terça-feira, 30 de abril de 2024

EMPIRISMO NO PENSAMENTO DE ARISTÓTELES E NO DE ROGER BACON, MUITOS SÉCULOS DEPOIS.

Por A. Galopim de Carvalho
 
Se, numa aula de filosofia, o professor começar por dizer que a palavra empirismo tem raiz no grego empeirikós e que significa experiência, está praticamente tudo explicado. Assim, um tema que quem não sabe julga difícil de abarcar, torna-se tão simples como uma conversa em torno da cozinha, por exemplo. Empirismo, na filosofia de Aristóteles, é, pois, a linha de pensamento segundo a qual todo o conhecimento deve ser baseado na observação do mundo e não na intuição ou na fé. 
 
"Não existe nada na mente que não tenha passado pelos sentidos", afirmou este que foi o fundador do Liceu de Atenas, no século IV a. C. Esta linha opõe-se ao Inatismo de Platão, conhecido como corrente do pensamento que acredita e defende que o conhecimento de um indivíduo é uma característica que nasce com ele ou, dizendo por outras palavras, que lhe é inato. Não obstante ter sido seu discípulo, Aristóteles contrariou esta concepção do mestre. 

Quase 17 centúrias depois, o inglês Roger Bacon (1214-1294), filósofo e alquimista, alargou o pensamento de Aristóteles introduzindo a variante experimental, no sentido de trabalho de laboratório. 
 
O Empirismo deste frade inglês, conhecido como "Doctor Mirabilis" (Doutor Admirável em latim), alude, entre outras, às experiências que, séculos depois, continuam a ser feitas nos laboratórios do presente, estando, portanto, na base do método experimental. É hoje um dado assente que só os resultados experimentais permitem a indução em ciência. 
 
Base ou fundamento do método científico, o Empirismo ensina que todas as hipóteses e teorias devem ser testadas por dados experimentais.

Diferente do conhecimento científico (baseado em factos verificáveis e comprovados pela experimentação), o conhecimento empírico, no sentido que hoje vulgarmente se lhe dá, é o que se adquire na nossa vivência diária, aprendendo superficial e acriticamente, através dos sentidos, fazendo, errando e corrigindo. É, em suma, o da experiência pessoal. Não obstante não ser considerado de nível científico, o conhecimento empírico, nesta óptica, foi a base de toda a sabedoria que, ao longo de séculos, conduziu a humanidade até o surgimento da ciência e continua a conduzir todos os milhões de homens e mulheres que, vivendo à margem da ciência, beneficiam de tudo o que ela produziu e produz em termos de tecnologia.

No caso da culinária, por exemplo, o conhecimento é essencialmente empírico, não devendo, todavia, esquecer-se que os electrodomésticos e outros equipamentos ao dispor, assentam em conhecimentos verdadeiramente científicos e que, cada vez mais, a ciência, nomeadamente a bioquímica, tem vindo a introduzir ensinamentos importantes no que respeita a dieta alimentar.

Na imagem: Roger Bacon no seu laboratório. Pintura de Ernest Board (1877-1934) 
 
A. Galopim de Carvalho

segunda-feira, 29 de abril de 2024

O FÍSICO PRODIGIOSO

 


Cap. 43 do livro  "Bibliotecas. Uma maratona de pessoas e livros", de Abílio Guimarães, publicado pela Entrefolhos, que vou apresentar no próximo sábado em Oliveira de Azeméis. É uma bela obra, onde se descrevem 50 bibliotecas privadas que o autor visitou, entre os quais a minha:

Carlos Manuel Baptista Fiolhais
25 de Agosto de 2023 / 6ª feira / 11h 15
Rua do Pinheiro / Coimbra

Até que no tempo cesse anónimo o ténue sopro que ao tempo dou.
Rui Knopfli

12.06.56 / 67 anos / Físico (doutorado em Física Teórica), cientista, difusor de ciência e professor catedrático; criou o "Rómulo" - Centro de Ciência Viva da Universidade de Coimbra  (UC) e foi director da Biblioteca Geral da UC.

Enquanto o ouvia num podcast e tomava umas notas a dado passo escrevi: Humildade. Chega a minha mulher  e também se encanta: Parece uma pessoa humilde. Para quem diz que rir é um modo de nos curarmos e que a vida é uma caixinha de surpresas, ser autor de um artigo com mais de 25 000 citações e ter quase uma centena de livros publicados é como me disse o meu filho: Nem acreditas!

Se é verdade que as páginas de um livro não são todas iguais - numas quase adormecemos, noutras o arroubo é tremendo - também os dias das nossas vidas gozam de favores desiguais. O de hoje, desde o prévio afã até à sua feliz consumação, pertence à última espécie e estender-se-á sem nenhum estorvo que o deslustre pelo perene tapete da memória. Apalavrada a lábia para a esplanada do Café Mainça, assim foi. O dicionário afiança mainça como mão-cheia, punhado, porção de coisas que a mão pode apanhar de uma só vez, e eu logo ali soube do apuro que iria ser rabiscar as minhas apostilhas à justa medida da sua fala.

Tenho a paixão dos livros. Não se apraz com menos: Sou viciado em livros e muitas vezes compro por impulso. Criou a sua biblioteca desde a adolescência, baseado no capital que advinha dos prémios (de desenho, alguns) que recebia desde a primária. De uma família humilde - a mãe era de Selhariz, Vidago; o pai, de Sedielos, Régua - e não sendo o livro o objecto de maior uso lá em casa, foi em contramaré que o pai, militar da GNR, lhe deixou As Minhas Memórias, o resumo de uma vida em meia dúzia de páginas. Admite que nesse legítimo desejo de assegurar a memória resulte uma certa forma de sobrevivência. Não sente o culto do livro, o do conhecimento sim. Edições antigas e caras não cultivo. O que lá está é que interessa, não é tanto o aspecto. O livro é apenas um suporte. Ao longo da vida foi deixando muitos para trás, ao Centro de Ciência Viva legou 10 000 e mesmo assim ainda estima reunir uns 50 000. Ao invés, por razão das suas relações e notoriedade dão-me sacos de livros. Cedo emigrou. Viveu em Copenhaga, Nova Orleães  e Bilbau, mas foi antes,  em Frankfurt, na Alemanha, onde aos 26 anos se doutorou, que pôde atestar o quanto a biblioteca é um modo de medir a mentalidade dos povos. Abjurando o bafio português, a Universidade Goethe, avessa a qualquer limite à requisição, era um local de porta aberta que hoje acolhe uns 15 milhões de volumes. Procuramos o infinito nos livros, essa liberdade que eu tenho nos livros e não encontro na vida real, a verdade que não somos e queremos. Que me perdoem os demais leitores, mas este, por tão alto, não haveria de se abreviar na dose da página regular - e já agora, concisa, por forjada na ideia de que se posso dizer uma coisa em poucas palavras para quê escrever muitas - até aqui ajustada. E rogo ao texto que continue.

Entra (entramos) pela casa dentro e é o espanto: o prazer estava logo ali, hiante, à nossa frente. Fiadas de lombadas coloridas em poses variadas e - não tão poucas - de trama com os espaços mais escusos. Tudo o que não há, decerto aqui se achará. Ensaios, romances, o terramoto de 1755, a história do Brasil, as invasões francesas, a obra de José Mattoso, as religiões. Até soa obscena qualquer listagem deixando tantos de fora. Num espaço contíguo que lhe serve de escritório o assombro sobrepuja o de antes, com estantes em dupla fiada, e sem mais onde se quedarem, carradas de livros em ânsias por uma migalha de vazio que ainda por aqui perdure. Parece muito confuso, mas eu sei onde está tudo. Numa mesa espera-o uma pilha com alguns que por estes dias lhe ofereceram. Enquanto fala, desembrulhando assuntos atrás de assuntos, sempre os mais inesperados, abre um maço do correio que lhe traz nova remessa. Nenhuma peia ou limite deve servir para acobardar o saber. Não há limites para o saber. A noção de portugalidade e o que é isso de ser português interessa- -o. A literatura à volta dos estrangeiros que vêm para cá - Portugal visto por olhos estrangeiros é muito mais bonitoe dos portugueses que vão para fora. Livros sobre os livros e a leitura. Tudo o que tenha o tempo e o futuro por mote.

