quinta-feira, 20 de junho de 2019

Fake News em Saúde na Revista Prevenir de Julho


Declarações que prestei à jornalista Sofia Teixeira, para um artigo sobre Fake News em Saúde, publicado na revista Prevenir de Julho (já nas bancas):

Que papel pode cada um de nós ter para interromper o ciclo de propagação de uma fake news?

Ter um sentido crítico e estar especialmente atento às coisas com as quais concordamos ou que favorecem os nossos pontos de vista. Nesses caso é muito fácil fazer vista grossa a alguns sinais vermelhos, é uma tentação partilhar disparates que gostaríamos que fossem verdade. Alguns até podem parecer convincentes, mas na maioria dos casos bastará um pouco de bom senso para ver que não são. Devemos agir com responsabilidade, porque o nosso comportamento nas redes sociais, incluindo a colocação de "likes", influência os outros.

É essencial hoje ser céptico também quando se pega num jornal ou revista. Da sua avaliação quais são os erros mais frequentemente cometidos pelos orgãos de comunicação social no tratamento de assuntos de carácter científico/médico? 

As notícias de saúde são particularmente mal tratadas pela comunicação social. No caso das notícias acerca de novos tratamentos, os problemas mais habituais são o exagero acerca da gravidade ou prevalência da doença em questão, a ausência de referências a outros tratamentos para o mesmo problema ou a efeitos secundários. Decorrem do problemas de muitas dessas notícias serem feitas com base numa única fonte. Também há casos em que os jornalistas criam alarmismos desnecessários ou nefastos. Um exemplo são as notícias que no final dos anos 1990 apoiaram a ideia de que a vacina tríplice é uma causa directa do autismo (não é), dando voz a uma das maiores fraudes científicas de sempre. Há também o caso de notícias que fazem eco de práticas da moda que não têm qualquer fundamento. Acontece com algumas dietas, como a do pH, que é um completo disparate, pois felizmente não é possível através da alimentação alterar o pH das nossas células. Nesses casos o problema é a falta de contextualização e a reprodução acrítica dos disparares que esses gurus da moda dizem.

Pedia-lhe que desse dois exemplos de notícias ou conteúdos com informação falsa com os quais se tenha cruzado há pouco tempo, desmontando a farsa e explicando em que medida podem ser prejudiciais.

Posso referir uma miríada de páginas que fazem a apologia das terapias alternativas - no campo da saúde há muito que existem fake news. Nessas páginas divulgam-se falsas soluções para problemas reais, por vezes com um discurso que defende a superioridade de supostos tratamentos naturais como contraponto aos tratamentos a que chamam "químicos". Essa dicotomia é absurda, pois todos os produtos naturais são feitos com os mesmos elementos químicos que todos os outros. E não há nenhuma razão para assumir que um produto é necessariamente seguro e saudável por existir na natureza. A nicotina, a cocaína e a morfina não produtos naturais. Já para não falar na cicuta ou no veneno do peixe balão. A natureza não é só paz e amor. A penicilina é um antibióticos natural produzido por um fungo para matar bactérias. E também não há nenhuma razão para pensar que uma substância química feita pelo homem é necessariamente má. O que importa não é se é natural ou não, mas se há uma boa avaliação da sua eficácia e segurança. E nisso os produtos vendidos como naturais ficam muito mal na fotografia. Muitas vezes nem sequer se sabe o que está dentro da embalagem, pois são vendidos como suplementos alimentares, escapando assim aos controles exigidos aos medicamentos. Uma investigação realizada em 2013 nos Estados Unidos concluiu que 59% dos remédios à base de plantas continham espécies não listadas no rótulo. O apelo naturalista é por vezes também usado para desaconselhar a vacinação. É uma das muitas ideias falsas que por aí circulam.

É autor de um livro sobre Pseudociência onde explica que, tipicamente, as pseudociências recorrem a uma linguagem que transmite uma ideia de cientificidade que não têm, recorrendo a algumas falácias que estão mais do que estudadas. Quais são as principais falácias utilizadas neste tipo de conteúdos para credibilizar o discurso?

A principal são os argumentos de autoridade: dizer que uma coisa é verdade porque pessoas muito importantes dizem que é verdade. Mas a ciência não se baseia na palavra de pessoas importantes, mas em provas. No caso da medicina com base na ciência, são raros os casos em que conhecemos o nome de algum investigador envolvido no desenvolvimento de um determinado tratamento. E os seus nomes não são usados para vender os tratamentos. Já na pseudociência é o contrário: na falta de provas, restam os argumentos de autoridade. Repare-se na quantidade de nomes de gente supostamente importante e sabichona que surgem associados às terapias alternativas, como alegada garantia da sua eficácia. A maior rede de clínicas de acupunctura em Portugal está ligada a um nome bastante conhecido. É o velho do paradigma pré-científico do médico guru, que diz que só ele e os seus discípulos é que sabem o segredo. A medicina científica surgiu em oposição a isso, ao fazer a avaliação da eficácia e segurança dos tratamentos com métodos estatísticos. E os resultados são espectaculares, mais do que duplicámos a esperança média de vida nos últimos 100 anos. 

As notícias falsas em saúde fazem uso dos viéses cognitivos que todos temos e, ao mesmo tempo, acentuam-nos? Pode dar exemplos disto? 

Por exemplo, as terapias alternativas baseiam os seus argumentos de vendas muito em testemunhos de clientes satisfeitos. Esses testemunhos não provam nada, porque é difícil tirar conclusões em casos isolados. É por isso é que se fazem ensaios clínicos. E nenhuma terapia alternativa consegue passar por esse crivo. Se passasse, não havia assunto para discutir, eram tratamentos com provas e pronto. Mas como não passam precisam de favores do poder político, para os dispensar da exigência de provas. E para os vender contam histórias de clientes satisfeitos. Por exemplo, no caso do cancro, um estudo realizado com quase dois milhões de pacientes publicado na revista científica JAMA Oncology no ano passado, revelou que os doentes oncológicos que recorrem às terapias alternativas em complemento aos tratamentos convencionais têm uma mortalidade duas vezes superior aos que recorrem apenas aos tratamentos convencionais. Isto acontece, entre outras coisas, porque atrasam o inícios dos tratamentos que realmente lhes podiam salvar a vida. Mas é curioso que nos primeiros dois anos não há praticamente diferenças de mortalidade. As diferenças de sobrevivência só se acentuam a partir daí (o estudo seguiu doentes ao longo de sete anos). Nesse período inicial, os doentes que recorrem às terapias alternativas são potências testemunhos de clientes satisfeitos. No entanto, têm uma perspectiva de sobrevivência que é metade da dos que recorrem apenas aos tratamentos convencionais.

