domingo, 26 de maio de 2019

Grandes convenções dramáticas: o Frei Luís de Sousa e a tradição clássica"

No próximo dia 29 de Maio realiza-se a quinta e última conferência do Ciclo de Conferências Desafiando o passado: A antiguidade greco-latina em contínua presença, promovida pela Associação de Professores de Latim e Grego. Vale a pena assistir.

Gigantes desportivos: competência, coragem e talento político para reformar o desporto português

Publicamos mais um texto do leitor Fernando Tenreiro, que agradecemos.

O filme Hidden Figures apresentado na SIC, a 12mai2019, trata das vicissitudes que mulheres de raça negra, licenciadas em matemática, tiveram de passar para se afirmarem com sucesso no projecto inovador da NASA de colocar astronautas americanos em órbita da Terra, de os enviar à Lua e de os trazer de volta.

A cena do filme que interessa a este artigo, passa-se em 1961 quando se discutia na NASA a amaragem da cápsula de John Glenn no oceano Atlântico, depois de um período no espaço em que daria algumas voltas à Terra. O responsável da Marinha refere que não lhe podem pedir para cobrir todo o oceano e necessitava que lhe garantissem que a chegada da cápsula com o astronauta ao oceano aconteceria num determinado local com 50 quilómetros quadrados. Dado que na enorme mesa ninguém tinha a resposta o director Harrison (o actor Kevin Costner) entrega um giz e pede à matemática Katerine Goble (a atriz Taraji Henson) que explique a todos como a operação decorrerá.
Katerine Goble dirige-se a um quadro e enuncia que tomando as Bahamas como local de amaragem, a decisão de John Glenn continuar a órbita ou de a abortar voltando à terra teria de se decidir a 5 km de distância. Com o giz escreve a equação, considerando a velocidade da cápsula de 28.234 km por hora desde que chegara ao espaço, o ângulo de descida, a gravidade terrestre, a velocidade de reentrada na atmosfera, etc., que assegurava a chegada da cápsula à latitude X e à longitude Y das Bahamas como solicitado para os 50 km2 aonde estariam os navios e os helicópteros que recolheriam a cápsula e o astronauta.

Os gigantes americanos

Nas palavras do director Harrison, o projecto integrou gigantes que colocaram os norte-americanos a orbitar a Terra, irem à Lua e a voltarem sãos e salvos. Os gigantes incluiriam o Presidente Kennedy que definiu o objectivo de chegar à Lua e as metas de orbitar a Terra com os seus aparelhos e de lá colocar um astronauta em resposta ao competidor directo na corrida espacial, a União Soviética. Entre outros, os gigantes foram as matemáticas de raça negra que demonstraram estar à altura dos desafios que a NASA tinha de resolver e acima do que era pedido aos seus colegas brancos. Outra característica do projecto americano em relação ao desporto português é a disponibilização de meios financeiros e organizacionais com o envolvimento de vários departamentos do Estado, Segurança, Marinha, informática, ciência, etc.

A corrida espacial tal como os Jogos Olímpicos são desafios sublimes que os países investem para afirmarem a excelência da sua Nação, dos seus povos, dos seus regimes políticos, da sua economia e da sua cultura, entre outros desígnios fundamentais.

A história dos Jogos Olímpicos está cheia das palavras e do arrojo dos políticos e das suas Nações que se afirmam pelo querer inquebrantável e a determinação de os usar como elo de formação e maturação das nacionalidades.

No caso recente do Reino Unido existe um percurso de política pública desportiva com várias décadas de investimento no melhoramento das instituições de todo o seu desporto o que elevou a sua produtividade olímpica a níveis que nenhum outro grande país mundial alcançou de 1 milhão de habitantes por medalha conquistada, quando a média dos grandes países se situa entre os 2 e os 3 milhões de habitantes por medalha, e que agora chega à final da Liga dos Campeões de futebol com os 2 finalistas.

A órbita baixa do desporto português

Os líderes do desporto nacional não quantificam a produção nem determinam uma meta temporal. A figura 1 mostra a performance desde início dos Jogos Olímpicos de verão em 1896 dos países da dimensão de Portugal e mais pequenos. A figura 2 compara a evolução de Portugal com outros países que têm menos décadas de participação nos Jogos Olímpicos.
A figura 1 é construída com as medalhas olímpicas dos primeiros, segundos e terceiros lugares acumulados por países europeus de micro dimensão, com menos de 5 milhões de habitantes, por países de dimensão pequena entre 5 milhões de habitantes e 8 milhões de habitantes e por países de média dimensão entre os 8 milhões de habitantes e menos de 20 milhões de habitantes. Não são considerados na figura 1, os grandes países com mais de 20 milhões de habitantes.

Figura 1
A participação nos Jogos Olímpicos de 1896 a 2016 dos países do ocidente europeu (Fonte: Tenreiro, F.?

Formam-se 3 grupos países: o grupo 1 da produtividade menor na conquista de medalhas olímpicas; o grupo 2 da produtividade média; e, o grupo 3 da produtividade superior. A figura 1 identifica a dimensão populacional dos países da amostra em micros, pequenos e médios.
No grupo 1 da menor produtividade Portugal é um país médio com 10 milhões de habitantes e conquistou o menor número de 24 medalhas entre todos os países considerados. Neste grupo junta-se a Irlanda, um país micro com menos de 5 milhões de habitantes, que conquistou 31 medalhas. No grupo 2 da produtividade média encontra-se a Áustria com 95 medalhas que pertence ao grupo dos países que tem até 200 medalhas acumuladas e a que pertencem a Bélgica, Noruega, República Checa, Suíça e Dinamarca. O grupo 3 dos países de produtividade superior varia entre as cerca de 300 medalhas conquistadas e as 50 medalhas e integra a Holanda, a Finlândia, a Hungria e a Suécia que é a campeã.

