O escritor Valter Hugo Mãe foi entrevistado por romance com o título O Século dos Imbecis. Extraí dessa entrevistas as passagens que se seguem, tendo por referência a educação (ou a falta dela) que estamos a proporcionar aos mais novos, aos que dependem de nós para serem educados. Os destaques são meus:
"É um livro de uma pessoa em processo de desilusão perante as decisões dos colectivos do mundo, que não consegue ficar indiferente ou passiva. É preciso confrontar as consciências e os poderes torpes que se vão instalando. A indignação a que o romance alude vem de uma perplexidade e de uma frustração: ao invés de estarmos interessados na sofisticação da consciência humana, andamos fascinados com a regressão a uma certa infantilidade. Aproximamo-nos de uma cidadania demissionária (...).
Sinto há muito que estamos diante de uma possível mudança de paradigma que, pela primeira vez, vai no sentido do abate do humano (...). Não se vislumbra qualquer transformação positiva e isso faz de nós uma geração suicida (...)
Somos o século da informação, mas isso não nos garante o conhecimento. A ignorância é hoje despudorada. O tanto que se tem à disposição não é assimilado, nem trabalhado. Um dos problemas desta constatação é poder chegar-se à conclusão de que, se os imbecis forem a maioria, a democracia é um prejuízo, não um esplendor. Que dramático será concluirmos que a democracia é uma desvantagem porque não investimos na instrução básica e ética da população. O grande desafio que enfrentamos é confrontarmo-nos com uma humanidade despreparada para decidir sobre si própria.
Sinto há muito que estamos diante de uma possível mudança de paradigma que, pela primeira vez, vai no sentido do abate do humano (...). Não se vislumbra qualquer transformação positiva e isso faz de nós uma geração suicida (...)
Somos o século da informação, mas isso não nos garante o conhecimento. A ignorância é hoje despudorada. O tanto que se tem à disposição não é assimilado, nem trabalhado. Um dos problemas desta constatação é poder chegar-se à conclusão de que, se os imbecis forem a maioria, a democracia é um prejuízo, não um esplendor. Que dramático será concluirmos que a democracia é uma desvantagem porque não investimos na instrução básica e ética da população. O grande desafio que enfrentamos é confrontarmo-nos com uma humanidade despreparada para decidir sobre si própria.
Não faltam por aí formas de enfraquecer as democracias, numa aposta deliberada na estupidificação das pessoas e na afirmação de regimes autoritários. Como se apenas uma elite pudesse continuar a qualificar-se, como se a humanidade fosse novamente dividida pela ideia de castas. A desumanização das multidões em prole de elites torpes e maldosas, tão elementares e assumidas, tão indecorosas, é uma caricatura da própria tirania, com toda a sua burrice, infantilidade e violência (...).
A Internet que prometeu a singularidade, que cada um encontrasse o seu interesse mais específico, impõe hoje uma padronização através da instrumentalização do algoritmo. As possibilidades e as expectativas de um meio tão poderoso foram pervertidas. Quem controla a Internet tem revelado uma enorme miséria ética e humana.
A única possibilidade de afirmar algum tipo de redenção ou recuo passa pelo humor e o sarcasmo. O tremendismo convida a mais tremendismo. A tragédia tem de ser debatida e evidenciada, estar à luz das consciências, mas precisamos de rir dela. Para ser ultrapassada de uma vez por todas, talvez a tragédia precise de ser primeiro humilhada."
A Internet que prometeu a singularidade, que cada um encontrasse o seu interesse mais específico, impõe hoje uma padronização através da instrumentalização do algoritmo. As possibilidades e as expectativas de um meio tão poderoso foram pervertidas. Quem controla a Internet tem revelado uma enorme miséria ética e humana.
A única possibilidade de afirmar algum tipo de redenção ou recuo passa pelo humor e o sarcasmo. O tremendismo convida a mais tremendismo. A tragédia tem de ser debatida e evidenciada, estar à luz das consciências, mas precisamos de rir dela. Para ser ultrapassada de uma vez por todas, talvez a tragédia precise de ser primeiro humilhada."
