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quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Na educação como na medicina...

Quando li no texto Ciência diluídade Carlos Fiolhais,
"Não deixa de ser irónico que os responsáveis directos pela diminuição drástica da ciência sejam todos médicos, tal como o Secretário de Estado Adjunto do Ministro da Saúde. É médica a Secretária de Estado da Ciência e Tecnologia, é médico o Presidente da Fundação para a Ciência e Tecnologia e é médico o Presidente do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia."
não pude deixar de pensar que, lamentavelmente, não é só no domínio da educação que a pseudo-ciência ganha terreno e legitimidade legal. Isso é tanto mais lamentável quando se percebe que a responsabilidade final cabe a pessoas encartadas na matéria.

A medicina, que apesar de muitas derivações, tem conseguido manter um estatuto científico, (presumo que) cede agora a pressões, a modas, ao que quer que seja.

A legitimação de práticas que não são medicina como medicina é uma derrota também para a educação, pois revela que, em termos de pensamento social, ao contrário de caminharmos para uma separação de águas, do que é científico e do que não é, caminhamos para a confusão.

O que eu disse não pode ser interpretado como revelador de uma atitude de cientismo, como é frequente ser interpretado. Reconheço à arte, à religião, à filosofia... a mesma dignidade que reconheço à ciência. Trata-se de formas de conhecimento de que precisamos, mas é preciso percebermos as especificidades e regras de raciocínio de cada uma delas.

Atitude de cientismo denota, sim, quem estando noutra área que não a científica reivindica entrar nela à força e contra todos os argumentos.

terça-feira, 4 de março de 2014

Ao estilo Sokal

"Nos últimos anos, muitos estudos têm-se dedicado à criação de chaves públicas e privadas de criptografia; por outro lado, poucos sintetizaram a visualização do problema do produtor-consumidor. Dado o estado actual de arquétipos eficientes, importantes analistas notoriamente desejam uma emulação do controlo de congestionamento de rede, que incorpora os princípios fundamentais de hardware e arquitectura."
O que acha o leitor(a): Este parágrafo é credível? É compreensível? Terá sido extraído de um estudo científico? Estas perguntas fazem-no certamente desconfiar... Talvez o(a) levem a pensar ter sido, vá lá... mais uma brincadeira de estilo Sokal.

Pois, é mais ou menos isso, mas num estado de ironia mais aperfeiçoado... É, pasme-se, um extracto de um suposto artigo produzido por computador. Quer dizer, produzido por um programa especial sem intervenção de mão humana.

Há quase uma década, alguém criou esse programa para mostrar (mais uma vez) a desatenção, o desleixo, o que-quer-que-seja, patente em muitos processos de arbitragem científica.

Parece que duas editoras de revistas consagradas, daquelas onde toda a gente está mortinha por publicar, alteradas por um perito em computação, retiraram de circulação para cima de cem "artigos" que haviam publicado entre 2008 e 2013 (ler aqui e aqui).

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Ciência... que ciência?

Luís Reis Torgal escreveu um artigo de grande interesse, divulgado no Público no passado dia 4 de Fevereiro, sobre a questão do financiamento da ciência em que tem ocupado grande parte das discussões nacionais.

Ninguém se espante que os governos, há algum tempo, e não só agora, tenham perdido a noção do valor crítico da ciência.

Todos os dias abro o jornal e vejo um artigo sobre a crise da ciência em Portugal, um dos últimos do PÚBLICO até sobre “aquilo que não tem sido dito no debate”. É como se a diminuição da concessão pela FCT das bolsas de estudo e a revolta que provocou entre os que não obtiveram bolsa – o que se compreende, dada a possível desaceleração no desenvolvimento da ciência e dada a lamentável situação de desemprego e de subemprego dos nossos mestres e doutores – fizessem vir ao de cimo todas as questões relativas à ciência.

E nesses discursos a ciência é por vezes apresentada de tal forma que é identificada como mais um “modo de produzir” do que como uma descoberta ou uma nova maneira de interpretar o mundo e a vida. Evidentemente que, neste contexto, ficam a perder, como, de resto, já há muito sucedia, algumas ciências sociais, mas também algumas ciências fundamentais ligadas à natureza e à matemática, mas até algumas tecnologias. O economicismo e o pragmatismo tomaram conta de tudo.

Falemos com franqueza e procuremos, ao menos, sugerir a necessidade de descer ao fundo dos problemas: neste país não há lugar para cientistas, como não há lugar para jornalistas, ou para professores, ou para artistas, ou para arquitectos, ou para electricistas, ou para carpinteiros, ou para comerciantes, ou para empregadas domésticas… Por isso se aconselharam os portugueses a emigrar ou a conseguir qualquer subemprego mal pago e com poucas ou muitas horas de trabalho, que os levassem a sair da situação estatística de “desempregados”. E por isso se utilizam chavões, como “empreendedorismo”, para não falar do desenvolvimento que escasseia ou para mascarar a frustração de muitos que têm apenas o desejo de ter um trabalho honesto, desempenhado e pago honestamente, como cientistas, professo-res, operários de uma fábrica…

Numa dada altura da minha vida académica (e ainda hoje) fui (e sou) contra o “processo de Bolonha”, não contra as (boas) intenções da “declaração” assinada em 1999 na cidade italiana onde surgiu a primeira universidade europeia, mas pela virtualidade trágica que ela já continha e que se veio a desenvolver. No fundo, está nela a potencialidade de fazer com que os estudantes permaneçam no ensino superior o mais tempo possível. Se a licenciatura - pouco exigente - não serve para nada, caminha-se para o mestrado, naturalmente menos exigente do que no passado. E como o mestrado para nada serve segue-se para o terceiro ciclo, o doutoramento, onde quase todos os estudantes podem entrar, em muitos casos não para obter uma habilitação que lhes dê acesso a um emprego ou à investigação científica, para que se sentem vocacionados, mas porque, com ilusões ou já desiludidos, não conseguiram nenhum trabalho anteriormente. Assim, vão coleccionando graus, passando finalmente da situação de doutorados para pós-doutorados e daí, por vezes, para a “sensação de incompetência” (num processo algo parecido com o “princípio de Peter”), que os leva a ter de procurar um outro lugar fora da ciência ou da profissão que queriam escolher, em Portugal ou no estrangeiro, onde, todavia, em alguns países, há mais possibilidades de trabalho científico.

Este país não é para velhos nem para novos. Os primeiros, no caso dos cientistas, são velhos de mais para pensarem de acordo com o sistema, sendo substituídos pelos mais novos melhor integrados, mas também menos qualificados na escala universitária e menos experientes e que, em certos casos, vão até avaliar os seus mestres, quando estes se propõem ser orientadores de projectos. Quanto aos no-vos, não sei se esta é “a geração melhor preparada” (como por aí se diz) ou a que possui mais graus e mais cursos. E também não sei se as regras burocráticas para obter bolsas acabam por escolher os melhores (a “nata da nata”, os que fazem “investigação de qualidade”, como dizem os nossos responsáveis) ou aqueles que melhor se integraram no sistema: os que têm mais artigos online e em inglês e que por isso são mais citados, que estiveram em centros que se presume de melhor qualidade (sobretudo no estrangeiro), que souberam criar de forma real ou artificial projectos internacionais… Seja como for, o que é preciso - diz-se - é criar “massa crítica”, mesmo que, individualmente ou em grupo, haja pouca consciência crítica no domínio da ciência, como no domínio da observação do que se passa na sociedade. É por isso que nas acções cívicas quase não há jovens, que procuram de preferência as juventudes partidárias que lhes dão o emprego que a competência não consegue alcançar.

O certo é que nenhum cientista ou aprendiz que se preze deve deixar de reflectir sobre o que anda a fazer neste mundo comandado pela lógica do capital. Todos os grandes cientistas tiveram e têm essa consciência, a começar (se não quisermos recuar a um passado longínquo) em Einstein, que escreveu sobre a crise de 1929 e que, com Arnold Berliner ou com Freud, pensaram numa sociedade de homens de ciência que interrogassem constantemente o mundo do saber, o que hoje pode não suceder, verificando-se sim, em muitas situações, o mundo da ciência e da tecnologia acríticas e dos gestores da sociedade capitalista sem ética. Ao menos que a actual situação provoque entre os jovens cientistas um desejo de pensar para além dos limites do seu ainda incipiente saber. Temos um governo que deixou de pensar na democracia (política, cívica e social), que a meteu na gaveta em nome da recuperação económica, não em favor da sociedade, mas sim (dizem governantes e seus seguidores) da independência que se perdeu devido à culpa dos “outros”, esforçando-se por criar a ilusão que luta pelo país, que só vê representado no emblema que traz na sua lapela. Por isso ninguém se espante que os governos, há algum tempo, e não só agora, tenham perdido a noção do valor crítico da ciência. Os cientistas e os centros de investigação são para eles cada vez mais “excelentes”, ou não, à medida que se adaptam, ou não, ao seu sistema produtivo. A ciência é para eles também uma ideologia (o que, evidentemente, recusam), que acompanha o seu desejo de constituir uma sociedade à sua medida, à medida dos regulamentos que engendram, com os seus próprios “cientistas de eleição”.

Ciência… que ciência? Será preciso começar por aqui, em nome dos verdadeiros cientistas e daqueles aprendizes que humildemente procuram desenvolver o saber que foram colhendo ao longo da vida (já longa para uns e ainda curta para outros), não tanto através de graus obtidos, mas do trabalho duro no laboratório, no arquivo, na biblioteca, no seu labor (por vezes solitário e fora de horas) em casa à frente de livros e de folhas de papel ou do computador… A olhar sempre criticamente para a sociedade em que vivem.

Luís Reis Torgal
Professor catedrático jubilado da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Estamos a falar de ciência?

