Mostrar mensagens com a etiqueta Livros. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Livros. Mostrar todas as mensagens

sábado, 13 de fevereiro de 2021

Mensagens de vários passados: a pandemia esquecida e recordada


[Este escrito foi composto entre Abril e Junho de 2020 e ficou inédito. Assim ficaria, embora continue actual, se não fosse a evocação da tragédia de António Fragoso, lida num livro menos conhecido, a qual merece ser relembrada. É uma mensagem de dois passados: 1918 e 2020]

A epidemia de gripe de 1918, muito recordada atualmente, teve um enorme impacto nas autoridades sanitárias e ficou na memória coletiva, mas aparece pouco na literatura. Seabra e outros na Epidemia Esquecida (ICS, 2009) indicam que Vitorino Nemésio e Raul Brandão, entre outros, não a referem. Rómulo de Carvalho (pseudónimo de António Gedeão), sempre atento, nas Memórias (Gulbenkian, 2010) também não a parece indicar. Surge nos Novos Contos da Montanha, no conto “Renovo”, de Miguel Torga, assim como no livro de Leonardo Jorge, publicado no Brasil em 1968, António Fragoso: um génio feito Saudade (reeditado em 2018), em Amadeo (Circulo de Leitores, 1984) de Mário Cláudio, no Perfumista (Oficina do Livro, 2006) de Joaquim Mestre e em poucos mais. Daniel Melo refere que mais de metade dos romances históricos que envolvem essa época quase nada dizem sobre esta epidemia. E, no entanto, muitos, Torga e Jorge, em particular, assistiram a tragédias pungentes que dizimaram famílias inteiras. Jorge, filho de um médico de Cantanhede, a residir, por causa da epidemia, na Pocariça com seu avó, do Rio de Janeiro conta a memória da tragédia de António Fragoso e da sua família. Havia um ambiente de festa, a Pocariça parecia ser poupada e a família de Fragoso foi das mais visitadas. Mas, no espaço de alguns dias, morreram quatro dos cinco filhos do casal, António, Maria Leonor, Maria Isabel e Carlos. Só escapou Maria Fernanda, com três anos. Morreram também três parentes Elisa, Joana e a tia Corina, mulher de um professor de medicina do Porto, irmão do pai, dizendo, desesperada, que não queria morrer! O horror sentido por todos foi registado por Jorge e Torga e repetiu-se por todo o país. Os médicos impotentes, só davam conforto, mas havia falta destes. Foram registados mais de cem telegramas dos responsáveis. Apesar da censura, nos jornais havia relatos pungentes. Mas, com o fim da guerra, a crise financeira e muitas outras epidemias, a pneumónica raramente foi capa. E, no entanto, esta foi provavelmente mais mortífera do que as duas guerras mundiais e serve de estudo e referência para as epidemias de gripe.

O que tornava a pneumónica terrível era matar sobretudo as pessoas na força da idade. Não há referências literárias ou artísticas dos próprios, como na tuberculose ou na sífilis, porque estes morriam rapidamente e surpresos. Rostand (1868-1918), conhecido pela peça Cyrano de Bergerac, Guillaume Apollinaire (1880-1918), o príncipe Savoy-Aosta (1888-1918) e Egon Schiele (1890-1918), por exemplo. Por aqui morreram João Lúcio [Pousão Pereira] (1880 – 1918), Amadeo de Souza Cardoso (1887-1918), José de Freitas Pimentel (1894-1920) e António de Lima Fragoso (1897-1918), alguns já referidos, alguns dos pastorinhos de Fátima, entre muitos outros.

É interessante ver que medicamentos tinham e o que faziam em 1918. Usavam da quarentena, isolamento e higiene, como atualmente, mas havia coisas que não tinham. Ainda não tinham sido inventados os ventiladores e a maior parte dos medicamentos (que eram poucos) eram fabricados nas farmácias.

Este tipo de problemas só pode ser resolvido com mais ciência. Mais tarde ou mais cedo, vamos ter vacinas e medicamentos. Há universidades e companhias a testá-los. Chegámos a fases clínicas [isto foi escrito entre abril e junho de 2020]. A literatura ajuda-nos a perceber como funciona mas conta também histórias de ficção arrepiantes e distorcidas. Gostamos assim: a ficção ser mais arrepiante e tenebrosa do que a realidade. No livro A invenção da Gripe (Terramar, 2010), A. Travers refere as guerras das farmacêuticas, com as suas  vacinas e medicamentos, a propósito da crise da gripe A/H1N1, em 2009. Os nomes são diferentes, mas quase os mesmos. Esta história tem terroristas de muitas nacionalidades, cartéis de droga, raptos e as coisas usuais. Sempre me espantou que as pessoas acreditassem que os livros relatassem a realidade como ela é. Os livros podem ser muito melhores! Retratam as coisas como achamos que elas são e ao mesmo tempo permitem-nos viajar e pensar. Têm muitos aspetos reais e realistas mas são ficção. Em O Fiel Jardineiro (D. Quixote, 2001), de John le Carré, que deu um filme com o mesmo nome, o fundo é verdadeiro, mas não as ações, obviamente. 

sábado, 30 de janeiro de 2021

Recensão ao livro "Apanhados pelo Vírus"

Partilho, em baixo, a minha recensão ao livro "Apanhados pelo Vírus", que foi inicialmente publicada no site da COMCEPT


David Marçal e Carlos Fiolhais, “Apanhados pelo Vírus – factos e mitos acerca da COVID-19”, Gradiva, Lisboa, 2020

 


David Marçal é bioquímico e comunicador de ciência e Carlos Fiolhais é professor de Física na Universidade de Coimbra. Esta dupla quase que dispensava apresentações ou não fossem já conhecidos – e reconhecidos – pelo seu trabalho de divulgação científica através de livros, textos em jornais, oradores em palestras e participação em programas televisivos. Declaração de interesses: são também associados da COMCEPT.

O livro mais recente destes autores é intitulado “Apanhados pelo Vírus – factos e mitos acerca da COVID-19” e encontra-se dividido em três partes: “O que se sabe”, “Infodemia” e “Ciência em directo”.

No primeiro capítulo contextualizam o que se sabe sobre o vírus e a doença. Focando-se na família dos Coronavírus, descrevem a estrutura do SARS-CoV-2 e dos receptores (ACE-2) a que se ligam nos órgãos, abordam as vias de transmissão, dão exemplos de avaliação de risco e explicam o que levou à reviravolta relacionada com a sugestão oficial do uso de máscaras, apontando que máscara deve ser usada. Também identificam os grupos de risco, relembram o funcionamento do sistema imunitário, explicam como são feitas as vacinas, que tipos de testes existem e a diferença entre especificidade e sensibilidade dos testes. A saber: especificidade refere-se à capacidade de detectar sequências específicas de ARN e sensibilidade significa que se consegue detectar esse material em quantidades muito pequenas. Além disso, abordam ainda a evolução de casos e de mortes ao longo do tempo assim como as medidas políticas adoptadas para lidar com esta situação excepcional.

Este capítulo não é só um resumo histórico do que aconteceu, ao descrever a evolução do conhecimento sobre o que primeiro foi assumido como uma pneumonia desconhecida até ao que, na altura da publicação, se sabia sobre a pandemia. De facto, creio que este capítulo perdurará no tempo como uma memória descritiva, um registo que será útil para memória futura.

O segundo capítulo é dedicado ao tema da infodemia que é definido como “excesso de informação sobre terminado tema por vezes incorrecta e produzida por fontes não verificadas ou pouco fiáveis que se propaga velozmente”. Como os autores relembram, a infodemia precedeu a pandemia, uma vez que a desinformação já circulava abundantemente nas redes sociais, embora no actual contexto a COVID-19 tenha sido um alvo de desinformação pelas mais variadas razões (desconhecimento, oposição às medidas oficiais, crenças em teorias da conspiração, etc.). Por falar em teorias da conspiração, as mesmas recebem destaque neste capítulo, enfoque particular na associação que alguns movimentos fizeram entre o 5G e a doença. Por esse motivo, os autores aproveitaram para desmistificar um pouco esta tecnologia de modo a tornar compreensível ao leitor do que realmente se trata. As redes sociais não são os únicos veículos de transmissão rápida de desinformação, pois o caso piora quando governantes que deveriam ser responsáveis utilizam o seu mediatismo para propor falsos tratamentos, como Donald Trump e Jair Bolsonaro são exemplos.

