terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

"Junta o dinheirinho"

Este é um comentário ao texto "Poupança, mothafucka!" de Ricardo Araújo Pereira, de alguém que se identifica como mãe:
"Se ouvisse as miúdas todas da escola da minha filha a cantar isso ["A dança da poupança"] em coro e a debater quem sabia melhor a letra (porque há lá umas partes que não são percetíveis à primeira) já não dizia que essa música não atrai as crianças... Eu, que a acho profundamente irritante aos ouvidos e tenho de gramar com um "não mudes mãe, não mudes" quando ela passa na rádio, estou perfeitamente convencida do seu sucesso junto da "malta nova"... Como o dinheiro ainda é meu e a música em causa não me seduz, a "malta nova" lá de casa não vai ter conta poupança no banco publicitado..."
Enganosamente integradas na "Educação para a cidadania", com a legitimação da Direcção Geral da Educação, e a alegre concordância de directores, professores e pais, este tipo de "actividades divertidas" chega às crianças, formatando-as, desde cedo, em função de interesses óbvios de grupos particulares.

A educação escolar deixa de ser educação e passa a ser doutrinamento descarado.

Como é possível que o Estado e as escolas, que deviam pugnar pelos mais elevados níveis de educação possível, permitam que "canções" como esta, com a chance de um bando que, enfim, toda a gente sabe em que apuros está, chegue às nossas crianças!?

Quem é que é que disse que poupança não é coisa se criança?
Quem é que é teve essa ideia errada, atrasada?
Até parece uma piada, mas é feia.
A poupança é p’á criança, bébé.
E quem te dá a dica é aqui o sempre em pé.
Chama-se Silver MC, já domino o ABC,
Por isso vou rimar para aprenderes a poupar.
Sente o beat.  
Sente o balanço.
Entra na dança.         
É a dança da poupança.
Sente o beat.  
Escuta e vê.
Entra na poupança.
Com o Silver MC
Faz como eu faço.
Este é o primeiro passo:
Junta o dinheirinho
Pode ser poucochinho.
E depois?
O que é que vais fazer?
Continuar? Sim! A poupar? Sim!
Fácil! É o segredo p´a render.
A poupança tem swag.
Qual o passo que se segue?
Não parar. Nem pensar em parar.
Não parar. Nem pensar em parar.
Sente o beat.  
Sente o balanço.
Entra na dança.         
É a dança da poupança.
Sente o beat.  
Escuta e vê.
Entra na poupança.
Com o Silver MC
Teah! Silver MC está na casa.
Tu até podes ser uma criança
Mas já tens o feeling da poupança.
Tens o flow e a batida.
E agora também tens uma conta p´ra vida.
É p’a estudar, é p’a brincar, é p’a comprar
É p´ra isso que começas a poupar.
Sabes bem: o futuro é amanhã.
Silver MC é o meu nome. Hã?
O que acontece a seguir?

E continua o refrão...

A censura de estudantes universitários

Saiu no Público, há dois ou três dias, um artigo de Isabel Lucas cujo título é Há livros que nos podem fazer mal?

Nele se dá conta de recentes pedidos de protecção por parte de estudantes que frequentam prestigiadas universidades americanas e inglesas. Pedem, em concreto, que sejam resguardados de livros, de ideias, de palavras... capazes de ferir susceptibilidades.

Lamentavelmente, Diane Ravitch tinha razão!

Esta investigadora de Educação escreveu em 2003 um livro admirável - The language police - onde denunciou os sinais já, à altura, bem evidentes de "como grupos de pressão restringem o que os alunos devem aprender". Dizia ela que a tendência do fenómeno era acentuar-se.

O "excelente" trabalho (des)educativo que estes grupos - paladinos do "politicamente correcto", entre os quais se contam grupos de pais e de professores - têm feito, está à vista: os que dele "beneficiaram" continuam-no e ampliam-no.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

JÁ RETOMOU O SEU CONSUMO NORMAL DE SALSICHAS?


A minha crónica mais recente na Notícias Magazine, acerca da classificação da Agência Internacional para a Investigação em Cancro, que tanta confusão costuma causar, como se verificou recentemente com as carnes processadas, tendo até sido referida na semana passada no parlamento, pelo deputado do PAN, a propósito de um debate sobre alheiras:

Podemos estar igualmente certos que as cascas de banana e as Kalasnikov aumentam o risco de morte, mas o risco disso acontecer com uma coisa e outra é muito diferente. É possível estarmos muito certos de um pequeno aumento de risco, e é esse o caso do consumo de carnes processadas. Ou de um grande aumento de risco, como acontece com o tabaco. Ambos estão no grupo 1, o dos carcinogénicos assumidos, que inclui também o amianto, a queima de carvão dentro de casa e a luz do Sol (sim, a luz do Sol).

sábado, 6 de fevereiro de 2016

ALMEIDA SANTOS: MAIS QUE UM HOMEM E MENOS QUE UM HOMEM


Publicado inicialmente no “Jornal de Letras”, reproduzo mais um notável artigo de Eugénio de Lisboa que me trouxe à lembrança um livro do escritor e médico Fernando Namora, intitulado: “Deuses e Demónios da Medicina”. Como escreve  Eugénio Lisboa   sobre  o Dr. Almeida Santos: “Poucas grandes figuras desta terceira República terão sido tão controversas, tão admiradas e tão criticadas, tão amadas  e tão odiadas, quase sempre tão mal entendidas, na sua soberba complexidade”. Ou seja, Almeida Santos  assumiu, assim,  em vida a sua condição humana: nem Deus, nem Demónio. Transcrevo o texto de Eugénio Lisboa:

"Deixou-nos, no passado dia 18 de Janeiro, o Dr. Almeida Santos, figura inconfundível desta nossa democracia, agora em perda de carga. Poucas grandes figuras desta terceira República terão sido tão controversas, tão admiradas e tão criticadas, tão amadas e tão odiadas, quase sempre tão mal entendidas, na sua soberba complexidade.