A conclusão da figura 1 é que os países mais pequenos do que Portugal como a Finlândia, a Dinamarca, a Noruega e a Irlanda ganharam ao longo dos 100 anos de participação olímpica mais medalhas do que Portugal não consegue produzir.

Todos os países foram e estão a ir-se embora e o desporto nacional ficará sozinho

A análise dos países que tiveram uma transformação de regime político demonstra que o nível de acumulação das medalhas mesmo nos países mais pequenos com menos de 5 milhões de habitantes é superior à produtividade olímpica de Portugal.

A figura 2 apresenta os países que começaram a participar a partir da transformação do seu regime político. A República Checa que pertence ao grupo dos países que conquistaram até 200 medalhas resulta da divisão da Checoslováquia em República Checa e Eslováquia. Verifica-se que apesar da divisão do país, o declive da conquista das medalhas é equivalente antes e depois da passagem do regime soviético para o democrático.

Figura 2 
A participação nos Jogos Olímpicos de 1896 a 2016 dos países do leste europeu (Fonte: Tenreiro, F)
No caso de Portugal e de Espanha o ano de 1976 marca os últimos Jogos Olímpicos em que os resultados são aproximados. Depois desses Jogos Olímpicos a inclinação da curva de Espanha é igual às curvas da República Checa e da Eslováquia e sugerem a existência de um padrão de sucesso.
Países como a Ucrânia e a Bielorrússia depois da saída da URSS passam a acumular medalhas com médias elevadas de conquista de medalhas. O grupo mais interessante é o dos países micro com menos de 5 milhões de habitantes, como a Croácia, a Estónia, a Geórgia, a Eslovénia e a Lituânia, que se tornam independentes no início da década de 90 e têm níveis de produtividade que lhes permitem em 7 Jogos Olímpicos ultrapassar Portugal que possui mais de 10 milhões de habitantes e compete nos Jogos Olímpicos desde 1924.

A conclusão da figura 2 sugere que Portugal deveria conquistar a média de medalhas dos países que possuem uma dimensão populacional equivalente ao país. Os países europeus médios entre os 8 milhões de habitantes e os 20 milhões de habitantes têm uma média de 7 medalhas por Jogos Olímpicos. Este indicador permitiria ao desporto nacional comportar-se ao nível de todos os países europeus e duplicar o seu número de medalhas em 3 Jogos Olímpicos, em vez de esperar que passem mais 100 anos de produtividade medíocre.

A produtividade olímpica de Portugal é inaceitável

O quadro abaixo divide na coluna 1 os países europeus pela produtividade: os países eficientes e os ineficientes. Na coluna 2 os países são qualificados dividindo a sua população pelo número de medalhas conquistadas nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro.


Começando pelos países com eficiência produtiva:

• Os países mais pequenos precisam de 500 mil habitantes para conquistar uma medalha e que esses países têm na sua maior parte menos de 5 milhões de habitantes.
• Seguem-se os países que necessitam de 1 milhão de habitantes para produzirem uma medalha e que na sua maior parte são países de dimensão média, a dimensão de Portugal. Estes países também são maioritários no agrupamento seguinte da produtividade de 1,5 milhões por medalha.
• Entre os 2 e os 3 milhões de habitantes por medalha estão os grandes países.

O grupo dos 6 milhões de habitantes por medalha olímpica corresponde a níveis de ineficiência produtiva que se poderá qualificar de ineficiência baixa. No nível seguinte de ineficiência alta está a Áustria e Portugal. A Áustria é um país que já conquistou 95 medalhas olímpicas e que recentemente atravessa uma baixa de produtividade. Portugal pode ter a média de produtividade olímpica que quiser, não pode é não ter uma política pública desportiva em negação como actualmente acontece com o silêncio absoluto dos parceiros desportivos.

À política pública do desporto nacional falta a produtividade de nível europeu

Em Portugal os Governos decidem habitualmente continuar a frágil actividade desportiva e nunca decidem cortar com essa rotina e investir na prática generalizada de desporto pela população e na conquista de medalhas entre outros indicadores de sucesso desportivo.

O desporto português necessita de um momento fundacional por parte de um alto responsável público que proclame uma “palavra”; um discurso; uma decisão; um programa; um projecto; uma Visão; uma paixão (Guterres dixit); uma motivação de política pública nacional de resposta a um resultado desportivo de excepção, etc. etc. etc.

As selfies com os campeões desportivos ocasionais são seiva populista de quem cala a política pública desportiva e cavalga o almoço grátis no camarote!

O acto de política pública desportiva teria de ser mais poderoso do que o que gerou a antiga Lei de Bases do Sistema Desporto em 1990 e que colocou o desporto nacional num contexto superior ao passado de décadas de ordenamento jurídico corporativo ou o que se candidatou e criou o campeonato europeu de futebol, Euro2004. Houve limitações que levaram à jurisdicionalização do direito desportivo e actualmente destroem o desporto e houve limitações por ocasião do Euro2004 que se evidenciaram no fracasso relativo em Pequim2008 e desde então se agravaram. A vitória no campeonato europeu de 2016 em França foi um magnífico e belíssimo acaso. Deve estar-se ciente que não foi uma consequência das decisões de política pública desportiva e surgiu contra a evidência da catástrofe que se reconhece se passou no Sporting Clube de Portugal e passa mais além endemicamente.

O desporto português mantém-se numa órbita baixa, num limbo pequeno e “orgulhosamente só” que recusa a ciência, a democracia, a solidariedade, a sustentabilidade, o Século XXI, a integridade dos líderes de excepção, o talento ao serviço da política pública desportiva, a competitividade desportiva e a determinação do consenso nacional do que será o desporto para os seus filhos e netos.

