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domingo, 18 de dezembro de 2011

A VIRGEM E O COELHO

Crónica publicada no "Diário de Coimbra".

A Virgem e o Coelho” ("Madonna del Coniglio", no italiano original), é um óleo sobre tela do pintor italiano Tiziano Vecellio (1473? – 1590) que pode ser actualmente apreciado no museu do Louvre, em Paris. Tiziano é um dos principais representantes da escola veneziana do Renascimento Europeu, e este seu quadro referencia a pureza da fertilidade e da concepção imaculada de Maria, representada pela alvura, símbolo de pureza, do coelho enquanto espécie associada à fertilidade. Nesta pintura renascentista, Maria recebe de Catarina de Alexandria o menino Jesus. Este contempla um coelho branco bem seguro pela mão esquerda de sua mãe imaculada. As mãos de Maria fazem a interligação entre o menino Jesus e a pureza representada pelo coelho branco.

Como veremos mais à frente, há razões para uma intencionalidade para este simbolismo do coelho com a pureza e com a concepção sem pecado. Neste contexto, pode dizer-se que a obra faz uma alusão ao mistério da incarnação e da imaculada concepção de Maria, numa interpretação de Tiziano do culto mariano e dos novos evangelhos bíblicos. Mas note-se também na presença de um cesto semiaberto com fruta, uma maçã, numa alusão ao pecado original relatado nos Velhos testamentos.

Esta obra “A Virgem e o Coelho” contém ainda informação insuspeita sobre da evolução da humanidade na sua relação com o mundo. Muito para além do renascimento e vitória da luz sobre as trevas, ajustado pela cristandade ao solstício de inverno, apropriada e primeiramente celebrada nas festividades natalícias neste canto ocidental da humanidade, para celebrar o nascimento do menino Jesus.

Mais do que possamos extrair a partir dos estudos derivados da História da Arte, de outros contextos implícitos em segundos e outros planos, também eles férteis em informação histórica nas suas matrizes telúricas, bucólicas (a figura do pastor) mas também de urbanas modernidades, este quadro encerra em si uma informação que corrobora, imagine-se, conhecimento recente provindo da genética e genómica modernas: o da domesticação do coelho!

E porquê? Porque é uma das primeiras obras de arte conhecidas em que um coelho branco é representado em contacto directo com uma figura humana, mesmo sendo a de Maria, mãe de Jesus.

Saliento: coelho branco e não cinzento que é a cor do bravo, endémico e nativo.

Por outras palavras, este quadro indica-nos que, pelo menos em 1530, o coelho já tinha sido domesticado. Embora caçado desde tempos imemoriais pelo Homem, caçador-recolector, para fonte de carne e pele, a domesticação do coelho selvagem terá ocorrido não há mais de 1500 anos. Esta informação ressalta dos estudos de divergência entre os genomas das variadíssimas espécies de coelhos domesticados hoje conhecidas e do seu “primo” selvagem.

Estudos efectuados nos últimos anos pelo biólogo e geneticista português Miguel Carneiro (e seus colaboradores), investigador no Campus Agrário de Vairão do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos, mostram que o coelho europeu (Oryctolagus cuniculus) é o antepassado comum de todos os actuais coelhos domésticos. Curiosamente, esta espécie é nativa da Península Ibérica onde duas subespécies divergiram há cerca de 1,8 milhões de anos, sendo muito bem distinguíveis geneticamente: a O. c. algirus, ainda existente no sudoeste da península, principalmente em Portugal, e a O. c. cuniculus presente no noroeste da Ibéria e também no sul da França. Os trabalhos de referência estão publicados nas revistas Molecular Biology and Evolution (2011, 28(6):1801-1816) Genetics (2009, 181:593-606) e Evolution (2010, 64: 3443-3460), entre outras.

Há muitas evidências históricas de uma farta utilização de coelhos durante a ocupação da Península Ibérica pelo Império Romano. De facto, no século I a.C. os Romanos referiam-se à Hispânia como a terra dos coelhos. Cercados de coelhos terão sido utilizados para amplificar a sua reprodução e satisfazer a procura da carne de coelho, mas sem que uma deliberada reprodução selectiva de certas características tenha sido efectuada pelos Romanos ou povos ocupados, pelo que os investigadores excluem a ocorrência de uma efectiva domesticação do coelho durante esse período.

Um outro registo histórico, bem documentado (ver referências nos artigos atrás citados), surge aos investigadores como testemunho de uma domesticação intencional do coelho ancestral, com uma forte pressão de selecção artificial para fixar características de interesse, como seja a docilidade de trato ou a cor da pelagem. Esta selecção parece ter-se iniciado, ou pelo menos intensificado, a partir do século VI d.C. em Mosteiros do Sul de França, propulsionada por um decreto do Papa Gregório I (c. 504 – 12 de Março 604), também conhecido como S. Gregório Magno, em que é reconhecida a pureza carnal dos coelhos recém-nascidos! Diga-se, por oportunidade musical, mesmo que aqui dissonante, que Gregório I foi responsável pela divulgação do tipo de música que hoje designamos por gregoriana.


