terça-feira, 30 de junho de 2020

HÁ BASALTOS E BASALTOS

À atenção dos professores do Secundário. 

Talvez que, por obediência ao programa oficial, os alunos tenham de “saber dizer” o que é o basalto, o professor que os ensina deve saber muito mais. E esse muito mais é uma minúscula parcela do conhecimento científico ao nosso dispor. 

Na Antiguidade, os gregos chamavam-lhe “basanites”, nome proposto por Teofrasto (372-287 a.C.), com raiz no termo “basanos” que, entre eles, referia toda a pedra negra, dura e compacta, usada pelos ourives como “pedra de toque”, de que é exemplo o lidito. 

Um parêntese para dizer que o lidito é uma rocha siliciosa microcristalina (como o sílex, conhecida entre os profissionais por cherte) negra, devida a impregnação de matéria carbonosa, descrita na região de Lydia, na Ásia Menor (Turquia). 

Na sua História Natural, o romano Plínio, o Velho (23-79 d.C.) usou a versão “basaltes” para dar nome ao “mármore negro”, assim se designava vulgarmente o basalto, uma vez que toda a pedra usada em cantaria era, então, conhecida por “mármore”. Foi, pois, ao latim, que fomos buscar a nossa palavra “basalto”. Muito mais tarde, na Alemanha, Agricola (1494-1555), reconhecido pioneiro da mineralogia e da geologia, usou o termo “Basalt” para referir a pedra negra, compacta, de Stolpen, na região de Dresden, Alemanha. O termo “basaltóide”, criado por René Just Haüy, em 1822, para referir o basalto negro do Egipto, é hoje um nome geral atribuído às rochas vulcânicas afins do basalto.

Vocábulo antigo dos léxicos geográfico, naturalista e, mais tarde, geológico, “basalto” é, pois, o termo geral que designa o equivalente vulcânico do gabro, a rocha plutónica de composição máfica, rica em magnésio e ferro, e com baixo conteúdo em sílica (52 a 49%), pelo que uma e outra são qualificadas como básicas.

Mais de 90% das rochas básicas são vulcânicas e, dentro delas, mais de 90% são basaltos, constituindo o essencial da crosta oceânica. No seu conjunto, os basaltos são as rochas magmáticas mais abundantes na crosta terrestre, onde ocupam cerca de 70% da superfície. Os granitos (em sentido lato, ou seja, os granitóides) ocupam os restantes 30%, confinados à crosta continental. 

Basalto é hoje um vocábulo petrográfico muito abrangente das rochas vulcânicas com as características químicas e acima definidas (conteúdo em sílica entre 52% e 49%). Aplica-se, não só àquelas cuja lava brota à superfície e aí arrefece e solidifica, como às que, no decurso desta actividade, solidificam a meio caminho da extrusão. É o caso dos chamados basaltos das soleiras, diques, chaminés e outros corpos intrusivos de relativamente pequena profundidade, muitos deles designados por doleritos.

Tem sido usual, entre os petrólogos e petrógrafos, distinguir três tipos fundamentais de basaltos, com base nos valores da razão (Na2O+K2O)/SiO2: toleíticos, calco-alcalinos e alcalinos.
BASALTOS TOLEÍTICOS, também conhecidos por toleítos (do nome da região de Tholey, no Sarre, Alemanha, onde foi descrito) são relativamente ricos em sílica e pobres em alcalis. Provêm da fusão parcial por descompressão dos peridotitos dos níveis mais elevados do manto superior. Este tipo de basaltos está bem representado nas dorsais meso-oceânicas e nas camadas superiores da crosta oceânica, em grande parte ocultos sob os sedimentos aí existentes. É igualmente a rocha dos trapps, palavra sueca que quer dizer escadaria, usada internacionalmente para referir os imensos e espessos empilhamentos de derrames sub-horizontais de lava, no interior dos continentes (vulcanismo intraplacas continentais), onde cobrem milhares de quilómetros quadrados de superfície, como são os da bacia do Paraná, no Brasil, da Sibéria, do Decão, na Índia, do Karoo e dos Libombos, no SE africano, da bacia do Rio Columbia, na América do Norte, de Madagáscar e da Austrália. São igualmente toleíticos os basaltos trazidos da Lua pelas missões Apollo. 
BASALTOS CALCOALCALINOS – contêm plagioclase rica em cálcio (labradorite), geralmente acompanhada de minerais ferromagnesianos com cálcio, como augite e horneblenda. São característicos dos arcos insulares e das margens continentais activas onde há fusão parcial das rochas do manto devido à adição de fluidos aquosos provenientes da crosta subductada e contaminação do manto por materiais dessa mesma crosta. O vulcanismo associado a este tipo de rochas é, geralmente, explosivo, por vezes, com grande violência, devido à maior viscosidade do respectivo magma. É o que acontece no chamado Anel de Fogo do Pacífico. 
BASALTOS ALCALINOS – além dos minerais comuns no basalto, contêm feldspatóides, sendo, por isso, também conhecidos por basaltos feldspatóidicos. São provenientes de zonas peridotíticas do manto superior, 50 a 80 km mais profundas do que as que alimentam os basaltos toleíticos e em relação com plumas mantélicas. 
Mas há ainda, relativamente a este tipo de rochas vulcânicas, outros nomes consagrados, mais descritivos das respectivas composições mineralógicas. Eis alguns. 
ANCARAMITO, descrito em Ankaramy, Madagascar, em 1916, é um basalto alcalino, olivínico, muito escuro, rico em augite e pobre em plagioclase. 
BASANITO, basalto alcalino com olivina (>10%) e feldspatóides (leucite ou nefelina); o termo, proposto por Teofrasto (320 a.C.) radica em basanos, nome grego antigo, como se disse atrás, de toda a pedra negra dura e compacta, usada pelos ourives como “pedra de toque”. 
HAVAITO, descrito na Ilha de Havai, caracterizado pela sua riqueza em olivina. OCEANITO, basalto, rico em olivina, com alto teor de magnésio, gerado por acumulação gravítica da olivina em escoadas espessas ou em soleiras; o termo apresentado por Alfred Lacroix (1863-1948) para designar este tipo de basalto gerado por lavas das Ilha de Havai e Reunião. 
TEFRITO, basalto alcalino com feldspatóides abundantes (leucite ou nefelina), plagioclase e, em menor quantidade, olivina (mais de 10%). O nome deriva do grego téfra, que significa cinza, em virtude da sua cor cinzenta.
A. Galopim de Carvalho 

segunda-feira, 29 de junho de 2020

O CAVALO DE TRÓIA DO RACISMO NEGRO

Temos de aprender a vivermos como irmãos 
ou morreremos todos como loucos” 
(Martin Luther King). 

Por norma, associa-se o racismo à população branca de países maioritariamente brancos colhendo exemplo  no nazismo quando Hitler, em defesa da eugenia,  se recusou, nos Jogos Olímpicos de Berlim (1936), a apertar a mão ao negro Jesse Owens vencedor de quatro medalhas olímpicas nesse evento. 

Em tempo contemporâneo, com sinais de ódio fora de controlo, surge, em oposição ao racismo branco, o racismo negro qual Cavalo de Tróia que, insidiosamente, pela calada da noite, se vai infiltrando, sob o manto de falsa inocuidade, assumindo o papel de odiosa pena de Talião de remoto tempo do direito hebraico. Curiosamente, quando as negras esticam o cabelo para lhe tirar a crespura ou descoloram a negrura da tez, assiste-se a uma forma de racismo que descaracteriza a sua carga genética, tornando-as clientes habituais da famosa marca de cosméticos francesa “L’Oreal’ que alterou o nome de um seu creme branqueador da pele para clareador da pele.

Há racimo negro quando matulões negros espancam selvaticamente desprotegidos adolescentes brancos, roubam descaradamente prateleiras de supermercados ou tossem intencionalmente para cima de verduras aí à venda filmando os seus actos para passarem na Net, vangloriando-se de” justiceiros” em desforra de uma sociedade que têm como madrasta, e não cumprindo, como tal, o princípio de em Roma ser romano, atentando, pelo, contrário, sistematicamente contra as leis vigentes no país que os acolheu ao apedrejar os agentes policiais encarregados de as fazerem cumprir em manifestações anti-racistas. Lançam, desta forma, achas para a fogueira que reacende o racismo. 

