segunda-feira, 18 de março de 2019

A MÚSICA DOS PLANETAS


Resumo da minha intervenção antes da Orquestra Metropolitana de Lisboa (formação de percussão) interpretar os "Os Planetas" de Gustav Holst. É já amanhã, 19 de Março, 14h30,  no Instituto Politécnico de Leiria e na próxima semana em Beja e Faro, nos dias 28 e 29 de Março:

No século XVII o astrónomo Kepler falou da “música das esferas”, procurando ligações entre a arte musical e os planetas do sistema solar, mas a música e os astros nunca estiveram tão perto como em “Os Planetas,” a suíte em 7 andamentos que é a mais célebre composição do inglês Gustav Holst (1874-1934). Escrita durante a 1.ª Guerra Mundial, entre 1914 e 1916, o seu motivo são os 7 planetas do sistema solar conhecidos na época, além da Terra (Plutão, descoberto em 1930, foi planeta até 2006, quando foi relegado para planeta anão). A estreia da composição, para uma audiência privada, ocorreu em 29 de Setembro de 1918, no Queen’s Hall, em Londres, a lendária sala que haveria de ser destruída na 2.ª Guerra Mundial, mas a primeira execução pública foi há cem anos, em 27 de Fevereiro de 1919. As composições de Holst, influenciadas por autores seus contemporâneos como Stravinsky e Schoenberg, são associados ao modernismo: Tal como as pinturas de Kandinsky, procuravam distanciar-se de formas clássicas de beleza. A harmonia é, nas peças de música modernistas, toldada pela dissonância, transmitindo emoções de um modo forte e por vezes surpreendente.

A abordagem musical de Holst aos planetas teve raízes na astrologia e não na astronomia.  Segundo a astrologia, os planetas, que exercem supostas influências sobre os seres humanos, estão associados a certos traços  psicológicos.  A música procura ilustrar esses traços. O 1.º andamento é Marte, o “mensageiro da guerra”, o 2.º é Vénus, o “mensageiro da paz”, o 3.º Mercúrio, o “mensageiro alado”, o 4.º Júpiter, o “mensageiro da alegria”, o 5.º Saturno, o “mensageiro da velhice”, o 6.º Urano, o “mágico”, e o 7.º Neptuno, o “místico”. Alguns dos temas são tão expressivos que bandas de rock tocaram adaptações de “Os Planetas”, John William escreveu a banda sonora de Star Wars bebendo nessa fonte, e o andamento sobre Marte foi usado por Carl Sagan na sua famosa série Cosmos.

Hoje, após termos enviado diversas sondas a todo o sistema solar, sabemos muito mais sobre os planetas do que se sabia no tempo de Holst. Mas a sua poderosa música continua merecedora da nossa atenção,  já que as emoções veiculadas pela arte são intemporais.

O Eclipse Solar de 1919: as expedições científicas e as observações feitas em Sobral



Palestra no Rómulo no dia 2 de Abril, pelas 18h, por Ildeu de Castro Moreira, Instituto de Física - UFRJ, Brasil (na imagem equipamento usado):



Neste ano se comemora em todo o mundo o centenário das observações astronômicas feitas no eclipse solar de 29 de maio de 1919. As medidas da deflexão da luz das estrelas na borda do Sol constituíram uma confirmação importante da Teoria da Relatividade Geral de Einstein. As observações decisivas foram feitas por astrônomos britânicos em Sobral e na Ilha do Príncipe. Nesta palestra discutiremos a primeira tentativa feita no Brasil, em 1912, para se medir este efeito durante um eclipse solar.  Depois comentaremos sobre os preparativos, feitos em Sobral, para a observação do eclipse pelas comissões britânica, brasileira - que fez observações sobre a corona solar - e norte-americana - que realizou medidas do magnetismo terrestre e de eletricidade atmosférica. Em seguida, analisaremos como ocorreram as observações em Sobral, no dia 29 de maio, e os resultados referentes à deflexão da luz da luz obtidos pela comissão britânica e anunciados em novembro de 1919. Finalizaremos com uma discussão sobre a repercussão destes resultados no Brasil para a aceitação de Teoria da Relatividade Geral e para o reconhecimento de Einstein como cientista. Quando esteve no Rio de Janeiro, em 1925, Einstein escreveu a seguinte frase para os jornais: “O problema concebido pelo meu cérebro incumbiu-se de resolvê-lo o luminoso céu do Brasil.”

OS LIVROS COMO MÁQUINAS DO TEMPO

MInha apresentação em powerpoint no encontro de professores bibliotecários em Albergaria a Velha:
https://padlet.com/isabel_nina/princesasedragoes19

HOJE NO RÓMULO A NÃO PERDER: "DO INVENTOR DE ALDOAR À BUSCA DE VIDA NO UNIVERSO"


SOBRE O LIVRO:

  Um livro concebido para a famí­lia e alguns amigos, e que estes, dado o seu evidente interesse, empurraram para a publicação. Entre o relato í­ntimo da juventude, avivado com memórias da Vilarinha (Aldoar), e a conquista espacial, de que o autor foi e é também actor, colorido com o céu dos Estorninhos, um relato apaixonante que se lê dum fôlego.

OLHAR A CHINA, A PERSISTÊNCIA DA IGNORÂNCIA

Texto de Guilherme Valente saído no SOL de sábado passado: 

