FCT head resigns, amid Portuguese research community survival plea

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

A Relassa Fraqueza dos Portugueses


                  
                 “Tudo deve ser discutido. Sobre isso não há discussão”.
                  Pitigrilli

                     Este meu post, para uma conveniente metodização, divide-se em duas partes: a primeira parte é a transcrição integral do comentário, feito por N.Fortes, ao meu post “Reflexõe sobre o “Processo de Bolonha” (02/09/2015); a segunda parte refere-se à minha reposta.

                Desta forma, o leitor melhor poderá fazer a desejável síntese porque, como escreveu Fernando Pádua, presidente do instituto Nacional de Cardiologia Preventiva, “há sempre um modo diferente de ver os problemas – depende ‘del cristal com que se mira’”. Assim:

                   Primeira parte:

                    “Referir que o grau de licenciado deveria ter sido extinto, dando-lhe equivalência imediata ao grau de mestre, "apenas para suavizar a injustiça por ela sofrida relativamente aos actuais mestrados politécnicos" é uma visão enviesada do problema. Na verdade, ao utilizar como termo de comparação os mestrados politécnicos, ignorando que os mestrados universitários, incluindo os mestrados integrados, correspondem igualmente a um conjunto de 5 anos de formação que nada acrescentaram face às antigas licenciaturas, deu ao seu texto um alcance profundamente sectário. Tem razão quanto à injustiça, mas ela coloca-se na comparação da antiga licenciatura com todo e qualquer mestrado actual, seja ele politécnico ou universitário.”

                     Segunda parte:

“Agradeço e registo o seu comentário. Só não tem razão (e a razão é algo de susceptível de discussão, inclusivamente de natureza filosófica) quando iguala, aliás este o cerne da questão, os mestrados politécnicos aos mestrados universitários.

Falo, por exemplo, e apenas, dos mestrados politécnicos, via ensino, em que os respectivos candidatos entraram com classificações menores para virem a leccionar, por exemplo francês no 2.º ciclo, sendo preparados para esse efeito, em dois anos específicos  (nos 3 anos anteriores tiveram  uma preparação  para docentes generalistas do 1.º ciclo do básico, antigo ensino  primário). Ou seja, dois anos de aprendizado politécnico para ensinar a disciplina de francês (e, simultaneamente, português) podem dar o mesmo background que  5 anos de formação universitária?

Situo-me no campo do racionalismo em que o critério da verdade não deve ser sensório  (e como tal deturpado pelos sentidos que, muitas vezes, nos enganam) mas de natureza intelectual ou dedutiva. Isto para já não falar da injustiça, quando ambos concorrentes para a docência da língua da pátria de Racine, de o mestre politécnico passar à frente do mestre universitário se  possuidor de um simples valor a mais de carta de curso.

É comummente aceite (seria interessante dar a conhecer publicamente dados estatísticos  sobre este assunto) que as notas de formatura das escolas superiores de educação estão inflacionadas relativamente às das faculdades. Seja como for, concorde-se ou não com ele, o seu comentário trouxe para a luzes da ribalta uma discussão em que, como escreveu, Goethe, “qualquer ideia proferida, desperta outra ideia contrária”. Esta discussão não deve ser perspectivada em  simples opiniões pessoais. A ser assim, o festejado poeta António Gedeão, pseudónimo literário de um grande professor do antigo ensino liceal, de seu nome Rómulo de Carvalho teria encontrado uma conciliação entre juízos em confronto: “Onde Sancho vê moinhos / D. Quixote vê gigantes. / Vê moinhos? São moinhos / Vê gigantes? São gigantes”.

Mestrados universitários e politécnicos, por se não tratar de uma divergência de índole pessoal, em defesa de possíveis capelinhas, cabe ao leitor ser  árbitro de uma contenda que não deve ser tida como discussão do sexo dos anjos. É um assunto demasiado sério que diz respeito á  formação da nossa Juventude entregando-a nas mãos dos docentes melhor preparados. Aliás, foi essa a doutrina que presidiu à formação das escolas superiores de educação: atribuição de estudos superiores politécnicos para a docência do 1.º ciclo do básico, até então a cargo de competentes e esforçados diplomados, é justo reconhecê-lo, pelas escolas do magistério primário. Ou seja, pretendeu-se, com isso, uma evolução formativa. Hoje, em contramão, há uma involução com mestres formados pelo ensino politécnico que logo procuraram forma de leccionar no 2.º ciclo do básico em paridade (concorrencialmente mesmo em vantagem) com mestres saídos da Universidade.

Como me esclarecia, dias atrás, pessoa amiga o criticável chico-espertismo encontrou o “manto diáfano” de um neologismo aparecido na década 90 do século passado: empreendedorismo proactivo. Situação só possível perante a passividade de quem se devia pronunciar sobre este assunto e o não faz por uma razão tida por, passe o plebeísmo, “nacional porreirismo!”

Não seria útil para a res publica o testemunho de mestres com diplomas universitários? Seria, até, um dever de cidadania que reportaria para um passado distante a crítica de quem, segundo ele próprio,  farpeou a Ignorância que tem cabeça de touro, o imortal  Eça: “Portugal é vítima da bonacheirice, a relassa fraqueza que nos enlaça a todos nós Portugueses, nos enche de culpada indulgência uns para os outros e, irremediavelmente, estraga entre nós toda a disciplina e toda a ordem.”

Post scriptum: As situações ocorridas, e aqui relatadas, têm a sua génese  posteriormente ao “Processo de Bolonha” por iniciativa do comentador “N. Fortes”. Se, porventura, for pretendido fazer um flashback a tempos anteriores deverá substituir-se o grau de mestre por licenciado com ligeiras nuances para o tema em discussão.

Génios loucos? Nem por isso!

Dirac e a família (http://grahamfarmelo.com/the-strangest-man/)

Ando há algum tempo a trabalhar sobre a questão da humanidade das biografias dos cientistas, em particular de químicos e físicos. O recente texto de João Magueijo na Revista Visão contém alguns pontos com que não concordo e nos devem fazer meditar. Por isso, vou aqui apresentar algumas das conclusões a que cheguei sobre o assunto e sobre os cientistas referidos por Magueijo. Mais detalhes terão de esperar pelo livro!

A ideia mítica do cientista excêntrico ou louco que parece encaixar que nem uma luva a Dirac, Einstein, Pauli, entre outros, é um erro de perspectiva que só se torna plausível com base em anedotas fora do contexto e, muitas vezes, retocadas. Pode ser uma ideia tentadora como mito fundador dos avanços da ciência, mas a ideia geral do génio louco é desmentida pela estatística. Se pensarmos bem, a percentagem de génios excêntricos é relativamente baixa. E a percentagem daqueles a que podemos associar garantidamente qualquer tipo de doença mental é ainda mais baixa. Não quer isto dizer que os génios não tenham quaisquer características que os tornem diferentes. Claro que têm, mas, como escreveu Stephen Jay Gould no prefácio de Scientists at Work, a ciência abarca tantas vertentes da acção humana que há lugar para quase todo o tipo de personalidades e capacidades. Seguindo ainda Gould, aqueles que acabam por dar origem a desenvolvimentos geniais, têm características comuns: são, em geral, persistentes e obsessivos, com capacidades de trabalho nos problemas (que lhes interessam) muito acima da média, são brilhantes a analisar as questões sob novas perspectivas e conseguem manter viva uma espécie de curiosidade infantil. No entanto, isso não os torna muito diferentes das outras pessoas. Podemos encontrar, claro, personalidades borderline, ou mesmo pessoas com doenças mentais, desde a depressão à esquizofrenia, passando pelo autismo e personalidades bipolares ou histriónicas e megalómanas, mas, se em alguns casos, isso possa contribuir para os resultados geniais (tanto pela forma de pensar como pela escolha dos temas), na maioria das vezes os resultados são obtidos apesar da doença e não devido a ela.  