É próprio destes dias de luto, que se seguem ao desaparecimento de um vulto de grandes dimensões, como este, proceder-se à sua quase canonização. Almeida Santos, para que a sua marca na História permaneça, não precisa destes pífios favores. Era uma lenda? Era. Mas era mais e melhor do que isso: era um homem em grande formato, dotado de excelsas qualidades e de óbvios defeitos. Pretender, de um político, virtudes imaculadas de vestal é desconhecer a massa de que se fazem estes animais magníficos e imperfeitos. Ortega y Gasset, no seu admirável ensaio “Mirabeau o el político”, estudou-os como ninguém, não os santificando nem os crucificando: apenas tentando compreendê-los. O seu relato conclusivo, repito, nem os hipertrofia nem os diminui: caracteriza-os. Sem evitar as asperezas da realidade, mas também sem com elas se deprimir. Segundo o grande pensador espanhol, há que distinguir entre os “ideais” e os “arquétipos”: “Os ideais são as coisas conforme estimamos que deveriam ser. Os arquétipos são as coisas conforme a inelutável realidade. Se nos habituássemos”, continua Ortega, “a buscar, de cada coisa, o seu arquétipo, a estrutura essencial que a Natureza, pelos vistos, lhes quis dar, evitaríamos formar dessa mesma coisa um ideal absurdo que contradiz as suas condições mais elementares. Assim, costuma pensar-se que o político ideal seria um homem que, além de ser um grande estadista, fosse também uma boa pessoa. Mas será que isto é possível? Os ideais”, conclui o autor de La rebelión de las masas, “são as coisas recriadas pelo nosso desejo – são desiderata - . Mas que direito temos nós de desejar o impossível, de considerar como ideal o quadrado redondo?” Esta quadratura do círculo não a conseguiu Almeida Santos, completamente, como o não conseguiu nenhum grande político antes dele: seria contra a própria natureza das coisas. Mas, se o autor de Rã no Pântano não correspondeu nunca ao modelo do puro “ideal”, menos ainda se situou no de puro “arquétipo”. Equilibrando-se, instavelmente, entre uma sincera busca de ideais e de princípios e uma necessária e conflituante rendição às asperezas da realidade e do compromisso, Almeida Santos seguiu o percurso normal de quase todos os políticos que fizeram história. Os que, como Herculano, visam um ideal quimicamente puro e rejeitam frontalmente o resignado arquétipo – acabam fatalmente em Vale de Lobos: grandes padrões de ética, mas políticos fracassados e amargurados (“Isto dá vontade de morrer!” e outras proclamações de igual gosto e ineficácia). O verdadeiro político não hesita em sujar as mãos, ao serviço de um qualquer objectivo. Mas, cuidado: suja-as por nós, para que alguns de nós, egoistamente, nos possamos gabar de as manter limpas. Digamos que evangelicamente se perdem para que outros se possam salvar.

Ortega considerava haver dois tipos de homens: os ocupados e os preocupados, ou seja: os políticos (sempre ocupados, sempre agindo ou fazendo) e os intelectuais (sempre preocupados, sempre interpondo ideias “entre o desejar e o executar”). Almeida Santos não cabia inteira e exclusivamente em nenhuma destas duas categorias: era um político (gostava de fazer, de actuar, de executar), mas era também um intelectual (gostava de sonhar, de visionar, de pensar, de interpor ideias). Era, como intelectual, um escritor, de abundante bibliografia. Tem sido dito que era mesmo um admirável escritor e um empolgante orador (o que muito lhe teria valido nos seus prélios de causídico). Dizia Étienne  Dumont, testemunhando sobre Mirabeau, que “a eloquência é o encanto dos homens reunidos”. Muitos se sentiram enfeitiçados pela palavra fluente, floreada, castiça do tribuno Almeida Santos. Permita-se-me observar, sem sombra de acinte, que, como o vinho, ele foi melhorando com a idade: inicialmente, a sua prosa – falada ou escrita – enrodilhava-se, um tanto ou quanto, em meu entender, numa “Ramalhal” abundância, com algum toque de mau gosto; porém, com o decorrer dos tempos, foi sabendo descascá-la até lhe dar o escorreito e a limpidez dos textos mais clássicos. O seu livro Nova Galeria de Quase Retratos contém peças admiráveis sobre Mandela, Afonso Costa, Mouzinho da Silveira, Miguel Torga, entre outros.

Como o verdadeiro animal político que gosta de se ocupar (Mirabeau desentranhava-se em actividade imparável mesmo quando se encontrava encarcerado…), Almeida Santos era um trabalhador incansável: abatia tarefas, como quem respira: grande legislador, governante extremamente operoso, escritor abundante, viajante intemerato, político e intelectual doublé de infatigável homem de negócios – e o mais que aqui se não diz…Era formidavelmente trabalhador, era fecundo, era generoso. Recebia muito e dava muito. Os gestos da sua abertura aos outros (sem falar nas defesas pro bono de presos políticos), em Lourenço Marques, onde se estabeleceu, como advogado, em 1953 e, depois, em Lisboa, eram conhecidos e não foram poucos. Um exemplo só: numa manhã de sábado perdida, na baixa laurentina, junto à loja de discos do João Reis, ia Almeida Santos a passar, atira-lhe o Rui Knopfli, sempre gavroche e provocador: “Ó António, pagas-me a edição do meu livro de poesia?” Sem hesitar, com um sorriso galhardo, Almeida Santos  saca do livro de cheques e da caneta: “De quanto precisas?” Generoso, a seguir à independência das colónias, ajudou meio mundo a recomeçar vida em Portugal. Alguns – vários – dos que vieram pedir-lhe ajuda tinham-no, antes, profusamente caluniado. E continuaram a fazê-lo, com vigor acrescido, depois de devidamente atendidos. A gratidão pesa. Escoicinhar alivia.

Generoso, pois. Mas também pragmático, homem de negócios, com tudo, de menos bom, que tal encargo acarreta. Corajoso e eloquente oposicionista, era muito capaz de jantar com o diabo e de conviver com o inimigo. O seu “charme”, com laivos de casticismo, era, para muitos, irresistível. Abatia, como disse, horas imensas de trabalho, com um sorriso sereno, de quem se não cansa e muito menos se descompõe: fazia-o com aquela aparente “força fácil” de que falava o Eça.

A literatura incriminadora dos políticos é abundante e contundente. Diz-se deles cobras e lagartos, porque são capazes de passar por toda a folha, para chegarem onde querem chegar. Ortega não ilude o problema e fala, com aguda perceptividade, naquela, digamos, “falta de escrúpulos” que faz parte do equipamento de todo o político. Falta de escrúpulos que ele logo avisa não dever confundir-se com “imoralidade”. Eu cito: “Não acusemos, pois, de imoralidade o grande político. Em vez disso, digamos que lhe falta o sentido de escrúpulo. Mas um homem escrupuloso não pode ser um homem de acção. O escrúpulo é uma qualidade matemática, intelectual: é a exactidão aplicada à valoração ética das acções. Se se examina com cuidado a vida de Mirabeau, de César, de Napoleão, vê-se que a presumida maldade não é senão a falta de escrúpulo anexa a todo o temperamento activista e, portanto impulsivo.” Seja dito que só em parte pequena isto se aplica ao político (por isso algo) “imperfeito” (embora grande) que foi Almeida Santos: mas não poderia ficar imune – como político – ao escalpe analítico do grande filósofo.

Pela parte que me toca, fiquei a dever a Almeida Santos testemunhos vários da sua generosidade e amizade. E não me pesa a gratidão que sinto.

Muitos que regressaram de África, a seguir às independências, têm acusado o autor de Pela Santa Liberdade de ser o principal responsável pelos terríveis problemas que acompanharam o processo da descolonização. É injusto e é, sobretudo, falso. Essa responsabilidade situa-se muito a montante: deve-se fundamentalmente à teimosia de Salazar e à inacção de Marcelo Caetano. Almeida Santos limitou-se a apanhar os cacos de uma política míope e tonta. E fê-lo com enorme empenho, certeira eficácia, muita energia e um grande coração".

