quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Breve apontamento sobre as "retenções" até ao nono ano de escolaridade: o que, sendo determinante, nos passa ao lado

“(...) tornar populações 
economicamente úteis e politicamente dóceis 
em relação aos interesses globais dominantes.” 
L. Tikly, 2004, 174. 

A medida de não "retenção" académica até ao 9.º ano de escolaridade, prevista no programa do actual Governo português, depois de forte, diversa e frequentemente "sugerida", para que os "agentes educativos" se habituem a ela, vai ser, de facto, implementada no sistema de ensino público, naquele que é (ou deveria ser) para todos.

corroborá-la têm-se ouvido, no debate promovido pela comunicação social, pelo menos quatro argumentos:
1. As "evidências" científicas (face a "evidências" não há discussão!) fazem concluir que a "retenção" promove o insucesso académico em vez de promover o sucesso. Além disso, a "retenção" tem implicações psicológicas devastadoras; 
2. Se motivados, atraídos, estimulados, acalmados... (não se trata de serem ensinados), todos os alunos têm sucesso em todos os momentos da sua vida escolar. Isto não me parece ser uma "evidência", é mais uma desejo; 
3. A OCDE "recomenda", a União Europeia "recomenda", a UNESCO "recomenda", até o Banco Mundial  "recomenda"... isto ao nível das grandes e poderosíssimas organizações de âmbito macro, por cá, "recomenda" o Conselho Nacional de Educação, e muitas das entidades que nele estão representadas; 
4. Nas entrelinhas, vai-se percebendo (e sabemos ser verdade) que se poupam milhões.
São, cada um à sua maneira, argumentos falaciosos (omito a explicação neste apontamento), que nada apresentam de novo (há mais de trinta anos que ouço o primeiro, o segundo e o quatro; o terceiro é mais recente). Mas, têm feito o seu caminho de afirmação e têm conseguido vingar, mais pela imposição do que pela razão. Estamos, não nos podemos esquecer, no campo político-financeiro destituído do sentido de justiça social, entre outros valores estimáveis. 

Enquanto as pessoas comuns (como eu e, talvez, o leitor) discutem, para cá e para lá, medidas como esta, num patamar etéreo, elas vão-se consolidando em torno de um propósito global, muito bem pensado e melhor firmado, que nada tem a ver com o propósito da escola (melhor, com o propósito que alguns de nós ainda imputam à escola).

Temo que esse propósito seja o que Tikly, na senda de Foucault e de outros, enunciou em resultado da análise cuidada que tem feito a diversos sistemas de ensino públicos e que enunciei como entrada deste texto.

Vale, pois, a pena ler o seguinte artigo deste autor: Tikly, L. (2004). Education and the new imperialism. Comparative Education. 40 (2), 173-198.

"A GENÉTICA AO SERVIÇO DA JUSTIÇA": 14/NOVEMBRO; QUINTA; 18H NO RÓMULO EM COIMBRA






FRANCISCO CORTE-REAL, PRESIDENTE DO INSTITUTO NACIONAL DE MEDICINA LEGAL,  NO RÓMULO

No âmbito do programa 10 ANOS | 10 FIGURAS, que o RÓMULO -   Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra está a desenvolver no âmbito das comemorações do seu 10º aniversário, Francisco Corte-Real, Presidente do Instituto Nacional de Medicina Legal.
No próximo dia 14 de Novembro, quinta-feira, pelas 18 horas, no RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, no piso 0 do Departamento de Física da FCTUC, Francisco Corte-Real falará sobre  A Genética ao Serviço da Justiça.  

No ambiente informal que caracteriza estas sessões, falará da sua experiência, para além de emitir as suas opiniões sobre as questões que lhe sejam colocadas.

Nota biográfica

Licenciado, Mestre e Doutorado em Medicina (Medicina Legal), pela Universidade de  Coimbra, Francisco Corte-Real é especialista e assistente graduado em Medicina Legal e Presidente do Colégio da Especialidade de Medicina Legal da Ordem dos Médicos. Professor Associado com Agregação e Sub-director da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. Actualmente desempenha funções de Director do Instituto Nacional de Medicina Legal, bem como membro do Conselho Médico-Legal. Foi Presidente da Sociedade Portuguesa de Genética Humana, co-Presidente do 21st International Congress da International Society for Forensic Genetics, Coordenador da Comissão que elaborou o projecto de Lei sobre a Base de Dados de Perfis de ADN. Representou Portugal na EDNAP (European DNA Profiling Group) e no Prum Treaty DNA Technical Working Group. Foi Presidente da Associação Portuguesa de Avaliação do Dano Corporal, Deputy do European Council of Legal Medicine, Sócio-Fundador do Centro de Estudos de Pós-Graduação em Medicina Legal e membro da Direcção do Centro de Ciências Forenses.


Para mais informações:

RÓMULOCentro Ciência Viva da Universidade de Coimbra 
                     Maria Manuela Serra e Silva
                     Telefone – 239 410 699
                     E-Mail – ccvromulocarvalho@gmail.com
                     Facebook: http://www.facebook.com/profile.php?id=100002912006773


quarta-feira, 13 de novembro de 2019

COMUNICAR CIÊNCIA SERÁ UMA PERDA DE TEMPO?


Na próxima 3ª feira, dia 19 de Novembro de 2019, pelas 18h00, vai ocorrer no Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra a palestraComunicar ciência será uma perda de tempo?”, por Sara Varela Amaral , comunicadora de ciência no Centro de Neurociências e Biologia Celular da Universidade de Coimbra.



Esta palestra integra-se no já popular ciclo "Ciência às Seis – 4ª temporada", coordenado por António Piedade, Bioquímico, escritor e Comunicador de Ciência.

Sinopse da palestra:
Existe uma enorme lacuna de comunicação entre as comunidades científicas e não-científicas, apesar dos reconhecidos impactos da ciência e tecnologia na sociedade, o que traz um profundo prejuízo ao pleno exercício da cidadania. O aumento do investimento e do impacto da investigação científica deve ser acompanhado por mecanismos eficazes de comunicação de ciência, nomeadamente na área biomédica. Contribuir para ultrapassar os problemas de comunicação de ciência é uma aposta essencial para uma sociedade mais esclarecida e democrática e para o progresso e sustentabilidade da investigação científica. No sentido de superar este hiato existente entre ciência e diferentes públicos, tendo em consideração a elevada importância do esclarecimento e sensibilização face às temáticas científicas, parece crucial o reforço das ligações entre a comunidade científica e a sociedade, e a promoção de uma comunicação mais transparente. Por esse motivo, nos dias de hoje, o tempo gasto a comunicar ciência deve ser tratado da mesma forma como o tempo dedicado a produzir ciência.

