sábado, 24 de setembro de 2022

Que sei eu do teu sorriso,

Do teu sorriso tão sincero?!

Que sei eu do que quero,

Do que quero e preciso?!

Com desespero, queria

Que cada palavra o soltasse

Neste céu pequeno e branco.

Que sei eu de quem sorria?!

Sorria e a palavra era tanto

Como se tua face a sonhasse.

Que sei eu do teu sorriso,

Do teu sorriso cheio de luz,

Cheio de luz e tão triste?!

Que sei eu do teu sorriso

Como se em cruz agonizasse,

Em silenciosa e plangente dor,

Em dor morresse sempre

E sempre para mim ressuscitasse?!

Que sei eu do teu sorriso,

Do sorriso que não posso

Arrancar das águas do rio,

E que, num voo repentino,

Iluminasse este céu frio,

Frio como ao ermo um osso?!

Que sei eu do teu sorriso,

Do sorriso que me feriu

Como um beijo fere a face,

A face inteira iluminasse,

E à face não mais voltasse,

Nem sequer voltasse ferido?!

Que sei eu do teu sorriso,

Do sorriso que eu quero,

Do teu sorriso tão sincero,

Se agora as palavras,

As palavras que penso e atiro,

Não morrem nem ressuscitam

Neste céu tão branco,

Branco e na boca do ermo

Tão preso e tão frio?!

A "FELICIDADE DOS PROFESSORES" COMO UM "INDICADOR" QUE PODE SER "DECOMPOSTO EM PARÂMETROS"

Quer-se gente feliz. Toda a gente, se possível. Sempre feliz, incondicionalmente feliz.
Gente feliz é melhor do que gente infeliz, fica mais barata e causa menos problemas.

A "felicidade" é uma meta estabelecida pelas grandes organizações internacionais, entre as quais se destaca a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), no horizonte 2030. Aos sistemas educativos é imputado o papel principal na "promoção" da felicidade. As escolas, os alunos e os professores, se não são felizes, têm de se tornar felizes.

Chamam-se os professores a "formação" para os tornar felizes. Alcançando a felicidade, tornarão os seus alunos felizes. Nesta zona de formação (como noutras), entram as empresas. Em Portugal, tenho percebido o protagonismo de uma editora de material escolar.

Recebi informação dessa editora relativa a uma acção que se realiza com alguma regularidade. O título é "A felicidade dos professores".

Sei bem que a felicidade é polissémica e que, pelos tempos fora, tem ocupado muito pensamento. Mas é estranho vê-la reduzida ao discurso que apresenta essa acção, próximo da gestão: um "indicador" susceptível de ser "decomposto em parâmetros" que podem ser "concretizados"?!

"A felicidade é uma palavra que, em muitas circunstâncias, corre o risco de se resumir a um uso enfático. Não que ela seja estranha às aspirações de cada um em relação ao que de melhor a vida lhe possa vir a dar, mas poderá ser tomada como “um momento” ou, simplesmente, um ideal, mais ou menos frágil ou passageiro. Porém, não poderá a felicidade ser convertida num indicador precioso para a missão da escola, passível de ser decomposto em parâmetros que, quando concretizados, tornem a escola num espaço de felicidade para todos os que a frequentam? A questão da felicidade dos professores é um assunto que levanta inúmeras questões. Estará a escola preocupada com a felicidade dos professores? A felicidade na escola deve ter um lugar nuclear? Que aprendizagens no plano emocional promove a escola? Os professores das nossas escolas sentem-se felizes?"

Com uma tal definição de felicidade, que professores podem sentir-se felizes?!

SONETO RESUMINDO UMA ENTREVISTA A GONÇALO M.TAVARES

Gonçalo não escreve com a cabeça,
escreve, diz ele, só com as mãos:
a cabeça, bons deuses, não interessa,
as mãos e os pés são bons artesãos.

“Escrever” sem complemento directo
é sempre a marca de um grande génio:
para estes, o acto predilecto
é tirar ao cérebro o oxigénio

porque, dele, nada que preste vem.
A si mesmo, escreve-se bem o texto
e as mãos sabem fazê-lo também.

Mas o cérebro é só um pretexto
e a linguagem vive só de si própria,
porque “querer dizer” é coisa imprópria. 

Eugénio Lisboa

quinta-feira, 22 de setembro de 2022

APELO A UM SOCIÓLOGO DA LITERATURA

Por Eugénio Lisboa

Meu Caro João Pedro George, 

Venho fazer-lhe um apelo e dar-lhe uma dica que definitivamente lhe poderá dar um lugar único (e merecido) na história da sociologia da literatura. Você tem mostrado ser um destemido escafandrista das águas pantanosas do nosso milieu literário. Além de destemido, é bem informado, escreve admiravelmente e é inteligente. Por isso lhe dou uma dica de enorme magnitude e assustadora dificuldade. E muito trabalho. 

Trata-se de desvendar um caso altamente intrigante de sucesso literário mundial, de dimensões pantagruélicas. Embora eu seja um leitor treinado e muito dado a leitura compulsiva, desta vez, desisto de compreender e peço-lhe que me ajude. Não, repare, que me ajude a compreender a obra assim catapultada aos mais remotos sítios do mundo. Essa, quanto a mim, distribui-se por quatro tabuleiros distintos: o do provincianismo douto, o do pretensiosismo parolo, o da infantilidade embevecida e o da imbecilidade inconsciente. Não, repito. Não me ajude a compreender a obra, nem esse é o seu ofício. Ajude-me, simplesmente, a compreender os mecanismos do mercado que assim catapultaram a dita obra para destinos que nem os muito traduzidos Pessoa e Ferreira de Castro sonharam. Não se ponha a salivar, já lhe digo de que obra se trata. De resto, Você, como adestrado sociólogo da literatura, já percebeu a quem me refiro, porque não pode ser outro. SIMPLESMENTE NÃO HÁ OUTRO. Desde que Portugal é Portugal, nunca se viu coisa assim. E suponho que, nos próximos mil anos – se a vida no planeta durar mil anos – não se verá nada como o êxito literário de que estamos a falar. É d’arromba! É uma coisa tão desmedida, que se não percebe o carão fechado, ressumando amargura existencial desvairada, do autor da obra : sempre com o ar de lhe ter sido revelado um segredo sinistro por uma pitonisa que só fala com ele! Falo, claro está, de Gonçalo Joyce Tavares, também conhecido como Gonçalo M. Tavares e dos cinquenta e tal livros que já publicou, traduzidos em 43 línguas e 71 países. Tudo isto publicado em vinte anos por um homem com pouco mais do que cinquenta anos. Só Balzac! Mesmo assim, convém não exagerar: não consta nenhuma edição nas ilhas Maurícias (que se devem contentar com a edição francesa) nem num atol desabitado do Pacífico. (Também não consta nenhuma tradução feita nas Ilhas Desertas).

Seja como for, meu caro sociólogo, peço-lhe que investigue a máquina promotoria deste singular caso de promoção literária. Ele é prémios, ele é traduções, ele é viagens, ele é fotos (sempre de carão fechado), ele é autógrafos, desmaios de admiração, qualquer dia é o Prémio Nobel. Então, a sociologia, diante disto tudo, está calada? Para que diabo serve ela se não se deixa deslumbrar por aquele mapa a duas páginas, que mostra, no último JL, a esmagadora geografia de Gonçalo? Gonçalo fecunda todo o globo. Não há sítio decente e habitado que não acolha Gonçalo. Gonçalo é mais conhecido do que a vaquinha do presépio! 

Meu caro João Pedro George, medite bem nisto. Camões e Pessoa são, ao lado de Joyce Tavares, aprendizes de escritor. Salve a honra da sociologia e mostre à pátria lusa como um filho seu chegou a mares nunca dantes navegados! Dê à sociologia o que é da sociologia, para que se perceba finalmente como é que o que é de Tavares é também do mundo! Tavares é o mundo e o mundo é de Tavares. Parafraseando o embirrento Almada, eu diria que Tavares é que é, o resto é caca! 

Eugénio Lisboa,
aguardando resposta!

quarta-feira, 21 de setembro de 2022

MINHA ENTREVISTA À COMUNIDADE CULTURA E ARTE

 


Entrevista que dei recentemente a  José Mata
, publicada aqui  (foto de Rui André Soares): 

Carlos Fiolhais nasceu em Lisboa em 1956, formou-se em Física pela Universidade de Coimbra e doutorou-se pela Universidade Johann Wolfgang Goethe, em Frankfurt, em 1982. É autor de dezenas de livros e centenas de artigos científicos, pedagógicos e de divulgação. Trata-se de um dos maiores vultos da ciência e da divulgação científica em Portugal. Deu a sua última aula em Junho de 2021, após 44 anos de carreira docente, o que não o impede de continuar a ser uma voz activa não só como cientista e divulgador de ciência, mas também como cidadão. Recebeu-nos no passado dia 12 de Setembro, no Centro de Ciência Viva Rómulo de Carvalho — um projecto de divulgação e disseminação da ciência na Universidade de Coimbra que fundou no dia 24 de Novembro de 2008, Dia Nacional da Cultura Científica.

P- Em pleno século XXI, quando menos se esperava, um vírus desconhecido veio colocar-nos à prova, fazendo com que nos adaptássemos a uma nova realidade. Em menos de um ano, foram vários os laboratórios que desenvolveram diferentes vacinas e o seu efeito na redução drástica no número de mortes foi notório. Hoje, sabemos mais sobre este vírus e voltámos a uma situação semelhante à da pré-pandemia, apesar das reservas que ainda existem. A pandemia de COVID-19 reforçou a relevância da ciência nas nossas vidas?

