Quarta-feira, 19 de Junho de 2013
Mário e o lobo
Mário Nogueira foi eleito líder da Fenprof em Abril de 2007. Em Setembro de 2007, a propósito do concurso de colocação de professores, declarou: "Este é o maior ou um dos maiores despedimentos colectivos que teve lugar neste país."
Em 2008, a propósito da avaliação dos professores: "Se o Ministério da Educação quiser guerra, vai ter guerra." Em 2009, sobre o Estatuto da Carreira Docente: "Visa transformar os professores em operadores acríticos de verdadeiras linhas de montagem em que estão a ser transformadas as escolas portuguesas."
Em 2010, acerca dos novos agrupamentos de escolas: "São um absurdo e a negação completa do que é o trabalho pedagógico numa sala." Em 2011, a propósito do Orçamento do Estado: "Um verdadeiro roubo, quase um assalto à mão armada." Em 2012, acerca do ministro da Educação: "Está a apostar na ignorância, está a apostar na segregação, está a apostar na destruição deste país." Em 2013, sobre a mobilidade especial: "Eu acho que este é um governo fascista."
Assim de repente, estou capaz de adivinhar o que ele dirá em 2014 sobre qualquer ideia que venha dos lados da 5 de Outubro. Aposto o meu ordenado em como vai ser má, péssima, horrível, um atentado, uma vergonha, uma calamidade, uma tragédia, um assalto, um roubo. Claro que Mário Nogueira está a cumprir o seu papel e a empenhar-se naquilo para que foi escolhido: proteger os interesses da classe dos professores a todo o custo chamando-lhe"defesa da escola pública" para parecer bem -, independentemente do estado em que o país se encontre.
Se Mário Nogueira fosse delegado sindical no Jardim do Éden quando Eva entregou a maçã a Adão, ele estaria certamente ao lado de quem, com tanta competência, astúcia e empenho, ministrou a disciplina de Pecado Original. Não é, pois, de espantar que Adão e Eva tenham sido colocados em mobilidade especial, enquanto a serpente permaneceu nos quadros do Paraíso: os alunos sempre tiveram mais azar do que os professores.
E no entanto, os professores parecem apreciar esta atitude, continuando a achar que o estilo e a ideologia PCP da Fenprof, que não convence 10% dos portugueses quando se trata de governar o país, é perfeita para governar os interesses de 50% dos professores. Sem dúvida que o pandemónio nos exames de ontem mostrou o músculo do sindicato e a perenidade de Mário Nogueira.
Um dia destes, também Nuno Crato seguirá os passos de Maria de Lurdes Rodrigues, e outro ministro da Educação terá o privilégio de estar face a face com o seu incrível bigode. Só que, infelizmente para os professores, tanta verve sindical também tem um preço - e o resultado de ter um sindicato que todos os anos, mal lhe cheira a qualquer tentativa de reforma, desata aos gritos pelas ruas como se as pragas do Egipto tivessem caído sobre nós, é dar cabo da imagem dos professores junto de uma faixa muito significativa da população.
Mário Nogueira é um homem empenhado, combativo e que leva a peito a sua missão, mas o seu radicalismo, apoiado por dezenas de milhares de professores, transforma toda a classe numa versão sindicalizada de Pedro e o Lobo. Anunciar o apocalipse a cada 15 dias nunca dá bons resultados, porque as reivindicações justas e injustas se misturam numa mixórdia indistinta de protestos. E assim, aos poucos, Mário Nogueira e os professores vão perdendo toda a credibilidade. De vitória em vitória - até à derrota final.
Público 2013-06-18
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A ESTATÍSTICA COMO CIÊNCIA DA INCERTEZA
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VÍDEO DE APRESENTAÇÃO DE "TODA A CIÊNCIA (MENOS AS PARTES CHATAS)"
David Marçal apresenta o livro que coordenou: aqui.
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Economia e Evolução
O meu parceiro de blog Desidério diz que não existe mistério na justificação da existência de uma economia depois de eu ter iniciado a discussão aqui. Como esta é(*), provavelmente, a maior discussão da história sobre tal coisa (obrigado Carlos e Armando) não me parece que deva ficar por aqui e por isso cá vai mais uma, a bem da nação.
A selecção natural é um processo universal de optimização, i.e., uma forma de resolver um problema dentro de um dado conjunto de constrangimentos que leva a mais que uma solução. A natureza usa-o para determinar que espécies devem existir, os gestores de fundos usam-no para determinar que activos devem compor o fundos, os arquitectos de soluções usam-no para determinar que recursos computacionais devem estar disponíveis para o leitor ler esta posta. Dizer que é um produto da evolução por selecção natural não acrescenta nada à compreensão do fenómeno porque tudo o que existe é produto desse processo evolutivo, i.e., dizer que existe e dizer que é produto da selecção natural são duas afirmações equivalentes.
Pegando de onde estávamos, a pergunta que ajuda à compreensão da existência do fenómeno é "qual é o factor diferenciador que possa levar a uma economia tem e que não leva às outras interacções de grupo?". As baleias têm comunicação e alguma inteligência, já foram observadas formas de cultura em macacos, as formigas e as abelhas têm formas altamente bem sucedidas de sociedade. Todas estas sociedades existem, todas elas são produto da evolução. Perante os constrangimentos que eram apresentados pelo meio ambiente, o processo evolutivo seleccionou estas soluções como soluções de sucesso(de elevado "fitness", para os fanáticos da algoritmia).
