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sexta-feira, 4 de maio de 2018

"TODOS OS CAMINHOS VÃO DAR AO SOL"



Na próxima 4ª feira, dia 9 de Maio, pelas 18h00, vai ocorrer no Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra a palestra 
"Todos os caminhos vão dar ao Sol", por João FernandesProfessor do Departamento de Matemática da Universidade de Coimbra, Director do Observatório Geofísico e Astronómico da Universidade de Coimbra.


Esta palestra integra-se no ciclo "Ciência às Seis"*.

Resumo da palestra:
"Trabalho num Observatório há mais de 20 anos que observa o Sol, diariamente, há mais de 90. Assim, nas últimas duas décadas o Astro-Rei passou a fazer parte do meu dia-a-dia científico e académico no Observatório da Universidade de Coimbra (e fora dele também!). O Sol faz parte do dia-a-dia de todos nós e não imaginamos a nossa vida e nem a Vida sem ele, seja em que perspectiva se olhe, seja científica, tecnológica, sociológica, cultural, etc. Nesta palestra vamos dar enfoque a várias "faces" solares que as ciências e as tecnologias nos mostram. Algumas delas podem ser surpreendentes. Para mim foram-no."

*Este ciclo de palestras é coordenado por António Piedade, Bioquímico e Divulgador de Ciência.

ENTRADA LIVRE

Público-Alvo: Público em geral
Link para o evento no facebook

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

DESLUMBRE-SE COM O CÉU DE AGOSTO

Texto publicado primeiramente na imprensa regional.



O céu virado a Nordeste, cerca da 1h30 do dia 13 de agosto de 2017. Na imagem pode ver-se o radiante da “chuva” de meteoros das Perseidas e o intenso brilho da Lua, na constelação vizinha de Peixes. (Imagem: Ricardo Cardoso Reis /Stellarium)




O Universo ilumina o pensamento!

Desde os alvores da humanidade que os seres humanos se deslumbram com a beleza da abóbada celeste. A contemplação do céu nocturno, iluminada com infinitos pontos brilhantes, foi fonte para inúmeras perguntas sobre a origem e destino do Universo e logo da própria vida. Cada estrela tinha um sonho para viajar. Todos os sonhos tinham a sua estrela.

E hoje, e sempre, continuamos a sentir maravilhamento quando presenciamos a magnificência luminosa que estimula as nossas retinas, luz que viajou pelo espaço e com ele transporta inspiração e curiosidade para descobrir como o Universo funciona e de quê ele é feito.

Este mês de Agosto é excelente para realizarmos espectaculares observações astronómicas, pelo menos por três aspectos que são indicados a seguir.

Durante este mês, é possível observar todos os planetas do nosso sistema solar (à excepção da Terra onde nos encontramos): Mercúrio, Vénus, Marte, Júpiter e Saturno visíveis a olho nu; Urano e Neptuno com a ajuda de telescópio. As indicações adequadas para a sua observação encontram-se, por exemplo, na página na internet do Observatório Astronómico de Lisboa.

Este mês ocorre uma das maiores “chuvas de estrelas” do ano: a “chuva” de meteoros das Perseidas. Este fenómeno deslumbrante deve-se ao facto de o planeta Terra atravessar uma região do espaço interplanetário semeado de meteoróides, pouco maiores do que uma ervilha, ecos das passagens do gigante cometa periódico Swift-Tuttle (cerca de 28 km de diâmetro!) na sua órbita ao redor do Sol, a qual demora 133 anos terrestres! O primeiro registo de observação da passagem do cometa é de origem chinesa e data do ano 69 a.C. O último ocorreu em 1992, data da sua redescoberta.

Esta “chuva de estrelas” tem um máximo de actividade previsto entre as 15h00 do dia 12 e as 2h30 do dia 13, mas a constelação de Perseu que dá o nome à “chuva”, onde se situa o radiante (ponto de onde parecem surgir os meteoros), só está completamente acima do horizonte por volta das 23h30.

Contudo, este ano e logo no dia 13, a Lua “nasce” àquela mesma hora ao lado do radiante, na constelação de Peixes. O brilho intenso dos "restos" da Lua cheia deverá dificultar a visualização dos meteoros que se incendeiam ao entrarem na atmosfera terrestre. A centena de meteoros por hora prevista deverá reduzir-se para metade mesmo em céus muito escuros. Isto significa que a contemplação desta “chuva” não será muito reduzida se não nos afastarmos da poluição luminosa dos centros urbanos. Recomenda-se, assim, a observação num local mais escuro. Em Portugal, um local de eleição é a "Reserva de Céu Escuro do Alqueva" (Dark Sky Alqueva). “Mas as Perseidas são ricas em “bolas de fogo” (meteoros ligeiramente maiores e mais brilhantes), pelo que, de qualquer maneira, deverá valer a pena ficar uma hora ou duas a olhar o céu”, diz-nos Ricardo Cardoso Reis, astrónomo e comunicador de ciência do Planetário do Porto e Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço.

Por último, mas talvez o ponto de interesse astronómico mais relevante, ocorre no dia 21 de Agosto: dia de Lua nova, é também dia de eclipse do Sol. Este só será total na parte central dos E.U.A., sendo a sua visualização parcial em outras regiões do planeta. É o caso de Portugal e teremos de nos contentar com um eclipse parcial. Quanto mais a sul, maior será percentagem da superfície do Sol ocultada pela Lua. O Eclipse começa por volta das 19h44 (hora legal), e o máximo ocorre pelas 20h20. Não será possível observar o final do eclipse, que ocorre depois do pôr-do-sol. Diga-se, a propósito, que o melhor local de Portugal para observar este eclipse será a Região Autónoma da Madeira, com o eclipse a começar pelas 19h48, alcançando uma ocultação de cerca de 33%, às 20h35.