Segundo o referido édito papal, os coelhos recém-nascidos não eram considerados carnais pelo que poderiam ser consumidos durante a quaresma sem que daí adviesse pecado para aqueles que os consumissem! Eis uma forte razão para os manter em cativeiro, para os domesticar. Há registos da troca de coelhos no ano de 1194 entre mosteiros do centro da Europa e do Sul de França, o que mostra que a sua domesticação era comum já no primeiro milénio d.C.

A natureza não carnal dos coelhos recém-nascidos, sugerindo uma concepção sem pecado, encontra assim eco na associação do coelho branco do quadro de Tiziano ligado à concepção imaculada do menino Jesus por Maria, nascimento celebrado nesta quadra natalícia pela cristandade.

António Piedade
Ciência na Imprensa Regional – Ciência Viva

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Júlio Resende (1917-2011)


"Eu já ficava muito contente se dissessem:
«O fulano foi um teimoso, pintou até ao fim»."

Disse Júlio Resende, chegado aos noventa anos. Teimosia que fez com que uma obra única fosse paulatinamente construída para o tempo presente e para o futuro.

(Citação extraída de entrevista dada pelo pintor à Revista Pública de 10 de Fevereiro de 2008. Fotografia de Rui Duarte Silva).

terça-feira, 8 de março de 2011

As avestruzes


No Dia Internacional da Mulher as palavras de Paula Rego, uma mulher que pinta mulheres nos seus universos.

As avestruzes "são criaturas em grupo e não têm, estão ali, à beira mar, de madrugada acordam e espreguicam-se (...) e vão vivendo. Pertencem às mitologias - sei lá se pertencem, mas depois de as fazer pensei que talvez pertencessem às mitologias antigas."

Paula Rego, em entrevista a Alexandre Pomar e Fernando Diogo (Revista do jornal Expresso, de 31 de Maio de 1997, página 25).

Helena Damião

domingo, 20 de fevereiro de 2011

"E depois inventa-se uma história para explicar tudo"

Paula Rego, "a nossa pintora em Londres", recebeu na passada semana, em Portugal, uma distinção académica importante: o Doutoramento Honoris Causa, pela Universidade de Lisboa. Disse nessa ocasião: «Tudo o que se faz é às escondidas, portanto pode-se fazer o que se quiser. Pode-se castigar quem não se gosta e quem se gosta. E depois inventa-se uma história para explicar tudo.»

Na infância, sempre na infância, pode encontrar-se a formação da capacidade de Paula para inventar e reiventar histórias que "explicam tudo" o que existe no mundo real e noutros que, não sendo reais, não deixam de o ser. Neste caso, a solidão ajudou a formar o pensamento e a dar jeito à mão que o exterioriza. Assim ela o conta frequentemente, e o dá a conhecer por escrito John McEwen, crítico de arte que há trinta anos se deixou envolver pela fantasia pictural que os quadros mágicos deixam perceber:

"O quarto de dormir da Paula era no andar de cima, autêntico refúgio para uma filha única. Ao contrário da animação em casa dos avós, onde lhe era permitido estar na cozinha, e onde a avó ajudava a preparar as refeições, a vida com os pais seguia um ritual estrito. Levavam uma vida retirada, e não queriam que a Paula convivesse com os criados. Acrescentar que nessa época ainda não havia televisão. As crianças, muito mais do que hoje em dia, tinham que arranjar maneiras de se entreter. O grande recurso para a Paula eram os brinquedos, sobretudo um teatro espanhol que tinha pertencido ao pai; e os desenho. Acima de tudo - desenhar. Conta a mãe:

Lá estava ela constantemente a fazer um som na sala - bum, bum, bum - sem parar. Era um sossego ouvir aquele som - porque enquanto ela entoava aquele bum, bum, eu sabia «Ah, a Paula está contente. Está a desenhar, está contente.» E, sabe, uma coisa, ela continua a fazer aquele barulho - bum, bum, bum, e continua a desenhar no chão - ainda hoje, depois de todos estes anos.

A pintura é uma actividade solitária, e Paula achou sempre que o isolamento da sua infância foi uma bênção. «Aqueles anos de infância passados assim, sozinha num quarto foi o melhor treino que podia haver para uma artista».

