sexta-feira, 29 de outubro de 2021

A FIGUEIRA E A CIÊNCIA

Do jornal O FIGUIRENSE:

 A Figueira da Foz e a ciência Várias vezes estive na Figueira da Foz para reuniões científicas. Lembro-me de ter estado em 2000 na 12.ª Conferência Nacional de Física, na qual a estrela foi Leon Lederman, Nobel da Física de 1988 (foi ele que deu o nome de “partícula de Deus” ao bosão de Higgs). Coorganizei nessa cidade a 1.ª Escola Internacional em Física Computacional, que aí teve lugar em 1999. E em várias ocasiões fui convidado a fazer palestras no Casino da Figueira

Confesso que nunca percebi por que razão a Universidade de Coimbra não tem uma delegação na Figueita da Foz (tem uma em Alcobaça), que organizasse conferências e escolas de Verão, para além de dinamizar em permanência actividade local de investigação. Ressalvando o excelente trabalho que tem sido feito pelo instituto MARE de Coimbra na ilha da Morraceira na foz do Mondego, parece-me que muito há a fazer na investigação do mar nesse sítio privilegiado da Natureza onde não só o rio se junta ao mar como a serra da Boa Viagem cai sobre a água, num sítio que, há mais de 150 milhões de anos, foi povoado por dinossauros. O mar podia ser uma marca forte da ciência portuguesa e a Figueira da Foz um dos sítios essenciais dessa investigação. A Figueira da Foz é não só um viveiro das letras e artes, como o é sem dúvida - basta lembrar nomes como David de Souza, Eduardo Nery, João César Monteiro e Afonso Cruz - também das ciências e tecnologias – lembro nomes como o arqueólogo António dos Santos Rocha, o filósofo e historiador de ciência Joaquim de Carvalho, o botânico Luís Wittnich Carrisso e o engenheiro civil Manuel Rocha. 

Dos nomes dos cientistas figuerenses em plena actividade, permito-me, entre muitos outros, destacar, porque os conheço pessoalmente, Sílvia Curado, geneticista a trabalhar em Nova Iorque, e Rui Curado da Silva, físico de altas energias especialista em instrumentação espacial. A Figueira tem de aspirar a ter um papel da ciência do que simplesmente ser um berço de cientistas. Pode e deve ser uma cidade de ciência.


 

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

O DESPORTO COMO ASPIRAÇÃO DE TRANSCENDÊNCIA

 


Meu prefácio a "Estádio de Espírito" de César Rodrigues;

Segundo Aristóteles, os Jogos Olímpicos nasceram em Olímpia, na península do Peloponeso, na Grécia, em 776 a.C.. Terão terminado em 394 da era cristã, com o incêndio do templo de Zeus nessa cidade.  Só foram reatados em 1896, em Atenas, sob o impulso do francês Pierre de Coubertin. Neste ano de 2021 tiveram lugar em Tóquio os XXXII jogos da era moderna, após um adiamento de um ano devido à pandemia de Covid-19.

Nos Jogos Olímpicos antigos estava bem patente a aspiração de transcendência. Entre vários outros mitos, atribuía-se a Hércules, filho de Zeus, a fundação dos jogos, em homenagem ao seu pai, após ter realizado os seus doze trabalhos. Os jogos tinham lugar no lugar do santuário de Zeus em Olimpia, onde se encontrava uma estátua colossal do “deus dos deuses”, que era uma das sete maravilhas do mundo antigo (o nome “Olímpia” tem a ver com o Monte Olimpos, a alegada morada dos deuses, que fica muito longe, no Norte da Grécia). A chamada “trégua olímpica” significava que as guerras deviam ser interrompidas para estas cerimónias, que tinham um carácter marcadamente religioso. De algum certo modo os Jogos Olímpicos eram uma forma de honrar os deuses, sendo os vencedores um elo entre os homens e as divindades, entre o mundo terreno e mundo celeste. Os vencedores, coroados de louros, cantados em poemas e eternizados sob a forma de estátuas, deveriam ser exemplos.

Herdando a tradição olímpica, o desporto, na sua acepção mais nobre, constitui, nos nossos dias, uma forma de elevação do ser humano. O lema olímpico Citius, Altius, Fortius – “Mais rápido, mais alto, mais forte” – expressa precisamente este desejo de transcendência, de ir além dos actuais limites. Os atletas procuram dar o melhor de si, numa atitude que nos pode inspirar a ser melhores. Os vencedores olímpicos já foram chamados os “deuses do estádio”, significando que eles são, num certo sentido, os “melhores de nós”. O desporto, olímpico ou não, pode fornecer lições para a vida, como em Portugal tão bem tem ensinado o filósofo do desporto Manuel Sérgio.

César Rodrigues é, entre outras áreas, um estudioso do fenómeno desportivo, investigação que realiza no quadro do CEISXX, o Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra. Tive ocasião de colaborar com o César em dois livros anteriores,  saídos em 2016, com o propósito de assinalar os 50 anos do 3.º lugar de Portugal no Campeonato Mundial de Futebol. Num deles, Mundial: 66 olhares, contribuí com um artigo, onde contei as minhas memórias dessa competição, que passam pela fabulosa vitória de Portugal (ou melhor, de Eusébio…), por 5-3 contra a Coreia do Norte, depois de estar a perder por 3-0. No outro livro, Mundial 66: 100 primeiras páginas, tive o prazer de a apresentar, em Coimbra, na companhia de António Simões, um dos “magriços” lusitanos de 1966 (nunca pensei, confesso, que pudesse “jogar” a seu lado). Mais recentemente, no seu livro de crónicas 5295, com o subtítulo Política, Sociedade, Comunicação, Educação, Desporto (2017), redigi um comentário a uma crónica, tal como fizeram outros comentadores convidados. A propósito de emigração falei da teoria da relatividade de Einstein.

No presente volume, Estádio de Espírito, César Rodrigues reúne um conjunto de crónicas sobre desporto, que são também comentadas por diversos autores. Algumas delas versam os Jogos Olímpicos, quer os de Verão quer os de Inverno. Distingo a crónica sobre a morte do português Francisco Lázaro, que, como membro da primeira delegação portuguesa aos V Jogos Olímpicos da era moderna realizados em Estocolmo, em 1912, morreu em plena prova da maratona, tal como o lendário soldado grego que vinha trazer notícias da batalha da Maratona contra os Persas. Uma ligação pouco conhecida à ciência é que um outro atleta português desses jogos foi Armando Cortesão (natural de S. João do Campo, Coimbra, na altura com 21 anos), que começou a sua carreira como engenheiro agrónomo e depois se tornou um notável historiador na área da náutica e da cartografia. Ora Cortesão foi o autor da tese A teoria da mutação e o melhoramento das plantas (Estudo trematológico), realizada no Instituto Superior de Agronomia, em Lisboa, em 1913, que foi pioneira entre nós da genética, uma ciência que emergia nessa altura.

Algumas das crónicas deste livro são, como não podiam deixar de ser, sobre o futebol, o “desporto-rei”, mas a maioria trata de outras modalidades desportivas, que vão do surf ao motociclismo, passando pelo ténis. Foram publicadas em vários jornais e revistas, avultando o site da revista Sábado. Reunidas entre as capas deste livro, essas crónicas ganham não só uma imagem de conjunto como também perenidade. Ficam deste modo acessíveis a nós que somos deste tempo e aos historiadores que, no futuro, nos queiram conhecer. Ninguém pode conhecer bem uma dada época do país ou do mundo, sem conhecer as suas variadas e por vezes muito intensas manifestações desportivas.

O autor escreve de uma forma leve e com sentido de humor, como convém para atrair leitores. Tenta não só captar um momento, mas extrair pedagogicamente uma lição. Já não temos os deuses do Olimpo, mas o desporto ainda deve ser, nos tempos de hoje, uma escola de virtudes. É ainda um extraordinário meio de superação humana, como já era na remota Antiguidade. Continua a convidar-nos a ir mais longe.  O desporto é, hoje como antigamente, uma forma de transcender a nossa humana condição.

Carlos Fiolhais*
*Professor de Física da Universidade de Coimbra


A QUÍMICA AO PÉ DA LETRA


Minha recensão no último As Artes entre as Letras:

A Editora da Universidade do Porto, com a marca «U. Porto Press», acaba de publicar, na sua colecção «Transversal»,  o livro Química ao pé da letra, de um colectivo de seis autores: João Carlos Paiva, Carla Morais, Martinho Soares, José Araújo, Hugo Viera e Luciano Moreira. Os dois primeiros são professores no Departamento de Química e Bioquímica e investigadores da Unidade de Ensino das Ciências da Faculdade de Ciências daquela Universidade. O terceiro é investigador em Estudos Clássicos e Humanísticos e docente na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.  O quarto e quinto estão ligados, pela formação e pela prática, ao Ensino e Divulgação das Ciências, em especial as Ciências Físico-Químicas. E o último, mestre em Psicologia, é docente na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto. Fica, pela variedade da formação dos autores, desde logo justificada a inclusão do livro numa colecção que se reclama da transversalidade.

O título da obra sugere que se trata de juntar a química e a linguagem. Cada ciência tem a sua linguagem própria, não fugindo a química a essa regra geral, embora haja alguma linguagem comum na ciência (a palavra «Laboratório», por exemplo). A epígrafe do livro remete para o uso da palavra “palavras” em poemas de António Gedeão, que foi o pseudónimo literário do professor de Física e Química Rómulo de Carvalho (“Por que, sem escolha, me entrego/ nas palavras escolhidas,/ sementes evoluídas/ cumprindo um destino cego»).