«Sempre acreditei que a China só poderia mudar pouco a pouco. 
Hoje dou-me conta de como foi rápida e brutal [abrupta] a transformação (...)
Não estou a falar dos penteados das raparigas, 
mas das mentalidades e comportamentos». 
Jia Zhang-Ke
Nunca na história um país mudou tanto, experimentou tantos modelos políticos, tão rapidamente. “Não interessa a cor do gato, é preciso é que apanhe ratos”, disse Deng. Mas persiste na generalidade dos comentários uma visão da China como ‘a China de Mao’. Estaríamos mesmo hoje perante a instalação de um novo déspota e, quiçá, na iminência de uma nova Revolução Cultural. Xi Jiping um novo Mao? 
Bastaria uma informação mínima, inteligência comum, um olhar mundano, para se concluir da evidência do disparate. Vejamos o básico. Desde 1956, da ‘Revolução das Cem Flores’ (peripécia sangrenta a propósito da qual Mao, evocando Qin, o seu modelo, que enterrara vivos 460 letrados, se gabou de ter mandado matar 100 vezes mais intelectuais), que os líderes e os intelectuais chineses mais esclarecidos tentaram neutralizar o que começava a tornar-se ‘o Grande Timoneiro’. 
Um ‘timoneiro’ que, num crescente delírio de poder pessoal que nunca foi possível conter, conduziria à morte milhões de seres humanos, deixando o país em cinzas. Delírio, convém não esquecer, que a imensa generalidade da inteligência europeia e caseira celebrou como anúncio redentor de um radiante e definitivo ‘mundo novo’. 
O episódio Liu Shao Chi foi a tentativa que esteve mais perto do sucesso nessa determinação de afastar Mao. Mas a genialidade táctica deste, a sua total ausência de lealdade e de escrúpulos no uso dos meios mais cruéis, a adoração do povo que o identificava como o imperador que libertara a China dos monstros estrangeiros devoradores (ver o filme recente A Grande Muralha), garantiu-lhe o regresso e catalisou-lhe a loucura – já então, repito, absolutamente clara para a elite política e intelectual chinesa. 
As manifestações dessa loucura foram inúmeras, tantas quantas as exaltações de louvor no Ocidente. Só o seu fim natural o neutralizou, em Setembro de 1976, entre um eclipse do Sol e um grande sismo, como era milenarmente assinalada cosmicamente a morte dos grandes imperadores... 
Uma manifestação reveladora da índole de Mao e do então louvor dionisíaco no Ocidente (e caseiro) é uma confissão despudorada do déspota feita numa entrevista a Edgar Snow. Confissão que, no seu limitadíssimo conhecimento da língua e da cultura chinesas, este traduziu assim: «Sinto-me como um bonzo careca a passear à chuva com um guarda-chuva cheio de buracos». O leitor está a imaginar o orgasmo que tal metáfora induziu nos crentes caseiros e europeus! Pois, mas a questão é que se tratava de uma expressão idiomática chinesa, ignorada por Snow, que significa: «Sou um homem sem fé nem lei»! (1) 
Mas essa é muitas outras lições não impediram que se continuem hoje a debitar asneiras de igual calibre sobre a China. A partir da consolidação da liderança de Deng Xiaoping, o objectivo maior foi precaver a emergência de um novo Mao e a possibilidade de algo que sequer lembrasse a Revolução Cultural. Probabilidade então fortíssima. Todos os actuais líderes chineses ou seus familiares sofreram o inaudito na Revolução Cultural. Sabe-se o que Deng várias vezes teve de suportar, o filho atirado de uma janela da universidade por um bando de libertadores guardas vermelhos. Guardas vermelhos então cantados entre nós por muitos dos especialistas que hoje anunciam temer um novo Mao. 
Inúmeros quadros nos diversos níveis da Administração chinesa de hoje sofreram na pele a Revolução Cultural. Conheci alguns deles. E foi para afastar naquele período crítico a possibilidade de algum propósito ou ilusão de regresso à tirania que surgiu, entre outras, a medida – singular na História – do impedimento de os ex-Presidentes da República e dos ex-primeiros-ministros voltarem a poder exercer, depois de dois mandatos, qualquer cargo oficial no governo da China. 
No espírito da concepção chinesa da História, informada pela visão ética-cosmológica que distingue radicalmente o pensamento chinês, identificado o ‘momento’ (shi 2) – que na concepção chinesa não é o instante ocidental mas ‘duração’ (2) – e decidida a ‘propensão’ (shi 4), isto é, a ocasião adequada para a intervenção humana (que não perturbe a ordem cósmica das coisas), essa solução foi então pragmaticamente considerada como a que devia ser adoptada. 
E por que foi ela agora alterada, no último Congresso do (também explicavelmente) chamado PCC? Xi Xiping é o autor necessário escolhido para interpretar, externa e internamente, o novo acto, a nova etapa no processo de ‘rejuvenescimento’ da China (3). Objectivo traçado desde antes de 1911, de cuja concretização os grandes intelectuais e líderes políticos chineses nunca duvidaram. Acto escrito e a ser representado, com rigor e cuidado, com o pragmatismo milenar. Etapa já anunciada por Deng para quando... a ‘propensão’ permitisse o seu êxito. 
Quando leio ou ouço os nossos maoístas arrependidos e sucedâneos a falarem sobre a China, sinto-me frequentemente como o Asterix se sentiria a ouvir a Sinfonia n.º 1 para Violino e Orquestra de Tchaikovsky executada pelo bardo da aldeia. 
Guilherme Valente 
NOTAS: (1) Contado por Simon Leys. (2) ‘Estruturação’, ‘estação’, no ciclo do devir das ‘coisas inumeráveis’, determinada pelo jogo dos cinco agentes cósmicos nucleares e das virtudes associadas a cada um deles. (3) Expressão usada desde 1911 por todos os PR chineses na sua tomada de posse. associadas. (4) Expressão usada desde 1911 por todos os PR chineses na sua tomada de posse.

sábado, 16 de março de 2019

Quando a paciência dos mais novos se esgota

Foi publicado há poucos dias o sexto Relatório da Assembleia da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre o estado do Ambiente - Global Environment Outlook (2019) - que serviu de base a mais uma das suas reuniões.

Nele se "convidam os decisores a tomar medidas imediatas para abordar questões ambientais urgentes, de forma a alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, bem como outros objetivos ambientais acordados internacionalmente, tal como o Acordo de Paris. O GEO 6 baseia-se nos resultados de relatórios (GEO) anteriores, incluindo as seis avaliações regionais (2016), descreve o estado atual do ambiente, ilustra possíveis tendências ambientais futuras e analisa a eficácia das políticas" (ver aqui).
No respeitante à educação, afirma-se ter havido um progresso significativo na concretização de alguns desses objectivos, mas sublinha-se que é preciso reforçar, à escala global, o papel dos sistemas formais de ensino bem como a educação não formal, usando, nomeadamente os media.