De gostos diversificados, fala de tudo com um amor e um gosto sem par. E tanto se atreve a escrever livros infantis, como toma a direcção da vasta Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa e da original História Global de Portugal ou até - e di-lo com grato orgulho - se lança na aventura de compor, aliado a um fotógrafo amigo também físico, um livro muito bonito sobre a Biblioteca Joanina, de que foi director sete anos. Há autores polémicos de que eu gosto e fala de Maria Filomena Mónica, Vasco Pulido Valente e António José Saraiva. Tem tudo do Eduardo Lourenço. Quanto ao facto surpreendente de alguém da ciência ter uma tão ingente paixão por livros aponta Oppenheimer, o "pai" da bomba atómica, que por nutrir um enorme gosto por línguas se aventurou a aprender sânscrito, quando não precisava nada disso para a sua vida profissional. O saber tem asas e constrói pontes, até com a física. Alegra-se em transmitir conhecimento, e divulgar ciência é favor de que não prescinde. Para além dos livros, escreve em jornais, tem podcasts e é figura comum na TV..

O tempo nunca é problema; se a pessoa quiser fazer, faz. Como lê rápido avia vários ao mesmo tempo, pois claro! Dicionários, citações e obras de referência, tem-nas perto da sua secretária e ao alcance da mão esquerda. Sobre a ideia de que está tudo na net é uma ilusão, e há pessoas que descobrem o mundo através dos livros. Sabiam que Fiolhais é um lugar? Se tirarmos Pessoa, que se vê por aqui em distintas e fartas moradas, a poesia, por ser algo de mais íntimo, acolhe-a no quarto. Nas costas da porta do seu escritório o aviso é claro: A bibliofilia é o resultado de um amor à ciência e à beleza. A descida ao piso inferior arrima mais cimento para o pasmo. Acede que procura uma certa ordem no arranjo dos temas, mas nem sempre vence. A filosofia, os clássicos, cartazes, livros de viagens, revistas, a banda desenhada (o Loustal todo) e há mesmo um cantinho (O Diabo da Biblioteca) em que o Eros ganha a palma. Camilo, Agustina, tudo do Umberto Eco todo, música, fotografia, arte, cinema, livros acerca de Portugal (um país maravilhoso) e outros até sobre o simples acto de passear. Adoro pechinchas! Também aqui deixo nota do seu arquivo pessoal com a correspondência de 40 anos, mas há que refrear o engulho da nomeação. A casa respira livros - são os livros - porque uma coisa sem animação (anima) não interessa. Neles moram o espírito crítico e a inquietação.

Não acredita na vida para além da morte e sobre o tempo: Ninguém sabe o que é, mas existe. O tempo é mudança e joga-se em duas partes: a permanência e a temporalidade. Sem renovação não se pode pensar nele. Sexo sem morte não funciona. Morrem pessoas todos os dias e o tempo continua. Vê nessa cadeia uma vida para lá da nossa - pode ser que a imortalidade assim se concretize - e isso dá-lhe conforto. morte pode ser uma benção. É belo pensar que se cada um de nós tiver feito alguma coisa terá contribuído para o tempo. Ele é maior do que nós. E depois há os livros com o mágico poder de conservar o fio da memória. O pai deixou-lhe seis páginas. Ele multiplicou-as. De Física Divertida, da Gradiva, o seu livro inicial, que desde 1991 vendeu mais de 20 000 exemplares, passando pelos três que sem prosápias me ofereceu, serão à volta de 70 os que - sozinho ou em co-autoria - já deixou escritos. Capítulos, prefácios e posfácios que aqui e ali vai, a pedido, alinhavando serão mais de 200. Quer dizer, eu não morro. Enquanto isso, agracia Montaigne e toma a leitura como uma forma de felicidade: Não faço nada sem alegria.


Abílio Guimarães

SOBRE A ESTAÇÃO ELEVATÓRIA DE COIMBRA


Introdução

Coimbra, sede de uma das mais antigas universidades portuguesas e uma das mais antigas do mundo, é uma cidade extraordinariamente rica em história e cultura.  Sobressai o papel que teve na produção e difusão de livros. Foi em Coimbra que funcionou a maior biblioteca medieval português, no Mosteiro de Santa Cruz,  é em Coimbra que está a segunda biblioteca portuguesa, a Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, com mais de 500 anos, que inclui a  Biblioteca Joanina, demandada por numerosos visitantes por ser considerada uma das mais belas do mundo, e uma das mais antigas e maiores bibliotecas municipais do país, foi em Coimbra que funcionaram  editores e livreiros antigos e de nomeada (João Barreira, Imprensa da Universidade de Coimbra, Atlântida, Coimbra Editora e, na actualidade, a Almedina), foi em Coimbra que se editaram famosas revistas literárias e científicas (O Instituto, Presença, etc.), e foi também nessa cidade que nasceram ou viveram grandes escritores, tanto na poesia como na prosa (no primeiro grupo Sá de Miranda, Camilo Pessanha, Eugénio de Castro, João José Cochofel, Fernando Assis Pacheco, Teolinda Gersão, Inês Pedrosa, Nuno Camarneiro, etc. e no segundo Luís de Camões?,  Pedro da Fonseca, Almeida Garrett, Antero de Quental, Eça de Queirós, António Nobre, Mário de Sá Carneiro, José Régio, Carlos de Oliveira, Fernando Namora, Miguel Torga, Joaquim Namorado, Eugénio de Andrade, Eduardo Lourenço, Virgílio Ferreira, Manuel Alegre, etc.).

E, no entanto, Coimbra está ainda a dever a si própria uma maior afirmação nacional e internacional no domínio dos livros. Por exemplo, apesar de existirem dois depósitos legais, os edifícios das suas bibliotecas são antigos, não havendo ajudas do governo central, para pensar no seu restauro ou refundação. Parece pertinente que se envidem esforços de aumento e valorização dos espólios existentes na cidade e de dinamização da vida cultural do concelho.

Um bom exemplo recente do papel das bibliotecas de proximidade que existem nalgumas cidades europeias é a a Biblioteca Gabriel Garcia Márquez, inaugurada em 2022, a 40.º biblioteca da rede municipal de Barcelona, ganhou em Agosto de 2023 o prémio para a Biblioteca pública do Ano pela Federação Internacional de Associações e Instituições de Bibliotecas (IFLA). O prédio reúne um pátio, um auditório, um estúdio de rádio e salas de leitura.

https://expresso.pt/webstories/a-melhor-biblioteca-publica-do-mundo-esta-em-barcelona-e-tem-o-nome-de-gabriel-garcia-marquez?utm_campaign=later-linkinbio-jornalexpresso&utm_content=later-37350351&utm_medium=social&utm_source=

Lisboa planeia duas novas bibliotecas municipais: a Biblioteca António Lobo Antunes com a Biblioteca Alberto Mangel com o espólios dos escritores. Está a ser considerada pela Câmara de Lisboa, sob proposta do historiador Rui Tavares, uma grande biblioteca moderna internacional dedicada a Eduardo Lourenço, que tem uma boa parte do seu espólio em Coimbra, onde ele se formou e ensinou. Outras cidades estão a renovar as suas bibliotecas, como a histórica Biblioteca Pública do Porto, com projecto de Souto Moura.  De facto, as bibliotecas podem servir para criar e reforçar centralidades, projectar as cidades e elevar os seus residentes e visitantes.