O que é a ciência? Não se apresse o leitor a responder, pois a resposta não é fácil: requer ponderação. E, depois de ponderar - sobretudo, se muito ponderar - é bem possível que, como fez Richard Feynam numa conferência de 1966, contorne a questão e passe a dissertar sobre... ciência ou sobre um outro assunto menos complicado.

Mas, antes, pense no seguinte: podemos dizer que é científica uma actividade que, com a intenção de descobrir alguma coisa, se socorre de procedimentos, metodologias e técnicas que a ciência usa, mas despreza os mais elementares princípios éticos?

Há quem diga que sim. Eu digo que não. E, digo-o cada vez com mais certeza. Leio e releio os mestres por onde aprendi e a minha conclusão não pode ser outra.

Um desses mestres é Jacob Bronowski, que está sempre a dizer-me que a ciência é um "modo humano de pensar", "é uma forma de conhecimento extremamente humana", e daqui não pode afastar-se um milímetro que seja. Ele sabia bem do que falava, o que a vida lhe mostrou foi mais do que suficiente para chegar a esta ideia depurada.

Se se lhe alhear das pessoas, se não se importar com elas, se as usar para fins particulares que em nada as beneficia e, até, as prejudica, se as manipular por ganância, seja ela de que tipo for (poder, dinheiro, "palco"...), transforma-se precisamente no seu contrário: transforma-se em vilania.

Estas considerações são a propósito de um caso concreto (que lamentavelmente tem muitos exemplos conhecidos como o que se pode ler aqui em notícia do jornal Público, e aqui em artigo científico): a "investigação" que grandes empresas de comunicação fazem a partir dos conteúdos que circulam na internet, mais concretamente de mensagens particulares de correio electrónico, sendo que quem as escreve e quem as recebe não é ouvido para dar a sua autorização informada, que indubitavelmente se requer.

Mas, nesta fotografia, muito pior do que essas empresas e os seus investigadores assalariados, ficam as universidades e os seus investigadores que colaboram com essas empresas. E ficam pior porque as suas responsabilidades são acrescidas: além de pugnarem pelos valores da ciência, tudo devem fazer para que eles não sejam desvirtuados, abastardados, tanto dentro como fora das suas portas.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Escrever para impressionar ou para comunicar?

Como é que, segundo Karl Popper, se deve comunicar a ciência? De modo claro e compreensível, do modo mais claro e compreensível que for possível.
E se assim não acontecer? A ciência não avança. Porque a crítica, uma das condições do seu progresso, não se pode exercer. Tão simples quanto isso!

“Há muitos anos, costumava prevenir os meus alunos contra a ideia largamente espalhada de que se vai para a faculdade para aprender a falar e a escrever «de modo a impressionar os outros» e de forma incompreensível. Na altura eram muitos os alunos que chegavam à faculdade com esta ideia ridícula, especialmente na Alemanha. E a maioria dos estudante par excellence. Há poucas esperanças de que venham a alguma vez a compreender que estão errados, ou que há outros padrões e valores — valores como a busca da verdade, a aproximação à verdade através da eliminação crítica do erro, e a clareza. Nem virão a descobrir que o padrão de obscuridade «que impressiona» vai, de facto, contra os padrões de verdade e de crítica racional. Pois estes últimos valores dependem da clareza. Não podemos distinguir a verdade da falsidade, não podemos distinguir uma resposta adequada de uma resposta irrelevante para um problema, não podemos distinguir as boas ideias das ideias banais e não podemos avaliar criticamente as ideias (…).”
Karl Popper (1999). O mito do contexto: em defesa da ciência e da racionalidade (Lisboa: Edições 70), p. 97.

«Escrevi na língua coloquial porque é preciso que toda a gente o leia»

Sobre a tradição de divulgação da ciência e os problemas com que se tem confrontado.

"Galileu afrontou ainda mais a tradição académica ao escrever a Dissertação [Sobre os Copos que ficam em Cima da Água] em italiano, em vez de latim, a língua franca que permitia que a comunidade académica europeia comunicasse entre si.
«Escrevi na língua coloquial porque é preciso que toda a gente o leia», explicava Galileu - referindo-se aos contrutores navais que admirava no Arsenal veneziano, os sopradores de vidro de Murano, os esmeriladores de lentes, os fabricantes de instrumentos e todos os compatriotas curiosos que assistiam às suas conferências públicas. «Sou levado a fazê-lo por ver como os jovens são enviados ao acaso para as universidades para deles se fazerem médicos, filósofos e aí por diante; assim muitos entregam-se a profissões para as quais não estão adaptados, ao passo que outros que estariam indicados são afastados pelos cuidados co a família e outras ocupações distantes da literatura... Agora, quero que eles vejam que, assim como a Natureza lhes dá tanto a eles como aos filósofos olhos com os quais vejam as suas obras, também lhes deu cérebros capazes de as penetrar e compreender»".

Dava Sobel, A filha de Galileu (Círculo de Leitores/Temas e Debates), 2012, p´. 49

domingo, 27 de maio de 2012

A cultura do inumano

«Outro aspeto que torna desumanos os direitos culturais é o facto de a condição cultural árabe, judaica, muçulmana, corsa, basca, sérvia, americana, ocidental, etc, os colocarem acima da condição humana. É aqui que a ilusão cultural provoca os maiores estragos: quando acreditamos que somos humanos apenas por temos uma cultura e não por natureza, sempre que encerramos a dignidade humana na sua origem étnica, religiosa, nacional ou imperial. Deixamos então de entender a expressão “cultura” como um aperfeiçoamento livre de nós próprios, mas como uma entrega da consciência a um primado determinista» (Hélé Béji, 2006).

Um post recente em que Helena Damião critica, com oportunidade, a oferta de proposta curriculares, por parte do Ministério da Educação, centradas em “culturas” específicas, por essas ofertas colidirem com valores fundamentais, levou-me a recordar um texto de Hélé Béji, intelectual tunisina, antiga professora da Faculdade de Tunis e fundadora do Colégio Internacional desta cidade, que tem investigado sobretudo nas áreas da antropologia e da descolonização.

Uma das características mais perturbantes da pós-modernidade é a multiplicidade das racionalidades num processo de atomização da razão que a própria razão não compreende. Sobretudo se se faz assentar num multiculturalismo, provocador de inúmeras centralidades, e numa espécie de atomização conflituante, quando é certo que é a própria razão cultural que compreende, aceita e promove o referido multiculturalismo.

A emergência e valorização das mais diversas culturas pela descentralização que fazem da tradicional cultura europeia são, obviamente, um factor positivo. «Os povos descolonizados souberam provocar o renascimento da sua tradição voltando a encontrar o seu ponto cardeal, o seu Oriente (“orientar” significa etimologicamente implantar um edifício na direção do Oriente). Foi deste modo que apareceram os conceitos de negritude, arabismo, judaísmo, islamismo, etc. que, recordo, exemplificam paradoxalmente a própria filosofia das Luzes, no seu princípio do direito a governar-se a si próprio» (Hélé Béji, 2006, 59).

A valorização das realidades culturais, correndo paralelamente à reivindicação emancipatória dos antigos povos colonizados ou dependentes do modelo ocidental, conduziu a que diversos movimentos edificassem uma poderosa fundamentação ideológica, em boa medida assente em especificidades dessas realidades. Os estudos de etnologia e de etnografia vieram, por outro lado, sensibilizar para tais especificidade e, portanto, para a razão de ser de cada uma delas, aceitando e promovendo a sua dignificação.

Mas, por má consciência nossa ou por efeito dos movimentos de pêndulo a que certas coisas estão sujeitas, o Ocidente tem-se desmobilizado do sentido crítico, da racionalidade, de modelos intelectuais, de padrões estéticos, de valores morais, enfim, de um conjunto de níveis (logo, de exigências) a que a humanidade chegou. Com essa desmobilização desvitalizamos os referentes, enfraquecemo-los, fazemo-los regredir…

Passada a fase de penitência a que o Ocidente europeu se submeteu por consciência de culpa, de muitos, e de rancor transformado em ideologia, de muitos outros, é altura de recuperarmos o equilíbrio. Porque, se as especificidades culturais são um factor de identidade dos povos, podem ser também razão para o enclausuramento de todos, e de domínio da maioria por pequenos grupos de fervorosos sacerdotes laicos transformados em opressores tão obscurantistas quanto aqueles que combateram. «O pluralismo, a diversidade e a diferença, à partida tão fecundos, tornam-se germes de discriminação, tão virulentos e intolerantes como uma ideologia racial», diz Hélé Bedji.

E, mais, podem transformar-se numa blindagem à circulação das ideias e à análise das razões, transformando-se em fatores de alienação: «Como a cultura se substituiu ao racial, cada cultura, forte ou fraca, é atualmente uma apologia de si mesmo, que nenhuma razão consegue criticar, uma vez que cada uma reclama a sua própria razão. Já nenhuma neutralidade consegue arbitrar, uma vez que cada cultura fixa as suas próprias regras de jogo; já nenhuma lei consegue julgar, uma vez que cada cultura cria os seus próprios direitos a partir das suas próprias convicções».

Todos nós temos sido confrontados com o poder afirmativo e até arrogante de certas “tradições”, frequentemente contra toda a lógica e toda a racionalidade, como afirmação de um “direito” que ninguém tem o direito de contestar, ou que a irracionalidade mantém, impante e incontestável. Mesmo quando não se trata de tradição alguma, é uma invencionice de última hora, ou é o resultado de uma escolha arbitrária de pessoas ou grupos.

Há exemplos para todos os gostos, desde as praxes académicas em universidades de tenra idade até aos touros de morte em Barrancos; desde a circuncisão dos rapazes e a ablação do clitóris às raparigas, na África, aos abortos dos fetos femininos, na Índia, porque as ecografias já permitem evitar o antigo assassínio das crianças de sexo feminino. Tudo “tradições” ou especificidades culturais que uma mentalidade cultivada e evoluída não encontra razões para poder aceitar. Como diz, ainda, Hélé Béji: «O despertar das tradições desnaturou-se, porque os direitos da tradição são muitas vezes utilizados, nos países descolonizados, não para fins de igualdade e de liberdade, mas de submissão, de obediência e de medo.

