quinta-feira, 30 de junho de 2022

SONDA O MEU CORAÇÃO NO MEIO DA NOITE


Minha recensão de um livro da Guerra & PAZ e do IEACGO:

O Instituto de Estudos Avançados em Catolicismo e Globalização - IEAC-GO publicou, em Novembro de 2021, em parceria com a editora Guerra & Paz, o livro Sonda o meu coração no meio da noite, com o subtítulo Cartas de Despedida e anotações da Resistência ao Terceiro Reich (1933-1945), editado por Helmut Gollwitzer, Kaethe Kuhn e Reinhold Schneider. A obra é, como o subtítulo indica, uma compilação de cartas de despedida de condenados à morte pelo regime nazi, que saiu, com muito êxito, na Kaiser Verlag, de Munique, em 1954 (a versão portuguesa é um pouco condensada, dado o tamanho do original). O título foi extraído do Salmo 17, «Oração de um Inocente contra os inimigos». Na edição da Difusora Bíblica, que está on-line, reza  assim esta súplica (usando o termo «perscrutar» em vez de «sondar»): «Ouve, Senhor, a minha causa justa,/ atende o meu clamor./ Escuta a minha oração,/ que não sai de lábios mentirosos./ Venha de ti a minha sentença,/ pois os teus olhos descobrem o que é justo.// Perscruta o meu coração, mesmo durante a noite, submete-me à prova de fogo/ e não encontrarás em mim iniquidade; a minha boca não transgrediu./ Contrariamente às acções dos homens, conservei-me fiel à suas palavras./ Dirigi os meus passos por duras veredas; os meus pés não vacilaram nos teus caminhos.» Como diz Afonso de Reis Cabral, no prefácio, um «salmo é também o grande desejo de ser ouvido no silêncio e na solidão». Trata-se, portanto, de vozes que rompem o silêncio da espera da morte.  

Este livro é duro, por vezes muito duro. Tem passagens que não são fáceis de ler sem se ser sacudido por emoções fortes. A maior parte dos testemunhos está perpassada pela fé em Deus e pela entrega à Sua vontade. Mas nem todos os casos aqui relatados são de pessoas com fé religiosa, ou pelo menos nem todos os registos de despedida falam de Deus. É, obviamente, o caso dos católicos e protestantes condenados à morte, dado que Hitler não hesitou em livrar-se de opositores de uma e de outra igreja. As igrejas católica e luterana, que no seu conjunto são maioritárias na Alemanha, opuseram-se por vários modos ao projecto totalitário e às acções dele decorrentes do inefável regime nazi. Muitos dos  membros dessas igrejas pagaram com a vida essa sua oposição, num tempo em que a vida humana não tinha nenhum valor para as autoridades alemãs que sobre ela decidiam, muitas vezes sumariamente e sem direito a uma defesa decente. As vozes que foram caladas tiveram  razões de sobra para clamarem contra o monstro fascista, mas é muito curioso que nestes depoimentos não se encontrem expressões de ódio ou desejos de vingança, mas sim e apenas expressões de humanidade. Na maior parte dos casos, há conformidade com a morte por ela ser considerada desígnio de Deus. Poderá parecer absurdo em certas situações, mas os desígnios de Deus são «insondáveis», como diz o Salmo 139; «Como são insondáveis, ó Deus os teus pensamentos! Como é incalculável o  seu número.» Há uma manifesta desigualdade entre os humanos e a divindade: Deus pode sondar os pensamentos humanos, mas os humanos não podem sondar os pensamentos de Deus.

Quem são os editores do livro? Helmut Gollwitzer (1908–1993) é o mais conhecido: foi um teólogo protestante, escritor e simpatizante das ideias socialistas. Discípulo do suíço Karl Barth, o maior teólogo protestante do século XX, apoiou, na época nazi, a chamada Igreja Confessante, um movimento protestante minoritário que tentou resistir ao domínio da Igreja Protestante pelo governo nazi. Um dos líderes desta igreja foi o pastor luterano Martin Niemoeller, que foi preso nos campos de concentração de Sachsenhausen e Dachau (ele é o autor do texto «Quando os nazis levaram os comunistas, eu calei-me; afinal de contas, eu não era comunista. (…) Quando eles vieram por mim, não havia mais ninguém para protestar», muitas vezes atribuído a Bertold Brecht). Em 1940, Gollwitzer foi proibido de falar em público e, mais tarde, foi incorporado numa unidade de assistência médica na frente oriental da guerra. Em 1945, foi preso pelos soviéticos e enviado para um campo de trabalho e reeducação, de onde só foi libertado no final de 1949. Em 1950, sucedeu a Barth como professor de Teologia Sistemática na Universidade de Bona. Na década de 1950, lutou contra a instalação de armas nucleares na Alemanha. Na década de 1960, quando era professor da Universidade Livre de Berlim, apoiou os movimentos estudantis, muito activos nessa época.

Por sua vez, Kathe Kuhn (Lewy de seu nome de solteira) (1896-1971) era a esposa do filósofo judeu Helmut Kuhn que, em 1938, emigrou para os Estados Unidos, tendo sido  professor de Filosofia na Universidade da Carolina do Norte. Durante os anos do exílio o casal, que entretanto se converteu-se ao catolicismo, ajudou muitos refugiados. Voltaram em 1949 à Alemanha, tendo ele ocupado um lugar na Universidade de Erlangen.

Por último, Reinold Schneider (1903–1958) foi um escritor – poeta, romancista e ensaísta  , cujos escritos foram progressivamente ganhando um pendor religioso no quadro do catolicismo. É curioso que Luís de Camões se encontre entre as suas influências, tendo mesmo escrito sobre ele. Schneider fez uma viagem a Portugal, sobre a qual escreveu um diário de viagem, que ainda não está traduzido em português. É ainda autor de uma peça de teatro sobre o Marquês de Pombal e o Grande Terramoto de Lisboa. Escreveu poemas contra a guerra, que foram proibidos na Alemanha nos anos 1940. Apesar de ter sido perseguido e mesmo acusado judicialmente, o facto é que a guerra acabou sem que ele tenha ido a julgamento.