Novo projecto cultural

Com vista ao enriquecimento cultural da cidade de Coimbra – a cidade de notáveis escritores, editores, livreiros e bibliotecários –, da região Centro e do país que é manifesta por parte da Câmara Municipal de Coimbra e como inequívoca manifestação de apoio à cultura por parte da empresa Águas de Coimbra EM, foi proposta  a instalação, com o nome de ESTAÇÃO ELEVATÓRIA DE COIMBRA (EEC). de um novo equipamento cultural na cidade de Coimbra – uma biblioteca que funcione como moderno centro cultural no denominado “Museu da Água,” situado no Parque Dr. Manuel Braga, em Coimbra, gerido pela empresa Águas de Coimbra EM. A biblioteca será alimentada na sua totalidade por uma minha doação à Câmara Municipal de Coimbra / Biblioteca Municipal  de cerca de 40.000 livros, periódicos (dos quais cerca de 30% estrangeiros) e itens audiovisuais (CD, DVD, etc.).

Essa doação será feita em parte num acto inicial (cerca de 4000 itens), sendo continuada em parcelas sucessivas, a última das quais, dos livros de sua autoria e de uso pessoal, sendo apenas consumada post-mortem. Ela será feita mediante assinatura de documento jurídico, preparado pela Câmara Municipal e a  aprovado pelo executico camarário.  No futuro, virá incluir os itens que o doador venha a adquirir ou a receber.  

A condição de doação é que todos os itens doados sejam devidamente catalogados de acordo com as normas bibliográficas correntes na Biblioteca Municipal de Coimbra e por esse meio no catálogo colectivo das bibliotecas portuguesas, com o registo «Biblioteca Carlos Fiolhais», ficando acessíveis livre e gratuitamente ao público, quer presencialmente quer por empréstimo interbibliotecas ou domiciliário. O regulamento de acesso será o mesmo da Biblioteca Municipal.

A EEC deve servir como sítio de actividades culturais (apresentações de livros, tertúlias, debates, workshops, pequenos shows ligados a livros, etc.), que o doador se propõe organizar, privilegiando a ligação entre as artes, as ciências e as tecnologias, de modo a diminuir o intervalo entre as “duas culturas”. Assim, tal significa que a EEC se constitui, na prática, como um pólo da Biblioteca Municipal de Coimbra, hoje com mais de cem anos (foi fundada em 1923), de cujos serviços o doador beneficiou em jovem quando ainda funcionavam no Claustro de Santa Cruz de Coimbra, contribuindo sobremaneira para a sua formação, e que assim pretende não só reconhecer como recompensar. Dadas as limitações físicas do espaço da EEC, fica previsto que uma parte do espólio possa ficar armazenado noutro sítio, desejavelmente próximo, sendo o respectivo acesso mais demorado.

Para concretizar o projecto espera-se que as Águas de Coimbra EM, detentora do espaço, e a Câmara Municipal de Coimbra, em estreita colaboração, assegurem, para além da adaptação do espaço a biblioteca/centro cultural com adequados projectos de arquitectura e engenharia (incluindo acesso livre a Internet e  boas condições de projecção de imagem e som), a manutenção abertura  permanente do espaço entre as 10h e as 18h dos dias úteis (para além de outras aberturas extraordinárias julgadas necessárias para alguns eventos), providenciando o apoio de funcionárias/os habilitados.

Sobre o conceito da EEC

“Estação elevatória” é o nome técnico da instalação que funcionou no Parque Dr. Manuel Braga entre 1922 e 1983, para recolha de água do rio Mondego e sua distribuição para consumo domiciliário. A Casa da EEC (inicialmente denominada “Casa do Rio”, para a distinguir da Casa das Águas da Rua da Alegria) foi erigida em 1922, mas já existiam recolhas de águas nesse sítio do rio desde 1889. No início dos anos de 1980 deixou de servir, dado não só o anquilosamento tecnológico como a sua substituição pela estação elevatória da Boavista, a montante do rio, e que permitia recolher águas com maior segurança ambiental e que ainda hoje funciona (ver José Amado Mendes, História do Abastecimento de Água a Coimbra, 2 vols., Águas de Coimbra e Museu da Água de Coimbra, Coimbra, 2009). Depois de um período de abandono, o espaço foi restaurado e ampliado por iniciativa da Câmara Municipal e dos Serviços de Águas e Saneamento da cidade de Coimbra (na altura SMASC) ao abrigo do programa Polis, mediante um projecto dos arquitectos Alberto Lage (Porto, 1969) e Paola Monzio (Bérgamo, 1969), que ganhou em 2001 o prémio do concurso Polis/ European para jovens arquitectos com o Centro de Monitorização e Interpretação Ambiental de Coimbra – Museu da Água. (que acrescentou um novo edifício ao edifício histórico) e um projecto de musealização do edifício da autoria do arquitecto João Mendes Ribeiro (Coimbra, 1960). O sítio de Arqueologia Industrial encontra-se hoje bem preservado, merecendo a sua qualidade e localização uma utilização renovada.

O “Museu da Água”, que serviu como Centro de Monitorização e Interpretação Ambiental relativo à água, foi inaugurado em 22 de Março de 2007 (Dia Internacional da Água), sendo presidente da Câmara Carlos Encarnação. Foram ali realizadas várias exposições (“Condomínio da Terra”, “Caminhando sobre a Água”, “Forma d’Águas,” etc.) e oficinas, com inúmeras presenças de público escolar, para além de conversas (de água e café, de água e chá, de água e doçaria tradicional e de água e chocolate), concursos, passeios de barco, concertos (no coreto muito próximo). Parte dessa actividade, interrompida por dificuldades várias, incluindo o facto de o edifício não oferecer condições para o funcionamento de um moderno museu, será reatada com a abertura da EEC. Será completamente preservado o espírito do lugar, o que desde logo se observa na escolha do nome da nova instituição cultural. Mas, tratando-se agora de um espaço cultural com serviço de biblioteca, há uma interpretação metafórica óbvia de “Estação elevatória”: a EEC será um espaço onde os cidadãos de todas as idades, origens e condições sociais se poderão “elevar,” alimentando-se de bens culturais no ambiente único do parque que ocupa uma parte do centro da cidade. Usando as mais modernas tecnologias, será também um sítio virtual, que disponibiliza informação e serviços à distância. Um dos espaços do piso superior poderá ser usado como estúdio para gravação de podcasts.

Nesse espírito, o doador seleccionará para a primeira entrega livros nas áreas de:

1.  - Água e ambiente (nos seus múltiplos aspectos e funções: física, química, biologia, ecologia, meteorologia e clima, engenharia civil / hidráulica, ciência e tecnologia dos mares, história de viagens marítimas, etc.), reforçando a relevância da água e do ambiente no futuro da Humanidade.

2.  -   Coimbra (história, literatura, arte, ciência, tecnologia, autores e personagens locais, etc.) e, mais em geral, região Centro, reforçando a ligação de Coimbra com a sua geografia.

3.   -   Livros e bibliotecas (arte e comércio livreiro, história do livro e das bibliotecas, editores e livreiros, bibliotecas, etc.), reforçando a centralidade desse tema na cidade de Coimbra (a cidade já foi candidata a Cidade Mundial do Livro).

A «marca de água» da EEC será sempre este triângulo harmonioso “água e ambiente-Coimbra-livros”, que poderá ressaltar no logotipo a criar, pelas Águas de Coimbra EM. O doador compromete-se a colaborar com outros serviços e equipamentos da Câmara no programa cultural do município que se ligue aos vértices deste triângulo.

No entanto, a biblioteca a doar é muito polifacetada abrangendo por exemplo boas colecções de literatura nacional e estrangeira (incluindo poesia), arte (pintura, mas também fotografia), banda desenhada, ciência e tecnologia, ensaio (temas dominantes: história da ciência, história de Portugal, prospectiva, portugalidade, emigração, religião (principalmente jesuítas, judaísmo e relações religião-ciência), biblioteconomia, educação, etc.). O número de periódicos nacionais e estrangeiros é muito significativo. A colecção de discos digitais com músicas (principalmente música clássica e jazz) e filmes (tanto ficção como documentários) é também ampla e variada.

