segunda-feira, 1 de junho de 2020

CLASSIFICAÇÃO DAS ROCHAS

Toda a gente sabe que classificar é separar por classes, mas nem todos sabem que as mais antigas classificações das rochas, à semelhança das dos seres vivos, eram designadas por Sistemas (do grego “systema”, que significa reunião de diversos objectos num só corpo, grupo ou conjunto) e, assim, classificar é o mesmo do que sistematizar e classificação é sinónimo de sistematização.

Nesta óptica, a expressão classificação sistemática é uma redundância desnecessária que, não obstante, se lê frequentemente.

Cada disciplina tem o seu tipo de classificação. Em biologia e também em paleontologia fala-se de Domínio, Reino, Filo, Classe, Ordem, Família, Género e Espécie. Em geologia, por força da própria natureza dos “objectos” (rochas), este tipo de classificação não tem cabimento. 

Por exemplo, no seu célebre Natursystem des Mineralreichs, Karl von Lineu (1707-1778) tentou, sem êxito, adaptar aos minerais e às rochas os seus critérios que tão bem se têm mantido na sistemática e nomenclatura biológicas. Segundo ele, o arenito pertencia à classe “Petrae” (pedras), à ordem “Agregata” e ao género “Arena” (areia), no qual distinguia várias espécies, como, por exemplo, “Arena riparia” (areia fluvial). Acontece, porém, que o conceito de espécie, tal como o entendemos para os seres vivos e, até, para os minerais, não tem aplicação nas rochas, face às quais se fala, sim, de tipos e não de espécies.

Sem esquecer as abordagens divulgadas por Avicena, Agricola e muitos outros, ao longo da Idade Média, o século XVIII foi pródigo na procura de classificações dos produtos do “Reino Mineral”. Minerais e rochas figuravam ainda, lado a lado, nas várias propostas de arrumo. 

Além da de Lineu, ficaram na história das ciências da Terra as classificações do século XVIII de Bromel (1730), Woltersdorf (que introduziu o uso do termo rocha nas classificações), Lehman (1759), Cronstedt (1771), que usou o termo latino sax, para referenciar as rochas, Werner (1774), Vallerio (1778) e Daubenton (1784). Além destas, distinguiu-se a classificação do sueco, Torbern Olof Bergman (1735-1784), químico e mineralogista de grande prestígio. 

No seu Manual do Mineralógico ou Esboço do Reino Mineral (1782), traduzido para português em 1799, as rochas a que chamamos sedimentares estão repartidas por algumas das classes em que foram divididos os objectos do “Reino Mineral”. Entre as “Terras”, distinguia: “terra calcária”, “terra argilosa” (barros) e “terra quartzosa” (areias siliciosas). Os “Sais” incluíam a “pedra de platre” ou “cal vitriolada” (gesso) e o sal-gema, entre outros. Nesta classificação falava-se, ainda, em “pedras simples”, entre as quais, calcários, xistos argilosos, sílex e outras rochas homogéneas à vista desarmada; e em “pedras compostas”, onde figuravam conglomerados e brechas, consideradas não cristalinas, a par de outras ditas cristalinas, como os granitos e os gnaisses; finalmente, sob a designação de “substâncias inflamáveis”, considerava os “combustíveis fósseis” (expressão que ainda hoje se mantém), que incluíam, entre outros, os carvões, o petróleo, e o âmbar (succinum). 

Em 1823 foram publicadas, na Universidade de Coimbra, as Tábuas Mineralógicas, da autoria do lente Manuel José Barjona (1758-1831), obra inspirada no Sistema de Vallerio. Nesta altura, em que se não separavam os minerais das rochas, estas tábuas consideram os produtos do “Reino Mineral” distribuídos em cinco classes: “Terras”, “Pedras”, “Sais”, “Sulfuretos e Betumes” e “Metais e Semimetais”. 

