sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

AS COMPREENSÍVEIS DIFICULDADES NA ESCOLA

Foram recentemente publicados os resultados da mais recente edição do estudo 
Health Behaviour in School-aged Children, realizado pela Organização Mundial da Saúde. Como o título indica, trata-se de um estudo que visa caracterizar a saúde e os comportamentos de crianças e adolescentes (em idade escolar). Teve início em 1983, com cinco países, a recolha de dados faz-se de quatro em quatro anos e, no momento, é o maior estudo sobre o assunto. Neste ano incluiu 51 países da Europa e da América do Norte.  

Os dados relativos a Portugal tiveram destaque na comunicação e sob diversas perspectivas. Limito-me a deixar um apontamento sobre uma delas: a relação com a escola

Para tal, recupero a iconografia de Sofia Miguel Rosa, integrada numa notícia do jornal Expresso assinada por Isabel Leiria e Joana Pereira Bastos com o título Mais infelizes e nervosos (aqui), 

Para se perceberem os dados reproduzidos ao lado, vale a pena ler um artigo e/ou um livro de que falei aqui. O autor explica porque é que os alunos, em geral, não gostam da escola.

A razão é simples: o nosso cérebro não está feito para pensar. Aquilo a que chamamos pensamento, específico do humano, é uma conquista da humanidade que só a Educação pode assegurar. Aprender é um processo difícil, requer esforço, ainda que ele deva ser orientado, doseado, estimulado... A felicidade de aprender chegará em algum momento mas não é dada à partida, nem é constante.

9 comentários:

Carlos Ricardo Soares disse...

Vamos tentar agitar os elementos o menos possível para que não acabe tudo numa solução, em sentido químico.
O nosso cérebro não foi feito para pensar? Alguma coisa foi feita para pensar? Tudo, na vida, foi feito para sobreviver, mas não para pensar? Pensar começou por ser um acidente? Um acidente a evitar? Que não foi possível evitar, ao ponto de se ter tornado o melhor instrumento, meio, forma, recurso, para sobreviver? Quantas coisas fazemos sem pensar? Aparentemente são muitas, mas não será apenas aparentemente, porque há inúmeras rotinas em que o “acto de pensar” está automatizado, sem necessidade de passar por um controlo?
Pensar está na natureza humana como algo, função, faculdade, que tem poderosas armadilhas, ao ponto de, verdadeiramente, pensar poder ser detectar isso e detectá-las passo a passo, mas sobretudo reconhecer e identificar armadilhas que aparecem camufladas e confundidas com pseudoarmadilhas, ou armadilhas irrelevantes, tipo sexo dos anjos, que não deixam de ser cruciais numa estratégia bélica, de defesa ou de ataque, porque muitas vezes a arte dos engodos é a supina arte da guerra. Ora, cá está um exercício de pensamento doloroso e cansativo, e é inevitável que o seja porque pensar, verdadeiramente, é como remar contra a corrente.
É caso para perguntar “se assim é, como é que ainda há quem pense?”. A resposta será, naturalmente, porque nem todos se deixaram levar na corrente. Caso contrário, já ninguém pensaria. O perigo é esse: que nos vençam pelo cansaço e nos impeçam de desovar.
Uma das armadilhas do pensamento pode ser “julgar que se ganha em se perder”, “para quê lutar se a vida não se vence?”.
De qualquer modo, pensar positivo não cansa menos do que pensar negativo, até porque, muitas vezes, pensar positivo, ou negativo, é a maior ilusão que se pode ter acerca do próprio pensamento. É óbvio que quem não pensa é como se não existisse? Isso pode ser temporariamente bom, mas definitivamente?
A educação esbarra contra um obstáculo que não se compadece com sistemas de racionalidade económica de feição “piquete de intervenção”, formação intensiva, porque ela deve, sobretudo, preservar a liberdade e a dignidade da pessoa, promovendo a sua autonomia de pensamento, ou seja, tem como desiderato o bem-estar e a realização pessoal do educando, salvaguardando-o das tentativas, mais ou menos sucedidas, de o instrumentalizarem para fins, por exemplo, militares, e ensinando-lhe que, se pensar bem, o mais provável é que venha a revolucionar as teorias, mas pouco ou nada possa fazer para escapar às práticas.
Desnecessário isto, porém, porque, se pensar bem, o educando, possivelmente, não pensará assim.

Alberto disse...

Segundo a OCDE, o ministro da educação e seus prosélitos, se os professores e educadores de infância, abrindo mão da sua autonomia científica e pedagógica, se submeterem, como um rebanho de carneiros, ao regime do Ensino por Standards, a última grande “inovação” em matéria educacional, os portões das escolas transfigurar-se-ão em portões celestes, abertos de par em par a todos os cidadãos obrigados, por lei, a serem felizes. Por outras palavras, a desqualificação profissional e científica dos professores, com a concomitante destruição da escola pública, suportadas por uma narrativa de alucinados, prosseguem em ritmo acelerado.
A opinião pública e os jornalistas praticamente não reagem à calamidade que se está a passar na educação, em parte porque têm vergonha de assumir que não entendem a linguagem absurda dos especialistas em educação que, na sombra do poder, raramente dando a cara, escavacaram isto tudo.
Ensino por Standards!!! Até onde é que isto vai!...