Paul Dirac é um dos físicos mais famosos pelo seu suposto comportamento excêntrico, sendo classificado muitas vezes como autista. Ora, talvez não seja bem assim. Estão bem documentados os famosos silêncios que Dirac atribuía à sua infância difícil, na qual o pai o obrigava a falar francês ou estar calado. Mas está também documentado, nas cartas que escrevia à mulher, como isso o atormentou até à morte do pai. A relação que Pauli tinha com a mulher, Manci, irmã de Eugene Wigner, era conservadora, mas, segundo biógrafos, bastante feliz. As suas cartas pessoais eram bastante formais mas simultaneamente francas e sem as loucuras que se lhe atribuem. Era com certeza uma pessoa sensível, bastante introvertida e com falta de jeito social, mas dificilmente pode ser classificado como louco ou doente.

É engraçado como as anedotas se encaixam às expectativas. É conhecida a edição do “Crime e Castigo” de Dostoievki que Dirac leu, mas muitos comentadores do assunto não a leram, com certeza. A famosa frase sobre o livro “O autor cometeu um erro: num dia pôs o sol a nascer duas vezes” não serve para mostrar o génio de Dirac ou a sua capacidade especial para observar detalhes que mais ninguém vê, mas apenas para mostrar que este leu livro pois esse facto é claramente apontado pela tradutora!

Dado que havia já um mito à sua volta, tudo servia para o aumentar; as suas atitudes são sempre analisadas nessa perspectiva. Por exemplo, uma vez apresentou a mulher como a irmã de Eugene Wigner e isso foi entendido como mais uma bizarria de Dirac, mas talvez não seja; talvez tenha sido um caso de falta de jeito. Também é famosa a resposta ao comentário “Não estou a perceber essa equação” - a qual denota mais um sentido de humor subtil do que autismo - “isso é uma afirmação, não uma questão!”, terá respondido! Na verdade, a equação parece que tinha um erro - Dirac também se enganava - e quem fez o comentário também não se fez entender.

Dirac é bastante franco e empático em entrevistas e palestras que deu sobre a sua formação como físico. Nada disso é sinal de autismo. Refere, por exemplo, que as melhores ideias lhe surgiam quando estava relaxado e a fazer outras coisas. Que a sua formação inicial como engenheiro electrónico foi muito importante para o desenvolvimento das suas novas ferramentas matemáticas, usando a "matemática dos engenheiros". Dirac gostava de caminhadas e de alguns livros e séries de televisão estranhos. Manci afirmava que Dirac era religioso, apesar de todos o acharem ateu. Tinha uma personalidade especial e foi genial.

Schrödinger foi famoso pelo comportamento liberal no que respeita às relações amorosas, mas julgo que não há notícia de que este se tenha envolvido com menores ou Lolitas. As páginas do diário da altura em que descobriu a famosa equação foram arrancadas, mas as mulheres com que se relacionava ao tempo são mais ou menos conhecidas. Provavelmente nunca saberemos com quem ele estava na altura, mas ser adepto do amor livre não o torna doente ou pedófilo. Aliás, Schrödinger é conhecido pelos seus escrúpulos e honestidade em relação à ciência e vida humana. As suas palestras do início dos anos 50 denotam um grande pessimismo e humanismo em relação ao desenvolvimento tecnológico e, ao que considera, a crise das ciências fundamentais. Nunca ficou satisfeito com a sua equação e com a interpretação de Copenhaga, as quais sempre considerou imperfeitas. Numa altura, ao discutir com Bohr na casa deste último, ficou de tal forma transtornado que a febre súbita que teve foi atribuída a essa discussão. No entanto, penso que ninguém aponta Schrödinger como uma personalidade doentia.

Einstein sempre procurou preservar a sua vida privada, julgamos saber agora porquê: não era coisa de que pudesse orgulhar. No entanto, a vida privada de Einstein é agora bastante conhecida pelas muitas cartas que escreveu e recebieu, assim como pelo grande número de depoimentos e biografias conhecidos. Mas não exageremos, não foi uma pessoa essencialmente má em privado. Teve, com as pessoas com que se relacionou e família, momentos de felicidade e de sofrimento. Infelizmente os segundos foram bastantes.

As suas cartas de amor eram muitas vezes ridículas (como as de Pessoa) e a sua vida amorosa e privada foi, muitas vezes, um turbilhão entre a imaturidade e o calculismo e egoísmo infantis, denotando mais falta de jeito do que de sentimentos. Na relação com Mileva passou da paixão louca a extremos inqualificáveis de maldade, mas isso acontece, infelizmente, em muitas relações seguidas de separações. Chorou muito o afastamento dos filhos nos ombros de Fritz Haber, escreveu-lhes muitas cartas, mas depois quase os esqueceu. Não sabia a dia de anos do filho mais velho e nunca visitou o filho que se revelou esquizofrénico e passou quase toda a vida num hospital psiquiático. É talvez relativamente normal que perante o turbilhão da sua vida pessoal, Einstein procurasse cada vez mais a objectividade dos seus trabalhos e os prazeres da exposição pública e da fama. 

Einstein foi, como é bem conhecido, uma criança de desenvolvimento tardio. Mas, embora tivesse mau génio desde a infância, era um aluno brilhante quando se aplicava. Gostava de trabalhos práticos mas não ligava ao protocolos (quantos alunos o fazem!) Gostava de música e tocava muito bem, ao contrário do que por vezes se diz. Não era infalível. Algumas das suas contribuições geniais foram sendo trabalhados e corrigidas ao longo dos anos. A sua persistência, obsessões e independência de pensamento são lendárias. Nada disto faz de Einstein um inadaptado ou psicopata. Foi uma pessoa difícil e multifacetada que era simultaneamente genial. Um dos maiores génios do século XX.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Iluminados - Ano Interncional da Luz na Visão

Cinco textos, de cinco autores, acerca de cinco personalidades históricas e do seu contributo para o conhecimento da luz e para as nossas vidas, publicados na revista Visão desta semana:

ARCO ÍRIS CASEIRO 



Há cerca de 350 anos o inglês Isaac Newton, recém-formado em Cambridge, fez uma das mais famosas e belas experiências de toda a ciência. O melhor é dar-lhe a palavra:

“No início de 1666 (quando me dedicava a polir vidros de formas diferentes da esférica), arranjei um prisma triangular para obter com ele os célebres fenómenos das cores: com este fito escureci o meu quarto e fiz um pequeno buraco na janela, para deixar entrar uma quantidade conveniente de luz solar, coloquei o meu prisma de modo a que a luz refractasse para a parede oposta. De início, foi um divertimento muito agradável ver as cores vivas e intensas assim produzidas; mas depois de as considerar mais seriamente, fiquei surpreso…”

Newton não foi o primeiro a fazer o arco-íris caseiro, mas foi o primeiro a percebê-lo: a luz, segundo ele, era formada por corpúsculos de várias cores em movimento rectilíneo e os raios violetas, por serem mais lentos, eram mais desviados do que os  vermelhos. As cores do arco íris estavam todas na luz branca do Sol, limitando-se o prisma a separá-las.

O que mais me espanta neste discurso directo é o confesso divertimento de um cientista muito circunspecto. Isto é “ciência viva” antes dessa expressão ter surgido em Portugal. Aquele que foi talvez o maior cientista de sempre mostra-nos que, antes da ciência a sério, há lugar para a ciência a brincar.

É fácil imitar Newton, caro leitor: celebre o Ano Internacional da Luz com um arco-íris em sua casa!

