quinta-feira, 28 de abril de 2016

SUPERFÍCIES DE APLANAÇÃO, UMA INEVITABILIDADE DO CAMPO GRAVÍTICO TERRESTRE

Texto que nos foi enviado pelo Professor Galopim de Carvalho e que muito agradecemos.
Planície alentejana com a Serra do Caldeirão no horizonte. Desenho de João Alveirinhp Dias
Do mesmo modo que tudo cai de cima para baixo por força da gravidade e uma vez que, no nosso planeta, existem agentes promotores de erosão, as montanhas tendem a ser arrasadas e os materiais resultantes dessa erosão acumulados nas depressões. Se não houvesse forças internas que, de tempos a tempos, geram montanhas, sejam elas de que tipo forem, a superfície dos continentes seria tão plana quanto a das águas em repouso.

É curioso lembrar que, no século X, os membros de uma fraternidade de filósofos ismaelitas, conhecida por Irmãos da Pureza (Ikhwan al-Safa, em árabe), que se admite ter estado sediada em Bassorá, no Iraque, escreveram numa enciclopédia que nos legaram “os continentes, uma vez arrasados pela erosão, ficam ao nível do mar”.

Desde sempre, filósofos, geógrafos, naturalistas e geólogos se depararam com esta realidade do relevo em todas as latitudes da Terra, que é o confronto entre as planícies e as montanhas. Portugal não foge a esta dualidade.

À planície alentejana opõe-se a orografia bem mais acidentada do centro e norte do território. Na origem, o termo planície, que nos chegou vindo do latim planitie, significa superfície plana. Como vocábulo do léxico geográfico, esta mesma palavra passou a referir uma extensão maior ou menor de terreno aplanado, de notada horizontalidade e, na maioria dos casos, a muito baixa altitude, onde a sedimentação supera largamente a erosão.

Os geógrafos distinguem planícies fluviais e planícies costeiras ou litorais. As planícies fluviais formam-se, as mais das vezes, na zona vestibular dos rios, ou seja, nos troços mais próximos da foz, propícios ao desenvolvimento de meandros divagantes. São limitadas por aclives (vertentes a subir), ou seja, estão rebaixadas relativamente aos terrenos envolventes. São exemplos de planícies fluviais a lezíria (do árabe al jazīrâ) e os mouchões do Tejo, os campos do Mondego, do Sado, do Caia e do Sorraia e os sapais de Corroios e de Castro Marim.

Favoráveis à sedimentação fluvial, comportam muitas vezes corpos de águas paradas, como pântanos (ou pauis) e braços mortos de meandros abandonados. As planícies litorais ou costeiras têm por limites de um lado, o mar e, do outro, um aclive, muitas das vezes, uma antiga falésia ou arriba (arriba fóssil). São exemplos de superfícies litorais a que se estende para sul de Ovar até a Serra da Boa Viagem, muitas vezes referida por gândara, a que se prolonga entre esta Serra e a Nazaré, a alentejana, entre a foz do Sado e Sines, e a campina entre Faro e Olhão.

Propícias à sedimentação marinha e/ou dunar arenosa, com elas se relacionam restingas, ilhas-barreiras, lagunas (rias) como as de Aveiro e de Faro-Olhão e lagoas como as de Fermentelos (Pateira), Óbidos, Melides e Santo André. Ao contrário das planícies, os planaltos, como o nome indica, são superfícies aplanadas em altitude (convencionalmente, acima dos 300 m) limitados por vertentes que descem para terrenos a cotas inferiores. Ao contrário das planícies, os planaltos são, sobretudo, sede de erosão.

Entre nós, é frequente falar-se dos planaltos transmontanos, do planalto da Guarda e, até, do planalto da Torre, no cimo da Serra da Estrela. O estudo das superfícies de aplanação é um dos temas mais explorados na dialética entre geógrafos e, com a evolução da geografia física para a geomorfologia, entre geomorfólogos.

Nesta troca de ideias há que registar os modelos concebidos por William Morris Davis (1850-1934), Walther Penk (1888-1923), Julius Büdel (1903-1983) e Lester Charles King (1907-1989). Em 2005, na monumental obra em três volumes, GEOGRAFIA DE PORTUGAL, editada pelo Círculo de Leitores e dirigida pelo Prof. Carlos Alberto Medeiros, o nosso saudoso colega (e meu ex-aluno), António Brum Ferreira foi o autor do primeiro volume O Ambiente Físico, onde, em palavras simples mas rigorosas sintetiza as ideias destes quatro autores. No artigo The Geographical Cycle que ficou célebre na geografia de finais do século XIX, W. M.

Davis, professor da Universidade de Harvard, divulgou o conceito de “peneplaine” (peneplanície na versão portuguesa) como um tipo de aplanação inacabada, a relativamente baixa altitude, fruto de um longuíssimo desgaste por parte da erosão fluvial. O elemento de origem latina “pene” que escolheu para antepor à palavra “planície”, significa “quase”, pelo que foi e continua a ser, sobretudo, no sentido de “quase planície” que este vocábulo entrou no léxico geográfico e geomorfológico. Largamente divulgado por prestigiados geógrafos franceses, como Emmanuel de Martonne (1873-1955), Henri Baulig (1877-1962) e Pierre Birot (1908-1984), o conceito de peneplanície estendeu-se aos geógrafos portugueses, então ainda francófonos na sua maioria.