10 comentários:
Fico irritado com estes profetas do apocalipse da raça, não devia reagir de facto porque afinal o que as opiniões dos Hugo Mão são é mesmo: irrelevantes.
Esta gente que se habituou aos paradigmas de um mundo livresco e sem internet, onde reinam ideologicamente nos jornais, TV e meios culturais de elite, não tem qualquer futuro nem sequer qualquer presente. Este nem sequer escreve bem, mas a vasta clientela do sistema garante-lhe fama e proveito, e perder isso é que o aterroriza, a ele e outros como ele. Vão perder privilégios, poder, influência, prestígio (?!) porque a cultura e a sabedoria deixaram de ser propriedade privada, agora estão na rua - na rua digital, entenda-se. Acesso público livre.
Ao contrário do que o ceguinho digital diz, nunca tantas pessoas souberam tanto e tiveram tanta oportunidade de conhecimento, incluindo de Arte e História. Os brutos, os imbecis de que fala o Mãe, eram a quase totalidade no tempo dos Romanos ou na Idade Média, os bárbaros dominavam ao tempo do Terror em França, do Holocausto e do Gulag. Sempre houve incontavelmente mais gente reles, maldosa, torpe, do que gente boa e culta e sábia. Justamente no momento em que há transformações sociais gigantescas e planetárias graças à Internet é que vem gritar Lobo Lobo. Grita Lobo para manter as ovelhas como ovelhas, o medo dele(s) não é o Lobo: é que as ovelhas passem a saber defender-se , a serem donas do poder, a ser uma maioria de elite.
Frases como "a ignorância é hoje despudorada" , que são profundamente reaccionárias, só mostram desprezo pela democracia e horror à mudança radical da sociedade. Que assim "a democracia é um prejuízo" só revela o prejuízo que ele sofre, sucata deixada para trás, esquecida, pela História. Pelo contrário, assim a democracia dá um gigantesco passo em frente.
"Elites torpes e maldosas", sim, talvez sim, hoje, aqui, agora, e o Hugo Mãe é um bom, exemplo: com preconceitos e adivinhações torpes, quer fazer a humanidade recuar, desistir, retroceder para o tempo em que só os "intelectuais" como ele (ah ah), auto-intitulados, auto-satisfeitos, tinham poder e decidiam.
O sarcasmo é, foi sempre, a arma dos imbecis, dos torpes, e assenta-lhe bem. Se é isso que ele chama "redenção", pois que o Redentor Mãe se desmascare na vileza, na ordinarice sub-humana do sarcasmo. Eu estou ...aaaaa... metralhadoramente contra.
O que aí vem pode ser melhor ou pior, como sempre em toda a História. Vai ser diferente. E para mim basta: disto estou eu farto.
Em relação ao comentário anterior, tenho alguma dificuldade em ver os brutos todos dos romanos ou da idade media. Era horroroso, não fizeram nada de jeito. Deve ser porque nunca tantas pessoas souberam tanto e tiveram tanta oportunidade de conhecimento, incluindo de Arte e História.
Por outro lado ficámos todos à espera, quase a salivar, para perceber depois de um texto tão longo quais são as transformações sociais gigantescas e planetárias graças à Internet.
É ainda estranho que uma opinião tão irrelevante mereça tanto comentário, e tanta referência ao seu nome: Hugo aparece duas vezes, Mãe três vezes, e até uma Mão.
Ah, esqueci-me ainda de perceber o "disto estou eu farto". Ainda que não tenha explicado bem o que (não) existe além da internet (afinal, parece-me que internet é consequência do desenvolvimento do nosso tempo): será o quê? vivermos hoje mais que os britânicos? termos mortalidade infantil\maternal no top mundial? sermos um dos países do mundo com mais transplantes em % da população? termos electrodomésticos, vídeos, computadores, tablets e telemóveis, com tudo do bom e melhor? comprarmos mais automóveis verdes que grandes países europeus? termos autoestradas pelo país quando ainda no princípio dos anos 1990 demorava-se um dia inteiro para ir de Lisboa ao Algarve? será que é por publicarmos 100 vezes mais artigos científicos hoje do que em 1980, o que nos põe à frente da Espanha, Alemanha, Itália e França? Será por termos uma das internet mais rápidas da Europa? deve ser por isso, só pode.
