segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Frisos em azulejos | Friezes in "azulejos"

V Conferência do Solstício: Antibióticos

A COMCEPT - Comunidade Céptica Portuguesa vai organizar a sua V Conferência do Solstício, dedicada ao tema dos antibióticos. Para isso, conta com o médico de família Armando Brito de Sá como orador. Eis uma breve sinopse:

"Os antibióticos constituíram um dos progressos centrais da medicina do século XX, senão mesmo de toda a sua história. O seu sucesso, contudo, trouxe consigo comportamentos que ameaçam, sem exagero, o regresso a situações que não conhecemos há décadas. O desafio que lançamos ao nosso convidado é fazer uma análise da evolução do uso dos antibióticos, dos perigos actuais da sua utilização e das soluções que se vislumbram (ou não) para o combate às infecções."

A entrada é gratuita, mas é necessária inscrição!

Mais informações:
Quando: Dia 15 de Dezembro, 18h
Local: Auditório da Escola-Oficina nº1, no Largo da Graça, 58, Lisboa
Organização: COMCEPT


“COMUNICAÇÃO VISUAL EM CIÊNCIA”




Na próxima 2ª feira, dia 17 de Dezembro de 2018, pelas 18h00, vai ocorrer no Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra a palestra “Comunicação Visual em Ciência”, por Diana Marques, ilustradora Museu de História Natural do Instituto Smithsonian, nos Estados Unidos.

Diana Marques é actualmente uma das mais destacadas personalidades no campo da ilustração científica portuguesa, muito conhecida no panorama internacional, principalmente nos Estados Unidos, onde reside e trabalha. É a primeira vez que vem dar uma palestra sobre este tema em Portugal. Um vislumbre do seu trabalho pode ser apreciado no seu site: http://www.dianamarques.com/

Esta palestra integra-se no ciclo "Ciência às Seis - Terceira temporada"*.

Sinopse da palestra:
A comunicação visual de ciência, como outras formas de comunicação, estabelece-se entre um emissor e um receptor, e ocorre apenas quando a mensagem é bem recebida e interpretada. Nesta palestra, Diana Marques discute os factores que determinam o sucesso das imagens estáticas e em movimento que aparecem nos museus, revistas, livros escolares, e que são responsáveis pela disseminação, sensibilização e aprendizagem da ciência.

*Este ciclo de palestras é coordenado por António Piedade, Bioquímico, escritor e Divulgador de Ciência.

ENTRADA LIVRE

Público-Alvo: Público em geral
Evento no Facebook

Uma coleção zoológica (re)encontrada numa antiga escola

Esta é uma história de acasos que levou à recente publicação de um artigo em história da ciência, intitulado Between republicans and freemasons: a lost zoological collection found in a very particular school, na revista Endeavour

Abreviando uma história longa: estava eu no início do programa doutoral, quando me pediram ajuda para classificar umas conchas encontradas numa antiga escola do Bairro da Graça (a Escola-Oficina nº1), em Lisboa, que se preparava para ter umas necessárias obras - alguns anos antes tinha trabalhado no Instituto Português de Malacologia onde dei início à catalogação da coleção do fundador, Ilídio Félix Alves, onde me tinha debruçado não só, mas principalmente, sobre conchas do género Conus e Oliva. Quando cheguei à tal escola, percebi que a grande maioria das conchas eram fósseis, o que escapava ao meu conhecimento. Mas antes de ir embora, explorei a sala, juntamente com os membros da Direção do espaço, e fomos gradualmente encontrando uma diversidade de espécimenes zoológicos. À medida que íamos tirando material para fora da sala onde tudo estava guardado há longos anos, entre material de laboratório e de ensino, fomos encontrando animais taxidermizados, esqueletos de animais e uma  rica coleção húmida dos mais variados grupos taxonómicos.