Na Introdução os autores explicitam o objetivo da obra:

«As palavras da química são descritas nesta obra de forma breve e de acordo com uma estrutura tripartida: a contextualização da palavra, onde se procura enfatizar a sua relevância social e, sempre que oportuno, as suas relações com outras áreas científicas, com a tecnologia e com o ambiente. Segue-se depois a sua definição científica, pautada pelo compromisso equilibrado entre o rigor e a simplicidade. Por último, procede-se à exemplificação que se traduz na apresentação de aplicações concretas do termo, em situações do nosso dia a dia. »

Os autores dão logo a seguir exemplos elucidativos:

«Estas palavras da química, categorizadas e apresentadas por ordem alfabética, são como que desmontadas, nas suas raízes etimológicas. (…) Talvez ajude saber que ‘molécula’ pode ter a ver com ‘muito pequeno’ e, daí, voltar a esse agregado com distância típica entre átomos da centena de picómetros. Talvez ajude saber que ‘substância’, uma palavra tão crucial em química, se pode ligar, no seu filão etimológico, a ‘estar na base de’, ‘que subsiste’, ‘que está dentro’. »

O livro divide-se em quatro capítulos: «Química: a História e o Lugar», que discute só três palavras («Alquimia», «Química» e «Laboratório»); «Conceitos e Entidades Químicas» (o maior, com 105 páginas, um verdadeiro dicionário de química, que vai de «ácido» a «volátil»); «Técnicas laboratoriais» (de novo vale a ordem alfabética, existindo entradas que vão de «Centrifugação» a «Titulação»); e, por último, «Instrumentos e Material de Laboratório» (a lógica é a mesma, com palavras que vão de «Almofariz» a «Vidro de relógio».

No posfácio subintitulado «Das raízes das palavras às rotas da química», que começa com o poema de Eugénio de Andrade «As palavras» (“São como um cristal,/ as palavras./  Algumas, um punhal/ um incêndio./ Outras,/ orvalho apenas.»), os autores sumariam a arte de usar as palavras na ciência química.

Quem não souber poderá neste livro aprender que «átomo» é a justaposição dos elementos gregos a, que significa negação, e tomo, que significa corte. Portante «átomos» são entidades que não admitem cortes, isto é, indivisíveis: de facto, para os antigos gregos, os átomos eram as partículas que não se podiam dividir. A diferença entre os químicos e  os físicos é que, hoje em dia, os primeiros tratam dos agrupamentos de átomos, que se pode fazer das formas mais variadas, embora obedecendo a certas leis, ao passo que os segundo tratam dos constituintes fundamentais dos átomos e das suas interacções.  Hoje continuamos a  usar a palavra «átomo», apesar de sabermos que eles se dividem em núcleos atómicos e electrões, os núcleos atómicos em protões e neutrões, e estes em quarks, uma palavra retirada à literatura (surge em Finnegan’s Wake, de James Joyce).

Outra palavra da química: catálise. Resulta do prefixo kata (para baixo, sobre, contra), e lya (desligar, soltar, libertar), pelo que a ideia  subjacente é «dissolver, destruir». O Prémio Nobel da Química deste ano foi atribuído a investigadores que desenvolveram uma nova forma de catálise (a «biocatálise assimétrica»): Benjamin List, alemão, professor da Universidade de Colónia actuivo no Instituto Max Planck para a Pesquisa com Carvão, em Mülheim an der Ruhr, e David MacMilan, norte-americano de origem escocesa, professor da Universidade de Princeton, colocaram à disposição dos químicos uma nova ferramenta que permite acelerar reações químicas.

Um outro exemplo do muito que se pode aprender neste livro é a origem da palavra «colóide». Vem do grego kola (cola) + eidos (forma, aparência, semelhança), pelo que colóide significa «semelhante a cola». De facto, a cola é uma substância coloidal. Colóides em geral são misturas de materiais cujos componentes têm dimensões minúsculas. Os aerosóis, as espumas, as emulsões, os sóis e os géis são todos eles colóides.

Estamos, como se vê, em presença de uma excelente obra onde podemos aprender química sabendo línguas ou aprender línguas sabendo química. O conhecimento pode e deve ser transversal.

No final da Introdução, os autores salientam a metáfora entre átomos e palavras:

«Regista-se uma cumplicidade analógica entre a química e a palavra, que merece aqui ser sublinhada. Há corpúsculos a que chamamos átomos (quais letras), que se podem agrupar em moléculas e outros agregados (quais palavras), que no seu conjunto originam estruturas mais complexas (quais frases e textos), que constituem a matéria (quais livros), que se transforma e dá vida. E depois há o fascínio de como as coisas são… como há na poesia!»

PRIMO LEVI E AUSCHWITZ

 


Minha recensão no I de hoje:

O italiano Primo Levi (1919-1987), nascido em Turim de uma família judaica e formado em Química em 1941, tornou-se escritor por causa de Auschwitz - o campo de concentração nazi no sul da Polónia onde esteve internado de 21 de Fevereiro de 1944 até à libertação pelo Exército Vermelho em 27 de Janeiro de 1945. Chegou numa camionete de gado, vindo do campo de Fossoli, perto de Modena, em Itália, onde as milícias fascistas italianas o tinham aprisionado com um grupo de resistentes. Dos 650 judeus italianos que chegaram na leva de Levi só 20 sobreviveram. Valeram-lhe na provação os seus conhecimentos de Química que lhe permitiram trabalhar, em condições desumanas, na fábrica de borracha da empresa alemã IG Farben em Auschwitz. E valeu-lhe sobretudo a ajuda secreta de Lorenzo Perrone, um operário de construção civil no campo, não exactamente um prisioneiro, e tal como ele piemontês, que lhe deu diariamente pão para além de um reforço de vestuário, impedindo que morresse de fome ou de frio, como aconteceu a muitos outros. A gratidão de Levi levou-o a dar aos seus dois filhos os nomes de Lorenza e Renzo, para além de o ter apresentado como herói nos seus escritos. No primeiro dos seus livros, saído no original em 1947, Se Isto É Um Homem (Teorema, 1988; hoje em 19.ª edição na Dom Quixote, 2020; saiu também na colecção «Livros RTP» da Leya, 2018) escreve: «Lourenço era um homem (…) Graças ao Lourenço, consegui não me esquecer que eu próprio era um homem». O  êxito desse livro, um dos maiores testemunhos da desumanidade do Holocausto, só chegou quando em 1958,  foi editado pela Einaudi, a grande editora de Turim, e começaram as sucessivas traduções em várias línguas, incluindo uma em alemão que o próprio autor supervisionou.

O segundo livro de Levi, A Trégua, tardou década e meia. Publicado em 1963 (entre nós só em 2004 pela Teorema; edição corrente: Dom Quixote, 2017), conta o seu regresso a casa através de uma travessia de oito meses por uma Europa devastada, passando pela Bielorrússia, Ucrânia, Roménia, Hungria, Áustria e Alemanha. Originou nos anos 1990 um filme de Francesco Rosi. Quando saiu essa obra, Levi sofria de uma depressão, reveladora da sua dificuldade em ultrapassar as suas terríveis memórias. Mas continuou a escrever, noutros registos: Storie Naturali, Vizio di Forma e Lilit e Altri Raconti , três colectâneas de contos, e L’Osteria di Brema, um livro de poesia. Para mim, a sua obra-prima é O Sistema Periódico, original de 1975 (Gradiva, 1988, com tradução de Maria do Rosário Pedreira, hoje poeta consagrada; Dom Quixote, 2017). Trata-se de um conjunto de histórias autobiográficas, cada uma delas associada a um elemento da Tabela Periódica. A Royal Society de Londres elegeu, em 2006, este livro o «melhor livro de ciência de sempre». Os dois únicos romances de Levi são A Chave de Luneta (Almedina, no prelo) e Se Não Agora, Quando? (Dom Quixote, 1988). Os seus últimos escritos em vida foram um segundo volume de poesia e três de ensaios, entre os quais Os Que Sucumbem e Os Que Se Salvam (Teorema, 2008; Dom Quixote, 2018).

Primo Levi morreu após ter caído no vão da escada de acesso ao seu apartamento num prédio de três andares. Ainda hoje há controvérsia sobre se foi ou não suicídio. Alguns, incluindo a polícia e certos biógrafos, dizem que foi, em consequência de depressão e desespero, por não conseguir cuidar da sua mãe e sogra que viviam com ele. O escritor norte-americano Elie Wiesel, Nobel da Paz, e, tal como Levi, judeu internado num campo de concentração, disse que «Primo Levi já tinha morrido em Auschwitz 40 anos antes». Outros defendem que foi uma queda casual. A sua amiga Rita Levi-Montalcini, judia de Turim, premiada com o Nobel de Medicina, afirmou que «como químico podia ter escolhido uma maneira melhor de morrer do que saltar de uma escadaria apertada, correndo o risco de ficar paralisado para a resto da vida.»

