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sábado, 24 de abril de 2021

CIÊNCIA E LIBERDADE EM PORTUGAL

 


(Texto primeiramente publicado na imprensa regional)


Celebram-se 47 anos após a revolução dos cravos, ocorrida a 25 de Abril de 1974. Portugal evoluiu significativamente em muitas áreas da sociedade, desde o ensino às condições de acesso a cuidados de saúde, melhorando consideravelmente a qualidade de vida de grande parte da população portuguesa.

Um dos aspectos em que se observa uma considerável evolução, nestas mais de quatro décadas de democracia, é o do acesso ao ensino superior: em 1974 o número de alunos matriculados no ensino superior em Portugal não ultrapassava os 70 mil, enquanto que em 2020 este número é cerca de 400 mil! Isto permitiu, entre outras coisas, o desenvolvimento das instituições de investigação científica em Portugal, com um aumento muito impactante do número de doutoramentos: se em 1974 se verificava no nosso país só um doutoramento por 100 mil habitantes, hoje esse número ultrapassa os 30 por 100 mil habitantes (dados da Pordata, projecto da Fundação Francisco Manuel dos Santos). Hoje, há mais cientistas activos em Portugal do que em toda a história conjunta do nosso país!

Há, historicamente, a nível mundial, a começar pela Grécia antiga, uma relação entre a democracia, a liberdade de pensamento, e um maior desenvolvimento científico. Isto é claramente demonstrado, com inúmeros exemplos pormenorizados, no livro “Ciência e Liberdade”, do respeitado divulgador de ciência norte-americano Tymothy Ferris, publicado em 2013, com o número 200, na colecção “Ciência Aberta” da editora Gradiva. Este professor Emérito na Universidade da Califórnia argumenta que, pelas suas características de crítica e pensamento livres em diálogos democráticos, estruturada num método experimental que permite obter conhecimento verificável por todos, é a própria Ciência fonte inspiradora das sociedades democráticas.

Portugal não seria um caso diferente e a democracia trouxe um efectivo desenvolvimento científico para o nosso país que é reconhecido internacionalmente.

Salvador Massano Cardoso, professor catedrático jubilado da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, e que foi deputado na Assembleia da República, reflecte: “O maior sonho do Homem é a liberdade. É com ela que consegue realizar-se. Um espírito livre é criativo, e é só na criatividade que a Humanidade avança. Em todos os campos. A Ciência é um deles. Através da Ciência conseguimos conquistar e respeitar a liberdade. E não só! A Ciência é fonte de humildade e de solidariedade quando praticada por pessoas de bem.”

“A ciência é fundamental para a democracia pois coloca o foco no mérito, não tolera o populismo, é insensível a todo o tipo de estratégia de comunicação e distingue, de forma brutal, o importante do acessório”, segundo a opinião de Norberto Pires, professor de Engenharia Mecânica da Universidade de Coimbra. E acrescenta que “a ciência não deixa margem para o populismo e é totalmente imune ao disparate. Por isso, os cientistas são tão rejeitados na política”. Isto, em parte, explica que, apesar da evolução atrás indicada, a percentagem do PIB do investimento público na ciência em Portugal continue abaixo da média da Comunidade Europeia, dada a pequena “influência” política dos “nossos” cientistas no governo da República.

O investimento público e privado na Ciência é fundamental para o desenvolvimento da sociedade moderna, quer a nível colectivo, quer a nível individual. A professora catedrática Helena Freitas, do Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra, refere-se “à ciência enquanto processo de crescimento intelectual e humano, na ambição pelo conhecimento, no desafio da procura de soluções para os problemas, no confronto livre de ideias, na audácia do pensamento, no encanto da descoberta. A Ciência liberta-nos na medida em que nos oferece sempre mais caminhos e mais desafios. A própria matriz da ciência é a liberdade.”

O desenvolvimento da ciência também tem permitido uma maior igualdade de oportunidades de género. De facto, Helena Freitas sublinha também o papel insubstituível que “a ciência tem tido na libertação da mulher e na promoção da igualdade de oportunidades”. E isto é salientado por António Galopim de Carvalho, professor catedrático jubilado de geologia da Universidade de Lisboa e um dos nossos principais decanos da comunicação de ciência para todos em Portugal: “Ao percorrer a história das ciências da Terra, pude constatar a quase ausência de mulheres, entre os muitos participantes, nesta longa caminhada. Como em qualquer ramo da Ciência, Isso deve-se, unicamente, à condição de inferioridade imposta, no passado, às mulheres, a quem a liberdade de estudar era praticamente vedada. O século XX acabou com essa indignidade e, assim, são muitas as mulheres, hoje tantas ou mais do que os homens, a ocuparem os bancos e as cátedras das universidades, e participarem na investigação científica e tecnológica”.