NOVIDADES DA GRADIVA

 

Novidades Gradiva Abril de 2024 | Já disponível: "Dia", de Michael Cunningham. De €18,50 por €16,65.

5 de Abril de 2019

Num aconchegante prédio de Brooklyn, a aparente felicidade doméstica começa a ruir. Dan e Isabel, marido e mulher, têm uma relação desgastada já sem o fogo da paixão inicial. O irmão mais novo de Isabel, Robbie, desencadeia paixões dentro da própria família. Alma rebelde da estrutura familiar, a morar no sótão da casa da irmã, Robbie procura esquecer a ruptura com o seu mais recente namorado criando um perfil fantasioso nas redes sociais. Nathan, o filho do meio do casal, tem 10 anos e tenta dar os primeiros passos na sua independência, enquanto a sua irmã, Violet, de cinco anos, faz o possível por entender as subtilezas do mundo dos adultos.

 

5 de Abril de 2020

Quando o mundo entra em confinamento, o apartamento da família mais parece uma prisão. Violet tem medo de deixar as janelas abertas, obcecada com a segurança, enquanto Nathan boicota as regras impostas. Isabel e Dan trocam ataques velados e suspiros frustrados. Robbie está preso na Islândia, sozinho numa cabana na montanha, tendo por companhia os seus pensamentos, as suas leituras e… uma vida secreta no Instagram.

 

5 de Abril de 2021

Saída de uma crise, a família enfrenta uma realidade nova e muito diferente - com o que aprenderam, tentam identificar o que perderam e reflectem acerca do caminho a seguir.

Já disponível: "O Fim da Vergonha", de Vicente Valentim. De €13,00 por €11,70.

Nos últimos anos, os partidos de direita radical tornaram-se actores políticos centrais na maior parte dos países europeus. O que explica o aumento do sucesso eleitoral destes partidos? Se a mudança das ideias políticas é um processo particularmente lento, porque crescem eles tão depressa, parecendo vir «do nada»? A resposta, como argumenta Vicente Valentim neste seu primeiro livro, está no facto de grande parte das pessoas que expressam actualmente o seu apoio à direita radical já terem antecipadamente essas ideias em privado, não tendo até agora à-vontade para o manifestarem em público por causa da pressão social.

O FIM DA VERGONHA – Como a direita radical se normalizou de Vicente Valentim, doutorado em Ciência Política pelo Instituto Universitário Europeu, em Florença, resulta da adaptação para português do seu primeiro livro ­The Normalization of the Radical Right, que será publicado em inglês pela prestigiada editora Oxford University Press ainda em 2024.

Vencedor de vários prémios, nomeadamente o Prémio Jean Blondel, atribuído pelo European Consortium for Political Research para a melhor tese escrita na Europa no domínio da Ciência Política, o trabalho de doutoramento de Vicente Valentim é já considerado um texto de referência para todos os que pretendem compreender um dos mais relevantes fenómenos políticos da actualidade.

Já disponível: "Alix Senator, vol. 11: O Escravo de Khorsabad", de Jacques Martin, Valérie Mangin, Thierry Démarez. De €20,99 por €18,89.

Roma, ano 11 a. C. O imperador Augusto é todo­ ­poderoso. Alix tem mais de cinquenta anos e é senador. 

Regressando ao território do seu passado, Alix é raptado por um grande senhor parto. Para reacender a guerra com Roma, o governante precisa de ouro, na verdade, de muito ouro. Segundo acredita, Alix será a última pessoa a conhecer o esconderijo do tesouro perdido em Khorsabad, a cidade onde o gaulês foi escravizado no início das suas aventuras. Alix, com a ajuda de um companheiro que se parece com Enak, mais jovem, consegue escapar. Forçado a refugiar-se nas ruínas de Khorsabad, tornar-se-á ele o último escravo da cidade amaldiçoada?

Já disponível: "Como Governar um País", de Marco Túlio Cícero. De €12,50 por €11,25.

Marco Túlio Cícero, o maior estadista e orador de Roma, foi eleito para o mais importante cargo da República Romana numa altura em que o seu bem-amado país se encontrava ameaçado por políticos sedentos de poder, problemas económicos extremos, perturbações internacionais e partidos políticos que se recusavam a trabalhar juntos. Parece-vos familiar? As cartas, os discursos e os outros escritos deste autor estão repletos de sabedoria intemporal e revelam uma visão pragmática acerca do modo como resolver estes e outros problemas de liderança e política. 

Como Governar um País colige o melhor dos escritos de Cícero sobre o tema que lhe dá título e constitui um guia acessível e prático, baseado no bom senso, para políticos e cidadãos.

domingo, 28 de abril de 2024

29 DE ABRIL - "O MARQUÊS DE POMBAL E O BRASIL" NAS CONVERSAS ALMEDINA EM COIMBRA



 

MEU PREFÁCIO À NOVA EDIÇÃO DE "COMO BOLA COLORIDA. A TERRA, PATRIMÓNIO DA HUMANIDADE", DE GALOPIM DE CARVALHO (ÂNCORA)

Merecia, há muito, uma reedição este livro, Como Bola Colorida. A Terra, Património da Humanidade, da autoria do Professor Galopim de Carvalho, publicado pela primeira vez na Âncora Editora em 2007. De facto, a expressão “há muito” não será a mais apropriada do ponto de vista de um geólogo, já que este lida com intervalos temporais de milhões de anos. Do ponto de vista da história da Terra, a edição e a reedição deste livro sobre as Ciências da Terra são praticamente simultâneas. Seja como for, a necessidade de reeditar esta obra diz bem do interesse que ela merecidamente continua a suscitar no público.

A expressão Coma Bola Colorida, uma citação de um famoso verso do poema “Pedra Filosofal” de  António Gedeão, pseudónimo literário de Rómulo de Carvalho, o professor de Ciências Físico-Químicas que é o patrono da  cultura científica em Portugal, refere-se ao nosso planeta, que  tem belas cores: decerto o azul do mar e o verde da vida, mas também as cores das rochas, que podem ir dos tons claros do quartzo aos escuros do basalto, passando pelos cinzentos e rosa dos granitos e pelos tons vermelhos da algumas argilas (pois as há multicolores!). Mas uma criança que quisesse agarrar no nosso planeta teria de ter um tamanho gigantesco. Basta pensar que a bola onde vivemos tem cerca de 6400 quilómetros de raio, ao passo que uma bola de futebol adequada a uma criança terá cerca de 20 centímetros de raio. Um rapaz ou uma rapariga poderão ter entre um metro e um metro e meio. Feitas as devidas proporções, a altura da criança teria de ser à volta de 40 mil quilómetros, o que, parecendo muito, não é nada à escala do Sistema Solar: é um décimo da distância entre a Terra e a Lua.

Uma metáfora impressionar-nos-á tanto mais quanto mais fora da realidade estiver. E é indiscutivelmente uma bela metáfora aquela que Galopim de Carvalho escolheu, em 2006, para título do seu livro, publicado quando se comemoravam os cem anos do nascimento de Rómulo de Carvalho. A nossa “bola colorida” já deu 17 voltas ao Sol deste então. Estamos todos mais velhos. Mas na Terra não se nota muito. Só não está na mesma devido às modificações que lhe fizemos, das quais a mais grave será o aumento desmesurado dos gases de efeito de estufa, como o dióxido de carbono, na atmosfera. Mas, para quem tem 4,54 mil milhões de anos de idade, como é o caso do nosso astro, 17 anos não são nada, absolutamente nada. O livro mantém-se novo, tendo a revisão sido menor: naquilo que está bem não se deve mexer. Em particular, o prefácio de José Mariano Gago tem plena actualidade, pelo que se mantém rigorosamente na íntegra. Ao relê-lo, senti saudades do seu autor: faz-nos falta aqui neste nosso quinhão do planeta para avivar a luz da ciência. Foi ele que instituiu, em 1996, o Dia Nacional da Cultura Científica, precisamente no dia de aniversário de Rómulo de Carvalho, para prestar justa homenagem aquele que, além de professor e poeta, foi também um grande divulgador de ciência.