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

OPINIÃO DE FILIPA VALA SOBRE OS CONTRIBUTOS PARA O FUTURO DA FCT

Opinião da investigadora Filipa Vala, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, sobre os contributos para o futuro da FCT, pedidos pelo Ministério da Ciência e do Ensino Superior. Publicado originalmente no Facebook e aqui transcrito com autorização:

O Ministério da Ciência abriu um debate público sobre o futuro da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) - e fez muito bem. O ministro nomeou um "grupo de reflexão" a quem pediu contribuições. Entre esse grupo há 3 tipos de contribuições entregues: há quem contribua apenas em nome individual, há quem contribua "tendo ouvido uns colegas" e há quem contribua "em nome da sua unidade de I&D". Tenho problemas logo aqui porque nunca percebi o critério de escolha dos 30 membros do grupo de reflexão e tenho mais problemas agora porque duvido da representatividade destas contribuições em termos do Sistema Científico Nacional (SCN).

Mas depois há o nível das contribuições do grupo de reflexão. O sinal mais evidente de que as contribuições são medíocres é o facto de se perceber pela maioria delas exactamente a fase e/ou atividade do autor da contribuição, tornando óbvio o que é óbvio: cada um puxa a brasa à sua sardinha e ignora as sardinhas dos outros.

Por exemplo, "A bolsa de pós-doutoramento deverá ser vista como um período de formação avançada de jovens doutorados." De formação avançada em formação avançada até à juventude final! Obviamente a pessoa que escreveu isto tem, há bastante tempo, uma posição permanente, com direito a reforma, descontos, e subsídio de desemprego no caso de, algum dia, vir a ser dispensada. Obviamente até que esta pessoa nem durante o seu doutoramento esteve sem os direitos que agora entende "racionalmente" (é "formação avançada" de "jovens" doutorados) poder recusar aos outros;
ou: "Este é o grande segredo para a Rolls-Royce fazer a ponte entre a investigação fundamental e a investigação aplicada. Toda a investigação nos laboratórios é gerida pelos académicos responsáveis pelos laboratórios, todo o equipamento usado nestes laboratórios pertence às universidades e todos os alunos que trabalham nestes laboratórios têm bolsas pagas pelas FCT locais e pelos variados tipos de financiamento do Horizonte 2020. A Rolls-Royce apenas traça os objetivos estratégicos que pretende que sejam investigados nestes centros e disponibiliza as suas instalações industriais sempre que é necessário fazer a validação em ambiente real." O modelo de aproximação às empresas é portanto a empresa definir o que precisa e o estado pagar. Obviamente que quem fala é.. um empresário.

A mim, que sou adepta das audições públicas, o que me preocupa sempre é esta sensação de que se perde muito tempo a fazer coisas que até parecem uma boa ideia, mas que acabam por não servir para nada. E não seria assim tão complicado fazer uma coisa que servisse para alguma coisa. 

Se o que se pretende é ouvir os problemas identificados por sectores e também propostas para lhes responder existem as contribuições sectoriais (da ABIC, dos Reitores, do SNESup etc) que o fazem muito melhor do que as contribuições individuais dos 30 do "grupo de reflexão". 

Se o que se pretende também é complementar essa informação com as dificuldades específicas sentidas por cada área de conhecimento - e bem, porque as há -, então é possível nomear um comité científico com representantes de todas as áreas em que cada um fica encarregado de ouvir os seus pares, sendo que estes têm que ser de várias unidades de I&D - o que não é, de perto nem de longe, o que acontece neste "grupo de reflexão". Este grupo de reflexão não é representativo do SCN, não é representativo das áreas do conhecimento, não é representativo das unidades de I&D, e os seus membros não são representativos de diferentes fases ou sequer tipologias de carreira. Os 30 membros deste grupo de reflexão - aqueles que respondem a tudo, porque também há quem só responda à parte que lhe interessa - estão a propor respostas para perguntas para as quais não têm a mínima, mas a mínima, qualificação para responder.

Mas existem, por contraste, uns profissionais chamados gestores de ciência e existem também umas pessoas que trabalham numas coisas chamadas políticas científicas, políticas públicas de gestão de ciência... pá, e cenas assim. Não só existem como servem para isto mesmo, e sim, sabem muito mais do assunto que 80% dos membros do grupo de reflexão. E bastaria um pequeno grupo dessas pessoas (não é preciso 30, bastariam três, ou cinco, vá) a compilar e analisar as contribuições sectoriais, as contribuições por área do conhecimento, e as da própria FCT e compilar tudo numa proposta de visão e de gestão para a FCT e o SCN, proposta essa que seria depois re-discutida com os mesmos painéis e modificada no que fosse necessário para uma versão final, acordada por todos.

Era mais fácil e mais eficaz e certamente mais barato (porque ter 30 pessoas que já têm o seu trabalho a escrever tratados sobre a salvação da FCT à medida do seu umbigo custa muito à produtividade nacional). Mas se quiserem inspirar-se lendo as contribuições, aqui fica o link.

PARECER ENTREGUE AO GRUPO DE REFLEXÃO SOBRE A FCT

Documento que entreguei ao Grupo de Reflexão sobre a FCT e que comenta o "draft" que está muito próximo do doumento final que foi agora divulgado. 

 Embora a constituição do grupo de reflexão e aconselhamento tenha um valor simbólico e, claro, político, ao mostrar que se restaurou o diálogo com a comunidade científica (a confiança virá por acréscimo), estou convencido de que o ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior sabe perfeitamente o que tem de fazer num sector que aliás conhece como poucos. No rascunho da primeira reunião encontra-se reflectido muito e bom trabalho e gostei da orientação geral de mudança relativamente à política do governo anterior. Há algumas desigualdade no grau de pormenor do relatório, com algumas coisas muito vagas e outras muito específicas. Julgo natural dada a necessidade de reunir numerosas contribuições recebidas. O problema resolve-se editando o documento, designadamente reduzindo o seu tamanho. 

Reconheço-me na política de ruptura com o passado mais recente, por exemplo no anúncio do ministro de que vai dar mais atenção às pessoas, em especial aos investigadores mais jovens, que têm de encontrar mais e melhores oportunidades no país em vez de se verem constrangidos a emigrar. É claro que não é preciso mudar a missão da FCT, consagrada na lei, mas é preciso mudar o que tem sido a prática da FCT. É necessário rever o processo inquinado de avaliação, alargar o número de bolsas (acabando com o nada transparente processo dos programas doutorais), diminuir a burocracia (as “plataformas” informáticas, em vez de simplificar complicaram em muitos casos), reforçar a cultura cientifica em articulação com a Ciência Viva (a anterior direcção da FCT ignorou praticamente o Ciência Viva, em vez de trabalhar em conjunto), melhorar a sua relação com as instituições de ensino superior (estamos num tempo em que muitas universidades já se renovaram e têm de se renovar mais, rejuvenescendo os seus quadros) e com o tecido empresarial (em particular aproveitando os dinheiros europeus do “Portugal 2020”, um processo que não começou da melhor maneira e que e que não está a correr bem, e.g., duplicação de burocracia que já foi feita em concursos da FCT).