Falava-se então de “pedras argilosas” (argilas, barros, ocres, xistos e margas) e de “pedras salinas” (calcários e gesso), de “sal-gema” e de “combustíveis não metálicos” (petróleo, carvão e betume). É interessante notar que estas propostas classificativas conservavam, ainda, uma forte influência do saber medieval. Com efeito, Avicena, na viragem do século X para o XI, no seu tratado sobre as pedras, De Lapidibus, já distinguia “terras”, “pedras” e “sais”. 
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Nota: O conceito que então se tinha de “terra” era o de materiais (minerais ou rochas) decompostos e ou desagregados pelos agentes atmosféricos, de aspecto mais ou menos pulverulento ou arenoso. É nesta óptica que os franceses chamam “terre” (e os ingleses “earth”) ao barro e que nós, com toda a propriedade, chamamos terra à fracção mineral, desagregada, do solo e, até, ao próprio solo.

A. Galopim de Carvalho

Requiem pelos estudantes universitários

O futuro que espera as universidades - como espaços físicos, de encontro - é a sua dissolução, escreveu Ronald G. Musto, professor de História norte-americano. Sobreviverão algumas, poucas, universidades para elites (ver aqui e aqui).
"Hoje, lentamente no início e em casos isolados, mas cada vez mais nos níveis local, estadual e nacional, as universidades são submetidas à mesma narrativa: «são instituições inúteis que estão muito aquém de cumprir seu papel social, que é educar nossos filhos para empregos úteis»; «usam demasiados recursos para enriquecer alguns professores e administradores irrelevantes», «estão fora de moda, substituídas por entidades com fins lucrativos, acreditação on line e programas de treino de empresas»..."
Estas palavras foram escritas antes da COVID-19. Acontece que a doença, desde as suas primeiras manifestações, foi usada como o grande argumento para fortalecer a narrativa, precipitando a dissolução a que Musto se refere, conferindo-lhe um sentido de inevitabilidade e, mais do que isso, apontando-a como a melhor medida possível, o passo que faltava dar para que o mundo pudesse ter um ensino superior inequivocamente inovado.

Em 22 deste mês o filósofo italiano Giorgio Agamben publicou um texto com o título - Requiem per gli studenti - que tem tudo a ver com o supra dito. Eis uma síntese, escrita num tom "mais suave" do que é o do autor.
Como havíamos previsto, no próximo ano, na universidade, as aulas serão realizadas on-line. A pandemia foi usada como pretexto para a difusão das tecnologias digitais, não pontualmente, mas como recurso sistemático. A presença física de professores e alunos é eliminada, e com ela são eliminadas as suas discussões sobre o conhecimento, essência da própria universidade.
Faz parte da barbárie tecnológica, pela qual estamos a passar, o cancelamento de qualquer experiência dos sentidos e a perda de olhar que vá além do ecrã, ao qual estamos aprisionados.
Mas mais decisivo do que isso é algo de que não se tem falado: o fim do estudante, como modo de vida.  
Lembremo-nos que as universidades são o resultado do esforço que aqueles que queriam estudar faziam para se encontrarem. Na sua base estão associações de estudantes das mais diversas partes da Europa.
Ser estudante era, antes de mais, uma forma de vida, na qual as lições dos mestres tinham importância, mas não tinha menos importância o intercâmbio entre colegas. Esse modo de vida que evoluiu de múltiplas maneiras, desde os clérigos viajantes da Idade Média aos movimentos estudantis do século XX, durou quase dez séculos mas está agora a terminar e para sempre. 
Os estudantes, separados por centenas ou milhares de quilómetros, fechados nos seus quartos, "recebendo aulas", deixarão de se encontrar nos espaços da universidade, e deixarão de morar nas cidades em que as universidades se localizam. É todo um fenómeno social que desaparece. 
Porém, em certo sentido, a universidade merece este fim, pois tornou-se numa instituição onde grassam a corrupção e a ignorância especializada. 
Para que a tradição universitária permanecesse viva seria preciso que:
1. Os professores que aceitam - como está a acontecer - submeter-se à nova ditadura on-line, se recusassem a fazê-lo; ela tem laivos de ditaduras já  experimentadas; 
2. Os estudantes que realmente querem sê-lo, recusassem inscrever-se em universidades transformadas e reivindicassem ser, como no início, universitários, constituídos em novas universitates, onde possa permanecer viva a palavra do passado e nascer qualquer coisa como uma nova cultura.
Maria Helena Damião e Isaltina Martins