Por fim, é importante reconhecer que a Ciência, fonte de liberdade e de pensamento crítico, não pode ficar fechada nas bancadas dos laboratórios. Para se cumprir, a Ciência precisa de ser comunicada a todos para poder ser útil. A todos, pois se a Ciência é feita pelos cientistas, o conhecimento que dela resulta é para ser usufruído por toda a humanidade. E para se cumprir este desiderato importa fortalecer a comunicação de ciência que é a garante da liberdade de acesso ao conhecimento científico. Se os comunicadores de ciência são os motores desta tarefa, a isto não se podem alhear os meios de comunicação social como veículos de difusão de informação ao alcance de todos. E a imprensa tem, naturalmente, um papel fulcral nesta difusão da Ciência, em particular a imprensa regional que é um dos pilares do sistema democrático e da liberdade de expressão. A presença de Ciência na Imprensa Regional é também uma das conquistas de Abril!

 

 

António Piedade 

sexta-feira, 26 de março de 2021

O DESPERTAR PRIMAVERIL DA RÃ CONGELADA

 



Texto primeiramente publicado em vária imprensa regional.


O domínio do fogo permitiu amenizar os invernos glaciares dos nossos antepassados e forjar sucessivas revoluções tecnológicas. O domínio do frio, mais recente, permitiu o armazenamento mais duradouro de alimentos e acalentou a ideia de preservar células, espermatozóides, embriões, órgãos e mesmo corpos inteiros (pessoas e animais de estimação).


Este uso do frio para cristalizar um estado presente e “criotransportá-lo” para um futuro mais resolvente ou até a uma qualquer necessidade própria (por exemplo no caso das células estaminais) é, como dissemos, tecnologia do frio que começou a ser utilizada em meados do século XX, fruto do engenho tecnológico humano que em parte só foi possível, curiosamente, pela nossa ancestral mestria em fundir, caldear e forjar metais, ou seja pela nossa habilidade em dominar o fogo!


Domínio do fogo que nos permitiu passar o inverno sem hibernar e, assim activos, forjar pensamentos, caldear memórias, pintar murais de cavernas à espera que os “deuses” devolvessem a esperança sobre a terra em torrentes de vida primaveris.


A força motriz da selecção natural proporcionou a outros animais, plantas, microrganismos o ajuste a estratégias diferentes para fazer face aos infernos gelados. Alguns, como o urso polar ou o esquilo, hibernam, reduzindo a metabolismo basal à letargia necessária para sobreviver ao inverno, “queimando” as gorduras armazenadas sob a pele isolante.


Algumas bactérias alteram a composição lipídica da membrana plasmática para manterem uma mesma fluidez funcional a temperaturas inferiores.


Alguns insectos aumentam a concentração intracelular e nos fluidos corporais em anticongelantes naturais como o glicerol e o sorbitol, impedindo a formação de cristais de gelo cujas extremidades são fatais para a integridade das células e tecidos. A beleza dilacerante de um cristal de gelo não é tesouro compatível com a integridade celular. É preciso evitar a sua formação para assegurar a vida para além do frio!


Mas a pressão para sobreviver é capaz de soluções espantosas e a que descrevemos a seguir é disso bom exemplo.


Existem pelo menos quatro espécies de rãs - Rana sylvatica, Hyla crucifer, Hyla versicolor e Pseudacris triseriata - que podem sobreviver durante dias ou semanas com cerca de 65% da sua água corporal congelada a temperaturas de -16 oC! É, pois, deixando-se congelar, que estas rãs ficam gelidamente inertes por entre folhas e ramos também gelados na tecelagem invernal. Com a actividade metabólica reduzida para cerca de 1%, trespassam os rigores invernais à espera que a translação terráquea devolva a primavera e, então, juntem o seu coaxar às coreografias de acasalamento no resplandecente palco primaveril.