Acaba de sair na editora Dom Quixote, que tem cuidado entre nós da publicação das obras de Levi, o livro Auschwitz, Cidade Tranquila, uma antologia de dez contos, contidos entre dois poemas. Todos eles estavam inéditos entre nós excepto «Cério» e «Vanádio», que são parte de O Sistema Periódico, agora reproduzidos na tradução original. Os restantes foram traduzidos  por Diogo Madre Deus. O livro inicia-se com uma apresentação de Fabio Levi e Domenico Scarpa, membros do Centro Internacional de Estudos Primo Levi, sediado em Turim (o primeiro, sem ligação familiar a Primo Levi, é historiador e director do Centro). Essa introdução explica a origem dos contos, o seu tema e a sua relação com outras obras literárias, não só do autor como da literatura universal, por exemplo a Divina Comédia, de Dante. O livro fala, directa ou indirectamente, de Auschwitz, onde o autor foi vítima e observador. O conto «Capaneu» (nome de um personagem da Divina Comédia)  descreve dois dos seus companheiros quando a guerra se aproximava do fim e Auschwitz sofria violentos bombardeamentos. Começa assim: «A mim, vocês conhecem-me. Pode ser que naquele tempo e lá em baixo, com aqueles farrapos às riscas, a barba ainda mais malfeita do que é hábito e o cabelo rapado, o meu aspecto fosse muito diferente do de hoje; mas isso não tem importância, a essência não mudou. Do Vidal, ao invés, devo falar-vos demoradamente.» A mensagem desta e de outras histórias é que a humanidade se revela (ou não) em condições extremas. As três histórias seguintes, «Borboleta Angélica», «Versamina» (uma substância química imaginária) e «A Bela Adormecida no Frigorífico» são contos de ficção científica, todos eles de Storie Naturali. Achei-os estranhos, tão diferentes do típico registo autobiográfico do autor que compreendi o uso de um pseudónimo recomendado pelo editor. O último, que se passa em 2115, é  premonitório dos actuais casos de criopreservação.

Os contos «Cério» e «Vanádio» são duas belas short-stories. O primeiro conta como Levi e outros prisioneiros cortavam, de noite e às escondidas, pedaços de ferrocério, roubado do laboratório da fábrica, para fazer  pedras de isqueiro que  poderiam trocar por comida. A punição para o roubo era o enforcamento imediato, mas comer era uma necessidade imperiosa: «Comer, procurar o que comer, era o estímulo número um, atrás do qual, a muita distância, seguiam todos os outros problemas de sobrevivência e, ainda mais atrás, as saudades de casa e o próprio medo da morte (…). O Lager dera-nos uma louca familiaridade com o perigo e com a morte; e arriscar a corda no pescoço para comer parecia-nos apenas mais uma escolha lógica, mesmo óbvia.» O segundo é sobre o reencontro epistolar do autor com um dos químicos alemães que conheceu na fábrica. Descreve-o assim: «Não era infame nem herói. Sem contar com a retórica e as mentiras de boa ou má-fé, permanecia um exemplar humano tipicamente sombrio, um dos numerosos zarolhos no reino dos cegos.» A pergunta que Levi coloca é a que colocamos todos: como foi possível que pessoas aparentemente normais permitissem o Shoah? Na história seguinte, «O Rei dos Judeus», há um pobre-diabo que se faz passar por monarca no gueto de Lódz. «Força maior» é uma breve história de um duelo humano em que vence, como é costume, o mais forte. No conto «Auschwitz, cidade tranquila», que dá o título ao livro (os alemães de Auschwitz nada viram…), o autor, como em «Vanádio», confronta-se com um químico alemão. Abre com uma frase-chave do livro, citada na contracapa: «Poderá surpreender que no Lager um dos estados de espirito mais comuns fosse a curiosidade. No entanto, além de assustados, humilhados e desesperados, sentíamo-nos igualmente curiosos: famintos de pão e também de entender». O autor continua, curioso: «O mundo ao nosso redor parecia invertido, portanto alguém o devia ter invertido, e consequentemente esse alguém devia ele mesmo ser um invertido: um, mil, um milhão de seres anti-humanos gerados para torcer o que era direito, para sujar o limpo.». «Um “policial” do Lager», é a história de um kapo holandês cuja família procurou Levi no pós-guerra. O livro encerra com o poema «Canto dos mortos em vão», onde o autor se dirige a «velhas raposas prateadas»: «Mas lá fora ao frio estaremos à vossa espera,/ O exército dos mortos em vão,/ Nós os de Marne e de Monte Cassino,/ De Treblinka, de Dresden e de Hiroxima/ E connosco estarão/ Os leprosos e os tracomatosos,/ Os desaparecidos de Buenos Aires,/ Os mortos do Camboja e os morituros da Etiópia,/ Os capitulados de Praga,/ Os exangues de Calcutá,/ Os inocentes massacrados em Bolonha.» E, umas linhas mais abaixo, explica porque nada têm a temer: «Somos invencíveis porque somos os vencidos.»

Falta completar o rol de livros de Levi saídos em português europeu: O Dever da Memória (Civilização, 1997; Cotovia, 2011); Diálogos sobre a Ciência e os Homens, com o matemático  Tulio Regge (Gradiva, 2012); O Último Natal de Guerra (Cotovia, 2015); e Assim foi Auschwitz: Testemunhos 1945-1986, com Leonardo Benedetti (Objectiva, 2015).

Rita Marnoto, professora de Estudos Italianos da Universidade de Coimbra salientou o facto de nenhum livro dele ter sido traduzido em Portugal durante o seu tempo de vida, apesar da fama mundial que conheceu. Terá sido apenas falta de atenção generalizada por parte dos editores nacionais ou antes resultado da censura, ainda que silenciosa, do regime de Salazar e Caetano? O que vale é que, postumamente, Levi tem sido entre nós um autor de sucesso. O livro em apreço irá decerto acrescentar esse sucesso.

 

 

 


BORIS HESSEN, EINSTEIN E LENINE


Minha recensão no Ina semana passada:

O nome do físico soviético Boris Hessen (1893-1936) pouco dirá ao público em geral. Notabilizou-se como filósofo e historiador de ciência, que alimentou nos anos 1920 e 1930 uma polémica filosófica no quadro da ideologia comunista que reinava na antiga União Soviética. Os dois lados eram comunistas e, portanto, adeptos do materialismo dialéctico de Marx e Engels. Mas uns punham mais o foco no «materialismo», sendo por isso mecanicistas, e outros no «dialéctico». Os primeiros estavam mentalmente formatados pela física clássica, ao passo que os segundos, embora com a mesma formação, estavam abertos às teorias então emergentes da física moderna, como a teoria da relatividade de Albert Einstein e a teoria quântica de Werner Heisenberg e Erwin Schrödinger. Os primeiros achavam essas teorias produtos da ciência burguesa ocidental, arredada dos problemas, interesses e preocupações dos operários camponeses. 

Quando Vladimir Lenine morreu em 1924, ficou vago o lugar de Presidente do Conselho do Comissariado do Povo da União Soviética que ele ocupava desde 1922, ano do fim da Guerra Civil russa e da criação da União Soviética, que duraria até 1991. O corpo de Lenine (sem o cérebro, que foi removido), ainda hoje está exposto na Praça Vermelha de Moscovo. Josef Estaline ficou à frente do Partido Comunista da União Soviética até à sua morte, em 1953, tornando-se na prática o líder do país, embora só a partir de 1941 (em plena guerra mundial) se tenha tornado presidente do Conselho de Ministros. Estaline foi o responsável da Grande Purga, ou Grande Terror, perpetrada entre 1936 e 1938, que causou mais de um milhão de mortos. Entre elas estavam membros do Partido Comunista, funcionários do governo e até altas patentes do Exército Vermelho. Uma das primeiras vítimas foi precisamente Hessen, passado pelas armas em 20 de Dezembro de 1936, ao fim de quatro meses de prisão e após um julgamento sumário à porta fechada. De nada lhe valeu ser membro do Partido Comunista, para além de cientista e intelectual proeminente.

Todos os escritos dele foram banidos, como era costume nessa época. Caiu sobre ele um silêncio pesado, que só cessou em 1956, três anos após a morte de Estaline, quando o novo secretário-geral do Partido, Nikita Khrushchev, empreendeu uma reabilitação de algumas das vítimas. O fim trágico de Hessen foi partilhado por muitos outros cientistas: os que não experimentaram a morte instantânea foram condenados à morte lenta em campos de trabalho na Sibéria. Foi o caso muito conhecido do geneticista Nikolai Vavilov, uma das maiores autoridades soviéticas em botânica, que faleceu num desses campos, enquanto o charlatão Trofim Lysenko ocupava o seu lugar na Academia Lenine das Ciências Agrícolas (ver, por exemplo, Simon Ings, Estaline e os Cientistas, Temas e Debates, 2017). Só contava a obediência cega ao Grande Líder. Por ironia do destino, Lavrenti Beria, o maior executor da Grande Purga como Comissário do Povo para o Interior, foi preso e executado pouco depois de Estaline ter morrido.

Acaba de sair na editora Parsifal o livro Einstein e Lenine em Moscovo com o subtítulo Polémicas filosóficas da ciência soviética, que reúne um conjunto de nove textos de Hessen, escritos entre 1927 e 1931. A selecção de textos, da tradução do russo e de uma extensa (42 páginas) e bem fundamentada introdução, são do físico Rui Borges (n. 1973), que foi docente e investigador na Irlanda, Reino Unido, Brasil e Portugal.

Borges é o autor de um outro livro sobre o mesmo personagem: Boris Hessen. O Cientista Subversivo (Ela por Ela, 2015), que contém uma tradução do texto mais famoso de Hessen, que escreveu em 1931 para o 2.º Congresso Internacional de História da Ciência e daTecnologia em Londres, «As raízes sociais e económicas dos Principia de Newton». Não só é uma das primeiras análises marxistas da obra principal de Newton, como é um marco da história da ciência, uma vez que inaugurou uma visão dita externalista dessa história, que enfatiza o contexto social, económico e político da criação científica. Um notável grupo de intelectuais britânicos foi marcado por esse trabalho: o historiador de ciência John Bernal, o biólogo John Haldane, o sinólogo Joseph Needham e o historiador Eric Hobsbawm. O artigo de Hessen está, aliás, na base de uma certa corrente da actual sociologia das ciências. A delegação soviética enviada para  Londres, chefiada por Nikolai Bukharin (que foi líder de uma corrente comunista dita de direita em contraste com a corrente dita de esquerda de Leon Trotski) incluía um controleiro, que vigiava Hessen, já na altura considerado suspeito de crimes de opinião.

