domingo, 26 de junho de 2022

Ainda sobre o moderno e o clássico

Na continuação do texto A constante luta entre clássico e moderno

João Boavida

É isso mesmo, volto ao tema, do moderno e do clássico. 

Se um autor jovem, cheio de vitalidade e de ambição promete a si mesmo fazer uma obra verdadeiramente revolucionária, ninguém o deve criticar e oxalá que o consiga. Mas será útil chamar-lhe a atenção para alguns problemas. 

Em primeiro lugar, deverá ter alguma consciência dos limites dessa ambição e do horizonte que irá enquadrar a sua obra; em suma, ter ideia de até onde pensa ir e qual o nível da sua satisfação futura. Parece uma ideia estranha porque ninguém pode, à partida, saber até onde será capaz de ir, mas para não se perder em esforços despropositados ou caminhos sem sentido, deve ter alguma ideia disso. 

Ninguém chega a um determinado lugar se não souber minimamente que lugar é esse nem onde fica. Há (ou deve haver) uma conceção pessoal que irá enquadrar as realizações futuras, e um caminho a percorrer. Ou seja, mesmo que difusa, deve haver, à partida, uma ideia de realização que deseja levar a cabo. 

Um segundo problema, certamente mais difícil, é saber com que meios e com que forças vai concretizar isso, ou seja, se tem talento suficiente para o conseguir. Talento e persistência, capacidade de resistência às frustrações, resiliência face às adversidades, como agora se diz. Ninguém o sabe, ao certo, nem o próprio, pois muito provavelmente lhe faltarão meios de avaliação objetiva. É provável que as competências literárias lhe vão crescendo, mas a ambição pode ser desmedida em relação às capacidades. 

A vontade e o trabalho, embora muito importantes, não são condições suficientes, é preciso também talento, dom natural e até sorte. E tudo isto sopra onde e quando os deuses querem e não onde e quando os autores desejam. E embora, isso, só o tempo o possa esclarecer, é um dos grandes problemas que o autor que se pretenda revolucionário terá que enfrentar e que o pode levar ao falhanço. Se puder adaptar as expectativas às possibilidades, só terá a ganhar. 

Por mais revolucionário que um autor queira ser, partirá sempre de um dado ponto desse acervo extraordinário de quase três mil anos e de um número imenso de produções literária de todos os géneros. Ora, isto deve ser minimamente conhecido por qualquer autor que se queira original, porque é possível que a sua pretendida originalidade já outros, antes dele, a tenham tentado, e talvez até alcançado, pelo menos em alguns aspetos. O que não quer dizer, mesmo assim, que o não venha a conseguir.

Em arte, como em ciência, os maiores são-no em boa medida porque outros antes deles os ajudaram a subir mais alto, e é sobre esta base que melhor se pode inovar porque só deste modo se pode ver para além deles e superá-los verdadeiramente. É assim que surgem novas correntes, ou se renovam as anteriores, e dum terreno esgotado podem surgir novas plantas, com outro viço e aromas inesperados. A novidade é, pois, um bem valioso se – e só se – dela resultar um novo campo de produção artística, com novas realizações, inéditos padrões de beleza e juízos estéticos enriquecedores.

É claro que, num processo destes – e para ser coerente com a sua intenção – o artista tem que tentar, experimentar, arriscar. Mas, ao fazê-lo, tem que estar consciente de que pode falhar, e de que muito do que faz será provavelmente esquecido, ou seja, que a sua novidade pode não o ser, ou não vir ao encontro de nenhuma necessidade social e culturalmente sentida. O tempo se encarregará de concluir se aquele contributo foi ou não valioso para a novas formas de realização, se veio abrir outros caminhos, ou se tudo aquilo não passou de um fogo de palha. 

Por último, as diversas escolas e correntes surgiram sempre da necessidade de renovação, da procura de novas produções porque os campos pareciam esgotados. Isto exigia quase sempre movimentos de renovação, com transformação de quadros interpretativos e novas formas de fazer, muitas vezes dissonantes em relação a sensibilidades passadas e presentes. Tentava-se fazer melhor, estar atento a outras coisas, abrir novas perspetivas. O que desencadeava os movimentos era a necessário de ir mais além ou por outros caminhos.

Ou seja, o tentar fazer melhor e encontrar outras vias produzia a diferença, e não era a diferença que, por si só, produzia melhor. Quero eu dizer que uma coisa é querer fazer melhor, e para isso ter que romper com certos quadros e determinados cânones, outra é eu querer fazer diferente e, para isso, vou à procura das novidades. 

Parece-me que, hoje, e para muita gente, a mudança transformou-se num valor em si mesmo, e não num meio para produzir valor. Não sei se não é um erro, uma contínua doença de crescimento que hoje nos ataca. 

Talvez devêssemos ter mais consciência disso, para nos curarmos deste erro, se acaso o é. 

João Boavida

sábado, 25 de junho de 2022

PAULA REGO

Deste à singular pintura, tua,
bebida no sangue das tuas feridas,
uma violência perversa e nua, 
só própria das almas destemidas.

Acendeste uma luz muito clara,
na vida torturada das mulheres
e desvendaste a odiosa tara
dos que tinham masculinos poderes.

Mas fizeste mais do que desvendar:
vingaste-te, com desmedida força,
de quem está disposta a assassinar

e de quem goza quando se desforça.
Contas ajustadas em tela e tinta,
que tudo, debaixo do sol, se pinta. 

Eugénio Lisboa

O "MAIA" E A PERDA DO FOCO DA EDUCAÇÃO

Sei que há, em instituições de ensino superior e em escolas públicas, grandes entusiastas do Projeto de Monitorização Acompanhamento e Investigação em Avaliação Pedagógica (MAIA), tutelado pelo Ministério da Educação. Ao que percebo, os entusiastas são os seus mentores e replicadores oficiais, não os professores que o aplicam.

Estes, a menos que esteja muito enganada no juízo que faço, tendem a ser críticos do projecto: dos seus fundamentos, da sua metodologia e dos resultados a que conduz (ver, por exemplo, aqui). Uns explicam-no abertamente, outros em círculos restritos. Há ainda outros que, na dúvida, mantêm reserva.

De qualquer maneira, estando numa escola que se tenha voluntariado para a sua aplicação, é muito difícil aos professores, mesmo que estejam conscientes da falta de sentido educativo do que fazem, dos erros pedagógicos que replicam, das consequências nefastas que daí advêm, deixarem de participar no turbilhão inexplicável de critérios, grelhas, registos... que o processo em causa implica.