Mas a actividade criadora criadora não era a única coisa que a mantinha feliz agarrada ao quarto. «Foi no Estoril que eu primeiro tive consciência do mundo exterior, de uma realidade fora de casa - e isso aterrorizava-me ao máximo. Minha mãe diz que eu tinha medo das moscas, me eu tinha medo de tudo. Até as outras crianças me assustavam. Era horrível quando eu me encontrava lá fora. Um autêntico pavor». Felizmente que a praia não tinha o mesmo efeito. A praia era para ela um quarto de brinquedos ao ar livre.

Não há dúvida que o talento artístico de Paula algo ficou a dever à mãe. É aliás através da mãe que ela é uma prima afastada de Vieira da Silva, mulher também, e a figura artística portuguesa mais célebre internacionalmente. Maria Rego, que hoje se recusa a levar a sério os seus esforços como pintora, chegou a frequentar, muito jovem, uma escola de arte em Lisboa, actividade considerada mais convencional no meio português do que em Inglaterra. maria continuou com a pitura a óleo durante largo tempo, já casada. Luzia, a velha criada, que se ocupava de Paula, ainda hoje tem um pequeno quadro de Maria, sensível e de hábil factura."

Referência:
McEwen, J. (1998, 2.ª edição). Paula Rego. Lisboa: Quetzal Editores (tradução de Alberto Lacerda), página 18.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

«Isto tem muito númaro»

Andava Júlio Pomar pelos vinte anos quando, um belo dia, para seu grande espanto, recebeu no seu ateliê - "um quarto alugado na Rua das Flores a que chamávamos pomposamente ateliê", diz o pintor - a visita de Almada Negreiros.

Passando ao acaso, ou tendo ouvido falar da exposição que um grupo de alunos das Belas Artes ali apresentava, o já então conhecido por Mestre Almada, resolveu espreitar. Nessa esperitadela viu "uma pinturinha sobre cartão com uma cena de saltimbancos" da autoria de Pomar, que comprou, por cem merréis, "para ser exposto no Secretariado de Propaganda Nacional, em São Pedro de Alcântara".

Nessas andanças o quadro perdeu-se (existe apenas o desenho preparatório), o que não foi muito importante; o elogio que ele permitiu é que foi importante. Conta-o Pomar da seguinte maneira:

O que é que sentiu quando o Almada lhe comprou o quadro?
Ah! Enfim, foi assim uma coisa.... Só o simpes facto de o Almada se ter abalado da Brasileira até ao nosso atelier era... Nunca esquecerei. A dado momento, perante um desenho meu, o Almada, com aquele seu sotaque lisboeta, diz: «Isto tem muito númaro». Conhecia que era a sua atracção pelos números, pelas relações geométricas, era o maior cumprimento que se podia receber. «Isto tem muito númaro». Claro que me babei... «Númaro».

Grande Reportagem, Agosto de 2003, p. 59.

Na figura: Quadro de Júlio Pomar intitulado O Almoço do Trolha. A inspiração neo-realista traduz a influência que Almada Negreiros teve na sua obra.
Documentos consultados:
Entrevista de Júlio Pomar à revista Grande Reportagem de Agosto de 2003, realizada por Ana Sofia Fonseca.
Entrevista de Júlio Pomar ao semanário Expresso, realizada por Ana Soromenho.

sábado, 25 de abril de 2009

"A poesia está na rua"

Muitos são os artistas que ligaram o seu nome à data que hoje se comemora. Maria Helena Vieira da Silva e Sophia de Mello Breyner Andersen são dois desses nomes. Da primeira reproduzo uma pintura - com frase de Sophia: A poesia está na rua -, e da segunda um poema - Pranto pelo dia de hoje.



Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que nem podem sequer ser bem descritas


in Livro Sexto, 1962.



terça-feira, 29 de abril de 2008

"E ela dança"

“Às vezes, quando a casa estava adormecida à noite,
ela dançava pela sala fora (…).
E ela dançará.
Ao longo das sílabas dos poemas,
como dançava na minha infância.”
Miguel Sousa Tavares


No dia de hoje, em que se comemora essa arte magnífica que é a da dança, lembro-me de um poema - Por delicadeza - e de um quadro - O baile - de duas senhoras que representam duas outras artes magníficas: Sophia de Mello Breyner Anderson e Paula Rego.

Bailarina fui
Mas nunca dancei
Em frente das grades
Só três passos dei

Tão breve o começo

Tão cedo negado

Dancei no avesso
Do tempo bailado

Dançarina fui
Mas nunca bailei
Deixei-me ficar
Na prisão do rei


Onde o mar aberto
E o tempo lavado?
Perdi-me tão perto
Do jardim buscado

Bailarina fui

Mas nunca bailei
Minha vida toda
Como cega errei

Minha vida atada
Nunca a desate

Como Rimbaud disse
Também eu direi:

«Juventude ociosa
Por tudo iludida
Por delicadeza
Perdi a minha vida»


(Citação de Miguel SousaTavares in Jornal Público, 12 de Junho de 1999).