The flawed evaluation of Portuguese research units conducted by the ESF and FCT

domingo, 29 de março de 2015

Charlie Don't Surf...



Em júbilo e orgulho, chegaram ao fim os trabalhos da comissão parlamentar de inquérito ao caso BES, ou mais rigoroso, caso GES. Os jornalistas festejam o aparecimento de "novas estrelas” da vida parlamentar que, para os jornalistas, lhes deu a oportunidade de publicarem em orgãos de informação internacional como a Bloomberg ou o Financial Times. E, como em quase tudo o que acontece quando o estado português se envolve, o resultado é uma grotesca asneira com consequências enormes para o futuro do país e de milhares de famílias associadas a pequenos investidores, no GES e na PT.

Da esquerda à direita, nenhum dos deputados envolvido imagina o que seja um banco. Mesmo aqueles que se orgulhavam de “terem estudado os aspectos técnicos” fizeram uma enorme figura de parvo de frente a gestores várias vezes mais inteligentes que eles e substancialmente mais espertos. Os media festejaram em júbilo o facto de uma jovem deputada ter chamado de “amador” um antigo CEO da PT por este ter a liquidez demasiado concentrada no GES quando era óbvio para qualquer pessoa ligada ao tema que o problema estava longe de ser esse. Reduzir a questão à concentração é uma estupidez como há poucas. Aliás, o sujeito estava com aquele ar de não acreditar a sorte que estava a ter e, mantendo a regra que qualquer pessoa inteligente segue, se a coisa estava a favor dele, porquê interromper? “Amador” era mesmo o melhor que lhe podiam chamar e, estou certo, ainda hoje deve estar a rir às bandeiras despregadas. Questionaram-se vários reguladores para se perceber se tinham regulado bem e estes, como bons amanuenses, só tinham a responder que cumpriram com todas as regras e mais algumas. Mas ninguém se questionou se o problema poderia estar nas regras. E as regras vão continuar até ao próximo caso...

O serviço que os deputados fizeram ao país foi fazerem uma lavagem aos envolvidos, meter uma camada de terra por cima dos reais problemas  e causas, garantindo que daqui a uns anos estarão a fazer a comissão de inquérito ao Qualquer Coisa, depois de terem feito a do BES e a do BPN. Porquê? Porque se resolveram substituir a centenas de profissionais, a quem nós pagamos para serem especialistas do assunto, para aparecerem nos telejornais a falarem de um assunto que não sabem, confrontando pessoas muito mais inteligentes e muito experientes que eles. Para o português normal, que sabe tanto do assunto como os próprios deputados, a coisa até não correu mal. Para os envolvidos na cabeceira da mesa, foi um sucesso. Afinal, no meio de centenas de processos a que provavelmente poderiam estar a responder nesta altura, que vão desde crimes bancários no âmbito do BES a abusos de confiança no âmbito da PT, ser chamado de “amador” não se pode dizer que seja exactamente mau.

Achar que ler uma porcaria de um pdf do site do Banco de Portugal, dá para confrontar um gestor com duas décadas de experiência à frente de uma boa percentagem do PSI20 ou um regulador com milhares de pessoas, é bem pior que achar que consegue pilotar um A380 só porque teve um primo piloto. E uma coisa pode o país agradecer a estes voluntariosos deputados. Vamos ter mais comissões destas e mais famílias a protestar nas ruas pelas poupanças perdidas. Só porque resolveram ler uns pdfs e estragar o trabalho dos profissionais que deveriam estar eles a investigar os casos sem este festim à volta.

sábado, 28 de março de 2015

O fumo faz mal porque tem mais de 70 compostos cancerígenos e não porque tem mais de 7000 químicos!

 
Fumar faz mal à saúde de quem fuma e de quem está perto. Por isso a campanha iniciada recentemente pela Direcção Geral de Saúde é muito meritória e oportuna. Infelizmente, nalguns dos cartazes e anúncios é usada uma argumentação falaciosa que contém ideias preconceituosas sobre uma entidade mítica que é senso comum actualmente chamar químicos.

O fumo é mau para a saúde porque contém mais de 70 químicos comprovadamente cancerígenos e não porque tem mais de 7000 químicos!

As laranjas, as mangas ou as ervilhas que comemos têm tal como o tabaco centenas ou milhares de químicos, a maior parte de origem natural, mas estes, felizmente, não são na generalidade cancerígenos nem tóxicos nem nocivos, embora alguns desses compostos naturais possam causar alergias, intolerâncias, ou ser, nalguns casos, suspeitos de serem cancerígenos. Para além disso, não os consumimos completamente queimados, nem inalamos o fumo dessa combustão. Se o fizessemos também seríamos expostos a milhares de compostos cancerígenos, neste caso provenientes do fumo das laranjas, mangas ou ervilhas!

Todos os materiais naturais contêm milhares de compostos e o facto de serem naturais não os torna melhores ou piores: os compostos mais venenosos e perigosos são naturais. O mais tóxico de todos é a toxina do botulismo, usado no conhecido botox. O fumo resultante da combustão de produtos naturais é um produto natural, mas infelizmente, no fumo estão presentes muitos compostos cancerígenos.   

O tabaco e o seu fumo têm sido - como é bem sabido - dos materiais mais estudados; por isso conhecemos os tais milhares de químicos. Mas volto a dizer, o problema não é serem químicos, mas sim serem químicos cancerígenos e nocivos que resultam da combustão do tabaco e da presença da nicotina e de outros alcalóides!

A niticotina, por exemplo, que muitos acreditam ser um composto que não causa danos, sendo, supostamente, responsável apenas pelo vício, é um insecticida natural que embora não nos mate provoca, com o seu consumo continuado, alterações fisiológicas e mais danos do que se pensa. E a nicotina queimada no tabaco, ou acidificada de alguma forma, vai originar derivados ácidos que são ainda mais nocivos e reconhecidos como cancerígenos. Para além disso, o fumo do tabaco ou da combustão de qualquer outra planta tem milhares de compostos poliaromáticos (designados muitas vezes como alcatrão), os quais são extremanente cancerígenos.São esses compostos que se acumulam nos dedos, móveis e paredes das casas com a característica cor castanha. Sim, são muito cancerígenos, mas não apenas porque são químicos, mas sim porque se confirmou experimentalamente que provocam tumores, porque se ligam ao DNA e provocam um elevado número de mutações que eventualmente podem conduzir ao aparecimento de cancro passados anos.

Conheci várias pessoas que morreram com um tipo de cancro do pulmão que é específico do fumador e uma delas era apenas fumadora passiva. O fumo faz mal e provavelmente ainda fará pior às crianças por estarem em desenvolvimento. Por isso apoio a campanha, mas não posso aceitar a sua argumentação falaciosa e preconceituosa.

Assim, peço aos autores da campanha que mudem o texto para "muitos dos mais de 70 compostos comprovadamente cancerígenos presentes no fumo do tabaco" e ficará correcto, mantendo-se a importante mensagem.

Em qualquer dos casos recomenda-se o abandono do fumo pois, como é bem conhecido, é caro e nocivo. E se não se abandonar o fumo, pelo menos que não se fume junto de outras pessoas.

Mas também não se recomendam as máquinas de fumar. Estas podem não gerar fumo cancerígeno no sentido clássico, mas a nicotina e os seus derivados, assim como outros compostos que lá sejam colocados (e não nos dizem, em geral, quais são), também podem causar problemas!