Turbilhão que, focado na obsessão de avaliar, a todo o momento, todos em relação a tudo, com base numa técnica, supostamente objectiva, faz perder o verdadeiro foco da educação: o aperfeiçoamento humano. Falo de uma perfeição que, na educação escolar, tenta conseguir-se através do conhecimento académico e da estimulação de capacidades do educando, subordinados ao respeito pelos valores éticos.

O foco da educação é este e não pode deixar de o ser, não pode ser outro. Por uma razão simples, que devia ser evidente: só através da aprendizagem da humanidade cada ser humano tem possibilidade de se tornar verdadeiramente humano. Desistir de tal fim é desistir de cada ser humano e da humanidade

Digo isto de outro modo: o foco da educação não é, não pode ser a recolha de uma torrente de dados, obtidos através de manifestações de comportamentos directamente observáveis (voltamos, desvirtuando, ao behaviorismo clássico, tão criticado por aqueles que o usam!). A obtenção de alguns dados relativos à aprendizagem tem uma função instrumental de apoio à decisão, no quadro das funções social e pedagógica da avaliação (destas duas funções deixei registo aqui).

Uma vez que o MAIA desvia o rumo da educação para o que não é educativo (para o que é meramente instrumental), o seu futuro só pode ser a extinção!

quinta-feira, 23 de junho de 2022

LÁ, ANTIGAMENTE

Lá, as coisas tinham dimensões Índicas.
As trovoadas eram mesmo a sério.
Juro-vos que estas coisas são verídicas
e não puras balelas do império.

As irmãs Brontë enchiam-me as medidas
e desvairava com a Senhora de Rênal!
Eram amores que deixavam feridas,
como se fossem na vida real.

Na vida real, também os havia:
amei (às escondidas), a valer,
uma menina que quase não via!

E dava-me um enorme apetecer,
vê-la, chegada, airosa, da Manhiça,
linda e amorosa comigo. Chiça! 

Eugénio Lisboa

AMOR CÃO

 


Meu texto no último As Artes entre as Letras:

Amor Cão e outras palavras que não adestram é o último livro de poesia de Rosa Alice Branco (n. 1950, em Aveiro), vindo juntar-se a cerca de uma dúzia de outros livros do mesmo género literário. Já o primeiro (Animais da Terra, Limiar, 1988) falava de animais. Mas outros se seguiram na mesma linha: Da Alma e dos Espíritos Animais (Campo das Letras, 2001) – «espíritos animais» é a expressão de John Maynard Keynes para designar as emoções que influenciam as nossas decisões espontâneas –,  Animal Volátil (Afrontamento, 2005, com Casimiro de Brito), e, o título mais original, o Gado do Senhor (&etc), que foi não só traduzido para inglês como recomendado pela Chicago Review of Books em Dezembro de 2016 como «um dos dez melhores livros desse mês». A poesia de Rosa Branco, que entrou no excelente catálogo da Assírio & Alvim com Traçar um Nome no Coração do Branco (2018), encontra-se, em parte,  reunida na obra Soletrar do Dia: Obra poética (Quási, 2002).

De onde vem o interesse da autora não só pelos animais, mas também por aquilo – e tanto é! – que há de animal em nós? Tem a ver, julgo eu, com a sua formação científica e o seu interesse pelo tema da percepção na Filosofia. Rosa Branco fez o curso de Farmácia na Universidade do Porto, para satisfazer a vontade do pai, o artista plástico e cineasta Vasco Branco, activo nos círculos de oposição ao Estado Novo no centro do país, que se tinha também formado em farmácia. Depois doutorou-se em Filosofia Contemporânea na Universidade Nova de Lisboa, precisamente sobre o problema da percepção, orientada pelo saudoso Fernando Gil. A perceção humana  está carregada de herança biológica. A autora fala dos animais para falar do humano, a parte do mundo que afinal mais nos interessa. A poeta, que ensina teoria da percepção na Escola Superior de Artes e Design do Porto, fala-nos em Amor Cão, com invulgar capacidade lírica, das percepções canina e humana. Somos, em muitos aspectos, semelhantes aos nossos «melhores amigos».

O livro é composto por 44 poemas todos eles iniciados por uma epigrafe do médico e etologista austríaco Konrad Lorenz (1903-1989), Prémio Nobel da Medicina em 1973,  autor, entre outros livros traduzidos entre nós,  de E o Homem Encontrou o Cão (Relógio de Agua 1987). O cão (Canis lupus familiaris) é o mais antigo animal domesticado pelo homem, a partir do lobo (Canis lupus), ainda antes da Revolução Neolítica, há 10 000 anos, quando o homem se sedentarizou, iniciou a agricultura e começou a domesticar outros animais. O cão é, para muitos zoólogos, uma subespécie do lobo e não uma espécie distinta. Foi longo e complexo o processo de cruzamento de espécies e de adaptação ao meio que tornou possível a presença de um lobo em nossa casa.  

Todos os poemas são glosas de frases seleccionadas do referido Nobel, que remetem para a nossa história natural e para a nossa relação com os canídeos. O poema 44 explica: «(…) Se Lorenz dá sentido aos sons/ que imitam o verso, é porque o sigo como cão lupino, / predador e animal vagabundo a uivar à sua porta/ o acolhimento feroz da escrita (…)» Sobre o comportamento canino já muito antes de Lorenz o povo exprimia em provérbios a sua sabedoria (por exemplo, «Cão que ladra, não morde») e aplicava-a aos humanos. Boa observadora do comportamento de canídeos e humanos, Rosa Branco discorre em tom filosófico sobre as alegrias e as tristezas de uns e de outros. De vez em quando deparamos com vocabulário científico: «decifrar as leis que regem ao astros e os seres/ é o mesmo astronómico desafio (…)» (poema 3) ou «Talvez ela [a mãe] suspeite que o ADN da criança/ tenha os dentes sujos do animal/ cravados no escuro do coração» (poema 7). As metáforas animais para descrever a vida humana estão omnipresentes, por exemplo: «(…) A verdade é que a fome/ dos lobos é igual a da tribo que caminha sem termo, pequena alcateia de homens uivando por carne» (poema 8). Sabemos hoje que o nosso paralelismo com o mundo animal é mais do que metafórico. Já Antero de Quental no seu soneto «Evolução» tinha percebido a teoria darwiniana ao escrever: «Rugi, fera talvez, buscando abrigo/ Na caverna que ensombra urze e giesta.» Temos dentro de nós toda a nossa história animal.

