Mostrar mensagens com a etiqueta Livros. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Livros. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

LANÇAMENTO DO LIVRO "ÍRIS CIENTÍFICA 5", DE ANTÓNIO PIEDADE, EM CONDEIXA-A-NOVA

O livro "Íris Científica 5", de António Piedade, que tem prefácio do professor Carlos Fiolhais, vai ser lançado no dia 23 de Fevereiro, Sábado, pelas 16h30, na Biblioteca Municipal Engº Jorge Bento, em Condeixa-a-Nova. 

O livro, que reúne 31 crónicas de divulgação científica, será apresentado pelo professor João Fernandes, director do Observatório Geofísico e Astronómico da Universidade de Coimbra.

A sessão, que terá início pelas 16h30, incluirá também uma palestra sobre "A Ciência na Poesia Portuguesa", proferida por António Piedade, e a actuação do Grupo Vocal Ad Libitum.

No final será servida uma "Escarpiada de Honra" a acompanhar uma sessão de autógrafos.


quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

FONTE DOS CORETOS: “UM REFLEXO FOTÓNICO DE LIBERDADE”

Com a devida e merecida vénia e agradecimento, transcrevo a seguir o texto com que o poeta João Rasteiro apresentou o meu livro "Fonte de Coretos" no Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, a 30 de Janeiro de 2018.


Fonte dos Coretos:um reflexo fotónico de liberdade

                                                           Com novas íris te universo.
Vejo-te para além do ar
Até onde não sabia que ainda começas
António Piedade



Arquimedes afirmou: “Dai-me uma alavanca e um ponto de apoio e moverei o mundo”.

E Aristóteles: “O começo de todas as ciências é o espanto de as coisas serem o que são”.

Ora, como sabemos, mesmo que de forma inconsciente, a poesia é por definição um fértil acto criativo, como resplandece do verbo grego poiesis: fazer, criar, aleitar. Num alquímico fermento da sua raiz e substância e, diria eu, da sua “luz e íris” do mundo.
 
Mas se, de alguma forma o homem, desde que chamou a si o olhar poético para ver e apreender as coisas do ‘mundo’, passou a ser um poeta, grafando esse olhar ou não, António Piedade, desde que assumiu o olhar da ciência para apreender o mundo, passou imediatamente a ser, sob este conceito, um poeta, pois a sua linguagem de extraordinário comunicador de ciência é uma linguagem que sempre esteve profundamente fecundada pela mais cristalina linguagem poética.

E é absolutamente claro, pelo menos para mim, que talvez a maior influência, para além de outras, como a manifesta e também bastante forte, tanto na linguagem, como no acto de “fazer ciência”, do Professor Carlos Fiolhais, seja, sem qualquer admiração, Rómulo de Carvalho / António Gedeão – direi até que, talvez mais, de… “Rómulo Gedeão”!

Hoje, é um dado inquestionável que a ciência e a poesia terão tido igual peso e interesse na vida de Rómulo de Carvalho / António Gedeão. E se, pelo menos de forma tão manifesta, aparentemente essa particularidade não será assim perceptível em António Piedade, julgo, no entanto, que na sua escrita em geral, porque o que escrevemos quase sempre reflecte a nossa vida, ou pelo menos o que pretendemos dela, isso também é um facto absolutamente evidente.

Como aliás já referiu o Professor Carlos Fiolhais, julgo que no Prefácio a "Caminhos de Ciência", “há um elemento peculiar na escrita de António Piedade que contribui sobremaneira para o prazer da leitura: é a sua marca literária, por vezes mesmo poética, que ele sabe imprimir à sua escrita”.

Evidentemente que, neste “Fonte dos Coretos”, mantendo-se de forma geral esta marca assinalada por Carlos Fiolhais, assiste-se a uma inversão, afirmo eu, apenas formal. Desta vez, a poesia está na fronte da prosa. O texto e a sua textura vêm até nós explanados no corpo branco da folha, em arquitectura condizente com a poesia e suportada, sobretudo a primeira parte, em fortes anzóis de vigorosas metáforas - em ágeis imagens e analogias da bioquímica, da física, da astronomia, da biologia, ou da matemática. Em suma, em belas ressonâncias e revivescências das mais profundas e consagradas entranhas das apelidadas “ciências exactas”.

Como referiu Graça Capinha (FLUC/UC), temos a consciência de que normalmente usamos como material, muitas vezes em bruto, “as palavras da tribo”: e em António Piedade, a tribo é a ciência em sua desmesurada essência e fulgor.

A consciência do nosso trabalho de escrita, e nomeadamente, de reinvenção da escrita, só fazer sentido numa comunidade mais vasta é o que origina em António Piedade essa permanente indagação e transmissão, com ‘este’ estilo tão peculiar - mais uma vez, dir-se-á: poético -, a partir das vozes que sempre saciaram a sua experiência de vida, e nomeadamente, da sua experiência de vida muito fixada no ensaio e prática da ciência.

E esse é o ‘lugar-tempo’ único, a ‘ordem-conjuntura’ única, que António Piedade conhece e reconhece absolutamente como a sua única quimera e promessa. Ele, um comunicador de ciência, diria até, um comunicador de ciências, nesse “fotão-liberdade” que não se diferencia no seio da sua linguagem, da sua caminhada, nessa “Íris-amor” que é a luz “onde o verbo é ser”, através de uma rota “que viaja dos raios gama às ondas de rádio”, pois, invariavelmente, nenhumas “poeiras cósmicas” impedirão “a nossa luz”, já que “nesse sorriso / nasce a rocha / onde brotam os poetas / um sorriso de ser”.          

Tal como em Rómulo de Carvalho / António Gedeão, a ligação, a junção, entre a ciência e a poesia era firme e persistente, e isso percebe-se facilmente no léxico científico e metafórico que empregou nos seus vastos e singulares poemas, também em António Piedade tal se verifica, embora isso seja mais óbvio na primeira parte deste livro, e que talvez por isso, e de forma geral, terão sido os poemas que escreveu mais recentemente.

A poesia e, sobretudo, a linguagem poética, não tem de ser forçosamente demasiado elaborada e dissimulada em seus modelos ou artifícios, sejam eles estilísticos ou metafóricos, para que se possa afirmar como “boa poesia”. Albert Einstein afirmou: “No meio da confusão, encontre a simplicidade. A partir da discórdia, encontre a harmonia. No meio da dificuldade reside a oportunidade”.

 Daí que, também, neste livro, e em grande parte destes 16 poemas, a simplicidade aparente não é sinónimo de simplismo. E se em nota introdutória é o próprio poeta, em carácter de humildade, a afirmar sobre o livro: “Aqui está. Imperfeito, ingénuo como meu primeiro livro nesta arte maior que é a Poesia”, e sendo lógico que tal como nos restantes livros por si publicados, e desde o seu primeiro livro, foi burilando o(s) texto(s), também no seu próximo livro de poesia irá acabar, como aliás todos nós fazemos, por burilar algumas ramagens dos seus novos, ou até antigos, poemas.

Aqui a questão que emana é só uma: estes textos, estes poemas, em sua génese definida são já o prenúncio de uma caminhada poética assente em certos alicerces a que o autor não irá, nem quererá, certamente, fugir na caminhada que continuará a criar e percorrer.

Se atentarmos em Rimbaud, que nos diz que “O poeta faz-se vidente através de um longo, imenso e sensato desregramento de todos os sentidos”, ou em Keats, que afirma que “Se a poesia não surgir tão naturalmente como as folhas de uma árvore, é melhor que não surja mesmo”, então, categórico, afirmo: sim, é a ‘isso’ que ‘aqui’, neste seu primeiro livro, já se assiste a brotar, por vezes frágil, mas em visível viço de primavera!