Essa órbita baixa suscita interrogações como as seguintes: O que aconteceria se os jovens atletas portugueses em vez de competirem com as más condições nacionais competissem com as condições dos restantes países europeus? Uma pergunta melhor é: que resultados desportivos seriam produzidos pela juventude portuguesa se tivesse as mesmas condições da juventude de todos os outros países europeus, em vez das condições cronicamente medíocres da política pública desportiva que lhe são oferecidas pelo Estado português?

O que receiam ou esperam os políticos portugueses do desporto nacional?

Fernando Tenreiro,
economista, fjstenreiro@gmail.com, linda-a-velha,
25mai2019

sexta-feira, 24 de maio de 2019

EINSTEIN E AS ABELHAS


Fiz uma curta intervenção no Jornal das Oito da TVI do dia 22 de Maio (peça que começa no minuto 34), dia do apicultor, desmentindo que Einstein alguma vez tenha dito que, se as abelhas desaparecessem, a humanidade também desapareceria no espaço de quatro anos. São "fake news", em que se invoca indevidamente uma autoridade da ciência!

Inovações na genómica



Meu artigo na revista "Ter" do ISAVE (Amares):

Hoje em dia a inovação é uma palavra que está constantemente a chegar aos nossos ouvidos. De facto, são as inovações – entendida aqui como a novidade de base científico-técnica com implicações sociais – que nos abrem a porta do futuro. Na área da saúde estão  a ocorrer algumas inovações extraordinárias. Na minha visão, as mais extraordinárias estão a ocorrer  na área da genómica, com a sequenciação completa e a interpretação do genoma humano. As implicações na prevenção, diagnóstico e tratamento de doenças são enormes.

 O genoma humano é a informação hereditária que está contida no ADN dos seres vivos, em particular dos seres humanos. No interior de cada uma das células, em particular as do nosso corpo, reside o “código da vida apenas quatro letras, A, T, G e C, para designar respectivamente  a adenina, timina, guanina e citosina,  que são grupos químicos genericamente chamados bases que se sucedem ao longo do ADN, ácido desoxirribonucleico, uma molécula extensa com a forma de uma dupla hélice. O ADN é conhecido há muito como substância química: foi descoberto pelo médico suíço Friedrich Miescher (1844-1895) em 1871. No entanto, a descoberta da estrutura em dupla hélice da respectiva molécula só veio a ser realizada foi realizada em 1953 pelo físico inglês Francis Crick (1916-2004) e pelo biólogo norte-americano James Watson (n. 1928), que receberam por esse feito o Nobel da Medicina em 1962. A estrutura entrelaçada foi revelada por observações de raios X, conhecidos desde 1895 (talvez a maior contribuição que a Física deu à medicina). De facto, os raios X permitem ver o interior de cristais, como aqueles que são formados por moléculas de ADN bem empacotadas numa rede. A sequenciação ou decifração das letras do ADN demorou um pouco: O bioquímico inglês Frederick Sanger (1918-2013) foi o primeiro, em   1977,  a sequenciar o ADN de um organismo simples, o bacteriófago Phi X 174, que tem 5286 bases, agrupadas em 11 genes (genes são agrupamentos de bases, que contêm a  “receita” de produção de proteínas, as “máquinas-ferramentas” da vida). Esse cientista foi até hoje o único laureado com dois Prémios Nobel da Química: o segundo foi-lhe dado em 1980 precisamente pela sequenciação do referido genoma (a técnica de Sanger ainda hoje se usa). Veio somar-se ao primeiro, que lhe tinha sido dado em 1958 pela revelação da estrutura de uma proteína, a insulina, com base mais uma vez em observações de raios X. Quer a identificação do ADN, quer da sua estrutura, quer a sua decifração foram grandes inovações na bioquímica com implicações na medicina.
”, isto é, registo da nossa identidade biológica escrita com

Mas uma coisa é sequenciar um microrganismo e outra é sequenciar o genoma humano. O Projecto do Genoma Humano, um dos maiores empreendimentos científicos da nossa época, teve lugar entre 1990 e 2003: o seu objectivo consistia em mapear todos os genes do ADN humano e não apenas alguns em locais específicos. O empreendimento incluiu mais de 5000 cientistas, de 250 laboratórios, de vários sítios do mundo. Concluiu que os 23 cromossomas humanos continham cerca de três mil milhões pares de bases, 20 000 genes (menos do que se pensava, há seres vivos com mais genes!), com o total de 800 megabytes de informação, o que corresponde mais ou menos à capacidade  de um vulgar CD (do  total menos de 0,1 por cento é verdadeiramente individual, podendo o resto ser considerado um padrão da espécie humana).

Tremendos desenvolvimentos na bioquímica e na informática permitiram uma enorme queda do preço da sequenciação genómica (ver Figura), o que tem permitido aumentar o número de genomas disponíveis para análise. De 1990 a 2007, na chamada 1.ª geração de sequenciação, o custo de um genoma era de dez milhões de dólares, de 2007 a 2011 decorreu o tempo da 2.ª geração, na qual o custo caiu para 5000 dólares. Finalmente desde 2014 vivemos na 3.ª geração, período no qual a sequenciação do genoma passou a custar menos de 1000 dólares. Hoje ela custa hoje cerca de 700 dólares (foi o custo aproximada da sequenciação do meu genoma), sendo a meta  actual  atingir o preço de cem dólares. Essa meta – uma inovação a coroar outras – parece estar ao virar da esquina. Vai ter implicações na nossa saúde.