Conhecido como o “pai da geografia americana”, Davis partiu da convicção de que, a períodos relativamente curtos de elevação do relevo, se seguiam outros imensamente longos, de grande estabilidade, favoráveis à erosão. Por outro lado, tendo centrado o essencial do seu trabalho de campo nas regiões sob clima temperado-húmido, o modelo de aplanação que concebeu e divulgou assenta, fundamentalmente, na erosão realizada pelos cursos de água

Neste processo, que designou por “erosão normal”, Davis escolheu o adjectivo “normal” no propósito de poder usar este tipo de erosão como norma ou padrão de comparação com os de outros ambientes climáticos. Na concepção de Davis, a peneplanície, que interpretou como resultante da erosão de uma montanha nos parâmetros em que a definiu, pode ser elevada por subida do continente (epirogénese) ou por descida do nível do mar, dando início a novo e idêntico processo erosivo, numa repetição a que deu o nome de ciclo de erosão.

Um argumento contra a prolongada imobilidade tectónica pressuposta no modelo davisiano foi apresentado, vinte e cinco anos depois, pelo jovem geomorfólogo austríaco, Walther Penck (1888-1923), no livro que nos deixou, Die Morphologische Analyse, editado postumamente em 1924. Porém, o modelo de Davis só sofreu contestação, em 1953, quando este livro foi traduzido para inglês, sob o título Morphological Analysis of Landforms.

Influenciado pelas observações geomorfológicas a que procedera na região da Floresta Negra, onde um conjunto de superfícies aplanadas se escalona em degraus (Piedmonttreppen) nos flancos da montanha, Penck argumenta, neste seu livro, que o processo de erosão do relevo ocorre simultaneamente de forma gradual e contínua com o de elevação do mesmo relevo. Pouco mais de três décadas depois, na Alemanha, Julius Büdel (1903-1983) revelava um outro processo conducente à origem de uma superfície de aplanação.

Experimentado na geomorfologia de regiões tropicais do tipo savana quente, com uma estação húmida acentuada, propícia à formação do rególito, ou seja, de uma capa de meteorização das rochas do substrato, este geomorfólogo defendia, na sua obra Zeitschrift für Geomorphologie, publicada em 1957, a ideia da existência de duas superfícies com realidade no terreno: a superfície topográfica, em contacto directo com a atmosfera, ou seja, a que suporta a paisagem, sujeira a erosão pelas águas de escorrência e fluviais; e a superfície basal, entre o rególito e a rocha sã, tanto mais profunda, quanto maior fosse a espessura do rególito. Büdel defendia que, quando a humidade prevalecesse relativamente à secura, a meteorização é mais veloz do que a erosão. Se o clima regional evoluir no sentido da aridez, a erosão torna-se mais intensa do que a meteorização das rochas, podendo, no limite, pôr a descoberto a dita superfície basal que, assim, se transforma numa superfície de aplanação.

Um outro modelo contraposto à peneplanície e, talvez, o que mais movimentou a comunidade de geógrafos e geomorfólogos foi concebido e divulgado pelo geomorfólogo sul-africano Lester Charles King (1907-1989), na obra The Morphology of the Earth, publicada em 1962. Inglês de nascimento, este professor da Universidade do Natal, procurou explicar aplanações recentes e antigas por uma outra via radicalmente diferente da de Davis, tendo baseado o seu modelo na evolução do relevo que lhe foi dado observar na regiões subáridas.

Ao percorrer estas regiões, este que foi um dos mais influentes geomorfólogos do século XX, notou que as planuras destas regiões terminam, abruptamente, contra escarpados íngremes. Verificou que a superfície do terreno na base deste escarpados, a que deu o nome de pediment, (pedimento, na versão portuguesa) se apresentava minimamente inclinada, talhada pela escorrência de águas selvagens) carregadas de detritos. Para o autor, é o desenvolvimento destas superfícies que conduz à pediplanície, pediplain, na versão inglesa.

Na concepção de King, a pediaplanação, ou seja, o desenvolvimento da pediplanície vai alastrando em detrimento do relevo que, consequentemente, vai recuando, deixando, por vezes, testemunhos isolados, controlados pela estrutura geológica do terreno (dobras, falhas e outras). Aos ditos testemunhos, isolados como se fossem ilhas, salientes da pediplanície, o geógrafo germânico Wilhelm Bornhardt (1864-1946) deu o nome de Inselberg (do alemão Insel, que significa ilha, e Berg, que quer dizer monte) termo que, à letra, significa monte-ilha.

Embora algumas das suas ideias e interpretações, como, aliás, todas as outras, sejam questionáveis, King estimulou a comunidade dos geógrafos e geomorfólogos a repensar e rever criticamente os agentes e os mecanismos que conduziram e conduzem à aplanação do relevo.