São estas as três razões que, entre outras possíveis, nos convidam para boas horas de observação astronómica durante o mês de Agosto.


António Piedade

segunda-feira, 22 de maio de 2017

FADO GALÁCTICO

Crónica primeiramente publicada no Diário de Coimbra e outra imprensa regional.



O brilho das estrelas conta-nos a história do Universo.
Mas nem tudo o que brilha no céu nocturno, para além da Lua, são estrelas individuais como o nosso Sol. É possível detectar pelo menos o brilho de três galáxias a olho nu (sem telescópios): a galáxia de Andrómeda, a Grande Nuvem de Magalhães e a Pequena Nuvem de Magalhães. Só a primeira é visível em Portugal. As outras duas só são visíveis no hemisfério Sul. Contudo, hoje sabemos existirem muitos milhões de galáxias por esse Universo fora.
Mas nem sempre foi assim. No início do século XX, os astrónomos julgavam que a nossa galáxia, a Via Láctea, era a única no Universo. E os limites do Universo de então eram o da nossa galáxia. Mas os astrónomos conheciam “objectos” designados por nebulosas e nas primeiras décadas do século passado houve grande discussão sobre a sua natureza e se estariam ou não dentro da nossa galáxia.
Devemos ao astrónomo norte-americano Edwin Hubble (1889 – 1953) a identificação dessas nebulosas como galáxias existentes muito para além da Via Láctea e também a vertiginosa constatação de que estas se afastavam uma das outras a uma velocidade tanto maior quanto a maior a distância que as separavam.
Desde então, os avanços tecnológicos permitiram a construção de telescópios cada vez mais sensíveis e o número de galáxias conhecidas aumentou como nunca antes teria siso possível. E, quando foi possível colocar no espaço, fora da turbulência da atmosfera terrestre, telescópios como o que honra Edwin Hubble por ter o seu nome, o conhecimento sobre o campo profundo, negro a olho nu, do Universo, apresentou-nos miríades de galáxias.
Para o estudo das galáxias, para conhecer a sua evolução, é necessário analisar a luz que delas nos chega e isso é feito através de técnicas de espectroscopia avançada. A luz é proveniente principalmente das estrelas que compõem as galáxias, mas há também uma parte que resulta da ionização do gás interestelar que existe nas próprias galáxias. Distinguir a contribuição de cada uma das fontes não tem sido tarefa fácil e o recurso a programas informáticos (algoritmos) de análise de dados tem sido imprescindível.
Neste contexto, uma nova ferramenta informática acaba de ser apresentada num artigo recente aceite para publicação na revista científica Astronomy & Astrophysics. Este novo algoritmo foi desenvolvido pelos astrofísicos do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço (IA) Jean Michel Gomes e Polychronis Papaderos. FADO (acrónimo de Fitting Analysis using Differential evolution Optimization) foi o nome que estes cientistas atribuíram a esta nova técnica de análise, numa homenagem ao estilo desta música património imaterial da humanidade. “Cada galáxia tem um “fado” – uma narrativa da sua biografia, desde o nascimento das primeiras estrelas. Este destino está escrito no seu espectro eletromagnético, que contém os registos fósseis das múltiplas gerações de estrelas que se formaram, ao longo de milhares de milhões de anos, bem como do gás que essas estrelas ionizam com a sua radiação”, pode ler-se num comunicado do IA.
Uma das características inovadoras do FADO é o uso de algoritmos genéticos, que simulam a evolução de uma galáxia como se a de um organismo vivo se tratasse. O tratamento dos dados permite que se reproduza a emissão observada das estrelas e do gás na galáxia separando as duas contribuições da luz captada. Segundo o comunicado citado, “os modelos anteriores tinham grandes incertezas, em parte porque só tinham em conta a contribuição da luz emitida pelas estrelas. No entanto, a contribuição do gás ionizado pode somar até 50% de toda a luz da galáxia”.
É uma importante contribuição desta instituição científica portuguesa, o IA, para melhor compreendermos a formação e a evolução das galáxias.


António Piedade

terça-feira, 4 de outubro de 2016

A Rosetta... caiu no cometa - Conversa com Nuno Peixinho no Rómulo


CONVITE


No âmbito da SEMANA MUNDIA DO ESPAÇO, hoje, 4 de Outubro pelas 18h no RÓMULO Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, haverá uma conversa sobre a Missão Rosetta acompanhada de vídeos da European Space Agency (ESA) 


segunda-feira, 20 de junho de 2016

DETECTADAS NOVAS ONDAS GRAVITACIONAIS

Texto primeiramente publicado na imprensa regional.

T. PYLE/LIGO


Há milhares de anos que o ser humano desvenda o universo através da luz visível. Com ela aprendemos a ver o cosmos. No século XVII, a partir do uso do telescópio por Galileu para observar o céu nocturno (e não só) descobrimos que havia muito mais luz onde antes só havia breu. Com o progressivo desenvolvimento de melhores telescópios os astrónomos foram vendo cada vez mais estrelas, descobrindo galáxias e outros astros. A contemplação do universo deslumbrava, mas o melhor ainda estava para vir.

Com a descoberta de diferentes gamas de radiação electromagnética (infravermelho, ultravioleta, ondas de rádio, micro-ondas, raios X, raios gama), de que a luz visível é uma muito pequena parte, foi possível amplificar a nossa íris de observação do universo e descobriu-se o que antes não se conhecia nem se pensava existir. O Universo é muito maior e antigo do que se julgava. Uma nova astronomia e cosmologia nasciam há cerca de cem anos.