[corrigi a expressão vaga "milhares de compostos cancerígenos" para um valor mais correcto e comprovável "mais de setenta compostos comprovadamente cancerígenos"; Mais informação aqui, aqui e aqui.]

sexta-feira, 27 de março de 2015

2015 – ANO INTERNACIONAL DOS SOLOS

Transcrevo, com a devida vénia, o seguinte texto da autoria da Direcção da Sociedade Portuguesa da Ciência do Solo que foi publicado primeiramente na imprensa regional através do projecto "Ciência na Imprensa Regional - Ciência Viva".



Para lembrar um recurso vital e frequentemente esquecido
A importância do solo para as sociedades humanas e para o nosso modo de vida levou as Nações Unidas a declararem 2015 – Ano Internacional dos Solos. A urbanização crescente e a evolução tecnológica tendem a fazer-nos esquecer deste recurso e das ameaças a que está sujeito. Segundo a FAO o solo fornece 99% de toda a biomassa produzida no mundo, para a alimentação humana e animal, para a produção de fibras vegetais com múltipla aplicações industriais, bioenergia, produtos bioquímicos, produtos farmacêuticos e outros. Este dado, só por si, revela bem a nossa dependência avassaladora deste recurso, praticamente tão vital como o ar e a água.

Mas o que é o solo? A palavra ‘solo’ é aplicada em muitas situações, por vezes só para referir o chão. Porém, o solo tem espessura, é uma cobertura de material solto (mineral e orgânico) existente à superfície da terra, que serve de meio natural para o crescimento das plantas e de muitos outros organismos.

A par da produção de biomassa, os solos desempenham outras funções (e serviços para a humanidade) que os tornam indissociáveis da evolução da vida terrestre e das sociedades humanas em particular: intervêm nos ciclos de renovação da vida, como os ciclos da água, do carbono e do azoto, para referir apenas os mais relevantes para o clima e as alterações climáticas; têm dos maiores níveis de biodiversidade da Terra – neles vivem inúmeras espécies de organismos, macro e microscópicos, na sua maioria ainda desconhecidos; guardam vestígios de enorme interesse científico, cultural, artístico e até religioso.

É comum desvalorizar a nossa dependência do solo, assumindo que é um recurso abundante e imutável. Todavia, o solo é um recurso finito. Aliás, é cada vez mais reduzida a parcela de solo arável (adequado para culturas anuais e prados temporários) por habitante. E prevê-se que continue a diminuir, dos quase 0,25 ha actuais, para menos de 0,2 ha em 2050 (a par do aumento da população de 7 para mais de 9 mil milhões de habitantes). Em Portugal já só temos 0,1 ha de solo arável por habitante, um dos valores mais baixos da Europa. O solo também não é imutável. Embora se forme muito lentamente – demora 1 000 a 2 000 anos para formar apenas 10 cm de solo – pode sofrer uma degradação muito rápida, por vezes em horas ou minutos, por deslizamentos e enxurradas associados a chuvas mais intensas.

Mas processos de degradação mais prolongados são igualmente graves porque, sem vigilância ou monitorização, podem ser evidentes tarde de mais. A União Europeia reconheceu as seguintes ameaças aos solos da Europa: selagem (impermeabilização ou pavimentação), erosão (pela água e pelo vento), perda de matéria orgânica, perda de biodiversidade, compactação, salinização, contaminação (por poluição concentrada e difusa), cheias e deslizamentos. Todas estas formas de degradação têm origem humana, associadas a muitos tipos de usos do solo.

Uma vez degradado, a recuperação de um solo pode demorar várias gerações, por isso tem de ser considerado um recurso natural não renovável. Também não é razoável admitir que a evolução tecnológica encontre outros recursos capazes de substituir as funções do solo. A ciência e a tecnologia são sim, indispensáveis para promover o uso e a gestão sustentável do solo e prevenir todas as formas de insegurança a médio-longo prazo, nomeadamente as decorrentes das alterações climáticas. Mas, para ser eficaz, é preciso que cada vez mais cidadãos adoptem uma atitude ética inspirada nos melhores agricultores do passado, que procuravam legar aos descendentes terras tão ou mais férteis do que as que tinham recebido dos seus antepassados.

Ao longo de 2015 a SPCS participa na promoção do Ano Internacional dos Solos com um conjunto de acções que vão sendo divulgadas em www.spcs.pt.


Direcção da Sociedade Portuguesa da Ciência do Solo (SPCS)

quinta-feira, 26 de março de 2015

A campanha eleitoral está de volta. É altura de a CGD a construir

Sou eu que tenho mau feitio ou é isto é a CGD a fazer a campanha eleitoral do PSD/CDS?



Não há nenhum produto publicitado. Nenhuma conta, nenhuma linha de crédito, nada. É feita uma referência indirecta à evolução da taxa de desemprego e até à decisão de um casal ter filhos, supondo-se que se vive em Portugal um ambiente de grande optimismo.

Vota CGD!!

A LUZ EM LOULÉ


Anúncio e resumo da minha palestra hoje à noite na Câmara Municipal de Loulé integrada no ciclo “Horizontes do Futuro”

“Haja Luz! A Luz quando nasce é para todos?” é o tema que o físico Carlos Fiolhais irá abordar em Loulé, no âmbito do ciclo de conferências “Horizontes do Futuro”, no próximo dia 26 de março, quinta-feira, pelas 21h00, no Salão Nobre dos Paços do Concelho.
Resumo:

Por determinação da UNESCO e da ONU, em 2015 celebra-se em todo o mundo, incluindo Portugal o Ano Internacional da Luz. A luz é o fenómeno físico ao qual devemos a vida  (sem a luz, portadora de energia,  vinda do Sol não poderia haver vida na Terra) e o nosso conhecimento do mundo (tanto através da luz visível como luz invisível). A luz, de modo muito claro nos dias de hoje, é também tecnologia, que torna a vida mais confortável:  Mas a luz é também uma metáfora de  entendimento, razão e verdade.  Luz pode ainda significar o bem, como na  "metáfora do Sol" de Platão. Ao chamar a atenção para a luz,  neste Ano da Luz, pretende-se não só que haja maior consciência do fenómeno como um melhor aproveitamento da luz para benefício da nossa vida comum no planeta. Com vários exemplos da história e da cultura, o orador irá mostrar o enorme poder que a luz tem tido de concitar a atenção dos seres humanos. Num simples arco-íris, por exemplo, há muita ciência ao mesmo tempo que há também arte e poesia.

ESSE PAÍS NÃO É O MEU

A Professora de Economia em França Cristina Sambiano publicou um artigo no PUBLICO de hoje onde comenta a lamentável "magistratura" do Presidente da República, em breve a ser substituído para nosso alívio. Destaco o que diz essa emigrante de segunda geração sobre a nova torrente de emigração, agora de jovens qualificados que o actual governo abandonou à sua sorte:

 "Como é que esses novos emigrantes, a população estrangeira mais numerosa a chegar actualmente a França e a quem o jornalista Giv Anquetil consagrou a sua reportagem para o programa de France Inter do passado dia 14, Comme un bruit qui court, poderão acolher o discurso de um Presidente que diz aos emigrantes que Portugal é um país bom para investir, bom para os franceses se irem instalar, bom para irem passar férias (recordando que, no ano passado, um milhão de franceses visitou o país) e pedindo-lhes que sejam os embaixadores desse país, que o aconselhem aos vizinhos, aos colegas de trabalho, aos amigos? Será que eles, filhos de um país de que foram expulsos, poderão gabar os seus atractivos a terceiros?