No entanto, a natureza seleccionou outra solução que, não só se tornou um sucesso perante os constrangimentos, como eliminou os constrangimentos (bem, quase todos, há a questão dos vírus, da vida do Sol, do tamanho do planeta,...). O conjunto humano continua a formar interacções económicas num processo de "clustering" juntando cada vez mais elementos ao sistema, ligando os vários subsistemas, criando mais mundo onde ele não existia (virtual) para onde expandir o sistema. Há muito que as questões de sobrevivência estão eliminadas, que o processo de selecção natural não só está vencido, como acontece em todos os outros casos, como está "descontrolado" ao ponto de os contrangimentos terem sido destruídos.
Esta solução difere fundamentalmente de todas as outras soluções num aspecto fundamental e que não tem nada a ver com inteligência, pelo contrário. É um processo multiplicativo, absolutamente divergente (daí a necessidade do mundo virtual para se expandir) completamente fora do equilíbrio. O ser humano "destrói" tudo à sua volta para construir o mundo económico que está sempre, sempre, a crescer. Isto só tem uma explicação, na minha modestíssima e pouco credível opinião, é a existência de um instinto económico que não tem um mecanismo de "feedback". Que a natureza nos colocou sem que o mecanismo compensatório tenha sido desenvolvido, daí o carácter divergente da solução.
As interacções económicas são sempre diferentes das anteriores devido impulso de consumir e produzir. Não se troca algo por algo igual, por definição isso não é uma troca. Por isso, o ser humano vai sempre escolher o que não tem, ao contrário de todos os outros mecanismos de interação que resultam sempre na mesma troca. Se fosse sempre a mesma troca, ela só existiria se houvesse necessidade de troca, i.e., se os lados da troca não tivessem aquilo que vão trocar. Isto é um mecanismo compensatório de per si, "como tenho não quer ter". Mas se sou impelido a ter tudo, se basta o que quero ser diferente para essa sensação de falta surgir ("escassez", segundo os economistas teóricos), o mecanismo compensatório desaparece e o sistema não para de crescer.
Concluindo (por enquanto, que tenho que ir fazer crescer ainda mais sistema) a evolução deu-nos a economia, mas não explica a sua existência porque a evolução deu-no várias soluções, mas só uma é a economia. E esta só se explica se olharmos para o carácter divergente dela comparativamente com todas as outras soluções encontradas pela natureza que são soluções de equilíbrio. E, respondendo também a alguém que comentava ontem "porque existe? Eu quero saber para quê!", não é fundamental saber se o instinto existe de facto ou não. Basta saber que, em boa aproximação, todos os efeitos são semelhantes e, logo, para os efeitos pretendidos - a explicação do "para quê" - chega. E o "para quê" já lá vamos.
(*) Se tivesse havido outra, as últimas crises não teriam ocorrido!
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João Pires da Cruz
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Terça-feira, 18 de Junho de 2013
Há economia porque é evolutivamente eficaz
O João pergunta aqui por que há economia. Ora, o dilema reiterado do prisioneiro mostra que há vantagens evolutivas na cooperação; e é isso que observamos em muitos outros animais, que têm comportamentos que beneficiam o grupo à custa de algum custo pessoal. Tecnicamente, isto chama-se "altruísmo", em biologia, ainda que o termo seja algo abusivo e enganador. Ora, quando há vantagens evolutivas em algo, é natural que os organismos que por acaso adoptam esse comportamento ou nascem com essa característica acabem por deixar mais descendentes do que os outros. Isto levanta alguns problemas de explicação biológica, pois parece indicar que há selecção de grupo, o que parece incompatível com a ideia de que a unidade da selecção é o gene. Mas muitos biólogos e cientistas evolucionistas não vêm aqui qualquer incompatibilidade. E. O. Wilson e Sloan Wilson, por exemplo, defendem a selecção de grupo, ao passo que Steven Pinker a contesta, assim como Dawkins (este último de uma maneira autoritária que nem apetece ler: o argumento central dele é que a maior parte dos biólogos, das maiores autoridades na área, não acreditam nisso e por isso o Wilson é parvo. Enfim.).
Ora bem, as trocas económicas são comportamentos de grupo que resolvem variadíssimos problemas, permitindo que aqueles grupos humanos que a adoptam tenham vantagem competitiva sobre os outros. Por isso não é de espantar que tais comportamentos conquistem a generalidade das populações humanas. Na verdade, parece haver indícios arqueológicos de que essa foi uma inovação crucial introduzida pelo Homo sapiens quando entrou na Europa e desalojou o homem de Neandertal: as trocas comerciais. No caso do sapiens encontramos artefactos produzidos com materiais que tiveram de viajar centenas e às vezes milhares de quilómetros, mas isso não parece acontecer com os neandertais.
Conclusão: a origem das trocas económicas parece-me não ser particularmente difícil de explicar cientificamente; certamente não é mais difícil de explicar do que qualquer comportamento de grupo que beneficia o grupo.