A explicação para este fenómeno da vida reside num açúcar: a glicose. Sim, o mesmo açúcar que obtemos da sacarose com que adoça esse café quente, o mesmo açúcar que fornece energia a todas as nossas células, principal e principescamente os neurónios do nosso cérebro…


Mas voltemos às rãs. As rãs daquelas espécies acumulam uns “megaglicémicos” 4500 mg/dl de glicose (o normal é 50-100 mg/dl) quando pressentem que tudo à sua volta está a congelar e assim evitam a formação dos fatais cristais de gelo. É deste estado tipo “geleia de rã congelada” que acordam ao som dos primeiros acordes primaveris. Podemos dizer que o seu acordar é muito doce e que o excesso de açúcar, garante da sua sobrevivência gelada, é então utilizado para desentorpecer o corpo, dar um novo salto e desfrutar uma nova Primavera.

 

António Piedade


sexta-feira, 12 de março de 2021

CULTURA, CIÊNCIA E TECNOLOGIA NA IMPRENSA REGIONAL

 



Num estudo efectuado em2009 pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social e pela Marktest sobre a imprensa regional, verificava-se que o espaço dedicado a temáticas relacionadas com ciência e tecnologia foi inferior a 0,7% em 2009, no universo composto por toda a temática publicada no universo da imprensa local e regional estudada, incluindo todas as temáticas de manchete, chamadas na primeira página, textos e/ou crónicas de informação e/ou opinião. Este valor sobe para 0,9% quando a temática saúde era incorporada na análise.

De facto, numa primeira formulação, pode dizer-se que a insignificante publicação podia encontrar explicação, mesmo que parcial, na dificuldade da imprensa regional em ter acesso a conteúdos sobre ciência e tecnologia dedicados e ajustados às suas especificidades. Se esta for uma pergunta, temos de verificar o que aconteceria se o acesso a conteúdos, atractivos mas cientificamente rigorosos, de boa escrita, em bom português, fosse, de alguma forma, facilitado.

Para fazer face a essa realidade propus em 2011 a criação do que viria a ser o projecto “Ciência na Imprensa Regional”, que coordenei, o qual terminou em Janeiro de 2021. Ao longo de dez anos constatou-se um grande interesse e regularidade na publicação de conteúdos de divulgação científica por parte da imprensa regional. Foram publicados mais de onze mil artigos ao longo desse período sob a égide daquele projecto, único em Portugal.

Findo o “Ciência na Imprensa Regional”, a ciência não podia ficar de novo afastada da imprensa regional. E foi com muito agrado que Associação Portuguesa de Imprensa (APImprensa) iniciou no dia 25 de Fevereiro de 2021 um projecto de divulgação, junto dos jornais portugueses, de artigos de Cultura, Ciência e Tecnologia, da autoria de reputados especialistas em cada uma das áreas versadas. Este projecto visa também assinalar 2021 como o Ano da Imprensa Regional.

O novo projecto “Cultura, Ciência e Tecnologia” do qual me honro de ser colaborador, há muito que está a ser preparado por uma equipa liderada pelo jornalista Jorge Castilho, Director da APImprensa. Este projecto é “um verdadeiro serviço público, uma vez que os artigos serão fornecidos gratuitamente aos jornais de todo o País (e também aos de língua portuguesa no estrangeiro que nisso manifestem interesse), com o objectivo de valorização e diversificação dos respectivos conteúdos, mas também como contributo para difusão da literacia mediática”, pode ler-se num comunicado da APImprensa.

Este projecto é patrocinado pelo “Media Veritas”, um outro programa que a APImprensa tem em marcha com o apoio da fundação Tides, que promove a literacia junto dos públicos mais vulneráveis (adolescentes e seniores), lutando contra a desinformação e as chamadas “fake news” (notícias falsas). Um aspecto sempre importante em todos os tempos, mas que nesta altura em que continuamos a nos confrontar com um severo problema de saúde pública ganha ainda mais pertinência

No âmbito deste projecto “Cultura, Ciência e Tecnologia na Imprensa” será divulgada a “Cultura, nas suas diversas vertentes (Artes, Literatura, História, Sociologia, Música, etc), as descobertas da Ciência e os avanços da Tecnologia. Praticamente todos os dias iremos disponibilizar aos jornais textos de todas essas áreas, da autoria de especialistas dos principais Centros de Investigação e de Universidades de todo o País e do estrangeiro”, pode ler-se no comunicado já referido. Os assuntos serão abordados sempre de uma forma acessível e cativante para o público em geral, mantendo, contudo, o rigor científico.