Um dos maiores desafios da investigação científica contemporânea é por esse motivo desenvolver formas inovadoras e eficazes de comunicar e envolver a sociedade na ciência. Os gabinetes de comunicação de ciência no seio das instituições científicas, locais onde é produzido conhecimento, representam importantes organismos neste desafio. Por um lado, são importantes na criação de plataformas eficientes de comunicação de ciência, através de projetos criativos, educativos e colaborativos. Por outro lado, são essenciais na mobilização dos investigadores. É fundamental inspirar os investigadores a terem um papel ativo na comunicação de ciência, dar-lhes ferramentas de comunicação e acima de tudo, mostrar à comunidade científica os benefícios pessoais, profissionais e institucionais que a comunicação de ciência pode trazer. Os gabinetes de comunicação também desempenham um papel importante estabelecimento de parcerias em projetos entre investigadores de diferentes áreas ou de colaborações com profissionais e instituições de outras áreas como jornalismo ou artes. Os projetos de comunicação de ciência (e de investigação científica) beneficiam fortemente deste tipo de parcerias que promovem a interseção de diferentes saberes.

Por estas razões, a aposta na investigação científica passa forçosamente pelo reforço e criatividade nas estratégias de comunicação: fomentar o debate público, discutir as implicações éticas da investigação e aumentar a literacia científica. A inserção da comunicação de ciência no plano estratégico das instituições representa um reconhecimento da importância dada a esta temática e assume um papel fulcral nas instituições científicas modernas.

ENTRADA LIVRE
Público-Alvo: Público em geral e interessado

terça-feira, 12 de novembro de 2019

Se nos demitirmos de educar é para isto que caminharemos - 2

Na continuação de outro texto (aqui)

Chegaram-nos, mais ou menos ao mesmo tempo, um vídeo e um texto que são muito próximos no problema que apresentam: vigilância e controlo de todas as pessoas por parte do Estado totalitário. Não é nova a tentativa de o Estado tudo querer controlar, o que é nova é a possibilidade de o fazer com a tecnologia disponível. A China é o exemplo mais acabado deste big-brother (ver, por exemplo, aqui).


Lembremo-nos da origem desta expressão:
"Nineteen Eighty-Four, de George Orwell (1948), é uma prefiguração surpreendente do mundo actual. No futuro ali descrito, pensar e contestar é crime, e todas as pessoas estão sob vigilância da autoridade. Que impõe constantemente aos cidadãos a frase propaganda do Estado: Big Brother is watching you. 
Big Brother é na intriga a personagem mais sinistra, o líder máximo de uma sociedade totalitária, que se faz omnipresente nas câmaras que vigiam os seus cidadãos 24 h por dia, até mesmo dentro de casa. 
Somos introduzidos naquele mundo fictício através de Winston, um funcionário público que trabalha no Departamento de Documentação do Ministério da Verdade e cuja função é “corrigir” todos os registos históricos além de os adequar aos interesses do BigBrother do presente, o qual “nunca erra”. Mas essa é apenas uma ferramenta de controle, que se soma à Polícia das Ideias e à reinvenção da própria linguagem. 
Como resultado desse exercício diário, os cidadãos vão perdendo a identidade. Não conseguem lembrar-se de nenhum detalhe do passado, não têm referências para contestar a sua situação actual, nem consciência de que o podem fazer. 
Mesmo quem não leu o livro é capaz de reconhecer na imaginação do autor realidades hoje banais. As teletelas, potenciadas pelo avanço tecnológico e científico, estão em todo o lado a enviar mensagens e a controlar-nos. A linguagem ganhou novos termos, palavras antigas mudaram de sentido e ganharam novas acepções, sugerindo que desse modo a realidade também mudou". Margarida Miranda, 2019 (aqui).
Ora, como sugere a autora deste texto, a Escola, que poderia desenvolver uma consciência crítica capaz de fazer face aos novos totalitarismos, é orientada para concretizar a Agenda 2030 da ONU que representa o poder totalitário. Não vemos, pois, como sair deste círculo. E isso é tanto mais grave quanto sabemos que se nos demitirmos de educar, caminharemos para a situação que o vídeo apresenta.
 Maria Helena Damião e Isaltina Matins

Entrevista: “A Ciência tem Provas daquilo que afirma, a Pseudociência não”

Entrevista que Catarina Santos me fez, no âmbito da cadeira de Géneros Jornalísticos do curso de Comunicação e Jornalismo da Universidade Lusófona,  publicada na revista Reflexo.


“A Ciência tem Provas daquilo que afirma, a Pseudociência não”


David Marçal é doutorado em Bioquímica, destacando-se como comunicador de ciência, investigador e escritor, autor de vários livros como Darwin aos tirosPipocas com telemóveisA Ciência e os seus inimigos Pseudociência, tema desta entrevista pela polémica que tem gerado em debates recentes sobre as terapêuticas não convencionais e os movimentos anti-vacinação.

O que distingue a pseudociência da ciência?
As provas... A ciência tem provas daquilo que afirma, daquilo que diz, a pseudociência, não. E o que a pseudociência apresenta no lugar das provas são argumentos de autoridade, portanto, uma coisa é verdade porque há pessoas importantes que dizem que é verdade, ou porque está escrito em livros muito antigos e muito grossos, ou porque ela própria é muito antiga. O físico Richard Feynman comparava a pseudociência ao culto da carga, que é um culto praticado por uma série de povos das ilhas do Pacífico a seguir à segunda guerra mundial e que tinha como objetivo voltar a trazer os militares norte-americanos que tinham saído das bases desativadas. Então eles [os nativos] imitavam os procedimentos dos militares - construiram uma cabana que era a torre de controlo, construiram pistas de aterragem que eram as estradas de terra batida, havia um indivíduo que punha duas metades de coco na cabeça a imitar auscultadores - mas havia uma coisa que faltava, porque os aviões não aterravam. E o que falta, no caso da pseudociência, são as provas. A pseudociência imita em tudo da ciência, copia a estética da ciência, mas falta o que é fundamental que são as provas.


