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sábado, 22 de maio de 2021

Dedicatórias que fiz em 2017 e 2019 aos Estudantes de Química e Química Medicinal

[Nunca tive grande interesse pelas praxes. Sempre achei que eram formas de poder e, pior, de violência, mas ao longo dos anos fui começando a ter uma opinião mais favorável. Continuo a abominar as prepotências, mas aceito melhor a parte do divertimento. E tinha de acontecer: em 2017 e 2019 convidaram-me para escrever no livro dos estudantes, eu que nunca gostei, nem participei nas praxes. Foi isto que saiu. Lembrei-me hoje de novo quando Luis Miguel Cintra e Jorge Silva Melo receberem doutoramentos honoris causa].  

Jovens estudantes de Química e Química Medicinal!

É com enorme prazer que vos escrevo estas linhas para acompanhar um dos ritos de passagem que todos os anos, desde tempos imemoriais, estudantes como vós, celebram, evocando de forma profundamente telúrica, subconsciente e oculta, o que é a Universidade.

Universidade é Juventude, Liberdade e Química. Juventude, porque todos os anos se renova, refaz e renasce, com a chegada dos novos estudantes. Liberdade, porque o conhecimento e a sua transmissão devem ser livres para serem responsáveis, criadores e úteis. Química, porque a renovação e a liberdade geram transformações profundas que se mantém em equilíbrio dinâmico. Já era assim antes de Immanuel Kant indicar a liberdade e a renovação como os maiores bens da universidade ou de von Humboldt reconhecer a união fundamental entre o ensino e a investigação. Na verdade, a ideia de Universidade e as suas raízes profundas na juventude, liberdade e equilíbrio são tão fortes, que estão muito para além dos que por aqui vão passando – alguns como cão por vinha vindimada, citando o Miguel Torga do Diário -, e vão bebendo, dando de beber, ou mergulhando nesta fonte sempre renovada que é a Universidade.

Os 726 anos da Universidade de Coimbra seguem a par com a velha canção Gaudeamus Egitur, a qual é ainda mais antiga do que a Universidade de Coimbra. Diz a canção: Gaudeamus Igitur, Juvenes dum sumus. (Alegremo-nos, portanto, enquanto somos jovens). E mais à frente: Vivat academia! Vivant professores! Vivat membrum quodlibet, Vivant membra quaelibet, Semper sint in flore. (Viva a academia! Vivam os professores! Viva cada estudante! Vivam todos os estudantes! Que estejam sempre em flor). Releia-se a última frase: que estejam sempre em flor, ou seja sempre jovens, com ideias frescas, preparados para frutificar e receber e trocar o pólen do conhecimento. Com estas metáforas florais salto a parte da canção que, embora divertida, poderá ser considerada sexista e leio-vos mais um verso: Pereat tristitia, Morra a tristeza! Universidade é também Alegria!

Finalmente, dirijo-me aos jovens futuros químicos e químicos medicinais. Tornar-se químico é adquirir uma forma única de ver o mundo e desenvolver a capacidade de o transformar (em geral para melhor), inventando ou descobrindo novas moléculas e materiais, controlando com rigor as suas propriedades. Actualmente, são descobertas ou inventadas mais de 15 mil moléculas por dia. No decurso da vossa licenciatura serão, dependendo da vossa pressa (ou vagar) mais de 16 milhões de novas moléculas. Entre o momento em que entraram na universidade e o dia de hoje ficaram disponíveis moléculas para o tratamento, por exemplo, de doenças como a hepatite C e alguns tipos de cancros, entre muitas outras. Alguns de vós estiveram presentes, ou terão essa oportunidade no futuro,  nas descobertas e na escrita de trabalhos que poderão mudar o mundo e a vida das pessoas. São neste momento conhecidas mais 133 milhões de substâncias, mas há um espaço químico de cerca de 1 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 milhões de substâncias à espera de serem descobertas!

Com o que o que aprenderam e viveram no Departamento de Química da Universidade de Coimbra que sejam  seta e laser apontados ao futuro. Uma seta sem amarras e um laser que não se apague, contribuindo para o bem e progresso da humanidade, não deixando, como na velha canção, de estar sempre em flor.  

[Em 2019, convidaram-me de novo. Assumi renovar o texto que estava acima. Parece quase auto-plágio, mas o objectivo era realçar o quão pouco parece que se evolui nestas coisas, mas se lerem com mais atenção verão que o número de substâncias descobertas se alterou. Se o escrevesse hoje seriam mais de 180 milhoẽs. Parece que nada muda, mas as coisas modificam-se e muito.]

Jovens estudantes de Química e Química Medicinal!

É com enorme prazer que revisito e renovo o orgulho de vos acompanhar no vosse crescimento como pessoas, cidadãos e químicos, e escrevo umas linhas para o guião do rito de passagem que todos os anos, desde tempos imemoriais, estudantes como vós celebram, evocando o que é ser Universidade.

Disse aos vossos colegas de há uns anos: Universidade é Juventude, Liberdade e Química. Juventude, porque todos os anos se renova, refaz e renasce, com a chegada dos novos estudantes. Liberdade, porque o conhecimento e a sua transmissão devem ser livres para serem responsáveis, criadores e úteis. Química, porque a renovação e a liberdade geram transformações profundas que se mantém em equilíbrio dinâmico. As palavras são as mesmas, mas o seu significado é renovado. Universidade é também a alegria de  se renovar, de ser Estudante e querer saber sempre mais, de ultrapassar fronteiras, de derrubar barreiras, conhecer novos mundos,  produzir saber e cultura, fazer amizades para a vida e contribuir para transformar e melhorar o mundo.