Hoje temos vários estudos que mostram que os comportamentos económicos intuitivos das pessoas estão optimizados para estimular a cooperação e castigar o free-rider, o explorador que beneficia do grupo mas nada contribui para o grupo. Algumas experiências mostram que as pessoas não se importam de gastar mais dinheiro para garantir que o free-rider desconhecido do grupo seja apanhado. Isto surpreendeu inicialmente os economistas, mas faz todo o sentido: quando não apanhamos os exploradores do nosso grupo, torna-se irracional não explorar os outros. É por isso que em sociedades onde os exploradores não são apanhados, como Portugal, quase ninguém é honesto: não roubar quando muita gente rouba quando pode é pura e simplesmente irracional.
Portanto, no desenho das instituições temos de garantir que os free-riders são apanhados. Em Portugal ocorre exactamente o inverso: tudo está concebido para que os free-riders (a começar pelos políticos e pelo funcionalismo público, mas prolongando-se por todas as classes elevadas, jornalistas, artistas, intelectuais, etc.) explore as pessoas que trabalham no duro e não têm outras alternativas. Praticamente as únicas pessoas que não exploram as outras em Portugal são os empregadores, os empresários. Mas a população pensa exactamente o contrário: que estes e não aqueles é que são os free-riders. É a magia da mentira ideológica. Tal como nos regimes comunistas em que depois de se ter acabado com os chamados capitalistas as pessoas continuam a viver mal acreditando que é por culpa dos capitalistas que já não existem, em Portugal as pessoas acreditam que vivem mal devido às únicas pessoas que lhes dão alguma coisa, e não devido às pessoas que consomem a riqueza dos outros sem nada rigorosamente darem em troca.
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Desidério Murcho
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Um futuro melhor?
Excerto do Manifesto Um Futuro Melhor para Portugal.Segundo dados coligidos pelo Projecto Farol, o custo por aluno no ensino secundário aparece nos lugares cimeiros da OCDE, e o número de alunos por turma está dentro da média apurada por aquela instituição. Contudo, as taxas de insucesso colocam Portugal nos últimos lugares de um ranking de 36 países estudados por aquela organização.Conclui-se assim que o sistema educativo português, com uma base de financiamento similar à dos países da OCDE, apresenta resultados bastante abaixo da média. O que significa que não é mais dinheiro que vai resolver os problemas da educação e é noutras vertentes que está a solução do problema.Por isso, há que desmistificar a argumentação de que mais e melhor educação se resolve simplesmente com mais dinheiro, mais professores, menos alunos por turma, como tem sido veiculado pelo lóbi dos professores e da chamada “escola pública”.Isso seria negar qualquer ideia de produtividade, a de ensinar melhor com menos dinheiro. E isso é possível, reorganizando, dando efectiva e competente liderança às escolas, adequando as turmas aos recursos disponibilizados. E consolidando nas escolas a cultura de auto-exigência e de prestação de contas.
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Desidério Murcho
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Porque é que existe economia?
In the search for the ‘guilty men’ responsible for the collapse of the global economy, one obvious group has escaped blame: the economists.... It may be true that all bankers are greedy, all politicians venal, all regulators blind and all accountants stupid. But such personal failings do not explain their behavior in the past few years. (...) We are where astronomy was when Copernicus realized that the Earth revolves around the Sun. The academic economics of the past 20 years is comparable to pre-Copernican astronomy, with its mysterious heavenly cogs, epicycles and wheels within wheels or maybe even astrology, with its faith in star signs.
Anatole Kaletsky, Editor-at-Large, The Times, Fevereiro 5, 2009
Pergunta básica, não é? Porque é que existe uma economia deveria ser uma pergunta respondida muitas vezes. Ou não.
Na verdade, ninguém sabe porque é que existe uma economia. E fazendo
uma pesquisa por essa net fora não existe uma única página, um
artigozinho da wikipedia que defina economia (o sistema, não o ramo
do conhecimento que o estuda, esse escreve-se "Economia") sem
recorrer a conceitos internos à economia, como bens, serviços,
produção,etc. A pergunta é bastante mais fundamental, é porque é que o
homo sapiens evoluiu criando um sistema de troca?
Tal como os físicos não dão uma explicação para o porquê de existir
um universo - explicam a origem mas não o porquê dessa origem - os
economistas também não se dedicaram muito à explicação do porquê da
existência do sistema. Manda a lógica que o porquê da origem do sistema
esteja no domínio da biologia, do animal que é o único que formou um
sistema de trocas. E, nesse domínio, já se consegue encontrar alguma
coisa (*) sem certezas, mas um homem económico é muito mais eficiente
que uma besta dum primata que só se preocupa com aquilo que vai
comer logo. Porque o homem económico vai procurar matar um bicho
para comer enquanto o outro lhe constrói o abrigo, sabendo que o que
constrói o abrigo vai conseguir comer e o que matou o bicho vai
estar abrigado durante a noite, trocando o trabalho. Esta especialização faz com que os
dois homens valham mais que a soma de dois primatas auto-suficientes
em termos de capacidade de vencer o ambiente que os rodeia. Já os
dois homens têm abrigo e comida, ainda os primatas auto-suficientes
andam a lutar por um pedaço de carne.
Isto explica alguma coisa, mas não explica tudo. Não explica porque
é que depois de eu ter levado o bicho para casa, ainda quero comprar
mais coisas. Explica porque conseguimos comida mas não porque saímos
do alojamento para ir para uma fila de noite para ver se somos os
primeiros a ter um iPad. Como é que de trocarmos um trabalho básico por
outro trabalho básico andamos hoje a trocar modelos matemáticos,
programas de computador, espaço de processamento, arte, etc. A
verdade é que se os nossos "irmãos" primatas andam a projectar
fezes uns aos outros fisicamente e se nós o fazemos de forma higiénica através da internet, é por causa de
termos uma economia.