O projecto “1000 Genomas” recolheu dados sobre a diversidade genética da humanidade.  Somos diferentes, mas somos também iguais. Com a decifração do genoma humano começou a  estudar-se relação entre genes e doenças ou, nalguns casos, a predisposição para doenças. Se em certas doenças há uma relação inequívoca entre mutações genéticas (alterações nas bases nas cópias que a célula faz ao reproduzir-se) e  enfermidades, noutros casos, a maior parte e a mais interessante, só se pode falar de probabilidades. Algumas variações genéticas em certos sítios proporcionam, ou pelo menos favorecem, o desenvolvimento de algumas doenças, estando a literatura científica a aumentar com nova informação sobre essas relações.  As aplicações estão à vista. Por vezes a informação genética pode medir a medidas radicais de prevenção: a actriz norte-americana Angelina Jolie fez uma mastectomia total por ter uma probabilidade, baseada na análise genómica, de uma probabilidade de 80% de ter cancro da mama. Uma das aplicações mais promissoras dá pelo nome de farmacogenómica: a dose de alguns fármacos deve ser adequada ao perfil genético de cada pessoa, pois cada indivíduo metaboliza a um ritmo diferente do de outros Novas tecnologias, designadamente na área da nanotecnologia, prometem baixar ainda mais o preço da sequenciação e assim permitir a acesso a este tipo de tecnologia por parte de mais pessoas. Tais tecnologias somam-se a avanços na área do software, que permitem tratar grandes quantidades de dados, recorrendo por exemplo à inteligência artificial. A ideia consiste em aprender sobre a nossa saúde à medida que o tratamento de a quantidade de dados avança.

Não é arriscada a previsão de que a genómica desempenhará no futuro um papel muito maior do que hoje, quando se estão a generalizar as análises genéticas. No futuro, as buscas devidamente autorizadas a bases de dados, que contêm a informação genómica total de vários indivíduos, deverão substituir os testes genéticos actuais, que se destinam a obter informações sobre sítios precisos do genoma. A vantagem é que a sequenciação completa se faz uma só vez, podendo vir a ser usada ao longo da história clínicas das pessoas cuja informação está lá guardada.  Os médicos tomarão decisões cada vez mais ajudados por máquinas. Existem decerto questões éticas, legais, económicas e políticas sobre a utilização de dados genómicos. Colocam-se hoje novas questões, que têm necessariamente de ser informadas pela ética, relativas não só ao uso de dados genéticos, mas também às possibilidades de edição genética. Com efeito, recentemente um médico chinês anunciou que tinha usado uma nova técnica, o CRISPR (do inglês Clustered Regularly Interspaced Short Palindromic Repeats), para fazer um certo tipo de melhoramento genético de embriões humanos, sem existir uma base legal para o procedimento.  Estas questões dizem respeito a todos, não podendo ser deixadas a cientistas, engenheiros, gestores ou políticos. São questões que têm  de ser decididas por todos. Convém por isso que a sociedade tenha acesso a informação adequada.


UMA DÉCADA DO ARTES



Meu texto que saiu no último número do "Artes", abreviatura da revista cultural "As Artes entre as Letras", que acaba de fazer 10 anos:

Dez anos não é um tempo pequeno. Como o tempo médio de vida humana é inferior a cem anos, é uma parte substancial das nossas vidas. Nos meus últimos dez anos, tal como os meus contemporâneos, pude beneficiar da leitura de “As Artes entre as Letras” (ou só “Artes”), o jornal cultural com sede no Porto que tem espelhado as artes e as letras de todo o país e do mundo. Graças ao amável convite da Nassalete Miranda, estive no projecto desde o seu início quer no Conselho Editorial quer como colaborador regular. Orgulho-me, por isso, de ter ajudado ao crescimento da criança que viu a luz do dia em Maio de 2009 e que agora passa na idade  a ter dois dígitos.
Há sempre uma história antes da história. E o jornal que agora está de parabéns encontra os seus antecedentes no suplemento cultural “Das Artes Das Letras” de longa e muito rica tradição (data de 1942) do “Primeiro de Janeiro”, o periódico que a Nassalete diligentemente dirigiu entre 2000 e 2008. Pois eu também colaborei nesse suplemento de boa memória. Foi aí aliás que fui treinando a escrita que depois se foi espraiando por outros sítios. Estou naturalmente grato pela oportunidade que a sempre jovem directora me proporcionou, dando espaço a um jovem  desconhecido. Eu fui feliz por poder escrever num jornal que me tinha acompanhado na infância, desfrutando dos desenhos do Príncipe Valente. Foi um editor valente – Guilherme Valente – com quem eu já colaborava, na Gradiva, que me pôs em contacto com a Nassalete. Para mim, entre os dois jornais culturais, vão quase vinte anos de colaboração.

Por que é que tenho ajudado a juntar a ciência às artes, ou melhor à cultura, primeiro no “Das Artes Das Letras” e depois no “As Artes entre as Letras”? Pela simples razão simples de que a ciência faz parte da cultura, que não é só feita de artes e letras. Depois da polémica das “duas culturas” de C. P. Snow, ainda há quem julgue que a ciência é uma cultura e que as artes e humanidades são outra, estando as duas separadas. Mas não, são ambas partes da mesma cultura, sendo múltiplas as ligações entre elas que devem ser enfatizadas. A ciência tal como a arte é um impulso humano, é uma tentativa de descobrir, de conhecer.  A ciência tal como a arte exige imaginação, sonho, criatividade. A ciência tal como a arte pretende fazer sentido, ligar coisas que estavam antes separadas, revelar a unidade do mundo.

Nos aniversários costumam-se desejar muitos anos de vida. Se tudo correr como esperamos, a o “Artes” vai continuar, tem de continuar. O  jornal  ganhou um lugar indiscutível no nosso panorama cultural. Não são muitos os jornais que reúnam o ensaio e o comentário nas mais várias formas da cultura com a própria criação artística me literária, ao mesmo tempo que acompanham a actualidade cultural. Fazem muita falta, pelo que é preciso defendê-los. Desejo, por isso, que a Nassalete Miranda e a sua excelente equipa consigam, neste tempo nada fácil em que a cultura ainda é vista pelos poderes instituídos como uma coisa de somenos, prolongar a infância do “Artes” numa adolescência feliz. No mínimo, mais outros dez anos.