Há racismo negro sempre que Joacine Katar Moreira insulta grosseiramente o Estado português que lhe concedeu a nacionalidade, abrindo-lhe o caminho para um lugar de destaque na Assembleia da República Portuguesa.  Trata-se de uma tremenda ingratidão por parte desta deputada.

Há racismo negro quando Mamadou B, senegalês de nascimento, naturalizado português, dirigente do SOS Racismo, incita os negros a manifestações  que fazem perigar vidas, assumindo  ele o papel de chefe da matilha de lobos esfaimados e vingativos e imputando a inocentes carneirinhos  a responsabilidade por actos cometidos pelos seus ancestrais,  como se a história não devesse ser estudada em função da época em que os factos se passaram.

Suponhamos que estas situações vivenciadas em Portugal tinham lugar na Guiné ou no Senegal com portugueses naturalizados nesses países! Gozariam  eles da mesma benevolência?  Decididamente, respondo, não!  Como escreveu Sophia de Melo Breyner, "não se deve  criar em nome do anti-fascismo um novo fascismo.” Por idêntica razão defendo que em nome do anti-racismo branco não se deve ciar um racismo negro!

Honra seja feita a Moçambique independente, que trata como gente amiga os portugueses que aí vivem, viveram ou a ela retornam em visita saudosa não se deparando, inclusivamente, com a destruição iconoclasta de estátuas portuguesas do tempo colonial, resguardando-as em armazéns. O passado da história não se apaga rasgando páginas de livros ou fazendo desaparecer da memória de moçambicanos personagens portuguesas que dela fazem parte. 

Este é o conceito de justiça social que defendo, “à outrance”, livre de tochas que incendeiem uma sociedade, fazendo com que o homem seja lobo do próprio homem, em crítica sociológica de Thomas Hubber. O racismo, tenha a cor que tiver, não deve servir de arma de arremesso ao serviço de pessoas que, fazendo-se de vítimas,   se tornam, elas próprias, algozes  que cinicamente deturpam a história a seu bel-prazer ou conveniência.

Cerco sanitário a Lisboa, já! E para sempre!

Crónica, sempre sarcástica, de Santana-Maia Leonardo no jornal "As Beiras." Tem, como sempre muita ironia:

O presidente da câmara de Lisboa respondeu ao presidente da câmara de Ovar com a mesma arrogância com que os presidentes do Benfi ca e do Sporting tratam os presidentes dos clubes de província (é este o termo, não é?), quando algum destes tem a ousadia de reclamar igualdade de tratamento. E o argumento é da mesma natureza: Lisboa é Portugal, tal como Benfi ca e Sporting são clubes nacionais, enquanto os outros municípios e clubes são os pequenos clubes e municípios de província, devendo a sua mísera existência e a sua sobrevivência exclusivamente a Lisboa e aos clubes de Lisboa. 

Até o Porto, a segunda cidade portuguesa, é tratada com desdém por Lisboa, sendo Lisboa a capital europeia mais açambarcadora de sedes nacionais da Administração Central do Estado, de órgãos de soberania, de institutos e organismos públicos, de bancos e de órgãos da comunicação social. O próprio FC Porto é tratado depreciativamente como clube regional, como se fosse necessário ter sede em Lisboa para ter dimensão nacional. Que os lisboetas pensem e se comportem desta forma, não estranho! Essa tem sido sempre a sua imagem de marca. Lisboetas e alfacinhas, saliente-se, não são sinónimos. Alfacinha é uma pessoa que nasceu em Lisboa; lisboeta é uma pessoa que se considera mais do que as outras, só porque vive ou foi viver para Lisboa, como é precisamente o caso de Fernando Medina que nasceu no Porto e foi viver para Lisboa. 

O que eu estranho, me indigna e escandaliza é a passividade humilhante e subserviente dos residentes do Condado Portucalense, perante a arrogância, a insolência e a prepotência contínua e sistemática dos governantes do Reino de Leão e Águias. 

Ora, esta era precisamente a altura de os residentes no Condado Portucalense mostrarem a raça de que são feitos (ou será que são da raça rastejante?) e imporem um cerco sanitário à Região de Lisboa, não tanto para conter o surto da COVID-19, mas sobretudo para impedir que os fundos de coesão que vão chegar de Bruxelas, sejam, de novo, açambarcados pelos Xerifes de Nottingham que governam o Reino de Leão e das Águias desde o Terreiro de Paço e do Largo do Município. 

Santana-Maia Leonardo 

ENTREVISTA DE GUILHERME VALENTE



Entrevista do editor Guilherme valente a Inês Navalhas sobre a sua vida de edição de livros:


Guilherme Valente nasceu em Leiria a 1 de Julho de 1941. Editor e ensaísta, é licenciado em Filosofia e pós-graduado em Relações Inter-Culturais. Integrou, entre outras instituições, o Conselho Nacional de Educação e o Conselho de Opinião da RTP. Fundou em 1981 e dirige a Gradiva, uma editora de grande prestígio cultural que reconhecidamente deu um contributo singular para a promoção do conhecimento e da cultura, particularmente da cultura científica, sendo responsável pela edição de um vasto conjunto de notáveis autores nacionais e estrangeiros. Publicou inúmeros artigos na comunicação social, designadamente sobre temas de cariz cultural e educativo. 

No âmbito da sua ligação a Macau, criou nos anos 80, no Serviço de Administração e Função Pública, a revista bilingue Administração, cuja publicação prossegue hoje. Trabalhou na Fundação Macau, deu aulas de História das Ideias na Universidade de Macau, integrou a comissão instaladora do Instituto Português do Oriente e como assessor do último Governador ficou ligado várias relevantes iniciativas culturais no Território. De regresso a Portugal integrou a Comissão Instaladora do Centro Científico e Cultural de Macau e assumiu a iniciativa de criação do primeiro Mestrado em Estudos Chineses, encontrando na Universidade de Aveiro, no espírito esclarecido e empreendedor do então Reitor Professor Júlio Pedrosa, e no entusiasmo e empenho dos seus colaboradores, a parceria perfeita. Esse Mestrado, cuja relevância, carácter pioneiro, oportunidade flagrante, novidade acabando com um atraso de séculos na área foram imediatamente compreendidos pelo último governador, que proporcionou os recursos financeiros necessários para a qualidade singular com que foi realizado. Pôde ser dirigido por um reputado sinólogo norte-americano e integrar professores europeus qualificados, como em Portugal não havia. Ficou como um modelo nunca igualado.

Guilherme Valente foi condecorado por dois Presidentes da República, Mário Soares e Jorge Sampaio, sendo Comendador e Grande Oficial da Ordem do Infante Dom Henrique. Foi distinguido com o Grande Prémio Ciência Viva, na sua primeira atribuição. É Medalha de Prata da sua cidade, Leiria, onde na juventude escreveu no centro de uma animação cultural e fez política de oposição ao Regime que marcou a cidade.

P: Trabalhou em grandes editoras antes de criar a sua própria editora...

R: Passei por essas editoras em momentos muito diferentes da minha vida, da vida cultural, social e política do país. Na Europa-América e na Dom Quixote a questão social e política era um imperativo, um imperativo intelectual e moral. Uma preocupação sempre presente nos livros que queríamos editar. Formei-me na edição com um grande editor, o Francisco Lyon de Castro, uma recordação que guardo com muita saudade.

P: Quando foi isso?

R: Foi na década de 60. Também a Dom Quixote, posteriormente, com o Carlos Araújo -- uma figura da edição portuguesa cujo convívio foi também marcante para mim -- teve um papel importante no esclarecimento de muitos cidadãos, até aí afastados da política, para uma tomada de consciência crítica da situação que se vivia (em Portugal e no mundo, note-se). Para a Presença fui já com um conhecimento técnico mais elaborado e abrangente da actividade editorial. Foi outra experiência muito interessante, uma interacção muito enriquecedora com o Francisco Espadinha, outro grande editor, com uma visão global muito lúcida da actividade de edição, como o futuro viria a provar e hoje é evidente.

P: Que diferenças há entre as várias gerações de editores?

R: Antes do 25 de Abril, a questão política era um imperativo para os grandes editores com quem trabalhei. Depois do 25 de Abril, - foi essa e é essa uma das virtudes da liberdade - pôde emergir e manifestar-se a diversidade dos interesses, facto que iria reflectir-se na variedade da edição. Para mim chegara o tempo de tentar travar o combate pela cultura científica, de procurar participar no combate pelo conhecimento, pela educação. Promover a cultura científica era e é promover a liberdade.

