terça-feira, 30 de agosto de 2016

Posição do SNESup acerca da publicação do diploma para o estímulo ao emprego científico

Comunicado recebido do Sindicato Nacional do Ensino Superior (SNESup):

Tal como se pode compreender da própria norma revogatória, trata-se da substituição do anterior Decreto -Lei n.º 28/2013, que instituía o Investigador FCT, sendo este revisto (em baixa) nos seus índices salariais e aplicado já não por um concurso nacional, mas sim numa série de concursos individuais que surgem ao sabor de diversas contingências institucionais.
Segundo a previsão avançada publicamente pelo ministro Manuel Heitor, serão abrangidos por esta medida cerca de 329 doutorados, o que significa apenas 14% do total de atuais bolseiros de pós-doutoramento. É pouco, mesmo muito pouco face à dimensão do problema e que concorre com outros números criticados como baixos em programas anteriores.
Ao longo do processo negocial fomos dando a conhecer as diversas propostas, emitimos diversos comunicados dando a conhecer a nossa posição, incluindo através da nossa newsletter.
Deparámo-nos com uma barreira sobre as matérias fundamentais, num diploma que pouco resolve em relação ao problema de subemprego e precariedade na Ciência. O  Presidente da República afirmou na divulgação da promulgação deste diploma, que o mesmo ficava aquém.
Tal obriga a que se efectue uma reflexão séria e conjunta sobre o emprego científico que permita caminhar para a inserção dos doutorados na Carreira de Investigação Científica, numa lógica de estabilização, que permita dignificar verdadeiramente o Sistema Científico e Tecnológico Nacional.
Não se pode continuar com um comportamento passivo, ignorando ou fingindo que está tudo bem, pactuando com o errado e esquecendo de construir o correto. Há uma imensidão que estabelece um quadro de precariedade e subemprego que tem de ser afrontado de frente. Estamos a falar das condições de emprego que o país oferece àqueles que são qualificados.
Há uma plataforma que se desenvolveu ao longo da negociação deste diploma, que nos permite trabalhar para que se concretizem as medidas legislativas que consideramos necessárias. É uma tarefa para a qual convidamos toda a comunidade a participar.
É preciso efetivar a dignificação do emprego científico! Emprego digno em carreiras dignas!


Saudações Académicas e Sindicais
A Direção do SNESup


29 de agosto de 2016

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

"Experimenter". Um filme sobre os estudos de Stanley Milgram

Na introdução do capítulo Influência social, do livro Psicologia social, Leonel Garcia-Marques coloca esta questão:
"Se estivesse a participar numa experiência de aprendizagem por referência de aprendizagem, chegaria ao ponto de punir os erros de alguém com choques eléctricos que pusessem em risco a vida dessa pessoa? Nunca, pois não? Eu, se fosse a si não estaria tão seguro, e sabe porquê? Porque grande parte dos sujeitos que participaram em experiências de influência social fizeram coisas assim" (p. 201).
Imagem retirada daqui.
Mais adiante, no ponto 4 do mesmo capítulo, intitulado O respeitinho é muito bonito: as experiências de Milgram, Garcia-Marques explica as famosas experiências de Stanley Milgram (imagem ao lado) sobre a obediência à autoridade, publicadas em 1963 e que são objecto de um filme americano - Experimenter - recentemente estreado (imagem  abaixo).

Justifica-se a atenção passado mais de meio século, pois elas estão entre as mais amplamente discutidas dentro e fora da psicologia. "Foram discutidas em igrejas e associações cívicas, na comunicação social e em inúmeros livros dirigidos ao grande público. As filmagens das experiências foram dos mais vendidos filmes da psicologia científica e até surgiram excertos delas em filme de Hollywood" (p. 229).

Imagem retirada daqui
O psicólogo social que citamos, professor da Universidade de Lisboa, questiona: "porquê tão grande sucesso?". E aponta várias razões, destaco duas: são "surpreendentes e assustadoras" e "parecem comparáveis a acontecimentos terríveis da história recente da humanidade". Explica:

[Segundo Milgram], "a obediência é um fenómeno tanto comum como útil (...) útil porque garante o funcionamento rápido e eficaz das nossas complexas estruturas sociais (...) mas também representa um perigo para a democraticidade e humanidade da nossa civilização (...). Milgram pretendeu estudar em laboratório até onde são capazes de ir pessoas normais que se limitam a obedecer" (p. 229). E foi assim que aconteceu há 53 anos na Universidade de Yale:
"... participaram quarenta sujeitos com idades compreendidas entre os vinte e os cinquenta anos, que se apresentaram em resposta a um anúncio de jornal. As suas profissões iam desde carteiro e professor até ao engenheiro e vendedor (...).
Um sujeito crítico e uma «vítima» (comparsa do investigador) recebiam a seguinte explicação: «Presentemente sabemos muito pouco acerca do efeito de punição na aprendizagem, por se não terem realizado praticamente nenhuns estudos verdadeiramente científicos com sujeitos humanos. Por isso, estamos a juntar uma série de adultos com diferentes ocupações e idades, e estamos a pedir a alguns deles que sejam professores e a outros que sejam aprendizes. Queremos saber que efeito pessoas diferentes têm umas nas outras, enquanto professores e aprendizes, e qual é o efeito que a punição terá nesta situação. Portanto, pedirei a um de vós para ser professor e a outro para ser aprendiz. Alguém tem alguma preferência?»
O sujeito crítico e o comparsa tiravam à sorte (...) e ao primeiro calhava sempre ser professor (...) eram levados para uma sala (...) e o aprendiz era atado a uma «cadeira eléctrica»
Muito sumariamente, numa encenação criada, era dito ao «professor que seriam dadas tarefas ao «aprendiz» (por exemplo, memorização de pares de palavras) e, caso este respondesse errado, deveria aplicar-lhe choques eléctricos de intensidade crescente, podendo chegar aos que faria perigar a vida. O «professor» teria de operar numa máquina com interruptores organizados por ordem de voltagem.