Hessen provém de uma família judaica (tal como Lenine, um facto que foi ocultado durante muito tempo) de Kropyvnytsky, hoje na Ucrânia. Estudou Física, primeiro na Universidade de Edimburgo, na Escócia, em 1913-1914, e depois na Universidade de Petrogrado (hoje São Petersburgo). Juntou-se ao Exército Vermelho na Guerra Civil, graduando-se em 1929 no Instituto do Professorado Vermelho em Moscovo. Em 1931 passou a ser catedrático de Física na Universidade Estatal de Moscovo e em 1933 foi eleito membro da Academia de Ciências da Rússia. Entre 1934 e 1936 foi vice-director do Instituto de Física de Moscovo, dirigido por Serguei Vavilov, irmão do famoso geneticista. A morte aos 43 anos impediu-o de continuar uma promissora carreira. A física soviética brilhou pontualmente no século XX por exemplo com a atribuição do Prémio Nobel em 1962 a Lev Landau, um cientista que considerava Estaline um ditador da pior espécie, mas que teve o cuidado de não exteriorizar a sua posição, trabalhando ordeiramente dentro do sistema. Ficou lendária a sua luta contra a morte após um acidente de automóvel, pouco antes do Nobel.

O livro agora publicado inclui nove artigos, escritos por vezes em co-autoria, saídos todos, excepto o último, na revista Sob a Bandeira do Marxismo, um órgão comunista, embora não oficial, de discussão filosófica. No primeiro, «O 5.º Congresso dos Físicos Russos», Hessen critica o seu colega Arkadi Timiariazev por ele ter contestado Einstein, um assunto que aprofunda no segundo artigo, «A relação do camarada Timiariazev com a Física Moderna» (é curioso que também na Alemanha Einstein tenha sido perseguido, acusado, não de idealismo, mas de fazer «ciência judaica»). O terceiro é «Recensão a Dialéctica na Natureza», uma obra colectiva dos mecanicistas, e o quarto «Prefácio aos artigos de Einstein e J. J. Thomson (no 200.º aniversário da morte de Isaac Newton)» discute as posições sobre Newton de dois dos maiores sábios da época. O quinto é uma nota sobre Marian Smoluchowski, o físico polaco que descreveu, pouco depois de Einstein mas de forma independente, o movimento browniano ou aleatório de partículas. O sexto, mais longo, «Materialismo mecanicista e Física Moderna» aborda a objectividade do acaso. O sétimo, de teor marcadamente político, «As raízes filosóficas do oportunismo de direita», confronta os opositores ideológicos. O oitavo é um abaixo-assinado de resposta a um artigo do Pravda: «A luta em duas frentes da filosofia». Por último, «Éter» é uma entrada da Grande Enciclopédia Soviética sobre o meio hipotético que Einstein aboliu em 1905. Este escrito, um pouco confuso, provocou a chacota de jovens físicos como Landau e George Gamow. Este último haveria de se exilar nos Estados Unidos, onde publicou várias obras de divulgação científica, avultando O Senhor Tompkins no País das Maravilhas, que Rómulo de Carvalho traduziu para a colecção Cosmos (1942), de Bento de Jesus Caraça.

O livro tem Lenine no título. É bem conhecido que, no VIII Congresso dos Sovietes de Toda a Rússia, em 1920, foi apregoada a tese leninista: «O comunismo é o poder soviético mais a electrificação de todo o país». O Partido Comunista sempre se interessou pelas aplicações da ciência que traduziam progressos materiais. Mas o interesse de Lenine pela física é mais fundamental. Ele é autor do livro, de 1909, Materialismo e Empiriocriticismo (edição portuguesa: Avante, 1982), escrito no exílio em Genebra e Londres com uma agenda política pois visava atacar as ideias do camarada Alexander Bogdanov, que foi expulso do comité central. Essa obra, considerada uma referência do materialismo dialéctico, foi de leitura obrigatória em toda a União Soviética e países satélites. Comprei na República Democrática Alemã manuais de física que tinham longos prolegómenos sobre o marxismo-leninismo, citando-o, antes de entrarem nas matérias científicas. Para Lenine existia um mundo real e objectivo, que a nossa mente procurava fixar, opondo-se por isso às teses idealistas, segundo as quais os objectos só existem na nossa mente. Ser apodado de idealista era um perigoso insulto, pois Lenine era considerado a autoridade suprema. O culto dos seus escritos e da sua personalidade foi levado ao extremo. Estaline, por exemplo, fez tudo para aparecer como único e fiel herdeiro de Lenine. A referida obra de Lenine continua a ser estudada: foi o tema da tese de doutoramento de Ana Henriques Pato, dirigente comunista portuguesa: Materialismo e Idealismo na Física do Final do Século XIX e Início do Século XX… (Nota de Rodapé, 2015).

O livro organizado por Rui Borges, com bibliografia, um conjunto de fotografias e índice onomástico, interessa não apenas aos cientistas, historiadores e filósofos, mas também a todos os curiosos pelo debate de ideias que ocorreu no início do que Hobsbawm chamou a «era dos extremos».

 

 

 

"Não escolham a extinção"

A United Nations Development Programme (UNDP) criou um vídeo para alertar para o investimento feito em indústrias poluentes em detrimento do investimento que poderia estar a ser feito para melhorar o ambiente e as condições sociais. Nesse vídeo, um dinossauro dirige-se à Assembleia das Nações Unidas para explicar o absurdo do investimento da Humanidade em negócios que destroem o ambiente, alertando para que os dirigentes políticos "não escolham a extinção".

Para saberem mais, consultem a campanha Don't choose extinction.






 

segunda-feira, 25 de outubro de 2021

REDUFLAÇÃO: sabe o que significa o “palavrão”?

Texto do Professor Mário Frota, que muito agradecemos, publicado no diário As Beiras de hoje.

Reduflação é o processo mediante o qual os produtos diminuem de tamanho ou quantidade, enquanto o preço se mantém inalterado ou regista um acréscimo. Tal efeito é uma consequência do aumento do nível geral dos preços dos bens, manifestado por unidade de peso ou volume, causado por inúmeros factores, principalmente a perda do poder aquisitivo da moeda e a queda do poder de compra dos consumidores e/ou do aumento do custo das matérias primas, cuja resposta da oferta é a redução do peso ou tamanho dos bens transaccionados. 

A expressão resulta de uma tradução literal do termo ‘shrinkflation’, um neologismo inglês, cunhado por Pippa Malmgren e Brian Domitrovic, na obra editada em 2009 "Econoclasts: The Rebels Who Sparked the Supply-Side Revolution and Restored American Prosperity" (lit. Econoclastas = Os Rebeldes que despoletaram a revolução da Oferta e Restauraram a Prosperidade Americana), que resulta da aglutinação de «shrink» 'reduzir, encolher' e «(in)flaction» '(in)flação'.” 

Sardi-Antasan alertava, há dias, num periódico europeu de grande circulação, que nos tempos que correm a reduflação (“shrinkflation”) parece haver assentado arraiais com ‘armas e bagagens’. 

O fenómeno tem tido uma enorme repercussão na Grã-Bretanha em consequência do Brexit, ao que afiançam outras fontes.

“Reduzir quantidades sem diminuir preços na grande distribuição”: eis a receita miraculosa dos capitães da indústria agro-alimentar - repercutir (de modo discreto) o aumento dos custos das matérias-primas no preço dos produtos. 

Tal inflação, dissimulada, revela-se algo complexa à luz do dia: 

“É muito difícil surpreender os produtores no acto porque há que lograr encontrar o produto (o mesmo produto), no mesmo espaço físico, em espaços temporais distintos: antes da operação de “maquilhagem” e após a operação de redução da quantidade ou do volume. 

“Nos últimos dois anos, identificámos com sucesso dois casos do estilo, explica Camille Dorioz, directora da campanha da Foodwatch

“As nossas armas? O nome e a exprobação (o vexame) nas redes sociais.

Produtores e distribuidores, porém, vêm ‘sacudindo a água do capote’.

A indústria apresenta-se demasiado opaca. Portanto, de escassos dados de suporte se dispõe”. Em particular porque a reduflação (“shrinkflation”) não é ilegal, desde que haja de todo compatibilidade entre a composição do produto e a rotulagem.”

Registe-se que o álcool é o único produto cuja concentração por unidade é estritamente regulamentada. Para evitar decepções, é preferível ‘monitorar’ os preços por unidade de medida, parâmetro que muitos dos consumidores já vêm adoptando, para além de se tornar imperioso despertar para eventuais mudanças susceptíveis de ocorrer nas embalagens.

(Há dias, no Mercado da Figueira da Foz, um dos comerciantes ali estabelecido fazia passar por 1 Kg. 800 gramas de nozes pré-embaladas… com uma “destreza” incalculável e com um enorme despudor, ignorando que havia ali, no espaço da sua banca, duas ou três balanças de que os consumidores se poderiam socorrer para a confirmação do peso…)

Camille Dorioz chega a citar “uma das práticas mais tortuosas do marketing que consiste, aliás, em esperar que um produto fique bem “preso” ao carrinho de compras do consumidor para se degradar a qualidade e / ou jogar com a quantidade, paulatinamente. Um tal processo, fundado na habituação e na “confiança no produto”, pode levar de 3 a 5 anos a maturar. Os consumidores ficam naturalmente menos atentos e de todo sem reacção ao processo ‘degenerativo’ em curso!”.