R- Sim, quero crer que sim. Quero crer que a generalidade das pessoas percebeu melhor o valor da ciência. Não sou ingénuo ao ponto de pensar que não haja, ainda, pessoas com dúvidas e que não haja, ainda, para alguns, a questão da credibilidade da ciência. Este evento que houve não foi previsto com uma data, embora tivesse sido possível prevê-lo, porque nós somos criaturas frágeis e vivemos num planeta com perigos. Não foram apenas uma ou duas pessoas com conhecimento de causa que disseram que isto podia acontecer. No entanto, ninguém poderia saber ao certo o que viria a acontecer, no final de 2019, em Wuhan, na China, e que os contágios iniciais se propagassem tão rapidamente no mundo, de modo a ser declarada uma pandemia no dia 11 de Março de 2020.

Este acontecimento inesperado desafiou a ciência. Desafiou-nos a todos, mas, em particular, à ciência, que tinha métodos para o poder enfrentar. A sociedade pediu à ciência esse enfrentamento, pediu que se mobilizasse. E a ciência fê-lo com uma rapidez e uma eficiência que eu diria que, no sector da saúde, talvez nunca tenha sido vista. Acções nefastas de microrganismos como este podem ser diminuídas ou mesmo impedidas através de vacinas, que é uma invenção que data de finais do século XVIII  a primeira foi a da varíola. O receio das vacinas por parte de algumas pessoas já data dessa altura, mas o certo é que, apesar desses receios, a vacina da varíola revelou-se ser muito eficaz ao ponto da varíola ser das doenças infeciosas que foram erradicadas (não há muitas). O vírus da varíola humana está, praticamente, extinto. Se olharmos do ponto de vista da biodiversidade, trata-se de uma diminuição favorável a nós… [risos]. Isso mostra o grande êxito das vacinas, pois tinham morrido milhões de pessoas com varíola. Na América do Sul foi, provavelmente, muito maior a devastação criada por um microrganismo do que, pelas armas, o que é curiosíssimo. Ora esse perigo dissipou-se. E a história das vacinas continuou com tantos casos de sucesso, como a vacina BCG contra a tuberculose que tomei em pequenino e que agora já não se toma, porque a doença está bastante mais contida, ou a poliomielite, que atacava muito nos anos 50 e que praticamente acabou desde que passou a haver vacina. O nosso arsenal de vacinas foi dos maiores contributos que a medicina e a ciência, em geral, deram à preservação da humanidade. Hoje, em dia estamos defendidos de muitas doenças graças a esse meio, que é muito engenhoso. Educamos o nosso organismo para ele saber lidar com um novo agente de uma forma controlada (usamos pequenas doses). O corpo desenvolve imunidade e, quando está perante um agressor verdadeiro, já está treinado, já te defesas.

A última vacina que tinha sido feita, mais rapidamente, demorou quatro anos (parotide epidémica ou papeira). Tendo a pandemia sido declarada em Março, no início de Dezembro já estavam a ser administradas as primeiras vacinas no Reino Unido. Em Portugal, isso aconteceu no final desse mês Nove meses para fazer uma vacina é, de facto, um tempo assombroso e, apesar de ter havido vagas posteriores, foi tudo muito mais contido do que teria sido sem vacina. Eu próprio tive COVID e já estava vacinado com três doses, o que significa que foi uma coisa que passou por mim durante dois, três dias sem grandes problemas. Sabemos o número de vítimas que houve no mundo e em Portugal — podemos comparar com o número estimado se não dispuséssemos de vacinas. Calcula-se que só no ano de 2021 foram evitadas vinte milhões de mortes. Uma comparação fácil de fazer é com a pneumónica, gripe espanhola, de 1918 — mais de 50 milhões de pessoas morreram no mundo todo pois não só não havia vacina como nem ninguém sabia o que era. Não se fazia bem ideia do que era um vírus, havia o conceito, mas só nos anos 30 do século XX é que se usaram meios microscópicos para identificar vírus. O vírus da pneumónica ainda está aí, fazendo parte dos vírus da gripe: habituámo-nos a ele e deixou de ter aquele impacto brutal.

Prefiro muito mais viver hoje do que viver há cem anos porque, se eu vivesse há cem anos, o risco de contrair uma doença infeciosa era muito maior do que hoje. Este risco é um dos grandes indicadores do enorme poder da ciência. Mais uma vez, a ciência demonstrou a sua capacidade. Acima de tudo, a pandemia mostrou que, quando a humanidade pede aos cientistas que se mobilizem por uma causa (e lhes fornece meios para isso), eles mobilizam-se de forma maciça. Uma pessoa vê pelos numerosos artigos que surgiram que os cientistas não dormiam, não faziam fins-de-semana, não faziam férias. O vírus da COVID ainda está espalhado, sob uma forma menos maligna, porque temos já as defesas necessárias. A vida normal basicamente já voltou: voltaram os espetáculos, voltaram os restaurantes, voltaram as danças, voltaram os beijos e abraços... É preciso, ainda, manter alguns cuidados, naturalmente. Quero ser optimista: um grande desafio foi superado, embora algo semelhante possa voltar a acontecer. Temos de aprender com o que aconteceu. Eu não tenho a certeza que tenhamos aprendido bem o que se passou, até porque persistem grandes desigualdades. As vacinas chegaram de forma muito diferente aos diversos países e chegaram primeiro aos países ricos. Alguns cidadãos destes países  não as usaram. Difundiu-se um discurso contra as vacinas. Tal como Einstein dizia, “só há duas coisas infinitas no mundo, o universo e a estupidez humana”. E acrescentava logo: “quanto à primeira, não tenho a certeza” [risos].

P- Muitas pessoas não acreditaram, desdenharam até, quando o vírus apareceu, algumas delas achando que se trataria de uma simples constipação. Outros falaram de uma invenção biotecnológica. Geraram-se fake news e teorias da conspiração que originaram uma avalanche desinformação: a chamada "infodemia". Numa altura em que temos acesso a tanta informação, será que temos dificuldades em selecioná-la e em interpretá-la, ou é algo mais do que isso?

R-Devemos tentar perceber porque é que isso acontece. De facto, temos dificuldade em movermo-nos na quantidade enorme de informação disponível. Concordo que houve uma "infodemia", que foi até mais rápida do que a pandemia. Ainda a pandemia não tinha chegado a muitos sítios e já aí chegavam notícias falsas a respeito da COVID. Em Portugal, uma conhecida apresentadora de TV perguntou, no seu programa, a um médico, quando se discutia o que se estava a passar na China, porque é que a doença só se dava nos chineses — foi uma pergunta muito ingénua. Não demorou muito a ver que também se dava cá. Havia uma certa ansiedade: muitos países tinham casos e nós não tínhamos [risos]. O certo é que depois não só começámos a tê-los como começaram a morrer pessoas, algo que era previsível. Espalharam-se, desde o início, uma série interminável de notícias falsas, incluindo tratar-se de uma arma criada num laboratório biotecnológico de alta segurança, o que é algo difícil de acreditar.

A infodemia espalhou-se rapidamente graças a um resultado da ciência: a internet, ou melhor, a World Wide Web, que é um protocolo de ligar os computadores de todo o mundo; hoje dispomos de uma rede mundial de computadores onde a informação circula à velocidade da luz. Isso, não o esqueçamos, foi obra da ciência: a World Wide Web foi criada no CERN e para o CERN, simplesmente porque os cientistas queriam partilhar as informações nos seus computadores e hoje é usada para tudo e mais alguma coisa. Toda a gente começou a pôr lá informação, está lá o verdadeiro, mas também está o falso. De facto, por vezes, é muito difícil distinguir o primeiro do segundo. Pelo facto de ser cientista, desenvolvi uma habilidade, que tento transmitir aos meus estudantes, que consiste em distinguir o verdadeiro do falso. Se alguém diz alguma coisa, porque é que o diz? Com que base é que o diz? Com que intenção o diz? Que interesses pode ter ao dizê-lo? Chama-se a isto pensamento crítico.

Uma parte muito importante do método científico é acreditar só quando existirem provas, e as provas suficientes. Devemos duvidar enquanto não houver provas suficientes. E até estar pronto para aceitar que as provas reunidas não são suficientes e que temos de procurar mais provas. Mesmo quando uma conclusão parece certa, deve manter-se sempre um grãozinho de dúvida. Não quer isto dizer que nos devemos fazer de parvos e pensar que o Sol anda à volta da Terra ou que não somos feitos de células, mas simplesmente estar consciente de que amanhã saberemos mais do que hoje. Há coisas muito bem consolidadas no nosso corpo de ciência, mas há outras sobre as quais não temos a certeza. As pessoas em geral tiveram contacto com a ciência na escola e nos media, mas infelizmente não têm esta capacidade de discernir o certo do errado em afirmações que são feitas sobre o mundo. A escola, nesta questão, tem falhado, não transmite o essencial da ciência, passa conclusões da ciência sem passar o que é mais importante que é o modo como obtermos novo conhecimento. Transmitem-se conteúdos de ciência sem ser capaz de transmitir a atitude científica.