É assaz interessante, como nota Lorentz na epígrafe do poema 26, que a palavra «cadela» tenha uma conotação tão negativa na língua portuguesa. Mas cães e cadelas dão-nos muitas recompensas, designadamente o ladrar intenso quando vêem os donos. Aposto que a autora também tem um ou mais cães em casa, pois só essa circunstância  lhe permite falar da percepção canina com tanta fidelidade (para usar uma palavra normalmente associada a cães) como o faz. Como ilustração, o poema 18 mostra como um cão sabe esperar pelos donos até que eles regressem: «(…) O cão espera/ como se espera a vida, ensaia coreografia da chegada,/ colado à porta em passos elegantes para nada.» O livro fala das violências canina e humana: por exemplo, no poema 11, no qual um homem primitivo seduz um chacal dando-lhe carne  fresca (o poema  conclui: «um marido irado é só doméstico na violência.») ou no poema 22, que fala de um ataque de um pitbull, mortal para vítima e para o cão, que foi abatido por «instância dos vizinhos (comenta o dono, no fim: «Devia era ter abatido os vizinhos»), ou, ainda, no poema 26,  que retrata um crime doméstico em que a mulher é assistida pelo seu cão («A Lady/ arrebita as orelhas e lambe a mulher, cheia de solidariedade/ cúmplice. Afinal a dona é canina camo ela»).

Encerro com um excerto do  poema 15, sobre a coreografia do reencontro entre donos e cães, que espero convide a ler o livro: «Depois de um tempo fora,/ o dono regressa como pura luz no horizonte,/ exaltação do big-bang na alegria esfusiante da cadela/ em loucas correrias e carinhos. Antes da viagem/ já lhe farejava a partida espiava as malas,/ não saía do dono nem comia, e a respiração arquejante/ deixava adivinhar a neurose que a consumia./ Quando por fim chegou/ um uivo desmedido atingiu-o no peito/ e logo a cadela saltava de alegria em torno das pernas,/ aconchegada nos braços estendidos.» Raramente a relação entre cães e homens foi, entre nós, tão bem tratada na arte poética. Eu tenho duas cadelas (mãe e filha, esta de pai incógnito). Sempre me tendo dado bem com a mãe, mas fiquei um dia muito zangado com a filha por ela, em pequena, me ter roído alguns livros valiosos. Cresceu, deixando de me destruir livros,  e já lhe perdoei.  Depois de ler Amor Cão fiz-lhe umas festas e ela gostou tanto como eu.

 

UMA HISTÓRIA EXEMPLAR

Novo texto de Eugénio Lisboa :

  Quando, em 1978, fui para Londres, na qualidade de conselheiro cultural da nossa embaixada, contaram-me uma história que nunca mais esqueci. Foi-me contada pelo chanceler, Fernando Mendes, homem competentíssimo, de quem me viria a tornar amigo. 

Fora trabalhar, na embaixada, ainda muito novo e logo a seguir ao fim da segunda guerra mundial, quando, em Inglaterra se vivia num regime de muito severo racionamento de tudo, incluindo bens alimentares. Passava-se ali uma “fome de rabo”. Fernando Mendes dava-nos pormenores impressionantes da forma como se vivia mal, naqueles tempos de frugalidade. E, como era costume com os ingleses, a frugalidade era para todos, incluindo ministros e até para a família real, no Palácio de Buckingham. 

Para ilustrar isto, de forma impressiva, contou-me a história da ida da nossa famosa violoncelista, Guilhermina Suggia, a Londres, nesse período de austeridade, para ali dar um concerto. Tendo ficado hospedada, no Palácio de Buckingham, como convidada da família real, ali comia as suas refeições. Depois de um jantar frugalíssimo, como era de regra, Suggia foi dar o concerto, a meio do qual, desmaiou… de fome. Sim, que o violoncelo exige um grande dispêndio de energia! Isto é um exemplo do espírito de cidadania democrática, que, nessa altura, em muito contrasta com o que se passa nas democracias ditas populares, nas quais o povo passa a tal fome de rabo, enquanto os senhores do poder e adjacentes passam a viver em palácios sumptuários, como aconteceu, por exemplo, em Budapeste, ou em condomínios de luxo, onde nada falta. Vi isso em Moçambique, no princípio da independência, quando os Senhores do poder popular, se recusavam a beber os melhores vinhos a não ser em copos de cristal, surripiados “alfandegariamente” e “legitimamente” a portugueses que dali partiam, sem saberem para que destino e com uma mão à frente e outra atrás. E afirmavam, alto e bom som, que “tinham direito”, um direito que, curiosamente, se não estendia ao resto do povo. Isto passou e passa-se, de resto, em todas as democracias populares, sem excepção. Mas não se passava, e não por acaso, na decadente e burguesa democracia inglesa. Os regimes julgam-se por actos e decisões e não por palavreado sonoro e oco. Não há maiores depredadores do que os indivíduos cheios de razão histórica e de legitimidade ideológica. Para eles, vale tudo, até o massacre em massa dos adversários políticos, como foi o caso de um dos piores poetas que já existiram e que se chamou Agostinho Neto. Eugénio Lisboa

quarta-feira, 22 de junho de 2022

A constante luta entre clássico e moderno

João Boavida 

Quando disse, em texto anterior, que o bom escritor faz o leitor e, inversamente, o bom leitor exige qualidade ao escritor, pretendi chamar a atenção para a relação do artista com o seu público, e pela qual ambos mutuamente se potenciam, ou enfraquecem. 

Um texto de qualidade é reconhecido como tal mesmo que o leitor não tenha muito treino, desde que, como é óbvio, o perceba minimamente. Pode não descobrir todas as potencialidades que o texto encerra, mas mesmo que considere somente alguns aspetos, ao sentir um mínimo de empatia reconhece as suas qualidades, ou, pelo menos, sente que há nele aspetos que o atraem.

O ato de o compreender, mesmo que não completamente, e a atração sentida, produzem no leitor uma usufruição estética ou a intuição do que isso seja. Ora, este é um processo de crescimento em que o leitor se sente amadurecer e se vai reconhecendo mais capaz de tirar de um texto o que ele pode dar.