Carlos Fiolhais (físico)


O HOMEM DOS "RAIOS NOBEL"


No dia de 8 de Novembro de 1895, o alemão Wilhelm Röntgen ficou a trabalhar até tarde no Instituto de Física da Universidade de Würzburg. Andava à caça dos misteriosos raios catódicos, emitidos quando uma corrente eléctrica passa através de um tubo de vácuo (sabemos hoje que são feixes de electrões). Com o laboratório às escuras viu um brilho verde na placa fluorescente que tinha colocado em frente ao tubo, no local atingido pelos raios. Mas Röntgen notou ainda um outro ponto de luz, inesperado e vários metros afastado, num cartão pintado com tinta fluorescente. Sabia que os raios catódicos nunca poderiam viajar tão longe. Tinha que ser um outro tipo de radiação. Colocou uma carta de jogar no caminho desta estranha radiação e descobriu que esta a passava com facilidade. O mesmo acontecia com um baralho inteiro. Uma placa de chumbo conseguia parar a radiação, mas o mais extraordinário foi ver no ecrã fluorescente os contornos e ossos dos seus dedos que seguravam a placa. Nos dias seguintes obteve várias outras imagens, designadamente dos ossos da mão e anéis da sua mulher, para consternação da própria. Ganhou o primeiro Nobel da Física em 1901 pela descoberta dos raios X, que permitiram depois muitas outras descobertas, como a estrutura do ADN, com a sua famosa dupla hélice, ou do ribossoma, a fábrica de proteínas da célula. Até hoje deram 28 Nobel da física, química e medicina. Em Outubro, haverá mais?

David Marçal (bioquímico)

PERCEBER A LUZ DA VIDA


Quando pensamos na importância da luz para a Biologia, de entre os inúmeros processos biológicos relacionados com a luz, destaca-se o processo que alimenta a Biosfera, a fotossíntese. Nas plantas, algas e algumas bactérias, os cloroplastos capturam a energia da luz que viajou 150 milhões de quilómetros do Sol até à Terra e convertem-na em energia química, que é armazenada sob a forma de açúcar e outras moléculas orgânicas, que são depois utilizadas como nutrientes pelos organismos como nós, incapazes de realizar fotossíntese. Este processo é hoje relativamente bem conhecido, mas continua a ser alvo de enorme investigação.
Foi o botânico alemão Theodor Engelmann que em 1882 descobriu, através de um conjunto de experiências muito elegantes, que a fotossíntese ocorre nos cloroplastos (o organito celular onde se acumula o pigmento verde, a clorofila). Usou um prisma ótico para separar a luz em cores e identificar as mais eficazes para o processo fotossintético. Sabemos hoje que a eficácia da fotossíntese é afetada pela qualidade, intensidade e duração da luz.
A vida é ”powered by” luz, através da fotossíntese, um processo que nem sequer é muito eficiente do ponto de vista energético, mas que suporta a vida na Terra. Recentemente tem sido proposto modificar esta via em plantas de interesse agronómico, tornando-as mais eficientes e consequentemente mais produtivas. Será esse o caminho? Poderá certamente vir a ser um dos caminhos.

José Matos (biólogo)

GALILEU E A LUZ


É provável que o “diálogo” entre Salviati, Sagredo e Simplício sobre a hipótese da luz se propagar instantaneamente ou demorar a chegar de um ponto a outro não tenha passado de uma experiência concetual. Galileu retomou a questão abordada pelos filósofos gregos séculos antes, e propôs uma experiência que acabaria por conduzir a consequência científica notável. É agora evidente que não poderia resultar, dado que o tempo gasto pela luz no percurso entre as duas montanhas seria largamente confundido com o tempo de reacção dos operadores das lanternas e a distância entre eles era demasiado pequena.
Em 1609 Galileu observou quatro luas em volta de Júpiter, descoberta que permitiu a Olaus Roemer em 1676 estimar pela primeira vez a velocidade da luz. Roemer tomou Júpiter como uma das “montanhas” da experiência de Galileu, afastada da outra – a Terra – mais de quinhentos milhões de quilómetros. Registou os momentos dos eclipses de um dos satélites galileanos (Io) e verificou que a entrada e saída na sombra do planeta ocorria em intervalos de tempo que diferiam (mais de dezasseis minutos) consoante a posição relativa a Júpiter. Interpretou tal diferença como o tempo gasto pela luz para percorrer a distância equivalente ao diâmetro da órbita da Terra.
Galileu havia incentivado a natural curiosidade da comunidade científica e ofereceu a Roemer o caminho que levaria à determinação da “constante” e “universal” velocidade da luz.

Máximo Ferreira (astrónomo)

VIRAR A FÍSICA DO AVESSO


Einstein virou a Física do avesso: matéria e energia passaram a ser uma; o espaço e o tempo deixaram de ser separados; a massa encurva o espaço-tempo; e foram revelados mistérios da luz. Usou matemática, mas combinou-a com “experiências de pensamento”, misturas de lógica, intuição e visão unificadora que substituíam o trabalho de laboratório de que, parece, não gostava.
Inventou uma nova forma de fazer física, sem paralelo desde a revolução de Galileu. Na época de Einstein, só as “experiências de pensamento” podiam mostrar que os relógios andam mais devagar para quem corre muito, e que uma bola de futebol em voo pode ser vista como achatada tal como uma bola de raguebi. E isto não são contos infantis, é o nosso mundo. 
A revolução de Einstein foi também sociológica. A ciência deixou de ser vista apenas como útil. Tal como a arte, cativa o sonho, cria emoção, alimenta o mistério. As estrelas, grandes reactores de conversão de massa em energia, são a nossa origem e destino. Os buracos negros, no centro das galáxias, são os maiores devoradores de massa e luz do universo.
A revolução foi também tecnológica. E ainda não acabou. Einstein deu-nos o laser. Serve para comunicações, oftalmologia, indústria, impressoras. Deu-nos células fotoeléctricas, usadas por exemplo nas portas dos elevadores. E até um exame médico (PET) que consiste na aniquilação matéria-anti-matéria: a fórmula E=mc2 em acção. A Física ficou do avesso e a nossa vida também.
Teresa Peña (física)

A Universidade Fora da Lei. Carta aberta a Maria Arménia Carrondo

A historiadora Raquel Varela escreveu uma carta à presidente do Conselho Directivo da FCT,  a propósito do código de conduta recentemente divulgado pela FCT, da qual transcrevemos um excerto:

"Podemos até ensinar a missa ao padre mas temos que conhecer a bíblia melhor que ele e pelo menos não ter roubado as esmolas. O corrupto não dá lições a quem tem as mãos limpas; o criminoso não dá aulas à vítima; para se dar lições de seriedade e ética é preciso tê-la. Aos investigadores não basta parecer, há que ser. A FCT devia ter-se poupado a esta figura ultrajante pois se há instituição em Portugal que não tem qualquer reconhecimento em matéria de ética por parte da comunidade científica, avaliação que nos une a todos, e tem enchido as páginas de jornais deste país e é matéria não só de corredores mas de discursos de abertura de conferências públicas, em todas as universidades, é a FCT".

A carta completa pode ser lida aqui.

Reflexões sobre o "Processo de Bolonha"

Meu artigo de opinião saído hoje no "Público":

“A vida é um pouco mais complexa do que se diz, e também as circunstâncias. Há uma necessidade premente de mostrar essa complexidade”.
Marcel Proust

Num país em que, segundo Eça, “não se lê, folheia-se”, foi lido por mim, com merecida atenção, o recente artigo de opinião,  “Ensino superior - um equívoco chamado Bolonha?”, da autoria de Hélder Castanheira, docente do ensino superior, saído no PÚBLICO (11/08/2015). Esse artigo, até pela interrogação do respectivo título, trouxe, novamente, para a opinião pública  uma questão que bastante tinta fez correr, e fará correr.
    