“90% dos produtos consumidos na Europa são importados. E quando não se ignora que trazer um contentor de 40 ’ da Ásia custa quatro vezes mais do que há 18 meses, cerca de US $ 15.000 (12 882€), a factura a pagar é elevada. Daí que atribuir a 'encolha' (a redução) a uma resposta de curto ou a uma estratégia de longo prazo dos industriais, seja algo difícil de dizer”, comenta Arthur Barillas, CEO da Oversea.

O debate está, portanto, longe da sua conclusão.

Como assevera Sardi-Antasan, as associações de interesse económico do agro-alimentar não se pronunciam. Nanja as marcas. Nem sequer as empresas de pesquisa especializadas, que para tanto não dispõem de dados: o que revela o quão difícil é o fenómeno, longe de um consenso do ponto de vista científico.

Aos consumidores uma recomendação: “gato escaldado de água fria tem medo”! 

Nada nos diz que no que tange ao papel higiénico ou aos rolos de cozinha tal não esteja já a ocorrer…

No Reddit há denúncias da redução no tamanho dos ‘cookiesPringles ou da embalagem do gel de banho da Dove

Mário Frota
apDC – DIREITO DO CONSUMO - Coimbra

Apresentação do livro "Einstein e Lenine em Moscovo" | Ciência às Seis

sexta-feira, 22 de outubro de 2021

A NOSSA DEMOCRACIA NÃO GOSTA DA CULTURA

Novo texto do Professor Eugénio Lisboa que muito agradecemos.

Um pouco de cultura
é uma coisa perigosa.
Alexander Pope

Num mundo culto temos uma
conduta florida e num mundo
inculto temos discursos floridos.
Confúcio

Escrevi com amargura o título deste artigo e escrevi-o só ao fim de muitos anos em que andei a não querer escrevê-lo. Custa-me dizer mal da nossa democracia, até porque, quando nasci, não havia democracia e vivi, depois, quarenta e quatro anos sem ela.

E o pior sofrimento que a falta de democracia produz não é proibirem-nos que pensemos e digamos certas coisas, o pior é quererem forçar-nos a dizer outras coisas que não pensamos e em que não acreditamos.  Ser forçado a dizer é, acreditem, um sofrimento bem maior do que não poder dizer. 

Mas às ditaduras, mesmo as pífias, como foi a do Estado Novo, nunca lhes basta que fiquemos calados, querem, à força, que falemos, de acordo com aquilo que são as “verdades” que eles apregoam. Dói que se farta, mesmo que se resista e se recuse a “verdade” que nos querem vender. 

Portanto, quando veio a democracia, regalei-me e preparei-me para me regalar o tempo todo. Íamos finalmente ter educação, saúde e cultura à séria, sem falar noutras coisas igualmente necessárias. Mas a educação, a saúde e a cultura tinham talvez sido as áreas mais particularmente vítimas do Estado Novo. 

Quanto a educação, pela parte que me toca e apesar de programas impregnados da ideologia maligna daquele regime que nos governava, Moçambique, onde nasci e fiz o ensino primário e secundário, era, apesar de tudo, um território com mais abertura e povoado por muitos refilões que o regime exportava (expulsava) da metrópole para lá. 

Isto e vivermos rodeados de gente de extracção inglesa e habituada a mais do que alguma liberdade de expressão, fazia com que, à boleia de um núcleo inesquecível de magníficos, cultíssimos e pouco subservientes professores, no liceu, pessoalmente, não me pudesse queixar muito.

Se puser de lado algum (raro) aviso ou ameaça de algum neo-convertido oportunista, no sector do ensino, eu e outros como eu fomos deixados livres de dar curso à nossa iconoclastia, gozando à larga com as diatribes acutilantes de Voltaire contra a igreja e os tiranos, que a minha excelsa e culta professora de filosofia acolhia com um sorriso deliciado, sem temer dar a classificação mais alta ao rebelde de serviço.

Mas nada disto permite negar que houvesse repressão – e da dura – nas áreas da cultura e educação e criminosa forretice na saúde, noutras partes do “império”. 

Portanto, a democracia iria acautelar, finalmente, estes filhos perseguidos. Hoje, limitar-me-ei à cultura, talvez a área mais desprezada por esta democracia e por todos os governos, SEM EXCEPÇÃO ABSOLUTAMENTE NENHUMA. Independentemente da ideologia no poder, nem socialistas nem social democratas, quiseram NUNCA propiciar um orçamento minimamente decente à cultura. 

Tornou-se evidente, ao fim de quarenta e sete anos de democracia, que, para os políticos democratas que nos governam, a cultura “não é uma coisa séria”, para roubar o título de uma obra inesquecível do grande Pirandello. 

Portugal é, envergonhada e vergonhosamente, um dos países da União Europeia que menos gasta com uma cultura em que no fundo não acredita. Em percentagem do Produto Interior Bruto, andámos, nos primeiros tempos desta tão desejada democracia, pelos miseráveis 0,5 % e actualmente – corai, senhores ministros! – andamos a rapar o fundo desprovido da gamela: 0,25%. A média europeia é de 1%, isto é, quatro vezes as nossas encolhidas migalhas.

Se nos lembrarmos de que países como a Argentina chegaram a andar pelos cinco por cento, ou seja, vinte vezes o que nós gastamos, não será excessivo dizer que o Estado Português não se digna dar ao sector da cultura uma fatia decente do PIB, mas tão só uma relutante e mísera esmola! Assim como quem diz: “Dê-se-lhes lá qualquer coisita, para nos desampararem a loja…” 

Porque os nossos governantes de todas as cores, no fundo, detestam gastar dinheiro com coisas que não dão muito nas vistas – tal como no tempo do Duarte Pacheco, cujo amor pelos estádios de futebol esta democracia herdou e ampliou. E eles acham que a cultura não passa de um capricho de calaceiros e rufias que não querem trabalhar. Que a cultura, em suma, não serve para nada. 

Mas estão muito enganados: ela serviria, por exemplo, para os nossos egrégios ministros serem capazes de ler aqueles textos, que hoje são marcos históricos fundamentais, acerca da influência que a cultura tem no crescimento económico de um país por via do efeito subliminar que uma imagem cultural adulta consegue produzir. 

Ortega y Gasset escreveu, a este propósito, páginas luminosas, dizendo coisas como esta: “a cultura não é a vida na sua totalidade mas apenas o seu momento de segurança, força e claridade”. Como já um dia observei, comentando este notável ensaio do pensador espanhol, “é esta imagem de segurança, força e claridade – que a cultura tão eficientemente inculca – é esta imagem, repito, que pode, subreptícia mas fortemente ajudar a criar aquele clima de confiança e segurança sem o qual o comércio não triunfa nem prospera.” 

Por outras e desenfastiadas palavras: uma imagem cultural pelintra não alicia seja quem for para comerciar a sério connosco. Isto mesmo aprenderam os britânicos, quando, no século passado, descobriram, para seu espanto, que os seus magníficos produtos industriais se vendiam pouco, porque o país se descuidara de fazer projectar para o exterior uma imagem cultural potente (não se tratava de não terem cultura, mas sim de a não tornarem visível.) 

Curiosamente, quem chegou a esta conclusão, depois de chefiar uma comissão de investigação das causas desse recuo dos britânicos em relação a outros países mais bem sucedidos na venda desses mesmos produtos, foi, não um personagem da cultura mas, sim, um personagem da área comercial: o Sr. D’Abernon. Do relatório dessa missão comercial, não cultural, transcrevo uma curta mas elucidativa passagem: 

“Àqueles que dizem não ter esta extensão da nossa influência [a cultural] qualquer relação com o comércio, respondemos que estão totalmente errados; a reacção do comércio à mais deliberada inculcação da cultura britânica, que nós advogamos, é definitivamente certa e deverá ter lugar com a maior rapidez.” 

Repito: o responsável por este relatório histórico, que esteve na base da criação do British Council, foi o chefe de uma missão comercial e não de uma missão cultural. Mas o British Council foi criado para promover, no estrangeiro, os valores culturais britânicos, como apoio indispensável à promoção do seu comércio. 

“Sem a cultura e a liberdade relativa que ela pressupõe”, disse-o esse espírito profundo e luminoso, Albert Camus, “a sociedade, por mais perfeita que seja, não passa de uma selva. É por isso que toda a criação artística é um dom para o futuro.” Que bom e eficaz seria que os nossos primeiros ministros batessem de vez em quando o pé ao dono das finanças, que nada sabe de cultura, mesmo que saiba alguma coisa de finanças, dizendo-lhe, alto e bom som, que há vida para além das finanças. 

No seu muito conhecido e divulgado poema “Liberdade”, Fernando Pessoa lembrava, sei lá porquê, que Jesus Cristo “não sabia nada de finanças”, inculcando, sibilinamente, que ele saudavelmente as desprezava. Às vezes, é preciso meter na ordem o ministro das finanças, explicando-lhe, muito devagar e com muito cuidado, que há outros valores que merecem ser respeitados. 

Talvez ajude contar-lhe esta verdadeira história: a alguém que lhe perguntou qual a diferença entre os cultos e os incultos, o venerável Aristóteles respondeu: “A mesma diferença que existe entre os vivos e os mortos”. 

P. S. – Como disse, os nossos governantes gostam de nos dar apenas “um poucochinho” de cultura. É um grande erro e quero, a esse respeito, lembrar-lhes aqui o aviso do poeta Alexander Pope: ”Um pouco de cultura é uma coisa perigosa”. Sabemos hoje que mais vale nenhuma cultura do que poucochinha cultura. Mal lambida, a cultura é nefasta.