Por outro lado, os media, na voragem da informação diária, muito dificilmente transmitirem essa atitude científica, embora esta possa e deva ser em certa medida ser partilhada pelos jornalistas. Os cientistas e os jornalistas têm muito mais em comum do que se julga. Ambos estão interessados na veracidade daquilo que se apresenta e ambos estão interessados em comunicar, em levar a mais gente aquilo que sabem. Os cientistas não querem as coisas só para eles, pois eles não são mais do que representantes da Humanidade.

Em resumo, estamos numa situação muito difícil, não sei bem como resolveremos este problema. É um mundo que, como Carl Sagan sumariou sabiamente. onde o a ciência e a tecnologia conferem um poder imenso, mas, ao mesmo tempo, um mundo cheio de ignorância, chegando a ignorância aos mais altos níveis do poder. Na base do poder está o conhecimento, mas muitos detentores do poder político não têm espírito crítico. Sagan avisou-nos do perigo da mistura entre saber e ignorância: podia-nos explodir na cara. É isso que temos assistido neste século, como nos casos dos Estados Unidos e do Brasil, que são países democráticas onde a ignorância subiu ao mais alto patamar.

P- É cada vez mais necessário que haja bons comunicadores de ciência, pessoas que consigam passar para a sociedade a mensagem da ciência? Parece que existe uma falta de literacia científica nas populações apesar dos seus níveis de educação…

R- Sim, apesar de haver mais gente escolarizada, e isso é bom, o certo é que a ciência e a sociedade avançam mais rapidamente do que a escola. A escola tem dificuldade em resolver este problema da desinformação. A escola tem de ser, de algum modo, conservadora, não pode estar sempre a mudar. Tem de transmitir o essencial do património passado de modo a preparar para a vida e esse património é muito estável. Os resultados e os produtos da ciência e da tecnologia chegam, através do mercado, muito rapidamente às pessoas. E estas usam muitos objectos sem saber a ciência que está lá dentro. O segredo hoje para vender um produto é concentrar muita ciência num espaço pequeno e, depois, permitir que a interação com os humanos seja fácil. O design é essencial num produto para que ele seja de uso fácil. Vivemos inundados de ciência: ela está nos nossos bolsos, nos nossos telemóveis, etc.; mas, ao mesmo tempo, ignoramos a ciência ou. Quando a consideramos, não lhe damos a relevância necessária. O público, em geral, está divorciado da ciência, esta é algo que lhes passa ao lado, que não sabem o que é ou sobre a qual têm uma ideia vaga. Sabem um nome ou outro, mas não conhecem os processos. Costumam até tomar os objectos tecnológicos pela ciência.  Claro que eles são produtos da ciência, mas a ciência está neles muito bem escondida.

É, por isso, preciso construir uma ponte entre o mundo da ciência e o mundo que chamarei humano apesar de os cientistas também serem pessoas… Os cientistas são os enviados especiais da comunidade humana às fronteiras do conhecimento. No jornalismo, os enviados especiais reportam. Os cientistas também reportam, começam por reportar à sua comunidade, para ver se tudo bate certo. Tem de haver um acordo na comunidade científica, tornando-se então mais fácil reportar para todos. Um dos problemas da pandemia era que tudo estava a acontecer em directo, a ciência estava a acontecer em directo e não se percebia muito bem que muitas das conclusões dos cientistas eram provisórias. Pensava-se que eles já tinham chegado a uma conclusão, mas eles ainda estavam a discutir, o que é normal pois faz parte do processo científico.

Sim, são precisos bons comunicadores. O problema da comunicação de ciência é um contínuo, não se vai resolver de repente e, porventura, nunca se resolverá, mas, utilizando o gerúndio, tem que se ir resolvendo. Temos que fazer com que a ciência contacte mais com as pessoas. Os cientistas têm de falar mais com as pessoas, não é preciso que todos o façam, mas é preciso é que a comunidade científica no seu todo o saiba fazer. Dispomos agora de meios fantásticos, que os próprios cientistas criaram. Estamos num processo de transição, em que muitos media estão a mudar de forma acelerada. Por exemplo, agora não há só a televisão, há também a Netflix. Não há só a rádio, há também os podcasts…

Não podem ser só os cientistas a comunicar ciência. Tem de haver intermediários entre os cientistas e os cidadãos, pessoas com outras formações. As pessoas com formação em comunicação social são muito importantes, porque sabem muito bem como funcionam os media. Seria bom que essas pessoas estivessem mais próximas dos cientistas, de forma a haver menor distância e mais harmonia entre a ciência e o público. Não se trata apenas de anunciar as novidades, por exemplo dizer que foi lançado o novo telescópio espacial, mas dizer o que é o telescópio espacial, o que é que está a fazer ou que é que se pretende que ele faça e que resultados vai ter para a ciência e para a sociedade. Vamos saber mais sobre as nossas origens, saber melhor como tudo começou, saber se há outros planetas porventura com vida tal como há na Terra. Essas coisas tocam no imaginário das pessoas, tocam algo muito profundo em nós. Seremos os únicos seres inteligentes no Universo? As pessoas estão interessadas em saber.

Não é verdade que as pessoas não tenham interesse pela ciência, elas interessam-se, têm curiosidade, uma atitude natural que está bastante disseminada, embora nuns mais do que noutros… É preciso aproveitar isso e fazer o esforço de alimentar esse interesse. Esse esforço está a ser feito, mas é preciso arranjar formas imaginativas deo continuar. Nos países mais desenvolvidos, nos quais o papel da ciência é mais perceptível, existe de modo mais nítido o a que se chama cultura científica. A ciência existe lá há mais tempo, adquiriu uma certa dimensão. Portugal é, nesse aspecto, um país relativamente frágil, uma vez que a atitude científica que de certo modo estava presente no tempo dos Descobrimentos depois nunca prevaleceu. Quando acabei o doutoramento na Alemanha, em 1982, e vim para Portugal, ninguém sabia o que era um físico. Hoje em dia, quando se fala de um físico, as pessoas podem não saber exactamente o que é, mas pelo menos já não estranham a palavra. Lembro-me de uma entrevista que dei a um jornal nos anos 80 em que o título era “Cientista também vê telenovelas”. Disse muitas coisas, mas o que trouxeram para o título foi o facto banal de eu ver televisão.  Na altura, estavam as novelas brasileiras muito na moda, e o que interessou mais ao jornalista foi o facto de um físico também ver novelas. Podia ter dito que “cientista também toma pequeno-almoço” ou que “cientista também vai à casa de banho” [risos]. Hoje em dia, estamos em melhor situação: os cientistas já não são tomados por extraterrestres.

Muita coisa mudou em Portugal, mas nem tudo mudou ainda o suficiente. A ciência está presente nas nossas vidas mas, muitas vezes, não temos consciência disso. Há coisas que a ciência nos ensina como a distinguir afirmações certas do erradas. A ciência tem bons detectores de mentiras, tem bons kits de descoberta de erros [risos]. Esses detectores podem ser úteis na vida comum: há características do método científico, como não nos deixarmos enganar, não acreditar em tudo, perguntar porquê e  como. Tudo isso são coisas que a ciência nos comunica e que nos podem ajudar a viver melhor.

Há maneiras interessantes de relacionar a ciência com a vida. Muitas pessoas pensam que os mundos das ciências e das artes são mundos desavindos. É o problema que se chama das “duas culturas”, que persiste nos dias de hoje. Pensa-se que as pessoas de artes e de literatura não querem saber de ciência e que as pessoas da ciência e da tecnologia não querem saber das artes e literatura. Uma boa maneira de fazer cultura científica é fazer com que os artistas estejam perto de cientistas e que obras de arte possam ser inspiradas pela ciência. Estamos hoje confrontados com questões de saúde, ambientais - uma grande questão é a do aquecimento global. Ora a necessidade de acção pode ser transmitida por outros meios que não apenas os da ciência. Pode haver uma palestra sobre aquecimento global, mas pode haver também um teatro, um filme, uma música ou um quadro. Ciências e artes são dimensões do humano, não têm que ser antagónicos: podem e devem ser conjugados.

P- A ciência faz parte na nossa cultura. Temos o Dia Nacional da Cultura Científica, dia 24 de Novembro, que é o dia do nascimento de Rómulo de Carvalho e também o dia da fundação do Rómulo — Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra. Esta data é celebrada no ambiente académico, mas passa um pouco despercebida nos meios de comunicação. Qual é a dificuldade da ciência se difundir na nossa cultura?

R- O dia 24 de Novembro é, de facto, o dia do nascimento de Rómulo de Carvalho. O Dia da Cultura Científica foi uma ideia do ministro José Mariano Gago. Um dos seus intuitos era prestar homenagem a Rómulo de Carvalho, que era um homem das “duas culturas”. Vamos chamar assim, é um chavão, eu sei [risos]. Cultura há só uma, há depois várias dimensões dentro dela. Rómulo de Carvalho era professor de Físico-Química, um professor muito capaz. Escreveu manuais escolares, livros de divulgação científica para jovens e para adultos. Para jovens, tem a série “Ciência para Gente Nova”, para adultos, tem, por exemplo, o “Física para o Povo”. Houve uma versão mais recente em que o título mudou para «Física no Dia-a-Dia», porque ele dizia que já não havia povo… Mas ainda há, o povo somos nós todos [risos].  Rómulo de Carvalho simboliza bem a união das «duas culturas», porque ele tem um outro lado, com o nome de António Gedeão, que é de poeta. Pouca gente sabe, mas esse lado também é de artista visual, ele fazia desenhos e de certo modo também esculturas, tinha boas mãos. Só começou a sua carreira poética aos 50 anos, ou pelo menos a publicar com o nome António Gedeão, e procurou manter as duas facetas separadas. Aliás, até na escola, quando lhe pediam para assinar os livros, ele tentava separar as águas, dizendo que não conhecia o poeta. Na altura, não seria fácil para um professor de Física ser também poeta. Mas Rómulo era capaz de conjugar as duas atitudes, a atitude científica e a atitude artística. Ele disse um dia numa entrevista que, no fundo, não havia separação entre as duas, pois o acto criativo era essencialmente o mesmo.