Imagem recolhida aqui
Como se sabe, bastante à margem das múltiplas e infindáveis discussões e negociações entre políticos, empresários, agências e organizações de diversas tendências, cujos resultados são, no mínimo desanimadores, jovens de 123 países fizeram, nesta semana que acabou, greve às aulas para se manifestarem nas ruas contra a falta de medidas efectivas destinadas a parar a destruição do mundo por aqueles que têm poder para as tomar..
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Não vou dizer que tenha sido a "educação para o ambiente", tal como está integrada nas orientações curriculares para a "educação para a cidadania", a surtir efeito nesta pró-actividade dos mais novos, até porque nela se foram infiltrando grandes empresas poluidoras, que fazem parte do problema e não da solução. Mas arrisco dizer que há aqui subjacente um trabalho consistente de muitos professores, que aliado a uma certa comunicação social, têm criado naqueles que as gerações mais velhas deviam proteger a necessidade de reagir como se fosse a eles que coubesse essa tarefa. Esta é, na verdade, uma lição para os adultos.

Nota: A este propósito vale a pena ler o artigo de António Guterres, Secretário Geral da ONU, publicado ontem no jornal The Guardian.

A propósito da redução do tempo lectivo da disciplina de História nas escolas portuguesas



Imagem recortada daqui.
Tanto o Grego como Latim, por esta ordem, praticamente desapareceram do sistema de ensino público português. Apenas a resistência e dedicação de um pequeno grupo de professores de Clássicas permite manter um número residual de turmas a funcionar com um pequeno número de alunos.

As Artes é o que se sabe, ainda que muito debatidas e elogiadas, a sua expressão efectiva no currículo não é mais do que exígua, sobretudo se perspectivadas na continuidade do primeiro ciclo ao secundário.

A História está, agora, em debate, porém, a situação da Geografia não augura nada de bom e a Filosofia, parecendo que não, está por um fio.

A vontade de retirar do currículo certas disciplinas é manifesta e teve iguais avanços noutros países ocidentais.

Esta é, no entanto, a face mais visível do problema. Há uma outra face que tende a passar despercebida: a redução acentuada dos conteúdos. E em todas as disciplinas, incluindo as de Ciências. Estas poderão manter-se, mas os conteúdos menos úteis, funcionais, práticos desaparecem.

Na sequência de texto anterior (aqui) e de outros que tenho publicado neste blogue, a questão não está num privilégio especial das Ciências em relação às Humanidades, em termos de presença no currículo escolar (na disputa que daí emerge as Artes nem sequer são lembradas), a questão está em expugnar desse currículo tudo aquilo que não cabe na estreita visão do core curriculum, estabelecido em finais do Século XX nos Estados Unidos da América e, depois, adoptado como referência internacional.

Tal core, traduz-se numa tríade de competências (da Língua materna, da Matemática e das Ciências), susceptíveis de permitirem resolver problemas do quotidiano. Esta é, como os leitores saberão, a essência do Programa Internacional da Avaliação dos Estudantes (PISA), que tem sido um instrumento decisivo para concretizar o "alinhamento curricular", a uma escala muito global.

Acontece que certas competências que gravitavam à volta do core, e que contribuiriam para o propósito acima mencionado, estão, rapidamente, a tornar-se o seu núcleo. São as ditas competências "afectivas e emocionais", que dão corpo à componente curricular de "educação para a cidadania", ingrediente principal da "receita" que permite preparar "capital humano" para o "mercado de trabalho", ou, numa versão mais empolgada, de preparação do "capital humano capaz de ter sucesso no mercado de trabalho".

Se nas nossas reformas de 2001 e de 2011/12 essa tendência, imposta a um nível supranacional, já era bem visível, nesta, de 2016/17, é perfeitamente clara: o Projecto de Autonomia e Flexibilidade Curricular é a sua concretização. As roupagens "humanistas" que reivindica são, na verdade, uma mistificação (de resto, pouco conseguida, pois, ao primeiro olhar ela torna-se evidente).

Voltando à "educação para a cidadania", que, neste momento, integra pelos menos dezassete áreas: sendo obrigatória no ensino básico e secundário, tornou-se disciplina ("Cidadania e desenvolvimento") nos 2.º e 3.º ciclos do ensino básico. Ora, não tendo (felizmente) sido aumentado o horário lectivo e podendo as escolas, por recomendação da OCDE, gerir 25% do currículo, a opção seguida foi de retirar tempo a disciplinas consagradas em favor da nova disciplina. Segundo dados recolhidos através de questionário pela Associação de Professores de História, a História tem sido uma das disciplina mais sacrificada, não sendo a única.

Estando em causa não só a formação dos alunos, mas também lugares de professores, a questão tornou-se notícia, em jornais de primeira linha, como o Expresso, que aqui citamos. Miguel Monteiro de Barros, presidente da dita Associação diz que a situação é desoladora:
“Na generalidade verifica-se uma redução de 45 ou de 50 minutos por semana em cada um dos ciclos de ensino, incluindo no secundário. Casos há em que a redução é ainda maior”.
Se nada se fiz de substancial, a História, a Geografia, a Filosofia, desaparecerão, a breve trecho, tal como tem acontecido com o Grego e o Latim. E as restantes continuarão a ter cortes.

Lamento muitíssimo dizer o que se segue, e espero estar completamente enganada, mas não acredito que, a breve trecho, se faça alguma coisa. Explico-me em três razões:
1) As "orientações" internacionais (que os países adoptam e tornam lei) valorizam, acima de tudo, as tais "competências de cidadania", que, repito, se estão a tornar o núcleo do currículo escolar. Apenas um exemplo: Andreas Schleicher, o mais alto representante da OCDE para a educação, reafirmou recentemente, em Portugal, que são as competências como a adaptabilidade, a autorregulação, a comunicação, o pensamento criativo, a resiliência e/ou a resolução de problemas que, no futuro, hão-de fazer a diferença no sucesso dos adultos do futuro” (aqui). 
2) A multiplicidade de agentes sociais que se tornaram parceiros educativos na Estratégia de Educação para a Cidadania, ainda que com diferentes intenções, não estarão dispostos a abdicar do acesso directo aos alunos, professores e famílias, que se lhes abriu. Consta em documento curricular: “É desejável que as escolas (...) estabeleçam parcerias com entidades externas. A título de exemplo identificam-se e recomendam-se (...): Instituições de ensino superior e centros e redes de investigação; Associações juvenis; ONG; Autarquias e seus órgãos (...); Serviços públicos de âmbito local, regional e nacional; Grupos de cidadãos/ãs organizados/as, tais como grupos de voluntariado; Meios de comunicação social; Empresas do sector público e privado”. E, mais adiante: é preciso "realizar-se um trabalho em rede entre escolas e stakeholders” (aqui, p.14) 
3) A sociedade, que somos todos nós, acha muito bem que a escola mude, que inove, que deixe de transmitir conhecimentos teóricos, abstractos, descontextualizados, porque isso não faz as crianças interessar-se por ela, nem as prepara para a vida, para o futuro, para o emprego, para o sucesso. Em paralelo sempre que se detecta um problema que não sabe ou não quer resolver imputa a responsabilidade à escola: a violência no namoro, os problemas de ecologia, a alimentação, a sexualidade, etc, etc, etc. tudo tem de ser tratado na escola, não integrado nas disciplinas mas à parte delas, orientado, trabalhado e controlado por esses tais agentes sociais.
Com isto não estou a desvalorizar a iniciativa da Associação de Professores de História, bem pelo contrário, entendo que seria desejável a união das diversas associações de professores num problema que, insisto, é comum; o que quero dizer é que as três razões que indiquei são, na verdade, de grande peso e que a sua superação, a ser conseguida, implicará, antes de mais, consciencialização e muito empenho, o não se faz de um momento para o outro.

