domingo, 10 de outubro de 2021

O MUNDO QUE O HOMEM CRIOU

 


Novo poema de Eugénio Lisboa:

O MUNDO QUE O HOMEM CRIOU

 

Os sinais estão aí, por todo o lado,

insinuam que o mundo apodrece,

que está todo despedaçado,

que, sem redenção, sobreaquece.

Os rios e os mares infectados,

os vírus desvairados, assassinos,

as terras desertadas, devastadas,

dilúvios afogando peregrinos,

o mundo em completo desconcerto

a vida cada vez mais degradada,

a luta pela vida num aperto,

a esperança de viver desbaratada,

os hospitais cheios e exauridos,

os cemitérios todos esgotados,

os gritos das crianças assustadas,

apagando-se em sítios  esquecidos!

A lama, o sangue, o pus, a merda toda

medalhas que sobraram da vida que houve,

no meio de tudo isto, a estuporada foda,

resto de vida, que durar não soube!

Da música sublime que se criara,

sobra, para acompanhar a derrocada,

marcha fúnebre para a ardida seara,

montanha de ruínas assombrada.

Radiações que matam devagar

e o frio que aos poucos nos devora,

tudo eficaz arte de matar,

dando-nos um final que não demora.

A história do homem nesta Terra,

feita de conflitos e descobertas,

deu pra inventar ciência e guerra

e, ao terror, ofertar portas abertas.

O nosso mundo vai chegar ao fim

e, desta nossa construída glória,

finar-se-á, a um toque de clarim,

história de que não ficará memória.

Eugénio Lisboa

 

 

 


1 comentário:

  1. Um poema inspirador. Um poema que é um toque de clarim.
    Muitas batalhas foram perdidas porque o fragor dos ferros e dos gritos não permitiram que os combatentes ouvissem os toques da ordem.
    Ficavam assim à mercê do inimigo, desorientados, em vez de fugirem, resistiam, mas sem rectaguarda, ou fugiam desordenadamente na direcção errada.
    A comunicação, nas batalhas, sempre foi um dos pontos chave e mais difíceis de conseguir e de coordenar, sobretudo antigamente, em que os sinais sonoros para chegarem às tropas, não deviam confundir-se com os sinais do inimigo, perderem-se no espaço ou serem distorcidos pelo ruído produzido durante a batalha.
    A comunicação é, se prestarmos alguma atenção ao problema, o calcanhar de Aquiles, da guerra como da paz.
    A guerra é para especialistas, como a ciência é para especialistas, mas as técnicas e os combates são para todos. À ciência não pode ser imputada nenhuma responsabilidade. A pólvora não tem culpa de ser explosiva, nem as máquinas têm culpa de demolir, nem o fogo tem culpa de devorar e liquefazer tudo, até um certo ponto. Nenhuma droga, ou aeronave, podem ser responsabilizadas dos danos que causam. Assim como um cão ou um vulcão. Mas podemos sempre tentar metê-los a todos numa prisão. Só que, enquanto o homem continuar a existir, à solta, ou não, vai ser obrigado a lutar pela sobrevivência e isso tem de ser colectivo.
    Infelizmente, a humanidade não tem sido muito bem-sucedida na tentativa de fazer o melhor. A natureza, incluindo a humana, é indócil e rebelde, para não dizer inábil, relativamente a uma bondade objectiva dos nossos actos construtivos, tantas vezes com imenso trabalho e sacrifício.
    Afinal, temos andado a construir destruindo, ou a destruir construindo? Quanto das construções são destruições irreversíveis? E como remediar e evitar continuar?

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