A. Galopim de Carvalho

Jan Skácel: O Poeta do Silêncio


 
1 - A Noite
 
Ascende no céu o vento
O vento de amanhã, purpúreo
E então de novo o amor
Uma vez mais depois deste longo tempo
Desassossega a morte à distância.
 
2- Um momento em Janeiro
 
Frágil como uma casca, o dia está em silêncio.
No seu seio, o sol branco completamente branco.
E até a neve é branca, as árvores, as açoteias, a neve.
E até neste segundo é branco este momento.


3- Quando eu perder a minha voz


Quando eu perder a minha voz
não somente por minha culpa

e seres a única a me ouvir


 
então  dizer-te eu vou
o que não diz senão o mudo
e aquele que o silêncio
veio advertir.
 
4-Um Instante
 
Para alguma verdade no mundo
Se vós preferis,
Para uma lasca de silêncio.
Há um momento que rasga ao meio a terra.
Algum tempo de humildade,
Quando alguém sopra sobre nós.

 
Nota:
Foi no livro Umbrais-O Pequeno Livro dos prefácios  de João Barrento que encontrei uma breve referência a Jan Skácel, poeta nado na Morávia. Desta região da república checa são também oriundos o psicanalista Sigmund Freud,  o matemático Kurt Gödel e os poetas Jiří Wolker  e Vítěslav Nezval, sendo este último muito apreciado por Claudio Magris.
 
 
 

quarta-feira, 27 de abril de 2016

A INVASÃO DOS LED

Meu texto no último "As Letras entre as Artes"



O Ano Internacional da Luz só terminará no dia 21 de Junho, data do solstício de Verão, na Casa da Música do Porto. Continuemos pois a falar de luz. 


Desde Thomas Edison que conhecemos e usamos lâmpadas eléctricas. Se anos antes se tinha conseguido produzir em grande escala energia eléctrica, a verdade é que só com o inventor norte-americano começámos a ter luz eléctrica em nossas casas e nas ruas, em substituição progressiva mas muito rápida da antiga luz química, resultante de uma forma ou outra de combustão e bastante mais perigosa e cara.  A primeira lâmpada incandescente com capacidade comercial foi construída por Edison em 1879 (curiosamente o ano em que Einstein nasceu). O seu filamento era de carbono, mas Edison depressa percebeu que este material era facilmente perecível, vindo a ser substituído pelo tungsténio. A  evolução das tecnologias é ilustrada pelo facto de hoje praticamente já não existirem lâmpadas de tunsténio. Estas foram sendo substituídas, nos tempos mais recentes, por lâmpadas compactas fluorescentes e por lâmpadas LED, as iniciais das palavras Light Emitting Diode. As lâmpadas de tungsténio passaram a ser proibidas nos Estados Unidos em 2014 por questões ambientais: o seu rendimento é muito mais baixo do que o das lâmpadas  de de tungsténio, obrigando a maior consumo de energia eléctrica e, portanto, a maiores emissões de gases de efeito estufa. As lâmpadas fluorescentes compactas (criadas pelo inventor norte-americano Peter Hewitt em 1901) usam apenas um quinto a um terço da energia eléctrica do que as lâmpadas de tungsténio (isto é, dão cinco a três vezes mais luz para a mesma potência eléctrica), e duram cerca de dez vezes mais. A desexcitação dos electrões de átomos de mercúrio, contidos num tubo sujeito a uma descarga eléctrica, origina luz ultravioleta, e uma cobertura de material fosforado, converte-a, por fluoerscência, em luz visível. Essas lâmpadas têm o inconveniente de  usarem mercúrio, o que obriga a separação quando são deitadas ao lixo.

 

Toda a tecnologia tem o seu tempo. Cada vez mais cresce o uso, em vez de lâmpadas fluorescentes de mercúrio, das lâmpadas LED. Podem ser vinte vezes mais eficientes do que as lâmpadas de incandescência e não apenas cinco vezes como as lâmpadas fluorescentes. Por outro lado, as lâmpadas LED duram bastante mais do que as outras: o seu tempo de vida é cerca de cem vezes maior do que o das lâmpadas de incandescência e não apenas cerca de dez vezes. É, sem dúvida, um grande avanço!

 

Foi longa a chegada até aos LED actuais. A investigação dos primeiros LED deveu-se a um russo obscuro, Oleg Osev, que viveu no tempo dos sovietes. Apesar de não ter uma educação formal e de não ter passado de um técnico,  criou o primeiro LED (de cor verde e muito pouco eficiente) em 1927. Osev chegou a escrever a Einstein, sem ter obtido resposta, dizendo-lhe que o efeito presernte no díodo (uma junção de um material semicondutor que fornece electrões com outro que os recebe) era uma espécie de efeito fotoeléctrico, que Einstein tinha descrito em 1905, mas ao contrário: Se no efeito fotoeléctrico os electrões de um metal são arrancados pela luz ultravioleta, no díodo luminescente a luz visível é emitida a  partir de uma corrente eléctrica, que não precisa de ser muito intensa. Mas Osev não conseguiu dar uma explicação teórica. Morreu, provavelmente de fome como tantos outras vítimas, em Lenigegrado em 1942. 


