sexta-feira, 19 de junho de 2020

AMAR A CIÊNCIA


Minha recensão no JL de hoje do livro "O Mundo Imaginado," de June Goodfield, que faz um retrato científico e humano de Maria de Sousa: 

Li com grande prazer O Mundo Imaginado. Uma história de descoberta científica da ensaísta inglesa June Goodfield quando o livro saiu na Gradiva em 1988. Reli-o agora, na 2.ª edição, que é uma homenagem póstuma a Maria de Sousa (1939-2020), a imunologista portuguesa cujo trabalho é descrito no livro, sob o pseudónimo de Anna Brito.  E o meu prazer na leitura não foi menor.

A intelectual brilhante, mulher das duas culturas - cientista e poeta -, está muito bem retratada nesta obra, que documenta o seu trabalho de investigação em Nova Iorque entre 1975 e 1980. São raros os livros que mostram como a ciência é por dentro, não apenas o trabalho diário no laboratório, mas também e principalmente o impulso que impele o cientista, o que o leva a dedicar a sua vida à ciência. A Maria (chamo-lhe assim, porque era amigo dela) autorizou Goodfield a acompanhá-la ao longo de cinco anos, apenas com a ressalva de não incluir o seu nome (um pudor natural, mas desnecessário, uma vez que as suas raízes portuguesas e a sua carreira anterior são descritas). A autora pôde entrar à vontade no laboratório da cientista e conversar com ela e com a sua equipa. As duas cartearam-se e telefonaram-se. A Maria não se coibiu de partilhar o seu eu, mesmo em partes mais íntimas. O capítulo 6 é formado por cartas da cientista, quase um diário, numa das quais revela que “se eu fosse poeta a tempo inteiro, cantando o dia cinzento e a noite prateada, gostaria de ser Neruda.”  A Maria era poeta em part-time, embora só tenha publicado um livro de poesia - A Hora e a Circunstância, com prefácio de Agostinho da Silva (Gradiva, 1988).

Um Mundo Imaginado atinge o seu ápice quase no fim, quando a cientista responde finalmente à pergunta sobre o que é a ciência.  Compara-a ao enamoramento: “O estado mais próximo que uma pessoa vulgar pode atingir do sentido da essência do processo científico é quando se apaixona”. Invoca uma cena do filme Dr. Jivago, que mostra um casal num comboio. “Estão só a dormir juntos esse homem e essa mulher –  e abraçados um ao outro. É essa a essência do processo científico. Por outras palavras, apaixonamo-nos pela natureza operacional.” A autora quer saber o que a natureza operacional, respondendo a cientista: “Bom, se eu estiver a trabalhar com ratos, tenho células de ratos. É isso a natureza operacional. Naquele tubo de ensaio tenho uma fracção da natureza!“

A ciência é, portanto, a escolha de um pedaço da natureza, de entre os inúmeros que esta tem, e não o largar enquanto ele não se revelar. Maria continua a explicar o seu trabalho, usando essa metáfora amorosa: “Veja o caso duma rapariga e dum rapaz que, por qualquer razão desconhecida, são atraídos um pelo outro.” Como a autora não entende, a explicação vem logo: “Temos uma célula que esteve sempre em circulação e ninguém reparou nela. De repente, alguém se apaixona por ela. Porquê? O cientista não sabe que se apaixonou, mas de repente sente-se atraído por essa célula, ou esse problema. Então tem de passar por um processo de relacionamento activo, e isso leva-o à descoberta. Primeiro há uma atracção cada vez maior, e o objecto das nossas atenções esquiva-se (…) O rapaz continua o oferecer flores à rapariga. Eu continuo a inventar conceitos cada vez mais elaborados (…) Tentamos arranjar conceitos cada vez mais perfeitos, na tentativa de conhecer a célula. E, finalmente, há um momento em que a rapariga reconhece o rapaz e já não se esquiva, aceita subir ao monte com ele e levar as coisas para a frente, exprimindo-se completamente! É esse o momento da descoberta.”

O sentido de  “paixão pela ciência” era, para a Maria, mais literal do que para o comum das pessoas. Uma descoberta científica consiste no consumar de uma prolongada aproximação amorosa. Quando ocorre, é como se houvesse um terramoto interior. Acrescenta a cientista: “É um momento de êxtase muito íntimo [itálico no original] (…) Sempre que você me interroga sobre a ciência, ocorrem-me imagens de entusiasmo, inocência, frescura e amor.”

Num livro de entrevistas a Anabela Mota Ribeiro (Este Ser e Não Ser. Cinco conversas com Maria de Sousa, Clube de Autor, 2016), que li num fôlego no meu luto pela Maria, a imunologista fala da falta de defesas com que ficamos no acto de enamoramento. A imagem que dá é geológica: um abalo das placas tectónicas. Nesse livro ela fala, embora com contenção, dos seus enamoramentos. Nunca casou, nem teve filhos, talvez pela sua necessidade de dedicação plena à ciência.

Uma dos possíveis objecções à referida metáfora amorosa é que qualquer pessoa se pode apaixonar, mas já não pode efectuar uma descoberta científica. Mas a Maria discorda: “Em sociedade, qualquer pessoa [itálico no original] é capaz de compreender a arte e a ciência; e qualquer pessoa pode estar consciente do esforço conjunto, a ponto de conseguir compreendê-lo e, para além de o compreender, de ser objecto de uma experiência que faça do mais pobre e do menos capaz um poeta ou um cientista.” Goodfield pergunta-lhe se isso pode acontecer com a mulher da limpeza do laboratório e a resposta é inequívoca: “Claro, com a Sr.ª Wiggins também. Estou certa de que será possível. Já conseguimos com o ensinarmos-lhe palavras que ela não conhecia. Quando conseguirmos que as pessoas em geral compreendam a linguagem dos cientistas, a ciência não será muito diferente da arte.”

Temos aqui uma bela descrição da cultura científica. Levar a ciência às pessoas, incluindo a mulher da limpeza. E mostrar que a ciência é muito semelhante à arte.  Ciência é amor à natureza e aos outros, partilhando a beleza encontrada.

