recta» e «proporção directa». Se estivermos confrontados com um caso em que essa lei pareça não funcionar, deveremos examinar com cuidado se se está ou não nas mesmas circunstâncias, uma vez que as leis naturais são absolutamente prescritivas: não admitem violações. Se houvesse uma violação, a lei teria de ser substituída por outra.

O físico Isaac Newton, baseando-se nas conclusões de Galileu, propôs uma lei mais geral do movimento: a aceleração, ou taxa de variação da velocidade, é directamente proporcional à força aplicada (Segunda Lei de Newton), um enunciado contido nos Princípios Matemáticos da Filosofia
Natural, de 1687. Serve este caso para mostrar uma característica essencial da ciência: ela é cumulativa, isto é, o novo conhecimento tem de encaixar no anterior; neste caso passou-se de uma lei particular para uma lei geral que engloba a que existia, e permite uma aplicação maior, como,
por exemplo, a descrição do movimento da Lua em volta da Terra. Quando se junta novo conhecimento ao antigo, embora possa haver um reajustamento de um ou de outro aspecto, a parte mais substancial do conhecimento anterior deve permanecer. Ao contrário do que muitas vezes se pensa, em ciência o novo respeita sempre o velho, pelo que a ciência exige um processo de aprendizagem do que se sabe além da aprendizagem do modo de saber. Uma anedota ilustra
esta afirmação. O imperador da Prússia Frederico IV, numa visita que fez no século XIX ao Observatório de Bona, perguntou ao astrónomo-mor Friedrich Argelander: «Então, o que há de novo nos céus?» O seu interlocutor respondeu sabiamente: «Será que Vossa Majestade já conhece o que há de velho?» É por haver necessidade de conhecer o velho para alcançar o novo que se fala em evolução ou, se se quiser, em progresso da ciência.

Newton usou uma bela metáfora para referir que o trabalho da ciência é continuado: «Se consegui ver mais longe, é porque estava aos ombros de gigantes.» Pode subentender-se que se referia aos «gigantes» que o antecederam, não só Galileu, que usou o telescópio para observar os céus ou a experiência do plano inclinado para obter a Lei da Queda dos Graves, mas também o astrónomo seu contemporâneo Johannes Kepler, que estudou os movimentos dos astros nos céus, obtendo para eles leis de expressão matemática. A junção dos dois tipos de informação – a que resulta da experimentação na Terra e a que provém da observação dos céus – permitiu a Newton uma descrição unificada (este é um bom exemplo de aplicação na ciência do critério de simplicidade!) dos fenómenos da Terra e do céu: precisamente a Lei da Gravitação Universal, mais uma vez de expressão matemática, que descreve a força de atracção entre quaisquer corpos.

No início do século XX, outro físico, Albert Einstein, sem prejudicar a validade da Lei da Gravitação Universal no domínio dos objectos com pequenas massas, formulou, num golpe de génio, uma nova teoria da gravitação: a Teoria da Relatividade Geral, segundo a qual a gravitação é o encurvamento do espaço e do tempo causado pela presença da matéria e energia. A nova teoria permitiu mais tarde englobar a descrição de fenómenos cósmicos, como o Big Bang e os buracos negros, aos quais a teoria de Newton manifestamente não se aplica. Usando o dito newtoniano, também Einstein subiu aos ombros de gigantes, elevando a «pirâmide humana». As leis de Galileu, Kepler, Newton e Einstein encaixam-se perfeitamente umas nas outras, formando um edifício coerente. Não aconteceu até à data, mas tudo leva a crer que alguém, um dia, subirá aos ombros de Einstein para ver ainda mais longe.