Houve amigos que me diziam que não teria sucesso com os livros de divulgação científica, por a cultura portuguesa parecer ter, digamos, «horror à ciência», mas precisamente por isso era necessário publicá-los. E foi um êxito. A Gradiva fez aquilo a que os especialistas chamam «oferta criativa»: criar um público para os nossos livros. O que fizemos na realidade foi revelá-lo. Contei com a ajuda entusiasta de um pequeno grupo de amigos admiráveis, a que se foram juntando novos amigos de novas gerações, mantendo o ideal aceso. O mesmo diagnóstico sobre a realidade portuguesa, os mesmos grandes valores, as mesmas preocupações aproximaram-nos. Cito três da primeira hora que são exemplos: José Mariano Gago, inspiração e apoio permanentes, Jorge Dias de Deus, um apoio mais discreto, e mais tarde e de outra geração mas transbordante de entusiasmo e energia, Carlos Fiolhais, Amigos e companheiros nesse combate hoje . E na comunicação social amigos sem reserva como o José Manuel Fernandes, o Rui Trindade e outros. Até a minha amiga Clara Ferreira Alves, menos centrada na Ciência, percebeu a importância do que fazíamos e escreveu com veemência sobre livros que no início editámos.

Um efeito para o Guiness; nessa altura o JL publicava um top de vendas com cinco livros. A “Ciência Aberta” tinha sempre dois livros nesse top, por vezes três! Prova o que se pode construir. Tal como o “eduquês” (as chamadas erradamente “novas pedagogias”, na verdade a ideologia da “descontrução” que continua a idiotizar a escola) viria a provar como ser pode rapidamente destruir o que fora conseguido, e nunca realizado desde há séculos.

P: O livro não é então um produto?

R: Conheci há uns anos, de facto, quadros de editoras que me pareceram e mezanino disseram ver o livro como um «produto». No tempo em que aprendi e trabalhei, não era isso. E não é..

P: Há nos editores a este respeito um abismo geracional?

R: Sim. Que pode ser verificado no género de livros que hoje abundam... veja os que enchem o ranking do Expresso. Estám tudo ligado e uma coisa alimenta a outra. A Gradiva, e outros, persistem. E se cairemos... caiaremos de pé. Sem cedências ao lixo.

Um jovem colega e amigo disse algo com que não estou de acordo e talvez venha a propósito da questão que coloca. Para ele, cito de memória, não faz sentido a existência de editoras de “vão de escada”. Não subscrevo, de modo nenhum, esta ideia, que me choca. As editoras de "vão de escada” fazem muita falta, desempenham um papel essencial. Não me importaria de pertencer a uma associação de protecção das editoras de “vão de escada”. Manifestação da paixão pelos livros, foram e são, frequentemente, fontes de criatividade e diversidade editorial. São fundamentais na sociedade plural para cujo desenvolvimento quero trabalhar. Os apoios não deviam ser como costumam ser dados e me parece que esta Senhora ministra está a dar ou irá dar, às maiores editoras, uma ou duas delas com lucros enormes. Ainda nem que os têm, claro, mas não precisam portanto de apoio financeiro.

P: Nesse contexto, que diferença faz a Gradiva?

R: Permita-se-me pensar que a Gradiva, também a Gradiva, tem a sua identidade própria. Continua a ser, deliberadamente, uma editora de média dimensão, por isso as personalidades do editor, dos seus quadros e principais colaboradores são marcantes. Na Gradiva toda a gente, toda, tem consciência do que temos feito e sabe o que vamos fazer. Acho, sinceramente, que, tal como outras editoras, temos um estilo próprio, que o público identifica e, francamente, tem apreciado. Uma diferença, que julgo ser cada vez mais notória, é não editarmos apenas ficção, sobretudo ficção, que é o que vejo a encher as livrarias.

O nosso grande objectivo, o que desejamos, é contribuir para a promoção do conhecimento e do espírito crítico e isso passa pela leitura de bons livros de todos os géneros e realiza-se significativamente, na minha opinião, no relevo que temos dado à cultura científica. A ciência e a democracia, cultivadas na História frequentemente pelos mesmos grandes homens, e cresceram juntas, com o livro e a liberdade, o desenvolvimento. Ainda hoje é visível na Europa a linha que separa os Estados países que aprenderam primeiro E mais aceleradamente a ler dos que aprenderam depois e lentamente. Infelizmente estamos deste lado dessa linha.

P: O que esteve por detrás da ideia de criar a Gradiva?

R: Contribuir... para mudar a cultura portuguesa! Pensando desde logo na promoção da cultura científica e na educação. Parecia uma ambição delirante, não esqueço o que o meu Amigo e Mestre que tanto me marcou Professor Sedas Nunes me disse quando considerei a possibilidade de criar uma editora, hipótese que ele muito encorajou e apoiou: «O País precisa mais de um grande editor do que de mais um grande professor (que sempre quis que fosse com ele), não hesite.» Sem falsa modéstia, acho que não o teria decepcionado completamente.

Na verdade, teremos conseguido tanto como sonhámos nem podemos garantir que o que foi feito em cera medida se perdesse. Mas tive testemunhos de que o nosso trabalho terá contribuído para a descoberta de vocações em sucessivas gerações, e para suscitar outras iniciativas. Curiosa e surpreendentemente, nem só de Portugal. E o resultado da nossa intervenção manifestou-se intensamente nas escolas.

O projecto editorial foi meu, mas resultou do convívio e do debate de ideias com muitas pessoas, da suposição de que uma editora como a que pensávamos criar seria necessária.

Lembro-me que, na altura, o Francisco Espadinha, com amiga preocupação, me advertiu ser muito difícil fazer uma editora sem sólidos recursos financeiros. Mas conseguimos. Fizemos a Gradiva sem um tostão, vivemos sempre com o dinheiro que ganhámos e continuamos a ser hoje absolutamente auto-suficientes. Mais uma prova de que as editoras de “vão de escada” não são casos condenados à partida, que a liberdade é uma fonte de imprevisível novidade.

P: Como assegura a qualidade das obras que publica?

R: O especialista de qualquer especialidade não é, enquanto tal, claro, um editor. O editor é alguém que, independentemente da sua própria especialização e dos eventuais interesses académicos que possua, deve ter uma formação intelectual e cultural que lhe permita dialogar com as várias especialidades. Tem de ser capaz de avaliar as necessidades culturais da sociedade em que vive e para a qual trabalha, de avaliar e descodificar com esse objectivo os pareceres do grupo de consultores em que se apoia. A Gradiva beneficia, a Gradiva foi e é, como já referi, o resultado da ajuda, do convívio e da interacção intelectual inestimável de um grupo notável de amigos, igualmente fascinados pela edição: Mais exemplos: Nuno Crato, Jorge Buescu, Paulo Crawford, Desidério Murcho, A. Manuel Baptista, Paulo Gama Mota, Jorge Lima, muitos outros cujos nomes não me ocorrem agora e, claro, resultado do fantástica equipa permanente da Gradiva, dos serviços editoriais aos serviços comerciais que temos. Mas, como se compreende, se devem ser e são minhas as decisões, são também meus meus os erros e enganos...poucos!

O desafio para nós é editar bons livros em todas as áreas, mas livros que tenham ou possam, venham a fazer leitores. Um livro que se publica mas não tem leitores não é apenas um prejuízo económico, pode ser também uma má escolha cultural, um erro de escolha e prioridade. Pelo menos imediatamente, aparentemente, porque devemos criar o público, a procura, como fizemos claramente com as obras de cultura científica. Este é o sonho e o desafio que se coloca ao grande editor. Que no seu trabalho de editor deve, talvez, adoptar o critério da «igualdade na consideração de interesses», tão bem apresentado na obra de Singer, Ética Prática, que editámos.

P: Deve ser difícil a um editor ter uma grande obra e não a publicar porque não se vai vender...