Uma explicação plausível é a existência de um instinto económico. Algo
gravado no nosso processamento biológico que nos deu a vantagem
competitiva de ter uma economia e que, passadas as necessidades de
sobrevivência, nos continua a atormentar para continuarmos a consumir e a
produzir para consumir. Os economistas chamam-lhe "escassez", algo que
não tem nada a ver com raridade natural, mas com o sentimento de
necessidade de qualquer coisa que não temos. Um campo que atrai as
partículas do sistema económico a ligarem-se de forma a trocar trabalho
que ainda não têm. Diversos animais trocam trabalho, mas não têm uma economia porque trocam sempre o mesmo tipo de trabalho. As formigas, as abelhas, os lobos e outros animais sociais trocam sempre o mesmo tipo de trabalho para o qual nasceram. Para o homem, trabalho que tem que ser sempre novo e tem que fazer escolhas livres para que tenha escassez de coisas novas. E pode ter sido este instinto adicional que nos trouxe ao domínio esmagador do meio ambiente que nos rodeia.
Tal como a criação do universo, não é possível reproduzir a experiência.
Conseguimos ter algumas evidências que corroboram esta teoria deste Big
Bang económico como temos da teoria do Big Bang do universo, mas na
realidade não é possível reproduzir aquela mutação que trouxe o instinto
económico da mesma forma que não é possível reproduzir o início do
universo ou a mutação que nos trouxe o instinto sexual. A verdade é que
todas as evidências apontam nesse sentido.
Porque é que isto é importante? Bem, para a esmagadora maioria dos
economistas parece ser irrelevante. Mas, usando o brilhante parágrafo de
Kaletsky que transcrevi lá em cima, isso não deve ser estranho para todos os outros que não são economistas. A maior
parte das pessoas aborda a explicação de um problema começando pela
razão pela qual o problema existe. Mas na altura em que nasceu a
Economia como ramo do saber, não havia internet, não havia dados, não
havia comunicações, não havia forma de saber que se estava errado. A
altura de saber que se estava errado aconteceu há menos de 10 anos em
que a maior crise económica global da história rebenta com toda a gente
"certa" no que estava a fazer(que converge para a única forma de estarem todos errados ao mesmo tempo).
Eu, por mim, gosto desta explicação do porquê de haver uma economia. E
diz-nos muito dos mecanismos da dita e de algumas características que são autênticas "fases de Vénus" na explicação de um sistema tão misterioso para nós que o compomos, mas para isso terei tempo...
(*) R. Lipsey and P. Steyner. Economics. Harper & Row, 2005.
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João Pires da Cruz
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AS 24 HORAS DO TEMPO
Há quanto tempo anda a dizer que não tem tempo?
Vá lá, desta vez arranje tempo e venha à grande iniciativa As 24 Horas do Tempo.
No dia mais longo do ano, o Pavilhão do Conhecimento-Ciência Viva vai estar aberto 24 horas non stop entre as 18.00 do dia 21 de Junho (sexta-feira) e as 18.00 do dia 22 de Junho (sábado).
E não estamos sozinhos. Laborinho Lúcio abre com O Tempo Justo. O tempo tem leis e as leis têm um tempo, tal como quem as faz. E que tempo é este em que já não há tempo nem dinheiro? Na sessão Tempo é dinheiro, o tempo conta até para ganhar ou perder fortunas. Maria Flor Pedroso vai estar à conversa com José Gomes Ferreira, Isabel Ucha, Rui Agostinho e Eduarda Filipe.
Quanto tempo leva a ter uma ideia? O Tempo Agora vai juntar Rui Horta, Henrique Cayatte, António Câmara e Patrícia Reis. Para o Tempo na Ciência, que corre em diferentes escalas, temos encontro marcado com Carlos Fiolhais, Eugénia Cunha, Fernando Barriga e António Lopes. É certo e sabido que por muito que queiramos atrasar o tempo, temos de envelhecer. Parar o Tempo reúne António Coutinho, Luís Romariz e João Malva.
À hora do jantar faça-nos companhia: prove as degustações dos Movimentos Slow Food Alentejo e Slow Food Algarve e acabe com o mito de que os vinhos mais velhos são os melhores. Se estiver com pressa, também temos fast food.
Caso sofra de insónias, não fique em casa a contar carneiros. Assista em directo a partir do Pavilhão do Conhecimento ao Expresso da Meia-Noite, da SIC Notícias, ou dê um pé de dança ao som da música de Elvis Veiguinha na danceteria de garagem.
Se mesmo assim o sono teimar em não chegar, fique no escurinho do nosso auditório e assista a uma maratona de filmes até perto das nove da manhã, escolha do jornalista Luís Caetano. A essa hora beba um energético cacau quente e prepare-se para mais nove horas de actividade. Depois do exercício físico, a cargo do ginásio Pump, haverá ainda tempo para entrar no Laboratório do Tempo, perceber os tempos na cozinha ou viajar no tempo na escavação paleontológica do Pavilhão do Conhecimento.
Entre as 10.00 e as 13.00, os nossos monitores terão todo o Tempo Livre para as Famílias, que têm acesso gratuito às exposições do Pavilhão.