Presidência da FCT

Mas, primeiro que tudo, era preciso mudar a direcção da FCT, acto para o qual não é precisa nenhuma comissão. Trata-se de uma prerrogativa do ministro. A anterior direcção teve um comportamento vergonhoso (ver “Livro Negro sobre a Avaliação da Ciência e Tecnologia em Portugal”). Devia ser feita uma auditoria, averiguando por exemplo qual foi a correspondência trocada pela FCT com a ESF. A nomeação da nova direcção da FCT está a tardar. Estou absolutamente à vontade para dizer isto, até porque estou bastante de fora, incluindo fora de Lisboa: é preciso alguém da confiança do ministro (terá de estar em consonância com o governo), com provas dadas na prática da ciência (de preferência com experiência de gestão) e absolutamente isento (não pode estar comprometido com a política anterior). A dispersão dos responsáveis da FCT por áreas e instituições diversas é sempre aconselhável, de modo a evitar concentração de poderes – o próprio primeiro-ministro deu o exemplo com a escolha do ministro e da secretária de estado. Não percebo como é que a Presidente da FCT ainda ocupa o lugar para onde foi nomeada em condições precárias que são bem conhecidas. Ela não cumpriu o que prometeu quando anunciou primeiro para Outubro e depois para Novembro uma decisão sobre os recursos da pseudo-avaliação da ESF (existem processos em tribunal e jornais científicos nacionais e estrangeiros que continuam atentos ao desenrolar do processo). Demitiu-se tarde e a más horas, num acto que constituiu uma crítica intolerável ao ministro, acompanhado pela chantagem de parar todas as actividades em curso. O novo presidente da FCT terá de limpar a casa, começando por rever o processo de “avaliação” (entre aspas porque foi uma pseudo-avaliação). 

 Pseudo-Avaliação da ESF 

 Houve ilegalidades maiores, para além das sucessivas irregularidades processuais. Estive a reler o artigo 28 do Decreto Lei n.º 125/99,que rege a avaliação, do tempo do ministro José Mariano Gago (no primeiro governo de António Guterres): 

 "3 - O processo de avaliação terá por base, consoante os casos, as candidaturas ou os relatórios de actividades das instituições, nas suas componentes científica e financeira, visitas de avaliação e a audição dos responsáveis e outros elementos da instituição." 

Penso que não é possível aplicar o "consoante os casos" a mais nada que não a primeira disjunção - até porque depois há uma conjunção com as "visitas de avaliação e a audição". E é o que faz sentido, pois está a considerar-se as duas situações, consoante o centro é novo (candidatura) ou existente (avaliação de actividade). Ora, como não houve como manda este decreto visitas a todas as unidades, a lei foi violada. Não pode haver diferentes interpretações jurídicas sobre isto a menos que não se saiba ler português. Este aspecto é preocupante pois aparentemente, segundo o rascunho do relatório sobre a FCT, admite-se avaliação sem visita a unidades. Isso nunca foi feito no tempos dos ministros anteriores a Nuno Crato até porque é ilegal. Se o querem fazer, mudem o decreto-lei primeiro em Conselhom de Ministros. 

 Depois a decisão de alijar 50% do sistema científico nacional por uma cláusula secreta num contrato com uma entidade privada deve ser também ilegal. Nunca vi nada nem tão estúpido nem tão estranho como isso. Mas foi entre nós doutrina governamental que se cumpriu na pratica com a grande "poda" caucionada pelo ministro da pasta (ou será que ainda há homologações por fazer?). Hoje sabe-se (por que não publicar todos os documentos da avaliação para repor a transparência?) que nem sequer foram escolhidos os 50% melhores em cada área por manifesta incompetência do júri, pois alguns deles não tinham nem conhecimentos nem experiência suficientes para levar a cabo a tarefa que lhes era pedido (por exemplo, o responsável pela área das ciências físicas era um investigador sem currículo relevante da Universidade Aberta do Reino Unido e não de nenhuma boa universidade). A ESF deveria restituir o dinheiro que recebeu por o seu trabalho ter sido mal feito. Basta olhar para os cientistas portugueses mais influentes que não são dos centros ditos supraexcelentes. Dois são do IT que foi excluído a primeira volta. E basta olhar para os rankings de escolas de engenharia, uma área reconhecida e estratégica para o país que foi publicamente desvalorizada por "autoridades" como o Presidente do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia. Mas bastaria olhar para os resultados de investigadores e FCT e projectos concedidos pela mesma FCT após a avaliação da FCT-ESF, que mostram que “não rima a bota com a perdigota”. Outros aspectos de falta de correspondência entre as métricas da produtividade e os resultados da avaliação podiam ser referidos. Já não falo da falta de transparência e da mudança de regras a meio do processo. Já nem falo da falta de correspondência entre a avaliação e o financiamento, bem visível no final. Nem, embora seja muito grave e ainda mais em tempo de austeridade, a concessão de dinheiros públicos a privados, para financiamento de base da investigação. 

 Portanto, como eu sempre afirmei e comigo muitos membros da comunidade científica e fora dela, a mais recente avaliação foi uma fraude. Eu estou à vontade para o fazer pois não sou o responsável por nenhum centro. Acho incrível que muitos colegas nossos tenham sido impedidos durante mais de um ano de exercer qualquer investigação por lhe terem retitado todo o financiamento. Tal situação está desvalorizada no rascunho do relatório pois, quando muito, remete-a para “processos pendentes”. Registo que não há uma reivindicação de anular a actual “avaliação”, mas sim de fazer uma nova que será efectiva em 2018. A data de 2018 para a nova avaliação deve estar baseada na avaliação intercalar ao fim de três anos mencionada no regulamento. Ora o próprio regulamento prevê, nos artigos 4, 15 e 24, a realização de "avaliações excepcionais/extraordinárias", que podem alterar o financiamento. Há, portanto, uma saída para a reavaliação ainda antes de 2018, caso a tutela assim decida. No mínimo o uso para qualquer efeito da nota da actual “avaliação” devia ser nulo, tal como aliás exprimiu claramente o Conselho de Reitores (CRUP). Não percebo como é que um governo se interessa pelos exames do básico, com grande urgência, e não tem a mesma urgência para corrigir erros bem mais graves do governo anterior. 