Como se esclarece alguém sobre a pseudociência?
É relativamente fácil esclarecer alguém sobre a pseudociência. A dificuldade é se essa pessoa quer ser esclarecida. Nós não temos apenas uma dimensão racional, também temos uma dimensão emocional, acreditamos em muitas coisas para as quais não temos justificação. A crença faz parte do nosso sistema cognitivo, portanto há coisas que nós acreditamos sem termos uma razão fundamentada para isso... Podemos por exemplo acreditar numa coisa porque isso nos dá um bilhete de entrada num grupo especial, por exemplo se eu acreditar que a terra é plana, isso faz-me ser aceite por um grupo de pessoas que acredita que a terra é plana.

É também o caso do movimento anti-vacinação?
Sim, eu diria que se pensarmos no plano das últimas décadas, o movimento anti-vacinação parece-me, claramente, que ganhou terreno... Ganhou terreno, porque as pessoas já não se lembram das doenças infeciosas que as vacinas previnem. As vacinas acabam por ser vítimas do seu próprio sucesso. Tem acontecido sempre que há políticas públicas de vacinação. Se pensarmos num horizonte temporal mais curto, não sei se estão a ganhar terreno, porque neste momento também há uma grande reação aos movimentos anti- vacinação.

Há cada vez mais anúncios sobre medicamentos homeopáticos, como o Oscillococcinum [produto homeopático altamente diluído que não contém qualquer substância ativa1]. O que acha que o Estado podia fazer para diminuir a tendência para as pessoas procurarem medicamentos homeopáticos e começarem a confiar mais na ciência?
O Estado podia fazer muito, aliás o Estado podia não fazer nada, que já seria melhor do que faz. O Estado podia deixar de ter os remédios homeopáticos aprovados pelo Infarmed, o que acaba por ser um argumento de autoridade, porque as pessoas pensam “bom, isto é um remédio aprovado pelo Infarmed, isto deve funcionar”, só que não é verdade, porque eles são aprovados através de uma coisa chamada regime simplificado e nesse regime apenas é necessário provar que o remédio é inócuo [«apresentem um grau de diluição que garanta a inocuidade do medicamento»2]. E neste caso é muito fácil porque os remédios homeopáticos são apenas água e açúcar portanto são essencialmente inócuos. Não têm que passar por toda a bateria de testes de eficácia e segurança. Isto induz em erro o público e o estado devia proibir efetivamente a publicidade enganosa. E o Estado podia fazer mais designadamente não ser cúmplice de uma fraude através da emissão de cédulas profissionais para homeopatas.


Com todo o acesso à informação como é que algumas pessoas ainda confiam na homeopatia?As pessoas são complexas em todas as decisões da sua vida, não utilizam a racionalidade, e muitas decisões são emocionais e intuitivas, procurando coisas com as quais se identifiquem do ponto de vista ideológico e filosófico. A homeopatia, neste momento tem uma aura de ser natural e as pessoas que procuram um estilo de vida natural, livre de químicos acabam por se sentir atraídas por estas alternativas. Não é por acaso que o medicamento homeopático mais vendido é um medicamento para a gripe que é uma doença que passa sozinha.

No fundo a pseudociência e as terapêuticas não convencionais têm um argumento [de autoridade] que quase nunca falha . Como explica esse fator? O argumento de autoridade é precisamente isso, as pessoas acreditarem que uma coisa é verdade, porque alguém muito importante diz que é verdade. De uma certa forma há uma confusão quanto a isso, porque há muitas pessoas que pensam que a ciência se baseia na autoridade dos cientistas e não se baseia nisso. Baseia-se nas provas que são apresentadas pelos cientistas, provas essas que são sujeitas a um processo extremamente duro e eficaz a destruir ideias – é muito difícil uma ideia sobreviver ao escrutínio da ciência.


Acha que ainda é válido o conceito “o que é natural é bom”?
Acho que nunca foi válido, a natureza não é só paz e amor, a natureza é um sítio em que os seres vivos têm como objetivo importante matarem-se uns aos outros. Os venenos mais poderosos que existem são produzidos na natureza. Portanto não é válido e nunca foi válido. Há coisas que só existem na natureza e que são extremamente perigosas e há coisas que não existem na natureza que são de facto feitas pelo Homem que nos podem ajudar muito. Por exemplo o amianto é um produto natural, a cocaína, a nicotina, a penicilina, mas não são os produtos naturais que os defensores dos produtos naturais normalmente estão a pensar quando defendem a sua superioridade.

Mensagens finais sobre este tema?
A mensagem é sempre a mesma, que não há nenhuma receita mágica contra a pseudociência. O único antídoto é a cultura científica e também não há nenhuma maneira fácil de aumentar a cultura científica da maioria da população rapidamente. É um trabalho interminável que depende de uma série de “atores” como escolas, universidades, instituições de divulgação de ciência, centros de ciência, museus e também dos jornalistas e do poder político.


[1] O Inacreditável Mundo da Homeopatia (COMCEPT)
https://comcept.org/wp-content/uploads/2015/06/O-Inacredit%C3%A1vel-Mundo-da- Homeopatia.pdf
[2] Medicamentos homeopáticos (Infarmed)
http://www.infarmed.pt/web/infarmed/entidades/medicamentos-uso-humano/autorizacao- de-introducao-no-mercado/medicamentos-homeopaticos

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

O que é que tens na cabeça?

A frase que dá título a este texto utilizamo-la muitas vezes, especialmente quando queremos questionar algum feito ou ideia de outra pessoa. Conforme a entoação, ela pode simplesmente pedir um esclarecimento para algo que o nosso interlocutor expõe, mas que ainda não percebemos bem (= qual é a tua ideia? Diz lá!), ou levar já em si uma crítica a algo que foi feito e com o qual não concordamos (= mas o que é que te deu, para fazeres isto? O que é que tu tens na cabeça?!) 

Partimos, portanto, do pressuposto que a pessoa a quem nos dirigimos tem alguma ideia e não apenas uma “cabeça oca”. 

Por vezes “perdemos a cabeça”, com aquele “cabeça-no-ar” que põe tudo “de cabeça à roda”, por ser uma “cabeça de alho chocho” que só faz coisas “sem pés nem cabeça”. 

A cabeça serve para pensar, ouvimos muitas vezes, quando éramos repreendidos por fazer algo um pouco à toa.

No entanto, na actualidade, parece que já nada se sabe “de cabeça”, quer dizer, nada se fixa, nada se sabe “de cor” (ou de coração), a memória já não é exercitada. 

Vem tudo isto a propósito do título do mais recente livro do filósofo francês Denis Kambouchner, Quelque chose dans la tête, uma publicação da Flammarion, dada à luz no mês de Agosto de 2019. 

Trata-se, portanto, de ter alguma coisa na cabeça e não uma “cabeça oca” ou de “alho chocho”. 

