quarta-feira, 18 de julho de 2018

"Hereges" - Recensão por Desidério Murcho na "Crítica"


Já à venda
Tradução de Vítor Guerreiro
Lisboa: Gradiva, 2018, 184 pp.


Esta narrativa gráfica divertida e esclarecedora conta a empolgante história dos pensadores do século XVII que desafiaram a autoridade — às vezes arriscando a exclusão, a prisão e até a morte — para estabelecer as bases da filosofia e da ciência modernas e ajudar a inaugurar um novo mundo. Com diálogos magistrais e ilustrações sugestivas, este livro proporciona uma introdução única ao nascimento do pensamento moderno em banda desenhada — inteligente, elegante e muitas vezes divertida.

Os seus protagonistas são filósofos e cientistas questionadores como Galileu, Descartes, Espinosa, Locke, Leibniz e Newton, que mudaram de forma substancial a maneira como vemos o mundo, a sociedade e a nós mesmos, pondo tudo em causa, desde a ideia de que a Terra é o centro do Universo à noção de que os reis têm o direito divino de governar. Com mais apego à razão do que à fé, esses pensadores defenderam novas perspectivas, encaradas como escandalosas, sobre a natureza, a religião, a política, o conhecimento e a mente humana.

Este livro conta a história das ideias, vidas e tempos desses pensadores de uma maneira diferente e cativante. Acompanhando por toda a Europa as viagens e exílios destes vultos, a narrativa descreve os encontros e confrontos entre si — assim como os confrontos com as autoridades religiosas e régias — relatando os momentos-chave de um dos mais brilhantes períodos da história da filosofia e da ciência modernas. 

Desidério Murcho

Debate em torno do livro DA CIÊNCIA AO AMOR de Luís Portela - Ordem dos Médicos LISBOA


QUANDO: Dia 19 de julho de 2018 às 18:30H 

ONDE: 
ORDEM DOS MÉDICOS - Conselho Regional do Sul. Av. Almirante Gago Coutinho nº 151 |Lisboa
Com intervenções de:

Joana Vasconcelos (artista plástica)
Carlos Fiolhais (físico)
Mário Simões (psiquiatra)
Anselmo Borges (padre e filósofo)

Moderação de Anabela Mota Ribeiro.

terça-feira, 17 de julho de 2018

NOVA "ATLANTIS," REVISTA ELECTRÓNICA DE RECENSÕES

Atlantís - review
v. 22 (2018)


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[Recensão a] PEREIRA, Rosalie Helena de Souza (org.), Na senda da razão: Filosofia e Ciência no Medievo Judaico, São Paulo, Perspectiva, 2016, 848 pp. ISBN: 978-85-273-1066-6.
Juvenal Filho

[Recensão a] NADEAU, Robin; WILKINS, John (eds.), A Companion to Food in the Ancient World, Oxford, John Wiley & Sons Ltd., 2015, 472 pp. ISBN: 978-1- 4051-7940-9.
Álvaro Martinho 

[Recensão a] SALES, José das Candeias, Política(s) e Cultura(s) no Antigo Egipto, Lisboa, Chiado Editora, 2015, 457 pp. ISBN: 978-989-51-3835-7.
Eduardo Ferreira

[Recensão a] FERNÁNDEZ PALACIOS, Fernando, Assurbanipal: un rey asirio ilustrado, Cuenca, Editorial Alderabán, 2014, 184 pp. ISBN: 9-788495-414564.
Luís Araújo

[Recensão a] INGLEHEART, Jennifer (ed.), Ancient Rome and the Construction of Modern Homosexual Identities, Oxford, Oxford University Press, 2015, 358 pp. ISBN: 9780199689729.
Nuno Simões Rodrigues

[Recensão a] MARTINS, Luísa Fernanda Guerreiro, Contributos para a História da Alimentação Algarvia a partir das atas de vereação de Loulé (1384‑1488), Faro, Direção Regional de Cultura do Algarve, 2016, 143 pp. ISBN: 978-989‑99521‑6‑4. 
Maria de Carvalho Homem

[Recensão a] MILLER, Olivier; SANCHI, Luigi‑Alberto, Paris, carrefour culturel autour de 1500, Paris, PUPS, 2016, 324 pp. ISBN: 979­‑10­‑231­‑0523­‑0.
Maria José Lopes

[Recensão a] NANCY, Claire, Euripide et le parti des femmes, Paris, Editions Rue d’Ulm, 2016, 176 pp. ISBN: 978‑2‑7288‑0553‑2. 
Maria de Fátima Silva 
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Atlantís
http://impactum-journals.uc.pt/atlantis

Descobertas ou Descobrimentos - Prós e Contras - Debates - RTP

Descobertas ou Descobrimentos - Prós e Contras - Debates - RTP  (programa em que participei ontem)

CIÊNCIA AO LUAR EM COIMBRA

Do "Diário de Aveiro" de hoje:

VERÃO O Rómulo - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra (UC) promove actividades até Setembro  para fomentar o conhecimento junto da população e dos turistas que visitam a cidade.