Maria de Sousa morreu de Covid-19 no passado dia 14 de Abril. Foi uma perda irreparável para a ciência, para as letras e para todos nós. Lúcida até ao fim, a Maria percebeu o que lhe tinha acontecido. E escreveu um poema final, em inglês, que poeta João Luís Barreto Guimarães traduziu. O seu testamento é uma enternecedora carta de amor: “Na minha circunstância/ Posso morrer/ Perguntando-me se vos irei ver de novo/ Mas antes de morrer/ Quero que saibam/ O quanto gosto de vós/ O quanto me preocupo convosco/ O quanto recordo os momentos partilhados e queridos/ Momentos então/ Eternidades agora/ Poesia / Riso/O sol-pôr/ no mar (…) Porque posso morrer e vós tereis de viver/ Na vossa vida a esperança da minha duração.”

Obrigado, Maria. Vais durar entre nós.


quinta-feira, 18 de junho de 2020

O PRESIDENTE DA CÂMARA DE LISBOA DEFENDE UM MEMORIAL À ESCRAVATURA

“A palavra ‘racismo’ é com o ´ketchup'. Ela pode ser colocada praticamente em qualquer coisa" (Thomas Sowell, 1930 - ).

(Breve nota introdutória: O nonagenário citado na frase  em epígrafe,  é crítico acérrimo  da vitimização do negro, ele próprio negro nado e criado no bairro  paupérrimo de Harlem, tendo-se formado em Economia pela Universidade de Harvard, doutorado pela Universidade  de Chicago, sendo actualmente membro sénior do Instituto Hoover da Universidade de Stanford e autor de numerosa e extensa obra sociológica e filosófica publicada).

Começo por respigar do “Diário de Notícias”, de há dias, a seguinte entrevista de Fernando Medina, presidente da edilidade de Lisboa,  fundamentada numa das suas promessas eleitorais em erigir, numa praça lisboeta, “um memorial à escravatura”, durante o seu actual mandato.

Revela ele, nesta entrevista,  a  promessa que quase coincide em tempo  com a destruição selvática por parte de energúmenos de  estátuas  em várias cidades do mundo, nomeadamente no nosso país de “brandos costumes”,  como aconteceu com a estátua do Padre António Vieira perpetrada por autores conotados com a extrema esquerda  em “vandalismo ignorante”(Medina).

Até concedo que os seus autores materiais, ao serviço de cérebros  maquiavélicos sejam ignorantes, mas não me atrevo em chamar ignorante  à deputada  Joacine Moreira ( com  chancela académica universitária portuguesa ) quando  faz constantemente ataques racistas  a um Portugal que a acolheu e catapultou para o firmamento  político português com benefícios económicos que um pingo de dignidade num vendaval  de indignidade lhe aconselharia de abdicar.

Por seu turno, Mamadou Bu,  outro dissidente  do Bloco de Esquerda,  bolsa em vídeos que publica  discursos de ódio irracional com o fel de libelos acusatórios contra o país que acolheu e lhe dá a comer refeições fartas enquanto uns tantos nacionais de nascimento  e de coração se sustentam com côdeas de pão  duro ou  a ração diária da sopa dos pobres!

Suponhamos, por mera hipótese, que portugueses de gema, naturalizados guineenses, ocupando lugares de deputados na assembleia representativa da Guiné,  tinham idêntico procedimento acicatando o ódio contra este país de África. Deixo ao cuidado de possíveis leitores deste texto a respectiva conclusão que me parece óbvia e nada  abonatória!

De igual modo, não se pode deixar passar em claro ofensas deste jaez, ademais num Portugal que trata mal os seus antigos Combatentes do Ultramar e os navegadores de antanho que deram novos mudos ao mundo , em versos pessoanos: “’Ó mar salgado quanto do teu sal / São lágrimas de Portugal! Por te cruzarmos quantas mães choraram! / Quantos filhos em vão rezaram! / Quantas noivas ficaram por casar!!”

“Last bu not least”, em nosso tempo no que respeita  ao ataque terrorista perpetrado  numa povoação do  Norte de Angola  (1961), em que foram chacinados centenas de civis portugueses  brancos e negros indefesos, não tenho conhecimento de qualquer intenção em erguer em sua memória qualquer símbolo modesto, ainda que o simples nomear  uma rua ou simples ruela a assinalar esta triste e criminosa efeméride.

Perdura este trágico acontecimento, apenas, gravado em memória indelével dos que escaparam a esta matança  tiveram familiares que nela perderam a vida  ou dela apenas tiveram conhecimento através da frase enérgica de Salazar que ficou na história por ela ser, segundo Paul Ricorur,  uma mediação entre o passado e o presente: “Para Angola, rapidamente e em força". E assim aconteceu!

O maior bestseller de todos os tempos*/ *Com este título


Minha recensão do I de hoje do livro de Sanne Blauw:

terça-feira, 16 de junho de 2020

“ENVELHECER SEMPRE JOVEM? A NEUROGÉNESE E A MEMÓRIA"



Envelhecer sempre jovem? A Neurogénese e a Memória” é o título da próxima palestra do ciclo de divulgação científica “Ciência às Seis”, que ocorrerá no dia 23 de Junho, pelas 18h00, por vídeo conferência. O palestrante é o biólogo João Malva, Investigador Coordenador da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra.


O ciclo de palestras de divulgação científica “Ciência às Seis” é uma iniciativa do Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, com coordenação do bioquímico e comunicador ciência António Piedade.

Sinopse da palestra:
Nesta palestra serão abordados os desafios relacionados com as alterações demográficas e com o envelhecimento das populações. Iremos discutir a saúde e a doença na idade avançada e a necessidade imperiosa de valorizar a promoção da saúde, ao longo de toda a vida, através da adoção de estilos de vida saudáveis. Envelhecer é uma inevitabilidade, mas a doença não é inevitável. Se é importante dar mais anos à vida, veremos que é ainda mais importante dar mais vida aos anos.
Iremos abordar o envelhecimento e a perda gradual de capacidades físicas e cognitivas. Veremos como a adoção de estilos de vida saudáveis pode capacitar o cérebro com maior reserva cognitiva em idade avançada e como isso pode contribuir para uma saúde mental mais robusta para resistir à perda de memória. Falaremos sobre as células estaminais neurais e sobre o seu papel na plasticidade  e na renovação neuronal, em circuitos que processam a memória.
Por último, iremos destacar alguns projetos de desenvolvimento e implementação de boas práticas inovadoras para promoção da vida saudável e do envelhecimento ativo. Daremos destaque à criação da rede Ageing@Coimbra, Região Europeia para o Envelhecimento Ativo e Saudável.