O geólogo Galopim de Carvalho, a quem um dia chamei “Mestre das Pedras e das Palavras” por ser tão exímio com as primeiras como com as segundas, é, na esteira de Rómulo, um grande divulgador de ciência. Com uma vivacidade que tem resistido ao passar dos anos (para ele os anos que sejam abaixo de um milhão não são relevantes!), tem-nos dado o melhor do seu saber e talento quando nos descreve a incrível variedade da Terra e nos conta o longuíssimo processo histórico que moldou o nosso lugar no espaço. Neste livro, que acresce a mais de três dezenas de outros seus títulos, Galopim traz-nos, num português de lei, uma síntese dos resultados mais importantes das Ciências da Terra:  a estrutura, a dinâmica, a pluralidade de paisagens do nosso planeta, incluindo as pródigas marcas da vida que é quase tão antiga como ele. Galopim de Carvalho usa um recurso que Rómulo de Carvalho (por coincidência, partilham o mesmo apelido!) também usava desenvoltamente e que devia ser mais comum na divulgação da ciência entre nós: recorre à história da ciência. Mostra assim que a ciência é uma conquista humana, um conjunto de conhecimentos que foram duramente extraídos da Natureza pelos cérebros e mãos de diligentes seres humanos ao longo do tempo, uns na peugada dos outros, num empreendimento contínuo e a continuar. Mais importante que os conhecimentos, são os métodos para os obter. Sim, é contada em traços gerais a história da Terra, mas é também contada a história da tomada de consciência da historicidade geológica, que é muito recente. Com efeito, foi só no século XIX que os geólogos se aperceberam da enormidade da nossa história planetária, ultrapassando antigos preconceitos, alguns de raiz bíblica. Os geólogos que olharam para as modificações lentas e graduais da Terra foram-lhe dando uma idade aproximada que nada tinha a ver com as mitologias e que excedia mesmo largamente a que era estimada por físicos e químicos com base em considerações termodinâmicas. E era mais fiel a sua cronologia, justificada pela acumulação de observações de lagos e oceanos, vales e montanhas, estratos e fósseis, etc. do que a dos seus colegas físico-químicos, fundada em modelos matemáticos.

Ao  Terra tem sido palco de um rol de acontecimentos, não raro surpreendentes: arrefecimento a partir de uma massa ígnea inicial, impacto com outro astro para originar a Lua, quedas de meteoroides, formação dos oceanos, surgimento dos primeiros organismos, início da fotossíntese e oxigenação da atmosfera, proliferação da vida com a «invenção» do sexo, extinções maciças por razões em parte misteriosas, movimentos de placas tectónicas e outros, sismos e vulcões, idades do gelo, e, nos nossos tempos, as transformações de responsabilidade humana que alguns julgam merecer um novo período geológico: o Antropoceno. Se hoje sabemos algumas coisas sobre estes fenómenos foi graças aos esforços de homens e mulheres cujos nomes vêm referidos neste livro. Mestre Galopim é o nosso guia nessa viagem nas páginas que se seguem, destacando naturalmente os sítios e eventos em Portugal, onde está ou de onde vem a maioria dos seus leitores.  Ele preocupa-se com a fácil compreensão por parte de quem lê, nunca subestimando a inteligência dos leitores, uma regra básica na divulgação científica. Por exemplo, tem o cuidado de nos explicar, recorrendo a grãos de arroz e a badaladas de sinos, o que significa um milhão de anos, que afinal é uma «migalha» na história da Terra. Para nos acicatar a imaginação, fala de um bolo de aniversário para a Terra com 4540 milhões de velas. São, indiscutivelmente, muitas velas! Quando os dinossauros desapareceram, o bolo «só» tinha 4474 milhões de velas.

Se com José Mariano Gago a ciência entrou nas nossas casas, é preciso que ela entre mais e que fique bem instalada. Galopim de Carvalho é um exemplo inspirador de como é possível, com vista a tal desiderato, fazer bem-sucedida divulgação de ciência, num país em que largos sectores são avessos à ciência. São utilíssimos livros como este que descrevem em linguagem simples o chão que pisamos, o seu início e as suas metamorfoses, as suas riquezas e misérias, os seus encantos e mistérios. Em meu nome e – seja-me permitido – em nome de todos os leitores expresso-lhe a minha, a nossa, gratidão, por tudo o que temos aprendido dele e com ele. Sei que a vida humana é um lampejo em comparação com o tempo da Terra, mas desejo que, no seu caso, esse lampejo se prolongue, prosseguindo a iluminação que tem espalhado. Desejo que o «Mestre das Pedras e das Palavras» continue a ajudar-nos a compreender o nosso planeta não só com a sua grande sabedoria, mas também com a sua enorme jovialidade e a sua extraordinária simpatia.

Carlos Fiolhais

Coimbra, 15 de Dezembro de 2023

25 DE ABRIL, A CONQUISTA DA LIBERDADE

Texto de António Valdemar, publicado no Jornal do Fundão (número especial dos 50 anos do 25 de Abril):

Um novo ciclo da história, em todos os domínios, uma data simbólica exaltada pelos poetas, escritores, músicos e artistas plásticos. Decorridos 50 anos, qual o cenário que se depara no presente e qual a continuidade no futuro?

O 25 de Abril restituiu a liberdade de informação, de reunião e de crítica. Cerrou as grades das prisões políticas de Caxias, do Aljube e de Peniche. Extinguiu o campo de morte do Tarrafal. Poetas, escritores, músicos e artistas plásticos celebraram esta data histórica que aboliu a censura. O “Jornal do Fundão” foi dos órgãos de comunicação social mais atingidos. Foi suspenso durante seis meses em consequência de um texto de opinião acerca do Grande Prémio de Novela da Sociedade Portuguesa de Escritores.

Na edição de 23 de maio, de 1965, o suplemento literário, a cargo de Alexandre Pinheiro Torres, noticiou os prémios e os membros dos júris. Contemplava o escritor Luandino Vieira, um dos presos políticos no Tarrafal, reaberto pelo ministro do Ultramar, Adriano Moreira. O Jornal do Fundão, além da suspensão, foi multado, a caução aumentou significativamente, sendo exigida a apresentação das provas à delegação de Lisboa dos Serviços de Censura em vez da delegação em Castelo Branco. Entretanto, a Sociedade Portuguesa de Escritores foi encerrada pelo ministro Inocêncio Galvão Teles, titular da pasta da Educação que incluía as áreas da cultura.

A Constituição Política da República, na sequência do 25 de Abril, estabeleceu as regras para a consolidação do Estado de Direito. Ficaram consagrados os objetivos fundamentais para governar em Democracia. Reconheceu as autonomias regionais e deu início à descolonização possível, mas tardia e com as inevitáveis consequências que daí resultaram. Milhares e milhares de portugueses encontravam-se dilacerados com a ferocidade da guerra colonial em três frentes de combate. Dia após dia, intensificaram-se os pressentimentos, as insónias, o espectro da morte, os pesadelos que nunca mais esquecem. José Craveirinha (1922-2003) Prémio Camões da Literatura, com pleno conhecimento de realidade — preso político da Cadeia Central de Machava — retratou a situação que se vivia: 

“Suam no trabalho as curvadas bestas/E não são bestas, são homens, Maria!/ Corre-se a pontapé os cães na fome dos ossos - e não são cães, são homens, Maria!/Pisam-se as pedras na raiva dos tacões/E não são pedras, também não são bichos, são homens, Maria!/Feras matam velhos, mulheres e crianças/ E não são feras, são homens, Maria!/Crias morrem à míngua de Leite/ Vermes nas ruas esperam caridade/E não são crias nem vermes/ São fi lhos dos homens, Maria!/ Bichos espreitam nas cercas de arame farpado/ E também não são bichos, são homens, Maria!/ Do ódio e da guerra/ cresce no mundo o girassol da esperança…”

Era a realidade crua e nua, que espalhou o terror, durante 14 anos, em Moçambique, em Angola, em Cabo Verde e na Guiné. Implantada a ditadura militar, em 1926 e a ditadura autoritária de Salazar em 1932, o regime instituiu a censura prévia à Imprensa, a polícia política e os tribunais especiais que viriam a denominar-se Tribunais Plenários constituídos por magistrados de carreira.