Se tomarmos a questão pelo lado do escritor, reconhecemos um processo inverso mas que se entrosa com este. Com efeito, um leitor exigente e amadurecido, com referências bem estabelecidas e capacidade de avaliação, não vai perder tempo com escritos sem qualidade literária nem ideias válidas. E, portanto, ou os escritores produzem objetos literários de qualidade ou não serão lidos por quem interesse, ou seja, pelos leitores mais exigentes e capacitados.

No primeiro caso, era o escritor que condicionava o leitor, agora é este que condiciona aquele.

Mas donde vem a qualidade literária que o escritor procura e o leitor reconhece? E como apreciá-la?

Podemos dizer que a qualidade literária é definida por um cânone (Vd., por exemplo, H. Bloom, O cânone ocidental – os grandes livros e os escritores essenciais de todos os tempo, Lisboa, Temas e Debates, 2.013; A. Feijó, J. Figueiredo, M. Tamen, (eds.) O cânone, Lisboa, Tinta-da-China, 2020). 

Por vaga e implícita que seja há sempre alguma referência que define balizas à compreensão de um texto e à capacidade do leitor para o usufruir, e que estabelece níveis de realização ao escritor. Portanto, embora nem sempre se tenha noção disto, e por muito leve e pouco fundamentada que seja essa avaliação, uma leitura está sempre a ser enquadrada pelo leitor numa tabela valorativa, que lhe permite ir fazendo juízos sobre o que lê. E, por outro lado, o escritor irá sentindo maior ou menos satisfação com o que está a produzir, tendo em conta os cânones mais ou menos implícitos por que se rege e constituem a sua tabela de valores.

O cânone é, pois, uma escala valorativa, um padrão de qualidade a partir das obras já realizadas. Os cânones vão-se formando com maior ou menor estrutura teórica a partir das obras consideradas as mais conseguidas numa cultura, e são definidos basicamente pela aprovação dos pares, ou seja, dos que em princípio estão mais aptos a apreciar, a alto nível, aquilo que se produziu.

Foi assim que, ao longo dos séculos – desde há quase de 3.000 anos, e a partir de obras como a Bíblia, os Poemas homéricos, Ilíada e Odisseia, a Poesia e o Teatro Grego, a Filosofia, e depois pela grandes obras latinas, helenísticas e medievais, até aos nossos dias - se foi formando o chamado Cânone Ocidental. 

Foi a partir de obras que, resistindo ao tempo, foram definindo um gosto, um conjunto de modalidades de expressão, de formas, de regras e, sobretudo, de níveis de exigência, que mais ou menos implicitamente foram condicionando autores e leitores.

É claro que toda a criação exige mudanças porque uma dinâmica de inovação está implícita na própria ação criativa. Se um artista não for além do que outros fizeram e do modo como sempre o fizeram não terá grande interesse porque a cópia é o contrário da criação, por muito perfeita e “artística” que seja. Por isso, a evolução artística em geral, e literária em particular, não estagna, porque vão aparecendo novas correntes, novas formas de criação que, por sua vez, vão exigindo novas formas de apreciação. 

Estas novas formas de avaliação são impostas pelas criações inovadoras e originais, e acabam, em grande medida, por vir ao seu encontro, digamos assim, adaptando-se-lhe, uma vez que vão progressivamente integrando essas obras e os novos critérios de que necessitam.

Podemos considerar portanto que há dois movimentos paralelos, que, embora opostos, vão interagindo: um, o da inovação, outro, o da consolidação e da referência. A novidade que a criação vai produzindo, e que às vezes provoca grandes reações e rejeições, vai sendo assimilada com maior ou menor dificuldade e, neste processo, vai criando as suas formas canónicas; isto é, vai introduzindo novidade nas formas de apreciação que vêm de trás, e assim vai colaborando na transformação e enriquecimento do cânone. 

Mas há uma matriz básica que subjaz a este processo, que constitui um substrato de referência e de enquadramento, e que vai permanecendo apesar de todas as inovações. Não permanece rígido e estático, mas antes enriquecendo-se e alterando-se vai perdendo umas referências e ganhando outras. Esta modificação é, porem, dupla, porque a própria inovação ao transformar o cânone transforma-se a si mesma, vai sendo assimilada por ele.

Daí que as grandes mudanças nas correntes artísticas acabam por perder a novidade e transformarem-se, em geral, em contributos e enriquecimentos a usar posteriormente; em suma, perdem muita da sua acutilância porque se vão integrando no cânone, até por sua vez provocarem renovações pois, com o tempo, irá sofrer o mesmo efeito. Entretanto o cânone tem tendência a alargar-se tornando-se mais elástico.

Ora, este processo tem o seu ritmo de transformação, digamos, ideal. Em certas épocas de maior agitação e mudança social é natural que os cânones tenham tendência a ser contestados e mudados com mais rapidez, noutras mais estabilizadas, acontecerá menos. Por outro lado, a aceitação ou não de um código novo tem tanto a ver com a sua necessidade de novidade como com o grau de estabilização e de valorização do código anterior. É também, em grande medida, uma questão de pessoas e de gerações, e dependente também do grau de formação e do nível de interiorização dos valores que o enformam. 

A valorização do cânone estabelecido tem ainda que ver com o âmbito da sua aceitação; cada leitor, por sua vez, aderirá mais ou menos ao novo consoante o sinta mais ou menos necessário, e esteja mais ou menos convicto relativamente ao anterior. Pode acontecer ainda que um criador se sature mais cedo de certas formas, que outro, que o seu espírito irrequieto exija novidades onde outro, mais clássico, vê ainda muito campo de aperfeiçoamento e de progressão.

Se um escritor novo renega todos os códigos anteriores e se vangloria, por exemplo, de não ler os clássicos (antigos e modernos) para melhor poder fazer obra original, está provavelmente a deitar fora as condições para a obra inovadora que pretende. Por outro lado, procurar a novidade a todo o custo pode tornar-se demasiado pesado, e até desgastante. O mais vulgar é ainda o escritor entrar com rompantes inovadores e, depois, perdê-los à medida que a obra ganha consistência e acomodação. Um dia será contestado, mas o que de válido conseguir entrará no cânone sempre em reformulação. 

João Boavida

“DIAS DE CÓLERA”

Maria Helena Damião e Isaltina Martins

Em França, neste ano lectivo, no exame nacional de francês de candidatos ao bac (bacharelado) saiu um texto para comentar retirado do livro “Jours de colère” (Gallimard), de uma escritora premiada, Sylvie Germain. 