A partir da aplicação de um certo patamar de «voltagem», os «professores» tendiam a protestar, recusando-se alguns a continuar, mas eram estimulados pelo investigador. Também queriam saber, caso acontecesse alguma coisa de mal ao «aprendiz», de quem era a responsabilidade, ao que o investigador respondia que seria inteiramente sua, deles, «professores». Ainda assim, muitos continuavam (trinta e cinco em quarenta), chegando a «aplicar» a voltagem capaz de matar.

A observação (directa e em vídeo) do comportamento dos sujeitos revelou uma tensão progressivamente mais acentuada: "suavam, tremiam, riam nervosamente, mordiam os lábios e murmuravam continuamente. Muitas vezes diziam que tinham de parar e... continuavam" (p.223).

Milgram não se ficou por esta experiência, fez muitas outras (sobretudo variações desta), das quais tirou diversas conclusões que em muito contribuíram para assombrar a imagem que temos da condição humana.
Uma delas é a seguinte (as palavras são do próprio investigador, que não ficou indiferente a essas mesmas conclusões): "uma proporção substancial de pessoas faz o que lhe mandam, qualquer que seja o conteúdo do acto e sem entraves de consciência, desde que considerem que o comando é emitido por uma autoridade legítima" (p. 235).
Apesar dos problemas éticos que, desde o início, esta experiência levantou pelo tipo de manipulação que envolveu (submetida agora a uma comissão de ética em investigação, certamente não seria autorizada), vale a pena (voltar a) pensar nela, no caso, pela mão do cinema.

Afinal, em certos aspectos a arte, pela liberdade interpretativa que lhe é característica, pode explorar aspectos do humano que a ciência, com todas as suas (necessárias) amarras de objectividade não pode.

Referência bibliográficaGarcia-Marques, L. (1997). Influência social. In J. Vala & M. B. Monteiro. Psicologia social (pp. 201-257). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.


O direito a ser enganado

A minha crónica na Visão, no âmbito da parceria com a Fundação Francisco Manuel dos Santos:

Um praticante de magnetismo animal. Imagem da Welcome Trust

A medicina é anterior à ciência moderna. E a aplicação dos princípios da ciência à medicina é ainda mais recente. Mas graças a eles podemos verificar se um determinado tratamento funciona, perceber porquê e até, em face do conhecimento do mecanismo da doença, tentar compreender o que poderia funcionar. A observação e a experiência criteriosa (não basta olhar, é preciso fazê-lo com um certo método, para ultrapassar o ruído e as aparências, por vezes enganadoras) permite-nos saber, por exemplo, que certas doenças são causadas por microoganismos. É o entendimento racional da doença que possibilita a procura de estratégias racionais para a tratar ou impedir a sua transmissão. Veja-se o caso da epidemia com o vírus Zika. Sabemos qual é o agente causador e que tipo de mosquitos o podem transmitir. E isso é muito importante porque as várias espécies de mosquitos têm hábitos distintos, podem ser diurnos ou nocturnos, alimentam-se e reproduzem-se de formas específicas. Sabendo isso, podem-se conceber estratégias adequadas para se combater os mosquitos certos.

As terapias alternativas assentam em ideias não relacionadas com a ciência nem com o pensamento racional. Como se escreve na Lei 45/2003, que enquadra as terapias não convencionais, estas são “aquelas que partem de uma base filosófica diferente da medicina convencional e aplicam processos específicos de diagnóstico e terapêuticas próprias”. Significa isto que não conseguem provar a sua eficácia e segurança através dos métodos exigidos à medicina convencional. Têm na sua essência conceitos pré-científicos, como o vitalismo, a ideia de que há uma dimensão não material do corpo humano, com a qual se consegue interagir, de forma a curar as doenças. Como as pessoas têm a ciência em boa conta (e por bons motivos) o misticismo é embrulhado com um jargão científico da moda. E isso não é novo.

No século XVIII o alemão Franz Mesmer criou uma prática a que chamou magnetismo animal, partindo do principio que existiria uma força natural invisível, com a qual se podia interagir para curar os doentes. Por essa altura desvendavam-se as propriedades dos campos electromagnéticos, embora Mesmer não tivesse nada a ver com isso. Na entrada do século XX vieram os raios-X, depois as ondas de rádio. Mais recentemente, e com muito atraso, a medicina quântica, que de quântica nada tem, surgiu como nova encarnação do vitalismo pré-científico. Tudo isto se enquadra no caldo Nova Era (uma referência à Era de Aquário, que de acordo com a astrologia deverá suceder à de Peixes), um movimento que procura combinar a espiritualidade com a ciência. Combinam mal, porque a ciência baseia-se em provas e não na crença.

Não obstante a ausência de fundamentação científica, as terapias alternativas têm-se afirmado significativamente no nosso país nos últimos anos. Foi aprovada legislação que contempla a emissão de células profissionais, passadas pela Administração Central do Sistema de Saúde, para várias delas. E outra, relacionada, que define os conteúdos programáticos para as licenciaturas nessas terapias. Estes incluem coisas embaraçosas como auricoloterapia e iridologia, a ideia de que as orelhas ou os olhos são representações de todos os órgãos do corpo, podendo-se diagnosticar e tratar doenças através delas. Absolutamente anti-científico.

Sou um grande defensor da liberdade. E acho que as pessoas, adultos com capacidade de decisão, devem poder escolher recorrer às terapias alternativas. A questão é se é legitimo leva-las a fazê-lo com a convicção de que estas terapias têm um fundamento científico. É uma questão de defesa do consumidor, trata-se de publicidade enganosa. Curiosamente, o anterior governo aprovou um Decreto-Lei (238/2015) que regula a publicidade em saúde e que diz que “na mensagem publicitada apenas devem ser utilizadas informações aceites pela comunidade técnica ou científica”. Incompreensivelmente continuamos a ser bombardeados constantemente com anúncios a bolinhas mágicas para a gripe e outras mezinhas. É o direito a ser enganado.

AINDA O CASO DAS VIAGENS PAGAS PELA GALP

Porque, para mim, este assunto não está encerrado e porque quero ver no governo de António Costa algo muito diferente, para melhor, do sufoco que foi o anterior de má memória, insisto em manifestar o meu repúdio à solução “caso encerrado” no que se refere ao escândalo das viagens pagas pela Galp a ilustres membros do governo para assistirem a jogos do Euro 2016, no passado mês, em França.