sexta-feira, 15 de março de 2019

(Ep. 52) "Sobre as cores e outros tratados pseudoaristotélicos"

"Poeira das estrelas"

ALBERTO DE LACERDA


Do académico e ensaísta Eugénio Lisboa, meu amigo de longa e frutuosa data, personalidade que tem honrado o DRN com o envio de diversos ensaios, recebi mais este texto que ora se publica com o prazer de sempre: 
“Sou parte da luz que contemplo”. 
"Em boa hora Luís Amorim de Sousa, infatigável obreiro da imagem póstuma de Alberto de Lacerda, organizou, para Pedro Mexia, da Tinta da China, a bela e substancial antologia de poemas daquele poeta, a que deu o sugestivo e adequado título de Labareda. 
Notabilíssimo poeta, nascido em Moçambique mas tendo vivido a maior parte da sua vida em Londres – com períodos “americanos” em Austin (Texas) e Boston – Alberto de Lacerda tem andado, como poeta, bastante esquecido. 
Tentei, nos anos oitenta do século passado, reacender o interesse pela obra deste grande poeta, pondo-o, do meu gabinete da embaixada, em Londres, em contacto telefónico directo com Braz Teixeira, da Imprensa Nacional – Casa da Moeda, em Lisboa. De aí resultou abundante fruto: a publicação de dois grossos volumes de poesia – Oferenda - I e Oferenda - II – que reúnem, cada um deles, vários livros anteriormente publicados, além da publicação de vários outros títulos de menor dimensão. 
O poeta não esteve, portanto, inteiramente fora dos focos da ribalta. Mas a atenção crítica que lhe tem sido dedicada tem sido francamente diminuta e outros poetas de bem menor gabarito têm merecido os favores de uma atenção que a ele se tem furtado. Espera-se que esta antologia de Luís Amorim de Sousa, que compreende 163 poemas, dos quais, 29 inéditos, possa levar ao canto singular deste bardo a curiosidade de um abastado punhado de leitores atentos. 
Apesar de um já vasto acervo de poemas publicados, Luís Amorim de Sousa informa-nos de que existe ainda cerca de um milhar de poemas inéditos, o que nos torna humildes quanto ao valor de uma avaliação que possamos fazer, face ao canon até agora conhecido. Haverá que se publicar – como? quando? – todo esse enorme espólio, antes de nos podermos, com alguma confiança e abrangência, pronunciar sobre a poesia deste fecundo e altíssimo poeta. 
Dizia Jean Cocteau que os poetas raramente são seres poéticos. Mas Luis Amorim de Sousa observa que Alberto de Lacerda “correspondia em pleno à ideia que se tem de um poeta.” E era bem verdade. E porquê? Amorim de Sousa aduz alguns argumentos, embora em forma interrogativa: “O facto de viver em quartos alugados? Essa maneira de se sentar a um canto de um café e escrevinhar em blocos de papel? O seu olhar ao mesmo tempo perscrutador e longínquo? As suas deambulações pela cidade? A sua «falta de jeito para o negócio»?” Tudo isto, talvez, e também a sua paixão insaciada pela liberdade. E o seu gosto pelo cultivo, inteligente, agudo e sensível da língua portuguesa. 
Dirá, num poema (p. 241 desta antologia): “A língua em que nasci / Pátria fundamental.” “Acima de tudo”, observa Amorim de Sousa, “Alberto mantinha-se disponível para o poema, e a poesia nunca o abandonou. Visitava-o nos momentos mais banais do dia-a-dia, na intensidade de tudo o que o arrebatava. Tudo tinha expressão poética no mundo íntimo de Alberto de Lacerda”. 
Privei com Alberto de Lacerda em Lourenço Marques (éramos ambos estudantes do liceu), em Lisboa (era eu estudante de engenharia e o Alberto vagamente estudante do Instituto Britânico e da Alliance Française) e, depois, em Londres, onde eu era conselheiro cultural na embaixada e o Alberto se encontrava, nos intervalos dos seus cursos “americanos”. Foi sobretudo em Londres que o nosso convívio foi mais apertado e assíduo. O Alberto era, de facto, um ser singular, pelo modo como vivia e pelo modo como falava. Cultivava a língua com uma precisão acutilante, iluminando-a de forma especial e brandindo-a com galhardia e originalidade. 
Falava ele próprio dessa língua, que visitava com amor, chamando-lhe nomes: “Esta maravilha / Assassinadíssima!”; “Este requebro / Esta ânfora / Cantante”; “Esta máscula espada / Graciosíssima”; “Minha núpcia ininterrupta / Meu amor para sempre / Minha libertinagem / Minha eterna virgindade”. 
Perscrutador de assombros e de “maravilhas”, Lacerda era o poeta de agonias sombrias mas também da sedução da luz: “Sou parte da luz que contemplo” (p. 218), ou ainda: “Meu canto vai beber / À tua luz altíssima (P. 235). “Altíssima” era realmente a luz que ele absorvia e nos ofertava, no seu convívio estimulante pelas ruas de uma Londres que conhecia como os seus dedos. 
Nunca esquecerei uma tarde de sábado em que o Alberto se fez, com entusiasmo e alegria minuciosa, meu (e da Maria Antonieta) cicerone cultural. O ar facilmente fluente como nos ia mostrando lugares e sítios… Ao passarmos, por exemplo, por um determinado prédio, apontou-nos, comovidamente, um apartamento: fora dali que T. S. Eliot saíra, uma manhã, para se ir casar com a segunda mulher, Valerie… Londres era toda uma colecção de lugares prenhes de significação. E o Alberto conhecia-os como ninguém. E gostava de os partilhar com os amigos. Uma coisa que sempre me impressionou em Alberto de Lacerda foi o seu culto do excessivo, do “gesto atingindo a exaltação suprema”, de que fala um verso seu (p.238). Era um dos prazeres que fruíamos na sua conversa, este seu gosto pelo excesso, pelo ardor da afirmação excessivamente exagerada, que se prestava a um cómico irresistível. 
Lacerda não era um morno e, como Deus no Apocalipse, vomitava os mornos. Como para um grande poeta inglês, nada, para ele, era tão bom como o excesso, como o ardor: “De pouco ardor hei-de morrer”, diz um verso seu (p.24). Dissemos já algures, falando da sua poesia: “É esta dimensão infinita, este excesso, este exagero de afirmação que dão a quase toda a sua poesia uma força única e um fulgor inigualado.” Para Alberto de Lacerda, a paixão é “cega” e a beleza é “estupenda” (p. 91). E o mundo está cheio de assombros e maravilhas. E também da “câmara dos horrores da memória (p. 35). Tudo busca e ilumina com o seu canto límpido e excessivo: “ Eu sinto, eu creio, eu canto, e a luz é tanta” (p. 22). 
Como amava excessivamente Mozart, era sempre na sua companhia, diz-nos Amorim de Sousa, que celebrava a passagem de um ano para outro ano, erguendo uma taça e ouvindo o Divertimento n.º 15. Nesses momentos, olhava provavelmente de frente o que diz um verso seu: “Talvez a luz a resposta” (p. 54)".
Eugénio Lisboa 