A terceira parte é dedicada ao avanço das técnicas e da tecnologia - da física à biologia - e como isso foi importante para o estudo e combate a esta doença. Os autores explicam como é feita a ciência e contextualizam os desenvolvimentos e resultados a que temos assistido em direto a partir do televisor ou da internet. Lembram que os resultados apresentados são sempre provisórios, até porque incompletos (devido a baixas amostras, tratamento de dados pouco rigoroso, efeitos confundidores, etc), e que com o tempo surgirão outros melhores, uma vez que a ciência se vai autocorrigindo. O tempo é um dos factores extremamente importantes em ciência, por ser necessário para fazer investigação e para testar as terapêuticas. Outro dos factores essenciais é, claro, o financiamento, seja ele público ou privado. Informam os autores que em Portugal o investimento em ciência é apenas 1,4% do PIB enquanto a média da União Europeia ronda os 2,1%. Contudo, para a pandemia houve um maior investimento da Europa para desenvolver vacinas e fármacos contra esta doença. Foi precisamente graças ao forte investimento europeu e à mobilização dos cientistas que se conseguiram testar terapêuticas e desenvolver vacinas em tão pouco tempo. Mas também por o período temporal de investigação ser reduzido, quando comparado com uma situação normal, é que existem tantos estudos preliminares e publicações por validar, devido à reduzida possibilidade de escrutínio e replicação de resultados perante a avalanche de conhecimento produzido. Isto leva ao papel da dúvida em ciência, também abordado no livro.

Assim, concluímos que este livro trata de um registo da evolução do conhecimento médico e científico sobre o vírus e a doença, mas também de algumas políticas dos governos para lidar com a pandemia, assim como também do modo como parte da população entendeu e lidou com este evento sanitário, criando e disseminando boatos, desinformação e teorias da conspiração. Podemos dizer que, de certo modo, é aqui feito um retrato social de um período específico da pandemia – desde o início até à data da publicação. Se bem que este aspecto possa ser uma limitação, por o livro ter sido publicado ainda durante o acontecimento e por isso possa vir a estar rapidamente desatualizado relativamente a certos aspectos (por exemplo, as vacinas ainda estavam em desenvolvimento), por outro lado representa um registo contemporâneo e com valor para análise histórica no futuro, para além do indubitável valor informativo que tem já no presente.

 

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Livro "Neuromitos"

 Foi recentemente publicado o livro Neuromitos que pretende refletir sobre a razão porque somos propensos a acreditar em tantos mitos relacionados com o cérebro, e que fatores sociais contribuem para isso, para posteriormente abordar vários desses mitos e desmistificá-los. 

Este livro foi editado pela Contraponto, escrito por Alexandre Castro Caldas e Joana Rato, contando com o prefácio de Carlos Fiolhais e o posfácio de Nuno Crato. 

Podem ler a minha opinião sobre este livro aqui





quarta-feira, 18 de novembro de 2020

À morte ninguém escapa, ou daqui a tempo suficiente estaremos todos mortos


Este é um ensaio que muitas pessoas podem considerar deprimente. Fala da morte prematura e de uma contabilidade que alguns consideram insuportável, e refere assuntos de que normalmente não queremos ouvir falar. Mas, por outro lado, mostra-nos que vivemos num mundo muito mais seguro e, assim, pode ser encarado com serenidade quer sejamos religiosos ou não. Foi sendo escrito desde há uns anos para um livro e foi depois modificado para um jornal, mas continuava inédito.


No início do livro "A Riqueza e a Pobreza das Nações", David Landes apresenta como exemplo da tragédia que representava a falta do conhecimento que temos hoje em dia, a morte, em 1836, devida a uma infeção, que atualmente seria facilmente curada, de Nathan Rothschild, na altura com 58 anos, o homem mais rico do mundo. Nathan teria ainda que esperar quase cem anos pelos primeiros medicamento ativos contra as infeções, as sulfamidas e mais de cem anos pelo primeiro antibiótico, a penicilina. Teria também de esperar mais de trinta anos pela descoberta e generalização da assépsia, assim como mais umas décadas pela descoberta e uso da salicina e do ácido salicílico como antipiréticos e analgésicos e ainda mais algumas décadas pela descoberta de outros antipiréticos e analgésicos, como ácido acetilsalicílico, mais conhecido pelo seu primeiro nome comercial, aspirina. Também a anestesia demoraria mais de uma década a ser descoberta e a tornar-se comum. A história de Natham é especialmente relevante por ser o homem mais rico do mundo. Vamos encontrar várias outras pessoas que morreram de infeções semelhantes e que também não puderam ser curados, reis e presidentes, não por falta de dinheiro, mas sim por faltarem os medicamentos e os meios que não tinham ainda sido descobertos. Mas a vida não é eterna. Outros morrerão de combinações de idade avançada, azar e doenças ainda sem cura, como a actual doença do coronavírus (as vacinas estão quase prontas, diz-se). Desta doença morreu um banqueiro, Vieira Monteiro, uma cientista, Maria de Sousa, vários escritores, Luís Sepulveda, Rúben Fonseca, Maria Alberta Menéres, Maria Velho da Costa, entre muitos outros.

O veneno é a hipótese mais comum sugerida para as mortes prematuras e vamos encontrar ao longo da história várias supostas e garantidas vítimas. O rei D. Pedro V, o esperançoso, que morreu com apenas vinte e cinco anos, a sua esposa, D. Estefânia, que morreu ainda mais nova, e outros membros da família real, que morreram de doenças hoje evitáveis, como a febre tifóide e a difteria. Um príncipe da altura foi autopsiados pelos maiores e mais respeitados médicos e químicos portugueses da época, e os resultados publicados no jornal oficial do tempo, pois havia a suspeita e alarme público de que tivessem sido envenenados. Mas o envenenamento é residual nas  estatísticas. A maior causa de morte continua a ser as doenças cardiovasculares silenciosas e o sítio mais perigoso continua a ser a cama como referiu Mark Twain! Mas a morte trágica é relevante para a literatura e para a vida. Infelizmente, nem é sempre valorizamos o mais importante. Os dois caminheiros que morreram em 2017 não ingeriram pesticidas nem venenos artificiais, mas raiz de embude, uma planta comum em Portugal e, obviamente, natural.
 
Hoje começamos a ter mais problemas com bactérias resistentes (algo que não é novo - na verdade, sempre os microrganismos resistiram), descobrimos atónitos que ainda temos medo de vírus, discutimos efeitos secundários e o mau uso dos antibióticos, mas houve tempos em que uma simples infeção ou um abcesso poderia ser uma tragédia. Para além disso, as epidemias de difteria, peste bubónica, cólera, febre tifoide e febre amarela eram comuns no século XIX e princípio do século XX. Tal como a Nathan, a muitos personagens trágicos involuntários faltaram as condições sanitárias, os medicamentos e o conhecimento. Aos sifilíticos que tinham uma noite com Vénus (a qual muitas vezes nem era sua) e ficavam toda a vida com mercúrio, faltou a penicilina. Aos tuberculosos faltou, primeiro um maior entendimento sobre a doença que só chegou no final do século XIX, mas apenas para ficarem tanto mais sabedores como desamparados antes da descoberta da estreptomicina, que só ficou disponível em 1956. A muitos outros faltaram as condições de higiene e alimentação, as vacinas da difteria e poliomielite e muitas outras coisas que temos hoje como garantidas, mas que não existiam no tempo em que viveram.

E depois temos os acidentes e o azar. Sempre tivemos. As estatísticas dizem-nos que a quinta de causa de morte são os acidentes. Há relativamente pouco tempo, de entre os meus conhecidos e familiares dois jovens morreram de forma trágica e absurda. Vários outros, que não conhecia, morreram afogados e em acidentes de automóvel e mota. Já não temos notícia de jovens que morrem devido aos esquentadores mal instalados. Os equipamento estão cada vez mais seguros e a nossa tolerância menor, mas continuam a acontecer desastres na estrada, por exemplo. Quando eu era pequeno, as pessoas morriam muito nas motorizadas. Um primo meu morreu num cruzamento, ainda era muito novo, a mulher, mais nova ainda, com uma filha pela mão e outra ainda na barriga. Um jovem morreu numa placa de trânsito, numa motorizada que o pai não lhe queria dar. Outro matou um amigo por acidente com uma espingarda improvisada. Mais recentemente, um dos meus conhecidos parou num semáforo e foi atropelado por um carro que não parou. Um casal parou para ir virar e foi morto por um carro. Um jovem despistou-se na sua motorizada e morreu. Poderíamos encher páginas e páginas com acidentes imprevisíveis, ou não, com azares absurdos, ou resultados tristemente esperados.  

É obviamente um truísmo dizer que ninguém escapa à morte. Alguns atingem a imortalidade possível, mas todos morrem. As pestes, a tuberculose e a sífilis, as guerra e os acidentes são as causas mais famosas pelos comportamentos e literatura que lhes estão associados. O suicídio vem de seguida. Mas o suicídio sempre foi sobrevalorizado. Embora hoje em dia quase não haja notícias (há um código de conduta dos meios de comunicação quando noticiam suicídios para evitar fenómenos de imitação - o “efeito Werher”, dizem os números, é real). Por um lado devido aos seus aspectros trágicos, mas também pelo fascínio que este nos causa, o suicídio acaba por ser sobrevalorizado, mas é “só” a nona causa de morte. Albert Camus refere em "O Mito de Sísifo", de 1942, que o problema do suicídio é o mais fundamental em termos filosóficos. E Portugal seria o país de suicidas referido por Miguel de Unamuno? Talvez não, Itália e outros países também o foram...