Carl Sagan, creio, dizia que ‘Alegações extraordinárias exigem evidências extraordinárias’. No entanto, sobretudo perante o desespero, a necessidade de acreditar leva muitos a darem o benefício da dúvida a curas milagrosas. Em traços largos, quais são os aspectos que o leitor comum deve ter em conta quando lê algum conteúdo (seja notícia ou não) que lhe possam dar pistas para a veracidade ou falsidade das informações que contém? 

É difícil, porque em situações desesperadas as pessoas fazem coisas desesperadas. Mas há alguns sinais vermelhos, como o facto da suposta técnica milagrosa depender do nome de uma pessoa, que é a mesma que a inventou e aplica. Ou ser feita apenas numa clínica ou rede de clínicas, que detêm uma espécie de segredo. A medicina baseada na ciência envolve muitos cientistas e grupos de investigação. E quando se tem provas não são necessários testemunhos de clientes satisfeitos. Há boas revisões sistemáticas da literatura médica com conclusões estatísticas que quantificam o benefício e o risco dos tratamentos.

Ao problema dos conteúdos com informação falsa em que as pessoas acreditam, junta-se outro: o da informação verdadeira e científica em que as pessoas não acreditam. Quais são as ferramentas, metodologias e atitudes comprovadamente mais eficazes para comunicar ciência, de forma a conseguir fazer passar a mensagem? 

A resposta está na cultura científica. As pessoas saberem distinguir melhor o que é ciência do que não é. Não significa serem especialistas em todas as áreas do conhecimento científico, pois isso é impossível. Mas saber reconhecer as características da ciência, que ela se baseia na observação e na experiência, em processos transparentes e escrutináveis, passíveis de confirmação ou refutação. Não é fácil promover a cultura científica, mas é um objectivo com uma grande importância social, que envolve muitos agentes (cientistas, jornalistas, professores, divulgadores de ciência, etc).

quarta-feira, 19 de junho de 2019

"CIÊNCIA, PSEUDOCIÊNCIA E MITOS COSMÉTICOS"



Na próxima 4ª feira, dia 26 de Junho de 2019, pelas 18h00, vai ocorrer no Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra a palestra "Ciência, Pseudociência e Mitos Cosméticos", por Diana Barbosa, Bióloga, comunicadora de ciência no Instituto de História Contemporânea, co-fundadora e actual presidente da Comcept - Comunidade Céptica Portuguesa.




Esta palestra integra-se no ciclo "Ciência às Seis - Terceira temporada", coordenado por António Piedade, Bioquímico, escritor e Divulgador de Ciência.

Sinopse da palestra:
Seja de forma indelével ou marcante, os cosméticos são produtos que estão presentes no dia a dia de todos nós. Nesta apresentação, será feita uma breve introdução ao mundo dos cosméticos — o que são, como se fabricam, qual a legislação que os regula. Serão depois apresentados alguns dos principais problemas e mitos associados ao mundo da cosmética — dos efeitos milagrosos aos perigos à nossa espera em cada gota. Terminará com algumas recomendações práticas para uma escolha mais informada.



ENTRADA LIVRE

Público-Alvo: Público em geral

Grupo Thíasos apresenta O Soldado Fanfarrão, de Plauto

Informação chegada ao De Rerum Natura.


O Grupo Thíasos apresenta O Soldado Fanfarrão, de Plauto, com tradução de Carlos Alberto Louro Fonseca e adaptação e encenação de José Luís Brandão

No Teatro Paulo Quintela da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra:
- dia 24 de junho
- dia 27 de junho (inserida na Celtic Conference in Classics 2019) 21h30. 

Sinopse. A trama desenrola-se à volta de uma armadilha lançada a um soldado de Éfeso (Pirgopolinices), para recuperar uma jovem cortesã (Filocomásio) que ele raptara de Atenas, separando-a assim do seu amante, um jovem ateniense (Plêusicles). O arquiteto da cilada é, como habitualmente em Plauto, o escravo espertalhão (Palestrião), o verdadeiro rei da comédia. O engodo são as fraquezas do soldado: a sua gabarolice e propensão para crer na lisonja. Nesta personagem tipo de Plauto está implícita a sátira a um estereótipo com muitos sucedâneos na literatura e na nossa sociedade: o indivíduo arrogante, que sob a jactância esconde as inseguranças e se apoia num discurso onde superabunda a primeira pessoa do singular. No final feliz, os vícios são castigados, o soldado redime-se e os enamorados reencontram-se. A peça baseia-se num modelo grego – Alazon –, como diz Palestrião no prólogo. Trata-se de uma das mais antigas comédias de Plauto, provavelmente de 205 a.C., quando Roma, que na altura estava na fase final da 2ª guerra com Cartago, se impunha como potência no Mediterrâneo, embora não dominasse ainda a Grécia e o Oriente, o que veio a acontecer nas décadas seguintes.

terça-feira, 18 de junho de 2019

A falta de cultura científica paga imposto - Cosméticos

Video completo do debate sobre cosméticos, integrado no ciclo "A falta de cultura científica paga imposto", que decorreu no Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa. Com a particiapação de Patrícia Pinto, Helena Ribeiro, Diana Barbosa e João Monteiro. Moderação de Teresa Firmino.