Exposição "Cérebro – mais vasto que o céu"

Pois não, "sem passado não há futuro"

Estamos a co-criar uma nova narrativa da educação que queremos, 
que traduz a visão do futuro que queremos e 
das competências transformadoras de que os alunos precisarão 
para tornar o futuro que queremos numa realidade.  

O Presidente da Associação de Professores de História, Miguel Monteiro de Barros, deu uma entrevista a Almerinda Romeira, publicada há poucos dias no Jornal Económico. O título - Sem passado não há futuro, sem História não há cidadania -, que reproduz uma afirmação do entrevistado, é um duplo alerta.

1. Neste século, com destaque para esta década, tem sido imposta aos sistemas educativos e formativos públicos uma certa "ideia" de preparação, na escola, para o futuro, o que, a olhos leigos, se afigura uma verdade inquestionável e muitíssimo apelativa: pois, não é para o futuro que devemos preparar as novas gerações? Acontece que aos olhos de quem estuda as políticas e medidas internacionais e nacionais para esses sistemas, ela revela o que efectivamente é: uma ideologia do esquecimento. É que, ao mesmo tempo que se elogia a "educação do futuro", a "escola do futuro", o "cidadão do futuro"..., condena-se tudo o que é tradicional, passado, mesmo que o passado seja recente. A mudança, a inovação, numa fuga para a frente sem olhar para trás, é um dos grandes slogans dessas políticas e medidas.

Este slogan é acompanhado de um outro: está tudo no google, na internet, na net! Logo, dispensa-se a aprendizagem de um conhecimento que não é útil, nem funcional, nem contextualizado, nem prático. E, mais, afirma-se, os alunos não gostam de conhecimento que não tenha a ver com a sua realidade e que requeira memorização, além de que certos temas podem ofender sensibilidades de minorias.

A História tem, portanto, de desaparecer. E vai desaparecendo! Como no 1984, de Orwell

2. Mas à medida que as disciplinas se esvaziam com a nossa anuência e, até, participação empenhada (é bom não esquecer que o discurso acima mencionado é reproduzido e acarinhado por muitos académicos e professores), ganha importância a dita "educação para a cidadania, agora designada por "cidadania e desenvolvimento".

São pelos menos dezassete áreas reconhecidas, neste momento, em Portugal. Algumas delas têm documentos curriculares - referenciais, manuais, etc. - que superam, a diversos títulos, nomeadamente, em conteúdos e seu tratamento, os documentos curriculares das disciplinas consagradas. Comparem-se os documentos afectos à "educação financeira" ou á "educação para o empreendedorismo" com documentos afectos à História do ensino básico e perceber-se-á o que digo.

Ora, a educação para a cidadania, a que o é, de facto, não pode dispensar a História, nem a Filosofia, nem o Português, nem a Matemática, nem a Biologia ou a Geologia, nem a Educação Física... Efectivamente, a educação para a cidadania não se pode fazer à margem dos conhecimentos disciplinares, tem de se fazer a partir deles; e também não se pode fazer à margem das interacções estruturantes que a escola deve proporcionar, no sentido da formação de "adultos educados".

Assim concordo com o entrevistado quando pergunta:
Como se educa para a cidadania sem conhecimento da História? Não é possível fazê-lo. Todos nós procuramos entender como se formaram as diversas identidades que compõem a nossa identidade: ocidental, europeia, nacional, regional, local, familiar, individual… e tal não é possível sem conhecimento histórico (…). 
Mas discordo quando afirma que:
"A História é, de todas as disciplinas, a mais bem posicionada para desenvolver o espírito crítico, a tolerância e os instrumentos necessários ao exercício de uma cidadania ativa e consciente (...). Esta capacidade única que a História possui de pôr os jovens a analisar factos e processos históricos de forma comparativa e crítica é, mais do que nunca, essencial, nomeadamente para desmascarar as mentiras que alastram pelas redes sociais e que colocam em perigo os sistemas democráticos".  
Todas as disciplinas devem ter os mencionados fins em mente. E os professores, independentemente da disciplina que leccionem têm de pugnar para que, com base nos conhecimentos que veiculam, os alunos adquirm ou consolidem as marcas da cidadania.

E discordo ainda mais quando reivindica a formação humanista para as humanidades.
"este modelo [do currículo centrado nas ciências exactas e tecnologias] está esgotado, como aliás o reconhece o “Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória”, onde se pode ler: “Um perfil de base humanista significa a consideração de uma sociedade centrada na pessoa e na dignidade humana como valores fundamentais”. 
A formação humanista integra necessariamente o conhecimento que a humanidade construiu: as humanidades propriamente ditas, as artes, as ciências. Mais, a questão não deve ser de antagonismo entre as humanidades e as ciências, mas de defesa do conhecimento que, por ter valor, tem de ser ensinado e aprendido. Acresce que do currículo das ciências também tem sido expurgado o que não é tecnologia. É uma reflexão sobre esta opção, de tornar o currículo apenas tecnológico, que se deve fazer.

