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terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Livro "Neuromitos"

 Foi recentemente publicado o livro Neuromitos que pretende refletir sobre a razão porque somos propensos a acreditar em tantos mitos relacionados com o cérebro, e que fatores sociais contribuem para isso, para posteriormente abordar vários desses mitos e desmistificá-los. 

Este livro foi editado pela Contraponto, escrito por Alexandre Castro Caldas e Joana Rato, contando com o prefácio de Carlos Fiolhais e o posfácio de Nuno Crato. 

Podem ler a minha opinião sobre este livro aqui





sábado, 30 de novembro de 2019

APRESENTAÇÃO DE "DIÁLOGOS COM CIÊNCIA" DE ANTÓNIO PIEDADE


Com a devida vénia e agradecimento, transcrevo a seguir o texto da apresentação que a professora Carla Fernandes fez do meu livro "Diálogos com Ciência", aquando do seu lançamento no passado dia 28 de Novembro de 2019, na livraria Bertrand, no Alma Shopping, em Coimbra.

“Diálogos com Ciência”, a obra da autoria de António Piedade, bioquímico, investigador e comunicador de ciência, não é uma novidade, mas antes uma retoma a que a editora “Trinta por uma Linha” deu uma nova e feliz roupagem.
De entre os escritos publicados pelo autor, estes revelam, com particular acuidade, a intenção de conferir uma missão especial aos que se dedicam à investigação: tornar a Ciência acessível a todos, em particular aos mais jovens.
Podemos interrogar-nos para que serve a ciência se não for aplicada em contexto e/ou se não contribuir para a evolução dos saberes do vulgar ser humano. Do ponto de vista epistemológico, este é um aspeto que se discute há muito. De facto, a ciência e a tecnologia são frutos da cultura moderna e pós-moderna que decorrem da investigação praticada nos centros de produção do saber, normalmente situada sob a chancela do meio universitário. Contudo, a forma como as descobertas científicas são divulgadas é uma questão premente, considerando que a maioria dos artigos científicos são publicados em revistas especializadas e o eco do seu impacto para a evolução do conhecimento comum é  tardio ou muitas vezes até inexistente. Essa contradição entre a velocidade a que se produz o conhecimento, freneticamente acelerado hoje em dia, e a lenta perceção dos avanços realizados deve preocupar-nos... Se recuarmos ao século XX, já Habermass (2007) se interrogava sobre qual seria o papel da ciência e a função  que a atividade científica deveria desempenhar na sociedade. Na realidade, concluía o mesmo pensador, que esta força libertadora da tecnologia trouxe com ela a instrumentalização, transformando-se muitas vezes, paradoxalmente, num entrave à própria liberdade humana. A bem do exercício do pensamento crítico e da capacidade de análise do mundo pelos cidadãos, que se querem ativos e interventivos, a transmissão do conhecimento científico e a comunicação em ciência são vetores de investimento inalienáveis para um progresso sustentável.
Neste pressuposto, a atividade do cientista ganharia muito em transformar-se com a comunicação de ciência, por forma a favorecer o acesso, a difusão, a reflexão e, por inerência, a interdisciplinaridade, pois o diálogo entre as ciências é algo primacial para uma construção equilibrada do saber universal. Por outro lado, a comunicação com o mundo do qual partem todas as questões é uma tarefa de básica honestidade. É como se eticamente lhe fosse devida uma resposta às interrogações, não a verdade (que é sempre efémera), mas uma descodificação de conclusões que, afinal, são um investimento de todos os cidadãos.
Invocando o professor Rómulo de Carvalho, lembramos que, em boa hora, expôs o truque da sua pedagogia: “Estimular é saber tirar proveito das coisas, saber encantar, digamos, pôr as coisas em relevo, mesmo as coisas insignificantes(…) Tornar pensáveis as coisas habituais que não se pensam”. “Diálogos com Ciência” segue este esteio de tornar atraente e pensável o que poderia ser aparentemente inócuo e o seu autor é o exemplo desta tentativa salutar.
O livro, dirigindo-se fundamentalmente a um público infantil e juvenil, consegue captar também a atenção de leitores adultos, movidos de natural curiosidade ou pelo interesse intrínseco  por matérias científicas. Isto faz dele um veículo de conhecimento transversal que começa no próprio objeto (pela diversidade de conteúdos científicos que explora) e se estende ao seu recetor, dotado de pluralidade.
A característica dialógica, marcada desde logo no título, põe em relevo um modo de representação do discurso que é efetivamente uma marca do estilo do autor neste género, que oscila entre  a veia literária e o foco das diferentes temáticas científicas abordadas. Na verdade, estas narrativas breves são, muitas vezes,  construídas com recurso a conversas de improviso que expõem, de modo simples, as questões em torno de um determinado problema científico, que se vai desmistificando ao longo da interação entre as personagens. Veja-se, a título de exemplo, a composição química da lágrima, com reminiscências de Gedeão, explicada num tom paciente pelo tio António em “O que tem a tua lágrima?”. As crianças, naturalmente curiosas, questionam, os adultos respondem-lhes, com linguagem clara, e dão exemplos. E assim o leitor vai sendo conduzido para a decifração dos diferentes cambiantes da ciência, explorados em cada história.
Efetivamente, no seu conjunto, estas mini-histórias, nas palavras do autor do prefácio, o Professor Carlos Fiolhais, fazem transparecer a ciência de uma forma natural e simples. Afinal, para compreender melhor o que se aprende nas ciências está ao alcance de um piscar de olhos. Basta ler histórias. Convocamos para esta nossa reflexão a conhecida afirmação de Einstein (ícone intemporal da ciência), que, segundo Maria Emília Traça (1992: 23), sugere à mãe de uma criança que lhe leia contos de fadas.
E citamos: “Era uma vez um famoso físico chamado Albert Einstein, que um dia encontrou uma senhora extremamente desejosa de ver o seu filho triunfar numa carreira científica. A senhora pediu ao sábio que lhe desse conselhos sobre a educação do seu filho, em particular sobre o tipo de livros que lhe deveria ler.
– ‘Contos de fadas’, respondeu Einstein, sem hesitar.
– ‘Está bem, mas que deverei ler-lhe em seguida?’, perguntou a ansiosa mãe.
– ‘Mais Contos de fadas’, replicou o grande cientista acenando com o seu cachimbo como um feiticeiro que prenuncia um final feliz para uma longa aventura.”

Pois bem, é certo que a narratividade favorece a compreensão leitora e talvez a ciência possa tornar-se mais sedutora para todos se for comunicada de mãos dadas com o universo ficcional, sem perder o rigor dos seus fundamentos.
As personagens deste livro são inseridas numa ação povoada de água, peixes, plantas, códigos de ADN, grupos sanguíneos, números e datas, comboios e lágrimas. Na verdade, de tudo isto é composto o mundo humano. As entidades fictícias que povoam estas micro-narrativas, com nomes comuns ou com nomes próprios de ordem comum (a Maria, a Leonor, o Rui…), dotam de inegável universalidade as situações criadas e implicam-nas diretamente com o real. Tal facto confere objetividade à ação, colocando o leitor num universo de verosimilhança que o conduz à descodificação de realidades tangíveis e cientificamente comprovadas. Veja-se, a título de exemplo, o episódio narrado em “Primavera marciana!”, em que o predomínio do discurso direto entre as personagens vai descodificando as noções científicas.
Não obstante, o pragmatismo que se requer numa explicação científica não oculta a beleza que as palavras podem ter. A escrita, enquanto processo de criação conduz muitas vezes a mão do autor para outras incursões ao nível do uso da linguagem. O recurso à metáfora, a que a produção de Piedade não é estranha, no esteio de outros homens de ciência que deram azo ao fio do artístico, como Adolfo Rocha / Miguel Torga ou já citado Rómulo de Carvalho/António Gedeão, do qual se assinalou o aniversário no passado dia 24 de novembro, data  escolhida para assinalar Dia Nacional da Cultura Científica pelo antigo Ministro da Ciência e Tecnologia, José Mariano Gago, em homenagem ao professor, divulgador de ciência e poeta, sempre preocupado com os aspetos pedagógicos associados à transmissão do conhecimento.
De facto, é notória na produção destas histórias breves sobre ciência a cadência das emoções, de que “Música a cores” é exemplo.