NÃO HÁ PLANETA B

Para vergonha dos governantes de todo o mundo, rendidos ao poder da alta finança, os adolescentes de todo o mundo, lutam, unidos, em defesa do seu futuro.

Quem estudou ou estuda geologia, ainda que a nível básico, sabe que, ao longo dos milhões de anos da história da Terra, houve várias crises planetárias de naturezas diversas (megaimpactos meteoríticos, intenso vulcanismo, variações do clima e do nível do mar e outras que ignoramos) de que resultaram extinções, à escala do planeta, de grande número de espécies, uma das quais, a mais divulgada, há cerca de 65 milhões de anos, pôs fim a cerca de dois terços das espécies de então, entre as quais os dinossáurios. Sabe também que, a seguir a essas crises, novas espécies surgiram adaptadas às novas condições ambientais.

O Homem, feito dos mesmos átomos de que são feitas as estrelas, os minerais, as plantas, os outros animais e tudo o mais que existe, é matéria que adquiriu complexidade tal que se assumiu com capacidade de se interrogar, de se explicar e de intervir no seu próprio curso e no do ambiente onde foi “fabricado”. Ele é um estado que julgamos ser o mais avançado da combinação dessa mesma matéria, capaz de pensar e fazer aquilo a que chamamos Ciência, isto é, observar, descrever, relacionar, explicar, induzir, prever.

O Homem, na sua possibilidade de adquirir conhecimento e de o transmitir, de criar religiões e as mais diversas formas de arte, é a manifestação mais elaborada da realidade física do mundo que conhecemos, na qual foi consumida a totalidade do tempo do universo, estimado em cerca de 3 800 milhões de anos.

Assim, a Ciência, através do Homem, pode ser entendida também como expoente máximo da matéria que se questiona a si própria. Pode dizer-se que a Natureza “pensa” através do cérebro humano e, com igual razão, pode aceitar-se que o Homem deu voz à Natureza.

Tais capacidades colocam-nos a nós, humanos, numa posição de grande vantagem entre os nossos pares no todo natural. Mas teremos nós o direito de gerir a Natureza apenas em nosso proveito, agredindo-a como tem sido regra, sobretudo a partir da Revolução Industrial, no séc. XIX, com intensidade exponencialmente crescente e alarmante nos dias de hoje?

A Terra, no quadro em que se nos apresenta nos dias que estamos a viver, é o resultado de um sem número de agressões sofridas ao longo da sua velhíssima história, a que se junta a que, todos os dias em vão, tem vindo a ser denunciada pelos cientistas.

A Terra, sabemos hoje, é um corpo que se autorregula e, como tal, sempre soube encontrar resposta a todas essas agressões e vai, sem dúvida, continuar a fazê-lo. Os danos que lhe estamos a causar, no mau uso que dela fazemos, é mudar-lhe as condições que nos são favoráveis e que bem conhecemos, dando origem a outras, já previstas pela ciência, que nos serão adversas.

Assim, ao atentarmos contra a Natureza, estamos, certamente, a atentar também contra nós contra a humanidade, contra, já, aos milhões de crianças que, como a pequena sueca Greta Thunberg, desfilam em milhares de cidades do mundo, a lembrarem que não há planeta B. Acaso deixou de existir mundo natural aquando das grandes extinções em massa?

Numa ânsia desenfreada de lucro e de prazer, a civilização industrial incontrolada está a caminho de nova extinção em massa (todos os dias somos alertados sobre espécies extintas e em via de extinção) que, certamente, nos vitimará também.

Porém, o planeta – e os geólogos têm consciência disso – irá prosseguir, mesmo sem a inteligência do Homem, e acabará por encontrar novos caminhos, em obediência apenas às leis da física, incluindo as do acaso, podendo voltar a ensaiar um outro ser inteligente ou, até, mais inteligente do que esta versão moderna, egoísta e estúpida do Homo sapiens, que somos nós.

Para tal só necessita de tempo, de muito tempo, e isso não lhe irá faltar, uma vez que estimamos em mais cinco a seis mil milhões de anos a sua existência como planeta, até que o Sol, na sua evolução como estrela, nos envolva num imenso brasido.
A. Galopim de Carvalho

O UNIVERSO DA FÍSICA DE PARTÍCULAS EM QUE VIVEMOS




Na próxima 4ª feira, dia 29 de Maio de 2019, pelas 18h00, vai ocorrer no Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra a palestra “O Universo da Física de Partículas em que Vivemos”, por António Onofre, físico de partículas, investigador do Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas (LIP). Investigador no CERN. Professor da Universidade do Minho.

António Onofre


Esta palestra integra-se no ciclo "Ciência às Seis - Terceira temporada"*

Sinopse da palestra:
Desde os seus primeiros momentos de existência e logo após esse momento singular conhecido por “Big Bang”, o Universo que observamos e conhecemos tem-se revelado aos nossos olhos de uma forma surpreendente. Após um período inicial de inflação rápida, o Universo arrefeceu o suficiente para permitir a formação de partículas sub-atómicas, mais pequenas (e mais leves) do que um átomo. Estas partículas, mais tarde, combinaram-se nos átomos que conhecemos hoje em dia e deram origem á estrutura da matéria que nos rodeia i.e., estrelas e galáxias do Universo visível.  Apesar de todo o conhecimento acumulado até hoje sobre as partículas fundamentais já observadas experimentalmente e as interações entre elas, apenas é possível descrever teoricamente cerca de 5% do nosso Universo.  Os restantes 95% encontram-se divididos por Matéria Escura (provavelmente não constituída por matéria convencional) e Energia Escura (responsável pela expansão acelerada do Universo), para os quais não possuímos qualquer explicação. As questões deixadas em aberto, fazem-nos refletir sobre o momento particular em que vivemos, numa época e num tempo, em que se sabe descrever 5% do Universo observado, mas se deixa sem qualquer explicação, os restantes 95%, que se sabe existirem. Nesta palestra, será feita uma reflexão sobre o estado atual do conhecimento das partículas e interações fundamentais conhecidas e do papel relevante de algumas delas na estabilidade do nosso próprio Universo, incluindo o papel determinante do bosão de Higgs, recentemente descoberto no LHC, no CERN.