Demorou muito a perceber o fenómeno e a encontrar as suas aplicações. Só no fim da guerra, mais precisamente, em 1951, um trabalho na Physical Review, numa revista científica de topo norte-americana, aparecia uma explicação do fenómeno com base na mecânica quântica. Na região de contacto, sob a acção do campo eléctrico, ocorre um rearranjo dos electrões, saltando os que estão em níveis energéticos elevados para níveis mais baixos. Estes saltos dão-se com emissão de luz, cuja cor depende do “tamanho” do salto. Nalguns materiais, a luz  pode mesmo ser ultravioleta e  infravermelha (“cores” que estão para lá das cores que o nosso olho vê). Foram várias as empresas norte-americanas que desenvolveram a tecnologia, formecendo nos anos 60 LED vermelhos que serviam para monitorizar dispositivos eléctricos e electrónicos.

 

Foram os japoneses que deram um grande salto em frente no início dos anos 90, com o desenvolvimento de LED que emitiam luz azul. A Academia de Ciências de Estocolmo atribuiu o Prémio Nobel da Física de 2014 a três cientistas japoneses: Isamu Akasaki e Hiroshi Amano, da Universidade de Nagóia, no Japão, e Shuji Nakamura, actualmente na Universidade de Califórnia - Santa Barbara, pela “invenção de eficientes díodos emissores de luz azuis, que permitiram a criação de luzes brancas brilhantes e economizadoras de energia.” Com semicondutores adequados, os japoneses produziram não só díodos de cor  azul  mas também de luz ultravioleta: quer num caso quer noutro, tal como nas lâmpadas de mercúrio, uma cobertura de fósforo permite emitir luz branca, de algum modo semelhante à luz que provém da nossa estrela, mas com uma importante diferença: a luz LED é fria, isto é, a luminescência não produz aquecimento, o que explica a grande eficácia da tecnologia.

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Vivemos num mundo cada vez mais iluminado por lâmpadas LED. Temos LED em nossas casas (de habitação, de escritório ou de comércio) e nas nossas ruas. Para aumentar a luminosidade, colocam-se várias lâmpadas LED pequenas no espaço correspondente a uma única lâmpada antiga. Também já são usados LED em ecrãs de televisão. Aquilo a que se chama normalmente ecrãs LED são, de facto, cristais líquidos com iluminação LED traseira, mas já começaram a aparecer ecrãs LED que dispensam os cristais líquidos. O jogo de futebol da final da Taça dos Campeões de 2011, entre o Manchester United e o Barcelona, foi exibido na cidade de Gotenburgo na Suécia numa grande ecrã LED, que permitia visão tridimensional com o auxílio de óculos.


A viagem em direcção ao admirável mundo novo não acabou. Hoje fabricam-se OLED, onde o O de Organic. Os LEDs de materiais orgânicos, permitem lâmpadas flexíveis, mais apropriadas para ecrãs. Esta nova transformação dos LED mostra mais uma vez o enorme poder que a ciência, através da tecnologia, exerce nas nossas vidas.

Carlos Fiolhais*

*Coordenador Nacional de 2015 - Ano Internacional da Luz (tcarlos@uc.pt)

terça-feira, 26 de abril de 2016

Ditaduras dão-se mal com a ciência. E é recíproco

Trofim Lysenko discursa no Kremlin em 1935

A minha crónica mais recente na Notícias Magazine:

Os regimes autoritários nunca foram grandes colossos científicos. A ciência precisa de liberdade para pensar e criticar: não tem razão quem tem o poder, mas quem apresenta provas. E a liberdade também precisa da ciência, pois esta é um desafio ao autoritarismo, que favoreceu o desenvolvimento das democracias modernas.

Texto completo aqui.

ONDE ESTÃO AS FRONTEIRAS DA FÍSICA?



Na próxima 5ª feira, 28 de Abril de 2016, pelas 18h realiza-se no RÓMULO Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, a palestra intitulada "Onde estão as fronteiras da Física? Da matéria e energia escura aos sistemas complexos"com Carlos Fiolhais, no âmbito do ciclo Fronteiras da Ciência, coordenado por António Piedade, a decorrer até Julho de 2016.




Sinopse da palestra:


Há cem anos tinha sido acabada uma das mais belas teorias físicas: a teoria da relatividade geral de Einstein. O átomo de Bohr, com o núcleo de Rutherford, existia há pouco, como uma versão primitiva da teoria quântica. Conhecia-se a supercondutividade mas não a sua justificação. Há 50 anos a teoria quântica tinha sido desenvolvida, permitindo saber de modo bastante preciso como funcionavam os átomos, moléculas e sólidos (química e física da matéria condensada). Tinha avançado a física nuclear, sabendo-se como funcionava o Sol. Com a teoria quântica, explicou-se a supercondutividade e construiu-se o transístor, base da tecnologia de computadores, e o laser, base da fotónica. Na altura, viu-se pela primeira vez a radiação cósmica de fundo, que confirmou a teoria do Big Bang.