 Seguramente não, nem a Elisabete, professora de Inglês a exercer a profissão de porteira em Paris, para “poder acudir às necessidades dos fi lhos, dar-lhes uma educação e pagar a casa em Portugal”, nem a Sofia, filha de emigrantes, nascida em França, que havia decidido ir viver em Portugal e que, dez anos depois, foi obrigada a regressar, nem a Rosa, que acumulava dois trabalhos, um dos quais num bar, à noite, que paga 2,5 euros à hora, não declarados, “porque quando se precisa aceita-se tudo”, seguramente nenhum deles se reconhece nem no país próspero de que falou o Presidente, nem na emigração portuguesa de sucesso a que ele se dirigiu. Não, esse país não é o meu, nem essa emigração existe."

Cristina Sambiano (Economista, lecciona Economia Portuguesa na Universidade de Paris IV — Sorbonne; autarca na região de Pari)"

quarta-feira, 25 de março de 2015

CIÊNCIA EM PORTUGAL: CONTINUA O "FALHANÇO PLENO"

Hoje o Jornal de Notícias difunde a notícia dos centros que estão a levantar processos em tribunal contra a FCT e tudo indica que outros se seguirão. Toda esta trapalhada era perfeitamente evitável se o ministro Nuno Crato fosse de facto ministro da Ciência e Tecnologia. Na prática demitiu-se há muito tempo, deixando o terreno livre a gente incompetente, inculta e arrogante. Gente acima de tudo sem quaisquer princípios éticos. Basta um mínimo de honestidade intelectual para ver que o processo de "avaliação" das unidades não foi sério. Muitos investigadores, nacionais e estrangeiros, já o disseram. Os reitores já o disseram: a carta deles chamou à "avaliação"  um "falhanço pleno", que é como quem diz um desastre total e completo.

Já era um desastre e continua um desastre. Dos  centros que passaram à 2.ª fase (cerca de 50% pelo contrato secreto celebrado entre a FCT e a ESF) 123 protestaram, apesar de terem recebido financiamento.. Portanto reclamaram e aguardam resposta devidamente justificada cerca de 76% dos centros que sobreviveram na 2.ª fase. Isto não é normal em país nenhum do mundo e alguém deve
ser responsabilizado. A FCT, que reclama a excelência, é manifestamente medíocre, pois não indica prazos nem indica pessoas idóneas para rever os processos. A sua incompetência é tanta que ontem os seus servidores não serviam para nada: estavam bloqueados. Agora está a fazer chantagem (sim, não há outro nome: é chantagem) com os centros de investigação, obrigando-os a aceitar qualquer coisa num prazo absurdo. A FCT não tem prazos nem respeita prazos e quer que os outros respondam de hoje para amanhã, sob pena de cortar o financiamento a que tem direito.

Para que se perceba: o financiamento público à ciência é um direito da ciência e da sociedade e não uma benesse dada por apaniguados de partidos circunstancialmente no poder. Ninguém percebe o financiamento da FCT nem a nota que deveria estar associado a ele, se o processo fosse recto e rigoroso. As regras não são conhecidas a tempo e as que vão sendo conhecidas são alteradas arbitrariamente em qualquer altura. Leio nas notícias que um centro tinha 15 mil e de repente sem mais nem porquê passou a ter 75  mil euros por ano. Os outros também querem aumentos desta percentagem: 400%. Reina  a arbitrariedade e a prepotência. A FCT parece estar sem controlo e era bom que o ministro mandasse instaurar rigoroso inquérito, poupando trabalho aos tribunais. Imagino o que custa aos investigadores terem, como recurso último e por não haver ministro da Ciência, de lutar na justiça pela ciência em vez de estarem a trabalhar nos seus  laboratórios. Não está em causa se os que reclamam são piores ou melhores que outros, está simplesmente em causa saber se vale tudo num Estado de Direito. A ciência em Portugal, com este governo PSD-CDS e este ministro que abandonou a ciência em favor de outros interesses, está pelas ruas da amargura.

FCT EM TRIBUNAL

Informação recebida do SNESUP:

O Centro de Matemática (CMat) da Universidade do Minho e o Centro de Química (CQ-VR) da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro decidiram avançar para tribunal com a impugnação judicial do processo de avaliação da FCT. Trata-se de um passo de coragem perante uma instituição que concentra em si todo o poder, sendo ao mesmo tempo avaliadora, financiadora e fiscalizadora.

Essa mesma razão levou a que várias unidades nos comunicassem o seu sentimento de condicionamento (senão mesmo, intimidação) em relação à sua capacidade de poderem recorrer aos tribunais para resolver esta questão. Algumas comunicaram mesmo ao Ministério Público este sentimento, afirmando sentirem-se, por isso, legitimamente representadas na denúncia apresentada pelo SNESup, que surgia como a defesa de todo o sistema perante uma avaliação ferida de várias ilegalidades.

Este gesto por parte destas duas unidades demonstra que ainda existem cidadãos que não se deixam condicionar. A liberdade é feita de gestos como este e que não vão ficar por aqui conforme notícia do JN que enviamos em anexo.

Quer o CRUP, quer o CCISP, devem ser coerentes com as críticas a este processo. Foi o que o SNESup procurou fazer, com todas as formas ao seu alcance, prestando o seu auxílio jurídico e dando todo o seu apoio, por uma questão de estado e de defesa de princípios basilares. É óbvio que se necessário tal tem que ser esgrimido na última instância com competência para dirimir ilegalidade, os tribunais.

Entretanto a trapalhada avoluma-se, com a comunicação à FCT para que as unidades atualizem os seus orçamentos. Numa jogada claramente tática a FCT acena agora com o famoso fundo de reserva, que surge na altura da assinatura do termo de aceitação do financiamento. A lógica é simples e ignóbil: no final o que importa é o dinheiro. Unidades avaliadas com Bom veem agora quintuplicar o seu financiamento, para que tudo fique bem. Afinal a avaliação serviu para...?


O lodo em que está a Ciência deixa marcas. Ter-se deixado para os tribunais o que deveria ser resolvido politicamente é um péssimo sinal para a república portuguesa. A cada passo a reputação desce.

Re(Acção)! Química e Cinema! O Canto do Estireno e O Último Homem na Terra


Na Sala do Carvão hoje pelas 21:30, O Canto do Estireno (1958), real. Alain Resnais | O Último Homem na Terra (1964), real. Ubaldo Ragona e Sidney Salkow. ENTRADA LIVRE.


Apontamentos para um comentário aos filmes:
 
“O Canto do Estireno” de Alain Resnais é um documentário com cerca de 13 minutos, datado de 1958, cujo título e personagem principal é o poliestireno, um plástico ainda actualmente muito usado. Resultante de uma encomenda de uma empresa química, o filme é um objecto estético de uma perfeição desconcertante e paradoxal no qual os seres humanos, afinal os destinatários dos plásticos, aparecem como personagens secundárias. Aproximavam-se os anos 1960, a partir dos quais os produtos da química começaram a ser diabolizados, muitas vezes de forma injusta, e estava ainda longe a preocupação com o destino dos plásticos na natureza. Em 1958, este material, aparentemente sem alma, criado pelos homens ganha neste documentário vida nas imagens de Resnais e nos versos alexandrinos de Raymond Queneau,

Ô temps, suspends ton bol, ô matière plastique
D'où viens-tu ? Qui es-tu ? Et qu'est-ce qui explique
Tes rares qualités ? De quoi donc es-tu fait ?
Quelle est ton origine ? En partant d'un objet
Retrouvons ses aïeux! Qu'à l'envers se déroule
Son histoire exemplaire. Voici d'abord, le moule.
[...]

