domingo, 30 de junho de 2019

Maternidade de Coimbra


Corre por Coimbra uma polémica sobre a localização da nova maternidade, que mais não é do que mais um episódio da velha disputa entre a cidade e a universidade: há quem na cidade se queira afastar o mais possível da Universidade. O Doutor Carmona da Mora, cujo nome está associado ao Hospital Pediátrico, sabe do que fala, ao contrário de muitos outros.

Todos concordarão que Coimbra necessita de um pólo hospitalar universitário forte, de que a Faculdade de Medicina também muito beneficiará.
Os hospitais distritais têm cumprido a sua função pelo que Coimbra e a sua região não necessitam nem comportam dois hospitais centrais (terciários); o CHUC foi a solução.
Cada vez nascem menos crianças, daqui a lógica da fusão das duas maternidades de Coimbra, mas cada vez há mais gravidezes e, consequentemente, recém-nascidos de risco.
As maternidades têm excelentes obstetras, pediatras neonatalogistas e enfermeiras e boas UCI NN. Mas, por vezes, as grávidas e os RN necessitam e os obstetras e os neonatalogistas agradecem o apoio de colegas de variadas especialidades em casos especialmente graves ou complexos. Quanto mais próximos mais fácil esse parecer ou conferência; os RN com problemas cirúrgicos são cuidados no HP.
Assim, em Coimbra, faz todo o sentido localizar a futura maternidade tanto quanto possível próximo do HUC e de HP para atender bem quem mais necessita, a norma essencial dum SNS.
O ideal seria que estas três unidades estivessem ligadas de maneira que não necessitassem transporte auto – túneis ou pontes.
O congestionamento do trânsito na zona – um problema – seria resolvido pela construção da ligação à circular externa - umas centenas de metros - prevista desde o início da construção do actual HP. Os terrenos a E e N do HP não parece estarem utilizados.
Não faz sentido que o Hospital dos Covões seja uma réplica do HUC nem um seu anexo. Há que dar-lhe uma função que honre a sua história e beneficie a sua região numa área de cuidados diferenciados e em expansão de que é necessário provê-la – a geriartria, p.ex, para o que dispõe de implantação perfeita. Os Covões – que já foram Sanatório e Hospital Geral, seriam pioneiros nesses cuidados.
Mais, poderia partilhar as suas amplas instalações com um Centro de Saúde Universitário que serviria a população adjacente e a formação de alunos de Medicina e de Enfermagem da Faculdade de Medicina e da Escola Superior de Enfermagem. E de futuros Médicos de Família.
Este Centro de Saúde poderia utilizar recursos do Hospital dos Covões – imagiologia e laboratório.
Eventualmente, poderia abrir uma Consulta de Urgência e até um “Hospital de Dia” que a população vizinha muito apreciaria. Também a Colónia Portuguesa do Brasil, que financiara a construção dum Asilo-Escola para os órfãos da I Grande Guerra, mais tarde Hospital Sanatório, creio que também concordaria que o “seu” Asilo para Crianças Órfãs virasse Hospitel para Velhos Doentes.*
Também os Serviços Sociais poderiam instalar ali também um Lar de Terceira Idade, com apoio de cuidados de saúde em caso de necessidade.

  • A Infanta D. Sancha, as freiras do Convento de Stª Maria de Celas, o Prof. Bissaya Barreto e o Dr. Santos Bessa - a quem se deve a construção do antigo “Hospital Pediátrico de Celas” no que fora o Hospital Sanatório Feminino de Celas (1 Junho de 1932) para mulheres e crianças – o mais antigo sanatório de Coimbra – e, antes disso, o Asilo para Cegos e Aleijados e onde, muito antes, tinha sido o Dormitório Novo (Sec XVII) do Convento de Celas) e todos os que ali cuidaram tantas crianças doentes, não perdoam a negligência a que o edifício está votado.

   Coimbra, 28 de Junho de 2019
    H. Carmona da Mota

Livros de Junho da Gradiva


Informação recebida da Gradiva:

Neil deGrasse Tyson
Astrofísica para Jovens com Pressa


Dos fundamentos da física às grandes questões acerca da natureza do espaço e do tempo, Tyson revela os mistérios do cosmos, tornando acessível o complexo.

Com o seu fascínio contagiante pelo Universo, Tyson revela também aos jovens os princípios da investigação científica. Repleto de fotografias a cores e infografia.

«Fora de Colecção», 168 pp., €15,00
https://www.gradiva.pt/catalogo/46448/astrofisica-para-jovens-com-pressa


Umberto Eco
Seis Passeios nos Bosques da Ficção

Eco é companheiro e guia do leitor, explorando com ele os caminhos da forma e do método ficcionais. Recorre às técnicas do romancista, levando‑nos a participar na criação do texto e na investigação dos mecanismos fundamentais da ficção.
De que modo a narrativa nos incita a continuar, convence a perdermo‑nos nos seus meandros?
A variedade dos exemplos propostos é surpreendente e divertida. Recorrendo a contos de
 fadas, clássicos, policiais, pornografia, e à literatura moderna, Eco faz a análise do ritmo da narrativa — a aceleração e o abrandamento estratégicos — e da relação entre tempo real e tempo de ficção. Leva‑nos ainda na peugada dos Mosqueteiros de Dumas para mostrar o esbatimento das fronteiras entre história e História. Com este livro, aprendemos a ser melhores leitores — a interrogar os textos, mesmo quando, subtilmente, começam a dominar‑nos — e também melhores escritores — os «truques do ofício» são desvendados e explicados. Na companhia de Eco, o bosque escuro converte‑se num reino de curiosidade, descoberta e puro deleite.

«Fora de Colecção», 184 pp., €12,00
https://www.gradiva.pt/catalogo/46447/seis-passeios-nos-bosques-da-ficcao

Dean A. Haycock
Mentes Tirânicas - Perfis Psicológicos, Narcisismo e Ditadura
Como se gera um tirano? Como ganha domínio absoluto sobre países inteiros?
Nascer com traços brutais de personalidade, narcisismo, maquiavelismo, psicopatia, elementos de paranóia, ambição desmedida, predisposição para um comportamento anti‑social desenvolvido durante a infância, através de abusos físicos e/ou psicológicos, esse perfil explica o impulso para subjugar, torturar e assassinar. Num meio político e social propiciador...
O autor mostra como reconhecer um tirano e até impedir que as suas acções se manifestem. É doutorado em Neurobiologia pela Brown University.

«Trajectos», 400 pp., €22,00
https://www.gradiva.pt/catalogo/46445/mentes-tiranicas

Chantal MouffePor um Populismo de EsquerdaPrefácio de José Neves
«O povo não é agora uma simples vítima social da engrenagem económica de um capitalismo em crise [...]. Ele é um sujeito político.» — José Neves, Prefácio
Finalmente a extrema‑esquerda liberta‑se do mundo perdido e das categorias fósseis em que se encerrara, das profecias que condenavam a... perder sempre e a «matar(‑se)». Compreenda o que começa a chegar...
Filósofa política, a autora é a ideóloga do France Insoumise e do Podemos.
«Trajectos», 104 pp., €11,00 https://www.gradiva.pt/catalogo/46446/por-um-populismo-de-esquerda
Adeline Dieudonné
A Verdadeira Vida
PRÉMIO ROMANCE FNAC 2018 PRÉMIO RENAUDOT DOS ESTUDANTES 2018
Era uma casa igual às outras do quarteirão. Ou quase. A deles tinha quatro quartos: o seu, o do irmãozinho Gilles, o dos pais e o dos cadáveres. O pai é amante de caça grossa. A mãe é transparente, submissa aos humores do marido. Os sábados passam-se a brincar na sucata ali perto. Até que um dia se dá um acidente violento que faz tremer o presente.

Desde então, Gilles deixa de rir. Ela, com os seus dez anos, deseja anular tudo, voltar atrás. Apagar esta vida que lhe parece uma má versão da outra. A verdadeira. Então, em jeito de guerreira dos tempos modernos, arregaça as mangas e mergulha de cabeça, antes de todos os outros, na desordem da existência. Esquiva-se, passa entre os golpes e mantém a esperança insensata de que um dia tudo se recomporá.