A minha opinião vale o que vale. É apenas uma entre as muitas que tenho lido e é muito clara. No meu entender a política é um um ramo importante e respeitável das ciências humanas, que se estudam e ensinam nas universidades, da qual não tive escola.

No que diz respeito à política partidária, entendo-a como habilidade que visa manipulá-la ao sabor dos interesses, nem sempre confessados, dos grupos que a cultivam ou dela se servem. Nesta convicção nunca por esta me senti atraído nem nela me deixei envolver. E foram vários os convites que tive.

Foi como cidadão independente dos aparelhos partidários que, durante a campanha eleitoral das últimas legislativas, me pronunciei publicamente a favor de uma união do PS com os partidos à sua esquerda, que sempre vi como a única possibilidade de pôr fim à política de empobrecimento e de submissão a uma Europa dos mercados e do insaciável mundo do dinheiro, levada a cabo pelo governo PSD-CDS. Foi e é público o meu apoio a António Costa, que conheço pessoalmente há muitos anos e por quem tenho a maior estima, e à solução que com o PCP, o BE e o PEV, inteligentemente, souberam criar e que, como é bem visível, felizmente, funciona.

Não esqueço, pois, a desastrosa intervenção televisiva de ontem, do ministro Augusto Santos Silva, defendendo o indefensável. Com esta solução de dar o caso por encerrado, o Primeiro Ministro, ao não desautorizar o seu substituto em tempo de férias, chama a si a lamentável decisão, o que belisca a seriedade que lhe reconheço.

Mas esta situação tem, em minha opinião, implicações políticas na relação institucional do Primeiro Ministro com o Presidente da República e está ainda por resolver. Com toda a certeza, este ”deixa andar” no interior do Governo, desagradou a Marcelo Rebelo de Sousa, deixando-o numa situação deveras desconfortável. E, das duas, uma, ou o Presidente “olha para o lado” e desilude, assim, todos quantos, e são muitos, têm dele uma ideia de seriedade e rigor ético, ou insiste na demissão dos secretários de estado envolvidos, dando concretização a um imenso clamor que então se levantou, criando um primeiro grande problema a António Costa no relacionamento com o seu número dois.

Tudo isto se tinha resolvido a bem de todos e da dignidade do Estado, se os Senhores
Secretários em causa tivessem, oportunamente, pedido a demissão.

A. Galopim de Carvalho

Takiji Kobayashi - O Navio dos Homens


Menos conhecido do que Mishima (O Templo Dourado), Tanizaki (Naomi) e Kawabata (Terra de Neve), Takiji Kobayashi, apesar da sua fugaz existência (foi assassinado aos 29 anos porque participava de forma ativa no partido comunista japonês,) impôs-se como um dos principais nomes da literatura japonesa do século vinte.
Em O Navio dos Homens, livro que lhe valeu o sucesso a nível internacional, há uma sequência de acontecimentos muito semelhante à d’ O Encouraçado Potemkin, filme do grande realizador Sergei Eisenstein: começa com o anúncio da descida ao inferno, continua com o recrudescimento do clima de insatisfação dos pescadores e a consequente e infrutífera rebelião, e culmina na necessidade de os homens se manterem unidos para vencer o despotismo. Kobayashi pretendeu, com este livro, sublinhar a importância da constatação de Mori Motonari, de que três setas juntas são mais difíceis de quebrar do que uma seta, na vida política.

Para além da escrita, Kobayashi gostava, também, de engenharia, manuseando com destreza instrumentos radiofónicos e tendo conhecimentos físicos bem consolidados e soldados à experiência, como este excerto prova:

Ao entrar no estreito de Soya, o barco, que pesava quase trezentas toneladas, começou a saltar como se tivesse soluços. Parecia que uma força extraordinária o estava a levantar. Ora pairava no ar, ora caía, regressando à sua posição original com um estrondo enorme. Era como aquele desagradável formigueiro, aquela sensação de estarmos num elevador quando este desce com demasiada velocidade. Os operários, que tinham o rosto amarelado da fraqueza e os olhos semicerrados pelo enjoo, vomitavam.

A Terra mais proxima (meu artigo no último Sol)

O físico inglês Isaac Newton escreveu em jeito de conclusão na sua monumental obra “Princípios Matemáticos de Filosofia Natural”, publicada em 1687 (há tradução portuguesa da Fundação Calouste Gulbenkian):
“Este muito belo sistema do Sol, planetas e cometas só poderia provir do desígnio e domínio de um Ser inteligente e poderoso. E se as estrelas fixas forem centros de sistemas semelhantes todos eles forem formados segundo u, desígnio semelhante e sujeitos ao domínio desse Ser, especialmente porque a luz das estrelas fixas é da mesma natureza da luz solar e todos os sistemas enviam luz uns aos outros. E para evitar que os sistemas de estrelas fixas, pela gravitação, caíssem uns sobre os outros, Ele colocou-os a imensas distâncias uns dos outros.
Newton não foi o primeiro a falar de outros sistemas solares semelhantes ao nosso. Em 1600 foi queimado numa fogueira em Roma, condenado pela Inquisição, o filósofo italiano Giordano Bruno, que tinha escrito no seu livro “Do Universo e dos mundos. Acerca do infinito (de 1584; também há tradução na Gulbenkian):
“Por isso é necessário investigar se existe, além do céu, Espaço, Vazio ou Tempo. Pois há um único espaço geral, uma única vasta imensidão quais podemos livremente chamar Vazio; nela existem inumeráveis globos como este em que vivemos e crescemos. Declaramos que o espaço é infinito, uma vez que nem a razão, conveniência, possibilidade, senso-comum ou a natureza lhe atribui um limite. Nele há uma infinidade de mundos do mesmo género que o nosso.
Hoje conhecem-se mais de 3500 planetas extrasolares, isto é, planetas que circulam em volta de outros sois. Parece que os sistemas planetários são bastante comuns no nosso Universo, pelo menos na nossa Galáxia. O maior foco de atenção a possibilidade de existência neles de planetas semelhantes à Terra, isto é, com condições favoráveis ao desenvolvimento de vida. Existe cerca de uma dúzia desses planetas.