Deste modo, “Água na História” é o tema da primeira tertúlia do ciclo “Ciência ao Luar (por este rio acima)” que se realiza hoje, pelas 21 horas, na esplanada do Café Santa Cruz, na Baixa de Coimbra. Álvaro Garrido, docente de Economia da UC, e João Filipe Queiró, professor catedrático de Matemática da UC, são os convidados de hoje.

A próxima sessão de “Ciência ao Luar”, intitulada “Água na Arquitectura e na Engenharia”, está marcada para o próximo dia 24, igualmente pelas 21 horas, na esplanada do Café Santa Cruz. Terá como convidados o arquitecto João Paulo Cardielos e a engenheira civil Maria da Conceição Morais de Oliveira e Cunha.

“Ciência ao Luar” regressa a 4 de Setembro com o tema “Água no Turismo, ecologia e economia” e encerra a 11 de Setembro com “Água na Biologia e na Medicina”, com João Carlos Marques, do Departamento de Ciências da Vida da UC e o médico Vítor Rodrigues.

 “Ciência ao Luar” faz parte das actividades estivais de divulgação científica para toda a família, no âmbito do Ciência Viva no Verão em Rede 2018, que decorrerão até 15 de Setembro. O programa deste ano é, pela quarta vez, promovido pela Rede Nacional de Centros Ciência Viva, constituída por 20 centros localizados um pouco por todo o país, em parceria com a Ciência Viva.

Igualmente na esplanada do Café Santa Cruz decorre, na segunda quinzena de Julho e primeira de Setembro, o ciclo “Ciência na Rua”, entre as 10.30 e as 13 horas. “Forma e volume da água - vamos medir o líquido”, “Em cima, no meio ou no fundo? Bolhas flutuantes; pilhas de líquidos, vamos misturar?”, “Cuidados com o Sol”, “Magia dos Sons” e “Eu não vejo: será que existe” são os temas de algumas das iniciativas de “Ciência na Rua”, que pretende levar o conhecimento às famílias (pequenos e graúdos) e aos turistas que passam na Baixa e se interessam por aqueles e outros temas da Ciência.

Numa conferência de imprensa realizada ontem de manhã na esplanada do Café Santa Cruz foram ainda anunciadas outras iniciativas. “Ciência no Jardim”, no próximo dia 23 e a 10 de Setembro, pelas 18 horas, com leitura de contos na Casa de Chá do Jardim da Sereia; “Ciência na Fonte”, no próximo dia 25 e a 12 de Setembro, às 10 horas, no Jardim da Sereia, com actividades desenvolvidas pelo Centro de Investigação da Terra e do Espaço da UC; e “Ciência no Museu”, amanhã e a 12 de Setembro, pelas 15.30 horas, com visitas ao Museu da Água de Coimbra e actividades, são algumas das iniciativas que se irão realizar.

Entretanto, em Agosto, “Ciência no Museu” vai até ao Museu da Ciência da UC, a 21, 23, 28 e 30. |

segunda-feira, 16 de julho de 2018

ÁLVARO GARRIDO E JOÃO QUEIRÓ EM TERTÚLIA NO CAFÉ SANTA CRUZ DE COIMBRA SOBRE "ÁGUA NA HISTÓRIA"


Ciência ao Luar (Por este rio acima) - Conjunto de Tertúlias sobre o tema "Água" 💧💦 realizadas à noite na esplanada do Café Santa Cruz na baixa de Coimbra. 🌃🌜

Dia 17, terça-feira, das 21h às 22h  - "Água na História" com Álvaro Garrido (Faculdade de Economia da UC) e João Filipe Queiró (Facu.

PARTICIPAÇÃO LIVRE E GRATUITA
Sem Inscrição.

