sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

GONÇALO VELHO FALA NA ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA SOBRE EMPREGO CIENTÍFICO

É tão fácil ser adulto!

Imagem retirada daqui.
"Se vai sair à noite não se esqueça desta pulseira. Vai-lhe ser útil. A bracelete monitoriza os níveis de álcool no sangue e partilha a informação com amigos e família por via de uma aplicação própria. Ao voltar para casa depois de uma saída à noite com amigos pode questionar-se se bebeu ou não demais, sendo muitas vezes difícil de perceber se acusaria excesso de álcool no sangue caso tivesse de ser sujeito a um teste por parte da polícia (...) esta bracelete analisa as moléculas da pele para perceber qual o nível de álcool no sangue do seu utilizador, enviado essa informação para uma aplicação própria onde é possível verificar se está ou não apto para conduzir. E porque a sua família e amigos se preocupam consigo, poderá partilhar a informação diretamente através da aplicação, assegurando que está nas condições adequadas para chegar são e salvo a casa".

Toda a educação - no seu sentido mais amplo, não restrita à educação escolar - deve ter em vista a formação do pensamento de tal modo que cada pessoa possa discernir o que está, de facto, em causa em cada circunstância de que toma consciência e possa, caso queira, exprimir livremente a sua vontade, escolhendo entre diversas alternativas e tomando decisões conscientes e responsáveis.

Esta capacidade adquirida - que ocupa sobretudo filósofos e psicólogos, e que os une tanto como os divide - designada por livre arbítrio, define o estado adulto. Ser adulto é, afinal, estar por sua conta e risco e assumir isso mesmo.

Um olhar pelo que se passa à nossa volta não pode deixar de nos questionar: as sociedades modernas permitem chegar a esse estado?

Além do discurso publicitário, presente em cada passo que damos, indicando-nos o que devemos sentir e fazer em relação a tudo o que marca o quotidiano,
amplia-se o discurso das múltiplas auto-ajudas que nos fornecem receitas para os mais diversos estados de alma, actos privados, relacionamentos, e organização da vida nos seus mais ínfimos pormenores
da "educação" veiculada na escola acerca da higiene que devemos fazer, do que devemos comer, da atitude sexual que devemos ter, que destino devemos dar ao ordenado que recebemos, etc, etc.
temos uma panóplia de engenhocas da mais moderna tecnologia que nos vigia, nos alerta, nos guia e muito mais, quando corremos, quando cozinhamos, quando vamos a um bar...

Ser adulto passa a ser muito fácil, basta seguir o que alguém mais competente que nós "cientifica e pedagogicamente" nos manda... sempre em nome do "nosso bem". Não é preciso pensar para agir, é preciso, sim, confiar nos vários "alguéns": se confiarmos o suficiente e se formos muito bem comportados serem felizes e saudáveis. O céu na terra!

Esta reflexão decorre de um anúncio publicitário que vi a uma pulseira electrónica que indica (a um adulto) até que ponto deve beber... uma bugiganga que traduz mais um modo de controlo, um atestado de menoridade, que, em suma, nega o livre-arbítrio.

Mas, se está no mercado é porque tem compradores... pessoas adultas que não se vêem como tal.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

DOIS NOVOS LIVROS INTERDISCIPLINARES DO CLEPUL

O CLEPUL - Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas da Universidade de Lisboa (que tinha sido acintosamente eliminado pela "avaliação" científica ordenada pelo governo anterior), acaba de publicar dois livros em que dá boas provas da sua vitalidade interdisciplinar. Comum aos dois é a coordenação de Annabela Rita, especialista em Literatura Comparada da Universidade de Lisboa. E comum aos dois é a preocupação de juntar letras, artes e ciências. Um dos livros foca-se sobre a transformação e o outro sobre a criatividade:

- Annabela Rita e Dionísio Vila Maior (coords.), "Entremolduras. Da metamorfose nas artes, mas letras e nas ciências", Esfera do Caos, 2016. 

Vasco Graça Moura é homenageado com a transcrição do seu curto mas muito belo discurso de aceitação da distinção "honoris causa" na Universidade do Porto, pouco antes de falecer. Distingo - é uma escolha pessoal - entre os vários textos o de Annabela Rita (“Imagem ao espelho”), Joaquim Fernandes ("Dos universos setecentistas à astrobiologia”), Luís Manuel de Araújo  ("A criação do mundo e  da humanidade no antigo Egipto") e Teresa Maruje (“Da essência do feminino ou do feminino essencial”).

- Annabela Rita e Fernando Cristóvão (coords.), "Fabricar inovação. O processo criativo em questão nas ciências e nas artes", Gradiva, 2016.

Entrecortado com desenhos do arquitecto Charters de Almeida, homenageado no livro, o volume inclui também textos de autores de várias especialidades sobre a criatividade. Distingo, de novo numa escolha pessoal, os textos de Ernesto Rodrigues (“Branco”), José Eduardo Franco ("A história como constru(cria)ção: uma ciência entre a verdade...”, Miguel Real (“O bestiário do escritor na imperfeição da criação literária") e Teolinda Gersão ("Stanislawsky").

Estas obras reúnem uma polifonia de vozes que procuram a unidade do saber. 


Sobre o emprego científico

Informação recebida da Fenprof:

O diploma do emprego científico recentemente produzido pelo Governo, Decreto-Lei 57/2016, de 29 de Agosto, foi ontem discutido no plenário da Assembleia da República, na sequência dos pedidos de Apreciação Parlamentar apresentados pelo Partido Comunista Português (PCP) e pelo Bloco de esquerda (BE), cujas fundamentações acompanham as principais críticas feitas pela FENPROF ao articulado (ver aqui), em particular, o facto deste decreto-lei estar “longe do que deverá ser um adequado e justo tratamento dos investigadores, designadamente quanto à criação de condições de estabilidade e de combate à precariedade, bem como ao seu enquadramento salarial e na carreira, que deve ser valorizada, sendo a inexistência de qualquer medida para conversão dos contratos a termo em contratos sem termo a maior lacuna do projeto.”

A FENPROF esteva presente na Assembleia da República a acompanhar o debate, tendo registado com agrado a disponibilidade manifestada pelo Governo - representado pelo Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (MCTES), professor Manuel Heitor - e pelo grupo parlamentar do Partido Socialista (PS) para, no âmbito da Comissão de Educação e Ciência, se proceder à alteração do diploma com vista à sua “clarificação”, e portanto melhoria, nos seguintes dois aspectos:

  • O alargamento da duração do regime transitório e as condições de financiamento que a Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) I.P. deverá assegurar às instituições que contratarem investigadores doutorados durante esse período de tempo;
  • A garantia de oportunidade de acesso, mediante abertura de concurso, a um lugar na carreira de Investigação Científica para todos os doutorados ao fim dos seis anos de duração dos contratos a prazo instituídos pelo diploma.