Muitos alunos entenderam que o texto era desadequado e difícil. Com as redes sociais à mão, demonstraram aí, no imediato, o seu descontentamento. Significa isto o que significa noutros casos: insulto e intimidação. E, com a força e a rápida divulgação que estas redes adquirem, a questão deu brado na comunicação social, que fez eco dessa revolta dos estudantes, comentando e entrevistando professores e a própria autora do texto.

[Já dias antes, nas provas dos cursos profissionais, tinha sido notícia a reacção de alguns alunos à saída da prova, indignados com a utilização, numa das questões propostas, do termo “lúdico” cujo significado desconheciam]. 

Sylvie Germain foi, de facto, a principal visada e, ao que se refere em notícias publicadas, de modo particularmente violento. Ouvida, disse: 

“… pessoalmente não me sinto preocupada. Estou, porém, bastante preocupada com o sintoma que revela. É grave que os alunos que chegam ao final da escolaridade demonstrem tanta imaturidade e desprezo pela língua, pelo esforço de reflexão assim como pela imaginação e também tão pouca curiosidade e abertura de espírito. O trecho destinado a análise não era delirante, o vocabulário era acessível, mas alguns alunos, contentam-se com um vocabulário tão reduzido, rico apenas em insultos e invectivas, que qualquer escrita um pouco elaborada constitui para eles um desafio, um ultraje.” 

Disse também a escritora: 

“não sinto raiva, só desolação diante de tanta cegueira e falta de questionamento (se eles não passarem no teste de francês será, segundo eles, por causa do meu texto… não por falta de trabalho e reflexão), da sua grosseira rejeição da cultura que lhes é proporcionada no ensino secundário. Querem diplomas sem nenhum esforço, proclamam-se vítimas e elegem como perseguidores aqueles mesmos que eles insultam e ameaçam. Em que adultos se tornarão?”

E acrescentou:

“Tudo isso é tão absurdo quanto angustiante (…) Só posso desejar aos alunos que aprendam a ler, que se esforcem por pensar por si mesmos, que amem as palavras, e também que avaliem o seu peso, significado preciso e as possíveis consequências quando as utilizam.” 

Sylvie Germain explica em breves palavras, uma realidade que, mais cedo ou mais tarde, temos de encarar, sob pena de desmoronamento social e civilizacional: as crianças e os jovens não se educam sozinhos nem se educam uns aos outros. 

Os adultos, responsáveis pela sua educação, fazem-lhes crer que sim, que eles são o centro do universo, que devem seguir os seus interesses, necessidades, espontaneidades, que podem pautar-se pelas suas emoções e perseguir a felicidade (que felicidade?), põem-lhes nas mãos instrumentos programados ao milímetro para reagirem aos mais leves estímulos, nomeadamente aos que contrariam as suas vontades, que de forma pré-definida se lhes incutem. Isto está entranhado no espaço mediático (que se tornou o espaço público de convivência), familiar e, mesmo, escolar.

Os comportamentos dos mais novos que nos inquietam (e, por isso, são notícia) constituem o “sintoma” de que a escritora fala, não são causa.

A causa somos nós, adultos, que manipulamos conscientemente para obtermos proveitos (e muitos o fazem de modo altamente especializado), que nos demitimos (cada vez mais o fazem, vencidos que se sentem), ou nos alheamos (sob o pretexto de não ser assunto nosso, outros que o tratem) da sua educação. 

Acontece que não há volta a dar: como adultos, somos todos, sem excepção, responsáveis pela novas gerações. Os desvios, os erros que agora estamos a cometer têm consequências óbvias no futuro: serão os adultos que não educámos devidamente que ficarão no mundo. Isto também é notado pela escritora. 

Para prevenir casos como este, alguém avançou uma solução: por uma questão de segurança, não escolher textos de autores vivos para exames.

Um penso rápido numa ferida aberta que sangra cada vez mais! Se formos por aí, o título da obra em causa torna-se proverbial: outros “dias de cólera” chegarão!
_________
Texto baseado sobretudo em notícias do jornal Le Figaro. As imagens foram recolhidas nas mesmas fontes:

-https://etudiant.lefigaro.fr/article/ils-ont-une-haine-de-la-langue-de-l-effort-de-reflexion-sylvie-germain-repond-aux-lyceens-qui-la-harcelent_45e2f5d6-f14e-11ec-aecb-a5c44b571225/
-https://etudiant.lefigaro.fr/article/l-ecrivain-sylvie-germain-victime-d-un-torrent-d-insultes-sur-les-reseaux-sociaux-apres-l-ecrit-du-bac-de-francais_dac6f9b4-f076-11ec-83d6-f149b8e320dc/

INTRODUÇÃO À HISTÓRIA DOS MEUS DESCOBRIMENTOS

No primeiro dia de ir à escola
– chamava-se Escola Paiva Manso –
de orgulho, senti-me gabarola.
Terminara o tempo de crianço

e olhava, com grande deslumbramento,
aquele edifício cheio de luz
– que tamanho de casa, um portento! –
mas que palavra nenhuma traduz. 

Aquilo era maior do que eu,
que vivia, pobre, nos subúrbios
e, ali, me sentia um pigmeu.

Foi assim que os meus Descobrimentos
começaram: a descobrir advérbios
e outros magníficos condimentos!

Eugénio Lisboa

segunda-feira, 20 de junho de 2022

PARA QUE SERVE UM SONETO?

 De Eugénio Lisboa 


Toda a gente sabe o que é um soneto: uma estrutura literária com catorze versos de dez sílabas, distribuídos normalmente – mas não necessariamente – por dois quartetos e dois tercetos. Há sonetos com versos de doze sílabas, mas são raros.

O soneto tem fama de ser muito difícil de construir, a tal ponto que, apesar de Petrarca e Camões os terem feito primorosos, Godeau, bispo de Vence, era de opinião que é impossível fazer um soneto perfeito. Godeau ia mesmo ao ponto de dizer que o soneto não é deste mundo. A este propósito, o notável crítico de arte francês, Charles Asselineau, um dos poucos amigos que Baudelaire teve, dizia, chocarreiramente, que Godeau era crente em Deus, mas ateu em soneto. 