Nos últimos 50 anos obteve-se um modelo padrão da física de partículas e forças fundamentais e um modelo padrão da cosmologia, os dois relacionados um com o outro. No CERN descobriu-se o Higgs, coroa de glória do modelo padrão. Mas este modelo é insatisfatório: procuram-se hoje teorias de superunificação. A teoria da relatividade geral foi confirmada com a recente descoberta de ondas de gravidade. Mas falta uma teoria quântica da gravidade. Dos céus surgiram dois enigmas: a matéria negra (procuram-se no CERN partículas dela) e a energia escura. E permanecem mistérios como a assimetria de matéria e a inflação.

Uma outra fronteira da Física é a complexidade: Os computadores avançaram extraordinariamente assim como os algoritmos que usam. A química, a ciência dos materiais e a biologia ficaram ao alcance da física. A teoria dos sistemas complexos surgiu graças às novas possibilidades computacionais. Fizeram-se, por exemplo, avanços teóricos na formação de sistemas solares e na síntese biológica, enquanto nos céus se encontravam exoplanetas e se procurava a origem da vida. Os computadores quânticos permitirão decerto avanços em múltiplas áreas. O último reduto do complexo é, decerto, o cérebro e o fenómeno da consciência.

ENTRADA LIVRE 
Público-alvo: Público em geral

Evento no Facebook

segunda-feira, 25 de abril de 2016

A "qualidade" da educação

Imagem retirada daqui
John Friedman, economista, professor da Brown University, esteve recentemente em Portugal para apresentar estudos que tem realizado sobre a “qualidade da educação”.

Numa conferência realizada em Portugal no dia 13 de Abril de 2016, fez uma palestra com o título “Impacto da educação na sociedade”.

Na apresentação pública deste investigador americano destacou-se o seu “papel ativo a nível social e económico, contribuindo para a definição de políticas macro nas áreas de impostos, saúde e qualidade da educação”.

Transcreve-se a entrevista que o jornalista António Mateus lhe fez para o programa da RTP Olhar o mundo, que pode ser vista aqui (entre o minuto 22 e 27).
AM. Acredita que os governos dão a relevância certa à educação?
JF. Acho que é demasiado fácil esquecer que a educação é algo que compensa a um prazo muito longo. As melhorias da educação têm efeito a um prazo de 25, 25 anos. E às vezes é difícil para os governos manter essa visão a longo prazo quando estão muito concentrados nos problemas políticos do momento. Acho que a maior parte dos governos deveria concentrar-se na educação para melhorar a sociedade. 
AM. Qual é o tema central da sua palestra aqui em Lisboa?
JF. Como diferentes políticas da educação têm impacto no sucesso dos estudantes a longo prazo. Não só se têm melhores resultados num exame hoje ou amanhã, mas se têm maior probabilidade de ir para a universidade, de virem a ter empregos bem pagos 20 anos mais tarde, quando entram no mercado de trabalho. Por exemplo, num dos nossos estudos que aborda a diferença entre a qualidade dos professores concluímos que se se substituir um professor que está entre os 5% piores por um professor médio isso vale quase 200 mil euros para uma única turma durante um ano. 
AM. Gastar dinheiro em educação é um fardo ou um investimento? Quando estamos a fazer cada vez mais cortes na educação, reduzimos os ordenados dos professores, formamos turmas maiores. Acha que é uma abordagem correcta?
JF. Acho que devemos concentrar-nos na qualidade dos professores. E se tivermos de pagar mais para atrair melhores professores ou para os manter, isso é óptimo. Mas também há muita coisa que podemos fazer para além disso, podemos avaliar como usam o tempo de aula, para que alguns professores possam aprender com outros. Há muitas diferenças entre os professores na forma como abordam a turma e alguns são melhores do que outros. Podemos aprender muito sem aumentar os custos. 
AM. Alguns resultados dos seus estudos foram citados pelo presidente Obama (…) pode explicar em que consistiam?
JF. O estudo era acerca da qualidade dos professores. No Discurso de Estado da União, há quatro anos o presidente Obama mencionou este número que acabei de lhe dar 200 mil euros como o valor de um bom professor (…). 
AM. Que conselhos daria a alunos portugueses que gostassem de ir para os EUA?
JF. Nos EUA (…) há uma maior oportunidade para se explorarem vários temas, contrariamente à Europa, onde os diplomas estão mais virados para âmbito particulares. O que digo aos meus alunos é que devem formar-se com uma série de competências com as quais se sintam realizados, mas, por outro lado, têm de garantir que são as competências certas para que não enveredem por um caminho que não os realiza. Cada vez mais o que define pessoas altamente qualificadas e com sucesso é o facto de não serem apenas altamente qualificadas, mas estarem muito empolgadas e intelectualmente empenhadas no seu trabalho. Consideram o seu trabalho empolgante com problemas que as obrigam a reflectir todos os dias. Não é uma maçada ir trabalhar, trata-se de enfrentar problemas que dão satisfação a resolver. Encontrar um estilo de pensamento que nos leva a querer trabalhar todos os dias, penso que é a coisa mais importante. 
AM. Apreciar a vida como um tesouro que é.
JF. Exactamente.

