sábado, 16 de outubro de 2021

MICHIO KAKU E A EQUAÇÃO DIVINA

Minha recensão no último I:


Com o título A Equação Divina e o subtítulo A busca inacabada por uma teoria de tudo e o futuro da física, acaba de sair na Bertrand Editora mais um livro de Michio Kaku, físico teórico, futurólogo e comunicador de ciência norte-americano (nasceu em 1947, de pais pertencentes a uma segunda geração de emigrantes japoneses). A tradução, boa, é de Elsa Vieira. O título, no original The God Equation (Allen Lane, 2019) fez-me lembrar, no domínio da ficção, A Fórmula de Deus (Gradiva, 2006), do jornalista e escritor José Rodrigues dos Santos, uma obra na qual colaborei. E fez-me também lembrar, no domínio da divulgação de ciência, The God Particle, obra do físico norte-americano já falecido Leon Lederman, Nobel da Física de 1988, e de Dick Teresi (Dell, 1993), sobre a partícula de Higgs, descoberta em 2012 (entrevistei Lederman em 2001 quando ele veio à Figueira da Foz). É claro que o nome de Deus atrai leitores. Alguns cientistas usam muitas vezes o nome de Deus, não em vão, mas no claro propósito de chamarem a atenção das pessoas. O leitor comum, ao ver as palavras «divino» ou «Deus» na boca ou da pena de um cientista, fica logo com as orelhas em pé.

No caso do livro de Kaku, a «equação divina» refere-se a uma equação capaz de condensar a «teoria final do Universo» ou «teoria de tudo». Um sonho de muitos físicos, com Albert Einstein à cabeça, tem sido unificar todas as forças fundamentais da Natureza numa única. Conhecemos hoje quatro forças (gravitacional, electromagnética, e forças nucleares fraca e forte), embora possam existir outras (a «energia escura» é um mistério). Einstein, nos últimos anos da sua vida, tentou, sem êxito, unificar as forças gravitacional e electromagnética, mas desde que morreu, em 1955, os físicos conseguiram unir primeiro a força electromagnética com a força nuclear fraca, formando a força electrofraca, e depois esta com a força nuclear forte, formando uma força de grande unificação. Continua por concretizar a
ambição de Einstein. O grande problema é que a força gravitacional é bem descrita, no quadro da teoria da relatividade geral de Einstein, por uma deformação do espaço-tempo, mas essa teoria não parece ser compatível com a teoria quântica, em cujo quadro foi bem-sucedido o esforço de unificação das restantes forças.

Kaku, que é professor no City College de Nova Iorque, acredita que essa unificação final poderá ser realizada pela teoria das cordas, uma teoria para a qual ele próprio deu contribuições. Escreve logo no início do livro «A principal (e, na minha opinião, única) candidata [a teoria de tudo] chama-se teoria de cordas e propõe que o universo não é feito de partículas corpusculares, mas de minúsculas cordas vibratórias, em que cada nota corresponde a uma partícula subatómica.» O autor, que no livro se declara agnóstico, usa a metáfora de «equação divina» para uma equação que pudesse condensar todo o Universo.

Num livro de 200 páginas que se lê muito bem (bela síntese com comentários bem-humorados), o autor dedica os primeiros cinco dos sete capítulos, que ocupam 132 páginas, à descrição da história da física, desde as ideias dos antigos gregos até às conclusões da astrofísica moderna, que exigem, por um lado, a teoria da relatividade geral e, por outro, a teoria quântica. Kaku diz que nos encontramos numa situação semelhante à do jovem Einstein no início do século XX: havia duas teorias incompatíveis, a teoria de Newton da gravidade e a teoria de Maxwell do electromagnetismo e uma delas tinha de cair: Einstein derrubou a teoria de Newton, embora ela mantenha a sua validade num certo limite. Agora afigura-se necessário um novo Einstein que concilie a teoria da gravidade geral, que tão bem descreve estrelas, galáxias, buracos negros e o Big Bang, com a teoria quântica, que tão bem descreve átomos, núcleos atómicos e partículas subatómicas. Escreve Kaku, à entrada do cap. 6: «O problema é que estas teorias estão em conflito entre si. Baseiam-se em dois princípios diferentes, duas matemáticas diferentes e duas filosofias diferentes.» E acrescenta: «A próxima grande revolução, esperamos nós, será para unificar estes dois pilares». A seguir, apresenta uma breve história da teoria das cordas a partir do seu início, em 1968, cuja leitura permitirá a um leigo ficar com uma ideia do que é um edifício matemático extremamente complexo.