Coincidiu nesse mês que, para a cadeira de Património Científico, me fosse pedido que estudasse uma coleção de alguma instituição, pelo que me debrucei automaticamente sobre este espólio. Para esse estudo, tentei perceber que coleção era aquela, de que é que era constituída, como foi reunida, para que efeitos, e em que contexto. E esse resultado é o que agora foi publicado pela revista Endeavour

Escola-Oficina nº1, em Lisboa. Fonte: Filorbis

A Escola-Oficina nº1, pertence à Sociedade Promotora de Escolas, e foi criada por Republicanos e Maçons nos inícios do século XX para dar formação gratuita às crianças pobres, filhas dos operários, do Bairro da Graça, num período em que ainda não havia Estado-Social, pelo que iniciativas filantrópicas deste tipo eram essenciais. Era uma Escola-Oficina porque para além das disciplinas comuns, aprendia-se também um ofício para que as crianças pudessem quebrar o ciclo de pobreza: assim, aprenderiam a ler, a escrever e a contar, e, simultaneamente, aprenderiam um ofício que lhes permitisse ingressar no mercado de trabalho quando crescessem. O modelo de ensino era libertário e tinha várias particularidades, entre elas o ensino era centrado no aluno, os quadros estavam ao nível das crianças,  os professores não leccionavam em estrados mas sentados em cadeiras próximos dos alunos, o ensino era misto e os castigos corporais tinham sido abolidos.

Fonte: João Lourenço Monteiro, Between republicans and freemasons: a lost zoological collection found in a very particular school, Endeavour, 42 (4), 2018: 196-199  

JOSÉ FANHA FAZ RECITAL DE POESIA NO RÒMULO


domingo, 9 de dezembro de 2018

O QUÍMICO JOÃO PAIVA RESPONDE A PETER ATKINS SOBRE CIÊNCIA E RELIGIÂO


https://www.publico.pt/2018/12/09/ciencia/opiniao/-insustentavel-leveza-incompatibilidade-ciencia-religiao-1853629

Será preciso um guia para os professores usarem a "internet" no seu trabalho?

"A amizade de professores e alunos no Facebook é uma realidade, 
no entanto é uma questão que tem levantado alguma polémica. 
Será indicada e ética esta relação? Pode prejudicar ou, por outro lado,
é um facilitador de comunicação entre ambas as partes?"

Esta escola chegou a ter uma página no Facebook, 
no entanto foi uma experiência sem resultados satisfatórios 
«Parámos de colocar conteúdo pois nem todos agem de forma ética. 
Há comentários maléficos, e não queremos alimentar esse tipo de movimento 
Preferimos ficar à margem das redes sociais»”.

Texto datado de 2012 (aqui)


A generalização do correio electrónico e das plataformas online, bem como dos blogues e das redes sociais, trouxe, aparentemente novas questões respeitantes à relação pedagógica, mais concretamente, à relação entre professores e alunos. Digo aparentemente porque as questões que se colocam são de princípio e, portanto, de sempre, apenas mudaram as suas roupagens.

É certo que o sentido da palavra "amizade" esbateu-se, modificou-se, em virtude de tal generalização; o mesmo aconteceu ao sentido da expressão "relação pedagógica". No que a esta expressão diz respeito, a "assimetria" que a caracterizou, deixou de ser mencionada na literatura educacional, foi praticamente esquecida. Em contrapartida, professores e alunos passaram a ser encarados num plano de igualdade, académica e pessoal. Assim, não se vê  nada de estranho em serem considerados "amigos" e, nessa qualidade, que comuniquem pelos referidos meios, fora do espaço e tempo escolar

Há escolas que têm, contudo, achado essa situação contraproducente e agido em conformidade.

Um exemplo é dado pelo Departamento de Educação em Nova Iorque, que publicou um guia de boas práticas destinado a professores, alunos e funcionários. No respeitante aos professores aí se esclarece que não podem comunicar com os alunos em redes sociais, blogues, etc. A comunicação online, dependente da conta do departamento, a acontecer, tem de ser estritamente profissional.