A FENPROF irá acompanhar de perto os trabalhos da Comissão de Educação e Ciência e procurará sensibilizar, uma vez mais, os deputados membros desta comissão para a necessidade e relevância de se fazer reflectir numa nova versão do diploma do emprego científico as medidas que, repetidamente, tem apresentado ao MCTES e divulgado na opinião pública (ver aqui).

Entretanto, foi hoje divulgado o “Manifesto para uma ciência com futuro e direitos para todos” que reivindica o fim da precariedade para quem trabalha em Ciência em Portugal e um quadro de financiamento adequado e estável para a Ciência e as instituições do Sistema Científico e Tecnológico Nacional (SCTN), pelo que apelamos a que os colegas a assinem aqui.

Apelamos também a que, caso ainda não o tenha feito, assine e divulgue a petição sobre o posicionamento incorrecto nas escalas salariais dos colegas que em virtude de terem ganho um concurso foram promovidos para uma das duas categorias superiores da respectiva carreira – professor catedrático ou professor associado, no ensino universitário público, e professor coordenador principal ou professor coordenador, no ensino politécnico público, o que pode fazer aqui.

Valendo o que vale, é, ainda, importante conhecer o debate que está a ser feito na Assembleia da República e as propostas que foram debatidas (BE e PCP) baixaram agora à Comissão e poderão vir a promover alterações ao DL 54/2016. Para saber o que foi aí discutido disponibilizamos aqui o vídeo do debate.

Cordiais Saudações Académicas,
O Secretariado Nacional da FENPROF

Jesuítas portugueses no Japão

Dada a estreia do filme "Silêncio", sobre a saga de missionários portugueses no Japão, antecipo de uns dias o meu artigo na revista cultural nortenha "As Artes entre as Letras", na qual colaboro desde o primeiro número. Refiro duas histórias pouco conhecidas, uma a de Bernardo de Kagoshima, o primeiro japonês a vir à Europa e que está sepultado em Coimbra, e outra a obra científica do padre Cristóvão Ferreira, de Torres Vedras, que é um dos apóstatas do filme:


O recente filme de Martin Scorsese  “Silêncio”, baseado no romance do japonês  Shusaku Endo (1923-1996) com o mesmo título (de 1965, existe reedição recente de tradução portuguesa na Dom Quixote), chamou a atenção para o papel que os Jesuítas, portugueses ou estrangeiros que passaram por Portugal, tiveram no Japão nos séculos XVI e XVII.

Os primeiros ocidentais a chegar às terras do Sol Nascente foram comerciantes portugueses em 1542-1543, mas os Jesuítas demoraram poucos anos a aparecer nessas paragens, cumprindo o seu propósito de evangelização. O jesuíta basco S. Francisco Xavier (1506-1552) pertenceu ao primeiro grupo missionário que desembarcou em 1549. Os jesuítas eram então uma ordem muito recente: Xavier tinha integrado o grupo fundador, reunido em Paris em 1534  por Santo Inácio de Loyola (1491-1556). A Ordem recebeu a confirmação papal em 1540 e, nesse mesmo ano, Xavier e o seu companheiro português Simão Rodrigues (1510-1579), também do grupo fundador, chegaram a Lisboa, tendo o basco embarcado para o Oriente em 1541 e o português viajado até Coimbra, instalando a Companhia de Jesus na cidade universitária. Foi em 1542 que os  inacianos fundaram  em Coimbra o Colégio de Jesus, que, com o Colégio de S. Antão o Velho, em Lisboa, constituem os colégios mais antigos de todo a vasta rede de escolas jesuítas espalhadas pelo mundo. Os Jesuítas tinham chegado a Portugal a convite do rei D. João III, que foi o primeiro monarca europeu a conceder protecção à nova ordem. Portugal haveria de ser “rampa de lançamento” da Ordem para o mundo. Só do porto de Lisboa  se podia chegar da Europa até ao Brasil, à Malaca, à China  e ao Japão.  Xavier peregrinou onze anos por terras do Oriente, tendo estado na Índia, na China e na Japão, para vir a falecer na China.

Os Jesuítas foram, numa primeira fase, muito bem sucedidos no Japão. Conseguiram aí bastante mais conversões, totalizando cerca de 300.000 almas no auge da cristianização, do que na China. A diferença política, para além de outras culturais, é que no Japão os ocidentais encontraram uma pluralidade de senhores guerreiros, cada um com o seu domínio, ao passo que a China estava dominada pelo imperador em Pequim. Só no início do século XVII, e num movimento bélico ajudado pelas armas de fogo que os europeus introduziram no Japão, se deu a unificação dos vários domínios, afirmando-se um poder central no arquipélago. Essa unificação revelou-se fatal para as pretensões dos evangelizadores, uma vez que os cristãos passaram a ser perseguidos de um modo muitas vezes cruel. Chegou a ser dada ordem de morte a qualquer cristão que fosse encontrado, o que por vezes só acontecia ao fim de prolongada tortura. Ficaram famosos os 26 mártires de Nagasaki,  que morreram crucificados em 1597, a maioria franciscanos mas dos quais três eram jesuítas, japoneses conversos que tinham feito votos na Ordem.

Mas antes desse declínio do Cristianismo que culminaria num longo período (cerca de dois séculos) de isolamento do Japão  uma rico intercâmbio cultural, protagonizado pelos jesuítas e outros missionários, entre o Ocidente e o Oriente. O jesuíta italiano Alessandro Valignano (1539-1606), que foi Visitador das missões do Oriente, defendeu o princípio da ”acomodação”, que se traduzia na tomada dos costumes orientais, um processo que também deu frutos na Índia (com o padre italiano Robert De Nobili, 1577-1656) e na China (com o padre também italiano Matteo Ricci, 1552-1610). Foram os missionários portugueses ou estrangeiros que passaram por Portugal que introduziram no Japão, para além de uma cosmovisão do mundo (o aristotelismo, moldado ao cristianismo por S. Tomás de Aquino), instrumentos científicos como os telescópios e os relógios mecânicos e técnicas de medicina. Um dos padres jesuítas que mais se distinguiu nessa troca científica foi Luís de Almeida (1525-1583), que fundou o primeiro hospital ocidental no Japão, na cidade de Oita, antiga Funai (o hospital local tem hoje o seu nome).

Em 1551, S. Francisco Xavier trouxe de Kagoshima, cidade portuária japonesa, para Goa um nativo nipónico, que foi baptizado com o nome de Bernardo, que se tornou em 1553 o primeiro japonês a desembarcar na Europa. Bernardo de Kagoshima (1534-1557), como ficou conhecido, tornou-se noviço da Companhia. Viveu no Colégio de Jesus em Coimbra antes de ser enviado em 1554 para Roma, onde se encontrou com Santo Inácio, o fundador e Superior Geral da Ordem. Regressado a Coimbra acabou por falecer em idade relativamente jovem. Consta que está sepultado na Igreja do Convento de Jesus, a Sé Nova, actual igreja diocesana de Coimbra, repousando o seu corpo na Capela de Santo Inácio de Loyola, do lado esquerdo da nave. Não são muitos os japoneses cristãos, mas alguns vão aparecendo na Sé de Coimbra para orar diante dessa sepultura.