Uma boa teoria científica não descreve apenas o que se conhece, mas deve também ter um carácter preditivo: deve permitir prever fenómenos ainda não observados, servindo a respectiva observação para confirmar a teoria. Foi o que aconteceu de forma notável com a teoria de Newton, que permitiu, em 1846, a descoberta, só por meio de cálculos, de Neptuno, um novo planeta. No quadro da Teoria da Relatividade Geral, Einstein previu, em 1915, que a luz devia encurvar-se ao passar perto de um astro. Assim, uma estrela que enviasse raios rasantes ao Sol seria, durante um eclipse solar, observada numa posição desviada da sua posição usual. A observação de um eclipse total do Sol em 1919, no Norte do Brasil e na ilha do Príncipe, permitiu confirmar a teoria einsteiniana. Quando perguntaram ao sábio o que teria sucedido se essa confirmação não tivesse acontecido, ele respondeu: «Nesse caso eu teria pena do pobre Deus. A teoria está mesmo certa.» O êxito de Einstein espalhou-se logo. O Times de Londres titulou: «Revolução na ciência. Nova teoria do Universo.» De facto, a revolução  não punha Newton de lado, simplesmente ia mais longe do que ele tinha chegado. Na Royal Astronomical Society britânica, o retrato de Einstein passou a figurar ao lado do de Newton, não o substituindo.

 Será que vamos saber mais? Essa é a nossa esperança, bem justificada pela história da ciência. Einstein escreveu (numa carta de 1936, incluída no livro de Max JAMMER Einstein e a Religião: Física e Teologia): «Temos de admitir que o nosso conhecimento actual das leis é apenas uma obra incompleta, de modo que, em última instância, a crença na existência de leis fundamentais também se apoia numa espécie de fé. Seja como for, essa fé tem sido amplamente justificada pelo progresso na ciência.»

 Um elemento muito importante do método científico, presente tanto em Galileu e Newton como em Einstein, é a comunicação aos peers (pares), mas, mais em geral, à sociedade, dos resultados da investigação. Como vários cérebros pensam melhor do que um só, as observações e experiências devem ser repetidas para verificar se há ou não confirmação dos resultados anunciados. Por outras palavras, um dos maiores recursos do método científico é a peer review (revisão pelos pares), um processo que, não sendo perfeito, pelo menos permite corrigir alguns dos erros cometidos por indivíduos ou grupos.

 Existem várias actividades humanas além da ciência, por exemplo a arte, a religião ou a ética. É por isso normal que se façam afirmações que não possam ser consideradas científicas por não resultarem da aplicação do método científico. A arte, a religião ou a ética não têm pretensões científicas, não desejando competir com a ciência. Mas há quem pretenda fazer ciência sem o fazer efectivamente. Falamos de pseudociência quando a não ciência se tenta disfarçar de ciência. Pseudociência é qualquer tipo de informação ou actividade que se diz baseada em factos científicos e fundamentada pelo método científico, que pode até usar a linguagem científica, mas que não usa factos científicos correctos ou que não resulta do bom uso do método científico. A pseudociência está eivada de erros, que ela própria não corrige, ao contrário da ciência, que possui a virtualidade de corrigir eventuais erros pelo bom uso do método científico.

Verdade e erro 

Falemos de erro, que, segundo o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, é a «acção de actuar, proceder de forma incorrecta». Ouve-se muitas vezes dizer que a ciência procura a verdade. Essa afirmação remete para a definição de verdade, que, segundo o mesmo dicionário, é a «adequação do pensamento ou da sua expressão aos factos ou conhecimentos que se pretendem exprimir = exactidão, justeza ≠ erro, ilusão, mentira».

