Declarações que prestei há poucos dias à Lusa:P-
Gostaria de ter a sua opinião sobre o protagonismo de Coimbra, se a cidade o está recuperar ou não, e em função essencialmente de que factores (novas tenologias, poder político, etc.).
R- Fiz um
top-ten pessoal sobre a ciência e tecnologia em Coimbra (a ordem não interessa):
1- Instituto Pedro Nunes, premiada como a melhor incubadora do mundo.
2- Empresas
spin-off da universidade sediadas em Coimbra (
Critical Software,
ISA, etc).
3- Um dos maiores
supercomputadores portugueses: o "
Milipeia".
4- O Centro de
Neurociências, que foi o primeiro Laboratório Associado no país.
5- O Museu da Ciência da Universidade, que já ganhou prémio europeu e tem agora a 2ª fase no Colégio de Jesus em bom andamento.
6- O
BioCant, em Cantanhede, o parque de
biotecnologia do país.
7- O Instituto de Medicina Legal e o Centro
Internacional de Matemática, instituições nacionais com sede em Coimbra.
8- A oferta em novos meios de
imagiologia médica (
PET, etc.)
9- O serviço de cirurgia
cardiotorácica dos
HUC.
10- Os serviços de
oftalmologia e relacionados (
HUC,
IBILI, etc.)
Podia também dar exemplos fora da ciência embora com ela relacionados (as Bibliotecas da Universidade, no seu conjunto talvez a maior biblioteca do país, acrescida agora dos novos repositórios digitais, o crescimento do turismo na Joanina, agora com a abertura de novos espaços, tomados pela exposição da Royal Society, a entrada da Universidade no
ITunes, o Mosteiro e o Museu de Santa Clara a Velha, recuperado das águas, o Museu Nacional Machado de Castro, renovado e em breve a abrir, etc.) Coimbra, do ponto de vista da Universidade está pujante, e a eleição do Reitor em breve será em breve um momento de reafirmação. Infelizmente do ponto de vista político tem sido um desastre: o presidente da Câmara desistiu, pelo que o município está, neste momento, sem perspectiva, e o governo nacional tem praticamente ignorado a cidade (o Metro Mondego é um bom exemplo do mal que nos é infligido por políticos irresponsáveis e mentirosos, mas poderíamos falar também do Aeroporto do Centro, em Monte Real, que não anda nem desanda...). Não temos outro futuro que não o da auto-afirmação do nosso trabalho, designadamente nas áreas em que somos os melhores. A Universidade e a cidade têm de entender mais e melhor (por exemplo, no
IParque, na futura Casa do Conhecimento, etc.). Quanto ao governo, vai ter de nos respeitar. E vai ter de contar com contribuições de Coimbra para o acordar da crise.
P-
Posso deduzir que não atribui grande importância ao protagonismo político que a cidade perdeu (e de algum modo parece poder vir a recuperar, como indiciado pela reeleição do bastonário dos advogados, possível eleição do bastonário dos médicos, pela presidência do Tribunal Constitucional, etc?)
R- Não, não acredito que a cidade ganhe muito em ter uma ou duas pessoas de cá como bastonários de ordens
profissionais ou um ou outro cargo num órgão do Estado. Não estamos necessitados de
protagonismos desse tipo, que são aliás formas de provincianismo. Quero crer que já lá vai o tempo em que o poder local se exercia por influências pessoais junto de poderes centrais... Precisamos mais de um Presidente da Câmara com visão e ambição, que infelizmente não temos tido, e da continuação de um Reitor com visão e ambição. E de uma aliança bastante mais efectiva da Câmara com a Universidade. Dou-lhe um pequeno exemplo que é elucidativo: o Estado distribui a Coimbra, por depósito legal, tudo o que se publica no país tanto à Câmara como à Universidade. Mais: nenhuma cidade, além de Lisboa, recebe esse material em duplicado. Mas nenhuma dessas entidades dispõe de meios suficientes para tratar esses fundos e as duas têm-se revelado incapazes de trabalhar em conjunto. A culpa é do governo? É verdade que o governo em geral não tem ajudado, mas, mesmo quando o governo ajuda, é também verdade que temos sido incapazes de sair das nossas
capelinhas. Coimbra tem condições de futuro próspero e deve principalmente a si própria esse futuro. O poder central não pode ser um constante bode expiatório.
P-
Por que razão a pujança, a cultura, a ciência, o prestígio, a história e a modernidade da Universidade não se reflectem na governação local, designadamente, na câmara? Acredita que o "impulso científico" que a cidade está a protagonizar poderá ter reflexos nos poderes locais e regionais?R- Coimbra sempre teve uma separação estúpida, alimentada por uns e por outros, entre
futricas e doutores, entre os adeptos do União de Coimbra e os da Académica. Essa barreira mental, como todas as barreiras desse género, é difícil de derrubar, demora muito a ultrapassar. Uma
cumplicidade muito maior entre Câmara e Universidade numa cidade
universitária, numa cidade que se diz do conhecimento, é a única maneira de nos afirmarmos e de conquistarmos a admiração do país. E é pela afirmação aqui na cidade da ciência e da cultura, que na universidade são cultivadas em alto grau, que ganharemos esse futuro. Não podemos ter, por exemplo, um trânsito mal regulado e termos os maiores especialistas na ciência e técnica da regulação de trânsito. Não podemos, outro exemplo, ter filas de espera em serviços de saúde e os melhores especialistas e equipamentos de medicina. Não podemos, ainda outro exemplo, ter cidadãos que não lêem livros na cidade que possui o maior número de livros por habitante (e, já agora, de autores por habitante). Por que não tomar como modelo cidades com universidades antigas como Oxford e Cambridge, onde é agradável viver, onde a cidade e a universidade estão de mãos dadas? Nessas cidades o "impulso científico" tem, de facto, reflexos nos poderes locais e regionais, e
vice-versa. O momento próximo de eleição do Reitor assim como o momento, eventualmente também próximo, de eleição do Presidente da Câmara têm de ir nesse sentido. ...