Contudo, temos observado o universo “só” através da radiação electromagnética que nos chega. E hoje sabemos que o Universo observável através desta radiação corresponde só a 4% daquilo que se estima constituir o Universo. Por exemplo, a radiação electromagnética parece não interagir com a matéria negra (que sabemos existir, mas não sabemos o que é!). Mas esta matéria negra parece interagir graviticamente com os corpos com massa como as galáxias. Se a gravidade é importante para compreender o movimento dos corpos feitos com a mesma matéria que nos compõe, talvez ela nos traga alguma luz sobre aquilo que não podemos ver, como sejam os buracos negros.

É por aqui que a detecção de ondas gravitacionais, previstas teoricamente há precisamente cem anos por Einstein, pode permitir-nos dizer que poderemos estar na alvorada de uma nova jornada na nossa investigação sobre o universo em que existimos. E o mais deslumbrante é que é imprevisível o que ainda não conhecemos hoje. A surpresa mora no futuro.

Einstein previu que certos fenómenos não só deformariam o espaço-tempo, como dariam origem a ondulações, a ondas gravitacionais. Assim como o choque de uma pedra com a superfície de um lago gera ondas que podemos sentir na margem, acontecimentos envolvendo grandes massas em movimento acelerado provocam ondulações que se propagam no espaço-tempo à velocidade da luz.

A teoria prevê que as ondas gravitacionais resultantes de fenómenos muito distantes da Terra sejam muito ténues. Para a sua detecção directa os cientistas necessitam de instrumentos muito sensíveis. Ao longo das últimas décadas, foram instalados para esse efeito quatro detectores baseados na interferometria de raios LASER: dois nos Estados Unidos (LIGO - Laser Interferometer Gravitational-Wave Observator), um na Alemanha (GEO600) e outro na Itália (VIRGO).

Agora, no passado dia 15 de Junho, foi publicado um artigo na revista PhysicalReview Letters que anuncia que às 3h38m de 26 de Dezembro os dois detectores LIGO, em colaboração com o detector VIRGO, detectaram directamente pela segunda vez ondas gravitacionais. Estas demoraram apenas 1,1 milissegundos entre os dois detectores (situados a 3000 km de distância entre Livingston e Hanford nos EUA) e, segundo a simulação efectuada pelos cientistas,  foram geradas  há cerca de 1400 milhões de anos nas últimas 27 órbitas de dois buracos negros antes de estes se fundirem. Os buracos tinham 14 e oito vezes o tamanho da massa do Sol e o resultante com 21 vezes a massa solar. Durante este evento cósmico, cerca de uma massa solar de energia foi convertida em ondas gravitacionais, as que agora foram sentidas na Terra.

É a confirmação de que somos capazes de detectar ondas gravitacionais, que os buracos negros existem e de muitos andam” aos pares por esse Universo fora. Agora vemos onde antes eramos cegos.


António Piedade

terça-feira, 3 de maio de 2016

À DESCOBERTA DE PLANETAS EXTRA-SOLARES



Sérgio Sousa em ESO La Silla, Chile Foto por Ana Couto Soares (C)2011


Na próxima 5ª feira, 5 de Maio de 2016, pelas 18h realiza-se no RÓMULO Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, a palestra intitulada "À descoberta de planetas extra-solares"com o astrónomo Sérgio Sousa, do Centro de Astrofísica da Universidade do Porto, no âmbito do ciclo Fronteiras da Ciência, coordenado por António Piedade, a decorrer até Julho de 2016.


Sinopse da palestra:
"Nesta palestra será feita uma revisão das descobertas de planetas extra-solares, apresentando as várias classes de planetas que foram descobertas até hoje. Serão abordadas as principais técnicas para a deteção de planetas extra-solares. Finalmente serão apresentados alguns dos grandes projetos observacionais para a deteção e caracterização de planetas extra-solares."


ENTRADA LIVRE 
Público-alvo: Público em geral

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terça-feira, 1 de março de 2016

Quem pergunta quer saber

Fotografia: Guilherme de Almeida
Venho dar conhecimento da existência de uma plataforma lusa de perguntas e respostas de Astronomia, denominada Astronomia Q&A.

Nela os interessados poderão encontrar mais de uma centena de perguntas sobre o tema, e subtemas, a diferentes níveis de profundidade e seguidas das respectivas respostas.

Algumas perguntas são mais terra-a-terra, outras mais técnicas, constituindo um todo que é de inegável utilidade. O acesso às perguntas e respostas é público e livre, sem necessidade de inscrição. Já a possibilidade de colocar perguntas, ou, eventualmente, contribuir com respostas, exige a inscrição, que é grátis. 

O acesso faz-se por este link: http://astronomia.galactica.pt/.

Um sistema de filtros permite seleccionar perguntas e respostas dentro de um determinado subtema. 

Apresento esta notícia na qualidade de utilizador activo, mas não como owner desta plataforma (que não sou). Se existirem dificuldades de inscrição, estas podem ser removidas contactanto o owner, Joâo Clérigo, em jaclerigo@galactica.pt 

O Astronomia Q&A aguarda a vossa visita. Que essa vista seja proveitosa.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

UMA HISTÓRIA MAL CONTADA

Texto primeiramente publicado na imprensa regional.







Faz hoje, dia 26 de Fevereiro, 400 anos que Gaileu Galilei (1564 – 1642) foi advertido pela Igreja Católica pela sua opinião em defesa do sistema heliocêntrico: era a Terra que girava em torno do Sol e não o contrário como era defendido pela Igreja Católica e muitos académicos de então.

