quinta-feira, 18 de junho de 2026

TALVEZ SEJA MESMO O "ABATE DO HUMANO"

O escritor Valter Hugo Mãe foi entrevistado por romance com o título O Século dos Imbecis. Extraí dessa entrevistas as passagens que se seguem, tendo por referência da educação (ou a falta dela) que estamos a proporcionar aos mais novos, aos que dependem de nós para serem educados. Os destaques são meus:

"É um livro de uma pessoa em processo de desilusão perante as decisões dos colectivos do mundo, que não consegue ficar indiferente ou passiva. É preciso confrontar as consciências e os poderes torpes que se vão instalando. A indignação a que o romance alude vem de uma perplexidade e de uma frustração: ao invés de estarmos interessados na sofisticação da consciência humana, andamos fascinados com a regressão a uma certa infantilidade. Aproximamo-nos de uma cidadania demissionária (...).
Sinto há muito que estamos diante de uma possível mudança de paradigma que, pela primeira vez, vai no sentido do abate do humano (...). Não se vislumbra qualquer transformação positiva e isso faz de nós uma geração suicida (...)
Somos o século da informação, mas isso não nos garante o conhecimento. A ignorância é hoje despudorada. O tanto que se tem à disposição não é assimilado, nem trabalhado. Um dos problemas desta constatação é poder chegar-se à conclusão de que, se os imbecis forem a maioria, a democracia é um prejuízo, não um esplendor. Que dramático será concluirmos que a democracia é uma desvantagem porque não investimos na instrução básica e ética da população. O grande desafio que enfrentamos é confrontarmo-nos com uma humanidade despreparada para decidir sobre si própria.
Não faltam por aí formas de enfraquecer as democracias, numa aposta deliberada na estupidificação das pessoas e na afirmação de regimes autoritários. Como se apenas uma elite pudesse continuar a qualificar-se, como se a humanidade fosse novamente dividida pela ideia de castas. A desumanização das multidões em prole de elites torpes e maldosas, tão elementares e assumidas, tão indecorosas, é uma caricatura da própria tirania, com toda a sua burrice, infantilidade e violência (...).
A Internet que prometeu a singularidade, que cada um encontrasse o seu interesse mais específico, impõe hoje uma padronização através da instrumentalização do algoritmo. As possibilidades e as expectativas de um meio tão poderoso foram pervertidas. Quem controla a Internet tem revelado uma enorme miséria ética e humana.
A única possibilidade de afirmar algum tipo de redenção ou recuo passa pelo humor e o sarcasmo. O tremendismo convida a mais tremendismo. A tragédia tem de ser debatida e evidenciada, estar à luz das consciências, mas precisamos de rir dela. Para ser ultrapassada de uma vez por todas, talvez a tragédia precise de ser primeiro humilhada."

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