Refira-se, e poderá ser apenas uma coincidência feliz, o facto de o livro, com 16 poemas, estar dividido em duas partes de 8 (oito) cada, pois, o número 8 “é, universalmente, considerado o símbolo do equilíbrio cósmico. É um número que possui um valor de mediação entre o círculo e o quadrado, entre a terra e o céu, e por isso está relacionado com o mundo intermediário e um simbolismo de equilíbrio central. Deitado, simboliza também o infinito, e representa a inexistência de um começo ou fim, do nascimento ou da morte, e aquilo que não tem limite, e ainda a ligação entre o físico e o espiritual: e afianço eu aqui, a religação entre as ciências, entre a bioquímica e a poesia.

Atente-se em alguns títulos da primeira parte: “Com novas íris te universo”, “Átomo ao espelho”, “Lágrimas com riso dentro” - onde logo nos aflora o poema “Lágrima de preta”, de António Gedeão -, “A luz do teu pólen”, “Vida”, etc., onde o corpo da ciência se incorpora sem contemplação no corpo da poesia, no corpo do poema, e onde “dentro del(a)e explodem miríades de pequenos arco-íris”.

 Nesta primeira parte, onde termos e imagens como Íris, Poeiras Cósmicas, Fotão, Princípio de Pauli, spin, Caleidoscópio, miríades, Líquido Translúcido, Sirius e Saturno, Seio vulcânico, Explosão estelar, Lua, entropia, Caminhos neurais ou átomo, só para citar alguns, irrompem “por entre canteiros de ficções oníricas / Indistinguíveis da pura magia”, penso que o poema que abre o livro, intitulado “Com novas íris te universo” - ainda e sempre a…ÍRIS -, quase poderia ser encarado como o texto programático do poeta-cientista, ou do cientista-poeta, António Piedade. Diz-nos:

Com novas íris te universo.
Vejo-te para além do ar
Até onde não sabia que ainda começas

Com novas íris despojo-te das poeiras cósmicas
Descubro-te onde não tens cor
Com novas íris alianço-me nos deuses antigos
E redesenho a abóboda celeste
Com mitos modernos
Cegos de contemplação de tanto espanto

Com novas íris volto a ser criança a olhar o céu
E tento apanhar as estrelas num gesto, num salto
Com novas íris me visto de ti
Num novo cosmos invisível à nudez dos meus olhos
E descubro no céu um arco-íris
Que viaja dos raios gama às ondas de rádio

Este primeiro poema do livro, que, no plano teórico, será, senão o último, um dos últimos que terão sido escritos, reenvia-nos - principalmente através “das poeiras cósmicas” ou do “arco-íris” da sua última estrofe -, precisamente para a essência da segunda parte do livro, em que curiosamente, ou não, o primeiro poema dá título ao livro: “Fonte de Coretos”.

E nesta segunda parte, onde sobressaem de algum modo, poemas como “Silêncio”, “Ponteiro das horas”, “Luz”, “Adeus” ou “Sorriso”, poemas que como refere o autor na ‘Nota breve’, são poemas, exceptuando o recente “Sorriso”, mais antigos - e que contudo, de forma ligeira, já são pincelados com algumas ‘palavras de ciência’ -, o que imediatamente perpassa é uma constante dialéctica entre o amor - em sentido lato, pois é possível pressentir um amor carnal, conjugal, maternal, um amor ao cosmos, etc. - e a liberdade. E, quer seja na ambição de alcançar esse tal amor e essa tal liberdade, quer seja no temor de perder, ou não alcançar, esse amor e essa liberdade.

Há um permanente olhar e uma permanente voz - que se pode aplicar, que se vislumbra, também, no poema que inicia o livro, “Com novas íris te universo” -, que são simultaneamente o olhar e a voz de uma criança e de um adulto. E, na verdade, se mais ou menos palpável, em cada adulto está sempre a criança que se reteve em nós, aqui, porque de um poeta, porque de linguagem poética se trata, esta particularidade é ainda mais evidente. A criança, a infância, a utopia, o brilho dos astros nas estrelas do olhar.

É pois na dialéctica entre os primeiros poemas de cada parte da obra que se pode encontrar não só “um céu reinventado nos risos com que a lágrima se fez”, como “nesse sorriso / nasce o mar inteiro / e a espuma das estrelas”.

Enquanto, como já referi, “Com novas íris te universo”, pode ser encarado quase como o texto programático do poeta-cientista, ou do cientista-poeta, António Piedade; “Fonte do Coreto” é a metáfora primordial por “onde brotam os poetas” e a poesia, pois simboliza toda a possibilidade de liberdade. A liberdade através da oferta ‘de mundo’: música, poesia, teatro, cultura, convivências, etc. - Vida! O/Um lugar vivo, onde se aprendia a “ver um pouco de mundo”, onde o verbo é/era “ser”. O voo ansiado no futuro azul entre a terra e o céu em “sua metáfora / onde a liberdade é o refrão / Estribilho em rima solta. A ânsia da infinda utopia: “Um reflexo fotónico de liberdade”. Daí que:


Há na minha aldeia
Uma fonte de coretos
Onde desagua a liberdade

Uma fonte de coretos
Onde todos nascem
Adentro de sonoros sonetos
Sonetos de pessoas
Cada um a sua métrica
A sua metáfora
Onde a liberdade é o refrão
Estribilho em rima solta

Há na minha aldeia
Uma fonte de coretos
Onde o verbo é ser

Não deixando de destacar na primeira parte - mesmo não o desenvolvendo, pois isso levar-nos-ia talvez para outras leituras e interesses do autor -, as referências a Cyrano de Bergerac, Gulliver ou Frankenstein, assinalo algo que é perceptível, embora com algum desequilíbrio ao longo dos poemas das duas partes do livro, e que também já foi aludido pelo Professor Carlos Fiolhais no que concerne à linguagem das crónicas. A presença de uma certa musicalidade, ou até mais patente, de um certo compasso rítmico que perpassa pelo corpo dos poemas, onde essa musicalidade e ritmo se mostram por vezes com um vigor exclusivo, para além da alegoria. 

Em conclusão, António Piedade, com este seu primeiro livro de poemas, que pela particularidade de ser uma primeira obra, granjeia, ou pode granjear, simultaneamente as suas virtudes e fragilidades, intitulado “Fonte de Coretos”, coloca-se de imediato à porta desse “cosmos invisível à nudez” de poetas em que a linguagem da poesia e a linguagem da ciência se funde e se expande, “cósmica”.

Como afirmou Maria Sousa, cientista e poeta, “A melhor ciência está próxima da poesia”. Ora, em António Piedade, isso é uma verdade inquestionável, nesse seu habitual diálogo que perpassa a sua escrita, seja ela prosa ou poesia. A ciência é poesia, e a poesia é ciência. Em António Piedade, brota a una luz do verbo, pois: “A luz do teu pólen / É nossa, minha, tua / É uma viagem solar / É Terra com nova Lua”.


João Rasteiro

RÓMULO- Centro Ciência Viva/Universidade Coimbra, 30/01/2018

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Apresentação de Livros de António Piedade





Apresentação de Livros de António Piedade, Bioquímico e Divulgador de Ciência:

- "Fonte de Coretos", editado em Setembro de 2017 - Será apresentado pelo Poeta João Rasteiro.
- "Íris Científica 4", editado em Novembro de 2017 - Será apresentado pelo Professor Carlos Fiolhais.