Os famosos versos de Lamartine “Ô temps ! Suspends ton vol (...)” são refundidos aqui de forma irónica e intraduzível: ao tempo, matéria plástica, pede-se que suspenda a sua tigela! No ano seguinte, 1959, Queneau publicou o seu mais famoso livro “Zazie no Metro” e Resnais apresentou o sua primeira longa metragem, “Hiroxima meu amor”, filme em que Pierre Barbaud, o inventor da música algorítmica e autor da banda sonora de “O Canto do Estireno”, tem um papel como actor.

Vemos assim como “O Canto do Estireno” se revela um objecto estético onde se cruzam a técnica e as artes de forma profunda.

“O Último Homem na Terra”, filme de Ubaldo Ragona e Sidney Salkow, datado de 1964 e baseado livremente no livro de 1954 de Richard Matheson “Eu Sou a Lenda” poderá parecer a alguém menos atento apenas mais um filme de ficção científica e de terror. O argumento é aparentemente simples: uma doença misteriosa transforma os habitantes da terra numa espécie de vampiros só sobrando um ser humano não infectado que procura desesperadamente encontrar outros.
Em comum com “O Canto do Estireno”, o “Último Homem na Terra” apresenta um paradoxal desaparecimento dos seres humanos, mas faz com o filme anterior um contraponto radical: o desaparecimento é, no segundo caso, apocalíptico e definitivo. No entanto, ao contrário que poderíamos ser levados a pensar, com base na retórica que se desenvolveu a partir dos anos 1960, não é sugerido no livro e filme que a doença misteriosa tenha causa humana e muito menos química!

No livro são datalhadas as tentativas para perceber a doença e para encontrar, se não um antídoto, uma defesa eficaz. O sobrevivente (Neville) encontra um modo de sintetizar sulfureto de alilo, um dos compostos activos do alho, mas verifica que este composto não é ineficaz como repelente de vampiros ou como tóxico para as células do microorganismo (é de notar que no filme continua a usar alhos até ao final!). Finalmente, descobre (tarde de mais) que o medo do alho e cruzes era devido a atavismo e recordações do comportamento esperado de um vampiro (e não ao sulfureto de alilo) e que a humanidade tinha começado a reorganizar-se e começava a adaptar as suas vidas e tomar fármacos que lhe permitiam viver com a doença. Neville era o último humano não contaminado e tornou-se assim a nova lenda: um ser diferente (agora o humano) que os normais (agora os vampiros) querem eliminar. Trata-se assim também de um filme sobre a diferença e sobre o medo que temos desta.

O filósofo Slavoj Žižek chama a atenção para um aspecto que considera político nas versões cinematográficas de “Eu Sou a Lenda”. As versões posteriores, já não terminam com uma mudança radical na normalidade, que tem horror aos seres diferentes, procurando eliminá-los, mas sim com um herói que se sacrifica para que se consiga reverter a situação para a anterior normalidade.

Este filme inspirou directa ou indirectamente um sem número de filmes-tragédia com tramas fantásticas ou realistas, envolvendo causas naturais, artificais ou imaginárias, desde agentes biológicos e químicos a zombies e outros produtos da imaginação humana. A nossa percepção dos riscos e da história das tragédias é quase sempre destorcida. Uma bactéria pode, em geral, ser muito mais perigosa do que um produto químico natural ou artificial. Mas como pensamos que os poderíamos ter controlado, somos muito mais sensíveis a estes últimos. E também já houve tempo em que a doença era vista como uma fatalidade normal. Por exemplo, a gripe pneumónica de 1918 matou mais pessoas do que as duas guerras mundiais, tendo sido a maior causa de morte no século XX, mas quase não é lembrada em comparação com outras tragédias.
Um bom filme de ficção científica ou de terror não é aquele que nos causa o maior medo mas o que nos suscita as reflexões e interrogações mais profundas.


[adaptado parcialmente de Jardinsde Cristais: Química e Literatura, SérgioRodrigues, Gradiva, 2014]

Organização: Departamento de Química da FCTUC e Departamento de História, Estudos Europeus, Arqueologia e Artes da FLUC   

Ciclo integrado na 17.ª Semana Cultural da Universidade de Coimbra e nas comemorações dos 725 anos desta instituição.

terça-feira, 24 de março de 2015

A TRAPALHADA DA FCT CONTINUA

A FCT transformou-se, com a complacência do ministro Nuno Crato (afinal ele é que é o responsável!), na grande perturbadora do sistema científico-tecnológico nacional, criando a cada passo novas trapalhadas, emendando erros com outros erros, num fuga desesperada para a frente. Ler no PÚBLICO aqui. A palavra "excelência" fica mal na boca do ministro, pois a sucessão de arbitrariedades que está à vista com o seu aparente beneplácito é precisamente o oposto de excelência. A pobre vítima é a ciência em Portugal. Mas Portugal é um Estado de direito: há tribunais e Ministério Público a funcionar. E o mandato político da actual FCT e do ministro tem os dias contados. Estão já em contagem decrescente e já a arrumar os papéis, talvez mesmo a destruir alguns papéis.

FCT VAI TER DE RESPONDER EM TRIBUNAL

Hoje o Público noticia que a FCT e provavelmente o próprio ministro da Ciência e Tecnologia vão ter de responder em Tribunal pelas atropelos à lei que cometeram no famigerado processo de "avaliação" da ciência. Lembro que há também um processo no Ministério Público que põe em causa todo o processo. A FCT ignorou a lei e os regulamentos, incluindo as determinações que ela própria fez,  e está num processo descontrolado de "fuga para a frente",  querendo rapidamente e pela força tornar definitivo um processo eivado de erros formais (para não falar já de erros científicos e más intenções). Não é apenas a lei que a FCT atropela, é também a gramática, como se pode ver pela resposta que a FCT deu aquele jornal: "A FCT não comenta processos de natureza jurídica, quer estejam a decorrer ou se perspectivem que venham a ser constituídos.” Como pode  gerir a ciência quem nem sequer sabe falar português?

Com a devida vénia, transcrevo artigo de Samuel Silva:

"A polémica relativa à avaliação das unidades de investigação pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), que se arrasta há meses no meio científico, vai agora transferir-se para os tribunais. Há pelo menos dois centros de investigação de universidades públicas que apresentaram impugnações judiciais do processo, invocando várias ilegalidades cometidas por aquele organismo público, como mudanças de regras com o processo em andamento e outros “erros grosseiros”, que os levam a pedir a anulação de todo a avaliação

 Estes dois processos judiciais contra a FCT foram apresentados no final do mês passado, movidos pelo Centro de Matemática (Cmat) da Universidade do Minho (UM), junto do Tribunal Administrativo e Fiscal (TAF) de Braga, e o Centro de Química da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), no TAF de Mirandela. Além da coincidência temporal, as duas queixas partilham o mesmo tipo de argumentos contra a avaliação feita para a FCT pela European Science Foundation (ESF), sendo postas em causa a legalidade de algumas das decisões.