A ciência é criativa ao relacionar coisas distintas, como Newton fez com maçã e a Lua ao perceber que ambas estão sujeitas à força da gravidade da Terra. A relação pode não ser óbvia, mas a maçã cai e a Lua cai também de certo modo, enquanto anda em órbita da Terra. Uma pessoa vê a maçã cair, mas não vê a Lua a cair do mesmo modo. Newton foi pioneiro ao dizer que a Lua anda à volta da Terra pela mesma razão que a maçã cai. Foi um grande salto do pensamento, porque ele imaginou imediatamente que a maçã podia entrar em órbita. O acto criativo consiste em juntar aquilo que parece estar separado. A poesia e as artes, em geral fazem exactamente isso mesmo. Na literatura, veja-se o que é uma metáfora: pega-se numa coisa que à partida não tem nada a ver com a outra e, a partir do momento em que se conjugam dois termos, percebe-se um novo significado. Por exemplo, em «um dia cristalino», junta.se um período de tempo e uma propriedade que associamos, na Física, a uma disposição ordenada dos átomos. Para as pessoas comuns, cristalino significa perfeito, brilhante, precioso. «Um dia cristalino» será, por isso, um bom dia [risos]… Arranjamos associações porque precisamos delas. Fazem-nos bem à nossa vida, que não tem que ser um desatino mas sim uma procura de significados.

Há outras dimensões humanas, para além das ciências e das artes. Há a questão do religioso, há a questão afectiva, etc. Não quero dizer que nenhuma delas deva prevalecer sobre as outras, mas devemos procurar alguma integridade, alguma coerência, no humano. A humanidade é uma coisa que transportamos connosco, é uma condição de espécie, e a cultura faz parte da humanidade. Na cultura, estão todas estas coisas, que às vezes se ignoram [risos]. O Dia da Cultura Científica celebra a capacidade de união. O jornalismo vive de eventos singulares.  Tem que haver novas coisas para chamar a atenção. Num dia lembramos a cultura científica e, no outro dia, o teatro ou a menopausa, que parece que é agora em Outubro [risos]. Não estou a brincar, há dias para tudo e este é um deles. O que era preciso é que todos os dias fossem dias da cultura científica e para isso a escola tem que dar o seu contributo e tem que haver outras contribuições.  Cada um de nós tem que fazer um esforço nesse sentido, já que, sendo a curiosidade humana, temos que mostrar que somos humanos.

Dou um exemplo pouco conhecido. Literatura e ciência não têm que estar separadas e um poeta muito mais antigo do que Rómulo de Carvalho é Luís de Camões. Ora ele inclui ciência n’ Os Lusíadas. Mais: os primeiros versos que ele publicou saíram em 1563 num livro de ciência, Colóquio dos Simples, da autoria  do médico português Garcia de Orta, que estava em Goa, na Índia, tal como Camões. Ele pediu-lhe um prefácio em verso, e fez um prefácio laudatório ao dizer “há uma nova horta”, jogando com o nome de Orta, “onde florescem plantas que os doutos não conhecem”. Por outras palavras, Orta estava a cultivar novas drogas, porque os «simples» eram as matérias usadas para fazer medicamentos. A literatura aqui simbolizada — Fernando Pessoa que me perdoe — pelo nosso maior poeta aparece impressa num livro de ciência. Poderia acontecer mais vezes. E há outros exemplos. Tenho visto livros de poesia, de poetas contemporâneos, cheios de ciência porque o mundo está cheio de ciência. Usam temas e termos científicos. É consolador ver isso, é um sinal de esperança....

Julgo que os portugueses não sabem muito de ciência por uma razão muito simples. A nossa escolaridade, apesar de ter aumentado muito nos últimos tempos, chegou muito tarde em comparação com outros países. E ainda há um défice de escola em Portugal. Basta olhar para a minha geração, a geração dos meus pais, e dos meus avós para vermos que houve progresso, mas é um progresso muito recente. As pessoas têm interesse pela ciência à partida, mas, depois, à chegada, esse interesse é muito limitado. A ciência tem bom nome em Portugal, mas depois não chega a ter aplicação prática nas nossa vidas. O governo também enche o seu discurso de ciência, mas depois o financiamento de ciência continua a ser muito reduzido.

P- Já que estamos a falar da nossa ciência, Portugal foi o nono país da União Europeia que menos verbas atribui para investigação em 2021. De acordo com os dados mais recentes, o investimento médio dos países da União Europeia na área da Investigação e Desenvolvimento é de 2,3% do seu PIB (Produto Interno Bruto). Países como Alemanha, Áustria, Bélgica, Suécia ou Dinamarca possuem investimentos superiores a 3% do seu PIB, sendo casos de referência da investigação científica, não só a nível europeu, mas também mundial. Em Portugal o investimento é apenas de 1,6% do PIB. O que se passa para haver tão pouco investimento na ciência no nosso país?

R- Em Portugal, os políticos trazem a ciência na boca, mas não sei se a têm no coração. Pelo menos no Orçamento de Estado aparece de uma forma débil. Esse número, 1,6%, era mesmo em 2009. Andámos mais de dez anos sem fazer progressos! O que é que andámos a fazer durante a última década? Pode-se dizer que houve a troika. Sim, houve a troika, que foi um grande rolo compressor da ciência. Não houve a capacidade de perceber que há coisas essenciais para o nosso futuro que não podem ser destruídas em períodos de crise. O modo como temos tratado, em particular, os jovens cientistas é absolutamente lastimável. Temos um governo que fala muito na ciência, na necessidade de ciência e desenvolvimento, que vivemos numa sociedade dominada pelo conhecimento. Mas, depois, não é consequente com esse discurso. Basta olhar para o passado mais recente: não vemos uma prática compatível com o discurso, vemos um investimento bastante abaixo da média europeia. Como é que um país que se quer desenvolvido pode estar abaixo da média do grupo onde se integra? Não convergimos nos últimos tempos para a Europa. Temos visto grandes programas europeus de investimento, como o PRR; e quase não vemos a ciência lá presente.

Se não apostarmos na ciência, em particular, nos jovens mais criativos e mais dinâmicos, nós não poderemos alcançar o grau de desenvolvimento que pretendemos. Vai continuar a acontecer o que tem acontecido. A quantidade de jovens que nós habilitámos, o número de doutoramentos que concedemos têm aumentado, o que é bom. Mas as universidades, politécnicos, empresas, etc. não estão a absorver esses doutorados como deveria ser. Não imitamos o que acontece nos países mais desenvolvidos, onde os cientistas são mais considerados, mais contratados e também mais bem pagos. Tive vários estudantes meus que tiveram de ir lá para fora e arranjaram em bons lugares, em países da Europa e do mundo. Acabaram por ser úteis a outros países não ao nosso. A nossa maior capacidade reside nos nossos “cérebros”. Temos “cérebros” que são muito capazes e que devíamos tratar bem, oferecer-lhes oportunidades e confiar neles sem hesitações. Quando dei a minha última aula, lamentei a falta de investimento na ciência, apesar do discurso dos políticos. Dizem umas coisas e depois isso não corresponde à realidade. Faz-se todo um discurso para camuflar a realidade como se não estivesse a vista que não se está a investir o suficiente na ciência. As pessoas têm 40, 50 anos e ainda não têm lugares permanentes. Continuam em posições precárias, continuam a fazer o seu dia-a-dia sem qualquer perspetiva. São pessoas que não estão em início de carreira, não estão em formação, mas que continuam à procura de emprego científico estável.

Se nós não confiarmos nos jovens cientistas isso significa que não estamos a confiar no futuro. E então não vamos ter grande futuro. Na minha última aula disse “saio também para dar lugar aos jovens, porque eles precisam de lugares". Receio não ter dado. Novas expectativas surgem quando há um novo governo, já que a esperança é sempre a última a morrer, mas verificamos actualmente que não há, digamos, um elã na área da ciência. Eu olho para os cientistas que via desanimados e continuo a vê-los desanimados. É certo que também não há grande capacidade de iniciativa da comunidade científica. Esta cresceu muito, mas não está bem organizada. Não tem capacidade de falar de forma solidária com o poder e dizer “Estamos aqui, olhem para nós!”. Os governos têm tratado os investigadores com algumas palavras de comiseração, mas sem lhes conferir a dignidade que eles merecem. As instituições necessitam de renovação para serem pujantes e nós temos, por exemplo, universidades e politécnicos com corpos docentes extremamente envelhecidos. Não é só nos ensinos básico e secundário que há professores envelhecidos, isso também acontece no superior.  Se a média de idade dos professores for próxima dos 60 anos, não estamos a renovar convenientemente o nosso sistema de ensino superior, que por isso passa a ser superior só no nome… [risos] As alturas mais criativas da vida ocorrem na flor da idade. Se, em jovem, uma pessoa não consegue entrar nos quadros, irá começar a carreira numa altura em que ela devia estar a terminar? Vai começar a trabalhar quando já devia estar reformado, como, agora, o Príncipe Carlos? [risos]

É muito simples alcançarmos o almejado desenvolvimento: basta olhar para os países mais desenvolvidos, os países mais adiantados no tempo, ver o que eles já fizeram e estão a fazer. Não é preciso andar a reinventar a roda. É preciso estimular o emprego científico, quer no sistema de ensino, quer nas empresas, quer noutras instituições. As nossas empresas estão a empregar muito poucos doutorados, estou a falar de grandes empresas, indústrias, bancos, etc. Há listas das empresas que investem mais em investigação e desenvolvimento e, quando olhamos para o número de doutorados que elas têm, verificamos que não têm quase nenhuns. O que é que elas fazem? Publicam alguma coisa? Submetem patentes? Fazem alguma coisa inovadora? Não, limitam-se na maior parte dos casos a comprar tecnologia já feita, pelo que, quando muito, lêem os manuais de instruções. Ora nós somos capazes de pensar coisas novas e de as fazer tal como os outros. Precisamos de um ambiente criativo, isto é, de um novo ambiente cultural, lá está. Quem se queixa justamente de não ter boas condições de trabalho não são apenas os jovens cientistas, são também os jovens artistas. 