Um químico é alguém que adquire uma forma única de ver o mundo e desenvolve a capacidade de o transformar,  inventando ou descobrindo novas moléculas e materiais, controlando com rigor as suas propriedades. São conhecidas no dia em que vos escrevo mais de 148 milhões de moléculas, sendo descobertas ou inventadas mais de 15 mil por dia. No decurso das vossas licenciatura e mestrado serão descobertas ou inventadas mais de 27 milhões de novas moléculas. Entre o dia em que entraram na universidade até ao dia de hoje ficaram disponíveis moléculas para o tratamento de doenças que não tinham cura e materiais mais sustentáveis que não existiam. Alguns de vós podem ter estado envolvidos nessas descobertas, outros poderão ter essa oportunidade no futuro, mas todos podem à sua maneira e com o que aprenderam no Departamento de Química da Universidade de Coimbra contribuir para o bem comum e para o progresso da humanidade. E, para isso, tão importante como toda a química que puderam aprender, é terem desenvolvido espírito crítico e liberdade de pensamento que vos façam inteiros e completos, capazes de enfrentar os sucessos e as dificuldades, as alegrias e as tristezas, o conhecido e o desconhecido, sem receio e com sabedoria, como no famoso poema de Kipling, If, preenchendo cada inesquecível minuto com sessenta segundos de uma corrida que vale a pena.

Termino com a evocação do velho, mas sempre renovado, hino universitário, Gaudeamus Egitur, Juvenes dum sumus. (Alegremo-nos, portanto, enquanto somos jovens), Vivat academia! Vivant professores! Vivat membrum quodlibet, Vivant membra quaelibet, Semper sint in flore. (Viva a academia! Vivam os professores! Viva cada estudantes! Vivam todos os estudantes! Que estejam sempre em flor). É isso: o meu maior desejo é que estejam sempre em flor, que mantenham a juventude de pensamento e sejam sempre capazes de originar novos frutos. 

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Nasceram há 100 anos e dizem-nos coisas em 2020

As estatístisticas mostram que em 1920 viviam neste planeta cerca de 1,91 milhares de milhões de pessoas (hoje vivem quase oito mil milhões) e que a população cresceu de 1920 para 1921 cerca de 17 milhões. Então, estimo que terão nascido nesse ano para aí uns 30 milhões de pessoas.

Na Grã-Bretanha, 1920 continua a ser o ano com a maior natalidade de sempre: quase 958 mil pessoas. Isso deve-se julgo eu, ao paradoxal aumento de natalidade que se seguiu à mortalidade devida à gripe de 1918-19 em conjunto com a desmobilização dos soldados participantes na primeira guerra. É preciso notar ainda que, em cerca de cem anos, a mortalidade infantil global desceu de cerca de 32% para menos de 4%.

É nesse contexto optimista, com aumento da população, diminuição lenta da mortalidade infantil e popularização (ainda que limitada) dos recursos disponíveis, como o automóvel, que nasceram as nossas heroínas centenárias. Já referi outros nomes, a propósito da literatura de ficção científica: Boris Vian, Isaac Asimov, Ray Bradbury e Frank Herbert. Têm também sido recordados outros nomes: Clarice Lispector, Mécia de Sena, Amália Rodrigues, Bernardo Santareno, Frederico Fellini, Cruzeiro Seixas e Rúben A., entre muitos outros.

Refiro-me a quatro mulheres cientistas: Rosalind Franklin (1920-1958), Elizabeth Cavert Miller (1920-1987), Marie Tharp (1920-2006) e Elaine Morgan (1920-2013). Acho relevante lembrá-las no ano em que o prémio Nobel da Química foi atríbuido a duas mulheres.

Duas foram casadas, duas nunca se casaram. Uma delas, Rosalind Franklin, morreu cedo e está envolvida em muitas histórias malcontadas, mal-entendidos e preconceitos. Poderia ter recebido o prémio Nobel pela descoberta da estrutura do DNA, mas morreu antes. Elisabeth, por outro lado, teve uma relação invulgarmente estável (ela e o marido são os únicos a ter uma biografia colectiva na National Academy dos Estados Unidos). Marie Tharp nunca se casou, mas teve uma relação intensa e conflituosa (dizem que platónica) com os seu chefe. Foi ela que fez o mapa do oceano que a tornou mais famosa do que o seu chefe. Elain foi casada e teve filhos ao mesmo tempo que desenvolveu teorias evolucionistas. Falar das suas vidas privadas será uma forma de machismo?

Julgo que talvez pudesse ser se falássemos das mulheres de hoje, mas tudo tem uma história. Falar da vida privada, dos casamentos e dos filhos das cientistas de hoje será com certeza, mas no tempo em que estas cientistas começaram a ser produtivas e relevante, talvez não seja. Todas, de uma maneira ou doutra sentiram ou referiram explicitamente os preconceitos de que as mulheres eram vítimas. Pelo menos Tharp encontrou um trabalho científico devido a boa parte dos homens ter ido para a guerra. Hoje não seria assim. Na minha opinião, o mais importante de 2020 não são as vacinas, porque isso já se sabia que iríamos conseguir. É sim, a ideia de igualdade e normalidade que conquistámos. Ainda há muito a fazer é certo (nas empresas químicas, por exemplo, os executivos de topo eram só 30% mulheres em 2018), mas vamos chegar lá. 

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

À morte ninguém escapa, ou daqui a tempo suficiente estaremos todos mortos


Este é um ensaio que muitas pessoas podem considerar deprimente. Fala da morte prematura e de uma contabilidade que alguns consideram insuportável, e refere assuntos de que normalmente não queremos ouvir falar. Mas, por outro lado, mostra-nos que vivemos num mundo muito mais seguro e, assim, pode ser encarado com serenidade quer sejamos religiosos ou não. Foi sendo escrito desde há uns anos para um livro e foi depois modificado para um jornal, mas continuava inédito.