Esquecemo-nos, com demasiada frequência, de dizer que o islamismo armado fez muitas mais vítimas nos próprios países muçulmanos do que nos cristãos (contam-se mais de 100.000 mortos na Argélia). Conclui-se que o pertencer a uma mesma cultura ou a uma mesma religião não é uma garantia de tolerância ou de felicidade política».

O Ministério da Educação tem pois de ter cuidado com estas coisas. As questões de educação são mais complexas e importantes que o simples e cómodo seguir o politicamente correto e ir atrás da “evidência” das ideias feitas. Para isso temos que chegue na maior parte da comunicação social, nos políticos demagogos e em todos os opinadores de esquina. Educar é exigir inteligente e adequadamente a partir de padrões de qualidade. E os níveis culturais e humanísticos a que chegámos foram obtidos à custa de inumeráveis esforços, trabalhos e desejos de perfeição, não podendo, pois, ser deixados à guarda de mentalidades levianas, desleixadas ou incultas.

Efectivamente, o Ocidente tem que (voltar a) capacitar-se de que, apesar das desgraças do Mundo, muitas provocadas por ele, serem um fator recorrente, há enormes progressos, não só nos domínios científicos e tecnológicos, mas também ao nível dos valores civilizacionais, alguns dos quais estão na base dos próprios movimentos de libertação de povos submetidos, europeus e outros. Na base desses valores está a razão e os seus princípios de pensamento e a possibilidade maravilhosa de todos os seres humanos se entenderem.

Há, pois, valores a que a Humanidade já chegou, que dão de nós uma ideia e que nos projetam para níveis superiores aos de cada cultura, enquanto entidade idiossincrática. Ora isto, pela sua vocação universalizante constitui um fator de valorização e de defesa de cada ser humano e de todos os seres humanos. É bom que quem tem responsabilidades educativas não se esqueça disso.

Referência: Béji. H. (2006). A cultura do inumano. In Jérôme Bindé. Para onde vão os valores? Lisboa: Instituo Piaget, 57-64.  

João Boavida

sexta-feira, 4 de maio de 2012

A formação superior de George Steiner

Lembra muito bem, em comentário, o nosso leitor António Bettencourt que George Steiner teve formação superior em física e matemática. A sua educação errática e a sua deambulação universitária, onde as ciências e as humanidades se entrecruzam, é contada em diversos livros. Um deles é Quatro entrevistas com George Steiner, da autoria de Ramin Jahanbegloo (2000), editado pela Fenda (páginas 44-50).
Fui para Yale. Graças aos meu dois diplomas do secundário pude entrar directamente para o segundo ano (…) o ambiente da universidade fazia-me sentir um tédio mortal; eu continuava a sonhar com Paris, e disse, por isso, ao meu pai que não aguentava. Ele respondeu-me que tinha de me esforçar por aguentar porque ele não podia arranjar-me outro sítio para estudar e eu precisava de esperar um ano inteiro antes de poder ir para Paris.  
Acontece que eu tinha lido um artigo sobre a Universidade de Chicago, onde um grande reformador chamado Hutchins acabava de lançar uma experiência interessante. Hutchins também pensava que o sistema americano não valia grande coisa e que era preciso descobrir uma solução que permitisse aos estudantes mais dotados não perderem o seu tempo. A regra queria que cada aluno seguisse os cursos e fizesse as provas de exame de catorze disciplinas obrigatórias. Uma nota de dezoito em vinte dispensava o aluno de seguir o curso. Escrevi a Hutchins, nos finais do mês de Outubro. Ele deve ter-se sentido divertido com um rapaz que hesitava entre Yale e Paris e cuja carta rezava: «Dê-me mais uma oportunidade, aqui aborreço-me de morte.» 
Pediu-me depois que fizesse as catorze provas de exame e eu tive dezoito em vinte disciplinas diferentes, ainda que um zero tenha preniado os meus resultados em matemática, em física, em química e em biologia. O que era uma consequência do facto de ter tido um fim de secundário consagrado ao grego e ao latim. Foi então que me foi oferecida a oportunidade mais extraordinária que se possa conceber: exigiram-me que seguisse o programa científico. Apaixonei-me literalmente pelas matérias que Hutchins tinha pedido ao Prémio Nobel de Física que se encarregasse das aulas de introdução (…) Urey foi meu professor de Química. Assim passei a antever um futuro de cientista e, nesse futuro, a minha carreira. Licenciei-me num ano em vez de quatro, o que de resto não é nem era muito habitual. Nesse ano fomos três a consegui-lo (…) 
Depois do exame, fui ver o meu conselheiro de estudos. Entro no gabinete dele cheio da arrogância dos meus dezoito anos. Ele respondeu-me: «Ouça, você teve muito boas notas, mas essas notas não querem dizer nada. Vê-se logo à primeira vista que aprendeu as suas matemáticas de cor, que o seu trabalho não tem um átomo de profundidade. Atirar-se para os braços das ciências exactas seria preparar-se para um desastre.» (…) Aquilo que um conselheiro de estudos entendia por ciências era a física nuclear que exigia uma parendizagem profunda das matemáticas (…) E disse-me a frase terrível: «O se é físico ou se ficam a limpar as lentes.» Propôs-me então que estudasse biologia, o que não implicava uma preparação matemática tão intensa. 
Eu estava no auge do desespero, chamava a mim póprio idiota, duvidava do meu valor e imaginava o fim do mundo. Com a morte na alma decidi ir para a Universidade de Chicago (…) Acabei por optar por um programa duplo, que incluía também filosofia e letras, sem na realidade saber para onde iria parar (…) Obtive uma bolsa para Harvard. 
Creio que foi um erro da minha parte, devia ter ficado em Chicago, mas era muito snob (…) Comecei a preparar a minha tese de doutoramento em literatura (…) e foi assim que redigi aquilo que a seguir foi publicado sob o título A morte da tragédia.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

As películas também precisam de dormir


Cito de cor: "As películas também precisam de dormir. Até serem acordadas por alguém", disse, calmamente, em entrevista que não sei situar, Fernando Lopes.

As obras de arte, como as que produziu, podem ficar esquecidas por pouco ou por muito tempo, mas isso não importa, porque o seu valor e a sua beleza são regularmente redescobertas e ganham vida...


Na imagem: Fernando Lopes (retirada da Internet)

segunda-feira, 30 de abril de 2012

The Cost of Knowledge

Texto publicado na Newsletter da Universidade de Coimbra, saída hoje e na sequência de outro sobre a mesma temática.

Em carta enviada a 17 de abril passado, o conselho consultivo da Universidade de Harvard sugeria aos investigadores desta prestigiada instituição que passassem a publicar preferencialmente os resultados da sua pesquisa em revistas disponibilizadas em acesso livre. O comunicado, que entretanto foi divulgado pela comunicação social de todo o mundo, ia mais longe e aconselhava mesmo os académicos desta universidade de topo a abandonarem os conselhos editoriais de periódicos que tivessem regras de acesso muito restritivas.

Esta decisão decorre dos preços exorbitantes que as bibliotecas são forçadas a pagar a editoras comerciais para terem acesso a periódicos altamente reputados e, portanto, essenciais para a produção de ciência. Sendo Harvard uma das instituições universitárias mais ricas do mundo, a deliberação tomada é bem ilustrativa da enorme pressão financeira que está a ser colocada sobre as formas de aceder ao conhecimento científico.

Um outro sintoma do mesmo fenómeno pode encontrar-se no manifesto que se encontra a circular há algumas semanas na internet: “The Cost of Knowledge”. A petição conta já, no momento em que se tecem estas considerações, com quase 11.000 assinaturas de investigadores de todo o mundo e visa expor as condições abusivas que uma das maiores editoras de revistas científicas da atualidade — a holandesa Elsevier — aplica às instituições que pretendem ter acesso a esse acervo, obtendo assim lucros anuais de centenas de milhões de euros.

Embora os proponentes da petição reconheçam o trabalho de divulgação feito por editoras comerciais como a Elsevier e a Springer (para referir apenas dois dos nomes mais sonantes), reagem ainda assim contra os preços excessivamente elevados que elas praticam junto das instituições académicas que pagam para produzir este saber e que têm, depois, de pagar de novo para a ele terem acesso. É por isso significativo que a maior parte dos signatários afirme a sua indignação através de três declarações negativas: “won't publish”, “won't referee”, “won't do editorial work”.

Na verdade, sem o trabalho e a avaliação científica feitos (por norma gratuitamente) por milhares de investigadores de todo o mundo, estas editoras não terão, na verdade, produto para comercializar. Este movimento tem vindo a ganhar terreno com o forte crescimento dos periódicos disponibilizados em acesso livre, que continuam de resto em franca expansão, sendo mesmo previsível que, dentro de poucos anos, venham a dominar o processo de divulgação da produção científica. Sendo em si mesma uma tendência muito positiva, não se deve, no entanto, incorrer na falácia de pensar que os conteúdos disponíveis em acesso livre têm todos o mesmo peso científico ou que estão isentos de custos.

Com efeito, o que dá valor a um trabalho é o reconhecimento pelos pares, sendo também essa condição básica que confere tanta força à tripla negativa dos signatários do manifesto, antes evocada. Para ser válida, a produção científica precisa de ser validada e, para isso, necessita em absoluto da triagem feita pela comunidade científica que cria, analisa e consome essa mesma produção científica. E mesmo que os investigadores não cobrem dinheiro por esse trabalho, há sempre custos de manutenção e atualização de estruturas técnicas e de recursos humanos que têm de ser sustentados, sob pena de o sistema deixar de ser eficaz e resvalar para a irrelevância científica.