O livro encerra os depoimentos de alguns nomes conhecidos e de muitos desconhecidos. Escolhemos aqui alguns nomes exemplos de uns e de outros. Um dos mais famosos foi Dietrich Bonnhoeffer (1906-1945), pastor luterano e teólogo como Gollwitzer. Também ele ajudou a formar a Igreja Confessante. Acusado de co-autoria do fracassado atentado da Abwehr  (Serviços de Informação do Exército) em 1944 (foi o «golpe de 20 de Julho», que recorreu a duas bombas, uma das quais não explodiu) a Hitler, foi preso com outros conspiradores e, depois de um julgamento breve, enforcado numa prisão de Berlim, nos dias finais da guerra na Europa, poucos dias antes do suicídio de Hitler. Com ele foram enforcados seis outras pessoas, incluindo o almirante Wilhelm Canaris, comandante da Abwehr, e o general Hans Oster, vice de Canaris. O líder e executor do  atentado foi o coronel Claus von Stauffenberg (1907-1944), que era conde, executado por fuzilamento (o filme, de 2008, «Valquíria», com Tom Cruise, conta a história). Bonnhoeffer deixou estas palavras no livro em apreço: «Eu acredito que Deus pode e quer fazer surgir o bem a partir de tudo, também a partir do maior mal. Para isso, Ele precisa de seres humanos que contribuem para o melhor de todas as coisas».

Outro nome grande nome da teologia que foi mártir no tempo nazi e que tem  escritos neste livro é a freira carmelita, de origem judaica, Irmã Teresa Benedita da Cruz, de seu nome próprio Edith Stein. Por coincidência, tanto ela como Bonhoeffer nasceram em Breslau, na antiga Prússia, mas hoje na Polónia. Foi uma das primeiras mulheres a fazer um doutoramento em Filosofia na Alemanha. Converteu-se ao catolicismo aos 31 anos. Para fugir à perseguição na Alemanha refugiou-se num carmelo nos Países Baixos, mas, após a invasão alemã daquele país, foi levada para o campo de concentração de Auschwitz – Birkenau, onde foi executada numa câmara de gás. Numa carta a sua mãe em 1942 escreveu, em palavras registadas no livro  publicado agora entre nós: «Só se pode alcançar uma scientia crucis quando se chega a experimentar radicalmente a cruz.» Canonizada em 1998 pelo papa João Paulo II, alguns dos seus escritos teológicos e místicos estão publicados em português.

No esforço de Hitler para eliminar rapidamente o catolicismo, pelo menos a sua influência na esfera política, milhares de pessoas foram presas nos anos de 1930 e 1940, entre elas muitos intelectuais ligados à igreja. O ditador não queria menos do que a total subordinação da Igreja ao Estado, o que para a Igreja era isustentável. Em 1937, na encíclica Mit Brennender Sorge («Com Cuidado Ardente»), o Papa Pio XI acusava o regime nazi de ser «fundamentalmente hostil a Cristo e à sua Igreja.» Os colégios católicos na Alemanha seriam fechados em 1939 e o mesmo aconteceu a toda a imprensa católica em 1941. Nesse mesmo ano, as autoridades decretaram a dissolução de todos os mosteiros e abadias na Alemanha, tendo começado a expropriar os bens da Igreja. Muitas instalações eclesiais foram ocupadas pela SS, o sinistro corpo comandado por  Himmler. Alguns padres alemães opositores do  regime foram enviados para campos de concentração, incluindo o deão católico da Catedral de Berlim, Bernard Lichtenberg, que morreu a caminho de Dachau (entretanto, ele foi beatificado).  No campo de  Dachau, dos 2720 clérigos presos que lá passaram, 95% eram católicos, sendo os jesuítas o maior número.  Os que não perderam a vida foram libertados em 29 de Abril de 1945 pelo exército norte-americano: o que os militares viram foi aterrador. Hitler esperava descristianizar completamente a Alemanha após a vitória final na guerra, uma vez que sua ideologia não poderia aceitar um estabelecimento autónomo, com legitimidade alheia à do governo. Mas, como é sabido, foi implacavelmente derrotado pelos Aliados.  

Há outros nomes de vítimas no livro. Alguns deles, tal como Stauffenberg (que pertencia a uma família católica da Baviera, estado onde prevalece o catolicismo), eram nobres: é o caso dos condes Ulrich Wilhelm Schwerin von Schwanenfeld, Peter York zu Wartemburg e Heinrich von Lehndorff-Steinort. E há alguns padres católicos, dois dos quais jesuítas. Um foi o filósofo Alfred Delp (1907–1945), que foi enforcado em 1945, acusado de implicação no referido atentado de 20 de Julho de 1944. De facto, Delp não estava envolvido nessa tentativa de golpe militar. Transferido para uma prisão em Berlim, passou aí  a rezar missa dissimuladamente e a escrever cartas e reflexões sobre temas espirituais, que foram secretamente enviados para fora, antes de ele ter sido julgado. Durante a prisão, a Gestapo ofereceu-lhe a liberdade, desde que ele repudiasse a ordem a que pertencia, mas ele recusou sem hesitar. As suas condições prisionais foram extremamente difíceis, uma vez que, tal como todos prisioneiros implicados no atentado de 20 de Julho, era obrigado a usar algemas noite e dia. Por ironia do destino, o juiz que o condenou morreria no mesmo dia da execução da sentença devido a um bombardeamento aéreo dos Aliados. Um outro jesuíta assassinado que é autor de um depoimento registado no livro em apreço foi Rupert Meyer, que escreveu 1937 a um funcionário da Gestapo, a polícia secreta, como a provação lhe tinha reforçado a confiança em Deus: «Que Deus existe isso sempre o soube, mas que Ele é tão bom, tal como eu pude experimentar nas últimas duas semanas, isso não me ocorreria ser possível».

Mas há também algumas figuras anónimas. O seu drama não é menor por os seus nomes terem permanecido  desconhecidos. Um filho de agricultores da região dos Sudetas escreveu aos pais em 1944: «Agradeço-vos por tudo o que de bom fizeram por mim desde a minha infância; perdoem-me, rezem por mim…». Um oficial de SS condenado por traição (os militares traidores eram fuzilados sem contemplações) escreveu a um padre em 1949: «Gostaria de lhe pedir que escrevesse umas linhas à minha mãe para lhe comunicar que fui integro e valente e para lhe dizer que o meu ultimo desejo é que ela também o seja. Agradeço-lhe a consolação que me trouxe nos últimos dias da minha vida e parto com fé numa vida melhor no Além.»