O filme de Scorsese, baseado em factos reais, passa-se muito depois, uns anos antes de 1640, o ano da restauração da independência portuguesa, numa altura em que os cristãos, que não tivessem apostatado, continuavam a ser vítimas de ferozes perseguições. Um dos mais famosos – e uma figura central do filme - é o padre jesuíta Cristóvão Ferreira (c. 1580-1650), que, sob a tortura da suspensão na fossa, abandonou a fé cristã, tomando o nome de Sawano Chuan, para aderir à religião e aos modos de vida japoneses (inclusivamente casando e tendo filhos de uma japonesa). Ferreira, para além dos escritos que deixou contra a fé católica após a sua apostasia, deixou também vários escritos de carácter científico, que abrangiam desde a astronomia e a cosmologia até à medicina. É ele o tradutor de “Exposição sobre os Céus e a Terra” e o provável autor de um tratado intitulado “Cirurgia dos Bárbaros do Sul” (“Bárbaros do Sul” ou “Nanban” era o nome que os japoneses davam aos europeus e também é hoje o nome de um estilo de arte oriental presente em biombos). Também Ferreira foi, à sua maneira, um intermediário de culturas, ao divulgar no Japão os conhecimentos europeus sobre o mundo e a Natureza. Consta que morreu sob tortura, de novo cristão, mas não há a certeza.

Sobre Bernardo de Kagoshima:


(está errado o local da morte, que foi em Coimbra)


Sobre Cristóvão Ferreira (wiki m inglês por a ficha ser mais completa do que em português)




SOBRE HOMEOPATIA E EFEITO PLACEBO

Entrevista sobre homeopatia e efeito placebo do David Marçal e minha a uma revista popular, a propósito do nosso livro Pipocas com Telemóvel e Outras Histórias de Falsa Ciência, e que nunca chegou a ser publicada

P- Se como dizem no vosso livro a homeopatia é uma fraude, por que é que, na vossa opinião, continuam a ser produzidos e comercializados remédios homeopáticos?

DM- Não somos nós que dizemos, são numerosos autores de rigorosos estudos científicos. A homeopatia está bastante estudada e, quando sujeita aos mesmos critérios de exigência que são usados para aprovar qualquer tratamento convencional, não consegue provar a sua eficácia para além de um vulgar placebo. Se conseguisse, não se falaria de “medicina alternativa” mas pura e simplesmente de medicina. De qualquer modo as consultas e os medicamentos homeopáticos encontam-se  com facilidade no mercado. E não há dúvida que há procura. Apesar da falta de provas científicas, a homeopatia conseguiu construir à sua volta um aura de credibilidade, de várias formas, a começar pela venda de produtos homeopáticos em farmácias convencionais .Nem sempre os legisladores e reguladores actuam em coerência com o melhor conhecimento científico. Por exemplo, não existe nenhum mecanismo automático que faça com que impeçam fraudes do tipo dos produtos homeopáticos (há, de resto, várias outras...) de  serem comercializadas.

2.    P- Segundo escrevem, os comprimidos homeopáticos são feitos de água e açúcar. Podem pôr em perigo a saúde das pessoas, se os tomarem de forma regular e prolongada?

CF- De facto, na maior parte dos casos esses comprimidos não fazem bem nem mal. Mas as pessoas estão a tomar um remédio que pensam ter um efeito fisiológico quando este não o tem. Se a doença for grave, o perigo para a saúde é não a tratar. Por exemplo, se for para uma zona em que a malária é endémica e fizer apenas uma profilaxia homeopática para a malária está a pôr em risco a sua saúde. Esta situação não é hipotética, são conhecidos vários casos, como o do missionário norte-americano Tom Miller, que, em 2004, antes de viajar para a Nigéria, abdicou da profilaxia habitual para a malária e tomou um produto homeopático. Acabou nos cuidados intensivos de um hospital, inconsciente durante sete dias. Sobreviveu, mas não foi graças à homeopatia. Não penso que deve ser limitada exageradamente a liberdade das pessoas, desde que essa liberdade não afecte os outros. Cada um poderá fazer o que quer desde que não incomode os outros. Mas, veja bem, nesse caso o desleixo de uma pessoa foi afectar, de forma desnecessária, o trabalho de muitas outras, que fizeram tudo o que puderam para salvar uma pessoa imprevidente.

3.    P- Por  que é que o efeito placebo aparece associado às Terapêuticas Não Convencionais, sobretudo à Homeopatia?

DM- O efeito placebo, a sensação de melhoria quando se está a ser tratado, acontece em todas as intervenções médicas. No caso da homeopatia, apenas existe o efeito placebo. Não é por acaso que um dos remédios homeopáticos mais populares seja para a gripe, que em condições normais passa sozinha. Por acção do próprio organismo. O remédio homeopático não ajuda embora a pessoa que acredite na eficácia do remédio  pense que sim. Nós, quando do lançamento do nosso livro sobre pseudociência, tomámos uma embalagem inteira de um desses medicamentos e não nos aconteceu absolutamente nada. Não tínhamos gripe. Mas, quer tivéssemos quer não, teria sido contraprudecente ter tomado de uma só vê uma embalagem inteira de um medicamento. Não tivemos qualquer receio porque os medicamentos homeopáticos, pelo princípio que apregoam, são feitos com diluições tão grandes de uma substância supostamente activa que praticamente no “remédio” não existe nada dessa substância.

4.    P- O efeito  placebo pode produzir melhorias clínicas? Nesse caso, poderia ser usado como estratégia terapêutica?

DM- Sim, o efeito placebo consiste precisamente em produzir uma sensação de melhoras, que é subjectiva e transitória. Mas não há nenhuma doença séria que se cure com placebos pela simples razão que não existe neles nenhuma molécula activa que interfira nos mecanismos de doença.  Administrar placebos para pessoas que se queixam de doenças imaginárias ou reais é uma questão ética, que depende das circunstâncias e que deve ser avaliada pelos médicos. Na impossibilidade de outras opções, sem dúvida que um placebo é melhor do que nada.. Mas, havendo a possibilidade de oferecer um tratamento que tenha também um efeito fisiológico comprovado, eticamente será preferível.

CF- Os placebos são usados de forma anónima em testes clínicos para controlar a eficácia dos medicamentos. Como disse, só são aprovados de acordo com critérios médicos internacionais, medicamentos cujo efeito seja superior ao do placebo. O efeito do placebo, apesar de real, é em média pequeno. Por isso, ele é considerado um limite mínimo de eficácia.

