quinta-feira, 20 de junho de 2019

Fake News em Saúde na Revista Prevenir de Julho


Declarações que prestei à jornalista Sofia Teixeira, para um artigo sobre Fake News em Saúde, publicado na revista Prevenir de Julho (já nas bancas):

Que papel pode cada um de nós ter para interromper o ciclo de propagação de uma fake news?

Ter um sentido crítico e estar especialmente atento às coisas com as quais concordamos ou que favorecem os nossos pontos de vista. Nesses caso é muito fácil fazer vista grossa a alguns sinais vermelhos, é uma tentação partilhar disparates que gostaríamos que fossem verdade. Alguns até podem parecer convincentes, mas na maioria dos casos bastará um pouco de bom senso para ver que não são. Devemos agir com responsabilidade, porque o nosso comportamento nas redes sociais, incluindo a colocação de "likes", influência os outros.

É essencial hoje ser céptico também quando se pega num jornal ou revista. Da sua avaliação quais são os erros mais frequentemente cometidos pelos orgãos de comunicação social no tratamento de assuntos de carácter científico/médico? 

As notícias de saúde são particularmente mal tratadas pela comunicação social. No caso das notícias acerca de novos tratamentos, os problemas mais habituais são o exagero acerca da gravidade ou prevalência da doença em questão, a ausência de referências a outros tratamentos para o mesmo problema ou a efeitos secundários. Decorrem do problemas de muitas dessas notícias serem feitas com base numa única fonte. Também há casos em que os jornalistas criam alarmismos desnecessários ou nefastos. Um exemplo são as notícias que no final dos anos 1990 apoiaram a ideia de que a vacina tríplice é uma causa directa do autismo (não é), dando voz a uma das maiores fraudes científicas de sempre. Há também o caso de notícias que fazem eco de práticas da moda que não têm qualquer fundamento. Acontece com algumas dietas, como a do pH, que é um completo disparate, pois felizmente não é possível através da alimentação alterar o pH das nossas células. Nesses casos o problema é a falta de contextualização e a reprodução acrítica dos disparares que esses gurus da moda dizem.

Pedia-lhe que desse dois exemplos de notícias ou conteúdos com informação falsa com os quais se tenha cruzado há pouco tempo, desmontando a farsa e explicando em que medida podem ser prejudiciais.

Posso referir uma miríada de páginas que fazem a apologia das terapias alternativas - no campo da saúde há muito que existem fake news. Nessas páginas divulgam-se falsas soluções para problemas reais, por vezes com um discurso que defende a superioridade de supostos tratamentos naturais como contraponto aos tratamentos a que chamam "químicos". Essa dicotomia é absurda, pois todos os produtos naturais são feitos com os mesmos elementos químicos que todos os outros. E não há nenhuma razão para assumir que um produto é necessariamente seguro e saudável por existir na natureza. A nicotina, a cocaína e a morfina não produtos naturais. Já para não falar na cicuta ou no veneno do peixe balão. A natureza não é só paz e amor. A penicilina é um antibióticos natural produzido por um fungo para matar bactérias. E também não há nenhuma razão para pensar que uma substância química feita pelo homem é necessariamente má. O que importa não é se é natural ou não, mas se há uma boa avaliação da sua eficácia e segurança. E nisso os produtos vendidos como naturais ficam muito mal na fotografia. Muitas vezes nem sequer se sabe o que está dentro da embalagem, pois são vendidos como suplementos alimentares, escapando assim aos controles exigidos aos medicamentos. Uma investigação realizada em 2013 nos Estados Unidos concluiu que 59% dos remédios à base de plantas continham espécies não listadas no rótulo. O apelo naturalista é por vezes também usado para desaconselhar a vacinação. É uma das muitas ideias falsas que por aí circulam.

É autor de um livro sobre Pseudociência onde explica que, tipicamente, as pseudociências recorrem a uma linguagem que transmite uma ideia de cientificidade que não têm, recorrendo a algumas falácias que estão mais do que estudadas. Quais são as principais falácias utilizadas neste tipo de conteúdos para credibilizar o discurso?