A tuberculose e a sífilis contribuíram para muita literatura não só pela fatalidade, mas também pelos ambientes sociais e estados de alma e físicos que se lhes ligaram. Sendo doenças, em geral, de evolução lenta ou crónica, os doentes seguiam os ritmos das doenças ou, em muitos caso, tinham a ilusão de lhe escapar. Os sanatórios para a tuberculose, a brancura e o cansaço, a sífilis e as suas marcas e primeiros remédios, o sublimado, a tabes, a neurastenia e a e a loucura sifilítica são referências culturais incontornáveis. Devemos-lhes "A Montanha Mágica", que é a referência mais conhecida e emblemática aos sanatórios e aos tratamentos clássicos da tuberculose, o "Doutor Fausto", que romanceia em parte a sífilis, numa altura em que esta era já tratável, ambos de Thomas Mann, entre um número incontável de obras. Tanto os romances que envolvem personagens românticas, vítimas de tuberculose e sífilis, como os que evocam personagens assustadoras vítimas dessas doenças. Em "A Nossa Senhora de Paris", na personagem Quasimodo, Victor Hugo descreve, diz-se, uma vítima de sífilis congénita, hoje uma doença quase desconhecida.

Mas não é só a presença direta da doença e dos seus reflexos que é preciso lembrar. Também a sombra que essas doenças projetaram nos autores é importante. A sífilis e a tuberculose em Manuel Laranjeira contribuíram, com certeza, para as sua forma de ver o mundo desencantada e desiludida. O mesmo aconteceu com a tuberculose de António Nobre, Cesário Verde e de muitos outros. E mesmo o aparente otimismo e saudade da vida simples e saudável do campo de Júlio Dinis - que parece querer fazer esquecer a tuberculose que o matou novo - tem provavelmente muito de amargura e desilusão.
 
No Portugal do início do século XX a sífilis era um flagelo como se pode verificar pelos capítulos dedicados a esta doença no volume de 2011 organizado por Cristiana Bastos, "Clínica, arte e sociedade: a sífilis no Hospital do Desterro e na saúde pública". Thomaz de Melo Breyner registou cuidadosamente todos as histórias clínicas e pode verificar-se que a doença se transmitia de todas as formas possíveis, desde as mais clássicas relacionadas com a prostituição em que o marido contaminava a mulher e esta os filhos até às amas de leite que contaminavam os bebés e estes as mães que contaminavam os maridos. Neste Hospital foram atendidas no período de 1903 a 1906 mais de mil e quatrocentas prostitutas com idades entre os 15 e aos 36 anos, idade média de cerca de 22 anos, sendo que a maioria tinha 19 anos! Os tratamentos possíveis eram baseados em sais de mercúrio, mas a partir de 1910 há grande entusiasmo com arsenamina, um composto orgânico de arsénio, também conhecido por salvarsan ou «606», desenvolvido por Paul Erhlich em 1906, mas esse entusiasmo rapidamente se modera dado que este medicamento que tinha de ser injetado também tem efeitos secundários. Nas décadas seguintes os tratamentos vão alternando entre os as sais de mercúrio, a arsenamina e sais de bismuto. Paralelamente, surgem campanhas de informação, profilaxia e higiene que irão contribuir para a diminuição do número de afetados. Mas só a partir de 1943, com a penicilina, é que a doença passa a ser curável e é quase irradicada. Para trás ficaram as mortes prematuras devidas a esta doença, a loucura sifilítica, as marcas da sífilis nos sobreviventes e muitas outras coisas que hoje temos dificuldade em compreender.  

Como já referi noutro trabalho, a gripe pneumónica matou depressa e as suas vítimas no começo da idade adulta e quase nem tiveram tempo de transformar a doença em obras. Era uma vergonha morrer de tal doença. E, no entanto, talvez tenha matado mais pessoas que as duas grandes guerras. DE facto, a guerra é também uma grande fonte de mortes prematuras. Hoje em dia assiste-se a uma generalização da longevidade (embora o coronavírus possa ter implicações nas estatísticas). A vida humana poder não ter limites teóricos era já discutido em algumas revistas cientificas prestigiadas desde há alguns anos! No século vinte e vinte um podemos encontrar com relativa facilidade pessoas centenárias. A pediatra americana que com mais de noventa anos que ainda dava consultas e escrevia artigos, o cineasta Manuel de Oliveira, o arquiteto Oscar Niemaeyer e muitos outros. Mas a longevidade não é uma coisa nova. Matusalém é a personagem bíblica que mais viveu, mas não se consegue encontrar-lhe mais feitos do que o de ter tido filhos.

Como já referi noutro lado, a mitologia e a literatura mostram-nos exemplos dos efeitos inesperados da imortalidade. Jonathan Swift leva-nos a uma ilha onde por vezes nascem pessoas imortais, mas isso não é uma bênção. Infelizmente estes não param de envelhecer e o espetáculo não poderia ser mais deprimente: velhos surdos, dementes, vaidosos e caquéticos entregam-se às mais tolas e fúteis atividades. O narrador do livro conclui que a morte é necessária e a imortalidade uma maldição. Também José Saramago nas "Intermitências da Morte" nos faz antever os problemas que a imortalidade causaria. Já antes, no mito de Sisífo este problema será abordado. Sísifo, o mais esperto dos homens, segundo Homero, mas também o mais absurdo segundo Camus, enganou a morte duas vezes. Numa aprisionou a morte e, ninguém morrendo, despovoou-se o Inferno. Noutra conseguiu sair do Inferno. Acabou condenado a empurrar uma pedra que sempre rolava e voltava a empurrar, como é bem conhecido. Mas como referiu Swift e Saramago a imortalidade traria muitos problemas. Alguns destes problemas são resolvidos nos livros de vampiros - em "O Império do Medo" de Brian Stableford estes não se reproduzem ou reproduzem-se muito pouco - mas  criam outros. A criança que nunca cresce de a Entrevista com o Vampiro, por exemplo. A imortalidade origina problemas insolúveis e paradoxos. “Oh tempo, suspende o teu voo! De acordo, disse o tempo. Mas por quanto tempo?" escreveu o antropólogo francês Marc Augé.
 
A conhecida lengalenga À morte ninguém escapa lembra-nos o óbvio, mas apresenta-nos uma forma inglória de escapar à morte – fechar-se numa panela - e, no fundo não viver, não sentir o passar do mundo, ser esquecido (o problema de Peter Gynt), ou nem sequer ser encontrado pela morte,

    À morte ninguém escapa,
    Nem o rei, nem o papa,
    Mas escapo eu.
    Compro uma panela,
    Custa-me um vintém,
    Meto-me dentro dela
    E tapo-me muito bem,
    Então a morte passa e diz:
    -Truz, truz! Quem está ali?
    -Aqui, aqui não está ninguém.
    -Adeus meus senhores,
    Passem muito bem.


Mais do que um tempo que pára, como um relógio quebrado, é o absurdo de tudo se repetir, e tudo ter já sido feito, que angustia alguns. Mas isso é uma ilusão, o mundo avança e não volta ao mesmo lugar. Sisífo não empurra a pedra nem transpira da mesma forma. Camus diz-nos que devemos pensar que Sisífo é, apesar de tudo, feliz. 

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

A Duna encontra o Outono em Pequim: diálogos inesperados entre Franck Herbert e Boris Vian

 [Outro dos meus artigos no JL de 26 de agosto de 2020 sobre os vários centenários de autores de ficção científica. Gostei especialmente deste. De aprender sobre a ligação de Boris Vian a este universo e de fazer a ligação deste à Duna de Franck Herbert, também ele centenário. O Jornal recomenda, entretanto, várias obras dos autores publicadas recentemente. Além destes trabalhos e de outros artigos, notas e sugestões, o JL tem entrevistas a Ondjaki e João Alvim, discute as feiras do livro de Lisboa e Porto, o teatro, a fotografia e outros assuntos]


Quando a Duna de Frank Herbert (1920-1986), o livro de ficção científica (FC) mais lido de todos os tempos, com pelo menos duas adaptações para cinema, uma delas de David Lynch, foi publicado, em 1965, Boris Vian (1920-1959) tinha já morrido. Morreu com 39 anos, mas deixou uma obra a descobrir. Eu, que fiz parte da geração que lia os livros de Vian pelo seu humor e provocações, nunca tinha pensado em Boris Vian como um autor de ficção científica, mas a enciclopédia de FC na internet disse-me que sim – e eu verifiquei que era verdade. Em Outono em Pequim, obra inclassificável de 1947, que não se passa num outono nem em Pequim, onde o surrealismo se mistura com o humor, tudo com um fundo de música que se sente em toda obra, ou não fosse o autor também músico, tem desertos, areia e dunas. Talvez não seja classificado precisamente como sendo ficção científica, como A Erva Vermelha, por exemplo, mas poderia. Boris Vian era um polimata que traduziu ficção científica, escreveu usando os métodos da ficção científica e escreveu ensaios, em particular um deles sobre o cinema de ficção científica, merece ser lembrado também por isso. Sofria de uma doença do coração, o que o fez com que fosse considerado inapto para a guerra, desaconselhado de tocar saxofone e acabasse por morrer de enfarte de miocárdio.