Com Q10, Pro-retinol ou ácido hialurónico. Especiais só no preço ou fazem mesmo a diferença? Como se prova a eficácia de um creme anti-rugas? Alguém verifica as alegações de eficácia? Que efeitos secundários podem ter?

Celtic Conference in Classics

Informação chegada ao De Rerum Natura.


Congresso internacional “Celtic Conference in Classics”, 
Universidade de Coimbra, entre 26 e 29 de junho. 

segunda-feira, 17 de junho de 2019

Ética, ciência e sociedade: amanhã na FLAD


VOLTAR A LER´




Meu artigo saída há cerca de duas semanas no Público:

Fui buscar o título a um livro recente de António Carlos Cortez, professor de Português, ensaísta e poeta, que reúne um conjunto de escritos críticos, alguns dos quais saídos no PÚBLICO, sobre literatura e educação.
Cito-o: “Em tempo de amnésia e relativismo cultural é imperioso voltar a ler”. E, noutro passo, “voltar a ler para reaprender e para sublinhar o que não se pode esquecer.” 
Com coragem, aponta o dedo à responsabilidade da escola na falta da leitura. Cada vez se lê menos entre nós, pelo menos sob a forma de livros em papel. Chora-se Agustina, mas ninguém a lê. Em 2008 publicaram-se em Portugal 17.800 novos títulos, cerca de um em cada meia hora, mas desde então ocorreu uma queda de 10 por cento. Nas vendas é pior: em 2009 venderam-se 14,2 milhões de livros (não incluindo manuais escolares) e a queda numa década foi de 22 por cento, isto é, cada português só compra um livro por ano. Se o lê ou não é uma outra questão: calcula-se que só 40 por cento dos portugueses leiam pelo menos um livro por ano. Basta ver o desaparecimento das livrarias para reconhecer a crise do livro (mesmo as que permaneceram, tornaram-se em bazares, com tops dominados pela f-word). A escola não ajuda: desde 2008 o investimento nas bibliotecas escolares caiu para um décimo. Ao contrário do que acontece nos estados mais desenvolvidos o nosso quase não compra livros para as bibliotecas.

É preciso voltar a ler. Contrariando o pessimismo para que as estatísticas nos remetem aí está de novo a Feira do Livro de Lisboa, a maior de sempre. Deixo algumas sugestões de leitura, reunindo títulos recentes tanto de literatura como de ciências, porque “isto anda tudo ligado”. Ainda agora morreu Murray Gell-Mann, o físico que nomeou partículas elementares  usando uma palavra – quarks – de  um romance de James Joyce.

Na literatura nacional destaco: a nova edição de Terras do Demo (Bertrand), de Aquilino Ribeiro, na data em que a obra faz cem anos, reedição apoiada pelos municípios das Terras do Demo; Tríptico da Salvação (D. Quixote), de Mário Cláudio, que assinala os 50 anos de vida literária do autor, levando os leitores aos tempos de Lutero e Cranach, há 500 anos; a 16.ª edição do romance Alma (D. Quixote), de Manuel Alegre, original de de 1995, um tocante testemunho da sua infância; O Café de Lenine (D. Quixote), uma novela de Nuno Júdice, talvez mais conhecido como poeta, que, partindo de uma citação de Aquilino, combina ficção, crónica e memórias. Da literatura internacional ando a ler: Serotonina (Alfaguara), o novo título de Michel Houellebecq, o enfant terrible das letras francesas; Máquinas como Eu (Gradiva), de Ian McEwan, sobre o tema premente da inteligência artificial; e O Escândalo do Século (Dom Quixote), textos de  imprensa de Gabriel Garcia Márquez. Na poesia chamo a atenção, para além das obras de Sophia e de Jorge de Sena (os dois fariam cem anos em Novembro), para O Tempo Avança por Sílabas (Quetzal), poemas escolhidos de João Luís Barreto Guimarães, e para Fósforo e Metal sobre Imitação de Ser Humano (Assírio & Alvim), de Filipa Leal. Escolho também, traduzidos do alemão por António Castro Caeiro, os Poemas  (Abysmo), de Georg Trakl, um poeta que caiu no abismo.

Na ciência saliento três biografias: Um Neurocientista em Construção (Gradiva), de João Lobo Antunes, memórias de um dos nossos mais brilhantes ensaístas;  O Primeiro Homem. A Vida de Neil Armstrong (Objectiva), de James Hansen, leitura apropriada quando passam 50 anos da chegada do homem à Lua; e Leonardo da Vinci (Porto Editora), a biografia do génio amplamente celebrado este ano, de Walter Isaacson, o biógrafo de Einstein e Jobs. Acrescento: A Parábola de Galileu (Gradiva), de Jorge Dias de Deus, o conhecido divulgador de ciência que, na senda de Rómulo de Carvalho, ensaia aqui uma “Física para o povo”; Da Redondeza da Terra e outras Histórias da Ciência e da Cartografia (Público e Gradiva), uma colectânea de textos de vários autores sobre a história da ciência em Portugal, com ênfase no tempo dos Descobrimentos;  e Os Fins do Mundo (Bizâncio), de Peter Brannen, sobre extinções em massa (não estamos livres doutras).

Há muitos mais livros para ler. O país não se desenvolve? Há um bom remédio: ler mais, ler melhor.

“A LUZ PESA”: QUANDO EINSTEIN SE TORNOU EINSTEIN


Meu texto na "Ciência na Imprensa Regional", projecto coordenado por António Piedade:


No dia 29 de Maio de  1919 – fez há poucos dias exactamente cem anos – observações realizadas na ilha do Príncipe, então uma colónia portuguesa, e na cidade de Sobral, no Nordeste do Brasil, de um eclipse solar total permitiram confirmar uma previsão efectuada quatro anos antes, em 1915, por Albert Einstein relativas ao desvio de raios de luz emitidos por estrelas que se encontravam na região do céu por detrás do Sol. A antiga teoria de Newton previa o valor de 0,87’’ de arco para o desvio na posição das estrelas, mas a teoria de Einstein previa o dobro, 1,74’’. Quem teria razão? O valor era muito pequeno, mas era mensurável com o equipamento da época: câmaras fotográficas aplicadas a telescópios. As observações penderam claramente para o lado de Einstein, que assim se tornou uma celebridade. Foi nessa altura que Einstein, então com 40 anos,  se tornou o famoso Einstein, um ídolo da ciência.