O cardeal Roberto Bellarmino (1542-1621), figura então importante da Igreja Católica cujo Papa à época era Paulo V (1552 – 1621), foi incumbido dessa missão. Segundo um muito interessante artigo sobre este assunto escrito pelo físico e astrónomo Guilherme de Almeida, Bellarmino adverte Galileu: que a "afirmação de que o Sol é o centro imóvel do sistema do mundo é temerária, quase herética; que a afirmação de que a Terra se move está teologicamente errada; proíbe-o de falar do heliocentrismo como realidade física, mas autoriza-o a referir-se a este apenas como hipótese matemática".

Ressalta destas acusações que a discordância entre a Igreja Católica de então e Galileu é fundamentalmente de natureza teológica. Não é científica. A Igreja Católica permite que Galileu refira cientificamente o heliocentrismo. Ou seja, não houve propriamente uma confrontação fracturante entre ciência e religião como está generalizado no saber comum.

Esta imagem de Galileu, pai da ciência experimental moderna, como um mártir da ciência aos pés de uma Igreja Católica autoritária e contrária ao saber científico libertário, foi, segundo a historiadora de ciência Patricia Fara, forjada durante o século XIX por propagandistas científicos e é uma história muito mal contada. Diga-se, a propósito, que Patricia Fara é autora, entre outras obras, de um incontornável “Ciência: 4000 de história”, publicado entre nós pela editora Livros Horizonte, em 2012, com prefácio de Carlos Fiolhais.

Uma nova geração de historiadores de ciência, em que Patricia Fara se enquadra, tem tentado nas últimas décadas reconstituir a verdade histórica dos factos e romper com o paradigma dominante na história ocidental de uma ciência triunfante em completo e permanente conflito com a religião, em particular a religião católica. Sabe-se hoje que a ideia reinante, ainda entre nós, de uma Igreja Católica que impediu o desenvolvimento da ciência está longe de corresponder completamente à verdade histórica.

No que diz respeito ao episódio que realmente aconteceu há 400 anos, em vez de um confronto directo entre ciência e religião, ou entre Galileu e o Papa, deve-se considerar que aquele foi um conflito mais complexo e que envolveu facções rivais dentro e fora da Igreja.

É preciso ter em conta que Galileu era um católico devoto e que tinha e continuou a ter apoiantes em todos os degraus da hierarquia clerical. Mas Galileu tinha muitos inimigos, principalmente devido ao seu estatuto social invejável: era primeiro matemático e filósofo na corte de Cósimo II de Médicis, grão-duque da Toscânia e governante de Florença. Acrescente-se a isto o facto de muitos académicos e eruditos não clericais de então serem acérrimos defensores do geocentrismo de Ptolomeu, não considerando os trabalhos de Copérnico, Tycho Brahe, Kepler e os dados observacionais permitidos pelo novo instrumento revolucionário, o telescópio, que Galileu desenvolveu e aplicou na descoberta e interpretação do Universo.

Assim, são hoje melhor conhecidas as ambições e rivalidades pessoais que gravitaram em torno de Galileu e há quem defenda que se este tivesse agido de modo mais diplomático e não tivesse escrito obras científicas em italiano ao alcance de outros que não só os eruditos e eclesiásticos, talvez tivesse conseguido divulgar mais o seu universo heliocêntrico sem ter sido oficialmente condenado por razões teológicas.


António Piedade

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

GALILEU GALILEI FOI REPREENDIDO PELA IGREJA CATÓLICA HÁ PRECISAMENTE 400 ANOS

Com a devida vénia, publicamos aqui este artigo do professor de Físico-Química e astrónomo  Guilherme de Almeida, texto primeiramente publicado na imprensa regional através do programa "Ciência na Imprensa Regional - Ciência Viva".

Imagem: Jorge Miguel 


Em 26 de Fevereiro de 1616 — faz agora 400 anos —, Galileu foi chamado a Roma, por ordem do Papa Paulo V. O propósito era claro: esperava-o uma advertência severa da Igreja Católica. E isso iria ter repercussões na sua vida. É interessante saber como se chegou a este ponto.

Os problemas começaram em 1609. Depois de aperfeiçoar o telescópio, Galileu (1564-1642) começou a utilizá-lo para observar o céu. Fez sucessivas descobertas: as crateras e montanhas da Lua, as quatro maiores luas de Júpiter, muitas estrelas nunca antes observadas e a verdadeira constituição da Via Láctea. Entusiasmado, publicou, em Março de 1610, um livro revelador: Sidereus Nuncius (O Mensageiro Sideral). E continuou, descobrindo as fases de Vénus, as manchas solares e a rotação do Sol. Quase descobriu os anéis do planeta Saturno.

Muitas destas revelações fazem-no crer que a Terra não pode estar imóvel, nem ser o centro de tudo: recusa o geocentrismo. Torna-se adepto do heliocentrismo, de Copérnico, teoria segundo a qual será o Sol, e não a Terra, o centro do “sistema do mundo”.

Galileu gozava então de um estatuto invejável: era Primeiro Matemático e Filósofo na corte de Cósimo II de Médicis, grão-duque da Toscânia e governante de Florença, mas isso não o tornava intocável. A proclamação destas convicções heliocentristas desagradou à Igreja Católica, defensora do geocentrismo, por contrariar as opiniões vigentes baseadas nas aparências imediatas e em antigos textos desligados da observação. Daí resultaram inimizades vindas das facções mais conservadoras do Clero e até de alguns sábios que o contestavam. O Papa Paulo V entendeu que era tempo de lhe dar a famosa advertência.
O cardeal Roberto Bellarmino (1542-1621), figura importante da Igreja Católica, fora incumbido dessa missão impositiva. Galileu é recebido na casa de Bellarmino, que o adverte de várias questões essenciais: 1- diz-lhe que a afirmação de que o Sol é o centro imóvel do sistema do mundo é temerária, quase heresia; 2- aponta-lhe que a afirmação de que a Terra se move está teologicamente errada; 3- proíbe-o de falar do heliocentrismo como realidade física, mas autoriza-o a referir-se a este apenas como hipótese matemática.