R: Certamente. Vamos, é claro, avaliando em cada momento as disponibilidades que temos. Os recursos são sempre limitados e é necessário geri-los tendo em conta não só a continuidade dos projectos, mas também as responsabilidades laborais, sociais, da empresa e do empresário. Mas não abandonar nunca definitivamente um projecto culturalmente relevante. Sinto fortemente essas responsabilidades e honrá-las e valorizá- las é para mim muito gratificante. Realiza-me igualmente. Ao contrário do que acontece na gestão do Estado – mas não devia acontecer, claro -- na gestão privada os erros doem e pagam-se. Não entendo como podemos tolerar que desempenhem funções governamentais, a «gerirem» desperdiçando a riqueza que todos nós produzimos, a competência, a inexperiência de trabalho e liderança onde a vida é a sério, que inunda todos os governos que temos tido. Não admira que aconteça o que acontece.

Os grandes editores estrangeiros disseram-me sempre ser a edição a actividade empresarial mais difícil do mundo. Há quem diga que editar é um palpite, mas não é assim, evidentemente. Talvez seja um palpite informado por um complexo de factores. Também por isso, por esses desafios, é uma actividade particularmente lúdica e tão fascinante.

Na realidade muito depende de nós. Por isso nunca me preocupei muito com o receio da entrada de editoras estrangeiras em Portugal, como muitos colegas me iam manifestando. ..

Os grupos estrangeiros estão aí, mas nós continuamos. Iguais a nós próprios.

Costuma dizer-se que um autor marcou uma geração. Acho poder dizer-se com maior propriedade que os editores podem marcar gerações. A Europa-América, a Portugália e a Livros do Brasil, marcaram a minha geração, várias gerações. George Steiner dizia que o editor é como um professor, um professor que chega a mais gente!

P: É isso que tem acontecido com a sua editora?

G: Antes de responder, repito Que a Gradiva não sou só eu. Há pouco tempo um jovem cientista português, Ivo de Sousa, recebeu um prémio nos EUA e o Público, a Teresa Firmino, suponho, perguntou-lhe porque tinha ido para Física. Respondeu que tinha sido por causa dos livros de ciência da Gradiva. João Magueijo, autor de Mais Rápido que a Luz com quem recentemente nos zangámos disse um dia a um jornal: «Se conheço a Gradiva? Cresci com a Gradiva!”.

E poderia citar recorrentes testemunhos. Houve uma época em que me diziam serem os alunos de Física do Técnico designados por «geração Gradiva». Tudo isto é evidentemente muito gratificante para todos nós, sobretudo para mim, a envelhecer aceleradamente... Quando um editor consegue publicar um bom livro que faz leitores é um sentimento de realização indescritível! Sucedeu isso agora no género em que mais desejávamos que isso acontecesse, um livro para crianças: os livros do Capitão Cuecas põem os miúdos (7-10 anos) irresistível e comprovadamente a ler. Em todo o mundo. E os miúdos que lêem não têm problemas na escola, nem mesmo na desmotivadora, triste, escola que continuamos a ter.

P: Autores como Sagan, Dawkins, Hawking, vendem bem entre nós?

R: Sim, muito bem. Sagan é o autor emblemático da Gradiva. Cosmos -- uma obra admirável, imperecível, um clássico, tão actual como antes nas suas mensagens essenciais (porque não volta a RTP a passar a série, a nova cópia da série? Seria um contributo singular para a educação dos portugueses) -- despertou também em Portugal inúmeras vocações.

P: Os autores portugueses estão ao nível dos estrangeiros?

R: Não estão longe, certamente. Ainda não temos muitos, apesar do nosso desejo em os motivar, mas teremos cada vez mais e alguns muito interessantes. O Carlos Fiolhais a quem confiei a direcção da colecção a partir dos seu número 200 - Ciência e Liberdade... - está a fazer um trabalho notável nessa direcção A dificuldade em conseguir publicá-los no estrangeiro - mas conseguimos que fossem editados vários - residirá no facto de Portugal não ser ainda visto como um significativo produtor de conhecimento científico, e da produção internacional, particularmente no mundo anglo-saxónico, ser enorme. Mas o trabalho brilhante que está a ser desenvolvido por jovens cientistas portugueses no estrangeiro e, cada vez mais, também entre nós, vai contribuir seguramente para que se comece a reparar nos nossos autores do género. De qualquer modo Carlos Fiolhais está já editado no Brasil, tem surgido interesse de editores franceses pelos livros de Jorge Buescu e um dos livros de Nuno Crato foi-nos solicitado por um editor grego e outro norte-americano. Existem boas perspectivas de uma edição de João Lobo Antunes nos Estados Unidos -- um grande autor em qualquer latitude.

P: Um livro científico pode ser considerado uma obra de literatura?

R: O Harold Bloom e, mais recentemente, o Ian McEwan (num artigo que o Expresso traduziu) afirmaram que a grande literatura aparece hoje sobretudo em livros que não se apresentam especificamente como literários, particularmente nas obras de cultura científica, e referiram vários nomes quase todos, aliás, editados pela Gradiva.

Como tenho vindo a dizer, na obra ensaística, humanista, de João Lobo Antunes estão talvez as mais belas páginas de expressão literária dos nossos dias.

P: Que opinião tem do Plano Nacional de Leitura?

R: Se o Plano for capaz de contrariar a tradicional redução do valor do livro e da leitura na escola à obra literária, seria um feito. Não fazendo essa confusão, o Plano introduziria uma revolução na actividade das bibliotecas escolares e no próprio sistema de ensino. E os resultados viriam, voltariam a vir, depois de se ter apagado praticamente a luz breve no período de entusiasmo e interesse pela cultura científica para que a Gradiva contribuiu significativamente até aos anos 90.

Mas parece-me que o PNL ainda não o conseguiu ou não se empenha nisso a sério.

P: Então não se tem de começar com a literatura?

R - Não há maneiras rígidas de começar.

A escrita é, talvez, a mais extraodinária invenção humana, escreveu Carl Sagan, e o livro (que o computador não substitui, mas ameaça) é um instrumento único na transmissão do conhecimento, de todo o conhecimento). Além disto, há muita gente que começa a ler e se apaixona pela leitura com obras não especificamente literárias. Eu, por exemplo, comecei a ler com a banda desenhada. O meu filho começou a ler, cedíssimo, com livros sobre bichos. Fez-se cientista e leitor da grande literatura. Ler é um exercício muito difícil! Quando se inicia a aprendizagem da leitura, para fazer esse exercício, nos concentrarmos - resistir à preguiça e insistir, é necessária uma forte motivação. Obrigar as crianças a ler os livros que os adultos apreciam sobre os temas que a estes interessam é o que leva muitos miúdos a afastarem-se da leitura. É preciso descobrir livros que os miúdos queiram ler. Deixá-los descobrirem-nos.

A propósito, hoje o tempo médio máximo de concentração dos miúdos - e dos adultos já dominados pelo digital, o IPhone, etc. - são... 9 segundos! Quantos podem aprender a ler? É um tempo, um mundo novo o que aí está. Será reversível? Há-de ser devorado também pelas garras do tempo.

P: Qual a situação mais delicada por que passou enquanto editor?

R: Delicada, no sentido de difícil, só me recordo da situação que vivíamos antes do 25 de Abril, um tempo em que chegavam a apreender livros por causa do texto numa contracapa. Ou seja, era uma contingência sempre imprevisível, até ao ridículo. Muitas vezes percebia-se a razão (e podíamos prever), mas outras estupidamente — ou talvez não, porque o objectivo era também sempre fragilizar a editora. Um exemplo: num pequeno livrinho duma colecção das Publicações Dom Quixote, dedicado à questão da Irlanda, de que fui autor, escrevi na contracapa, para ilustrar a fotografia de um edifício em chamas, algo como isto: «Não há exército que consiga apagar o incêndio que devasta a Irlanda.» E o censor terá visto no meu texto uma alusão à guerra colonial... e viu bem.

Mas conseguia-se passar muitas mensagens, claro, muitas vezes no fio da navalha. Um exercício de criatividade, cujo êxito nos divertia muito.

Se a pergunta se refere a dificuldades económicas na minha condição de editor da Gradiva, respondo que temos sabido antecipar-nos sempre. Treinei atéaos 74 anos a antecipação todos os sábados no jogo de futebol com os meus amigos.