ENTRADA LIVRE
Público-Alvo: Público em Geral

domingo, 7 de janeiro de 2018

A CIÊNCIA NÃO É SÓ DOS CIENTISTAS

Texto primeiramente publicado na imprensa regional.



A ciência não é só dos cientistas. A ciência é de todos os cidadãos. Mas, para que todos possamos ter acesso à ciência desenvolvida pelos cientistas, é necessário a mediação de divulgadores e comunicadores de ciência.
Martin Rees, astrofísico de renome mundial, é um dos incontornáveis divulgadores de ciência do nosso tempo. Astrónomo Real da Grã-Bretanha e ex-presidente da Royal Society de Londres (a mais antiga sociedade científica do mundo), Rees escreveu vários livros de divulgação científica entre os quais o popular “O Nosso Habitat Cósmico”, publicado em Portugal pela Gradiva.
Em Outubro passado, a Gradiva publicou na sua prestigiada colecção “Ciência Aberta” mais uma obra de Martin Rees: “Para o Infinito – Horizontes da Ciência”. Parece-me pertinente transcrever aqui o início da introdução deste livro: “A ciência está a interferir mais do que nunca nas nossas vidas. Muitos assuntos políticos fulcrais – energia, saúde, ambiente, etc. – têm uma dimensão científica. Na verdade, as escolhas que os nossos governos fizerem nas próximas décadas podem determinar o futuro da Terra. O século XXI é o primeiro na História da Terra em que uma espécie, a nossa, tem o poder de determinar o destino de toda a biosfera. A ciência não é apenas para os cientistas: as decisões sobre o modo como ela é aplicada devem resultar de um debate público alargado. Mas, para que isso aconteça, todos nós devemos ter uma «ideia» dos conceitos-chave da ciência. Além da sua importância prática, estes conceitos devem ser parte da nossa cultura comum. Os grandes conceitos da ciência  – ou, pelo menos, umas «luzes» destes – podem ser transmitidos através de termos não técnicos e imagens simples.”
Com uma linguagem muito acessível, ajudada por uma boa tradução do original inglês para o português feita por Maria de Fátima Carmo, Martin Rees apresenta-nos neste livro vários aspectos da relação entre a ciência, os cientistas, os políticos, o público em geral, entre outros assuntos como seja o do próprio futuro da ciência. O livro é composto por quatro capítulos que resultaram da transcrição de igual número de palestras, incluídas nas populares Palestras Reith da BBC inglesa, que o autor concebeu e que foram proferidas em 2010. O seu conteúdo continua actual e muito pertinente. Os quatro capítulos são: O Cidadão Científico; Sobreviver ao Século; O Que Nunca Saberemos; Um Mundo em Fuga. Cada um ocupa cerca de trinta páginas, que preenchem bons momentos de leitura sobre assuntos que nos dizem respeito a todos. Reflexões lúcidas sobre problemas que estão na agenda do nosso mundo actual, como sejam o aquecimento global, ou o impacto da internet na nossa sociedade. Os quatro capítulos podem ler-se independentemente um dos outros, pelo que a curiosidade do leitor guiará a sua leitura.
Como escreve Martin Rees, a ciência, para além de nos permitir ter noções que sustentam opiniões próprias sobre os maiores desafios da humanidade, é uma fonte de prazer e de maravilhamento para toda a gente. Assim também é com a leitura deste livro que aconselho a todos.


António Piedade

sexta-feira, 14 de abril de 2017

A culpa é das estrelas?

Num encontro com alunos do ensino básico (organizado pela Rede de Bibliotecas Escolares), perguntei aos jovens que livros tinham lido. Vários referiram-me “A culpa é das Estrelas” de John Green, um “best-seller” que não conhecia. Pois fui ler e gostei. Bem escrito, com humor – na verdade o que os jovens devem ter gostado mais – e eles não lêem estes livros com os mesmos olhos dos adultos – e, não, não achei nem triste nem lamechas.

Para quem não saiba, o livro tem como heroína Hazel, uma jovem de dezasseis anos que tem um cancro da tiróide com metástases no pulmão e um namorado de dezassete, também com cancro, que conheceu num grupo de apoio, o qual acaba por morrer. As personagens têm aquele tipo de humor optimista e irónico que gostamos em Oscar Wilde e Mark Twain que nos pode reconciliar com a condição humana e o mundo, mas nem sempre... Foi uma pena que não o tivesse lido antes, pois poderia ter dito mais algumas coisas sobre como este livro nos pode fazer reflectir sobre o cancro, o que sabemos sobre esta doença e os medos que nos inspira.

Antes de mais é preciso notar, como diz o autor, que se trata de uma obra de ficção, na qual este nem sempre quis seguir os conselhos científicos que lhe foram dando. O cancro de que a heroína sofre, carcinoma diferenciado da tiróide, tem, em geral, diz a literatura, boas possibilidades de tratamento e, os cancros de tiróide, em jovens têm elevado grau de possibilidade de cura (99.7% sobrevivem mais de 5 anos, segundo os mais recentes números - ver abaixo). E têm aparecido novos medicamentos para os casos mais difíceis (por exemplo, a EMA aprovou o lenvatinib em 2013 - a FDA em 2015 – para os casos raros de carcinomas da tiróide resistentes a outras terapias). E há, claro, vários outros medicamentos e tratamentos, mas, em termos individuais e também estatísticos, como veremos adiante, há uma componente de azar e sorte.

É também de notar a envolvência de cuidados de saúde e o apoio aos doentes que se observa no livro. É certo que as coisas nem sempre correm bem e nem sempre as pessoas que trabalham em saúde lidam com perfeição com as situações humanas, mas a procura do controlo do sofrimento e a qualidade de vida que é oferecida aos doentes, são hoje muito mais elevados do que no passado. A Hazel tem à sua disposição analgésicos, oxigénio transportável e muitas outras coisas que aparecem de forma directa ou indirecta no livro. O medicamento que o autor declarou inventar para sua e nossa fantasia, o Falanxifor, não é um nome de um antitumoral genérico (este poderia terminar em mab, se fosse um anticorpo, tinib, se fosse um inibidor da tirosinaquinase, ou ainda em antrone, nercept, fulven, citabin, etc., sufixos de antitumorais) Este nome poderia, claro, ser o da marca do medicamento, mas o mais provável será o autor ter escolhido um nome não causasse confusão com nomes reais.

Dois artigos que sairam recentemente (Siegel et al. 2017 e Tomasetti et al. 2017) levantam algumas questões importantes sobre o cancro, mas é preciso ter cuidado com os mal-entendidos. O cancro é uma questão de sorte ou azar? Há riscos acrescidos? Estão a aparecer mais ou menos casos de cancro? Morre mais gente de cancro? Os novos tratamentos são uma ilusão ao serviço do lucro da indústria farmacêutica? Há distorções no mercado dos medicamentos?