Depois da advertência de 1616, Galileu conteve-se por algum tempo e procurou cumprir. Escreveu mais três livros, o segundo dos quais, o Diálogo Sobre os dois Principais Sistemas do Mundo (publicado em 1632), abonava a favor do heliocentrismo, constituindo desobediência. E o novo Papa (Urbano VIII) sentiu-se ridicularizado numa das personagens do livro. Daí resultaria, em 1633, a sua abjuração e condenação a prisão domiciliária para o resto da vida.

Galileu veio a falecer em 1642, dois anos depois da Restauração portuguesa que nos livrou da dinastia filipina. A sua obra marcou o despontar da ciência moderna e uma nova atitude perante o trabalho científico. E a sua vida foi um exemplo de persistência e dedicação. Por outro lado, ironicamente, Bellarmino (Belarmino) foi canonizado e declarado santo em 1930. Todos os anos, 17 de Setembro é o dia de São Roberto Belarmino, dia do seu falecimento.

Para saber mais, a vida de Galileu contada aos jovens encontra-se em: http://www.platanoeditora.pt/?q=C/BOOKSSHOW/2117

Texto de Guilherme de Almeida


Guilherme de Almeida (n. 1950) é licenciado em Física pela Faculdade de Ciências de Lisboa e foi professor desta disciplina, tendo incluído Astronomia na sua formação universitária. Proferiu mais de 90 de palestras sobre Astronomia, observações astronómicas e Física, publicou mais de 100 artigos e é formador certificado nestas matérias. É autor de oito livros sobre Astronomia, observações astronómicas e Física. Algumas das suas obras também estão publicadas em inglês, castelhano e catalão. Mais informação em http://www.wook.pt/authors/detail/id/5235

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

FRONTEIRAS DA CIÊNCIA EM COIMBRA


Comunicado de imprensa do Rómulo:

“Fronteiras da Ciência” é o novo ciclo de palestras destinadas ao público em geral que decorrerão no Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade, entre 25 de Fevereiro e 15 de Julho do corrente ano. Esta iniciativa do Rómulo - Centro Ciência Viva da Universidade está ser coordenada por António Piedade, Bioquímico e Comunicador de Ciência.

Com este ciclo, constituído por 11 palestras, pretende-se dar a conhecer aos cidadãos interessados o estado actual do conhecimento científico em diversas áreas da ciência como sejam a Física, a Química, a Biologia, a Matemática, a Astronomia, a Antropologia, a Genética e a Saúde Humana. É um convite a uma viagem pelas fronteiras do conhecimento científico. Os palestrantes, convidados pelo Rómulo - Centro Ciência Viva da Universidade, são cientistas reconhecidos nacional e internacionalmente pela excelência da sua investigação científica e são também excelentes comunicadores da sua ciência ao grande público. Ao longo do ciclo, serão apresentados, numa linguagem acessível a todos, os desafios com que se deparam os cientistas das diversas áreas atrás indicadas e destacados os contributos para o nosso dia-a-dia resultantes do avanço do conhecimento científico.

É indicado a seguir a data de cada uma das palestras, o título e nome do respectivo palestrante:

 25 de Fevereiro – “Biogeografia da Cor”, por Jorge Paiva, Biólogo, Investigador no Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra, galardoado com o Grande Prémio Ciência Viva 2014.

11 de Março – "Desafios da Química no século XXI”, por Paulo Ribeiro-Claro, Químico, Professor no Departamento de Química da Universidade de Aveiro.

 07 de Abril - “Determinismo e susceptibilidade: duas caras na fronteira da nova genética”, por Claudio E. Sunkel, Geneticista, Diretor do Instituto de Biologia Molecular e Celular (IBMC) e Vice-diretor do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S).

 21 de Abril – “Neuroestimulação: o bom, o mau e o desconhecido”, por Alexandre Castro Caldas, Neurocientista, Director do Instituto de Ciências da Saúde da Universidade Católica Portuguesa, foi até 2004 Professor Catedrático de Neurologia na Faculdade de Medicina de Lisboa e Director do Serviço de Neurologia do Hospital de Santa Maria em Lisboa.

 28 de Abril – "Onde estão hoje as fronteiras da Física? Da matéria e energia escura aos sistemas complexos", por Carlos Fiolhais, Físico, Professor Catedrático do Departamento de Física da Universidade de Coimbra e Director do Rómulo - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra

05 de Maio - "Um ESPRESSO para outros planetas", por Nuno Cardoso Santos, Astrónomo, investigador do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço e Professor da Universidade do Porto.

19 de Maio – "Apesar de tudo, a vida é feita de moléculas", por Miguel Castanho, Bioquímico, é Professor Catedrático de Bioquímica na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, desde 2007, e sub-diretor desde 2011. Coordena o Instituto de Medicina Molecular. É Vice-Presidente da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT).

02 de Junho – “Viajar com os ossos: da nossa história natural à resolução de casos criminais”, por Eugénia Cunha, Antropóloga, Professora Catedrática do Departamento de Ciências da Vida da Universidade de Coimbra e investigadora do Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra.

16 de Junho – "Matemática para o século XXI", por Jorge Buescu, Matemático, Professor Associado com Agregação na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e Vice-Presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática.

 01 de Julho – “Melhoramento Humano”, por Alexandre Quintanilha, Físico e Biólogo, Professor Catedrático Jubilado da Universidade do Porto, investigador do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S). Deputado na Assembleia da República onde preside à Comissão de Educação e Ciência.

