domingo, 19 de junho de 2022

A LUCIDEZ DE IR CONTRA A CORRENTE DOMINANTE

Nuccio Ordine tem sido uma das vozes que, na Europa, persiste em afirmar o valor do conhecimento, a sua presença na escola e na universidade públicas, e a imprescindibilidade do professor. Recusando que o fim da educação formal seja a preparação dos jovens para o emprego, nega veementemente a aproximação da escola à empresa.
É recorrente o seu convite a uma crítica profunda  à educação que temos. E, sublinha que ela deve ser feita pelos intelectuais, aqueles que beneficiam de conhecimento e que, por isso mesmo, não o podem negar às novas gerações.

Em entrevista recente (O intelectual de hoje tem de dizer o que a sociedade não quer escutar) a David Barreira, volta ao assunto por palavras muito próximas das que usou em momentos anteriores. São palavras que é preciso repetir e voltar a repetir até serem entendidas. Por isso aqui reproduzimos algumas delas.

Maria Helena Damião e Isaltina Martins

P: Contou que vem de uma família onde ninguém tinha estudado e de uma povoação onde não havia livros, e que descobrir a escola foi um “milagre”. O milagre de que toda a criança precisa é encontrar um bom professor? 

R. Para mim é uma prioridade. Muitos directores e professores têm dito que a pandemia fez compreender que o futuro do ensino é a telemática. Não, isso é uma loucura. A tecnologia é uma interrupção brutal da relação entre o professor e o aluno. A única maneira de transmitir o conhecimento é a presencial. Sem a comunidade não há transmissão de sabedoria. Leio sempre aos meus alunos uma carta maravilhosa que Camus enviou ao seu professor de Argel no dia em que lhe concederam o Prémio Nobel (…) [esse professor] mudou-lhe a vida. Nenhuma plataforma digital pode fazê-lo, só um bom professor (...) muitos professores que fazem isto em absoluto silêncio, não os conhecemos. E somente a escola pública pode garantir a eliminação das desigualdades, e hoje está a destruir-se a escola e a universidade públicas em toda Europa para aplicar as leis americanas e britânicas. 

P: A formação de professores está a ser precarizada? (...)

R. A escola não dá importância ao inútil. No discurso que Boris Johnson fez, há uns meses, aos estudantes britânicos disse que deverão escolher não a área que de que gostam, mas a que lhes pode trazer algum benefício. Para mim, isto é a destruição total da educação. Por isso, a ética das profissões está a decair (…): se há médicos que exercem medicina para ganhar dinheiro, não são bons médicos porque não têm amor. Não posso vender a minha dignidade (…). Outro aspecto incrível é os alunos pensarem que têm de estudar para aprender uma profissão. Há uma poesia maravilhosa de Kavafis, Ítaca, em que ele fala com o leitor para lhe dizer que a importância da viagem de Ulisses não é chegar a Ítaca, mas a experiência da viagem. Há que fazer entender aos estudantes que o importante é a viagem que fazem com o professor e os colegas, a experiência da escola. A ideia da escola/universidade-empresa não tem sentido. 

P. Neste presente cruel que mercantiliza as nossas vidas, dar prioridade a essa experiência pode acabar com a expulsão do sistema… 

R. Pode ser um risco, compreendo, mas tive muitos alunos que demonstraram que quando se estuda com paixão e amor, num momento ou noutro, há sempre uma possibilidade de ganhar a vida com dignidade. Na loucura da avaliação das universidades há um parâmetro que diz que uma boa universidade é aquela que leva o estudante a ganhar muito dinheiro (…). A escola sempre formou cidadãos cultos, democráticos, solidários. Hoje a ideia é que temos de produzir “frangos de aviário” com vontade de ganhar dinheiro e que só pensam em criar empresas. 