A promessa de vida eterna serve de consolação às pessoas que têm fé religiosa. Mas há, ainda que em menor número neste livro, pessoas sem fé que experimentam a espera da morte. Julius Fucik, comunista checo, foi preso pela Gestapo em 1942 e executado em Berlim no ano seguinte por ter integrado a resistência comunista (presume-se que fosse ateu). Logo após ter sabido da sentença que o condenava à pena capital, escreveu aos pais e irmãs: «O Inverno prepara os homens, tal como as árvores, para a sua chegada. Acreditai em mim: isto não retirou nada, mas mesmo nada, à alegria que sinto e que ressurge diariamente com uma melodia  qualquer de Beethoven. Um homem não fica mais pequeno, mesmo quando lhe cortam a cabeça. E desejo ardentemente que, quando tudo tiver terminado, não vos lembreis de mim com tristeza, mas com a mesma alegria com que sempre vivi.» É muito interessante que ele tenha encontrado lenitivo na música de um génio.

Um dos depoimentos que mais me tocou - e é verdadeiramente difícil escolher - foi o de Kim Malthe-Bruun, grumete e marinheiro de segunda classe dinamarquês, que foi acusado por ter fugido com uma lancha alfandegária da Dinamarca para a Suécia transportando armas. Acabou fuzilado. Escreveu em 1945 uma carta de despedida à namorada onde se encontra um texto belíssimo:

«Penso em Sócrates. Lê sobre ele e ouvirás Platão contar precisamente o que agora experimento. Tenho-te um amor sem limites, mas ele não é agora maior do que sempre foi. O que me apunhala o coração não é nada; é como é, e tens de compreender isto. Há algo que vive em mim e que me queima - um amor, uma inspiração, chama-lhe o que quiseres, mas é algo para o qual ainda não consegui encontrar palavras. Agora, morro e não sei se terei ateado uma chama num outro coração, uma chama que me sobreviverá; todavia, estou sereno, pois vi e sei que a natureza é tão rica, que ninguém repara se uns quantos rebentos forem calcados com os pés e morrerem. Porque deveria eu desesperar, quando vejo toda a riqueza que ainda vive?»

E continua:

«Ergue a cabeça, tu, cerne mais precioso do meu coração, ergue-a e observa; o mar ainda é azul, o mar que tanto amei e que nos envolveu aos dois Vive agora por nós os dois. Fui embora e estou longe, e o que se mantém não é o pensamento de que devas ser uma mulher do tipo X ou Y, mas de que te faças uma mulher de espírito vivo e afectuoso, amadurecida e feliz. Não podes enterrar-te no luto, porque, assim, ficarias ancilosada, atolada numa idolatria de mim e de ti própria, e perderás aquilo que em ti mais amei: a tua feminilidade.»

É difícil não ficar comovido ao ler esta declaração de amor. Ciente da sua morte próxima, o marinheiro invoca o amor, que é uma das marcas mais extraordinárias da vida.

VAMOS TODOS APRENDER VOLAPUQUE

Novo texto de Eugénio Lisboa: 

Vou confessar uma dificuldade minha, que era, provavelmente, um defeito horroroso: quando lia a maior parte dos textos ditos literários que por aí se publicam, sentia a maior dificuldade em penetrar no sentido de tudo aquilo. Eu leio fluentemente o português, o francês, o inglês e o castelhano. Já sobre o tarde, tentei aprender, com Jorge de Sena, o volapuque, que era a língua em que ele falava, em Creta, com o minotauro. Lembram-se? Jorge de Sena era um homem extremamente generoso e estava sempre pronto a ajudar, mas a verdade é que já não teve vida suficiente, para me indicar livros e dicionários que me permitissem dominar decentemente o volapuque. E foi pena, já vos digo porquê. 

 Durante muito tempo, bati com a cabeça nos tais textos literários (sobretudo os de crítica literária) e senti-me completamente perdido. Aquelas palavras não casavam bem umas com as outras. Aquelas longas e compactas interpretações de textos poéticos ou em prosa deixavam-me o cérebro e os olhos enviesados. Ali havia coisa. Que diabo, sempre me considerei um homem normal, com uma inteligência não abaixo da média. Fiz até estudos bastante bem classificados e tenho uma biblioteca bem recheada e bem visitada. Mas a leitura da nossa crítica literária derrotava-me. Lia sem dificuldade os grandes textos ingleses, americanos, espanhóis, franceses (não todos), mas, quando tentava entrar na conversa lusíada, era um inferno. Desesperadamente, tentei saber porquê. Mexi, remexi, esgaravatei, falei com amigos, fiz tudo quanto era humanamente possível, para compreender o que se passava. Sejamos humanos: ninguém gosta de passar por asno, no meio de mentes consabidamente brilhantes! Até que um dia, inesperadamente, gloriosamente, a luz condescendeu em descer até mim, E compreendi! A solução do problema era extremamente simples e por isso me iludira tanto tempo. Eu andava a ler volapuque, convencido de que estava a ler português! De aí a evidente dificuldade. Tudo se resumia, pois, a aprender volapuque e logo aqueles textos se tornariam transparentes como cristal. 

 Como não gosto de ficar com as minhas grandes descobertas, só para mim, aqui vos deixo a luminosa conclusão a que cheguei. Suponho que, só por timidez e vergonha, nunca confessastes as vossas dificuldades, diante da crítica literária lusíada. É simples: por qualquer obscura razão, ela é redigida em volapuque. Vamos, pois, todos, apender volapuque!

 Eugénio Lisboa

 

Não é a lezíria e o rio azul
E cinzento na tarde a ondear.
Não é o juncal ereto a rondar
A água tão trémula a rumar ao sul.

Não é o pelourinho da cidade
Nem são as praças submersas em luz.
Não é do nome a materialidade
Ou o sublime sonho rente à cruz.

Não é a alta imponência dos pilares
Nem é a ribeira cheia de chagas.                                                                                         
Não são no relevo as calcárias fragas

Nem as pontes sobre as crianças magras.
Quem me prende com enlevo os olhares
São dos gladíolos do monte os teus ares.