Com uma escrita fulgurante a autora apresenta‑nos personagens rebeldes, inteiras, num universo ácido e sensual. 
O grande romance de Junho.

Francisco Neto de Carvalho
Do Estado Novo à Democracia

As relações entre Política e Religião num testemunho e análise do enquadramento histórico desde o Liberalismo ao Estado Novo, com a caracterização do corporativismo. A evolução da realidade portuguesa, dos anos cinquenta a noventa do século xx, através do relato de quem acompanhou diferentes regimes.

Prefácio de Guilherme d’Oliveira Martins.

«Fora de Colecção», 432 pp., €25,00 https://www.gradiva.pt/catalogo/46449/do-estado-novo-a-democracia
Se necessitar de mais alguma informação, não hesite em contactar-nos.
Helena Rafael
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(Ep. 66) "O primeiro Homem : a vida de Neil Armstrong"

FACILITISMO? NÃÃÃÃO... QUE IDEIA!




Artigo de Helena Carvalhão Buescu (na imagem) saído a 25 de Junho no Público, que me foi enviado pela autora:  

Veio a terreiro, nas passadas semanas, o Senhor Secretário de Estado da Educação, João Costa, num texto que por si mesmo descredibiliza e anula a argumentação que desejava “demonstrar”, defender expressamente a ausência de facilitismo no Ensino Básico e Secundário.

Que não, que não há facilitismo, pelo contrário. De algum modo, o facilitismo estaria apenas na cabeça de quem o denuncia. E, como na fábula do lobo e do cordeiro (que João Costa creio conhecer), não lhe interessa argumentar: basta afirmar. Porque, como sabemos, quando a afirmação é feita através de alguém que detém o poder, não resta ao público “desinformado”, se não mesmo “ignorante”, a impossibilidade de duvidar do que o poder afirma (sem provas, sem argumentar).

Vejamos agora o que as duas últimas semanas, semeadas de feriados nacionais e regionais, nos trouxeram, à socapa:

1)   A publicação de uma portaria (181/2019, de 11 de Junho – e repare-se na data) que permite às escolas aumentar, acima dos já existentes 25%, a chamada “flexibilidade curricular”. A justificação é paupérrima, e cito: “A experiência dos projetos-piloto de inovação pedagógica (PPIP) consolida o reconhecimento da capacidade das escolas na implementação de soluções inovadoras que permitem a eliminação do abandono e do insucesso escolar.” Onde está esse “reconhecimento consolidado”? Nas provas de aferição que ninguém conhece? Certamente não nos exames, que foram abolidos até aos 14 anos. Nos relatórios das escolas? Com que avaliação externa? Composta por quem? Funcionários do Ministério – que assim
seria  juiz em causa própria? Ou por ninguém? Onde está o “reconhecimento”? E a sua “consolidação”? Basta dizer uma coisa para ela ser verdade, Senhor Secretário de Estado? Tem de voltar a estudar Português e Filosofia: aparentemente já se esqueceu da diferença entre facto, opinião e argumentação. Facilitismo? Não, claro que não.

2)   A realização, nas passadas 2.ª e 3.ª feira, dos exames do Secundário de Filosofia e de Português. Tudo se passou sem problemas, aparentemente. Porquê? Porque, em nome da flexibilização curricular, o próprio Director do IAVE reconheceu que os conteúdos para a elaboração do exame foram “cortados”, de modo a compaginar os estudantes que não tinham tido flexibilização com os que a tinham tido. Repare-se nas inferências (também se ensinam no Ensino Básico): a) as escolas com flexibilização curricular ensinaram MENOS do que as outras; b) o alinhamento fez-se assim por baixo, passando a mensagem de que, em Portugal, e no sistema educativo, também “less is more”. Facilitismo? Não, claro que não.

3)   A divulgação, nos órgãos sociais, e em particular no jornal Público (ler em https://www.publico.pt/2019/06/19/sociedade/noticia/conselho-nacional-educacao-quer-professores-formacao-matematica-1876950), de que também neste mês (oh Junho das festas populares!)surgiu  uma recomendação para acabar com o exame de Matemática nos cursos para professores de 1.º Ciclo. Esta recomendação foi aprovada pelo Conselho Nacional de Educação, com o voto contra de vários dos seus membros mais qualificados e (repare-se), com o apoio de dos representantes no CNE da Associação de Professores de Matemática, da Sociedade Portuguesa de Educação Física e da Academia Portuguesa de História. Aqui, um conselho: não confundir, por favor, Associação de Professores de Matemática com Sociedade Portuguesa de Matemática. Ou seja, uma preocupação de qualificação em Matemática para os professores do 1.º Ciclo, que dela necessitam para serem competentes no ensino da Matemática, é revogada pela Educação Física e pela História – com a cumplicidade da APM, que todos conhecem como obreira da desqualificação da disciplina que deveria defender. A qualificação em Matemática, que tanto Maria de Lourdes Rodrigues como Nuno Crato consideraram, e bem, necessária a quem vai ensinar aos meninos os vários conteúdos do 1.º Ciclo, é revogada por esta recomendação.  Facilitismo? Não, claro que não.

Não espanta que os representantes dos pais na CNE tenham votado contra (mas quem são eles para ter uma opinião informada?) É que os pais compreendem que só sabe ensinar bem quem conhece bem aquilo que ensina. Pelos vistos, a CNE tem uma outra opinião. Lamentável, tudo isto.

Devia ter vergonha, Senhor Secretário de Estado, de fazer o que faz, de promover o que promove, de dizer o que diz. Facilitismo? Nããão. Que ideia! Qualificação verdadeira? Para quê, se o que está em causa é “apenas” o futuro das crianças e dos jovens? Ponham os professores de Educação Física a dar Matemática. Ficam (quase) todos mais contentes.

Helena Carvalhão Buescu

Professora Catedrática da Universidade de Lisboa

sábado, 29 de junho de 2019

Carta aberta de um professor aos governantes

O semanário Expresso publicou hoje a carta aberta que o director de uma escola portuguesa, professor, endereçou aos governantes. No imenso ruído que acompanha o "congelamento" e o "descongelamento" - palavras tão infelizes - da carreira docente, surgem estas breves palavras que vão ao mais profundo da profissão: à sua dignidade.
Exas.
Venho pela presente e para cumprir a minha não progressão na carreira, requerer que o tempo atribuído aos docentes - por terem sido alvo de quase 10 anos de congelamento da progressão, agora transformado em quase três - não me seja aplicado.
É que, aos quase 52 anos de idade e com quase 24 de serviço docente, me encontro no 3.º escalão com a possível progressão ao seguinte, em maio de 2021 (sem a aplicação dos tais quase três anos). Habituei-me à ideia e já estou conformado. Na minha casa, em conjunto com a família partilhei que, a bem ver, a austeridade já tinha vindo para ficar. A minha mulher, conhecendo-me bem, nem estranhou. Os filhos e filhas de que temos a graça de sermos pais irão compreender seguramente.
E eu, enquanto professor por opção e motivação – a mais bela profissão e atividade do mundo – não poderia deixar que uma mensagem errada passasse na construção das suas personalidades e carácter. Não critico os tantos colegas que procuram qual a melhor forma de não serem mais prejudicados, mas em boa verdade, se for atrás da multidão, pouco terei a ensinar aos miúdos. Nas nossas experiências e vivências, através do que decidimos e assumimos, é aí que deixamos o nosso testemunho de cidadania, de ética, de valores e de liberdade.
Das primeiras coisas que me atormentaram, se fosse atrás do “prato de lentilhas” que nos apresentam, foi o meu pensamento sobre os nossos avós, o que passaram e o que lutaram para que hoje eu possa redigir uma missiva desta natureza. Em particular, os meus dois bisavôs foram presos por lutarem contra o regime de antanho, o paterno esteve deportado em S. Tomé e Cabo Verde quase 13 anos. O outro, por ser dono de uma tipografia, várias vezes foi parar a Caxias. O meu avô paterno também era tipógrafo (genro do anterior) e o meu pai passou longos períodos sem o pai, que se “alojara” no Aljube.
Não ficaria bem comigo mesmo e, uma destas noites acordei com este mesmo assunto em intermitência. É/será o preço a pagar pela consciência que construí, à volta dos valores que os meus antepassados já defendiam. Tenho imensa pena pelo que a profissão docente se veio a transformar. E posso assegurar que a conheço bem.
Houve um momento de grande rebeldia, é certo, mas de grande construção coletiva, onde cresci enquanto aluno, pessoa e professor (um aprendiz sempre...).
Não poderei trair o que sou. É mais importante do que possa vir a ter.
Rui Madeira
Diretor da Escola Artística António Arroio

quinta-feira, 27 de junho de 2019

CONGLOMERADO, UMA PALAVRA VULGAR, COM IMPORTÂNCIA NO VOCABULÁRIO GEOLÓGICO


Conglomerado
Substantivo ou, como alguns gostam de dizer, sintagma nominal, a palavra conglomerado, construída a partir do adjectivo verbal do verbo conglomerar (do latim "conglomerare", com o significado de aglutinar, aglomerar, agregar ou juntar), em que o elemento aglutinador pode ser uma cola, um cimento, uma vontade expressa, um acordo ou outro, é uma expressão vulgar da língua portuguesa com um significado geral, o de elementos unidos numa massa ou corpo coeso, e múltiplos significados particulares, como, por exemplo, conglomerado de estrelas, conglomerado de madeira ou conglomerado de empresas.