 A teoria do conhecimento ou epistemologia é um capítulo importante da filosofia. Não é aqui o lugar para entrar na longa discussão sobre o que é o conhecimento, bastando lembrar que, logo no tempo de Galileu, a filosofia da ciência começou a ser debatida com contributos como os que foram dados pelo jurista e filósofo Francis Bacon e pelo matemático, físico e filósofo René Descartes. Aceitando como marca de verdade a «adequação do pensamento aos factos», consideramos verdadeiras as afirmações que surgiram por aplicação do método científico, como a Lei da Queda dos Graves, a Segunda Lei de Newton, a Lei da Gravitação Universal e a descrição da gravidade pela Teoria da Relatividade Geral, embora umas tenham maior generalidade ou maior grau de precisão do que outras. Mas não podemos dizer que sejam absolutamente verdadeiras todas as afirmações científicas, essas ou quaisquer outras que conhecemos actualmente, pois a aplicação do método científico poderá no futuro trazer novidades. Podemos apenas dizer que, no quadro da sua validade, essas proposições são verdadeiras tanto quanto sabemos, por terem sido confirmadas pela pluralidade de observações realizadas.

Podemos aspirar à verdade e procurá-la com afinco, no sentido de buscar descrições da Natureza que se ajustem cada vez melhor a esta. Partindo do princípio de que a investigação científica será infindável, a ciência não será tanto a procura da verdade última, uma meta inalcançável, mas sim a procura do erro. Poderá ser impossível encontrar a verdade absoluta, mas já é possível encontrar um erro numa certa afirmação, entendendo- se por erro o desajuste entre uma certa afirmação e a realidade a que ela se refere. Em numerosos casos de interesse prático, é relativamente fácil reconhecer um erro quando uma nova observação, experiência ou raciocínio contradizem o que se julgava saber. Basta que apareça uma discrepância observacional, experimental ou lógica relativamente a uma lei científica para ela ter de ser revista.

O filósofo Karl Popper colocou a ênfase da sua filosofia precisamente no erro. Na sua visão, partilhada pela maioria dos cientistas contemporâneos (mas que tem sido naturalmente sujeita a críticas, como por exemplo as de Thomas Kuhn e Paul Feyerabend), a ciência não pode aspirar a verdades absolutas, sendo antes um meio para reduzir a nossa incerteza a respeito do mundo natural. POPPER escreveu, na sua obra Lógica da Pesquisa Científica (original de 1935): «na medida em que um enunciado científico fala sobre a realidade, tem de ser falseável; se não for, não fala sobre a realidade». E o que vem a ser um enunciado «falseável»? Segundo o mesmo filósofo, sê-lo-á se for possível mostrar que ele é falso ou se for possível refutá-lo recorrendo a rigorosos testes empíricos. POPPER acrescentou no seu livro Conjecturas e Refutações (original de 1963): «A história da ciência, como a história de todas as ideias humanas, é feita de sonhos irresponsáveis, de erros e obstinação. Mas a ciência é uma das poucas actividades humanas, talvez a única, em que os erros são criticados sistematicamente, inclusive corrigidos e valorizados. Em razão disso é que neste campo da actividade humana aprende-se muitas vezes com os erros podendo-se falar com clareza e sensatez em progresso científico.»

 Não existindo verdades absolutas, é óbvio que algumas afirmações da ciência são mais verdadeiras ou mais certas do que outras. Por exemplo, ninguém pode hoje duvidar de que os corpos caem para a Terra seguindo a Lei da Queda dos Graves, nem que o movimento dos corpos à superfície da Terra ou em volta da Terra é regulado pela Segunda Lei de Newton conjugada com a Lei da Gravitação Universal. Tal acontece porque, independentemente dos refinamentos devidos a Einstein (que não têm interesse prático na maioria das situações correntes), todas as observações e experiências realizadas até agora confirmaram as conclusões de Galileu e Newton dentro dos d