“O coração de Leonor batia numa cadência agitada. Parecia que o coração queria saltar-lhe do peito e ir dançar com ela e com as folhas que chovem das árvores no Outono. Mas não era só por causa do sobressalto que se adicionava ao tambor cardíaco. Leonor estava ansiosa. Procurava sons da Natureza ao longo do caminho desde a escola até à sua casa. mas o barulho da cidade era tão intenso que não conseguia descortinar sons que associasse a outras coisas que não fossem carros, aviões, comboios, equipamentos de climatização, entre tantos outros elementos da orquestra citadina.” (p. 29)

Tudo isto para introduzir um episódio sobre o cruzamento entre a comemoração do Dia Mundial da Música e a biodiversidade. Afinal, a música está por aí, basta escutá-la...

“Concentrou-se nestas sensações e sentiu que as melodias a inundavam com uma paleta de cores que variava e, consoante a tonalidade do trinado, era mais aguda ou mais grave”. (p. 31)

Há, efetivamente, temáticas, que apelam ao mergulho interior. Piedade não resiste à criação do belo e à linguagem simbólica e estilizada quando nos narra a história de um nascimento em “Silêncio Prodigioso”, onde se cruzam “olhares uterinos”:

- “Já eu existia, ou pelo menos um frágil princípio de mim, e já comunicava sem tu saberes… mas o teu corpo entendia a minha primeira palavra - diz Leonor aninhando o seu olhar numa recordação amniótica, numa lágrima singular a brilhar na face de sua Mãe.
- Vi então a cor do teu silêncio, que afinal ressoava no meu ventre, pronto para muitas e novas mensagens futuras.
De mãos dadas, sentadas na margem do lago, Leonor e sua Mãe estão contemplativas, num silêncio prodigioso.” (p. 23)

Mas, sosseguemos agora a força das palavras e vamos ao objeto livro.
Esta edição renovada, trazida à luz pela editora “Trinta por uma Linha”, oferece-nos algo mais para além do trabalho dos processos de composição textual do autor, aplicados ao conteúdo científico.
As ilustrações de Maria Pimentel, que acompanham o(s) texto(s), tornam a leitura mais leve, mais divertida, por aquilo que acrescentam ao código escrito, traduzindo pictoricamente as ideias, mas conferindo também, em paralelo, a sua assinatura como objeto artístico per si. A apresentação gráfica a preto e branco adequa-se em pleno à natureza discreta da publicação, deixando ao leitor outras pistas de reflexão sobre os diferentes temas que sobressaem destes diálogos interdisciplinares com a ciência. Se atentarmos na capa, note-se como se torna apelativa para os mais jovens, desde o lettering escolhido para o título até à ilustração, que evidencia uma jovem sorridente em interação com alguém, numa observação expressiva do mundo e das suas coisas (o planeta, a natureza, os seres vivos, o tempo... - todos os elementos que se constituem como assunto de conversa neste livro).
Neste livro, texto e imagem em uníssono - cada qual na sua forma, no seu
código e legítimo universo semiótico - presenteiam-nos com a ciência, num
claro diálogo entre o saber e a arte.

Carla Fernandes

Bibliografia
-  HABERMAS, Jurgem (2007). Ciência e Técnica como Ideologia. Lisboa: Ed. 70.
- TRAÇA, Maria Emília (1992). O Fio da Memória. Do Conto Popular ao Conto para Crianças. Porto: Porto Editora.

terça-feira, 26 de novembro de 2019

Lançamento de "Diálogos com Ciência" de António Piedade


O livro "Diálogos com Ciência" de António Piedade, editado pela Trinta por Uma Linha, terá lançamento público na próxima quinta-feira, dia 28 de Novembro, pelas 18h30, na livraria Bertrand no Alma Shopping, em Coimbra. O livro, que tem prefácio de Carlos Fiolhais, será apresentado pelas professoras Carla Fernandes e Helena Duque. A capa e as ilustrações do livro foram concebidas pela ilustradora Maria Pimentel.

sexta-feira, 17 de maio de 2019

Na Feira de Educação e Saúde de Belém

As Doenças Inflamatórias do Intestino (DII) afectam cerca de 20.000 pessoas só em Portugal. Atendendo ao número de pacientes, sugiro que visitem a Feira de Educação e Saúde de Belém, que começou hoje. Aí poderão encontrar a equipa do movimento Doença Crohn/Colite Portugal que lá estará a informar e a sensibilizar para as doenças inflamatórias do intestino. Entre essas pessoas estará a Vera Gomes, autora do livro "Conviver com as doenças inflamatórias do intestino".

Para chegar aos doentes, aos seus familiares e a outras pessoas que convivam de perto com a doença, hoje às 13h, a Vera Gomes esteve na Farmácia Fontes Pereira de Melo (em Picoas, Lisboa) a conversar sobre este tipo de doenças. 

Amanhã, das 14 às 15h, a Dr. Joana Torres, gastroenterologiata do Hospital Beatriz Ângelo, dará uma apresentação sobre Doenças Inflamatórias do Intestino. 

No Domingo, haverá um concerto no Largo do Intendente. 

Para saberem mais sobre a doença e as suas consequências na vida de uma pessoa, recomendo a leitura do livro acima mencionado, assim como o blogue da Vera Gomes.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

LANÇAMENTO DO LIVRO "ÍRIS CIENTÍFICA 5", DE ANTÓNIO PIEDADE, EM CONDEIXA-A-NOVA

O livro "Íris Científica 5", de António Piedade, que tem prefácio do professor Carlos Fiolhais, vai ser lançado no dia 23 de Fevereiro, Sábado, pelas 16h30, na Biblioteca Municipal Engº Jorge Bento, em Condeixa-a-Nova. 

O livro, que reúne 31 crónicas de divulgação científica, será apresentado pelo professor João Fernandes, director do Observatório Geofísico e Astronómico da Universidade de Coimbra.

A sessão, que terá início pelas 16h30, incluirá também uma palestra sobre "A Ciência na Poesia Portuguesa", proferida por António Piedade, e a actuação do Grupo Vocal Ad Libitum.

No final será servida uma "Escarpiada de Honra" a acompanhar uma sessão de autógrafos.


sexta-feira, 17 de agosto de 2018

NOVO LIVRO DO “POETA DO ESPAÇO”

Artigo primeiramente publicado na imprensa regional portuguesa.