Mas há novas notícias dos céus. A 24 de Agosto de 2016 uma equipa de astrónomos do Observatório Europeu do Sul anunciou, através de um artigo na revista “Nature, a descoberta do exoplaneta mais próximo de nós, pois orbita a estrela mais próxima de nós, denominada precisamente Próxima do Centauro

Este outro sol, classificado pelos astrofísicos como “anã vermelha” e elemento de um sistema de três estrelas, não está fixa uma vez que todas as estrelas se movem: está actualmente a 4,2 anos-luz da Terra (o ano-luz é a distância que a luz percorre durante um ano) e dirige-se para o Sol. Dentro de milhares de anos estará ainda mais próxima...

estrela diz-se anã porque a sua massa é cerca de um décimo da massa do Sol. planeta em seu redor, que foi baptizado “Proxima Centauri b”, tem uma massa que é, pelo menos, 27% maior que amassa da Terra. E está a uma distância que é 5% da distância da Terra ao Sol, quer dizer, está muito próxima da Próxima do Centauro. Falta confirmar estas primeiras observações, como mandam as regras das boa ciência, mas, a crer nos resultados publicados, a  terra mais próxima poderia ter água à superfície e atmosfera. Isso não quer evidentemente dizer que tenha vida. E, se tiver vida, também não é certo que se trate de vida semelhante aquela que conhecemos na Terra, baseada no ADN.

Como nada disto é certo, aqui estão óptimas questões para investigar. As intuições de Newton e de Bruno sobre a existência de outras terras revelou-se certa. Mas eles não pensaram que esses planetas pudessem albergar vida. Nós não só pensámos como estamos a tentar verificar se esse pensamento está certo.

Há, claro, uma outra questão, uma grande questão, na mente de todos, cientistas ou não. Será possível ir de Terra a terra? Será possível uma viagem de uma sonda da nossa Terra até à mais próxima? Não é impossível, mas sim extremamente difícil usando tecnologia corrente.

A sonda Voyager 1, que foi lançada há 39 anos e que já saiu do sistema solar (está a 18 horas-luz da Terra), vai a “passo de caracol” em comparação com a velocidade da luz. Viaja a cerca de 62.000 quilómetros por hora, o que não é nada comparado com os 300.000 quilómetros por segundo da luz. Não vai em direcção à Próxima do Centauro, mas se fosse demoraria dezenas de milhares de anos a lá chegar. Uma nave que viajasse a um décimo da velocidade da luz demoraria 42 anos a lá chegar.

Há quem sonhe que, com novos sistemas de propulsão, seja possível que um objecto arremessado do terceiro planeta do sistema solar chegue ao sistema planetário mais próximo nesse tempo ou porventura em menos.

Habitamos um pequeno planeta à volta de uma estrela média numa galáxia banal. Mas somos uma espécie curiosa que não só já conhece a sua vizinhança espreitando-a como sonha em viajar até até lá... 

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Ciência Clara


"Ciência Clara" é um projecto de Filipa Moraes, para ajudar jovens a transitar da academia para outros sectores. A sua experiência norte-americana pode ser útil em Portugal.

Ver a página do Facebook: https://www.facebook.com/cienciaclara

Um poema de Jorge Melícias

Um poema do livro Hybris [poesia reunida] (Cosmorama Edições, 2015) de Jorge Melícias:

Um pulmão sulfúrico
extraído à elisão do ar.
Ateado desde o âmnio

como uma degenerescência vital.

Os estames
disseminando-se na refracção,

reduzindo a fluidez

à consumação do atrito.

Bocage o intrépido Capitão Lunardi


Resumo da Comunicação que vou fazer em Setúbal a 12 de Setembro num congresso sobre Bocage:

"Bocage o intrépido Capitão Lunardi"

Diz-se que Portugal é um país de poetas e não de cientistas. Contudo, são numerosas as referências à ciência e à técnica em textos poéticos de autores nacionais. A ascensão em balão realizada nos céus de Lisboa no dia 24 de Agosto de 1794 pelo capitão italiano Vicente Lunardi no Balão Aerostático, da autoria Manuel Maria Barbosa do Bocage é um excelente exemplo. Outros poetas já antes tinham glosado o tema dos balões, como a poesia jocosa, de tom popular e por vezes anónima, que teve por tema a "Passarola" de Bartolomeu. Mas essa aeronave era hipotética: nunca houve voos tripulados nela. 


Bocage ficou extasiado com a proeza do capitão Lunardi, a primeira ascensão tripulada em solo português por parte de um balonista que já tinha protagonizado experiências semelhantes noutros países europeus (foi até o primeiro a subir em Inglaterra a bordo de um balão, levando a bordo um gato, um cão, uma pomba e uma garrafa de vinho). Lunardi ficou tão satisfeito com o acolhimento recebido em Lisboa que fixou aí residência, tendo vindo a falecer na capital portuguesa. para além dos versos de Bocage, as páginas da "Gazeta de Lisboa" dão-nos hoje uma boa imagem do que foi a ascensão de Lunardi. 


Compara-se o poema de Bocage com  "O Balão aos Habitantes da Lua", de José Daniel Rodrigues da Costa, escrito em 1819, por ocasião de um outro voo em balão em Lisboa, este feito pelo físico e ilusionista belga Étienne-Gaspard Robertson e pelo seu filho Eugène, o primeiro no qual houve entre nós um salto de páraquedas ("guarda-quedas", como se dizia na  época).

Na imagem, ascensão do capitão Lunardi em Londres em 1784.

UM SONETO "CIENTÍFICO" DE BOCAGE

~
De Daniel Pires, grande especialista em Bocage, recebi este soneto relacionado com a ciência:

Enquanto o Sábio arreiga o pensamento[1]
                                   Nos fenómenos teus, ó Natureza,
                                   Ou solta árduo problema, ou sobre a mesa
                                   Volve o subtil geométrico instrumento;

                                               Enquanto, alçando a mais o entendimento,
                                   Estuda os vastos céus, e com certeza
                                   Reconhece dos astros a grandeza,
                                   A distância, o lugar e o movimento;

                                               Enquanto o Sábio, enfim, mais sabiamente
                                   Se remonta nas asas do sentido
                                   À corte do Senhor Omnipotente;

                                               Eu louco, eu cego, eu mísero, eu perdido,
                                   De ti só trago cheia, ó Jónia, a mente:
                                   Do mais, e de mim mesmo ando esquecido.