Outro exemplo é dado pelo Colégio Farroupilha, em Porto Alegre, Brasil, que tem procedimento idêntico (ver na imagem o Guia de Postura nas Redes Sociais, que criou).
Diz Luciana Motta, psicóloga deste colégio: “A nossa preocupação é garantir que os papéis fiquem bem definidos. Professor é professor, aluno é aluno, e é assim que deve ser também nas redes sociais.”
Voltando ao princípio deste texto: será preciso um guia para que os professores orientem, nestas e noutras matérias, as suas práticas? Práticas que dependem da adopção de princípios que estruturam a sua profissão ? Pelos vistos, é.

Ver textos de interesse aqui e aqui

“Se nada for feito, o colapso da civilização e de uma boa parte do mundo natural será uma realidade”, palavras de David Attenborough

Realizou-se na passada semana, na Polónia, mais uma Cimeira para o Clima promovida pela Organização das Nações Unidas. Foi a vigésima quarta. Com o Acordo de Paris mais restrito ao papel do que em 2015, ano que foi assinado, algumas vozes foram particularmente incisivas ao descrever o limite a que chegámos em termos de alterações do mundo físico e natural.

Uma das vozes que não pode ser ignorada é a de Sir David Attenborough. Isto por falar por si, mas, sobretudo, por falar pelas pessoas do mundo, de quem recolheu depoimentos. Disse ele:
“... o tempo está a esgotar-se. [As pessoas] querem que vós, os decisores, façam alguma coisa e tem de ser já. Líderes do mundo, vocês têm de liderar. A continuação da civilização e do mundo natural, do qual nós dependemos, está nas vossas mãos (...) estamos a assistir a um desastre à escala global, provocado pelo homem, trata-se da maior ameaça que enfrentamos desde há milhares de anos: as alterações climáticas”.   

Ver, por exemplo, (aquiaquiaqui)

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

"Ciência e arte: duas faces da cultura" no Porto


Sabia que hoje é o Dia do Solo?

Efemérides científicas enviadas por Adriano Simões da Silva da Biblioteca Municipal do Porto:

5 de dezembro – Dia Mundial do Solo, criado em 2002 pela União Internacional das Ciências do Solo. Se quiser saber o que existe sobre este assunto, basta pesquisar no catálogo online da BPMP (disponível em http://bibliotecas.cm-porto.pt), por assuntos, por: Ambiente -- Periódicos. Porque uma biblioteca sem assuntos é um cemitério de livros (inacessíveis aos leitores) e a «principal função da biblioteca […], é de descobrir livros de cuja existência não se suspeitava e que, todavia, se revelam extremamente importantes para nós» (Umberto Eco, ensaio A Biblioteca).


5 de dezembro de 1905 – Nasce, em Miragaia, Ruy Luís Gomes, matemático licenciado com 20 valores, diretor do Gabinete de Astronomia do Porto e fundador do Observatório Astronómico do Porto. Em 1947, por reclamar contra a prisão de uma aluna sua pela PIDE, foi demitido. Entre 1945 e 1957 esteve preso, pelo menos 10 vezes. A sua candidatura às eleições presidenciais em 1951 foi recusada. Exilado, foi professor emérito da Universidade de Pernambuco, no Brasil. Em 1975, fundou o Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, no Porto. Tem uma rua com o seu nome. Matemática. Ciência.