Num outro sentido acrescento ainda que a maior dificuldade para uma editora como a nossa é a morte da escola, o domínio do analfabetismo e do iletrismo, a perda do desejo de saber, da curiosidade e da liberdade intelectual. A tragédia de uma universidade onde praticamente se deixou de ler. Por isso é tão relevante publicar para suscitar e alimentar a inquietação e indagação intelectual, o inconformismo, a razão e a inspiração criativa — isso é um intelectual! —

Para nos apercebermos da miséria da nossa realidade cultural e intelectual de hoje, leiam-se por exemplo, é o que me ocorre agora as cartas de António José Saraiva para Luísa Dacosta, ou o diálogo entre o mesmo António José Saraiva e Óscar Lopes, acontecido por iniciativa de José Carlos de Vasconcelos. Um livrinho... 10 euros também editado pela Gradiva.

P: Que projectos podemos esperar para o futuro da Gradiva?

R: Grandes livros, ainda mais rigorosamente seleccionados, nos vários géneros que publicamos, desde logo na ciência (agora, uma verdadeira resistência). Enfim, livros de que a generalidade da crítica de hoje não é capaz de falar, mas que os nossos leitores esperam de nós e sabem apreciar. Acho, aliás, ao contrário do que muita gente nesta actividade me parece continuar a pensar, que muito em breve só haverá́ mesmo lugar significativamente para pequeníssimas tiragens de grandes livros.

Os e-books são gadgets, já a passar da moda que nunca foram significativamente mesmo lá fora. Não salvaram a leitura na dimensão que estou a referir. De facto, aquilo que temos estado a assistir (há muitos indicadores disto) não é ao fim do livro, mas ao fim da leitura. Restará uma elite cada vez mais restrita que para o ser lê.

Repare que mesmo nas universidades não são apenas os alunos, as novíssimas gerações que lá vão entrando, mas também são professores. Não lêem. Ia anualmente a uma universidade participar em aulas ou conferências e todos os anos ia verificando a tragédia sempre crescente. E os cada vez menos professores que lêem verificam o mesmo.

A partir de 1500 (período em que grandes especialistas consideram ter ocorrido a única revolução total) não houve nenhuma grande manifestação humana, nas artes, nas ciências, etc., que não implicasse, de algum modo, a leitura e o livro.

Estaremos a viver o início de uma era de trevas? E onde estão hoje os mosteiros perdidos nas montanhas onde a luz se abrigou? Esperava-se que hoje fossem as Universidades. Mas, pelo contrário, são terreno e irradiação do delírio, do ódio ao que realizou o melhor da nossa Humanidade.

NOVOS CLASSICA DIGITALIA

Os Classica Digitalia têm o gosto de anunciar 2 novas publicações com chancela editorial da Imprensa da Universidade de Coimbra. Os volumes dos Classica Digitalia são editados em formato tradicional de papel e também na biblioteca digital, em Acesso Aberto.

Além do usual circuito de distribuição da IUC, a versão impressa das novas publicações encontra-se disponível nas lojas Amazon.

NOVIDADES EDITORIAIS

Série “Portugaliae Monumenta Neolatina” [Edição de texto latino, tradução e comentário]

 - António Guimarães Pinto e Sebastião Pinho, D. Jerónimo Osório. Opera Omnia. Tomo IV. Paráfrase aos Salmos (Salmos 1 a 75). Fixação do texto latino, introdução, tradução, notas (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2020) 510 p.

Link: http://monographs.uc.pt/iuc/catalog/book/48

[Conquanto não publicadas em vida, as "Paráfrases aos Salmos" de David constituem uma das obras em que a mestria de múltiplos registos literários e o superior domínio da língua latina de D. Jerónimo Osório se revelam de forma bastante primorosa. O pensador político, o exegeta bíblico bem informado, o moralista cristão e até o místico aliam-se com felicidade numa obra em que, valendo-se da liberdade relativa que o género parafrástico lhe concedia e sobre a sugestão da passional e por vezes arrebatada expressão dos textos salmísticos, o Autor pode espraiar-se e dar livre curso aos seus sentimentos e pensamentos mais íntimos, numa obra que também tem a particularidade de ser a mais extensa de todas as que são inteiramente produção sua.]

- António Guimarães Pinto e Sebastião Pinho, Manuel Pimenta. Opera Omnia. Tomo II (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2020) 796 p.

Link: http://monographs.uc.pt/iuc/catalog/book/44

[Reúnem-se neste 2º tomo dos “Opera Omnia” de Manuel Pimenta todas as composições poéticas que foi possível coligir deste esquecido vate latino escalabitano, com exclusão daquelas que eram do conhecimento mais ou menos restrito de alguns quantos eruditos e se encontravam recolhidas no volume póstumo dos “Poemata”, publicado em Coimbra, no ano de 1622, graças à diligência dos seus confrades da Companhia de Jesus, e que constituem na íntegra o conteúdo do tomo I desta série, saído a lume em novembro de 2016, também em Coimbra.]

Votos de boas leituras.

sexta-feira, 26 de junho de 2020

A Melhor Geração de Alunos de Sempre?

Acabo de ler no “Público” (25/06/2020) um artigo de opinião, intitulado “Professor no preço certo: a ascensão da insignificância do professor”, da autoria do professor e crítico literário António Carlos Cortez. Dele transcrevo uns tantos excertos. Assim:

(…) “O Preço Certo, espécie de coroa de louros para docentes das mais diversas disciplinas e que, neste tempo de pandemia ’salvaram’ a educação dando aulas em regime de telensino”.

(…) Há uns dias atrás, antecedendo a lição do presidente Marcelo, uma professora de Português, confessava ao Presidente-professor que para preparar as suas aulas tinha pesquisado muito no Google. A propósito, foi feita, pelo autor do referido artigo, a pergunta: Esta a concepção de estudo e de investigação que muitos têm?”

(…)”A educação é das áreas transformadas em entretenimento, o professor visto como um técnico, um profissional da educação cumpridor ordeiro de ideologia oca”.

(…) “Os alunos que agora se diz que são a melhor geração de sempre”.

Para que o leitor possa encontrar pontos coincidentes com o meu artigo publicado neste blogue, intitulado “O estado calamitoso do ensino básico nacional”, passados que são dois anos, transcrevo-o integralmente:

“Por estes dias, foi publicado o relatório sobre as provas de aferição dos alunos do ensino básico levando-me a revisitar a crítica de Platão que, confrontado com a incapacidade das crianças contarem ou distinguirem os números pares dos ímpares manifestou o seu muito e amargo desalento: ‘Quanto a mim, parecemo-nos mais com porcos do que com Homens, e sinto-me envergonhado não só de mim, mas de todos os gregos’.

Perante este “status quo”, haja a esperança de reformas de fundo no âmbito da Educação, nunca simples carmim que se espalha na face de uma moça anémica para ela parecer uma mocetona cheia de saúde, que nos esconde um ensino como simples meio de passagem de diplomas de ignorância.

De uma notícia do ”Público” extraio este outro exemplo referente à prova de Português de alunos 8.º ano de escolaridade em que 66.5 % tiveram dificuldade, ou de todo não conseguiram, responder a perguntas que visavam avaliar o seu domínio da escrita o mesmo acontecendo em relação à gramática com 70.3 % de alunos.

Tempos volvidos, do “Público”(05/08/2011) respigo a notícia da reedição francesa do livro ‘Amor de Perdição’, editado em França há uma dezena de anos e difícil de encontrar nas livrarias.

Em contrapartida, em ódio de perdição, foi expurgada a prosa camiliana, ‘personificação do génio português’ (Maria Amália Vaz de Carvalho) dos programas escolares do ensino secundário, em verdadeiro atentado à Literatura deste país, e não só!

Tenho por conveniente que se pondere que esta irresponsabilidade se podia ter transformado numa centelha do romance de Ray Bradbury, ‘Fahrenheit 451’, em que os livros eram incendiados por bombeiros de um país totalitário.

Não estou, de todo em todo, em querer ver na proscrição das obras de Camilo um sistema educativo de um país totalitário, apenas a pretender dizer que a ignorância oficializada é, também ela, uma ditadura por roubar ao aluno o prazer cultural dos livros deste notabilíssimo autor, e, em hipotético contágio, dificultando ao estudante espanhol a leitura de Cervantes, sonegar ao escolar francês o deleite da visitação ao Museu de Louvre e impedir ao cidadão alemão a audição da orquestra Sinfónica de Berlim.

Talvez por isso, a maioria dos nossos jovens, mesmo estudantes universitários, compra e lê obsessivamente jornais desportivos sem se dar ao trabalho de se debruçar sobre obras de referência literária ou científica para os seus trabalhos escolares limitando-se a consultar a wikipédia como quem consulta um dicionário de algibeira em vez de recorrer a um dicionário da Academia de Ciências de Lisboa, por exemplo”.