O sábio, quando lhe perguntaram o que teria pensado se o resultado tivesse sido diferente, respondeu: “Nesse caso, eu teria pena do Bom Deus. A teoria está correcta.” Convém lembrar que Einstein usava a palavra Deus como metáfora  da Natureza ou, melhor, da harmonia da Natureza. Para ele, “pensamentos de Deus” era uma expressão que queria significar leis da Natureza. Ter pena de Deus significava lamentar que a Natureza não seguisse uma teoria que era não só coerente como bela, e que por isso era verdadeira.

As notícias do triunfo das ideias de Einstein só chegaram à imprensa passados uns meses mais de cinco meses após as observações, uma vez que os cientistas tiveram de medir as posições nas chapas fotográficas. O jornal “Times” de Londres do dia 7 de Novembro anunciou em título:  “Revolução na ciência / Nova teoria  do Universo / Ideias de Newton derrubadas”, e dois dias depois o jornal “New York Times”, do outro lado do Atlântico, titulava: “As luzes estão tortas no céu / Homens da ciência na expectativa quanto aos resultados do eclipse/ A teoria de Einstein triunfa / As estrelas não estão onde pareciam estar ou deviam estar, mas ninguém precisa de se preocupar.” A 15 de Novembro subtitulava “O Século” de Lisboa num tom poético: “A luz pesa,” depois do título “Descobertas científicas.”
Nesse encontro, com Newton a observar de dentro da moldura do seu quadro pendurado na parede, foram anunciados ao mundo os resultados das observações do eclipse que “canonizaram” Einstein, não tendo sequer faltado um “advogado do diabo”, cujas alegações contrárias não tiveram acolhimento. Reportou o referido jornal português: “No Príncipe, apesar de se ter apresentado nebulosa a atmosfera, conseguiu-se obter algumas fotografias, em que ficava perfeitamente comprovado que a luz estelar sofre uma inflexão ao passar junto da orla do disco solar. Em Sobral, os resultados foram ainda mais numerosos e patentes, Os sábios reunidos para examinar as fotografias obtidas e ouvir as explicações dos expedicionários, tiveram de admitir que, com efeito, a luz aparece atraída pela gravitação solar, isto é, que a luz pesa.”

Nenhum astrónomo português esteve presente no Sobral, o que contrasta com a expedição ao Brasil, na qual os britânicos tiveram a companhia de uma equipa brasileira. Em 1925 Einstein, que tinha recebido o Prémio Nobel da Física de 1921, foi recebido no Rio de Janeiro com todas as honras. Não se esqueceu de referir que a sua teoria tinha sido confirmado pelo “céu radiante do Brasil.” Na sua viagem de barco para o Brasil parou em Lisboa, onde não foi reconhecido. Mas ele, conforme deixou registado no seu diário, apreciou os monumentos históricos portugueses e reparou, em particular, na graciosidade das varinas que vendiam o peixe. Foi ao Brasil gabar os encantos das mulheres portuguesas…


A China é a fábrica da ciência mundial

Minha entrevista ao jornalista João Carlos Malta do jornal "Ponto Final" de Macau:

https://pontofinalmacau.wordpress.com/2019/06/12/carlos-fiolhais-a-china-e-a-fabrica-da-ciencia-mundial/

domingo, 16 de junho de 2019

"Ética e Educação nos Quatro Evangelhos"

Carlos Fernandes Maia, professor universitário de Filosofia, de Ética, de Teoria e de Antropologia da Educação, com um profundo conhecimento dos fundamentos da Educação e uma longuíssima experiência de investigação e ensino, acaba de publicar um livro com o título Ética e Educação nos Quatro Evangelhos: uma antropeugogia inadiável (Chiado Books, Maio de 2019).

Penso poder afirmar que se trata de um livro "pouco comum".  Digo "pouco comum" pelo facto de Ética, Educação e Religião não costumarem ser pensadas em conjunto, talvez pelo desligamento que se quer fazer delas. 

Acontece que Carlos Fernandes Maia detém-se em ligações que lhes são inerentes, confluindo, como diz João Boavida na Apresentação (pp. 11-14), para a "ideia maravilhosa e esperançosa, da educabilidade humana.  A isto não é alheio o conhecimento e a experiência reflexiva do autor.

A seu pedido escrevi - devo dizer que com grande humildade, dada a natureza e profundidade da obra - o que se segue para a badana:
"A primeira impressão que [o livro] suscita ao leitor será de estranheza. De facto, neste presente, marcado por um discurso educativo raso e falacioso, habilmente concebido para validar a produção de «capital humano», o autor reafirma corajosamente o ideal de «perfeição humana». Ideal sem o qual não há dignificação da pessoa e nem mesmo futuro para a humanidade. Por inerência, reafirma a caminhada que educador e educando precisam de fazer em conjunto, cabendo ao primeiro o dever de se educar com vista a apoiar o segundo na sua educação.
Não é menos surpreendente a sua incursão em texto ´sagrados´ para explicar e consubstanciar tal dever, recuperando o que de ´sagrado´há no humano e o que daquele pode dignificar este.
Não se trata, note-se, de quaisquer textos, mas dos que constituem o núcleo do legado cristão.  Crentes ou ateus, não podemos deixar de reconhecer neles valores estimáveis para o desenvolvimento pessoal, só possível por via da educação. E essa é uma tarefa inadiável."
Notas de investigadores da mesma área ou de áreas afins, esclarecem o seu sentido:
"Este ensaio… recupera aquela excelente ideia de trabalho que tão brilhantemente Montaigne inaugurou, e que, entre nós, também brilhantemente Sílvio Lima explicou e teorizou enquanto género literário. E que consiste em andar em volta de uma ideia ou pôr-se a caminho por ela dentro com humildade e exigência intelectuais." João Boavida  
"... é o livro da sua vida, não condicionado por objectivos académicos… revela a solidez de um pensamento esclarecido e crítico." Manuel Alte de Veiga  
"... com este livro dignificou a causa da educação, pois se vê que nela acredita... Encontram-se nesta obra intuições muito pertinentes, partindo do que fez e disse Jesus, e aproximando-as do contexto da atualidade." Manuel Morujão 
E não poderia deixar de transcrever algumas palavras do autor que complementam as anteriores:
"Educador durante quase meio século, sinto-me no dever de reflectir sobre o tema educação; amante da lucidez responsável, sinto-me no direito de encarar o texto evangélico sob o ângulo educativo - que é quase ignorado ou só abordado administrativamente - e sob o ângulo ético - que aparece muito reduzido à implicação moralmente vaga do amor (...). O texto não tem finalidades catequéticas e na sua  redacção esteve presente a consciência de que existem inúmeras interpretações e posições derivadas de diferentes leituras dos evangelhos (...)."