Hubert Reeves, astrofísico nascido em 1932 na cidade de Montreal, no Canadá, tem-se destacado como um dos mais prolíficos e populares divulgadores de astronomia e astrofísica a nível mundial. Com mais de uma dezena de livros de divulgação científica publicados em diversos países, que alcançaram muito sucesso, Reeves destaca-se pela sua escrita translúcida e acessível, mas que mantém o rigor científico, escrita pautada com um estilo poético que o caracteriza e que, por isso, é por muitos considerado como o “Poeta do Espaço”.



Entre nós, as obras de Hubert Reeves têm sido publicadas pela editora Gradiva, principalmente na sua prestigiada colecção “Ciência Aberta”. O primeiro, “Um pouco mais de Azul”, publicado em 1983, foi logo o número 2 desta colecção. O leitor encontra na “Ciência Aberta” os outros títulos deste autor, cuja leitura continua sempre interessante e actual.

E, neste último mês de Julho, foi publicado o mais recente livro deste cativante astrofísico: tem por título “O Banco do Tempo que Passa – Meditações Cósmicas”, e é o número 228 da colecção “Ciência Aberta” da Gradiva.

Com tradução de Tiago Marques e revisão científica de Carlos Fiolhais, este novo livro de Hubert Reeves é destinado a todos os que se questionam sobre a natureza do Universo, sobre as questões imemoriais e primordiais da Humanidade, sobre as novas questões que o conhecimento científico tem feito desabrochar, sobre as questões que ainda não têm resposta e que nos inquietam. Como escreve Hubert Reeves no Preâmbulo, “este livro destina-se a todos os que se interrogam sobre o grande mistério da realidade na qual o nascimento nos pôs a viver durante algum tempo”. É um livro para todos.

Ao longo de 336 páginas, Hubert Reeves partilha connosco as suas reflexões e a sua visão do Universo em que coabitamos e convida-nos a participar nesta aventura Humana que é a de sermos capazes de nos interrogar sobre a nossa própria existência, sobre as nossas origens e o nosso destino.

Com uma liberdade de pensamento genuína e livre de preconceitos, mantendo uma consciência lúcida sobre a incompletude do conhecimento científico e o papel crucial da dúvida, do erro e da incerteza na ciência, com uma humildade que advém da consciência da ainda muita ignorância que detemos sobre como o Universo “funciona”, Reeves reflecte connosco sobre a existência de Deus, sobre a necessidade de humanizar a Humanidade, sobre as alterações climáticas, sobre a evolução do Universo desde o Big Bang até ao aparecimento da consciência neste planeta azul, sobre o papel do acaso na evolução e no aumento da complexidade do Universo, entre muitos outros assuntos com que todos somos confrontados ao longo da nossa viagem pela vida.

Carlos Fiolhais escreve que este “é o livro dos livros de Reeves: uma súmula dos seus pensamentos sobre o Universo e sobre nós próprios”. E é, de facto, um privilégio podermos partilhar com o Hubert Reeves o seu conhecimento e cultura, o seu fascínio pela música e outras formas de arte que são, segundo o astrofísico, as expressões mais maravilhosas da evolução da vida no nosso planeta.

Sentemo-nos com Hubert Reeves neste seu “Banco do Tempo que Passa” e enriqueçamo-nos com os diálogos que ele estabelece com o leitor. Um livro para ler e reler ao acaso da nossa liberdade de escolha e interesse.

António Piedade

domingo, 7 de janeiro de 2018

A CIÊNCIA NÃO É SÓ DOS CIENTISTAS

Texto primeiramente publicado na imprensa regional.



A ciência não é só dos cientistas. A ciência é de todos os cidadãos. Mas, para que todos possamos ter acesso à ciência desenvolvida pelos cientistas, é necessário a mediação de divulgadores e comunicadores de ciência.
Martin Rees, astrofísico de renome mundial, é um dos incontornáveis divulgadores de ciência do nosso tempo. Astrónomo Real da Grã-Bretanha e ex-presidente da Royal Society de Londres (a mais antiga sociedade científica do mundo), Rees escreveu vários livros de divulgação científica entre os quais o popular “O Nosso Habitat Cósmico”, publicado em Portugal pela Gradiva.
Em Outubro passado, a Gradiva publicou na sua prestigiada colecção “Ciência Aberta” mais uma obra de Martin Rees: “Para o Infinito – Horizontes da Ciência”. Parece-me pertinente transcrever aqui o início da introdução deste livro: “A ciência está a interferir mais do que nunca nas nossas vidas. Muitos assuntos políticos fulcrais – energia, saúde, ambiente, etc. – têm uma dimensão científica. Na verdade, as escolhas que os nossos governos fizerem nas próximas décadas podem determinar o futuro da Terra. O século XXI é o primeiro na História da Terra em que uma espécie, a nossa, tem o poder de determinar o destino de toda a biosfera. A ciência não é apenas para os cientistas: as decisões sobre o modo como ela é aplicada devem resultar de um debate público alargado. Mas, para que isso aconteça, todos nós devemos ter uma «ideia» dos conceitos-chave da ciência. Além da sua importância prática, estes conceitos devem ser parte da nossa cultura comum. Os grandes conceitos da ciência  – ou, pelo menos, umas «luzes» destes – podem ser transmitidos através de termos não técnicos e imagens simples.”
Com uma linguagem muito acessível, ajudada por uma boa tradução do original inglês para o português feita por Maria de Fátima Carmo, Martin Rees apresenta-nos neste livro vários aspectos da relação entre a ciência, os cientistas, os políticos, o público em geral, entre outros assuntos como seja o do próprio futuro da ciência. O livro é composto por quatro capítulos que resultaram da transcrição de igual número de palestras, incluídas nas populares Palestras Reith da BBC inglesa, que o autor concebeu e que foram proferidas em 2010. O seu conteúdo continua actual e muito pertinente. Os quatro capítulos são: O Cidadão Científico; Sobreviver ao Século; O Que Nunca Saberemos; Um Mundo em Fuga. Cada um ocupa cerca de trinta páginas, que preenchem bons momentos de leitura sobre assuntos que nos dizem respeito a todos. Reflexões lúcidas sobre problemas que estão na agenda do nosso mundo actual, como sejam o aquecimento global, ou o impacto da internet na nossa sociedade. Os quatro capítulos podem ler-se independentemente um dos outros, pelo que a curiosidade do leitor guiará a sua leitura.
Como escreve Martin Rees, a ciência, para além de nos permitir ter noções que sustentam opiniões próprias sobre os maiores desafios da humanidade, é uma fonte de prazer e de maravilhamento para toda a gente. Assim também é com a leitura deste livro que aconselho a todos.


António Piedade

sábado, 30 de dezembro de 2017

Opinião: Íris Científica 4

Faz já doze anos que António Piedade publicou o seu primeiro livro Íris Científica (2005), pela editora Mar da Palavra. Foi preciso esperar seis anos para o leitor conhecer o seu segundo livro, Caminhos de Ciência (2011). A partir daí, o autor já não mais parou, apresentando ao público um novo livro ao ritmo de quase um por ano. Entretanto, poderíamos ir acompanhando a sua escrita sobre ciência nas crónicas que publica regularmente na imprensa regional. Têm sido, aliás, esses os textos que têm alimentado a coleção Íris Científica, que já vai no quarto volume. Este novo livro é constituído por trinta e três textos, divididos em duas partes: “Além no Espaço” e “Aqui na Terra”.