Helena Damião disse...

Prezado Leitor Carlos Ricardo Soares, o que o mencionado autor quer dizer é o que pensar, na acepção mais elaborada da palavra, decorre da educação. Não havendo educação não há pensamento, digno desse nome, no sentido de elaboração de ideias.
Cordialmente, MHD

Helena Damião disse...

Prezado Leitor Alberto, é uma realidade que os mais diversos sectores da sociedade não reagem à "transformação" da educação escolar e, pelo contrário, deles emergem sinais de concordância e de apoio. Noto que a "aprendizagem por standars não advém da Educação, advém da Economia (aplicada à Educação). A linguagem absurda é, lamentavelmente, partilhada pela generalidade daqueles que se imiscuem na Educação.
Cordialmente, MHD

Anónimo disse...

Conclusão: Deixem de dar matéria e não avaliem. De qualquer forma, passam todos.

Anónimo disse...

Há tantos anos que oiço e leio inteligências discursivas que não têm qualquer impacto nos destinos e nas decisões da educação. São apenas exercícios de retórica académica.

Helena Damião disse...

Prezado Leitor Anónimo, do que acima disse, não pode ser tirada a conclusão que enuncia. Cordialmente, MHD

Anónimo disse...

O professor do 1.º CEB leciona 12 disciplinas (Português, Matemática, Estudo do Meio, Artes Visuais, Teatro, Música, Dança, Educação Física, Apoio ao Estudo, Cidadania e Desenvolvimento, TIC, Oferta Complementar). Diz a lei que os instrumentos de avaliação devem ser diversificados, logo há agrupamentos que exigem, pelo menos, 2/3 instrumentos, por disciplina.
Conclusão, 12 disciplinas a multiplicar por 2 instrumentos, são 24 grelhas avaliativas para preencher. Como a avaliação passou a ser por domínios, verifica-se:
Português - 5 domínios
Matemática - 4 domínios/temas
Estudo do Meio - 3 domínios
Logo, uma ficha sumativa a estas três disciplinas são 12 grelhas a juntar ao número de cima e depois há a grelha global onde os resultados destas são vertidos para serem transformados na nota final do aluno. Por semestre, são quase 40 grelhas para preencher.
E isto para avaliar o currículo das aprendizagens essenciais, bem magrinho e espremido ao fundo das inúmeras atividades de entidades exteriores que nos entopem todos os dias e às quais os professores se agarram como se não houvesse amanhã para poderem ter excelente nos desempates das quotas porque há que ter impacto na dinamização da escola. A cabeça dos meninos parece um ventoinha ligada, não há parança, nem consolidação. Depois há os Projetos Curriculares de Escola (PCE que ancoram no Plano Nacional das Artes,); o programa eco- escolas com uma inacreditável burocracia; o Ubuntu que "eu sou porque és tu"; os projetos de saúde escolar; as datas comemorativas; as festas; as infindáveis reuniões semanais; a formação obrigatória e não obrigatória (esta última considerada para desempate, sem limite à vista...).
Claro que a seguir, há atestados médicos e greves - recuperação de horas extraordinárias pagando do próprio bolso. E ainda querem que os Diretores façam contratações diretas...
Coitados dos felinos como eu, de língua velha e áspera...

Alberto disse...

Ex.mo senhor professor do 1.º ciclo do ensino básico,
Eu, professor do ensino secundário, formado na universidade para lecionar só uma disciplina, tiro-lhe o meu chapéu, porque deduzo das suas palavras que V.Ex.a cumpre todos os requisitos legais quando preenche essa catrefada de grelhas para disciplinas tão exigentes, em termos de ensino/ aprendizagem, como são as suas.
As más línguas, aqui, no secundário, dizem que, ninguém, com o juízo perfeito, é capaz de preencher tanta grelha com rigor, honestidade e equidade; dizem que essas grelhas são uma tralha que não melhoram as aprendizagens essenciais dos alunos, reconhecendo, contudo, que, empilhadas umas nas outras, transformam-se numa autoestrada que conduz ao céu - o sucesso educativo para todos.
Quanto à filosofia ubuntu, que também por cá cultivamos com muito prazer, preferimos a fórmula "eu sou porque tu és".

"Nós, professores, já não lemos. Nem sequer estudamos."

O artigo que aqui traduzimos, assinado por Diego Garrocho, não traz nada de novo, mas o que traz é importante, fundamental, precisa de ser r...