 Ângelo Alves

Shakespeare: "Somos feitos da matéria dos sonhos; nossa vida pequenina é cercada pelo sono"

terça-feira, 28 de junho de 2022

ELOGIO DO ROMANCE POLICIAL

Ler um bom romance policial
é tão bom como beber água fresca,
quando se tem uma sede colossal:
satisfaz nossa sede vampiresca,

isto é, substitui em nós um crime, 
que não precisamos de cometer,
se um instinto profundo nos oprime
e nos põe muito perto de o fazer.

Um bom romance policial purga-nos
de crimes que dentro de nós existem:
com toda a sua sedução, expurga-nos 

de venenos e tóxicos que assistem,
dentro de nós, a turvas fantasias
e a inquietas tentações bravias. 

Eugénio Lisboa

domingo, 26 de junho de 2022

Ainda sobre o moderno e o clássico

Na continuação do texto A constante luta entre clássico e moderno

João Boavida

É isso mesmo, volto ao tema, do moderno e do clássico. 

Se um autor jovem, cheio de vitalidade e de ambição promete a si mesmo fazer uma obra verdadeiramente revolucionária, ninguém o deve criticar e oxalá que o consiga. Mas será útil chamar-lhe a atenção para alguns problemas. 

Em primeiro lugar, deverá ter alguma consciência dos limites dessa ambição e do horizonte que irá enquadrar a sua obra; em suma, ter ideia de até onde pensa ir e qual o nível da sua satisfação futura. Parece uma ideia estranha porque ninguém pode, à partida, saber até onde será capaz de ir, mas para não se perder em esforços despropositados ou caminhos sem sentido, deve ter alguma ideia disso. 

Ninguém chega a um determinado lugar se não souber minimamente que lugar é esse nem onde fica. Há (ou deve haver) uma conceção pessoal que irá enquadrar as realizações futuras, e um caminho a percorrer. Ou seja, mesmo que difusa, deve haver, à partida, uma ideia de realização que deseja levar a cabo. 

Um segundo problema, certamente mais difícil, é saber com que meios e com que forças vai concretizar isso, ou seja, se tem talento suficiente para o conseguir. Talento e persistência, capacidade de resistência às frustrações, resiliência face às adversidades, como agora se diz. Ninguém o sabe, ao certo, nem o próprio, pois muito provavelmente lhe faltarão meios de avaliação objetiva. É provável que as competências literárias lhe vão crescendo, mas a ambição pode ser desmedida em relação às capacidades. 

A vontade e o trabalho, embora muito importantes, não são condições suficientes, é preciso também talento, dom natural e até sorte. E tudo isto sopra onde e quando os deuses querem e não onde e quando os autores desejam. E embora, isso, só o tempo o possa esclarecer, é um dos grandes problemas que o autor que se pretenda revolucionário terá que enfrentar e que o pode levar ao falhanço. Se puder adaptar as expectativas às possibilidades, só terá a ganhar. 

Por mais revolucionário que um autor queira ser, partirá sempre de um dado ponto desse acervo extraordinário de quase três mil anos e de um número imenso de produções literária de todos os géneros. Ora, isto deve ser minimamente conhecido por qualquer autor que se queira original, porque é possível que a sua pretendida originalidade já outros, antes dele, a tenham tentado, e talvez até alcançado, pelo menos em alguns aspetos. O que não quer dizer, mesmo assim, que o não venha a conseguir.

Em arte, como em ciência, os maiores são-no em boa medida porque outros antes deles os ajudaram a subir mais alto, e é sobre esta base que melhor se pode inovar porque só deste modo se pode ver para além deles e superá-los verdadeiramente. É assim que surgem novas correntes, ou se renovam as anteriores, e dum terreno esgotado podem surgir novas plantas, com outro viço e aromas inesperados. A novidade é, pois, um bem valioso se – e só se – dela resultar um novo campo de produção artística, com novas realizações, inéditos padrões de beleza e juízos estéticos enriquecedores.

É claro que, num processo destes – e para ser coerente com a sua intenção – o artista tem que tentar, experimentar, arriscar. Mas, ao fazê-lo, tem que estar consciente de que pode falhar, e de que muito do que faz será provavelmente esquecido, ou seja, que a sua novidade pode não o ser, ou não vir ao encontro de nenhuma necessidade social e culturalmente sentida. O tempo se encarregará de concluir se aquele contributo foi ou não valioso para a novas formas de realização, se veio abrir outros caminhos, ou se tudo aquilo não passou de um fogo de palha. 

Por último, as diversas escolas e correntes surgiram sempre da necessidade de renovação, da procura de novas produções porque os campos pareciam esgotados. Isto exigia quase sempre movimentos de renovação, com transformação de quadros interpretativos e novas formas de fazer, muitas vezes dissonantes em relação a sensibilidades passadas e presentes. Tentava-se fazer melhor, estar atento a outras coisas, abrir novas perspetivas. O que desencadeava os movimentos era a necessário de ir mais além ou por outros caminhos.

Ou seja, o tentar fazer melhor e encontrar outras vias produzia a diferença, e não era a diferença que, por si só, produzia melhor. Quero eu dizer que uma coisa é querer fazer melhor, e para isso ter que romper com certos quadros e determinados cânones, outra é eu querer fazer diferente e, para isso, vou à procura das novidades. 

Parece-me que, hoje, e para muita gente, a mudança transformou-se num valor em si mesmo, e não num meio para produzir valor. Não sei se não é um erro, uma contínua doença de crescimento que hoje nos ataca. 

Talvez devêssemos ter mais consciência disso, para nos curarmos deste erro, se acaso o é. 

João Boavida

sábado, 25 de junho de 2022

PAULA REGO

Deste à singular pintura, tua,
bebida no sangue das tuas feridas,
uma violência perversa e nua, 
só própria das almas destemidas.

Acendeste uma luz muito clara,
na vida torturada das mulheres
e desvendaste a odiosa tara
dos que tinham masculinos poderes.

Mas fizeste mais do que desvendar:
vingaste-te, com desmedida força,
de quem está disposta a assassinar

e de quem goza quando se desforça.
Contas ajustadas em tela e tinta,
que tudo, debaixo do sol, se pinta. 