NUNO PACHECO E O SEXO DAS PALAVRAS

Segundo Eça, "o riso é a mais antiga e ainda a mais terrível forma de crítica. Passe-se sete vezes uma gargalhada em volta de uma instituição, e a instituição alui-se". Ora, numa altura em que Portugal atravessa grave crise, em inúmeros sectores da vida nacional, o Bloco de Esquerda fez-se móbil  de uma cruzada em prol da “linguagem sexista”. E se o poder do riso leva ao aluimento das instituições, não pode o Bloco de Esquerda deixar, consequentemente,  de se preocupar com este texto de Nuno Pacheco (“Público”, 22.Abril.2016), nem que seja só como prevenção nas escolhas de temas futuros com verdadeiro interesse para a grei. Para não privar uns tantos portugueses e  portuguesas (ou  portuguesas e  portugueses, em trato cavalheiresco?) da sua leitura, transcrevo o seu  texto:

“Se o ridículo matasse, Portugal estava constantemente pejado de cadáveres. Não bastava a tolice do acordo ortográfico, tolice aliás que o Bloco de Esquerda abraça estoicamente, voltámos agora à mais tola e inútil das cruzadas: a da chamada “linguagem inclusiva”; o contrário da linguagem “sexista” e “discriminatória” onde se diz pais, irmãos, avós, primos, etc. Tudo discriminatório, naturalmente. Ora foi com base em tal pressuposto que, num momento de particular inspiração, o BE propôs que o Cartão de Cidadão passe a chamar-se Cartão de Cidadania. Talvez porque Cartão de Cidadão e Cidadã fosse demasiado comprido. Ricardo Araújo Pereira, no Governo Sombra, já caricaturou devidamente esta paranóia correctiva. Disse ele, imaginando um discurso bloquista: “Portugueses e portuguesas, estamos aqui reunidos e reunidas porque estamos todos e todas preocupados e preocupadas com a questão dos desempregados e desempregadas”. Pois. Mas mesmo assim não chegava. Era preciso nuns casos começar com o masculino e noutros com o feminino, para não ofender ninguém. E havia que olhar inquisitorialmente para outras palavras, muitas, milhares, que enchem livros, dicionários e gramáticas, antros de desigualdades com masculinos e femininos por todo o lado, olhem para criança (e não há o crianço?), para membro do partido (haverá a membra?), para polícia ou guarda (deveria haver o polício e o guardo?)… E então a toponímia? Ah, mas aqui imperam as “mulheres”: vejam a rua, a praça, a avenida, a travessa, a calçada, a estrada, a auto-estrada, enquanto para os “homens” sobra o beco, o largo, o passeio, o boqueirão! Querem mesmo acabar com a linguagem “sexista”? Acabem com o Português. Porque ele, que é língua no feminino e idioma no masculino, está impregnado de sexo por tudo quanto é letra. É que até o Bloco soa no masculino. Deveria ser Bloc@? Ou Bloca?”

domingo, 24 de abril de 2016

PING ou como na escola se aprende que a pobreza se pode reduzir a um jogo


Neste século a pobreza continua a desgraçar, sem dó nem piedade, milhões e milhões de vidas. Por isso, devia ser sentida como uma vergonha por parte daqueles que a provocam e por parte de quem a tolera, praticamente todos nós.

A pobreza não é "uma questão", "um assunto" "complexo":  é uma vergonha social que deve também ser sentida como pessoal. E, como tal, não se resolve, com "debates", nem com "sensibilizações", resolve-se (ou, pelo menos, menoriza-se) com justiça.

Pouco importa que assim seja, porque encontrámos um modo infalível de resolver este ou outro qualquer problema de consciência que nos possa assombrar: chutar "as questões", "os assuntos" "complexos", para a escola. E se pusermos nas mãos dos alunos um jogo de computador com o argumento de que estamos a preparar as novas gerações, ficamos livres de qualquer embargo na voz quando nos justificamos.

Estas considerações são a propósito de um jogo online "sério" que se designa por PING - Poverty is not a game - desenvolvido e distribuído por fundações europeias em parceria com empresas, e que, li nos jornais, já está nas nossas "escolas do futuro".