 No chamado «método dedutivo de prova» de Popper, parte- se de uma hipótese para uma prova empírica, passando pelas consequências lógicas que se podem extrair dela. O trabalho do cientista consiste em extrair inferências lógicas da sua conjectura inicial. Nessa prova, os testes empíricos, isto é, o confronto das previsões com a realidade, são fulcrais. Se uma ideia resistir a testes efectuados por um certo grupo de investigação, ela será suficientemente robusta para ser submetida à consideração da comunidade científica. Um único trabalho científico não é suficiente: para assegurar a sua validade, é necessário que seja confirmada por outros. A prova em ciência tem semelhanças com a prova em direito: em ciência, tenta convencer-se  a comunidade científica da validade de uma certa afirmação; em direito, a prova é o meio de convencer o juiz ou um júri dos factos em julgamento, que são apresentados pelas partes em litígio. Mas devemos lembrar que, segundo Popper, nas ciências empíricas, as provas não existem, se entendermos por prova um argumento que estabeleça de uma vez por todas a verdade de uma teoria. A Natureza é o «juiz supremo» e ela pode vir a proferir nova sentença. A propósito da metáfora jurídica, convém lembrar as palavras de Einstein, incluídas no livro de Helen DUKAS e Banesh HOFFMANN Albert Einstein, O Lado Humano: «O teórico da ciência não deve ser invejado. Uma vez que a Natureza, ou mais exactamente a experiência, é um juiz inexorável e não muito amigável do seu trabalho. Nunca diz “Sim” a uma teoria. Nos casos mais favoráveis, diz “Talvez” e, na grande maioria dos casos, diz simplesmente “Não”. Se uma experiência concorda com uma teoria, significa “Talvez”, e se não concordar, significa “Não”. Provavelmente toda teoria irá um dia experimentar o seu “Não” – a maioria das teorias, não muito depois da sua concepção.»

 O método científico foi criado e aperfeiçoado para que a missão da ciência pudesse ser cumprida da maneira mais eficaz possível, isto é, para que pudéssemos encontrar e corrigir o maior número de erros no nosso conhecimento do mundo. Ao longo da história da ciência, os cientistas sempre tentaram encontrar e corrigir erros nas descrições que iam fazendo. Eles são, por isso, muito sensíveis a erros, sabendo que a verdade só pode ser alcançada de uma forma progressiva e, portanto, sempre limitada. Uma verdade é sempre provisória.

Errar é humano. Decerto os cientistas são seres humanos e as suas ideias ou actos podem sofrer influências que prejudiquem a aplicação do método científico. Os erros involuntários são, tarde ou cedo, corrigidos pelo próprio ou pelos seus pares. Mas há seres humanos que não reconhecem os erros que lhes são apontados. Por vezes, embora em pequena escala, são os próprios cientistas quem não são fieis ao método científico. Mas, na maior parte das vezes, são outras pessoas, não cientistas, quem espalha erros, alegando o uso da ciência devido ao prestígio de que esta desfruta (de facto, nem sempre é fácil separar ciência de pseudociência). Os cientistas devem lembrar-se de que têm um compromisso forte e permanente para com o método científico, um compromisso que deve, em particular, ser valorizado quando outros factores – políticos, económicos, jornalísticos, etc. – estão em jogo. Além disso, devem lembrar-se que é sua missão  contribuir para que o público tenha acesso aos conhecimentos e ao método da ciência. Nesse esforço, devem procurar ser o mais verdadeiros possível, sempre com a preocupação da compreensibilidade. No ensino como na comunicação pública da ciência, pode ser-se rigoroso – isto é, não dizer nada de errado – prescindindo de pormenores complicados.

Muitas vezes se pensa que, se a ciência nada sabe ao certo, então tudo é possível. Nada mais errado. Há coisas que sabemos bem e que constituem constrangimentos ao nosso conhecimento futuro. O astrofísico Carl Sagan, um dos maiores comunicadores de ciência dos nossos tempos, transmitiu a ideia de que a ciência deve procurar uma posição intermédia entre conservadorismo e inovação, a manutenção de velhas ideias e a abertura às novas. Escreveu no seu livro Um Mundo Infestado de Demónios (original de 1995): «No cerne da ciência reside um equilíbrio fundamental entre duas atitudes aparentemente contraditórias – a abertura para novas ideias, por bizarras ou pouco intuitivas que sejam, e o exame céptico mais implacável de todas as ideias, velhas e novas. É assim que as verdades profundas são separadas de puros absurdos. O empreendimento colectivo do pensamento criativo e do pensamento céptico, trabalhando conjuntamente, faz avançar o conhecimento. No entanto, existe uma certa tensão entre aquelas duas atitudes aparentemente contraditórias.»