Ainda assim, o que estes movimentos dizem é que, para obter o mesmo efeito, não é preciso investir fundos tão elevados. Para isso, é fundamental que as próprias instituições que produzem o saber não alienem o direito de o divulgar, criando também condições que garantam a sustentabilidade do sistema, através de uma partilha de recursos financeiros e científicos.

Trata-se de um grande desafio e a Universidade de Coimbra não está alheia a este processo, bem pelo contrário. Com efeito, encontra-se em fase de conclusão o lançamento de duas plataformas que visam responder a esta nova exigência do mundo académico: a POMBALINA (para a divulgação de livros) e a IMPACTVM (para a divulgação de revistas). A elas se voltará num futuro bastante próximo.

Delfim Leão
(Diretor da Imprensa da Universidade de Coimbra)

domingo, 29 de abril de 2012

ASCENSÃO E QUEDA DE TEORIAS CIENTÍFICAS



Não é por uma teoria cientifica cair que deixa de ser científica. Pelo contrário, só as teorias científicas podem cair, por poderem estar erradas, isto é, por serem passíveis de negação, pela lógica, pela observação e pela experiência. Por exemplo, o sistema geocêntrico foi substituído pelo sistema heliocêntrico, no século XVI, por ser mais lógico e estar mais de acordo com as observações. Foi Galileu, no século seguinte, quem fez vingar a visão de Copérnico. Por outro lado, no mesmo século, a teoria de movimento de Aristóteles foi substituída pela mecânica de Galileu e Newton, que tinha, ao contrário das antigas ideias gregas, não só sustentação matemática como também um enorme poder preditivo na descrição de acontecimentos reais. Em tempos mais recentes, ao longo do século XIX, o energicismo, que teve em Ostwald e Mach dois dos seus últimos defensores, deu lugar ao atomismo, de Maxwell, Boltzmann e outros, por os átomos terem inequivocamente, num extenso rol de experiências, dado provas da sua existência.

Avançando no tempo, esses dois grandes pilares da física moderna que são a teoria quântica, proposta por Planck, Bohr e outros, e a teoria da relatividade, tanto restrita como geral, proposta por Einstein, ainda não foram substituídos desde que ascenderam há cerca de um século. Tal não ocorreu por falta de investidas do engenho humano em imaginar situações e criar dispositivos que permitam verificar a respectiva validade, mesmo em situações extremas, mas sim e tão só porque os resultados de todas as experiências realizadas até agora eram resultados que podem ser encaixados por elas. Alguns físicos, como foi o caso de Einstein, acham que a teoria quântica é insatisfatória do ponto de vista conceptual. Mas isso não basta para a arredar: é preciso que alguma observação ou experiência a ponha em causa, o que não aconteceu até agora. A electrodinâmica quântica - que resulta do “casamento” da teoria quântica com a teoria da relatividade - tem sido testada com uma precisão incrível, dando sempre boa conta de si. Por seu lado, a teoria da relatividade restrita acaba de vencer um ataque, perpretado pelos defensores dos pretensos neutrinos superluminais, que afinal não passavam de um mero erro experimental. Finalmente, a teoria da relatividade geral tem englobado um número cada vez maior de observações astronómicas e cosmológicas, embora permaneça o sentimento de insatisfação, bem patente nos cultivadores de teorias de grande unificação, de não ter ainda sido celebrado o seu “casamento” com a teoria quântica. Podemos dizer que as duas grandes teorias da física moderna – a teoria quântica e a teoria da relatividade - continuam em ascensão. Não há sinais de decadência.

A história da ciência ensina-nos, porém, que um dia, cedo ou tarde, as nossas melhores teorias físicas acabarão por dar lugar a outras quando for revelada uma sua pequena ou grande falha. Não quer isto dizer que tenham de ser largadas e esquecidas. A sua consistência interna e a forte acumulação até agora de observações e experiências em seu abono indica-nos que as teorias seguintes as incluirão de alguma maneira. Planck, Bohr e outros nada tiveram a opor à mecânica de Galileu e Newton aplicável à escala macroscópica, ao desenvolver uma nova mecânica que descreve uma multidão de fenómenos microscópicos, , à escala dos átomos, e que dá lugar à velha mecânica quando se amplia a escala de observação (a ligação da nova com a velha mecânica pode fazer-se de várias maneiras). De modo semelhante, Einstein não derrubou Galileu e Newton, mas antes forneceu uma teoria mais abrangente, pois consegue descrever não apenas fenómenos do nosso dia-a-dia mas também fenómenos que envolvem velocidades próximas das da luz. Assim, é razoável prever que as teorias físicas futuras tenham de incluir os ensinamentos de Planck, Bohr, Einstein, etc. Não poderemos deitar fora o bebé com a água do banho. De certa forma, as grandes teorias científicas nunca caem. As novas teorias prolongam as anteriores de um modo que não é de modo nenhum trivial. É por isso que as mudanças  não são fáceis: elas desafiam as mentes mais imaginativas. Em ciência a imaginação nunca é livre. Feynman, que trabalhou com grande sucesso na electrodinâmica quântica, disse que a "imaginação está contida numa camisa de forças".

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Por favor, publiquem noutro lado

Em traços muito, muito gerais as coisas têm acontecido duma certa maneira, ainda que não saibamos bem se pela ordem que descrevemos:

Foi-se (alguém foi) instalando nas “comunidades científicas” a ideia de que certas revistas “com factores de impacto”, sediadas algures, perto do Olimpo, com conselhos editoriais repletos de deuses do saber, publicavam apenas e só o que fosse de inequívoca excelência.

Correlativamente (aqui está o pormenor que faz toda a diferença) surgiu outra ideia: que seria muito difícil um investigador comum, um pobre mortal, obter a graça (próxima da divina) de ver um trabalho seu constar lá.

As universidades e outras instituições “produtoras de conhecimento” acolheram muitíssimo bem esta ideia, acarinharam-na, difundiram-na, incentivaram-na e… acabaram por impô-la, legitimando-a como critério de avaliação: afinal parecia constituir garantia de que só os melhores dos melhores ascendiam ao estrelato, que os trabalhos aí publicados seriam nada menos do que perfeitos. Uma espécie de crença neo-positivista, mas de elite e altamente seleccionada.

Face a revistas de tal estatura, muitas dessas instituições (quase todas) desvalorizaram as suas, e em casos demais (dizemos nós), extinguiram-nas. Afinal, quem aí publicava só poderia ser quem não conseguia publicar nas tais outras, coisa de quarta ou quinta categoria…

Claro está que as instituições de investigação de todo o mundo começaram a pagar (mais e mais) para terem acesso a bases de dados onde constavam (constam) essas tais revistas… que, não é segredo nenhum, pertencerem a empresas privadíssimas.

Acontece que o dinheiro começa a desaparecer… E agora?

Parece que uma universidade – a de Harvard – reconheceu que “várias grandes editoras de revistas tornaram a comunicação científica financeiramente insustentável e restritiva a nível académico. A situação é exacerbada devido ao esforço de certos editores de adquirirem, agregarem e aumentarem o preço das revistas”. Considerando a “situação insustentável”, o seu conselho consultivo “sugeriu aos seus investigadores não só que publicassem os artigos em revistas científicas de conteúdo livre, como abandonassem os conselhos editoriais daquelas que não queiram rever o modo de acesso aos artigos que publicam”. E propõe aos professores e estudantes que considerem submeter os artigos a revistas de acesso livre, ou que têm custos de assinatura razoáveis. Adianta: “Se estiverem num conselho editorial de uma revista, verifiquem se pode ser de acesso livre, ou se pode ser publicada por outras editoras. Se não for assim, considerem a vossa demissão”, diz ainda. Outra proposta é que os cientistas encorajem as associações profissionais a tomarem conta das revistas da sua especialidade.

É um (re)começo.
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Maria Helena Damião e Marco Aurélio Alves

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Uma capacidade maravilhosa

Na continuação de texto anterior e de alguns comentários de leitores, que agradeço.
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Uma das imagens que nos ocorrem quase de imediato quando pensamos nos universos da ciência, da religião, da arte, da filosofia… é que são universos distintos, separados. E, mais do que isso, estanques. E, mais do que isso, antagónicos. E, mais do que isso, inconciliáveis…
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Logo, cada um de nós só pode movimentar-se num deles, nunca em dois, em vários; só pode discorrer segundo as regras de um deles, nunca segundo as regras de dois, de vários. E se tentar ir além de um desses universos prejudica cada um deles.
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Assim estranhamos que um filósofo ou um artista se interesse por ciência, do mesmo modo que estranhamos que um cientista, sobretudo se é das “ciências duras”, seja crente, se enleve com a arte e valorize a filosofia.
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Se reparamos bem, nesta representação social, ou pré-conceito, são os cientistas que ficam mais isolados porque tendemos a achar que só se interessam por (pela sua) ciência!
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Esta representação, como todas as representações, tem, certamente, um pé na realidade (há razões, que aqui omito, para a termos adoptado e consolidado) mas está longe de ser verdadeira: podemos, efectivamente, movimentar-nos em diversos universos de pensamento e de acção, sem os confundirmos, sem prejudicarmos a coerência de cada um, porque temos a capacidade de aprender diferentes lógicas e de as usar com adequação em contexto.
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Na imagem: O padre e cientista Luís Archer.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

O melhor critério !?

Às vezes sou tentada a pensar que o pós-modernismo é apenas e só um devaneio epistemológico, um discurso mais ou menos pomposo, uma dissertação sem-fim de intelectuais mais ou menos ociosos, uma construção da realidade, que nega a realidade e sem qualquer ligação com ela… Ainda bem que a realidade me põe na linha, mostrando-me que estou completamente errada!

Se assim não for, que outra explicação haverá para se terem considerado os programas de televisão A casa dos segredos e Morangos sem açúcar, como os melhores programas de entretenimento e infanto-juvenil, respectivamente!?