A forma como fazemos as perguntas, condiciona quase sempre as respostas. Comecemos pelas duas últimas (de que os artigos acima não tratam). Não, os novos tratamento e medicamentos não são uma ilusão, mas os milagres são uma questão de fé. Para doenças como as escleroses, as fibroses, alguns tipos de cancro, a hepatite C, a hemofilia, certas doenças genéticas raras, etc., tudo o que se vai conseguindo é bom, mas é preciso mais. E é cada vez mais difícil e caro obter novos medicamentos. Eles vão surgindo a um ritmo médio de apenas trinta por ano, e isso é pouco. Milhares de investigadores nas universidades e em pequenas e grandes companhias vão fazendo descobertas fundamentais e importantes, mas os testes clínicos são tão caros, demorados e complexos, que quando os medicamento inovadores chegam perto do mercado, a maioria das pequenas companhias e as suas patentes são compradas pelas grandes companhis por milhões - não raras vezes vezes biliões - de euros! Tudo isso, claro, se reflecte no preço dos medicamentos inovadores e pode causar (causa certamente) distorções no mercado e na investigação que conduz ao desenvolvimento de novos medicamentos. Para as grandes companhias é actulmente mais lucrativo investir em medicamentos para doenças raras ou de paises "ricos",  do que em infecções de paises "pobres" que precisem de novos antibióticos, ou comprar medicamentos em teste com boas probabilidades de serem aprovados, do que iniciar novos projectos que têm grande probabilidade de falhar ou de não dar lucro. Mas, para os investigadores nas universidades, centros de investigação e pequenas companhias tudo isso é uma oportunidade! A investigação sobre doenças potencialmente menos interessantes para as grandes companhias, como a malária ou outras infecções, vai sendo mantida viva, pela investigação nas universidades e centros de investigação.

Mas voltemos às outras questões. Sim, actualmente morrem mais pessoas de cancro, mas apenas porque somos muitos mais no planeta! E, não, não morrem mais pessoas de cancro em percentagem da população. Todos os estudos (ver as referências) indicam que a incidência de cancro é, em geral, actualmente menor e a percentagem de sobrevivência é cada vez maior. E as crianças e jovens? Mais uma vez, os números dizem que a generalidade do número de cancros não está a aumentar e que a probabilidade de tratamento e cura aumentou claramente nos últimos anos.

É claro que à medida que se envelhece, a probabilidade de ter cancro aumenta, mas pode não se morrer do primeiro cancro, nem do segundo, talvez do terceiro, quarto ou quinto e, eventualmente, todos acabaremos por morrer, seja lá do que for. Claro que há um elemento de sorte ou azar, mas achar que não se pode fazer nada em relação a isso é muito enganador.

Sim, de acordo com o estudo de Tomasetti et al. (2017), cerca de dois terços das mutações que podem conduzir a cancros surgem por acaso e apenas um terço é devido ao aumento do risco. Mas, sim, os riscos acrescidos devido ao fumo do tabaco, a alimentação pobre em legumes e rica em carne e gorduras e outros riscos são também relevantes como referem os autores do estudo, assim como a prevenção e a intervenção atempada. Mais do que isso, mutações não é o mesmo que cancro.

Voltando ao livro. A culpa pode ser das estelas (chamando dessa forma o azar) em dois terços dos casos, mas para a maioria dos casos já existem os medicamentos e por isso a mortalidade média tem diminuido, assim como a qualidade de vida dos doentes tem aumentado.

A longo prazo estaremos todos mortos, escreveu Keynes. Todos, diz a Hazel no grupo de apoio: Chegará uma época em que todos nós estaremos mortos. Todos. (…) mesmo que sobrevivamos ao colapso do Sol, não iremos sobreviver para sempre. (...)

Numa anedota (irónica) que por acaso contei nesse dia aos alunos, uma idosa que assistia a uma palestra sobre astronomia, ouviu que o Sol iria acabar, mas não percebeu bem se seria  nos próximos 10 milhões ou nos pŕoximos 10 biliões de anos... Ah! 10 biliões!? Fico mais descansada... 

Referências
Siegel et al. Cancer statistics, 2017. CA Cancer J Clin. 2017; 67:7–30
Tomasetti et al., Stem cell divisions, somatic mutations, cancer etiology, and cancer prevention, Science 2017, 355:1330-1334
Walsh, M. Reports that cancer is ‘mainly bad luck’ make a complicated story a bit too simple (acedido 13 de Abril de 2017)

Referências adicionais
American Cancer Society, Global Cancer Facts & Figures, 3rd edition, 2015 
Siegel et al. Cancer statistics, 2016. CA Cancer J Clin. 2016; 66:7-30
Ward et al. Childhood and adolescent cancer statistics, 2014. CA Cancer J Clin. 2014;64:83-103

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Ciência entre Poesia e Metáforas

Texto que escrevi inicialmente para o projeto Ciência na Imprensa Regional.


Vivemos numa época em que a atividade científica é realizada a uma escala global, com milhares de cientistas em inúmeros grupos de investigação e nas mais diversas áreas. Os resultados destas pesquisas são publicados em revistas científicas internacionais, com linguagem quase hermética resultante do elevado grau de especialização, e, portanto, praticamente inacessíveis aos restantes cidadãos. É neste contexto que nos apercebemos da enorme importância que têm os divulgadores de ciência ao selecionar, desmontar e explicar, de modo compreensível a todos, os resultados da investigação internacional.

Vem esta reflexão a propósito do mais recente livro, “Íris Científica 3”, do divulgador de ciência António Piedade. Este é um livro dividido em duas partes, em que o autor, primeiro, olha para fora, falando-nos das pesquisas mais recentes sobre o espaço, para depois olhar para o que se passa no nosso planeta, abordando a investigação laboratorial. As macro e micro escalas encontram espaço neste livro de cerca de 140 páginas. São pequenos textos que nos falam dos mais diversos temas científicos, de um modo fascinado e literário, quase poético. Aliás, não poderia começar de melhor maneira: “Olho o conhecimento com um deslumbramento novo!”. Ou ainda, mais à frente, antes de falar da gama do espetro da luz solar que os nossos olhos são incapazes de captar, escreve: “Abraço o arco-íris com o olhar visível”. Um último exemplo, já no final do livro, após explicar a cor das folhas das árvores nas várias estações, recorrendo à fisiologia das plantas, conclui: “Disfrutemos a beleza da paleta outonal, pois não há outra igual!”.

Este é ainda um livro de desafios, quando, por exemplo, começando por falar da Terra incita-nos a calcular a massa da via láctea. Ou qual a quantidade de cálcio ou sódio existe no nosso corpo, ou ainda o que está a acontecer à mancha vermelha de Júpiter?

Ao mesmo tempo que o autor divulga a investigação realizada, aproveita também para partilhar algumas reflexões, como no caso em que, ao falar da cooperação entre as primeiras células que foi necessária para o desenvolvimento da vida na Terra e ao falar da cooperação entre astrónomos de vários países que permite observações de campos recônditos do cosmos, constata quão importante é a cooperação para a vida assim como para as nossas atividades quotidianas: cooperando alcançamos “aquilo que sozinhos não conseguimos, ou levamos mais tempo a atingir”.

Outro aspeto relevante, e que pode passar despercebido à maioria dos leitores, é como a situação social está a afetar a nossa vida, o que se reflete na nossa maneira de pensar e por conseguinte de comunicar. Como vários investigadores têm notado, o contexto bélico do século XX influenciou a criação de metáforas em bacteriologia e imunologia, com bactérias que atacam, um sistema imunológico que se defende dos invasores e um interior do corpo humano que é um campo de batalha. No presente, António Piedade fala da genética numa linguagem diferente, em que menciona “diálogo” entre cromossomas, interação com um “governo bioquímico que estamos longe de entender bem”, “confrontação democrática”, “tendências”, ou “economia genética”. Sinais dos tempos em que a preocupação com a guerra deu lugar à preocupação com a situação política e económica, criando uma linguagem de pensamento nova.

Os textos de “Íris Científica 3” resultam de crónicas que tem escrito para o projeto Ciência na Imprensa Regional – Ciência Viva. Este livro vem juntar-se aos outros dois anteriores, formando uma coleção que vale a pena acompanhar e, decerto, ser estudada do ponto de vista académico num futuro próximo. 