No discurso geológico corrente entre profissionais, o vocábulo conglomerado, em sentido restrito, dito ou escrito isoladamente, refere uma rocha sedimentar coesa, resultante da aglutinação de calhaus arredondados ou rolados, em que o elemento aglutinante é um cimento natural, que tanto pode ser de natureza argilosa, como siliciosa, carbonatada ou ferruginosa.

Por convenção entre sedimentólogos e em termos de sistemática, na petrografia sedimentar, o termo conglomerado tem um sentido mais amplo, o de uma subclasse no conjunto das rochas sedimentares terrígenas, ditas conglomeráticas, caracterizadas pela dominância de fenoclastos (do grego phainós, visível, e klastós, quebrado), no sentido de fragmentos, clastos ou detritos rochosos ou minerais, maiores dos que os grãos de areia, ou seja, por convenção, de diâmetro superior a 2mm, independentemente do seu carácter coeso (consolidado) ou incoeso (mobilizável) e do grau de arredondamento dos ditos fenoclastos, variando, como se disse, entre muito bem arredondados e angulosos.

Para a rocha consolidada, de natureza sedimentar vulcânica, tectónica ou impactítica, em que os fenoclastos são angulosos, foi criado o vocábulo brecha, que fomos buscar ao francês brèche, radicado no verbo alemão brechen, que significa, fender, abrir brecha, partir. Assim sendo, este vocábulo tem sempre de ser complementado pelo termo que refiara a sua proveniência sedimentar, vulcânica, tectónica ou impactítica (do impacto de um meteorito). Em petrologia sedimentar, especificam-se assim: conglomerados, numa só palavra, e brechas sedimentares.


Em 1873, o geólogo alemão, Karl Friedrich Naumann (1797-1873), propôs, para esta subclasse, o termo Psefit, psefito, em português (do grego psephós, que significa calhau ou seixo rolado). Quarenta anos depois, em 1913, o americano Amadeus William Grabau (1870-1946) deu-lhe o nome de rudite, rudito, em português, (do latim rudus, alusivo a rude e rudimentar), termo que, de início, envolvia a ideia de material detrítico grosseiro, pouco trabalhado, tosco, isto é, calhau pouco ou nada boleado pelo transporte. Psefitos e ruditos, dois termos antigos que interessa manter vivos, não só como nome de uma subclasse, referente às citadas rochas conglomeráticas, mas também, em muitos casos, como nome dos próprios fenoclastos que, individualmente, as constituem.

Nesta óptica, o termo psefito ou o rudito, tanto podem ser usados para referir um conglomerado (no dito sentido restrito) ou uma brecha sedimentar, como um seixo bem rolado ou um qualquer clasto anguloso.
A. Galopim de Carvalho

ÚLTIMA CONFERÊNCIA: “Escola pública: instrução e projecto civilizador do Ocidente moderno”


ÚLTIMA CONFERÊNCIA

Realizou-se a quinta e última conferência do ciclo de cinco conferências com o título “O currículo escolar na contemporaneidade: Identificação e discussão de algumas das suas bases”, numa colaboração entre o Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX (CEIS20), a Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra e a Faculdade de Ciências da Educação da Universidade de Granada. 

Título: O currículo na era das tecnologias digitais. Paradoxo(s) e desafio(s) educativo(s) 

Conferencistas Carlota Boto (Professora da Faculdade de Ciências da Educação da Universidade de São Paulo) e Isabel Festas ((Professora da Faculdade Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra

Local: Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra - Anfiteatro do Edifício.

Resumo: Numa contemporaneidade em que se salienta como projecto educativo o investimento no futuro, mais precisamente, numa certa ideia futuro, urge interrogar a projecto civilizador do Ocidente e qual o seu sentido no presente e, também, para o futuro. Nesta conferência reflecte-se sobre actualidade da perspectiva pedagógica do projecto iluminista. Trata-se de um retorno às origens da perspectiva educacional do Ocidente moderno, aos escritos de Rousseau, Diderot e Voltaire para explicar como esse projecto já adiantava questões que hoje estão na ordem do dia, como as funções do Estado e a estrutura das políticas públicas. Sobretudo reactualiza-se a discussão sobre o carácter emancipatório dos processos educacionais. 

Programa
1. Projecto iluminista educacional do Ocidente moderno
2. As funções educativas do Estado e estrutura das suas políticas públicas para a escola
3. Carácter emancipatório dos processos educacionais afectos à escola pública
4. O papel do conhecimento no projecto emancipatório da escola

Referências bibliográficas- Boto, C. (1996). A escola do homem novo: entre o Iluminismo e a Revolução Francesa. São Paulo: Editora Unesp.
- Boto, C. (2005). A educação escolar como direito humano de três gerações: identidades e universalismos. Educação & Sociedade, vol. 26, nº 92, pp. 777-798.
- Boto, C. (2012). A escola primária como rito de passagem: ler, escrever, contar e se comportar. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra.
- Boto, C. (2017). Instrução pública e projeto civilizador. O século XVIII como intérprete da ciência, da infância e da escola. São Paulo: Editora Unesp.
- Damião, M. H & Festas, M. I. (2013) Necessidade e responsabilidade de ensinar. M. Formosinho, J. Boavida & M. H. Damião (Coord.). Educação, perspetivas e desafios (pp. 221-243). Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra.
- Festas, I. (2015). A aprendizagem contextualizada: análise dos seus fundamentos e práticas pedagógicas. Educação e Pesquisa, vol. 41, nº 3, pp. 713-728.
- Festas, I. (no prelo). Aprendizagem escolar e ensino. In F. Veiga (Ed.), Psicologia da Educação: Temas de Aprofundamento Científico para a Educação XXI. Lisboa: Climepsi.

quarta-feira, 26 de junho de 2019

RECORDANDO O PROF: RUY PINTO


PORTUGAL EM MACAU


Meu texto no último "As Artes entre as Letras" (na figura romagem dos alunos de Macau à gruta de camões no dia 10 de Junho):