É destinado a alunos entre os 14 e os 18 anos e "funciona como um ponto de partida para discutir o tema da «Pobreza» e o que significa ser pobre". Na apresentação pode ler-se mais:
"Os alunos tornam-se os protagonistas (...) podem escolher entre o Jim e a Sofia que, devido a certas circunstâncias da vida, acabaram na rua e precisam de encontrar o seu próprio caminho. PING demonstra que os jogos podem ajudar a introduzir a discussão sobre assuntos sociais complexos como a pobreza na sala de aula. Os parceiros do projecto PING querem contribuir para o debate social promovendo o uso de jogos em contexto escolar como ferramenta para a abrir a difícil discussão sobre a pobreza." 
No manual para professores essa intenção benemérita parece esbate-se (preâmbulo):
"Os jogos digitais são um negócio em expansão, ocupando a Europa uma parte importante neste mercado, sobretudo no que diz respeito aos jogos com objectivos mais sérios (...). Através do jogo “A Pobreza não é um Jogo”, a Fundação (...) e o (...) pretendem contribuir para o debate social sobre a utilização de jogos de computador nas escolas. Com o desenvolvimento deste jogo para fins pedagógicos, os parceiros PING (Poverty is not a Game) procuram promover o debate social na Europa sobre a utilização dos jogos de vídeo pelos mais jovens e, em particular, as possibilidades de usar jogos de vídeo (sérios) para fins de aprendizagem".
E o que dizer da validação do jogo, feita junto dos destinatário e de... pobres! Pobres usados duplamente - para mostrar a qualidade do jogo e como objecto de jogo - e que continuam na pobreza, Isto enquanto nas escolas se joga em nome deles (preâmbulo):
"Era importante que o jogo “A Pobreza não é um Jogo” fosse o mais realista possível, por isso, durante o seu desenvolvimento, o jogo foi experimentado pelos grupos alvo (alunos e respectivos professores) e por grupos que vivem efectivamente em situação de pobreza. A fase de concepção do jogo, que ocorreu em parceria com a ... e a ..., foi dividida em três períodos, durante os quais os alunos, os professores e as pessoas que vivem na pobreza puderam verificar até que ponto o jogo reflecte a vida real. Este prático manual abre portas ao debate na sociedade sobre a utilização dos jogos nas escolas e permitirá aos jovens sentirem em primeira mão o que significa viver na pobreza".
Como é possível que a insensibilidade seja introduzida assim, descaradamente, na educação escolar?

A página do jogo e a sua versão portuguesa encontram-se aqui.
O manual para professores encontra-se aqui.

sábado, 23 de abril de 2016

Redes Culturais nos Primórdios da Europa - 2400 Anos da Fundação da Academia de Platão

Informação chegada ao De Rerum Natura.

Os Classica Digitalia têm o gosto de anunciar uma nova publicação da série Humanitas - Supplementum [Estudos] com chancela editorial da Imprensa da Universidade de Coimbra e Annablume (São Paulo).

 - Carmen Soares, Francesc Casadesús Bordoy & Maria do Céu Fialho (coords.), Redes Culturais nos Primórdios da Europa - 2400 Anos da Fundação da Academia de Platão (Coimbra e São Paulo, Imprensa da Universidade de Coimbra e Annablume, 2016). 161 p., PVP: 16 €

[Em comemoração dos 2400 anos da fundação da Academia de Platão, o presente volume reúne dez contributos sobre a figura do fundador da Academia, sua escola e obra, bem como sobre a influência por ele exercida em autores posteriores (da Antiguidade aos nossos dias) e receção desse legado ao longo da história. Em termos de temáticas abordadas, os primeiros cinco capítulos incidem na análise de conteúdos diversos tratados nos diálogos platónicos. Começa-se por considerar a importância do Fedro na conceção filosófica de um ‘lugar supraceleste’. Seguem‑se duas reflexões sobre a paideia platónica, uma centrada n’ O Político, outra na análise das práticas desportivas n’ A República e n’ As Leis. São também perspetivadas as implicações (dramáticas/filosóficas) da origem multicultural das personagens n’ As Leis, bem como a perceção do banquete como modelo de comunidade sobre a qual se constitui a comunidade filosófica. Os cinco capítulos restantes concentram a sua atenção na presença em autores posteriores (do neoplatonismo à literatura contemporânea) do filósofo, da sua obra e da Academia.]

Todos os volumes dos Classica Digitalia são editados em formato tradicional de papel e também na biblioteca digital. O eBook correspondente encontra-se disponível em acesso aberto.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

OCEANOS versus MARES

Texto do Professor Galopim de Carvalho que o De Rerum Natura muito agradece.

Assim fomos abrindo aqueles mares
que geração alguma não abriu..."
(Luís de Camões)

Em linguagem corrente mar e oceano confundem-se muitas vezes, sendo estes dois termos usados indiscriminadamente. Desde cedo, na escola, a partir da geografia, interiorizámos que os oceanos são grandes e profundos e que os mares são mais pequenos, menos profundos, ladeando os continentes e, normalmente, sem limites que os separem daqueles.

O termo mar chegou-nos do latim mare, a parte líquida do Mundo, em oposição a terra, sólida. Esta dualidade foi julgada existir no nosso satélite natural, cujas planuras basálticas, escuras, foram vistas como maria (mares, no plural), ao contrário das regiões montanhosas, anortosíticas, mais claras, designadas por terræ (terras, no plural). O termo oceano chegou-nos do grego okéanos, através do latim oceanus, o grande mar.

De utilização mais erudita, traduzindo a ideia de mar ou de oceano, o termo grego thalassa encontra-se, por exemplo, na expressão talassoterapia, o tratamento de certas enfermidades através de banhos de mar. Pantalassa foi o nome dado ao oceano único que rodeava a Pangea no final do Paleozóico. Talassografia e Talassologia são sinónimos menos comuns de Oceanografia e Oceanologia, respectivamente.