Eugénio Lisboa

O "MAIA" E A PERDA DO FOCO DA EDUCAÇÃO

Sei que há, em instituições de ensino superior e em escolas públicas, grandes entusiastas do Projeto de Monitorização Acompanhamento e Investigação em Avaliação Pedagógica (MAIA), tutelado pelo Ministério da Educação. Ao que percebo, os entusiastas são os seus mentores e replicadores oficiais, não os professores que o aplicam.

Estes, a menos que esteja muito enganada no juízo que faço, tendem a ser críticos do projecto: dos seus fundamentos, da sua metodologia e dos resultados a que conduz (ver, por exemplo, aqui). Uns explicam-no abertamente, outros em círculos restritos. Há ainda outros que, na dúvida, mantêm reserva.

De qualquer maneira, estando numa escola que se tenha voluntariado para a sua aplicação, é muito difícil aos professores, mesmo que estejam conscientes da falta de sentido educativo do que fazem, dos erros pedagógicos que replicam, das consequências nefastas que daí advêm, deixarem de participar no turbilhão inexplicável de critérios, grelhas, registos... que o processo em causa implica.

Turbilhão que, focado na obsessão de avaliar, a todo o momento, todos em relação a tudo, com base numa técnica, supostamente objectiva, faz perder o verdadeiro foco da educação: o aperfeiçoamento humano. Falo de uma perfeição que, na educação escolar, tenta conseguir-se através do conhecimento académico e da estimulação de capacidades do educando, subordinados ao respeito pelos valores éticos.

O foco da educação é este e não pode deixar de o ser, não pode ser outro. Por uma razão simples, que devia ser evidente: só através da aprendizagem da humanidade cada ser humano tem possibilidade de se tornar verdadeiramente humano. Desistir de tal fim é desistir de cada ser humano e da humanidade

Digo isto de outro modo: o foco da educação não é, não pode ser a recolha de uma torrente de dados, obtidos através de manifestações de comportamentos directamente observáveis (voltamos, desvirtuando, ao behaviorismo clássico, tão criticado por aqueles que o usam!). A obtenção de alguns dados relativos à aprendizagem tem uma função instrumental de apoio à decisão, no quadro das funções social e pedagógica da avaliação (destas duas funções deixei registo aqui).

Uma vez que o MAIA desvia o rumo da educação para o que não é educativo (para o que é meramente instrumental), o seu futuro só pode ser a extinção!

quinta-feira, 23 de junho de 2022

LÁ, ANTIGAMENTE

Lá, as coisas tinham dimensões Índicas.
As trovoadas eram mesmo a sério.
Juro-vos que estas coisas são verídicas
e não puras balelas do império.

As irmãs Brontë enchiam-me as medidas
e desvairava com a Senhora de Rênal!
Eram amores que deixavam feridas,
como se fossem na vida real.

Na vida real, também os havia:
amei (às escondidas), a valer,
uma menina que quase não via!

E dava-me um enorme apetecer,
vê-la, chegada, airosa, da Manhiça,
linda e amorosa comigo. Chiça! 

Eugénio Lisboa

AMOR CÃO

 


Meu texto no último As Artes entre as Letras:

Amor Cão e outras palavras que não adestram é o último livro de poesia de Rosa Alice Branco (n. 1950, em Aveiro), vindo juntar-se a cerca de uma dúzia de outros livros do mesmo género literário. Já o primeiro (Animais da Terra, Limiar, 1988) falava de animais. Mas outros se seguiram na mesma linha: Da Alma e dos Espíritos Animais (Campo das Letras, 2001) – «espíritos animais» é a expressão de John Maynard Keynes para designar as emoções que influenciam as nossas decisões espontâneas –,  Animal Volátil (Afrontamento, 2005, com Casimiro de Brito), e, o título mais original, o Gado do Senhor (&etc), que foi não só traduzido para inglês como recomendado pela Chicago Review of Books em Dezembro de 2016 como «um dos dez melhores livros desse mês». A poesia de Rosa Branco, que entrou no excelente catálogo da Assírio & Alvim com Traçar um Nome no Coração do Branco (2018), encontra-se, em parte,  reunida na obra Soletrar do Dia: Obra poética (Quási, 2002).

De onde vem o interesse da autora não só pelos animais, mas também por aquilo – e tanto é! – que há de animal em nós? Tem a ver, julgo eu, com a sua formação científica e o seu interesse pelo tema da percepção na Filosofia. Rosa Branco fez o curso de Farmácia na Universidade do Porto, para satisfazer a vontade do pai, o artista plástico e cineasta Vasco Branco, activo nos círculos de oposição ao Estado Novo no centro do país, que se tinha também formado em farmácia. Depois doutorou-se em Filosofia Contemporânea na Universidade Nova de Lisboa, precisamente sobre o problema da percepção, orientada pelo saudoso Fernando Gil. A perceção humana  está carregada de herança biológica. A autora fala dos animais para falar do humano, a parte do mundo que afinal mais nos interessa. A poeta, que ensina teoria da percepção na Escola Superior de Artes e Design do Porto, fala-nos em Amor Cão, com invulgar capacidade lírica, das percepções canina e humana. Somos, em muitos aspectos, semelhantes aos nossos «melhores amigos».

O livro é composto por 44 poemas todos eles iniciados por uma epigrafe do médico e etologista austríaco Konrad Lorenz (1903-1989), Prémio Nobel da Medicina em 1973,  autor, entre outros livros traduzidos entre nós,  de E o Homem Encontrou o Cão (Relógio de Agua 1987). O cão (Canis lupus familiaris) é o mais antigo animal domesticado pelo homem, a partir do lobo (Canis lupus), ainda antes da Revolução Neolítica, há 10 000 anos, quando o homem se sedentarizou, iniciou a agricultura e começou a domesticar outros animais. O cão é, para muitos zoólogos, uma subespécie do lobo e não uma espécie distinta. Foi longo e complexo o processo de cruzamento de espécies e de adaptação ao meio que tornou possível a presença de um lobo em nossa casa.  