MARTIN SCORSESE FALA COM O P. MARTIN SOBRE O FILME "SILÊNCIO" QUE ESTREIA HOJE EM PORTUGAL

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

SOBRE O ROMANCE "SILÊNCIO" DE SHUSAKU ENDO

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O Padre Adelino Ascenso, Superior Geral dos Missionários da Boa Nova, fez uma tese sobre o romance "Silêncio" de Shusaku Endo, que serve de base ao filme com o mesmo nome de Martin Scorsese, que estreia amanhã.  Deu uma entrevista há dias ao jornalista Paulo Rocha do programa "Fé dos Homens" que passa na RTP da responsabilidade da Agência Ecclesia. A tese doutoral do Padre Ascenso, defendida na Universidade Gregoriana de Roma, está aqui:

https://books.google.pt/books?id=AEO6njtc9JsC&printsec=frontcover&hl=pt-PT&source=gbs_ge_summary_r&cad=0#v=onepage&q&f=false

Eu próprio dei hoje uma entrevista a esse programa sobre o referido filme e, mais engeral, sobre o livro "Jesuítas, Construtores da Globalização", CTT, 2016,  de José Eduardo Franco e Carlos Fiolhais. O filme passará na RTP na próxima segunda-feira pelas 15h.

À procura de espécies crípticas

      
Texto recebido do biólogo José Cerca de Oliveira e colegas no Museu de História Natural de Oslo (na figura):

A aplicação de métodos de sequenciamento de ADN revolucionou a biologia. Ora, numa das suas aplicações mais surpreendentes, estes permitiram encontrar várias espécies dentro de espécies tradicionalmente definidas – equivalente ao príncipio das matrioscas, as famosas bonecas russas - as espécies crípticas.

Estas espécies demonstram, portanto, elevados níveis de divergência genética entre si, mas, surpreendentemente, não se verificam diferenças morfológicas (morfos = forma). Assim foi cunhado o termo ‘espécies crípticas’ (Grego Kryptos = escondido). A ocorrência das espécies crípticas ressalva a necessidade de um bom sistema de organização e classificação dos seres vivos, demonstrando que negligência na catalogação das espécies pode incorrer em problemas tanto a nível do conhecimento biológico das espécies (história evolutiva, ocupação de espaço ecológico, perfil biogeográfico) como também pode ter impactos económicos e na nossa saúde. Ainda assim, nem todos os cientistas estão de acordo com as definições propostas de delineamento de espécies crípticas.

O mosquito Anopheles gambiae é conhecido pelas piores razões: este mosquito é o vector que transmite o parasita protozoário da malária, responsável por milhares de mortes anuais. Recentemente descobriu-se que esta espécie é um conjunto de espécies crípticas. Morfologicamente idênticas, estas espécies parecem ser distintas pela sua preferência de habitat (por exemplo, no uso de poças de água ou campos de arroz no crescimento das larvas). Por um lado, esta descoberta revelou que nem todas as espécies são perigosas para o ser humano, por outro lado, permite a concentração de esforços nas espécies que nos atacam - informação que pode fazer diferença a salvar vidas. No combate à fome descobriu-se que o hemiptero Bemisia tabaci ataca algumas plantas de interesse económico como o algodão, melão, brócolo, repolho e a abóbora. Estudos genéticos demonstraram que esta espécie é composta por 28 espécies diferentes e esta informação abriu portas à identificação e delimitação destas espécies, revelando que distantas espécies do complexo têm diferentes preferências (umas gostam mais de repolho, outras mais de melão, …).

Contudo isto aparenta ser apenas a ponta do iceberg. O termo “espécie críptica” tem ganho popularidade nas últimas décadas e têm-se descoberto espécies crípticas em diversos ramos da árvore biológica. Um dos problemas é o trabalho exigente, especializado e laborioso que envolve a descrição de espécies e que acaba por ser descurado facilmente - muitas das espécies crípticas não chegam a ser formalmente incluídas no sistema de classificação e outras necessitam de verificação e confirmação.

Recentemente descobriram-se 16 espécies dentro do peixe Schindleria praematura. Dez foram encontradas no mesmo local (simpatria), levantando as seguintes questões aos cientistas: Como é que estas espécies evoluíram? Como é que se distribuem no espaço ecológico? Competem por recursos, habitat ou espaço? Será que evoluíram no mesmo local (simpatria) ou em locais diferentes (alopatria) tendo-se juntado mais tarde? Como se mantêm enquanto espécies diferentes?

No meio destas questões, há uma questão que sobressai: como é que estas espécies se mantêm idênticas na presença de processos que, à partida, geram diversidade tais como selecção natural e deriva genética? Possivelmente através de limitações de plasticidade genética ou plasticidade de desenvolvimento; potenciais vantagens em preservar uma certa forma; mudanças a nível fisiológico; ou, em certos casos, tratam-se apenas de espécies irmãs: espécies que se apenas se separaram recentemente e cujas diferenças se acumularão com o passar do tempo.

Com as alterações climáticas, poluição, fragmentação e destruição dos ecossistemas e poluição acentua-se a necessidade de entendermos a biodiversidade e ponderar em como a preservar. Por um lado, a ocorrência de espécies crípticas pode esconder uma parte substancial da biodiversidade mas por outro lado, poderá levar a falhas na conservação de espécies. Porém, nem tudo são favas contadas. Nem todos os cientistas concordam com os termos aplicados até então. O que é necessário para classificar uma espécie de críptica? Qual é o grau de divergência genética necessária para serem classificadas enquanto espécies diferentes? E quão semelhantes devem ser em aparência para serem consideradas crípticas?

No Museu de História Natural de Oslo temos debatido estes temas.

José Cerca de Oliveira
Siri Birkeland
Sonja Kistenich

Trude Magnussen

MANIFESTO para uma ciência com futuro e direitos para todos


Assinei este manifesto em favor da ciência e do emprego científico:

http://www.peticaopublica.com/pview.aspx?pi=ManifestoCiencia

O manifesto está aberto à subscrição de todos.

O 4.º Congresso dos Jornalistas e a Ordem dos Jornalistas.



Meu artigo de opinião publicado ontem  no "Diário as Beiras":

“A história é émula do tempo, repositório de factos, testemunha do passado, exemplo do presente, advertência do futuro”. Miguel Cervantes

Na altura em que escrevo este texto, decorre o segundo dia do “4.º Congresso de Jornalistas”, com a participação de mais de 700 congressistas.

Pacífica é hoje, passados tempos que residem em nossa lembrança, a necessidade da formação académica de nível superior dos jornalistas, repudiada pelos próprios profissionais que se opunham a esta medida sob o dislate de que se nasce jornalista como se nasce poeta. Recordo, a propósito, o legado de Joseph Pulitzer (1847-1911) deixado para os vindouros: “A única profissão para a qual o homem já nasce preparado e prescinde de escola - é a de idiota”!