A teoria das cordas é bastante exótica. Requer um espaço-tempo não com qautro, mas com dez dimensões. Richard Feynman, laureado com o Nobel da Física em 1965, costumava brincar com um dos autores da teoria das cordas: “Então John, em quantas dimensões estás hoje?”. A teoria está fundada em simetrias entre partículas de matéria e partículas de energia, entre o que os físicos chamam fermiões (como os electrões) e bosões (como os fotões), sendo possível transformar umas noutras (ora isso faz, desde logo, aumentar muito o número de partículas elementares: devia haver um electrino a par do electrão e um fotino a par do fotão). Permite enunciar o «princípio holográfico»: a informação num espaço de dimensão superior pode estar contida noutro de dimensão inferior (há uma versão da teoria das cordas, a onze dimensões, que engloba várias representações da teoria de cordas a dez dimensões). Existe uma infinidade de soluções possíveis, isto é, uma infinidade de universos paralelos ao nosso. Ainda que existisse uma «equação divina», ficaria ainda por saber porque é que neste nosso mundo é possível a vida e ainda por cima vida inteligente. Finalmente, e talvez seja este o problema maior, apesar da apregoada beleza da teoria, ela ainda não foi comprovada pela observação ou pela experiência. Os testes à sua validade parecem exigir instrumentos incomportáveis, como aceleradores de tamanho astronómico.

Kaku acredita, porém, na teoria de cordas. Ele acha que esta ainda está incompleta. E que é cedo para poder comparar os seus resultados com a experiência. Diz que é como se encontrássemos um bico de pedra no deserto, escavássemos um bocadinho e víssemos que é a parte de cima de uma pirâmide, mas ainda falta escavar muito mais a pirâmide para poder penetrar no seu interior. Há que ter paciência diz ele e continuar a afastar a areia.

Alguns físicos pensam que lhes estão a atirar areia para os olhos. Por exemplo, o italiano Carlo Rovelli, que esteve em Novembro de 2019 numa conferência da Fundação Francisco Manuel dos Santos, onde Kaku também participou, prefere a sua teoria quântica em laço. A controvérsia entre os teóricos de cordas e outros físicos já estalou em blogue e livros. Na minha opinião, tem havido demasiados recursos concentrados numa teoria de um só tipo. Devia haver mais “biodiversidade” de teorias.

No último capítulo («Encontrar sentido no Universo»), Kaku fala de Deus. Discute o Deus de Einstein, que é o nome que ele dá à «harmonia do mundo». Einstein queria saber se haveria outras escolhas possíveis para as leis de funcionamento no mundo ou se só há uma só possibilidade lógica, precisamente aquela que hoje procuramos. Será a harmonia do mundo única? Kaku diz: «Se o meu raciocínio está correcto, então não há escolha. Existe apenas uma equação capaz de descrever o Universo. Porque todas as outras são matematicamente inconsistentes.» O físico faz depois uma breve incursão pela teologia dizendo que a prova da existência de Deus de São Tomás de Aquino que invoca a necessidade de um «primeiro motor» ainda é actual (não falta quem discorde que algum dia se possa provar a existência de Deus). Sobre o início do mundo, pensa que é possível conciliar a visão cristã da criação com a ideia budista de um mundo sem princípio nem fim, uma vez que, segundo a teoria das cordas, estariam constantemente a ser criados universos paralelos. Finalmente, numa secção sobre o «sentido num universo finito», Kaku especula que uma passagem por um wormhole para outro universo permitiria evitar um eventual fim da vida no nosso mundo. “Talvez a fusão da teoria quântica com a relatividade nos ofereça uma cláusula de fuga.” Neste caso, conclui, a teoria das cordas seria «a nossa salvação». Parece-me uma ideia demasiado louca!

Kaku gosta de fazer previsões a longo, muito longo prazo. A maior parte dos seus livros, best-sellers internacionais e nacionais (a Bizâncio tem sido a principal editora entre nós), são sobre o futuro, discutindo a possibilidade de algumas coisas que hoje julgamos impossíveis. Eis a lista dos seus livros publicados em Portugal, por ordem cronológica: Para Além de Einstein (Europa-América, 1989), Visões (Bizâncio, 1998), O Cosmos de Einstein (Gradiva, 2005), Mundos Paralelos (idem, 2006), A Física do Impossível (Bizâncio, 2008), A Física do Futuro (idem, 2011), O Futuro da Mente (idem, 2014), Hiperespaço (idem, 2016), e O Futuro da Humanidade (idem, 2018).

Em 2019 entrevistei Kaku para o Público. A entrevista intitulou-se «Chegaremos às estrelas». Bem, não sei se será verdade, mas num certo sentido eu cheguei à «estrela». De facto, Kaku é uma verdadeira estrela da rádio e TV nos Estados Unidos e no mundo, com inúmeros aparições no ecrã a explicar a física avançada e a prever o que vai acontecer daqui por milhões de anos. É já um ídolo pop: a banda britânica Muse editou em 2001 o álbum Origin of Symmetry baseado na obra Hiperespaço. E Kaku apareceu nos extras do DVD Total Recall (2012) a explicar a física desse filme de ficção científica baseado num conto de Philip Dick.

É muito estimulante ler Kaku, ainda que não tenha que levar à letra tudo o que ele diz…

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