Diz Kambouchner, professor de filosofia na Universidade de Paris 1 Panthéon-Sorbonne, que:
“ter alguma coisa na cabeça não é ser devorado pela ambição, nem conceber um projecto gigantesco. Na cabeça é necessário um equilíbrio e uma vontade de equilíbrio. É preciso que cada coisa esteja no seu lugar, ou antes, que procuremos para cada coisa o seu lugar, e que os nossos projectos sejam irrepreensíveis”. 
No resumo do seu texto podemos ler: 
“ter alguma coisa na cabeça, algo claro e sólido não é um luxo...” Procurando os seus exemplos nos modelos do passado, na literatura, na filosofia, nas artes, mostra como a reflexão sobre esses modelos se impõe para pensar o presente e o futuro”. 
Por isso, Denis Kambouchner coloca-nos questões várias sobre a educação, sobre a escola, sobre o ensino que aí se ministra: 
“Queremos que as nossas crianças sejam bem educadas, mas será que lhes falamos como deve ser acerca da cultura? Se a reduzimos a uma questão de herança e nos contentamos com a ideia de “a cada um sua cultura”, falta-nos esta evidência: toda a inteligência exige uma cultura que não se herda se não a procuramos”.
“Dirigindo-se a leitores jovens, usando termos correntes, Kambouchner discute estas questões com clareza...” — diz-se na apresentação da obra — explicitando “o que caracteriza a cabeça humana ao mesmo tempo bem construída e livre. Não é uma questão de dom... trata-se de aprendizagem e de exercício” pois “uma cabeça ágil e limpa é o resultado de uma educação e de uma cultura, as quais permanecem estéreis quando não são intensivas. Aprender muito, exercitar-se muito, eis a chave. Este exercício não enche a cabeça de informações, nem a sobrecarrega com conhecimento acumulado. Uma cabeça que funciona é, ao invés, constituída de ideias claras. A clareza impede a cegueira do ódio. Está ligada à seriedade e à atenção e sabe alimentar-se do que é belo.”, afirma este filósofo para quem, à semelhança de Erasmo, “a cultura é a experiência do admirável”. 
O segundo ensaio da obra dirige-se aos adultos e trata da escola e da educação. Discute o que deve ser transmitido, afirmando que:
“o trabalho principal é “dar as palavras”. É através das palavras postas à sua disposição que permitimos a cada um aprender, criar, pensar, crescer.” 
Mais informações aqui e aqui.

Isaltina Martins

A erótica da novidade no ensino básico nacional

Meu artigo de opinião publicado no "Jornal as Beiras", hoje:

“Há uma erótica do novo, o antigo é sempre suspeito” (Roland Barthes).

Publicava, dias atrás, o “Correio da Manhã”, e outros jornais diários, em primeira página (04/11/2019), que “os chumbos poupam ao Estado 5 mil euros por aluno do ensino básico”, assistindo-se, assim, à genuflexão do Ministério de Educação ao trono do Rei Midas, medida criticada, com ácida ironia, por Derek Bok, antigo reitor da Universidade de Harvard: “Se acha que o ensino é caro experimente a ignorância”. Eis portanto a ignorância oficializada!

Aliás, vem de longe! Neste país há o costume de dar passos maiores do que as pernas com a pressa de fazer experiências pedagógicas sem avaliar as consequências. Por ter sido dito por Mark Twain, com delicioso espírito, que “a profecia é algo muito difícil, especialmente em relação ao futuro”, atrevo-me a registar, tão-só, o passado e o presente, sem me abalizar a profetizar o quer que  seja.

A seguir a cada eleição o  Governo empossado, ainda que da mesma área política do precedente, apressa-se a tirar da cartola um coelho, de experiências pedagógicas, ontem glorificadas, hoje nas ruas da amargura, à imagem do feiticeiro de OZ alternando o seu poder com a mistificação de qualidades só aparentes, num país em que a mediocridade é a lei, como escreveu o falecido João Lobo Antunes profundo conhecedor da vida académica universitária lusitana e norte-americana.

Mas o grave é termos pedagogos entronizados em estereótipos de dados estatísticos de países em que o sucesso educativo atinge os melhores índices sem ter em linha de conta a advertência de Agostinho da Silva: “A única salvação do que é diferente é ser diferente até ao fim com todo o valor, todo o vigor e toda a impassibilidade”. 

E deste modo descuram-se programas escolares devidamente estruturados, turmas com alunos em número excessivo, preparação dos professores do básico do 1.º ao 6º anos, baixada no 5.º e 6.º anos, de uma licenciatura universitária para diplomas de escolas politécnicas, por vezes nascidas  em privatizações de vão de escada, etc.

Vezes sem conta, em artigos de opinião, tenho-me insurgido contra a extinção das antigas escolas técnicas que preparavam os alunos, para um saber teórico-prático, umas vezes, por opção própria, outras, por questões económicas. Por outro lado, uma falsa democratização do ensino liceal gerou cábulas em frágeis caboucos de uma cúpula  que desabava ao mínimo abalo de exigência do ensino universitário.

Desse ensino técnico não sobrou pedra sobre pedra, apenas construções actuais de adobe por ausência de um corpo de professores especializados, de antigos mestres de oficinas bem apetrechadas. Esta minha crítica não tem encontrado acolhimento em fronteiras nacionais - é bem certo que poucos conseguem ser profetas na sua própria terra -, todavia teve ela repercussão, altamente positiva, em  extensa citações  por parte de renomados académicos  brasileiros, como dei conta em dois artigos de opinião publicados neste jornal: “O ensino técnico luso-brasileiro” (25/10/2019) e “Ainda o ensino técnico em terras de Santa Cruz) 28/10/2019).

“Last but not least”, pondo o carro à frente dos bois, por dados estatísticos ainda por trabalhar, as agressões selváticas (que, de quando em vez, levam as vítimas a serem assistidas nos hospitais) de alunos ao professores, ou vice-versa, ou entre os próprios alunos, são minorizadas pelo Governo e pelo Conselho Nacional de Educação. Haja, no mínimo dos mínimos, bom senso!

SÉRGIO GODINHO FALA NO RÓMULO DO SEU ÚLTIMO ROMANCE, “ESTOCOLMO,” E NÃO SÓ




No dia 13 de Novembro, quarta-feira, pelas 18 horas, no RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, situado no piso 0 do Departamento de Física da FCTUC, estará Sérgio Godinho, o muito conhecido músico e compositor português mas também poeta, contista e romancista  (para além de argumentista, realizador, actor e ilustrador). Carlos Fiolhais,  director do RÓMULO, animará uma conversa com Sérgio Godinho, que partirá do seu livro mais recente, “Estocolmo”.