Sobre João Malva:
Desempenha funções de Investigador Coordenador da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra
Licenciado em Biologia (1987), Doutor em Biologia Celular (1997), obteve a sua Agregação em Ciências da Saúde, no ramo de Biomedicina (2009), pela Universidade de Coimbra.
A sua carreira científica tem-se desenvolvido no domínio das Neurociências e no encontro de novas soluções inovadoras para responder aos desafios da sociedade relacionados com o envelhecimento. Coordena o grupo de investigação “Vida Saudável e Envelhecimento Ativo” no Instituto de Imagem Biomédica e Ciências da Vida (iCBR), da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra.
Nos últimos anos destacou-se como neurocientista, como criador de redes no domínio do envelhecimento e coordenador de projetos estratégicos; tais como o consórcio Ageing@Coimbra, o projeto H2020 ERA Chair (ERA@UC), o projeto H2020 teaming do Instituto Multidisciplinar do Envelhecimento (MIA-Portugal), ou a Escola Europeia de Doutoramento em Envelhecimento EIT Health, entre outros.
Foi “Director Adjunto” do consórcio EIT-Health InnoStars (2015). Foi Presidente da Sociedade Portuguesa de Neurociências (2007-2011) e é membro (desde 2006) da European Dana Alliance for the Brain (EDAB).
Foi Secretário da Assembleia da Faculdade de Medicina (2009-2015) e Vice-Diretor do Instituto de Investigação Interdisciplinar (2013-2015) da Universidade de Coimbra, e ainda membro do Conselho Científico da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (2015-2017).

Público-alvo: todos os interessados em conhecimento!

segunda-feira, 15 de junho de 2020

"Buracos Negros sob uma nova luz" - Vídeo da palestra com Vítor Cardoso no "Ciência às Seis"


https://www.youtube.com/watch?v=vXwrfrpSBuw&feature=youtu.be&fbclid=IwAR16UP2LjTArA_N-iburbqyyL2z8VQqez2SVJ3iE0LrMvijKmTrw5dl30r4

Da excepção para a regra: o direccionamento da Escola

Aos leitores com interesse nos desígnios traçados para Escola, no seu sentido mais abrangente, e catapultados pela Covid-19, recomendamos a leitura do completíssimo e profundo artigo de um professor da Universidade da Beira Interior, António Bento, saído no jornal Público no dia 13 deste mês com o título Pandemia e “Ensino à Distância”: Hey, teachers, don’t leave your students aloneEis duas passagens:
... a generalização cega e indiscriminada do “ensino à distância”, recentemente anunciada para o ano lectivo 2020-2021 por algumas universidades portuguesas, deve fazer-nos reflectir com alguma seriedade sobre a verdadeira natureza e o real impacto do ataque actualmente dirigido às fundações do modo de vida universitário tal como sempre o conhecemos. 
Evidentemente, ninguém com um módico de bom senso negará ou diminuirá hoje, e por maioria de razão no interior da própria academia, as extraordinárias possibilidades abertas pelas plataformas digitais e pelo e-learning, as quais, como, aliás, bem sabemos, existiam muito antes da eclosão da actual pandemia. O ponto, porém, está na completa falta de equilíbrio e de sentido de proporção dos que pretendem passar de uma situação em que o e-learning ocupa um lugar necessariamente complementar e auxiliar face ao “ensino presencial”, para uma situação em que o ensino e a investigação em plataformas digitais passarão a ser a regra e a norma na vida académica.
M. Helena Damião e Isaltina Martins 

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Sobre o ensino à distância - Carlos Fiolhais (Professor da Universidade de Coimbra)

UMA GRANDE AULA DE JOHN SEARLE


Minha recensão, publicada no jornal I de hoje, do último livro do filósofo norte-americano John Searle, "Da Realidade Física à Realidade Humana":

ELOGIO DE TRÊS ELOGIOS


Minha recensão no jornal I de três livros do médico italiano Lamberto Maffei que são lições de humanismo:

BASTA DE TANTO CINISMO

“O cinismo é a única forma sob a qual as almas 
torpes tocam de leve no que se chama sinceridade”
(Friedrich Nietzsche)

Numa hora em que racistas por uma qualquer varinha mágica se transformam em anti-racistas, ocorre-me um punhado de “almas bondosas” de Lourenço Marques, que logo após 25 de Abril, passaram a frequentar espaços públicos acompanhados de crianças negras filhos de serviçais, vestidas de camisa branca, calção azul escuro e calçadas. Crianças que na véspera só tinham acesso aos quintais dos patrões com camisas rotas, púdicos calções e pés descalços.

Não, não se pense que este “status quo” foi conseguido através de um processo que transformou, de uma hora para a outra, almas negras de racistas em almas brancas de anti-racistas com a pureza da neve da montanha africana de Klimanjaro!

Seria interessante fazer um apanhado desses racistas transmutados em carpideiras em choro convulsivo pela morte de George Floyd asfixiado pelo pé no pescoço de um polícia americano branco. Teríamos enormes surpresas, pela certa.!

Entretanto, a morte de portugueses idosos falecidos pelo coronavírus, depois de ligados meses a fio a ventiladores pulmonares em indiscritível sofrimento, não merece da nossa caridosa alma lusitana mais do que um simples número estatístico ou denúncia  do fácies da nossa ministra da Saúde que se assemelha a uma espécie de “barómetro” do estado de saúde ou doença deses idosos, como tal, ora eufórica, ora compungida.,

Recentemente, foi nomeado pelo Governo um “Gabinete de Intervenção para Lisboa e Vale do Tejo”, face ao preocupante aumento de infectados pelo coronavírus. Ou seja, depois de “casa roubada, trancas na porta”, em crítica da sabedoria  popular.