 Certeza e incerteza 

 A palavra «certeza» é, em geral, identificada com verdade. Do dicionário mencionado: «1. Característica daquilo que não levanta dúvidas, que é certo = evidência, verdade ≠ incerteza, probabilidade. 2. Aquilo que é seguro ou que se afirma como real, certo…, e acerca do qual não se tem dúvidas; dado adquirido = realidade ≠ ilusão, incerteza, invenção.» A história da ciência tem mostrado que a certeza de uma lei científica não passa de uma aspiração. SAGAN acrescentou noutro passo do referido livro: «Os seres humanos podem ansiar por certezas absolutas e aspirar a elas; podem pretender, como os adeptos de certas religiões, tê-las alcançado. Porém, a história da ciência – de longe a pretensão ao conhecimento mais bem-sucedida acessível ao homem – ensina-nos que o máximo que podemos esperar são melhoramentos sucessivos da nossa compreensão, a aprendizagem com os nossos erros, uma abordagem assimptótica do universo, mas com a limitação de sabermos que a certeza absoluta nos escapará sempre.»

Não deve ser escamoteado que a discussão e a incerteza fazem parte do processo da ciência. É precisamente a discussão científica que ajuda a reduzir a incerteza. Da discussão nasce a luz: tarde ou cedo, haverá respostas melhores do que as anteriores em resultado da aplicação do método científico.

 A palavra «evidência» pertence ao campo semântico da «certeza»: «1. Qualidade do que não oferece dúvidas, do que é evidente. 2. O que não oferece dúvidas ao espírito, o que pode ser verificado. 3. Aquilo que serve para mostrar que alguma coisa é verdadeira = prova.» Podendo ser vista como sinónimo de prova, deve, porém, esclarecer-se que este termo tem em português um significado algo diferente do inglês evidence. Em português, uma coisa evidente é algo que não precisa de prova, que pode ser considerado uma verdade. A prova revela-se necessária precisamente quando não há evidência.

 Denotando falta de certeza, «incerteza» é um termo usado, com significados diferentes, em diversas áreas, incluindo física, estatística, psicologia, economia, sociologia, etc. Em física, refere-se, em geral, ao grau de imprecisão de medidas físicas. Quando se realiza uma medida de uma grandeza física, existe sempre uma incerteza: há erros, quer ocasionais e inevitáveis, quer sistemáticos e evitáveis ou, pelo menos, minimizáveis. Por isso tem de ser realizado um conjunto de medidas em vez de apenas uma. No tratamento dos dados recorre-se à estatística, disciplina que assenta no conceito de probabilidade. A probabilidade foi introduzida no século XVII na matemática para descrever jogos de fortuna, em que ocorrem situações imprevisíveis devidas, por exemplo, ao lançamento de dados. Quando a física tratou, no século XIX, de descrever sistemas complexos, como os gases (formados por muitas partículas em movimento incessante), percebeu que tinha de recorrer à probabilidade e à estatística. As afirmações que formula nesse domínio são naturalmente incertas, sendo a probabilidade uma medida da incerteza. Em física quântica, disciplina que surgiu no início do século XX para descrever a realidade microscópica, a incerteza está incorporada a um nível mais fundamental. Verificou-se que, à escala do muito pequeno, é válido o chamado «princípio de incerteza de Heisenberg» (que, de facto, não é um princípio, mas um corolário dos princípios da teoria quântica), segundo o qual não podemos conhecer simultaneamente a posição e a velocidade de uma partícula, como por exemplo um electrão. Tanto a posição, como a velocidade de uma partícula só podem ser descritas por uma função probabilística. Einstein reagiu com a sua famosa frase «Deus não joga aos dados», que significa que para ele a realidade não podia ter uma natureza probabilística (para Einstein, Deus era sinónimo de mundo, ou melhor, de harmonia do mundo). Por outro lado, as ciências sociais e humanas situam-se em pleno reino da imprevisibilidade. O termo «incerteza» refere-se nelas a situações em que não se pode prever com precisão o efeito de uma condição ou o resultado de uma acção. Essas ciências têm procurado fazer modelações e teorizações baseadas na metodologia das ciências exactas e naturais, mas o grau de incerteza nas suas afirmações é necessariamente maior, dada a enorme variabilidade que é característica dos seus objectos de estudo.

