quinta-feira, 28 de outubro de 2021

O DESPORTO COMO ASPIRAÇÃO DE TRANSCENDÊNCIA

 


Meu prefácio a "Estádio de Espírito" de César Rodrigues;

Segundo Aristóteles, os Jogos Olímpicos nasceram em Olímpia, na península do Peloponeso, na Grécia, em 776 a.C.. Terão terminado em 394 da era cristã, com o incêndio do templo de Zeus nessa cidade.  Só foram reatados em 1896, em Atenas, sob o impulso do francês Pierre de Coubertin. Neste ano de 2021 tiveram lugar em Tóquio os XXXII jogos da era moderna, após um adiamento de um ano devido à pandemia de Covid-19.

Nos Jogos Olímpicos antigos estava bem patente a aspiração de transcendência. Entre vários outros mitos, atribuía-se a Hércules, filho de Zeus, a fundação dos jogos, em homenagem ao seu pai, após ter realizado os seus doze trabalhos. Os jogos tinham lugar no lugar do santuário de Zeus em Olimpia, onde se encontrava uma estátua colossal do “deus dos deuses”, que era uma das sete maravilhas do mundo antigo (o nome “Olímpia” tem a ver com o Monte Olimpos, a alegada morada dos deuses, que fica muito longe, no Norte da Grécia). A chamada “trégua olímpica” significava que as guerras deviam ser interrompidas para estas cerimónias, que tinham um carácter marcadamente religioso. De algum certo modo os Jogos Olímpicos eram uma forma de honrar os deuses, sendo os vencedores um elo entre os homens e as divindades, entre o mundo terreno e mundo celeste. Os vencedores, coroados de louros, cantados em poemas e eternizados sob a forma de estátuas, deveriam ser exemplos.

Herdando a tradição olímpica, o desporto, na sua acepção mais nobre, constitui, nos nossos dias, uma forma de elevação do ser humano. O lema olímpico Citius, Altius, Fortius – “Mais rápido, mais alto, mais forte” – expressa precisamente este desejo de transcendência, de ir além dos actuais limites. Os atletas procuram dar o melhor de si, numa atitude que nos pode inspirar a ser melhores. Os vencedores olímpicos já foram chamados os “deuses do estádio”, significando que eles são, num certo sentido, os “melhores de nós”. O desporto, olímpico ou não, pode fornecer lições para a vida, como em Portugal tão bem tem ensinado o filósofo do desporto Manuel Sérgio.

César Rodrigues é, entre outras áreas, um estudioso do fenómeno desportivo, investigação que realiza no quadro do CEISXX, o Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra. Tive ocasião de colaborar com o César em dois livros anteriores,  saídos em 2016, com o propósito de assinalar os 50 anos do 3.º lugar de Portugal no Campeonato Mundial de Futebol. Num deles, Mundial: 66 olhares, contribuí com um artigo, onde contei as minhas memórias dessa competição, que passam pela fabulosa vitória de Portugal (ou melhor, de Eusébio…), por 5-3 contra a Coreia do Norte, depois de estar a perder por 3-0. No outro livro, Mundial 66: 100 primeiras páginas, tive o prazer de a apresentar, em Coimbra, na companhia de António Simões, um dos “magriços” lusitanos de 1966 (nunca pensei, confesso, que pudesse “jogar” a seu lado). Mais recentemente, no seu livro de crónicas 5295, com o subtítulo Política, Sociedade, Comunicação, Educação, Desporto (2017), redigi um comentário a uma crónica, tal como fizeram outros comentadores convidados. A propósito de emigração falei da teoria da relatividade de Einstein.

No presente volume, Estádio de Espírito, César Rodrigues reúne um conjunto de crónicas sobre desporto, que são também comentadas por diversos autores. Algumas delas versam os Jogos Olímpicos, quer os de Verão quer os de Inverno. Distingo a crónica sobre a morte do português Francisco Lázaro, que, como membro da primeira delegação portuguesa aos V Jogos Olímpicos da era moderna realizados em Estocolmo, em 1912, morreu em plena prova da maratona, tal como o lendário soldado grego que vinha trazer notícias da batalha da Maratona contra os Persas. Uma ligação pouco conhecida à ciência é que um outro atleta português desses jogos foi Armando Cortesão (natural de S. João do Campo, Coimbra, na altura com 21 anos), que começou a sua carreira como engenheiro agrónomo e depois se tornou um notável historiador na área da náutica e da cartografia. Ora Cortesão foi o autor da tese A teoria da mutação e o melhoramento das plantas (Estudo trematológico), realizada no Instituto Superior de Agronomia, em Lisboa, em 1913, que foi pioneira entre nós da genética, uma ciência que emergia nessa altura.

Algumas das crónicas deste livro são, como não podiam deixar de ser, sobre o futebol, o “desporto-rei”, mas a maioria trata de outras modalidades desportivas, que vão do surf ao motociclismo, passando pelo ténis. Foram publicadas em vários jornais e revistas, avultando o site da revista Sábado. Reunidas entre as capas deste livro, essas crónicas ganham não só uma imagem de conjunto como também perenidade. Ficam deste modo acessíveis a nós que somos deste tempo e aos historiadores que, no futuro, nos queiram conhecer. Ninguém pode conhecer bem uma dada época do país ou do mundo, sem conhecer as suas variadas e por vezes muito intensas manifestações desportivas.

O autor escreve de uma forma leve e com sentido de humor, como convém para atrair leitores. Tenta não só captar um momento, mas extrair pedagogicamente uma lição. Já não temos os deuses do Olimpo, mas o desporto ainda deve ser, nos tempos de hoje, uma escola de virtudes. É ainda um extraordinário meio de superação humana, como já era na remota Antiguidade. Continua a convidar-nos a ir mais longe.  O desporto é, hoje como antigamente, uma forma de transcender a nossa humana condição.

Carlos Fiolhais*
*Professor de Física da Universidade de Coimbra


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