Bocage


[1] Publicado no primeiro tomo das Rimas, nas edições de 1791, 1794 e 1800, p. 32. A edição original deste soneto, publicada em 1791, difere, sensivelmente, das posteriores, quer no que diz respeito à grafia, quer ao conteúdo. A edição publicada em 1794 é quase igual à de 1800. Apenas a grafia foi modernizada: “arraiga”, no primeiro verso, passou a “arreiga”.

O ensino de Física no Liceu Camões


De um neto de Bernardino Machado, professor da Universidade de Coimbra e Presidente da República, recebi esta fotografia de  Alberto de Sá Marques de Figueiredo, filho de Bernardino Machado, que foi professor de Física no Liceu Camões, desde 1909. Esta é uma fotografia duma aula de física experimental,  retirada do blogue de Manuel Machado Sá Marques:

 “BERNARDINO MACHADO” -  http://manuel-bernardinomachado.blogspot.pt/2009/08/correspondencia-e-recordacoes-e-inumera.html#links

TODOS OS SONHOS DO MUNDO


O livro mais recente do Desidério Murcho saído nas Edições 70, colecção de ensaios que recomendo vivamente, está já à venda em formato impresso e em Kindle, tanto em Portugal como no Brasil.

Pode ser comprado em qualquer livraria ou na Wook, na Livraria Almedina Brasil, ou na Amazon.

NO TRILHO DOS NATURALISTAS

Voltou à RTP2 esta série sobre história da ciência:


Religião ou Literatura?

Informação recebida de Adriano Simões da Silva, bibliotecário da Biblioteca Pública Municipal do Porto:

O que é mais importante, a Religião ou a Literatura?

Não queremos ser provocadores, mas apenas saber do ponto de vista bibliométrico, ou seja: - O que ocupa mais espaço na Biblioteca Pública Municipal do Porto (BPMP) ?

Nos periódicos (jornais e revistas), é fácil responder graças aos assuntos:

Boletins paroquiais (BN-P)
559
Eram 546
TOTAL
Escutismo -- Periódicos (SIPOR)
77
Religiões (Classe 2)
Religiões -- Periódicos (SIPOR)
1179
ERAM 940
1889

Pesquisando por assuntos no nosso catálogo online, disponível em: http:\\bibliotecas.cm-porto.pt, obtemos:

Revistas literárias (BNP)
706
SUBIU
Literatura -- Periódicos (SIPOR)
254
TOTAL
Poesia -- Periódicos (SIPOR)
73
Literatura (Classe 8)
Linguística -- Periódicos (SIPOR)
37
NOVO
1070


Concluímos assim que nos periódicos há mais Religião (1889 títulos) do que Literatura (1070 títulos)! Quase o dobro…

Mas isso significa que ocupa mais espaço? Sim. As revistas literárias terminam normalmente no nº 1 ou no 1º ano, sendo raras as que se publicam há 7 anos ou mais, como a revista literária do Porto “As Artes Entre As Letras”, que se publica desde 2009, enquanto os boletins paroquiais publicam-se enquanto o padre é vivo e os boletins de Ordens Religiosas sobrevivem aos diretores, porque há sempre outro padre ou frei que assume a missão de editar o boletim da sua Ordem Religiosa.

Nos livros, como não há assuntos, não conseguimos responder com esta facilidade.
Contudo, como a Religião corresponde à classe 2 da CDU (Classificação Decimal Universal) e a Literatura à classe 8 da CDU; sendo os livros na BPMP, desde 1999, arrumados de acordo com essa CDU, podemos fazer as contas desde 1999:


Tamanhos
Assunto
Classe
a (pequeno)
b (a4)
c (grande)
TOTAL
Religião
2
5525
1900
178
7603
Literatura
8
26956
21986
411
49353

Concluímos assim que, nos livros, há quase 7 vezes mais Literatura (49353 livros) do que Religião (7603 livros), editados desde 1999.
(como a BPMP tem as livrarias de antigos conventos, talvez no total da BPMP talvez não seja bem assim, mas na falta de assuntos, não o podemos calcular).

Concluímos assim que:
nos periódicos há mais Religião do que Literatura;

2º nos livros há mais Literatura do que Religião.

Adriano Simões da Silva

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

A terra mais próxima da Terra


Agora que foi anunciada a descoberta a terra mais próxima da Terra , convém lembrar as palavras do físico inglês Isaac Newton no escólio geral na sua monumental obra “Princípios Matemáticos de Filosofia Natural”, publicada em 1687 (há tradução portuguesa da Fundação Gulbenkian, com tradução do latim do físico e padre Resina Rodrigues, para além de uma edição da Texto Editores, com base numa edição brasileira, que eu revi à cabeça de uma equipa ):

“Este muito belo sistema do Sol, planetas e cometas só poderia provir do desígnio e domínio de um Ser inteligente e poderoso. E se as estrelas fixas forem centros de sistemas semelhantes todos eles forem formados segundo um desígnio semelhante e sujeitos ao domínio desse Ser, especialmente porque a luz das estrelas fixas é da mesma natureza da luz solar e todos os sistemas enviam luz uns aos outros. E para evitar que os sistemas de estrelas fixas, pela gravitação, caíssem uns sobre os outros, Ele colocou-os a imensas distâncias uns dos outros.”

Em 1584 o filósofo e teólogo italiano Giordano Bruno, que não foi propriamente um cientista, já tinha escrito to no seu livro “Do Universo e dos Mundos. Acerca do Infinito” (de 1584; também há tradução portuguesa na Gulbenkian):


“Por isso é necessário investigar se existe, além do céu, Espaço, Vazio ou Tempo. Pois há um único espaço geral, uma única vasta imensidão quais podemos livremente chamar Vazio; nela existem inumeráveis globos como este em que vivemos e crescemos. Declaramos que o espaço é infinito, uma vez que nem a razão, conveniência, possibilidade, senso-comum ou a natureza lhe atribuem um limite. Nele há uma infinidade de mundos do mesmo género que o nosso.”