A coleção Íris Científica é muito mais do que uma coletânea de textos publicados na Imprensa Regional. Trata-se de uma seleção de temas, que nos dá a conhecer as mais recentes descobertas e avanços científicos, e que vai sendo atualizada anualmente. Para quem, por motivos profissionais ou por falta de tempo, não consegue acompanhar o conhecimento produzido em várias áreas da ciência, pode encontrar neste livro um resumo de uma parte da investigação realizada tanto a nível nacional como internacional. Além disso, por estar escrito de um modo claro para diversos públicos, tanto pode ser lido por jovens alunos como por adultos interessados na ciência. Estou certo que este livro ainda servirá para aqueles que, no futuro, tenham curiosidade em conhecer que ciência fora produzida no passado – o nosso presente. Porventura, ainda poderá servir de ponto de partida a futuros historiadores da ciência. Trata-se, pois, de uma coleção útil a ter por perto, em qualquer biblioteca pessoal. Que o ano 2018 traga o quinto número desta coleção.


segunda-feira, 7 de março de 2016

PAIXÃO PELA FÍSICA

Recensão primeiramente publicada na imprensa regional.



Muito provavelmente também aconteceu consigo. Há professores cuja influência nos acompanha pela vida fora. Professores que, com o seu entusiasmo e carisma contagiante, nos iluminaram o caminho, nos ensinaram de forma apaixonante uma dada disciplina, nos mostraram a beleza que há mesmo nas matérias mais difíceis. Em suma, há professores que mudam a nossa vida debruando-a com a paixão que há em compreender, em saber.

Entre nós há, felizmente, muitos exemplos de professores desses. Exemplo maior nas ciências foi o professor de física e de química Rómulo de Carvalho, que ensinou apaixonadamente várias gerações de alunos que lhe ficaram e estão agradecidos.

Na Física, a nível mundial, há um professor que se destaca: Walter Lewin. O leitor poderá não o conhecer. Mas, acredite, se assistir a uma aula dele passará a olhar para a Física com entusiasmo. Se já gostar de Física, ficará deslumbrado com a forma apaixonada, divertida e simultaneamente rigorosa com que Walter Lewin ensina as matérias mais difíceis e exigentes da Física.

E onde é que pode assistir às aulas deste professor? Na comodidade da sua casa, através do YouTube, na internet. É que as aulas que Lewin deu durante décadas no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), estão disponíveis para nosso encanto aqui. Têm sido excecionalmente populares ao longo dos anos. As 94 aulas disponíveis (três cadeiras completas, entre elas a famosa “Física 8.01”, e sete aulas temáticas) têm cerca de 3 mil visualizações por dia, mais de um milhão de alunos por ano!

O talento só dá frutos com muito trabalho e dedicação persistente. E o sucesso deslumbrante das aulas de Walter Lewin deve-se, segundo o próprio, a um trabalho meticuloso e pormenorizado, em que cada palavra, cada demonstração foram planeadas e preparadas muitas vezes antes de cada aula. Lewin era conhecido entre os colegas por fazer um último ensaio geral às cinco da madrugada do dia em que dava aulas para plateias de 400 alunos. Sim, ensaio geral: as aulas deste físico, de origem holandesa, envolvem demonstrações experimentais espantosas e surpreendentes. Lewin chega a colocar em algumas delas a sua própria vida aparentemente em risco. Aparentemente, pois a confiança e o rigor científico asseguram-lhe que de facto nada de mal lhe vai acontecer durante as demonstrações. A sua confiança na ciência é espectacular!

“Apresento as pessoas ao seu próprio mundo, o mundo em que vivem e que lhes é familiar e que não abordam como um físico – ainda não abordam”, diz Lewin para explicar o segredo do seu sucesso. É esta aproximação da Física ao dia-a-dia de todos nós que facilita a compreensão dos fenómenos.

Para coroar décadas de ensino numa das melhores escolas do mundo (o MIT), Lewin escreveu em 2011 o livro “A Paixão da Física – do final do arco-íris à fronteira do tempo, uma viagem pelos prodígios da Física”. Este livro foi agora publicado entre nós pela Gradiva, integrado na sua prestigiada colecção “Ciência Aberta”, com o número 214. O livro é prefaciado por Warren Goldstein, prestigiado historiador e ensaísta, ele próprio um entusiasta da Física e do trabalho desenvolvido por Lewin.




A tradução do original inglês é de Florbela Marques que fez um excelente trabalho. A revisão científica é de Carlos Fiolhais (que também é o actual director da colecção) e a revisão de texto ficou a cargo de Helena Ramos. São 400 páginas de puro fascínio pela Física e uma excelente obra de divulgação científica para todos.

Ao longo de quinze capítulos, Lewin conta-nos as suas aulas, a sua vida enquanto professor e cientista. Mas este livro está comoventemente compaginado com uma componente humana, em que Lewin partilha connosco como em criança escapou aos nazis, os seus tempos de estudante na Holanda, como começou a ensinar e conquistou uma cátedra do outro lado do Atlântico.

Walter Lewin também foi um extraordinário físico experimental: foi pioneiro na astronomia de raios X, contribuiu para a nossa compreensão de supernovas, de estrelas de neutrões, para a investigação experimental sobre existência de buracos negros. E a história desta ciência também é descrita na primeira pessoa neste livro, contribuindo assim com um testemunho pessoal para a história de como se faz ciência de qualidade na fronteira do conhecimento. É, assim, também um livro de história da ciência.

Esta obra é uma forma excelente de Lewin divulgar o seu entusiamo contagiante pela Física àqueles que não puderam ser seus alunos. Muito bem escrito, numa linguagem acessível e contagiante, este livro guia-nos pelo nosso mundo explicando como funciona através da Física que com ele passamos a compreender. É destinado a todos, porque todos gostamos de compreender o universo em que existimos. Apaixone-se pela Física com este livro.


António Piedade

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

PREFÁCIO A “DIÁLOGOS COM CIÊNCIA” DE ANTÓNIO PIEDADE

Meu prefácio ao último livro de António Piedade, que acaba de sair em edição de autor (pedidos ao próprio):



António Piedade, bioquímico e divulgador de ciência autor de Íris Científica (Mar da Palavra, 2005) e de Caminhos de Ciência (Imprensa da Universidade de Coimbra, 2011) para além de algumas edições de autor que são tesouros da divulgação pouco conhecidos que o leitor será feliz se encontrar (como o livro infantil Silêncio prodigioso, 2012, e Íris Científica 2, 2014), brinda-nos com mais um volume, Diálogos com Ciência. Tem-se distinguido pelas suas crónicas dominicais no Diário de Coimbra, pela coordenação do projecto “Ciência na Imprensa Regional”, promovido pela Ciência Viva – Agência Nacional para a promoção da Ciência e da Tecnologia e pelo apoio à dinamização de actividades de divulgação de ciência no Rómulo – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra.
Há em António Piedade uma perseverança notável desde o seu primeiro livro saído há dez anos. O seu objecto de escrita continua a ser a ciência, e não apenas a ciência bioquímica que ele domina mas também outras ciências como a matemática, a astronomia, a física e a química, e o estilo continua a ser a junção de pequenas peças numa prosa de laivos poéticos, que remete quase sempre para conversas do quotidiano. O tamanho dos seus textos tem a ver com o facto de eles terem vindo a lume na imprensa, competindo no espaço com as notícias e com a opinião. Por sua vez, a sua oficina literária bebe decerto inspiração em Rómulo de Carvalho, o professor de Física e Química que praticou tanto a pedagogia, a história e a divulgação como a poesia e o teatro (disfarçado sob o nome de António Gedeão). Num país onde a cultura científica ainda escasseia e onde nem sempre são devidamente premiados os esforços para a espalhar, António Piedade tem vindo, ao longo dos anos, a afirmar-se como uma voz tão distinta como segura, tanto nos livros como na imprensa como ainda na Web (destaco a sua participação de há anos no blogue de ciência e cultura científica De Rerum Natura). A sua persistência na comunicação de ciência ao grande público, adulto ou infanto-juvenil, por uma variedade de meios, merece encómios.