 Objectivo e subjectivo 

Embora estejam relacionadas, objectividade não é o mesmo que verdade ou certeza. O conceito é  bastante mais moderno. Objectividade significa a procura da fidelidade ao real. Preocupa-se com a filtragem das variações que provocam incertezas. Mas comecemos por ver a definição do termo «objectivo» no referido dicionário: «1. Que é relativo a um objecto. 2. Que existe por si, independentemente do conhecimento, do pensamento ou do sujeito. 3. Que é válido para todos e não para um indivíduo em particular. 4. Que assenta na observação, na experiência.» Em contraste, «subjectivo» é: «1. Que é próprio do sujeito pensante ou relativo a ele. 2. Que é próprio do sujeito individual, que assenta na interioridade, no modo de ser de cada pessoa = pessoal. 3. Que emite juízos de valor sobre a realidade das coisas. 4. Que não corresponde a nenhuma realidade, que é aparente, ilusório.» Embora possa parecer clara a dicotomia entre objectivo e subjectivo – entre o que é próprio do mundo exterior e aquilo que é próprio do eu interior –, essa dicotomia é um dos temas da filosofia, por não ser fácil separar o eu do mundo.

 É curiosa a deriva semântica que ocorreu com as palavras «objectivo» e «subjectivo». Os escolásticos medievais, como Guilherme de Ockham, usavam essas palavras com significado oposto ao actual, isto é, objectivo dizia respeito a uma impressão individual e subjectivo, a uma comum (e ainda em Descartes se encontram marcas desse uso primitivo). Só com o filósofo Immanuel Kant, no século XVIII, se iniciou o uso moderno dos termos; e só a partir de 1820 os dicionários começaram a introduzir o significado actual.

 A ideia de objectividade remonta a um tempo anterior a Kant: nos Princípios de Filosofia de Descartes encontramos as qualidades primárias (tamanho, forma, movimento), que diríamos hoje objectivas, e as secundárias (cores, odores, sabores), que diríamos subjectivas, e no Novo Órgão de Bacon surgem os «ídolos da caverna», que bloqueiam a mente de um indivíduo. Mas só a meio do século XIX, após Kant, o conceito de objectivo ganhou um consenso alargado tanto na filosofia como na ciência. A Crítica da Razão Pura, de 1781, obra principal da teoria do conhecimento de Kant, foi a primeira das suas três Críticas: as outras foram a Crítica da Razão Prática, de 1788, e a Crítica do Juízo, de 1790. A «validade objectiva» de Kant refere- se não a objectos externos, mas a «formas de sensibilidade», como o tempo, o espaço e a causalidade, que são condições da experiência. Para ele, subjectivo aplica-se a sensações meramente empíricas. A distinção é, portanto, entre o universal e o particular, em vez de ser entre o mundo e o indivíduo. Escreveu KANT na sua Crítica da Razão Pura: «Se algo for válido para todos os que estejam na posse da razão, seus fundamentos serão objectivos e suficientes.» O significado de objectivo ficou operacional com cientistas como o físico e médico Hermann von Helmholtz, o médico Claude Bernard e o biólogo Thomas Huxley: o primeiro, muito influenciado por Kant, ensaiou criar uma física do corpo humano; o segundo criou a medicina experimental ou baseada na evidência; e o terceiro foi o maior defensor da teoria da evolução de Darwin.