 Nos dois processos conhecidos há três problemas que são apontados a esta avaliação. Entre esses, destaca-se a indicação que surgia no contrato assinado entre o organismo tutelado pelo Ministério da Educação e Ciência (MEC) e a ESF de que só 50% das unidades avaliadas iria passar à segunda fase da avaliação, o que só se soube cerca de três semanas depois do anúncio dos resultados da primeira fase (em que 144 centros acabaram por ficar pelo caminho e 178 é que passaram à segunda fase). Na acção do Cmat considera-se que essa leitura “resulta clara do contrato celebrado com a ESF” e que uma condicionante desse tipo nunca tinha sido publicitada pela FCT. “Deste modo, violou o princípio da transparência”, defende-se no mesmo documento.

Depois, é apontada uma mudança introduzida no processo de avaliação já com este em andamento. Na acção movida pelo centro de investigação da Universidade do Minho é considerado uma “grave ilegalidade” a alteração do número de avaliadores em cada painel. Argumenta o Cmat que, a 29 de Abril de 2014, numa “informação adicional”, a FCT passou a referir que a avaliação seria feita por três relatores, quando, no primeiro guia da avaliação, publicado a 31 de Julho de 2013, era anunciado que haveria cinco avaliadores por cada centro. Essa mudança “altera o procedimento avaliativo a meio do procedimento, em clara violação dos princípios da confiança e da transparência”, defende-se na acção que deu entrada no TAF de Braga.

 Já a lista dos painéis de peritos para a avaliação foi proposta pela FCT em 4 de Abril de 2014 – tendo a secretária de Estado da Ciência Leonor Parreira homologado as listas de especialistas quatro dias depois –, numa altura em já tinha terminado há meses o prazo para as unidades de investigação submeterem os seus processos de candidatura à avaliação. Esse desfasamento temporal com a nomeação dos peritos a ser feita numa data posterior às candidaturas também fere, de acordo com a acção entregue em tribunal pelo Cmat, os princípios da isenção e da imparcialidade e é mais uma causa para ser pedida a anulação do concurso. “Até à data, e completamente ultrapassado o prazo legal, continuamos sem qualquer resposta da FCT”, explica ainda ao PÚBLICO Ana Jacinta Soares, coordenadora do Cmat, que subscreve a acção judicial.

 Na primeira fase da avaliação, divulgada no final de Junho do ano passado, o Cmat foi avaliado como “Razoável”, pelo que não tinha direito a qualquer tipo de financiamento. A primeira reclamação da unidade de investigação da Universidade do Minho permitiu-lhe passar a “Bom”, mas isso não foi suficiente para o Cmat, que considera terem sido excluídos alguns dos seus argumentos “de forma injusta e ilegal”.

 No documento de instrução do processo são ainda recordados os vários passos do processo de avaliação das unidades de investigação, desde a abertura do concurso em Julho de 2013, bem como os principais defeitos de que se foram queixando publicamente vários laboratórios científicos ao longo dos últimos meses, como a inadequação dos painéis de avaliadores – segundo a acção judicial do Cmat, dos 11 elementos do Painel das Ciências Exactas, só três são efectivamente de matemática – ou o facto de não terem sido convenientemente considerados os indicadores bibliométricos.

 O principal motivo de contestação por parte do Centro de Química da UTAD são precisamente os critérios de avaliação da produtividade científica. Esta unidade teve nota 3 neste item, apesar de aparecer melhor classificada do que os centros que acabaram por ter nota 4 nos vários parâmetros analisados pelo estudo bibliométrico publicado pela FCT no início do processo de avaliação.

Esta unidade de investigação passou de uma classificação de Muito Bom, na anterior avaliação de 2007, para “Bom” no novo processo. Por isso, receberá um financiamento anual de 10 mil euros, que terão de ser divididos entre as 27 pessoas que o compõem.

 Também para este centro existiram “erros grosseiros” na avaliação dos centros de investigação que deviam determinar a sua anulação. “Tudo isto foi tão rocambolesco, que a FCT não tem outra solução a não ser começar de novo”, defende o director daquela unidade científica, Paulo Coelho.

 Estes são os únicos dois processos judiciais motivados pela avaliação das unidades de investigação de que o PÚBLICO teve conhecimento. A FCT não divulgou se existem outros. De resto, sobre esta matéria houve uma única reacção daquela entidade pública, através do seu gabinete de comunicação: “A FCT não comenta processos de natureza jurídica, quer estejam a decorrer ou se perspectivem que venham a ser constituídos.”

Samuel Silva Público

segunda-feira, 23 de março de 2015

Concurso PORDATA Inovação

Anúncio recebido da PORDATA, base de dados de Portugal:

No âmbito da celebração do 5º aniversário da PORDATA, a Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS) apresenta a primeira edição do Prémio PORDATA Inovação.

Esta é uma iniciativa que, uma vez mais, dentro da missão da FFMS, procura promover e aprofundar o conhecimento da sociedade portuguesa.

O Prémio PORDATA Inovação pretende reforçar a articulação entre a PORDATA e os agentes de produção de conhecimento, incentivando o desenvolvimento de indicadores inovadores, que representem uma mais-valia para a compreensão das dinâmicas da sociedade. É, por isso, especialmente encorajada a participação da comunidade científica nacional.

Ver o link: Pordata

Prazo final de apresentação de propostas: 23 de Maio 2015.

Nova conferência do Casino

Informação recebida dos organizadores:

Num momento de grande necessidade e urgência para o país, um grupo de cidadãos decidiu reeditar para o século XXI a experiência das Conferências do Casino do século XIX, então lideradas por Antero de Quental e participadas por figuras como Eça de Queirós e Adolfo Coelho, entre outros.

Assim, terá lugar no próximo dia 28 de março, no CASINO ESTORIL, pelas 16:00h, mais uma sessão das Novas Conferências do Casino, subordinada ao tema Educação para a Morte, reunindo os oradores Pe. António Vaz Pinto e Miguel Real, com a coordenação a cargo de Isabel Nery.

Educação em Jardins Botânicos – 16 anos de experiência

Mensagem recebida de Ana Cristina Tavares, auto autora do livro com o título acima, disponível livremente em versão electrónica:

"É com muito gosto que venho partilhar a edição on-line do livro “Educação em Jardins Botânicos – 16 anos de experiência”, registado com ISBN.


Oxalá seja de agrado, seja partilhado e útil a muitos profissionais e entusiastas (como eu*) de Educação em Ciência, em particular em espaços naturais."

Ana Cristina Tavares

TODAS AS COISAS VISÍVEIS E INVISÍVEIS


Recebi de Jerónimo Nogueira, deficiente visual, esta interessantíssima recolha poética sobre a impossibilidade de visão. O tema é muito oportuno neste Ano Internacional da Luz.  A poesia é uma forma de acesso à luz. Quando celebramos a luz devemos lembrar-nos de quem não a pode ver (o quadro "Rapariga Cega" é de Millais). 

TODAS AS COISAS VISÍVEIS E INVISÍVEIS
(tópicos poéticos para a discussão de um problema)

  
"Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.
(…)
Eu nunca passo para além da realidade imediata.
Para além da realidade imediata não há nada.
(…)
Ter a certeza é não estar vendo.
Depois de amanhã não há.
O que há é isto:
Um céu de azul, um pouco baço, umas nuvens brancas no horizonte,
Com um retoque de sujo em baixo como se viesse negro depois.
Isto e o que hoje é,
E, como hoje por enquanto é tudo, isto é tudo.
Quem sabe se eu estarei morto depois de amanhã?
Se eu estiver morto depois de amanhã, a trovoada de depois de amanhã
Será outra trovoada do que seria se eu não tivesse morrido.
Bem sei que a trovoada não cai da minha vista,
Mas se eu não estiver no mundo,
O mundo será diferente –
Haverá eu a menos –
E a trovoada cairá num mundo diferente e não será a mesma trovoada"

                                        Alberto Caeiro em“ Poemas inconjuntos”


São Audazes … Porquê? Porque são cegos!
 Hão-de gastar os dentes nessa lida;
 Hão de gastar, depois, ainda a cabeça;
 Hão-de gastar por fim o corpo todo!