5 de dezembro de 1952- Pela 1ª vez, a poluição atmosférica causa milhares de mortos, pelo fumo (Big Smoke), em Londres. Ambiente. Ciência

(Ep. 37) "Mundo sem mente"

Debate "Razão, Ciência e Sociedade Desafios Contemporâneos": com um biólogo, um físico e um filósofo

LIVROS PARA O NATAL


Meu artigo no Público de hoje: 

 Estamos numa época alta para o comércio de livros, um sector que entre nós já viveu melhores dias. Segundo dados da PORDATA, em 2017 o número de novos títulos no depósito legal foi 16058, abaixo dos 17778 depositados em 2008, ano em que se atingiu o pico. Mesmo assim ainda se publica cerca de um livro em cada meia hora. Como não se pode ler tudo, tem de se escolher. Quando Portugal acaba de fazer figura como convidado de honra da Feira do Livro de Guadalajara, no México, escolhi dois livros recentes de autores portugueses de cada uma da meia dúzia de áreas que privilegio na minha biblioteca.

 Ficção: Cinco Meninos, Cinco Ratos, de Gonçalo M. Tavares (Bertrand), e Princípio de Karenina, de Afonso Cruz (Alfaguara). Estes dois novos valores da literatura portuguesa, que foram pontas-de-lança na “selecção nacional” no México, caracterizam-se pela originalidade ficcional e pela clareza da escrita. Com eles esta selecção fez muito melhor do que a de futebol em 1986.

 Poesia: Obra Poética I, de António Ramos Rosa (Assírio & Alvim), e Poesia (1916-1940), de Vitorino Nemésio (Imprensa Nacional-Casa da Moeda). De dois clássicos do nosso século XX, estes volumes são o início das suas obras completas. Não podiam ir ao México por serem do “clube dos poetas mortos”, mas a sua poesia merece decerto ser lida em traduções castelhanas. Os poetas vivos que foram, como Nuno Júdice e Filipa Leal, ajudaram à boa prestação nacional.

 Ciências Exactas e Naturais: Visão, Olhos e Crenças, de Luís Miguel Bernardo (Gradiva), e Curvas Ideais, Relações Desconhecidas e Outras Histórias da Matemática, de Jorge Buescu (Gradiva). De um físico do Porto e de um matemático de Lisboa com obra feita, os dois são volumes da colecção “Ciência Aberta,” que tem mais de 25 anos. O primeiro trata da história do nosso conhecimento da visão, no mundo e em Portugal, não esquecendo as lendas que imperam no saber popular. O segundo delicia-nos com surpreendentes questões matemáticas. O químico e crítico de arte Jorge Calado escreveu um sedutor prefácio para a segunda destas obras. A “selecção nacional” no México não teve praticamente nomes das ciências, talvez porque a questão das “duas culturas” ainda persista.

 Ciências Sociais: O Século dos Prodígios. A Ciência no Portugal da Expansão, de Onésimo Teotónio Almeida (Quetzal), e Ética Aplicada, vol. XII, sobre investigação científica, coordenado por Maria do Céu Patrão Neves e Maria da Graça Carvalho (Edições 70). O professor da Universidade Brown não teme falar dos Descobrimentos lusos, defendendo a tese de que eles foram o prelúdio da Revolução Científica. Por sua vez a professora da Universidade dos Açores e a assessora da Comissão Europeia fazem neste volume colectivo uma introdução às questões éticas ligadas à ciência, o que interessa num mundo confrontado com desafios tremendos como os da inteligência artificial e da genómica. As ciências sociais também não tiveram a desejável representatividade na Feira do Livro americana.

 Banda Desenhada: Amadeo. A Vida e Obra entre Amarante e Paris, de Jorge Pinto e Eduardo Viana (Desassossego) e Watchers A, de Luís Louro (Asa). Nem o imaginativo enredo nem o traço original destes autores, os primeiros abordando o pintor modernista falecido há cem anos e o segundo fantasiando sobre Lisboa, lhes valeu o passaporte para o México. Ainda há quem pense que a BD é um género menor…

 Obras de referência: Dicionário dos Antis, coordenado pelo historiador José Eduardo Franco (Imprensa Nacional–Casa da Moeda), e Agenda Solidária IPO 2019 (Livros Horizonte). O primeiro é um original dicionário em dois espessos volumes em que todas as entradas começam por “anti.” Com um “antiprefácio” do jurista António Araújo, é, pela amplitude e qualidade da edição, um dos grandes lançamentos do ano. O segundo é uma obra de referência para o possuidor, pois cada um pode lá escrever o que quiser, com a certeza de ter contribuído para uma causa nobre. Declaração de interesses: sou um modesto contribuinte destas duas obras, assim como do volume sobre ética atrás referido.