No início do livro "A Riqueza e a Pobreza das Nações", David Landes apresenta como exemplo da tragédia que representava a falta do conhecimento que temos hoje em dia, a morte, em 1836, devida a uma infeção, que atualmente seria facilmente curada, de Nathan Rothschild, na altura com 58 anos, o homem mais rico do mundo. Nathan teria ainda que esperar quase cem anos pelos primeiros medicamento ativos contra as infeções, as sulfamidas e mais de cem anos pelo primeiro antibiótico, a penicilina. Teria também de esperar mais de trinta anos pela descoberta e generalização da assépsia, assim como mais umas décadas pela descoberta e uso da salicina e do ácido salicílico como antipiréticos e analgésicos e ainda mais algumas décadas pela descoberta de outros antipiréticos e analgésicos, como ácido acetilsalicílico, mais conhecido pelo seu primeiro nome comercial, aspirina. Também a anestesia demoraria mais de uma década a ser descoberta e a tornar-se comum. A história de Natham é especialmente relevante por ser o homem mais rico do mundo. Vamos encontrar várias outras pessoas que morreram de infeções semelhantes e que também não puderam ser curados, reis e presidentes, não por falta de dinheiro, mas sim por faltarem os medicamentos e os meios que não tinham ainda sido descobertos. Mas a vida não é eterna. Outros morrerão de combinações de idade avançada, azar e doenças ainda sem cura, como a actual doença do coronavírus (as vacinas estão quase prontas, diz-se). Desta doença morreu um banqueiro, Vieira Monteiro, uma cientista, Maria de Sousa, vários escritores, Luís Sepulveda, Rúben Fonseca, Maria Alberta Menéres, Maria Velho da Costa, entre muitos outros.

O veneno é a hipótese mais comum sugerida para as mortes prematuras e vamos encontrar ao longo da história várias supostas e garantidas vítimas. O rei D. Pedro V, o esperançoso, que morreu com apenas vinte e cinco anos, a sua esposa, D. Estefânia, que morreu ainda mais nova, e outros membros da família real, que morreram de doenças hoje evitáveis, como a febre tifóide e a difteria. Um príncipe da altura foi autopsiados pelos maiores e mais respeitados médicos e químicos portugueses da época, e os resultados publicados no jornal oficial do tempo, pois havia a suspeita e alarme público de que tivessem sido envenenados. Mas o envenenamento é residual nas  estatísticas. A maior causa de morte continua a ser as doenças cardiovasculares silenciosas e o sítio mais perigoso continua a ser a cama como referiu Mark Twain! Mas a morte trágica é relevante para a literatura e para a vida. Infelizmente, nem é sempre valorizamos o mais importante. Os dois caminheiros que morreram em 2017 não ingeriram pesticidas nem venenos artificiais, mas raiz de embude, uma planta comum em Portugal e, obviamente, natural.
 
Hoje começamos a ter mais problemas com bactérias resistentes (algo que não é novo - na verdade, sempre os microrganismos resistiram), descobrimos atónitos que ainda temos medo de vírus, discutimos efeitos secundários e o mau uso dos antibióticos, mas houve tempos em que uma simples infeção ou um abcesso poderia ser uma tragédia. Para além disso, as epidemias de difteria, peste bubónica, cólera, febre tifoide e febre amarela eram comuns no século XIX e princípio do século XX. Tal como a Nathan, a muitos personagens trágicos involuntários faltaram as condições sanitárias, os medicamentos e o conhecimento. Aos sifilíticos que tinham uma noite com Vénus (a qual muitas vezes nem era sua) e ficavam toda a vida com mercúrio, faltou a penicilina. Aos tuberculosos faltou, primeiro um maior entendimento sobre a doença que só chegou no final do século XIX, mas apenas para ficarem tanto mais sabedores como desamparados antes da descoberta da estreptomicina, que só ficou disponível em 1956. A muitos outros faltaram as condições de higiene e alimentação, as vacinas da difteria e poliomielite e muitas outras coisas que temos hoje como garantidas, mas que não existiam no tempo em que viveram.

E depois temos os acidentes e o azar. Sempre tivemos. As estatísticas dizem-nos que a quinta de causa de morte são os acidentes. Há relativamente pouco tempo, de entre os meus conhecidos e familiares dois jovens morreram de forma trágica e absurda. Vários outros, que não conhecia, morreram afogados e em acidentes de automóvel e mota. Já não temos notícia de jovens que morrem devido aos esquentadores mal instalados. Os equipamento estão cada vez mais seguros e a nossa tolerância menor, mas continuam a acontecer desastres na estrada, por exemplo. Quando eu era pequeno, as pessoas morriam muito nas motorizadas. Um primo meu morreu num cruzamento, ainda era muito novo, a mulher, mais nova ainda, com uma filha pela mão e outra ainda na barriga. Um jovem morreu numa placa de trânsito, numa motorizada que o pai não lhe queria dar. Outro matou um amigo por acidente com uma espingarda improvisada. Mais recentemente, um dos meus conhecidos parou num semáforo e foi atropelado por um carro que não parou. Um casal parou para ir virar e foi morto por um carro. Um jovem despistou-se na sua motorizada e morreu. Poderíamos encher páginas e páginas com acidentes imprevisíveis, ou não, com azares absurdos, ou resultados tristemente esperados.  

É obviamente um truísmo dizer que ninguém escapa à morte. Alguns atingem a imortalidade possível, mas todos morrem. As pestes, a tuberculose e a sífilis, as guerra e os acidentes são as causas mais famosas pelos comportamentos e literatura que lhes estão associados. O suicídio vem de seguida. Mas o suicídio sempre foi sobrevalorizado. Embora hoje em dia quase não haja notícias (há um código de conduta dos meios de comunicação quando noticiam suicídios para evitar fenómenos de imitação - o “efeito Werher”, dizem os números, é real). Por um lado devido aos seus aspectros trágicos, mas também pelo fascínio que este nos causa, o suicídio acaba por ser sobrevalorizado, mas é “só” a nona causa de morte. Albert Camus refere em "O Mito de Sísifo", de 1942, que o problema do suicídio é o mais fundamental em termos filosóficos. E Portugal seria o país de suicidas referido por Miguel de Unamuno? Talvez não, Itália e outros países também o foram...