Há um número enormíssimo de livros sobre ficção científica. Tenho aqui comigo uma referência - já datada, é certo, mas todas o são - para livros e outros materiais sobre livros e materiais de ficção científica, literatura fantástica e horror. Parece ficção científica - um livro que cataloga livros, que catalogam livros e aí por diante - mas não é – existe mesmo! Refere até um livro sobre a ficção científica recursiva, ou seja ficção científica que escreve sobre ficção científica! Natália Correia, sempre atenta, disse em 1981 que não era uma literatura menor – e penso que tinha razão. Basta pensar nos autores que referi, mas também em o Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago, por exemplo, agora muito citado. Nesse livro referem, claro, H. G. Wells, Artur C. Clark, Isaac Asimov, Ray Bradbury, Frank Herbert, e muitos outros, mas não encontrei Boris Vian, ele que terá dito que a ficção científica “era o ressurgimento da poesia épica.” Nem mais!

Também no Outono em Pequim há dunas, como referi, mas primeiro falemos da Duna de Herbert Franck. Começo por dizer que não gosto muito da Duna, nem de livros similares. O que mais me aborrece, mas aceito que outros adorarem, é a existência de um mundo alternativo num futuro que se passa a milhares de anos, com viagens mais rápidas do que a luz e muitas tecnologias para nós desconhecidas. Para mim, o mais interessante está nas entrelinhas. As pessoas continuarem a ser humanas, claro, e serem até mais feudais e religiosas. Os computadores e robôs, assim como todas as máquinas que podem imitar o homem estão proibidos! Como é que isto é possível? O livro apresenta uma solução: computadores humanos. Paralelamente, há uma especiaria que só existe no planeta Arakis onde quase não existe água e por isso esta e o sangue (que como sabemos é uma solução aquosa) são preciosos. E os nativos usam fatos destiladores para não perderem água. Claro que a narrativa tem falhas, mas é plausível. Ou talvez não seja em 2020, mais de sessenta depois de ser escrito! Com a tecnolgia de hoje saberíamos qual era a estrutura tridimensional da especiaria que, de acordo com uma enciclopédia sobre o livro, tem uma parte parecida com a canela e outra parecida com a hemoglobina. A milhares de anos de distância, com viagens no espaço-tempo, mais rápidas do que a luz - comandadas por computadores humanos, é certo - continuam a não saber qual é a estrutura da molécula mais importante e central na civilização? Claro que podemos suspendar a nossa desconfiança, mas essa eu tive alguma dificuldade em engolir. Afora isso, vemos claramente como o Duna influenciou muita da literatura de ficção científica que se seguiu e, em particular, os filmes conhecidos como Star Wars, estes que, por outro lado, revolucionariam o consumismo. E ao mesmo tempo tem sido visto como um livro ecológico. Esse aparente paradoxo também me fez pensar. Mas percebemos mais ou menos porquê: a tecnologia é biológica. Na minha opinião, o melhor do livro são as imagens que acabaram por influenciar o cinema e a banda desenhada de ficção científica. Agora, em 2020, parecem banais mas não eram, sendo que o Duna pode ser também um filme de franchising – na verdade este é também uma saga com vários episódios. Um conhecido cineasta, Martin Scorcese, disse, e explicou mais tarde, que isso não era cinema por já se saber o que irá acontecer, e sobretudo como será feito. Ele referia-se aos filmes de super-heróis e, em particular, aos filmes de franchising, aos filmes de chave-na-mão, mas acho que ele (ou nós) podermos estar a cair no mesmo erro das pessoas que pensam que a literatura de ficção científica é uma literatura menor. Pode ser, sim, se for unilateral e banal, só para vender, mas pode ser excelente se nos abrir os olhos, se tiver vários caminhos possíveis, mesmo sabendo nós a história, aliás como acontece nos mitos gregos - toda a gente sabe, ou pode saber, o que acontece ao Édipo, por exemplo.  

O Outono em Pequim foi escrito afinal na primavera e refere autocarros que se perdem nas cidades e um deserto longinquo mas estranhamente, ou não, familiar, onde estes nos podem levar por acaso. Rolls refere também A Visita Maravilhosa de Wells, a Viagem ao Fim da Noite de Céline, a Alice no País das Maravilhas de Carroll, O Estrangeiro de Camus e o Trópico de Cancer de Miller. Mas, deixemos isso para os especialistas. Este livro não tem medo de ser divertido, essa é que é essa. O deserto estabelece a ligação entre os dois livros mas a seriedade pomposa afasta os dois autores. Como referi, Boris Vian traduziu para francês e escreveu sobre ficção científica. Depois de Jules Verne ser quase abandonado em França, Boris Vian escreverá sobre ficção científica (FC) e temos um volume compilando crónicas de cinema e FC. É neste que recupera um artigo, escrito sob psedónimo, em 1947, em que declara que o romance de antecipação é agora chamado de ficção científica. Neste também antecipa como seria sua vida em 2000, ano em que terá 80 anos, mas não, não foi bem assim. Boris Vian não antecipou, como refere o cardiologista Gilgenkrantz, os tratamentos cardíacos que se seguiram, tendo morrido numa ambulância.

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Ray Bradbury: A ficção Científica que é Literatura Fantástica

[Outro dos meus artigos no JL de 26 de agosto de 2020 sobre os vários centenários de autores de ficção científica. Gostei muito deste pela ligação menos conhecida ao Moby Dick. O Jornal recomenda, entretanto, várias obras dos autores publicadas recentemente. Além destes trabalhos e de outros artigos, notas e sugestões, o JL tem entrevistas a Ondjaki e João Alvim, discute as feiras do livro de Lisboa e Porto, o teatro, a fotografia e outros assuntos. Boas leituras!]

Comemora-se este ano o centenário do nascimento de Ray Bradbury (1920-2012). Em Jardins de Cristais – Química e Literatura (Gradiva, 2014) escrevi que este não era tanto um autor de ficção científica mas mais um autor de narrativas fantásticas. E dava como exemplo o conto As Maçãs Douradas do Sol, no qual, uma nave espacial arrefecida a amoníaco, vai recolher bocados do Sol para usar como energia. O autor apresenta para a nave uma temperatura de milhares de graus negativos que viola a temperatura zero (que é de -273,15ºC) colocando este livro no domínio do fantástico, e isso é interessante no que concerne à distinção entre o que é possível e que não é.

Toda a gente vê que as pessoas não voam com pó mágico e bons pensamentos e não temos dificuldade em chamar a isso fantasia. Mas podemos não saber que a termodinâmica não permite temperaturas tão baixas, por exemplo. É por isso que uma verdadeira cultura científica é tão necessária. Ajuda-nos a distinguir a fantasia da realidade e nisso a ganhar novos mundos, ou ajuda-nos a perceber um argumento científico, ou a separar a ciência da pseudociência - estou-me a lembrar dos excelentes Pipocas com telemóvel (Gradiva 2012), ou A ciência e os seus inimigos (Gradiva, 2017) de Carlos Fiolhais e David Marçal. Não quero com isto dizer que não haja franjas, complexidades e aspectos técnicos – sim há. Mas é uma grande infelicidade haver erros tão banais como errar a tabuada que nunca irão mudar e são esses que deveremos evitar sob pena de sermos enganados e não percebermos o mundo em que vivemos.

Disse ainda, nesse livro, que Ray Bradbury levantava outros problemas numéricos. Por exemplo, no seu famoso Fahrenheit 451, também datado de 1953, usa como título o suposto valor da temperatura (em Farenheint) a que o papel arde de forma espontânea (temperatura de auto-ignição). Como é bem conhecido, neste livro distópico os bombeiros não apagam fogos, antes queimam livros, quaisquer livros, pois estes foram proibidos. Disse que são muitos os aspectos químicos que podem ser encontrados neste livro. E é verdade. Os processos de combustão, os materiais incombustíveis de que são feitas as casas, os antidepressivos e as drogas, são alguns exemplos, mas salientava, e ainda saliento, muito em particular a química dos odores. Ao longo de todo o livro os cheiros têm um papel importante nas suas relações com as memórias. A tomada de consciência do bombeiro e também na perseguição deste realizada por um mastim mecânico que usa o espectro do seu cheiro para o detectar. Este cão não vai aparecer no filme, talvez pelos aspectos técnicos, talvez por não ser interessante em termos de imagem, mas acaba por ser um aspecto interessante e muito actual a considerar. Na realidade os odores e a sua relação com a memória desempanham um papel importante em boa parte da literatura. Lembro apenas os cheiros que marcam a vida de Fermina Daza em o Amor nos Tempos de Cólera de Gabriel Garcia Marques e o famoso bolo (uma madalena) que conduz o narrador à sua infância de Em Busca o Tempo Perdido de Marcel Proust.