Se alguns mares são bem definidos por estrangulamentos, como é o caso do Mediterrâneo (estrangulado pelo canal de Suez), do Mar Negro (pelo Bósforo), do Mar Vermelho (pelo Bab-el–Mandeb) ou do Mar Báltico (pelo Skagerrak), outros são totalmente abertos ao largo, como são os mares do Norte, de Bering, das Caraíbas, da China, do Japão e outros.

Outras extensões marinhas poderiam, igualmente chamar-se mares, mas a tradição refere-as como golfos, alguns bem conhecidos, como o Golfo da Gasconha (ou da Biscaia), o Golfo do México, o Golfo Pérsico, o Golfo de Bengala.

O Mar Cáspio é hoje um lago, grande entre os maiores. À semelhança do Mediterrâneo, é o que resta do antigo oceano Tethys ou Mesogea, na sequência da colisão das Placas Africana e Eurasiática. Exceptuando este e o Aral, com a mesma origem e também ele um mar residual, todos os mares e oceanos da Terra estão ligados entre si numa única massa líquida a que chamamos Oceano Global.

Perfazendo cerca de 71% da superfície do planeta, representa mais de 97% da água livre superficial e subterrânea. Nesta ambiguidade, também as expressões domínio marinho e domínio oceânico se confundem. No intuito de ultrapassar a ausência de definição dos termos mar e oceano, tanto no discurso vulgar como no erudito, têm surgido no glossário geológico expressões como mares epicontinentais ou mares marginais, aludindo aos mares pouco profundos, na periferia dos continentes. Com o mesmo propósito, o restante domínio marinho, o mais profundo e afastado dos continentes, passa a ser designado, não apenas por domínio oceânico, mas por domínio oceânico profundo, domínio onde se situam as bacias oceânicas profundas, duas expressões assim adjectivadas para fugir à citada ambiguidade.

Para os gregos, o Mediterrâneo era o mar onde navegavam, um mar rodeado de terra, no meio de terra, a que chamaram Tétis (Tethys), o nome da deusa, esposa de Oceano, o deus do “grande rio que corre em torno da terra”, para lá das Colunas de Hércules (Estreito de Gibraltar).

O “grande rio” era o Oceano Atlântico, o único que conheciam. Esboça-se, já aqui, neste saber clássico, a diferença entre o mar, algo confinado à terra, e o oceano sem fim nem fundo, para lá de onde ela se acaba.

Recorde-se que o nome Atlântico dado a este oceano pelos romanos, alude a Atlas, o nome da cadeia de montanhas do Norte de África, para lá da qual se abria sem fim que se conhecesse. Atlas, recorde-se, era o gigante da mitologia grega que transportava o Mundo (incluindo a esfera celeste) às costas, mais tarde petrificado naquelas montanhas.

O mar, no sentido de oceano, é um sistema dinâmico e complexo, alimentado por forças incomensuráveis que quase nunca dominamos, cuja acção sobre o litoral busca, constantemente, um equilíbrio de coexistência nunca alcançado à escala do tempo geológico, embora aparentemente estável no tempo de vida humana.

O estudo científico dos mares, incluindo o dos seus fundos, desde as faixas litorais às profundidades ultra-abissais, teve início no século XIX com o navio oceanográfico Challenger, nas suas viagens de circum-navegação entre 1862 e 1939. Este estudo, em grande parte resultante de cooperação internacional, foi continuado, após a II Guerra Mundial, com o apoio de vários navios de diversos países, entre os quais se destacou o Glomar Challenger, bem equipado com material científico e de sondagens nos grandes fundos oceânicos, um laboratório flutuante que navegou e operou até finais do século XX.

Este outro navio oceanográfico cumpriu um importante programa, conhecido pela sigla DSDP (Deep Sea Drilling Project), tendo-se-lhe seguido o navio Joids Resolution, com o Ocean Drilling Project (ODP), igualmente em apoio a projectos internacionais essencialmente na área da geologia marinha. Portugal aderiu a este Projecto, através de um convénio assinado pelo então Ministro da Ciência e da Tecnologia, para nós, cientistas, nunca esquecido Prof. Mariano Gago.

Centenas de perfurações e milhares de testemunhos de sondagens, estudados ao pormenor, dão-nos hoje uma visão bem mais ampla e precisa do que a que tínhamos em meados do século XX. A Geologia Marinha, ou Oceanografia Geológica , é hoje uma disciplina científica bastante desenvolvida, sendo interessante assinalar que foi a partir do estudo dos fundos oceânicos que se encontrou a explicação da dinâmica global da Terra, hoje bem interpretada na Teoria da Tectónica de Placas.

Também os conhecimentos que hoje dispomos acerca da sedimentogénese marinha têm-nos permitido conhecer o significado da grande maioria das séries e sequências sedimentares litificadas, das mais antigas (Pré-câmbricas) às mais recentes, que integram a crosta continental.

Nesta caminhada, a sedimentologia experimentou novos caminhos com a utilização de sonars, amostradores de sedimentos, obtenção de imagens através do ROV (Remote Operate Vehicle), reflexão sísmica contínua, mergulhos tripulados em submersíveis especiais e sondagens em quaisquer tipos de fundos.