Eugénio Lisboa

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

MEU PREFÁCIO A "AZUL DO MEU CORAÇÃO"


Meu prefácio ao livro infanto-juvenil "Azul do Meu Coração", de Isabel Bravo com ilustrações de Danuta Wojciechowska (edição da autora que só pode ser adquirido aqui : https://www.azuldomeucoracao.pt/): 

A maior história de todas é a história do Universo: hoje sabemos que tudo começou com o Big Bang, e sabemos também que, ao longo do tempo, se formaram primeiro os átomos, depois as estrelas e os planetas e, por último, as espécies vivas, aqui na Terra, entre as quais a nossa, a dos seres humanos. Sendo parte do Universo, somos, tanto quanto sabemos, a única parte dele que o observa, de forma cuidadosa, na tentativa de o compreender. A ciência é a nossa tentativa continuada de compreender o Universo. 

A bela história deste livro, de Isabel Bravo, muito bem ilustrada pela Danuta Wojciechowska como todas as boas histórias, mistura realidade e ficção. Realidade porque a história do Universo, que a ciência revelou, desde o Big Bang até aos seres humanos, aparece aqui contada nas suas etapas essenciais. Ficção porque a autora, imaginando um futuro que talvez não esteja muito distante, criou para personagem principal um rapazinho de origem terrestre, Mateus, que vive fora da Terra. E, como a imaginação não tem limites, Mateus tem uma amiga, Ayla, que vem de longe no espaço e que o visita numa noite especial que é a noite de Natal. Assim como na história O Principezinho, de Saint-Exupéry, o pequeno príncipe, saído de um asteroide, encontra amigos na Terra, em particular o aviador, também Ayla encontra, num sítio que não é o seu, Mateus e se torna amiga dele. A amizade não conhece fronteiras: pode acontecer em qualquer sítio, num deserto terrestre ou num deserto extraterrestre. Num divertido diálogo, Mateus e Ayla vão recriar a grande história do Universo. Uma história extraordinária que, porém, não exclui outras histórias, como a história fantástica da criação do mundo protagonizada por Aura e Ari, que Mateus conta a Ayla porque ela gosta de a ouvir. E vão eles próprios, a bordo de uma nave espacial, viver uma história que é para um deles a do regresso às origens… 

Somos filhos do Big Bang e das estrelas porque os nossos átomos foram lá feitos. Mas, aliando o conhecimento à imaginação, já fomos capazes de sair do nosso planeta e chegar ao nosso satélite natural, a Lua. É muito provável que ainda neste século viajemos mais longe. A próxima estação é Marte. Sim, os marcianos existem: seremos nós quando lá chegarmos. E, quando formos marcianos no planeta vermelho, haveremos de querer voltar a ser terrestres. Será o nosso regresso a casa e não há ninguém que não goste de voltar à sua casa. A Terra, o belo planeta azul do sistema solar, é e será sempre a nossa casa. O azul da Terra estará sempre no nosso coração. 

Ao misturar de um modo tão original realidade e ficção, a autora do livro Azul do Meu Coração está a juntar cosmos e humanidade. Tanto os que gostam de ciência como os que gostam de literatura, qualquer que seja a sua idade, vão gostar, como eu, de o ler.

Carlos Fiolhais

sábado, 16 de outubro de 2021

MICHIO KAKU E A EQUAÇÃO DIVINA

Minha recensão no último I:


Com o título A Equação Divina e o subtítulo A busca inacabada por uma teoria de tudo e o futuro da física, acaba de sair na Bertrand Editora mais um livro de Michio Kaku, físico teórico, futurólogo e comunicador de ciência norte-americano (nasceu em 1947, de pais pertencentes a uma segunda geração de emigrantes japoneses). A tradução, boa, é de Elsa Vieira. O título, no original The God Equation (Allen Lane, 2019) fez-me lembrar, no domínio da ficção, A Fórmula de Deus (Gradiva, 2006), do jornalista e escritor José Rodrigues dos Santos, uma obra na qual colaborei. E fez-me também lembrar, no domínio da divulgação de ciência, The God Particle, obra do físico norte-americano já falecido Leon Lederman, Nobel da Física de 1988, e de Dick Teresi (Dell, 1993), sobre a partícula de Higgs, descoberta em 2012 (entrevistei Lederman em 2001 quando ele veio à Figueira da Foz). É claro que o nome de Deus atrai leitores. Alguns cientistas usam muitas vezes o nome de Deus, não em vão, mas no claro propósito de chamarem a atenção das pessoas. O leitor comum, ao ver as palavras «divino» ou «Deus» na boca ou da pena de um cientista, fica logo com as orelhas em pé.

No caso do livro de Kaku, a «equação divina» refere-se a uma equação capaz de condensar a «teoria final do Universo» ou «teoria de tudo». Um sonho de muitos físicos, com Albert Einstein à cabeça, tem sido unificar todas as forças fundamentais da Natureza numa única. Conhecemos hoje quatro forças (gravitacional, electromagnética, e forças nucleares fraca e forte), embora possam existir outras (a «energia escura» é um mistério). Einstein, nos últimos anos da sua vida, tentou, sem êxito, unificar as forças gravitacional e electromagnética, mas desde que morreu, em 1955, os físicos conseguiram unir primeiro a força electromagnética com a força nuclear fraca, formando a força electrofraca, e depois esta com a força nuclear forte, formando uma força de grande unificação. Continua por concretizar a
ambição de Einstein. O grande problema é que a força gravitacional é bem descrita, no quadro da teoria da relatividade geral de Einstein, por uma deformação do espaço-tempo, mas essa teoria não parece ser compatível com a teoria quântica, em cujo quadro foi bem-sucedido o esforço de unificação das restantes forças.

Kaku, que é professor no City College de Nova Iorque, acredita que essa unificação final poderá ser realizada pela teoria das cordas, uma teoria para a qual ele próprio deu contribuições. Escreve logo no início do livro «A principal (e, na minha opinião, única) candidata [a teoria de tudo] chama-se teoria de cordas e propõe que o universo não é feito de partículas corpusculares, mas de minúsculas cordas vibratórias, em que cada nota corresponde a uma partícula subatómica.» O autor, que no livro se declara agnóstico, usa a metáfora de «equação divina» para uma equação que pudesse condensar todo o Universo.

Num livro de 200 páginas que se lê muito bem (bela síntese com comentários bem-humorados), o autor dedica os primeiros cinco dos sete capítulos, que ocupam 132 páginas, à descrição da história da física, desde as ideias dos antigos gregos até às conclusões da astrofísica moderna, que exigem, por um lado, a teoria da relatividade geral e, por outro, a teoria quântica. Kaku diz que nos encontramos numa situação semelhante à do jovem Einstein no início do século XX: havia duas teorias incompatíveis, a teoria de Newton da gravidade e a teoria de Maxwell do electromagnetismo e uma delas tinha de cair: Einstein derrubou a teoria de Newton, embora ela mantenha a sua validade num certo limite. Agora afigura-se necessário um novo Einstein que concilie a teoria da gravidade geral, que tão bem descreve estrelas, galáxias, buracos negros e o Big Bang, com a teoria quântica, que tão bem descreve átomos, núcleos atómicos e partículas subatómicas. Escreve Kaku, à entrada do cap. 6: «O problema é que estas teorias estão em conflito entre si. Baseiam-se em dois princípios diferentes, duas matemáticas diferentes e duas filosofias diferentes.» E acrescenta: «A próxima grande revolução, esperamos nós, será para unificar estes dois pilares». A seguir, apresenta uma breve história da teoria das cordas a partir do seu início, em 1968, cuja leitura permitirá a um leigo ficar com uma ideia do que é um edifício matemático extremamente complexo.

A teoria das cordas é bastante exótica. Requer um espaço-tempo não com qautro, mas com dez dimensões. Richard Feynman, laureado com o Nobel da Física em 1965, costumava brincar com um dos autores da teoria das cordas: “Então John, em quantas dimensões estás hoje?”. A teoria está fundada em simetrias entre partículas de matéria e partículas de energia, entre o que os físicos chamam fermiões (como os electrões) e bosões (como os fotões), sendo possível transformar umas noutras (ora isso faz, desde logo, aumentar muito o número de partículas elementares: devia haver um electrino a par do electrão e um fotino a par do fotão). Permite enunciar o «princípio holográfico»: a informação num espaço de dimensão superior pode estar contida noutro de dimensão inferior (há uma versão da teoria das cordas, a onze dimensões, que engloba várias representações da teoria de cordas a dez dimensões). Existe uma infinidade de soluções possíveis, isto é, uma infinidade de universos paralelos ao nosso. Ainda que existisse uma «equação divina», ficaria ainda por saber porque é que neste nosso mundo é possível a vida e ainda por cima vida inteligente. Finalmente, e talvez seja este o problema maior, apesar da apregoada beleza da teoria, ela ainda não foi comprovada pela observação ou pela experiência. Os testes à sua validade parecem exigir instrumentos incomportáveis, como aceleradores de tamanho astronómico.

Kaku acredita, porém, na teoria de cordas. Ele acha que esta ainda está incompleta. E que é cedo para poder comparar os seus resultados com a experiência. Diz que é como se encontrássemos um bico de pedra no deserto, escavássemos um bocadinho e víssemos que é a parte de cima de uma pirâmide, mas ainda falta escavar muito mais a pirâmide para poder penetrar no seu interior. Há que ter paciência diz ele e continuar a afastar a areia.

Alguns físicos pensam que lhes estão a atirar areia para os olhos. Por exemplo, o italiano Carlo Rovelli, que esteve em Novembro de 2019 numa conferência da Fundação Francisco Manuel dos Santos, onde Kaku também participou, prefere a sua teoria quântica em laço. A controvérsia entre os teóricos de cordas e outros físicos já estalou em blogue e livros. Na minha opinião, tem havido demasiados recursos concentrados numa teoria de um só tipo. Devia haver mais “biodiversidade” de teorias.