Esta grande conferência As 24 Horas do Tempo, que marca o Solstício de Verão, terá a intervenção final de João Lobo Antunes no sábado, às 17.00.
A entrada para As 24 Horas do Tempo é gratuita, incluindo a visita às áreas expositivas no período entre as 10.00 e as 13.00 de sábado.
Debates, experiências, cinema, música, dança, desporto, exposições, cozinha, ciência e jogos matemáticos. A qualquer hora do dia ou da noite haverá sempre qualquer coisa a acontecer, entre uma mão-cheia de actividades para todas as idades e as conferências que nos vão pôr a pensar nas várias dimensões do Tempo. E para que não nos esqueçamos dele, teremos sempre uma ampulheta a contar o tempo.
Programa completo em www.pavconhecimento.pt
A Cafetaria Amo-te Ciência estará aberta até às 24.00 de sexta-feira e reabre às 09.00 de sábado para o famoso cacau quente.
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Duas propostas moderadamente radicais
Um dos aspectos curiosos de muitos discursos educativos portugueses é o recurso ao vocabulário missionário: o professor é um mestre, um missionário da civilização, do desenvolvimento, dos bons costumes, um pilar da civilização sem o qual esta sucumbe à mais pérfida barbárie. Geralmente, este discurso inflamado é oriundo de pessoas desconhecem as bibliografias da sua área, não lêem livros há anos, nunca tiveram qualquer tipo de vida intelectualmente activa e passam a vida a pôr frivolidades no Facebook.
Tenho duas propostas moderadas, mas radicais, para que continuemos num clima de contradição pragmática patente.
A primeira é que o professor devia trabalhar de graça. Só assim se cumpre verdadeiramente um espírito missionário. E, claro, as pessoas procurariam os seus ensinamentos se o quisessem. Esse é que é o espírito realmente elevado, missionário e civilizacional, alheio às realidades económicas da vida, ao capitalismo, aos números e à gestão empresarial.
A segunda é que os manuais escolares deveriam ser todos proibidos na sua forma actual, passando obrigatoriamente a ser disponibilizados online, gratuitamente, para alunos e professores. Pois se o professor é um missionário, o autor de manuais também o será, e não há razão para se ganhar dinheiro escrevendo manuais. E como quem escreve manuais o faz pelo imenso amor ao conhecimento, à cultura, ao ensino e à civilização, certamente continuará a escrevê-los — aliás, basta ver a imensa quantidade de materiais didácticos de qualidade produzidos por todos, todos os autores de manuais. Se eles tivessem só o dinheiro em mente, se fossem meros mercenários, fariam exclusivamente o que dá dinheiro, que são os manuais. Mas não é isso que acontece, certamente.
Eis as minhas duas propostas moderadas mas radicais. Dir-me-ão que os professores e autores assim não poderão ter uma vida comum, com automóvel, casa própria, férias na praia e televisões de ecrã plano em casa. É verdade, mas qual seria o problema? Tudo isso são números, dinheiro, capitalismo, economia, e no ensino é de outras realidades espirituais e culturais que se trata. Os professores poderiam viver da caridade dos pais dos alunos que quisessem ajudá-los, dormindo na garagem ou na sala, comendo com o cão da família e vestindo as roupas descartadas dos outros.
A minha modesta proposta tinha também a vantagem de extinguir o Ministério da (des)Educação, juntamente com milhares de pessoas que nele, abnegadamente, com sentido missionário, tudo fazem e sacrificam pela qualidade do ensino (excepto exactamente tudo o que não dá dinheiro algum).
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Desidério Murcho
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Da Greve
Ou será que já esquecemos o sucedido em 2008, na cidade de Fafe, quando alguns professores acompanhados de vários alunos nem deixaram a então ministra Lurdes Rodrigues sair para fora do carro, atirando-lhe ovos? E também ninguém recorda a ausência de contestação sindical à portaria através da qual o governo regional da Madeira avaliou com "bom", no mesmo ano de 2008, todos os professores em exercício no arquipélago? Ao pé destes tristes exemplos esta greve é um acto de civilidade.
As greves existem. Existe o direito de as convocar e também existe o direito de não as fazer. Noutros tempos eram os alunos que faziam greves aos exames. Agora com os alunos infantilizados e a viverem pedagogicamente num mundo de algodão em rama, pedagogos vários a par das confederações das associações de pais essas entidades cuja existência é mais enigmática que a vida sexual das criaturas marinhas nas fossas abissais - acham que os infantes poderão precisar de apoio psicológico porque vão fazer exame e os 'sotôres' não estão lá.
Enfim nos tempos anteriores ao apoio psicológico uma sala de exame sem examinadores era um escândalo ou uma festa, consoante o ponto de vista. Agora é um trauma e um sinal de falta de equidade, seja lá isso o que for.
Ora tal como me parece inquestionável o direito à greve também me parece inquestionável o direito à escolha da escola por parte das famílias: no dia em que os pais puderem escolher a escola pública ou privada em que querem colocar os seus filhos - entregando o Estado a essa escola o valor que gastaria com ela em média numa escola pública - então poderemos começar a falar de ensino.
Pelo contrário, enquanto se identificar direito ao ensino com obrigatoriedade de frequência da escola pública e dentro desta nem sequer se puder escolher a escola que se quer, a mediocridade continua protegida por decreto e o senhor Nogueira e os seus clones continuarão a restringir toda a discussão sobre o ensino à agenda dos partidos que têm por trás.