Todos os poemas são glosas de frases seleccionadas do referido Nobel, que remetem para a nossa história natural e para a nossa relação com os canídeos. O poema 44 explica: «(…) Se Lorenz dá sentido aos sons/ que imitam o verso, é porque o sigo como cão lupino, / predador e animal vagabundo a uivar à sua porta/ o acolhimento feroz da escrita (…)» Sobre o comportamento canino já muito antes de Lorenz o povo exprimia em provérbios a sua sabedoria (por exemplo, «Cão que ladra, não morde») e aplicava-a aos humanos. Boa observadora do comportamento de canídeos e humanos, Rosa Branco discorre em tom filosófico sobre as alegrias e as tristezas de uns e de outros. De vez em quando deparamos com vocabulário científico: «decifrar as leis que regem ao astros e os seres/ é o mesmo astronómico desafio (…)» (poema 3) ou «Talvez ela [a mãe] suspeite que o ADN da criança/ tenha os dentes sujos do animal/ cravados no escuro do coração» (poema 7). As metáforas animais para descrever a vida humana estão omnipresentes, por exemplo: «(…) A verdade é que a fome/ dos lobos é igual a da tribo que caminha sem termo, pequena alcateia de homens uivando por carne» (poema 8). Sabemos hoje que o nosso paralelismo com o mundo animal é mais do que metafórico. Já Antero de Quental no seu soneto «Evolução» tinha percebido a teoria darwiniana ao escrever: «Rugi, fera talvez, buscando abrigo/ Na caverna que ensombra urze e giesta.» Temos dentro de nós toda a nossa história animal.

É assaz interessante, como nota Lorentz na epígrafe do poema 26, que a palavra «cadela» tenha uma conotação tão negativa na língua portuguesa. Mas cães e cadelas dão-nos muitas recompensas, designadamente o ladrar intenso quando vêem os donos. Aposto que a autora também tem um ou mais cães em casa, pois só essa circunstância  lhe permite falar da percepção canina com tanta fidelidade (para usar uma palavra normalmente associada a cães) como o faz. Como ilustração, o poema 18 mostra como um cão sabe esperar pelos donos até que eles regressem: «(…) O cão espera/ como se espera a vida, ensaia coreografia da chegada,/ colado à porta em passos elegantes para nada.» O livro fala das violências canina e humana: por exemplo, no poema 11, no qual um homem primitivo seduz um chacal dando-lhe carne  fresca (o poema  conclui: «um marido irado é só doméstico na violência.») ou no poema 22, que fala de um ataque de um pitbull, mortal para vítima e para o cão, que foi abatido por «instância dos vizinhos (comenta o dono, no fim: «Devia era ter abatido os vizinhos»), ou, ainda, no poema 26,  que retrata um crime doméstico em que a mulher é assistida pelo seu cão («A Lady/ arrebita as orelhas e lambe a mulher, cheia de solidariedade/ cúmplice. Afinal a dona é canina camo ela»).

Encerro com um excerto do  poema 15, sobre a coreografia do reencontro entre donos e cães, que espero convide a ler o livro: «Depois de um tempo fora,/ o dono regressa como pura luz no horizonte,/ exaltação do big-bang na alegria esfusiante da cadela/ em loucas correrias e carinhos. Antes da viagem/ já lhe farejava a partida espiava as malas,/ não saía do dono nem comia, e a respiração arquejante/ deixava adivinhar a neurose que a consumia./ Quando por fim chegou/ um uivo desmedido atingiu-o no peito/ e logo a cadela saltava de alegria em torno das pernas,/ aconchegada nos braços estendidos.» Raramente a relação entre cães e homens foi, entre nós, tão bem tratada na arte poética. Eu tenho duas cadelas (mãe e filha, esta de pai incógnito). Sempre me tendo dado bem com a mãe, mas fiquei um dia muito zangado com a filha por ela, em pequena, me ter roído alguns livros valiosos. Cresceu, deixando de me destruir livros,  e já lhe perdoei.  Depois de ler Amor Cão fiz-lhe umas festas e ela gostou tanto como eu.

 

UMA HISTÓRIA EXEMPLAR

Novo texto de Eugénio Lisboa :

  Quando, em 1978, fui para Londres, na qualidade de conselheiro cultural da nossa embaixada, contaram-me uma história que nunca mais esqueci. Foi-me contada pelo chanceler, Fernando Mendes, homem competentíssimo, de quem me viria a tornar amigo. 

Fora trabalhar, na embaixada, ainda muito novo e logo a seguir ao fim da segunda guerra mundial, quando, em Inglaterra se vivia num regime de muito severo racionamento de tudo, incluindo bens alimentares. Passava-se ali uma “fome de rabo”. Fernando Mendes dava-nos pormenores impressionantes da forma como se vivia mal, naqueles tempos de frugalidade. E, como era costume com os ingleses, a frugalidade era para todos, incluindo ministros e até para a família real, no Palácio de Buckingham. 

Para ilustrar isto, de forma impressiva, contou-me a história da ida da nossa famosa violoncelista, Guilhermina Suggia, a Londres, nesse período de austeridade, para ali dar um concerto. Tendo ficado hospedada, no Palácio de Buckingham, como convidada da família real, ali comia as suas refeições. Depois de um jantar frugalíssimo, como era de regra, Suggia foi dar o concerto, a meio do qual, desmaiou… de fome. Sim, que o violoncelo exige um grande dispêndio de energia! Isto é um exemplo do espírito de cidadania democrática, que, nessa altura, em muito contrasta com o que se passa nas democracias ditas populares, nas quais o povo passa a tal fome de rabo, enquanto os senhores do poder e adjacentes passam a viver em palácios sumptuários, como aconteceu, por exemplo, em Budapeste, ou em condomínios de luxo, onde nada falta. Vi isso em Moçambique, no princípio da independência, quando os Senhores do poder popular, se recusavam a beber os melhores vinhos a não ser em copos de cristal, surripiados “alfandegariamente” e “legitimamente” a portugueses que dali partiam, sem saberem para que destino e com uma mão à frente e outra atrás. E afirmavam, alto e bom som, que “tinham direito”, um direito que, curiosamente, se não estendia ao resto do povo. Isto passou e passa-se, de resto, em todas as democracias populares, sem excepção. Mas não se passava, e não por acaso, na decadente e burguesa democracia inglesa. Os regimes julgam-se por actos e decisões e não por palavreado sonoro e oco. Não há maiores depredadores do que os indivíduos cheios de razão histórica e de legitimidade ideológica. Para eles, vale tudo, até o massacre em massa dos adversários políticos, como foi o caso de um dos piores poetas que já existiram e que se chamou Agostinho Neto. Eugénio Lisboa

quarta-feira, 22 de junho de 2022

A constante luta entre clássico e moderno

João Boavida 

Quando disse, em texto anterior, que o bom escritor faz o leitor e, inversamente, o bom leitor exige qualidade ao escritor, pretendi chamar a atenção para a relação do artista com o seu público, e pela qual ambos mutuamente se potenciam, ou enfraquecem. 