Nesta necessidade e, até, urgência, de reivindicar o estudo do passado e de educar para a cidadania, os professores têm de estar unidos, independentemente de serem de humanidades, de artes, ou de ciências. Qualquer discurso que os separe ainda mais, volta-se contra eles, mas, pior, volta-se contra a formação dos alunos.

quinta-feira, 14 de março de 2019

EFEMÉRIDES DE 14 DE MARÇO, DIA DO PI, DE EINSTEIN E DE HAWKING

Informação de Adriano Simões da Silva:

14 de março – Dia do Pi, por ser a data mais próxima da constante Pi (3,14). Pi é a relação entre o perímetro e o diâmetro de uma circunferência. Foi comemorado pela 1ª vez no San Francisco Exploratorim, em 1988, com público e funcionários andando em círculos. Se quiser saber tudo o que há sobre este assunto, pesquise no catálogo online da BPMP, disponível em http://bibliotecas.cm-porto.pt, por assuntos: Física—Periódicos & Ciência – Periódicos. Porque uma biblioteca sem assuntos é um cemitério de livros (inacessíveis aos leitores) e a «principal função da biblioteca […] é […] descobrir livros de cuja existência não se suspeitava e que, todavia, se revelam extremamente importantes para nós» (Umberto Eco, ensaio A Biblioteca).

14 de março de 1879 – Nasce Albert Einstein, famoso físico, autor da Teoria Geral da Relatividade. Ciência.

14 de março de 1913 – A Faculdade de Ciência pede ao Governo a cedência do Castelo do Queijo, para ali ser instalada uma estação de Zoologia Marinha (“O Tripeiro”, mar.1963, efem.). Biologia. Ciência.

14 de março de 1919 – Um pequeno sismo assusta as gentes portuenses, especialmente as dos lados da Foz, onde mais se sentiu (“O Tripeiro”, mar.1969). Ciência.

14 de março de 2018 – Morre Stephen Hawking, famoso físico que em 1974 calculou que os buracos negros deviam emitir radiação (conhecida como radiação Hawking), etc., autor de “Breve História do Tempo”, etc. (biografia por Carlos Fiolhais no jornal ”As Artes Entre As Letras”, 28 mar.2018, p. 22). Física. Ciência.

Enviada: 14 de março de 2019 09:03
Assunto: 14 industria

14 de março de 1849 – Indústria fabril faz progressos nesta cidade. Na fábrica de Damásio, Faria & C.ª, no Bolhão, empregam-se muitos braços e ali se está construindo uma máquina de Cordoeiro, que é digna de ver-se (“Periódico dos Pobres no Porto, p. 245). Indústria.

14/15 de março de 1909 – Inauguração de exposição de faianças da Fábrica das Caldas, na Sociedade de Belas Artes, por Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro, filho do fundador da fábrica (“O Tripeiro”, mar.1959). Indústria cerâmica.

14 de março de 1945 – Publicação da Lei do Fomento e Reorganização Industrial, visando, após a Guerra, quando Portugal dependia das importações, consubstanciada em planos anuais e a médio e longo prazo (Maria da Luz Sampaio, Museu da Industria do Porto, “O Tripeiro”, out.2011, p. 298-299). Indústria

14 de março de 1945 – O S. Brás, nosso único petroleiro, encalha na Trafaria (“O Tripeiro”, 1995, efem.). Indústria de combustíveis.

14 a 19 de março de 1989 – 12ª Feira da Alimentação, na Exponor (“Jornal de Notícias”, 14 e 15 mar.1989, p. 17-19). Indústria alimentar.


14 de março de 2014 – “O que é um guilherme?” foi o email de divulgação de industria, quando o assunto Indústria – Periódicos era o 9º assunto com mais títulos de revistas, com 453 títulos de revistas de indústria. A 9 de Abril de 2015, em resposta aos pedidos de leitora Maria da Luz Sampaio (Professora Universitária), dividi a indústria em 6 assuntos, num total de 736 títulos de revistas. No final de 2016 eram um total de 2.917 títulos de revistas, num total de 30 assuntos. No fim de 2017 eram 3.024 títulos de revistas nos mesmos assuntos.

quarta-feira, 13 de março de 2019

A MATEMÁTICA É UMA ESCADA

Imagem retirada de Jorge Azinheira, no Facebook.

Com um bom professor de Matemática, não há aluno que não goste desta superior expressão da espécie humana.

Por outras palavras, que podem parecer injustas e duras, "um mau aluno em Matemática reflecte, quase sempre, um mau professor".

Um parêntesis para dizer que esta afirmação é válida para qualquer disciplina.

Voltando à Matemática, eu sei por experiência, como aluno, do que estou a falar.

"A Matemática é uma escada" - disse-me o novo professor do ano (1949) em que repeti a disciplina no meu 7.º ano (actual 11.º)", no Liceu de Évora, e continuou - "sobes o primeiro degrau e só quando tiveres o pé bem assente, sobes para o segundo e, assim, sempre a subir, sobes até onde quiseres.

A. Galopim de Carvalho

domingo, 10 de março de 2019

Se nos demitirmos de educar é para isto que caminharemos

Retomando a enorme atenção e preocupação que devemos ter no respeitante ao controlo da vida social, pessoal e íntima das pessoas por parte dos Estados, através da observação dos seus comportamentos, pensamentos e sentimentos, bem expressa na entrevista que reproduzi aqui, reproduzo abaixo um artigo muito interessante com o título Não é ficção: a China quer pontuar todos os comportamentos de cada cidadão, assinado por Margarida Mota e publicado no jornal Expresso online de ontem.