Todos reconhecemos que a Imprensa é um pilar essencial da Democracia e da promoção da cultura no seu sentido mais lato. Numa altura em que o sector da Imprensa atravessa a sua maior crise de sempre, esta é uma iniciativa que da Associação Portuguesa de Imprensa que é preciso louvar, para apoiar a insubstituível Imprensa regional do nosso País.

António Piedade

sábado, 30 de janeiro de 2021

Recensão ao livro "Apanhados pelo Vírus"

Partilho, em baixo, a minha recensão ao livro "Apanhados pelo Vírus", que foi inicialmente publicada no site da COMCEPT


David Marçal e Carlos Fiolhais, “Apanhados pelo Vírus – factos e mitos acerca da COVID-19”, Gradiva, Lisboa, 2020

 


David Marçal é bioquímico e comunicador de ciência e Carlos Fiolhais é professor de Física na Universidade de Coimbra. Esta dupla quase que dispensava apresentações ou não fossem já conhecidos – e reconhecidos – pelo seu trabalho de divulgação científica através de livros, textos em jornais, oradores em palestras e participação em programas televisivos. Declaração de interesses: são também associados da COMCEPT.

O livro mais recente destes autores é intitulado “Apanhados pelo Vírus – factos e mitos acerca da COVID-19” e encontra-se dividido em três partes: “O que se sabe”, “Infodemia” e “Ciência em directo”.

No primeiro capítulo contextualizam o que se sabe sobre o vírus e a doença. Focando-se na família dos Coronavírus, descrevem a estrutura do SARS-CoV-2 e dos receptores (ACE-2) a que se ligam nos órgãos, abordam as vias de transmissão, dão exemplos de avaliação de risco e explicam o que levou à reviravolta relacionada com a sugestão oficial do uso de máscaras, apontando que máscara deve ser usada. Também identificam os grupos de risco, relembram o funcionamento do sistema imunitário, explicam como são feitas as vacinas, que tipos de testes existem e a diferença entre especificidade e sensibilidade dos testes. A saber: especificidade refere-se à capacidade de detectar sequências específicas de ARN e sensibilidade significa que se consegue detectar esse material em quantidades muito pequenas. Além disso, abordam ainda a evolução de casos e de mortes ao longo do tempo assim como as medidas políticas adoptadas para lidar com esta situação excepcional.

Este capítulo não é só um resumo histórico do que aconteceu, ao descrever a evolução do conhecimento sobre o que primeiro foi assumido como uma pneumonia desconhecida até ao que, na altura da publicação, se sabia sobre a pandemia. De facto, creio que este capítulo perdurará no tempo como uma memória descritiva, um registo que será útil para memória futura.

O segundo capítulo é dedicado ao tema da infodemia que é definido como “excesso de informação sobre terminado tema por vezes incorrecta e produzida por fontes não verificadas ou pouco fiáveis que se propaga velozmente”. Como os autores relembram, a infodemia precedeu a pandemia, uma vez que a desinformação já circulava abundantemente nas redes sociais, embora no actual contexto a COVID-19 tenha sido um alvo de desinformação pelas mais variadas razões (desconhecimento, oposição às medidas oficiais, crenças em teorias da conspiração, etc.). Por falar em teorias da conspiração, as mesmas recebem destaque neste capítulo, enfoque particular na associação que alguns movimentos fizeram entre o 5G e a doença. Por esse motivo, os autores aproveitaram para desmistificar um pouco esta tecnologia de modo a tornar compreensível ao leitor do que realmente se trata. As redes sociais não são os únicos veículos de transmissão rápida de desinformação, pois o caso piora quando governantes que deveriam ser responsáveis utilizam o seu mediatismo para propor falsos tratamentos, como Donald Trump e Jair Bolsonaro são exemplos.