Um texto de qualidade é reconhecido como tal mesmo que o leitor não tenha muito treino, desde que, como é óbvio, o perceba minimamente. Pode não descobrir todas as potencialidades que o texto encerra, mas mesmo que considere somente alguns aspetos, ao sentir um mínimo de empatia reconhece as suas qualidades, ou, pelo menos, sente que há nele aspetos que o atraem.

O ato de o compreender, mesmo que não completamente, e a atração sentida, produzem no leitor uma usufruição estética ou a intuição do que isso seja. Ora, este é um processo de crescimento em que o leitor se sente amadurecer e se vai reconhecendo mais capaz de tirar de um texto o que ele pode dar.

Se tomarmos a questão pelo lado do escritor, reconhecemos um processo inverso mas que se entrosa com este. Com efeito, um leitor exigente e amadurecido, com referências bem estabelecidas e capacidade de avaliação, não vai perder tempo com escritos sem qualidade literária nem ideias válidas. E, portanto, ou os escritores produzem objetos literários de qualidade ou não serão lidos por quem interesse, ou seja, pelos leitores mais exigentes e capacitados.

No primeiro caso, era o escritor que condicionava o leitor, agora é este que condiciona aquele.

Mas donde vem a qualidade literária que o escritor procura e o leitor reconhece? E como apreciá-la?

Podemos dizer que a qualidade literária é definida por um cânone (Vd., por exemplo, H. Bloom, O cânone ocidental – os grandes livros e os escritores essenciais de todos os tempo, Lisboa, Temas e Debates, 2.013; A. Feijó, J. Figueiredo, M. Tamen, (eds.) O cânone, Lisboa, Tinta-da-China, 2020). 

Por vaga e implícita que seja há sempre alguma referência que define balizas à compreensão de um texto e à capacidade do leitor para o usufruir, e que estabelece níveis de realização ao escritor. Portanto, embora nem sempre se tenha noção disto, e por muito leve e pouco fundamentada que seja essa avaliação, uma leitura está sempre a ser enquadrada pelo leitor numa tabela valorativa, que lhe permite ir fazendo juízos sobre o que lê. E, por outro lado, o escritor irá sentindo maior ou menos satisfação com o que está a produzir, tendo em conta os cânones mais ou menos implícitos por que se rege e constituem a sua tabela de valores.

O cânone é, pois, uma escala valorativa, um padrão de qualidade a partir das obras já realizadas. Os cânones vão-se formando com maior ou menor estrutura teórica a partir das obras consideradas as mais conseguidas numa cultura, e são definidos basicamente pela aprovação dos pares, ou seja, dos que em princípio estão mais aptos a apreciar, a alto nível, aquilo que se produziu.

Foi assim que, ao longo dos séculos – desde há quase de 3.000 anos, e a partir de obras como a Bíblia, os Poemas homéricos, Ilíada e Odisseia, a Poesia e o Teatro Grego, a Filosofia, e depois pela grandes obras latinas, helenísticas e medievais, até aos nossos dias - se foi formando o chamado Cânone Ocidental. 

Foi a partir de obras que, resistindo ao tempo, foram definindo um gosto, um conjunto de modalidades de expressão, de formas, de regras e, sobretudo, de níveis de exigência, que mais ou menos implicitamente foram condicionando autores e leitores.

É claro que toda a criação exige mudanças porque uma dinâmica de inovação está implícita na própria ação criativa. Se um artista não for além do que outros fizeram e do modo como sempre o fizeram não terá grande interesse porque a cópia é o contrário da criação, por muito perfeita e “artística” que seja. Por isso, a evolução artística em geral, e literária em particular, não estagna, porque vão aparecendo novas correntes, novas formas de criação que, por sua vez, vão exigindo novas formas de apreciação. 

Estas novas formas de avaliação são impostas pelas criações inovadoras e originais, e acabam, em grande medida, por vir ao seu encontro, digamos assim, adaptando-se-lhe, uma vez que vão progressivamente integrando essas obras e os novos critérios de que necessitam.

Podemos considerar portanto que há dois movimentos paralelos, que, embora opostos, vão interagindo: um, o da inovação, outro, o da consolidação e da referência. A novidade que a criação vai produzindo, e que às vezes provoca grandes reações e rejeições, vai sendo assimilada com maior ou menor dificuldade e, neste processo, vai criando as suas formas canónicas; isto é, vai introduzindo novidade nas formas de apreciação que vêm de trás, e assim vai colaborando na transformação e enriquecimento do cânone. 

Mas há uma matriz básica que subjaz a este processo, que constitui um substrato de referência e de enquadramento, e que vai permanecendo apesar de todas as inovações. Não permanece rígido e estático, mas antes enriquecendo-se e alterando-se vai perdendo umas referências e ganhando outras. Esta modificação é, porem, dupla, porque a própria inovação ao transformar o cânone transforma-se a si mesma, vai sendo assimilada por ele.

Daí que as grandes mudanças nas correntes artísticas acabam por perder a novidade e transformarem-se, em geral, em contributos e enriquecimentos a usar posteriormente; em suma, perdem muita da sua acutilância porque se vão integrando no cânone, até por sua vez provocarem renovações pois, com o tempo, irá sofrer o mesmo efeito. Entretanto o cânone tem tendência a alargar-se tornando-se mais elástico.

Ora, este processo tem o seu ritmo de transformação, digamos, ideal. Em certas épocas de maior agitação e mudança social é natural que os cânones tenham tendência a ser contestados e mudados com mais rapidez, noutras mais estabilizadas, acontecerá menos. Por outro lado, a aceitação ou não de um código novo tem tanto a ver com a sua necessidade de novidade como com o grau de estabilização e de valorização do código anterior. É também, em grande medida, uma questão de pessoas e de gerações, e dependente também do grau de formação e do nível de interiorização dos valores que o enformam. 