Café Santa Cruz: http://www.cafesantacruz.com/

*Actividade realizada no âmbito do programa CIÊNCIA VIVA NO VERÃO EM REDE☀️️🌡promovido pela Ciência Viva - Agência Nacional para a Cultura Científica e Tecnológica, que leva a Ciência à rua com centenas de acções de participação gratuita em todo o país, organizadas por centros ciência viva, instituições científicas, autarquias, empresas e associações científicas, a decorrer de 15 de Julho a 15 de Setembro.

sexta-feira, 13 de julho de 2018

CANTATA DE BACH NA APRESENTAÇÃO DO LIVRO "POÇÕES E PAIXÕES" DE JOÃO PAULO ANDRÉ NO RÓMULO

No próximo dia 20 de Julho, sexta-feira, pelas 21h30, realizar-se-á no Rómulo. - Centro Ciência Viva da Universidae de Coimbra, situado no R/C do Departamento de Física da Universidade de Coimbra, na Rua larga, na Alta da cidade,  uma sessão de apresentação do livro de João Paulo André (professor de Química da Universidade do Minho formado na Universidade de Coimbra) "Poções e Paixões. Química e Ópera", que foi há pouco publicado na colecção "Ciência Aberta" da Gradiva. O livro será apresentado por Sérgio Rodrigues (professor de Química na Universidade de Coimbra e autor do livro "Jardins de Cristais", publicado na mesma colecção) e Filipa Lã (soprano e investigadora na área da música no Centro de Estudos Sociais de Coimbra).

 O evento, introduzido por Carlos Fiolhais (director da colecção "Ciência Aberta"), será abrilhantado pela execução da cantata de Johann Sebastian Bach "Jauchzet Gott in Allen Landen". BWV 51, por um ensemble de alunos do Conservatório de Música de Coimbra dirigido pelo professor Manuel Costa.

 No fim haverá possibilidade de obter a obra autografada pelo autor. A entrada é livre. São benvindos todos os que se interessam por ciência ou música e, ainda mais, quem se interessar pela combinação  das duas.

BREVE NOTA SOBRE A NOMEAÇÃO DE SOFIA PORTELA PARA PRESIDENTE DA ADSE

De surpresa, foi nomeada hoje presidente da ADSE (até 2020) Sofia Lopes Portela. Ontem, enviei para o "Diário as Beiras" um novo artigo de opinião sobre a ADSE, reiterando o meu repúdio sobre a forma desumana como a gestão anterior da ADSE "expulsou" indivíduos casados com respectivos beneficiários enviando velhos e doentes para uma espécie de antecâmara da morte. Porque "o homem livre é aquele que não recua ir até ao fim da sua razão", como escreveu  Jules Renard,  será ele  aqui reproduzido, logo que publicado, por  depositar (alguma) esperança na recém-nomeada.

HUBERT REEVES EXPLICA I UNIVERSO EM BANDA DESENHADA

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Há que acabar com a lógica torneira aberta ou fechada na contratação científica


Meu artigo de opinião hoje no Público:

É meritória a iniciativa de alterar o panorama de abuso das bolsas de investigação científica que prevalece há décadas em Portugal. Por muitas confusões que essa transição possa gerar, é incomparavelmente melhor fazer alguma coisa para alterar isso do que não fazer nada. A actual tutela da ciência e os deputados da Assembleia da República merecem ser creditados por essa iniciativa, que é uma nova política para a ciência em Portugal. Trocar bolsas para doutorados por contratos de trabalho, mesmo que a prazo, é o patamar mínimo de decência neste momento.

Muitos dirigentes das instituições têm oferecido enorme resistência a este pacote de medidas. As instituições estão viciadas em bolsas e habituadas a planear as suas actividades tendo como referência o custo dos bolseiros. Foi o baixo custo das bolsas que permitiu o necessário e rápido crescimento do sistema científico em Portugal. Mas um contrato de trabalho a que corresponda o mesmo valor líquido de uma bolsa custa o dobro a quem paga, porque incorpora os custos da proteção social dos trabalhadores. As instituições e o país têm de assumir que custa mais contratar um investigador doutorado do que custava: custa o dobro. E isso é justo.

Na recente legislação de estímulo ao emprego científico persiste uma lógica de torneira aberta / torneira fechada, que tem pautado a contratação científica em Portugal (não é de agora). Há alturas em que estão abertos concursos e contratam-se 2000 ou 3000 pessoas. Depois a torneira fecha e passam-se cinco ou dez anos sem que se contrate praticamente ninguém, por muita competência que tenham os potenciais candidatos. Isso é seleccionar com base na data de nascimento. O ideal seria que as oportunidades de contratação fossem regulares: por exemplo 300 ou 400 pessoas por ano, todos os anos, sem interrupções. Claro que neste momento, tendo em conta a acumulação de doutorados em bolsas, com legítimas aspirações a um contrato de trabalho, se torna difícil dizer “vocês são 5000, mas só vão ser abertos 300 lugares porque temos de pensar nas oportunidades das pessoas que estão agora a iniciar um doutoramento”. Esse tipo de opção implicaria deitar para fora do sistema científico milhares de pessoas no presente (como aliás, tem acontecido) de modo a salvaguardar oportunidades para os doutorados do futuro. Não é fácil a transição de um sistema de torneira aberta e fechada para um sistema de rega contínua gota a gota.