O dia 10 de Junho sente-se de uma outra maneira quando se está em Macau, a região administrativa especial da China que durante séculos teve administração portuguesa. A bandeira portuguesa foi içada logo de manhã no Consulado Geral de Portugal em Macau e Hong Kong (onde também funciona o Instituto Português do oriente – IPOR) situado na Baixa macaense, na rua com o nome bem português de Pedro Nolasco da Silva, um professor, escritor e tradutor macaense que viveu na segunda metade do século XIX e início do século XX (foi provedor da Misericórdia e primeiro director da Escola Comercial, que ficou com o seu nome). A banda da polícia macaense, com uniformes não muito diferentes da antiga Polícia de Segurança Pública, interpretou a “Portuguesa.”
A seguir realizou-se  a romagem à designada “gruta de Camões” (perguntei se Camões tinha estado mesmo ali ou tudo não passava de uma lenda e percebi logo que não era pergunta que ali se pudesse fazer: claro que esteve para o meu interlocutor e não só esteve como escreveu parte dos “Lusíadas”). Situa-se no muito agradável jardim de Luís de Camões não muito longe do Consulado (aliás tudo em Macau é relativamente perto se não se atravessar o mar para ir às  duas ilhas, Taipa e Coloane), onde, ao que me disseram, os chineses vêm passear os passarinhos em gaiolas tal como nós passeamos os cães).  No interior de formações rochosas – não é bem uma gruta, mas sim três rochedos -  está um busto em bronze do poeta nacional, conforma a representação tradicional, que coroa um pedestal que tem inscritas as primeiras estrofes dos Lusíadas, conveniente traduzidas em chinês na face posterior. Lembrei-me do quadro “Camões na gruta de Macau”,  do pintor Francisco Metrass, expoente do romantismo português pertencente às colecções do Museu Nacional de Arte Contemporânea, que mostra o poeta pensativo,  com a pena na mão e o manuscrito do poema épico caído, acompanhado pelo seu escravo Jau. De acordo com uma tradição há muito instituída, as crianças das escolas luso-chinesas de Macau vão no dia 10 de Junho levar uma rosa a Camões. Foi essa tocante cerimónia que assisti este ano. Que outro país celebra o seu dia nacional na data de aniversário da morte de um poeta? Com as crianças e  jovens estava uma boa representação da comunidade portuguesa em Macau, ciosa das suas tradições lusas, mas com vidas perfeitamente integradas na realidade do território chinês.

Pormenores curiosos: no largo que dá acesso ao jardim, chamado Praça Luís de Camões, existe também um antigo solar que pertenceu a um rico comercial português e que foi depois sede local da Companhia das Índias Orientais (o que explica o pequeno cemitério protestante próximo) e que é, desde 1989, sede da Fundação Oriente. Surpreendeu-me aí um marco dos correios vermelhos à antiga portuguesa que estava em tão bom estado que fiquei com a ideia que ainda funciona. Não muito longe, ergue-se a Igreja de Santo António, uma das mais antigas da cidade e que foi o primeiro local onde os jesuítas se instalaram na cidade  (é célebre a fachada sobrevivente da grande igreja jesuíta, as ruínas de São Paulo, que não fica longe). Hoje essa parte do património histórico classificado pela UNESCO justifica o nome da freguesia de Santo António, que dá para o porto interior. Contaram-me que, sendo Santo António “capitão” foi exército português, antes da transferência de Macau para a China realizava-se no dia de Santo António, a 13 de Junho (muito próximo do dia de Camões) uma cerimónia em que o Presidente do Leal Senado de Macau dava o soldo ao santo, seguindo-se curta procissão desde a Igreja até à Praça de Camões.

Ao fim da tarde do dia 10 de Junho realizou-se na Residência Oficial do Cônsul. Português em Macau, que, nesta data é Paulo Cunha Alves. Uma recepção à comunidade portuguesa, pois o dia se chama de Camões, de Portugal e das Comunidades Portuguesas. A residência fica na Rua Comendador Kou Ho Neng, mais a sul, na freguesia de São Lourenço,  com estupendas vistas para o mar – vê-se do terraço a torre panorâmica, a longa ponte para a Taipa e, do outro lado, o cimo do Hotel Grande Lisboa muito perto do famoso Casino Lisboa, para lá do Lago Nam Van, que resultou de aterros.  Vê-se a nova Macau, que coexiste com a antiga. Quem foi Kou Ho Neng? Tendo vivido, como Nolasco da Silva, na passagem do século XIX para o XX, foi um empresário chinês, que ganhou concessões para a exploração do jogo em Macau, para o comércio de ópio (ainda hoje  há jogo, como toda a gente sabe, mas já não há ópio, pelo menos que se veja) e que foi dono de uma rede de lojas de penhores, com ligação óbvia ao jogo, e de uma empresa de navegação a vapor.
A Residência do Cônsul, de estilo neoclássico, construída cerca de 1870, já foi residência, hotel, sanatório e liceu (aí ensinou Camilo Pessanha, o poeta de Coimbra que aqui morreu). Está muito bem conservada, incluindo a calçada à portuguesa com uma fonte. Hoje, para além de residência oficial, é um centro de cultura, que exibe exposições de artistas chineses, que a comunidade ou outras pessoas podem visitar. Puviram-se no dia 10 de Junho passado, depois dos hinos chinês e português, os discursos do cônsul e do chefe de executivo de Macau, com um brinde final à amizade luso-chinesa. A comida era evidentemente portuguesa, isto é, arroz de pato em vez de pato à Pequim e vinhos do Douro e Alentejo em vez de vinho de arroz, não faltando no final os pasteis de nata, famosos em Macau, a acompanhar a bica. A bandeira portuguesa tremulava no mastro, enquanto Macau anoitecia e as feéricas luzes da trepidante cidade se acendiam.




UMA PEDRADA NO CHARCO!...

Outro post recebido de Guilherme Valente:


Hoje - depois das mutações  tecnológicas e societais  em curso e de  45 anos de “des-ensino”  da leitura, de cultivo da ignorância, de facilitismo nas escolas e iletrismo dominante nas universidades - o êxito de venda de um livro situa-se nos 2 000 exemplares! E entre os 10 000 títulos publicados num ano  não são  mais de 10% a atingir o...fantástico  record de 1 000 exemplares vendidos num ano!!! Bonito, não é? Muito fácil, portanto, prever o que virá. 

Entre esses raros sucessos destaca-se, na Gradiva, uma obra que estamos agora a reeditar depois de rapidamente (!) ter esgotado a primeira edição (com tiragem bem acima da média!): O Genocídio Ocultado, do antropólogo e historiador senegalês - bem negro! - Tydiane N´Diaye.

O que vem provar este livro? Vem mostrar, provar (o que na realidade se sabia mas vinha a ser crescentemente esquecido e ocultado): que a escravatura praticada pelos árabes e os muçulmanos - primeiro na Europa, sobretudo na de Leste, enquanto aí houve gente para caçar, e depois dizimando impérios inteiros na África,  em parceria com a escravatura autóctone - começou séculos antes (séc. VII) e foi quantitativamente maior do que a europeia Atlântica. E mais cruel,  se a crueldade tivesse graus. E  nunca foi abolida em muitos Estados do Médio Oriente e da África.  Onde ainda hoje continua!!!

A publicação deste livro e o seu “êxito” de venda parece ter acalmado os profissionais do “anti”- racismo (muçulmanos os principais, pressinto) que vinham martelando a ideia absolutamente... sei lá como a adjectivar? de que o racismo e o horror da prática da  escravatura  eram - imagine-se! -  uma característica... genética (!!!???) exclusiva do homem “branco”.

E martelavam essa ideia porquê? Destaco apenas uma razão:  para manterem no gueto, na miséria, na inferioridade, encerrada num passado de que quiseram fugir,  a gente negra, desgraçada, que chegou  a Portugal à procura de paz e de futuro. Para quê? Para servirem com essa “carne para canhão” os seus desígnios políticos sinistros  e, claro, manterem o emprego  e o estatuto invejáveis que têm. Tudo em aliança - com   o apoio e o estímulo - da nossa querida extrema-esquerda. 

EM SEGUNDA EDIÇÃO, 5 000 EXEMPLARES!


Peça nas livrarias ou no site da GRADIVA (Google Gradiva).

Guilherme Valente


PORQUE NÃO UMA ESTRELA NA TESTA DOS “JUDEUS“? E MEIA ESTRELA E MEIO GALO DE BARCELOS NA DE MUITOS PORTUGUESES COMO TALVEZ NÓS?

Artigo de opinião de Guilherme Valente que foi publicado pelo Observador e que recebi para publicação também neste blogue:

Carta aberta ao meu amigo Alexandre Homem Christo a propósito do seu artigo “Quando o Estado perpetua o racismo”.

Li entre o choque e a surpresa o artigo com este título publicado no Observador pelo meu amigo Alexandre Homem Christo.

O Censo é para saber onde nasceram os residentes em Portugal nacionais ou estrangeiros? Mas se fosse isso, que é comum e percebe-se porquê, não originaria divergência. Não é isso, portanto. O que se quer saber - perguntar, e a quem? - é a origem étnica de cada um de nós. O meu, o seu, o dos nossos filhos de netos, código genético! E que poderá responder cada um de nós, cada um deles? Eu, por exemplo, pela parte do meu pai descendente em linha directa de D. Duarte de Almeida, o herói da batalha de Toro, celta possivelmente, e judeu (o que é isso de ser judeu?) por parte da minha mãe. E o meu filho, de mãe chinesa de Macau, e os filhos da minha filha provavelmente de pai catalão, sei lá com que ascendência? O que registaria o INE no seu inquérito?