Atrevo-me a pensar que neste congresso virá novamente à baila a polémica criação de uma Ordem dos Jornalistas (já diziam os latinos: quod capite, tot sensu) em que rebusco um debate, passado na TV2, intitulado “Clube dos Jornalistas”, com a participação de dois jornalistas e da ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas, Diana Andriga. Neste confronto, manifestou-se esta dirigente sindical contra a criação de uma Ordem dos Jornalistas, em oposição às teses favoráveis de Octávio Ribeiro, subdirector do “Correio da Manhã”, e Eduardo Cintra Torres, crítico de televisão do jornal “Público”. Em ocasião diferente, manifestou-se, igualmente, defensor de uma Ordem dos Jornalistas o falecido e antigo director do “Diário de Notícias”, Bettencourt Resendes.

Tempos depois, Vital Moreira, com sustento na tese de  que o referendo sobre esta matéria, realizado, anos atrás, rejeitava esta criação, e, por acréscimo escudado no peso institucional de catedrático de  Direito Constitucional, declarava publicamente: “Sempre me manifestei contra a criação de uma ordem profissional [dos jornalistas] - aliás, rejeitada num referendo à classe  realizado há mais de uma década” (“Público”, 05/07//2005).

Por seu lado, em reformulação do argumento do referendo, havido por Vital Moreira com vaca sagrada, não hesita Miguel Sousa Tavares, licenciado em Direito e jornalista de profissão, em retractar-se: “Opus-me no referendo feito à classe sobre a criação de uma Ordem dos Jornalistas. Hoje, revejo a minha posição: é urgente a criação de uma Ordem” (“Público”, 06/03/98).

Salvo erro, em 25 de Julho de 2005, em artigo opinião, José Manuel Fernandes, director do “Público”, perante os inúmeros desafios que se levantavam  ao exercício do jornalismo - e a que o respectivo sindicato, sob pena de exorbitar nas suas funções, não podia dar resposta, tecia pertinentes considerações em defesa de “uma associação de filiação obrigatória para todos os jornalista”. E, com isso, interrogava-se e aos leitores: “Uma Ordem?”

Ademais, insurgia-se ele contra o facto de à Comissão da Carteira Profissional de Jornalistas, presidida por um juiz e com representação dos jornalistas e associações empresariais, poder ser delegada funções do foro de uma ordem profissional

Sem sombra de dúvida, ao arrepio dos seus detractores - muitos deles oriundos da própria classe - e a incorporação da legião de indecisos, mais dia menos dia, o pesado fardo da dificuldade na criação de uma Ordem dos Jornalistas será alijado, deixando de poder ser passada a imagem de que a preocupação principal da classe reside em questões do foro laboral, como sejam desemprego e pequenos salários. A questão está só em saber quando e com que prejuízo para os seus actuais defensores e para a exigência ética da nobre profissão de jornalista. 

Quer se queira quer não, esta situação corre o risco de configurar um atestado de inépcia, ou simples falta de interesse, dos jornalistas em se baterem, de fileiras cerradas, por uma organização profissional de direito público com enormes responsabilidades de (in)formação em sectores de indiscutível importância social, económica e política.

FUTURÁLIA 2017



Como membro do Conselho Científica da Futurália, venho divulgar o banner dessa feira.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

CLAVIUS BIBLIOTHECARUM


Catálogo das bibliotecas das casas religiosas portuguesas (mosteiros, conventos, etc.) organizado por Luana Giurgevich e Henrique Leitão.

http://clavisbibliothecarum.bnportugal.pt/

Também existe em forma de livro.

TRAILER DE "SILÊNCIO" EM PORTUGUÊS DESENHADO PELO P. NUNO BRANCO


http://nit.pt/coolt/cinema/trailer-silencio-criado-portugues

EPISÓDIOS NA VIDA DE UM POLIO

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Vou apresentar no dia 15 de Fevereiro, pelas 15h,
no Museu da Ciência de Coimbra o livro "Episódios da vida de um Polio", de Ilídio Barbosa Pereira, seguindo-se um debate sobre o tema da poliomelite.

http://www.museudaciencia.org/index.php?module=events&option=&action=&id=738

Está patente naquele museu uma exposição sobre o assunto, "Memórias Feridas Corpos Revelados" com extraordinárias fotos que podem ser consideradas chocantes.

Na imagem: A exposição na Universidade de Leon.

Portugueses no Japão

Caixa que surge no livro "Jesuítas Construtores da Globalização" , de José Eduardo Franco e Carlos Fiolhais, CTT, 2016, um livro tornado actual pela próxima estreia de "Silêncio", o filme de Martin Scorsese:

"Os portugueses chegaram ao Japão em 1542, ini­ciando-se o labor missionário nessa região passados sete anos, quando chegou Francisco Xavier. Os Je­suítas, na sua maioria portugueses, foram os protago­nistas dessa tarefa de missionação que, numa primeira fase, conheceu um êxito impressionante. Chegou a ha­ver mais de trezentos mil cristãos no Japão. O cato­licismo acabou por ser severamente reprimido em 1587 e, de forma sistemática, a partir de 1614, no processo de unificação política daquele país. As perseguições foram terríveis: 26 cristãos, entre os quais três pa­dres jesuítas, foram crucificados em Nagasaki, razão que mais tarde foi considerada suficiente para a sua canonização. Muitos cristãos, cerca de sessenta mil, permaneceram depois com práticas na clandestinida­de – foram os chamados «cristãos escondidos». Só no final do século XIX voltou a haver nas ilhas nipóni­cas tolerância para com os cristãos.

Os Jesuítas levaram a Revolução Científica ao Ja­pão, incluindo o uso do telescópio. Foram também os Jesuítas que introduziram nessas ilhas a medicina oci­dental, criando vários hospitais. Distinguiu-se nessa atividade o padre Luís de Almeida (1525-1586), o pri­meiro português a chegar a Nagasaki (em 1567), que se apoiou no modelo das misericórdias portuguesas. Hoje existe no Japão, na cidade de Oita, um hospital com o nome de Luís de Almeida."



Pormenor dos biombos Namban Bárbaros do Sul (1593)



Mártires de Nagasáqui, escola de Cuzco (peru). Da peerseguição aos cristãos resultaram, ennrre 1597 e 1637, duzentos  e cinco mártires.

 

"LOGO À NOITE VAI ESTAR FRIO"


No próxima sábado, vou apresentar em Coimbra (casa da Escrita) o livro mais recente de António Canteiro baseado na biografia de António Nobre.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

RELIGIÃO E FINANÇAS


Francisco Louçã e Nuno Martins debatem no Porto o tema "Religião e Finanças", no quadro do ciclo "Palavras no Tempo."