Antero de Quental, por exemplo, escreveu belos sonetos, mas como, por confissão própria, nunca se deu ao trabalho de estudar, a sério, a arte do soneto, alguns dos seus são um pouco imperfeitos. Dizer isto às viúvas de Antero é altamente perigoso: corre-se mesmo risco de vida. Mas é tudo por bem. 

Não vim, porém, nesta crónica que se quer curta, falar dos problemas e dificuldades que surgem aos perpetradores de sonetos.

Ora eu sou um desses perpetradores porque, durante esta guerra russo-ucraniana, tenho andado a fazê-los quase à média de um por dia, o que significa, se mais não significar, que tenho, pelo menos, alguma experiência. Queria pois aproveitar esta experiência, não, como disse, para esmiuçar pormenores de arte poética, mas para responder a esta magna pergunta: PARA QUE SERVE UM SONETO? 

Para responder a isto, dada a tal minha grande e prolongada experiência, estou eu magnificamente equipado: porque os tenho escrito, nos mais variados estados de espírito e para os mais variados fins. 

O soneto serve, por exemplo, para a guerra: tenho-o usado como fisga, para tentar atingir Putine entre os olhos. O soneto, na guerra, faz imensos estragos ao inimigo e até mata. 

Pode servir, em dias de neura, para nos interrogarmos sobre o sentido (nenhum) da vida e, noutros dias (de euforia), para celebrarmos e trincarmos, com lascívia, os frutos da terra.

Podemos, com ele – e apesar de termos de o fazer só em catorze versos – recordar os tempos em que fomos felizes ou, alternativamente, os momentos piores da nossa vida. 

O soneto dá para tudo, e sempre em apenas catorze versos.

Fazer caber o mundo num envelope tão pequeno, tem uma graça que só o sonetista consegue apreciar.

O soneto dá para ser irónico, para ser sarcástico, para ser romântico, para ser terra-a terra, para ser colérico, como Aquiles ou admiravelmente sóbrio e digno como Heitor. 

O soneto dá para ser casto e para ser lúbrico. O soneto pode ser religioso ou ateu. O soneto pode servir para mandarmos recado à namorada ou para acabar com o namoro. 

Não há nada debaixo do sol para que o soneto não sirva. Só há uma coisa para que nunca consegui que ele servisse: para tirar nódoas. 

O bispo de Vence tinha razão: não há sonetos perfeitos.

Eugénio Lisboa

domingo, 19 de junho de 2022

A LUCIDEZ DE IR CONTRA A CORRENTE DOMINANTE

Nuccio Ordine tem sido uma das vozes que, na Europa, persiste em afirmar o valor do conhecimento, a sua presença na escola e na universidade públicas, e a imprescindibilidade do professor. Recusando que o fim da educação formal seja a preparação dos jovens para o emprego, nega veementemente a aproximação da escola à empresa.
É recorrente o seu convite a uma crítica profunda  à educação que temos. E, sublinha que ela deve ser feita pelos intelectuais, aqueles que beneficiam de conhecimento e que, por isso mesmo, não o podem negar às novas gerações.

Em entrevista recente (O intelectual de hoje tem de dizer o que a sociedade não quer escutar) a David Barreira, volta ao assunto por palavras muito próximas das que usou em momentos anteriores. São palavras que é preciso repetir e voltar a repetir até serem entendidas. Por isso aqui reproduzimos algumas delas.

Maria Helena Damião e Isaltina Martins

P: Contou que vem de uma família onde ninguém tinha estudado e de uma povoação onde não havia livros, e que descobrir a escola foi um “milagre”. O milagre de que toda a criança precisa é encontrar um bom professor? 

R. Para mim é uma prioridade. Muitos directores e professores têm dito que a pandemia fez compreender que o futuro do ensino é a telemática. Não, isso é uma loucura. A tecnologia é uma interrupção brutal da relação entre o professor e o aluno. A única maneira de transmitir o conhecimento é a presencial. Sem a comunidade não há transmissão de sabedoria. Leio sempre aos meus alunos uma carta maravilhosa que Camus enviou ao seu professor de Argel no dia em que lhe concederam o Prémio Nobel (…) [esse professor] mudou-lhe a vida. Nenhuma plataforma digital pode fazê-lo, só um bom professor (...) muitos professores que fazem isto em absoluto silêncio, não os conhecemos. E somente a escola pública pode garantir a eliminação das desigualdades, e hoje está a destruir-se a escola e a universidade públicas em toda Europa para aplicar as leis americanas e britânicas. 

P: A formação de professores está a ser precarizada? (...)

R. A escola não dá importância ao inútil. No discurso que Boris Johnson fez, há uns meses, aos estudantes britânicos disse que deverão escolher não a área que de que gostam, mas a que lhes pode trazer algum benefício. Para mim, isto é a destruição total da educação. Por isso, a ética das profissões está a decair (…): se há médicos que exercem medicina para ganhar dinheiro, não são bons médicos porque não têm amor. Não posso vender a minha dignidade (…). Outro aspecto incrível é os alunos pensarem que têm de estudar para aprender uma profissão. Há uma poesia maravilhosa de Kavafis, Ítaca, em que ele fala com o leitor para lhe dizer que a importância da viagem de Ulisses não é chegar a Ítaca, mas a experiência da viagem. Há que fazer entender aos estudantes que o importante é a viagem que fazem com o professor e os colegas, a experiência da escola. A ideia da escola/universidade-empresa não tem sentido. 

P. Neste presente cruel que mercantiliza as nossas vidas, dar prioridade a essa experiência pode acabar com a expulsão do sistema… 

R. Pode ser um risco, compreendo, mas tive muitos alunos que demonstraram que quando se estuda com paixão e amor, num momento ou noutro, há sempre uma possibilidade de ganhar a vida com dignidade. Na loucura da avaliação das universidades há um parâmetro que diz que uma boa universidade é aquela que leva o estudante a ganhar muito dinheiro (…). A escola sempre formou cidadãos cultos, democráticos, solidários. Hoje a ideia é que temos de produzir “frangos de aviário” com vontade de ganhar dinheiro e que só pensam em criar empresas. 