*Este ciclo de palestras é coordenado por António Piedade, Bioquímico, escritor e Divulgador de Ciência.

ENTRADA LIVRE
Público-Alvo: Público em geral
Link para o evento no facebook

"Quando a ciência é o alvo das teorias da conspiração"

Um tipo de texto comum em manuais dos primeiros anos de escolaridade

Ontem chegou-me à caixa de correio a fotografia abaixo, de um manual de língua portuguesa do 2.º ano de escolaridade; hoje várias pessoas me falaram dela. Ao que parece, foi uma mãe  indignada que a tirou e divulgou não sei em que rede social, também não sei que razões de indignação são as suas. Eis o texto:
"Hoje, o Pedro hoje não quer voltar para casa. Vai conhecer o Tiago, o namorado novo da mãe

O Pedro e a mãe vivem sozinhos desde que o pai saiu de casa.

Quando o Pedro chega a casa, a mãe estava toda bonita. Fartou-se de arrumar e de cozinhar e não parece tão irritada e cansada como de costume.

- Fiz-te leite com chocolate! - diz, radiante.

O Pedro desconfia. Com tanta simpatia, o que será que a mãe quer?

- Aviso já que não me vou deixar enrolar pela conversa desse senhor! - previne o Pedro.

Uma hora depois ouve-se a campainha. É o Tiago, traz um ramos de flores.
E onde está a prenda para conquistar o Pedro? Nada, não há prenda nenhuma.
Diz simplesmente olá ao Pedro. Mas não diz «Com que então és tu o Pedro». Ou: «Que tal vai a escola?» Ou: «Não vais ajudar a tua mãe?». Ou: «Tens sempre esse ar amuado?»
Senta-se à mesa, sorri e elogia os cozinhados da mãe. Depois jogam ao Ludo durante um bom bocado. O Pedro decide ir deitar-se. Está cansado. Cansado de esperar que o Tiago diga alguma estupidez. Mas o Tiago não diz. Só diz: «Boa noite»".
Podemos presumir que o texto cumpre o objectivo dar uma imagem de família alternativa à "tradicional", veiculada nos manuais escolares, como forma de ideologia. Mas, ainda que por contraste, não consegue deixar de ter um cunho ideológico.

Podemos, ainda, olhar para o texto considerando:
- a sua qualidade literária e não ficaremos bem impressionados;
a criança da história que, caprichosa e interesseira, não será grande modelo para miúdos de sete anos de idade;
- a mãe que, como adulta, deixa muito a desejar, pois parece querer agradar, em simultâneo ao filho e ao namorado.
Contudo, (lamentavelmente) não destoa, por aí além, de muitos dos textos que constam nos manuais do 1.º Ciclo do Ensino Básico.

Apenas uma nota: o texto é retirado de "um livro para todos os filhos e todos os pais e mães de famílias separadas e para todos os namorados e namoradas que investem numa nova família".

Livro (com o título Namorado Novo da Mãe, da autoria de Anke Wagner e Heike Herold) que é recomendado, pelo menos desde 2017, no Plano Nacional de Leitura, mas para a Educação Pré-Escolar

terça-feira, 21 de maio de 2019

Decida-se Senhora Bastonária da Ordem dos Enfermeiros

Meu artigo de opinião publicado em "As Beiras" de hoje:


“Se cada tijolo não estiver no seu lugar não haverá construção”.
Antoine de Saint-Exupéry

A bastonária da Ordem dos Enfermeiros, Ana Rita Cavaco, com um ego desmesurado que a leva a não perder uma oportunidade de aparecer na comunicação social, nem que seja pelas piores razões, como, por exemplo, defender que as quotizações da Ordem dos Enfermeiros servem para pagar camionetas para deslocações de enfermeiros a manifestações de natureza sindical, ainda que sob o manto diáfano de “Marcha Branca” .
E nesta sua cruzada de socialite não perde um minuto que seja para o auto-elogio. Destarte, durante a “I Convenção Internacional dos Enfermeiros”, levada a efeito pela respectiva associação profissional, em Alfândega do Porto (10 e 11 de Maio de 2019), a seis meses, portanto, de nova eleição para o cargo que ocupa actualmente, sobe ela  ao  palanque,  numa espécie de campanha pré-eleitoral, assumindo o papel de Calimero, como o leitor deve estar lembrado um choroso, pintaínho que diz ser perseguido, injustamente, por meio mundo! Ou, mudando radicalmente de “mise en scène”, optando pela táctica dos relvados de futebol de que o ataque é a melhor defesa, brinda a plateia com este pequeno, mas suculento naco de prosa: ”Eu estou aqui inteira, livre, como sempre estive, para vos dizer que podem contar comigo para mais 4 anos se for essa a vossa vontade”.
Demos tempo ao tempo! É cedo para se saber se essa é a vontade dos enfermeiros. Mas dela é, pese embora o “sacrifício” de natureza económica com os seus apetecíveis honorários aumentados principescamente.
Num país de lantejoulas, nada me devia espantar, mas espanta-me! Espanta-me, por exemplo, a fronteira difusa com que a pessoa em causa torce a lei para justificar os seus fins, ao arrepio do defendido por António da Nóvoa (1987): “O exercício de uma profissão faz apelos a normas e comportamentos éticos que orientem a prática profissional e as relações tanto entre os próprios práticos como entre estes e os outros actores sociais”.
A atitude da bastonária, em querer ter um sapatinho de Cinderela numa associação profissional de direito público e o seu par nos sindicatos, levam-me a pensar que ela “acaba por achar sagrada a desordem do seu espírito” (Jean Rimbaud).
Quer um conselho senhora bastonária (bem sei, se os conselhos fossem sempre coisa boa ninguém os dava, vendia-os por bom preço), arrume as suas ideias, de uma vez por todas, porque o que está em jogo não são interesses pessoais. “Outro valor mais alto se alevanta”: uma classe profissional com o seu valor profissional reconhecido, através dos tempos, e, recentemente, consolidado numa cerimónia, plena de significado, realizada no Centro Hospitalar de Coimbra, em homenagem a 204 enfermeiros com 35 ou mais anos de serviço que o respectivo presidente do Conselho de Administração houve como “de respeito e valorização da profissão”.
Não senhora bastonária, não há um tempo de “apagada e vil tristeza”, antes de Ana Rita Cavaco, e outro de glória depois do seu aparecimento fulgurante em cena, anunciado, por trombetas de glória por si sopradas!