Coincidência ou não (mas há coincidências levadas da breca!) este crescimento de infectados pelo coronavírus encontra correspondência nas manifestações anti-racistas aos magotes e sem quaisquer cuidados sanitários a que se têm assistido ultimamente e, concomitantemente, ao espectáculo da “Música Pimba”, com inumerável número de assistentes sem cumprir todas as medidas de confinamento exigíveis, com a presença do primeiro-ministro António Costa, ao arrepio das louváveis medidas tomadas no âmbito de um desejável confinamento do dia-a-dia.

Ou seja, levianamente são tomadas medidas elásticas que põem em causa a sobrevivência dos cidadãos e, principalmente, o sacrifício heróico dos nossos profissionais de saúde exauridos de horas e horas de trabalho fora do horário normal de serviço, longe  do seio de  família, com o credo na boca, atingida nos seus sacrossantos direitos.

Haja, no mínimo, bom senso, onde, há corações empedernidos de governantes que nada nos sossegam com a indefinição em nos transmitir uma vida cheia de incertezas científicas e prenha de meias verdades tão criminosas como as mentiras públicas que se vão tecendo e que tanto nos rendem à esperança como nos fazem prisioneiros de horrendas masmorras da actual pandemia.

terça-feira, 9 de junho de 2020

“Quasi” Ou Contributo para um Novo Paradigma das Praxes Académicas

 


Texto que nos foi remetido por José Manuel Cymbron:

(…) os oráculos gostam do seu clima [de Portugal], e às vezes dão

nele respostas eternas às perguntas do mundo.

(Torga)

 

Os mais experimentados levantai-os,

(…)

Pois que sabem

O como, o quando, e o onde as cousas cabem.

(Camões)

 

Estou numa fase razoavelmente adiantada de um livro (de ficção, em boa parte) que propõe, em nove dias/capítulos, um Itinerário em Lisboa, e que termina no Campo Grande.

Por que razão este Itinerário termina no Campo Grande? Por dois motivos:

1º. Na dedicatória do livro digo:

- A todas as crianças e a todos os jovens.

- A todos os adultos que acreditam que o tesouro/força que há em cada criança e em cada jovem tem que ser lucidamente acarinhado, sob pena de se transformar em «marés de fel» (Cesário Verde).

Acontece que no Campo Grande há uma densíssima população estudantil, desde o ensino pré-primário ao universitário.

2º. No Campo Grande existe um património cultural com um valor equiparável, embora muito diferente, ao da zona de Belém. Merece destaque particular a Biblioteca Nacional e o Arquivo Nacional da Torre do Tombo. As sinergias que podem ser criadas entre estes dois tesouros e fortalezas da palavra criariam condições perfeitas para a construção de um Museu que a capital merece: O Museu da Lusofonia. Penso que em termos de espaço e de orçamento as necessidades não são muito exigentes pois os dois núcleos principais já existem (Biblioteca Nacional e Torre do Tombo). Por detrás da Biblioteca existe um terreno com área suficiente, creio eu, para a construção de um centro de interpretação e divulgação do património lusófono existente não só no Campo Grande, mas em toda a cidade. Seria fundamental que no referido Centro se valorizasse essencialmente as obras literárias dos grandes escritores lusófonos, entre eles os que anualmente, desde a criação do Prémio Camões (1989), vêm sendo galardoados. Os trabalhos de construção do Museu poderiam ter início em 2021, durante a presidência da União Europeia por Portugal, ou em 2022, ano em que Lisboa será palco das Jornadas Mundiais da Juventude e das comemorações do 2º. Centenário da independência do Brasil e do 1º. Centenário da viagem transatlântica de Gago Coutinho e Sacadura Cabral.   

Mas o Campo Grande tem outros patrimónios de grande valor. São eles: o Jardim, que nestes últimos dois anos foi alvo de consideráveis melhoramentos e onde frondosas árvores oferecem sombra durante todo o dia; o Museu da Cidade; o Museu Bordalo Pinheiro; as tapeçarias de Portalegre da colecção da Câmara Municipal; as gravuras incisas  de Almada Negreiros na Reitoria e Faculdades de Direito e de Letras; e a azulejaria das três estações de Metro, com particular destaque para as estações de Entre Campos e Cidade Universitária. 

No 9º. Dia do itinerário por Lisboa, chego ao Campo Grande acompanhado por quatro gigantes da nossa literatura: José Régio, Carlos Queiroz, Miguel Torga e Sophia de Mello Breyner (recorde-se que todos eles nasceram nas duas primeiras décadas do século vinte, época em que Portugal ainda era um país eminentemente rural, o que tanto contribuiu para a força das suas obras). Pouco tempo depois junta-se a este grupo Tolentino Mendonça. A eles pergunto o que seria importante dizer no início do ano académico aos caloiros que estão a iniciar uma estada de pelo menos três anos nesta zona fascinante da capital. Os cinco respondem-me que há uma palavra-chave – ALEGRIA, e que essa «provocação do espírito que nos abeira do milagre» (Tolentino) tem que ser trabalhada seguindo o conselho de Camões, citado em epígrafe deste texto e que agora repito: «Os mais experimentados levantai-os (…) pois que sabem/ O como, o quando, e o onde as cousas cabem.»

Repare-se no que nos dizem estes escritores sobre a alegria (já foi feita uma citação de Tolentino Mendonça):


José Régio (reproduzindo palavras da Ti’Pinheiro):

«…Que minhas meninas! Isto de ser temente a Deus não tira duma pessoa andar alegre e até gostar de se divertir (…) A virtude é alegre, ora não? (…) Que minhas meninas!: cá’mim ninguém me tira desta, e o senhor padre Forjaz ainda há dias o disse do púlpito: A virtude não precisa de carantonhas! Quem está de bem com Deus anda contente, pois então?! Por que há-de andar macambúzio?!»                                                             

 

Carlos Queiroz:

É urgente descobrir

Na flora da fantasia,

Uma espécie de semente

Que gere a pura alegria

E se possa introduzir

Nas almas de toda a gente.