E para quê? Para enfrentar e acabar com o fascismo , responde o meu amigo AHC. Como? Eu diria que seria para o multiplicar.

Porque não uma estrela na testa dos judeus? Mas como identificar os judeus? Desenterrando um qualquer Mengele? E meia estrela com meio galo de Barcelos nos semi-judeus, seja em que grau for, como seremos quase todos, mesmo, porventura, alguns dos chineses humildes e laboriosos que vivem connosco? E uma... sei lá, tanga pintada na testa dos africanos e meia tanga e meio galo de Barcelos nos luso-africanos? E uma pinta na testa dos indianos e meia nos luso-indianos? E uma flor de lotus nos chineses e meia com meio galo de Barcelos nos lusos-chineses, até agora rarissimos pelas razões que sei ? E nos filhos e netos e bisnetos de toda essa gente que selo ou estigma lhes gravar na face e na alma? Sendo mais concreto, o quê, por exemplo no José Manuel Fernandes, em que me parece poder vislumbrar-se uma clara ascendência berbere? E nos filhos dele?

Que emblemas e estigmas para as “identidades” individuais inumeráveis e exponenciais que inapelavelmente geraremos todos nós, brancos e pretos, meio-brancos e meio pretos, caucasianos e semitas, mistura riquíssima crescente de tudo isso, seja lá o que isso for. Eu, branco - que estranho dizer-me assim de mim próprio -, louro e de olhos esverdeados, muito provavelmente com ascendência de algum selvagem Vikings, mas possivelmente mais parecido com um negro de S. Tomé se tivermos, por exemplo, um metabolismo do fígado idêntico, ou tivermos ambos nascido e crescido na minha Leiria do anos cinquenta, do que parecido com um filho de beirões como os meus pais mas que tenha nascido e crescido em Angola e com diabetes, que felizmente nem eu nem o meu suposto primo africano temos? Percebe? “Todos diferentes, todos iguais”... e agora o quê?

Depois do orgulho gay, o orgulho negro, e, portanto, o branco, e o de todas as outras cores. E porque não o orgulho rico e meio rico e pobre? E o orgulho dos filhos de elites, sejam lá elites do que for, politicas, académicas, médicas, cientistas, industriais, comerciais, bancárias? E o INE passar a perguntar e registar isso tudo.

Fui até à caricatura para se perceber a tolice. Mas o pior, claro, não é ser tolice. É ser crime, pelos dramas pessoais e a catástrofe social que desencadearia.

Numa Feira do Livro em que estive no stand da Gradiva com José Hermano Saraiva - que saudades desse Amigo admirável - ele desafiou-me para o exercício de identificar o mosaico caleidoscópio de diversidade de origem étnica dos portugueses que iam passando e conversando connosco.

Meu caro Alexandre: li o seu artigo chocado e surpreendido. Como é possível que nem mesmo alguém como o Alexandre veja a armadilha que querem armar? O delírio que também o Alexandre está a ajudar a promover.

A intenção do Alexandre é boa, não duvido, tal como achou ser bem intencionada a daqueles que discordam de si. Boa mas inadvertida, ingénua, a sua só pode ser isso. É que com essa sua posição está a dar importância e sentido ao que deve ser tratado e enfrentado como a pura ideologice que é. Está a dar “corda” ao que devia saber a que conduziria, perceber-lhe as consequências devastadoras, pessoais e sociais.

O delírio das identidades (mais criminoso ainda num país como o nosso), a invenção dessa tolice, seria criar um problema, a probabilidade de um drama para os cidadãos pessoal, educativa e socialmente mais frágeis. E sem qualquer sentido que justifique esse risco. Ora repare, e uso o seu caso para mais um dos inumeráveis exercícios possíveis na nossa sociedade, abençoadamente geneticamente riquíssima, repito: em que etnia o inscrever a si? É que lhe vislumbro (na foto no Observador bem percepíveis) traços de uma ascendência africana, presente, aliás, no stock genético dos Portugueses ao Sul do Tejo numa percentagem de 72% (dados do último estudo). Por curiosidade, 32% nos Portugueses ao Norte do Tejo.

E se for assim, diga-me em que categoria étnica se colocaria, o colocariam. Que selo lhe colocariam na testa? Português/berbere, com ascendência recente? E os seus filhos? Nos netos e bisnetos de toda a diversidade crescente presente na nossa população, o que colacará o INE na ficha deles, que selo e estigma lhes gravará na testa? Como é possível defender tal aberração, meu caro Alexandre? Que sentimentos induziria nos inúmeros cidadãos sem uma formação educativa suficiente e convicções intelectuais sedimentadas, nos que não são as elites, a que tivémos oportunidade ambos pertencer de algum modo? Explique-nos lá como se combateria com isso o racismo! Bem pelo contrário multiplicava-se.

Choca-me que o Alexandre não veja que com isso se está a alimentar os sos racismos e o extremismo político, à esquerda e à direita. Extremismos E “anti”- racistas que sacrificam aos seus desígnios políticos de emprego e estratego a gente fragilizada que procurou pa

No que é preciso insistir é no facto de haver discriminações, insistir na necessidade do combate comum do Estado e da sociedade para as ir erradicando. Mas a mais significativa e nefasta nem é da “raça”. Esta, aliás, sempre ligada à pobreza, confundida com esta. O problema real são essas discriminações, pessoal e nacionalmente “despedaçantes” . Discriminações nepóticas, de família, compadrio político ou de interesses.

Combatamos por uma sociedade meritocrática. Pela educação, pela LIBERAL igualdade de oportunidades, por um ensino público de qualidade, pela avaliação a todos os níveis, pela justiça. Não é esse o combate que temos travado ou querido travar?

A tal “política de identidade”, que o seu artigo objectivamente alimenta, multiplicação exponencial de racismos, conduziria se o delírio não parásse - e acho que parará por extinção natural - A uma regressão civilizacional, a uma espécie de mundo “mad max”... que parece anunciar-se.

Pense nos meus argumentos, meu Amigo. É epifânicio mudarmos de opinião!

* Já agora, gostava de saber de onde é originária a sua família. Se tiver curiosidade em conhecer a origem dos componentes presentes no seu stock genético, diga-me. Falarei ao meu Amigo Carlos Fiolhais que o ajudará nisso.

Abraço do amigo e admirador,
Guilherme Valente

terça-feira, 25 de junho de 2019

MINHA ENTREVISTA A CARLOS PICASSINOS NA RÁDIO MACAU


https://port.tdm.com.mo/c_radio/play_audio.php?ref=12112

"Os professores, hoje, estão muito maltratados"

De muito interesse a entrevista de Marta F. Reis ao Professor Galopim de Carvalho, publicada no Jornal I no passado dia 23 com o título “A escola está a amestrar crianças para passarem nos exames". Eis um extracto:
"Sente que a escola melhorou?
Melhorou em muitos aspetos. Tenho ido a muitas escolas, todas as semanas vou, do Minho ao Algarve (...). Hoje, nas escolas, domina a professora: 80% são mulheres. E os homens estão imbuídos naquele espírito. Há afeto, há família. Mas os professores, hoje, estão muito maltratados. Tiraram-lhes o prestígio, a dignidade, atentou-se contra a disciplina com uma liberdade excessiva nas escolas. Confundiu-se liberdade com um liberalismo, fez-se da disciplina fascista, e em 45 anos não melhorámos. Melhorámos muito nas estatísticas do ensino. Democratizámos o ensino, todas as crianças vão à escola, tiram o 12.o ano. Mas, no meio disto tudo, os programas são maus e os livros também."

ESPECIALIZAÇÃO PRECOCE NO DESPORTO: QUANTOS MAIS MELHOR?

Texto recebido do leitor Fernando Tenreiro, publicado no site de A Bola "Espaço Universidade" no dia 18 deste mês. 

O Modelo de Desporto Português está falido! Sem a sua reforma, as selfies não produzirão medalhas olímpicas e esconderão a destruição de valor desportivo e juvenil!