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Camilo e a química - o tabaco e os romances...

O jornal Expresso está a oferecer reedições de alguns livros de Camilo Castelo Branco. No sábado passado foi a vez de O que Fazem Mulheres.  Trata-se de um livro verdadeiramente divertido e irónico que antecipa "os modernos processos da literatura inter-activa" segundo escreveu Annabela Rita no Prefácio. 

Camilo avisa no capítulo inícial a todos os que lerem (antecipando o que virá a seguir, realcei algumas frases com referências científicas e químicas):
"É uma história que faz arrepiar os cabelos.
Há aqui bacamartes e pistolas, lágrimas e sangue, gemidos e berros, anjos e demónios.
É um arsenal, uma sarrabulhada, e um dia de juizo final.
[...]
Há aí almas de pedra, corações de zinco, olhos de vidro, peitos de asfalto?
[...]
Aqui há cebola para todos os olhos.
[...]
Cadinhos de fundição metalúrgica para todos os peitos.
[...]
O leitor sabe o que isto é? Já sentiu na alma o apertar de um cáustico? Excruciaram-no, alguma vez, os flagelos da inspiração corrosiva, com duas onças de sublimado?
Se não sabe o que isto é, estude farmácia, abra um expositor de química mineral, e verá."
Segue-se um "Capítulo Avulso -  Para ser colocado onde o leitor quiser", linhas de reticências que aparecem mas não significam nada, voltas, viravoltas e reviravoltas narrativas, dialógos com os leitores e editores, cartas anónimas que o autor não conseguiu ler e por isso não sabe o seu conteúdo, mulheres espertas, diabólicas e santas, e homens vagamente tolos. E termina com dois finais antagónicos, em dois capítulos com a palavra "FIM", sendo que o último destes é denominado "Suplemento - Prefácio".
  
Há também um charuto com um papel secundário mas importante que aparece inicialmente no capítulo avulso numa diatribre contra o tabaco (antecipando também os anúncios anti-tabágicos chocantes - e não é igualmente chocante a imagem acima!?),
"Para vós, Bórgias, para vós, raça de Locusta, e de Brinvilliers, para vós envenenadores impunes, o patíbulo neste mundo, donde fugiu espavorida a vergonha e a justiça; e os caudais de súlfur em combustão eterna nas furnas tartáreas, onde é de fé que dá urros medonhos um condenado chamado Nicot, que trouxe para a Europa o tabaco, e teve a impudência de o trazer a Portugal em 1560, onde viera com embaixada de França.
Porque os vossos charutos propinadores de venenos, enegrecem as substâncias orgânicas, como o ácido sulfúrico.
São amargos e cáusticos como o ácido nítrico.
Calcinam os beiços como o ácido hidroclórico.
Queimam a laringe como o ácido fosfórico.
Laceram o esófago como o acetato de chumbo.
Fulminam e despedaçam como o ácido hidrociânico."
Estas referências químicas, que são razoavelmente exactas tanto quanto é conhecido das substâncias referidas, tinham-me escapado, por não conhecer este livro, quando escrevi sobre a química em Camilo! O que foi uma pena, pois, em seguida Camilo refere que,
"Um manual de química para uso dos leitores de romances é instantemente reclamado. Sente-se na literatura este vazio, desde que a novela é um estendal da ciência humana;"

segunda-feira, 7 de março de 2016

PAIXÃO PELA FÍSICA

Recensão primeiramente publicada na imprensa regional.



Muito provavelmente também aconteceu consigo. Há professores cuja influência nos acompanha pela vida fora. Professores que, com o seu entusiasmo e carisma contagiante, nos iluminaram o caminho, nos ensinaram de forma apaixonante uma dada disciplina, nos mostraram a beleza que há mesmo nas matérias mais difíceis. Em suma, há professores que mudam a nossa vida debruando-a com a paixão que há em compreender, em saber.

Entre nós há, felizmente, muitos exemplos de professores desses. Exemplo maior nas ciências foi o professor de física e de química Rómulo de Carvalho, que ensinou apaixonadamente várias gerações de alunos que lhe ficaram e estão agradecidos.

Na Física, a nível mundial, há um professor que se destaca: Walter Lewin. O leitor poderá não o conhecer. Mas, acredite, se assistir a uma aula dele passará a olhar para a Física com entusiasmo. Se já gostar de Física, ficará deslumbrado com a forma apaixonada, divertida e simultaneamente rigorosa com que Walter Lewin ensina as matérias mais difíceis e exigentes da Física.

E onde é que pode assistir às aulas deste professor? Na comodidade da sua casa, através do YouTube, na internet. É que as aulas que Lewin deu durante décadas no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), estão disponíveis para nosso encanto aqui. Têm sido excecionalmente populares ao longo dos anos. As 94 aulas disponíveis (três cadeiras completas, entre elas a famosa “Física 8.01”, e sete aulas temáticas) têm cerca de 3 mil visualizações por dia, mais de um milhão de alunos por ano!

O talento só dá frutos com muito trabalho e dedicação persistente. E o sucesso deslumbrante das aulas de Walter Lewin deve-se, segundo o próprio, a um trabalho meticuloso e pormenorizado, em que cada palavra, cada demonstração foram planeadas e preparadas muitas vezes antes de cada aula. Lewin era conhecido entre os colegas por fazer um último ensaio geral às cinco da madrugada do dia em que dava aulas para plateias de 400 alunos. Sim, ensaio geral: as aulas deste físico, de origem holandesa, envolvem demonstrações experimentais espantosas e surpreendentes. Lewin chega a colocar em algumas delas a sua própria vida aparentemente em risco. Aparentemente, pois a confiança e o rigor científico asseguram-lhe que de facto nada de mal lhe vai acontecer durante as demonstrações. A sua confiança na ciência é espectacular!

“Apresento as pessoas ao seu próprio mundo, o mundo em que vivem e que lhes é familiar e que não abordam como um físico – ainda não abordam”, diz Lewin para explicar o segredo do seu sucesso. É esta aproximação da Física ao dia-a-dia de todos nós que facilita a compreensão dos fenómenos.

Para coroar décadas de ensino numa das melhores escolas do mundo (o MIT), Lewin escreveu em 2011 o livro “A Paixão da Física – do final do arco-íris à fronteira do tempo, uma viagem pelos prodígios da Física”. Este livro foi agora publicado entre nós pela Gradiva, integrado na sua prestigiada colecção “Ciência Aberta”, com o número 214. O livro é prefaciado por Warren Goldstein, prestigiado historiador e ensaísta, ele próprio um entusiasta da Física e do trabalho desenvolvido por Lewin.




A tradução do original inglês é de Florbela Marques que fez um excelente trabalho. A revisão científica é de Carlos Fiolhais (que também é o actual director da colecção) e a revisão de texto ficou a cargo de Helena Ramos. São 400 páginas de puro fascínio pela Física e uma excelente obra de divulgação científica para todos.

Ao longo de quinze capítulos, Lewin conta-nos as suas aulas, a sua vida enquanto professor e cientista. Mas este livro está comoventemente compaginado com uma componente humana, em que Lewin partilha connosco como em criança escapou aos nazis, os seus tempos de estudante na Holanda, como começou a ensinar e conquistou uma cátedra do outro lado do Atlântico.