A tuberculose e a sífilis contribuíram para muita literatura não só pela fatalidade, mas também pelos ambientes sociais e estados de alma e físicos que se lhes ligaram. Sendo doenças, em geral, de evolução lenta ou crónica, os doentes seguiam os ritmos das doenças ou, em muitos caso, tinham a ilusão de lhe escapar. Os sanatórios para a tuberculose, a brancura e o cansaço, a sífilis e as suas marcas e primeiros remédios, o sublimado, a tabes, a neurastenia e a e a loucura sifilítica são referências culturais incontornáveis. Devemos-lhes "A Montanha Mágica", que é a referência mais conhecida e emblemática aos sanatórios e aos tratamentos clássicos da tuberculose, o "Doutor Fausto", que romanceia em parte a sífilis, numa altura em que esta era já tratável, ambos de Thomas Mann, entre um número incontável de obras. Tanto os romances que envolvem personagens românticas, vítimas de tuberculose e sífilis, como os que evocam personagens assustadoras vítimas dessas doenças. Em "A Nossa Senhora de Paris", na personagem Quasimodo, Victor Hugo descreve, diz-se, uma vítima de sífilis congénita, hoje uma doença quase desconhecida.

Mas não é só a presença direta da doença e dos seus reflexos que é preciso lembrar. Também a sombra que essas doenças projetaram nos autores é importante. A sífilis e a tuberculose em Manuel Laranjeira contribuíram, com certeza, para as sua forma de ver o mundo desencantada e desiludida. O mesmo aconteceu com a tuberculose de António Nobre, Cesário Verde e de muitos outros. E mesmo o aparente otimismo e saudade da vida simples e saudável do campo de Júlio Dinis - que parece querer fazer esquecer a tuberculose que o matou novo - tem provavelmente muito de amargura e desilusão.
 
No Portugal do início do século XX a sífilis era um flagelo como se pode verificar pelos capítulos dedicados a esta doença no volume de 2011 organizado por Cristiana Bastos, "Clínica, arte e sociedade: a sífilis no Hospital do Desterro e na saúde pública". Thomaz de Melo Breyner registou cuidadosamente todos as histórias clínicas e pode verificar-se que a doença se transmitia de todas as formas possíveis, desde as mais clássicas relacionadas com a prostituição em que o marido contaminava a mulher e esta os filhos até às amas de leite que contaminavam os bebés e estes as mães que contaminavam os maridos. Neste Hospital foram atendidas no período de 1903 a 1906 mais de mil e quatrocentas prostitutas com idades entre os 15 e aos 36 anos, idade média de cerca de 22 anos, sendo que a maioria tinha 19 anos! Os tratamentos possíveis eram baseados em sais de mercúrio, mas a partir de 1910 há grande entusiasmo com arsenamina, um composto orgânico de arsénio, também conhecido por salvarsan ou «606», desenvolvido por Paul Erhlich em 1906, mas esse entusiasmo rapidamente se modera dado que este medicamento que tinha de ser injetado também tem efeitos secundários. Nas décadas seguintes os tratamentos vão alternando entre os as sais de mercúrio, a arsenamina e sais de bismuto. Paralelamente, surgem campanhas de informação, profilaxia e higiene que irão contribuir para a diminuição do número de afetados. Mas só a partir de 1943, com a penicilina, é que a doença passa a ser curável e é quase irradicada. Para trás ficaram as mortes prematuras devidas a esta doença, a loucura sifilítica, as marcas da sífilis nos sobreviventes e muitas outras coisas que hoje temos dificuldade em compreender.  

Como já referi noutro trabalho, a gripe pneumónica matou depressa e as suas vítimas no começo da idade adulta e quase nem tiveram tempo de transformar a doença em obras. Era uma vergonha morrer de tal doença. E, no entanto, talvez tenha matado mais pessoas que as duas grandes guerras. DE facto, a guerra é também uma grande fonte de mortes prematuras. Hoje em dia assiste-se a uma generalização da longevidade (embora o coronavírus possa ter implicações nas estatísticas). A vida humana poder não ter limites teóricos era já discutido em algumas revistas cientificas prestigiadas desde há alguns anos! No século vinte e vinte um podemos encontrar com relativa facilidade pessoas centenárias. A pediatra americana que com mais de noventa anos que ainda dava consultas e escrevia artigos, o cineasta Manuel de Oliveira, o arquiteto Oscar Niemaeyer e muitos outros. Mas a longevidade não é uma coisa nova. Matusalém é a personagem bíblica que mais viveu, mas não se consegue encontrar-lhe mais feitos do que o de ter tido filhos.

Como já referi noutro lado, a mitologia e a literatura mostram-nos exemplos dos efeitos inesperados da imortalidade. Jonathan Swift leva-nos a uma ilha onde por vezes nascem pessoas imortais, mas isso não é uma bênção. Infelizmente estes não param de envelhecer e o espetáculo não poderia ser mais deprimente: velhos surdos, dementes, vaidosos e caquéticos entregam-se às mais tolas e fúteis atividades. O narrador do livro conclui que a morte é necessária e a imortalidade uma maldição. Também José Saramago nas "Intermitências da Morte" nos faz antever os problemas que a imortalidade causaria. Já antes, no mito de Sisífo este problema será abordado. Sísifo, o mais esperto dos homens, segundo Homero, mas também o mais absurdo segundo Camus, enganou a morte duas vezes. Numa aprisionou a morte e, ninguém morrendo, despovoou-se o Inferno. Noutra conseguiu sair do Inferno. Acabou condenado a empurrar uma pedra que sempre rolava e voltava a empurrar, como é bem conhecido. Mas como referiu Swift e Saramago a imortalidade traria muitos problemas. Alguns destes problemas são resolvidos nos livros de vampiros - em "O Império do Medo" de Brian Stableford estes não se reproduzem ou reproduzem-se muito pouco - mas  criam outros. A criança que nunca cresce de a Entrevista com o Vampiro, por exemplo. A imortalidade origina problemas insolúveis e paradoxos. “Oh tempo, suspende o teu voo! De acordo, disse o tempo. Mas por quanto tempo?" escreveu o antropólogo francês Marc Augé.
 
