Entrevista a Alexandra Nobre (Professora Auxiliar do Departamento deBiologia da Universidade do Minho), tradutora e revisora científica da edição portuguesa de "A Espiral da Vida - As Dez Mais NotáveisInvenções da Evolução", livro premiado do Bioquímico Nick Lane, publicado agora em Julho na Colecção "Ciência Aberta" da Editora Gradiva.
Alexandra Nobre
António Piedade - O livro surpreendeu-a? De que forma?
Alexandra Nobre - Paradoxalmente,
sim e não. Sim, porque o livro é uma surpresa a cada esquina, que é como quem
diz, a cada virar de página. Não, porque já tinha tido acesso ao “Power, Sex, Suicide:
Mitochondria and the Meaning of Life” do mesmo autor, editado há uns anos e, se
bem que os livros não se repitam, há algumas temáticas que se imiscuem (aliás,
em “Life Ascending” Nick Lane remete para este por diversas vezes) e um estilo comum
muito próprio de nos prender.
António Piedade - Este livro mudou algo na forma como olha agora para a
evolução da vida no Universo?
Alexandra Nobre - Inevitável
e irremediavelmente. Ao longo destes meses, por diversas vezes me questionei se
eu elencaria estas dez invenções como as mais notáveis da evolução. “...Começamos com a origem
da vida em si e terminamos com a nossa própria morte e procura de imortalidade,
passando por pontos altos como o ADN, a fotossíntese, as células complexas, o
sexo, o movimento, a visão, o sangue quente e a consciência...” Se bem que algumas me pareçam incontornáveis como o ADN,
a fotossíntese e o sexo, outras como o sangue quente, a visão ou mesmo o
movimento, à partida já não me parecem tão óbvias e consensuais. É natural que assim
seja. Aliás, Nick Lane teve conselhos noutros sentidos. Por exemplo, refere “No início discuti esta
lista com um amigo que me propôs o tubo digestivo como emblemático nos animais
em substituição do movimento”. Mas Nick Lane, logo na introdução refere
os quatro critérios que o levaram a seleccionar estas dez invenções, e legitima
deste modo a sua escolha.
Inevitável e irremediavelmente, dizia eu.
Mas não de modo fixo e para todo o sempre. A cada dia somos confrontados com
novas “evidências”, que põem em causa verdades ainda na véspera consideradas
inabaláveis. Haja curiosidade e “Curiosity” e a história da evolução da vida no
Universo não terá um ponto final, e muito menos um ponto final parágrafo.
António Piedade - Quais as dificuldades que encontrou na tradução?
Alexandra Nobre -
Por um lado, as comparações
constantes ao longo do texto que tornam claros, mesmo para leigos no assunto,
intrincados mecanismos bioquímicos e/ou fisiológicos, não me tornaram a vida
nada fácil. Por outro, o estilo de Nick Lane, muito metafórico, rico em
imagens/ figuras de estilo, pejado de duplos e de triplos sentidos que dão todo
um colorido e lufada de ar fresco à escrita, também foram, por vezes, nós
difíceis de desatar. Mas o osso mesmo duro de roer, o que me deixou por vezes
uma mulher à beira de um ataque de nervos, foi sem dúvida arranjar paralelo
para algumas expressões idiomáticas ou mesmo provérbios com que tropecei
frequentemente. Tentei sempre manter o cariz humorístico, irónico e mesmo sarcástico
de Nick Lane e ser o mais fiel possível ao fluir do raciocínio e das ideias.
Não sei se consegui. E em simultâneo, acumulei também as funções de revisão
técnica e científica. Eram muitas “antenas” sintonizadas ao mesmo tempo...
António Piedade - Quais são os aspectos mais conseguidos e menos
conseguidos, na sua perspectiva, pelo Nick Lane, ao abordar as 10
"invenções da evolução"?
Alexandra Nobre - O
mais conseguido foi o modo como a história foi sendo desenrolada, capítulo a
capítulo, numa lógica coerente, com uma linguagem rica, ora mais poética, ora
mais brejeira, de forma clara, agradável e com uns laivos de romance policial à
mistura, que nos deixavam expectantes e mesmo em suspense, de um parágrafo para
o outro. Também me agradou que, sem prejuízo desta lógica, cada capítulo se
bastasse e si próprio e fizesse sentido só por si. Quero com isto dizer que, na
minha óptica, podemos encarar cada um dos capítulos como um “mini-livro
independente” e escolher a ordem por que os lemos, sem desvirtuar o sentido de
toda a obra.
A meu ver, menos conseguido talvez seja o
modo como, em todos os capítulos, mais nuns do que noutros, a dada altura começamos
a andar em círculos e a repetir as mesmas ideias por outras palavras. É como se
Nick Lane nos quisesse ajudar a mastigar muito bem todos os ingredientes que
vai apresentando. E às tantas, é também como se já os tivéssemos engolido e fossemos
obrigados a regurgitar novamente para mais uma “mastigadela”.
António Piedade - Pode contar-nos como experienciou, do ponto de vista racional e emocional, a tradução do livro?
Alexandra Nobre - O
que é que posso dizer? Que foi uma tarefa ciclópica porque: nunca tinha feito
nada de minimamente semelhante; o livro é, literalmente, de peso; tive que me
multiplicar (ou dividir, sei lá...) em diversas tarefas e a responsabilidade me
pesava nos ombros a cada segundo. Mas também que, não obstante tudo isto, voltava
a aceitar a empreitada.
Neste momento ainda
estou demasiado envolvida em todo este processo para poder responder de modo
racional e isento de emoções. Quer fazer-me esta pergunta novamente daqui a uns
tempos, António?