Fui professora do ensino secundário e quer nessa qualidade quer enquanto encarregada de educação nunca encontrei estes auto-proclamados defensores da escola quando os professores mais jovens eram colocados tardiamente e os colegas efectivos entretanto lhes tinham retalhado o horário segundo as suas conveniências.
Muito menos quando se deixavam para os professores com menos experiência - logo nos lugares abaixo das listas - as turmas que davam mais problemas. Encontrei professores sinceramente devotados e preocupados. Mas essa era uma atitude individual.
A escola em si não existia e muito menos se discutia. Aliás a única coisa que une o senhor Nogueira aos professores é o discurso anti-Ministério da Educação, entidade bem mais longínqua e fácil de contestar que os abusos, as irresponsabilidades, as discricionariedades e incompetências dos colegas ou dos dirigentes escolares.
Mas convém que se sublinhe: nem o Ministério nem os sindicatos estão sós neste diferendo. Como disse reconheço ao senhor Nogueira o direito a convocar esta e todas as greves que entender. Mais claro ainda me parece que Nuno Crato é um dos melhores ministros que passou pela 5 de Outubro. Mas recuso-me a que ministério e sindicatos restrinjam esta polémica a si mesmos.
Quero saber como faço valer os meus direitos a escolher a escola que quero para os meus filhos e que já pago com os meus impostos.
Se é pública ou privada, perto ou longe de casa é algo que só a mim diz respeito. Como é óbvio enquanto contribuinte acho que tenho o direito a um debate esclarecedor sobre os horários zero e a mobilidade reivindicados pelos professores pois trata-se de um regime excepcional que como tal tem de ser muito bem justificado. E por fim mas não por último também não aceito que me imponham o dever de pagar o ordenado com respectivas progressões a professores eternamente destacados nos sindicatos.
Com trauma ou sem ele e se quiserem com muita equidade vamos ter de discutir a escola.
Diário Económico 2013-06-18
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Angelo Miguel Pessoa Alves Alves
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NOVO PROGRAMA DOUTORAL EM "HISTÓRIA DAS CIÊNCIAS E EDUCAÇÃO CIENTÍFICA"
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Carlos Fiolhais
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Os activos de uma greve de professores
Post convidado do gestor João Cruz:
Hoje foi um dia de greve de professores aos exames. Sendo os exames uma parte considerada importante para a entrega da educação, senão não eram realizados, a conclusão que se pode tirar (a acreditar nos dirigentes sindicais) é que a solução do nosso problema com a materialização que temos hoje não é uma solução do problema. A combinação de factores envolvidos não leva à solução do problema em que, na realidade, não há nada que obrigue a que a combinação de factores seja essa. O que a greve de hoje mostrou é que a vontade colectiva de ter um sistema educativo que possa atingir os objectivos públicos esbarra na combinação de factores que foi encontrada, particularmente no facto de existir um quadro nacional de professores que hoje levou a que o objectivo público não fosse cumprido.
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Segunda-feira, 17 de Junho de 2013
O tabuísmo dos palavrões
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Desidério Murcho
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Para que servem os professores?
Sob o mote da pergunta do título, o professor Carlos Pires esclarece aqui o que está em causa na greve dos professores.
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Desidério Murcho
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Calculadoras no ensino da matemática?
Uma discussão esclarecedora do que está em causa, aqui.
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Desidério Murcho
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O VERNÁCULO DOS SINDICATOS
Pasmei ao ver a primeira página do "Público" de sábado. O Sindicato dos Professores da Grande Lisboa trazia um cartaz que dizia "Deixem-nos ser professores, PORRA", assim com exclamação e tudo. Fui ao meu velho Dicionário Lello e confirmei o que sabia: "porra" é um "vocábulo obsceno que designa o órgão genital masculino". Não quis acreditar que professores empunhassem em público a palavra "porra" como sua bandeira. Mas não eram, de facto, professores, mas sim dirigentes sindicais que não ensinam há muito.
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Carlos Fiolhais
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O testemunho da Sara
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Desidério Murcho
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Domingo, 16 de Junho de 2013
E O PRINCÍPIO DA INCERTEZA?
Na sequência de posts anteriores, perguntaram-me pelo princípio da incerteza. Eis uma muito breve exposição:
O físico alemão Werner Heisenberg formulou em 1925 o chamado "princípio da incerteza" para descrever a realidade quântica. Segundo esse princípio, quanto menos incerteza e tiver na velocidade, mais se tem na posição e quanto menos incerteza se tem na posição mais se tem na velocidade de um objecto quântico. É uma das afirmações da física que tem sido mais discutida e também mais mal compreendida.