 Boas leituras!

A “esquerda” de Estaline e Trotsky, de Cunhal e de Louçã, ou de Soares e Mitterrand?

Artigo de Guilherme Valente publicado no Público a 27/11:

 Façamos uma leitura informada e livre - palavra cara a Rui Tavares (RT) - do artigo expressivo que acaba de divulgar no PÚBLICO “A esquerda comeu o meu trabalho de casa” (19/11), que só agora mesmo li.

 Se a direita adopta um bom valor da esquerda fá-lo por... hipocrisia, isto é, por genética (!!!), diz Rui Tavares. Eu, pelo contrário, congratulo-me com isso. Bem-vinda a um justo valor, a uma boa prática!

RT, por seu lado, adopta, exibe, uma espécie de racismo político. Dito com uma parábola: se uma jovem paquistanesa islâmica oferecer um copo de água a um confrade cheio de sede, é um acto nobre, de fé exemplar. Mas se a jovem for cristã e o oferecer a um islâmico é uma blasfémia - um acto hipócrita, diria RT - punido com a pena capital. Isto é, o copo de água deixa de poder matar a sede!

 Se eu aplicar esse critério inquisitorial que RT no caso vertente adopta, direi que a confusão que faz (de mau aluno de liceu) sobre a questão que levantou no seu artigo não resulta de ignorância, mas da perversidade genética. Isto é uma hipótese académica, repito, porque na verdade penso que resulta de cegueira ideológica. Que começo a recear incurável, eu que tinha esperança de o ver tornar-se em breve um excelente militante do PS, destino “etário” feliz de muitos trotskistas em França, nomeadamente Jospin e Moscovici. Destino que é uma pena para o País ser já tardio para Francisco Louçã, suponho.

 Desmontemos a confusão de RT:

 Quando diz “esquerda” refere-se a quê? À esquerda democrática liberal, movida pela exigência de liberdade, liberdade de pensamento e de expressão, de igualdade social, da educação e da cultura para todos, da independência da justiça, da recusa de todas as discriminações e da preocupação com a valorização das minorias? À esquerda dos direitos humanos universais? À esquerda que, com as direitas democráticas e cristãs, venceu os totalitarismos carniceiros do século XX? À esquerda herdeira dos ideais iluministas (a que RT justamente faz referência), designadamente os da liberdade de pensamento e de expressão, insisto, do humanismo, do cosmopolitismo e do universalismo, do mercado – regulado, tal como a liberdade é regulada pelo direito penal, o “doce mercado” (Montesquieu), factor de prosperidade, que exige a redistribuição e inclui o estado social? À esquerda do critério do mérito (a que RT chama ou junta bem a responsabilidade social), critério que a direita, tradicionalmente valorizadora do critério do nascimento – posteriormente adoptou? À esquerda herdeira do ideal europeísta (sim, Voltaire era um europeísta e a lógica dos grandes ideais do Iluminismo era, é essa)? À esquerda de Mário Soares e Mitterrand, de António Costa, não duvido, e, já agora que estamos no mês da transformadora cultura científica, de José Mariano Gago que quero lembrar sempre? À minha esquerda, permita-me V. Excelência, que essa sim está na minha “genética”, perdão, na minha história?

 Ou à extrema-esquerda – igual à extrema-direita, seja lá qual for o discurso que ostentem – que exterminou milhões de seres humanos sufocando aqueles ideais? À esquerda do ódio aos ideais iluministas e, já agora que é um combate meu, do ódio à Ciência, à prova de realidade? Esquerda da estigmatização dos factos, da alteração impossível, delirante, da História e da realidade?