A entrada é livre. Sérgio Godinho autografará no final o seu livro.

Sinopse de “Estocolmo”

Quando Vicente responde ao anúncio de um quarto para alugar, descobre que a senhoria é Diana Albuquerque, a célebre pivô do telejornal das oito. A estupefação inicial do estudante - assim que ela lhe abre a porta - rapidamente se transforma numa forte atração mútua. Diana tem o dobro da idade de Vicente, mas é bela, sensual e respira aquela serena autoridade que conquista o espectador mais renitente. Vicente muda-se para casa de Diana, ocupando o quarto no sótão; e Diana ocupa-lhe a cama. Mas não é apenas a mulher complexa e carente que depressa mostra ser; fazendo jus ao nome, Diana é também uma predadora.
E, uma manhã, Vicente acorda para a estranha realidade de estar trancado no seu novo quarto. É vítima de sequestro, mas está apaixonado pela sua sequestradora. Finalmente, a entrada em cena da mãe de Diana - tão bela quanto a filha - vai mudar tudo.

Nota biográfica  de Sérgio Godinho

Sérgio Godinho nasceu no Porto e aí viveu até aos vinte anos, altura em que saiu de Portugal. Estudou Psicologia em Genève durante dois anos, antes de tomar a decisão «para a vida» de se dedicar às artes. Foi ator de teatro e começou a exercitar a escrita de canções nos finais dos anos 1960. É de 1971 o seu primeiro álbum, Os Sobreviventes, seguido de mais trinta até aos dias de hoje. Sérgio Godinho é um dos músicos portugueses mais influentes dos últimos quarenta e cinco anos. Sobre si próprio disse: «Não vivo se não criar, não crio se não viver. Essa balança incerta sempre foi a pedra de toque da minha vida.» O seu percurso espelha, precisamente, essa poderosa interação entre a vida e a arte. Voz polifónica, Sérgio Godinho levou frequentemente a sua escrita a outras paragens. Guiões de cinema (Kilas, o Mau da Fita), peças de teatro (Eu, Tu, Ele, Nós, Vós, Eles!), séries de televisão, histórias infantojuvenis (O Pequeno Livro dos Medos), poesia (O Sangue por Um Fio), crónicas (Caríssimas Quarenta Canções), entre vários exemplos. Estreou-se na ficção com “Vidadupla”, um conjunto de contos publicado em 2014, a que se seguiu o seu primeiro romance, “Coração Mais Que Perfeito”, e agora “Estocolmo”.


Para mais informações:

RÓMULO – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra 
                     Maria Manuela Serra e Silva
                     Telefone – 239 410 699
                     E-Mail – ccvromulocarvalho@gmail.com

"UM POUCO MAIS DE LUZ" NO DIA 12 DE NOVEMBRO NO RÓMULO EM COIMBRA



Na próxima terça-feira, 12 de Novembro, às 18h, no RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, Jorge Mota, Médico Psiquiatra no Hospital Magalhães Lemos no Porto, especialista na eletroconvulsoterapia (ECT), explicará a história, funcionamento e actualidade dos electrochoques, partindo da apresentação do livro de sua autoria "Um pouco mais de luz: explicando o Electrochoque”, publicado pela U. Porto Edições em 2019.

 A entrada é livre, destinada ao público em geral e aberta ao diálogo com o convidado, com a moderação de Carlos Fiolhais, Director do Centro.

 Um pouco mais de luz

SINOPSE DO LIVRO:

 “Que a eletricidade tem a ver com a vida já se sabe desde o tempo da disputa entre Galvani e Volta no século XVIII. No início do século XIX o romance “Frankenstein” de Mary Shelley foi influenciado por experiências de descargas elétricas em cadáveres. Mas foi só no século XX, em 1938, que foram feitas, pelo neuropsiquiatra italiano Ugo Cerletti, as primeiras experiências em humanos. Seguiram-se muitas outras, perante a dificuldade de outros tratamentos de doenças mentais, mas a prática foi sempre controversa. O filme “Voando sobre um ninho de cucos” de Milos Forman, baseado num romance com o mesmo título, ilustra bem essa controvérsia, que teve amplo fundamento. No entanto, o uso da eletricidade como meio terapêutico em certas doenças mentais ressurgiu recentemente. O Dr. Jorge Mota, médico psiquiatra no Hospital Magalhães Lemos no Porto, e especialista na eletroconvulsoterapia (ECT), a técnica mais corrente na área, explica neste livro, depois de uma excelente introdução histórica, os principais conceitos da técnica assim como descreve os seus resultados positivos em doenças como depressões severas, manias, psicoses esquizofrénicas e catatonias. Sempre me interessei pelas relações entre a física e a medicina e aprendi bastante neste livro, em particular que os eletrochoques, se aplicados com adequado critério (consentimento informado, anestesia, etc.), em equipamento certificado e por especialistas experientes, não merecem hoje a má fama que no passado tiveram por via da sua indiscriminada aplicação. Aprendi também que há ainda bastante para aprender: ainda não se conhecem os mecanismos precisos que levam à sua eficácia.”

Carlos Fiolhais (Professor de Física da Universidade de Coimbra).

 O livro estará à venda na sessão.

ÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra Rua Larga - Departamento de Física da FCTUC 3004-516 Coimbra PORTUGAL Telefone: 239 410 699

Sobre a perversão da linguagem educativa: opiniões, slogans e metáforas

A linguagem pedagógica que deveria sustentar a compreensão dos fenómenos educativos e a comunicação efectiva de ideias, constitui um verdadeiro obstáculo a este duplo desígnio.

O problema, ao contrário de estar em vias de superação, vê-se agravado, acontecendo isso a um ritmo impossível de acompanhar. Tanto quanto me é dado perceber, nenhuma palavra ou expressão que possa ser considerada específica da área tem um significado estabilizado. 

O significado depende do autor, da teoria, da lei, da determinação... Prevalece o "critério de autoridade", ou seja da imposição por parte de quem tem poder num determinado raio de acção. Não se vai muito além do devastador "para ti, mas para mim..."