Imagem recolhida aqui (GETTY IMAGES)
"Num futuro próximo, além do bilhete de identidade, os chineses terão um código que atesta a sua credibilidade.
Imagine um país onde, para poder fazer um seguro, matricular um filho numa escola privada ou comprar um bilhete de TGV, o cidadão vê a sua vida escrutinada ao mais ínfimo pormenor.  
Os sítios de internet que consulta, o que faz nos tempos livres, como se saiu nos exames médicos, que jornais compra, como se comporta ao volante, se costuma dar sangue - tudo é levado em linha de conta na hora de autorizar ou rejeitar o pedido. Esse país já existe - é a República Popular da China - e essa forma de intrusão cívica está em acelerada concretização, através do Sistema de Crédito Social, um mecanismo de pontuação dos cidadãos que ora os recompensa ora os penaliza em função de comportamentos.  
Muitas horas a jogar no computador podem rotular alguém de ocioso. Se atravessar a rua fora das passadeiras pode passar por indisciplinado. Já comprar artigos para bebé contribui para uma imagem responsável. Andar a pé indicia hábitos saudáveis. E há que ter cuidado com os amigos das redes sociais: maus exemplos podem prejudicar quem apenas os tem na lista. A Baihe, maior plataforma chinesa de encontros, já permite que os utilizadores publiquem a sua pontuação. A aplicação Honest Shanghai, onde são avaliadas experiências - como comer num restaurante caro, por exemplo -, já usa tecnologia de reconhecimento facial.  
De iniciativa governamental, este projeto ambiciona traçar o perfil pormenorizado de cada um dos mais de 1300 milhões de habitantes da chamada China Continental - para já, Macau e Hong Kong ficam de fora.  
Este tipo de controlo - efetuado por agências estatais e por empresas privadas - não é uma inovação da liderança de Xi Jinping. No passado, cada cidadão tinha um ficheiro pessoal permanente (dang’an) que descrevia todo o seu percurso, nomeadamente a nível escolar e profissional. Hoje, a mais-valia é a tecnologia e «a capacidade de analisar grandes quantidades de dados em todo o país de uma forma mais holística e rápida», explica Meia Nouwens. «Ainda não existe um sistema nacional único - é uma tarefa muito grande. Mas está decerto a ser testado». 
Em várias localidades chinesas, há programas-piloto a serem experimentados. Um dos laboratórios é a cidade de Rongcheng, na ponta leste da China. A cada um dos 740 mil residentes adultos é atribuído um crédito de 1000 pontos, que vai aumentando ou diminuindo consoante o seu comportamento. Uma multa de trânsito desconta cinco pontos. Atos heróicos acumulam 30 pontos. Na via pública, há retratos enormes dos ‘cidadãos-modelo’.  
Um deles é a viúva Yuan Suoping, de 55 anos, que continuou a cuidar da sogra acamada após a morte do marido. Em Shenzhen, no sul, há câmaras de vigilância com tecnologia de reconhecimento facial que identificam, por exemplo, peões que atravessam as ruas fora das passadeiras. Instantaneamente, são enviadas multas por mensagem. A tecnologia é desenvolvida pela startup local Intellifusion.  
Na aldeia de Jiakuang Majia, no Leste, a pontuação é gerida de forma mais artesanal. Há fichas em papel onde funcionários do Estado vão fazendo contas: montar novos cestos no campo de basquetebol, oferecer uma televisão ao centro cívico, fazer voluntariado ou ter um filho a servir no Tibete dão pontos. A nível nacional, este sistema já deixou em terra 5,4 milhões de chineses que pretendiam viajar em comboios de alta velocidade. Outros 17 milhões foram impedidos de comprar bilhete de avião. 
Em 2013, a justiça chinesa aprovou uma «lista negra» de devedores e estima-se que seja esse ranking que esteja na origem dessas proibições. Para Pequim, há que promover a confiança na sociedade e na economia. Samantha Hoffman faz outra leitura: «O crédito social está ligado ao conceito de ‘construção espiritual da civilização’. A sua origem remonta à propaganda dos anos 1980 em resposta à desilusão popular com o PCC e à atração por ideias estrangeiras». O objetivo é «impedir que versões alternativas da ‘verdade’ ameacem o poder do partido»
«O Sistema de Crédito Social não é ficção científica, existe realmente», diz ao Expresso a investigadora Meia Nouwens, do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos de Londres. «Através dele, uma grande quantidade de informação pessoal, registos, geolocalização com recurso a câmaras e check-ins, transgressões da lei ou maus comportamentos diminuem a pontuação de um indivíduo. Nalguns casos, as pontuações decorrem de registos, noutros são calculadas por algoritmos, embora não haja transparência em relação à forma como os algoritmos fazem os cálculos.»
«A melhor forma de descrever o que o crédito social faz é dizer que é uma forma de tecnologia aumentada de ‘gestão social’», diz Meia Nouwens.’ 
«O crédito social é uma ferramenta que torna o controlo político do Partido Comunista Chinês [PCC] inseparável do desenvolvimento económico e social da China», explica ao Expresso a analista de política chinesa Samantha Hoffman, colaboradora do Instituto Australiano de Políticas Estratégicas. «Foi planeado para supervisionar, moldar e classificar comportamentos através de processos económicos e sociais.» 
O Ocidente está muito distante desta realidade? Não, não está.
Podemos fazer alguma coisa? Sim, podemos.
E são os educadores, com destaque para os professores, que mais podem fazer alguma coisa.
De resto se não forem eles, quem o fará?
E como o poderão fazer? Robustecendo os alunos em termos cognitivos, com base em conhecimento escolar. Refiro-me ao conhecimento, organizado em disciplinas, que a humanidade construiu e que dá conta do progresso civilizacional, não obstante todas as dificuldades, contrariedades e, até, retrocessos que bem sabemos. Daí a importância de a instrução (apropriação do conhecimento e desenvolvimento de capacidades que lhe estão associadas) se aliar à formação (apropriação dos valores éticos fundamentais e condução da acção em função deles). Isto não é ideologia nem doutrinamento é educação. Se quisermos, educação do cidadão, daquele que vive com outros, que co-existe e que assume a responsabilidade disso mesmo.