Em primeiro lugar, o "princípio de incerteza" não é um princípio: deduz-se dos princípios da mecânica quântica. Depois ele não devia ser chamado da incerteza mas sim da indeterminação. Prefiro, por isso, escrever "incerteza" entre aspas. É consequência da descrição de um objecto quântico por uma função de onda. O princípio de Heisenberg não tem a ver com uma perturbação causada pelo observador, ao contrário do que por vezes é dito (o próprio Heisenberg fez umas especulações sobre o papel do observador, tendo sido mal interpretado). Em certo sentido o referido princípio nem sequer é essencialmente quântico pois é uma afirmação que se aplica a todas as ondas. É como se já houvesse Heisenberg antes de Heisenberg. O principio tem simplesmente a ver com a natureza ondulatória da matéria ou da energia. Uma onda que está espalhada no espaço não está localizada num sítio; e uma onda que está localizada num sítio - chama-se pacote de ondas ou trem de ondas - não está espalhada no espaço. Julgo que isto não é difícil de perceber. A onda tem velocidade: é a razão do comprimento de onda para o período. No caso de uma onda periódica espalhada a velocidade é bem definida ao passo que a posição está indeterminada. No caso de um pacote de ondas, a posição tem bastante precisão, ao passo que a velocidade está indeterminada. Como se obtém o pacote de ondas ou trem de ondas, a tal onda concentrada num sítio? Pois somando simplesmente ondas de vários comprimentos de onda. Fazendo isso, obtém-se uma onda com posição definida, mas à custa de algum prejuízo da determinação da velocidade, pois são somadas ondas com várias velocidades.
Na teoria quântica um electrão é descrito por uma função de onda. Se temos precisão elevada na velocidade não a podemos ter na posição e se temos precisão elevada na posição não a podemos ter na velocidade. A descrição por uma onda, cuja interpretação é probabilística, obriga à existência desta "incerteza". Ou, melhor, indeterminação de uma grandeza, se a outra estiver determinada com alguma precisão.
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Carlos Fiolhais
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Sobre a Morte e o Morrer
- "O Homem…é o único (animal) que sabe que vai morrer.
- ... a morte é certa, a hora é incerta.
- …a preparação para a morte… torna mais fácil lidar e superar o sofrimento…
- …nas nossas sociedades ocidentais se morre prioritariamente fora de casa…
- …mascarar a morte, em vez e a aceitar, é prejudicial…
- ….para muitos a morte ideal será a que colhe de surpresas, sem aviso, sofrimento ou demora…
- …a morte se deslocou para os hospitais…
- …não há nos hospitais espaço para morrer…
- …regressar à morte domiciliária assegura-se difícil…
- …deixar morrer, não é matar.
- ….o médico não prescreverá mais uma sessão de quimioterapia a um paciente terminal em que foram inúteis prévias terapias…
- Os médicos sempre entenderam que uma das suas tarefas mais nobres consiste em aliviar as dores dos seus pacientes."
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De Rerum Natura
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A TEORIA QUÂNTICA E O PROBLEMA DO GATO
A teoria quântica tem problemas conceptuais. O maior é o chamado "problema da medida", que está associado ao "colapso da função de onda". De facto, a função de onda, que é solução da equação de Schroedinger, descreve um comportamento ondulatório, mas recolhem-se partículas no detector. Reside aqui o “problema da medida”, debatido por muitos ao longo de décadas, mas resolvido na chamada interpretação de Copenhaga. Apesar do nome, é mais do que uma interpretação entre muitas, por ser aceite por quase todos os físicos praticantes: há até quem entenda que não se pode aplicar a teoria quântica sem a interpretação de Copenhaga por não haver alternativa válida.
Nessa interpretação aceita-se, como postulado, o “colapso da função de onda”, isto é, no detector o estado do sistema descrito pela função de onda muda instantaneamente para um estado componente dessa função: a função de onda é a soma de muitas funções e só fica uma destas seleccionada aleatoriamente. Uma onda estendida no espaço dá origem, no colapso, a uma ondícula, que descreve uma partícula num dado sítio (falo de sítio porque, na prática, não se trata de um ponto matemático, que é algo ideal; para se ter uma partícula localizada exactamente num ponto haveria um problema com a altura infinita da função de onda, isto é, vale o Princípio da Incerteza de Heisenberg). Esta transformação súbita NÃO é descrita pela equação de Schroedinger do sistema, é algo que tem de ser acrescentado para compreender a observação de uma partícula individual. É um fenómeno irreversível no tempo – o sistema não pode voltar atrás – enquanto a equação de Schroedinger é reversível no tempo.
O colapso também se aplica a estados que não são representados espacialmente: por exemplo, um spin, propriedade de um electrão responsável pela magnetização e que pode ser reconhecida aplicando um campo magnético, pode estar numa sobreposição de um estado para cima (+) e um estado para baixo (-). Porém, quando há uma detecção (prefiro esta palavra do que observação, embora sejam sinónimas), vê-se que o spin ou está para cima ou está para baixo, aleatoriamente: a medida é sempre + ou – e não as duas coisas. Pode-se indicar a probabilidade de se ter + ou de se ser – e, feitas numerosas experiências (ou uma só experiência para muitos electrões), o resultado é o previsto.
O famoso gato de Schroedinger é uma amplificação macroscópica desta sobreposição microcópica: devido a um acontecimento quântico, o “gato quântico” está numa sobreposição entre o vivo e o morto, mas, quando o observamos, ele ou está vivo ou está morto, aleatoriamente, e não as duas coisas ao mesmo tempo. Podemos imaginar um conjunto ou "ensemble" de caixas e, por exemplo, em metade delas o gato estará vivo e na outra metade estará morto, Claro que não é a observação que o mata!