Num artigo recente de grande interesse - El lenguaje de la educación más allá de lemas y metáforas - José Manuel Touriñán López, professor de Educação da Universidade de Santiago de Compostela trata este problema de monta, que se afigura insolúvel. Eis um breve resumo do conteúdo.
No mundo da educação predomina uma perversão que tem a ver com a linguagem. Essa perversão consiste no uso frequente de conceitos de significado duvidoso que serve mais para encobrir a realidade do que para a apresentar e interpretar. Quem o faz não se baseia em conhecimento, age por oportunismo e consensos institucionalizados. 
O variável controlo da qualidade realizado por revistas indexadas, o financiamento de programas de investigação ligados a interesses políticos, a superficialidade na abordagem dos fenómenos educativos concorre para a traição moral e intelectual que se constata no mundo universitário. 
Opiniões, slogans e metáforas tornam-se armadilhas da linguagem que nos impedem de entender a educação. Ora, é uma preocupação básica da pedagogia entender e explicar a educação, logo os conceitos deveriam servir esse fim e não o contrário.

sábado, 9 de novembro de 2019

“Não é da mais elementar lógica os professores ocuparem-se em exclusivo dos alunos e da leccionação?"

Em 1963, George Gusdorf dava título de livro a uma pergunta ancestral — “Professores para quê?” —, à qual é absolutamente necessário e urgente voltar. Ela teve especial sentido na turbulência educativa das décadas de 1960 e 1970, tal como tem nas décadas de início deste século.

A verdade é que a docência, como função intrinsecamente relacional, que requer um conjunto de saberes especializados de modo a cumprir a finalidade última de levar a aprender, vê-se questionada de múltiplas formas. Entre elas contam-se a substituição dos professores por “técnicos” sumariamente preparados, por engenhos tecnológicos devidamente programados, por manuais/guiões e plataformas disponibilizadas por empresas, pela “educação por pares”, etc. Escolas há que, na sua arquitectura, na composição do currículo e na definição dos espaços e tempos, excluem a figura do professor ou tornam-na residual. Também a participação de agentes/parceiros da sociedade na educação formal e, mais concretamente, na vida da escola, com a mesma legitimidade ou legitimidade superior à dos professores, afasta-os do seu dever educativo. 

E enquanto não se afastam completamente dos alunos — há quem diga que isso não demorará muitos anos —, atribuem-se-lhes incontáveis tarefas de teor burocrático, que lhes roubam, mais do que as horas e os dias, a energia, a capacidade de pensar e de decidir, para não falar da disponibilidade de estudar e de organizar o seu trabalho. Em simultâneo, e de múltiplas fontes, incute-se-lhes a narrativa pseudo-pedagógico vigente. 

E isto à vista dos professores, que respondem de modos diversos. Estamos em crer que o modo prevalecente não é a contestação aberta do anti-ensino, mas não quer dizer que ela não exista. Um exemplo é o artigo de opinião escrito por Francisco Martins da Silva com o título "Docente (*) é p’ra leccionar" que vale a pena ler.  Por isso mesmo o transcrevemos na sua quase totalidade, usando uma das suas frases como título.
Maria Helena Damião e Isaltina Martins
(...) Por que razão vivem os docentes submersos em tarefas e responsabilidades que nada têm que ver com leccionar? Não é da mais elementar lógica os professores ocuparem-se em exclusivo dos alunos e da leccionação? Que espaço se reserva à escola no meio de tanta acta, relatório, formulário, grelha, planificação, avaliação, tanto decreto a cada hora revogado e a cada hora revisto? (...)
Que tempo resta para a escola? Além de leccionar às turmas que lhes cabem e de ainda poderem ser directores de turma, coordenadores de directores de turma, coordenadores de ciclo, coordenadores de departamento, representantes de grupo disciplinar, coordenadores de projectos, tutores, membros do Conselho Geral, adjuntos da Direcção, et cetera, et cetera, as caixas de correio dos professores recebem de manhã à noite, todos os dias da semana, um sem-número de e-mails, e transbordam permanentemente de urgências burocráticas designadas por PEI, UFC, RTP, CEB, PIT, EMAI, ELT, ACES, ULS, CPCJ, CRI, JNE, PL2, SPO, EO, DT, DEE, PHDA, ME, CAA, CT, EE, PAA, DAC, EECE, CP, PES, EFA, PASEO, IDNMSAI, PE, CAF, CD, ARA, PARA… 
Não, não vou aqui maçar ninguém a explicar o que significam todas estas premências, desde logo porque, havendo tantas, nenhuma pode ser importanteEm boa verdade, que se saiba, nenhuma destas siglas muda seja o que for no dia-a-dia de um só aluno. 
Apenas motivam infindáveis reuniões e formulários e são um inferno para os professores, transformando-os em adivinhadores de um ror de dificuldades cognitivas, psicológicas, relacionais, familiares e outras hipotéticas problemáticas. A produção desta papelada é um fim em si, pois nunca se fará qualquer balanço ou avaliação dos seus efeitos nem sequer dos seus custos. 
Mas permitam-me ainda assim que desvende um dos possíveis significados da sigla CT: Conselho de Turma!… E que fazem os professores nos conselhos de turma, um por turma (há docentes que têm mais de dez turmas), no meio e no final de cada período, sempre fora do horário, sempre fora de horas e a somar a tudo isto? - Pois conferem a imensa papelosa produzida por todas as outras siglas, harmonizam-na para que não se contradiga e não decepcione a inspecção, e no fim debitam mais um papel - a acta. “Circunstanciada”, claro. 
Por que carga de água se exige então aos professores todo este estéril trabalho extra, que não é pago, não é da sua competência e agride o seu estatuto? A resposta é simples: controlando cada vez menos a sala de aula, cada vez mais o sistema de ensino se concentra em tudo o que lhe for lateral. 
(*) Do latim docens (docens, -entis), particípio activo do verbo docere (ensinar).

Eis as marcas que "queremos" para a universidade: desenvolvimento tecnológico, empreendedorismo e sucesso

A universidade, nas suas vertentes de desenvolvimento tecnológico, empreendedorismo e sucesso, tem tido crescente destaque na "Web Summit", realizada em Lisboa. 