A valorização do cânone estabelecido tem ainda que ver com o âmbito da sua aceitação; cada leitor, por sua vez, aderirá mais ou menos ao novo consoante o sinta mais ou menos necessário, e esteja mais ou menos convicto relativamente ao anterior. Pode acontecer ainda que um criador se sature mais cedo de certas formas, que outro, que o seu espírito irrequieto exija novidades onde outro, mais clássico, vê ainda muito campo de aperfeiçoamento e de progressão.

Se um escritor novo renega todos os códigos anteriores e se vangloria, por exemplo, de não ler os clássicos (antigos e modernos) para melhor poder fazer obra original, está provavelmente a deitar fora as condições para a obra inovadora que pretende. Por outro lado, procurar a novidade a todo o custo pode tornar-se demasiado pesado, e até desgastante. O mais vulgar é ainda o escritor entrar com rompantes inovadores e, depois, perdê-los à medida que a obra ganha consistência e acomodação. Um dia será contestado, mas o que de válido conseguir entrará no cânone sempre em reformulação. 

João Boavida

“DIAS DE CÓLERA”

Maria Helena Damião e Isaltina Martins

Em França, neste ano lectivo, no exame nacional de francês de candidatos ao bac (bacharelado) saiu um texto para comentar retirado do livro “Jours de colère” (Gallimard), de uma escritora premiada, Sylvie Germain. 

Muitos alunos entenderam que o texto era desadequado e difícil. Com as redes sociais à mão, demonstraram aí, no imediato, o seu descontentamento. Significa isto o que significa noutros casos: insulto e intimidação. E, com a força e a rápida divulgação que estas redes adquirem, a questão deu brado na comunicação social, que fez eco dessa revolta dos estudantes, comentando e entrevistando professores e a própria autora do texto.

[Já dias antes, nas provas dos cursos profissionais, tinha sido notícia a reacção de alguns alunos à saída da prova, indignados com a utilização, numa das questões propostas, do termo “lúdico” cujo significado desconheciam]. 

Sylvie Germain foi, de facto, a principal visada e, ao que se refere em notícias publicadas, de modo particularmente violento. Ouvida, disse: 

“… pessoalmente não me sinto preocupada. Estou, porém, bastante preocupada com o sintoma que revela. É grave que os alunos que chegam ao final da escolaridade demonstrem tanta imaturidade e desprezo pela língua, pelo esforço de reflexão assim como pela imaginação e também tão pouca curiosidade e abertura de espírito. O trecho destinado a análise não era delirante, o vocabulário era acessível, mas alguns alunos, contentam-se com um vocabulário tão reduzido, rico apenas em insultos e invectivas, que qualquer escrita um pouco elaborada constitui para eles um desafio, um ultraje.” 

Disse também a escritora: 

“não sinto raiva, só desolação diante de tanta cegueira e falta de questionamento (se eles não passarem no teste de francês será, segundo eles, por causa do meu texto… não por falta de trabalho e reflexão), da sua grosseira rejeição da cultura que lhes é proporcionada no ensino secundário. Querem diplomas sem nenhum esforço, proclamam-se vítimas e elegem como perseguidores aqueles mesmos que eles insultam e ameaçam. Em que adultos se tornarão?”

E acrescentou:

“Tudo isso é tão absurdo quanto angustiante (…) Só posso desejar aos alunos que aprendam a ler, que se esforcem por pensar por si mesmos, que amem as palavras, e também que avaliem o seu peso, significado preciso e as possíveis consequências quando as utilizam.” 

Sylvie Germain explica em breves palavras, uma realidade que, mais cedo ou mais tarde, temos de encarar, sob pena de desmoronamento social e civilizacional: as crianças e os jovens não se educam sozinhos nem se educam uns aos outros. 

Os adultos, responsáveis pela sua educação, fazem-lhes crer que sim, que eles são o centro do universo, que devem seguir os seus interesses, necessidades, espontaneidades, que podem pautar-se pelas suas emoções e perseguir a felicidade (que felicidade?), põem-lhes nas mãos instrumentos programados ao milímetro para reagirem aos mais leves estímulos, nomeadamente aos que contrariam as suas vontades, que de forma pré-definida se lhes incutem. Isto está entranhado no espaço mediático (que se tornou o espaço público de convivência), familiar e, mesmo, escolar.

Os comportamentos dos mais novos que nos inquietam (e, por isso, são notícia) constituem o “sintoma” de que a escritora fala, não são causa.

A causa somos nós, adultos, que manipulamos conscientemente para obtermos proveitos (e muitos o fazem de modo altamente especializado), que nos demitimos (cada vez mais o fazem, vencidos que se sentem), ou nos alheamos (sob o pretexto de não ser assunto nosso, outros que o tratem) da sua educação. 

Acontece que não há volta a dar: como adultos, somos todos, sem excepção, responsáveis pela novas gerações. Os desvios, os erros que agora estamos a cometer têm consequências óbvias no futuro: serão os adultos que não educámos devidamente que ficarão no mundo. Isto também é notado pela escritora. 

Para prevenir casos como este, alguém avançou uma solução: por uma questão de segurança, não escolher textos de autores vivos para exames.

Um penso rápido numa ferida aberta que sangra cada vez mais! Se formos por aí, o título da obra em causa torna-se proverbial: outros “dias de cólera” chegarão!
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Texto baseado sobretudo em notícias do jornal Le Figaro. As imagens foram recolhidas nas mesmas fontes:

-https://etudiant.lefigaro.fr/article/ils-ont-une-haine-de-la-langue-de-l-effort-de-reflexion-sylvie-germain-repond-aux-lyceens-qui-la-harcelent_45e2f5d6-f14e-11ec-aecb-a5c44b571225/
-https://etudiant.lefigaro.fr/article/l-ecrivain-sylvie-germain-victime-d-un-torrent-d-insultes-sur-les-reseaux-sociaux-apres-l-ecrit-du-bac-de-francais_dac6f9b4-f076-11ec-83d6-f149b8e320dc/

O que é a noite senão o frémito

O que é a noite senão o frémito Desse terno corpo sem término Que alguém eterno ouve dentro de ti.