A terceira parte é dedicada ao avanço das técnicas e da tecnologia - da física à biologia - e como isso foi importante para o estudo e combate a esta doença. Os autores explicam como é feita a ciência e contextualizam os desenvolvimentos e resultados a que temos assistido em direto a partir do televisor ou da internet. Lembram que os resultados apresentados são sempre provisórios, até porque incompletos (devido a baixas amostras, tratamento de dados pouco rigoroso, efeitos confundidores, etc), e que com o tempo surgirão outros melhores, uma vez que a ciência se vai autocorrigindo. O tempo é um dos factores extremamente importantes em ciência, por ser necessário para fazer investigação e para testar as terapêuticas. Outro dos factores essenciais é, claro, o financiamento, seja ele público ou privado. Informam os autores que em Portugal o investimento em ciência é apenas 1,4% do PIB enquanto a média da União Europeia ronda os 2,1%. Contudo, para a pandemia houve um maior investimento da Europa para desenvolver vacinas e fármacos contra esta doença. Foi precisamente graças ao forte investimento europeu e à mobilização dos cientistas que se conseguiram testar terapêuticas e desenvolver vacinas em tão pouco tempo. Mas também por o período temporal de investigação ser reduzido, quando comparado com uma situação normal, é que existem tantos estudos preliminares e publicações por validar, devido à reduzida possibilidade de escrutínio e replicação de resultados perante a avalanche de conhecimento produzido. Isto leva ao papel da dúvida em ciência, também abordado no livro.

Assim, concluímos que este livro trata de um registo da evolução do conhecimento médico e científico sobre o vírus e a doença, mas também de algumas políticas dos governos para lidar com a pandemia, assim como também do modo como parte da população entendeu e lidou com este evento sanitário, criando e disseminando boatos, desinformação e teorias da conspiração. Podemos dizer que, de certo modo, é aqui feito um retrato social de um período específico da pandemia – desde o início até à data da publicação. Se bem que este aspecto possa ser uma limitação, por o livro ter sido publicado ainda durante o acontecimento e por isso possa vir a estar rapidamente desatualizado relativamente a certos aspectos (por exemplo, as vacinas ainda estavam em desenvolvimento), por outro lado representa um registo contemporâneo e com valor para análise histórica no futuro, para além do indubitável valor informativo que tem já no presente.

 

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

CIÊNCIA ÀS SEIS - 5ª TEMPORADA

 



O ciclo de divulgação de ciência “Ciência às Seis” regressa em modelo online. O novo ciclo de palestras destina-se ao público em geral que poderá assistir em sua casa. Esta iniciativa do RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, Centro dirigido é coordenada pelo professor Carlos Fiolhais, professor de Física, com a participação de António Piedade, Bioquímico e Comunicador de Ciência. Todas as palestras terão o seu início pelas 18h00 e os links para poder assistir serão divulgados oportunamente aqui.

Esta é a quinta temporada deste ciclo “Ciência às Seis!” que já trouxe a Coimbra várias dezenas de notáveis cientistas e divulgadores de ciência portugueses, envolvendo activamente cerca de quatro mil espectadores.

Com a edição deste ano lectivo de 2020 / 2021, constituída por 13 palestras, pretende-se dar a conhecer aos interessados o estado actual do conhecimento científico e cultural em diversas áreas da ciência e da cultura  como a Matemática, a Astronomia, a Física,  a Biologia, a Geologia, a Engenharia, a Comunicação de Ciência, a História da Ciência, a Sociologia,  a Literatura e  a Arte, numa perspectiva interdisciplinar. É um convite a uma viagem pela diversidade do conhecimento científico.

De entre os palestrantes, convidados pelo RÓMULO, encontram-se cientistas reconhecidos nacional e internacionalmente pela sua investigação científica, que são também destacados comunicadores da sua ciência.

Ao longo do ciclo, serão apresentados, numa linguagem acessível a todos, os desafios com que se deparam os cientistas das áreas atrás indicadas e destacados os contributos para o nosso dia-a-dia que resultam do avanço do conhecimento científico.  O papel da ciência na sociedade também será discutido, com particular ênfase sobre as pseudociências que inundam as redes sociais.

Indicamos a seguir a data de cada uma destas palestras, o título e nome do respectivo palestrante:


2020

- 12 de Outubro – “Lá se fazem, cá se pagam? Estórias de bactérias que se tornaram resistentes aos antibióticos…”,  por Célia Manaia, da Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica no Porto.

-  20 de Outubro – “Apresentações orais: boas e más práticas”, por Luís Adriano Oliveira do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra.

- 21 de Outubro – “História Global de Portugal”, por José Eduardo Franco, da Universidade Aberta e investigador do CLEPUL - Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias, José Pedro Paiva, da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e Carlos Fiolhais, Departamento de Física da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra e Director do RÓMULO – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra,

- 27 de Outubro – “Jornalistas, cientistas e factos alternativos”, por José Vítor Malheiros, Jornalista de Ciência.