Passar a generalidade das bolsas de pós-doutoramento a contratos de trabalho tem um mérito indiscutível. Mas é fundamental a transição para um sistema de contratação regular e não de enxurradas de contratos imprevisivelmente espaçadas. E isso deve obviamente incluir concursos para a entrada nos quadros das instituições, que sejam verdadeiramente abertos e não feitos a piscar o olho a um candidato específico.

quarta-feira, 11 de julho de 2018

ALFREDO CAMPOS MATOS: 90 ANOS

Artigo do ensaísta Eugénio Lisboa, publicado no "Jornal de Letras" que se transcreve com todo o gosto: 

Nascido em 1928, na Póvoa de Varzim, Alfredo Campos Matos viria a licenciar-se em Arquitectura, pela Escola Superior de Belas Artes do Porto, sendo a sua primeira obra o estúdio da casa do seu pai, na Póvoa de Varzim. Publica, em 1959, Algumas Considerações sobre Problemas da Arquitectura Contemporânea.

Autor de vários projectos que revelam um profundo conhecimento das grandes linhas de inovação da arquitectura contemporânea, ACM vai, em 1960, para Lisboa, onde trabalhará, até se reformar, na Direcção Geral da Urbanização, ocupação que, segundo Siza Vieira, “além de ter proporcionado ao projectista uma formação complementar abriu a CM novas oportunidades e permitiu-lhe viajar repetidamente e visitar, por exemplo, as chamadas «new towns» da Finlândia à Inglaterra”.

O futuro grande queirosianista não foi, portanto, um mero turista superficial, no campo da arquitectura, pelo contrário, foi um arquitecto empenhado, profundamente actualizado e actuante. Mas, muito cedo, a leitura do romance A Relíquia, de Eça de Queirós, o deslumbraria e o chamaria para essa “segunda profissão” de estudioso queirosiano, que nunca mais abandonou.

Biógrafo, analista, divulgador de imagens e de correspondência, ensaísta arguto, caçador de minúcias mais ou menos despercebidas do leitor desatento, CM, como bom e obstinado biógrafo, quis conhecer tudo. Dizia Lord Francis-Williams que “nem todos os segredos do coração humano são conhecidos dos biógrafos oficiais.” Campos Matos, até porque não é um “biógrafo oficial”, quis conhecer todos os segredos da alma do criador de Os Maias – e nisso, esforçadamente, se tem empenhado.

Trabalhador infatigável, amante da claridade e da simplicidade (que se conquista à custa de muito trabalho), Campos Matos tem dedicado ao opus queirosiano um inquirir lúcido e apaixonado, que acabou por frutificar numa vasta e sedutora bibliografia. Numa carta a Alberto d’Oliveira, Eça louvava, no bom estilo, as qualidades de “precisão, limpidez e ritmo que são qualidades da razão e das melhores”.

Foram estas qualidades que, desde muito cedo, seduziram o biógrafo Campos Matos, ao deparar-se com as obras do grande romancista. E foram também estas qualidades, penso eu, que porventura o terão atraído para outra das suas grandes “fixações”: António Sérgio, a quem dedicou atenção minuciosa e, além de uma Bibliografia publicada na Revista de História das Ideias, da Faculdade de Letras, de Coimbra (1983), um interessante e útil Diálogo com António Sérgio, também em 1983, com uma segunda edição aumentada, em 1989.

Por outro lado, CM chama, com grande eloquência, a atenção dos leitores para o ensaio de António Sérgio, “Notas sobre a imaginação, a fantasia e o problema psicológico-moral na obra novelística de Queiroz”, nestes termos: “Desde já afirmo que nada li de tão belo, tão inteligente e de tão original, dentre os milhares de páginas que me foi dado ler dos comentadores do autor do Padre Amaro.”

 Do seu vasto labor é difícil seleccionar as obras fundamentais, tantas são elas: desde o primeiro livro – Imagens do Portugal Queirosiano (1975) -, passando pelo monumental e preciosamente útil Dicionário de Eça de Queiroz, de 1988, com uma terceira edição em 2015, pela imprescindível Correspondência Emília de Castro – Eça de Queiroz (1995), que, para sempre, demoliu a lenda do “mariage de raison”, pela colectânea Sobre Eça de Queiroz (2002), pela Fotobiografia, de 2007, pela edição, em dois volumes, da Correspondência (2008), até chegarmos, por fim, à excelente Eça de Queiroz – Uma Biografia, de 2009, com uma 3.ª edição em 2017 e uma edição brasileira em 2014.