Vai ter lugar mais uma sessão do projeto 'Palavras no Tempo', uma parceria da Universidade do Porto, do Centro Nacional de Cultura e da Universidade Católica, cuja descrição e informações adicionais se encontram em:

http://www.pnt.up.pt
A sessão terá lugar no PORTO na Escola secundária Clara de Resende, Porto.
O evento deste mês, tem o tema "Religião e finanças" e conta com Francisco Louçã e Nuno Martins. 
• Será pelas 10h 30m, no dia 20 de janeiro de 2017, sexta-feira e a entrada é livre.
O evento seguinte será no Porto, na Faculdade de Economia da Universidade do Porto, com o tema "Religião e trabalho", no dia 28 de março de 2017, terça-feira, 18h 30m. Os convidados serão Maria Pilar González e Bagão Felix.

Os eventos futuros podem ser consultados em
www.pnt.up.pt/?cat=11

Para submeter a coorganização de algum evento no futuro, poderá aceder à opção 'pedir um evento', no menu esquerdo da página http://www.pnt.up.pt

Gratos pela participação e pela eventual divulgação desta missiva junto de potenciais interessados.

A organização de "Palavras no Tempo"                      

NOVIDADES DA GRADIVA - JANEIRO

Informação sobre as novidades da Gradiva de JaneiroOs livros estarão à venda a partir de dia 17 de Janeiro.



António Oliveira e Castro
Coleccionadores de Sonhos

Guerra e amor. Esperança e desencanto. Um livro que nos leva por diferentes destinos humanos, tempos e espaços. As páginas percorrem a História de uma Angola nos últimos anos do Império colonial, viajam ao período das lutas li­berais do século XIX, e conduzem ainda o leitor a um presente (ou quase presente) com o Porto como cenário imediato e o país em pano de fundo. Numa nação habitada pelo desemprego, por políticos que governam mal, por gentes que passam dificuldades, há quem decida não baixar os braços, acredite na mudança, defenda convicções. Nesta narra­tiva, ao mesmo tempo intensa e delicada, um baú junta‑se ao enredo e às personagens principais. Que segredos es­conde? Descubra‑os, num livro que se lê com muito gosto!
«Gradiva», n.º 164, 496 pp., €19,30
http://www.gradiva.pt/?q=C/BOOKSSHOW/9053
Manuel Nunes
A Aluna que Bateu no Professor

A educação em Portugal foi levada durante mais de 40 anos a uma situação dramática. A posição dos professores foi posta em causa. E abriu‑se uma brecha para o impensável. Este é um livro em que a ficção se mistura com a realida­de para contar aquilo que até parece mentira. Há alunos que batem nos professores? Sim. Perceber os quês e os por­quês dessa realidade a que se chegou é imperativo. Mais ainda hoje em que há fortes razões para temer que a escola que aí vem seja uma exacerbação dessa «escola» que durante tanto tempo houve. Uma narrativa tocante que revela a realidade como só a ficção pode fazer.
«Fora de Colecção», n.º 485, 184 pp., €12,00
http://www.gradiva.pt/?q=C/BOOKSSHOW/9054




Annabela Rita e Fernando Cristóvão (coord.)
Fabricar a Inovação
O processo criativo em questão nas ciências, nas letras e nas artes

Como se faz acontecer a inovação? Esta pertinente pergunta é hoje, mais do que nunca, de importância crucial, atra­vessando campos tão diversos como os das ciências, das letras e das artes. E essa diversidade é bem espelhada nes­te livro, para o qual contribuíram autores especialistas em distintas áreas, enriquecendo um tema que a todos interes­sa. Ao mesmo tempo, trata‑se de uma obra que homenageia um grande criador: o escultor e arquitecto Charters de Almeida. Uma reflexão riquíssima a não perder.

«Fora de Colecção», n.º 486, 400 pp., €19,00
http://www.gradiva.pt/?q=C/BOOKSSHOW/9055

Para Fevereiro, uma introdução actualizada ao Populismo:


ENCONTRO DE HISTÓRIA DA CIÊNCIA NO ENSINO

Informação recebida dos organizadores: 

É com grande satisfação que a Comissão Organizadora do 2º Encontro de História da Ciência no Ensino (2EHCE), a realizar em Coimbra nos dias 26 e 27 de Maio de 2017, informa que a página web (https://www.uc.pt/fctuc/dquimica/2EHCE) do encontro já está disponível online.

Gostaríamos muito de poder contar com propostas de comunicações. Esperamos também que possam ajudar na divulgação do encontro junto das  instituições e das organizações a associações a que pertencem.

Como está anunciado na página (https://www.uc.pt/fctuc/dquimica/2EHCE/EB) existe a forte possibilidade  de se publicar um volume na Imprensa da Universidade de Coimbra (IUC) com os trabalhos submetidos ao Encontro, sendo a edição da responsabilidade dos membros da Comissão Organizadora.


Comissão Organizadora,

Sérgio Rodrigues (UC), com Ana Luisa Santos (UC), Carla Morais (UP), Clara Vasconcelos (UP),
Elsa Gomes (UC), Isilda Rodrigues (UTAD) e Jorge Azevedo (UTAD)

DEBATE SOBRE POLÍTICA CIENTÍFICA EM COIMBRA


A sessão de Coimbra do Debate Público sobre o Sistema de C&T, o Ensino Superior e o Emprego Científico realizar-se-á no dia 17 de Janeiro de 2017, das 11h às 13h. A sessão terá lugar no auditório da Faculdade de Ciências e Tecnologia, no Polo II da Universidade de Coimbra.

Para enquadramento da sessão é sugerida a consulta dos documentos:






O COMPRADOR DE LIVROS QUE CAÇA PECHINCHAS

Fui retratado como coleccionador de livros no Notícias Magazine que saiu ontemcom o DN e o JN:




PETIÇÃO EM FAVOR DA ESCOLA SECUNDÀRIA JOSÈ FALCÃO EM COIMBRA


O governo, este e os anteriores, não têm olhado para grandes liceus históricos nacionais com a atenção que eles merecem. É  o caso do Liceu Camões, em Lisboa, e do Liceu D. João III, hoje Escola Secundária José Falcão, em Coimbra. Recebi lá sete anos da minha formação, participei lá em muitas actividades (como a redacção do jornal "O Estudante") e hoje faço parte da Associação dos Amigos dessa escola.

É como Amigo dessa escola que venho pedir para assinarem a petição em favor de obras de remodelação nesse liceu (digo liceu porque é mais curto e mais bonito!). Basta assinar aqui;

http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=ESJoseFalcao

domingo, 15 de janeiro de 2017

MÁRIO SOARES E A CIÊNCIA



Agora que diminuiu o vendaval de artigos sobre Mário Soares, é curioso reparar que pouco se  falou sobre a sua relação com a ciência. Isso é natural pois Mário Soares era pela sua formação essencialmente um homem de Letras e nos seus governos a ciência em Portugal, em períodos económicos difíceis (1976-78 e 1983-85), era ainda bastante débil. A ciência só ganhou realmente estatuto governamental quando, em 1995, José Mariano Gago se tornou o primeiro ministro da ciência e tecnologia no primeiro governo de António Guterres. Mas, nas Presidências da República de Mário Soares (1986-1996), o Presidente da República, bem assessorado, dedicou alguma atenção à ciência.

