De Víbora na Mão é um livro autobiográfico de Hervé Bazin de 1948, publicado em Portugal pela coleção Unibolso, provavelmente em 1985. Neste livro, se os filhos são terríveis e planeiam (e tentam) o assassinato da mãe, esta não é menos ao bater-lhes e a castigá-los. Em suma, um livro terrível! Estava a lê-lo, desta vez para anotar os aspectos químicos. Mas não era tanto isso que me interessava. Interessava-me mais a geografia, os tempos envolvidos e a relação, em termos de lugares e atitudes, com A Busca do Tempo Perdido de Marcel Proust, uma obra monumental em sete volumes que acaba um pouco antes da outra começar e que também estive a reler e anotar, e, ainda, Thérèse Desqueyroux, passado nas Landes e publicado em 1927 por François Mauriac (publicado, em Portugal, recentemente pela Cavalo de Ferro, em 2015). Estava eu nisso, a viajar pela França do início do século vinte, a comparar o conservadorismo patético de uns com o sensualismo dos outros. Compararava, sem grande profundidade, é certo, as diferentes atitudes, o dinheiro que a uns, arruinados, faltaria e que, os outros, velhos burgueses, teriam em excesso. Comparava a atitude perante os banhos de mar e a praia, evitada mas verdadeira, de Le Balle na Víbora, com a Balbec imaginária da Busca.
Mas a química voltou outra vez. A verdade é que todos os livros a têm. E só falo da Víbora na Mão. Esta tem, claro, o óleo de rícino, a pólvora piroxilada, também chamada pólvora sem fumo, as gotas de beladona, o cianureto (diz-se actualmente cianeto) de potássio, a ureia e a uremia, a curiosidade de Rayon ser também um lugar, entre outros. Mas esses eu já conhecia. O que me chamou mais a atenção acabou por ser um medicamento para uma crise de fígado, chamado, no livro, Algocoline Zizine. Uma pesquisa mostrou que era uma expressão que só aparecia neste livro e que esta obra era citada ipsis verbis num artigo antroplógico a propósito da questão de serem as “doenças de fígado” uma doença tipicamente francesa. Mais umas pesquisas e estas mostraram que os laboratórios Zizine ainda existem, mas agora são dedicados ao “medicamentos alternativos,” e que “algocoline,” poderia ser outro nome para analgésico. Se fosse o caso, qual seria a sua composição? Foi aí que vi que os laboratórios Zizine não tinham fabricado o “Algocoline Zizine” mas sim o “Alcholine Zizene,” de que há bastantes caixas metálicas à venda na internet. Será que o autor se enganou? Será que teve um liberdade poética? Será que não quis usar um nome registado? Não sei, o que sei é que o Alcholine Zizene era de facto uma marca registada e descrito como um “drenante hepático” (um laxante, diríamos hoje) composto de sulfato de magnésio e pectina. E foi assim que, de uma praia redescoberta pelos parisienses, Le Balle-Escoublanc, encontrei a química de um frasco de medicamento a vajar pela França dos livros. Façamos um passeio à feira do livro e encontremos outras viagens!
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terça-feira, 1 de setembro de 2020
De víbora na mão, em busca do tempo perdido, viagens pelos livros
terça-feira, 20 de novembro de 2012
Camilo e a Química: as boticadas de Eusébio Macário e os medicamentos d' O olho de vidro
No livro Camilo Castelo Branco e as
boticadas de Eusébio Macário, o capitão farmacêntico António
Costa Torres analisa as referências farmacênticas em "Eusébio
Macário" e "A corja". Também "O olho de vidro"
merece a este autor algumas considerações.
O domínio da química era na altura de
Camilo, e até ao desenvolvimento da indústria farmacêutica moderna
e dos estudos farmacológicos e clínicos controlados, de extrema
importância para farmacêuticos ou médicos que pretendessem estar
actualizados, ou não fosse a maioria dos medicamentos preparados na
botica por receita do médico. Actualmente a química continua a ser
fundamental para o desenvolvimento de novos medicamentos e o
entendimento da acção de todos os fármacos, para além de ser
importante para a compreensão da fisiologia dos organismos vivos. No
entanto, a especialização e a complexidade actuais são de forma a
que esta ciência, embora continue a ser importante para o
entendimento geral e particular dos processos terapêuticos, deixou
de ser para a maioria dos profissionais de saúde fundamental ao
nível da acção diária, como era na altura de Camilo.