-   3 de Novembro – “Química industrial: Baekeland e Carothers”, por Raquel Gonçalves-Maia, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

- 10 de Novembro – “Modelos: o seu lugar na relação Ciência e Arte”, por Olga Pombo, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

- 18 de Novembro – “Movimentos estudantis em Coimbra: entre 1969 e 1974”, por João Gouveia Monteiro, da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e Director da Biblioteca Geral da mesma Universidade, e Rui Bebiano, da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e investigador do Centro de Estudos Sociais desta Universidade.

- 24 de Novembro – DIA DO RÒMULO - “Os Dinossauros de Carenque”, por António Galopim de Carvalho, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa – às 16 horas     

“Apanhados pelo vírus: factos e mitos na pandemia de COVID-19”, por David Marçal, Comunicador de Ciência- às 18 horas

- 15 de Dezembro – “ O prémio Nobel da Física 2020”, por Carlos Fiolhais, Departamento de Física da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra .

 

2021

 - 5 de Janeiro – “Sociologia das cidades”, por Carlos Fortuna, da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra.  

12 de Janeiro – “Ciência e banda desenhada” – por João Ramalho-Santos, da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra.

- 19 de Janeiro – “A ciência em Eçã de Queiroz”, por Helena Santana, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. 


sexta-feira, 11 de setembro de 2020

O SONHO




 Crónica primeiramente publicada em diversa imprensa regional


O sonho é, de facto, uma constante da vida, ou mais precisamente dos seres vivos.

Demócrito sonhou com o átomo. Mas foi Aristóteles, que não possuía equipamentos de ressonância magnética, o primeiro a observar que até insectos, como as abelhas, sonham. Que sonham, quiçá com coreografias, desenhos de néctar, no palco hertziano de uma passarola solar. Mas sonham!

Freud, que não sabia como Damásio da natureza molecular, fisiológica e anatómica das emoções, pressentiu nos sonhos os desejos por interpretar da terra do subconsciente. Desejos de terras distantes, de superfícies lunares.

Aserinsky e Kleitman, que não sabiam bolinar, encontraram ilhas de sonho no mar do sono. Designaram estas janelas interiores por sono R.E.M. (Rapid Eye Movement). Por elas, a actividade neuronal expressa nos registos electrofisiológicos, é semelhante à do estado de vigília, quando estamos acordados!

Mas por essas janelas cogitamos sem nos movermos. Mas o sonho, esse avança por essas ilhas de sono R.E.M.

Hobson e McCarley, sem saberem voar, postularam que os sonhos são experiências sensoriais cerzidas pelo tear do cortéx cerebral, que usa fios de sinais aparentemente caóticos, emanados desde a Ponte de Varólio, estrutura primeva do tronco cerebral, que partilhamos com os répteis e com as aves.

Payne e Nadal, que não eram poetas, definiram o sonho como o resultado de uma semântica feita com memórias, que nele se consolidam numa fluida narrativa, como pedaços de vida acordada, mas intangível e que foge à recordação mais consciente.

Se o sonho ocorre, é porque tem uma função específica e útil para as redes neuronais e suas complexas interacções entre as diferentes partes do cérebro. É porque foi uma melhor adaptação para a realidade evolutiva segundo Darwin!  

Mas quais são os caminhos do sonho? Em que vagas de ondas de impulsos, ditos nervosos, avança ele, por entre milhões de neurónios, até à praia da nossa consciência?

No oásis onírico revoltam-se as essências, ocorrem flutuações na concentração de iões e moléculas. Mas há átomos e moléculas do sonho?

Sim. Alguns iões, principalmente os de sódio e potássio. E que moléculas? Certas combinações de não mais de duas dúzias de átomos de carbono, oxigénio, nitrogénio e hidrogénio. Átomos forjados em estrelas, mais ou menos distantes, e que hoje formam neurotransmissores, quais caravelas transportando mensagens.

Allan Hobson sonhou quantificar as moléculas do sonho. Mostrou que no sono do sonho, as concentrações nos fluidos cerebrais de neurotransmissores como a serotonina, a histamina e a noradrenalina estão diminuídas, e isto inibe as vias neuro-motoras, relaxando o corpo.

Por outro lado, neurónios colinérgicos na Ponte de Varólio aumentam as vagas de acetilcolina em direcção ao córtex e em níveis semelhantes ao estado acordado. Será a acetilcolina (C7H16NO2) a molécula do sonho?