Hoje estão catalogados mais de 3500 exoplanetas correspondentes a quase outros tantos sistemas planetários. As intuições de Newton e Bruno estavam certas. E é fantástico que a estrela mais próxima tenha um planeta com algumas semelhanças à Terra!

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Chemtrails: facto ou teoria da conspiração?

"Que rastos são aqueles nos céus?", é uma pergunta que se pode colocar ao olhar para cima, ao observar o fumo branco deixado pelos aviões. São rastos de condensação (em inglês condensation trails, ou contrails) formados, como resultado da combustão, pelo vapor de água que congela a grandes altitudes, onde as temperaturas são baixas. No entanto, há uma teoria da conspiração que alega que esses rastos são químicos (chemtrails) libertados deliberadamente para envenenar a população. 

Quando comecei a escrever sobre este tema para a COMCEPT, estava longe de imaginar a quantidade de seguidores desta teoria da conspiração. Durante muito tempo, este foi o tema que gerou mais visualizações e mais comentários. 

Hoje, o jornal Público apresenta a notícia de que um grupo de investigadores dos EUA indagou junto de diversos especialistas se tinham encontrado evidências que sustentassem estas alegações. Os resultados foram publicados na revista Environmental Research Letters. Pode-se adiantar que, das 77 respostas, 76 cientistas disseram que "não".  

O jornalista cita ainda um texto que escrevi há tempos para a COMCEPT (ver aqui).

Fotografia que mostra um rasto de condensação (contrail). 
Autoria: João Monteiro

Camilo e a química - o tabaco e os romances...

O jornal Expresso está a oferecer reedições de alguns livros de Camilo Castelo Branco. No sábado passado foi a vez de O que Fazem Mulheres.  Trata-se de um livro verdadeiramente divertido e irónico que antecipa "os modernos processos da literatura inter-activa" segundo escreveu Annabela Rita no Prefácio. 

Camilo avisa no capítulo inícial a todos os que lerem (antecipando o que virá a seguir, realcei algumas frases com referências científicas e químicas):
"É uma história que faz arrepiar os cabelos.
Há aqui bacamartes e pistolas, lágrimas e sangue, gemidos e berros, anjos e demónios.
É um arsenal, uma sarrabulhada, e um dia de juizo final.
[...]
Há aí almas de pedra, corações de zinco, olhos de vidro, peitos de asfalto?
[...]
Aqui há cebola para todos os olhos.
[...]
Cadinhos de fundição metalúrgica para todos os peitos.
[...]
O leitor sabe o que isto é? Já sentiu na alma o apertar de um cáustico? Excruciaram-no, alguma vez, os flagelos da inspiração corrosiva, com duas onças de sublimado?
Se não sabe o que isto é, estude farmácia, abra um expositor de química mineral, e verá."
Segue-se um "Capítulo Avulso -  Para ser colocado onde o leitor quiser", linhas de reticências que aparecem mas não significam nada, voltas, viravoltas e reviravoltas narrativas, dialógos com os leitores e editores, cartas anónimas que o autor não conseguiu ler e por isso não sabe o seu conteúdo, mulheres espertas, diabólicas e santas, e homens vagamente tolos. E termina com dois finais antagónicos, em dois capítulos com a palavra "FIM", sendo que o último destes é denominado "Suplemento - Prefácio".
  
Há também um charuto com um papel secundário mas importante que aparece inicialmente no capítulo avulso numa diatribre contra o tabaco (antecipando também os anúncios anti-tabágicos chocantes - e não é igualmente chocante a imagem acima!?),
"Para vós, Bórgias, para vós, raça de Locusta, e de Brinvilliers, para vós envenenadores impunes, o patíbulo neste mundo, donde fugiu espavorida a vergonha e a justiça; e os caudais de súlfur em combustão eterna nas furnas tartáreas, onde é de fé que dá urros medonhos um condenado chamado Nicot, que trouxe para a Europa o tabaco, e teve a impudência de o trazer a Portugal em 1560, onde viera com embaixada de França.
Porque os vossos charutos propinadores de venenos, enegrecem as substâncias orgânicas, como o ácido sulfúrico.
São amargos e cáusticos como o ácido nítrico.
Calcinam os beiços como o ácido hidroclórico.
Queimam a laringe como o ácido fosfórico.
Laceram o esófago como o acetato de chumbo.
Fulminam e despedaçam como o ácido hidrociânico."
Estas referências químicas, que são razoavelmente exactas tanto quanto é conhecido das substâncias referidas, tinham-me escapado, por não conhecer este livro, quando escrevi sobre a química em Camilo! O que foi uma pena, pois, em seguida Camilo refere que,
"Um manual de química para uso dos leitores de romances é instantemente reclamado. Sente-se na literatura este vazio, desde que a novela é um estendal da ciência humana;"

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Arte e Ciência. Cientistas em workshop internacional em Viseu


Informação recebida dos organizadores do Art Lab 2016 em Viseu:

Cientistas nacionais e internacionais juntam-se em Viseu, na escola Alves Martins, para discutir o futuro da humanidade em temas como envelhecimento, a falta de comida e de água potável. Rene Oettkerli, Udo Schnitzbauer, Tiago Boaventura, Steven Brown, Carlos Fiolhais e Carlos Duarte são algumas das presenças já confirmadas para o workshop “Art Lab 2016”, Science Xplore, que irá decorrer entre 5 a 10 de setembro de 2106, na Escola Secundária Alves Martins, em Viseu.

 O tema para o workshop deste ano designa-se por “Back to the future” (De volta ao Futuro), decorre em inglês e estará disponível para alunos entre os 12 e os 17 anos que irão trabalhar em conjunto com os cientistas e palestrantes presentes para solucionar problemas de 2050: envelhecimento, a falta de comida e de água potável. As inscrições puderam ser feitas no site: www.sciencexplore.org  até dia 15 de agosto. Houve 20 vagas disponíveis.