P. O senhor é um dos maiores defensores das Humanidades (...). O que pensa ao ver as mudanças nos currículos que eliminam a filosofia ou a aprendizagem de memória? (…) 

R. Estamos a destruir as coisas fundamentais. Há muitos pedagogos que dizem que aprender de memória uma poesia não tem sentido. Para mim, são estúpidos. Quando aprendes uma poesia de memória, com o coração – em inglês e francês diz-se by heart e per coeur –, fica em ti. E um dia quando olhas para uma coisa, ela surge do teu interior e compreendes coisas que antes não podias. Há um testemunho incrível de Primo Levi. Aprender La divina comédia de Dante permitiu-lhe, numa noite, proporcionar um momento de felicidade aos outros judeus presos no campo de concentração. Não te podem roubar as coisas que aprendeste. É maravilhoso como metáfora da sua importância. A ideia de hoje em dia é que tens de aprender só coisas práticas, esquecendo que a ciência, para criar, também necessita de fantasia e de imaginação (…) 

P. Há um paradoxo no mundo actual: graças às novas tecnologias, temos ao nosso alcance o acesso a toda a cultura que queremos, mas ao mesmo tempo estão ressurgindo as ideologias mais extremistas: nacionalismos, populismos, a extrema direita… 

R. É preciso fazer uma pequena precisão a esta leitura (...) pensamos que informação significa conhecimento, mas são duas coisas diferentes. Temos mais informação, mas não conhecimento. A internet é uma mina de ouro para quem sabe; para quem não sabe é muito perigosa. Um dia fiz uma experiência com os estudantes e pesquisei Giordano Bruno numa meia centena de sítios: um delírio total (…). Sobre o conhecimento se não tenho uma autoridade não posso falar. A internet é uma armadilha enorme, foi isso que criou a gente que invadiu o Capitólio dos Estados Unidos. O “senhor com os cornos” é uma imagem da ignorância dos lideres como Trump, Bolsonaro, Le Pen, Salvini… que contam histórias mentirosas. 

P. O que deve fazer um filósofo, um intelectual, num mundo como o de hoje? 

R. Tem de falar contracorrente. O problema de hoje é que não temos sentido crítico. O intelectual tem de ser um herético, como o era Giordano Bruno, que diz as coisas que a sociedade não quer escutar. Desafortunadamente, nas universidades os intelectuais parece que se resignaram, não têm vontade de reagir. Creio que temos de lutar, porque cultivar a utopia é fundamental para mudar o mundo.

sábado, 18 de junho de 2022

A LEITURA EMPOLGANTE

De João Boavida

A propósito de dois artigos aqui publicados por Eugénio Lisboa – “Uma grande mixórdia” e “A obrigação do romance” – peço licença para um pequeno contributo. 

Em primeiro lugar, é indubitável que muita gente sente que há livros que são pastosos, confusos, em suma, insuportáveis, ou até mesmo incompreensíveis mas, por receio de serem acusados de menos competentes ou modernos pelos que valorizam o último grito acima de tudo, não o dizem. 

Eugénio Lisboa tem coragem de remar contra esta maré e de dizer que o rei vai nu quando considera que ele de facto vai sem roupa alguma. É saudável, refrescante e faz um excelente serviço pois ajuda a colocar alguma ordem no campo opaco, minado e até às vezes invertido que é o mundo editorial. É, neste sentido, um organizador de valor e, portanto, um valorizador do próprio valor. 

Veja-se, a este propósito, o seu recente livro "Vamos ler!" (Lisboa, Guerra & Paz, 2021). Frequentemente as críticas que se fazem em Portugal, são elíticas, enroladas, ora contextualizantes, ora descontextualizantes, por vezes as duas coisas em simultâneo, mas, quando queremos uma síntese do valor de um livro e de uma boa razão para o ler (ou não) não a temos porque em geral pouco ou nada nos é dito sobre isso. 

Por outro lado, há críticos que são habitualmente encomiásticos de quase tudo sobre que escrevem, o que é de desconfiar porque os talentos não andam por aí aos pontapés. Para lá de um frequente aparato teórico e retórico, que muitas vezes é mais confusão e conversa de espanta tolos que teoria, era bom que das críticas resultasse uma ideia objetiva quanto possível sobre o valor de um livro e, portanto, do benefício literário e cultural em lê-lo. 

Estou de acordo que uma preocupação primeira da literatura é ser legível e compreensível (não fácil, nem apressada, nem simplória). Um texto ilegível é um contrassenso, e quem o fizer incompreensível por pedantismo ou não por conseguir a clareza que as ideias, por muito complicadas que sejam, devem ter, um texto assim, mesmo que a muitos embasbaque, não irá longe. 

É certo que a originalidade sempre levantou objeções, e romper com os quadros dominantes chegou frequentemente a provocar reações violentas. E sabemos também que, por vezes, essas novidades trazem grandes contributos para a evolução de um dado campo artístico. 

Mas no nosso tempo a vertigem tornou-se um valor e a mudança pela mudança uma necessidade quase absoluta, o que, evidentemente, não pode ter boas consequências na qualidade de muito do que se produz. 

Ora, a grande preocupação de quem escreve é ser lido e a leitura deve produzir prazer em quem lê, como muito bem diz Eugénio Lisboa. É certo que a originalidade é um valor, mas ser realmente e autenticamente original não é para todos porque a originalidade é um bem escasso que só muito poucos alcançam e, portanto, a procura dela a todo o custo, e sempre, não pode dar bom resultado.

Para lá da procura exasperada de originalidade por um autor, o que o torna frequentemente intragável e destruidor de leitores potenciais – desse livro e doutros que não têm culpa – devia interessar-lhe acima de tudo a qualidade literária. E ao crítico ser da verdadeira qualidade o divulgador e o valorizador. 

É claro que um romance que provoca interesse não é necessariamente bom, mas o bom leitor encontrará interesse num livro, desde que bom. E um leitor menos educado acabará por descobrir que faz parte do entusiasmo com que se lê um livro a sua qualidade. Portanto, interesse do leitor e qualidade do romance, desejo de ler e entusiasmo pelo que se lê são realidades convergentes e que se implicam; que se vão cada vez mais implicando à medida que evoluímos como leitor. E que, portanto, exigimos do escritor e nos leva a escolher os escritores que melhor respondem a esta exigência. 

O bom escritor faz o bom leitor e, inversamente, o bom leitor exige qualidade ao escritor, que será esquecido se a não tiver ou não se preocupar com isso. 

João Boavida

sexta-feira, 17 de junho de 2022

Escritos sobre Filosofia, Ciência e Arte

CONVITE

Escritos sobre Filosofia, Ciência e Arte O Diretor do Centro Rómulo de Carvalho e o Diretor da Imprensa da Universidade de Coimbra têm a honra de convidar V. Ex.ª para a sessão de lançamento da obra Escritos sobre Filosofia, Ciência e Arte de Egídio Namorado, organizada por João Clímaco. 