Organizou na Fundação Gulbenkian entre 1987 e 1989. uma série de conferências intitulada "Balanço do Século", comissariada pelo filósofo Fernando Gil, que foi inaugurada pelo filósofo e jurista italiano Norberto Bobbio (na impossibilidade da presença de Karl Popper, que só veio depois) e encerrada por Eduardo Lourenço. Além dos escritores e pensadores Mário Vargas Llosa e Umberto Eco, os filósofos  Norberto Bobbio,  Karl Popper e José-Luís Aranguren, apresentaram conferências cientistas como o matemático René Thom (medalha Fields), os químicos Manfred Eigen e  Iliya Prigogine (os dois Nobel da Química), o biólogo François Jacob, o antropólogo Marc Augé e os economistas Herbert Simon e  John Kenneth Galbraith. De todos estes nomes, só estão vivos Eduardo Lourenço, Mario Vargas Llosa, Manfred Eigen e Marc Augé.

Mário Soares escreveu no seu balanço do "Balanço do Século",  livro publicado pela Imprensa Nacional em 1990:

"Anoto meros tópicos. não me permito tirar ilações. E, no entanto, há uma que ressalta com evidente clareza: a extraordinária lição de espírito crítico e de humildade perante a soberba intelectual por vezes sugerida, aos espíritos menos preparados, pelos espantosos progressos da Ciência e da Tecnologia" Humildade crítica que é uma lição a tirar não só do domínio da Ciência como também da Política. Depois das certezas das políticas ditas científicas, que tanto mal e tanto sofrimento provocaram, insinuam-se, finalmente, as dúvidas, compreendendo-se melhor que as concepções políticas têm muito pouco de científico e que à arrogância das convicções devem sobrepor-se sempre o experimentalismo de soluções alternativas e o esforço de concertação entre interesses e opiniões divergentes. Este ensinamento, que o progresso do conhecimento científico confirma, veio trazer à política e à intervenção democrática, neste final de século, mais humildade, mas também, paradoxalmente, mais ambição. sabemos hoje quão fácil e cometer erros em política e nos enganarmos; em que medida precisamos sempre do concurso dos que de nós divergem, para corrigirmos erros e naturais insuficiências. Mas é isso, também, que nos torna mais ambiciosos, por, porque acreditamos que, em política não há soluções definitivas nem verdades absolutas. No final do milénio não acreditamos mais porventura no progresso necessário, alimento obrigatório dos misticismos revolucionários. Mas nem por isso deixámos de acreditar na possibilidade de progredir - o que representa a essência e ambição da Democracia."

Veja-se a influência que nele tem a filosofia de Popper: o progresso com base no erro tanto na ciência como na política. Mais adiante escreveu Soares:

"Temos vindo a acompanhar, atentamente, a evolução da nossa Comunidade Científica - buscando com ela um diálogo que, para mim, tem sido enormemente enriquecedor e a encorajar o seu peso crescente na sociedade e o reconhecimento da problemática que coloca, como essencial à definição de uma estratégia de desenvolvimento e modernização."

Em ligação com aquela iniciativa e em colaboração com a JNICT (onde José Mariano Gago esteve entre 1986 e 1989), Soares impulsionou uma outra iniciativa, realizada também num dos auditórios da Gulbenkian, "A Ciência como Cultura".  O livro, com este mesmo título, foi também publicado pela Imprensa Nacional (1992), com um instrumento do Museu de Ciência da Universidade de Coimbra, na capa. Participaram o físico José Mariano Gago (que falou sobre "Ciência e saber Comum", os filósofos Fernando Gil, Gilles Granger e Jean Petitot, a bióloga Maria de Sousa e o químico Sebastião Formosinho. O propósito do colóquio foi claramente definido por Soares no seu discurso inicial:

"A ideia de realizar este Colóquio nasceu da vontade política de contribuir para a criação, no nosso país, de uma consciência cada vez mais profunda, exigente e rigorosa do valor insubstituível da Ciência, no tempo presente, e do seu papel fundamental para a criação de uma nova mentalidade, imprescindível no lançamento de uma acção coerente e determinada, em favor do desenvolvimento de Portugal."

De novo, Soares relacionava a ciência com a cultura e com o desenvolvimento. Foi ele, numa fase final do seu mandato presidencial, que deu posse ao governo de Guterres onde José Mariano Gago foi ministro. Também para a comunidade científica nacional a morte de Mário Soares foi uma enorme perda.

"CONVENTO-HOSPITAL DE S. JOÃO DE DEUS. CENTRO CLÍNICO DA GNR"


O título de cima é o de uma obra coordenada pelo historiador Augusto Moutinho Borges e pela arquitecta Sandra Gameiro Baptista,publicada pela GNR em 2016. Com um excelente aspecto gráfico e ricamente ilustrada a obra, publicada pelos 50 anos do Centro Clínico da GNR, descreve o Convento de S. João de Deus, onde aquele centro se situa (às Janelas Verdes, em Lisboa). O prefácio é do tenente-general Manuel da Silva Couto, Comandante-Geral da GNR e a apresentação do coronel José Leite Machado, director do Centro Clínico.

No capítulo I é tratada a História, apresentando São João de Deus, a fundação do Convento-Hospital e o seu quotidiano, assim como a Ordem Hospitaleira de S. João de Deus e os Hospitais Militares em Portugal, No II capítulo II é apresentada a arquitectura do Convento e a arte (igreja, pintura mural e azulejaria). Uma cronologia e um posfácio pelo coronel Reinaldo Valente de Andrade, que chefia a Divisão de História e Cultura da GNR completa a obra.

S. João de Deus, o patrono dos hospitais, doentes e enfermeiros em todo o mundo e santo da Igreja desde 1690 é - nem todos o sabem - um santo português, pois nasceu em 1495 em Montemor-o-Novo, no Alentejo (com o nome de João Cidade), tendo morrido em 1550, em Granada, Espanha. Depois de uma conversão tardia, que foi antecedida por uma vida de pastor, soldado e livreiro, fundou em 1540 um Hospital em Granada que é um dos primeiros hospitais modernos, por estar mais avançado que os hospitais medievais. Fundou também a Ordem Hospitaleira de S. João de Deus, que em Portugal (onde chegou em 1606. com a vinda de irmãos para Montemor-o-Novo) teve a seu cargo uma rede de hospitais militares que mostrou a sua utilidade nas Guerras da Restauração, cuja sede era precisamente o Convento de S. João de Deus em Lisboa. O edifício do mosteiro foi doado por D. António Mascarenhas, deão da capela real, em 1629, no período filipino, à Ordem Hospitaleira de S. João de Deus. No século XIX, após a extinção das ordens religiosas, o hospital de S. João de Deus passou a ser hospital da Guarda Real da Polícia de Lisboa, tendo passado para a GNR, fundada em 1911, em 1920. O edifício serviu várias funções na GNR (era chamado Quartel das Janelas Verdes) até ser aí inaugurado em 1966 o Centro Clínico da GNR.