quinta-feira, 13 de junho de 2019

"Um novo «eduquês» que apelidaram de autonomia e flexibilidade escolar"

"O regresso do «eduquês»" é o título de um artigo que saiu ontem no jornal Observador, assinado por Luís Filipe Torgal, professor de História em Oliveira do Hospital, mestre em História Económica e Social Contemporânea e doutorado em Estudos Contemporâneos pela Universidade de Coimbra. Investigador colaborador do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra (CEIS20). Tomei a liberdade de transcrever uma parte substancial desse artigo e de mudar o seu título, usando uma frase que marca a diferença entre o antigo "eduquês" e o novo "eduquês".
"O Governo e os seus leais funcionários do Ministério da Educação, pressionados pelas organizações internacionais e por uma nebulosa ideologia igualitarista escorada em pretextos economicistas, decidiram declarar guerra ao insucesso escolar. Para isso, criaram um novo «eduquês» que apelidaram de autonomia e flexibilidade escolar dos ensinos básico e secundário  designação desvendada num pacote prolixo de diplomas mais ou menos herméticos plagiados de documentos curriculares provenientes de meia dúzia de países mais ilustra-dos e prósperos do que Portugal e inspirados nas filosofias da Escola Moderna.  
A Escola Moderna não é invenção nova, pois remonta ao início do século XX. Foi uma notável filosofia educativa teorizada por diversos pedagogos e bafejada por ideologias anarquistas e socialistas. Ajudou a combater o ensino elitista, magistral, teórico, confessional, misógino, empedernido e repressivo de outros tempos. Abraçou extraordinários desígnios humanistas já incorporados nos sistemas educativos contemporâneos. Mas também conceções controversas, românticas e lunáticas. Por exemplo, José Pacheco, missionário nacional da Escola Moderna e criador da Escola da Ponte, a qual, entretanto, deixou para pregar a sua boa nova no Brasil, defende, nutrido de certezas, uma escola sem divisão de ciclos de ensino, sem turmas, nem aulas, sem horários, nem testes, sem exames, nem reprovações, onde os alunos brincam a aprender e são felizes. Os políticos que nos governam ainda não arriscaram promulgar este modo final da história da educação.  
De todo o modo, algumas das teorias, crenças, métodos e técnicas psicopedagógicas mais arrojadas da Escola Moderna têm sido experimentadas na educação pré-escolar e também no 1.º ciclo do ensino básico. Nestes níveis, os educadores e professores regem, em cada ano, uma turma composta por um número limitado de crianças com quem partilham muitas horas diárias durante um ou mesmo quatro anos letivos (...). Todavia, a partir do 2.º ciclo do ensino básico, quase tudo se altera (...). Os alunos passam a ter múltiplas disciplinas lecionadas por diversos professores. Muitos dos novos docentes convivem com os seus alunos apenas 50 ou 100 minutos semanais. Estes professores, ao longo do ano letivo, têm bem mais de 100 alunos de níveis e tipos de ensino distintos e de origens socioeconómicas diferenciadas. O volume e o grau de profundidade dos conhecimentos a estudar tornam-se mais extensos, densos e complexos.  
Podem estes últimos professores desenvolver com os seus alunos «pedagogias construtivistas» sistemáticas e proporcionar-lhes um ensino «lúdico» e individualizado? Podem estes professores avaliar os seus educandos segundo os modelos de avaliação usados pelos educadores do pré-escolar ou dos professores do 1.º ciclo? Não, não podem (...). As realidades e problemas enfrentados pelos professores variam em função dos níveis de ensino, das disciplinas, teóricas ou práticas, dos tipos de ensino, regular ou profissional, que lecionam, do número e das características dos alunos com quem trabalham. Ignorar tais factos é incorrer num lamentável equívoco. 
Por esta razão, o ardiloso engenho curricular Autonomia e Flexibilidade Escolar tornou a escola num processo kafkiano e numa Torre de Babel onde ninguém se entende. Ninguém se entende e poucos vislumbram a forma e o conteúdo da maioria das medidas e instrumentos de trabalho fabricados com a intenção de, alegadamente, promoverem melhores aprendizagens e avaliações mais rigorosas. Entre outras razões, porque essas medidas e instrumentos são opacos, absurdos e inexequíveis, nas escolas atuais e no sistema educativo vigente. 
A linguagem de cada agente da escola muda em função das suas responsabilidades. O Governo, os seus fiéis funcionários e os «pedagogos de gabinete» comprometidos com o Ministério da Educação ordenam o cumprimento das políticas educativas que engendraram, mas não sabem como as executar. 
Os inspetores escolares pressionam as escolas para cumprir o «eduquês» da tutela, mas ignoram como o concretizar. Os formadores encartados do Ministério da Educação foram formatados e são ressarcidos para doutrinar os professores no novo «evangelho» que aqueles também desconhecem como operacionalizar. Os diferentes professores não enxergam processos de realizar as diretrizes vertidas no novo aparato educativo legal. Os diretores escolares  há muito arredados da sala de aula –, comprimidos pela tutela, pelos inspetores e os professores, batem-se pelo cumprimento das normas legais vertidas na manhosa Autonomia e Flexibilidade Escolar, também eles sem saberem que caminhos ou vielas seguir para satisfazer os seus enigmáticos desígnios.  
Assim vai a escola pública, transformada num patético laboratório de políticas educativas negligentes e incongruentes, onde os alunos e os professores assumem o papel de cobaias. Quais as consequências de toda esta fantasia? Descrédito do conhecimento, sucesso educativo fraudulento, reprodução de assimetrias sociais – circunstâncias que se vão tornando mais explícitas entre professores, alunos e encarregados de educação, embora sejam menos percecionadas ou então olimpicamente ignoradas pela opinião pública e a opinião publicada."