 O programa para os cinco dias inclui atividades das 9h00 às 12h30 e projetos experimentais de robótica, tintas fotossensíveis, animação em stop-motion, química verde e linguagem das redes sociais, das 14h00 às 17h30. O encontro tem como objetivo o de criar “relações académicas entre artistas e cientistas das diversas nacionalidades”. A Science Xplore é uma recente associação sem fins lucrativos que “pretende estimular o gosto pelas ciências e pela arte, recorrendo a abordagens assentes no saber fazer e no saber pensar”. O workshop de robótica da Science Xplore conta com a colaboração do departamento de engenharia eletrotécnica, do Instituto Politécnico de Viseu.

Divulgação da Física por Eduardo Martinho


Eduardo Martinho acaba de publicar a compilação do conjunto de 29 artigos publicados no jornal O MIRANTE (agora em versão melhorada):


domingo, 21 de agosto de 2016

O8/03/08 - Memórias da Grande Marcha dos Professores


O título "08/03/08" de um livro que a Oficina do Livro publicou 2016 é uma data mas o subtítulo esclarece, para quem não se lembra da data, o que se passou nesse dia: a “Grande Marcha dos Professores”. Tratou-se de uma manifestação de quase cem mil professores na Baixa de Lisboa, do Marquês de Pombal à Praça do Comércio, em protesto contra a política educativa de  Maria de Lurdes Rodriguesa, ministra da Educação de José Sócrates. Segundo a badana foi “a maior manifestação de uma classe profissional em tempos de democracia”. Pela primeira vez  foram usados em proifusão os meios digitais para a mobilização das “hostes”: blogues, emails, SMS.

O autor, Paulo Guinote, é um bem conhecido professor do ensino básico.  Era na altura o responsável pelo blogue “A Educação do meu umbigo”, o blogue mais lido sobre educação. Não só usou o seu blogue para a mobilização como esteve lá, pelo que o seu relato é em primeiríssima mão. Como o autor diz logo no início: “Não é uma narrativa neutra (...) É um olhar para um acontecimento a partir de dentro para quem esteve no meio dele, com convicção.” Agora consultou os registos da Internet da época, os recortes de imprensa, fez entrevistas a professores (55 questionários recolhidos), jornalistas e até, sob anonimato, a um funcionário do ministério. Guinote conseguiu assim uma bem documentada memória do que se passou nesse dia e nos tempos que o precederam. Em causa estava o novo estatuto dos docente e a avaliação do desempenho docente. Lembro-me bem desses tempos conturbados: o mal estar nas escolas atingiu proporções extraordinárias. O tom era muito áspero de parte a parte. O escritor e cronista Manuel António Pina (entretanto já falecido) perguntava no JN: “Porquê tanto ódio, tanto desprezo, tanto ressentimento contra a figura do professor?”

Nas ruas de Lisboa, proveniente de todo o país, transbordou a indignação colectiva. Havia uma plataforma sindical (os sindicalistas principais, incluindo Mário Nogueira, aparecem nas ilustrações do livro à frente da manif) mas os protestos excediam largamente o enquadramento sindical. A ideia dos manifestantes era apear a ministra e mesmo, se possível, o governo, apesar de muitos deles serem da área do PS. Mas o que ficou afinal do dia 08-03-08? Os professores ficaram com uma mão quase vazia. A 12 de Abril era celebrado um memorando de entendimento entre o ministério e a plataforma sindical, em que a ministra, a troco de algumas cedências, esvaziava os protestos. Guinote lembra que muitos professores não se sentiram representados pelo memorando assinado pelos sindicatos. Um blogue de um professor apresentava numa fotomontagem a ministra como uma bruxa a dar uma maçã envenenada. “Mal-empregada manifestação”, comentava um outro professor, denotando o tom geral de desilusão.

Em epílogo Guinote revela que, em Julho de 2019, esteve na Livraria Almedina do Saldanha, na apresentação de um livro da ex-ministra (já tinha sido substituída por Isabel Alçada) na qual ela deixava para memória futura a sua versão do que se passou na sua pasta. Viu, por isso, o cortejo de políticos que sempre acompanham os seus correligionários que lançam livros. Comprou um exemplar e verificou que a ex-governante omitia por completo a grande contestação que tinha sofrido. Escreve ele:
“Foi uma espécie de encerramento da um ciclo da minha vida pessoal e profissional. (...) Porque confirmei muito do que tinha entrevisto à distância em 2008 e 2009: um enorme consenso da maioria do arco da governabilidade e suas extensões académicas em defender Maria de Lurdes Rodrigues e a sua política de 'reformas' em confronto aberto com os professores. A 'firmeza' elevada a qualidade em si mesma, quase que independentemente do mérito e da forma demagógica como se enunciavam as 'causas' ”.
Foi há oito anos e já houve a troika depois disso, que também não foi nada simpática para os professores, que no final ficaram muito desiludidos com Nuno Crato. Hoje, nas escolas, resta ainda desse tempo uma atmosfera de desilusão pela forma como os professores eram e continuam a ser tratados pelos políticos. Está em vigor uma “avaliação” de professores mas é uma burocracia de faz-de-conta, em que todos perdem tempo, que serve apenas para salvar as aparências. O livro não pergunta, dada a data em que foi escrito, mas pergunto eu: não é irónico ver hoje, desfeito o antigo “arco da governabilidade”, juntos pela geringonça quem esteve em 08/8/08 dos dois lados da barricada?

A PROFECIA


Recentemente. tive oportunidade de apresentar no belo Café Santa Cruz em Coimbra, com casa cheia, o livro de António Costeira, "A Profecia", Edições Vieira da Silva, 2016) do qual saiu recentemente segunda edição).