Findas as citações aqui por mim deixadas, acrescento, agora, qual cereja podre em cima de bolo azedo, estoutra de se ter chegado a ponto do Partido Socialista, através do ministro da Educação Tiago Brandão Rodrigues, ter aventado acabar com as retenções (na gíria académica, chumbos!) no ensino básico.

Só uma réstia de bom senso evitou que a Assembleia da República servisse de pia baptismal a tamanho aborto. Valeu-nos isso!

quinta-feira, 25 de junho de 2020

“NOVAS “PROFISSÕES DE SONHO” ENTRE JOVENS”




“NOVAS “PROFISSÕES DE SONHO” ENTRE JOVENS” é o título da próxima palestra do ciclo de divulgação científica “Ciência às Seis”, que ocorrerá no dia 30 de Junho, terça-feira, pelas 18h00, por vídeo conferência. O palestrante é o sociólogo Vitor Sérgio Ferreira, Investigador Auxiliar no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa

Os interessados podem seguir a vídeo conferência através do link:

O ciclo de palestras de divulgação científica “Ciência às Seis” é uma iniciativa do Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, com coordenação do bioquímico e comunicador ciência António Piedade.

Sinopse da palestra:
As tradicionais profissões de sonho envolviam a crença no ensino superior, como ser médico, advogado, arquiteto ou engenheiro. Hoje existem entre os jovens portugueses novas aspirações e opções profissionais, já não exclusivamente associadas a carreiras certificadas por diplomas universitários. O diploma de ensino superior, afinal, não garante o acesso e progressão numa carreira ou um emprego que corresponda à qualificação obtida. Sai fragilizada a sua procura otimista, bem como os itinerários que oferece. Os jovens e suas famílias estão cada vez mais conscientes destas realidades. São cada vez mais procuradas alternativas que articulem escola, formação e trabalho. As promessas académicas competem com promessas de outros meios sociais, como as culturas juvenis de pares e as culturas mediáticas de celebridade. E novas atividades inspiram os imaginários dos mais jovens acerca dos seus possíveis meios de vida no futuro, muitas vezes envoltas numa retórica de “sonho”. Existem hoje novas profissões de sonho que não passam obrigatoriamente pela obtenção de um diploma universitário. Venho investigando as de tatuador, DJ, jogador de futebol, cozinheiro ou modelo, e mais recentemente, as de youtuber, streammer ou gamer, exercidas em plataformas digitais. Que condições sociais e culturais favorecem e motivam a atração dos jovens por este tipo de actividades?

A propósito desta palestra, sugerimos o visionamento do documentário PARA ALÉM DA FAMA. BASTIDORES DE NOVAS "PROFISSÕES DE SONHO, realizado por Paula Vanina Cencig e Vítor Sérgio Ferreira no âmbito do projeto de investigação Tornando profissões de sonho realidade: transições para novos mundos profissionais atrativos aos jovens (financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (PTDC/CS-SOC/122727/2010), dá voz a alguns dos jovens que nele participaram, contando as suas experiências, percursos e expetativas quanto a exercer profissionalmente as atividades de modelo, DJ, chefe de cozinha e futebolista.
O documentário pode ser visto na plataforma YouTube:

Ficha técnica
Realização: Paula Vanina Cencig e Vitor Sérgio Ferreira
Argumento: Paula Vanina Cencig, Vitor Sérgio Ferreira, Alexandra Raimundo
Gravações, montagem e direção de arte: Paula Vanina Cencig
Imagens de apoio: Maria João Taborda, Alexandra Raimundo
Áudios de apoio: Alexandra Raimundo
Tratamento áudio: Christian Landone
Mixagem final áudio: Paula Vanina Cencig
Legendagem em Inglês: Carlos Duarte
Legendagem em Espanhol: Elsa Graciela Shusterman de Cencig
Legendagem em Português do Brasil: Paula Vanina Cencig




Sobre o orador:
Vítor Sérgio Ferreira é doutorado em Sociologia pelo ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa. Atualmente é Investigador Auxiliar no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, onde coordena o grupo de investigação LIFE – Percursos de vida, Desigualdades e Solidariedades: Práticas e Políticas, e é vice-coordenador do Observatório Permanente da Juventude. É professor de Métodos e Técnicas de Pesquisa Qualitativa, no Programa Interuniversitário de Doutoramento em Sociologia: Conhecimento para Sociedades Abertas e Inclusivas (OpenSoc). Tem coordenado e participado de vários projetos de investigação, com principal incidência nas áreas da sociologia da juventude e do corpo. Tem publicado nacional e internacionalmente sobre temáticas relacionadas com culturas juvenis e transições para a vida adulta, gerações e percursos de vida, usos do corpo e modificações corporais, e métodos e técnicas de pesquisa qualitativa.

Público alvo: todos os interessados em conhecimento e cultura científica.

“ENVELHECER SEMPRE JOVEM? A NEUROGÉNESE E A MEMÓRIA" - Video


segunda-feira, 22 de junho de 2020

SEIS LIVROS SOBRE A PANDEMIA


Meu texto no último "As Artes entre as Letras":

A actual pandemia provocada pelo novo coronavírus, SARS-CoV-2, pelas proporções que já atingiu, vai decerto dar origem a toda uma biblioteca. Com base na pandemia haverá livros sobre a biologia e a medicina, a sociedade, a economia, a política, a cultura, a filosofia  e a religião. Ainda a procissão vai no adro e já apareceram alguns títulos em língua portuguesa, traduzidos muito rapidamente.  Listo aqui os primeiros seis títulos que caíram ao alcance da minha vista (é possível que já nesta data haja outros):  cinco são de autores estrangeiros, dos quais dois incidem sobre biologia e medicina (epidemiologia e imunologia) e os outros sobre filosofia, cultura e religião, enquanto só um é de autores nacionais, incidindo sobre cultura. Ordeno-os aqui, com breves comentários, por ordem alfabética do apelido do autor.

- Daniel M. Davis, O Incrível Sistema Imunitário, Descubra o poder das defesas naturais do seu corpo, Ideias de Ler.

O autor, professor de Imunologia na Universidade de Manchester (é doutorado em Física), explica neste livro, saído lá fora em 2018 com o título The Beautiful Cure, mas agora colocado rapidamente em português já com referência aos novos tempos (há uma nota do autor sobre a pandemia), o complexo sistema que assegura a protecção do nosso organismo perante um invasor. O autor apresenta, com grande arte pedagógica, as mais recentes descobertas na sua área, onde as novidades abundam graças a intensa investigação.

- Papa Francisco, Vida Após a Pandemia, Paulinas Editora, com prefácio do cardeal Michael Czerny SJ.

Conjunto dos pronunciamentos mais recentes do papa Francisco sobre a actual crise mundial, com base naturalmente na sua mundividência católica. Em resumo: o papa tem esperança que a vida humana  mude nos novos tempos. Impressionaram, a todos aqueles que as viram, as imagens da sua solidão, no pico da pandemia, na grande praça de São Pedro no Vaticano.  O prefácio é de um cardeal jesuíta canadiano, de origem checa, que tem pugnado pela justiça social, em particular na questão das migrações. Foi nomeado cardeal um dia antes do Sínodo da Amazónia, onde foi enviado especial do papa (o dia da elevação a cardeal foi o mesmo que o D. Tolentino de Mendonça).

- Paolo Giordano, Frente ao Contágio, Relógio d’Água.

O autor é um escritor italiano, físico teórico de formação, relativamente jovem e autor apenas de três livros, o primeiro dos quais A Solidão dos Números Primos (2008) conhecendo grande sucesso global. O autor, confinado na sua casa em Roma, começou uma espécie de diário logo em Fevereiro, quando o vírus chegou à Itália, vindo da China. São páginas que oscilam entre a ciência e a literatura. Há alguma comunicação de ciência, mas também há reflexão literária, tornando-a uma obra das “duas culturas” de C. P. Snow. O final, por exemplo, invoca o salmo 90: “Ensina-nos a contar os nossos dias e alcançaremos um coração sábio.” Conclui o autor, glosando o salmo: “Contar os dias. Alcançar um coração sábio. Não permitir que todo este sofrimento suceda em vão.”