O diálogo é um género literário com grande tradição na história da ciência. Foi sob essa forma que o físico italiano Galileu Galilei escreveu diversos dos livros que trouxeram, no século XVII, a ciência moderna: nos Diálogos sobre os Dois Principais Sistemas do Mundo (1632) Salviati, Simplício e Sagredo discutem a mecânica e os mesmos três personagens reaparecem na sua obra final Discursos e Demonstrações Matemáticas sobre Duas Novas Ciências (1638). Os dois livros são escritos em italiano para que a nova ciência pudesse extravasar dos estritos círculos dos letrados. No século anterior, mais precisamente em 1563, já o português Garcia da Orta tinha tentado romper o confinamento da ciência aos sábios ao escrever, na forma de diálogo e em bom português, os seus Colóquios dos Simples e Drogas e Coisas Medicinais da Índia. Os personagens que trocam opiniões são o próprio Orta e o Doutor Ruano, um colega fictício que o visita. Tanto os livros de Galileu como o de Orta foram pioneiras na história das ciências que versam.

Na moderna divulgação de ciência, o diálogo tem ainda a propriedade de seduzir pela fluência das perguntas e respostas. O segredo do autor de divulgação será sempre o de colocar na boca dos seus personagens as perguntas e as respostas que o leitor presumivelmente terá a respeito do mundo, em particular das partes do mundo que mais o encantam. As respostas da ciência têm de ser interiorizadas pelos seres humanos que formulam as questões. E, para isso, nada funciona melhor do que a sua ligação dessas respostas à vida dos personagens.

Piedade começa por um diálogo sobre um aniversário entre uma menina de doze anos e o seu avô, no qual um jogo de números serve para mostrar a intemporalidade das proposições matemáticas. No texto seguinte, uma mãe que, inquirida pela filha sobre o aparecimento dos peixinhos num lago, lhe explica a semelhança entre a sua história pessoal e a dos peixes que está a ver: “Na alvorada do teu quarto dia chegaste ao interior do meu útero, e, na partitura do teu desenvolvimento, já estavas no estado de blastocisto. Ou seja, tu eras um conjunto de mais de 64 células.”. No texto seguinte, assistimos à conversa entre Joana e o seu irmão mais velho sobre a sucessão das estações do ano na Terra... ou em Marte (“Há Primavera em Marte?”). Depois, é outra menina que resolve, no Dia Mundial da Música, ir escutar os sons da Natureza. No texto seguinte, “Cores do Outono”, não há diálogo mas o leitor pode deliciar-se com uma descrição poético-científica da queda das folhas. Sente-se a presença de Gedeão, o autor de “Lágrima de Preta” em “O que tem a tua lágrima?”, um diálogo entre Rui e o seu tio. Depois, Patrícia interroga-se sobre os elementos químicos dentro de si: ela tem 33 quilogramas de moléculas de água, combinações de hidrogénio e oxigénio. A invocação de Gedeão volta em “O tio Antão”, uma conversa entre tio e sobrinho, no qual o primeiro transmite a ideia de movimento, por exemplo de um berlinde. Em “Um relógio que flui dentro de ti!”, Henrique observa ao microscópio uma gota de sangue, motivado por um artigo da Nature. Os dois textos que se seguem referem-se aos prémios Nobel de 2010 e 2011, apresentados sob a forma de metáforas ferroviárias. Na sequência surge Helena com uma flor na mão, um “bem-me-quer”, que é surpreendida por um amigo. No texto seguinte aparece o único personagem de fantasia, Etolas, o “arquitecto de minérios”. Na continuação dá-se um regresso à matemática, com um “Diálogo de zeros”, literalmente uma conversa entre zeros, e os “Doze Anos”, onde Ana conta pelos dedos. Para terminar, o avô Jaime e os seus dois netos gémeos celebram os 60 anos ao mesmo tempo do avô e da estrutura do ADN, já que Jaime nasceu no ano em que Watson e Crick identificaram a famosa dupla hélice.

Eis um passeio muito diversificado pela ciência: aniversários, peixes, estações do ano, sons, folhas, lágrimas, água, berlindes, sangue, comboios, números e código genético. Convido os leitores, jovens ou menos jovens, a lerem estas mini-histórias. Ficarão decerto seduzidos pela ciência que está omnipresente no livro, reflectindo a ciência que está por todo o lado, tanto à nossa volta como dentro de nós. Somos parte do mundo e somos também, tanto quanto sabemos, a única parte do mundo que se encanta e se interroga sobre ele. O encanto e o questionamento vão em paralelo, como bem mostra António Piedade.

(Nota do António Piedade: Quem estiver interessado num exemplar envie um email para apiedade@ci.uc.pt)

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

APRESENTAÇÃO DE "ÍRIS CIENTÍFICA 2" NA LIVRARIA ALMEDINA



Nova apresentação do meu novo livro "Íris Científica 2", desta vez na Livraria Almedina, no Estádio Cidade de Coimbra, no dia 21 de Janeiro, pelas 18h00.
Será apresentada pelo jornalista Lino Augusto Vinhal.
O actor e encenador Mário Montenegro, lerá passagens do livro.
O jovem e talentoso violinista Fernando Meireles abrirá a sessão com um momento musical.


segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

“JARDINS DE CRISTAIS: QUÍMICA E LITERATURA”

Texto primeiramente publicado na imprensa regional.




Sérgio Rodrigues é Professor do Departamento de Química da Universidade de Coimbra. Mas a sua actividade científica não mora só no interior do edifício daquele Departamento. Em particular, há a destacar a sua dedicação à divulgação científica, em particular, e naturalmente, da química. E tem-lo feito de uma forma muito talentosa e impregnada de utilidade para todos.


Sérgio Rodrigues tem conseguido mostrar, de forma acessível a todos, que a química está presente no nosso quotidiano e que é possível encontrá-la amiudamente nas nossas vidas. Numa iniciativa muito interessante e intitulada “Passeios com Química”, de que se realizaram meia dúzia de sessões, Sérgio Rodrigues mostrou aos participantes que é fácil encontrar química à nossa volta. Podemos virtualmente revisitar esses e outros passeios no seu blogue “PercursosQuímicos cuja visita aconselho. Nos artigos que ali se encontram a tornar visível a química do mundo em que existimos, há um aspecto que ressalta: o da qualidade literária da sua escrita.