EM MEMÓRIA DE AUGUSTO CABRAL


Meu artigo de opinião publicado hoje no "Diário as Beiras":

“A amizade é como os títulos honoríficos: quanto mais velha, mais preciosa” (Johann Goethe).
Sempre que me recordo  do Museu Álvaro de Castro, actualmente Museu de História Natural de Moçambique, de centenária tradição, “porque o passado não reconhece o seu lugar, está sempre presente” (Mário Quintana, poeta e jornalista brasileiro) renasce em mim a saudade da minha vivência na costa oriental africana aguçada  pela lembrança de uma grande e duradoura amizade que prevalece para além da morte de Augusto Cabral.
Augusto Cabral, na então Metrópole, frequentou diversos cursos sem os completar (dos que me recordo o INEF e o Conservatório Nacional de Música). O primeiro serviu-lhe para dar aulas de Educação Física, na Escola Mouzinho de Albuquerque onde fomos colegas; o segundo para ser pianista na “boîte” do  Hotel Girassol. No desporto foi tenista de competição em Lourenço Marques e boxeur amador no Lisboa Ginásio Clube. Homem de vários ofícios e hobbies que se distinguiu, na arte de bem escrever (refiro, por exemplo, o festejado livro científico: “Borboletas de Moçambique”, prefaciado por Mia Couto”), na pintura e escultura, seu exercício profissional que lhe dava o sustento principal foi a gerência da Casa da Sorte.
Depois de 25 de Abril, regressei a Portugal tendo ele permanecido em Maputo onde se viria a formar em Biologia, sendo docente universitário e director do Museu de História  Natural. Reencontramo-nos, passados anos, em Maputo, aquando da realização do "V Congresso de Educação Física Ciências do Desporto dos Países de Língua Portuguesa" (1997). Esse reencontro merece ser contado:
Estando os congressistas hospedados no Hotel Cardoso, que fica em frente do supracitado museu, atravessei a rua e disse, sem me identificar, a quem me atendeu querer falar com o director. Respondeu-me o funcionário não ser possível por “o senhor director” ter agendada uma reunião para daí a pouco. Insisti, dizendo-lhe que era um amigo de Portugal que o desejava cumprimentar. Tanto insisti que ele recebeu ordens para me deixar entrar desde que a minha presença fosse rápida.
Quando entrei no seu gabinete, na penumbra que apenas deixava divisar silhuetas, e lhe falei, disse-me: “Meu grande malandro, não sabias teres-te anunciado pelo nome?” Retorqui: “Quis fazer-te uma surpresa”. Uma muito e grata surpresa, acrescentou ele! E aí permanecemos a recordar velhos e saudosos tempos ficando a dita reunião para segundo plano!
Aquando do regresso dos congressistas a Lisboa, agendada para as 21 horas, fomos avisados que a partida tinha sido adiada para as duas horas da manhã do dia seguinte. Augusto Cabral, a essa hora, estava à minha espera para se despedir de mim, desde as 21 horas pré-anunciadas. 
Nunca mais nos vimos, tendo ele falecido em 2016 em Maputo. Mas em mim permanece a sua imagem e a sua amizade que fez com que aguentasse estoicamente no aeroporto por mim quatro horas, numa altura  em que essa aerogare não primava  por instalações  confortáveis.
São amizades raras como esta que nos fazem acreditar num mundo melhor e mais fraterno que políticas de cariz oposto não conseguem destruir ou, sequer, molestar! E se como, escreveu o nosso imortal Vate, lá onde quer que estejas “memória  desta vida se consente”, recebe um abraço, “ex- corde”, Augusto, meu Amigo, meu Irmão  sem qualquer parentesco de laço de sangue! Repousa em Paz!

"Um país amnésico: o que é que a Escola e a Universidade estão a fazer?"

Sabendo-se que o conhecimento humanístico que não foi já suprimido do currículo escolar é reduzido ou aligeirado (de momento, o caso da História é preocupante), atente-se no que disse António Carlos Cortez, professor de Português e escritor, no último programa semanal de televisão (RTP 1) Prós e contras, com o título Portugal antes de tudo (aos 33 minutos):
"Para quem está no ensino hoje, nos últimos vinte anos, [a questão do país amnésico] talvez seja uma das questões mais urgentes. Não acho que possamos pensar Portugal sem pensar na questão fundamental: o que é que a Escola e a Universidade estão a fazer?
Porque, dos programas escolares ao modo como se lecciona, há muita coisa a repensar. Há uma amnésia cultural, de facto (...). O passado é muitas vezes um catalisador do futuro, sem esse conhecimento do passado não é possível fazer o presente nem é possível projectar um futuro (...). 
A questão, para mim, que não é sequer pensada é, mesmo, a da educação. 
Nós temos hoje gerações de alunos formadas nas escolas portuguesas que, independentemente dos cursos que frequentam, desconhecem factos, não articulam factos e ideias, desconhecem conceitos e, no entanto, tiram cursos superiores e, no entanto, são até jovens lideres partidários e, no entanto, fazem as carreiras profissionais à custa do carreirismo partidário ou de outro tipo de carreirismo, então este Portugal, tem, de facto, um problema e é um problema, voltamos sempre ao mesmo, na verdade, o diagnóstico de Antero está correcto, a nossa fatalidade é a nossa história. 
Nós temos elites separadas das massas e essas elites muitas vezes não compreendem o que está em causa, na medida em que o seu quotidiano é absolutamente diferente daquele quotidiano do português que trabalha e que paga os seus impostos e que, hoje em dia, tem como único móbil, como único foco de energia o futebol."