Walter Lewin também foi um extraordinário físico experimental: foi pioneiro na astronomia de raios X, contribuiu para a nossa compreensão de supernovas, de estrelas de neutrões, para a investigação experimental sobre existência de buracos negros. E a história desta ciência também é descrita na primeira pessoa neste livro, contribuindo assim com um testemunho pessoal para a história de como se faz ciência de qualidade na fronteira do conhecimento. É, assim, também um livro de história da ciência.

Esta obra é uma forma excelente de Lewin divulgar o seu entusiamo contagiante pela Física àqueles que não puderam ser seus alunos. Muito bem escrito, numa linguagem acessível e contagiante, este livro guia-nos pelo nosso mundo explicando como funciona através da Física que com ele passamos a compreender. É destinado a todos, porque todos gostamos de compreender o universo em que existimos. Apaixone-se pela Física com este livro.


António Piedade

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Evocações químicas a propósito da obra de Miguel Torga: da banalidade ao maravilhoso


  Texto elaborado para a palestra realizada na Casa Miguel Torga, no dia 10 de Fevereiro de 2016, integrada nas “Tardes no Torga”

O que liga a química a Miguel Torga? Que evocações químicas podemos encontrar em Torga? Na minha opinião, muitas e variadas: desde as mais banais – mas nem por isso menos interessantes, pois são portas para o maravilhoso - até às mais subis que nos conduzem a caminhos inesperados. Como quimico e leitor de Miguel Torga, são esses caminhos que irei percorrer, procurando não me perder com erudições fúteis,
Coimbra, 9 de Novembro de 1984 – Sábios. Lá estive parte da noite no meio deles, a ouvi-los como de castigo. Minerva é só meia irmã das Musas. Nunca ensinou a nenhum filho que o fulgor de um verso pode valer por mil silogismos. [...]
Esta passagem do Diário serviu-me de desafio para a palestra. Colocar a relação entre a ciência, neste caso a química, e a poesia não em campos opostos, mas complementares. Ou mesmo, seguindo Shelley, procurar mostrar que a ciência é muito importante porque nos ajuda a explicar e agir sobre a complexidade e maravilhas mundo, enquanto que a poesia pode contribuir para a compreensão, aceitação e admiração do mundo.

Miguel Torga deve ser lida, mais do que analisado. A beleza e a lucidez por vezes crua, mas não cruel, da sua escrita, única e maravilhosas, sublimam, em particular no Diário – o qual soma mais de mil e setecentas páginas - sessenta anos da vida de um ser humano que declarando-se poeta, foi também médico. Um poeta cuja poesia mais sublime está, na minha opinião, nos seus contos e Diário. Um caminhante e admirador da natureza verdadeira (não da romântica dos que não a vivem), um viajante incansável, praticante da liberdade, e, sobretudo dono de uma curiosidade intelectual e cultural insaciáveis, as quais foi preenchendo de forma tanto sistemática quanto caótica, a partir de uma infância dura. O Diário e os contos devem ser lidos, assim como essa obra única que é a sua autobiografia com a geografia retocada que é a Criação do Mundo.

Não conheci Torga pessoalmente, mas acredito compreender muitos aspectos da personalidade de Torga pois, eu próprio, filho de um latoeiro – curiosamente há vários no Diário que Torga vai observando e admirando -, que mais tarde foi operário sem deixar de ser artista da lata, e também neto de pessoas do campo, encontrei em Torga, com as devidas distâncias, muitos dos inconformismos que desenvolvi e muitas das desconfianças que uma pessoa que vem do campo encontra na cidade, em especial quando, como Torga, se cruza com citadinos que não sabem desmanchar um porco de matança, nem conhecem a diferença entre uma oliveira e um azambujeiro, e que não entendem que a cultura e a poesia são conquistas e não heranças. Que a rudeza da natureza e a nossa acção sobre ela é também a sua beleza e tragédia,
Coimbra, 20 de Novembro de 1960 O que me tem valido é a resistência da cepa. Sou como aquelas oliveiras cordovesas enxertadas a azambujeiro. Dou azeite poético, com a mínima acidez possível, num cavalo com toda a amargura do mundo.
Torga costuma ser catalogado como um escritor rural e telúrico, ligado às serranias e fragas de Trás-os-Montes. Mas, no que escreveu, não se encontra bucolismo nem saudosismo - antes pelo contrário-, para além da admiração pela coragem e carácter das gentes do campo e relativa compreensão para com a resignação destas em relação à miséria e ao sofrimento. Segundo Torga, Eça falhou em A Cidade e as Serras porque nunca sujou as botas na serra. Embora, escrita num contexto particular, a afirmação seguinte de Torga resume o seu inconformismo e ao mesmo tempo a sua adesão ao progresso ao serviço da humanidade,
Coimbra, 31 de Outubro de 1947 [...] Não sou impermeável ao progresso, muito pelo contrário, mas necessito que me demonstrem a razão das coisas.
Claramente, em algums momentos que irei referir mais à frente, Torga não ficou convencido da necessidade do progresso, e até o rejeitou ou se refugiou dele,
Coimbra, 26 de Abril de 1952 Contra o aceleramento da história um passeio no campo. Não conheço outro antídoto. Diante de uma arte que parece ter as suas possibilidades esgotadas [...] duma ciência que devora a própria matéria que estuda, ou duma técnica apostada em envergonhar a nossa fisiologia – só há o recurso das hortas.
Noutros momentos, acreditou na esperança, com a ironia de quem nos anos 1960 acompanhava as promessas de cura para todas as doenças,
Coimbra, 20 de Dezembro de 1966
[…] não há dia nenhum sem a notícia de qualquer prodígio. Astronautas que sobem e descem, descobertas que se sucedem, ortodoxias que se pulverizam, doenças incuráveis que se curam, toda a vida do mundo a ferver no caldeirão da esperança.
Hoje, poder-se-ia fazer a mesma ironia – num artigo recente do The Economist tinha o título: “2016: o cancro vai ser curado... outra vez!” -, mas isso seria um erro de perspectiva. Curamos actualmente muito mais doenças e para isso a química muito tem contribuido.