 É História, RT, embora a tenham sempre tentado reescrever.

Surgiu agora em Itália – “onde nasce o perigo surge a salvação”, escreveu Hölderlin? – um livro em que se pretende explicar como identificar um fascista. Quanto a mim é mais simples do que diz a autora: se quiserem contactar um fascista, ou um estalinista que são idênticos, procurem um activista anti-europeu e terão uma esmagadora probabilidade de o encontrar. E o inverso é absolutamente infalível: um fascista e um estalinista são sempre anti-europeus.

 Será que também preciso de lhe explicar isto, meu decepcionante Rui Tavares? Repare como estão tão unidos no anti-europeísmo o França Insubmissa do Senhor Mélanchon, o BE do inteligentíssimo (para mim sempre urbano, registe-se) Francisco Louçã e a Frente Nacional do Senhor Le Pen (diz-se agora que a Marine até já nem o está tanto assim). E prepare-se porque em breve os vai ter a todos a destaparem também a xenofobia que lhes está na matriz comum original.

 E o Rui Tavares, que já o vi defender tão justamente o ideal e o projecto europeísta (em que é preciso enfrentar o que o está a fragilizar e a perverter, aprofundá-lo, claro), onde está agora?

 Setenta e três anos de paz, como nenhuma geração antes da minha tinha vivido na Europa! Sem fronteiras. E de prosperidade, que temos de continuar a trabalhar, a lutar para levar a todos. Como se pode ser anti-europeísta?

Guilherme Valente (editor da Gradiva)


Um museu dos Descobrimentos: porque não?


Início do texto de Luís Filipe Thomaz inserido no seu último livro publicado na Gradiva O DRAMA DE MAGALHÃES E A VOLTA AO MUNDO SEM QUERER:

Grassa por aí, entre os pequenos e médios intelectuais deste país, um vaga de histeria causada pelos propósitos que anunciou o presidente da Câmara Municipal de Lisboa. Quando dela ouvi falar, talvez porque com a idade o ouvido me começa por vezes a trair, cuidei que se tratava de demolir o Padrão dos Descobrimentos, junto à Torre de Belém, e preparava-me para apoiar incondicionalmente o protesto. Chegou-me depois às mãos a papeleta e foi então que compreendi: tratava-se, muito antes pelo contrário, de organizar um «Museu das Descobertas». Ao que então me disseram, haviam-na assinado já centos de intelectuais, brancos uns, pretos outros, e outros ainda assim-assim.

Diga-se a talho de fouce que sempre me maravilhou como as gentes se preocupam de tais exterioridades. Até uma vez que pedi um visto para visitar certo país da Ásia me perguntaram no formulário a minha raça. Olhei para um espelho que ali havia, olhei para uns finlandeses que estavam atrás de mim, que pareciam feitos de iogurte, e preenchi: «raça: bianca ma non troppo». A funcionária da embaixada deve ter concordado, pois nem pestanejou...

Claro que não assinei a petição; como poderia eu assinar como que um cheque em branco? Um museu vale pelo que contém e pelo modo como o tem exposto. De qualquer modo, organizar um museu não significa aprovar moralmente o que nele se expõe. Visitei em Cartagena de Indias, na Colômbia, um museu da Inquisição, e no Camboja um do terror dos Khmers Vermelhos. Não sei se em Auschwitz se em Tel Aviv, creio que há também um do Holocausto. E é evidente que todos foram
erguidos horroris causa...