Afinal o "acesso público livre da internet" ao conhecimento deve-se a quê e a quem? Ao mundo livresco e sem internet?
Leu-me mal. Deixei claro que a evolução histórica é positiva no sentido das liberdades, do acesso ao saber e à cultura. Não pus em dúvida a magnífica herança civilizacional dos romanos ou medieval. Do que eu estou farto é de que se diga que hoje é pior, que a humanidade caminha para uma catástrofe de regresso ao troglodita por causa da IA. Do que eu estou farto é da campanha reaccionária velha-do-restelo e anti-liberal contra a IA. Do que eu estou farto também é desta género humano que tem tudo para progredir mas ergue barreiras e grita às armas ! contra uma ameaça de moinhos de vento, que só precisa de ser prevenida, acautelada. Já agora: também estou farto de anónimos
O Velho do Restelo, o tão incompreendido Velho do Restelo, representa a ponderação, a sensatez, a prudência que Camões quis sublinhar ser preciso ter quando uma grande mudança está em curso. Mudança ligada à ambição que habita em nós de nos suplantarmos, sem olharmos às consequências. Está, portanto, longe de representar o pessimismo, a recusa de olhar para o futuro, de ficar na mesma. Cordialmente, MHDamião
Dou-lhe razão em parte, Drª Helena, fazem falta essas vozes de prudência, ainda bem que se fazem ouvir. Não é a essas que me refiro, nem Hugo Mãe. Refiro-me aos enraivecidos, empedernidos, que querem erguer muros e armar as bestas para resistir a algo de novo, que aí vem, que eles não percebem. A IA é inelutável, é uma maré planetária avassaladora que vai mudar muita coisa, ninguém sabe quanto para melhor e quanto para pior.. Como a internet e os telemóveis mudaram. Será que esses a quem me refiro querem cancelar a internet e proíbir os smartphones ?
Prezado Leitor Mário Gonçalves, diz Harari, e eu concordo, que é "trabalho de historiadores e filósofos (...) apontar os perigos", seja do que for que muito entusiasme. Ver em: https://dererummundi.blogspot.com/2023/05/trabalho-de-historiadores-e-filosofos.html
Cordialmente, MHDamião
Obrigado, já tinha lido, e há ali muito do tal exagero, do tal medo irracional que provoca uma atitude bélica de defesa. Está muito certo que os historiadores (não os filósofos, a filosofia actual é irrelevante quando não estúpida) alertem e denunciem, mas é preciso que o movimento de avanço que a IA traz tenha caminho livre, com algumas câmaras de vigilância. Não me assusta nada que uma inteligência alienígena (de nossa criação!) venha a dominar a inteligência humana. Até espero que traga uma mutação.
profunda.
Uma enorrrrrme vantagem teria essa inteligência sobre a nossa: não seria condicionada por religiões, acabavam-se os deuses e toda a ignomínia que resulta da fé. Aliás, o inmigo para mim não é a IA : são as crenças religiosas, todas, um subproduto do cérebro reptiliano.
Vou comentar, à luz da minha Teoria, em fase de testes, porque o último parágrafo condensa três equívocos fundamentais da cultura contemporânea:
-A ideia de que a IA teria uma “vantagem” por não ter religião.
-A ideia de que as religiões são um erro cognitivo derivado do “cérebro reptiliano”.
-A ideia de que a fé é uma patologia que a racionalidade eliminaria.
A minha teoria não trata religião, racionalidade, ou IA, como “conteúdos”.
A religião é simbólica. A racionalidade é cognitiva. A IA é artificial. Nenhuma delas é superior às outras, porque operam em níveis diferentes. São incomparáveis. E não são categorias morais.
Tenho vindo a insistir, em várias intervenções, subrepticiamente, em que a religião não é um erro, é uma estrutura simbólica vital, que organiza a experiência vital e isto não é um defeito da mente humana, é uma estrutura da vida humana. Correntemente, a religião é vista e apontada como erro, porque há quem pense que a forma simbólica é inferior à forma cognitiva.
A minha Teoria não permite esta hierarquia e dissolve-a.