Fahrenheit 451 é muito conhecido e teve várias versões em contos e livros até à versão final que agora conhecemos. Há várias interpretações para a queima dos livros e isso é, na minha opinião, a boa literatura – haver várias possibilidades e caminhos. O próprio Bradbury contribuiu para isso referido o seu amor incondicional aos livros e como a televisão os poderia destruir. Não foi isso que aconteceu – nem a televisão, nem  a internet, que em 1953 não era conhecida, matou os livros. Podería falar das suas Crónicas Marcianas, do Homem Ilustrado, ou de outras conhecidas obras. Mas não. 
 
Falo aqui do amor de Bradbury à literatura e de um problema que me intrigava e me fez voltar ao Moby Dick de Herman Meleville. Por que é Ray Bradbury disse e escreveu que a personagem de Persee Fedallah arruinava a obra? É verdade que este é referido de forma enigmática por Melville apenas a partir da capítulo 48 como um dos cinco fantasmas que rodeavam o capitão Ahab mas ainda não tenho um resposta convincente.     

Como jovem argumentista de Hollywood, Ray Bradbury adaptou, também em 1953, o Moby Dick para o filme do mesmo nome de 1956 de John Huston com Gregory Peck a fazer de Ahab e com o sermão do padre Mapple a ser realizado por Orson Wells. Uma equipa fantástica como John Huston referiu. Os efeitos especiais eram rudimentares pelos padrões de hoje e para dar uma cor profunda ao filme foram sobrepostas a película a cores e preto e branco (diz-me a wikipedia). E, de facto, na cópia que tenho as imagens são bastante escuras. Ray Bradbury tratou de dizer a John Huston, o seu herói, que Fedallah seria atirado borda fora e as suas melhores deixas passariam para Ahab, com o que John Huston concordou de imediato.    

Em 1992, Ray Badbury publicou Green Shadows: White Whale (que julgo não ter sido traduzido para português) o qual trata da sua ida à Irlanda e da escrita do guião do Moby Dick. Começa com a chegada ao mundo verde da Irlanda e um diálogo incrível com um inspector da alfandega sobre cultura, em particular sobre literatura, sobre o Moby Dick e o Hamlet. Muito do livro são os seus diálogos (verdadeiros ou inventados) com personagens locais ou com John Huston, enquanto escreve o guião do filme. Durante esse tempo, fala, vive e sonha com a literatura. Com Hemingway, Shaw, Chesterton, Wells entre outros, e ganhará um prémio, ele que aparentemente era conhecido como um Flash Gordon que punha toda a sua libido nos foguetões. Mas adaptar o Moby Dick era o seu sonho – conta - ele que amava a literatura e leu o livro totalmente três vezes, algumas partes cinco vezes e outras pelo menos vinte vezes.    

Escrevi em 2014 que um bom livro de ficção científica, policial ou de literatura fantástica, mas também de ciência, é aquele que nos abre os olhos para enigmas para os quais ainda não temos solução. Continua a ser absolutamente verdade para mim.

sexta-feira, 29 de maio de 2020

Daisy Miller: o turismo popular e (sem nada que ver) as doenças ainda sem cura


“Daisy Miller” é a novela de Henry James (1943-1916) mais conhecida, a qual aponta para as diferenças entre americanos e europeus e para a igualdade das mulheres, numa altura em que esta quase não existia. Também pode ser vista assim, claro, mas não foi isso que mais me chamou a atenção. Foi, por um lado, a popularização do turismo e, por outro, as doenças que existiam e ainda não tinham cura.

Escrita em 1878, a novela refere como o narrador encontrou Daisy Miller, uma jovem americana normal e independente, de certa forma ingénua e sem malícia, com pais ausentes e um irmão mal-educado. Sem pensar nisso nem o desejar propriamente, Daisy causa escândalo. Alguns querem proteger a sua reputação enquanto outros evitam encontrá-la. Curiosamente, Henry James coloca-a como turista americana num hotel (Trois Couronnes) da mesma cidade de Julie ou a Nova Eloisa de Rousseau, Vevy, perto do lago Lemano, em Genebra, agora com muitos turistas americanos. Uns anos antes, Lord Byron alugou um casa, a Vila Diodati, a cerca de cem quilómetros, no mesmo lago. Nesta, esteve com Mary Shelly, Percy Shelley e John Polidori, sendo nesta escrito o “Franskestein” de Mary Shelly e o “Vampiro” de Jonh Polodori.

Havia turistas de todos os países, claro, mas não tantos como os americanos. Desde meados do século dezanove que o turismo americano era uma indústria em grande crescimento.  Os nobres e intectuais ricos faziam o que ficou conhecido como  o “grand tour,” como parte da sua formação, mas é com os americanos que a actividade de visitar se torna verdadeiramente popular. Por exemplo, Manuel Teixeira Gomes (1860-1941), último presidente da primeira república, antes da ditadura de Oliveira Salazar, trabalhava alguns meses a gerir os negócios e depois viajava durante o resto do ano. Vamos encontrar reflexos dessas viagens nas pitorescas “Novelas Eróticas” onde conhece e foge na Holanda com uma jovem judia, encontra num barco uma jovem brasileira e, em Sevilha, onde encontra uma jovem cigana, entre outras. Sabemos que Teixeira Gomes viajava muito e que tinha até uma mala especial. Por outro lado, no “Moby Dick” vamos encontrar Ismael que nunca pagava para ver o mar e viajar. Vários autores vão escrever sobre as suas viagens. As viagens eram realizadas e comentadas, mas por um grupo restito. Vai ser com os americanos que a actividade de viajar se vai generalizar como indústria. Os mais cultos seguiam os percursos dos seus autores favoritos, enquanto os outros seguiam os primeiros ou compravam os programas das agências. Gerou-se assim um grande fluxo de turistas americanos conhecidos pelo menos até aos anos setenta como “camones”. É muito curioso tentar perceber esse fluxo popular do turismo que se vai estender a todos e agora com a covid-19 está algo parado. E vai haver uma reacção contra a massificação e popularidade desta actividade. Os intelectuais achavam que viajar por motivos “fúteis” era absurdo. Ralph Waldo Emerson (1803-1883), por exemplo, escreverá que "viajar é o paraíso dos tolos." Ele refere-se a encontrar a felicidade em locais longinquos mas a ideia é generalizávela outras actividades  turisticas.

Na mesma altura passavam-se fomes periódicas na Europa. Ainda não tinham sido inventados os adubos sintéticos. Os alemães, suecos, irlandeses, italianos, judeus e polacos, entre outros, vendiam-se quase como escravos para viajarem até ao novo mundo. Os portugueses iam mais para o Brasil, mas alguns também foram para a América. Muitos não tiverem sucesso, quase todos mudaram de nome ou engrossaram os conhecidos bairros étnicos, alguns tiveram sucesso e muitos foram vítimas de xenofobia. É aliás curiosa a pergunta do irmão "se o narrador era mesmo americano." Mas não se julgue que na América tudo eram rosas. A alimentação era má e perigosa. Os medicamentos um risco sem controlo. Nos anos sessenta do século XX, as coisas já tinham melhorado muito para todos, com as férias pagas na Europa os turistas europeus poderão ultrapassar os americanos, Mesmo noutras coisas, como é sabido, a América ficou para trás.  

A paisagem é bela. Temos o lago, as montanhas  e a neve. Mas os mosquitos e as doenças espreitam. A tuberculose, a malária e outras infecções. Algumas pessoas procuram tratamentos, outras a beleza. O lago fica no sopé dos Alpes, onde se situa Davos, a cerca de 300 km, outro local mítico, onde uns anos mais tarde será escrita a “Montanha Mágica”. Chamonix fica a cerca de cem quilómetros. Tudo parece bem. Só que não.

Em Roma, Daisy Miller vai morrer rapidamente de malária (conhecida ali como febre italiana). Como referi, é triste, mas não era uma morte inesperada. As doenças eram muito comuns. O homem mais rico do mundo, um Rothschild, morreu nessa altura de uma infecção, por exemplo. Mais tarde vieram as guerras e a gripe pneumónica.

Na véspera da segunda guerra mundial ainda havia paludismo, ou, o que e sinónimo, malária, junto aos rios e lagos da Suíça, Itália, Espanha e Portugal. Eram as febres tercãs e as sezões. Foi o DDT  que acabou em boa parte com o paludismo nestes paises. Podemos agora saber e dizer coisas que na altura não sabíamos, mas não deveremos esquecer as lições da história da ciência.

sábado, 30 de novembro de 2019

APRESENTAÇÃO DE "DIÁLOGOS COM CIÊNCIA" DE ANTÓNIO PIEDADE


Com a devida vénia e agradecimento, transcrevo a seguir o texto da apresentação que a professora Carla Fernandes fez do meu livro "Diálogos com Ciência", aquando do seu lançamento no passado dia 28 de Novembro de 2019, na livraria Bertrand, no Alma Shopping, em Coimbra.