Não é certamente esse o caso do museu que a Câmara de Lisboa pretende construir. Seja como for, funcionou neste país durante mais de uma década uma Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses e, que eu saiba, ninguém protestou; talvez porque a Comissão distribuía em profusão apoios a projectos, bolsas de estudos e outros subsídios, e não era muito conveniente arreliar a galinha que tais ovos de ouro punha...~

Dito isto, devo acrescentar que não concordo com a designação «Museu das Descobertas». O termo «descobertas» aplicado aos descobrimentos marítimos é um galicismo, o que é talvez o menos; o mais importante é que a nossa língua é rica em subtis cambiantes semânticos, pelo que, ao contrário do francês ou do italiano, faz uma diferença entre descoberta e descobrimento. Descoberta usa-se sobretudo para coisas materiais e pode ser meramente fortuita: a descoberta do fogo na Pré-História, a do magnetismo terrestre pelos chineses da época Sung (960-1279), a da radioactividade pelo casal Curie, ou a do ouro na Austrália no século XIX. Gramaticalmente, descoberta é um particípio passivo e conota por isso a passividade da cousa achada, ao passo que descobrimento é um nomen actionis, activo e, se se quiser, interactivo.

Seja como for, quer na documentação oficial quer nos nossos clássicos, descobrimento denota um processo voluntário de exploração geográfica, como em 1972 mostrou Armando Cortesão no seu artigo «‘Descobrimento’ e Descobrimentos» na revista Garcia de Orta. O abaixo-assinado contra o projectado museu que por aí circula enferma por isso, inter alia, de ignorância da nossa própria língua, em que achamento, descoberta, descobrimento e invenção têm sentidos vizinhos mas não coincidentes. O que o autarca lisbonense quereria dizer era, evidentemente, «Museu dos Descobrimentos», termo consagrado por largo uso, que se generaliza c. 1470 para significar o que até aí era designado por enquerer, saber parte, colher certa enformação, haver manifesta certidão, etc. São tudo expressões que denotam um processo minucioso de colheita de informações, que ultrapassa em muito a ideia de achar, encontrar, topar com, que só se aplicaria com inteira justeza a ilhas desconhecidas e despovoadas, como por exemplo as da Ascensão e Santa Helena.

Em castelhano descubrimiento assumiu um sentido semelhante: por isso, embora o Amazonas tivesse sido percorrido do Peru até a foz em 1541-42 por Francisco de Orellana, e de novo em 1560 por Lope de Aguirre, Filipe IV mandou-o descobrir de novo em 1639: foi assim, uma vez mais, descido pelo jesuíta Cristóbal de Acuña, que refez o caminho dos seus predecessores, inquirindo diligentemente, das populações ribeirinhas, seu modo de vida e seus costumes, do que deu pormenorizada conta no seu livro, expressivamente intitulado Nuevo descubrimiento del Gran río de las Amazonas, impresso
em Madrid em 1641.

Tampouco colhem os outros argumentos que têm sido apresentados. Diz-se, por exemplo, que antes das viagens de Duarte Pacheco Pereira, Pinzón e Pedro Álvares Cabral, já o Brasil fora descoberto pelos índios que o habitavam. É verdade. Tão verdade que me recorda a história de Jacques de Chabannes, senhor de La Palisse, gentil-homem francês que se finou em combate a 25 de Fevereiro de 1525 na batalha de Pavia, em que as forças de Carlos V esmagaram as de Francisco I de França e o fizeram prisioneiro. Seus homens, que o amavam muito e o viram perecer em pleno vigor, batendo-se até ao fim, compuseram em sua honra uma elegia que começava assim:

Un quart d’heure avant sa mort,
il était encore en vie...