15 de Julho – “Envelhecimento”, por Miguel Godinho Ferreira, Biólogo Celular e investigador principal e director do grupo de investigação Telómeros e Estabilidade Genómica no Instituto Gulbenkian de Ciência.

Todas as palestras terão início pelas 18h00, com acesso livre ao público.
Rómulo - Centro Ciência Viva da Universidade está situado no piso 0 do Departamento de Física da Universidade de Coimbra.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

FLORIR NO ESPAÇO ou SOBRE O MAU JORNALISMO À VOLTA DE UMA FLOR

Crónica primeiramente publicada na imprensa regional.





As plantas com flor, ou angiospérmicas, surgiram na história da vida no planeta Terra há pelo menos 130 milhões de anos e, depois delas, a relação entre animais e plantas mudou e intensificou-se. As plantas angiospérmicas mudaram os ecossistemas, a paisagem com as suas pétalas coloridas. Hoje, as plantas angiospérmicas englobam cerca de 230 mil espécies por toda a biosfera. A propósito, refira-se que a designação “angiospérmicas” deriva das palavras gregas "angios" para "urna", e "sperma" para "semente".

Mas já não só na Terra há plantas com flores! Na Estação Espacial Internacional já floriram plantas. Recorde-se, antes de mais, que a estação, um laboratório espacial concluído em 2011, "encontra-se em órbita baixa (entre 340 km e 353 km), o que possibilita que possa ser vista da Terra a olho nu, e viaja a uma velocidade média de 27 700 km/h, completando 15,77 órbitas por dia", conforme se pode ler aqui.

No passado dia 16 de Janeiro, o astronauta norte-americano Scott Kelly, comandante da actual missão da Estação Espacial Internacional, publicou na sua conta no Twitter a seguinte frase: “Primeira flor de sempre a crescer no espaço faz a sua estreia”. A flor é de uma zínia (Zinnia é um género botânico pertencente à família Asteraceae) e a notícia espalhada naquela rede social fez com que inúmeros meios de comunicação social internacionais divulgassem o acontecimento, tal como se tivesse sido a primeira vez que uma planta tivesse florido no espaço.

Mas o entusiasmo de Scott Kelly deturpou a história e os meios de comunicação social publicaram o florescimento sem terem feito uma simples investigação na internet para confirmarem a primazia afirmada pelo astronauta.

É que, em abono da verdade, não foi esta a primeira vez que uma planta cresceu e floriu no espaço, mesmo naquela Estação Espacial. E, entre nós, que eu tivesse dado conta, só o jornalista de ciência Nicolau Ferreira, do jornal Público, investigou e escreveu a verdade sobre esta questão (ver aqui).

De facto, há mais de 30 anos que várias missões espaciais conseguiram que diversas plantas florissem no espaço. Nicolau Ferreira consultou o site oficial do Guinness World Records e encontrou que “em 1982, a tripulação da estação espacial Saliut-7, pertencente à então União Soviética, cultivou a bordo algumas Arabidopsis. Durante o seu ciclo de vida de 40 dias, elas tornaram-se as primeiras plantas com flor a produzir sementes no espaço em gravidade zero”.

Acrescenta ainda o jornalista do Público que “na estação russa Mir, entre 1996 e 1997, cultivou-se trigo, obtendo-se flores e sementes” e que “o astronauta norte-americano Donald Pettit mostrava em 2012 fotografias de uma flor de girassol durante a sua missão” na Estação Espacial Internacional.

O cultivo de plantas com flor no espaço sempre teve o objectivo científico de, por um lado, compreender o comportamento e desenvolvimento das plantas no espaço em situações de micro-gravidade, o que, por outro lado, ajuda os cientistas a compreenderem também o papel que a gravidade terrestre tem no crescimento das plantas no nosso planeta. Para além deste interesse científico, a investigação do cultivo de plantas no espaço é importante pois permite desenvolver as condições propícias para a produção de alimentos vegetais frescos para alimentar os astronautas. Este aspecto é crucial se a humanidade empreender futuramente viagens espaciais durante longos períodos de tempo, como seria o caso da colonização de outros planetas no Universo.

Voltando às zínias, a sua escolha para a presente missão não foi ao acaso. Segundo a NASA, aprender a cultivar esta espécie de planta é uma aproximação para o passo seguinte que será o de se conseguir cultivar o tomateiro. Ambas as plantas possuem um período de crescimento semelhante e precisam de florir. O início do cultivo de tomateiros está previsto para 2017, segundo a NASA.

Este caso das zínias é mais um exemplo de como a generalidade (como em tudo há excepções) da comunicação social trata as notícias de ciência a partir de fontes supostamente credíveis: acriticamente, traduzindo, replicando e publicando sem mais investigações. É um mau serviço, não só à ciência, mas sobretudo ao jornalismo em si próprio.


António Piedade

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

People, we have a problem

Estão neste momento 6 mulheres fechadas num simulador de viagem à Lua, na Academia de Ciências da Rússia. Têm entre 24 e 35 anos, todas com experiência em investigação científica, desde Medicina a Biofísica. Foram escolhidas entre dezenas de voluntárias para testar a viagem que a Rússia pretende fazer à Lua em 2029, e assim estudarem a forma como uma equipa exclusivamente feminina lida com os constrangimentos técnicos, científicos e emocionais de uma missão de ida e volta ao nosso satélite natural.