- Adam Kucharski, As Leis do Contágio. Como surgem e desaparecem os surtos virais, Porto Editora.

O autor é professor na escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres e o seu trabalho já incidiu sobre duas pandemias anteriores, o ébola e o zica. Nesta obra, traduzida em tempo recorde, uma vez que saiu no original inglês há escassos meses,  fala da transmissão viral, não apenas do ponto de vista biológico, mas também do ponto de vista dos computadores e da rede mundial que os liga, uma vez que, na linguagem matemática, as diferenças não são muito grandes. De facto, até há pouca a nossa ligação mais comum aos vírus encontrava-se no mundo da informática. E hoje estamos confrontados no globo todo com um microorganismo danoso. Este livro aborda a COVID-19, a doença provocada por ele. É uma obra de divulgação, recheada de exemplos e evitando a terminologia técnica.

-  José Jorge Letria; com fotografias de Inácio Ludgero, Um Mundo Aflito. Memória de um tempo de ausência, Editora Guerra & Paz, com prefácio de Pedro Abrunhosa.

O poeta, músico e presidente da Sociedade Portuguesa de autores juntou-se a um dos melhores fotógrafos nacionais (fez fotorreportagem durante muitos anos na Visão) para preparar um retrato artístico das nossas cidades vazias de pessoas nos dias de pico da pandemia. São textos e fotografias que ficam como documentos de um tempo dificilmente repetível: quando é que se voltará a ver Lisboa ou o Porto vazios? Este livro, escrito e feito nos tempos de confinamento, tem o grande mérito de não ter demorado a aparecer no mercado. Julgo ser, pelo menos em papel, o primeiro livro da pandemia de autores portugueses.

-   Slavoj Žižek, A Pandemia que Abalou o Mundo, Relógio de Água.  

O filósofo esloveno é um enfant terrible da filosofia contemporânea. Vindo das áreas da psicanálise e da cultura popular (cinema), adora anedotas (há uma  compilação em inglês das suas anedotas, Žižek's Jokes), é bastante prolixo (são muitos os títulos dele em português) e adora ser polémico. Do ponto de vista político posiciona-se na esquerda radical: neste livro pugna por uma sociedade socialista, a que chama “novo comunismo”, que ele já vê despontar no horizonte. Na minha opinião, ainda é muito cedo para ver o que vai acontecer ao mundo do ponto de vista político e o que Žižek faz é projectar os seus desejos na realidade. Mas a sua prosa é inteligente e sempre divertida.

Boas leituras e muita saúde!

Carlos Fiolhais*
*Professor de Física Universidade de Coimbra

 

NOVOS CLASSICA DIGITALIA

 Os Classica Digitalia têm o gosto de anunciar 2 novas publicações com chancela editorial da Imprensa da Universidade de Coimbra. Os volumes dos Classica Digitalia são editados em formato tradicional de papel e também na biblioteca digital, em Acesso Aberto.

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NOVIDADES EDITORIAIS

Obras de M.H da Rocha Pereira [produção reunida segundo o plano da Autora]

 - Maria Helena da Rocha Pereira, Vol. IX: Estudos sobre língua e literatura portuguesas, reunidos e revistos por Carlos Jesus (Coimbra e Lisboa, Imprensa da Universidade de Coimbra e Fundação Calouste Gulbenkian, 2020). 350 p.

Link: https://doi.org/10.14195/978-989-26-1879-1

[Reúnem-se neste volume vinte e oito estudos da Autora, entre os muitos que publicou sobre a temática geral da língua e literatura portuguesas, um dos temas que mais marcaram a sua produção científica.]

Série “Autores Gregos e Latinos” [Textos]

- Karen Amaral Sacconi: Fragmentos de Aristófanes (Aristophanis fragmenta). Tradução do grego, introdução e comentário (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2020). 304 p.

Link: https://doi.org/10.14195/978-989-26-1900-2

[Este trabalho tem por objetivo iluminar o corpus de fragmentos da comédia antiga, em geral ofuscado pelas 11 comédias preservadas de Aristófanes. Apresenta-se aqui a primeira tradução anotada, para o português, dos fragmentos do poeta cômico e de suas fontes. O volume contém ainda uma introdução dedicada às fontes desses excertos, do contexto em que surgiram e como se deu sua transmissão. Reúne e organiza informações úteis aos estudos sobre lexicografia e trata também da recepção de Aristófanes na própria antiguidade.]

domingo, 21 de junho de 2020

NA CIÊNCIA E ENSINO SUPERIOR NÃO HÁ QUALQUER REFORÇO ORÇAMENTAL

Transcrevo com a devida vénia texto de Gonçalo Leite Velho no Correio da Manhã de 21-6-2020. Concordo. Aos profissionais de saúde deram-lhes jogos da bola. Aos investigadores e professores nada. 
O actual Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior é um vazio, dali só pode sair nada. Que saudades de José Mariano Gago! 

RETOMA

Durante o confinamento houve muitas promessas de que tudo seria diferente. Agora percebíamos a importância do Serviço Nacional de Saúde. O Ensino Superior seria fundamental para a requalificação da economia e a Ciência mais ainda. No meio destes arrebates houve até quem lembrasse os salários de milhões de futebolistas e os comparasse com os salários e contratos de miséria dos cientistas. Todos dissemos que "as coisas têm de mudar". 

Saídos de casa, eis que a vontade esmorece no orçamento suplementar e no programa de estabilização económica e social. Na Ciência e Superior não há qualquer reforço orçamental, nem mesmo para as perdas de receitas, despesas acrescidas ou ação social (que tem perdas significativas). Na Educação, afinal os 400 milhões são de fundos europeus, e já tinham sido programados na transição para o digital. Estamos de volta ao antigamente.

 Mas parece que o confinamento também infetou os portugueses de indiferença. Individualmente, há quem veja se lhe toca um bocadinho. O que significa que se perdeu o sentido de comunidade e coletivo. Temos consciência do que acontecerá se continuarmos neste caminho? 

Gonçalo Leite Velho 

sexta-feira, 19 de junho de 2020

AMAR A CIÊNCIA


Minha recensão no JL de hoje do livro "O Mundo Imaginado," de June Goodfield, que faz um retrato científico e humano de Maria de Sousa: 

Li com grande prazer O Mundo Imaginado. Uma história de descoberta científica da ensaísta inglesa June Goodfield quando o livro saiu na Gradiva em 1988. Reli-o agora, na 2.ª edição, que é uma homenagem póstuma a Maria de Sousa (1939-2020), a imunologista portuguesa cujo trabalho é descrito no livro, sob o pseudónimo de Anna Brito.  E o meu prazer na leitura não foi menor.

A intelectual brilhante, mulher das duas culturas - cientista e poeta -, está muito bem retratada nesta obra, que documenta o seu trabalho de investigação em Nova Iorque entre 1975 e 1980. São raros os livros que mostram como a ciência é por dentro, não apenas o trabalho diário no laboratório, mas também e principalmente o impulso que impele o cientista, o que o leva a dedicar a sua vida à ciência. A Maria (chamo-lhe assim, porque era amigo dela) autorizou Goodfield a acompanhá-la ao longo de cinco anos, apenas com a ressalva de não incluir o seu nome (um pudor natural, mas desnecessário, uma vez que as suas raízes portuguesas e a sua carreira anterior são descritas). A autora pôde entrar à vontade no laboratório da cientista e conversar com ela e com a sua equipa. As duas cartearam-se e telefonaram-se. A Maria não se coibiu de partilhar o seu eu, mesmo em partes mais íntimas. O capítulo 6 é formado por cartas da cientista, quase um diário, numa das quais revela que “se eu fosse poeta a tempo inteiro, cantando o dia cinzento e a noite prateada, gostaria de ser Neruda.”  A Maria era poeta em part-time, embora só tenha publicado um livro de poesia - A Hora e a Circunstância, com prefácio de Agostinho da Silva (Gradiva, 1988).