 Sobre a avaliação há um outro aspecto que considero preocupante no documento de rascunho. Trata-se da frase "até porque para avaliação de investigadores ou equipas de investigação é muito mais eficaz e relevante, e tem menos inconvenientes, a apreciação pelos avaliadores de um pequeno número de trabalhos seleccionados que os candidatos consideram mais importantes". Para além da expressão "tem menos inconvenientes" não fazer sentido, está aqui escondido um ponto fundamental, e um dos muito poucos em que a direcção anterior da FCT tinha eventualmente razão: os centros não podem ser financiados per capita, ignorando questões de homogeneidade (com os projectos é diferente, mas esses não são avaliados per capita, o que mostra que, de facto, fazer isso não faz sentido). Mais especificamente, e usando uma caricatura: se os centros têm de apresentar n artigos significativos e há dois centros A e B com m e 2m membros respectivamente, se A e B apresentam ambos n artigos na revista de topo da área, não é claro como é que o financiamento deve ser atribuído sem haver mais informação. Por outras palavras, a anterior “avaliação” apontou uma questão que estava mal resolvida nas avaliações anteriores, mas que ela própria não soube resolver. Talvez uma forma mais simples de colocar a questão seja a seguinte: imagine-se um centro de Química com m membros dos quais um é prémio Nobel (e activo cientificamente) e os restantes m-1 elementos não fazem nada. Qual é o valor de m para o qual o centro pode ter a classificação máxima? Obviamente que tem de haver um limite. Isto pode claramente ser resolvido de várias maneiras (algumas das quais até são bibliométricas) e deve certamente ser tido em conta. 

 Um outro ponto que não deixa de ser relevante é não haver nenhuma alusão aos laboratórios associados: continuarão a ser avaliados conjuntamente com os restantes centros? Voltarão eles a ter um tratamento especial na avaliação? 

 Emprego Científico 

 Esta é uma questão-chave e que deve estar na ordem do dia. Os membros do grupo de reflexão são todos investigadores e quase todos do quadro. A FCT devia procurar envolver associações de bolseiros e associações de estudantes de pós-graduação e investigadores no estrangeiro na política científica. 

 O documento expressa de modo geral intenções positivas, como reforçar as bolsas de doc e posdoc atribuídas em concurso nacional, aumentar o financiamento para a ciência, melhorar os processos de avaliação, calendários previsíveis, etc. Tudo isso é evidentemente de aplaudir. É preciso diminuir a burocracia, que neste momento é infernal e aumentar as boas-maneiras com que devem ser tratados os investigadores ou candidatos a investigadores. 

 No emprego científico (para além das bolsas e dos contratos) também não encontro nenhuma proposta de política concreta. Leio “estimular, fomentar, criar condições...” Mas o que é que cabe à FCT, o que é que cabe às instituições de ensino superior e como é que poderão esses parceiros cooperar mais estreitamente? Será de considerar que uma parte do financiamento para a ciência seja incorporado no financiamento das instituições de ensino superior com objectivos quantificados pré-definidos, designadamente quanto à formação de recursos humanos e quanto ao número de trabalhos científicos? E como obstar à crónica endogamia do sistema universitário português (corre um abaixo-assinado sobre o assunto, que eu não assinei atendendo aos termos em que está redigido – designadamente pretende que as escolhas sejam feitas só por estrangeiros- mas cujos considerandos são obviamente de ponderar). 

 Na questão da avaliação de bolsas e contratos, parece que há a intenção de remover o programa de trabalhos dos critérios de avaliação (fala só no mérito do candidato e nas condições de acolhimento). Acho que o programa de trabalhos deve ser avaliado em conjunto com as condições de acolhimento para o executar (sem levar em conta a recente avaliação das unidades, claro), com ponderação de 50%, tal como nos últimos concursos da ainda direcção da FCT.

 Não há uma quantificação da ideia de redução do número de programas doutorais. Devia-se limitar o número de bolsas atribuídas nesses programas. E não abrir novos da mesma maneira. A expressão "capacitação adicional do sistema nacional de C&T" parece-me uma posição pouco clara e propícia a arbitrariedades. 

Não percebo bem por que se pretende que deixe de haver possibilidade de auto-proposta para integrar painéis de avaliação. É uma medida que permite aumentar a confiança e que possibilita que os painéis não sejam constituídos exclusivamente com base em critérios de proximidade social. A proposta de eliminar essa possibilidade, que nunca foi vinculativa, parece-me extrema. 

 Sei que não é uma atribuição da FCT, mas a questão da segurança social dos bolseiros cruza-se com a FCT. Idealmente seria a integração dos bolseiros, ainda que eventualmente apenas os de pós doutoramento, ou os de doutoramento a partir do 2.º ano, no Regime Geral de Segurança Social, mantendo os actuais valores das bolsas, aos quais seriam descontada a contribuição normal dos trabalhadores para a segurança social (o restante a TSU, seria paga pela entidade de acolhimento). Isto é quase equivalente a converter as bolsas em contratos de trabalho. Só faltaria acrescentar o IRS. Coisa que, a acontecer, teria que ter tida em conta no valor bruto das bolsas. Não sendo isto possível, e mantendo-se os bolseiros no regime do Seguro Social Voluntário, dever-se-ia aumentar o valor que é reembolsado pela entidade de acolhimento, para o escalão mais próximo do valor real da bolsa. Ou seja:

 - actualmente, qualquer bolseiro tem direito ao reembolso dos descontos para o Seguro Social Voluntário pelo valor base do Indexante de Apoios Socias (419,22€). Isto é, mesmo numa bolsa de posdoc (1495€), os descontos que são reembolsados pela entidade de acolhimento para a Segurança Social (ca. 121€ por mês) são como se o bolseiro ganhasse 419,22€. É este o vencimento que conta para a sua carreira contributiva. 

 - o valor reembolsado pela FCT (ou outra entidade de acolhimento) deveria ser o mais próximo do valor real da bolsa. Ou seja, no caso da bolsa de posdoc, o valor reembolsado deveria ser pelo menos equivalente a três vezes o Indexante de Apoios Sociais, ou seja a entidade de acolhimento reembolsaria cerca de 363€ de Seguro Social Voluntário. Assim, os rendimentos que contariam para a carreira contributiva seriam de 1257€ / mês. 

 É uma opinião, penso que seria essencial ouvir os representantes dos investigadores precários nisto. A mudança implicaria a revisão do estatuto do bolseiro. Que seria algo que pode estar no documento. Por exemplo: "Fomentar a revisão do estatuto de bolseiro, no sentido de melhorar a protecção social destes investigadores". 

 Cultura Científica 

 Em relação à cultura científica, o documento é algo vago e não aponta uma política concreta. Fará sentido considerar 5% do orçamento para actividades de divulgação e comunicação, como foi no primeiro ministério de José Mariano Gago? Como desenvolver acção concertada com a Ciência Viva?

 Alguns tópicos que reputo relevantes: 

 - levar efectivamente em conta na avaliação dos projectos de investigação e restantes candidaturas a componente de divulgação para a comunidade, com ponderações específicas relevantes e rubricas no orçamento. 