A conhecida lengalenga À morte ninguém escapa lembra-nos o óbvio, mas apresenta-nos uma forma inglória de escapar à morte – fechar-se numa panela - e, no fundo não viver, não sentir o passar do mundo, ser esquecido (o problema de Peter Gynt), ou nem sequer ser encontrado pela morte,

    À morte ninguém escapa,
    Nem o rei, nem o papa,
    Mas escapo eu.
    Compro uma panela,
    Custa-me um vintém,
    Meto-me dentro dela
    E tapo-me muito bem,
    Então a morte passa e diz:
    -Truz, truz! Quem está ali?
    -Aqui, aqui não está ninguém.
    -Adeus meus senhores,
    Passem muito bem.


Mais do que um tempo que pára, como um relógio quebrado, é o absurdo de tudo se repetir, e tudo ter já sido feito, que angustia alguns. Mas isso é uma ilusão, o mundo avança e não volta ao mesmo lugar. Sisífo não empurra a pedra nem transpira da mesma forma. Camus diz-nos que devemos pensar que Sisífo é, apesar de tudo, feliz. 

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Viajando virtualmente pelas ruas Fleming de Espanha

O nome de Alexander Fleming (1881-1955) é usado em mais quinhentas ruas, avenidas e monumentos em Espanha. É normal, dirão. Uma vez que se lhe atribui a descoberta do primeiro antibiótico, a penicilina. Talvez, mas o nome é usado em mais lugares do que o nome do grande Prémio Nobel da medicina espanhol, Santiago Ramón y Cajal (1852-1934), e, obviamente, que o de Severo Ochoa (1905-1993), Prémio Nobel também, mas naturalizado americano. Ainda não está completa esta investigação, mas eu mostro o que descobri. É uma historia pouco conhecida que se conta pelas suas entrelinhas. Tudo comecou aparentemente com a festa dos pescadores de Gijón, os quais pretenderam homenagear Fleming nos anos 1950. Fizeram uma procissão com estandartes alusivos, a qual foi noticiada internacionalmente, em particular na revista Time. E convidaram-no para discursar na festa, o que este aceitou com prazer. Entretanto, Fleming morreu, mas foi substituído pela viúva. E fizeram um subscrição pública para um monumento em Gijón que ainda hoje é homenageado todos os anos. O fenómeno e o entusiasmo estendeu-se a toda a Espanha. Penso que isto foi de alguma forma incentivado até porque Ramón y Cajal (que já tinha morrido) não era muito favorável ao regime que se veio a instalar. O curioso é que a homenagem não tinha só que ver com a cura das feridas mas também com a da tuberculose que grassava na Peninsula Ibérica. Acontece que Fleming foi só um peça do conjunto (o prémio Nobel foi atribuido a três pessoas) e a penicilina, embora um marco fundamental da medicina, é pouco eficaz contra a micobactéria causadora da tuberculose.

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

A Duna encontra o Outono em Pequim: diálogos inesperados entre Franck Herbert e Boris Vian

 [Outro dos meus artigos no JL de 26 de agosto de 2020 sobre os vários centenários de autores de ficção científica. Gostei especialmente deste. De aprender sobre a ligação de Boris Vian a este universo e de fazer a ligação deste à Duna de Franck Herbert, também ele centenário. O Jornal recomenda, entretanto, várias obras dos autores publicadas recentemente. Além destes trabalhos e de outros artigos, notas e sugestões, o JL tem entrevistas a Ondjaki e João Alvim, discute as feiras do livro de Lisboa e Porto, o teatro, a fotografia e outros assuntos]


Quando a Duna de Frank Herbert (1920-1986), o livro de ficção científica (FC) mais lido de todos os tempos, com pelo menos duas adaptações para cinema, uma delas de David Lynch, foi publicado, em 1965, Boris Vian (1920-1959) tinha já morrido. Morreu com 39 anos, mas deixou uma obra a descobrir. Eu, que fiz parte da geração que lia os livros de Vian pelo seu humor e provocações, nunca tinha pensado em Boris Vian como um autor de ficção científica, mas a enciclopédia de FC na internet disse-me que sim – e eu verifiquei que era verdade. Em Outono em Pequim, obra inclassificável de 1947, que não se passa num outono nem em Pequim, onde o surrealismo se mistura com o humor, tudo com um fundo de música que se sente em toda obra, ou não fosse o autor também músico, tem desertos, areia e dunas. Talvez não seja classificado precisamente como sendo ficção científica, como A Erva Vermelha, por exemplo, mas poderia. Boris Vian era um polimata que traduziu ficção científica, escreveu usando os métodos da ficção científica e escreveu ensaios, em particular um deles sobre o cinema de ficção científica, merece ser lembrado também por isso. Sofria de uma doença do coração, o que o fez com que fosse considerado inapto para a guerra, desaconselhado de tocar saxofone e acabasse por morrer de enfarte de miocárdio.

Há um número enormíssimo de livros sobre ficção científica. Tenho aqui comigo uma referência - já datada, é certo, mas todas o são - para livros e outros materiais sobre livros e materiais de ficção científica, literatura fantástica e horror. Parece ficção científica - um livro que cataloga livros, que catalogam livros e aí por diante - mas não é – existe mesmo! Refere até um livro sobre a ficção científica recursiva, ou seja ficção científica que escreve sobre ficção científica! Natália Correia, sempre atenta, disse em 1981 que não era uma literatura menor – e penso que tinha razão. Basta pensar nos autores que referi, mas também em o Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago, por exemplo, agora muito citado. Nesse livro referem, claro, H. G. Wells, Artur C. Clark, Isaac Asimov, Ray Bradbury, Frank Herbert, e muitos outros, mas não encontrei Boris Vian, ele que terá dito que a ficção científica “era o ressurgimento da poesia épica.” Nem mais!