E é de facto do encontro entre literatura e química que agora vos escrevo, para anunciar a publicação recente do livro com o belo título “Jardins de Cristais”, de Sérgio Rodrigues, editado pela Gradiva na sua colecção “Ciência Aberta”, com o número 209. É, assim, mais um autor português a integrar esta incontornável colecção de divulgação científica. O prefácio é do neurocirurgião João Lobo Antunes e é também ele uma peça de literatura que apetece revisitar sempre (assim como o livro).

Diga-se que este é um livro que faltava na língua portuguesa. De facto, antes dele não havia nenhuma obra que tratasse o encontro da química na literatura universal, escrito originalmente em língua portuguesa. É assim um livro ímpar mas que não ficará só, uma vez a sua qualidade irá com certeza inspirar outros a escrever ou pelo menos a pensar sobre o assunto que trata e, seguramente, a olhar para a química com maior visibilidade.

O subtítulo do livro é “Química e Literatura” o que entreabre uma janela para o horizonte do livro. Ao longo de 279 páginas o leitor é transportado eruditamente pela história da literatura universal, desde os clássicos gregos, passando pela Bíblia, até a alguns dos best-sellers dos nossos dias. Ao longo da viagem, o autor vai-nos indicando referências mais ou menos substanciais de química, que aparecem surpreendentemente onde menos se esperaria. E os exemplos são muitos, o que mostra que a química que mudou a nossa sociedade deixou e deixa a sua assinatura na literatura que nos retrata ou que nos ficciona. Desde, Camões, Camilo Castelo Branco, Eça de Queiroz, Vitorino Nemésio, Torga, Shakespeare, Goethe, Marx, Gabriel Garcia Márquez, Hemingway, entre tantos, tantos outros, Sérgio Rodrigues destaca as referências químicas para nos ensinar e mostrar o quanto a química está presente nas nossas vidas. No que pensamos, no que sonhamos, nos nossos receios e medos, nos nossos amores e paixões. Da pimenta ao amor, do sonho ao sal do “mar português”.

É um livro que mostra, na minha opinião, que a divisão entre “humanidades” e “ciências” é artificial, convencional e redutora. A cultura humana é só uma e isto sem prejuízo do recurso à especialização para melhor compreendermos o universo.

A leitura deste livro torna-nos mais inteligentes e humildes. Mostra-nos a vastidão da nossa cultura, a complexidade humana, e a nossa proximidade aos átomos e às moléculas que compõem tudo o que nos rodeia e de que também somos feitos. Para além de ficarmos a saber mais sobre química, ficamos envoltos nos perfumes da literatura de todos os tempos.

É um livro que devemos ler, reler e viajar com ele. Já é, no meu humilde entender, uma obra incontornável e de referência imprescindível.

António Piedade

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

"ÍRIS CIENTÍFICA 2" - LANÇAMENTO DO NOVO LIVRO DE ANTÓNIO PIEDADE



O que é o tempo? Qual é a rocha mais antiga da Terra? Quando e onde é que se formou o Sol? Que mensagens recebemos do espaço? O que são os vírus e qual sua história? O que são bactérias resistentes? Quando é que os coelhos foram domesticados? Há rãs que congelam? Como é que era o cérebro de Einstein? As lágrimas são sempre iguais? 

Estas e muitas outras perguntas encontram resposta no novo livro “Íris Científica 2”, de António Piedade, que vai ser lançado no próximo dia 16 de Dezembro, pelas 18h00, no Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra

Esta obra de divulgação científica vai ser apresentada pelo Professor Doutor Carlos Fiolhais.


“Íris Científica 2” é um livro que reúne uma trintena de textos que viajam por diversas disciplinas da ciência: biologia, bioquímica, química, física, geologia, astronomia e história da ciência. Os textos estão impregnados de uma abordagem interdisciplinar, o que no geral defende a tese de a cultura científica ser só uma!




segunda-feira, 7 de julho de 2014

A PARTÍCULA NO FIM DO UNIVERSO

Recensão sobre o livro com este título primeiramente publicada na imprensa regional.



Passam-se dois anos desde a comunicação da descoberta do bosão de Higgs. Nada melhor para o celebrar do que termos, agora, à disposição um livro que nos relata a história dessa descoberta científica extraordinária.

Trata-se do livro “A partícula no fim do Universo – como acaça ao bosão de Higgs nos levou ao limiar de um mundo novo”, de Sean Carroll, e foi em finais de Junho publicado pela Gradiva na sua prestigiada colecção Ciência Aberta, título número 208.

Esta é a primeira edição portuguesa deste livro que foi considerado o melhor livro de ciência de 2013 pela Royal Society de Londres (recebeu o Winton Prize for Science Books), o prémio de maior prestígio internacional para livros de divulgação de ciência.

A tradução do original inglês foi feita pelo físico Miguel Fiolhais, um dos físicos portugueses que estiveram envolvidos nas experiências da descoberta. A revisão científica foi efectuada por Carlos Fiolhais que também é o actual director da colecção “Ciência Aberta”. O prefácio desta edição portuguesa é da responsabilidade de José Mariano Gago, Amélia Maio e João Varela, físicos do Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas (LIP) que inclui cientistas portugueses que participaram directamente nas experiências que permitiram detectar o bosão de Higgs. Aliás, o prefácio sublinha e descreve essa participação e é ao mesmo tempo uma homenagem à ciência portuguesa, uma dedicatória ao futuro da ciência em Portugal.

Quanto ao autor deste livro, Sean Carrol, deve dizer-se que se trata de um físico norte-americano que trabalha no California Institute of Technology (Caltech) e que tem presença assídua nos meios de comunicação social enquanto divulgador de ciência. Este é o seu segundo livro de divulgação de ciência, tendo o primeiro, “From Eternity to Here (2010), alcançado grande êxito.

Como se diz no prefácio, «o livro trata da história dessa partícula imaginada (…) o “bosão de Higgs”, e da sua efectiva descoberta ao fim de um esforço experimental mundial sem precedentes na ciência». De facto, ao longo de 400 páginas o autor guia-nos pela história do conhecimento que levou à descoberta daquela partícula, e fá-lo com uma linguagem clara, acessível e com todo o rigor científico. Este livro é na realidade um guia seguro para quem quer compreender os mais intrigantes fascinantes avanços da física moderna, olhar para o horizonte do conhecimento e conviver com as novas perguntas e com o muito que ainda não sabemos sobre a constituição do Universo.

De salientar a inclusão neste livro de três apêndices que permitem aprofundar o conhecimento sobre estes assuntos, e da sugestão de leituras adicionais para quem quiser aprender mais.

Mas afinal o que há de tão especial com o bosão de Higgs? Leia este livro para descobrir a resposta.



António Piedade 

sexta-feira, 6 de junho de 2014

DEZ BONS LIVROS SOBRE CIÊNCIA DE AUTORES PORTUGUESES




Agora que é a época da Feira do Livro, escolhi um top ten de 10 bons livros portugueses sobre ciência de autores portugueses. Estão por ordem alfabética do apelido. Procurou-se algum equilíbrio entre áreas científicas e também contemplar, embora só em pequena parte, o público infantil e juvenil. São dez livros que podiam e deviam existir em todas as bibliotecas públicas portuguesas, pelo menos as escolares. Estranhamente só os livros de Rómulo de Carvalho e de Nuno Santos et al, estão no Plano Nacional de Leitura- PNL, e nenhum dos dois aqui distinguidos como os melhores para ciências e jovens. Os preços indicados são só indicativos, pois todas estas obras se encontram muito mais barato na Feira do Livro.