Porque, como escreveu T.S. Elliot, “o tempo passado e o tempo presente, fazem ambos parte do tempo futuro”, sobre o polémico “Processo de Bolonha” apresento algumas reflexões recorrendo  à minha participação,  em representação do Sindicato Nacional dos Professores Licenciados, no seminário “Reflexos da Declaração de Bolonha” (Novembro/2004), promovido pelo Conselho Nacional das Profissões Liberais, em representação de nove ordens profissionais: médicos, engenheiros, advogados, médicos veterinários, farmacêuticos, médicos dentistas, arquitectos, biólogos e economistas.

Desde já, relevo dois pecados originais do “Processo de Bolonha”. Residem eles na inobservância de dois princípios aí defendidos: 1) “Adopção de um sistema de graus comparável e legível”  e 2) “uma certificação de qualidade”.
 
Julgo que isto aconteceu pelo nosso jeito em  complicar as coisas simples e no desejo de ser diferente, abastardando, como tal, a língua de Shakespeare pela  tradução forçada para licenciatura da palavra inglesa bachelor .

Desta forma, em vez da adopção do grau de bacharel, deu-se a diminuição do grau de licenciado, para três anos, desvirtuando-se, por completo, a comparabilidade e legibilidade pretendidas num país em que grau de bacharel tem antiga tradição (haja em vista o bacharelato de Eça de Queiroz) tendo sido recuperado, logo após o 25 de Abril, embora em existência efémera de crisálida, no ensino politécnico e mesmo universitário como  aconteceu no curso de Direito. 

Para além disso, ponho sérias reservas que “a adopção de um sistema de graus comparável e legível” não seja seriamente dificultada pela possibilidade dos outros parceiros anglo-saxónicos  se verem em palpos-de-aranha para estabelecer a comparação e a legibilidade entre o seu grau de bachelor e o nosso grau de licenciado. Não poucas vezes, o desejo de ser diferente ou original pode ter o seu quê de caricato!

Depois, o que dizer de uma “certificação de qualidade” em que as antigas licenciaturas universitárias foram tratadas como parentes pobres? Assim como as árvores morrem de pé, ao grau de licenciado, “com o prestígio da Universidade que lhe deu a primeira credencial de título académico nobilitante” (Adriano Moreira), deveria ter sido extinto dando-lhe equivalência imediata ao grau de mestre (master, na terminologia inglesa). Isto sem qualquer favor, apenas  para suavizar a injustiça por ela sofrida  relativamente   aos actuais mestrados politécnicos. Chego a convencer-me, na peugada de George Canning, que neste pedaço de terra lusitana  “há para cada problema uma solução que é fácil, clara e…errada”!

Embora sabendo que “a profecia é algo muito difícil especialmente em relação ao futuro” (Mark Twain), reportando-me  à minha participação no supracitado seminário “Reflexos  da Declaração de Bolonha”, tenho como premonitória, a minha intervenção, no respectivo” Workshop 2”, mesmo antes da aberração das “Novas Oportunidades” ou “Provas de acesso ao ensino superior para maiores de 23 anos”. Nessa minha participação, tive a oportunidade de chamar a atenção para o facto de uma sólida formação inicial dever ser exigida no acesso aos cursos universitários. Situação levada em linha de conta no preâmbulo das conclusões do referido “workshop” em que se lia: “Torna-se  imperativo referir que este workshop foi pautado por uma excelente intervenção de todos os participantes, quer qualitativa quer quantitativamente”. 

Ipso facto, de um conjunto de seis conclusões surge em segundo lugar, a seguinte: “O Processo de Bolonha deverá repensar todo o ensino e não apenas o ensino superior. Torna-se difícil, se não mesmo impossível, reestruturar cursos de ensino superior quando há manifestamente falhas na formação do aluno que se evidenciam aquando da sua presença no mesmo. Estas falhas funcionam como um entrave à fluidez do ensino superior”.

Poderia ter sido o Processo de Bolonha o escoramento de um ensino superior abrindo brechas por todo o lado, qual edifício em ruina por falta de caboucos sólidos, por, através da Lei de Bases do Sistema Educativo (1986), ter sido atribuída igualdade, para a docência do 2.º ciclo do ensino básico, entre uma licenciatura universitária, unicamente para o ensino da Matemática, e uma outra do ensino politécnico, simultaneamente para a docência de Matemática e Ciências da Natureza.

Em resumo, em Portugal à sombra de princípios pretensamente democráticos parece haver um prazer sádico dos governantes em auscultar os parceiros sociais, mesmo que possuidores de profissões havidas de “interesse publico”, para decidir precisamente o contrário!

terça-feira, 1 de setembro de 2015

PREVISÕES CRISTALINAS SEM BOLA DE CRISTAL


Informação recebida do Museu da Ciência de Coimbra

 A DEMOGRAFIA E O PAÍS - PREVISÕES CRISTALINAS SEM BOLA DE CRISTAL
 de Eduardo Anselmo Castro, José Manuel Martins, Carlos Jorge Silva

 O futuro que se aborda no livro "A Demografia e o País - previsões cristalinas sem bola de cristal" baseia-se numa análise séria. Esta demografia não é ficção. - A Segurança Social vai colapsar? - Quantos seremos daqui a 30 anos? - O aumento da fecundidade resolve os nossos problemas? Estas questões interessam a todos. E este livro fornece respostas, baseadas numa pesquisa séria e em análise de informação, tendo desenvolvido um modelo para perspetivar o futuro demográfico do país. A utilização de informação fundamentada para tomar decisões é de importância inegável. No entanto, a prática nem sempre corporiza a boa teoria. Em Portugal a oferta de dados demográficos tem sido relativamente escassa. Esta obra vem trazer um novo olhar sobre a análise da demografia no nosso país. De leitura relevante para decisores, analistas e estudiosos da matéria, constitui igualmente uma fonte imprescindível para todos os que querem saber um pouco mais sobre a demografia em Portugal. Mas a análise ultrapassa as suas fronteiras. Quando usamos bem a informação de que dispomos, decidimos melhor. Esta evidência é aplicada com parcimónia pelos decisores portugueses, a todos os níveis da administração pública. E quando a informação em causa é do domínio da demografia, a parcimónia aumenta consideravelmente. Há oferta escassa e ainda mais escassa procura de dados demográficos. O livro "A Demografia e o País - previsões cristalinas sem bola de cristal" visa aumentar a oferta e estimular a procura de informação, para suscitar perguntas e encontrar respostas.

A apresentação do livro vai estar a cargo de Ana Paula Santana (especialista em Geografia Social e Planeamento Urbano Sustentável, Faculdade de Letras da UC), Fernando Rocha de Andrade (especialista em Economia e Finanças Públicas, Faculdade de Direito da UC) e Fernando Seabra Santos (especialista em Oceanografia Física, Faculdade de Ciências e Tecnologia da UC).

A sessão contará ainda com a presença dos autores Eduardo Anselmo Castro, José Manuel Martins e Carlos Jorge Silva, todos do Departamento de Ciências Sociais, Políticas e do Território da Universidade de Aveiro.

Lo
cal: Museu de Ciência da Universidade de Coimbra
Dia: 3 de Setembro. Horário: 17H30
Entrada livre

História prodigiosa de Portugal - vol. II

Informação recebida da Verso da História:



História Prodigiosa de Portugal. Magias & Mistérios


Depois de História Prodigiosa de Portugal. Mitos & Maravilhas, Joaquim Fernandes dá continuidade a uma narrativa de crenças e lendas que, em regra, é desprezada e minimizada pela historiografia comum.
Neste segundo volume, prossegue a fantástica viagem ao imaginário onírico e mítico do Portugal contemporâneo.

Nas livrarias a 9 de setembro.

Timelapse - Portugal Night Skies

LIVRO NEGRO DA AVALIAÇÃO DA CIÊNCIA EM PORTUGAL

A perversão e adulteração do sistema de avaliação científica em Portugal levada a cabo nos últimos quatro anos está agora documentada num "Livro Negro”, disponível em http://www.lnavaliacao.pt/, tendo por base um conjunto dos principais comunicados, cartas, artigos de opinião e crónicas, assim como outros textos publicados na imprensa ou na internet em 2014 e 2015 sobre este tema.