Em Portugal a prática desportiva dos jovens é um território mal-amado como demonstram os resultados nacionais que situam o país nos últimos lugares europeus. Enquanto os países europeus da dimensão de Portugal conseguem que 7 a 10 dos seus jovens ganhem medalhas em cada sessão dos Jogos Olímpicos, ultimamente Portugal apenas consegue que 1 dos seus jovens seja medalhado. Avaliando o desempenho de Portugal pelo dos outros países, nos mais de 100 anos de história olímpica, houve centenas de jovens portugueses que não viram o seu potencial desportivo concretizado enquanto todos os outros países ofereceram a centenas dos seus jovens as condições para conquistarem medalhas olímpicas.

As muitas respostas erradas os líderes desportivos afirmam “saber” que Portugal não ganha mais medalhas olímpicas porque é um país pequeno, porque os portugueses não têm os genes ou a cultura correctos e outras respostas desleais relacionadas com a não existência de talento juvenil.

As estatísticas da prática desportiva sugerem que o Modelo de Desporto Português tem limitações graves e não cria valor desportivo equivalente a outros países europeus. Outra resposta plausível é que mesmo que seja descoberto um talento desportivo, as condições da produção desportiva dos clubes, das associações e das federações são muito difíceis e quando desacompanhadas de boas políticas públicas, como acontece há décadas, as organizações desportivas, clubes, associações e federações, arriscam destruir o valor desportivo dos jovens talentos.

Trago o exemplo de jovens atletas que praticam modalidades que integram o programa dos Jogos Olímpicos de verão que não identificarei, nem os atletas.

Chamemos Abel ao primeiro jovem praticante desportivo por ter sido um campeão nos escalões etários e nas especialidades da actividade desportiva em que competiu. Abel teve muitas lesões, que se seguiram umas às outras, perdeu oportunidades de evoluir desportivamente mais depressa e, apesar desse historial, foi ganhando os jogos e as competições que havia para ganhar. Numa das últimas lesões enquanto atleta disse ao treinador do clube que tinha dificuldade em treinar porque ainda não se tinha curado. O treinador disse-lhe: “tu gostas é de estar lesionado!”. Este comportamento do treinador entre outras situações, que o Abel “já esqueceu”, levaram-no a recear o treinador do clube. No clube, Abel sempre teve um treinador, não tinha outras especialidades para o nível de competição que foi alcançando e não lidava com especialidades médicas acontecendo-lhe e a outros colegas terem de treinar e competirem recorrentemente sem curarem a lesão anterior. A estrutura técnica da federação, o diretor técnico nacional, com quem o atleta também contactou apoiou o comportamento do treinador do clube. Abel quis afastar-se do treinador que receava e falhou propositadamente uma competição. Nem a estrutura dirigente ou técnica do clube, nem os responsáveis ou técnicos do alto rendimento da federação dialogaram simultaneamente com o atleta e o treinador do clube, assumindo a perda desportiva do atleta. Muito menos o lado humano do Abel.

O Abel não está sozinho. Outro atleta e outra modalidade, o Inácio, só à terceira costela fraturada, os médicos decidiram fazer a prescrição da osteodensitometria confirmando-se os graves problemas de osteoporose. Hoje o atleta continua a praticar desporto de alto nível sozinho, pagando do seu bolso a sua preparação e a medicação adequada à sua condição clínica. As fraturas de stress são comuns em demasiados atletas, chamemos-lhes os Zorros, para percorrer as letras do abecedário de A a Z, quer devido aos erros dos treinos promovendo atividades que contrariam as capacidades físicas do atleta, que deveria ser preservado, quer pelas carências de especialistas que são exigidas no treino de alto rendimento desportivo e que Portugal não oferece o nível de excelência médica que é exigido aos atletas cumprir desportivamente.

A existência de treino e competição na condição de lesionado também é referida por especialistas em seguros indicando haver modalidades desportivas onde a integridade dos jovens era falseada e a criarem problemas para toda a sua vida ao terem lesões mal curadas e consecutivas até à destruição dos tecidos, do atleta e das suas legítimas aspirações desportivas.

A complexidade do crescimento músculo-esquelético estará a ser desconsiderada ao nível dos clubes, das associações e das federações a quem falta capacidade de responder ao nível das exigências do alto rendimento desportivo moderno, cujo principal obstáculo radica na ignorância da política pública desportiva alicerçada quer na jurisdicionalização abstrata do acto desportivo, quer na austeridade bruta e ignorante da criação e preservação de valor humano desportivo.
Falando com treinadores das modalidades encontram-se situações em que a nova direcção da federação ao chegar despediu a equipa técnica anterior e nomeou outra jovem e imberbe ou outra velha e relha cheia de vícios e truques e de resultados habitualmente baixos ou nulos. Estes treinadores referem que nos contactos internacionais que tiveram, observaram que as equipas técnicas preservam-se, investindo e acumulando saber e experiência.

Noutra dimensão internacional as equipas de treinadores são plurais e acompanham ao pormenor o treino dos atletas verificando o impacto dos treinos e competições na fisiologia do atleta para aquilatar se a carga foi demasiada, o que a acontecer levaria à fadiga dos corpos e a lesões pela continuação de esforços excessivos do treino e da competição. O mesmo se passa com determinados exercícios que se sabem exigir demasiado e que essas equipas internacionais acompanham todo o seu desenrolar e aos respectivos resultados na preservação do atleta, sempre na procura de resultados superiores.

O desporto português fala há décadas da importância da descoberta de talentos, do seu desenvolvimento e não tem processos complexos de avaliação dos resultados. Os resultados que as estatísticas do desporto evidenciam são que, se porventura existe sucesso na descoberta e no desenvolvimento dos jovens talentos, também se verificam fracassos que inviabilizam essa descoberta de talentos e que o desenvolvimento ao longo dos anos de prática desportiva oferecida pelo Modelo de Desporto Português acaba por anular os propósitos iniciais da sua descoberta, por benévolos que tenham sido. As estatísticas desportivas são claras no domínio dos resultados.

Há modalidades desportivas como a natação, o ténis e o basquetebol, por exemplo, que possuem uma aura de excelência devido ao sucesso europeu e americano e cujos atletas e equipas nacionais nunca se afirmaram nas competições internacionais sustentadamente apesar do significativo financiamento público realizado. Há casos como o Hipismo que foi a primeira modalidade a ganhar 3 medalhas olímpicas para Portugal há 100 anos e que nunca igualou esses resultados e existe a Vela, de um país que se diz de marinheiros, que tem uma situação semelhante. Há uma responsabilidade federada que é incapaz de atender aos limites da produção dos clubes na base e que os governos não têm a capacidade de precaverem e melhorarem.

Outra dimensão relacionada com os talentos é o negócio da prática desportiva das crianças e dos jovens que se deixa como exemplo de destruição de capital desportivo por valorização do negócio imediato de vários agentes e parceiros que a estrutura clubística e a federada não têm capacidade de combater e o Estado português olimpicamente ignora.

Hoje o Abel não compete, tem dores de roturas e excessos passados e sentimentos de culpa do receio que teve do treinador e do desinteresse do clube e da federação desportiva. O ‘receio humano’ que se apreende de António Damásio ao Expresso desta semana. Abel de vez em quando pratica a sua atividade de eleição e os receios repovoam-lhe o espírito, sem remorsos e certo de ter sido coerente. Permanece-lhe o amargo de resultados e marcas que lhe fugiram apesar do seu empenhamento, mesmo naqueles momentos que lhe exigiam o que agora ele tem a consciência plena que eram os erros do treinador do clube e da estrutura federada que não preservaram e potenciaram as suas capacidades e o capital humano desportivo que acumulou.

O Abel fez-se um jovem adulto de sorriso fácil, dedicado, individual e socialmente responsável, focado no seu trabalho, afectuoso e capaz de surpreender positivamente, mesmo quando as situações do seu trabalho lhe são adversas e ele contraria-as com inteligência, como o desporto lhe ensinou.