"A desvalorização do papel do professor, de ensinar, de transmitir um saber"

José Pacheco Pereira escreveu recentemente um artigo para o jornal Público a que deu o título A hostilidade aos professores. Detêm-se em indícios preocupantes de hostilidade para com os professores que vale a pena analisar "porque ela incorpora aspectos muito negativos da evolução da nossa sociedade", no sentido de um "profundo retrocesso (...) naquilo a que chamamos precariamente “civilização”.
"... isso acontece muitas vezes na história: anda-se para trás quase sem se dar por ela, contando com a inacção, a apatia, ou a acédia, de quem deveria reagir."
"Como a democracia é uma fina película contra a barbárie e é apenas defendida pela vontade dos homens e não por nenhuma lei da natureza, mais vale prevenir com todos os megafones possíveis." 
E, no nosso país, que razões estão na base da hostilidade ? 
"... tem a ver com a vitória muito significativa da ideologia da troika, que está longe de ter desaparecido e, nalguns casos, migrou para sectores que lhe deveriam ser alheios e não são: os socialistas, por exemplo. Disfarçada de economia, essa ideologia assenta numa visão pseudo-científica, muito rudimentar e simplista, cheia de variantes neo-malthusianas, que se apresentou como não tendo alternativa, a nefasta TINA. Isto encheu-nos as cabeças e não saiu delas. Essa ideologia centra-se na crítica do Estado, em particular do Estado social, e transforma os funcionários públicos em cúmplices de uma rede de privilégio, sendo descritos apenas como despesa excessiva." 
"Portanto, gritem contra a função pública e os malefícios do Estado, que também existem como é óbvio, mas percebam que o pacote de não ter professores, enfermeiros, médicos (...) leva atrás de si o ensino e a saúde pública (...). 
Mas, estas razões de "desvalorização do papel do professor, de ensinar, de transmitir um saber"
"... vem num pacote sinistro que inclui o falso igualitarismo nas redes sociais, o ataque à hierarquia do saber, o desprezo pelo conhecimento profissional resultado de muito trabalho a favor de frases avulsas, com erros e asneiras (...). É o ascenso da nova ignorância arrogante, um sinal muito preocupante para o nosso futuro."

segunda-feira, 20 de maio de 2019

"Humanitas", n.º 73

Informação chegada ao De Rerum Natura.


O n.º 73 da revista Humanitas (2019.1) já se encontra disponível em acesso aberto.

A Humanitas é a mais antiga revista publicada em Portugal especializada em Estudos Clássicos Greco-Latinos e Renascentistas, mas aberta a contributos de áreas dialogantes (História, Arqueologia, Filosofia, Religião, Arte, Retórica, Receção dos Clássicos, entre outras).

Tem mantido um ritmo de publicação anual regular, desde o ano da sua criação, em 1947, e é propriedade do Instituto de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

A revista publica dois volumes por ano e mantém permanentemente aberta a Chamada de Artigos e Recensões, através da plataforma Open Journal Systems (OJS) (Orientações de Submissão).

VOLTAR A LER




Voltar a Ler - Alguma Crítica Reunida (Sobre Poesia, Educação e Outros Ensaios) de António Carlos Cortez 
apresentado hoje em Coimbra por
José Miguel Júdice, José Carlos Seabra Pereira e Carlos Fiolhais

·        A apresentação/debate em torno do livro Voltar a Ler - Alguma Crítica Reunida (Sobre Poesia, Educação e Outros Ensaios) de António Carlos Cortez terá lugar no dia 20 de Maio de 2019, pelas 18h00, no RÓMULO – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, no Departamento de Física da FCTUC, piso 0, em Lisboa e contará com as intervenções de José Miguel Júdice, José Carlos Seabra Pereira e Carlos Fiolhais.

Voltar a Ler - Alguma Crítica Reunida (Sobre Poesia, Educação e Outros Ensaios) da autoria do poeta, ensaísta e professor António Carlos Cortez reúne pela primeira vez em livro os ensaios que tem vindo a publicar na imprensa portuguesa e nalgumas revistas da especialidade. Nele o autor reflecte sobre a poesia portuguesa moderna e contemporânea, os ensaístas portugueses, a educação e outros temas de cultura, num livro dirigido a professores e pais, mas também aos que querem aceder a conhecimento sobre os referidos temas. O autor, com vários livros publicados, professor no Colégio Moderno, agita as águas e propõe um sério convite ao debate, enfrentando ideias feitas.

Sendo a literatura um compósito complexo de signos que nega a ditadura do banal em que estamos imersos e, na sua expressão máxima, a poesia, que se insurgem contra as palavras gastas dum quotidiano asfixiante, é frequente serem compreendidas, ou rechaçadas para territórios periféricos ao debate político.