Comente e participe na defesa do desenvolvimento científico para Portugal. Poderá enviar os seus comentários através de http://www.lnavaliacao.pt/.

Esse processo de adulteração, ameaçando a destruição do sistema científico nacional, significou desde logo a ruptura com o amplo compromisso social e político para apoiar o desenvolvimento científico e tecnológico em Portugal conseguido nas últimas décadas. Saliente-se que o processo de adulteração da avaliação científica em Portugal nos últimos anos foi acompanhado de um corte significativo do apoio público à actividade científica. O investimento privado acompanhou essa tendência de forma igualmente abrupta, diminuindo significativamente. Por junto, a despesa total anual em I&D foi reduzida em cerca de 500 milhões de euros entre 2010 e 2013 (IPCTN 2013). Em consequência, aumentou a divergência de Portugal relativamente à Europa, com despesa total anual em I&D a diminuir para 1,34% do produto interno bruto, PIB (enquanto tinha atingido cerca 1,55% do PIB em 2009 e 2010).

Mas este Livro Negro é também um livro de esperança no futuro, para que um sistema de avaliação correcto seja devidamente reposto e para que o sistema de avaliação científica em Portugal dos últimos anos não mais volte a ser posto em causa.

Participe neste debate, pela defesa do Conhecimento como Futuro para Portugal,

Manuel Heitor
Carlos Fiolhais
Alexandre Quintanilha
Maria Fernanda Rollo
João Sentieiro

A TERRA VISTA COMO UM SISTEMA DINÂMICO QUE SE AUTORREGULA

Primeiro texto de uma sequência da autoria do Professor Galopim de Carvalho.

Gaia, a Terra-mãe, deusa da mitologia grega.
Como introdução ao tema a desenvolver em próximos posts, é essencial apreender o conceito de sistema do contexto da termodinâmica. Neste capítulo da física, um sistema é, como o definiu o saudoso colega, Prof. Pinto Peixoto, em 1987, um espaço confinado ou limitado por um invólucro ou parede, real ou conceptual, dispondo de massa, de energia e de um conjunto organizado de elementos ou de atributos dinamicamente interactivos, inserido num determinado ambiente a que se dá também o nome de universo complementar do sistema.

As diferentes partes que eventualmente constituem um sistema constituem subsistemas e, neste caso, o sistema diz-se composto. Quando separados por paredes internas, os subsistemas dizem-se disjuntos. Relativamente à massa e à energia, os sistemas são classificados como:
- isolados, se as suas paredes impedirem trocas com o ambiente, dizendo-se adiabátios e impermeáveis;
- fechados, quando permitem transferência de energia, mas não de massa;
- abertos, quando permitem trocas de energia e de massa com o ambiente. Neste último caso, as respectivas paredes dizem-se permeáveis e diatérmicas.
Não é desejável nem fácil tratar separadamente as diversas entidades ditas esféricas constituintes do planeta que nos deu e assegura a vida. São muitas e complexas as relações entre elas como subsistemas abertos de um sistema dinâmico (neste caso, adjectivado de geodinâmico). São conhecidas as relações da litosfera com o manto, bem explicadas ao nível da tectónica de placas, e, até, com o núcleo, particularmente documentadas num determinado tipo de vulcanismo.

É meu propósito explanar (a um nível de pormenor que não ultrapasse as generalidades) outras relações, nomeadamente as existentes entre as entidades mais periféricas, como são a litosfera, a atmosfera, a hidrosfera e a biosfera.

Como subsistemas do sistema Terra, abertos e contíguos que são, estas esferas promovem e permitem, entre si, um sem número de trocas de energia e de matéria (massa) ao longo das suas vastas e íntimas (interpenetradas) interfaces ou fronteiras. Tais transferências, mantidas ao longo de mais de 4000 milhões de milhões de anos da história do planeta, induziram as evoluções que sofreram. Tais evoluções, em muitos casos próprias do circuito externo do ciclo petrogenético (ou geoquímico), estão arquivadas, como veremos, nas rochas sedimentares.

De todos os planetas do Sistema Solar, incluindo os múltiplos satélites que os acompanham, a Terra é, tanto quanto sabemos, o único que possui uma atmosfera oxigenada, uma hidrosfera líquida e uma biosfera. A sua massa e a posição que ocupa relativamente ao Sol determinaram-lhe a composição e características ambientais que a tornam única no universo do nosso conhecimento.

Bem longe de nós, Ganimede, um dos satélites de Júpiter e a maior lua do Sistema Solar, possui uma crosta de água gelada, só possível nas baixíssimas temperaturas (–150.º a –180.º C) existentes à sua superfície. Neste contexto, o gelo é o mineral da única “rocha” ali existente à superfície, também ela gelo, de uma litosfera de gelo, ou seja, uma hidrosfera gelada, ou criosfera.

(continua)
A. Galopim de Carvalho

domingo, 30 de agosto de 2015

ASSUNCÃO CRISTAS E A PSEUDOCIÊNCIA


Diz a ministra da agricultura e do mar, que o relatório do International Council for the Exploration of the Sea (ICES), uma organização científica internacional que se dedica ao estudo da pesca e dos recursos marinhos, pode ter alguma "falha" porque aconselha quotas de captura de sardinha abaixo do aconselhável em vésperas de eleições. Afinal os pescadores votam e, pior ainda, os apreciadores de sardinha também. Qualquer relatório ou estudo científico pode ter falhas. Mas lançar uma suspeita destas sem qualquer fundamento é desonesto. É o tipo de coisa que fazem os negacionistas das alterações climáticas face aos relatórios do IPCC. Nada que surpreenda, de um governo que reduziu a "quota" do conhecimento e da cultura científica a níveis insustentáveis e aumentou alarvemente a da pseudociência, aprovando licenciaturas em banha da cobra e dando um largo (e enganador) impulso às terapias alternativas. Muito bem faz o biólogo Gonçalo Calado na reportagem da SIC, em pôr os pontos nos is.

As ciências sociais e humanas na roleta russa com a FCT

Artigo de opinião de Moisés de Lemos Martins, Diretor do CECS e presidente da Confederação Iberoamericana das Associações Científicas de Comunicação (Confibercom), publicado no Público:

Com as universidades fechadas e a comunidade académica de férias, a Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) divulgou, em pleno mês de agosto, os resultados do concurso para financiamento de projetos científicos. Fê-lo, assim, de mansinho, como quem não quer a coisa, para que as péssimas avaliações passassem despercebidas.

O Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (CECS), da Universidade do Minho, viu reprovados os 24 projetos que apresentou a concurso. De igual modo, o centro de comunicação da Universidade da Beira Interior (LabCom.IFP) também viu recusado o financiamento a todos os seus projetos. A FCT cumpriu, deste modo, a segunda fase do desmantelamento das ciências da comunicação em Portugal.

Na primeira fase (dezembro de 2014), havia reduzido as ciências da comunicação a dois centros de investigação financiados, um como Excelente (CECS), outro como Bom (LabCom.IFP). Ao reprovar, agora, todos os projetos destes dois centros, a FCT faz a demonstração exuberante da sua política destrutiva.

Escrevi neste jornal, a 03.02.2014: “um vento ruim levantou-se na Cidade; enquanto durar, serão anos de calamidade”. Outro não foi, aliás, o diagnóstico de Ramada Curto, ao assinalar que o Inverno chegara à investigação das ciências sociais e humanas (CSH) “com a força de uma hecatombe” (02.01.2014). E também Sobrinho Simões (22.11.2013) viu o que está à vista de todos: a FCT fez, com a ciência, “uma espécie de destruição criativa: rebentou com tudo, esperando que, das cinzas, nasça algo de novo”.