Devo começar por dizer que não sou um  grande leitor e, portanto, conhecedor do género fantástico, no qual se insere o primeiro livro de António Costeira (parabéns, nunca é tarde para começar!). Isto apesar de saber que é um dos géneros literários mais apreciados em todo o mundo, sendo por isso um dos que mais vende. Os clássicos são (consulto a Wikipedia: a tabela indica autores e os números mínimo e máximo da estimativa de vendas em todo o mundo de todos os seus livros)

C. S. Lewis (1898-1963)100 million200 millionEnglishThe Chronicles of Narnia, fantasy, popular theology
J. R. R. Tolkien (1892-1973)200 million250 millionEnglishThe Lord of the RingsThe Hobbit, classical fantasy

Mas há também dois "modernos clássicos":
George R. Martin (n. 1948)50 million60 millionEnglishA Song of Ice and Fire
J. K. Rowling (n. 1965)350 million450 millionEnglish
Harry Potter

O livro A Profecia, de subtítulo Naur'can, inscreve-se nessa tradição, sendo imediatamente perceptível que o autor conhece os clássicos. A linguagem de Costeira, filho de uma professora primária que deixou no seu espólio um conto infantil não publicado, é simples, mas a simplicidade do discurso é próprio destas obras com enredos muito complexos. Há muitos personagens e quer o espaço quer o tempo são muito abrangentes. O autor apresenta no início da obra um índice de personagens principais e a sua descrição dá logo a ideia de um cenário fantástico (aqui a ordem não é alfabética): 

 "Davdak: Mago, meio-irmão de de Astrid que com ela estudou pacificamente o livro das Runas. Na sua ambição de poder, quis o livro só para si, provocando com isso a fúria dos deuses e a destruição de Naur'can, tornando-se inimigo do povo elfo. Mantém a intenção de recuperar o Livro. 

 Astrid: Maga Suprema de Alagosadhar e irmã de Riclamin. Recebeu deste os Ovos de Dragão, distribui-os pelos povos e iniciou a dinastia dos Guardiões. Dedicou.-se ao estudo da profecia e lançou as bases para o seu início na Aldeia Perdida, para onde se retirou.

 Riclamin Stark: Irmão mais novo de Astrid e meio irmão de Davdak, embora o não soubesse. Guiardião da Nação Elfa, foi responsável pela vinda dos Ovos de Dragão e pela recuperação do Livro das Runas. Travou uma batalha com Davdak no deserto pela posse do Livro e veio a morrer em consequência dos ferimentos.

 Jankahn: Maga, filha de Astrid, e que ficou no seu lugar como professora de magia em Alfheinstad. Era a guardiã secreta do Livro das Runas e foi através dela que Na'Akano se revelou. 

 Na'Akano: Filho adotivo de Gilvo e pupilo de Astrid, foi para ele que o Livro das Runas se abriu, após longos anos de estudo com Jankhan."

Para facilitar a orientação espacial, o autor coloca também logo a abrir o livro um mapa da região onde se situa a acção: o fantástico reino de Alagosadhar, cuja antiga capital (a cidade foi destruída por um cataclismo) é precisamente o nome do subtítulo Naur'can. Nesse mapa, uma penínsulas montanhosa banhada por dois mares, encontramos nomes estrangeiros como Naur'can, Smênae e Alfheistad, mas também nomes portugueses como Pedra do Urso, Castelo de Vide e Forte Salvaterra (há também uma Vila Costeira, que joga com o nome do autor). Há ainda no início do livro uma explicação dos caracteres runas,a tradição cultural dos vikings, que foram usados no cirth, a linguagem mítica criada por Tolkien, e que aparecem em vários trechos do livro.

 O leitor só pela apresentação dos personagens já deve ter uma ideia do que encontrará no enredo: livros com segredos, magos poderosos, ovos de dragão, grandes ameaças, lutas terríveis. Mas o mais interessante, na minha opinião, do livro é que ele, enquadrando-se na chamada fantasia medieval (com clara influência das mitologias celtas, germânicos e escandinavos, povoados de elfos e outros seres de fantasia), o livro é também de ficção científica. Uma parte da acção passa-se na actualidade: Carlos, um graduado em "engenharia física e química" da Universidade de Coimbra, autor de uma tese de doutoramento sobre fusão fria (fantasia, claro), é abordado na cantina universitária por dois estranhos, que o convidam a instalar uma central num longínquo país nórdico. O leitor imagina já que essa central está localizada na paisagem fantástica do mapa. O autor faz, na escrita, um vaivém entre os tempos antigos e modernos. A certa altura personagens modernos entram no interior da terra e encontram...

 Deixo, um excerto que descreve uma viagem de Na'A (quer dizer Na'Akano) num deserto. As constelações não são as nossas, o que nos remete para mundos extraterrestres apesar dos nomes portugueses de algumas terras:

 "O MAPA DAS ESTRELAS sempre fascinara Na’A, mas agora no deserto elas pareciam ter um brilho diferente. Ou talvez agora olhasse para elas sob uma nova perspetiva. As estrelas não estão ali por capricho dos deuses, dissera-lhe uma vez Astrid, fazem parte da criação e, entre outras coisas, ensinam-nos o caminho quando não há outras referências, como por exemplo no deserto.

 E era agora o caso. Depois de terem respondido ao apelo do desesperado Edgard, Drellïas tinha aceitado o repto que o Duque de Unhais lhe lançara para o ajudar como seu novo comandante militar, e ele seguira o seu caminho. 

 As esparsas e amarelas luzes da cidade há muito tinham ficado para trás, e as noturnas areias frias daquele deserto deslizavam inertes sob os cascos do seu cavalo, enquanto meditava nestes assuntos. Quando entrara no extenso areal, passando por entre as últimas acácias espinhosas e arbustos pardos que marcavam o início daquela vegetação xerófila do deserto, envolvera-se na quente manta que trouxera e procurara aquela estrela que deveria manter sempre à sua direita, ligeiramente a fugir na direção da sua orelha. Não sabia porquê, mas era a única estrela que se mantinha fixa, sempre no mesmo sítio enquanto as outras passavam por ela. Era a Estrela da Mansão, aquela onde os espíritos dos antepassados repousavam e ajudavam os viajantes em busca do seu destino. O rendilhado do céu era tecido de miríades de estrelas, algumas formando formas bizarras sem sentido, mas outras, como a constelação do Auroque ou do Urso, espelhavam no céu o modelo que lhes dera nome. Havia muitas, mas a constelação do Ceptro, que o olhava de frente, era neste momento a mais importante.

 Em resumo, uma leitura fantástica... A acção fica um pouco em suspenso, pelo que aposto que vai haver continuação.