 

Miguel Torga:

«No seu sentido mais profundo, a vida é bela e alegre. Todos nós tivemos já a experiência disso milhares de vezes (…). Mas, apegados como estamos à aparência de tudo, esquecemos a voz do profundo, e ouvimos deliciados o som da superfície. Temos o vício da tristeza.»  


Sophia:

- «Porque Deus nos criou para a alegria»

- «A estrela ergueu-se muito devagar sobre o Céu, a Oriente. (…) Parecia estar muito perto da terra.  (…) Vinha desde sempre. Mostrava a alegria, a alegria una, sem falha, o vestido sem costura da alegria, a substância imortal da alegria.»

 

Tolentino Mendonça (novamente):

O pequeno quinhão de alegria que nos resta é suficiente para relançar uma inteira vida. 

Como, Quando e Onde devem estas citações, de escritores muito «experimentados», passar para os estudantes? Comecemos pelo Onde.

No Campo Grande: aqui eles estão em casa e os patrimónios cultural e natural são magníficos (não esqueçamos que o jardim tem excelentes condições para a prática de marcha e de ciclismo).

Passemos para o Quando.

Já neste texto referi a minha simpatia pelo início do ano lectivo. E, por que não no contexto das praxes? Seria a componente cultural de uma prática ancestral que pretende unir e dar ânimo.

Entremos agora no momento mais complexo, mas também mais empolgante do processo de transmissão da mensagem: o Como.

Penso que é indispensável recorrer a vários meios, mas fiquemo-nos, neste artigo, por dois: 1º. mais textos literários; 2º. a Beleza.

António Gedeão diz-nos, na primeira parte do poema “Homem”: «Inútil definir este animal aflito./ Nem palavras,/ nem cinzéis,/ nem acordes,/ nem pincéis/ são gargantas deste grito./ (…)» É um magnífico poema, mas não concordo com o poeta. Se é verdade que nenhum ramo da arte consegue, só por si, definir o Homem, talvez seja verdadeiro afirmar que em conjunto conseguem. Régio dizia-nos: «Procuro uma expressão integral lançando mão de vários recursos vindos de vários ramos de arte.» E isto está ao nosso alcance no jardim do Campo Grande. Aqui podemos dar acolhimento às «palavras»; aos «cinzéis»; aos «acordes»; e aos «pincéis». Painéis de azulejos e esculturas de artistas consagrados e desconhecidos (por que não estudantes?) poderiam, com um caracter de rotatividade, ser colocados em vários pontos do jardim ilustrando a arte da palavra.

Vejamos mais sugestões de textos, e comecemos com propostas de Aforismos:

No Jardim:

- Nunca escolhas uma cidade para viver se não tiver jardins.

 

Junto à Faculdade de Psicologia:

- Quem não se conhece poderá ser assassino de si mesmo.

- O melhor espelho não reflecte o outro lado das coisas.

 

Entre a Faculdade de Letras e a Torre do Tombo:

- Quem não sabe de onde veio, não sabe para onde vai.

 

- Junto à Faculdade de Letras:

- Quem domina a sua língua salva a sua cabeça.

- As palavras são como a teia de aranha: para o homem habilidoso, são um abrigo; para o desajeitado, são uma armadilha.

 

- Junto à Faculdade de Direito:

- A corda para amarrar os pensamentos ainda não foi urdida.

- A mentira dá flores, mas não frutos.


No Centro Alameda da Cidade Universitário

- Quem estuda com um só mestre desconhece a abundância.

- Uma só cabeça nunca se põe de acordo.

- O bico da pena penteia a cabeleira da linguagem.

- Aquele que confessa a sua ignorância mostra-a uma vez; o que tenta escondê-la mostra-a várias vezes.

- O espírito nunca chega tão longe quanto o coração.

Passemos agora para textos com registo da autoria:

Régio:

[Algumas casas são (e muitas deveriam ser) como A Velha Casa]

Se ninguém mais o sabia – sabia ele [Lélito] que a sua casa tinha alma e nervos. (…) tinha personalidade própria (…) insubmissa às coisas e pessoas que a povoavam (…) acabava por pesar sobre os seus gestos, palavras, atitudes, sentimentos…

Queiroz:

Quem sabe se era

Dentro de algum

Lugar-comum

Que estava à espera

De nós (em vão)

A salvação?...

Torga:

Ibéria

(…)

Uma antena da Europa a receber

A voz do longe que lhe quer falar…


Estes dois versos torguianos e a realidade cultural do Campo Grande-Cidade Universitária (onde encontramos tantos estudantes do Programa Erasmus) levam-me a sonhar com um monumento escultórico, a ser colocado em frente ao edifício da Reitoria, e alusivo à União Europeia, com os seguintes versos da Ode à Alegria, de Schiller, inspiradores da nona sinfonia de Beethoven e do Hino da União Europeia:

  

Alegria, mais belo fulgor divino,

(…)

Ébrios de fogo entramos

Em teu santuário celeste!

(…)

Todos os homens se irmanam

Onde pairar teu voo suave. .

A quem a boa sorte tenha favorecido

De ser amigo de um amigo,

(…)

Rejubile-se connosco!

(…)

Abracem-se milhões de seres!

Enviem este beijo para todo o mundo!

 

Este «beijo para todo o mundo» deve ser enviado pelos estudantes da Universidade. É esta a mensagem, datada de 1534, de André de Resende e gravada no terraço fronteiro ao edifício da Reitoria: «É vosso dever conseguir, com empenho e trabalho fiéis, que a universidade de Lisboa se torne não menos celebrada em todo o mundo do que a própria cidade.»

 

Sophia:

 

O Rei de Ítaca

A civilização em que estamos é tão errada que

Nela o pensamento se desligou da mão

 

Ulisses de Ítaca carpinteirou seu barco

E gabava-se também de saber conduzir

Num campo a direito o sulco do arado        

 

Tolentino Mendonça:

- O encontro com a beleza é tão decisivo que há um antes e um depois, é uma estação nova que começa para a nossa vida.