Agora na pandemia alguns artistas ficaram em condições muito difíceis. Um país que não confia nos seus cientistas, que não confia nos seus artistas e que não lhes dá suficientes condições para que sejam cientistas e artistas, é um país que se limita apenas a existir porque já existe. É um país fixado no passado, que funciona por inércia, sem se projectar num sonho de realização e de transformação. Lamentavelmente, não temos um projecto de futuro conjunto, limitamos muitas vezes a repetir as coisas que se dizem na União Europeia. A União Europeia fala - e bem - em questões como o clima, a energia, etc. e nós colocamos esses temas na nossa agenda, usando as palavras muitas vezes como um mero cliché. As alterações climáticas são um problema que afecta a todos. Mas Portugal é um país no sul da Europa, que possui uma mancha florestal grande e pouco cuidada, sujeita por isso a fogos, e também com uma grande linha de costa, sujeita à subida do nível das águas do mar. Mas não vemos que estes problemas sejam mobilizadores na nossa política de ciência.

Há também questões de saúde que não apenas portuguesas. As pessoas vivem mais, graças aos progressos da higiene e da medicina, sendo Portugal conhecido por ser o país que envelhece mais rapidamente na Europa:  a razão do número de pessoas mais velhas para o o número de pessoas mais novas está a aumentar muito mais depressa do que noutros países. Seremos o terceiro país mais envelhecido do mundo em 2050. Ora isso tem uma parte que é boa, as pessoas vivem mais, mas também coloca várias questões, em particular a sobrecarga do sistema de saúde (há um conjunto de doenças associadas ao envelhecimento) e a falta de jovens que assegurem um sistema de segurança social sustentável. Tal situação poderia, por exemplo, originar um programa nacional de investigação científica sobre envelhecimento. São problemas que, sendo globais, têm entre nós uma grande incidência.

Não vejo que Portugal tenha uma agenda científica: os temas surgem, quando surgem, de uma forma um pouco atabalhoada. Mesmo sobre a COVID, decidiu-se financiar uns projectozinhos sobre essa doença, num programa que não parecia ter coerência.  Tudo foi feito à pressa e nem sempre bem.  Não existe qualidade à pressa. Ainda se lembram dos ventiladores portugueses que nem sequer foram certificados?  Era bom que não só dedicássemos mais meios à ciência, mas também que esses meios fossem dedicados não a coisas provisórias, como projectozinhos, mas a coisas que consolidassem e expandissem o sistema científico. Para consolidar e expandir, são precisos objectivos e metodologias, é preciso ter uma agenda científica e instrumentos para verificar o seu cumprimento. Já não temos uma visão da ciência desde o tempo de Mariano Gago, precisamos duma adaptada aos novos tempos.

Uma coisa que me faz impressão é o facto de as universidades serem financiadas pelo número de estudantes, quando boa parte das despesas das universidades tem que ver com a investigação. Por que é que não são financiadas pelos seus resultados na investigação que é o que acontece no mundo mais desenvolvido? Aqui o governo criou uma fórmula que nem sequer cumpre, o dinheiro é sempre pouco, e os reitores contentam-se com pouco dinheiro, o que é muito curioso. Os reitores fizeram, até, acordos com governos anteriores, que não passavam de acordos de serviços mínimos. O governo comprometia-se a não dar menos do pouco que já davam e os reitores aceitavam. Como quem diz, aceitamos o que nos quiserem dar.  Na prática, temos universidades de subsistência, universidades subfinanciadas. Sem ovos não se fazem omeletes.  Temos seis universidades no top 1000 no mundo, mas todas muito abaixo do que deveria ser: nenhuma delas está nos 200 primeiros lugares. Deveríamos ter no ensino superior a ambição que outros países têm. Por exemplo, a melhor universidade brasileira está mais bem classificada do que qualquer universidade portuguesa.

P- Falando agora das boas notícias. Tem-as havido nos últimos tempos na descoberta do espaço. Primeiro com as imagens do telescópio espacial James Webb e, agora, com o retorno do homem à Lua, no quadro da missão Artemis I. Como físico, encara estas notícias com grande entusiasmo?

R- Sim, com grande entusiasmo, com grande fascínio! Encaro eu e julgo que a generalidade das pessoas, porque está a ocorrer um regresso ao espaço. Era preciso um novo elã na astronomia e, agora, temos o telescópio James Webb, lançado no dia de Natal de 2021. Está tudo a correr bem, tudo conforme o previsto. Já vimos as primeiras imagens, que são mais nítidas do que as anteriores do Hubble, dando-nos informações sobre as primeiras estrelas, portanto mais notícias sobre o início do mundo. Funciona apenas com luz infravermelha. A luz infravermelha que vem de astros mais distantes, do tempo do início do Universo, atravessa melhor as poeiras do que a luz visível. Por outro lado, corpos mais frios, como os planetas, emitem principalmente luz infravermelha: é o caso da Terra. O James Webb vai transmitir-nos imagens de exoplanetas já conhecidos e vai descobrir outros. Vamos ter mais informação sobre a sua atmosfera, composição química, etc. Haverá grandes novidades da ciência, pois o telescópio ainda agora começou a funcionar. Vai haver milhares e milhares de imagens.  Os cientistas estão agora a começar a trabalhar com o James Webb e, como eu gosto de dizer, o melhor ainda está para vir.

Por outro lado, está em curso o programa Artemis, que na mitologia grega é a irmã de Apollo. O Artemis vai fazer aquilo que o Apollo já fez, agora com tecnologia mais evoluída. O foguetão mais poderoso do mundo está, agora, a ser testado. O primeiro voo será não tripulado: lembro que a Apollo I falhou em terra com um desastre que vitimou três astronautas. Depois, se tudo correr bem, em 2024, haverá um voo tripulado já à volta da Lua e, em 2025, uma alunagem. A ideia é criar uma base na Lua, Ela permitirá que as pessoas possam viver tal como vivem dentro da Estação Espacial Internacional, embora com uma gravidade melhor: na Lua é um sexto da da Terra. Os astronautas terão um veículo pressurizado que os possa transportar na Lua. Será maior do que  rovers já usados em solo lunar, antes um mini-autocarro que pode percorrer distâncias mais longas. Também está planeada uma estação espacial orbital em torno da Lua. O objectivo deste programa é preparar a primeira viagem a Marte. Ao construirmos uma base na Lua, estaremos a treinar como fazer o mesmo em Marte.  Será neste século, ainda não sabemos quando. Isso será ir mais longe, ir mais além. 

Como disse o pioneiro russo da astronáutica Konstantin Tsiolkovsky, “A humanidade teve o seu berço na Terra, mas ninguém fica eternamente no berço”. É com grande expectativa que acompanhamos as notícias futuras na área da astronáutica, que focarão a atenção do mundo neste domínio da ciência e da tecnologia, que é um dos que acende o fogo do nosso imaginário. Será bom para a cultura científica. Temos decerto muitos problemas na Terra, mas, ao contrário do que alguns dizem, não estamos a fugir dos problemas da Terra ao ir para o espaço. Estamos a mostrar a capacidade de nos unirmos com propósitos comuns. O programa Artemis não é apenas norte-americano, é canadiano, japonês e europeu. Por exemplo, em Portugal, onde o governo tem abordado o espaço, falando de uma base nos Açores, que se tornou uma enorme trapalhada, seria bom que se desenvolvesse um programa mais sólido de cooperação com a Agência Espacial Europeia. Existem questões geopolíticas. Uma das razões deste regresso à Lua, não podemos ser ingénuos, é a política, porque agora já não é tanto a questão da rivalidade dos Estados Unidos com Rússia, mas sim com a China, que tem um grande programa espacial. Tudo isto mostra que na Europa nos demos unir e, apesar de Portugal não ser um país muito rico, tem de ter uma presença mais forte na Agência Espacial Europeia. O primeiro astronauta português será para nós uma coisa simbólica, mas tal dependerá do nosso grau de participação no programa espacial europeu. Os astronautas são de um sítio ou de outro conforme o grau de investimento que é feito. Nós temos o Terreiro do Paço, em Lisboa, mas ainda não temos o Terreiro do Espaço… [risos]

P- A ideia de que qualquer pessoa, ou melhor neste momento qualquer magnata, pode pagar para fazer uma viagem ao espaço veio banalizar a ideia de termos um português, pela primeira vez, a participar numa missão espacial?