Antero Quental em “Odes Modernas”, P. 96


"Oh! A vida é um abismo! Mas fecundo!
Mas imenso! Tem luz – e luz que cegue."

Idem p. 56
                    
  
"Examino como quem cisma. Vejo como quem pensa."

Fernando Pessoa, em “O Livro do Desassossego“ por Bernardo Soares
 Obra em Prosa, Vol. I Circulo de Leitores, p. 72


"Ver é talvez sonhar, mas se lhe chamamos ver em vez de lhe chamarmos sonhar, é que lhe distinguimos sonhar de ver"

Idem, p. 222


"A Vida é que o que fazemos dela. As viagens são os viajantes.
O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos."

Idem, p. 72

"Quem me tapa os olhos não me cega, porém impede-me de ver."

Idem p. 259

"Dá-me a tua mão! …que eu saiba da tua mão …que as tuas mãos são as minhas! …que sejam outras mãos como as minhas…as minhas mãos não me bastam…faltam-me outras mãos como as minhas!”

Almada Negreiros em  “Antes de Começar”, Obra completa”, Vol. III, Imprensa Nacional, p. 38

"Ora a maior ambição do mundo é tirar o homem das trevas para a claridade; e é a maior ambição a portadora do maior sofrimento."

“Ver”, p. 235

"Homero é cego e foi ele quem descobriu a vida interior do homem projectando depois para fora do homem por sobre o mundo a vida interior o homem para que finalmente se visse."

Idem p. 237

"É cego, enfim, porque é cego tudo quanto, a bem ou a ou a mal, se mete de permeio entre a vida e o homem."

Idem p, 234-235


"Aqui, sei onde sangra o lábio oculto.
De quem me vê, até de olhos fechados!
E, como os cegos, reconheço um vulto,
Pelo roçar dos dedos namorados…"

Pedro Homem de Melo em “Ao Porto”, Colectânea de poesia sobre o Porto, p. 129

  
"Cada vez mais vivo e cada vez mais cego através dos anos, é um mistério que nunca pude decifrar.
Penso nele e lembro-me logo daquelas monstruosidades anatómicas, diante das quais a razão, cheia de pasmo, pergunta em que fonte da vida  bebem as suas raízes."

Miguel Torga,  Diário I “, p. 162


"E não me resigno intimamente a essa entrega incondicional, não por apego ao mundo, de que me vou sentindo excluído, mas pela simples dignidade de me não conformar. A dizer não à fatalidade é que eu tenho a ilusão de vencer."

“Diário XVI”, p. 106


"Vagos e rodeados de abismos caminhamos
Indefinidamente sem sair de onde estamos.
Nada se vê. Só se ouve rangente a esc"

Natália Correia em  “ Poesia Completa” p. 541


"Ouvindo o teu sossego
A pouco e pouco encher
Como os olhos do cego
A luz do íntimo ver."

Vitorino Nemésio“ Outra Lição”,Antologia Poética, p. 100


"Rejeitemos decididamente esse radicalismo indecente que nos exorta dar à luz o que é da luz e às trevas o que é das trevas. Por que as trevas estão na luz como o Yin está no Yang; e a luz está nas trevas como o Yang está no Yin."

Natália Correia, “Poesia Completa” p. 505


"Gosto da noite imensa, triste, preta,
Como esta estranha e doida borboleta.
Que eu sinto sempre a voltejar em mim!..."

 Florbela Espanca em “Sonetos” P. 63

"Trago no olhar visões extraordinárias.
De coisas que abracei de olhos fechados…"

Idem, p.203


"No dia seguinte à leitura
Seus olhos desembocam em outras visões."

Mia Couto em “Terra Sonâmbula”, p. 69

"Cego quem é quem só abre os olhos
quando a si mesmo se contempla"

“Cego”, em “Idades, Cidades e Divindades”, p. 106

"Enquanto não, o pescador não pode ver o peixe dentro do rio. O pescador acredita uma coisa que não vê.
Aquela era a lição do que há-de vir da vida e ele, agora, lembrava as sábias palavras."

“Vozes Anoitecidas”, p. 58

O cego curioso, queria saber de tudo. Ele não fazia cerimónia no viver. O sempre lhe era pouco e o tudo insuficiente.

Estórias Abensonhadas” p. 29

"Nós temos olhos que se abrem para dentro, esses que usamos para ver os sonhos. O que acontece, meu filho, é que quase todos estão cegos, deixaram de ver esses outros que nos visitam. Os outros? Sim, esses que nos acenam da outra margem."
                             
Idem, p. 16

"Com medo da noite foi andando, aos tropeços. Os dedos teatrais interpretavam ser olhos."

Idem p. 31

"Acontece que o mundo é sempre grávido de imenso. E os homens, moradores de infinitos, não têm olhos a medir.

Seus sonhos vão à frente de seus passos. Os homens nasceram para desobedecer aos mapas e desinventar bússulas. Sua vontade é a de desordenar paisagens."

Cada Homem é uma Raça”, p. 167


"Como podemos florir
 ao peso de tanta luz?"

Eugénio de Andrade, “Obra Completa “, Vol. I,, Círculo de Leitores, p. 100

"E as mãos do homem não tem mais sentido que imitar
as raízes debaixo da terra."

Idem p. 130

"A noite inteira nos olhos desmedidos."

Idem, p. 195


"São muitos anos dedicados ao ofício, a mão cega procurando iluminar as funduras da alma, ou esforçando-se, com o tempo, a esquecer o que foi aprendendo."        
                                                                
“A sombra da Memória”. p. 98

"A página é cegante, na sua lucidez"

Idem p. 38

"A noite inteira nos olhos desmedidos."

Idem p. 195


"O ASTRÓNOMO

À sombra de um templo
O meu amigo e eu
Vimos um cego
Sentado e solitário.

O meu amigo disse:
- Olha que esse
é o homem mais sábio da nossa terra.

Então, deixando o meu amigo,
Aproximei-me do cego,
Saudei-o e começamos a falar.

Pouco depois disse-lhe:
-Desculpa a pergunta,
mas há quanto tempo está cego?

Ele respondeu:
-Desde que nasci.
Perguntei então:
- E que caminho de sabedoria escolheste?
- Sou astrónomo.
Em seguida levou a mão ao peito e acrescentou:
- Observo todos estes sóis, estas luas e estrelas."

Khalil Gibran


“Se um olhar de novo brilho ao meu olhar se enlaçasse…”

Alexandre O´Neil


“Vem serenidade, põe nos olhos dos cegos a luz que lhes pertence!”