No último capítulo («Encontrar sentido no Universo»), Kaku fala de Deus. Discute o Deus de Einstein, que é o nome que ele dá à «harmonia do mundo». Einstein queria saber se haveria outras escolhas possíveis para as leis de funcionamento no mundo ou se só há uma só possibilidade lógica, precisamente aquela que hoje procuramos. Será a harmonia do mundo única? Kaku diz: «Se o meu raciocínio está correcto, então não há escolha. Existe apenas uma equação capaz de descrever o Universo. Porque todas as outras são matematicamente inconsistentes.» O físico faz depois uma breve incursão pela teologia dizendo que a prova da existência de Deus de São Tomás de Aquino que invoca a necessidade de um «primeiro motor» ainda é actual (não falta quem discorde que algum dia se possa provar a existência de Deus). Sobre o início do mundo, pensa que é possível conciliar a visão cristã da criação com a ideia budista de um mundo sem princípio nem fim, uma vez que, segundo a teoria das cordas, estariam constantemente a ser criados universos paralelos. Finalmente, numa secção sobre o «sentido num universo finito», Kaku especula que uma passagem por um wormhole para outro universo permitiria evitar um eventual fim da vida no nosso mundo. “Talvez a fusão da teoria quântica com a relatividade nos ofereça uma cláusula de fuga.” Neste caso, conclui, a teoria das cordas seria «a nossa salvação». Parece-me uma ideia demasiado louca!

Kaku gosta de fazer previsões a longo, muito longo prazo. A maior parte dos seus livros, best-sellers internacionais e nacionais (a Bizâncio tem sido a principal editora entre nós), são sobre o futuro, discutindo a possibilidade de algumas coisas que hoje julgamos impossíveis. Eis a lista dos seus livros publicados em Portugal, por ordem cronológica: Para Além de Einstein (Europa-América, 1989), Visões (Bizâncio, 1998), O Cosmos de Einstein (Gradiva, 2005), Mundos Paralelos (idem, 2006), A Física do Impossível (Bizâncio, 2008), A Física do Futuro (idem, 2011), O Futuro da Mente (idem, 2014), Hiperespaço (idem, 2016), e O Futuro da Humanidade (idem, 2018).

Em 2019 entrevistei Kaku para o Público. A entrevista intitulou-se «Chegaremos às estrelas». Bem, não sei se será verdade, mas num certo sentido eu cheguei à «estrela». De facto, Kaku é uma verdadeira estrela da rádio e TV nos Estados Unidos e no mundo, com inúmeros aparições no ecrã a explicar a física avançada e a prever o que vai acontecer daqui por milhões de anos. É já um ídolo pop: a banda britânica Muse editou em 2001 o álbum Origin of Symmetry baseado na obra Hiperespaço. E Kaku apareceu nos extras do DVD Total Recall (2012) a explicar a física desse filme de ficção científica baseado num conto de Philip Dick.

É muito estimulante ler Kaku, ainda que não tenha que levar à letra tudo o que ele diz…

UM ORÇAMENTO PÍFIO

Meu artigo de opinião publicado na passada quinta-feira no Público:

Os números não enganam. O orçamento de estado para a Ciência, Tecnologia e Ensino Superior de 2022 fica bem aquém do que se esperaria de um governo que anda com a ciência na boca. Relativamente ao orçamento do ano passado  a subida é apenas de 4,5%, de 2990 para 3125 milhões de euros. As escolas de ensino superior e a Fundação para a Ciência  e Tecnologia - FCT, a agência de financiamento do nosso sistema científico, estão há muito tempo subfinanciadas. Para um investigador, ainda que excelente, ter um projecto de investigação aprovado pela FCT é quase tão difícil como ganhar a lotaria.

Tudo isto se passa num país, o nosso, em que a taxa de investimento em ciência e tecnologia está muito abaixo da média europeia (basta ir à Pordata para ver que em Portugal foi de 1,4%, em 2019 enquanto a média europeia foi de 2,2%). Num país que baixou recentemente em indicadores de inovação internacionais. E num país em que o primeiro-ministro anda a prometer um foguetório de “bazuca”, que, para a ciência e a tecnologia, não passa de pólvora seca.

Não há dinheiro para todas as necessidades, dirá o chefe do governo. Sim, mas há sectores que estão mais e outros menos bem defendidos à mesa do orçamento. No sector em causa, pior do que não haver dinheiro, é não haver uma ideia clara e definida sobre o nosso desenvolvimento e o papel da ciência nele. Não há uma fórmula decente de financiamento das instituições do ensino superior, não há oportunidades que atraiam os jovens mais qualificados (alguns dos quais querem fazer investigação), não há suficiente ligação ao tecido produtivo.

O italiano Giorgio Parisi, prémio Nobel da Física deste ano, dirige desde 2016 o movimento “Salvemos a Ciência Italiana” que visa elevar o financiamento da ciência no seu país. Aqui estamos muito longe de poder ter prémios Nobel em áreas da ciência. Mas poder-se-ia criar um movimento semelhante.

Os inimigos da ciência

 "Original é a Cultura" gravado fora de estúdio em Oeiras:

https://sicnoticias.pt/programas/original-e-a-cultura/2021-10-15-Original-e-a-Cultura-Os-inimigos-da-Ciencia-5fe4e67a


A REALIDADE É REAL!

 


Meu prefácio ao livro "O Mundo como ele é" do físico sueco Ulf Danielsson, que acaba de sair na Relógio d'Água:


Em 1976, o psicólogo, terapeuta familiar e filósofo norte-americano (nascido na Áustria) Paul Watzlawick publicou o livro How Real is Real?, que foi traduzido para português com o título A Realidade É Real? (Relógio d’Água, 1991). Nele defende uma tese muito cara às teorias construtivistas ou, mais em geral, pós-modernas: a tese de que construímos a nossa própria realidade e que, portanto, não existe nenhuma realidade objectiva. De algum modo, essas teorias estão subjacentes ao actual mundo da «pós-verdade».

Confesso que, sendo físico, sempre achei aberrante essa tese dos «negacionistas» da realidade. Aqueles que não acreditam na realidade de uma parede à sua frente talvez possam experimentar bater com a cabeça nela, para ver se ganham algum sentido do real. Pelo princípio da acção-reacção, a força que a cabeça exerce na parede está associada a uma outra força contrária, exercida pela parede na cabeça, que é capaz de danificar os tecidos biológicos, podendo provocar perda de consciência. Seria um «choque da realidade». Claro que o mundo real, incluindo a parede, continua a existir, mesmo quando não temos a percepção dele. Se o mundo não existisse realmente, e se descrições bastante fiéis do mundo não pudessem ser partilhadas pela comunidade humana, não só ficaria em causa a existência da física, e de outras ciências, como, bem mais grave do que isso, ficaria prejudicada a vida daquela comunidade.

O físico sueco Ulf Danielsson não tem, como eu, qualquer dúvida sobre a existência da realidade. Nós, os físicos, temos por profissão estudar o «mundo como ele é», não como nós gostaríamos que fosse, mas pura e simplesmente como ele é. Vivemos num mundo real que se se nos impõe de modo avassalador, por muito aliciantes que sejam fantasias sobre mundos alternativos que possamos construir. O mundo, a que também chamamos Universo, é muito grande, variado e complexo. Talvez o extremo da complexidade se encontre na organização e funcionamento do nosso cérebro, que é a parte do mundo que o tenta compreender (para isso, convém evitar dar com a cabeça na parede). Conseguimos, através do método científico, na física e nas outras ciências, obter representações do mundo que nos parecem verdadeiras, no sentido em que se ajustam relativamente bem à realidade, e que nos são muito úteis, pois nos permitem viver melhor. O mundo é, em geral, um lugar inóspito e perigoso, e só o nosso conhecimento dele o pode tornar um lugar habitável e confortável.

Um ingrediente importante do método científico é a matemática: a física descreve o mundo através de leis que têm uma expressão matemática. Já Galileu, o «pai» do método, dizia, numa bela metáfora, que o «Livro da Natureza» está escrito em caracteres matemáticos e que só o consegue ler quem conhecer esses caracteres. Foi através da matemática que o físico italiano descreveu a queda dos corpos. Foi através da matemática que, mais tarde, Newton se apercebeu de que a queda de uma maçã na sua cabeça (um choque bem menor do que o da cabeça numa parede) era regida por uma lei, a lei de gravitação universal, que também rege o movimento da Lua à volta da Terra e da Terra e dos outros planetas à volta do Sol. Há não só simplicidade como beleza nessa descrição. Segundo essa lei, a força de atracção entre dois corpos é directamente proporcional às suas massas e inversamente proporcional ao quadrado da distância entre eles. As outras ciências têm, umas mais e outras menos, seguido esse caminho de matematização que a física foi a primeira a adoptar.