Multiplicaram-se os protestos que o poeta João de Barros (1881-1960) assinalou nestes versos: “Que voz repele, e afronta, e cala /Este tumulto de ódios cegos, /Que ruge e clama e ofende em vão?”. Ou a Ode à Liberdade de Jaime Cortesão (1884- 1960) que resumiu o repúdio ao “ódio fanático dos bonzos”, o “ciúme vil dos fariseus”, para louvar “a cada novo dia e duro preço”, o “sopro e a lei da criação”. Era a ambição irreprimível para transpor a violência e estabelecer uma cultura de tolerância e diálogo.

Contudo, passava, de mão em mão, numa cópia datilografada, em papel químico, outro poema de Jaime Cortesão visando diretamente Salazar: 

“Por ti, pelo teu ódio à Liberdade, à Razão e à Verdade,/ a tudo o que é viril, humano e moço,/ a fome e o luto apagaram os lares/ e os homens agonizam aos milhares/ no exílio, no hospital, no calabouço./Por ti raivoso abutre, cujo apetite sôfrego se nutre/ de lágrimas, de gritos, de aflições/ gemem nas aspas da tortura/ ou baixam em segredo à sepultura/ os mártires que atiras às prisões.

A este claro Povo, herói dos povos,/ que deu ao mundo mundos novos,/ mais estrelas ao Céu, mais luz ao dia;/ a este livre e luminoso Apolo/ atas as mãos, os pés e o colo,/ e encerras numa lôbrega enxovia./Falas do Céu, como um doutor no templo/ mas tu encarnação e vivo exemplo/ da hipocrisia vil dos fariseus,/ pelos sagrados laços que desunes,/ pelos teus crimes, até hoje impunes/ roubas ao mesmo crente a fé em Deus.

Passas... e mirra a erva nos caminhos,/ as aves, com terror, fogem aos ninhos,/ e ao ver-te o vulto gélido e felino,/ mulheres mães, lembrando os lastimosos/ casos de irmãos, de filhos ou de esposos,/ bradam crispadas as mãos: Assassino! Assassino! /Passas... e até os velhos, cujos anos/ têm costumado a monstros e tiranos/ dizem, com a boca cheia de ira e asco:/ Sobre esta Pátria mísera que oprimes,/ jamais alguém foi réu de tantos crimes.

Vai-te! Basta de vítimas! Carrasco!/ Passas... e ergue-se, vai de vale a cerro/ dos hospitais, do fundo das masmorras/ às inóspitas plagas do desterro,/ um coro de ais, de imprecações, de morras. São multidões que rugem num só brado:/ Maldita a hora em que tu foste nado!/ Que se malogre tudo quanto almejas;/ Conturbem-se os teus dias de aflição;/ Neguem-te as fontes água, a terra pão/ e as estrelas a luz - Maldito sejas!”

A tortura da escrita

O escritor Ferreira de Castro (1898-1974) consagrara-se na criação literária e também exercia uma intensa atividade cívica. Concedeu ao Diário de Lisboa, a 17 de novembro de 1945, uma entrevista publicada ao abrigo dos vinte dias da chamada «liberdade sufi ciente». Denunciou as feridas e as pústulas que alastravam nas áreas políticas, culturais e sociais. Mas, de imediato, observou: «A falta de liberdade de pensamento é a causa fundamental, a única mesmo, de tudo quanto se tem passado. O resto são simples consequências».

Citou exemplos: 

«Desde 1935 em diante, uma obra como «Os Lusíadas» talvez não pudesse ser publicada (…). A primeira ou uma das primeiras circulares da censura, enviada aos jornais em 1926, e que eu li, proibia, entre outras coisas, a transcrição de páginas de Alexandre Herculano, de Ramalho Ortigão, de Eça de Queiroz e, se bem me lembro, de Oliveira Martins. Herculano está no panteão e se os outros três escritores não estão lá, não é porque não o mereçam também.»

Aludiu a três casos concretos: «Aquilino Ribeiro, a pedido do seu editor, que temia represálias, mandou um livro seu à censura. E a censura proibiu o livro de Aquilino. Alves Redol, tem outro livro também proibido. José Régio, viu um romance seu retirado da circulação»

O censor imaginário

«Escrever assim — continuou Ferreira de Castro — é uma verdadeira tortura. Porque o mal não está apenas no que a censura proíbe mas também no receio do que ela pode proibir. Cada um de nós coloca, ao escrever, um censor imaginário sobre a mesa de trabalho — e essa invisível, incorpórea presença tira-nos toda a espontaneidade, obriga-nos a mascarar o nosso pensamento, quando não a abandoná-lo, sempre com aquela obsessão: «Eles deixarão passar isto?».

«O regime ditatorial de Salazar — salientava noutro passo — construiu estradas, portos, edifícios escolares, mesmo hospitais, tão bons como os de Nova York. Mas, ao mesmo tempo, tirou (aos portugueses) toda a liberdade de exprimir a sua opinião. Persegue-os, deporta-os e deixa-os serem injuriados. Criou (estávamos em 1945) durante 20 anos, um regime de medo».

«Não sou político» – insistia Ferreira de Castro – «Sou apenas um intelectual que deseja, que luta por uma Humanidade menos infeliz do que ela é. Mas confesso que não compreendo esse patriotismo que não cessa de clamar, perante os povos livres do Mundo, que nós, portugueses, somos tão inferiores a eles que só podemos viver como um rebanho de escravos».

O poeta Sidónio Muralha, (1920-1982) não podia sufocar este grito 

“Já não há mordaças, nem ameaças,/ nem algemas que possam impedir/ a nossa caminhada,/ em que os poetas são os próprios versos dos poemas”. O mesmo aconteceu com o poeta Joaquim Namorado (1914-1986): “Abafai-me os gritos com mordaças,/ maior será a minha ânsia de gritá-los; /amarrai-me os pulsos com grilhetas,/ maior será a minha ânsia de quebrá-las;/ rasgai a minha carne, triturai os meus ossos,/ o meu sangue será a minha bandeira;/ meus ossos o cimento de uma outra humanidade,/ que aqui ninguém se entrega./ Isto é vencer ou morrer!”.

Do outro lado do mar, Jorge de Sena (1919- 1978 ) enviava este poema repleto de ansiedade, de inquietação e de algumas réstias de esperança: 

«Eu não posso senão ser/ desta terra em que nasci./ Embora ao mundo pertença/ e sempre a verdade vença,/ como será ser livre aqui, / não hei-de morrer sem saber./ Trocaram tudo em maldade,/ É quase um crime viver./ Mas, embora escondam tudo/ e me queiram cego e mudo,/ Não hei-de morrer sem saber/ Qual a cor da liberdade».

O 25 de Abril interrompeu 50 anos de ditadura imposta por Salazar e continuada por Marcelo Caetano. O testemunho de José Cardoso Pires (1925-1998) assistiu ao que se passou e transpôs para a literatura nestes parágrafos de referência: 

“A cidade apareceu ocupada e radiosa. Deparamos com colunas de militares inundadas de sol; o povo, logo a seguir, muito povo, tanto que não nos cabia nos olhos, levas de gente saída do branco das trevas de cinquenta anos de morte e de humilhação, correndo exatamente não sabendo para onde, mas de certo para a Liberdade”.

“Sem medo, nem roteiro” – acrescenta José Cardoso Pires – "fizemos desta Lisboa um horizonte aberto, uma cidade de cravos nas pontas dos fuzis e e havia um arcanjo de pedra a guardar-nos a cada esquina. Era o estrondo final da catedral do medo, cinquenta anos, meio século, vencidos num só dia, e para onde se olhasse só se viam lágrimas e cravos e abraços que passavam de pessoa em pessoa, de rua em rua e se prolongavam de Norte para o Sul, até ao mar.”