Também no Outono em Pequim há dunas, como referi, mas primeiro falemos da Duna de Herbert Franck. Começo por dizer que não gosto muito da Duna, nem de livros similares. O que mais me aborrece, mas aceito que outros adorarem, é a existência de um mundo alternativo num futuro que se passa a milhares de anos, com viagens mais rápidas do que a luz e muitas tecnologias para nós desconhecidas. Para mim, o mais interessante está nas entrelinhas. As pessoas continuarem a ser humanas, claro, e serem até mais feudais e religiosas. Os computadores e robôs, assim como todas as máquinas que podem imitar o homem estão proibidos! Como é que isto é possível? O livro apresenta uma solução: computadores humanos. Paralelamente, há uma especiaria que só existe no planeta Arakis onde quase não existe água e por isso esta e o sangue (que como sabemos é uma solução aquosa) são preciosos. E os nativos usam fatos destiladores para não perderem água. Claro que a narrativa tem falhas, mas é plausível. Ou talvez não seja em 2020, mais de sessenta depois de ser escrito! Com a tecnolgia de hoje saberíamos qual era a estrutura tridimensional da especiaria que, de acordo com uma enciclopédia sobre o livro, tem uma parte parecida com a canela e outra parecida com a hemoglobina. A milhares de anos de distância, com viagens no espaço-tempo, mais rápidas do que a luz - comandadas por computadores humanos, é certo - continuam a não saber qual é a estrutura da molécula mais importante e central na civilização? Claro que podemos suspendar a nossa desconfiança, mas essa eu tive alguma dificuldade em engolir. Afora isso, vemos claramente como o Duna influenciou muita da literatura de ficção científica que se seguiu e, em particular, os filmes conhecidos como Star Wars, estes que, por outro lado, revolucionariam o consumismo. E ao mesmo tempo tem sido visto como um livro ecológico. Esse aparente paradoxo também me fez pensar. Mas percebemos mais ou menos porquê: a tecnologia é biológica. Na minha opinião, o melhor do livro são as imagens que acabaram por influenciar o cinema e a banda desenhada de ficção científica. Agora, em 2020, parecem banais mas não eram, sendo que o Duna pode ser também um filme de franchising – na verdade este é também uma saga com vários episódios. Um conhecido cineasta, Martin Scorcese, disse, e explicou mais tarde, que isso não era cinema por já se saber o que irá acontecer, e sobretudo como será feito. Ele referia-se aos filmes de super-heróis e, em particular, aos filmes de franchising, aos filmes de chave-na-mão, mas acho que ele (ou nós) podermos estar a cair no mesmo erro das pessoas que pensam que a literatura de ficção científica é uma literatura menor. Pode ser, sim, se for unilateral e banal, só para vender, mas pode ser excelente se nos abrir os olhos, se tiver vários caminhos possíveis, mesmo sabendo nós a história, aliás como acontece nos mitos gregos - toda a gente sabe, ou pode saber, o que acontece ao Édipo, por exemplo.  

O Outono em Pequim foi escrito afinal na primavera e refere autocarros que se perdem nas cidades e um deserto longinquo mas estranhamente, ou não, familiar, onde estes nos podem levar por acaso. Rolls refere também A Visita Maravilhosa de Wells, a Viagem ao Fim da Noite de Céline, a Alice no País das Maravilhas de Carroll, O Estrangeiro de Camus e o Trópico de Cancer de Miller. Mas, deixemos isso para os especialistas. Este livro não tem medo de ser divertido, essa é que é essa. O deserto estabelece a ligação entre os dois livros mas a seriedade pomposa afasta os dois autores. Como referi, Boris Vian traduziu para francês e escreveu sobre ficção científica. Depois de Jules Verne ser quase abandonado em França, Boris Vian escreverá sobre ficção científica (FC) e temos um volume compilando crónicas de cinema e FC. É neste que recupera um artigo, escrito sob psedónimo, em 1947, em que declara que o romance de antecipação é agora chamado de ficção científica. Neste também antecipa como seria sua vida em 2000, ano em que terá 80 anos, mas não, não foi bem assim. Boris Vian não antecipou, como refere o cardiologista Gilgenkrantz, os tratamentos cardíacos que se seguiram, tendo morrido numa ambulância.

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Ray Bradbury: A ficção Científica que é Literatura Fantástica

[Outro dos meus artigos no JL de 26 de agosto de 2020 sobre os vários centenários de autores de ficção científica. Gostei muito deste pela ligação menos conhecida ao Moby Dick. O Jornal recomenda, entretanto, várias obras dos autores publicadas recentemente. Além destes trabalhos e de outros artigos, notas e sugestões, o JL tem entrevistas a Ondjaki e João Alvim, discute as feiras do livro de Lisboa e Porto, o teatro, a fotografia e outros assuntos. Boas leituras!]

Comemora-se este ano o centenário do nascimento de Ray Bradbury (1920-2012). Em Jardins de Cristais – Química e Literatura (Gradiva, 2014) escrevi que este não era tanto um autor de ficção científica mas mais um autor de narrativas fantásticas. E dava como exemplo o conto As Maçãs Douradas do Sol, no qual, uma nave espacial arrefecida a amoníaco, vai recolher bocados do Sol para usar como energia. O autor apresenta para a nave uma temperatura de milhares de graus negativos que viola a temperatura zero (que é de -273,15ºC) colocando este livro no domínio do fantástico, e isso é interessante no que concerne à distinção entre o que é possível e que não é.