Augusto Moutinho Borges tinha defendido a sua tese de doutoramento em 2008 sobre "Os Reais Hospitais Militares em Portugal administrados e fundados pelos Irmãos Hospitaleiros de S. João de Deus , 1640-1834, na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa (publicada em 2009 pela Imprensa da Universidade de Coimbra) e publicou recentemente a obra premiada "Azulejaria de S. João de Deus em Portugal, 1615-2015, na Caleidoscópio. De facto, os azulejos,  representando muitas vezes cenas da vida do santo, são um dos elementos artísticos mais notáveis dos hospitais reais de S. João de Deus.

Estão de parabéns os autores por esta obra que revela um rico património ignorado praticamente de toda a gente dado o facto de o edifício ser uma instalação militar. Há muito Portugal desconhecido!

Na imagem: Tratamento aos loucos no Hospital Real de Granada (painel de azulejos no Convento-Hospital). Sim, eles eram açoitados. O mesmo aconteceu com S. João de Deus, que foi a certa altura da sua vida considerado louco.

"Não consigo responder às perguntas sobre os meus próprios poemas"

A ideia de que as escolas devem "prestar contas" tem feito proliferar inúmeras entidades externas especializadas em avaliação sumativa (provas, testes, exames), oficiais ou particulares (das quais não estão excluídas empresas) de carácter local, regional, nacional ou transnacional.

Esta nota diz respeito apenas à avaliação da aprendizagem por parte dessas entidades.

Focalizadas no que se encontra prescrito no currículo - o que está certo - e respeitando exigências de objectividade - o que também está certo -, descuidam "subtilezas" que fazem toda a diferença. Uma delas é a natureza do próprio conhecimento: o conhecimento, mesmo dentro da mesma disciplina, não pode ser medido todo da mesma maneira nem com o mesmo grau de objectividade porque a sua natureza é diversa.

Por exemplo, no âmbito da língua materna, uma coisa é medir o domínio de regras gramaticais outra, bem diferente, é medir a análise de um poema.

Em termos de itens, se o domínio de regras gramaticais pode ser testado objectivamente através de escolha múltipla, a análise de um poema requer perguntas de resposta aberta, sempre mais subjectivas. Nestas, especialistas de grande prestígio vão mais longe e dizem que o texto literário, sendo da ordem da arte, não pode ser objecto de avaliação sob pena de o seu sentido - fruição - ser desvirtuado.

Estas considerações são a propósito de uma notícia que li no jornal Expresso da semana que passou, e que foi originalmente publicada no The Huffington Post na qual se contava que certa professora e escritora norte-americana, Sara Holbrook, viu um dos seus poemas integrado num exame do ensino básico de carácter estatal - do estado do Texas -, realizado por uma das entidades a que acima me referi - o STAAR: The State of Texas Assessments of Academic Readiness. Declara ela que tentou responder às questões mas, obviamente, não conseguiu:
Perguntas como “porque é que o autor fez uma pausa” em determinado local ou “porque utilizou maiúsculas naquele verso” e muitas outras, são para Sara Holbrook um absurdo. “O que é que isto mostra da capacidade de leitura de um miúdo?”, questiona. Estas são perguntas válidas, no entender da escritora, única e exclusivamente em discussões e não em testes de escolha múltipla (...) “Qualquer teste que questione as motivações do autor sem lhe ter perguntado primeiro, é um disparate. Quem constrói os testes faz isto sobretudo com autores que estão mortos e não podem protestar. Mas eu não estou morta." (in Expresso).
E não conseguiu responder porque não eram perguntas ajustadas ao tipo de conhecimento que constaria no currículo e que eventualmente teria sido ensinado e aprendido.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Rede GPS continua a colocar cientistas portugueses no mapa

Meu texto na última newsletter da rede GPS:
O GPS está a colocar no mapa os cientistas portugueses com carreiras internacionais. Novas bandeirinhas vão sendo acrescentadas como sinais da presença de portugueses qualificados em todo o globo. A iniciativa teve o mérito de chamar a atenção para o talento português na diáspora. Os media passaram a dar voz a quem a não tinha e os portugueses passaram a ter consciência do enorme potencial de que o país dispõe e que devia aproveitar.

Ninguém deixa de ser português e de querer ajudar o seu país por estar longe. É preciso agora que o país se desenvolva ouvindo os que querem ajudar, continuando lá fora ou voltando. Parece que Portugal quer ouvir os cientistas GPS, agora que sabe onde estão. E parece que também há empresários que os querem receber. Por exemplo, a AEP- Associação Empresarial de Portugal lançou o programa “Empreender 2010 – Regresso de uma geração preparada”. Segundo a AEP, “todos os anos mais de 43 000 jovens saem do país, sendo 26 mil licenciados.” A intenção é boa, mas uma coisa é certa: os GPS não vão trocar lugares onde são valorizados por bolsas, contratos precários ou simples subsídios. O país, se quer ter futuro, tem de assegurar um futuro decente aos seus jovens, em particular aqueles com altas habilitações que estão no estrangeiro e queiram regressar.

Bom Ano para todos!

MEMÓRIAS FERIDAS, CORPOS REVELADOS

Informação sobre exposição  no Museu de Ciência da UNIvERSIDADE DE COIMBRA:

INAUGURAÇÃO 13 DE JANEIRO | 18H00 

Memórias feridas, corpos revelados: Itinerários contra o esquecimento - a poliomielite e a Síndrome pós-pólio na Península Ibérica
 é uma exposição criada pelo Espacio de Cultura Científica da Universidade de Salamanca.
No dia 21 de junho de 2002 foi declarada a erradicação da poliomielite na Região Europeia, uma doença viral que afetou fundamentalmente a infância durante grande parte do século XX, marcando-a com sequelas paralíticas. A sociedade apressou-se a apagar da memória o horror da epidemia e, ao fazê-lo, esqueceu também os que lhe sobreviveram. Ameaçados agora pelo aparecimento da síndrome pós-pólio, rebelam-se contra a invisibilidade, revelando com dignidade e orgulho os estigmas no corpo nu, as pegadas de uma legitimação imposta, uma memória coletiva contra o esquecimento de uma doença que ainda persiste em alguns países.
Em colaboração com o Espacio de Cultura Científica da Universidade de Salamanca, o Museu da Ciência celebra também os cinquenta e dois anos do Plano Nacional de Vacinação em Portugal que se iniciou com a vacina contra a poliomielite.