O Movimento das Forças Armadas que surgiu na madrugada do 25 de Abril, transmitiu-se com a poesia e a música de José Afonso. O inventário da contribuição da música e dos seus intérpretes tem sido analisado por Nuno Pacheco que evidencia o significado da intervenção desempenhada, logo de início, por José Afonso, Carlos Alberto Moniz, Fernando Tordo, Carlos Mendes, entre muitos outros.

Um pouco por todo o país, os cravos vermelhos logo se transformaram num dos símbolos vivos da revolução. Os poemas de Manuel Alegre (1936) converteram -se na voz da nossa própria voz: 

“Foram dias, foram anos a esperar por um só dia./ Alegrias. Desenganos. Foi o tempo que doía/ Com seus riscos e seus danos. Foi a noite e foi o dia/ Na esperança de um só dia. Foram batalhas perdidas. Foram derrotas e vitórias./ Foi a vida (foram vidas). Foi a História (foram histórias)/ Mil encontros despedidas. Foram vidas (foi a vida)/ Por um só dia vivida./ (…) Fogos-fátuos cinza fria. Musa minha que cantávas/ A canção que se vestia com bandeiras nas palavras:/ Armas que o tempo tecia. Minha vida, toda a vida/ Por um só dia vivida”.

Sophia de Mello Breyner (1919-2004) num poema ilustrado por Vieira da Silva, acerca do 25 de Abril escreveu: 

“Esta é a madrugada que eu esperava /O dia inicial inteiro e limpo /Onde emergimos da noite e do silêncio/E livres habitamos a substância do tempo.”

Mas é ainda noutro poema que Sophia enalteceu Salgueiro Maia (1944-1992), o militar que permanece como símbolo entre os militares de Abril: 

“Aquele que na hora da vitória/respeitou o vencido/ Aquele que deu tudo e não pediu a paga/ Aquele que na hora da ganância/ Perdeu o apetite/ Aquele que amou os outros e por isso/ Não colaborou com a sua ignorância ou vício/ Aquele que foi «Fiel à palavra dada à ideia tida»/ como antes dele mas também por ele Pessoa disse”.

Enquanto vivo, Fernando Salgueiro Maia pertenceu aos «heróis marginalizados». Ficou sepultado, em campa rasa, no cemitério de Castelo de Vide. Mas Salgueiro Maia faz parte da História: 

“A figura vai ganhando relevo com o tempo, à medida que sopra o vento, expulsa as folhas caídas e a rocha firme fica despida e limpa, os alicerces sobre os quais se levanta o país, um Portugal livre, dono do seu destino, enriquecido por uma revolução na qual a união do Povo com as suas Forças Armadas deram uma lição ao mundo”.

A grande surpresa

Mas, juntamente com as manifestações entusiásticas da maioria da população, acentuou-se o ceticismo militante e impetuoso de Miguel Torga (1907-1995). Proferiu em Arganil, num encontro do Partido Socialista um discurso que deixou todos, no mínimo, surpreendidos: 

“Hora angustiosa que nada fazia prever em Abril de setenta e quatro, quando uma manhã de esperança raiou no espírito de todos nós. Depois de meio século de negrura, o sol da liberdade brilhou inesperadamente em Portugal. E foi, como sabeis, uma festa universal. Depressa, porém, a tristeza voltou”.

“A palavra revolução – advertiu Miguel Torga – acolhida com benevolência até nos ouvidos, mais refractários, em vez de, como outrora, significar uma rotura promissora e fecunda, passou a evocar apenas a desordem à solta nas ruas, e o arbítrio e a prepotência, ensarilhados na parada dos quartéis. Creio que nenhum português consciente esquecerá até ao fim dos seus dias estes dois anos aziagos. Enganada na sua boa fé, a alma da Nação foi durante eles indelével e dolorosamente tatuada por todos os estigmas da desgraça.”

Já muito depois do PREC e do chamado Gonçalvismo, Miguel Torga também inseriu, no Diário, com data de 2 de janeiro de 1993 mais outro texto que aumentou a nossa perplexidade: 

“Abolição das fronteiras. Livre circulação de pessoas e bens. Ocupados sem resistência e sem dor. Anestesiados previamente pelos invasores e seus cúmplices, somos agora oficialmente europeus de primeira, espanhóis de segunda e portugueses de terceira”.

Contra a entrada na Europa

Para estupefação maior dos seus leitores, já havia escrito, a 11 de maio de 1992: 

“Tenho certo que Maastricht há-de ser uma nódoa indelével na memória da Europa, envergonhada de, no curso da sua gloriosa história, ter trocado neste triste momento o calor do seu génio criador pela febre usurária, e, nas próprias assembleias onde prega a boa nova das regras comunitárias, fintar de mil maneiras os parceiros. Só que as grandes potências podem dar-se ao luxo de todos os jogos malabares e safadezas e assinar até tratados ardilosos com abdicações aparentes da sua identidade. E as pequenas não. Se, por leviandade ou megalomania, arriscam um mau passo no caminho da independência, perdem-na de vez. Que é, infelizmente, o que, se o destino nos não acudir com um milagre, nos vai acontecer”.

Insurgiu-se contra o Tratado de Maastricht, que efetivou as bases da União Europeia e que nos permite residir e circular livremente; partilhando valores comuns, interesses primordiais de independência; e instituiu uma cooperação estreita nas áreas da justiça e de assuntos internos, a fim de assegurar a segurança e assegurar a segurança e a proteção dos cidadãos europeus.

A adesão Portugal à Europa, celebrada no cenário emblemático do claustro dos Jerónimos, levou Miguel Torga a mais estas afirmações categóricas: 

“1 de Novembro de 1993 – Entrada em vigor da União Europeia, eufemismo encontrado para nomear o negregado Tratado de Maastricht. Lá estamos, atentos à batuta do novo Bismark impante que tudo vai poder e dominar no seu teutónico quartel monetário. Lá estaremos, infelizmente, na condição de humildes súbditos agradecidos, sem autonomia e sem voz, a beber champanhe comprometidamente, como parentes pobres numa boda de nababos, e a estender a mão ávida, a pedir mais dinheiro para comprar votos. E o ricaço, e os parceiros incautos que arregimentou, prodigamente, abrem os cordões à bolsa. Quem quer bons serviçais, paga-lhes”.

A multiplicação de incógnitas

Que significa tudo isto escrito e reescrito até à exaustão por um escritor e poeta com a responsabilidade de Miguel Torga, diversas vezes indigitado como candidato ao Prémio Nobel da Literatura? Regressar a um Portugal «orgulhosamente só», tal como proclamava Salazar? A Procuradora-Geral da República emitiu – a 7 de novembro de 2023, data que não se pode esquecer – um comunicado com um parágrafo final, ainda não devidamente esclarecido, e que desencadeou outra realidade política e social.

Os escrutínios alarmantes, os ódios à solta acentuam um quadro político e social suscetível de mais um desgaste eleitoral, com resultados imprevisíveis, e porventura, ainda mais preocupantes. Apesar das incógnitas que enfrentamos, neste momento, qualquer que seja a avaliação, o 25 de Abril e dos ciclos do processo governativo, colocam-nos perante o rosto de um Portugal diferente.

Falta muito para atingir o desejável; mas faltará sempre. Aqui e em muitos outros países livres e democráticos de todo o mundo. 

“Apesar das incógnitas que enfrentamos, neste momento, qualquer que seja a avaliação, o 25 de Abril e dos ciclos do processo governativo, colocam-nos perante o rosto de um Portugal diferente.”

*Jornalista, carteira profissional número UM

sábado, 27 de abril de 2024

TODA A GLÓRIA É EFÉMERA

Quando os generais romanos ganhavam
uma guerra dura e bem combatida,
davam-lhes um cortejo e rumavam
ao centro de uma Roma agradecida.