R- Bem, um português que deu um pulo no espaço e, ao fim de uns minutos, caiu, é semelhante a quem compra um bilhete na feira popular para anda na grande roda. Não fiquei nada impressionado.  O espaço tem questões económicas e é normal e desejável que os empreendimentos públicos sejam acompanhados e seguidos pelos privados. No programa Artemis, os foguetões e as naves são desenvolvidos por grandes empresas. Um dos benefícios de qualquer programa espacial é que beneficia muito da indústria já existente, a indústria que faz aviões, motores, materiais, etc. Há todo um sector industrial que é mobilizado, não vejo mal nenhum nisso, a economia é essencial para a sociedade. Os grandes programas exigem grandes meios e tem de haver grandes colaborações com os privados. Mas uma outra coisa é esse espetáculo de uma pessoa dar um pulo ao ar para dizer que é rico…  [risos].

P- Esse evento não deu um clique para se falar mais de ciência?

R- Não sei se deu para falar mais de ciência. A partir do momento em que uma coisa se banaliza, deixa de ser ciência, passa a ser uma aplicação da ciência. Por exemplo, está aqui uma lâmpada elétrica. Quando, no século XIX, no tempo do Edison, ou antes dele do Faraday, criar uma lâmpada exigia ciência. Hoje, a lâmpada é um objecto de consumo. Pode ter ciência na base (agora até já há lâmpadas LED), mas é um objecto de consumo. Com certeza que o espaço pode eventualmente ser o palco de objectos de consumo. Vou ser directo na resposta: há muita publicidade em eventos como este que nem sequer é encapotada. Querem vender-nos isto e aquilo, querem vender carros, querem vender a imagem dos fabricantes de carros, etc. Ir ao espaço é um chamariz. É preciso resistir ao engodo comercial. Muitas vezes, quando se refere a ciência por trás está-se a dar uma ideia falsa da ciência. A ciência é muito mais do que o fabrico de objectos. Se essas pessoas que gostam de dar nas vistas estivessem muito interessadas na ciência, teriam maneiras de patrocinar projectos científicos. Eu não fico muito impressionado com o turismo espacial, penso até que baralha um bocadinho as pessoas. 

Os empresários espaciais dizem coisas que não se concretizam nem rápida nem facilmente. Um deles, o Elon Musk, diz que iremos a Marte, mas é tudo vago…  Como e quando ninguém sabe. Iremos a Marte, mas, muito provavelmente, essa expedição não será organizada por uma só empresa ou mesmo por um só país. Eu não estou a ver um privado com meios para conseguir chegar ao planeta vermelho. Mas dizer isso agora fica-lhe bem. Mas ele também diz coisas que lhe ficam mal. Ele disse coisas sobre a vacina da COVID e sobre a ciência em geral que não me levam a crer que tenha uma grande cultura científica, que saiba sequer o que é a ciência, embora, naturalmente, a empresa que dirige trabalhe com base na ciência. É muito difícil separar aquilo que é publicidade do que é, de facto, algo mais substantivo.

As empresas de produtos de alta tecnologia, como no caso das vacinas de RNA, grandes empresas farmacêuticas, aproveitam naturalmente os seus produtos inovadores como meios de publicidade. As vacinas de RNA usam, de facto, ciência avançada, e foram absolutamente revolucionárias. Têm sido usadas com sucesso para a COVID e estou convencido que vão ser usadas com sucesso noutras doenças. Vai haver spinoffs. As empresas que se concentraram na COVID vão focar-se noutro tipo de doenças. Houve aqui uma aceleração tecnológica nas modificações genéticas que será usada em noutras doenças. O que se faz ali é muito simples, embora seja complicado fazer. Começa-se a receita de como se faz uma proteína do vírus, a proteína da espícula, aquilo que penetra nas nossas células, e diz-se às nossas células para fazer aquilo. Elas fabricam, de facto, uma proteína igualzinha à do vírus. Far-se-á isso com outras doenças? A ideia é fazer um treino de fortalecimento do organismo de uma forma controlada. A molécula do vírus é feita pelo nosso organismo porque o código da vida é universal. Nós partilhamos esse código com todos os outros organismos, incluindo os vírus. Portanto, estamos desde já a usar conhecimento que terá implicações muito maiores. As empresas tiram e tirarão proveito disso? Com certeza, ganham muito dinheiro e vão ganhar mais. Tal como os construtores de aviões e de naves, etc. Mas isso faz parte da vida.

Quando me dizem que vão a Marte amanhã, eu aí fico um bocadinho mais desconfiado. Assim  como com a história de que qualquer um de nós vai poder ir ao espaço, etc. Eu não tenho dinheiro suficiente, nem conto vir a ter. Os bilhetes são ainda muito caros, os bilhetes para os concertos dos Coldplay são caros, mas, apesar de tudo, mais baratos…  [risos]

P- O professor deu a sua última aula há um ano, mas tal não o impede de continuar a ser uma voz activa na ciência. Na sua última aula, disse que aquele era “o primeiro dia do resto da sua vida” [frase de Sérgio Godinho]. Que balanço faz a este seu “primeiro ano do resto da sua vida”?

R- Ah, boa pergunta, ainda não me tinham perguntado essa. Não costumo fazer balanços na minha vida. Se me sinto bem passado um ano? Bem, eu sou o mesmo. A principal diferença é que não tenho nove horas semanais na Universidade. Aliás, o meu número de horas semanais de trabalho aumentou, só deixei de dar aquelas aulas. Eu anunciei que ia fazer muitas «últimas aulas», que é o que eu tenho andado a fazer, e nenhuma delas foi ainda a última… [risos] Estou mais livre para fazer aquilo que já gostava de fazer. Neste momento, continuo a fazer investigação em História da Ciência, para a qual é preciso uma variedade de conhecimentos, ligações à cultura, etc. Dedico-me a ler e a escrever. É muito importante a ordem: não se pode escrever sem ter lido… [risos]

Vou contar algumas coisas que faço, sumariando. Tenho neste momento um programa na SIC, o talk show cultural O Original é a Cultura, que reúne uma escritora [Dulce Maria Cardoso], um musicólogo [Rui Vieira Nery] e um cientista. Apesar de dar a altas horas da noite, há a registar uma voz da ciência no seio da cultura. Tenho um podcast na Rádio Observador que é semanal intitulado Ciência Pop, que está nas plataformas de podcasts e tem tido muito bem acolhimento. Por vezes respondo a questões de ouvintes, o que é muito curioso. É uma nova maneira de chegar ao público. Mas também uso antigas modalidades de comunicação, como a imprensa. Estou a publicar todos os domingos num dos jornais que mais vende em Portugal, o Correio da Manhã. Tenho andado por vários sítios do interior do país, e é o jornal que mais encontro nos cafés. Escrevo uma coisa pequenina, são só três parágrafos, mas encontrei outro dia uma professora que me disse que dava a ler os meus textos aos seus alunos porque eles só leem coisas pequeninas. [risos].

Tenho, também, no JL (Jornal de Letras) uma presença mensal, um artigo mais cultural no sentido tradicional do termo. Colabora ainda mensalmente nutra revista cultural, esta do Norte, As Artes Entre As Letras. E trabalho com a Gradiva, a minha editora, na edição de livros. Herdei a colecção «Ciência Aberta» desse grande editor que é o Guilherme Valente. Tenho ajudado autores a fazer obras, revendo traduções, escrevendo prefácios e recensões.  Faço tudo isso no meu dia-a-dia. Os livros são objectos pelos quais tenho grande paixão. Este ano fui três vezes à Feira do Livro de Lisboa e uma à do Porto. O resto do meu tempo tem que ver com convites para presença real, em câmaras municipais, escolas, bibliotecas, etc. Ainda ontem na feira do livro, em Lisboa, o Professor Marcelo Rebelo de Sousa me perguntou: “Então o que é que faz agora?”. E eu disse, “Agora vou muito a sítios onde me chamam, câmaras, escolas, etc.” E ele disse “É isso mesmo! É isso que eu quero fazer depois!”. Eu acho que ele estava a ser genuíno, embora houvesse uma câmara perto. Acho que é o que vai fazer quando se reformar da política.

Eu gosto, sempre que posso, de corresponder a este tipo de solicitações. Ontem, na mesma Feira do Livro, apresentei um livro ilustrado de ficção científica para crianças e jovens ["Azul do meu coração", de Isabel Bravo e Danuta Wojciechowska]. Eu gosto de misturar ciência com arte. Também tenho misturado ciência com música, tenho feito concertos com base em ciência. Faço parte do Conselho Cultural da Orquestra Clássica do Centro, aqui em Coimbra, e já comentei vários concertos onde meto sempre uma pitada de ciência. Fiz no ano passado concertos ao ar livre, como nas ruínas de Conímbriga, nas Buracas do Casmilo, em Condeixa, etc. São meios inovadores de juntar a ciência à arte, que eu aprecio e espero que o público também aprecie. Ainda agora um jovem dramaturgo e actor, que não conhecia de lado nenhum, me pediu ajuda para um projecto. Está a escrever uma peça que vai referir o aquecimento global e está em contacto comigo. 