P. O senhor é um dos maiores defensores das Humanidades (...). O que pensa ao ver as mudanças nos currículos que eliminam a filosofia ou a aprendizagem de memória? (…) 

R. Estamos a destruir as coisas fundamentais. Há muitos pedagogos que dizem que aprender de memória uma poesia não tem sentido. Para mim, são estúpidos. Quando aprendes uma poesia de memória, com o coração – em inglês e francês diz-se by heart e per coeur –, fica em ti. E um dia quando olhas para uma coisa, ela surge do teu interior e compreendes coisas que antes não podias. Há um testemunho incrível de Primo Levi. Aprender La divina comédia de Dante permitiu-lhe, numa noite, proporcionar um momento de felicidade aos outros judeus presos no campo de concentração. Não te podem roubar as coisas que aprendeste. É maravilhoso como metáfora da sua importância. A ideia de hoje em dia é que tens de aprender só coisas práticas, esquecendo que a ciência, para criar, também necessita de fantasia e de imaginação (…) 

P. Há um paradoxo no mundo actual: graças às novas tecnologias, temos ao nosso alcance o acesso a toda a cultura que queremos, mas ao mesmo tempo estão ressurgindo as ideologias mais extremistas: nacionalismos, populismos, a extrema direita… 

R. É preciso fazer uma pequena precisão a esta leitura (...) pensamos que informação significa conhecimento, mas são duas coisas diferentes. Temos mais informação, mas não conhecimento. A internet é uma mina de ouro para quem sabe; para quem não sabe é muito perigosa. Um dia fiz uma experiência com os estudantes e pesquisei Giordano Bruno numa meia centena de sítios: um delírio total (…). Sobre o conhecimento se não tenho uma autoridade não posso falar. A internet é uma armadilha enorme, foi isso que criou a gente que invadiu o Capitólio dos Estados Unidos. O “senhor com os cornos” é uma imagem da ignorância dos lideres como Trump, Bolsonaro, Le Pen, Salvini… que contam histórias mentirosas. 

P. O que deve fazer um filósofo, um intelectual, num mundo como o de hoje? 

R. Tem de falar contracorrente. O problema de hoje é que não temos sentido crítico. O intelectual tem de ser um herético, como o era Giordano Bruno, que diz as coisas que a sociedade não quer escutar. Desafortunadamente, nas universidades os intelectuais parece que se resignaram, não têm vontade de reagir. Creio que temos de lutar, porque cultivar a utopia é fundamental para mudar o mundo.

5 comentários:

  1. "O estudo é, em primeiro lugar, aquisição de conhecimentos que, livres de qualquer vínculo utilitário, nos fazem crescer e nos tornam mais autónomos. Nenhuma profissão poderá ser exercida de maneira consciente se as competências técnicas que ela requer não se subordinarem a uma formação cultural mais vasta, capaz de encorajar os discentes a cultivarem o espírito de forma autónoma e a darem livre curso à sua curiositas".

    Ordine, N. (2013). A utilidade do inútil. (M. Periquito, Trad.) Matosinhos: Kalandraka Editora Portugal Lda; pp. 91.

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  2. Muito bom. O objectivo primeiro do ensino é transmitir e perpetuar a memória da cultura e civilização humana; o segundo é permitir ao cidadão criar um quadro de referência pessoal; e só o terceiro é dar uma base de conhecimento encaminhada para uma vida social activa.

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  3. No que respeita à educação no mundo livre, eu, professor de física à antiga portuguesa, com mecânica clássica e eletromagnetismo, diria que, baseando-me em George Orwell, somos todos professores de formação judaico-cristã, mas há alguns (ingleses e americanos) com mais formação judaico-cristã do que outros. Já vi, em escolas portuguesas, pintadas, com letras garrafais, em paredes de salas de estudo, citações magníficas, escritas em inglês, sem tradução, de grandes pensadores e pedagogos americanos!
    A invenção do dinheiro foi muito importante, mas se, na escola, incutirmos nas crianças e jovens que o Bem Supremo da vida é o dinheiro, estaremos, muito provavelmente, a acelerar o processo de extinção da Humanidade.

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  4. Todos os saberes que não produzem lucro, são considerados inúteis. Existem saberes absolutos que – precisamente pela sua natureza gratuita e desinteressada, longe de qualquer vínculo prático e comercial – podem ter um papel fundamental na educação do espírito e no desenvolvimento cívico e cultural da humanidade. Dentro deste contexto, considero útil tudo aquilo que nos ajuda a tornarmo-nos melhores. P. 7
    Transformando os homens em mercadoria e em dinheiro, este perverso mecanismo económico gerou um monstro, sem pátria e sem piedade, que acabará por negar também às gerações futuras qualquer forma de esperança. P. 10
    Os humanistas e também alguns cientistas desempenham um papel importantes na batalha contra a ditadura do lucro, para defender a liberdade e a gratuitidade do conhecimento e da pesquisa. P. 14

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