- Talvez o que de mais significativo somos capazes de partilhar não encontre no mundo linguagem melhor do que o silêncio.

- Na diversidade das tradições religiosas e espirituais da humanidade, o silêncio é um traço de união extraordinariamente fecundo.

Apesar do aspecto caótico da actual sociedade internacional, acredito que a Humanidade poderá, a curto prazo, atingir um patamar civilizacional muito alto. Penso que podemos aplicar ao nosso tempo os versos que Mário de Sá-Carneiro utilizou, para se definir, no poema “Quasi”:

Um pouco mais de sol – eu era brasa.

Um pouco mais de azul – eu era além.

Para atingir, faltou-me um golpe de asa…

(…)

Quasi o amor, quasi o triunfo e a chama

(…)

- Ai a dor de ser quasi, dor sem fim…

(…)

Aos jovens que entram agora para a Universidade é preciso dar-lhes condições para que dêem o «golpe de asa» que lhes permita propôr à ONU um provisório 31º. Artigo da Declaração Universal dos Direitos Humanos, com uma redacção semelhante à seguinte:

Cada ser humano tem o direito (e o dever) de exigir a ele próprio e às Instituições Nacionais e Internacionais que no início da segunda metade deste século o mundo seja um Reino Maravilhoso, isto é, uma comunidade onde reine aquilo a que Torga chamava «uma paz lúdica e laboriosa».

                                                                                            «Valete, Fratres.» (Pessoa)  

José Manuel Cymbron

jose_cymbron@sapo.pt

Professor do Ensino Superior e Investigador na área do Turismo Cultural


segunda-feira, 8 de junho de 2020

Opinião dos professores portugueses sobre o E@D

“Este tipo de ensino revela e acentua claramente as 
desigualdades económicas e sociais dos alunos.” 

“Estou preocupada com a privacidade dos meus dados pessoais 
e com a minha privacidade enquanto professora.”

“O ME deu abertura para que o negócio das editoras 
se apropriasse dos emails dos alunos.”

Extractos de respostas de professores portugueses ao questionário da FENPROF


Foram divulgados os resultados de um estudo promovido pela Federação Nacional dos Professores (FENPROF) cujo objectivo era conhecer a opinião dos docentes sobre o trabalho que têm realizado online, simpaticamente represetado por E@D (ver aqui e aqui). Li os documentos disponibilizados e, centrando-me nas respostas abertas transcritas, destaco as preocupações reveladas, que se me afiguram mais salientes (sem a preocupação de uma análise de conteúdo devidamente validada).
Preocupações para com a profissão:
1. Falta de identificação com a modalidade de trabalho (que não se pode chamar ensino) a que estão a ser obrigados;
2. O sentimento de experimentação subjacente a essa modalidade e também de isolamento, fazendo o que podem, mas com a consciência de estarem muito afastados do que é desejável;
3. A sobrecarga de tarefas (muitas delas burocráticas, técnicas e tecnológicas) e as infindáveis horas de trabalho que redundam num enorme cansaço;
4. Ao escrutínio imediato e directo feito pelas famílias do trabalho docente, interferindo nele, desvalorizando-o... 
Preocupações para consigo:
1. Uso dos seus equipamentos, da sua casa, dando a tutela a entender que têm obrigação de converter o seu espaço privado em espaço público, que pode ser invadido a qualquer momento;
2. Segurança quanto à sua saúde física, o risco de contrair a doença é elevado;
3. Os seus dados pessoais ficarem na internet, a sua privacidade ficar comprometida...  
Preocupações para com os alunos:
1. Manter-se o ano lectivo a funcionar para que funcione, mas, na verdade, não se adiantar significativamente a aprendizagem;
2. As tecnologias usadas de rompante geram novas desigualdade, entre os que têm um ambiente caseiro adequado para estudar e tecnologias disponíveis e os que não têm;
3. Não ser possível atender-se às especificidades de cada turma, de cada aluno;
4. Disponibilizarem-se dados pessoais (que serão bem aproveitados pelo "negócio da educação"),  à sua privacidade...
Estes (e outros) resultados geram, naturalmente, grande apreensão (bastaria um deles para que siso acontecesse), mas vejo que é, sobretudo, uma apreensão decorrente dos acontecimentos, por referência (e reacção) ao contexto, ao país e ao Ministério. Infiro que poucos foram os professores (até porque o questionário não se prestava a isso) que tiveram por referência um horizonte mais abrangente. Na verdade, vêem-se ligeiramente afloradas questões como:
- O que é que tudo isto significa na transformação da educação escolar? Para onde caminhamos? Ou onde estamos já e ainda não percebemos exactamente?
- Que papel têm os Governos no futuro da educação escolar? Em que mãos está ela, de facto?
- A quem beneficiam as mudanças que a doença precipitou? Aqueles a quem deve beneficiar ou aqueles que tiram benefícios dela?
- Feito um balanço, tem valido a pena o enorme esforço dos professores (e de alguns alunos e pais), os atropelos a valores fundamentais... em nome da escolarização? 
A FENPROF defende as condições laborais dos professores portugueses sindicalizados, logo, é compreensível que ponha aí a tónica, mas acontece que a mudança radical do trabalho docente não se restringe a um país: há uma agenda global que tem vindo a consolidar-se, conseguindo agora, com a doença, o pretexto de que precisava para se afirmar irreversível. 

É nisso que os professores, pelo menos aqueles que têm consciência do seu dever de ensinar, precisam de se concentrar, unindo-se no sentido de manter, tal como se diz na lei, a sua "nobre tarefa" num contexto relacional adequado à aprendizagem. Todos o ventos são contrários (e alguns são soprados por professores) mas, num momento tão crítico como o que passamos, é preciso encontrar o discernimento inerente à profissionalidade e agir de acordo com ela.

BURACOS NEGROS SOB UMA NOVA LUZ




O ciclo de palestras de divulgação científica “Ciência às Seis” está de volta!