Como entender, todavia, que o melhor centro de investigação em ciências da comunicação do país, avaliado como Excelente por investigadores da European Science Foundation, em 2014, tenha todos os seus projetos reprovados para financiamento, à média de 6 pontos em 9? Pode porventura um centro de investigação ser excecional, tendo apenas investigadores medíocres, incapazes de projetar investigação relevante?

No que respeita às CSH, os painéis de avaliação são hoje compostos por investigadores sem competência específica na área que avaliam. Foi assim na recente avaliação dos centros de investigação. Aconteceu a mesma coisa nos sucessivos concursos anuais para bolsas de investigação de topo. E foi também agora, com os projetos de investigação. Acresce ainda o facto de os painéis de avaliação das CSH não incluírem, por regra, investigadores de Comunicação.

Por outro lado, como entender que investigadores estrangeiros tenham a má criação e o desplante de vir a nossa casa, como convidados, avaliar uma equipa de investigação de ciências da comunicação como académicos de “vistas curtas”, quando esta equipa inclui quatro dos seis professores catedráticos do país nesta área, de três universidades diferentes?

E como entender que tais avaliadores possam fazer considerações tão afrontosas sobre os investigadores do CECS: “Tal como referiu um avaliador que serviu, vários anos, na avaliação da FCT, aos concorrentes falta conhecimento da literatura anglo-saxónica”?

Pergunto, ainda, é concebível que um júri de avaliação (um júri de convidados estrangeiros, entenda-se) critique as estratégias de internacionalização da comunidade científica portuguesa, condenando os projetos que escolhem como principais parceiros investigadores do espaço lusófono e ibero-americano, porque “parecem excluir os anglo-saxónicos, principalmente ingleses e americanos”?

Se a FCT recorre apenas a investigadores estrangeiros, fá-lo com encomenda política. E não podem ser investigadores de topo. Pode dar-se o caso, todavia, de a FCT apenas recorrer a investigadores estrangeiros como expediente para legitimar políticas e classificações por si decretadas, contando com o frete político de um conjunto de mandarins da ciência em Portugal. E então, nesse caso, tudo passaria a fazer sentido. Aliás, esta é a hipótese que me parece mais plausível, porque permite explicar as considerações tolas, embora graves e injuriosas, que referi, assim como este inqualificável modo de atuação, que trata os investigadores do CECS como uma indistinta massa de pés descalços, a serem sepultados todos em vala comum.

Apenas assim se compreende que investigadores de obra feita, de grande dimensão internacional, reconhecidos pelos seus pares como os melhores entre os melhores, tanto no espaço anglo-saxónico e francófono, como no espaço lusófono e iberoamericano, sejam tratados como se estivessem a dar os primeiros passos na investigação: “de vistas curtas” e mal informados, dizem; incapazes de formular hipóteses de investigação; sem estratégia científica; equivocados no que toca às escolhas de parceiros internacionais; titubeantes a estabelecer as etapas de investigação; incompetentes a fazer contas…

Alinhados com a FCT, estes mandarins da ciência, investigadores novos ou menos novos, trabalhariam a coberto do anonimato, para condicionar os resultados do concurso, produzindo a argumentação que investigadores estrangeiros depois legitimam e fixando as short lists que determinam os vencedores.

Um tal procedimento da FCT pode comprar a boa vontade dos investigadores estrangeiros, pelo facto de lhes pagar um trabalho que lhes não dá canseira. Mas não passa de um procedimento indecoroso, encapotando as decisões de uma política científica extremista, que ainda por cima abastarda as CSH, avaliando-as em função do dogma da sua ligação ao mercado, ou seja, às empresas e aos negócios.  

É deste modo que a FCT prossegue a sua obra de flagelo em devastação, utilizando procedimentos opacos, labirínticos e dissimulados, para desmantelar, do pé para a mão, áreas científicas que demoraram décadas a desenvolver-se.

O que honra uma instituição pública e a torna idónea são as virtudes simples: do sentido de serviço à comunidade, da decência e da seriedade — tudo virtudes que a FCT não pratica.

Mas eu ainda não perdi a esperança de que acabem por lhe rebentar na cabeça as balas da roleta russa com que tem rebentado, a eito, as CSH em Portugal.

Moisés de Lemos Martins
Diretor do CECS e presidente da Confederação Iberoamericana das Associações Científicas de Comunicação (Confibercom)

Avaliação dos centros de investigação – epílogo

Artigo de opinião de Tomasz Boski, coordenador do Centro de Investigação Marinha e Ambiental da Universidade do Algarve, publicado no Público:

Finis coronat opus! Depois de iniciado há dois anos, o processo da avaliação dos centros de investigação terminará no próximo mês. As unidades que contestaram o financiamento atribuído pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) terão de apresentar o plano de atividades 2015-2017 adaptadas ao orçamento efetivamente disponível. Apesar de quase metade dos centros financiados não ter concordado com os montantes propostos, esta última fase do processo não levantou uma vaga de protestos semelhante à do verão passado, quando metade das unidades foi eliminada da competição pelos recursos financeiros. Das duas, uma: ou a etiqueta de qualidade é mais importante do que o apoio financeiro ou os centros de investigação e desenvolvimento (I&D), resignados e fartos de um processo marcado por ambiguidades e numerosos vícios de forma, procuram outras vias para se financiar.

A atribuição da substancial parte de financiamento das unidades de I&D aos projetos estratégicos apresentados pelas mesmas unidades, sem serem conhecidos à partida os limites monetários ou regras precisas, é o melhor exemplo daquilo que não se deve fazer, isto é, criar disparidades no financiamento, na realidade pouco competitivo. Trata-se mais de um financiamento das instituições do que de ideias propriamente ditas, tal como ocorre num projeto de investigação. É óbvio que num prazo de três anos é praticamente impossível assegurar a coerência interna do projeto aglutinador da atividade de vários grupos de trabalho.

Mesmo sendo pouco detalhado, o Regulamento de Financiamento não foi respeitado, no que se refere à sua estrutura e aos montantes aprovados para o triénio 2015-2017. Na carta justificativa, os gestores da FCT explicam esta situação de forma curiosa: “Tendo a FCT constatado que o financiamento total solicitado para a execução dos planos estratégicos do conjunto das unidades de I&D ultrapassava largamente a dotação orçamental disponível (…), a FCT assumiu como base para o cálculo do financiamento total a atribuir o financiamento estratégico solicitado por cada unidade.” Dir-se-ia que é uma consequência direta da situação em que os limites financeiros dos projetos estratégicos não foram definidos. Questionada sobre se a próxima avaliação dos centros assegurará a proporcionalidade entre as verbas atribuídas e os resultados produzidos, a FCT permanece muda.

Efetivamente, será muito difícil de esperar que um centro com o financiamento “per capita” por exemplo dez vezes superior ao seu competidor produza dez vezes mais ou melhor de que este competidor.

Provavelmente a cumprir uma agenda política, a FCT decidiu recentemente afirmar o seu papel da guardiã de excelência e competitividade e de altos valores éticos. O envio de dois documentos – “Resultados da avaliação e auto-avaliação” e “Proposta de Código de Conduta Responsável em Investigação Científica – só pode servir estas nobres aspirações. Na Proposta de Código, define-se a má ciência como a resultante de erros metodológicos ou de outra natureza, interpretação errada de dados, erro na prova, negligência ou comportamento eticamente censurável. É difícil não associar estas definições a numerosos casos de metodologia mal concebida e sujeita a alterações oportunistas e análise superficial dos materiais apresentados, que ocorreram durante a avaliação das unidades de investigação. No mundo da ciência, os trabalhos maus são eliminados durante a avaliação por pares. No caso da nossa agência financiadora, em contraste com o documento “Resultados da avaliação e auto-avaliação”, a avaliação foi feita por quatro peritos contratados pelo Ministério da Educação e Ciência (MEC) e, sem surpresa, apresenta uma apreciação qualitativa geralmente favorável do desempenho da fundação. O documento está em contraste com o número de reclamações e críticas, apresentadas após a divulgação dos resultados dos concursos.