Pois é… tudo deve ser mesmo subjectivo, relativo, não havendo outro critério de discriminação e de classificação a não ser a opinião fluída. 

Se as pessoas gostam, apreciam, aplaudem é porque tem valor aquilo que, fora desse raciocínio, poderia não ter valor algum. 

E, afinal, quem é que determina o que tem ou não tem valor? Claro, que a resposta é: toda a gente! Ou, quem quiser! Longe de mim a ideia de, neste apontamento, pretender puxar por razões que contradigam tão consensual critério. 

domingo, 15 de abril de 2012

"Esqueça isso da biologia, foi um erro da juventude"

Luís Archer, 1926-2011, "geneticista, padre jesuíta e professor”, assim é apresentado na página da internet da Universidade do Porto, na sessão de Antigos Estudantes Ilustres, um dos mais reputados cientistas portugueses do século XX, que foi também um homem de fé. Da leitura da obra que deixou percebe-se uma convivência serena entre dois mundos independentes, ainda que convergentes”, como disse alguém que lhe era próximo: Walter Osswald. Foi sobretudo um homem de cultura que três licenciaturas (Ciências Biológicas, Filosofia e Teologia) e dos doutoramentos (Bioquímica e Genética Molecular, nos EUA, e Biologia, em Portugal) consolidaram. Foi professor em universidades portuguesas e americanas, chefiou o Laboratório de Genética Molecular do Instituto Gulbenkian de Ciência e foi Presidente do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida.

Proporcionou-se ontem ter voltado a falar dele e do que disse numa entrevista que deu em 2006 ao jornalista António Marujo depois de ter recebido Prémio de Cultura Manuel Antunes. Apesar da extensão dessa entrevista, transcrevo-a quase integralmente aqui dado o interesse que, a diversos títulos, continua e continuará a ter.



Teve relutância em trabalhar a "frieza tecnicista da ciência", como já referiu?


Tive. Lembro-me de quando fazia investigação como aluno, na universidade: era interessante, mas cansativo. A investigação é sempre um campo muito restrito e tem que se aprofundar muito. Não interessa à maioria das pessoas.


Isso foi no seu curso de Biologia.

Sim, antes de ser jesuíta. Quando me fiz jesuíta e troquei a bata de laboratório pela batina pensei: agora, trato do pensamento, de coisas fundamentais da vida, que interessam. Numa perspectiva cristã, dedicar-me a Deus foi um salto do tecnicismo frio para qualquer coisa empolgante e que me entusiasmava.


Como é que surge o convite dos seus superiores?

Quando terminei a minha formação de jesuíta, escrevi uma carta - estava na América nessa altura - ao meu [superior] provincial, em que lhe explicava, [de modo] bem fundamentado, que não [devia meter-me] outra vez nas biologias e na investigação. Toda a minhamaneira de ser era muito mais para as letras e para a literatura. O que queria era exercer o sacerdócio e sentir-me útil. Pelos contactos que tinha, pelos retiros ou conferências que dava, sentia uma adesão muito grande à vivência cristã, renovada pelo tornar-me jesuíta.

Eu dizia ao meu provincial: "Esqueça isso da biologia, foi um erro da juventude." Mas ele não esteve de acordo, por boas razões. E disse-me: "Nós precisamos também de gente na ciência, que é fundamental. E é difícil termos [alguém]." Só quando se teve uma formação desde muito jovem é que apessoa consegue prosseguir. Doutra maneira, quem quiser começar a fazer ciênciaaos 30 ou 40 anos, é muito difícil, faltou-lhe a linguagem básica na altura própria.

Quem era o seu superior?

O padre Lúcio Craveiro da Silva. Ele disse-me: Já temos pessoas para a literatura, a filosofia, mas para ciências [não]temos. Tivemos o padre Luisier, em botânica, o padre Jalay em paleontologia, mas agora não temos ninguém. Você já teve essa formação. Além disso teve uma Licenciatura com 18 valores, [ficou] assistente da faculdade logo a seguir. Se já tem essa preparação toda, deitarmos isso fora seria um desperdício."

Foi isso que o levou a aceitar, mesmo contrariado?

Sim. Achei que era uma grande maçada, mas a minha resposta foi: "Compreendo esse argumento, mas então tem que ser a sério." E não como na altura ele estava a pensar: "É só vir para Portugal, vem para o Colégio de Santo Tirso, depois dá umas conferências." Eu tinha uma licenciatura, com notas brilhantes, mas só uma licenciatura. Nem sequer professor de liceu podia ser. Portanto, não era a minha escolha, mas vamos a isso.

E ele aceitou a sua proposta?

Ficou muito espantado, pensava que eu aceitaria qualquer coisa. Mas eu não queria passar por cientista. Se era para ser, tinha que ser com formação.

Isso exigia ir estudar nos Estados Unidos?

Fui para os Estados Unidos, tive muita dificuldade no princípio. Tinham passado 15 anos após a minha licenciatura. O que eu não tinha esquecido já não era igual. Mas pensei: tem que ser a sério e tem que ser uma matéria que sirva o país. Na altura, o professor Flávio Resende dizia-me: “A área de futuro, na qual não temos pessoas formadas, é a genética molecular”.

Quando chegou a Portugal com a nota máxima no doutoramento, disseram-lhe que não o reconheciam em Portugal.

Isso é verdade, mas era comum não se reconhecerem doutoramentos estrangeiros. Estava a começar, com o professor Veiga Simão como ministro da Educação, a ideia de haver esse reconhecimento. Legalmente talvez fosse possível, mas vi que o meu chefe de departamento não gostava. "Se se formou no estrangeiro, se é assim tão bom, por que é que não se sujeita cá? Porque aqui é diferente." Aquilo que tive que estudar e de saber para o doutoramento em Portugal tinha muito pouca relação com o da América. Assim em vez de lutar para que fosse reconhecido o doutoramento, sobre o qual ficaria sempre uma sombra de suspeição, fiz novo doutoramento em Portugal.

Citou na recepção do prémio o também padre jesuíta Teilhard de Chardin [1881-1955], que fez uma síntese entre ciência e fé, dois mundos que hoje mal se conhecem. Como se chegou aí?

Houve uma fase em que ciência e religião se consideravam duas coisas muito próximas. A ciência estudava a natureza e, acreditando-se que a natureza foi criada por Deus, a pessoa que estudava a natureza contemplava a acção de Deus. Mesmo Teilhard de Chardin ainda tem muito essa [posição] de, perante a natureza, ter uma atitude de contemplação, uma atitude mística. Enquanto eram ciências de observação, não havia razões de discordância, eram dois caminhos. Isso modificou-se quando a ciência passou a ser uma construção, fazendo coisas que a natureza não fez, melhorando, transplantando algo de um indivíduo para outro. Os problemas resultaram de uma leitura errada da Bíblia e da teologia, e de a ciência se querer transformar em religião e a religião em ciência. A religião dizia que não havia evolução, porque tinha sido do pó da terra que Deus criara o homem - uma leitura literal [da Bíblia].

Está a falar das correntes cristãs criacionistas, que hoje continuam a sustentar essas ideias?

Voltou-se para trás, há correntes na América que continuam por essa via. Não penso que seja o caminho, mas há uma controvérsia sobre isso.

A suspeição de que o padre Teilhard de Chardin foi vítima não continua hoje em muitos sectores, que encaram a religião como uma ciência?

Sim, não há ninguém que não tenha os seus opositores quando tem uma doutrina nova. O que hoje acontece é que a maioria dos teólogos já aceita a mentalidade evolucionista das espécies.

Darwin talvez tivesse a ideia de lutar contra a fé, talvez. Mas [o teólogo alemão Karl] Rahner, por exemplo, tem artigos sobre [Cristo] numa mentalidade evolucionista. Teilhard de Chardin punha Cristo como sendo o impulsionador da evolução. Hoje não há, da parte da Igreja, a suspeição que havia naquele tempo. Muitas coisas do [Concílio]Vaticano II [1962-65] são moldadas sobre a posição de Teilhard de Chardin. E vários teólogos, falando sobre Teilhard, dizem que ele tinha a visão da teologia do futuro.

Mas em questões como a investigação de embriões ou o aborto, há quem diga que a Igreja continua a olhar para a ciência com muita desconfiança.

Esses são problemas éticos, enquanto os de Teilhard de Chardin eram problemas de fundo sobre como o homem ou a vida apareceram. Eram questões doutrinais ou teológicas, enquanto hoje sã do domínio da ética.

A Igreja tem que evoluir com certa precaução porque é uma instituição que abarca um número muito grande de pessoas em estados culturais muito diferentes. Se faz mudanças bruscas, há muita gente que não acompanha pela sua falta de cultura e poderia até dizer "isto não é a Igreja de Cristo". Tem que se evoluir, mas com moderação e com tempo para as pessoas assimilarem a doutrina.

No discurso de recepção do prémio, disse que os deuses do Olimpo foram digeridos pelas ciências da natureza. Não houve também um modo de entender Deus que foi engolido pelas ciências?

Sim, o evolucionismo que a Igreja condenou - os teólogos, o Santo Ofício - porque tinha a leitura literal: foi Deus que pegou no pó da terra. Eram mitos que se encontravam emtradições da mesma época. Também a ciência acabou por engolir esse Deus oleiro, um Deus que fazia as coisas como o oleiro vai moldando o barro. No conceito actual da teologia [católica], a criação não é fazer coisas. É Deus que se manifesta, que é amor e, sendo amor, transborda e faz com que apareçam coisas.

Quer dizer que as ciências da natureza dissolveram em química alguns mitos bíblicos, uma vez quea linguagem mitológica também está presente na Bíblia?

Sim. A ideia de tirar uma costela ao homem e, com ela, fazer a mulher tem relação com os mitos dos deuses que tiram uma parte e fazem outros deuses. Há uma série de mitos que são lindos, úteis e interessantes quando são considerados mitos. Mas se se interpretam como realidade concreta, surgem os problemas. O problema da ciência [por seu lado], é quando ela pretende ser uma religião, ser totalizante.