Mas voltemos à aparente trivialidade: o uso da palavra «química». Miguel Torga utiliza a palavra algumas vezes no Diário. Por exemplo, em sentido literal, esta é usada para se referir à água,
São Martinho de Anta, 27 de Dezembro de 1938 Descobri hoje a água. Não a água lírica dos poetas. Descobri mas foi a água química e líquida, a correr, a manar duma fraga [...]
Esta bela passagem pode levar-nos à complexa química desse líquido especial que é água, que existe no nosso planeta nos três estados e é a substância mais importante para a vida – tudo coisas tão banais como maravilhosas – mas deixemos isso para outro altura. A água, em especial a termal, tem uma presença importante em Torga. Na passagem seguinte evoca-se simultaneamente a descrença na ciência e na água como tratamento, e mesmo como enriquecedor das relações humanas...
Caldelas, 16 de Agosto de 1952 «Quem com água se cura, pouco dura» diz o ditado. Mas eu cá me vou aguentando, a beber água da fonte. Com a mala cheia de drogas, acabo por ingolir apenas estes bochechos homeopáticos de linfa natural [...] maltratado pela ciência de hoje, apego-me instintivamente a esta sabedoria empírica do passado, além do mais, poética. [...]
A paisagem repete-se muito [...] os devotos são sempre os mesmos [...] mazelas que nunca são curadas [...]
Relações humanas para as quais Torga clama por um "insecticida" - produto da química bastante discutido no final dos anos 1950 - metafórico,
Coimbra, 21 de Abril de 1959 – Tanto insecticida que se descobre, e não há meio de aparecer um capaz de debelar o equívoco – a praga das relações humanas.
A química é referida em sentido metafórico duas outras vezes,
Leiria, 5 de Abril de 1940 – [...] O Monte dos Vendavais. Nunca li nada onde o tétrico fosse tão quimicamente puro.
Porto, 28 de Abril de 1958 […] assistir à representação de uma peça nossa. Tem-se pelo menos a visão objectiva da impotência quimicamente pura.
No contexto da prática médica de Torga e das operações e análises a que é sujeito, surgem também referências explícitas à química,
Lisboa, Hospital de S. Luís, 21 de Junho de 1972 […] a minha natureza tenta manter-se alerta. Mas tem contra ela o poder da química e a tarimba do médico. O hipnótico acabará por actuar […]
Coimbra, 26 de Janeiro de 1986 O dia inteiro a ser prescrutado por dentro pelos olhos impiedosos da ciência. A física e a química apostadas em determinar os dias que me restam. Dantes a duração da vida era um mistério sagrado. Agora conhecem-se os mecanismos íntimos da fisiologia e basta a dosagem no sangue de determinado elemento para sabermos a que distância estamos do fim. É um grande progresso do saber e uma grande desolação. Sai-se do laboratório com um sentença de caica sem apelo nem agravo, a cumprir a curto prazo, exarada laconicamente num algarismo, num gráfico, numa imagem.
As referências não literais que aparecem à química no decurso da sua prática médica e da análise que vai fazendo do mundo, ao longo da sua vida de escritor são muito mais interessantes. Assim, como os reflexos que vai dando e recebendo do que acontece no mundo que o rodeia. Em especial, os textos que vai escrevendo reflectem processos naturais e artificiais, assim como o impacto da existência ou não de medicamentos químicos para determinadas doenças. Já segui essa pista, que nos pode conduzir do banal ao maravilhoso, no livro “Jardins de Cristais- Química e Literatura” e vou aqui complementá-la com alguns outros exemplos.

Nos Contos da Montanha, de 1941, no conto Maria Lionça, o médico pouco mais faz do que receitar óleo canforado, tintura de jalapa e digitalina. No início do Diário, Torga está na aldeia a receitar pouco mais do que xaropes. O médico é demasiadas vezes impotente perante a doença. Nos Novos Contos da Montanha, de 1944, Julião está condenado e o médico nada pode fazer,
O médico olhou-o, coçou a cabeça, pôs-se a mexer nos papéis da mesa, e acabou por dizer a triste verdade.
- Pois é, é... infelizmente, é.
Nem falaram de remédios, nem de hospital, nem de nada. […] Ambos se resignavam aquela fatalidade monstruosa. O doutor ficava com o nome miraculoso e com a sabedoria inútil; o gafado ia mostrar ao mundo, de mão estendida, a sua repugnante desgraça.
[...]
A tragédia é total e quase incompreensível hoje em que a lepra é facilmente curada, mas ainda não desapareceu totalmente. Só nos anos 1950 apareceu um medicamento eficaz, a dopsona. Até lá a doença era tristemente democrática,
São Martinho de Anta, 15 de Setembro de 1945 [...] Tudo ignorância? Tudo miséria? Talvez. Mas a lepra toca os ricos, os pobres e os remediados [...]
Como indiquei com mais pormenor em “Jardins de Cristais” o tratamento proposto a Julião, embora inútil, não estava muito longe do único que havia até aos anos 1940, ácido chaulmúrguico, muito semelhante em termos fórmula química (não de estrutura) ao ácido oleico do azeite. Assim a cura deseperada - mas inútil - tinha algumas parecenças com as que existiam...
- Você já experimentou azeite? - perguntou-lhe um dia em S. Cibrão uma velhota – Dizem que é como quem dá um talhadoiro. Tem é de se tomar banho nele. [...]
Infelizmente as chagas e os bubões da lepra foram insensíveis ao banho purificador. E, o Julião depois de alguns dias de esperança, incerteza e desilusão, esqueceu-se de si e da sua tragédia, para começar a pensar noutra coisa: reaver os cinquenta mil reis que dera pelo remédio enganador. […] Quem seria capaz de lho comprar? [...]
Também os antibióticos não estavam disponíveis até 1944. Em 1943, Torga escreveu,
Coimbra, 4 de Maio de 1943
[...] uma meningite, muitos dias entre a vida e a morte [...] e o doutor no derradeiro instante a salvar a situação com um frasco de sulfamidas e algumas injecções de soro.
As sulfamidas são medicamentos sintéticos artificiais, mas bastante falíveis e com muitos efeitos secundários. Hoje não passariam no crivo dos testes clínicos.

E, em 1945, Torga experimenta pela primeira vez a penicilina,
Coimbra, 1 de Fevereiro de 1945 – Penicilina. Lá ensaiei também a última panaceia que a ciência inventou. Um miúdo em arder em febre, o pus a estalar-lhe os ouvidos, e dores medonhas. Dantes deitavam-lhe sobre a membrana do tímpano leite de parida, e era cura radical. Agora, penicilina. Quando a fui buscar a casa de um doente onde havia sobrado, o pai do enfermo não queria largar mão do tesoiro. [...] acreditava com uma força sobrenatural na magia da droga. [...] E eu injectei aquilo ao mesmo tempo humilhado e contrito. Por um lado, sabia que o fungo havia de ser ridículo daqui a cinquenta anos; por outro, era o máximo que o esforço, a inteligência e a esperança da humanidade tinham conseguido até hoje.
Torga tem bastante intuição sobre a perda de eficácia da penicilina, devida à evolução das bactérias que resulta na resistência aos antibióticos. Depois da penicilina, uma molécula de origem natural, isolada a partir de 1941 e preparada em série a partir de 1944, inicialmente para uso militar, foram descobertos outros antibióticos naturais e semi-sintéticos. Um destes é ampicilina que é uma modificação artificial da penicilina e ficou disponível a partir de 1961.

Actualmente são conhecidas mais de cem milhões de substâncias, sendo descobertas mais de quinze mil por dia. Cerca de metade são de origem natural, sendo a outra metade de origem artificial, ou seja feitas em laboratório, não existindo na natureza. Outras, existindo na natureza, são produzidas (sintetizadas) de forma não natural (tendo exactamente as mesmas propriedades das naturais). Muitas destas moléculas são possíveis medicamentos.

A situação é muito diferente do início do século XX. O primeiro grande estudo sistemático foi realizado por Paul Ehrlich que descobriu, em 1909, a “bala mágica” para a sifílis, o salvarsan. Mas estes tipos de descoberta foram durante muitos anos muito escassos.