1-      Jorge Buescu, Casamentos e outros desencontros, Gradiva, 2011 (11 euros).
Um matemático reúne aqui diversas crónicas muito divertidas sobre temas matemáticos. O casamento é também visto como um problema matemático? Deve-se casar com o/a primeiro/a namorado(a) ou não?

2-      Jorge Calado,  Haja luz. Uma história da Química através do tempo,  IST Press, 2012 (46 euros)
O professor de Química do Técnico, apaixonado pela ópera e pela fotografia, faz aqui um extraordinário percurso ricamente ilustrado não só pela história da química mas também pela história da ciência em geral ou mesmo só pela história. Tudo está ligado com tudo!

3-      Rómulo de Carvalho, A Física no dia-a-dia, Relógio d’Água , 1995 (reedição, o original saiu na Atlântida) (14 euros)
O professor de Física e Química e também poeta (António Gedeão) apresenta aqui, para uma pessoa do “povo”, a quem trata por “meu amigo”, os fenómenos da física no quotidiano.

4-      António Damásio,  O Erro  de Descartes. Emoção, razão, e cérebro humano, Temas e Debates, 2011 (reedição, o original saiu nas Publicações Europa-América, tendo saído antes nos Estados Unidos), (19,90 euros)
O médico e neurocientista português, que é um dos nossos emigrantes mais célebres,  discute a relação da emoção com a razão, partindo da obra do famoso matemático e filósofo francês René Descartes, o autor da famosa frase "penso, logo existo".  

5-      Henrique Leitão, Chamo-me... Pedro Nunes, Didáctica Editora, 2010 (10,50 euros).
O nosso melhor historiador de ciência apresenta a um público jovem, num livriinho ilustrado, aquele que é considerado o maior cientista português de todos os tempos. O Plano Nacional de Leitura deve andar muito distraído para deixar os novos jovens afastados deste belo livro...

6-      João Lobo Antunes, Egas Moniz. Uma biografia, Gradiva, 2010 (17 euros)
Um médico neurocirurgião “disseca” a vida de um dos nossos melhores cientistas e o nosso único Prémio Nobel nas áreas das Ciências, também ele neurocirurgião.

7-      João Magueijo, Mais rápido do que a luz, Gradiva, 2003 (obra saída antes em Inglaterra) (16,15 euros)
Um físico residente em Londres apresenta uma sua teoria que pretende pôr em causa a teoria da relatividade de Einstein, revolucionando a Física. Apesar de a teoria não ter sido confirmada e aceite, o livro mostra o desafio e a ousadia associados à ciência.

8-      David Marçal e Carlos Fiolhais, Pipocas com Telemóvel e outras histórias de Pseudo-ciência, Gradiva, 2012 (12 euros)
Inclui-se aqui porque a obra é mais do primeiro autor, bioquímico e divulgador de ciência. Desmistifica com vários exemplos, alguns deles bem divertidos,  aquilo que se faz passar por ciência sem o ser.

9-      Constança Providência e Isabel Schreck Reis.  Ciência a Brincar, Descobre a Terra! Bizâncio, 2001 (9,59 euros)
As autoras, uma física e outra professora do básico, descrevem experiências que se podem fazer com materiais muito simples para crianças entre os 4 e os 10 anos. A colecção onde este livro se insere tem 10 livros que são, entre nós, dos mais vendidos de ciência infantil. Também não está no Plano Nacional de Leitura.

10-   Nuno Cardoso Santos, Luís Tirapicos e Nuno Crato, Outras Terras no Universo. Uma história da descoberta de novos planetas, Gradiva, 2012 (13,50 euros).
Um astrofísico líder mundial na descoberta de novos planetas, um historiador de ciência e um matemático apresentam uma das aventuras mais recentes da ciência contemporânea: a descoberta de planetas extra-solares. Já são muito mais de mil e a contagem prossegue....


Carlos Fiolhais

Nota: Esta lista foi primeiramente publicada no portal Ciência na Imprensa Regional - Ciência Viva.

DEZ RECENTES LIVROS SOBRE CIÊNCIA

Agora que é a época da Feira do Livro, escolhi um top ten de 10 livros recentes sobre ciência que recomendo. Estão por ordem alfabética do apelido.

1 - Pedro Ferreira . Uma Teoria Perfeita, Editorial Presença, 2014.
Um astrofísico português da Universidade de Oxford apresenta ao público geral uma das mais belas teorias da Física, devia ao génio de Einstein: A teoria da relatividade geral, que foi confirmada com as observações astronómicas na ilha do Príncipe em 1919.

2 - Manuel Maria Godinho, A Inovação em Portugal, Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2013
Hoje em dia fala-se muito em inovação, em economia e em desenvolvimento económico baseados na inovação. Um economista do ISEG de Lisboa apresenta aqui de um modo muito simples o que é a inovação dando exemplos. Nos dias de hoje, inovação tem, em geral, a ciência como base.

3 - Stephen Hawking, A Minha Breve História, Gradiva, 2014.
 O famoso astrofísico da Universidade de Cambridge, sucessor da cadeira de Newton apesar de estar há muitos anos confinado a uma cadeira de rodas conta, num livro curto e envolvente, a história da sua extraordinária vida.

4 - Michio Kaku, O Futuro da Mente, Bizâncio, 2014.
O físico norte-americano com origem japonesa que já escreveu com grande êxitos outros livros sobre a Física Moderna, leva-nos aqui aos mistérios do cérebro humano, fazendo uma perspectiva onde poderemos chegar no futuro.

5 - Leonard Mlodinow. Subluminar. Como o Inconsciente controla o nosso pensamento, Marcador,  2014
Um físico teórico norte-americano do Caltech, que já tinha sido autor de um livro com Stephen Hawking, embrenha-se, com exemplos do dia a dia, nos mistérios do inconsciente ou do subconsciente. Em que medida somos racionais?

6 - Carla Morais e João Paiva, Porque pirilampiscam os pirilampos e outras perguntas luminosas sobre química, Gradiva, 2014
Dois professores de Química da Universidade do Porto tentam, com um estilo leve de pergunta resposta, tonar a química atraente para um público jovem. Com êxito.

7 - Manuel Sobrinho Simões, O cancro, Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2014.
O professor de Medicina na Universidade do Porto e fundador do IPATIMUP analisa aqui, para um público vasto (o livro encontra-se nalguns supermercados), uma das doenças mais terríveis do nosso tempo. Mas a ciência está a  lutar contra o cancro e a vencer.

8 - Maria de Sousa, Meu dito meu feito, Gradiva, 2014.
Uma das nossas melhores cientistas, que fez carreira no Reino Unido e nos Estados Unidos (ver “Um mundo imaginado”, de June Goodfield, um dos clássicos da colecção Ciência Aberta da Gradiva) apresenta aqui, embora em fragmentos, a sua visão da ciência e da história da ciência em Portugal. Clarividente!

9 - José Xavier, Experiência Antárctica. Relatos de um Cientista Polar Português, Gradiva, 2014.
Um cientista polar português relata aqui, ao vivo e com a cor das excelentes imagens, a sua vida de meio ano, primeiro a bordo de um navio científico nos mares do Sul e depois numa estação britânica na Antárctica. Fascinante!