Toda a gente vê que as pessoas não voam com pó mágico e bons pensamentos e não temos dificuldade em chamar a isso fantasia. Mas podemos não saber que a termodinâmica não permite temperaturas tão baixas, por exemplo. É por isso que uma verdadeira cultura científica é tão necessária. Ajuda-nos a distinguir a fantasia da realidade e nisso a ganhar novos mundos, ou ajuda-nos a perceber um argumento científico, ou a separar a ciência da pseudociência - estou-me a lembrar dos excelentes Pipocas com telemóvel (Gradiva 2012), ou A ciência e os seus inimigos (Gradiva, 2017) de Carlos Fiolhais e David Marçal. Não quero com isto dizer que não haja franjas, complexidades e aspectos técnicos – sim há. Mas é uma grande infelicidade haver erros tão banais como errar a tabuada que nunca irão mudar e são esses que deveremos evitar sob pena de sermos enganados e não percebermos o mundo em que vivemos.

Disse ainda, nesse livro, que Ray Bradbury levantava outros problemas numéricos. Por exemplo, no seu famoso Fahrenheit 451, também datado de 1953, usa como título o suposto valor da temperatura (em Farenheint) a que o papel arde de forma espontânea (temperatura de auto-ignição). Como é bem conhecido, neste livro distópico os bombeiros não apagam fogos, antes queimam livros, quaisquer livros, pois estes foram proibidos. Disse que são muitos os aspectos químicos que podem ser encontrados neste livro. E é verdade. Os processos de combustão, os materiais incombustíveis de que são feitas as casas, os antidepressivos e as drogas, são alguns exemplos, mas salientava, e ainda saliento, muito em particular a química dos odores. Ao longo de todo o livro os cheiros têm um papel importante nas suas relações com as memórias. A tomada de consciência do bombeiro e também na perseguição deste realizada por um mastim mecânico que usa o espectro do seu cheiro para o detectar. Este cão não vai aparecer no filme, talvez pelos aspectos técnicos, talvez por não ser interessante em termos de imagem, mas acaba por ser um aspecto interessante e muito actual a considerar. Na realidade os odores e a sua relação com a memória desempanham um papel importante em boa parte da literatura. Lembro apenas os cheiros que marcam a vida de Fermina Daza em o Amor nos Tempos de Cólera de Gabriel Garcia Marques e o famoso bolo (uma madalena) que conduz o narrador à sua infância de Em Busca o Tempo Perdido de Marcel Proust.

Fahrenheit 451 é muito conhecido e teve várias versões em contos e livros até à versão final que agora conhecemos. Há várias interpretações para a queima dos livros e isso é, na minha opinião, a boa literatura – haver várias possibilidades e caminhos. O próprio Bradbury contribuiu para isso referido o seu amor incondicional aos livros e como a televisão os poderia destruir. Não foi isso que aconteceu – nem a televisão, nem  a internet, que em 1953 não era conhecida, matou os livros. Podería falar das suas Crónicas Marcianas, do Homem Ilustrado, ou de outras conhecidas obras. Mas não. 
 
Falo aqui do amor de Bradbury à literatura e de um problema que me intrigava e me fez voltar ao Moby Dick de Herman Meleville. Por que é Ray Bradbury disse e escreveu que a personagem de Persee Fedallah arruinava a obra? É verdade que este é referido de forma enigmática por Melville apenas a partir da capítulo 48 como um dos cinco fantasmas que rodeavam o capitão Ahab mas ainda não tenho um resposta convincente.     

Como jovem argumentista de Hollywood, Ray Bradbury adaptou, também em 1953, o Moby Dick para o filme do mesmo nome de 1956 de John Huston com Gregory Peck a fazer de Ahab e com o sermão do padre Mapple a ser realizado por Orson Wells. Uma equipa fantástica como John Huston referiu. Os efeitos especiais eram rudimentares pelos padrões de hoje e para dar uma cor profunda ao filme foram sobrepostas a película a cores e preto e branco (diz-me a wikipedia). E, de facto, na cópia que tenho as imagens são bastante escuras. Ray Bradbury tratou de dizer a John Huston, o seu herói, que Fedallah seria atirado borda fora e as suas melhores deixas passariam para Ahab, com o que John Huston concordou de imediato.    

Em 1992, Ray Badbury publicou Green Shadows: White Whale (que julgo não ter sido traduzido para português) o qual trata da sua ida à Irlanda e da escrita do guião do Moby Dick. Começa com a chegada ao mundo verde da Irlanda e um diálogo incrível com um inspector da alfandega sobre cultura, em particular sobre literatura, sobre o Moby Dick e o Hamlet. Muito do livro são os seus diálogos (verdadeiros ou inventados) com personagens locais ou com John Huston, enquanto escreve o guião do filme. Durante esse tempo, fala, vive e sonha com a literatura. Com Hemingway, Shaw, Chesterton, Wells entre outros, e ganhará um prémio, ele que aparentemente era conhecido como um Flash Gordon que punha toda a sua libido nos foguetões. Mas adaptar o Moby Dick era o seu sonho – conta - ele que amava a literatura e leu o livro totalmente três vezes, algumas partes cinco vezes e outras pelo menos vinte vezes.    

Escrevi em 2014 que um bom livro de ficção científica, policial ou de literatura fantástica, mas também de ciência, é aquele que nos abre os olhos para enigmas para os quais ainda não temos solução. Continua a ser absolutamente verdade para mim.

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Asimov: centenário da escrita e leitura compulsivas

[O JL de 26 de agosto de 2020, traz artigos meus que vou aqui colocar sobre os vários centenários de autores de ficção científica. Falo de vários autores (aproveito para corrigir algumas gralhas), nascidos em 1920, que transbordaram, ou estão ligados, a a este universo.O Jornal recomenda, entretanto, várias obras dos autores publicadas recemente. Além destes trabalhos e de outros artigos, notas e sugestões, o JL tem entrevistas a Ondjaki e João Alvim, discute as feiras do livro de Lisboa e Porto, o teatro, a fotografia e outros assuntos. Boas leituras!]

Isaac Asimov, nome inglês de Isaak Yudavich Azimov, nasceu na Rússia, antigo União Soviética, a dois de janeiro de 1920, segundo o próprio, e morreu em Brooklyn a 6 de abril de 1992. Os dados parecem estar na Wikipédia, mas olhemos para eles com mais atenção.