Voltando aos Contos da Montanha, de 1941, no conto Castigo, um parto corre mal,
Num terror de náufrago, o Dr. Daniel pôs-se a injectar anticoagulantes a torto e a direito, a meter mechas, a comprimir o ventre com toda a força. Nada.
[…]
O pulso caía a olhos vistos. Uma palidez de cera cobria o rosto da infeliz.
- Cardiazol, depressa!
- Quero o meu homem ao pé de mim! - pediu Silvana, com súbita energia.
[…]
- Vou morrer, Bernardo, e quero-te pedir perdão....
A tragédia é grande, mas concentremo-nos em duas palavras «anticoagulantes» e «cardiazol». O anticoagulante disponível era a heparina, um polisacarídeo anticoagulante natural obtido a partir de animais. Demorou ainda algum tempo a surgir um anticoagulamente artificial, a varfarina, mas a heparina ainda hoje é usada. A história da heparina é interessante, mas a do cardiazol é muito mais. Tendo descoberto, em 1924, um processo para produzir tetrazóis, Karl-Friedrich Schmidt patenteou a possibilidade de obter moléculas com essa estrutura e criou de imediato uma companhia farmacêutica. Em 1926 a molécula já era testada como estimulante da respiração e fluxo sanguíneo e do SNC em geral. Rapidamente se tornou popular, sabendo-se, no entanto, que em excesso provocava convulsões. Em 1937 foi testada para um suposto tratamento de doentes mentais com terapia convulsiva. Esse tratamento era complicado e tinha efeitos secundários elevados, tendo sido substituido mais tarde pela terapia electroconvulsiva.
Só a partir dos anos 1950 foram desenvolvidos medicamentos relativamente eficazes para a esquizofrenia e outras doenças mentais, deixando a terapia convulsiva, o choque insulínico, a terapia malárica e a lobotomia como horrores históricos que espelham a impotência da medicina, antes dessa década, perante estas doenças. É de notar, a esse propósito, o conto Milagre em que Raquel depois de desenganada da medicina é levada à bruxa fica “curada” apenas a tempo de se atirar de uma fraga.

Há bastantes outros partos nos livros de Miguel Torga, um deles realizado por um padre com sucesso. Noutros, como no do conto anterior as coisas correm mal. Noutros ainda há nados-mortos, mortes prematuras, injecções, sofrimento. As coisas melhoraram muito desde essa altura. Ha também bastantes referências a proles extensas. A Mariana de Novos Contos da Montanha e a meretriz do Diário, por exemplo,
Coimbra, 28 de Abril de 1943
[...]
Profissão?
- Meretriz.
- Filhos?
- Oito.
- E todos desde que...
- Todos.
[...] Amparou a barriga desmedida, acomodou-se no banco [...]
- Abortos?
- Nenhum.
[...]
O nono rebento nasceu como o de qualquer mulher honrada [...]
Será que estas seriam as mesmas personagens com o conhecimento dos contraceptivos orais modernos, disponibilizados pela química a partir dos anos 1960?

O Diário espelha também muito bem a evolução de atitudes perante o tabaco, um produto natural que faz muito mal por se ingerir o seu fumo cheio de produtos também naturais, infelizmente cancerígenos. Nos anos 1940 fazia tosse, nos anos 1980 era já claramente nocivo,
Coimbra, 15 de Abril de 1943 – Era preciso dizer-lhe que o fumo lhe fazia mal, lhe aumentava a tosse e o pigarro. Nos livros, pelo menos, vinha assim. Mas filosofei:
- Olhe, a vida, sem uma pitada de risco, não presta. [...] um diabo que se esconda no bolso do colete [...] Intoxica, mas é um regalo vê-lo depois desfeito em cinza, vencido à custa de um segundo da nossa vida.

Praia do Pedrógao, 23 de Agosto de 1981Os malefícios do tabaco. […] os do cigarro que concreto que toda a gente fuma. […] E pôs-me diante dos olhos as estatísticas, por mim, de resto, conhecidas. Simplesmente, eu navegava noutras águas. Nas da angústia humana, que desde os primórdios […] se socorreu de tóxics que a acalmassem, pacificassem, fosse qual fosse o preço. […] Há dores mais profundas e pertinazes do que essas que se aliviam com aspirina.
Podemos encontrar aspectos químicos ainda mais subtis. A partir do conto A vindima, já muito analisado em termos liguísticos e sociológicos, podemos seguir um manancial de alusões química. A produção do vinho, as reacções de transformação da glicose em etanol na produção do vinho. Os efeitos do álcool no mosto parcialmente fermentado,
Ao cabo de quatro dias de vindima na Arrueda, o cheiro do mosto embebedava os sentidos. […]
Podemos seguir a química do amor, com as moléculas norepinefrina, serotonina e dopamina, que, sendo, palavras bonitas contribuem para a beleza do amor,
Ou porque trazia dentro o fogo da paixão a aquecê-la, ou inspirada pela beleza do cenário, a Lúcia punha o coração a voar […]
E chegar à química da tragédia e do sofrimento,
[…] quando daí a bocado chegou congestionado à vinha e deu a notícia do desastre, quase teve de berrar.
Foi então que a voz da Lúcia estacou de vez. Garroteada como a do namorado, a garganta fechou-se-lhe num espasmo de perpétua agonia.
Vitorino entrou dentro do tonel e já não saiu com vida, provavelmente devido a envenenamento com monóxido de carbono, mas também poderia ter sido devido a asfixia por dióxido de carbono, como acontece, por vezes, em poços. No primeiro caso, o monóxido de carbono, um gás que não tem uma densidade muito diferente do ar, mas que tem uma afinidade muito maior para a hemoglobina do que o oxigénio, adormece-se e morre-se – numa tragédia infelizmente ainda hoje repetida - sem o sentir, com a presença de concentrações mínimas de monóxido no ar. No segundo caso, o dióxido de carbono é um gás mais denso que o ar e morre-se de asfixia em locais em que este se acumule.

Há vários outros aspectos relacionáveis com a química e a ciência em Torga. Não é possível aqui enumerar todos. A bomba atómica é referida várias vezes no Diário. Também os plásticos e o petróleo são evocados, numa primeira perspectiva parecendo como críticas ao progresso, ou, lembrando uma passagem acima, como progresso não comprendido,
Santo António do Zaire, 22 de Maio de 1973 Petróleo! Escrevo a palavra, creio que pela primeira vez, e quase que me admiro de a não ver alastrar no papel numa grande nódoa negra e gordurosa. […] Contemporâneo do advento triunfal na cena do mundo desse pus untoso e fétido, extraído dos absessos recônditos da terra, nunca consegui acomodá-lo harmoniosamente nos sentidos e no entendimento. Sei que onde ele aflora, nasce o oiro. Mas nem assim o amo. O ver do céu, há pouco, o primeiro poço a arder, perguntei a mim mesmo dentro o avião, apesar de o saber alimentado a gasolina, se aquela chama seria um lume de esperança ou um sinal de maldição. […] ia pensando na lição que ali estávamos a dar ao indígena. Em vez de lhe emprestarmos consciência racional à sua riqueza anímica, de lhe abrirmos o entendimento para as virtualidades da natureza que ama mas desaproveita, ensinamos-lhe a técnica de a destruir, de a violentar, de a esventrar e de a poluir finalmente com as fezes da sua própria alma queimada.
Pondo de parte a referência paternalista à "lição" ao indígena  já que todas as afirmações têm de ser vistas à luz do seu tempo e do seu espírito, trata-se de uma proposta claramente ecologista. Já sobre o petróleo: dádiva ou maldição? A resposta depende do nosso optimismo ou pessimismo, mas, como Torga bem refere, não podemos, por agora, passar sem ele.
S. Martinho de Anta, 26 de Março de 1978 - A feira. […] Acabou o artesanato, a expressão singular da actividade humana. Nem um barro modelado, nem uma manta tecida à mão, nem o ferro forjado. Plásticos a todos os níveis. E o mais trágico é que ninguém dá por isso. Ninguém parece lembrar-se sequer do latoeiro, do cesteiro, ou do tanoeiro […] Montes e montes de produtos incaracterísticos, feitos em série enfartam agora os compradores.
Mas afinal o que é criticado não é o material, agente inanimado, mas o seu uso. Montes de produtos incaracterísticos que não parecem ter alma ou calor humanos. A culpa não é dos plásticos é nossa!

Em Torga há percursos a explorar com um olhar químico, partindo da banalidade do dia-a-dia para o espanto perante o maravilhoso que nos rodeia.