“Diálogos com Ciência”, a obra da autoria de António Piedade, bioquímico, investigador e comunicador de ciência, não é uma novidade, mas antes uma retoma a que a editora “Trinta por uma Linha” deu uma nova e feliz roupagem.
De entre os escritos publicados pelo autor, estes revelam, com particular acuidade, a intenção de conferir uma missão especial aos que se dedicam à investigação: tornar a Ciência acessível a todos, em particular aos mais jovens.
Podemos interrogar-nos para que serve a ciência se não for aplicada em contexto e/ou se não contribuir para a evolução dos saberes do vulgar ser humano. Do ponto de vista epistemológico, este é um aspeto que se discute há muito. De facto, a ciência e a tecnologia são frutos da cultura moderna e pós-moderna que decorrem da investigação praticada nos centros de produção do saber, normalmente situada sob a chancela do meio universitário. Contudo, a forma como as descobertas científicas são divulgadas é uma questão premente, considerando que a maioria dos artigos científicos são publicados em revistas especializadas e o eco do seu impacto para a evolução do conhecimento comum é  tardio ou muitas vezes até inexistente. Essa contradição entre a velocidade a que se produz o conhecimento, freneticamente acelerado hoje em dia, e a lenta perceção dos avanços realizados deve preocupar-nos... Se recuarmos ao século XX, já Habermass (2007) se interrogava sobre qual seria o papel da ciência e a função  que a atividade científica deveria desempenhar na sociedade. Na realidade, concluía o mesmo pensador, que esta força libertadora da tecnologia trouxe com ela a instrumentalização, transformando-se muitas vezes, paradoxalmente, num entrave à própria liberdade humana. A bem do exercício do pensamento crítico e da capacidade de análise do mundo pelos cidadãos, que se querem ativos e interventivos, a transmissão do conhecimento científico e a comunicação em ciência são vetores de investimento inalienáveis para um progresso sustentável.
Neste pressuposto, a atividade do cientista ganharia muito em transformar-se com a comunicação de ciência, por forma a favorecer o acesso, a difusão, a reflexão e, por inerência, a interdisciplinaridade, pois o diálogo entre as ciências é algo primacial para uma construção equilibrada do saber universal. Por outro lado, a comunicação com o mundo do qual partem todas as questões é uma tarefa de básica honestidade. É como se eticamente lhe fosse devida uma resposta às interrogações, não a verdade (que é sempre efémera), mas uma descodificação de conclusões que, afinal, são um investimento de todos os cidadãos.
Invocando o professor Rómulo de Carvalho, lembramos que, em boa hora, expôs o truque da sua pedagogia: “Estimular é saber tirar proveito das coisas, saber encantar, digamos, pôr as coisas em relevo, mesmo as coisas insignificantes(…) Tornar pensáveis as coisas habituais que não se pensam”. “Diálogos com Ciência” segue este esteio de tornar atraente e pensável o que poderia ser aparentemente inócuo e o seu autor é o exemplo desta tentativa salutar.
O livro, dirigindo-se fundamentalmente a um público infantil e juvenil, consegue captar também a atenção de leitores adultos, movidos de natural curiosidade ou pelo interesse intrínseco  por matérias científicas. Isto faz dele um veículo de conhecimento transversal que começa no próprio objeto (pela diversidade de conteúdos científicos que explora) e se estende ao seu recetor, dotado de pluralidade.
A característica dialógica, marcada desde logo no título, põe em relevo um modo de representação do discurso que é efetivamente uma marca do estilo do autor neste género, que oscila entre  a veia literária e o foco das diferentes temáticas científicas abordadas. Na verdade, estas narrativas breves são, muitas vezes,  construídas com recurso a conversas de improviso que expõem, de modo simples, as questões em torno de um determinado problema científico, que se vai desmistificando ao longo da interação entre as personagens. Veja-se, a título de exemplo, a composição química da lágrima, com reminiscências de Gedeão, explicada num tom paciente pelo tio António em “O que tem a tua lágrima?”. As crianças, naturalmente curiosas, questionam, os adultos respondem-lhes, com linguagem clara, e dão exemplos. E assim o leitor vai sendo conduzido para a decifração dos diferentes cambiantes da ciência, explorados em cada história.
Efetivamente, no seu conjunto, estas mini-histórias, nas palavras do autor do prefácio, o Professor Carlos Fiolhais, fazem transparecer a ciência de uma forma natural e simples. Afinal, para compreender melhor o que se aprende nas ciências está ao alcance de um piscar de olhos. Basta ler histórias. Convocamos para esta nossa reflexão a conhecida afirmação de Einstein (ícone intemporal da ciência), que, segundo Maria Emília Traça (1992: 23), sugere à mãe de uma criança que lhe leia contos de fadas.
E citamos: “Era uma vez um famoso físico chamado Albert Einstein, que um dia encontrou uma senhora extremamente desejosa de ver o seu filho triunfar numa carreira científica. A senhora pediu ao sábio que lhe desse conselhos sobre a educação do seu filho, em particular sobre o tipo de livros que lhe deveria ler.
– ‘Contos de fadas’, respondeu Einstein, sem hesitar.
– ‘Está bem, mas que deverei ler-lhe em seguida?’, perguntou a ansiosa mãe.
– ‘Mais Contos de fadas’, replicou o grande cientista acenando com o seu cachimbo como um feiticeiro que prenuncia um final feliz para uma longa aventura.”

Pois bem, é certo que a narratividade favorece a compreensão leitora e talvez a ciência possa tornar-se mais sedutora para todos se for comunicada de mãos dadas com o universo ficcional, sem perder o rigor dos seus fundamentos.
As personagens deste livro são inseridas numa ação povoada de água, peixes, plantas, códigos de ADN, grupos sanguíneos, números e datas, comboios e lágrimas. Na verdade, de tudo isto é composto o mundo humano. As entidades fictícias que povoam estas micro-narrativas, com nomes comuns ou com nomes próprios de ordem comum (a Maria, a Leonor, o Rui…), dotam de inegável universalidade as situações criadas e implicam-nas diretamente com o real. Tal facto confere objetividade à ação, colocando o leitor num universo de verosimilhança que o conduz à descodificação de realidades tangíveis e cientificamente comprovadas. Veja-se, a título de exemplo, o episódio narrado em “Primavera marciana!”, em que o predomínio do discurso direto entre as personagens vai descodificando as noções científicas.
Não obstante, o pragmatismo que se requer numa explicação científica não oculta a beleza que as palavras podem ter. A escrita, enquanto processo de criação conduz muitas vezes a mão do autor para outras incursões ao nível do uso da linguagem. O recurso à metáfora, a que a produção de Piedade não é estranha, no esteio de outros homens de ciência que deram azo ao fio do artístico, como Adolfo Rocha / Miguel Torga ou já citado Rómulo de Carvalho/António Gedeão, do qual se assinalou o aniversário no passado dia 24 de novembro, data  escolhida para assinalar Dia Nacional da Cultura Científica pelo antigo Ministro da Ciência e Tecnologia, José Mariano Gago, em homenagem ao professor, divulgador de ciência e poeta, sempre preocupado com os aspetos pedagógicos associados à transmissão do conhecimento.
De facto, é notória na produção destas histórias breves sobre ciência a cadência das emoções, de que “Música a cores” é exemplo.

“O coração de Leonor batia numa cadência agitada. Parecia que o coração queria saltar-lhe do peito e ir dançar com ela e com as folhas que chovem das árvores no Outono. Mas não era só por causa do sobressalto que se adicionava ao tambor cardíaco. Leonor estava ansiosa. Procurava sons da Natureza ao longo do caminho desde a escola até à sua casa. mas o barulho da cidade era tão intenso que não conseguia descortinar sons que associasse a outras coisas que não fossem carros, aviões, comboios, equipamentos de climatização, entre tantos outros elementos da orquestra citadina.” (p. 29)

Tudo isto para introduzir um episódio sobre o cruzamento entre a comemoração do Dia Mundial da Música e a biodiversidade. Afinal, a música está por aí, basta escutá-la...