Nesta janela bioquímica que também é o sonho, o córtex cerebral tenta organizar as incessantes e anacrónicas vagas de impulsos. E com a matriz de padrões feitos de sensações e emoções quotidianas, o cérebro cortical vê, sente, ouve sem gastar os sentidos. Revisita a caderneta das nossas vivências, dos nossos planos futuros e compara-os, mistura-os, experimenta-os em novos cenários interiores, para forjar no silêncio sonoro e visual uma alquimia de novos e úteis padrões de comportamento. E faz tudo isto e muito mais, sem cansar o corpo.

Mas no mar da vigília, também há ilhas de sonho. Ao sonhar acordados, co(a)gitamos as ressonâncias entre experiências passadas com as possibilidades futuras, permitimos que soluções novas, para problemas velhos, floresçam de entre razões enrodilhadas.

E através da paleta das ressonâncias magnéticas funcionais, sonhamos nós um dia poder ver as cores de um sonho qualquer, “como bola colorida entre as mãos de uma criança” como escreveu, sonhando, Rómulo de Carvalho na sua pérola poética enquanto António Gedeão.

 

Sonhemos…

 

António Piedade

Comunicador de Ciência


sexta-feira, 3 de julho de 2020

“ARTE RUPESTRE NO CERRADO”




ARTE RUPESTRE NO CERRADOé o título da próxima palestra do ciclo de divulgação científica “Ciência às Seis”, que ocorrerá no dia 7 de Julho, terça-feira, pelas 18h00, por vídeo conferência. O palestrante é o arqueólogo António Batarda Fernandes, Chefe da Divisão de Inventariação, Estudo e Salvaguarda do Património Arqueológico (DIESPA), Departamento de Bens Culturais, Direção-Geral do Património Cultural.

Os interessados podem seguir a vídeo conferência através do link:

O ciclo de palestras de divulgação científica “Ciência às Seis” é uma iniciativa do Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, com coordenação do bioquímico e comunicador ciência António Piedade.


Sinopse da palestra:

Situado no Brasil Central, o Cerrado formou até algumas décadas atrás o ecossistema típico de aproximadamente 20% da área do país. Até ao presente, estima-se que mais da metade dessa cobertura original tenha sido perdida para a agricultura e criação de gado, com apenas 2,2% do seu total protegido por leis federais. O município de Serranopólis, estado de Goiás, acumula a presença de zonas de Cerrado razoavelmente bem preservadas, com um complexo arqueológico significativo, abrangendo arte rupestre e locais de ocupação humana. No total, 26 locais são conhecidos, apresentando arte pré-histórica e camadas arqueológicas que remontam a 11.000 BP. Trabalhos de emergência de conservação da arte rupestre criaram a oportunidade de estabelecer um projeto de longo alcance dedicado à pesquisa, gestão, conservação e envolvimento público dos valores do património cultural e natural negligenciados e ameaçados da região: a arte rupestre pré-histórica e o Cerrado. Dada a atual situação mundial (sustentabilidade de recursos, alterações do clima, persistência de políticas económicas “business as usual”), o lema "Pense globalmente, aja localmente" nunca terá sido tão verdadeiro como no caso de Serranopólis. Num mundo global, a atuação local, tomando partido das riquezas naturais e culturais únicas e endógenas da região, poderá contribuir para moldar um futuro mais respeitador dos valores patrimoniais?

Nota biográfica:
Arqueólogo de formação, António Batarda Fernandes (https://batarda.wordpress.com/) exerce atualmente funções de Chefe da Divisão de Inventariação, Estudo e Salvaguarda do Património Arqueológico (DIESPA), Departamento de Bens Culturais, Direção-Geral do Património Cultural.
Até Fevereiro de 2020, exerceu funções no Museu e Parque Arqueológico do Vale do Coa onde coordeneou o Programa de Conservação da Arte Rupestre do Coa, co-coordenou os Serviços Educativos e geriu o website da Fundação Coa Parque além da presença nas chamadas redes sociais: Facebook, Youtube, Twitter, Instagram e TripAdvisor.
Na formação académica destaca-se o Mestrado em Gestão de Sítios Arqueológicos pelo Instituto de Arqueologia da University College London, apresentando tese sobre a gestão das visitas aos sítios de arte rupestre do Vale do Coa, e o Doutoramento em Arqueologia pela Escola de Ciências Aplicadas da Universidade de Bournemouth, apresentando tese sobre a conservação também dos sítios de arte rupestre do Vale do Coa.