Eram merecidas as ovações
e os generais acenavam ao povo,
por tais amistosas saudações,
naquela praça cheia como um ovo!

O orgulho enchia-lhes o peito,
mas um escravo, encostado ao seu ouvido,
avisava que o triunfo é suspeito

e a glória tem fim subentendido.
Os generais ouviam, distraídos,
anúncios que deviam ser ouvidos!

Eugénio Lisboa

quinta-feira, 25 de abril de 2024

A LIBERDADE COMO CONSTRUÇÃO HUMANA E FINALIDADE ÚLTIMA DA EDUCAÇÃO

"O Homem é incapaz de gerir a sua liberdade por natureza. 
É preciso educar-se a si mesmo. 
Disciplinar-se, instruir-se e finalmente, capaz de moralizar-se,
com o intuito de saber utilizar ele próprio a sua liberdade."
Immanuel Kant
 
Nos anos 70 e 80 do século XVIII, Kant leccionou Pedagogia. As notas que esboçou foram organizadas e publicadas por Friedrich Theodor Rink, um dos seus estudantes, no pequeno volume que se apresenta ao lado, saído em 1803. Nele se pode perceber claramente a sua ideia iluminista da educação.
 
"O Homem é a única criatura que deve ser educada", declarou. Isto porque a sua natureza é educável, perfectível. Mas não basta que assim seja, precisa de ser educada por outrem. Educar significa, pois, levar aquele que se educa a tornar-se mais perfeito do que aquilo que é.
 
A liberdade, como capacidade - e coragem - de cada um usar a razão, é o centro desse desígnio. Assim, toda a educação deve visar a liberdade. Mas, convém ter presente que educar, segundo esse desígnio, "é o maior e o mais difícil problema que pode ser colocado ao Homem". 
 
Na verdade, implica aprender a pensar; melhor, a pensar por si, para que possa agir, autonomamente, em função da lei moral.

Considero que é de grande importância, no dia em que se festeja, em Portugal, o meio século depois da Revolução de Abril, voltarmos a Kant. Ainda que a educação, com destaque para a educação escolar, não seja garantia absoluta da manutenção da liberdade e da sua irmã democracia, ela é, por certo, o melhor caminho de que dispomos para chegarmos o mais perto possível destes valores. 
 
Mas, para isso temos, como sociedade, de conseguir manter a escola pública e os seus professores. Elevando-a através de um ensino capaz de desenvolver a inteligência das novas gerações, tendo por horizonte a acção ética. 

Reconheço que o desafio é grande num tempo em que (também) em Portugal são reais as tentativas de dissolução dessa instituição maravilhosa e de subversão da função docente.

quarta-feira, 24 de abril de 2024

CONTRA A HEGEMONIA DA "NOVA NARRATIVA" DA "EDUCAÇÃO DO FUTURO", O ELOGIO DA ESCOLA, O ELOGIO DO PROFESSOR

Para compreender – e enfrentar – discursos como o que aqui reproduzimos, da lavra da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), ao qual, com honrosas excepções, políticos, comunicação social, académicos e educadores de demasiados países do mundo se curvam, recomendamos a leitura de dois livros organizados pelo professor de Ciências da Educação Jorge Larrosa, da Universidade de Barcelona (aqui e aqui). Maria Helena Damião e Cátia Delgado.
 
"Atualmente, estamos assistindo a certa dissolução da forma tradicional da escola. A escola, diz-se, já não é o único lugar da educação, e talvez não seja o mais adequado. A escola, diz-se, se transformou em um lugar anacrónico, obsoleto, desagradável e ineficaz. A aprendizagem, diz-se, ultrapassa as fronteiras da escola e se dá em todos os lugares e a qualquer momento. A crítica da escola se tornou um lugar-comum, e a educação ficou sem um lugar próprio. E é agora, neste momento de crítica e dissolução da forma da escola, que queremos repensá-la amorosamente para reencontrar sua especificidade e sua autêntica natureza. Este livro apresenta diversos exercícios de pensamento (textos, filmes e exposições) que tentam trazer ao mundo aspectos da escola, do estar na escola, do ordinário da escola, de uma memória escolar em suas atualizações, do chiaroscuro no cotidiano escolar, de tudo o que ainda faz com que a escola exista como lócus para um espaço público e um tempo livre." (aqui).
 
"Com as críticas ao professor tradicional, a exigência por inovação e a redefinição das funções da escola, o ofício de professor – que Hannah Arendt relacionava à transmissão e à renovação do mundo comum – vem sendo desqualificado. E as pessoas que o exercem estão sendo redefinidas como mediadoras, coaches, animadoras de aula ou impulsionadoras das aprendizagens autónomas. Ao mesmo tempo, são submetidas cada vez mais à “reciclagem” permanente, à precariedade laboral, à perda de sua autoridade simbólica e à dissolução do sentido público (e, portanto, independente) de seu trabalho. Reagindo a essa constatação, os autores deste livro dedicam tempo e atenção às formas, aos gestos e às materialidades que compõem o ofício de professor." (aqui)."
 
"Os organizadores deste volume, Jorge Larrosa, Karen Christine Rechia e Caroline Jaques Cubas, colaboram há anos em um projeto de largo alcance orientado a pensar e a defender a escola pública (tão ameaçada) e a dignificar o ofício de professor (tão precarizado). No marco desse projeto, foram organizadas algumas das atividades que deram lugar a este livro, assim como a Elogio da escola (aqui)."

VENERAR O QUE NÃO EXISTE

Sumptuosas catedrais e mesquitas,
erguidas com fortunas e suor,
votadas a um deus que não exista,
servirão o fervor ou o terror?

Tanta pedra e também tanto luxo
votados àquilo que não tem prova,
alimenta-se em saber de bruxo
ou em arte que tal saber promova?

Aceitar o contraste perturbante
entre a fé que se não pode provar
e a pedra que a venera, triunfante,

mostra como se podem conjugar
a fé por que anseia o coração
com a recusa que vem da razão.
                                                            Eugénio Lisboa

segunda-feira, 22 de abril de 2024

NOVOS CLASSICA DIGITALIA

Os Classica Digitalia têm o gosto de anunciar 2 novas publicações com chancela editorial da Imprensa da Universidade de Coimbra. Os volumes dos Classica Digitalia são editados em formato tradicional de papel e também na biblioteca digital, em Acesso Aberto.

Fora de Série [estudos de homenagem]

 

Carmen Soares, Marta González González & Nuno Simões Rodrigues (Coords.), Neste lugar, a sagrada Hélade salvámos. Homenagem a Luísa de Nazaré Ferreira, vol. I (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2024). 333 p.

DOI: https://doi.org/10.14195/978-989-26-2478-5


Carmen Soares, Marta González González & Nuno Simões Rodrigues (Coords.), Neste lugar, a sagrada Hélade salvámos. Homenagem a Luísa de Nazaré Ferreira, vol. II (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2024). 341 p.

DOI: https://doi.org/10.14195/978-989-26-2488-4

  

[Esta obra reúne um conjunto de estudos em homenagem a Luísa de Nazaré Ferreira. Especialistas de diferentes domínios científicos refletem sobre temas relacionados com a Grécia e a História Antigas, mas também com outras áreas da História, da Literatura, da Política e da Religião. Salamina constitui o eixo central em torno do qual se organiza o Vol. I – testemunhos literários, o seu impacto na História e a receção na Arte e na Literatura. O Vol. II congrega diversos contributos, do Egito e Roma Antigos à Época Moderna e Contemporaneidade. A riqueza de temáticas, transversais no tempo e no espaço, reflete as respostas dos colegas, amigos e discípulos ao apelo de participar nesta homenagem à helenista, professora e investigadora da Universidade de Coimbra, Luísa de Nazaré Ferreira.]

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Rushdie e a decência humana

Imagem recolhida no jornal El País : aqui Depois de Segunda Grande Guerra, o Ocidente declarou "nunca mais": nunca mais à destruiç...