Enfim, tenho o tempo todo preenchido. Se houver propostas interessantes, poderei fazer mais coisas. Tenho participado em programas de humor. Tenho dado cursos a pessoas seniores, isto é, da minha idade ou mais velhas. Tenho colaborado com a Fundação Francisco Manuel dos Santos: eu e o David Marçal preparámos um programa para o Mês da Ciência e da Educação que vai aparecerem Outubro. Hoje de manhã, antes de vir para aqui, estive a editar um texto que sobre as mulheres na Química que vai sair na «Ciência Aberta» da Gradiva.

 Uma das coisas apaixonantes da vida é que nunca sei as coisas que podem surgir amanhã. Enquanto estiver vivo e de saúde, ajudarei inserindo a ciência na cultura.  Tenho muitos livros para ler, que estão longe de ser só de ciência. Leio muita ficção e poesia, par além do ensaio. Tento fazer uma mistura sábia das «duas culturas» que deviam ser só uma.

P-Apesar das adversidades, mantém o seu optimismo e a esperança na ciência e no futuro?

R- Sim.  Os cientistas são, por natureza, optimistas. Se uma pessoa não for optimista, não sei como poderá viver... [risos] Os cientistas estão cientes de que vão saber mais no dia seguinte. E vão mesmo! Porque o conhecimento não se perde, o conhecimento acrescenta-se. E vai ficar maior e melhor. Amanhã vamos saber mais do que hoje, o que é uma boa razão para viver. Há novos instrumentos, como o telescópio espacial ou a missão Artemis, que ajudam a acrescentar conhecimento. Eu sei que o tempo de vida dos humanos é limitado, mas o tempo de vida da humanidade, tenho esperança que não seja. Não está garantido que seja, mas oxalá seja. Existem grandes desafios, como o das alterações climáticas, mas estou convencido que valerá a pena viver o dia de amanhã.

Gosto muito de seguir a actualidade, de ser surpreendido pela actualidade. Por vezes há notícias tristes.  Hoje, por exemplo, quando acordei, li que “o escritor espanhol Javier Marías já não está connosco”. Mas estão os livros dele! E há escritores a escrever que leram os livros dele. E há leitores que os lêem e que também leram os livros dele. E, portanto, tenho razões para ser optimista. Eu disse, na minha última aula, que “o melhor ainda está para vir”. Não faltou quem comentasse: “coitado, este fulano está caquético, já diz coisas sem sentido”. Mas usei a palavra “melhor” no sentido de ver e fazer coisas que ainda não visto ou feito, e que se acrescentarão às que vi e fiz. E, nesse sentido, o melhor ainda está para vir. Espero o melhor do futuro. Haverá surpresas, más e boas, e a minha atitude será de valorizar as boas. Estar aberto ao futuro é o sentido da vida. É isso que nos faz viver.

A História do Universo, A Nossa Visão Actual e Como Chegámos a Ela.


Meu artigo no mais recente As Artes entre as Letras:

Acaba de sair na colecção de Ciência das Edições 70, pertencente ao grupo Almedina, o livro A História do Universo, A Nossa Visão Actual e Como Chegámos a Ela. Saúda-se o aparecimento de mais um título, de autor português, que visa divulgar a astrofísica. Junta-se a outros dois, muito recentes: Universo. Do Big Bang aos Buracos Negros, de Paulo Crawford, saído na colecção de Ensaios da Fundação Francisco Manuel dos Santos, e Qual é o Nosso Lugar no Universo?, de David Sobral, saído na Planeta. Existindo uma pujante comunidade de astrofísicos em Portugal, em boa parte reunida no Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço (IA), com pólos no Porto e em Lisboa, é bom ver o interesse de alguns dos seus membros pela difusão da cultura científica, para a qual os temas cósmicos se adequam particularmente.

Carlos Martins, doutorado em Física Teórica pela Universidade de Cambridge (1997), é investigador do Centro de Astrofísica da Universidade do Porto, parte do IA, coordenando a sua unidade de formação. Possui um vasto currículo não só científico como pedagógico e de divulgação. Tem dinamizado em Paredes de Coura um Campo de Verão para jovens interessados em astrofísica, para além de ter ensinado astronomia a estudantes de várias licenciaturas e de ter organizado vários cursos para estudantes e professores do ensino secundário. O novo livro, que não é muito técnico (embora contenha algumas fórmulas), tem por base precisamente os materiais pedagógicos que usou nessas iniciativas. O livro é a tradução em português da obra The Universo Today, publicado em 2020 pela editora internacional Springer.

Mais do que a História do Universo, que obviamente também trata, o livro de Carlos Martins é essencialmente uma história da nossa descoberta do Universo Dos oito capítulos do livro, os primeiros cinco tratam da história da astronomia e astrofísica, começando com o alvorecer da astronomia no tempo dos Egípcios e dos Babilónios, passando pelas visões dos céus grega e medieval, e espraiando-se muito naturalmente na Revolução Científica, nos séculos XVI e XVII, na qual foi crucial o estudo dos movimentos dos astros, feito por grandes nomes da física como Nicolau Copérnico, Tycho Brahe, Johannes Kepler, Galileu Galilei e Isaac Newton, e avançando para as teorias da relatividade, restrita e geral, de Albert Einstein, que é um dos pilares da Física Moderna que emergiu no início do século XX. Depois, o autor sumaria em dois capítulos os nossos conhecimentos sobre o nascimento, vida e morte das estrelas, que têm por base tanto as teorias da relatividade como a teoria quântica, e a cosmologia, expondo o modelo do Big Bang e os desafios que se oferecem hoje com as propostas de matéria escura e de energia escura. No último capítulo, «Novas Fronteiras», que é o mais difícil de seguir pelo leitor comum, o autor apresenta temas de alguns dos seus trabalhos de investigação: ele tem-se servido de observações astrofísicas como meios para sondar questões de física fundamental, como a eventual existência de uma teoria de grande unificação para a qual sejam precisas mais do que as habituais quatro dimensões (três de espaço e uma de tempo) e de variações das constantes fundamentais da Física. Mesmo no fim o leitor encontra uma interessante discussão da possibilidade de vida em exoplanetas, com referências a livros de ficção científica. Completam o livro um anexo intitulado «Exame Final» (este título denota a origem académica do livro), onde o leitor poderá verificar os conhecimentos de astrofísica, e uma bibliografia, que, sendo bastante completa, não explicita as obras que estão traduzidas em português, algumas delas como de Richard Feynman, Heinz Pagels, Carl Sagan e Steven Weinberg, na colecção «Ciência Aberta» da Gradiva.

Livros como este fazem falta na cultura nacional. Por um lado, ajudam a fixar na nossa língua termos científicos que na maioria das vezes tem origem anglo-saxónica e por outro lado porque o autor não pôde deixar de emitir as suas próprias opiniões sobre a ciência e o ensino das ciências entre nós. Por exemplo (na p. 49): «Se queremos triplicar ou quadruplicar o nível de literacia científica num país como Portugal, eu sei como fazê-lo: basta tornar obrigatório, para todos os que fazem cursos universitários, algumas cadeiras científicas à sua escolha». Martins está a propor a existência de disciplinas para um espectro amplo de estudantes como a de «Astronomia para Poetas» que há nem universidades norte-americanas.

Os astros sempre suscitaram sentidos poéticos. Martins cita – e muito bem – a este propósito o físico Richard Feynman (na p. 251); «Os poetas dizem que a ciência tira a beleza às estrelas, meros globos de átomos de gás. Eu também posso ver as estrelas uma noite no deserto e senti-las. Mas eu vejo menos ou mais?» Concordo, tal como certamente o autor, com Feynman: a ciência acrescenta ao encantamento em vez de o diminuir ou retirar. Os físicos não deixam de se maravilhar com o brilho das estrelas, pelo facto de saberem por que razão elas estão acesas. E é maravilhoso saberem que alguns dos átomos – os mais pesados - de que são feitos tiveram origem em estrelas que explodiram, espalhando o seu material pelo cosmos.

Os astros também suscitam sentidos metafísicos. Qual é a sua origem última? Embora tenha algumas questões em aberto, o modelo do Big Bang, que parte de uma grande «explosão», não tem hoje alternativa. E o que existia antes do Big Bang? É uma boa pergunta, para a qual não temos uma boa resposta. Carlos Martins (na p. 284) diz que é o «nada». Eu não seria tão categórico, diria apenas que não sabemos. Pode ser até que nunca o venhamos a saber por ser impossível saber. Mas os cientistas porfiam na sua busca do saber…

Só posso recomendar este livro, bem produzido pela Edições 70, com uma capa  chamativa em tons de azul e negro (é usada uma gravura de um dos livros do astrónomo e prolífico escritor Camille Flammarion, que foi um incansável  divulgador francês dos séculos XIX e XX), com bom papel (que torna a leitura fácil ao longo das 372 páginas) e com texto bem revisto (encontrei muito poucas gralhas). Boa leitura!

EM BUSCA DO PASSADO PERDIDO

Com palavras, reconstruo o passado,
devagarinho, com muito cuidado:
o passado é muito delicado,
convém não feri-lo demasiado.

Reconstruo-o, bocado a bocado,
como quem busca, nele, um recado.
Material ali arrecadado
chega-me hoje, bem iluminado.

No passado, esconde-se, velado,
um segredo nunca bem desvelado:
durante anos, por mim procurado,

o sentido dele sempre ocultado,
quero agora tê-lo desflorado,
nesse passado sempre rebuscado!