“Concentrou-se nestas sensações e sentiu que as melodias a inundavam com uma paleta de cores que variava e, consoante a tonalidade do trinado, era mais aguda ou mais grave”. (p. 31)

Há, efetivamente, temáticas, que apelam ao mergulho interior. Piedade não resiste à criação do belo e à linguagem simbólica e estilizada quando nos narra a história de um nascimento em “Silêncio Prodigioso”, onde se cruzam “olhares uterinos”:

- “Já eu existia, ou pelo menos um frágil princípio de mim, e já comunicava sem tu saberes… mas o teu corpo entendia a minha primeira palavra - diz Leonor aninhando o seu olhar numa recordação amniótica, numa lágrima singular a brilhar na face de sua Mãe.
- Vi então a cor do teu silêncio, que afinal ressoava no meu ventre, pronto para muitas e novas mensagens futuras.
De mãos dadas, sentadas na margem do lago, Leonor e sua Mãe estão contemplativas, num silêncio prodigioso.” (p. 23)

Mas, sosseguemos agora a força das palavras e vamos ao objeto livro.
Esta edição renovada, trazida à luz pela editora “Trinta por uma Linha”, oferece-nos algo mais para além do trabalho dos processos de composição textual do autor, aplicados ao conteúdo científico.
As ilustrações de Maria Pimentel, que acompanham o(s) texto(s), tornam a leitura mais leve, mais divertida, por aquilo que acrescentam ao código escrito, traduzindo pictoricamente as ideias, mas conferindo também, em paralelo, a sua assinatura como objeto artístico per si. A apresentação gráfica a preto e branco adequa-se em pleno à natureza discreta da publicação, deixando ao leitor outras pistas de reflexão sobre os diferentes temas que sobressaem destes diálogos interdisciplinares com a ciência. Se atentarmos na capa, note-se como se torna apelativa para os mais jovens, desde o lettering escolhido para o título até à ilustração, que evidencia uma jovem sorridente em interação com alguém, numa observação expressiva do mundo e das suas coisas (o planeta, a natureza, os seres vivos, o tempo... - todos os elementos que se constituem como assunto de conversa neste livro).
Neste livro, texto e imagem em uníssono - cada qual na sua forma, no seu
código e legítimo universo semiótico - presenteiam-nos com a ciência, num
claro diálogo entre o saber e a arte.

Carla Fernandes

Bibliografia
-  HABERMAS, Jurgem (2007). Ciência e Técnica como Ideologia. Lisboa: Ed. 70.
- TRAÇA, Maria Emília (1992). O Fio da Memória. Do Conto Popular ao Conto para Crianças. Porto: Porto Editora.

terça-feira, 26 de novembro de 2019

Lançamento de "Diálogos com Ciência" de António Piedade


O livro "Diálogos com Ciência" de António Piedade, editado pela Trinta por Uma Linha, terá lançamento público na próxima quinta-feira, dia 28 de Novembro, pelas 18h30, na livraria Bertrand no Alma Shopping, em Coimbra. O livro, que tem prefácio de Carlos Fiolhais, será apresentado pelas professoras Carla Fernandes e Helena Duque. A capa e as ilustrações do livro foram concebidas pela ilustradora Maria Pimentel.

sexta-feira, 17 de maio de 2019

Na Feira de Educação e Saúde de Belém

As Doenças Inflamatórias do Intestino (DII) afectam cerca de 20.000 pessoas só em Portugal. Atendendo ao número de pacientes, sugiro que visitem a Feira de Educação e Saúde de Belém, que começou hoje. Aí poderão encontrar a equipa do movimento Doença Crohn/Colite Portugal que lá estará a informar e a sensibilizar para as doenças inflamatórias do intestino. Entre essas pessoas estará a Vera Gomes, autora do livro "Conviver com as doenças inflamatórias do intestino".

Para chegar aos doentes, aos seus familiares e a outras pessoas que convivam de perto com a doença, hoje às 13h, a Vera Gomes esteve na Farmácia Fontes Pereira de Melo (em Picoas, Lisboa) a conversar sobre este tipo de doenças. 

Amanhã, das 14 às 15h, a Dr. Joana Torres, gastroenterologiata do Hospital Beatriz Ângelo, dará uma apresentação sobre Doenças Inflamatórias do Intestino. 

No Domingo, haverá um concerto no Largo do Intendente. 

Para saberem mais sobre a doença e as suas consequências na vida de uma pessoa, recomendo a leitura do livro acima mencionado, assim como o blogue da Vera Gomes.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

LANÇAMENTO DO LIVRO "ÍRIS CIENTÍFICA 5", DE ANTÓNIO PIEDADE, EM CONDEIXA-A-NOVA

O livro "Íris Científica 5", de António Piedade, que tem prefácio do professor Carlos Fiolhais, vai ser lançado no dia 23 de Fevereiro, Sábado, pelas 16h30, na Biblioteca Municipal Engº Jorge Bento, em Condeixa-a-Nova. 

O livro, que reúne 31 crónicas de divulgação científica, será apresentado pelo professor João Fernandes, director do Observatório Geofísico e Astronómico da Universidade de Coimbra.

A sessão, que terá início pelas 16h30, incluirá também uma palestra sobre "A Ciência na Poesia Portuguesa", proferida por António Piedade, e a actuação do Grupo Vocal Ad Libitum.

No final será servida uma "Escarpiada de Honra" a acompanhar uma sessão de autógrafos.


quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

FONTE DOS CORETOS: “UM REFLEXO FOTÓNICO DE LIBERDADE”

Com a devida e merecida vénia e agradecimento, transcrevo a seguir o texto com que o poeta João Rasteiro apresentou o meu livro "Fonte de Coretos" no Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, a 30 de Janeiro de 2018.


Fonte dos Coretos:um reflexo fotónico de liberdade

                                                           Com novas íris te universo.
Vejo-te para além do ar
Até onde não sabia que ainda começas
António Piedade



Arquimedes afirmou: “Dai-me uma alavanca e um ponto de apoio e moverei o mundo”.

E Aristóteles: “O começo de todas as ciências é o espanto de as coisas serem o que são”.

Ora, como sabemos, mesmo que de forma inconsciente, a poesia é por definição um fértil acto criativo, como resplandece do verbo grego poiesis: fazer, criar, aleitar. Num alquímico fermento da sua raiz e substância e, diria eu, da sua “luz e íris” do mundo.
 
Mas se, de alguma forma o homem, desde que chamou a si o olhar poético para ver e apreender as coisas do ‘mundo’, passou a ser um poeta, grafando esse olhar ou não, António Piedade, desde que assumiu o olhar da ciência para apreender o mundo, passou imediatamente a ser, sob este conceito, um poeta, pois a sua linguagem de extraordinário comunicador de ciência é uma linguagem que sempre esteve profundamente fecundada pela mais cristalina linguagem poética.

E é absolutamente claro, pelo menos para mim, que talvez a maior influência, para além de outras, como a manifesta e também bastante forte, tanto na linguagem, como no acto de “fazer ciência”, do Professor Carlos Fiolhais, seja, sem qualquer admiração, Rómulo de Carvalho / António Gedeão – direi até que, talvez mais, de… “Rómulo Gedeão”!

Hoje, é um dado inquestionável que a ciência e a poesia terão tido igual peso e interesse na vida de Rómulo de Carvalho / António Gedeão. E se, pelo menos de forma tão manifesta, aparentemente essa particularidade não será assim perceptível em António Piedade, julgo, no entanto, que na sua escrita em geral, porque o que escrevemos quase sempre reflecte a nossa vida, ou pelo menos o que pretendemos dela, isso também é um facto absolutamente evidente.

Como aliás já referiu o Professor Carlos Fiolhais, julgo que no Prefácio a "Caminhos de Ciência", “há um elemento peculiar na escrita de António Piedade que contribui sobremaneira para o prazer da leitura: é a sua marca literária, por vezes mesmo poética, que ele sabe imprimir à sua escrita”.

Evidentemente que, neste “Fonte dos Coretos”, mantendo-se de forma geral esta marca assinalada por Carlos Fiolhais, assiste-se a uma inversão, afirmo eu, apenas formal. Desta vez, a poesia está na fronte da prosa. O texto e a sua textura vêm até nós explanados no corpo branco da folha, em arquitectura condizente com a poesia e suportada, sobretudo a primeira parte, em fortes anzóis de vigorosas metáforas - em ágeis imagens e analogias da bioquímica, da física, da astronomia, da biologia, ou da matemática. Em suma, em belas ressonâncias e revivescências das mais profundas e consagradas entranhas das apelidadas “ciências exactas”.

Como referiu Graça Capinha (FLUC/UC), temos a consciência de que normalmente usamos como material, muitas vezes em bruto, “as palavras da tribo”: e em António Piedade, a tribo é a ciência em sua desmesurada essência e fulgor.

A consciência do nosso trabalho de escrita, e nomeadamente, de reinvenção da escrita, só fazer sentido numa comunidade mais vasta é o que origina em António Piedade essa permanente indagação e transmissão, com ‘este’ estilo tão peculiar - mais uma vez, dir-se-á: poético -, a partir das vozes que sempre saciaram a sua experiência de vida, e nomeadamente, da sua experiência de vida muito fixada no ensaio e prática da ciência.

E esse é o ‘lugar-tempo’ único, a ‘ordem-conjuntura’ única, que António Piedade conhece e reconhece absolutamente como a sua única quimera e promessa. Ele, um comunicador de ciência, diria até, um comunicador de ciências, nesse “fotão-liberdade” que não se diferencia no seio da sua linguagem, da sua caminhada, nessa “Íris-amor” que é a luz “onde o verbo é ser”, através de uma rota “que viaja dos raios gama às ondas de rádio”, pois, invariavelmente, nenhumas “poeiras cósmicas” impedirão “a nossa luz”, já que “nesse sorriso / nasce a rocha / onde brotam os poetas / um sorriso de ser”.          