Apesar da imprensa portuguesa ter ignorado olimpicamente esta experiência, os jornalistas do resto do mundo ficaram interessados na façanha. O Guardian lembra que os russos foram os primeiros a mandar uma mulher para o Espaço, e que esta equipa irá levar a cabo 30 experiências científicas nos 8 dias da missão simulada, sublinhando o interesse dos aspectos psicológicos de uma combinação ainda não testada. Já o Independent e o Daily Life, entre outros, fazem manchete não com a missão mas sim com as perguntas que os jornalistas fizeram durante a conferência de imprensa. Parece que mais interessante que a sua experiência científica, competências técnicas, ambições ou aspirações, é saber como é que as mulheres pensam conseguir sobreviver tanto tempo sem maquilhagem, estar com homens ou lavar o cabelo. Até o director do Instituto, Igor Ushakov, não resistiu a fazer uma piada desejando ausência de conflitos entre os membros da equipa "ainda que se saiba que é difícil a convivência entre duas donas de casa na mesma cozinha".  Não consta que tenham feito perguntas semelhantes ao grupo de 6 homens que fez uma simulação parecida em 2010, mas que durou 520 dias já que Marte é um bocadinho mais longe que a Lua. E é pena, seria interessante saber como pensavam eles manter a nave limpa e arrumada, organizar as refeições, sobreviver sem after shave ou se levavam alguma revista marota às escondidas na mochila.

No mês passado conheci Alice Bowman, Mission Operations Manager da Missão New Horizons da NASA, que nos deu a conhecer Plutão (e de caminho mais umas quantas coisas). Quando conversámos um bocadinho no fim da sua palestra quis saber se lhe perguntavam muitas vezes sobre ser mulher naquele trabalho. Respondeu-me que isso nunca foi uma questão para si, que fez o melhor trabalho possível em todas as equipas em que esteve e nunca ninguém sublinhou o facto dela ser mulher. Apenas quando começou a ter contacto com a imprensa no fim dos 9 anos que durou a missão se deu conta que o seu género podia ter interesse noticioso. Infelizmente estas 6 investigadoras não poderão dizer o mesmo.


"Somos bonitas mesmo sem maquilhagem", "vamos ali para trabalhar, não para estar a pensar em homens", foram algumas das respostas que as investigadoras se viram obrigadas a dar perante a insistência dos jornalistas. 

Portugal é um caso raro no panorama mundial, com 40% dos cientistas mulheres e a chegar aos 50% nas engenharias. Segundo o relatório She Figures, em toda a Europa as mulheres estão a ganhar terreno mas continuam a ser uma minoria dos trabalhadores da Ciência, em especial nos lugares de chefia e liderança. A União Europeia está preocupada com o assunto, e tem lançado programas para estimular a presença feminina na Ciência e a tentar captar os talentos de outra forma perdidos, numa discriminação positiva das mulheres. Às vezes sai o tiro pela culatra, como no video Science, it's a girl thing, que parecia defender que a Ciência tem de ser sexy, sem cabelos fora do sítio, com verniz impecável e maquilhagem ton sur ton adequada para poder interessar às raparigas que interessam. A mensagem deve ter chegado aos jornalistas que apareceram na conferência de imprensa da missão russa.

É trabalho dos comunicadores de ciência, como eu, dar cabo dos estereótipos que não correspondem à realidade. Sem perder a capacidade de apreciar uma boa piada quando a encontramos.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

DÊ UM NOME PORTUGUÊS A UM PLANETA

Texto primeiramente publicado na imprensa regional.

Imagem artística de um sistema exoplanetário. Crédito ESO.

A contemplação do céu nocturno incendeia a imaginação, fertiliza o pensamento. A miríade de estrelas faz cintilar ideias na coreografia neuronal que sustenta a nossa mente.

A observação contínua desse céu profundo permitiu verificar uma regularidade cíclica que aproximou as estrelas distantes ao quotidiano humano. Desde os alvores das primeiras civilizações humanas, há seguramente mais de quatro mil anos, as estrelas e grupos delas foram baptizadas com nomes que relembravam os mitos da criação, deuses, animais, situações que espelhavam no céu as actividades humanas.

Com o advento da ciência moderna, principalmente pela introdução e progressiva utilização de telescópios, cada vez mais potentes, para a descoberta do Cosmos, novas estrelas foram sendo descobertas onde antes só havia breu. E todas elas receberam uma designação para as distinguir no catálogo estrelar.

Na última década do século XX, a observação e estudo detalhado das estrelas permitiu descobrir planetas (ou melhor, exoplanetas) que as orbitam. Desde então, já foram descobertos cerca de dois mil exoplanetas.

Relembro que a confirmação da descoberta do primeiro planeta extra-solar a orbitar uma estrela da chamada sequência principal, ou do tipo solar, foi anunciada a 6 de Outubro de 1995 por Michel Mayor e Didier Queloz, da Universidade de Genebra. Para celebrar o 20.º aniversário dessa confirmação, a União Astronómica Internacional lançou pela primeira vez um concurso internacional, o NameExoWorlds, que permite uma participação cidadã na tarefa de dar nomes a estrelas e aos seus planetas. Através de uma votação pública, que decorre até às 23h59 do dia 31 de Outubro de 2015 (Hora de Portugal Continental), é possível participar na atribuição de novos nomes para 20 sistemas planetários. O sítio na internet onde a votação está a decorrer é o seguinte: http://nameexoworlds.iau.org/

Entre os sistemas planetários a concurso encontra-se o sistema mu Arae, no qual um dos exoplanetas foi descoberto por uma equipa internacional liderada pelo investigador Nuno Cardoso Santos, do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço (IA).

Como homenagem, o Planetário do Porto – Centro Ciência Viva submeteu nomes da cultura portuguesa para este concurso. Se for a candidatura mais votada, a estrela Mu Arae passará a chamar-se Lusitânia, e os seus planetas, Adamastor, Esperança, Caravela e Saudade.