 A apresentação estará a cargo do Senhor Professor Carlos Fiolhais. 

 A sessão terá lugar no dia 22 de junho, pelas 18h, no Centro Rómulo de Carvalho

A OBRIGAÇÃO DO ROMANCE

Eugénio Lisboa
A única obrigação que um
romance deve cumprir desde
o início, sem incorrer na acusação
de arbitrariedade, é ser interessante.
Henry James

Escrevi neste mesmo local, há poucos dias, um áspero artigo, a propósito de um inconcebível romance, da autoria de António Carlos Cortez. Com igual, maior ou menor intensidade, o que disse deste romance poderia dizê-lo de muitos romances que, entre nós, se produzem. 

Há coisas que se não dizem em público – a coragem não é a mercadoria mais bem distribuída no mundo – mas correm, em surdina, no privado. Uma das que mais oiço, mesmo na boca de leitores treinados e compulsivos, é que não há pachorra para a maior parte dos romances que hoje se escrevem em Portugal: muita ginástica e pirueta narrativa, muita revolução parola da “linguagem” e pouca substância. Em suma, entreter o leitor é a última preocupação destes aspirantes a inovadores. 

Por isso me lembrei de pôr em epígrafe deste curto artigo que agora escrevo a inequívoca convicção da necessidade imperiosa de “interessar” o leitor, oriunda da pena de um dos mais exigentes ficcionistas do século XX: Henry James. James não é um escritor de fácil leitura: as frases compridas, circunvolutas, sempre em busca de “dizer melhor”, pedem ao leitor uma extrema atenção. Tanto maior razão para querer, por outras vias, capturar o interesse desse mesmo leitor. 

Este sôfrego desejo de estar sempre a “inovar”, que leva aos maiores desastres de composição narrativa, faz-me recordar uma célebre afirmação do poeta inglês, T. S. Eliot, ele mesmo um dos maiores inovadores da poesia do século XX: segundo o autor de THE WASTELAND, muitos escritores achavam possível revolucionar a linguagem de dez em dez anos. E dizia-o com acerada ironia, Entre nós, tenta-se revolucionar a linguagem e a estrutura narrativa, de meia em meia hora.

Deixo aqui, à meditação dos nossos ambiciosos ficcionistas, estes dois fortes avisos de dois grandes escritores anglo-americanos. Eles meteram, fundamente, a mão na massa e sabiam do que falavam. 

Eugénio Lisboa

MAIS NOVIDADES DA GRADIVA: A BOMBA

 

O autor mais vendido em França, o livro mais lido em 2021

650 mil exemplares vendidos em França.
Bestseller editado em 20 países.

Quando o teatro e a ficção se misturam e se confundem com a realidade…

Um grande romance. Uma escrita admirável. Um enredo de um engenho e imaginação singulares. Uma tragédia humana, numa intriga policial no universo sádico, das seitas ocultistas pagãs, cada vez mais activas no mundo de hoje. 

*

Numa noite brumosa de Dezembro, uma mulher jovem é retirada do Sena. Nua, amnésica, mas viva. Muito agitada é conduzida para a enfermaria da Polícia de onde foge algumas horas depois.

As análises de ADN e as fotos revelam a sua identidade: Milena Bergman, uma pianista famosa. Mas não é possível!! Milena Bergman morrera num desastre de avião um ano antes!

Raphael, escritor apreciado, o namorado da pianista, e Roxane, uma oficial de polícia, brilhante, mas indomável, entregam-se obsessivamente à investigação do mistério. Como pode Milena estar ao mesmo tempo viva e morta?  Não se consegue parar de ler!

«O mestre francês do supense
The New York Times, EUA 

«Um dos melhores autores de thrillers da actualidade.»
The Daily Express, UK

«O rei do policial europeu.» 
La Repubblica, Itália

«Um fenómeno.»
 El Mundo, Espanha

«Com Musso a emoção chega aos píncaros.»
 Le Figaro Magazine, França

«Uma história formidável.»
Alain Jean-Robert, AFP

«Fascinante!»
Femina

«Tão engenhoso quanto vertiginoso.»
L´Express

«Maquiavélico e jubilatório.»
Le Parisien

À venda a 28 de Junho: "A Bomba", volumes 1 e 2, de Alcante e L.F. Bollée. De 18,00€ por 16,20€ cada.

“Eu sou a morte, a destruidora de mundos”

PRÉMIO BD FNAC,
PRÉMIO FRANCE INTER, 2021
140 000 exemplares vendidos em França.

Como um Guerra e Paz da BD!

No dia 6 de agosto de 1945, Hiroxima desaparece pulverizada por uma bomba atómica.

Um acontecimento histórico e trágico que põe fim à guerra e leva a humanidade a entrar numa nova era.

Em que contexto foi criada a bomba? Como foi tomada a decisão de a lançar? E porquê sobre Hiroxima?  Quais foram os principais actores – ilustres ou desconhecidos – desta tragédia.  Quais foram as consequências da explosão? O que sofreram as vítimas?

Com a leitura desta obra, o leitor assiste a tudo!

Das minas de urânio do Katanga até ao Japão, passando pela Alemanha, a Inglaterra, a Noruega, a URSS e os Estados Unidos; dos laboratórios de Los Alamos aos bombardeiros do Pacífico, eis…

A TERRÍVEL VERDADEIRA HISTÓRIA DA BOMBA ATÓMICA! 

Hoje ainda mais arrepiante.  Que alguns parece quererem continuar a escrever… 

Do Posfácio: «Contada com um rigor histórico e científico em que nos empenhámos totalmente.  A única excepção nesta obra à autenticidade histórica são os personagens de Naoki Morimoto, a família e a menina, que saíram da nossa imaginação. Foram construídos para representarem aos nossos olhos a população japonesa, vítima inocente, da época. São os nossos Japoneses Desconhecidos, para retomar a famosa imagem do Soldado Desconhecido.”

Saberá o leitor, que por um estranho fenómeno químico-físico, no momento da explosão, a sombra de um homem ficou gravada para sempre num degrau da escadaria do Banco Sumitomo?

Ainda sobre o moderno e o clássico

Na continuação do texto A constante luta entre clássico e moderno João Boavida É isso mesmo, volto ao tema, do moderno e do clássico.  Se um...