Um Mundo Imaginado atinge o seu ápice quase no fim, quando a cientista responde finalmente à pergunta sobre o que é a ciência.  Compara-a ao enamoramento: “O estado mais próximo que uma pessoa vulgar pode atingir do sentido da essência do processo científico é quando se apaixona”. Invoca uma cena do filme Dr. Jivago, que mostra um casal num comboio. “Estão só a dormir juntos esse homem e essa mulher –  e abraçados um ao outro. É essa a essência do processo científico. Por outras palavras, apaixonamo-nos pela natureza operacional.” A autora quer saber o que a natureza operacional, respondendo a cientista: “Bom, se eu estiver a trabalhar com ratos, tenho células de ratos. É isso a natureza operacional. Naquele tubo de ensaio tenho uma fracção da natureza!“

A ciência é, portanto, a escolha de um pedaço da natureza, de entre os inúmeros que esta tem, e não o largar enquanto ele não se revelar. Maria continua a explicar o seu trabalho, usando essa metáfora amorosa: “Veja o caso duma rapariga e dum rapaz que, por qualquer razão desconhecida, são atraídos um pelo outro.” Como a autora não entende, a explicação vem logo: “Temos uma célula que esteve sempre em circulação e ninguém reparou nela. De repente, alguém se apaixona por ela. Porquê? O cientista não sabe que se apaixonou, mas de repente sente-se atraído por essa célula, ou esse problema. Então tem de passar por um processo de relacionamento activo, e isso leva-o à descoberta. Primeiro há uma atracção cada vez maior, e o objecto das nossas atenções esquiva-se (…) O rapaz continua o oferecer flores à rapariga. Eu continuo a inventar conceitos cada vez mais elaborados (…) Tentamos arranjar conceitos cada vez mais perfeitos, na tentativa de conhecer a célula. E, finalmente, há um momento em que a rapariga reconhece o rapaz e já não se esquiva, aceita subir ao monte com ele e levar as coisas para a frente, exprimindo-se completamente! É esse o momento da descoberta.”

O sentido de  “paixão pela ciência” era, para a Maria, mais literal do que para o comum das pessoas. Uma descoberta científica consiste no consumar de uma prolongada aproximação amorosa. Quando ocorre, é como se houvesse um terramoto interior. Acrescenta a cientista: “É um momento de êxtase muito íntimo [itálico no original] (…) Sempre que você me interroga sobre a ciência, ocorrem-me imagens de entusiasmo, inocência, frescura e amor.”

Num livro de entrevistas a Anabela Mota Ribeiro (Este Ser e Não Ser. Cinco conversas com Maria de Sousa, Clube de Autor, 2016), que li num fôlego no meu luto pela Maria, a imunologista fala da falta de defesas com que ficamos no acto de enamoramento. A imagem que dá é geológica: um abalo das placas tectónicas. Nesse livro ela fala, embora com contenção, dos seus enamoramentos. Nunca casou, nem teve filhos, talvez pela sua necessidade de dedicação plena à ciência.

Uma dos possíveis objecções à referida metáfora amorosa é que qualquer pessoa se pode apaixonar, mas já não pode efectuar uma descoberta científica. Mas a Maria discorda: “Em sociedade, qualquer pessoa [itálico no original] é capaz de compreender a arte e a ciência; e qualquer pessoa pode estar consciente do esforço conjunto, a ponto de conseguir compreendê-lo e, para além de o compreender, de ser objecto de uma experiência que faça do mais pobre e do menos capaz um poeta ou um cientista.” Goodfield pergunta-lhe se isso pode acontecer com a mulher da limpeza do laboratório e a resposta é inequívoca: “Claro, com a Sr.ª Wiggins também. Estou certa de que será possível. Já conseguimos com o ensinarmos-lhe palavras que ela não conhecia. Quando conseguirmos que as pessoas em geral compreendam a linguagem dos cientistas, a ciência não será muito diferente da arte.”

Temos aqui uma bela descrição da cultura científica. Levar a ciência às pessoas, incluindo a mulher da limpeza. E mostrar que a ciência é muito semelhante à arte.  Ciência é amor à natureza e aos outros, partilhando a beleza encontrada.

Maria de Sousa morreu de Covid-19 no passado dia 14 de Abril. Foi uma perda irreparável para a ciência, para as letras e para todos nós. Lúcida até ao fim, a Maria percebeu o que lhe tinha acontecido. E escreveu um poema final, em inglês, que poeta João Luís Barreto Guimarães traduziu. O seu testamento é uma enternecedora carta de amor: “Na minha circunstância/ Posso morrer/ Perguntando-me se vos irei ver de novo/ Mas antes de morrer/ Quero que saibam/ O quanto gosto de vós/ O quanto me preocupo convosco/ O quanto recordo os momentos partilhados e queridos/ Momentos então/ Eternidades agora/ Poesia / Riso/O sol-pôr/ no mar (…) Porque posso morrer e vós tereis de viver/ Na vossa vida a esperança da minha duração.”

Obrigado, Maria. Vais durar entre nós.


quinta-feira, 18 de junho de 2020

O PRESIDENTE DA CÂMARA DE LISBOA DEFENDE UM MEMORIAL À ESCRAVATURA

“A palavra ‘racismo’ é com o ´ketchup'. Ela pode ser colocada praticamente em qualquer coisa" (Thomas Sowell, 1930 - ).

(Breve nota introdutória: O nonagenário citado na frase  em epígrafe,  é crítico acérrimo  da vitimização do negro, ele próprio negro nado e criado no bairro  paupérrimo de Harlem, tendo-se formado em Economia pela Universidade de Harvard, doutorado pela Universidade  de Chicago, sendo actualmente membro sénior do Instituto Hoover da Universidade de Stanford e autor de numerosa e extensa obra sociológica e filosófica publicada).

Começo por respigar do “Diário de Notícias”, de há dias, a seguinte entrevista de Fernando Medina, presidente da edilidade de Lisboa,  fundamentada numa das suas promessas eleitorais em erigir, numa praça lisboeta, “um memorial à escravatura”, durante o seu actual mandato.

Revela ele, nesta entrevista,  a  promessa que quase coincide em tempo  com a destruição selvática por parte de energúmenos de  estátuas  em várias cidades do mundo, nomeadamente no nosso país de “brandos costumes”,  como aconteceu com a estátua do Padre António Vieira perpetrada por autores conotados com a extrema esquerda  em “vandalismo ignorante”(Medina).

Até concedo que os seus autores materiais, ao serviço de cérebros  maquiavélicos sejam ignorantes, mas não me atrevo em chamar ignorante  à deputada  Joacine Moreira ( com  chancela académica universitária portuguesa ) quando  faz constantemente ataques racistas  a um Portugal que a acolheu e catapultou para o firmamento  político português com benefícios económicos que um pingo de dignidade num vendaval  de indignidade lhe aconselharia de abdicar.

Por seu turno, Mamadou Bu,  outro dissidente  do Bloco de Esquerda,  bolsa em vídeos que publica  discursos de ódio irracional com o fel de libelos acusatórios contra o país que acolheu e lhe dá a comer refeições fartas enquanto uns tantos nacionais de nascimento  e de coração se sustentam com côdeas de pão  duro ou  a ração diária da sopa dos pobres!

Suponhamos, por mera hipótese, que portugueses de gema, naturalizados guineenses, ocupando lugares de deputados na assembleia representativa da Guiné,  tinham idêntico procedimento acicatando o ódio contra este país de África. Deixo ao cuidado de possíveis leitores deste texto a respectiva conclusão que me parece óbvia e nada  abonatória!

De igual modo, não se pode deixar passar em claro ofensas deste jaez, ademais num Portugal que trata mal os seus antigos Combatentes do Ultramar e os navegadores de antanho que deram novos mudos ao mundo , em versos pessoanos: “’Ó mar salgado quanto do teu sal / São lágrimas de Portugal! Por te cruzarmos quantas mães choraram! / Quantos filhos em vão rezaram! / Quantas noivas ficaram por casar!!”

“Last bu not least”, em nosso tempo no que respeita  ao ataque terrorista perpetrado  numa povoação do  Norte de Angola  (1961), em que foram chacinados centenas de civis portugueses  brancos e negros indefesos, não tenho conhecimento de qualquer intenção em erguer em sua memória qualquer símbolo modesto, ainda que o simples nomear de  uma rua ou simples ruela a assinalar esta triste e criminosa efeméride.

Perdura este trágico acontecimento, apenas, gravado em memória indelével dos que escaparam a esta matança  tiveram familiares que nela perderam a vida  ou dela apenas tiveram conhecimento através da frase enérgica de Salazar que ficou na história por ela ser, segundo Paul Ricorur,  uma mediação entre o passado e o presente: “Para Angola, rapidamente e em força". E assim aconteceu!