Segundo Costa Torres, Camilo passou
nemine discrepante à cadeira de Botânica no dia 14 de Julho
de 1845, nos preparatórios para medicina e não esqueceu a matéria
estudada. A lista de cerca de vinte plantas com propriedades
medicinais foi confirmada por Costa Torres que apenas lhe encontra
pequenos erros. Por esta altura já começavam a ser identificados
princípios activos extraídos das plantas. O filho José Macário,
conhecido como José Fístula, é um adepto das plantas
medicinais e dos remédios modernos da Farmacopeia do doutor Pereira
Reis (5ª edição datada de 1858 do Código Faramacêtico Lusitano).
Eusébio Macário é um boticário de outros tempos. Uma lista de
unguentos e remédios secretos está registado no seu livro sebento
de três gerações de boticários, alguns tão antigos que podem já
ser encontrados, por exemplo, no D. Quixote de Cervantes. E já na
altura de Camilo eram obsoletos ou comprovadamente nefastos. Costa
Torres indica as receitas de todos estes unguentos (quase quarenta de
"Eusébio Macário" e mais de vinte de "A Corja"),
copiadas d Farmacopeia Lusitana (com edições de 1704 e 1711)
de frei Caetano de Santo António, as quais Camilo deveria conhecer
bem desde jovem. Alguns exemplos, a cujo pitoresco Camilo não
resistiu, são o ceroto de espermacete, pomada mercurial (com óxido
de mercúrio II), unguento de Santa Tecla, com litargiro (óxido de
chumbo II, conhecido por fezes de ouro) e sebo de carneiro, unguento
de basilicão, com colofónia (pez louro) fundida em azeite,
terebentina, cera amarela e óleo de amêndoas, ungento de Genoveva
com terebentina e cânfora, ungento de populão, com infrutescências
de choupo branco (Populus alba, que
contém salicina), folha de dormideira, beladona e manteiga,
papa de linhaça, unguento egipcíaco, de cor verde, devido ao
acetato de cobre, azougue de Falópio, entre outros.
Eusébio Macário era um boticário tão
antiquado que nada sabia de oximéis, uma designação que era
já empregue nas farmacopeias do século XVIII! As formulações e
preparações continuam hoje em dia a ser um dos campos mais
exclusivos da Farmácia, embora para o desenvolvimento de novos
princípios activos concorra também a Química. No tempo em que
Camilo escreve são muito poucos os medicamentos de síntese, e todos
os que existem são de origem inorgânica. Estamos ainda muito longe
da descoberta da aspirina, das modificações químicos de moléculas
biologicamente activas para obter medicamentos mais poderosos, da
pesquisa sistemática de novos fármacos e dos testes controlados
dessas substâncias.
No "Eusébio Macário" é
ainda digna de nota a referência que Camilo faz a Gavroche de "Os miseráveis" de Victor Hugo. Camilo, na
minha opinião com algum provincianismo tipicamente português, diz
que já havia sido inventado em Portugal. [Correcção: o autor apressado deste post confundiu Gavroche com
Grantaire, o estudante boémio que faz metáforas com conhecimentos avançados de
química, ficando assim este parágrafo sem grande sentido químico. Logo que possível publicarei um texto sobre a química em "Os miseráveis" de Victor Hugo.]
Na
obra "O olho
de vidro, romance histórico",
publicada em 1866, Camilo apresenta-nos a vida trágica
de Brás Luis Abreu (1692-1756), cristão-novo dos quatro costados
que, por uma série de peripécias, perdeu o contacto com a sua
família e a cultura judaica, torna-se um médico e autor famoso e
acaba por casar com a irmã de quem tem oito filhos.
Neste livro, Camilo descreve com
bastante detalhe o ambiente sufocante criado pela Inquisição. As referências aos medicamentos e tratamentos da época são também dignas
de nota. Logo nas pimeiras páginas é referido o olhos de caranguejo
(Oculi Cancrorum), formações de carbonato de cálcio, que
se julgou serem os olhos dos carangejos, um remédio indicado para
muitas doenças. Este mineral ainda tem usos medicinais actuais, mas
não são tão fantásticos como na altura.
Camilo vai-nos apresentando algum
receituário médico da época. Em particular, a descrição de um
medicamento feito a partir de um pato assado é bastante divertida.
Tal como a alternativa: cozer uma raposa inteira. É sobretudo este
tipo de receitas fantasiosas, que se encontra na medicina barroca a
par com os medicamentos secretos
com nomes pomposos. Medicamentos sobretudo para suar e deixar
de suar, para vomitar e deixar de vomitar, salivar e deixar de
salivar. As purgas, os clisters, as sangrias, as fístulas
(manutenção de uma ferida aberta para libertar humores), são
ainda comuns. Não se pense ingenuamente que a ciência médica e
farmacêutica avançou sempre de forma linear. As receitas de Garcia
de Orta ou de Amato Lusitano, que viveram um século antes, são
muito menos fantasistas pois baseiam-se na experiência e não em
considerações retóricas.
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