10 - Hugh Aldersey-Williams, Anatomias. O corpo humano, as suas partes e as histórias que estas contam, Temas e Debates, 2014
No ano em que passam 500 anos sobre o nascimento do anatomista André Vesálio, um jornalista inglês “escalpeliza” uma das ciências com mais impacto na sociedade: a medicina.

Carlos Fiolhais

terça-feira, 25 de junho de 2013

«A Última Fronteira» e os livros!



A Última Fronteira, a rubrica astronómica semanal televisiva (RTP1 e RTP Informação) que tenho o prazer de coordenar e apresentar aos sábados de manhã geralmente a partir das 9:40h e inserido no programa Bom Dia Portugal, regressou no passado mês de Abril para uma segunda temporada e fruto de uma renovada aposta da RTP neste tipo de conteúdos; como nunca me canso de salientar, o entusiasmo e vontade com a que RTP encara a divulgação astronómica neste tipo de registo é algo a louvar e a merecer um agradecimento e sublinhado muito forte em alturas em que se discute a definição de serviço público e como o mesmo deve ser entendido e praticado numa estação pública. Pessoalmente, e como também sempre fiz questão em salientar, ao nível da divulgação científica conta muito mais a mensagem do que o mensageiro, pelo que o que deve ser aplaudido e reconhecido é a aposta de conteúdos da televisão pública e não de quem os apresenta.

Entretanto, por minha sugestão e com a concordância da direcção da RTP, foi incluído um novo "ponto de interesse" nessa mesma rubrica: desde a passada edição que, sempre que se justifique em termos de quantidade e qualidade, será feita a divulgação de livros da área da divulgação científica e ficção científica publicados por editoras portuguesas em língua portuguesa, preferencialmente novidades.

A literatura de divulgação e ficção científica não tem tradicionalmente (sim, há mesmo más tradições!) grande destaque na nossa comunicação social, na nossa crítica literária mas também nas grandes cadeias livreiras, grandes superfícies ou até mesmo nas mais modestas livrarias do nosso país. Sejam quais forem a razões para tal realidade (não interessa neste momento discuti-las), penso que o exercício de democracia passa também pela promoção da sua Ciência e dos seus pensamentos, práticas, história e veículos de transmissão - neste caso, os livros! E tendo em conta a umbilical relação entre Ciência e Ficção Científica (que é substancialmente diferente de literatura de Fantasia), este último género literário também será contemplado nesta nova "sub-rubrica" do A Última Fronteira. Acredito mesmo que apresentar tais livros e tais géneros literários é também um acto de cidadania, de contribuição para uma maior literacia científica, de serviço público e, como tal, para uma mais saudável democracia. 

Nesta última edição foram apresentados os livros O Céu nas Pontas dos Dedos, de Guilherme de Almeida (Plátano), Astrofotografia, de Miguel Claro (Centro Atlântico), e Ciência e Liberdade, de Timothy Ferris (Gradiva).

Sendo este nosso De Rerum Natura também um espaço de editores e editoras, fica aqui o desafio para os mesmos e para um novo espaço para premiar e divulgar as vossas apostas nestes géneros literários! 

Todos os pedidos de informações deverão ser enviados para o email aultimafronteira@rtp.pt 

sábado, 15 de junho de 2013

NA FRONTEIRA DO CONHECIMENTO SOBRE O COSMOS

Recensão primeiramente publicada na imprensa regional




“We live in a universe that is always changing, full of matter that is always moving.” 
Lee Smolin.

A Gradiva acaba de publicar «O romper das Cordas - Ascensão e queda de uma teoria física e o futuro da Física», de Lee Smolin, livro que nos descreve a evolução e o conhecimento físico contemporâneo sobre o Universo. Um relato invulgarmente lúcido sobre a aventura humana na compreensão do Cosmos.

«Esta história fala de uma busca de compreensão da natureza no seu nível mais profundo. Os seus protagonistas são os cientistas que se esforçam por alargar o nosso conhecimento das leis básicas da física. O intervalo de tempo que irei abordar — aproximadamente desde 1975 — é o do meu próprio percurso profissional como físico teórico. Poderá ser também a mais estranha e frustrante época na história da física desde que Kepler e Galileu iniciaram o nosso ofício, há quatrocentos anos.»

Esta é uma passagem da introdução deste livro fantástico escrito pelo prestigiado físico teórico Lee Smolin. O livro, intitulado «O Romper das Cordas», foi publicado entre nós no final de Abril de 2013 pela Gradiva, na sua colecção Ciência Aberta, nº 199, com o subtítulo «Ascensão e queda de uma teoria física e o futuro da Física». A edição original, «The Trouble with Physics», penúltimo livro do autor, foi publicada em 2006. Esta versão portuguesa foi traduzida por Daniel Tiago Alves Ribeiro e teve a revisão científica de Carlos Fiolhais.




Escrito de uma forma extraordinariamente acessível, este livro foi considerado como o melhor livro do ano por The Economist e Seed.

De facto, estamos perante um dos melhores livros de divulgação para leigos sobre a nossa melhor compreensão contemporânea do Universo. Um livro sobre a aventura da Física na descoberta das leis que descrevem e explicam o comportamento e as propriedades de tudo o que conhecemos, desde as partículas fundamentais até à expansão do Universo, desde o “Big Bang” até aos buracos negros. Um livro que nos permite entender o caminho percorrido desde Galileu até à Física contemporânea, com particular enfoque para a teoria das cordas.

Ao longo do livro Lee Smolin guia o leitor pela história da Física e descreve, numa linguagem impressionantemente clara, o estado actual desta ciência. Sublinhe-se que o autor explica de forma simples, mas rigorosamente, as várias teorias que emergiram principalmente ao longo do século XX, e como estas e os seus autores se relacionaram com a verificação experimental das suas previsões.

O autor, ele próprio um participante activo desta aventura humana, escreve na primeira pessoa. Esse tom pessoal (a física é feita por pessoas), repleto de uma emoção debruada por uma elevada honestidade intelectual, pano de fundo deste livro, acompanha o leitor através do relato e descrição dos sucessos e os insucessos da Física. «A história que escrevo» - diz-nos na introdução - «poderia ser lida por alguns como uma tragédia. Falando muito francamente — e deixando-me de rodeios —, nós falhámos. Herdámos uma ciência, a física, que tinha vindo a evoluir tão rapidamente, e durante tanto tempo, que muitas vezes era tida como exemplo do modo como as outras ciências deviam ser feitas. Há mais de dois séculos, até ao momento actual, a nossa compreensão das leis da natureza cresceu rapidamente. Mas hoje, apesar dos nossos esforços, o que sabemos com absoluta certeza sobre estas leis não é mais do que já sabíamos na década de 1970.»

Com este livro, Lee Smolin faz, de forma corajosa, um ponto da situação sobre o conhecimento da Física actual, indicando as dificuldades reais que os físicos enfrentam. Este também é um livro sobre como é feita a melhor e a pior ciência, sobre a distância entre as melhores e mais elegantes teorias e a sua verificabilidade com a realidade.

Numa época em que a ciência possui o maior e mais complexo instrumento de experimentação sobre a natureza da matéria (o grande acelerador de partículas do CERN), a leitura deste livro permite que os leigos compreendam o que se está a tentar descobrir e porque é que se estão a fazer determinadas experiências e não outras.

É um livro sobre o dia-a-dia e o futuro da Física contemporânea, cuja leitura se recomenda para uma melhor cidadania.

António Piedade