Eugénio Lisboa

terça-feira, 20 de setembro de 2022

Os "Objetivos de Desenvolvimento Sustentável" continuam a marcar a agenda educativa em todo o mundo

Por Cátia Delgado

Terminou ontem a Transformating Education Summit, da ONU, em Nova Iorque, uma conferência que convocou os líderes mundiais e jovens para debater possíveis respostas à crise atual no domínio da educação. 


Considera-se que esta crise está a ter um “efeito devastador no futuro de crianças e jovens de todo o mundo”, apelando-se ao envolvimento de todos para a sua mitigação. A partir dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, definidos por este organismo, em 2015, foram constituídos agora 5 temas de ação, a saber:
- Escolas inclusivas, equitativas e saudáveis;
- Aprendizagem e competências para a vida, trabalho e desenvolvimento sustentável;
- Professores, ensino e a profissão docente;
- Aprendizagem e transformação digital;
- Financiamento da educação.
Como tem sido apanágio da ONU, a primazia discursiva foi dada aos jovens, com destaque para Malala Yousafzai, Prémio Nobel da Paz e Mensageira da Paz da ONU: 
“Se levam a sério a criação de um futuro seguro e sustentável para as crianças, então levem a sério a educação.”
Também o Secretário-Geral da ONU, António Guterres, se expressou no mesmo sentido:
“Sem educação, onde estaria eu?” 
E prosseguiu, desta vez, colocando a tónica na urgência de mudança
“Mas também sabemos que precisamos de transformar a educação, porque a educação está numa profunda crise. Em vez de ser um grande facilitador, está a tornar-se, rapidamente, num grande limitador.”
No que diz respeito aos professores, como vem sendo hábito das grandes organizações mundiais, que desconhecem o verdadeiro trabalho levado a cabo por estes profissionais, começa por valorizá-los, mas depressa subverte o seu papel, descredibilizando-os:
“Os professores são o sangue vital dos sistemas de educação.”
MAS...
precisam de ser facilitadores na sala de aula, promovendo a aprendizagem em vez de meramente transmitirem respostas. / Devem ajudar os estudantes a adaptar-se a um mundo de trabalho em rápida mudança.”
Além destas contrariedades, não posso, também, deixar de notar uma sensação de vazio em todos estes discursos. Possivelmente por verificar que, na realidade escolar, a inclusão faz-se pela distribuição de computadores a todos (resume-se a isto?); o foco nas aprendizagens para a vida desvirtua a formação humanista dos indivíduos, tão necessária numa sociedade tendencialmente parca de valores; a valorização dos professores fica, essencialmente, pelas palavras, bastando olhar para a crise global de falta de interessados em seguir a profissão; a transformação digital das escolas contribui para o desacelerar da aprendizagem dos conteúdos e conhecimentos basilares, comprometendo, de forma evidente, a continuação de um legado cultural e científico que tantos anos demorou a construir e o futuro das sociedades; finalmente, o apelo ao financiamento vem entregar, ainda mais, a educação nas mãos dos que dominam o mercado, pelo que, sendo o mercado de tal modo assimétrico, a educação jamais será equitativa.

A DITADURA DE COIMBRA

Por Jorge Paiva

[Texto em ligação a outro anterior e antes publicado no Diário de Coimbra e  n` As Beiras de dia 22 de Setembro]




Em Coimbra está instituído um regime ditatorial desde que existe a Metro Mondego, agora MetroBus. O primeiro grande disparate que fizeram foi terem destruído a linha férrea Serpins-Coimbra. Foi um disparate, pois era para a substituírem por uma via férrea de Metro de superfície. A Metro Mondego, na sua megalomania, não teve o cuidado de esperar pela atribuição de verbas para tal empreendimento e, com a pressa, derrubaram dezenas de plátanos da Avenida Emídio Navarro para a passagem do dito Metro. Agora alteraram o projecto para autocarros, a MetroBus. 

Conheço Metros de superfície, dois até em Portugal (Almada e Porto), todos em via férrea. Ao que em Coimbra estão a chamar Metro, não é Metro nenhum. Designam-no assim para camuflarem toda a incompetência e disparates que fizeram. Estão a aproveitar grande parte da via que era destinada para a via férrea do Metro, mas tiveram que efetuar algumas alterações, por isso resolveram derrubar, agora, mais uns monumentais plátanos.

Quando me solicitaram estar presente nas manifestações e reuniões na tentativa de salvar estes últimos plátanos, neguei-me e disse aos que me deram a honra de convidar que não ia, pois a MetroBus é ditatorial e nada do que tinham decidido fazer seria alterado, estivesse a população, a Câmara e até o Governo contra.

Na realidade, a Autarquia não tem qualquer autoridade. Infelizmente, em Coimbra estamos sujeitos à autoridade (ditadura) de cidadãos que não foram eleitos pelos munícipes e que até, creio, estão na MetroBus por nomeação e não por concurso público. Com este regime ditatorial, se eu fosse autarca de Coimbra, demitia-me. Mas, como munícipe que sou, nunca mais vou votar nas futuras eleições autárquicas, pois numa ditadura, as eleições servem apenas para camuflagem, porque os ditadores são sempre os mesmos. 

Para finalizar, esclareço que os plátanos são árvores de folhagem caduca (como devem ser as árvores das artérias urbanas de Portugal, particularmente no Norte), mas que no Inverno continuam a ser sequestradores de carbono e fábricas naturais de oxigénio, pois o ritidoma (vulgo casca) do tronco e ramos é verde. Assim, a contribuição anual purificadora e climática das dezenas de volumosos plátanos que a MetroBus derrubou é muito superior à dos Bus eléctricos, que até são mais poluidores do que um Metro em via férrea. 
 
Jorge Paiva
Um munícipe desiludido
Coimbra. Setembro 2022

OS ROMANCES SÃO ESCRITOS PARA SEREM LIDOS

Por Eugénio Lisboa
Os que escrevem com clareza têm leitores,
os que escrevem obscuramente têm comentadores.
Albert Camus

Os romances começaram por ser histórias para serem contadas oralmente a uma grande variedade de pessoas que gostavam de as ouvir e, para isso, não precisavam de conhecimentos especiais.

Depois, foi evoluindo por aí fora e apareceram duas grandes categorias de romancistas: aqueles que, não confundindo complexidade com complicação, escreviam os seus romances para serem lidos pelo maior número de pessoas possível (Dickens, Charlotte Bronte, Dostoiewsky, Tolstoi, Tcheckov, Balzac, Camilo, Eça, Conrad, Colette, Stendhal, etc.); e aqueles que escreviam os seus romances, para serem sobretudo “comentados” ou “estudados” nas universidades, uma das muitas formas de fazer ou ajudar a fazer curriculum (Joyce e seus discípulos).

Quando os docentes universitários começaram a tomar de assalto a grande imprensa não académica, para se tornarem os críticos sistemáticos com tribuna regular, e, depois, se tornaram também poetas e ficcionistas, armados até aos dentes com as teorias cada vez mais abundantes, ao seu dispor, teorias muitas vezes mal digeridas mas usadas como artilharia terrorista, o universo da ficção começou a perverter-se. Muitos não escreviam para serem lidos, mas para serem “vistos”, citados e comentados.  

Um romance tornava-se uma alínea pimpona do CV. O novo Joycinho olhava com desprezo o simplório que contava histórias (Simenon, por exemplo, que foi um dos maiores génios do século XX, sem que isso o tornasse universitável). O romancista, para poder decentemente exercer a sua profissão e ser levado a sério, tinha de obter carta de alforria da Ordem dos Romancistas, afecta à Universidade. Ajudava muito à obtenção desta carta, se o candidato juntasse uma declaração, com assinatura reconhecida pelo notário, de que não achava necessário que o romance contasse uma história.

Esta necessidade de carteira profissional e de bênção universitária começou a aterrar alguns notáveis romancistas, como Carlos de Oliveira, que confessou ao seu amigo Alexandre Pinheiro Torres ter escrito o ilegível FINISTERRA, porque andava com medo de não ser levado a sério pela crítica universitária (que era mais “científica” do que a outra).

Começaram então a aparecer os Joycinhos lusíadas, que eram tão maus romancistas como o Joyce original, mas escreviam um português muito inferior ao inglês do autor de ULISSES. Grandes escritores, que eram também notabilíssimos espíritos críticos, como Jorge Luís Borges; George Bernard Shaw ou Virginia Woolf, não mediram as palavras, a demolir o irlandês catapultado aos cornos da Lua, nas universidades, que sempre gostaram mais de “comentar” do que de verdadeiramente “ler”.

Os Joycinhos escrevem uns para os outros, os romancistas propriamente ditos escrevem para serem lidos por todo o amante de leitura. Livros como os que Joyce escreveu, com excepção da colectânea de contos, DUBLINERS, são mais do domínio da patologia literária do que da literatura. Escrevem-se romances que estão muito mais preocupados com o “fazer romance” do que com “ser romance”. Não tem mal, pelo contrário, o romance mostrar curiosidade pelo “fazer”, desde que se não esqueça de o “ser”. Um Joyce com talento de romancista, seria oiro sobre azul. Mas Joyce sem romance dentro dá para ser “estudado” mas é intragável para ser lido. Mas só há uma coisa pior do que ser Joyce: é ser discípulo de Joyce. 

Eugénio Lisboa

Que sei eu do teu sorriso, Do teu sorriso tão sincero?! Que sei eu do que quero, Do que quero e preciso?! Com desespero, queria Qu...