Uma entrevista realizada, neste ano, pela jornalista Anne Gaviola a um rapper, um eurodeputado e um empresário faz marcantes alusões ao que a universidade, por referência a essas vertentes, deve passar a ser e a iniciativas que as concretizam. O contexto era designado por "Startup University", com o título "What they don’t teach you at business school", e a tónica foi posta na importância da aquisição de competências não formais. Eis uma passagem do que foi publicado (ver "As chaves para o sucesso que as faculdades não ensinam"):
"Partindo das experiências pessoais, "destacaram aquilo que consideram ser pontos essenciais que não se aprendem num percurso de ensino, por muito digno que ele seja. Na verdade, a passagem pelo ensino superior não é condição obrigatória para o sucesso. Bill Gates e Steve Jobs são exemplos clássicos neste tópico, mas [o rapper] (...) que é também co-criador do um projeto (...) (destinado à distribuição de eletricidade através de energia solar, em África), destacou que o facto de não ter frequentado a universidade não se revelou um entrave na sua carreira e referiu que, antes disso, “já sabia o que queria fazer” e que essa vontade o ajudou a ultrapassar a barreira da concretização (...) a faculdade não é imperativa para um caminho de sucesso.  
[O eurodeputado] tem um percurso diferente. A licenciatura em Engenharia Civil pelo Instituto Superior Técnico e o Master of Business Administration, tirado em Harvard (...) No entanto, a universidade não lhe ensinou tudo. O espírito de liderança (...) é um conceito que tem vindo a mudar: “Quando andava na Business School, o líder era aquele que criava uma visão e inspirava os outros a segui-la. Hoje em dia, os jovens não querem isso. Querem criar uma visão em cooperação com o líder. Os líderes têm de estar no backstage". 
“... se pudessem dar um conselho a qualquer pessoa que estivesse a ver a sessão de hoje, o que diriam?” [O rapper respondeu]: “seguir a paixão e não ter medo de falhar”. [O eurodeputado] afirmou “Não sigam os vossos pais, eles vão ter medo que vocês falhem e não vos vão tirar da vossa zona de conforto”. [O empresário] completou: “sigam a vossa própria voz”.
Este alinhamento pela tríade acima mencionada, que está, efectivamente, a mudar a essência da universidade, como se não houvesse alternativa, sem se querer pensar nas consequências terá na evolução do conhecimento e no modo como afecta a sociedade, fez-nos lembrar uma entrevista a Pedro Ferré, espanhol, investigador da tradição oral portuguesa, autor de um monumental Romanceiro e professor na Universidade do Algarve.

Disse ele há escassos três anos (ver aqui):
"A Universidade deixou de pensar, agora a Universidade está proibida de pensar."
"Desiludido com uma Universidade que, garante, ser cada vez mais administração e menos humanista, recorda a sensação que teve há quase 30 anos, quando chegou a Utrech, na Holanda: “A Universidade mudou em todo o mundo (…). Recordo-me quando fui, nos anos 80, para Utrech, de achar que aquela Universidade era muito pouco dada à ciência e às humanidades, demasiado tecnológica, e com muito pouco pensamento reflexivo (...) quando regressei, achei que em Portugal, Itália, Espanha e França eram as últimas Universidades cultas da Europa.” 
[A visão] da universidade passa por três grandes vértices: "A primeira coisa (…) é pensamento, a segunda rutura. Pensamento e rutura conduzem a inovação".
Porque será que nos fica a impressão de a primeira entrevista, dada por pessoas bem sucedidas na vida, mais ou menos externas à universidade, nos mostrar o futuro que brilha e de a segunda, dada por um académico, que dedicou a vida à universidade, aludir a um passado que esmorece?

Maria Helena Damião e Isaltina Martins

HISTÓRIA DA FLORESTA PORTUGUESA


O "Clube da Natureza e Património de Assafarge", que integra o Centro Desportivo e Recreativo Popular de Assafarge, promove uma tertúlia com o Doutor Jorge Paiva, botânico, investigador do Centro de Ecologia Funcional e Professor jubilado da Faculdade de Farmácia e do Departamento de Ciências da Vida da Universidade de Coimbra. O tema é a História da Floresta Portuguesa.

Será no dia 20 de Novembro às 21h30 e a entrada é livre.

Local: Rua Bairro Alto n.º 1, 3040-657 Assafarge (Coimbra)
Coord. GPS 40°09'32.7"N 8°25'55.3"W
Telefones: 963 228 373 - 931 155 521
Email: natura.assafarge@gmail.com
Facebook: https://www.facebook.com/natura.assafarge/

HISTÓRIA DA FLORESTA PORTUGUESA
Jorge Paiva Biólogo 
Centro de Ecologia Funcional. Universidade de Coimbra
jaropa@bot.uc.pt 
Contam-se e aprendem-se muitas histórias durante a nossa vida. Na infância são histórias muito variadas para entretenimento ou para uma melhor integração das crianças no meio em que vivem. Nos estabelecimentos de ensino aprende-se a história do nosso país, a história universal, um pouco de história da literatura, da poesia, das ciências, das religiões, etc., mas nada sobre a história da nossa floresta. 
Durante as grandes mudanças climáticas pleistocénicas, com avanços e recuos dos gelos continentais (glaciações), o nosso território esteve coberto de florestas diferentes das actuais. 
Portugal, antes das glaciações, tinha, pelo menos as montanhas, cobertas de florestas sempre-verdes (laurisilva) e durante a última glaciação teve uma cobertura florestal semelhante à actual taiga, que foram naturalmente substituídas por florestas mistas (fagosilva) de árvores sempre-verdes e caducifólias, transformando o país praticamente num imenso carvalhal caducifólio (alvarinho, e negral) a norte do Tejo e perenifólio (azinheira e sobreiro) para sul. 
Por destruição dessas florestas as nossas montanhas passaram a estar predominantemente cobertas por matos de urzes, giestas, tojos, torgas e carqueja. Principalmente, a partir do século XIX, foram artificialmente rearborizadas com pinheiro-bravo, o que as transformou em imensos pinhais. Tivemos, assim, a maior área contínua de pinhal da Europa. 
Este tipo de floresta de produção mono-específico (apenas uma espécie arbórea; o pinheiro-bravo) é de muito menor Biodiversidade do que a fagosilva. Durante a segunda metade do século passado (XX) houve um enorme aumente deste tipo de floresta mono-específica, mas com eucalipto. Os eucaliptais são ecossistemas antrópicos de muito menor Biodiversidade do que os pinhais. Além disso, a introdução de plantas alelopáticas e heliófitas, como, por exemplo as acácias, levou a que os nichos ecológicos desarborizados fossem ocupados por essas plantas mono-especificamente. Aliás, as plantas invasoras não são um problema apenas em Portugal. Por exemplo, o nosso pinheiro-bravo é um invasor na Austrália e a nossa giesta (Spartium junceum) é invasora no Perú. 
Estas formações, devido à alelopatia dessas plantas, são também de baixíssima Biodiversidade Com os incêndios e pela acção do homem, parte das nossas montanhas e algumas zonas ribatejanas e alentejanas estão já transformadas em formações plenas de invasoras como imensos eucaliptais (Portugal tem, actualmente, a maior área de eucaliptal da Europa), pinhais e acaciais, estando já algumas montanhas transformadas em zonas desérticas, plenas de pedregulhos. 
Se os nossos governantes continuarem, teimosamente, a não querer ver o que está a acontecer, caminharemos para uma diminuição drástica de Biodiversidade florestal e rapidamente para um amplo deserto de pedras montanhoso, com a planície e o litoral transformado num imenso acacial, como, aliás já acontece em muitas regiões de Portugal.