 - prever concursos para projectos de promoção da cultura científica, que possam envolver as unidades de investigação e outros agentes, como comunidade escolar, os media, etc. - concursos de contratos para essa área, para substituir o falado Programa de Comunicação e Gestão de Ciência. Concursos nacionais, em termos semelhantes ao “Investigador-FCT”, sem um número limite de vagas ou candidatos por unidade de acolhimento, que fomentem pré-escolhas locais. 

 - a FCT devia promover de modo efectivo na comunidade a investigação que financia, através de programas específicos próprios para o efeito. Palestras, notas de imprensa, eventos (participação na Semana da Ciência e Tecnologia, por exemplo). Por exemplo explicar as nossas participações internacionais (por que razão Portugal é membro do CERN, etc.). 

 Coimbra, 14 de Janeiro de 2016

 Carlos Fiolhais (Professor de Física da Universidade de Coimbra)

NOVIDADES DE FEVEREIRO DA GRADIVA

Informação sobre as novidades, com as respectivas imagens das capas no anexo, que a Gradiva publicará durante o mês de FevereiroOs livros estarão disponíveis para venda a partir do dia 12 de Fevereiro.




Walter Lewin com Warren Goldstein
A Paixão da Física  - Do final do arco‑íris à fronteira do tempo
Lewin, um dos professores de Física com mais fãs no mun­do, desenvolveu a arte e a téc­nica de bem ensinar a discipli­na. O modo divertido como o faz não dispensa o rigor na apresen­tação. A Paixão da Física é um título bem adequado. O autor gosta mesmo de física e faz‑nos gostar de física. «Mudou a mi­nha vida» é uma mensagem que recebe com frequência dos alu­nos. Mude a sua vida, tornando‑se também aluno de Lewin.

Veja aqui as fabulosas lições de Física do autor:


«Ciência Aberta», n.º 214, 412 pp., € 18,50
http://www.gradiva.pt/?q=C/BOOKSSHOW/8643
Michel Fayol
A Aquisição da Escrita

Esta obra apresenta e analisa as principais etapas e dificulda­des na aquisição da linguagem escrita. A expressão escrita re­quer conhecimentos especí­ficos: saber desenhar rápida e eficazmente sinais gráficos, dispor do vocabulário neces­sário, expor a mensagem dese­jada, controlar a respectiva or­tografia, encadear ideias, etc. Este livro mostra resultados de estudos com crianças, abrindo portas a um melhor acompa­nhamento da aprendizagem da escrita. Indispensável a profes­sores e educadores.
«Trajectos», n.º 103, 136 pp., € 13,75

Natália Bebiano da Providência
A Matemática e Seus Labirintos

Abordando múltiplos cruza­mentos da matemática com outras áreas, como a música, a arte ou a literatura, este li­vro é uma fonte de inspiração para quem olha essa área do saber de um modo meramente técnico. De facto, a matemáti­ca faz parte da herança cultural da Humanidade, tal como as belas‑artes, a poesia ou a mú­sica. Esta obra convida à des­coberta de que a matemática vai muito para além da imagem que geralmente fazemos dela.

«Fora de Colecção», n.º 465, 192 pp., € 15,00
Silvério Manata
A Bicicleta do Ourives Ambulante
Prémio Literário João Gaspar Simões 2015
Uma grande surpresa na fic­ção portuguesa. Um grande li­vro! Portugal do século xx, num romance a duas vozes que se saboreia até à última página, em que se cruzam vidas, se unem destinos e se aproximam geografias distintas. Palavras que trazem cheiros, transpor­tam sensações.

Uma verdadeira revelação.

«Gradiva», n.º 159, 232 pp., € 15,00http://www.gradiva.pt/?q=C/BOOKSSHOW/8642

Educação, o cientista que não gosta de factos

Artigo de opinião de Guilherme Valente no Público de 05-02-16:

A escola exigente quer nivelar por cima, quer dar as mesmas oportunidades de sucesso a todos. É o ascensor cultural e social mais poderoso até hoje inventado.

Um atleta não pode chegar à competição motivado se não tiver treinado muito”
Séneca

1.Nem o exame de Cambridge escapou à sanha liquidatária dos que não gostam dos factos. Exame com validade internacional, arma preciosa para a vida, beneficiaria este ano todos os alunos de inglês do 9.º ano. Agora é só para quem o puder pagar no ensino privado.
E que dizer da decisão, à medida, de retirar às escolas a possibilidade de terem uma voz na contratação de professores? Ao contrário do consenso internacional, da prática dos países com maior sucesso educativo.

Só falta acabar, secar de recursos, o ensino profissional (o vocacional já está a arder na fogueira). E teremos o abandono escolar medonho do tempo do eduquês puro e duro

2.Qual é a verdadeira razão do ódio aos exames?* Expliquei-a durante anos, e iluminou-a cabalmente V. P. Valente no PÚBLICO de 18/1. É a crença fanática de que a escola “burguesa”**, da cultura “erudita”**, reproduz as desigualdades. Para supostamente o impedirem não hesitaram em nivelar por baixo, idiotizando todos. E assim tornaram mais pobres os pobres, mais desiguais os desiguais.
Pelo contrário, a escola exigente quer nivelar por cima, quer dar as mesmas oportunidades de sucesso a todos. É o ascensor cultural e social mais poderoso até hoje inventado.

3.Os exames não são para “chumbar”. Com o apoio e métodos personalizados para os alunos com dificuldades, segundas chamadas com período especial de acompanhamento, tal como foram introduzidos por Nuno Crato, os exames são, pelo contrário, para que haja cada vez menos alunos a precisar de ser retidos, para que todos passem sabendo.

Na Finlândia e no Japão, p.e., não são necessários muitos exames (embora no Japão continuem a ser muitos). Nem na confuciana Coreia, onde a educação é vivida como uma religião (80% dos alunos têm uma segunda “escola”, até às 22h00!).

Em Portugal, é o contrário. Sem exames estuda-se menos, ensina-se pior, muitos pais deixam de se preocupar com o estudo dos filhos. Se o Ministro fosse o homem culto que penso não ser, perceberia porquê.

A propósito do estudo CNE/Fundação FFMS *** sobre a evolução dos resultados dos alunos portugueses nos testes PISA 2002-2013, comento alguns destaques da notícia do PÚBLICO (26/1), que bem interpretados confirmam o que sempre sustentámos: 

a) Portugal é o país da Europa “que mais associa chumbar a um baixo estatuto económico e cultural da família”***. Ora, tendo presente o período a que se refere o estudo, 2002-2013, relevante é perceber o seguinte:

A escola permissiva, o facilitismo, o fim dos exames, ”o aprender a aprender”, a desvalorização do papel do professor, etc.etc., não diminuíram, mas, pelo contrário, agravaram a desigualdade de oportunidades entre as crianças de baixo e de alto estatuto social e cultural. É isto que revelam os números do estudo agora divulgado. Agravamento que se traduziu sempre num aumento das desigualdades sociais.

b) Os alunos que repetiram “têm resultados abaixo dos que nunca repetiram”. O inverso é que surpreenderia! Por alguma razão esses alunos não tiveram sucesso na primeira avaliação.
Alunos que, por isso, deveriam ter podido beneficiar de acompanhamento e apoio personalizado. Tal como viria a ser intensificado com Nuno Crato, com créditos adicionais associados aos programas de recuperação e de sucesso. Ou ter podido beneficiar da oportunidade de prosseguirem a sua formação numa outra via de ensino. Oportunidade que nos três últimos anos, de 2013 a 2015, foi alargada e reforçada.