Raul de Carvalho

                        

 Recolha de textos de Jerónimo Nogueira 

Diferença entre Astronomia e Astrologia

No final do ano de 2011 previ, numa crónica sobre astrologia no Público, que a 20 de Março de 2015 ia ocorrer um eclipse solar. Acertei obviamente. Quanto às previsões da astróloga de serviço à RTP.... ler aqui:

http://dererummundi.blogspot.pt/2011/12/previsoes-para-2012-e-2015.html

Água ultra-pura

Sobre o tema da homeopatia texto recebido de Carlos Corrêa, professor de Química da Universidade do Porto:

A água utilizada na preparação dos medicamentos de alta diluição é agua ultra-pura.

A água ultra-pura do Tipo I, a mais pura disponível no mercado, por exemplo da Millipor, tem uma condutividade de 0,054-0,056 mS/cm tendo carbono orgânico total inferior a 50 mg/L, sódio inferior a 1 mg/L, cloretos inferiores mg/L e sílica inferior a 3 mg/L. Vamos supor que se usava uma água mil vezes mais pura (impraticável).

Se usarmos uma solução inicial de 1 mg de substância ativa por litro, se diluirmos 10 vezes, repetindo a operação 100 vezes (e não 200 como por vezes se refere), qual é a massa de produto ativo final:

1 mg/L -> 1/10 x 1/10 x 1/10 x ….x 1/10 (cem vezes!) = 10-100 mg/L  (10 elevado a menos 100 !)

A quantidade de carbono orgânico na água purríssima é

0,001 x 50 mg/L = 50 x 10-9 mg/L, que é 5 x 1091 vezes maior do que a massa de substância ativa!

O mesmo se passa com o sódio, cloretos e outros vestígios.

Em conclusão: uma água mil vezes mais pura do que a água ultrapura disponível no mercado contém mais sódio, cloretos, sílica, carbono orgânico e outras substâncias em quantidade astronomicamente mais alta (1091 vezes…) do que o princípio ativo!


Ainda há gente que acredita nestes medicamentos homeopáticos?

Carlos Corrêa

Carl Djerassi comissiona peça a companhia de teatro de Coimbra

Informação recebida da companhia de teatro marionet de Coimbra:

O cientista e escritor Carl Djerassi, recentemente falecido, comissionou à marionet a produção em Portugal da sua peça “EGO”, que será estreada no dia 8 de Abril, no Teatro da Cerca de São Bernardo, em Coimbra.

Djerassi tornou-se uma personalidade influente no mundo da ciência pelo papel fundamental que teve na invenção da pílula anti-concepcional feminina nos anos 60 do século XX, tendo-se dedicado nos últimos anos à escrita de ficção e peças teatrais.

Uma dessas peças, Cálculo, que retrata a disputa entre Isaac Newton e Gottfried Leibniz, sobre quem primeiro inventara o cálculo (equações diferenciais e integrais), foi também já levada à cena pela marionet, em 2011, no Museu da Ciência da Universidade de Coimbra. O livro “Cálculo”, de Carl Djerassi, foi simultaneamente lançado em Portugal, numa edição da Imprensa da Universidade de Coimbra, podendo contar com uma sessão de autógrafos com o autor.

O texto de “Ego”, a primeira peça de Djerassi considerada “não-científica”, teve como base a obra “Marx Deceased”, do próprio Djerassi, e foi traduzido para língua portuguesa por Mário Montenegro, o director da companhia marionet. A peça trata a forma como um escritor, Stephen Marx, fingiu a sua própria morte de modo a poder observar a reacção e crítica de leitores e críticos, e teve como inspiração, assumida por Carl Djerassi, Fernando Pessoa e os seus heterónimos.

CONSELHO NACIONAL DE DESEDUCAÇÃO


Artigo de opinião de Guilherme Valente saído há uma semana no Expresso:

Entre as várias coisas boas que este Ministro da Educação foi capaz de fazer, a melhor foram os exames. E a prova, como se previa, viu-se logo: passados um ou dois anos sobre a medida, as médias subiram em todas as escolas. Em todas, mas mais… nas públicas! Nas "más", e isso é que é importante, para dar oportunidade e esperança a todas as crianças, criando as condições para diminuir o fosso da desigualdade social. (E subiram menos nas privadas por nelas haver já mecanismos de exigência de trabalho e de ser outro, regra geral, o empenho dos pais.)

Saudada com júbilo pelos que realmente se preocupam com a qualidade do ensino e o destino dos alunos, essa subida nos resultados enervou e abalou, como se viu, os defensores do facilismo, da ideologia que serviu magnificamente aqueles que quiseram e querem inviabilizar a educação em Portugal.

E a reacção não tardou. O CNE, agora com a cobertura útil do presidente que passou a ter - as escolhas e delegações deste Ministro são, regra geral, um desastre - vem agora propor, criminosamente, o fim das reprovações, isto é, o fim dos exames a sério. Para isso invocou três "razões", todas agoniantes:

Uma, a de que as reprovações não resolvem o problema dos alunos que reprovam - e a transição sem se saber resolve? E foi por isso mesmo que desde sempre defendemos... a necessidade de apoio reforçado aos alunos reprovados. Solução que vêm apresentar agora como se fosse uma descoberta sua.

Outra razão, a de que reprovação suscita nas crianças perturbações emocionais, é hilariante, na linha de concepções e de práticas idiotas que têm conduzido à infantilização dos alunos, gerando jovens e adultos sem autonomia, personalidades frágeis incapazes de enfrentar as mínimas contrariedades que a vida a toda a gente inevitavelmente coloca.

E, última razão evocada, a de que as reprovações custam caro ao Estado. Razão hipócrita esta, por ser apresentada pelos que sempre tão assanhadamente atacaram o Ministro por "sacrificar a qualidade do ensino à poupança de dinheiro". Poupar-se-ia 900 milhões, dizem-me que terá dito o meu Amigo Eduardo Marçal Grilo – então porque não poupam tudo? Fechem-se as escolas, acabe-se com a Educação!

A proposta do CNE junta cegueira ideológica e ressentimento a uma aparente...burrice. E porquê? Por que os exames, a reprovação (a que chamam beatamente retenção), não se destinam apenas, nem sobretudo, a proporcionar aos alunos sem qualificações para transitar de ano a possibilidade de recuperarem. O objectivo e benefício dos exames a sério são sistémicos.

Isto é, promover o estudo pelos alunos todos, a qualidade do ensino (e o estudo...) pelos professores, a preocupação dos pais relativamente ao trabalho escolar dos filhos, e também o empenho e competência do aparelho do Ministério. O objectivo dos exames é, em suma, pôr toda a gente a trabalhar, a estudar, a ensinar e a educar realmente, informando e responsabilizando todos, professores, directores, escolas, ministério e pais.

Percebe-se, assim, porque precisamos em Portugal de um regime de exames bem diferente daquele de que necessitam sociedades como a finlandesa ou a japonesa, por exemplo.

Acabar com os exames, como agora vem defender o CNE determinará, rápida e inelutavelmente, que se passe a estudar menos e a ensinar pior. Voltará a descer, portanto, o nível de formação dos alunos, a crescer o abandono escolar e a indisciplina, a irresponsabilidade de estudantes e professores (e a frustração dos melhores deles), a indiferença dos pais. E os mais prejudicados seriam, serão…, como sempre foram, os mais desfavorecidos, assim se contribuindo para agravar ainda mais as desigualdades sociais. E entrariam ainda menos alunos no ensino superior, a não ser que também nesse grau de ensino viesse a verificar-se uma descida ainda mais escandalosa de exigência. Facto, infelizmente, bem provável, aliás, pois não começaram já alguns Politécnicos a decidir o fim de alguns exames – com excepção do exemplo que se esperava dos de Lisboa, Porto e Coimbra? Tudo para agravar a miséria da realidade política, cultural, económica, financeira, o pântano em que o País tem vivido.