O regresso será já no próximo dia 12 de Junho, pelas 18h00, dia em que o astrofísico Vítor Cardoso dará, por vídeo conferência, a palestra intitulada “Buracos negros sob uma nova luz”. Os interessados podem seguir a vídeo conferência através do link: https://us02web.zoom.us/j/4748462924?pwd=dWV3clhtWHRYUFR6ZlpDYzdSMmFCZz09

O ciclo de palestras de divulgação científica “Ciência às Seis” é uma iniciativa do Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, com coordenação do bioquímico e comunicador ciência António Piedade.

Resumo da palestra: Desde há milhares de anos que tentamos entender porque e como é que as coisas caem. Esta busca permitiu-nos entender a luz, o sistema solar, a galáxia e o próprio universo com uma precisão sem precedente. Nesta palestra vamos discutir um pouco do que aconteceu nos últimos 300 anos, com um foco especial nos últimos anos, em que vimos ondas gravitacionais e buracos negros pela primeira vez na história da humanidade.




Vítor Cardoso é Professor Catedrático no Departamento de Física do Instituto Superior Técnico, onde lidera o Grupo de Gravitação (GRIT) do CENTRA. Os seus interesses de investigação incidem sobre astrofísica e gravitação, em particular ondas gravitacionais e buracos negros e a física do espaço. É autor de um livro e de cerca de 200 artigos publicados em revistas internacionais. A sua investigação foi distinguida duas vezes pelo European Research Council. Em 2015 foi agraciado pelo Presidente da República com a Ordem de Santiago D’Espada, pelas suas contribuições para a ciência. Neste momento, é líder de um consórcio internacional de mais de 30 países europeus e centenas de cientistas, que se dedica ao estudo de ondas gravitacionais e buracos negros. É membro fundador da Sociedade Portuguesa de Relatividade e Gravitação.

Público alvo: todos os interessados em conhecimento!
Link para o evento no Facebook

domingo, 7 de junho de 2020

A HISTÓRIA DA TERRA ESCRITA NAS ROCHAS SEDIMENTARES

A história da Terra lê-se nas rochas. Com efeito, as rochas podem ser entendidas como documentos que os geólogos aprenderam e ensinam (se for caso disso) a ler. 

Os fósseis que muitas delas encerram, como é o caso das rochas sedimentares, e os minerais são duas das letras dessa escrita. Como constituintes mais peliculares da litosfera acessíveis à curiosidade dos geólogos, as rochas sedimentares constituem um domínio particularmente importante da Geologia e são o fulcro das preocupações dos sedimentólogos, uma especialização relativamente recente que se fica a dever aos interesses das grandes empresas petrolíferas. 

Armazéns ou arquivos de vultuosa informação, estas rochas têm-nos permitido descodificá-la e, assim, conhecer grande parte da história da Terra e da vida. Numa linguagem com preocupações de estilo, poder-se-ia dizer que as rochas sedimentares trazem consigo não só as marcas dos seus progenitores, mas também as das condições ambientais em que foram geradas, ou seja, como e onde nasceram. No mesmo estilo de linguagem, muitas delas revelam-nos, ainda, a data do seu nascimento. 

É, pois, nesta medida que podemos comparar as camadas de rochas sedimentares às páginas de um grande livro onde está escrita uma história com milhares de milhões de anos. Em 1941, o russo, George Gamov, físico, cosmólogo e conhecido divulgador de ciência, escreveu: "O Livro dos Sedimentos, reconstruído pelo esforço de diversas gerações de geólogos, equivale a um extensíssimo documento histórico, ao lado do qual todos os alentados volumes da História da Humanidade não passam de insignificantes opúsculos”. 

SE o cidadão abarcar os “como” e os “porquês”, os “quando” e os “onde” da dinâmica inerente aos processos que levam à génese das rochas sedimentares: 
(1) alteração das rochas em superfície por efeito dos agentes externos (meteorização), 
(2) erosão, 
(3) transporte e 
(4) sedimentação; 

SE interiorizar os principais conceitos sobre os mais variados ambientes de sedimentação (fluvial, deltaico, estuarino, lacustre, palustre, marinho litoral ou profundo, desértico, glaciário, entre outros) que hoje nos rodeiam em todas as latitudes, a ponto de os poder correlacionar com os do passado, e se souber que foram ambientes iguais ou semelhantes a esses que, ao longo de milhares de milhões de anos, estiveram na origem de uma parte substancial das rochas sedimentares e das que delas derivaram por metamorfismo e anatexia (fusão em profundidade e transformação num magma); 

SE adquirir preparação de base nestes domínios, irá entender a maravilhosa história do planeta que nos deu e assegura a vida, e deixará de olhar para a Geologia como uma disciplina desinteressante e fastidiosa, que, tantas vezes, professores não habilitados debitam, acriticamente e sem entusiasmo, por dever de ofício, matérias estereotipadas e isoladas de um todo harmonioso, matérias que o aluno decora por obrigação curricular e que lança no caixote do esquecimento, passado que foi o exame final. 

Tem sido este o quadro nas nossas escolas, amarradas ao programa oficial, onde a Geologia sempre foi subalternizada. Quadro em que o cidadão comum, marcado por uma conhecida e lamentável iliteracia geológica (e não só), cresceu e cumpriu a escolaridade obrigatória. Quadro em que, salvo as sempre honrosas excepções, cresceram e se formaram as mulheres e os homens que hoje temos na política, na administração, nas empresas, na cultura, na comunicação social. 

Na Enciclopédia (com mais de 50 volumes) de “Os Irmãos da Pureza” (nome de uma fraternidade de filósofos ismaelitas que se admite terem vivido em Bassorá, no Iraque) obra colectiva, inspirada nas filosofias pitagóricas, platónicas e neoplatónicas, aristotélicas e na do próprio Corão, acabada por volta do ano de 980, diz-se, numa notável antecipação aos conceitos modernos, que “a erosão destrói perpetuamente as montanhas e que o escorrer das águas pluviais arrasta rochedos, pedras e areia para o leito das torrentes e rios; diz-se ainda que, por seu turno, ao escoarem-se, os rios acarretam tais materiais para os pântanos, lagos e mares, onde os acumulam sob a forma de camadas sobrepostas”. 