Impõe-se, ainda, a interrogação seguinte: se não tivessem sido retidos, ficariam a saber o que deviam ter aprendido e não aprenderam? Isto é, acabar com os chumbos e as más notas torna os alunos sábios? Prepara-os para o exame, muito mais duro, da vida? Aprender, qualificar, exigência e oportunidade de sucesso para todos, não devem ser estes os desafios da escola?

c) Entre os alunos de 15 anos, revela ainda o estudo, Portugal viu a percentagem de chumbos aumentar de 30% em 2003 para quase 35% em 2009. E porquê? Porque se quase não havia exames (apenas a farsa das aferições) e havia pressão para passar toda a gente, teria de haver menos chumbos.
Sem avaliação séria, sem exigência, nem treino, nem desafio, com um número dramático de alunos a saírem do primeiro ciclo do Básico sem saberem ler, deveria esperar-se, claro, com a introdução de exames por David Justino, que num primeiro momento as retenções aumentassem. Particularmente no 9.º ano, a que os alunos chegam com cerca de 15 anos. Curiosamente, começaram logo a diminuir em 2012, embora ligeiramente. Com as alterações introduzidas pelo Governo de Passos Coelho, nomeadamente o aumento do número de exames, em especial o do quarto ano, a valorização da oferta do ensino profissional e a criação do ensino vocacional, as alterações nos programas, a pressão de exigência na formação dos professores, etc., a tendência inverteu-se absolutamente, com os chumbos, no último ano, a diminuírem, e o abandono escolar a baixar significativamente.

“Chumbos e desistências tiveram queda generalizada no último ano lectivo”, título do meu insuspeito jornal PÚBLICO, 1 de Julho de 2015! Mais factos!

Quanto ao abandono escolar, era de 28,3% no último ano do Governo de José Sócrates. Logo no primeiro ano do Governo de Passos Coelho baixou para 23%. Em 2014, 17,4%! A meta europeia é 10%, para 2020. Ver-se-á a percentagem em que Nuno Crato o deixou, depois destes breves anos de maior exigência. Para muito em breve, mais factos, portanto! Quando irá o INE divulgar esses números referentes a 2015?

Note-se que a Holanda, no período em causa, com exames, antecipando alguns anos as mudanças educativas ocorridas entre nós, diminuiu o número de retenções, “conseguindo praticamente uma paridade de chumbo entre alunos de classes sociais mais e menos abastadas”.

Tal como entre nós se começou verificar já em 2015, graças às medidas adoptadas nos últimos três anos. Se olharmos para a percentagem de retenções no 12.º ano, onde há mais tempo existem exames, veremos como o sistema se adaptou com sucesso à exigência… Ainda mais factos…

d) Finalmente, quanto à tão badalada preocupação com os custos das retenções – preocupação hipócrita, pois desperdiçaram rios de dinheiro durante todos esses longos anos em que brincaram com o destino das nossas crianças – ocorre dizer o seguinte: se o objectivo é oferecer um diploma de qualificação a quem não tenha aprendido nada, então a solução mais económica será acabar com a escola. Não será mais um facto?

Com franqueza.

*A ex-secretária de Estado Ana Benavente – que nas trevas que agora se adensam regressou do passado com um artigo assombrador (PÚBLICO, 11/1) – quis mesmo impedir a participação dos alunos portugueses no PISA (se o tivesse conseguido não haveria dados para o estudo em análise…). Ver G.V. e Carlos Fiolhais, “A governante que não quer ser avaliada”, PÚBLICO, 24/1/2001Outro regresso do passado, é do também ex-secretário de Estado Joaquim Azevedo, este com um amontoado de trapalhada e vazio. (DN , 25/1).

** A distinção tão culta (ou “culta”?) e as expressões tão operativas são de Ana Benavente, in Educação, Ciências Sociais e Realidade Portuguesa…, Porto, Afrontamento, 1991.

*** As citações são todas da edição referida do PÚBLICO.


Guilherme Valente
Ensaísta, autor de Os Anos Devastadores do Eduquês, Lisboa, Presença, 2012

UM PAÍS POBRETE MAS ALEGRETE

“Há épocas de tal corrupção, que, durante elas, 
talvez só o excesso do fanatismo possa, 
no meio da imoralidade triunfante,
servir de escudo à nobreza e à dignidade
das almas rijamente temperadas” 
(Alexandre Herculano).

Não sendo politólogo ou sociólogo não me atrevo à complexa análise sobre as maiores percentagens obtidas pelos candidatos, na passada eleição para a Presidência da República e seu vencedor. Atenho-me, portanto, apenas, aos resultados obtidos por Vitalino Silva ( mais conhecido por “Tino de Rans”) e por Paulo de Morais, respectivamente, 3,3% e 2,1%.

Com este inesperado resultado eleitoral, Vitalino Silva colocou Rans, pequena freguesia portuguesa do Concelho de Penafiel, no mapa-múndi. Mal conhecidos os resultados das eleições, em momento de glória, com a falsa modéstia que o caracterizou durante toda a campanha ao “serviço do povo” (como ele se fartou de frisar!), apressou-se a telefonar ao candidato mais votado, Marcelo Rebelo de Sousa (52%), “para lhe oferecer as suas ideias, pondo-as ao seu dispor” (sic.)!

E como “parar é morrer”, não deixando os seus créditos por mãos alheias, anuncia, agora, a sua intenção em não descansar enquanto não for modificada a lei que lhe não lhe permite concorrer para as próximas eleições para deputado da Assembleia da República como independente.

Detenho-me, agora, em Paulo de Morais que Vasco Pulido Valente, ao traçar o perfil dos candidatos à Presidência da República, referindo-se a ele numa das suas habituais e, por vezes, corrosivas crónicas, escreveu : “Paulo de Morais quer varrer a corrupção da política portuguesa vamos conversar sobre isso em 3016” (PÚBLICO, 22/10/2016).

Ou seja, o resultado destas eleições, aquilo que uns tantos tiveram como “excesso de fanatismo” de Paulo de Morais, não chegou para abanar uma declarada corrupção que destrói, com o seu pesado camartelo, os frágeis caboucos do edifício da nossa jovem democracia com menos de meio século de vida. Mas este statu quo não é, apenas, de hoje.