Como conseguir a objectividade em ciência? Os instrumentos que permitem registos sempre foram meios de procurar a objectividade, uma vez que uma visão individual, que é aliás difícil de partilhar, pode não ser segura. A fotografia surgiu em 1826 e a sua utilidade na ciência sobressaiu logo nessa altura: as imagens fotográficas são vistas da mesma maneira por todos os observadores. Uma fotografia da Lua feita com uma câmara primitiva acoplada ao telescópio era mais objectiva do que um dos desenhos que Galileu fez do nosso satélite enquanto a observava com o seu telescópio. E uma fotografia feita com uma câmara moderna é ainda mais objectiva, no sentido de ser mais fiel à realidade. Mas em que medida serão as imagens fotográficas objectivas? Mesmo um instrumento como uma câmara fotográfica pode não fornecer um meio de prova objectiva. Já na época de Galileu, houve quem afirmasse que as lentes podiam ter defeitos que alterassem as imagens. E o mesmo pode, afinal, ser dito de uma lente moderna. A fotografia é uma tecnologia baseada na ciência, mas também é uma arte, sendo passível de manipulação. Essa possibilidade tornou-se particularmente evidente no mundo digital em que vivemos hoje, no qual o Photoshop é tecnologia  comum. O certo é que uma imagem é sempre diferente de um objecto real. Podem-se tirar, em várias circunstâncias e de vários modos, várias imagens do mesmo objecto, que diferirão necessariamente. O juízo treinado de um cientista é que permitirá escolher as imagens que mais se aproximam da realidade.

Os filósofos de ciência Lorraine Daston e Peter Galison escreveram uma história da objectividade em que enfatizam o poder da imagem; distinguem três fases na evolução histórica: a fidelidade à Natureza (uma ancestral preocupação da ciência), a objectividade mecânica (recorrendo, por exemplo, à câmara fotográfica) e o juízo treinado (um cientista experiente não se deixa enganar por uma imagem). O caminho para a objectividade não se faz sem dificuldades. Segundo aqueles autores, «a objectividade está para a epistemologia como o extremo ascetismo está para a moralidade».

 Terminemos com a ética. Kant começou por estudar mecânica celeste, antes de enveredar pela filosofia. Na conclusão da Crítica da Razão Prática, KANT contrasta o mundo exterior, regulado por leis imperativas, e o eu, no qual as leis morais surgem: «Duas coisas enchem o ânimo de admiração e veneração sempre novas e crescentes, quanto mais frequentemente e com maior assiduidade delas se ocupa a reflexão: O céu estrelado sobre mim e a lei moral em mim. Não as hei-de procurar e simplesmente presumir a ambas como envoltas em obscuridades ou no transcendente, fora do meu horizonte; vejo-as perante mim e religo-as imediatamente com a consciência da minha existência.» De acordo com o programa iluminista, não existe nem ciência nem moralidade sem consciência.

Referências e leituras recomendadas

CARAÇA, João, Ciência, Lisboa, Difusão Cultural, 1997.

DASTON, Lorraine e GALISON, Peter, Objectivity, Nova Iorque, Zone Books, 2007.

Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, 2 vols., Lisboa, Academia das Ciências de Lisboa e Verbo, 2001.

DUKAS, Helen e HOFFMANN, Banesh (org.), Albert Einstein, O Lado Humano, Brasília, Universidade de Brasília, 1979.

FIOLHAIS, Carlos, A Coisa Mais Preciosa Que Temos, Lisboa, Gradiva, 2002.

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LOSEE, John, Introdução Histórica à Filosofia da Ciência, Lisboa, Terramar, 1998.

MARÇAL, David, Pseudociência, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2014.

POPPER, Karl, A Lógica da Pesquisa Científica, São Paulo, Cultrix, 1998.

POPPER, Karl, Conjecturas e Refutações, Coimbra, Almedina, 2003.

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