Depois da biografia de Gaspar Simões, de 1945, a de Campos Matos é, fora de qualquer dúvida, a mais importante que, entre nós, se publicou, corrigindo, com bom acervo de provas, alguns erros flagrantes da obra de Simões. Sobre as outras biografias que entre nós se têm publicado, dedicadas ao autor de O Primo Basílio, será também proveitoso – e mansamente capitoso – ler o livro de CM 7 Biografias de Eça de Queiroz (2008), com uma edição francesa do mesmo ano.

É curioso verificar-se como CM está sempre a voltar a pontos da biografia, para os retomar, os acrescentar, os aprofundar ou melhor esclarecer. É como se a biografia nunca estivesse definitivamente terminada e houvesse sempre que a melhorar e tornar mais rica e mais clara. Um simples olhar para a sua bibliografia nos elucida a este respeito. O próprio CM, numa passagem do seu artigo “Algumas notas acerca de Eça de Queiroz – Uma Biografia”, do seu último livro 94 Reflexões sobre Eça de Queiroz e Outros Escritos, observa: “Uma biografia é um género difícil, sempre em aberto e exige do autor um conhecimento tanto quanto possível integral do biografado e da sua obra.”

CM, apesar de uma bibliografia vasta e exaustiva, dedicada ao mago de A Cidade e as Serras, considera todo o seu labor “em aberto”, estando sempre pronto para mais um artigo, um folheto, um livrinho esclarecedor. Até porque considera Eça, curiosamente, um autor “difícil”, na medida em que a limpidez e simplicidade do seu estilo podem induzir no leitor uma involuntária desatenção a riquezas escondidas mas essenciais.

A acção de promover a obra e a personalidade do autor de A Capital não se circunscreveu, em CM, ao acto de escrever e publicar obras essenciais a uma leitura melhor e mais esclarecedora dos livros do Mestre. CM desempenhou tarefas importantes, como por exemplo:
- Foi membro do Conselho Cultural da Fundação Eça de Queirós. - Fez o inventário do Património da Casa de Tormes.
- O Instituto Camões chamou-o a colaborar nas celebrações por ocasião do Centenário da morte do escritor. Produziu então uma exposição itinerante intitulada Eça de Queirós – Marcos Biográficos e Literários (1845-1900), com o respectivo catálogo, tendo também escrito o guião do vídeo-filme Eça de Queirós, Realidade e Ficção.

De entre as obras ultimamente publicadas, CM salientaria, como de sua particular preferência, o Diário Íntimo de Carlos da Maia, que congeminou atribuir ao protagonista de Os Maias e que teria sido supostamente redigido após os acontecimentos relatados no romance de Eça. “… pus nesta obra”, observa CM, “«tudo o que tinha no saco», do que resultou uma enorme quantidade de informação não despicienda, onde convoquei nomes como Tolstoi, Balzac, Romain Rolland, Charcot, Flaubert, Maupassant, Proust, Martin du Gard, Ruskin, Stefan Zweig, Axel Munthe, Freud e vários outros autores nacionais.”

Obra substancial, CM “deu-lhe” realmente tudo quanto tinha a oferecer, atribuindo a autoria disso ao personagem de Eça. Justifica assim o feito:
“Ao cabo de quase noventa anos de vida, a memória vai-se enchendo e enriquecendo de múltiplas leituras, viagens, histórias, filmes, acontecimentos vividos, por mim e por outros, que nos acodem ao pensamento, já depurados pelo tempo, que desejo transmitir como experiência de vida. Pude convocar com pertinência Eça pois continuo a viver dentro dele, como costumo dizer, lendo-o e lendo tudo o que sobre ele se publica.” 
O Diário Íntimo seria, pois, uma súmula de vida que CM transferiu, generosamente, de si para o protagonista do grande romance de Eça. Nele nos propõe, entre muitas outras coisas, aquilo que é a última (?) palavra sobre alguns temas queirosianos, alguns frequentemente tratados anteriormente e aqui retomados para um “statement” final (final?).

Pensar-se que toda a profunda e fecunda actividade desenvolvida por CM está terminada é desconhecer a massa de que é feito este estudioso arguto e incansável. Com ele, está tudo sempre “em aberto”, para mais alguma incursão, para mais alguma sugestão, para mais alguma tentativa de acrescentar, melhorar, esclarecer.