Para Nuno Cardoso Santos, citado num comunicado do IA, “um sistema planetário com nomes lusitanos faria justiça ao trabalho nesta área desenvolvido em Portugal, que é reconhecido internacionalmente. Talvez mais importante, ajudaria a reforçar a perceção positiva sobre a qualidade e o impacto da ciência que se faz no nosso país, em particular na área das ciências do espaço."

José Afonso (IA e Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa), outro astrónomo português, comenta no mesmo comunicado do IA: “esta é uma oportunidade única de afirmar a cultura portuguesa para além do nosso planeta, batizando pela primeira vez, ‘em português’, um dos novos sistemas planetários - uma homenagem a um povo e a uma cultura que é ainda mais adequada quando consideramos a contribuição portuguesa para a descoberta e caracterização deste Sistema. E, quem sabe, talvez num futuro não muito distante os nossos descendentes assistam ao desembarque de colonizadores humanos nas ‘costas’ do planeta Esperança e se recordem da origem do seu nome”.

Situado a cerca de 50 anos-luz da Terra, o sistema planetário mu Arae tem quatro exoplanetas conhecidos, em órbita da estrela, visível a olho nu na constelação do Altar.

Pela parte que me toca, digo-vos que já votei na proposta portuguesa e apelo-vos que façam o mesmo. Para tal, basta ir a http://nameexoworlds.iau.org/systems/106), volto a relembrar, até às 23h59 do dia 31 de Outubro de 2015 (Hora de Portugal Continental) e ajudar a consagrar um sistema planetário com nomes da nossa cultura.

António Piedade

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

“COSMICOMIX: A DESCOBERTA DO BIG BANG”

Primeiramente publicado na imprensa regional portuguesa.




Há 50 anos, em 1965, os norte-americanos Arno Penzias e Robert Wilson descobriram a chamada radiação cósmica de fundo, uma radiação de micro-ondas, a luz mais antiga que conhecemos do cosmos, “luz fóssil” de quando o Universo tinha cerca de 380 000 anos. A efeméride desta descoberta é, entre outras, uma das que assinala o Ano Internacional da Luz que este ano se celebra.

E para assinalar e perceber melhor aquela descoberta, a editora Gradiva publicou, em Julho último, o livro de banda desenhada intitulado “Cosmicomix: a descoberta do Big Bang”. Nesta obra de banda desenhada os textos são da autoria do astrofísico Amedeo Balbi e os desenhos de Rossano Piccioni, ambos italianos. Publicada originalmente em 2013, a edição portuguesa tem tradução de Florbela Marques, revisão científica do Professor Carlos Fiolhais e teve o apoio da Sociedade Portuguesa de Física.

É uma edição que se saúda não só por ser muito oportuna neste Ano Internacional da Luz, que assinala na contracapa, mas por ser um bom exemplo de como a banda desenhada pode ser muito eficaz na divulgação científica.

Ao longo de 150 páginas o leitor revive a aventura das descobertas científicas ao longo da primeira metade do século XX que mudaram a compreensão da evolução do universo em que existimos. E as personagens são os cientistas que estiveram envolvidos nessa compreensão, através das suas teorias e observações experimentais. Meio século de interacção científica que leva a uma primeira confirmação da teoria do Big Bang, a mais bem sucedida que ainda temos actualmente para descrever a evolução do Universo desde há 13,8 mil milhões de anos.

O livro, que apresenta uma linguagem muito acessível sem perder o rigor científico, familiariza o leitor, por exemplo, com o físico Albert Einstein, o matemático Alexander Friedman, o astrónomo Edwin Hubble ou o físico George Gamow, assim com as teorias que produziram. Todas as personagens que surgem nesta banda desenhada são figuras de destaque da história da ciência que estiveram de alguma maneira envolvidas no esforço científico para compreender a origem e evolução do Universo. Os autores recorreram a documentação diversa para reconstituírem as cenas retratadas. E são reconstituídos vários momentos marcantes em que os cientistas se encontram, discutem as suas teorias e apresentam os resultados experimentais que as suportam ou que exigem novas teorias.

A evolução da narrativa neste livro permite, de uma forma agradável, que o leitor apreenda a história da evolução do conhecimento sobre o Universo ocorrida no século XX, até à descoberta da radiação cósmica de fundo pelos radioastrónomos Arno Penzias e Robert Wilson (galardoados em 1978, por isso, com o Prémio Nobel da Física). E permite que compreendamos bem a importância desta descoberta para confirmar a teoria do Big Bang primeiramente sugerida pelo padre e físico belga Georges Lemaître em 1927. Aliás, o livro reconstitui uma conversa entre Lemaître e Einstein em Bruxelas, em 1927, no qual o primeiro expõe a sua teoria do “átomo primordial” ao "pai" da teoria da relatividade.




É de sublinhar, nesta banda desenhada, o cuidado em explicar como a ciência se faz e evolui, e a importância da observação e resultados experimentais que confirmam, ou não, uma dada teoria.
O livro apresenta, no seu final, biografias breves de todos os cientistas envolvidos, que são úteis para despertar a curiosidade em saber mais sobre eles. Também são descritos, nas últimas páginas, alguns exemplos de como a banda desenhada foi feita. E, no epílogo constante nas últimas páginas o autor, Amedeo Balbi, descreve resumidamente os avanços e descobertas ocorridas desde a descoberta da radiação cósmica de fundo até aos dias de hoje, mostrando que ainda há muito para conhecer: “as perguntas não acabaram e continuamos à procura das respostas”.

É, em suma, um livro de que apresenta de uma forma muito acessível conceitos e teorias sobre a evolução do Universo e que se recomenda a todos.


António Piedade