Quando somos crianças, acontece, por vezes, sermos repreendidos, com uma frase: "não sejas curioso!". Parece que "ser curioso" é mau, é falta de educação, é um defeito a ser corrigido.
Será sempre assim?
Vejamos:
Curiosidade do latim curiositas, curiositatis (do acusativo curiositatem com a queda do -m final e a passagem da consoante dental t a d — curiosidade ).
Da raiz de cura, que significa "cuidado", e do verbo curare "cuidar / ocupar-se de" aplica-se também aos cuidados do corpo, por isso, "tratar uma doença", "cuidar de alguém", curar.
Assim, o adjectivo curiosus significa "cuidadoso", "dedicado", "atento".
Daí ser usado também para o trabalho do espírito, o trabalho intelectual; o curiosus é o que se dedica à investigação, o que tem desejo de saber.
Então, se a palavra curiosidade, em sentido pejorativo, significa "bisbilhotice", "indiscrição", ela é também sinónimo de desejo de saber, de conhecer, de gosto pela investigação, de procura do conhecimento.
Logo, podemos perguntar:
Não será esse o papel da escola, do professor? Despertar o gosto pelo conhecimento, pelo saber, pela investigação, ensinar a curiosidade?
Porque a curiosidade não nasce connosco, aprende-se, por isso se pode, e deve, ensinar.
Ensinemos a curiosidade — é o título de um artigo de opinião da autoria de Pedro Norton, no jornal Público do passado dia 14 de Julho de 2026 (aqui).
Pretende o autor mostrar como a curiosidade é o motor do conhecimento, é a
"... vontade de tudo aprender ... o saber pelo saber ... o aprender pelo aprender ... o trabalho infinito de perseguir meadas sem fio ... a vontade tão maravilhosa como quimérica de buscar o saber universal e de o capturar num livro, numa enciclopédia ou numa biblioteca.
Dir-se-á que este tipo de curiosidade irrefreada é uma forma de loucura mansa. Pois eu ouso discordar. A curiosidade é, de certa forma, a fundação de todos os saberes. A curiosidade é a linha improvável que une o fascínio pela Arte ao fascínio pela História, o fascínio pela Astronomia ao fascínio pela Literatura. A curiosidade é a pré-condição para o conhecimento."
E apresenta exemplos:
"Plínio, o Velho, almirante da frota de Miseno, morreu de curiosidade no ano 79 da nossa era. Talvez seja útil explicar melhor. Autor, filósofo, comandante militar, naturalista, Plínio vivia a uma distância razoável de Pompeia quando se iniciou a erupção do Vesúvio. E não terá pensado duas vezes. Mandou preparar uma pequena embarcação de nove homens e fez-se ao mar com a intenção de estudar e registar de perto e com todo o rigor científico um fenómeno natural a todos os títulos excecional. Para um naturalista, a tentação era irresistível. Irresistível e fatal, acrescento. Segundo nos conta Plínio, o Jovem, seu sobrinho, terá sido surpreendido por uma gigantesca nuvem de cinzas e gases vulcânicos que acabariam por ditar a sua morte. Não sei se a curiosidade matou o gato, mas parece facto assente que terá sido responsável pela morte de Plínio.
Paradoxalmente, se é certo que Plínio deve a morte à sua insaciável curiosidade, também parece inegável que foi graças a esta que ganhou a imortalidade. Ou não fosse ele o autor da Naturalis Historia, uma enorme enciclopédia de 37 volumes, que sobreviveu até hoje e que tinha a ambição, nada mais, nada menos, do que reunir numa única obra todo o conhecimento até então disponível. Da astronomia à arte, passando pela zoologia, pela botânica, pela geologia ou pela mineralogia.
E a verdade é que é difícil menorizar a influência desta História Natural, filha dileta da insaciável curiosidade de Plínio.
Dela se diz, por exemplo, ter servido de inspiração às Vidas dos Mais Excelentes Pintores, Escultores e Arquitetos, que Vasari haveria de escrever 15 séculos depois.
... dois séculos depois de Vasari, 17 passados depois da curiosa morte de Plínio, Diderot e D’Alembert, igualmente insaciáveis de curiosidade, almejaram também reunir todo o conhecimento do Mundo. A sua celebrada Encyclopédie não é senão a materialização dessa imensa voragem e desse gigantesco desejo de tudo saber.
Sob a batuta dos dois editores trabalharam mais de uma centena de autores, entre os quais se destacam, pasme-se, Voltaire, Rousseau e Montesquieu.
Através da sua correspondência com livreiros ingleses, William Chester Minor* terá tido conhecimento de um pequeno anúncio que fazia apelo a voluntários para colaborar na feitura do Oxford English Dictionary, então dirigido pelo filólogo James Murray. Foi nessa altura que, precisamente movido pela curiosidade, Minor ganhou um lugar neste meu muito singular e discutível panteão. Com acesso irrestrito à sua vasta biblioteca pessoal, ajudado pela viúva do homem que tinha assassinado (que o visitava com frequência para o abastecer de livros), Minor mergulhou de cabeça. Ao longo de dezenas de anos tornar-se-ia um dos principais contribuidores para o Oxford English Dictionary, enviando muitos milhares de citações e exemplos de usos de palavras extraídos do seu espólio de livros antigos.
E termina deste modo:
Numa altura em que a escola parece por vezes perdida num labirinto burocrático e processual, numa altura em que, malgrado os esforços bem-intencionados de muitos, parece bloqueada por forças contraditórias que se anulam e ameaçam fazer perder o sentido último do seu propósito, talvez não seja má ideia regressar a esta ideia simples: ensinemos a curiosidade.
Plínio, Diderot, D’Alembert e Chester Minor, uns mais loucos do que outros é certo, foram tocados, cada um à sua maneira, pelo vírus da curiosidade.
*Médico cirurgião (1834-1920). Formado na Escola de Medicina de Yale em 1863, foi cirurgião do exército americano durante a Guerra Civil Americana; tendo ficado perturbado pelos horrores a que assistiu, foi internado num hospital psiquiátrico. Num acesso de delírio tinha disparado contra um homem, mas foi considerado inocente devido à sua insanidade. A sua história está documentada no filme de 2019, O Professor e o Louco.
Isaltina Martins
Sem comentários:
Enviar um comentário