Na edição de Setembro de 2005 na Revista Finance & Development, editada pelo Fundo Monetário Internacional, escrevia Daniel Kaufmann: “Portugal poderia estar ao nível da Finlândia, se melhorasse a sua posição no ranking de controlo da corrupção”! Moral da história!

Uma campanha folclórica, com canções passada nas ondas hertzianas, alusivas à campanha de Vitorino Silva, deu 1,2 % mais de votos que o combate sem tréguas à corrupção.

Corrupção, tomando de empréstimo um verso pessoano, “cadáver adiado que procria”!

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

PORTUGAL E O ESPAÇO

A minha sugestão mais recente na revista Notícias Magazine. O Lançamento do livro é hoje à tarde no Planetário Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

É o título do mais recente volume da coleção Ensaios da Fundação Francisco Manuel dos Santos, 80 páginas escritas por Manuel Paiva, o físico português que presidiu à Comissão Ciências da Vida da Agência Espacial Europeia e participou em dez missões espaciais. É um excelente retrato do envolvimento do nosso país na exploração espacial, que à primeira vista surpreende, pelo número e qualidade dos grupos de investigação e empresas, assim como pelo dinamismo dos programas de educação científica associados a estes temas. Discute ainda, de modo informado e cativante, o futuro da exploração espacial, com missões tripuladas e robóticas. Será apresentado na próxima quinta-feira às 18h30 no Planetário Calouste Gulbenkian, em Lisboa. Mais informações: http://www.ffms.pt.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Poupança e Educação para a cidadania

Sem autorização nem cerimónia, reproduzo abaixo um texto de Ricardo Araújo Pereira e um desenho de João Fazendeiro, publicados na revista Visão, no dia 14 de Janeiro (e republicado on line no dia 21). Explico-me.

Desenho de João Fazenda
Penso ser do conhecimento de muitas pessoas que no currículo escolar português - da educação pré-escolar, do ensino básico e do ensino secundário -, consta uma componente obrigatória de carácter transversal designada por "Educação para a cidadania".

Essa componente - que de modo algum se pode confundir com doutrinamento - faz todo o sentido no currículo, bem como faz todo o sentido a orientação que a tutela lhe deu: a educação para os direitos humanos.

Efectivamente, no sítio da Direcção Geral da Educação pode ler-se: "a educação para a cidadania visa contribuir para a formação de pessoas responsáveis, autónomas, solidárias, que conhecem e exercem os seus direitos e deveres em diálogo e no respeito pelos outros, com espírito democrático, pluralista, crítico e criativo, tendo como referência os valores dos direitos humanos."

O problema (trata-se de um verdadeiro problema) está na concretização dessa deliberação em diversas áreas (educação para a saúde, educação para o risco, educação financeira, educação para o empreendedorismo, etc.) que são, nada mais nada menos, a sua negação! Elas, sim, vivem do doutrinamento, puro e duro!

Porém, como se abrigam sob a designação de "Educação para a cidadania", por mais atentatórias que sejam dos direitos humanos (e são-no), as críticas que sobre elas poderiam recair afrouxam, e se alguma é esboçada imediatamente alguém trata de a atacar: então não é importante ensinar os meninos e as meninas a pouparem dinheiro para depositar no banco, a terem uma alimentação saudável, a protegerem-se de doenças sexualmente transmissíveis, a evitarem a gravidez na adolescência, a defenderem as mais diversas minorias, a evitarem todos os consumos nocivos... a descobrirem os afectos!?

Argumentos não bastam para enfrentar tal aparato, garanto (até porque a quem ele beneficia, e não são os alunos, e quem o constrói, desde o "documento curricular" ao "hino", sabe o que faz, é especialista)! Por isso, bendito o humor! Ainda que, digo eu, no meu cepticismo, nem com humor se consiga, para já, tornar a "educação para a cidadania" educação para a cidadania.

Leia, então, o leitor o texto de Ricardo Araújo Pereira
Poupança, mothafucka!
De vez em quando, um grupo de publicitários tem a incumbência de criar uma campanha dirigida àquele grupo que certas pessoas costumam designar por "a malta nova".
O uso dessa expressão costuma excluir imediatamente aqueles que a proferem desse mesmo grupo. Curiosamente, a malta nova nunca diz "a malta nova". Esse é um dos primeiros equívocos: as pessoas que desejam dirigir-se à malta nova cuidam falar a linguagem da malta nova, e acabam por fazer uma figura tão trágica como um espanhol que cuida falar inglês.
A estratégia habitual dos publicitários que pretendem seduzir a malta nova consiste na transmissão de uma mensagem aborrecida através de música rap. O efeito costuma ser involuntariamente humorístico, porque não é habitual que as músicas rap se debrucem sobre as características de um produto.
Mas a mais recente campanha publicitária que recorre à música rap talvez seja a primeira em que o género musical se acomoda perfeitamente ao conteúdo.
Refiro-me ao tema "A dança da poupança", com o qual um banco tenciona atrair o dinheiro das crianças.
Há um subgénero do rap chamado gangsta rap, que descreve o estilo de vida dos bandidos. Creio que qualquer rap sobre actividades bancárias deve ser incluído neste subgénero. Jay Z canta fugas à polícia e 50 Cent faz rimas acerca dos gandulos que lhe deram uns tiros.
Tendo em conta o que aconteceu no BPP, BPN, BES e BANIF, qualquer movimentação bancária parece ser hoje uma actividade de risco, muitas vezes até criminosa. Faz sentido, portanto, que seja publicitada através de um gangsta rap. O rapper do anúncio chama-se Silver MC.
É um porquinho mealheiro, mas em vez de ser cor-de-rosa, é cor de prata metalizada. Ou seja, trata-se de um porquinho pimp. Vê-se que é um desses porquinhos que bebem vodka Grey Goose pela garrafa, usa uma corrente de ouro ao pescoço e tem um tigre de estimação. É ele que canta a dança da poupança.
Sabendo o que tem sido o comportamento da banca nos últimos anos, é possível que a dança da poupança produza os mesmos resultados que a dança da chuva. De uma coisa, porém, os depositantes podem ter a certeza: estamos perante verdadeira poupança. Aquele dinheiro não vai ser mal gasto.
Pelo menos, pelo seu legítimo proprietário. Talvez seja altura de mães de todo o mundo actualizarem as suas advertências às crianças. Em vez de "não aceites doces de ninguém", mudar para "não aceites contas-poupança de ninguém."

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

SUPLEMENTOS DE CÁLCIO: TRUQUE OU TRATAMENTO?

A minha crónica mais recente na Notícias Magazine, sobre suplmentos de cálcio e vitamina D, como Calcitrin.

- olhe, isto talvez lhe faça um bocadinho bem aos ossos, mas também é capaz de lhe dar cabo dos rins. Como não é o que diz a publicidade, a Ordem dos Farmacêuticos tem provavelmente razão quando fala em publicidade enganosa. Até porque nenhum destes suplementos poderá reconstituir ossos já debilitados pela osteoporose, como por vezes se é levado a acreditar.