Diga-se que o principal objectivo destes “Irmãos” era o conhecimento do Universo, na sua grande harmonia e beleza, apontando a necessidade de uma preocupação que fosse para além da existência material. No século XIII, Alberto, o Grande (1206-1280), aludia ao “lodo agarradiço e viscoso, trazido pelas águas, que cimenta a terra (material detrítico, desagregado) e a transforma em rocha dura”. 

No século XIV, Jean Buridan (circa 1300-1360), filósofo francês e reitor da Universidade de Paris, questionou algumas das concepções aristotélicas. Escrevia ele, reformulando uma ideia vinda da Antiguidade: “Onde hoje se encontra o mar foi outrora terra e, inversamente, onde a terra firme está no presente, esteve o mar e aí voltará”. 

No século XV, Leonardo da Vinci (1452-1519) admitia que “os fósseis encontrados nas montanhas eram restos de seres vivos depositados no fundo dos mares”. Polemizando entusiasticamente com os defensores de ideias conservadoras, contrárias às suas, da Vinci descreveu notavelmente os grandes processos actuais e passados da erosão, transporte, sedimentação e fossilização, numa óptica muito próxima das concepções actuais. 

No século XVII, o dinamarquês Niels Steensen (1638-1686), mais conhecido entre nós por Nicolau Steno, médico e cientista, teve papel igualmente importante na área da geologia sedimentar, no seu todo, incluindo a estratigrafia, muito antes desta disciplina se ter afirmado como tal, dizia: “se as conchas e outros restos de antigos seres vivos, encontrados nas rochas de uma dada região, são despojos de animais marinhos, as camadas que os contêm são necessariamente marinhas”, concluindo que o mar ocupara essa região. 

Por outro lado, ao dizer que “as camadas são formadas paralelamente à horizontal, em obediência à gravidade terrestre”, Steno introduziu o que ficou conhecido por “princípio da horizontalidade original”, concepção que lhe permitia concluir: “quando as camadas se encontram inclinadas, tal é devido a deformação posterior”. Uma outra sua afirmação, segundo a qual, “qualquer camada é mais moderna do que a que lhe fica por baixo e mais antiga do que a que lhe está por cima”, foi considerada o “princípio fundamental da estratigrafia”, pois mostrou que as camadas sedimentares são cada vez mais modernas à medida que se sobe na série. 

Estas afirmações constituem hoje verdades mais do que evidentes, mas foram, na época, grandes passos em frente. Com este autor, as sucessões de camadas sedimentares passaram a funcionar como “arquivos da natureza”, como lhes chamou, mais tarde, o naturalista e geólogo alemão Peter Simon Pallas (1741-1811), e o geólogo francês Faujas de Saint-Fond (1741-1819), ou como “anais do mundo físico”, no dizer do padre francês, Giraud Soulavie (1752-1813), fundador da moderna estratigrafia paleontológica. 

Por esta altura, o inglês James Hutton (1726-1797), considerado o pai da geologia moderna, ensinava que “a história da Terra pode ser decifrada a partir do estudo das rochas sedimentares estratificadas, uma vez que estas rochas se geraram de modo comparável ao dos modernos sedimentos em formação sob os nossos olhos”. Este raciocínio é hoje usado, automaticamente, sem qualquer hesitação, quando, através do estudo das rochas sedimentares, procuramos conhecer o ambiente e as condições em que foram geradas, ou seja, a “fácies”. 

Uma tal concepção, que constituiu um passo decisivo no conhecimento geológico à escala global, assenta no que foi o trabalho deste professor da Universidade de Edimburgo e o do seu concidadão Charles Lyell (1797-1895), corroborado por Charles Darwin (1809-1882) através do estudo do evolucionismo. Conhecido por “Princípio do Uniformitarismo”, do “Actualismo”, ou das “Causas Actuais”, dele se conhece a expressão que ficou clássica, “O presente é a chave do passado”. 

Esta frase diz concretamente, na situação em que aqui é usada, que qualquer corpo de rocha sedimentar foi depositado por agentes como gravidade, chuva, vento, água corrente, gelo, acções marinhas, etc., todos eles processos familiares nos dias de hoje. As rochas sedimentares, no geral, sedimentos antigos posteriormente litificados, guardam as marcas deixadas pelos ambientes e agentes deposicionais semelhantes aos actuais.

É, pois, com base neste princípio que se elaboram reconstituições paleoambientais contemporâneas das rochas sedimentares que vemos por todo o lado. Hutton dizia que “a Terra é um sistema dinâmico, cuja superfície está constantemente em transformação em virtude, não só do calor armazenado no seu interior, mas também dos efeitos causados em superfície pela energia solar”. Por outro lado, no desenvolvimento da teoria plutonista (formação de rochas magmáticas em profundidade), de que foi o protagonista mais visível, as rochas sedimentares ganharam o significado que não tinham tido até então.

Com efeito, o modelo cíclico de renovação da crosta terrestre, implícito nesta visão, resulta, segundo ele, “de um equilíbrio dinâmico entre a elevação das montanhas, por efeito do calor interno, e a sua posterior erosão”. Hutton mostrou, ainda, que os materiais resultantes desta erosão eram acumulados em sucessivas camadas sedimentares e aí consolidavam, originando rochas como conglomerados, arenitos, argilitos, calcários, entre outras. 

Ao dizer que “as camadas de rochas sedimentares foram antigos sedimentos que se transformaram em rochas”, este fundador da moderna geologia dava ênfase à petrificação ou litificação dos sedimentos, habitualmente referida por diagénese. Dizia ainda Hutton que “não via vestígios nas rochas que lhes indicassem um começo”. 

Esta outra particularidade da sua concepção cíclica trouxe, novamente, para a ribalta das grandes controvérsias científicas da época, o problema da dimensão do tempo geológico, imenso na concepção huttoniana, em contraste com os cerca de 6000 anos defendidos pela Igreja de então. 

As ideias inovadoras de Hutton, nomeadamente as referentes ao Actualismo e ao Plutonismo, marcaram o princípio do fim do Neptunismo, um tema a desenvolver num próximo texto…

A. Galopim de Carvalho