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

O MEU «EX-COLÉGIO DE CERNACHE»

Não obstante a minha inabalável defesa do sistema público de ensino (que, lamentavelmente, já não o é) e da sua separação do sistema de ensino privado, não posso deixar de reconhecer o trabalho, em prol da educação para todos, que foi o do colégio jesuíta da Imaculada Conceição, situado em Cernache. Foi um trabalho que conheci de perto e do qual tenho a melhor impressão (não me pronuncio em relação aos outros dois colégios jesuítas existentes no país, pois não os conheço). Este colégio, tendo perdido os apoios do Estado, fechou no final do passado ano e, tal como Carlos Fiolhais, considero que isso constituiu um mau serviço à educação (ver aqui).

Recebi um artigo recente de Manuel Alte da Veiga, que aqui partilho, precisamente sobre o encerramento de uma escola que poderia continuar a desempenhar a sua função educativa com base no saber inestimável que os jesuítas reuniram ao longo de séculos (deixo de fora as derivas modernas da sua pedagogia que é seguida em algumas regiões e que ainda não entendi).

Chamo-lhe «meu», porque andei a correr por todos os corredores e salas ainda antes de abrir aos primeiros alunos, com o vigor e atrevimento dos 15 anos. Era aluno da «Escola Apostólica» de Macieira de Cambra (1956), dirigida pela Companhia de Jesus e que seria deslocada para Cernache (Coimbra). Desde então até hoje, muitas vezes lá fui restaurar forças, dar alguma colaboração e sobretudo matar saudades, admirando as suas múltiplas potencialidades. 
O «Colégio de Cernache» dispunha de um ambiente escolar invejável. Como é que se prefere, «em vista do bem comum», substituir uma instituição de ensino de boa qualidade por outra sem potencialidades equivalentes? Será que o ideal de «igualdade» é colocar toda a gente no nível mais baixo, sob a égide do facilitismo? 
Lembro a história de um amigo meu antes do 25 de Abril: passando com sucesso nas provas para a carta de condução, esta foi-lhe negada porque não encontrava o «diploma de 4ª classe», exigido para tal. Ele bem acenava o diploma de licenciatura, mas quê! Fiquei triste a pensar que não vale a pena procurar ser melhor… O Colégio de Cernache não tinha «o diploma de 4ª classe convencional» para estabelecimento de ensino de «interesse público»: só podia apresentar um corpo docente bem escolhido, um ambiente de «boa educação» (= procurar sempre o melhor), respeito indiscriminado pelos alunos… e tudo isto num edifício bem apetrechado, bem orientado e vasto, rodeado de magnífico ambiente natural, com o qual professores e alunos dispunham do contacto directo. A permanente residência de pessoas responsáveis garantia o cuidado do património e da segurança. 
Por que será que até muitos políticos pagam bem para «guardar» os filhos em escolas particulares de «alto nível»? Por que será que muitos pais ou encarregados de educação se «esmifram» para que os educandos frequentem as escolas de maior qualidade? 
In illo tempore, chegada a altura de mandar os filhos para o «suplício obrigatório» (alcunha algo verdadeira do «ensino obrigatório»), as «escolas públicas» eram preferidas sobretudo por prepararem melhor os alunos para o «mundo como ele é»: com seus erros e qualidades, desafios e «lutas» (e não só o bullying), além de outras «surpresas». 
Como professor (percorri todos os níveis de ensino), participei em várias discussões informais sobre a história e fundamentos do funcionalismo público, aspectos positivos e negativos. Embora sem visão especializada, considerávamos a sua importância para o equilíbrio social e económico-financeiro e portanto para uma justa organização do mercado laboral e clarificação dos fundamentos éticos. Um tema a ser continuamente aprofundado – o que muito ajudaria a clarificar e «civilizar» a questão «público versus particular». Esta oposição é objecto de muita discussão (...). 
Sentem-se as falhas de informação e de honestidade no debate entre «bem comum» e «o bem de cada qual». Na prática, despreza-se o senso comum: este sabe que a acção particular de cada ser humano se deve orientar pelo objectivo final de bem público; e que, por sua vez, só haverá «bem público» nos empreendimentos que defendem e promovem a «particularidade» (originalidade) de cada grupo e de cada ser humano (...). 
A «igualdade» resultante da imposição duma fôrma medíocre será inevitavelmente medíocre. Só o «igual atendimento personalizado» a cada aluno é que incentiva o nível mais excelente das qualidades pessoais, sem «passagens de ano em massa» ou «reprovações destruidoras» (...). 
A organização estatal do ensino anda demasiado perto do totalitarismo. Na prática, acaba por distribuir o mal pelas aldeias, ao dificultar que cada escola tenha autonomia suficiente para formar uma boa equipa de professores, cuja originalidade seja garantia da «biodiversidade» necessária para a melhor educação. 
MANUEL ALTE DA VEIGA (professor universitário aposentado)

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

PARENTES POBRES

Meu artigo hoje no Público:

https://www.publico.pt/2019/11/07/ciencia/opiniao/parentes-pobres-1892695

É hoje lançado na Universidade de Aveiro um estudo coordenado por Nuno Ferrand, Ester Serrão e Fernando Silva e patrocinado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, que analisa a evolução da ciência e da tecnologia entre nós ao longo de 30 anos. Mostra uma quantidade impressionante de dados que possibilitam comparações entre o passado e o presente, entre as várias regiões do país, e entre Portugal e outros países europeus.

A história que se extrai é de um indiscutível caminho de progresso, mas também de estagnação na última legislatura: não se recuperou em pleno da “poda” que a troika realizou na ciência. O investimento em ciência e tecnologia em percentagem do PIB mantém-se há anos em 1,3%, quando a média da União Europeia é 2,1%. Olhando para a distribuição regional, salta à vista a concentração tripolar, com um dos pólos (Lisboa) muito maior. E, quando comparamos a qualidade da investigação com a de outros países, encontramos o nosso país na posição traseira.