Danielsson é um físico teórico, professor da Universidade de Uppsala (a universidade de Lineu e de Celsius), especialista em teoria das cordas e cosmologia, que são assuntos em que uma matemática sofisticada se revela absolutamente necessária. Na busca de responder às grandes questões – De que é feito o mundo? Como começou o mundo? O que vai acontecer ao mundo? –, os físicos têm alcançado grande sucesso: embora o nosso conhecimento seja incompleto, descobrimos que, por detrás da enorme complexidade do mundo, existem regras simples, isto é, existe uma «ordem escondida». Não contentes com o conhecimento parcial dessa ordem que já obtiveram, os físicos procuram uma «teoria de tudo», uma teoria unificada das partículas elementares e das interacções fundamentais (a teoria das cordas é uma candidata, mas não passou ainda o crucial teste da experiência). Bom conhecedor da ordem do mundo que a física já revelou, Danielsson deixa-nos, neste seu livro, uma importantíssima mensagem: por favor, não confundam o mundo, que é real, com as nossas descrições do mundo, que são apenas tentativas humanas de o representar, as quais, conforme ensina toda a história da ciência, podem ser melhoradas. A realidade é uma coisa e as representações que fazemos dela, em particular as representações de base matemática chamadas «leis da Natureza», são outras. O mundo é como é e as nossas imagens dele podem ser melhoradas. Têm-no sido, como mostra, por exemplo, a descrição da gravitação obtida por Einstein, a qual, embora contendo a descrição de Newton, vai bastante para além dela. O físico sueco chama a atenção para o facto de, com Einstein, se ter prescindido do conceito de força, uma vez que a maçã, ou a Lua, ou a Terra, executam os seus movimentos seguindo apenas a geometria curva do espaço-tempo. Portanto, o conceito de «força», embora útil, foi provisório…

Danielsson é muito claro: o Universo é mais do que as leis que descobrimos, o Universo não é matemática, não podemos confundir a realidade com modelos, e as simulações dos nossos computadores acerca do mundo não passam de «caricaturas» do real. Vai mesmo mais longe: ao contrário do que por vezes se lê e ouve, o Universo não é um computador. Nós próprios, assim como todos os seres vivos, embora sejamos parte do mundo físico, não somos máquinas. Ao contrário do que sustentam alguns estudiosos da inteligência artificial, o nosso cérebro não é um computador.

O autor sabe bem que o conceito de realidade é esquivo. Ele pertence ao domínio da filosofia, pelo que não hesita em explicar o que a filosofia tem dito sobre a realidade. Cita, entre outros, Aristóteles, Husserl e Heidegger. Explica que o erro de atribuir realidade às nossas construções mentais remonta à Antiga Grécia, dando pelos nomes de pitagorismo e de platonismo. Diz, tal como Damásio já tinha dito, que Descartes estava equivocado quanto à sua teoria do dualismo corpo-alma: Descartes separou o corpo da alma, quando nós sabemos hoje – basta olhar para o contínuo de espécies biológicas – que a mente (novo nome da alma) é inseparável do corpo e que os seus resultados, por muito imaginativos que sejam, só podem ser explicados com a experiência sensória do corpo. Danielsson faz notar que Descartes morreu na Suécia: este seu livro expõe argumentos a favor de uma «segunda morte» do sábio francês. Na filosofia contemporânea, o autor alarga-se sobre as teorias da consciência. Não trata as filosofias pós-modernas, cujas nefastas consequências o leitor ganhará em conhecer se ler Teorias Cínicas, de Pluckrose e Lindsay (Guerra e Paz, 2021).

Danielsson aborda questões profundas que a filosofia trata há muito, em ligação com a ciência (a ligação era dantes tão íntima que à ciência física se chamava filosofia natural). É o caso do determinismo e do livre-arbítrio: estará tudo determinado, como parecem indicar as leis naturais ou teremos livre-arbítrio? O autor apresenta uma solução muito engenhosa: a noção de «livre-arbítrio» está inquinada, pois ela é uma contraposição à noção de determinismo, que não passa de uma característica de alguns dos nossos modelos da realidade. Não existe realmente nenhum livre-arbítrio, tal como não existe realmente nenhum determinismo.

A conclusão só pode ser que a nossa física está incompleta, muito refém do idealismo platónico, bem patente nas equações da teoria das cordas. Eu diria que, ao tentar ir ao «fundo» das coisas, Danielsson verificou que talvez haja outra maneira de olhar para elas. Talvez tenhamos que ver o conjunto, sem estar obcecado pelo «fundo». Falta de realidade nas equações que escrevemos, ou, dito de outro modo, há nelas «falta de corpo». Sem saber qual vai ser a física do futuro, Danielsson afirma que a física terá muito a aprender com a biologia, que unificou, sem grande matemática, a prodigiosa variedade do mundo vivo. Danielsson não o diz, mas atrevo-me a dizer: talvez não haja uma «teoria de tudo». Ou, se persistirmos em ceder à tentação de descrever a realidade com uma teoria unificada, talvez a «teoria de tudo» seja de outro tipo.

Este é o sexto livro de divulgação científica do autor, que tem, com 57 anos, larga experiência de divulgação científica na imprensa, na rádio e na televisão suecas (até já representou no Real Teatro Dramático, em Estocolmo). Depois da sua licenciatura na Universidade de Uppsala, a mais antiga da Suécia, fez o doutoramento na Universidade de Princeton, o sítio onde Einstein residiu, sob a orientação de um Prémio Nobel da Física, o norte-americano David Gross. Danielsson pertence, desde 2009, à Real Academia Sueca de Ciências, que atribui os prémios Nobel. No anúncio do Nobel da Física de 2020, que distinguiu o britânico Penrose, o alemão Genzel e a norte-americana Guez, pelos seus trabalhos sobre buracos negros, foi Danielsson quem explicou, urbi et orbi, o que eles são: terríveis abismos do Universo, onde o espaço e o tempo se encurvam de uma forma brutal.

O livro lê-se muito bem, graças à clareza de pensamento do autor e à qualidade da sua escrita. Foi traduzido de uma forma muito competente do original sueco. O leitor, mesmo que esteja fora da Física ou da ciência em geral, sente-se seduzido, sem ter de concordar com tudo. Um dos truques consiste no uso por Danielsson de referências literárias: invoca Proust, Borges e Rushdie. E referências das artes visuais e do cinema: refere Escher, Tarkovski e Kubrick.

Gostei, em particular, do modo como ele insere no seu texto exemplos da vida quotidiana. Por exemplo, um bom jogador de futebol não precisa, para marcar um golo, de resolver quaisquer equações. Entremeia também histórias pessoais. Por exemplo, quando uma educadora do infantário onde tinha o filho lhe perguntou o que era o infinito, ele respondeu, recorrendo ao corpo, que, quando se vai daqui para acolá, pode-se tentar ir mais longe e mais e mais… Claro que a certa altura nos cansamos, quer dizer, o infinito é uma noção ideal, platónica, que nos é corporalmente inacessível. Não sabemos se o universo é finito ou infinito, mas a parte que nos é acessível, seja pelo nosso movimento físico ou dos nossos artefactos, seja pela recepção de sinais luminosos, é finita. O conhecimento sobre o Universo é que parece não ter fim à vista, como tão bem sugere este livro. A realidade é real e nós estamos e estaremos confrontados com ela.

 

Coimbra, 16 de Agosto de 2021


"Einstein e Lenine em Moscovo”



 Realiza-se na terça-feira, dia 19 de Outubro de 2021, pelas 18 horas, a apresentação do livro “Einstein e Lenine em Moscovo”, publicada pela editora Parsifal e da autoria de Boris Hessen, com introdução, selecção de textos e tradução do físico Rui Borges. . A apresentação, inserida no ciclo em curso “Ciência às Seis! (temporada 6)”, será feita pelo físico Carlos Fiolhais que vai apresentar a obra O evento será presencial, regressando assim o CIÊNCIA ÀS SEIS às sessões ao vivo, respeitando as normas sanitárias em b vigor. Haverá transmissão online para o público interessado, que não possa estar presente.

Para aceder à sessão via zoom bastará entrar no evento criado no Site e no Facebook.

Resumo da obra:

A chegada de Estaline ao poder deixou uma marca indelével na cultura e na ciência russas. A música, a literatura, as belas-artes tiveram de se conformar aos ditames do realismo socialista e as ciências sociais transformaram-se num permanente canto de louvores ao secretário-geral. As ciências agrárias, sob a direção de Trofim Lysenko, conduziram a genética à marginalidade e a agricultura ao desastre. Um dos campos científicos que resistiu, e até prosperou, foi a física, que alcançou prestígio internacional através de cientistas como Igor Tamm ou Lev Landau.


Boris Hessen assume um papel muito decisivo neste processo. Contrariando aqueles que atacavam os trabalhos de Einstein ou de Schrödinger como «ciência burguesa» ou «idealismo», empenha-se na defesa da teoria da relatividade e da mecânica quântica, rejeitando qualquer tentativa de apreciar as novas teorias físicas com base nas convicções políticas ou filosóficas dos seus autores.

Os escritos de Hessen  apresentados no livro dão um testemunho precioso do trabalho de um dos mais notáveis e influentes pensadores da era soviética.

Os textos foram seleccionados e traduzidos do russo por Rui Borges e são precedidos de uma introdução sobre a época e o trabalho de Boris Hessen.

 

Biografia do autor e do coordenador da obra:

Boris Hessen nasceu em 1883, em Elisavetgrad, Ucrânia. Notabilizou-se pelo seu trabalho nas áreas  da história e da filosofia da ciência. Militante comunista, foi uma das primeiras vítimas do terror estalinista, tendo sido preso e executado em 1936. 

Rui Borges nasceu em 1973. Físico de formação, trabalhou como docente e investigador na Irlanda, Reino Unido, Brasil e Portugal. Em 2015 publicou Boris Hessen – O Cientista Subversivo, com uma tradução do texto de Hessen «As Raízes Sociais e Económicas dos Principia de Newton».


Para mais informações:

 

RÓMULO – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra

Maria Manuela Serra e Silva

Telefone – 239 410 699

E-Mail – ccvromulocarvalho@gmail.com

Facebook: https://www.facebook.com/Romuloccvuc

Ainda sobre o moderno e o clássico

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