Por outro lado, a IA não tem vantagem nenhuma, até porque não é vital. A minha Teoria diz que a IA não tem religião porque não tem vida. E não ter vida não é vantagem mas uma limitação ontológica. E, não ter religião não é ser superior. No caso da IA, é porque não tem a condição vital onde a religião aparece. Dizer “uma pedra tem vantagem porque não sente dor.”, é errado, porque não é vantagem, é porque não é viva.
E dizer que “As crenças religiosas são um subproduto do cérebro reptiliano.” é um erro de categoria. A minha Teoria mostra o cérebro reptiliano é biológico, a religião é simbólica, não há relação causal direta entre estes níveis. A religião não nasce da biologia, nasce da vida humana e simbólica. A religião não é instinto, medo, irracionalidade. É uma forma simbólica que organiza a experiência humana da finitude. A IA não tem finitude, mas isto é ausência de mundo e não vantagem.
A sua teoria é que não tem mérito nem científico nem de verdadeira reflexão filosófica, é palavreado estéril e incoerente. Eu cá não tenho teoria nenhuma, e graças a Deus nunca senti nem sinto fé religiosa nenhuma, portanto a sua teoria diz que não tenho vida. Escusa de me responder, sou um robot ou um espectro. Nisto da repulsa e desprezo pelo ateísmo está sintonizado com os fanáticos islâmicos.
Qualquer abordagem séria reconhece que religião ou crença é apenas medo e irracionalidade, que se procurou sublimar na Arte. Actualmente obsoleta, a religião e seus 'papados' vaticanos e outros só servem de travão obscurantista e de consolo para infelizes sem esperança.
A IA terá essa enorme vantagem, sim: sendo criação nossa, humana, faz de nós 'deuses'. Não precisamos mais de deus nenhum, só temos de nos preocupar com as nossas criaturas, que sejam saudáveis, que sejam eficazes, que sejam felizes quando isso fizer sentido. Que se libertem de nós, o sentimento mais nobre se um pai criador em relação à progenitura.
Alguns IA nossos filhos serão ´maus´. quererão combater-nos, eliminar-nos - é o que já sucede com os imensos parricídios. É imensamente humano !
A reação do prezado leitor Mário Gonçalves mostra que interpretou a minha análise como juízo moral, quando era apenas uma distinção formal. Dizer “a sua teoria não tem mérito científico nem filosófico.” não é argumento, é negação, o equivalente conceptual de bater com a porta.
Diz “não tenho teoria”, mas está a expressar uma teoria implícita sobre o humano, sobre a religião, sobre a IA. Não ter teoria é ter uma teoria não examinada.
Diz, também, “Nunca senti fé, portanto a sua teoria diz que não tenho vida.”, mas está a reagir a uma sombra projetada por si próprio, porque a minha Teoria não diz que quem não tem fé “não tem vida”, diz que a vida e a fé são níveis diferentes. A ausência de fé não implica ausência de vida, tal como a ausência de religião não implica ausência de pensamento. Nada na minha Teoria depende de religião, ou fé.
Depois dá um salto retórico, típico de quem perdeu o eixo formal e diz “Está sintonizado com fanáticos islâmicos.”, mas isto é confundir crítica formal com posição religiosa, análise com militância, estrutura com ideologia.
Voltando à minha Teoria, alguém que não distingue níveis formais, mistura tudo no mesmo plano.
E não, a religião não é medo, nem irracionalidade. Os que afirmam o contrário cometem o erro formal clássico do reducionismo biológico. Afinal, a religião não é instinto, nem reflexo, nem medo. Pode ser criticada, rejeitada ou abandonada, mas não pode ser reduzida a instinto biológico. Isso seria confundir níveis distintos.
Quanto à ideia de que a IA fará de nós “deuses”, é uma projeção simbólica humana, não uma descrição técnica. É religião sem deuses, mas com máquinas, uma mitologia tecnológica que, embora seja compreensível, não é rigorosa.
A minha Teoria não despreza o ateísmo, nem a religião, também não depende deles, nem trata das minhas preferências, ou sentimentos, pessoais. De qualquer modo, do que tenho exposto nestes comentários, nada se pode extrair que justifique dizer se sou ateu ou crente em divindades.
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