Neste artigo procurei demonstrar que muito há que fazer em toda a estrutura de produção do Modelo de Desporto Português, para além do discurso obcecado sobre os talentos e a sua especialização precoce.

segunda-feira, 24 de junho de 2019

A falta de cultura científica paga imposto - À venda em farmácias

Video completo do debate com o tema "À venda em farmácias", integrado no ciclo A falta de cultura científica paga imposto!", realizado no Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa. Com a participação de Armando Brito de Sá, Susana Santos, Ribeiro, Alexandrina Ferreira Mendes e João Monteiro. Moderação de David Marçal.

2019 - Ciclo de debates: A falta de cultura científica paga imposto | À venda em farmácias from Pavilhão do Conhecimento on Vimeo.

Remédios homeopáticos, complexos de vitaminas e outras coisas que desconfiamos que talvez nos façam bem. A credibilidade acrescida de que goza um produto à venda em farmácias é justificada? Que critérios têm as farmácias para a sua oferta sem receita médica?

domingo, 23 de junho de 2019

O Conceito de “Raça” Existe? Uma Breve Síntese à Luz da Ciência.


De quando em vez retoma a discussão na sociedade se a espécie humana se divide em raças.  Contudo, desde há décadas que é consensual dentro da comunidade científica, com base do que se conhece de biologia e de genética, que não faz sentido falar-se em raças. Assim se vê que este é um daqueles temas em que o consenso científico ainda não passou para o senso comum da sociedade. Nesta perspectiva, é pertinente a reflexão trazida pelo Miguel Mealha Estrada sobre este tema, que aqui se reproduz. 

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Texto de Miguel Mealha Estrada:

Num mar de desinformação científica, o qual inclui a genética, assistimos cada vez mais à proliferação da iliteracia científica, muita com intuitos nefastos e com o propósito de consolidar o populismo que cimenta as políticas extremistas, alimentando os mais vulneráveis com respostas falsas, não científicas e exponencialmente perigosas.
Historicamente, houve episódios em que a ciência foi abusada, deturpada e encomendada à medida da ideologia vigente na altura ou da crença preferencial. Relembremo-nos que no século XIX foi cunhado o termo Eugenia para designar um conjunto de ideias que ganhava cada vez mais apoios. A ideia subjacente era de uma ciência que servisse a humanidade ao retirar do pool genético “raças inferiores”, indivíduos imorais e com patologias do foro mental e genético.
E a história não para aqui. Ainda mais recentemente, durante o século XX tivemos cientistas na Alemanha Nazi que escreveram acerca de “raças” para o benefício da sua crença, nos EUA vários ideólogos apoiavam-se na ciência para manter a segregação, a escravidão, o colonialismo, e escreviam contra misturas entre etnias e contra a imigração. Tudo isto com o apoio na palavra “raça”.

Mas, ideologias à parte, vamos dar uma olhada à realidade e ver o que nos informa a ciência. Como irão ver, o assunto é extremamente complexo:

Se olharmos para a história da taxonomia e da sua relação com o conceito de ‘raça’, entramos num oceano de disparidades pseudocientíficas (embora tenhamos em conta o rudimentar conhecimento científico de outros tempos, e por tal temos de dar um desconto). Já no período da ciência europeia moderna, o botânico e médico iluminista Carl Linnaeus, mais conhecido por Lineu, viria a adquirir reconhecimento pelas suas intervenções a nível económico, social e científico. Mas foi na área da taxonomia (classificação das espécies com base nas suas características) que ficou globalmente conhecido: não só reuniu as espécies em grupos (filos e famílias) com base em características semelhantes, como criou uma nomenclatura binominal em latim para designar as espécies, permitindo que os naturalistas de qualquer nacionalidade compreendessem numa só língua qual a espécie que estava a ser designada. Lineu delineou que reconhecia as diferentes espécies não por raça, mas muito importante, e no que toca à ciência, por área geográfica: americanos, europeus, africanos e asiáticos.
Contudo, este método de Linnaeus, embora geograficamente correto, apresenta o erro fatal de apresentar em termos taxonómicos uma homogeneidade que simplesmente não existe por mera geografia. No entanto, no trabalho de Lineu havia uma sensação de que a mulher estava a um nível abaixo do homem, herança de uma visão Aristotélica na qual se baseava.
Contudo ainda nos dias de hoje temos cientistas que abusam e deturpam a ciência perante as suas convicções ideológicas e políticas. Existem cientistas que são aliados à extrema-direita, deturpando a ciência à medida da sua crença. Mas talvez o pior, sejam os cientistas bem-intencionados (felizmente cada vez menos), que continuam a usar uma terminologia taxonómica que sugere o conceito de ‘raças’, pelo único propósito de se referirem a um grupo, confundindo ainda mais a ciência.
Por exemplo, na China ensinam às crianças que os Chineses provêm de uma ‘raça’ diferente, diretamente da linhagem do Homo erectus. Tal é a necessidade de um povo em sentir-se diferenciado, superior, o seu narcisismo fantasioso.
Faz-me lembrar um debate na BBC com o então Nick Griffin líder do BNP (British National Party), em que disse ao então secretário do Ministério da Justiça, Jack Straw, que defendia que Inglaterra deveria ser constituída pelo povo indígena que lá habitava desde a idade do gelo. Quando confrontado com a curadora do museu de História Natural em que lhe disse “mas não habitava cá ninguém na idade do gelo”, Griffin num ápice mudou a retórica. Disse “perdão, quando o gelo derreteu”. Parece uma anedota? Mas não é. Existem pessoas que acreditam nesta alucinação e ainda votam nele.

Mas afinal o conceito de raça existe?

A realidade é que é absolutamente inútil tentar dividir a nossa espécie Homo Sapiens em termos de raça. Tem sido demonstrado cada vez mais que subdividir a nossa espécie Homo sapiens em diferentes unidades raciais, numa análise objetivamente cientifica, é uma tarefa falaciosa e completamente inútil.

Mas porquê?

Bom, aqui entra a complexidade da coisa.
A biologia molecular comparativa continua o seu estudo em foco geográfico para determinar diferenças entre populações, e não fazer algum atentado à taxonomia de ‘raça’. Isto é ciência.
Sem dúvida nenhuma que ainda existe debate dentro da ciência não só em relação às diferentes possibilidades de taxonomias entre populações como também nos métodos científicos para atingir consenso. Isto é saudável, pois existe a necessidade, para compreender e estudar os nossos ecossistemas e biodiversidade, de uma linguagem que denomine um certo tipo de conhecimento.
 Contudo, o os cientistas reconhecem que tais métodos não são aplicáveis para a classificação de variantes dentro das próprias espécies, que são as unidades fundamentais de análise quando examinamos e estudamos a estrutura da vida.

O Homo sapiens é o recém-chegado da nossa linhagem evolutiva. Em termos evolutivos, fisicamente as variações na nossa espécie são na realidade uma minoria em relação à totalidade do genoma, e só podem ser compreendidas através do prisma do nosso processo evolutivo num contexto geográfico.
A variação entre espécies é extremamente crucial para a sobrevivência e adaptação da nossa espécie. Relembremo-nos que a evolução não se foca de maneira nenhuma com uma finalidade de atingir uma perfeição, e nem sempre se conforma ao fenómeno de adaptação para evoluir como se pensava. Já Charles Darwin sublinhava que o essencial à evolução é o conceito de variação. E porque é a variação numa espécie essencial à sobrevivência e evolução da mesma? Simplesmente porque a variação consegue oferecer a melhor solução a algum problema evolutivo. Se há um problema evolutivo, por exemplo, a nível de doença, se não existisse variação que pudesse oferecer a melhor resposta a esse problema, o problema ficaria com as ferramentas genéticas que existissem, muito provavelmente guiando-nos à extinção.

Vamos agora dar uma breve olhada em algumas problemáticas na replicação do ADN, pois é essencial compreender este aspeto. É precisamente este aspeto de replicação que é extremamente importante em como atua o conceito de variação entre espécies e se elimina cientificamente do vocabulário o termo de ‘raça’.
O ADN é a peça central à reprodução de organismos, o que também nos elucida em relação à grande diversidade em que a vida no planeta evoluiu. Contudo a nota preliminar e importante é termos a noção que a replicação do ADN não é sempre exata. Na realidade alguns defeitos e erros podem ocorrer e até com alguma frequência. Estes defeitos e erros têm a denominação de mutações.  