Público alvo: todo(a)s o(a)s interessado(a)s em conhecimento e cultura científica!

quinta-feira, 25 de junho de 2020

“NOVAS “PROFISSÕES DE SONHO” ENTRE JOVENS”




“NOVAS “PROFISSÕES DE SONHO” ENTRE JOVENS” é o título da próxima palestra do ciclo de divulgação científica “Ciência às Seis”, que ocorrerá no dia 30 de Junho, terça-feira, pelas 18h00, por vídeo conferência. O palestrante é o sociólogo Vitor Sérgio Ferreira, Investigador Auxiliar no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa

Os interessados podem seguir a vídeo conferência através do link:

O ciclo de palestras de divulgação científica “Ciência às Seis” é uma iniciativa do Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, com coordenação do bioquímico e comunicador ciência António Piedade.

Sinopse da palestra:
As tradicionais profissões de sonho envolviam a crença no ensino superior, como ser médico, advogado, arquiteto ou engenheiro. Hoje existem entre os jovens portugueses novas aspirações e opções profissionais, já não exclusivamente associadas a carreiras certificadas por diplomas universitários. O diploma de ensino superior, afinal, não garante o acesso e progressão numa carreira ou um emprego que corresponda à qualificação obtida. Sai fragilizada a sua procura otimista, bem como os itinerários que oferece. Os jovens e suas famílias estão cada vez mais conscientes destas realidades. São cada vez mais procuradas alternativas que articulem escola, formação e trabalho. As promessas académicas competem com promessas de outros meios sociais, como as culturas juvenis de pares e as culturas mediáticas de celebridade. E novas atividades inspiram os imaginários dos mais jovens acerca dos seus possíveis meios de vida no futuro, muitas vezes envoltas numa retórica de “sonho”. Existem hoje novas profissões de sonho que não passam obrigatoriamente pela obtenção de um diploma universitário. Venho investigando as de tatuador, DJ, jogador de futebol, cozinheiro ou modelo, e mais recentemente, as de youtuber, streammer ou gamer, exercidas em plataformas digitais. Que condições sociais e culturais favorecem e motivam a atração dos jovens por este tipo de actividades?

A propósito desta palestra, sugerimos o visionamento do documentário PARA ALÉM DA FAMA. BASTIDORES DE NOVAS "PROFISSÕES DE SONHO, realizado por Paula Vanina Cencig e Vítor Sérgio Ferreira no âmbito do projeto de investigação Tornando profissões de sonho realidade: transições para novos mundos profissionais atrativos aos jovens (financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (PTDC/CS-SOC/122727/2010), dá voz a alguns dos jovens que nele participaram, contando as suas experiências, percursos e expetativas quanto a exercer profissionalmente as atividades de modelo, DJ, chefe de cozinha e futebolista.
O documentário pode ser visto na plataforma YouTube:

Ficha técnica
Realização: Paula Vanina Cencig e Vitor Sérgio Ferreira
Argumento: Paula Vanina Cencig, Vitor Sérgio Ferreira, Alexandra Raimundo
Gravações, montagem e direção de arte: Paula Vanina Cencig
Imagens de apoio: Maria João Taborda, Alexandra Raimundo
Áudios de apoio: Alexandra Raimundo
Tratamento áudio: Christian Landone
Mixagem final áudio: Paula Vanina Cencig
Legendagem em Inglês: Carlos Duarte
Legendagem em Espanhol: Elsa Graciela Shusterman de Cencig
Legendagem em Português do Brasil: Paula Vanina Cencig




Sobre o orador:
Vítor Sérgio Ferreira é doutorado em Sociologia pelo ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa. Atualmente é Investigador Auxiliar no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, onde coordena o grupo de investigação LIFE – Percursos de vida, Desigualdades e Solidariedades: Práticas e Políticas, e é vice-coordenador do Observatório Permanente da Juventude. É professor de Métodos e Técnicas de Pesquisa Qualitativa, no Programa Interuniversitário de Doutoramento em Sociologia: Conhecimento para Sociedades Abertas e Inclusivas (OpenSoc). Tem coordenado e participado de vários projetos de investigação, com principal incidência nas áreas da sociologia da juventude e do corpo. Tem publicado nacional e internacionalmente sobre temáticas relacionadas com culturas juvenis e transições para a vida adulta, gerações e percursos de vida, usos do corpo e modificações corporais, e métodos e técnicas de pesquisa qualitativa.

Público alvo: todos os interessados em conhecimento e cultura científica.