Ora, agitar as águas do real, essa é precisamente a suprema função da arte. Como a História comprova, a arte semeia a dúvida necessária em torno de novos absolutos sendo o espinho que se crava fundo na certeza dos moralistas. É a dúvida e o princípio do incerto que mobiliza também este voltar a ler, pois foi sempre no gesto da releitura que se perceberam melhor certas ideias e caíram por terra certos preconceitos. Voltar a ler é abertura, compreensão, partilha.

Ao propor uma releitura de um conjunto de textos sobre poesia portuguesa moderna e contemporânea, sobre ensaístas portugueses e temas relativos à educação e à cultura, António Carlos Cortez convoca os leitores ao questionamento e à reflexão tão contrários aos tempos de adormecimento ameaçador que testemunhamos. 

ÍNDICE

Limiar — A urgência da literatura

I
SOBRE ENSAÍSTAS
Eduardo Lourenço: Habitar a esfinge
Luís de Camões: Os labirintos da exegese  
Vítor Aguiar e Silva: A Sena o que é de Sena
Manuel Gusmão: A razão da Literatura
Paula Morão: Um saber de leituras feito
Vasco Graça Moura: Um modo verbal de estar no mundo
Fernando J. B. Martinho: Uma homenagem
Gastão Cruz: O crítico ou como conhecer a escuridão?
Nuno Júdice, o Crítico: (Sobre ABC da Crítica)
Fernando Cabral Martins e Richard Zenith: Leitores de Pessoa
O Pessoa de Dona Cléo
Ruy Belo: Literatura explicativa
Poetas que interessam mais: Um livro de ensaios

II
VOLTAR A LER
Antero de Quental: A redacção do suicídio?
Mário de Sá‑Carneiro: Suicídio antes do suicídio
Sobre os «treze sonetos» de Alfredo Pedro Guisado: Uma estratégia para legitimar Orpheu 1
Os filhos de Alberto Caeiro: Subsídios para a leitura de alguma
poesia contemporânea
Mário Dionísio: Memória de um poeta (des)conhecido
Sophia de Mello Breyner: Palavras de poesia, hoje
David Mourão‑Ferreira: 90 anos
Mário Cesariny: Ou os caminhos de uma poética
João Rui de Sousa: Quarteto para as próximas chuvas, Um livro de poesia
Da neve à luz: Eugénio de Andrade: Branco no Branco / Contra a obscuridade
António Ramos Rosa: Alguns aspectos
Fernando Echevarría: O que sobe aos olhos
Fernando Guimarães: Uma ideia de poesia em As Raízes Diferentes
Herberto Helder: Uma forma de se despedir (sobre Poemas Canhotos)
Herberto Helder: E o nome se fez carne: Letra Aberta
Herberto Helder: A língua plena em A Morte sem Mestre   Ruy Belo: A poesia, «Urbi et Orbi»
Fiama Hasse Pais Brandão: Um discurso (em) branco
«Razões tenho para contar assim os factos»: A Moeda do Tempo, de Gastão Cruz
Da luz negra: Escarpas, de Gastão Cruz
Gastão Cruz: Todos os fogos, o fogo
Gastão Cruz: Oxidação negra
Existência: Poesia e poética de Gastão Cruz
A mente agita a matéria ou a restauração da palavra poética
Armando Silva Carvalho: A Sombra do Mar ou a Lição das Coisas
Nuno Júdice: Out the blue
Helder Moura Pereira: Lugares incomuns
Eduardo Guerra Carneiro: O «nojo do desgosto» ou a dor revisitada
Manuel António Pina (1943‑2012): O que não vai morrer.

III
EDUCAÇÃO E CULTURA
O lugar do livro no ensino, um subsídio
Provas de aferição: Uma reflexão sobre o acto de ensinar.
O Exame Nacional de Português: Analfabetismo funcional
O que se escreve e como se escreve no Exame Nacional de Português
O fm da Europa: Terrorismo e educação
Analisar a poesia em Exame Nacional ou como deturpar um poema
O acordo ortográfco: Rejeitar o absurdo
O regresso da literatura: Em nome dos alunos e dos professores
25 de Abril na sala de aula, uma reflexão
Praxes do Meco: A educação ou no reino da estupidez
Verdades sobre o ensino do Português: Metas curriculares e não
Uma ida ao Cante: Um cancioneiro numa noite de Verão
Proveniência dos textos

O AUTOR
ANTÓNIO CARLOS CORTEZ é poeta, crítico literário e professor de Português e de Literatura Portuguesa no Colégio Moderno, colaborador permanente do Jornal de Letras, onde assina a coluna «Palavra de Poesia», e das revistas Colóquio-Letras e Relâmpago. Publicou o primeiro livro de poesia em 1999 (Ritos de Passagem).

Destacam-se, da sua produção, A Sombra no Limite (Gótica, 2004), Depois de Dezembro (Licorne, 2010 – Prémio Sociedade Portuguesa de Autores em 2011), O Nome Negro (Relógio d’ Água, 2013), Animais Feridos (Dom Quixote, 2016) e a antologia A Dor Concreta (Tinta-da-China, 2016), Prémio Teixeira de Pascoaes – Associação Portuguesa de Escritores/2018.

Foi consultor do Plano Nacional de Leitura entre 2010 e 2016.

PRÉMIOS

Prémio Sociedade Portuguesa de Autores / 2011

Prémio Teixeira de Pascoaes – Associação Portuguesa de Escritores / 2018


FICHA TÉCNICA

Voltar a Ler - Alguma Crítica Reunida (Sobre Poesia, Educação e Outros Ensaios)
António Carlos Cortez

Colecção | Fora de Colecção
ISBN | 978-989-616-851-3
Páginas | 412 pp.
Capa | Brochada
Preço | €18,00