Embora a FCT não corra o risco de declarar a insolvência, a semelhança com o sector financeiro, em que os bancos em situação periclitante, foram muito positivamente avaliados por auditores de grande prestígio, é grande. Os exercícios de relações públicas, que visam melhorar a imagem da instituição por via da promoção de valores éticos (em si uma iniciativa louvável), de compromisso com a excelência e da avaliação encomendada não melhoram necessariamente as relações com o meio académico. Antes pelo contrário, irritam e criam mais desconfiança quando lançados em associação com medidas no mínimo controversas. O mesmo vale para as declarações sobre o incondicional apoio à inovação e criatividade, não acompanhadas pelo delineamento inovador dos concursos, que deveriam premiar o que é de mais original e relevante na investigação.

O hábito nacional de investir na ciência e no conhecimento, promovido por José Mariano Gago, permitiu afirmar Portugal como um parceiro de qualidade em todos os domínios de I&D. Os dados da dinâmica de crescimento da produção científica no pais comprovam-no claramente e são de conhecimento geral. No entanto, as limitações orçamentais impostas nos últimos anos constituem um enorme desafio para o MEC e a FCT, isto é, o desafio de não desperdiçar as conquistas das últimas duas décadas. As experiências que vivemos durante o ultimo mandato da presidência da FCT não são tranquilizadoras. Há medidas, tanto dentro como fora do sistema científico, que devem ser adoptadas para que o dinheiro público investido traga o retorno desejado. A título de exemplo:

Criar um quadro legal/financeiro específico para I&D. No atual sistema, as unidades e os seus projetos de investigação, executados no âmbito de instituições públicas, não diferem dos projetos de edifícios, pontes ou estradas a cargo do Estado. Em consequência, a alucinante mutação das normas, que regem estas atividades, acarreta um desperdício de tempo gigantesco para os cientistas responsáveis, forçados a dedicar o grosso do seu tempo à gestão administrativa;

Separar organicamente a avaliação da I&D do financiamento das unidades e dos projetos numa nova FCT, separada do MEC, tal como proposto no relatório de avaliação dos quatro peritos. Trata-se de duas tarefas de grande envergadura que, como mostram os últimos exemplos, dão um grande poder ao decisor e ultrapassam a capacidade da FCT no seu quadro atual. A existência duma agência de “ranking” responsável pela avaliação dos centros e dos projetos e outra responsável tecnicamente pela gestão do financiamento pouparia muito “stress” aos investigadores e aos gestores da I&D.

TOMASZ BOSKI
Coordenador do Centro de Investigação Marinha e Ambiental da Universidade do Algarve

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Homenagem a Ilse Losa

O comentário ao texto O ensino da poesia segundo Ilse Losa da leitora Manuela DL Ramos levou-me a este Sítio:
(re)descobrindo os seus livros – homenagem no ano do centenário do seu nascimento
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Pela qualidade e sensibilidade do trabalho desta nossa leitora nesse Sítio, vale a pena visita-lo, com o tempo e disponibilidade que ele requer.


Mário Cesariny, Pena Capital



SOMBRA DE ALMAGRE

Buraco-negro-com-barba-postiça-de-Newton
ou pirâmide de De?


A pirâmide de De
com saltos altos e rara elegância de meios

caminha um mililímetro por segundo
                                                                 em direcção a Maar


O qual em movimento inverso se expande
(tahafut-ul-tahafut) à razão

de 2 tri-leões por sebe. Por

outro lado


Se houvermos por verídico o retrato
que Blake fez de Newton

este NÃO TINHA BARBA (relativamente) (nenhuma)
e assim


Não haverá
qualquer porção

de almagre


o espaço come porém não altera
que os poços escaleres

possam nunca afastar-se
(ou precipitar-se)

 
de De
ou de Maar

 
URGENTE

As bombas matam porque sofrem duma espécie de doença incurável
que as faz ganhar saúde quando as largam no ar

uma vez expostas à lei da gravidade
e por ela arrastadas para o mundo humano

as bombas precisam de explodir tal como uma criança precisa de urinar
até fazerem um lugar onde fiquem
que se não mova    que seja

como um direito a isso

ao pé do deus adulto que lhes deu comida

 
FAZ-SE LUZ PELO PROCESSO

Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras

 Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria

não dum e doutro lado da luz mas no próprio seio dela
intensamente amantes    loucamente amadas

 e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem

 
Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina    realmente    os objectos

 os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista

 com a qual não podemos contactar
senão como amantes

 de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos    e na boca

 

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

GEOMONUMENTO DA PRAIA DO TELHEIRO (VILA DO BISPO, ALGARVE)

Texto do Professor Galopim de Carvalho na continuação de post anterior.


À semelhança de qualquer objecto, um um seixo que se apanha na praia. uma simples pedra da calçada, um afloramento rochoso ou uma imensa montanha, são ocorrências geológicas e, ao mesmo tempo, documentos naturais que os geólogos aprenderam a ler no pormenor, mas que o cidadão comum, por triste deficiência do nosso sistema de ensino, olha "como boi para palácio" ou, nem sequer, olha. Isto porque a escola não lhe soube despertar o interesse.

Acontece que muitos destes documentos encerram significado e têm grandiosidade que nos levam a considerá-los como monumentos, palavra construída a partir do verbo latino “monere”, que significa, não só fazer recordar ou não deixar esquecer, mas também, “instruir”. Foi nesta óptica, que surgiu, entre nós, há 22 anos, a figura oficial “Monumento Natural” (Decreto-Lei 19/93, de 23 de Janeiro) uma “ocorrência natural contendo um ou mais aspectos que, pela sua singularidade, raridade ou representatividade em termos ecológicos, estéticos, científicos e culturais, exigem a sua conservação e a manutenção da sua integridade”.

A competência para proceder a esta classificação incumbe ao Instituto da Conservação da Natureza (agora ilogicamente acrescentado “e das Florestas”, como se estas não fossem parte importante da Natureza), como tenho dito e escrito muitas vezes, tem desempenhado bem a sua competência na defesa da biodiversidade, sendo insignificante a sua vocação na defesa e valorização do nosso património Geológico. Não fora a obra, já significativa, realizada ao nível da Universidades, do Laboratório Nacional de Energia e Geologia, do grupo ProGEO-Portugal e de mais uns tantos cidadãos empenhados, o nosso desconhecimento nesta área era total e alguns destes monumentos já tinham sido arrasados pelo “progresso”.

Em Portugal estão classificados os Monumentos Naturais de Cabo Mondego, das Portas de Ródão, no Geoparque Naturtejo, e mais cinco relacionados com jazidas de pegadas de dinossauros: Pedreira do Galinha, no antigo Parque Natural das serras de Aire e Candeeiros, Carenque, na região de Sintra, e Pedreira do Avelino, Pedra da Mua e Lagosteiros, no antigo Parque Natural da Arrábida.

Em 1999, numa edição da Liga de Amigos de Conímbriga, inclui o termo Geomonumento no discurso da geoconservação, por adaptação do conceito oficial de Monumento Natural às ocorrências especificamente de natureza geológica. Todas elas geossítios só algumas, porém, se revestem da monumentalidade implícita do referido neologismo.

Mais do que um simples geossítio, insisto em dizer que o Geomonumento da Praia do Telheiro (Vila do Bispo) é muito mais importante do que o internacionalmente conhecido, de Siccar Point, na Escócia, descrito em 1788, pelo “pai da moderna Geologia” e que figura em tudo o que é manual de geologia, por esse mundo fora, como exemplificação de uma discordância angular.