"Quem quer ser professor?"


Vale a pena ouvir (ou voltar a ouvir) a reportagem "Quem quer ser professor?”, da autoria do jornalista João Torgal. É, basicamente, composto por entrevistas a professores do Agrupamento de Escolas Rainha Santa Isabel, em Coimbra, e a futuros professores e professores da Escola Superior de Educação e da Universidade, também de Coimbra. Aqui, na Antena 1 da rádio.

Faz-se referência a um estudo publicado no final do ano passado sobre estado do ensino (aqui) e a um outro do ISCTE.

São trabalhos a que o Ministério da Educação terá tido acesso, bem como a outros que os corroboram. Conviria que os ponderasse com a seriedade que merecem e, em função disso, tomasse, a muito curto prazo, medidas realistas de modo a obviar que o pouco ânimo que resta aos professores não se esvaia em definitivo. É que, apesar de se fazer crer, não há escola sem professores; melhor, não há uma boa escola sem bons professores.

Apenas uma nota: entendo que não é a idade (conforme sobressai na reportagem) que retira o ânimo aos professores, a idade é uma característica, que pode, inclusivamente, ser potenciada pelo sistema educativo (como, de resto, é aflorado também na reportagem), o que não retira a necessidade de integrar novos professores no sistema.

O que devasta a sua vida profissional (e pessoal), 
são as condições materiais, burocráticas, relacionais, etc. absolutamente adversas em que trabalham, são os discursos irracionais, dogmáticos, ideológicos de políticos, especialistas, empresários, etc., são as ingerências no seu trabalho de toda uma sociedade que deseduca em vez contribuir para educar,
...
é, em suma, o sentimento de impotência, de irrelevância, de não conseguir concretizar o seu dever e que é ensinar.

quarta-feira, 12 de junho de 2019

QUARTA CONFERÊNCIA: “Tomar a iniciativa, ser empreendedor”: reconfigurar representações, conteúdos e funções do currículo escolar"


À semelhança de muitos outros países, Portugal está a implementar, desde 2016/2017 uma nova reforma do ensino básico e secundário (“Projecto de Autonomia e Flexibilidade Curricular”), a qual suscita diversas questões a que investigadores e educadores não podem deixar de dar atenção.

Para proporcionar uma reflexão sobre algumas dessas questões, organizou-se um ciclo de cinco conferências com o título “O currículo escolar na contemporaneidade: Identificação e discussão de algumas das suas bases”, que a realizar neste mês de Maio e no próximo mês de Junho, numa colaboração entre o Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX (CEIS20), a Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra e a Faculdade de Ciências da Educação da Universidade de Granada.

QUARTA CONFERÊNCIA 

Título: “Tomar a iniciativa, ser empreendedor”: reconfigurar representações, conteúdos e funções do currículo escolar"

Conferencistas: Carlos Fernandes Maia (Professor da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro) e Casimiro Amado (Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX / Universidade de Évora)

Local: Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra - Anfiteatro do Edifício 1

Data: 14 de Junho de 2019, das 10h00 às 12h30

Resumo: No "Perfil do Aluno à Saída da Escolaridade Básica", publicado em 2017, é explicitado que uma das competências a desenvolver ao longo da escolaridade, no respeitante à “cidadania e participação” é o “ser interventivo, tomando a iniciativa e sendo empreendedor”. Antes, em 2012, em portaria, determinava-se que um dos domínios da autonomia de es-cola deveria traduzir-se no empreendedorismo. Trata-se de dois documentos tutelares, entre vários outros, produzidos por governos que, sendo de tendência política distinta, partilham o objectivo de preparar as novas gerações para serem empreendedoras com vista ao “sucesso académico e profissional. Por se encontrarem destacadas no currículo as noções de “empreendedor” e de “empreendedorismo” obrigam a várias interrogações: o que significam, efectivamente? Em que práticas se traduzem? Quem as concebe essas práticas e a desenvolve?

Programa
1. Mito e altruísmo – Carlos Fernandes Maia
- Alguma lição da história. Pressupostos subjacentes à criação da filosofia grega, da religião cristã (e pré-cristã e derivadas e muçulmana e hindu), à ciência moderna e ao progresso tecnológico
- O papel da ignorância, do conhecer e do saber e relação com o poder. Consciência da possibilidade de conhecer o diferente e de confrontar o conhecer e o saber com o poder
- Representações antropológicas e axiológicas no empreendedorismo. Valores subjacentes no período que medeia entre o mito da amortalidade - o tempo que a técnica suplantará a morte natural - e o da absoluta dependência da 'sorte' ou do 'destino'
- Empreendedorismo docente: a validade de um paradoxo? Validade de uma ação 'docente' em condições adversas
Conclusão. O empreendedorismo só pode ser feito com base no conhecimento e, mais ainda, num conhecimento crítico e globalizante, que é o saber. E daí que sejam precisos conteúdos, incentivos para ensinar e disposição para aprender
2. O empreendedorismo na escola - Religião e Moral do tempo presente? – Casimiro Amado
- "Genealogia" do lugar do "empreendedorismo" nos curricula, à luz da leitura que Foucault fez da biopolítica, do projecto neoliberal e da Teoria do Capital Humano. A noções de "empreendedorismo de si mesmo", "self-entrepreneurship", "Eu. S.A:", e "Startup existencial".
- Discussão da legitimidade (afirmando-a) de uma orientação axiológica na educação e nos documentos que regem a escola e o currículo. Legitimidade que existe apenas se a opção for de "educação para os valores" e não de doutrinação dos educandos quer seja de uma forma assumida ou de forma mais oculta.
- Como, por falta de perspectiva crítica sobre a Meritocracia, os ideais neoliberais e a Teoria do Capital Humano, o discurso sobre o "empreendedorismo" dominante nas escolas portuguesas e nos documentos que as regem tem feito encarar o empreendedorismo como a Religião e a Moral do tempo presente.
 - É isso que queremos? A educação escolar promotora da cultura do empreendedorismo sob o signo da competição, da angústia, da legitimação da precariedade como "estilo de vida"?