Ser uma explicação do mundo?...

Total, não havendo mais nada que não seja redutível àquelas fórmulas ou linhas. Não há o espírito, não há amor, solidariedade, afecto, não há enraizamento. Não há nada disso, que é uma parte importante davida humana.

Mas essa atitude ainda existe nos cientistas, quando eles sabem que as descobertas de hoje põem em causa as de ontem?

É um reducionismo completo. Suponho que alguns [defensores] do trans-humanismo têm esta posição. A ciência hoje é mais humilde do que noutros tempos. Este movimento do trans-humanismo causa uma certa preocupação.

Qual é exactamente essa perspectiva?

A ideia é que o homem é uma coisa mecânica e que podemos criar uma espécie melhor, com uma programação informática em vez do cérebro, etc. E o homem acabará com sentimentos e afectos, e será reduzido a reacções químicas e a potenciais eléctrodos que podem ser inseridos no indivíduo. Será uma nova espécie e o homem acaba. Há livros do [Francis] Fukuyama que falam no último homem que existirá na Terra e os [que virão a seguir] são seres pós-humanos.

Isso não se confunde com o elixir da vida eterna? Acabaremos por ser eternos?

Fala-se em imortalidade. Os órgãos passam a não ter as contingências da carne, dos aspectos biológicos. É uma loucura, muita gente nem toma isto a sério. Mas há uma literatura extensa e uma sociedade do trans-humanismo, que mostra que há uma tendência. Não está morto o cientismo do século XIX, que dizia que a ciência explica tudo e que o que não for ciência - religião, filosofia - é um outro estádio cultural e um dia se tornará ciência. O terceiro [patamar] cultural de Augusto Conte é justamente a ciência. Só que, dizem, há povos que estão atrasados, ainda têm religiões, ainda têm filosofias.

Esse cientismo, que depois passou - era uma coisa absolutamente inaceitável, desumana -, recomeça agora. Quer dizer que é muito funda no ser humano [a ideia de] mecanizar, reduzir todo o fenómeno humano a equações, a química, fórmulas, traços.

Como olha para tudo isso, enquanto homem de ciência mas que também acredita que a vida tem limites e há um Deus criador que ultrapassa esses limites? Vamos um dia ser como deuses?

Não, nem poderíamos. Há o anseio da imortalidade e isto é fundamental no homem. Desde os mitos mais antigos, a ideia do elixir da eterna juventude, do imortal, da eternidade, é qualquer coisa de muito profundo.

Um cristão acredita na mensagem de Cristo: teremos essa vida, mas noutra forma, não na que temos agora. Mas será uma continuação da actual, da vida cristã que temos em nós, de uma maneira confusa e oculta. Como dizia S. Pedro, já temos a eternidade em nós, mas ainda não se manifestou. Quando se manifestar, então serão novos céus e nova terra.

Quem não tenha esta solução vai buscar outras coisas, como o trans-humanismo. É uma forma idolátrica do anseio de eternidade.

O discurso da Igreja já assumiu plenamente que a técnica e a ciência são um bem indispensável?

Sim. O discurso do Vaticano, por exemplo, faz o elogio da medicina, dizendo que corpo e alma são uma unidade e que quem trata do corpo e melhora as suas condições tratando as doenças também está a tratar da alma.

De toda a tecnociência, não sei. Não estudei suficientemente todos os textos desse ponto de vista. Creio que há um certo medo das novas técnicas porque há [receio] de que se vão ferir princípios cristãos ao desenvolver essas tecnologias.

É a Igreja que tem medo do novo ou, enquanto pessoas, temos medo das consequências que o novo possa trazer?

Sim, há sempre o medo do novo quando há suspeitas de más consequências. Não creio que [a Igreja tenha] medo de coisas novas - talvez todos tenhamos um pouco. É o medo como atitude conservadora, digamos assim.

É a prudência a falar, sobretudo nos temas que envolvem questões éticas?

Sim, a Igreja tomou muito a sério a palavra de Cristo: o que fizerdes ao mais pequenino dos meus irmãos a mim o fazeis. E vê no embrião o mais pequenino. Econstituiu-se como defensora [incondicional], talvez.

Olhando para princípios como o não matarás. Ele foi sendo matizado: passou a admitir-se que sim, em legítima defesa, depois também condicionada a certos factores. No aborto ou na investigação em embriões, o discurso não vai mais pela prudência do que pela consciência?

São vários aspectos. A questão do não matarás, quando é [proclamada], tem a ver com o não matarás os do mesmo povo. Mas podiam matar-se os inimigos e pedia-se a Deus que ajudasse nessa luta. O que me parece é que há interesses económicos: dá muito melhores resultados que se utilizem células estaminais dos órgãos do indivíduo que está doente do que de embriões que o indivíduo pode rejeitar. Mas, do ponto de vista económico, é muito mais barato ir buscar aos milhares [de embriões] congelados do que fazer investigação num indivíduo. Há aqui um problema de eficiência das empresas. Claro que os que acreditamos que já há vida pomos as objecções todas e ainda dizemos: é porque é mais rentável.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

O NOVO ACORDO ORTOGRÁFICO E A MOTRICIDADE HUMANA


“Não exijam ao povo metamorfoses de hábitos e gostos que a tradição lhes inveterou secularmente” (Fialho de Almeida, 1857-1911).

Sempre que ressurge a polémica sobre o Novo Acordo Ortográfico (questão de grafia das palavras), ocorre-me a minha crítica à mudança do nome do Instituto Superior de Educação Física de Lisboa para Faculdade de Motricidade Humana (questão lexical sobre o significado das palavras), em que o importante cede o passo ao acessório com discutível intencionalidade.

Ou seja: alterou-se o nome Educação Física para Motricidade Humana (e porque não, de preferência, Cinesiologia, ciência que estuda o movimento humano com paternidade em Aristóteles e longa tradição académica em parte do mundo universitário?) e, com essa operação cosmética, julgou ter-se resolvido o problema histórico, filosófico e científico da Educação Física; e, por acréscimo, a libertação de uma desonrosa dicotomia cartesiana que tornaria feliz o malfadado “físico” merecedor de um novo destino, sem passado e sem presente desonrosos. Só futuro promissor!

Vai para um dúzia de anos, escrevi: “Que novidade nos traz esta crisma de nome [de Educação Física para Motricidade Humana]? E em que terreno inóspito se lança à terra nova sementeira sem ter em conta que a dignidade da ciência se reconhece pelo valor do seu objecto e não pela sua denominação?” ("Diário de Coimbra”, 28/04/89). Ou seja, em mera utopia dos que perseguem a boa-nova, ou apenas se tornam seus apóstolos, em arquétipo de imaginação superior à de Oswald Crollius (1560-1609), quando, na sua “Basílica Chymica”, eliminou, simplesmente, o prefixo “al” de alquimia. Neste caso houve o enterro piedoso dum sonho que viria a tomar forma científica na Química, mandando às urtigas (passe o plebeísmo) a perseguição da pedra filosofal capaz de transmutar metais vis em ouro, no desconhecimento de que a ciência se cimenta pela formulação e verificação de hipóteses e não no simples imaginário ou querer do homem.

A Medicina, crença em amuletos e talismãs, a Psicologia, fenómenos da alma, a Economia, a arte de governar a casa, evoluíram para conceitos bem mais abrangentes que em muito ampliaram os seus acanhados horizontes. Mas poucos tiveram êxito na ousadia em querer mudar o nome de ciências de fraca linhagem ou das instituições universitárias em que se processa o respectivo ensino. Mesmo a tentativa de Antoine Cournot (1821-1887) e de William Jevons (1835- 1882), para substituir o nome de Economia Política por Crematística, teve como destino o descrédito. Curioso se torna referir a tentativa, igualmente falhada, de um catedrático de Medicina da Universidade de Coimbra, José Macedo Pinto (1814-1895), para alterar o nome de Medicina Veterinária para Zooatria.

Todavia, ciências há em que o nome que as referencia foi caindo em desuso, como Cibernética que para Platão significava “a arte deconduzir um navio” e para André-Marie Ampère (1775-1836) “o estudo dos meios de governo das sociedades”. Coube a Robert Wiener (1894-1964), ir desencantá-la ao baú das coisas com a poeira dos tempos para nomear o “antigo governo de uma máquina com certa autonomia e capacidade de iniciativa e sua aplicação ao estudo do sistema nervoso”.

Para abreviar razões, existe até o perigo dos licenciados nesta ignota matéria ao lhes ser perguntado, em faculdades de Educação Física, desde os Estados Unidos à Rússia, do Japão à Republica Popular da China, ou seja em qualquer recanto do Globo (com excepção de algumas academias brasileiras, permeáveis a todas a espécie de novidades), qual a matéria dos respectivos estudos verem-se obrigados a fornecerem aos inquiridores um complexo tratado sobre a Motricidade Humana. E, mesmo assim, permanece, ainda, o perigo de tentar dar às palavras uma dimensão que elas não têm espelhando, servindo-me de palavras de André Lalanda, dicionarista de termos filosóficos, “um certo gosto pelo equívoco e uma certa obscuridade que dá a ilusão de profundeza”.

Entretanto, o Desporto, de mansinho, e escudado na sua força de arrebatar multidões, fez-se rei coroado do trono incontestado da disciplina escolar de Educação Física, durante dezenas de anos debaixo do manto higiénico da ginástica sueca, também chamada de Ling. Assistindo-se, assim, à sua emancipação, a exemplo do acontecido com a Psicologia relativamente à Filosofia. Veja-se o exemplo da ex-Faculdade de Ciências do Desporto e de Educação Física, actual Faculdade de Desporto (“tout court”), da Universidade do Porto, ao amputar a anterior denominação de Educação Física. Já a oitava faculdade da Universidade de Coimbra, apesar de nomes que circularam aquando da sua criação, entre eles Cultura Física, mantém a sua fidelidade à designação inicial: Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física.