A principal são os argumentos de autoridade: dizer que uma coisa é verdade porque pessoas muito importantes dizem que é verdade. Mas a ciência não se baseia na palavra de pessoas importantes, mas em provas. No caso da medicina com base na ciência, são raros os casos em que conhecemos o nome de algum investigador envolvido no desenvolvimento de um determinado tratamento. E os seus nomes não são usados para vender os tratamentos. Já na pseudociência é o contrário: na falta de provas, restam os argumentos de autoridade. Repare-se na quantidade de nomes de gente supostamente importante e sabichona que surgem associados às terapias alternativas, como alegada garantia da sua eficácia. A maior rede de clínicas de acupunctura em Portugal está ligada a um nome bastante conhecido. É o velho do paradigma pré-científico do médico guru, que diz que só ele e os seus discípulos é que sabem o segredo. A medicina científica surgiu em oposição a isso, ao fazer a avaliação da eficácia e segurança dos tratamentos com métodos estatísticos. E os resultados são espectaculares, mais do que duplicámos a esperança média de vida nos últimos 100 anos. 

As notícias falsas em saúde fazem uso dos viéses cognitivos que todos temos e, ao mesmo tempo, acentuam-nos? Pode dar exemplos disto? 

Por exemplo, as terapias alternativas baseiam os seus argumentos de vendas muito em testemunhos de clientes satisfeitos. Esses testemunhos não provam nada, porque é difícil tirar conclusões em casos isolados. É por isso é que se fazem ensaios clínicos. E nenhuma terapia alternativa consegue passar por esse crivo. Se passasse, não havia assunto para discutir, eram tratamentos com provas e pronto. Mas como não passam precisam de favores do poder político, para os dispensar da exigência de provas. E para os vender contam histórias de clientes satisfeitos. Por exemplo, no caso do cancro, um estudo realizado com quase dois milhões de pacientes publicado na revista científica JAMA Oncology no ano passado, revelou que os doentes oncológicos que recorrem às terapias alternativas em complemento aos tratamentos convencionais têm uma mortalidade duas vezes superior aos que recorrem apenas aos tratamentos convencionais. Isto acontece, entre outras coisas, porque atrasam o inícios dos tratamentos que realmente lhes podiam salvar a vida. Mas é curioso que nos primeiros dois anos não há praticamente diferenças de mortalidade. As diferenças de sobrevivência só se acentuam a partir daí (o estudo seguiu doentes ao longo de sete anos). Nesse período inicial, os doentes que recorrem às terapias alternativas são potências testemunhos de clientes satisfeitos. No entanto, têm uma perspectiva de sobrevivência que é metade da dos que recorrem apenas aos tratamentos convencionais.

Carl Sagan, creio, dizia que ‘Alegações extraordinárias exigem evidências extraordinárias’. No entanto, sobretudo perante o desespero, a necessidade de acreditar leva muitos a darem o benefício da dúvida a curas milagrosas. Em traços largos, quais são os aspectos que o leitor comum deve ter em conta quando lê algum conteúdo (seja notícia ou não) que lhe possam dar pistas para a veracidade ou falsidade das informações que contém? 

É difícil, porque em situações desesperadas as pessoas fazem coisas desesperadas. Mas há alguns sinais vermelhos, como o facto da suposta técnica milagrosa depender do nome de uma pessoa, que é a mesma que a inventou e aplica. Ou ser feita apenas numa clínica ou rede de clínicas, que detêm uma espécie de segredo. A medicina baseada na ciência envolve muitos cientistas e grupos de investigação. E quando se tem provas não são necessários testemunhos de clientes satisfeitos. Há boas revisões sistemáticas da literatura médica com conclusões estatísticas que quantificam o benefício e o risco dos tratamentos.

Ao problema dos conteúdos com informação falsa em que as pessoas acreditam, junta-se outro: o da informação verdadeira e científica em que as pessoas não acreditam. Quais são as ferramentas, metodologias e atitudes comprovadamente mais eficazes para comunicar ciência, de forma a conseguir fazer passar a mensagem? 

A resposta está na cultura científica. As pessoas saberem distinguir melhor o que é ciência do que não é. Não significa serem especialistas em todas as áreas do conhecimento científico, pois isso é impossível. Mas saber reconhecer as características da ciência, que ela se baseia na observação e na experiência, em processos transparentes e escrutináveis, passíveis de confirmação ou refutação. Não é fácil promover a cultura científica, mas é um objectivo com uma grande importância social, que envolve muitos agentes (cientistas, jornalistas, professores, divulgadores de ciência, etc).

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