Totalmente diferente, tanto do caso do Brasil, como do das ilhas desertas, é, por exemplo, o caso da Índia, referida no Ocidente pelo menos desde Heródoto (c. 480-425 a. C.). Na época romana conhecia-se já bastante da sua cultura, e Propércio (c. 47-15 a. C.) contempla a prática dita do satî, ou sacrifício da viúva na pira do marido, numa das suas Elegias (III, xiii) que se pode traduzir assim:

Ditosa e singular a lei funérea
vigente p’ra os maridos do Levante,
a quem com seus corcéis a Aurora etérea
confere c’o arrebol tom rutilante!
     De feito, se acontece
para o esposo chegar o fatal dia,
a turma das esposas, leda e pia,
    à pira comparece,
pois que enxovalho é p’ra a esposa amante,
ali não se finar naquele instante;
    o fogo já crepita:
do último brandão lampeja a flama,
e a devorar começa a letal cama;
    a lenha se encandece:
e ei-las todas juntas à compita
p’ra de com ele morrer haver a dita...
     Enquanto monta a chama,
de todas uma há que prevalece,
e ao fogo denodada o peito of’rece:
    indiferente à morte,
o cabelo soltando em desalinho,
como mostra postrema de carinho,
    ao corpo do consorte,
que em fumo, cinza e pó se desvanece,
os lábios apõe; e assim fenece...

Aliás, creio que jamais pretendeu alguém que Vasco da Gama tenha descoberto a Índia: o que descobriu foi a boa rota para lá chegar por mar. Ou, se quisermos tomar o verbo descobrir num sentido mais absoluto, descobriu mais precisamente o troço de costa que vai do Rio do Infante, onde Bartolomeu Dias fora obrigado a arrepiar caminho, ao Cabo das Correntes, perto de Inhambane, tradicional termo meridional das navegações muçulmanas; ou, melhor, até Melinde, onde conseguiu chegar por si, pois só aí obteve um piloto mouro que o levou a Calecut.
(...)

Luís Filipe Thomaz

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Ainda o pobre desempenho científico nos 5 anos mais recentes da Universidade de Coimbra

Comentário recebido de Jorge Pacheco Torgal:

De: F. Pacheco Torgal
Enviado: 1 de Dezembro de 2018 16:04
Assunto: O desapontamento de Carlos Fiolhais


http://dererummundi.blogspot.com/2018/11/producao-cientifica-das-universidades.html
O catedrático Carlos Fiolhais manifestou-se recentemente desapontado em post colocado no Blog De Rerun Natura (link acima) com uma análise por mim conduzida na base Scopus relativa à produção cientifica da universidade de Coimbra nos últimos 10 anos, quando comparada com a de outras universidades nacionais. Porém numa análise mais recente a coisa torna-se ainda mais negra pois se na média dos últimos dez anos a Universidade de Coimbra ainda aparecia em 5º lugar já nas médias mais recentes, últimos 5 anos e últimos 2 anos, a universidade de Coimbra não só é ultrapassada pela universidade do Minho como até já vê a Universidade do Algarve a ameaçar roubar-lhe esse lugar. E até nem é de excluir que a própria UBI venha a conseguir ultrapassá-la atenta a comparação entre a sua taxa de crescimento que é mais do dobro da taxa da Universidade de Coimbra.
Rácio de publicação Scopus/ano por ETI, nos últimos 10 anos, nos últimos 5 e nos últimos 2
UAveiro.............3.7..................4.4...........4.5
UNova...............2.5.................3.5............3.7
UPorto...............3.3..................3.6..........3.6
UMinho..............2.3.................2.9...........2.9
ULisboa.............2.7..................2.9..........2.9
UCoimbra..........2.4..................2.7..........2.7
UAlgarve...........2.1..................2.5..........2.6
UBI....................1.7.................2.1............2.2
ISCTE................1.4.................1.9...........2.0
UMadeira...........1.1................1.6............1.8
UTAD.................1.3................1.5...........1.6
UAçores.............1.0.................0.8...........1.1
UÉvora...............0.9................1.1............1.0
UAberta..............0.6.................0.7...........0.6
P.S - A pesquisa engloba os vários tipos de publicações referenciadas na base Scopus e não somente os artigos em revista, para dessa forma não penalizar a produção daquelas áreas científicas cuja publicação é feita maioritariamente em livros e capítulos de livro e bastante menos em revistas.