E nesta discussão, longe de chegar ao fim, sendo os congressos científicos um fórum de eleição de apresentação de discordâncias vertidas em tese, aproveitei a realização do “IV Congresso de Educação Física e Ciências do Desporto dos Países de Língua Portuguesa”, realizado em Coimbra (de 2 a 5 de Março de 1995), para denunciar numa comunicação a minha discordância contra o aproveitamento que dela foi feita para alterar o nome do Instituto Superior de Educação Física (ISEF) para Faculdade de Motricidade Humana (FMH) por este licenciado em Filosofia, e doutorado em Educação Física, pelo antigo ISEF da Universidade Técnica de Lisboa, Manuel Sérgio, ter a Educação Física como uma pré-ciência e a Motricidade Humana como uma ciência ("Motricidade Humana, uma nova ciência do homem" ,ISEF, Serviços de Edição, Lisboa, 1987, p. 34), quiçá, a exemplo de Marx que teve como pré-história a história que antecedeu a chamada Revolução Bolchevique.

Limitado por condições espaciais de um post, obrigo-me a transcrever, apenas, o abstract dessa minha comunicação, intitulada “Motricidade Humana: um novo paradigma para a Educação Física?” Nele escrevi:

“O autor desta comunicação bem sabe que só em exéquias da dicotomia cartesiana da ‘res cogitans’ a tutelar, em servidão milenar, o corpo (‘res extensa’) se tornou frutuoso o diálogo entre a Educação Física, em esconjuro de má fama, e a Filosofia, hoje, em acto de contrição pela defesa da concepção holística do Homem.

Embora a não deseje iconoclasta, no entanto, é por ele reconhecido que a concepção biológica que perfilha poderá entrar em conflito com o pensamento religioso, as raízes de uma cultura enredada em liames da tradição, mesmo que essa concepção se desvincule de um biologismo redutor (ou mesmo castrante) que não mergulhe o genoma no caldo social.

“Malgré tout”, para um parto difícil, com cordão umbilical em entranhas do tempo, só o recurso ao fórceps dos conhecimentos hodiernos dos “Mecanismos da Mente” (título de um notável livro de de Colin Blakemore) e o acesso futuro à cesariana duma promissora Neurobiologia do 3.º milénio parecem capacitados para prosseguir na esforçada jornada científica do actual paradigma da Educação Física sem a cosmética da sua mudança nominal para Motricidade Humana ansiosa em anunciar jubilosamente a crisma como se tratasse dum radioso horizonte em céu de nuvens plúmbeas do passado.

Mas mesmo se ultrapassada qualquer discordância com o paradigma emergente, permanece a questão do nome de Educação Física que se fez património do mundo sem perder o viço das folhas primaveris no Outono erosivo da linguagem do homem comum ou das pessoas ou instituições universitárias.

Como escreveu Armand Cuvillier, filósofo e sociólogo, com vasta obra publicada, autor do “Pequeno Vocabulário da LínguaFilosófica” (1938), traduzido em Portugal e no Brasil, “assinalava Léon Bérard [ministro da Instrução Pública de França, na 2.ª década do século passado] implantou-se o costume de empregar muitas palavras tiradas do nosso velho vocabulário, mas tomadas num sentido novo e misterioso a ponto de que se poderia crer que nos esforçamos por mais não chamar as coisas pelo nome”.

Seja como for, a Terra não deixará de girar em torno do Sol, como anunciou Copérnico, “urbi et orbi”, sujeitando-se Galileu às labaredas da Inquisição!

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

A ciência inútil

A propósito da recente homenagem ao Professor Jorge Dias de Deus, e como leitora dos seus magníficos livros de divulgação científica, aqui deixo um texto intitulado A ciência inútil, que faz parte no livro Ciência, curiosidade e maldição, publicado em 1986 pela Gradiva (páginas 138-140). Não obstante os anos que passaram, o texto continua actual e pertinente.
"Quando perguntaram a Faraday – físico inglês do século passado que descobriu, entre outras coisas, as leis da indução electromagnética que estão na base dos geradores de energia eléctrica – para que servia a ciência fundamental que ele fazia, Farady respondeu, inteligentemente, com outra pergunta. Para que serve uma criança acabada de nascer?

Esta resposta-pergunta de Faraday é talvez, para além do honestíssimo «não sei», a melhor que é possível encontrar à questão da utilidade da ciência fundamental. Que ela não leva directamente à elaboração de produtos para colocar no mercado, sejam eles produtos de beleza ou medicamentos, metralhadoras a sério ou metralhadoras a brincar, frigoríficos ou máquinas de lavar roupa, isso é claro. Mas servirá essa ciência fundamental para alguma coisa? E a criança acabada de nascer para que serve?

Curiosamente, Faraday mostrou ter uma melhor visão da ciência do que alguns dos seus colegas cientistas da pura ciência deste século. O matemático inglês Hardy que trabalhava, estava convencido de que a teoria dos números em que trabalhava, para grande satisfação sua, não servia para nada. O físico Rutherford, outro cientista puro, troçavam dos que sonhavam, usando a relatividade, extrair a poderosa energia armazenada nos núcleos atómicos. Tanto Hardy como Rutherford não perceberam o que fora evidente, quase um século antes para Faraday. Ajudando a formular a teoria dos números e a teoria dos átomos Hardy e Rutherford tinham responsabilidades de paternidade sobre a criança gerada das quais de modo algum se queriam ver livres. E o que é que ia ser de cada uma dessas crianças?

A inútil e exotérica teoria dos números está na base da actual teoria dos códigos, secretos e não secretos. O puríssimo Hardy encontra-se assim – coisa que o teria chocado imenso – envolvido na muito pouco limpa ciência militar, com os seus segredos e as suas espionagens.

A estranha e engenhosa teoria dos átomos, com a relatividade e a física quântica a ajudar, está na base da descoberta da mais espectacular fonte de energia até hoje conhecida: a energia nuclear, com a cisão e a fusão nucleares, com as bombas e as centrais nucleares, com a maravilhosa luz que o Sol cada dia nos dá.

Hardy e Rutherford não tinham razão. Embora Hrady só quisesse brincar com os números e a sua lógica e Rutherford com os modelos ingénuos dos átomos, a ciência aparentemente inútil que eles faziam ia preparar intelectualmente o caminho de onde as aplicações iriam surgir de forma inevitável.

Na história da ciência, e muito em especial neste século, o esquema repete-se. Não há ciência verdadeiramente inútil (excepto alguma ciência aplicada de rotina). Cada vez mais as aplicações inovadoras, boas ou más, nascem a partir da ciência fundamental. E, em particular, não haverá desenvolvimento tecnológico num país onde a liberdade da ciência fundamental não estiver assegurada e a ciência fundamental não for praticada e transmitida às nova gerações.”

terça-feira, 14 de junho de 2011

O caso Escherichia coli



Minha crónica semanal publicada no "Diário de Coimbra".

Uma determinada descoberta científica é válida se for reprodutível e verificável através da experiência pela comunidade internacional de cientistas.

O que é que significa neste contexto validar? Significa que os resultados encontrados podem ser obtidos e confirmados por qualquer investigador ou cientista ao repetir o procedimento experimental efectuado em primeiro lugar pelos que alegam a sua descoberta. Repetidos os mesmos passos experimentais nas mesmas condições qualquer um poderá obter os mesmos resultados. Esta confirmação experimental inter-laboratorial, efectuada por cientistas diferentes em lugares diferentes, garante a reprodutibilidade dos resultados e logo a validação e aceitação dos mesmos. Isto confere segurança, credibilidade e “universalidade” à descoberta.

Mas isto ainda não é suficiente. A descoberta tem de ser partilhada, divulgada, para que a ela tenham acesso todos os que dela tenham necessidade ou todos os que sobre ela tenham curiosidade. E neste processo da validação é fundamental a sua publicação.

A publicação em revistas científicas dos resultados conjuntamente com a descrição das condições laboratoriais e experimentais em que foram obtidos está sujeita à validação por especialistas da área em causa, escolhidos pelos editores e tratados de forma anónima para tentar garantir a imparcialidade da aceitação ou sua rejeição. É a chamada revisão ou arbitragem pelos pares. Em geral, quanto maior for a exigência nesta arbitragem e verificação, maior será a segurança de que os resultados publicados são reprodutíveis e credíveis. Este procedimento é também a razão do prestígio de revistas científicas como a Nature ou a Science, mas seguramente o garante da qualidade científica da comunicação de conhecimento científico.

O sistema não é, porém, infalível.

O sistema de verificação e validação das descobertas e, portanto, da produção de conhecimento científico, tendo passado ao longo do tempo por várias circunstâncias e modelos, continua actualmente a ser alvo de debate acesso e contínuo, exactamente sobre a sua eficácia no rastreio e identificação de fraudes, da falta de honestidade intelectual, da probidade intelectual dos investigadores, do rigor nos resultados obtidos. Isto porque, apesar de todos os procedimentos indicados, que não são de censura mas sim de verificação, a história regista vários artigos fraudulentos publicados em revistas mesmo as mais prestigiadas. O sistema não é perfeito. (Altura da eterna exclamação interrogativa: haverá sistemas humanos perfeitos?!).

Se os cientistas insistem em referir as fontes que sustentam uma dada afirmação, não o fazem para tornar difícil o acesso à informação que pretendem transmitir, mas sim para sustentar a sua credibilidade. A diminuta literacia científica e de espírito crítico da população em geral permite que determinadas afirmações não sustentadas por quaisquer provas ou referências de credibilidade perturbem as sociedades do conhecimento. O caso actual sobre a identificação da fonte inicial de contaminação da bactéria Escherichia coli é disso um bom exemplo.