Vários fatores podem gerar este fenómeno. Vamos ver o exemplo de Seleção Natural: a seleção natural irá dar atenção a uma nova variação, ou mutação, em 3 sentidos diferentes. Pode ver a mutação como benéfica, em que então irá ficar em favor (e propagar) essa mesma nova mutação, pode ver essa mesma mutação como patogénica, e pelos seus mecanismos eliminar essa mesma mutação da população, ou poderá considerar essa mutação como neutra, à qual não lhe dará importância.

Aqui entramos na área complicada da taxonomia, quando se aborda a temática de ‘raça’. Qualquer subdivisão de uma espécie em subespécies não é geneticamente e em termos taxonómicos suficiente, pois não existe a possibilidade de objetiva e cientificamente determinar a identificação da diferenciação de subespécies a nível de mutação. Neste prisma o processo de reprodução não tem implicação, ou qualquer outro critério, pois não passa de semântica subjetiva.
Na realidade, as pequenas diferenças que se notam no Homo Sapiens são fatores adaptativos à área geográfica onde habitam, que influencia a cor dos olhos, pigmentação da pele, suscetibilidade a certas doenças, altura entre outros poucos fatores. Mas tais fatores na realidade não têm praticamente relevância estatística para sequer poder usar o termo ‘raça’ pela seguinte razão: todas essas variações amontam a 0, 1% do genoma comum humano: sim, independentemente das diferenças mencionadas, o nosso código genético é 99,9% comum ao Homo sapiens.    
Podemos então concluir que usar o termo ‘subespécies’ servirá apenas se for de alguma forma útil em termos de referência específica a um taxonomista.
De resto, como seres humanos, temos a intrínseca necessidade de classificar o que nos rodeia, muito provavelmente no inicio da linguagem há uns 100,000 anos atrás. Por tal, a taxonomia tem as suas origens já desde o inicio da linguagem.

O egocentrismo humano como espécie superior

É interessante termos a noção de como, ao longo da história da ciência, os cientistas deram como adquirido que eramos os seres superiores do planeta: o ato divino de Deus na sua criação mas, como já vimos anteriormente, só para alguns.
Por um fator de curiosidade vamos dar uma olhada à mais famosa árvore filogenética feita por Ernst Haeckel denominada “Pedigree of Man”:


 Baseado no trabalho de Ernst Haeckel, The evolution of man (1896). 


Contudo existem erros cruciais nesta filogenia. Apenas o conceito de uma árvore, pequena com ramificações é um erro. De uma forma mais científica, teríamos de ter uma floresta filogenética (outros cientistas preferem a imagem do arbusto) cheia de ramificações, sem um tronco central ou pilar de referência. Para tal teríamos de recuar milhões de anos.
Mas aqui fica como a ciência via a estrutura da vida, onde o homem era o ser superior, numa visão enquadrada no contexto do seu tempo.

Em termos comparativos, ficamos aqui com uma representação filogenética viável e científica da “árvore da vida”, como a compreendemos no presente. Agora vejam bem, na imagem seguinte, a diferença entre o avanço da ciência e a antiga ciência evangelista, em que predomina o homem branco:

Créditos: Visual.ly


Erros Antropológicos na Noção de Divergência Humana

Imaginemos este cenário: estão na baixa de Lisboa e observam vários turistas a passar, com feições distintas. Conseguem adivinhar com certeza de onde vêm? A que continente pertencem? As chances de ficarem incrédulos o quão errados podem estar é altíssima.
Isto quer dizer que a nível morfológico é extremamente difícil, senão impossível detetar a etnia de um esqueleto ou por partes ósseas. O método mais viável de revelar uma etnia é o crânio, devido a fatores típicos de populações, tais como cavidade nasal, perímetro cranial, etc.
Contudo, a ciência não é exata. Vamos ver o exemplo do “Kennewick Man”. O esqueleto do Kennewick Man tem cerca de 9000 anos, e foi encontrado no estado de Washington, EUA em 1996. A análise do esqueleto foi interessante: quando os peritos forenses estudaram o esqueleto, notaram traços Caucasianos no mesmo e nenhuma característica nativa americana. Tendo em conta a idade do esqueleto é no mínimo muito estranho devido à disparidade geográfica das populações de então. Para acentuar o mistério, na zona do pélvis estava feita uma acentuação com uma ponta típica dos Pale indianos exatamente nesse período. Após uma reconstrução feita por especialistas em modelo real, usando a tecnologia mais avançada, qual é o espanto em que na realidade o Kennewick Man se parecia com o ator Britânico Patrick Stewart, mais conhecido pelo seu papel como Capitão da nave USS Enterprise.
Após uns anos, o mistério adensou-se quando com nova tecnologia, os peritos forenses (e usando a métrica craniana), concluíram que a aproximação mais viável a uma etnia não era com americanos nativos ou caucasianos, mas sim com os Ainu, antigos descendentes de ilhas do arquipélago do Japão! Portanto: a tarefa de concluir a identificação de uma etnia através de um crânio é perigosa, pois embora seja mais viável, mesmo assim está suscetível a erros estatísticos.
Por tal os cientistas são muito cuidadosos em assumir uma etnia em relação à morfologia óssea.
Claro que existiram cientistas que aproveitaram a onda da medida do crânio para promover as suas crenças hoje tidas como pseudocientíficas. Um exemplo é o cientista do século XIX Samuel George Norton, que mediu vários crânios de várias etnias em que ele denominava “diferentes raças”, com o propósito de estabelecer uma correlação entre raça e inteligência. Claro que o passo seguinte foi demonstrar que indivíduos de etnia ‘branca’ têm um perímetro cranial um pouco maior e por consequência, maior inteligência. Sabemos hoje que em termos neurobiológicos é uma falácia, como nos demonstra esta meta-análise.
Características tais como inteligência (situação geográfica, cultural e estatuto social), capacidade atlética, dieta, cor da pele e morfologia corporal são de uma complexa vastidão em termos que englobam geografia, adaptação e mutação, como já vimos anteriormente. Mas absolutamente. E nenhuma destas características serve como diagnóstico para descrever diferentes grupos no planeta.

Testes de ADN

Então o que nos dizem os testes de ADN em relação a ‘raça’? Hoje em dia temos à nossa disponibilidade um leque variado de testes de ADN, maioritariamente dedicados a pessoas que têm curiosidade em saber as suas ascendências. Mas na realidade, o que é que realmente esses testes nos informam? Basicamente informam-nos acerca do ADN no nosso genoma e, possivelmente, de onde tem origem.
Contudo, se usarmos métodos diferentes à nossa disposição, poderemos ter resultados completamente díspares. Estes testes resumem-se apenas a genes e ao genoma, mas infelizmente têm vindo a ser conectados com identificação de ‘raças’, o que é cientificamente completamente errado.
Uma nota importante neste erro crasso de identificação é que em cada humano o genoma é um mosaico de ascendências passadas, o qual pode incluir partes de ADN de outras espécies. Inevitavelmente é inviável usar o genoma para identificar ‘raças’ não existentes dentro da nossa espécie, mas sim, diferenças e variabilidade. Resumindo, não dão nenhum significado real à ciência, muito menos em determinar variantes, alelos e adaptações que provêm das mais variadas condições evolutivas.
Claro que existem diferenças genéticas entre diferentes populações em diferentes regiões geográficas, mas para além de melhor adaptação, não têm nenhum significado atribuído  a ‘raça’.
As diferenças estão lá, mas são superficiais. Portanto se o conceito fantasioso de ‘raça’ explica o que quer que seja acerca do Homo sapiens, a resposta científica é redondamente NÃO!

Conclusão:

 A cultura também exerce um peso em certas diferenciações, contudo, a falta dela, especialmente a científica, exerce um peso maior, quando a beleza da biologia e ciência cai nas mãos dos ignorantes, que usam a complexidade da biodiversidade para alimentar crenças populistas. Mais uma vez, um apelo ao governo para que insista na educação científica da população, pois a falta dela certamente alimenta o extremismo, a ignorância, a intolerância e um atalho ao supermercado do pronto-a-pensar.
É desta ignorância que se alimenta a extrema-direita e o populismo, pois é fácil compreender o mundo com a ignorância. Saber dá mais trabalho, mas compensa.
O conceito de ‘raça’ é um constructo social. Só existe uma espécie: Homo sapiens.