Referências bibliográficas
- Bruckner, P. (2001). La euforia perpetua: sobre el deber de ser feliz. Barcelona: Tusquets.
- Foucault, M. (2008). Nascimento da Biopolítica: curso dado no Collège de France (1978-1979). São Paulo: Martins Fontes.
- Harari, Y. N. (2016). Sapiens: história breve da humanidade. Amadora: 20/20 Editora.
- Laval, Ch.. (2017). Precariedade como “estilo de vida” na era neoliberal. Parágrafo, [S.l.], vol. 5, n.º. 1, pp. 100-108, jun. 2017 [acesso].

- Maia, C. F. (2011). “Elementos de ética e deontologia profissional: um estudo alargado à educação”. Chaves: SNPL.
- Reboul, O. (1980). A doutrinação. São Paulo: Companhia Editora Nacional.
- Savater, F. (2006). O valor de educar. Lisboa: D. Quixote.

ENTRADA LIVRE, COM CERTIFICADO DE PRESENÇA

Apresentação aqui, Programa aqui, Inscrições aqui.

METODOLOGIA DE ANÁLISE DE REDES: O CASO DAS REDES FILANTRÓPICAS GLOBAIS QUE OPERAM NO CURRÍCULO ESCOLAR E NA FORMAÇÃO DE PROFESSORES

Seminário a realizar no próximo dia 14 de Junho às 14h30 às 17h30
na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra - Edifício 3 (Palácio Sacadura Botte).

Resumo: A figura do “novo filantropismo” ocupa um lugar de destaque na designada “nova narrativa global” da educação e da formação que se tem afirmado a uma escala global, traduzindo-se, nomeadamente, na intervenção de “parceiros” (como sejam empresas, fundações, associações, academias, autarquias, escolas) nos sistemas educativos. Para estudar os modos como estes parceiros se relacionam, tem sido usada a “Metodologia de análise de redes”, que permite compreender decisões relativas ao currículo escolar e à formação de professores. Dada a circunstância de também em Portugal a mencionada figura se ver progressivamente acentuada, entende-se ser vantajosa a sua consciencialização e compreensão por parte dos profissionais de educação. 

Convidada: Erika Moreira Martins - Investigadora do “Grupo de Políticas Públicas e Educação” da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas
Apresentação: Mário Frota - Associação Portuguesa de Direito do Consumo

Destinatários: Educadores e professores dos diversos níveis de ensino e disciplinas, diretores, encarregados de edu-cação, outro público interessado 

Entrada livre com certificado de presença.

Mais informação aqui.

Apresentação do livro "O Eclipse de Einstein"

CONVITE

Na próxima quinta-feira, 13 de Junho, às 18h realiza-se no RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, a sessão de apresentação do livro "O Eclipse de Einstein: entre Lisboa, Londres, Sobral e o Príncipe = Einstein's Eclipse: From Lisbon and London to Sobral and the Island of Principe" da autoria de Nuno Crato e Luís Tirapicos, publicado pelo Clube do Coleccionador CTT em 2019. A apresentação estará a cargo do autor, Luís Tirapicos e o livro estará à venda na sessão.

A entrada é livre e destinada ao público em geral.

«Ciclo Ciência às Seis» Alterações no programa gerall


Informa-se que o programa geral do ciclo "Ciência às Seis", dinamizado por António Piedade, Bioquímico e Divulgador de Ciência, a decorrer até Julho de 2019 no RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, sofreu alterações:

 - Palestra "Biologia e Sociedade" agendada para 12 de Junho foi ADIADA para Setembro, com nova data a anunciar.

 - Palestra "O nosso Cérebro é uma máquina imperfeita" agendada para dia 26 de Junho foi SUBSTITUÍDA por "Ciência, Pseudociência e mitos cosméticos" com Diana Barbosa, Comunicadora de Ciência e Presidente da Comcept - Comunidade Céptica Portuguesa.

O ciclo encerrará com a palestra "Diálogos Astronómicos" no dia 10 de Julho.

O grupo "Thíasos" apresenta "O Soldado Fanfarrão", de Plauto

Informação chegada ao De Rerum Natura.


O grupo Thíasos apresenta O Soldado Fanfarrão, de Plauto, com tradução de Carlos Alberto Louro Fonseca e adaptação e encenação de José Luís Brandão.

No teatro Paulo Quintela da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra:
- dia 24 de junho (antestreia)
- dia 27 de junho (estreia; inserida na Celtic Conference in Classics 2019) 21h30. 


Sinopse: A trama desenrola-se à volta de uma armadilha lançada a um soldado de Éfeso (Pirgopolinices), para recuperar uma jovem cortesã (Filocomásio) que ele raptara de Atenas, separando-a assim do seu amante, um jovem ateniense (Plêusicles). O arquiteto da cilada é, como habitualmente em Plauto, o escravo espertalhão (Palestrião), o verdadeiro rei da comédia. O engodo são as fraquezas do soldado: a sua gabarolice e propensão para crer na lisonja. Nesta personagem tipo de Plauto está implícita a sátira a um estereótipo com muitos sucedâneos na literatura e na nossa sociedade: o indivíduo arrogante, que sob a jactância esconde as inseguranças e se apoia num discurso onde superabunda a primeira pessoa do singular. No final feliz, os vícios são castigados, o soldado redime-se e os enamorados reencontram-se. A peça baseia-se num modelo grego – Alazon –, como diz Palestrião no prólogo. Trata-se de uma das mais antigas comédias de Plauto, provavelmente de 205 a.C., quando Roma, que na altura estava na fase final da segunda guerra com Cartago, se impunha como potência no Mediterrâneo, embora não dominasse ainda a Grécia e o Oriente, o que veio a acontecer nas décadas seguintes.