Ainda que os leitores saibam que o "direito à vida privada" está consagrado na Declaração Universal do Direitos Humanos e na Constituição da República Portuguesa, reproduzo abaixo alguns dos seus artigos, apenas para recordar as suas palavras, as quais não devem sair da nossa cabeça.
Declaração Universal do Direitos Humanos 
Artigo 12.º - Ninguém sofrerá intromissões arbitrárias na sua vida privada, na sua família, no seu domicílio ou na sua correspondência, nem ataques à sua honra e reputação (...)
Artigo 26.º - 1. A todos são reconhecidos os direitos à identidade pessoal, ao desenvolvimento da personalidade, à capacidade civil, à cidadania, ao bom nome e reputação, à imagem, à palavra, à reserva da intimidade da vida privada e familiar e à proteção legal contra quaisquer formas de discriminação. 
Constituição da República Portuguesa 
32.º - São nulas todas as provas obtidas mediante (...) abusiva intromissão na vida privada, no domicílio, na correspondência ou nas telecomunicações.
35.º - A informática não pode ser utilizada para tratamento de dados referentes a convicções filosóficas ou políticas, filiação partidária ou sindical, fé religiosa, vida privada e origem étnica, salvo mediante consentimento expresso do titular, autorização prevista por lei com garantias de não discriminação ou para processamento de dados estatísticos não individualmente identificáveis.

Do passado ao presente — Manuais escolares

Num tempo em que tanto se fala de criatividade e inovação, em que se diz que o aluno de hoje não é o mesmo de outros tempos, que são outras as metodologias, que são outras as matérias a aprender, é importante compararmos manuais do passado e do presente, analisar os métodos utilizados, os exercícios propostos aos alunos. Serão assim tão diferentes dos de hoje?

Percorrendo velhos livros esquecidos no fundo de um baú, eis que chama a atenção uma capa, bem carcomida pelo tempo, exibindo umas florinhas ainda coloridas, fazendo lembrar os bordados da
mala do enxoval.

Trata-se de um Manual para o Ensino Primário Elementar, um Livro de Leitura para a 3.ª classe da autoria de Romeu Pimenta e Domingos Evangelista, publicado pelo Editor Domingos Barreira, do Porto. O Livro, com a indicação de “Aprovado oficialmente”, tem a data de 1944. Dos mesmos autores podemos encontrar na internet a referência à versão já actualizada pelo Acordo Ortográfico de 1945.

Interessante analisar a estruturação do livrinho de leitura e as suas orientações pedagógico-didácticas, um bom ponto de partida para a comparação com os programas e os manuais da actualidade.

1. Estrutura do Manual

Para cada texto a mesma orientação:
— encimando a página, uma imagem para a qual, sob a rubrica “Observação”, são colocadas várias perguntas directas com vista à observação da gravura;
— segue-se o texto, que remete para algumas notas com explicação dos vocábulos menos usuais; — no final, uma rubrica intitulada “Elocução”, inclui um conjunto de perguntas para interpretação do texto;
— Na continuação da “lição” são propostos exercícios variados, grande parte deles para enriquecimento vocabular (palavras derivadas, palavras cognatas, formação de diminutivos...), questões de morfologia (flexão verbal, pronomes,...), etc.;
— esta última parte pode ainda requerer o desenho de um objecto relacionado com o texto, ou mesmo a resolução de um problema de matemática;
— há também exercícios de caligrafia;
— por vezes são pedidos textos mais elaborados, que envolvem, por exemplo, o comentário às ideias transmitidas pelo texto estudado, um juízo de valor sobre a actuação das personagens, ou contar uma história a partir de imagens apresentadas.

1.1. O estudo da língua

Nota-se a preocupação com o estudo da língua, sendo os exercícios bastante variados:
— categorias morfológicas (substantivos, adjectivos, advérbios, preposições, pronomes) — exercícios sobre género e número
— conjugação verbal
— formação de palavras
— elaboração de textos descritivos (descrição de um objecto, de uma flor...)
— texto narrativo (contar uma história a partir das imagens, por exemplo)
— elaboração de resumos
— texto livre

2. As orientações didácticas 


Os exercícios vêm com o respectivo verbo de acção, indicando o que se pretende, quer atra-vés do conjuntivo exortativo/imperativo: “coloque por ordem...”, “forme palavras...” “escreva...” faça a descrição de...” , “diga a razão...”, “explique...”, quer através do infinitivo “ formar...”, “escrever...”, “colocar...” “explicar...” ou mesmo dirigindo-se ao aluno para que pergunte ao professor determinado nome, de uma cidade, de um país, e o escreva no mapa que é apresentado.



3. A expressão de ideias, de valores pessoais, de um juízo crítico

Através de uma interpelação directa, o aluno é chamado a ter opinião, a analisar e criticar, a exprimir aquilo que pensa:
“Quem acha o menino que será o nosso próximo?”
“Diga, pelo exame das gravuras, qual é o monumento de que mais gosta e porquê.”
“Diga por que é que a guarda da linha é digna de censura, assim como os viajantes. Diga também qual foi a mais prudente de todas as pessoas citadas neste texto.”

4. Os textos e os temas abordado

Os textos são, quase todos, dos autores do manual, visto que não têm indicação de autor, com excepção de alguns poemas de Afonso Lopes Vieira ou de João de Deus.
Quanto aos temas, é aí que vemos bem a marca de uma época. Referem-se, em geral, a um mundo rural, de exemplo a seguir, um mundo feliz na sua simplicidade.
Assim, abundam textos que têm como personagem central animais (formigas, cão, carneiro, galinhas, sapo e outros), os trabalhos do campo, as diferentes culturas e todo o ambiente envolvente (a batateira, a água, a azenha, o linho) e os exemplos de trabalho simples, modesto e humilde.
Não faltam também os textos relacionados com as ciências e a história (Pasteur, as estrelas, os planetas, Vasco da Gama, Infante D. Henrique, Camões ...) ou a geografia ( Europa, Brasil, a terra, Portugal..). Outros são de carácter religioso (Jesus Cristo, Jesus e o rapazinho doente, Parábola de Jesus Cristo...).
O ponto comum em todos os textos é a intenção moralizante, procurando sempre transmitir uma lição, um valor importante a preservar. Causaria, com certeza, estranheza no mundo de hoje um texto em que se fala da gulodice, apresentada como um vício a ser combatido!

No essencial, excluindo a temática dos textos, o estudo da língua, os exercícios propostos, os métodos são idênticos aos de hoje. É claro que a apresentação é hoje outra, que as tecnologias alteram muitos dos métodos, mas a essência está lá, os objectivos de aprendizagem não diferem dos da actualidade. Também lá está, à maneira de então, o espírito crítico, a criatividade, o trabalho individual, os vários passos para a compreensão do texto, que vão da compreensão à interpretação e à análise da linguagem e das personagens e seus valores. Objectivo principal: aprendizagem, conhecimento, ler e escrever, visto que se trata de um livro de leitura.

Isaltina Martins