O colapso da função de onda é, de facto, muito misterioso e tem inquietado numerosos físicos. O problema tem sido resolvido modernamente (não quero dizer que está resolvido) nas teorias chamadas de decoerência: alarga-se a equação de Schroedinger para incluir não só o sistema, mas também a vizinhança ou ambiente, e falamos de interacção entre entre o sistema e o ambiente, considerando explicitamente o detector como parte do ambiente. Neste caso, o colapso não precisa de ser postulado, sendo antes uma consequência da interacção. Este assunto é ainda bastante controverso. Alguns físicos de inegável importância histórica como von Neumann e Wigner invocaram observadores dotados de mente ou consciência, mas cada vez mais é claro que é apenas preciso haver uma interacção do sistema microscópico com algo macroscópico. A transição microscópico-macroscópico acontece no detector. Portanto, a ser correcta a teoria da decoerência, uma onda decompõe-se nas suas parcelas, sendo recolhida uma destas. Dizemos que o estado de mistura inicial dá origem a um só estado que antes estava contido na mistura. A aleatoriedade da teoria quântica surge aqui em consequência da interacção com o ambiente. Por outras palavras, a interpretação de Copenhaga da função de onda que em todas as experiências tem funcionado na perfeição, parece estar a encontrar algum apoio teórico.
Repito que a interpretação de Copenhaga não tem alternativas viáveis: a interpretação dos universos paralelos, apesar de muito badalada ultimamente por causa de questões cosmológicas, só tem aceitação residual entre os físicos, por levantar mais problemas do que aqueles que resolve. A teoria dos universos paralelos, segundo a qual os universos vão aparecendo em cada experiência de medida, cada um deles exibindo um dos resultados possíveis, não faz nem pode fazer previsões físicas. É mais metafísica do que física. E as teorias de variáveis escondidas têm problemas que parecem inultrapassáveis: violam, em geral, as desigualdades de Bell, que têm sido respeitadas pela teoria quântica em inúmeras experiências. Várias teorias de variáveis escondidas, que eram apenas hipóteses para Einstein, foram formuladas, colocadas à prova e... falharam.
Restam problemas filosóficos, o que não admira pois há e haverá sempre problemas filosóficos. É certo que os físicos se preocupam pouco ou nada com eles, mas isso não impede que os haja. Há mais áreas para além da física e a filosofia é uma área extremamente importante.
Qual é a ontologia da função de onda? Ela existe mesmo? Pode-se debater o assunto, mas o certo é que essa função conduz a resultados observados e nesse sentido existe, embora não seja algo directamente mensurável como um campo (não tem energia como um campo, por exemplo o campo electromagnético). Existem partículas ou ondas antes de serem observadas ou sem serem observadas? Esta questão é muito interessante: os físicos, em geral, dizem que sim, mas Bohr ensinou que só podemos falar daquilo que podemos observar, ou melhor, medir: “a Física não trata da Natureza, mas daquilo que podemos dizer sobre a Natureza.” Como as experiências para os mesmos sistemas de partículas dão resultados diversos conforme as montagens laboratoriais, convém especificar completamente o dispositivo experimental, incluindo o aparelho de medida. É nesse sentido que Bohr nos ensina que o processo de observação deve ser incluído na definição de fenómeno e, generalizando com algum perigo, que o observador faz parte da descrição da realidade observada. Esta afirmação é epistemologicamente muito importante pois impede a separação clara entre sujeito e objecto, mas não pode ser levada à letra no sentido de considerar que há aqui um elemento humano, mental ou consciente, responsável pela realidade quântica. Nada abona nesse sentido. Embora haja pessoas que, confrontadas com um mistério quântico e com um mistério da consciência, os queiram unir, ficando um só mistério, o certo é que até agora isso não resolveu nem um nem outro desses mistérios. Para um certo fenómeno só podemos em teoria quântica prever e descrever o que vemos num dado momento: não faz sentido nenhum dizer que electrão passa ao mesmo tempo por duas fendas, pois estamos a transportar para o domínio quântico a noção clássica de trajectória de uma partícula. Não podemos dizer nada sobre o comportamento como partícula do electrão durante o tempo anterior à medida. Não devemos sequer falar da partícula electrão antes de de a recolhermos no detector. É um abuso de linguagem e as questões da linguagem são muito importantes na teoria quântica, domínio onde facilmente se “escorrega” em palavras, que estão associadas à física clássica e ao senso comum.
De onde vem a aleatoriedade? A aleatoriedade parece ser uma característica intrínseca da teoria quântica: ela surge na relação entre função de onda e observação. A função de onda fornece uma descrição probabilístico-estatística das observações. Uma vez que, para a mesma montagem, experiências repetidas dão resultados um pouco distintos mas estatisticamente idênticos, temos de rever a noção de determinismo clássico: para a teoria quântica continua a ser válido um princípio de determinismo geral, pois podemos fazer previsões, embora apenas de carácter estatístico (sistemas preparados da mesma maneira comportam-se estatisticamente da mesma maneira!), mas temos de rever a noção de determinismo individual. Embora a imprevisibilidade de um partícula quântica pareça ser intrínseca, avanços na teoria da decoerência façam supor que ela poderá vir da interacção de um sistema microscópico, relativamente simples, com um sistema macroscópico, bastante mais complexo. Até agora aceitamos a imprevisibilidade porque ela nos aparece: “Deus joga mesmo aos dados”, aceitando a expressão metafórica de Einstein. Einstein dizia que Deus não jogava aos dados e Bohr replicava que não competia a Einstein dizer a Deus o que fazer. Curiosamente, nenhum deles era crente.
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Carlos Fiolhais
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