Guilherme Valente

«Expresso» de 14 Março de 2015

Plantas, mitos, fabulações e realidade

Informação recebida do Rómulo:

Na 3ª feira, 24 de Março de 2015, pelas 18h, realiza-se no RÓMULO – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbralocalizado no piso térreo do Departamento de Física da FCTUC, a palestra intitulada “Plantas, mitos, fabulações e realidade”, com o Professor Jorge Paiva. Esta palestra insere-se no ciclo “À Luz da Ciência”, dinamizado pelo Bioquímico António Piedade, que decorre de Fevereiro a Junho de 2015.
cartaz

SOBRE A PALESTRA:
"Quando se formou a nossa espécie, praticamente, a totalidade das outras espécies animais que hoje existem já habitavam o Globo Terrestre. Por isso, a espécie humana (Homo sapiens L.) aprendeu muito com a Natureza e com os outros animais. Assim, copiamos os outros animais na alimentação e, também, no uso de muitas das plantas medicinais que ainda hoje utilizamos. É disso exemplo uma planta que em S. Tomé é designada por “aliba-cassô”, que quer dizer planta do cão, pois é uma erva [Eleusine indica (L.) Gaertn.] que os cães “mastigam” quando têm desarranjos intestinais e, então, os santomenses, quando têm disenterias tratam-se com infusões dessa planta. Claro que também aprendemos com os outros animais a utilização das plantas tóxicas, como, por exemplo, a noz-vómica (Strychnos nux-vomica L.), cujas sementes contêm estricnina, sendo, por isso, que os símios não comem o fruto desta espécie de Srychnos, mas sim os frutos das espécies de Strychnos que não têm estricnina. É um “fenómeno” idêntico ao que acontece com os cogumelos.

Portanto, a nossa espécie utiliza plantas praticamente desde que apareceu na Terra. Aliás, os mais primitivos antepassados humanos eram herbívoros, depois colectores e caçadores e, após a domesticação de animais e plantas, agricultores e pastores.

Além das plantas comestíveis que sempre utilizámos, conhecem-se documentos sobre plantas medicinais há mais de cinco mil anos, como são os documentados sistemas médicos chineses e o “ayurvédico” indiano. Antes da fabricação dos medicamentos pela indústria farmacêutica, que não tem mais do que século e meio, as enfermidades eram tratadas directamente com “mesinhas” das plantas ou dos animais. Foi, por isso, que a 5 de Outubro de 1773 o Marquês de Pombal escreveu ao então Reitor da Universidade de Coimbra, rejeitando o grandioso plano para o Jardim Botânico de Coimbra, que este lhe enviara, dizendo: “Debaixo d’estas regulares medidas deve, V. Ex.ª fazer delinear outro plano, reduzido somente ao numero de hervas medicinais que são indispensáveis para os exercícios botânicos, e necessarias para se darem aos estudantes as instruções precisas para que não ignorem esta parte da medicina.....”

O tratado “De materia medica” (64 d.C.) de Pediamos Dioscórides (40-90 d.C), célebre físico (cirurgião) grego, considerada uma das obras mais antiga sobre plantas, onde se descrevem os atributos (cerca de 1000) de cerca de 600 espécies de plantas, foi o “guia” da “medicina” durante mais de 16 séculos, o que implicou um reduzidíssimo progresso da fitoterapia, pois além de traduções (algumas com erros graves que se repetiram durante séculos) para várias línguas, muitas publicações (mesmo actuais) sobre plantas medicinais limitaram-se a “parafrasear” a obra de Dioscórides. Aliás, a maioria dos nomes utilizados por Dioscórides tinham sido utilizados por Hipócrates de Cos (ca. 460-370 a.C.) no seu catálogo “De herbis” com mais de 230 nomes de plantas, mais tarde descritas por Crataevas (120-60 a.C.) em “Rhizotomicon”, assim como Theophrasto de Eresos (370-285 a.C.) no livro XVI da sua “Historia plantarum”.

Camões também conhecia não só as obras gregas, particularmente o tratado “De materia medica”, como também os “Coloquios dos simples, e drogas he cousas mediçinais da Índia…” (1563) de Garcia de Orta, por quem acalentava uma afectuosa amizade e admiração, resultante das relações pessoais que mantiveram na Índia, onde o poeta escreveu praticamente todo o seu poema épico, Os Lusíadas. Por isso, é n’Os Lusíadas que o poeta mais plantas menciona (cerca de cinco dezenas), na maioria asiáticas e aromáticas. Na lírica refere muito menos espécies de plantas (cerca de três dezenas), maioritariamente, europeias e ornamentais, pois a lírica foi, praticamente, escrita em Portugal e centrada no amor e paixão.
As plantas, pela sua relevância para a nossa espécie, também são referidas nas obras sagradas das religiões, com, por exemplo, no Corão e na Bíblia. Muitas dessas plantas referidas por poetas e nos textos sagrados, são difíceis de identificar com exactidão, assim, das cerca de 160 plantas citadas na Bíblia, apenas estão seguramente bem identificadas cerca de 100.

Portanto, os atributos medicinais e comestíveis das plantas são conhecidos, estão documentados e registados por escrito há muitos séculos. No Continente Americano, os índios sempre utilizaram plantas medicinais e muito desse conhecimento está bem documentado. Porém, sobre a prática medicinal popular africana (particularmente da África Tropical) há não só exígua documentação e registos escritos, como também muitíssimo menos estudos e análises científicas.

Por causa de muitos destes produtos poderem provocar intoxicações ou até alucinações, é que existe aquilo a que os ingleses designam por “folk medicine” (medicina folclórica), na qual o (a) curandeiro (a) as utiliza a seu belo prazer, provocando alucinações ou intoxicações que, depois, alterando o conteúdo da planta seca (sem que o enfermo dê por isso) e elaborando exorcismo ou rezas, faz “desaparecer” o mal (intoxicação ou alucinação propositadamente provocada). Assim muitos “curandeiros” sem escrúpulos podem causar, impunemente, em vez de curas, piores males ou, até, mortes.

Um exemplo de planta muito utilizada nestas práticas (pó das sementes que têm elevado teor de produtos atropínicos), particularmente para acabar com namoros “inconvenientes”, é a Datura stramonium L. (figueira-do-inferno, erva-do-diabo, erva-das-bruxas, erva-dos-mágicos, castanheiro-do-diabo), responsável, por vezes, pela morte de gado cavalar, quando a planta está, inadvertidamente, incluída no seio dos fardos de palha.

Em muitos países, onde não há medicina forense ou é de fraca eficiência, muito curandeiro (a) provoca propositadamente, a morte do “paciente”, frequentemente com o conluio de familiares ou inimigos da vítima. Um exemplo dessas plantas são algumas das espécies do género Erythrophleum, com elevado teor de um alcalóide (eritrofleína) altamente tóxico, utilizadas para esse feito em África.

Além de tudo isso, devido à enorme relevância das plantas na vida humana, existem muitos mitos, como, por exemplo, a figueira-sagrada (Ficus religiosa), à sombra da qual o Príncipe Sidarta Gautama (Buda) meditou durante 7 anos e fabulações como, por exemplo, a maçã que Eva deu a Adão e plantas carnívoras que devoram símios e humanos." 

Jorge Paiva