Por todas as razões urge defendê-lo do camartelo do progresso, que o desinteresse, quase sempre, fruto da ignorância, de quem decide, põe em risco.

Em traços muitíssimo gerais, o Geomonumento da Praia do Telheiro conta a seguinte história:
Houve aqui, há centenas de milhões de anos, um muito antigo oceano entre dois continentes em aproximação, que acabou por se fechar na sequência da colisão que os uniu, dando origem à formação de uma grande cadeia de montanhas, parte dela estendendo-se pelo que é hoje o sul da Europa, incluindo a Península Ibérica. Acabada de elevar há cerca de 280 milhões de anos, foi em grade parte arrasada pela erosão, num processo que terminou criando planuras no interior, relativamente árido, de um vastíssimo continente.

Foi sobre uma destas planuras que, há uns 210 a 220 milhões de anos se depositaram areias avermelhadas (por impregnação de óxido de ferro). As dezenas de milhões de anos, que levaram à erosão da citada cadeia de montanhas, estão representadas no dito geomonumento pela superfície de descontinuidade que separa as camadas (xistos e grauvaques) enrugadas da citada montanha, das camadas de arenito (areia consolidada) vermelho, que se lhes sobrepõem. Tal superfície de descontinuidade é, pois, uma discordância que adjectivamos de angular, uma vez que não há paralelismo entre as camada das duas entidades.

Nem toda a gente tem ideia de como nasce uma montanha. Trata-se, porém, de um processo muito simples de explicar. Vamos imaginar uma série de lençóis, mantas de diversas qualidades e espessuras, cobertores um édredon e o mais que se quiser, tudo bem esticadinho e empilhado em cima da cama. Imaginemos que este empilhamento representa a espessura de camadas de sedimentos depositados no fundo de um oceano, ao longo de muitos e muitos milhões de anos, como é, por exemplo, o que está a acontecer no Oceano Atlântico, aqui ao nosso lado. Vamos agora abrir bem os braços e agarrar esta pilha de roupa, uma mão de cada lado, e apertá-la para o meio da cama. Fica tudo amarrotado, com dobras para cima e outras para baixo. Com a força dos nossos braços, em metro e meio de extensão desta roupa e em um ou dois segundos, fazemos, assim, o que a Terra faz, com todas as forças do enorme brasido do seu interior, em milhares de quilómetros de fundo de um oceano e ao fim de muitos milhões de anos. “Então uma montanha são rochas dobradas”.

Podemos dizer. Sim, mas é mais do que isso. A porção das dobras que fica para cima representa a parte de uma cadeia montanhosa que se eleva à superfície do terreno, como está a acontecer nos Alpes, por exemplo. A porção dobrada que fica para baixo representa a parte que se afunda na crosta terrestre, como se fossem as suas raízes. Acontece ainda que, em virtude das elevadas pressões e temperaturas a que passam a estar sujeitas, as rochas sedimentares que assim se afundam na crosta, se transformam em rochas metamórficas.

Na parte mais profunda destas raízes, com temperaturas na ordem dos 800 a 900 oC, as rochas começam a fundir, gerando um magma que, arrefecendo ao longo dos milhões e milhões de anos, se transforma em rochas magmáticas como os granitos e outras menos conhecidas.
Uma boa descrição do significado geológico desta magnífica ocorrência, feita por profissionais para profissionais, pode ser lida aqui.

Um caso de invisibilidade da química e os seus contrapontos

Georges Perec em La Disparition não usa palavras com a letra "e" o que não é nada fácil e muito menos em francês.

Aparentemente, também não deveria ser fácil escrever um livro cujo tema é a ciência e a cultura nos séculos XIX e XX sem referir a Química, como defendi em Jardins de Cristais - Química e Literatura. Encontrei, no entanto, recentemente um caso extremo de invisibilidade da Química: Ciência e Cultura (edição coordenada por Filipe Furtado e Gabriela Gândara Terenas). A propósito da explosão científica no século XX refere-se (seguindo por alto o texto) a Física, os quanta, a relatividade, a Física Nuclear (que já foi Química Nuclear), a Física de Partículas, a Matemática e Ciências Exactas, Engenharia, Economia, Teoria dos Jogos, Computação, Cosmologia, Física Teórica, Astrofísica, Astrobiologia, Ciências da Vida, Geociências, Climatologia, Hidrologia, Oceanografia, Geografia, Geocronologia, Biologia Molecular, Biofísica, Genética Molecular, Genómica, Biotecnologia, Bioquímica (que também pode ser designada Química Biológica), Etologia, Medicina (antibióticos, transplantes e meios complementares de diagnóstico), Aeronáutica, Astronáutica, Informática, Engenharia de Materiais, Nanotecnologia, Psicologia e Neurociências, entre outras áreas. Mas não a Química (que espreita por todos os lados nas áreas acima, mas que não aparece como palavra)! E isso é tão mais surpreendente quando uma das referências do livro é a Breve História de Quase Tudo do Byll Bryson, a qual além de referir bastante a Química, contou com o conselho e leitura do químico  Roald Hoffmann, prémio Nobel e poeta.

Ora, no século XX qual foi a área científica que mais contribuiu para a transformação do mundo (e ainda está a contribuir no século XXI)? Que esteve envolvida na descoberta dos adubos sintéticos que ajudaram (e ainda ajudam) a alimentar o mundo? Qual foi a área que mais trabalhou para a descoberta, síntese e produção de antibióticos e medicamentos para doenças como a sífilis, malária, cancro, tuberculose, lepra, perturbações nervosas, entre tantas outras? Qual foi a ciência que desenvolveu o tratamento das águas, higiene e desinfecção, contribuindo para o desaparecimento das epidemias de cólera e febre tifóide e diminuição de muitas infecções? Como apareceu a anestesia, a assépsia e os imunossupressores que permitem muitas das operações modernas? Qual foi a área que desenvolveu os polímeros sintéticos e artificiais? Os novos materiais? os tecidos sintéticos e artificiais? Os corantes sintéticos? A agricultura moderna? O controlo de qualidade e a segurança alimentar? Foi a Química através das suas muitas áreas: Química Analítica e Bioanalítica, Síntese Química, Química Orgânica, Inorgânica e Bioinorgância, Fotoquímica, Química Teórica e Computacional, Química Supramolecular, Química de Colóides, Química de Materiais, Química Verde, e tantas outras áreas da Química, quase todas, por si só, pelo menos tão sexys, produtivas e modificadoras do mundo, como as áreas científicas referidas no livro (sobre o qual não está em causa a qualidade e interesse, mas apenas a desaparição da Química)!

Também sobre a divulgação e popularização da ciência não detectei neste livro qualquer referência a Jane Marcet, pioneira da divulgação de ciência britânica com centenas de milhares de exemplares vendidos das suas conversas sobre Química. Veja-se, sobre Jane Marcet, o artigo de João Paulo André (de onde copiei a imagem acima) e atente-se à comunicação de Marília Peres (com a minha co-autoria) sobre as invisibilidades desta autora nas suas traduções para francês e português a apresentar na International Conference on the History of Chemistry (10th ICHC) em Aveiro no início de Setembro

Como contraponto a esta injusta invisibilidade da Química no século XX, aproveito para recomendar, para além do livro do Bill Bryson, uma outra obra surpreendente e muitíssimo agradável de ler que trata a ciência do século XX (incluindo a Química) com toda a justiça: Uma breve história do século XX de Geoffley Blainey. Tirando uma ou duas questões mínimas de tradução (o nome do polímero silicone é usado em vez do elemento silício uma vez) e a necessidade de síntese deixar alguns assuntos incompletos é um livro a não perder. Para mais é um livro em que Portugal, para além da Química, não é invisível.