A questão não passa tanto pela discussão sobre a importância do aumento de um conhecimento geral sobre quais as bactérias que coabitam no nosso corpo, quais as patogénicas e porque é que o são, quais os mecanismos e meios de contaminação, etc. Este conhecimento é importante até para percebermos a higienização verificada ao longo do século XX e que permitiu a diminuição da mortalidade infantil, do tempo pós-operatório, a maior longevidade, etc. Mas não retira o lugar da "ferramenta" reflexiva que o nosso cérebro é para sermos bons receptores da informação que nos é transmitida.

A questão, no meu entender, passa pelo aumento de uma atitude crítica sobre a informação que recebemos sem qualquer interacção ou diálogo e que nos leva a reagir, por vezes em acto contínuo. de forma precipitada. Uma maior literacia científica cívica não passa tanto por um saber enciclopédico sobre quase tudo na população em geral, mas mais por uma atitude que valoriza o rigor na informação e a credibilidade das fontes. Estas têm de ser verificáveis para poderem gerar credibilidade. Com uma atitude crítica não só poderíamos aspirar a uma melhor saúde pública mas também a uma melhor economia e uma maior transparência na regulação dos mercados alimentares, para não fugir ao exemplo presente.

Estarei a exagerar? O caso E. coli demonstra exactamente que não.

(Continua - porque o caso ainda não acabou e carece ainda de muita verificação científica).

António Piedade

quarta-feira, 16 de março de 2011

Atitudes e efeitos

Maria de Sousa, investigadora na área da Imunologia, há pouco premiada com o Prémio Universidade de Coimbra, deu ao jornal académico A Cabra, uma entrevista muito interessante reproduzida neste blogue.

Perguntada, entre outras coisas, sobre se havia diferenças no Portugal de 1965, quando cursava medicina, e o Instituto inglês onde investigou de 65 a 75, respondeu assim: «Não havia diferença no que havia para oferecer, o que havia diferença era na atitude para aprender, isso é que era fundamentalmente diferente. Na Faculdade de Medicina da Lisboa os professores sabiam. Sabiam mesmo. Depois só tinham que ir à Biblioteca para perceber que não sabiam tanto como julgavam, ou nos faziam crer. Eu fui para Londres, fui para um laboratório em Mill Hill. Tinha oportunidade de conhecer as pessoas, os maiores nomes nas várias áreas. E lá as pessoas não sabiam… e eram os grandes nomes das áreas. Isso foi a experiência mais importante».

Tocou num ponto doloroso: na atitude mental de indisponibilidade para o saber, que resulta do autoconvencimento e do desinteresse. É certo que isto se refere a um tempo que já lá vai, mas todos conhecemos, ainda hoje, e em todos os níveis socioculturais, gente autocentrada que não perde uma oportunidade para nos massacrar com os seus conhecimentos, qualidades, valentias, feitos, façanhas, mostrando assim não perceber as limitações das suas ilustres pessoas. Ora, ter noção da nossa própria medida é sinal de sabedoria. E isto não é por falsa modéstia ou humildade cristã, mas pela noção objetiva da infinidade do que não sabemos face ao pouco que sabemos, mesmo que saibamos bastante.

Para que serve a atitude de “douta ignorância”, como diria o filósofo Nicolau de Cusa (1401 - 1464)? Para nos abrir o espírito aos novos conhecimentos e às suas imensas possibilidades. A abertura à infinidade do que há para saber é um estímulo ao estudo e à investigação, condição importante para as pessoas e fundamental para o espírito científico.

E ainda na mesma passagem, Maria de Sousa diz o seguinte: «Depois ainda vim para Portugal. Não correu muito bem porque as pessoas não estavam muito interessadas no que eu tinha feito. Havia pessoas, por outro lado, na Europa, que estavam interessadas e fui convidada para ir para Glasgow».

Aqui está: muitos dos nossos melhores cérebros não eram aproveitados porque a estreiteza do meio intelectual e universitário não dava para perceber a importância do que investigavam e as suas possibilidades de aplicação. Era ainda o nosso «horizonte cerrado» em termos políticos, sociais e culturais de antes do 25 de Abril. Felizmente estamos já muito longe disto, em certos aspetos, mas ainda perto, noutros. Se muitos dos bons cérebros, que tiveram que emigrar, tivessem sido aproveitados cá, e ao nível das suas melhores capacidades, não estaríamos agora com défices de produção nem com uma geração «à rasca» e sem grandes saídas. Ou o mal seria menor.

João Boavida

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

A verdade existe?

A verdade existe? Eis uma pergunta recorrente em áreas que se pautam pelo modo de pensar objectivo, rigoroso, científico. Mais: trata-se duma pergunta que fez nascer esse modo de pensar e que não o deixar sossegar. Sem ela e sem a tendência para responder que sim, que existe verdade (ainda que esta, quando formulada, não se deva declarar como definitiva), seria impossível termos esse modo de pensar.

Deve acrescentar-se que este modo de pensar - desejavelmente presente na ciência, mas também na justiça, entre outras áreas - tem os seus critérios. Um deles é que a noção de verdade, apesar de ter sido inventada por pessoas, não decorre do entendimento contextualizado de algumas pessoas. É preciso que as conjecturas avançadas para explicar algo, além de respeitarem as regras da lógica, sofram a "prova de fogo" da realidade. Nesta prova, todas as pessoas, independentemente do contexto social, cultural, étnico ou outro a que pertencem, poderão chegar às mesmas conclusões, ou, então, duvidar delas ou mesmo refutá-las, caso os factos indiquem nesse sentido.

Ainda que muitos cientistas, epistemólogos e outros pensadores dissertem sobre este assunto, os que se pautam pelos princípios iluministas ou, na expressão do filósofo inglês T. Nagel, neo-iluministas, têm por mais ou menos pacífico o que acabei de referir. É certo que há os pós-modernos que, não abdicando da tal contextualização, afirmam a total impossibilidade de aceder a uma verdade que vá além daquela que é localizada no tempo e no espaço, e sempre por referência à subjectividade de quem a declara... E, se alguém a declara, então, passa a existir com certeza, a verdade. Ou melhor: "a verdade para..." Como qualquer argumento esbarra na opinião do outro ou de um grupo, não há muito a fazer para prosseguir qualquer raciocínio...

Este último entendimento de verdade, pelas inconsitências várias que lhe têm sido apontadas, parece não ter grande esperança de vida. Engano: quando tudo leva a crer que esmoreceu e que não transitou para o século XXI, vê-se ressuscitar neste artigo, naquela conferência, numa outra entrevista...

Foi o que percebi mais uma vez recentemente e desta vez não foi no campo da educação. Lembrei-me, naturalmente, duma passagem do Imposturas Intelectuais de Alan Sokal e Jean Bricmont, que, a seguir trancrevo, de modo que o leitor perceba melhor do que falo:
“Eis o contexto: em 1996 a Bélgica viveu o drama das crianças desaparecidas e assassinadas, no seguimento do qual foi criada uma comissão de inquérito a fim de examinar as deficiências verificadas durante a investigação policial. Duas pessoas — um polícia (Lesage) e um magistrado (Doutrèwe) — foram inquiridas para saber se a primeira tinha ou não entregue o dossier ao magistrado, que este negava ter recebido. No dia seguinte um antropólogo da comunicação, Yves Winkin, professor da Universidade de Liége, foi entrevistado por um dos principais jornais belgas (Le soir, de 20 de Dezembro de 1996). Foi-lhe colocada uma questão:

Questão: O confronto [entre Lesage e Doutrèwe] foi estimulado por uma procura drástica da verdade. A verdade existe?

Resposta: (…) penso que todo o trabalho da comissão se baseia numa espécie de pressuposto, o de que existe, não uma verdade, mas a verdade, que, se se pressionar bem, acabará por surgir. No entanto, antropologicamente, só existem verdades parciais, partilhadas por um número maior ou menor de pessoas, um grupo, uma família, uma empresa. Não existe verdade transcendente. Não penso por isso, que o juiz Doutrèwe ou o polícia Lesage estejam a esconder algo: ambos falam a sua verdade. A verdade está sempre ligada a uma organização em função dos elementos considerados importantes. Não é de estranhar que estas duas pessoas, representando cada uma universos profissionais distintos, exponham uma verdade diferente cada uma. Dito isto, no contexto de uma tal responsabilidade pública, penso que a comissão só pode prosseguir no sentido que actualmente prossegue».

Estamos perante um exemplo notável das confusões criadas pelo vocabulário relativista (…). Acima de tudo, o objecto do inquérito é um facto material, o envio de um dossier (poderá pensar-se que este foi enviado e se perdeu no caminho, mas isto também é uma questão factual bem definida). É claro que o aspecto epistemológico é complexo: como é que a comissão vai saber o que realmente se passou? Mas isto não impede que haja uma verdade: ou o dossier foi enviado ou não foi. Não se compreende muito bem o que se ganha com a redefinição do termo verdade (mesmo que seja parcial) para que passe a significar simplesmente «uma crença partilhada por um número maior ou menor de pessoas (…) estamos perante uma situação que roça o absurdo: ambas as pessoas falam a mesma língua, não moram a mais do que uma centena de quilómetros de uma comunidade belga francófona (…). O problema não é, manifestamente, o da impossibilidade de comunicação: as duas pessoas em confronto compreendem perfeitamente o que se passa e, sem dúvida, sabem qual é a verdade. Simplesmente uma delas não está interessada em revelá-la. Mesmo na hipótese de as duas falarem verdade, ou seja, no caso de o dossier se ter perdido, o que é logicamente possível (ainda que improvável), ainda assim não faz sentido dizer que «ambas falam a verdade». Quando se chega a conclusões práticas, felizmente, o antropólogo admite que a comissão «só pode conseguir», quer dizer, procurar a verdade. Tanta confusão para se chegar a esta conclusão.”
Referência completa: Sokal, A. & Bricmont, J. (1999). Imposturas intelectuais. Lisboa: Gradiva, páginas 103-104.