Tal como em Rómulo de Carvalho / António Gedeão, a ligação, a junção, entre a ciência e a poesia era firme e persistente, e isso percebe-se facilmente no léxico científico e metafórico que empregou nos seus vastos e singulares poemas, também em António Piedade tal se verifica, embora isso seja mais óbvio na primeira parte deste livro, e que talvez por isso, e de forma geral, terão sido os poemas que escreveu mais recentemente.

A poesia e, sobretudo, a linguagem poética, não tem de ser forçosamente demasiado elaborada e dissimulada em seus modelos ou artifícios, sejam eles estilísticos ou metafóricos, para que se possa afirmar como “boa poesia”. Albert Einstein afirmou: “No meio da confusão, encontre a simplicidade. A partir da discórdia, encontre a harmonia. No meio da dificuldade reside a oportunidade”.

 Daí que, também, neste livro, e em grande parte destes 16 poemas, a simplicidade aparente não é sinónimo de simplismo. E se em nota introdutória é o próprio poeta, em carácter de humildade, a afirmar sobre o livro: “Aqui está. Imperfeito, ingénuo como meu primeiro livro nesta arte maior que é a Poesia”, e sendo lógico que tal como nos restantes livros por si publicados, e desde o seu primeiro livro, foi burilando o(s) texto(s), também no seu próximo livro de poesia irá acabar, como aliás todos nós fazemos, por burilar algumas ramagens dos seus novos, ou até antigos, poemas.

Aqui a questão que emana é só uma: estes textos, estes poemas, em sua génese definida são já o prenúncio de uma caminhada poética assente em certos alicerces a que o autor não irá, nem quererá, certamente, fugir na caminhada que continuará a criar e percorrer.

Se atentarmos em Rimbaud, que nos diz que “O poeta faz-se vidente através de um longo, imenso e sensato desregramento de todos os sentidos”, ou em Keats, que afirma que “Se a poesia não surgir tão naturalmente como as folhas de uma árvore, é melhor que não surja mesmo”, então, categórico, afirmo: sim, é a ‘isso’ que ‘aqui’, neste seu primeiro livro, já se assiste a brotar, por vezes frágil, mas em visível viço de primavera!

Refira-se, e poderá ser apenas uma coincidência feliz, o facto de o livro, com 16 poemas, estar dividido em duas partes de 8 (oito) cada, pois, o número 8 “é, universalmente, considerado o símbolo do equilíbrio cósmico. É um número que possui um valor de mediação entre o círculo e o quadrado, entre a terra e o céu, e por isso está relacionado com o mundo intermediário e um simbolismo de equilíbrio central. Deitado, simboliza também o infinito, e representa a inexistência de um começo ou fim, do nascimento ou da morte, e aquilo que não tem limite, e ainda a ligação entre o físico e o espiritual: e afianço eu aqui, a religação entre as ciências, entre a bioquímica e a poesia.

Atente-se em alguns títulos da primeira parte: “Com novas íris te universo”, “Átomo ao espelho”, “Lágrimas com riso dentro” - onde logo nos aflora o poema “Lágrima de preta”, de António Gedeão -, “A luz do teu pólen”, “Vida”, etc., onde o corpo da ciência se incorpora sem contemplação no corpo da poesia, no corpo do poema, e onde “dentro del(a)e explodem miríades de pequenos arco-íris”.

 Nesta primeira parte, onde termos e imagens como Íris, Poeiras Cósmicas, Fotão, Princípio de Pauli, spin, Caleidoscópio, miríades, Líquido Translúcido, Sirius e Saturno, Seio vulcânico, Explosão estelar, Lua, entropia, Caminhos neurais ou átomo, só para citar alguns, irrompem “por entre canteiros de ficções oníricas / Indistinguíveis da pura magia”, penso que o poema que abre o livro, intitulado “Com novas íris te universo” - ainda e sempre a…ÍRIS -, quase poderia ser encarado como o texto programático do poeta-cientista, ou do cientista-poeta, António Piedade. Diz-nos:

Com novas íris te universo.
Vejo-te para além do ar
Até onde não sabia que ainda começas

Com novas íris despojo-te das poeiras cósmicas
Descubro-te onde não tens cor
Com novas íris alianço-me nos deuses antigos
E redesenho a abóboda celeste
Com mitos modernos
Cegos de contemplação de tanto espanto

Com novas íris volto a ser criança a olhar o céu
E tento apanhar as estrelas num gesto, num salto
Com novas íris me visto de ti
Num novo cosmos invisível à nudez dos meus olhos
E descubro no céu um arco-íris
Que viaja dos raios gama às ondas de rádio

Este primeiro poema do livro, que, no plano teórico, será, senão o último, um dos últimos que terão sido escritos, reenvia-nos - principalmente através “das poeiras cósmicas” ou do “arco-íris” da sua última estrofe -, precisamente para a essência da segunda parte do livro, em que curiosamente, ou não, o primeiro poema dá título ao livro: “Fonte de Coretos”.

E nesta segunda parte, onde sobressaem de algum modo, poemas como “Silêncio”, “Ponteiro das horas”, “Luz”, “Adeus” ou “Sorriso”, poemas que como refere o autor na ‘Nota breve’, são poemas, exceptuando o recente “Sorriso”, mais antigos - e que contudo, de forma ligeira, já são pincelados com algumas ‘palavras de ciência’ -, o que imediatamente perpassa é uma constante dialéctica entre o amor - em sentido lato, pois é possível pressentir um amor carnal, conjugal, maternal, um amor ao cosmos, etc. - e a liberdade. E, quer seja na ambição de alcançar esse tal amor e essa tal liberdade, quer seja no temor de perder, ou não alcançar, esse amor e essa liberdade.

Há um permanente olhar e uma permanente voz - que se pode aplicar, que se vislumbra, também, no poema que inicia o livro, “Com novas íris te universo” -, que são simultaneamente o olhar e a voz de uma criança e de um adulto. E, na verdade, se mais ou menos palpável, em cada adulto está sempre a criança que se reteve em nós, aqui, porque de um poeta, porque de linguagem poética se trata, esta particularidade é ainda mais evidente. A criança, a infância, a utopia, o brilho dos astros nas estrelas do olhar.

É pois na dialéctica entre os primeiros poemas de cada parte da obra que se pode encontrar não só “um céu reinventado nos risos com que a lágrima se fez”, como “nesse sorriso / nasce o mar inteiro / e a espuma das estrelas”.

Enquanto, como já referi, “Com novas íris te universo”, pode ser encarado quase como o texto programático do poeta-cientista, ou do cientista-poeta, António Piedade; “Fonte do Coreto” é a metáfora primordial por “onde brotam os poetas” e a poesia, pois simboliza toda a possibilidade de liberdade. A liberdade através da oferta ‘de mundo’: música, poesia, teatro, cultura, convivências, etc. - Vida! O/Um lugar vivo, onde se aprendia a “ver um pouco de mundo”, onde o verbo é/era “ser”. O voo ansiado no futuro azul entre a terra e o céu em “sua metáfora / onde a liberdade é o refrão / Estribilho em rima solta. A ânsia da infinda utopia: “Um reflexo fotónico de liberdade”. Daí que:


Há na minha aldeia
Uma fonte de coretos
Onde desagua a liberdade

Uma fonte de coretos
Onde todos nascem
Adentro de sonoros sonetos
Sonetos de pessoas
Cada um a sua métrica
A sua metáfora
Onde a liberdade é o refrão
Estribilho em rima solta

Há na minha aldeia
Uma fonte de coretos
Onde o verbo é ser

Não deixando de destacar na primeira parte - mesmo não o desenvolvendo, pois isso levar-nos-ia talvez para outras leituras e interesses do autor -, as referências a Cyrano de Bergerac, Gulliver ou Frankenstein, assinalo algo que é perceptível, embora com algum desequilíbrio ao longo dos poemas das duas partes do livro, e que também já foi aludido pelo Professor Carlos Fiolhais no que concerne à linguagem das crónicas. A presença de uma certa musicalidade, ou até mais patente, de um certo compasso rítmico que perpassa pelo corpo dos poemas, onde essa musicalidade e ritmo se mostram por vezes com um vigor exclusivo, para além da alegoria. 

Em conclusão, António Piedade, com este seu primeiro livro de poemas, que pela particularidade de ser uma primeira obra, granjeia, ou pode granjear, simultaneamente as suas virtudes e fragilidades, intitulado “Fonte de Coretos”, coloca-se de imediato à porta desse “cosmos invisível à nudez” de poetas em que a linguagem da poesia e a linguagem da ciência se funde e se expande, “cósmica”.

Como afirmou Maria Sousa, cientista e poeta, “A melhor ciência está próxima da poesia”. Ora, em António Piedade, isso é uma verdade inquestionável, nesse seu habitual diálogo que perpassa a sua escrita, seja ela prosa ou poesia. A ciência é poesia, e a poesia é ciência. Em António Piedade, brota a una luz do verbo, pois: “A luz do teu pólen / É nossa, minha, tua / É uma viagem solar / É Terra com nova Lua”.


João Rasteiro

RÓMULO- Centro Ciência Viva/Universidade Coimbra, 30/01/2018