Isaac descreve numa sua autobiografia desde que nasceu até aos anos 1950, publicada em 1979, que queria inicialmente ser médico e que se formou em ciências com um major em química, em 1939. Que fez um mestrado em química, insistindo muito com os professores, nomeadamente com Urey, prémio Nobel em 1934. Refere que adorava a química mas que pensava ganhar a vida a escrever. Embora, por essa altura, muitos manuscritos seus fossem rejeitados. A guerra apanhou-o e foi para a Marinha e só se doutorou em 1948. Ao mesmo tempo que fazia um pós-doc, concorria para vários lugares e foi sendo recusado. Acabou num inesperado lugar de professor de bioquímica numa escola médica de Boston, ele que desistiu de ser médico! Hoje, muitas pessoas acham que ele era bioquímico e de facto foi (mas antes foi químico). Fez alguma investigação e ensinou esta matéria. Mas o que gostava mais, diz, era de ensinar, escrever e divulgar. É engraçado que o seu primeiro livro famoso tenha surgido quando conseguiu esse lugar e na contracapa apareça a sua afiliação, o que o faz pensar em demissão. Diz-lhe o presidente da escola que se o livro era bom a escola não se importava de ficar associada a ele.

Muitos professores ensinam aquilo que não aprenderam, como é óbvio. Tiveram de estudar. As pessoas podem tornar-se especialistas se estudarem a sério. Lavoisier não era formado em química, mas sim em direito. Quando as coisas correm mal gostamos de dizer que as pessoas eram de outra área. Thomas Midgley Jr., ligado à gasolina com chumbo e os CFC, formou-se em mecânica e só depois obteve um doutoramento em química. Dirac era formado em engenharia antes de tornar o génio matemático e físico que conhecemos. Em Portugal atualmente (não vou referir nomes) torcem o nariz às pessoas que ensinam uma coisa e tiveram formação inicial noutra. São raros os que têm lugares fora do sua área inicial. Gostamos de referir o percurso, por exemplo, de Bento de Jesus Caraça, mas quando as coisas correm mal lembramo-nos da formação inicial...

Gosto especialmente do conto de Asimov sobre a galinha dos ovos de ouro (Mistérios, Vega, 1990). É a mesma história, mas travestida de ciência e tecnologia. Está muito bem feita porque as pessoas quase acreditam. A bioquímica é razoável, assim como a física nuclear. Mas nunca vimos uma galinha dos ovos de ouro e o investigador, levando-a para o laboratório, desmontando-a, mata-a e acaba com os ovos de ouro.

São também muito famosos os seus livros de contos sobre robôs. Mais ainda as suas leis da robótica que como é sabido têm mais de 70 anos. Hoje em dia, tempo da inteligência artificial (AI), de Internet das coisas (IoT), de e Big Data e comunicação permanente, presentes de forma ubíqua, em particular nos telemóveis, lembramo-nos por vezes que muitas das atividades decididas pelos computadores e feitas por máquinas. Os pilotos automáticos deram lugar às aterragens conduzidas por máquinas. Os carros autónomos comunicam como se fosse telepatia entre condutores gentis. As profissões e atividades transformam-se de forma imprevisível. Claro que temos as distopias do controlo como o 1984 e o Admirável Mundo Novo, mas não era isso que referia.

Referia-me ao conto do robô que aprendeu a mentir. Esse conto é admirável por si só e, na minha opinião, não precisa de sobrenatural. O robô lê pensamentos, ninguém sabe como, mas não era necessário explicitar que ele lia mesmo pensamentos. Ler pensamentos é interpretar os pensamentos, pensar o que os outros pensam. E as máquinas podem fazer isso muito bem. Podem aprender a perceber os sentimentos e agir em conformidade. Podem aprender a identificar padrões melhor que os humanos. Voltando atrás, um robô aprende a perceber o que as pessoas querem ouvir, mas ele dá também conta que de isso é muito complexo. Então pede romances e livros humanos, que segundo ele, seriam muito mais complexos do que os livros de mecânica quântica. O robot começa a perceber que a psicóloga de robôs de meia idade está a apaixonada, que um cientista quer o lugar do outro, e diz-lhes o que eles querem ouvir. Assim, temos uma psicóloga que se arranja e pinta e um cientista que é arrogante com o chefe que se vai demitir, o que surpreende por os robot nunca mentirem. Confrontado com a contradição, o robô não a consegue resolver e autodestrói-se. Hoje não seria assim com a lógica difusa, por exemplo.


Isaac Asimov morreu relativamente novo (pelos padrões de hoje), com 72 anos, e só começou a publicar regularmente depois dos 30 anos. Mais de quatrocentos dos seus cerca de quinhentos livros foram publicados depois dos cinquenta anos. Tem uma produtividade média de onze livros por ano e atingirá a sua produtividade máxima aos 69 anos com quase quarenta livros. A escola estava tão contente por ter esse autor entre os seus académicos que não lhe dava aulas regulares.

Em oposição, António Nobre só publicou um livro. Harper Lee também o queria fazer, mas descobriram um livro dela depois de morta (é muito perigoso estar morto).

Outro livro que acaba por conter todos os estilos e preocupações de Asimov é o Planeta dos deuses (Livros do Brasil, 1980) de 1972 publicado na coleção Argonauta. Na Terra, passado um século, em 2070, houve uma grande crise (não sabemos qual) e a população passa de seis para dois mil milhões, havendo uma colónia na Lua. Entretanto, descobriram um bomba de energia, chamada “bomba eletrónica” baseada na estabilidade inesperado do inexistente tungsténio 186. Esta bomba era conduzida por para-universo de leis diferentes que usava a segunda lei da termodinâmica para obter energia nos dois universos. Parecia violar aquela lei, mas lançando os problemas no outro universo mutuamente parecia não violar. Há obviamente vários problemas e contradições na ideia, mas parece plausível como toda a boa ficção. Mas os dois universo convergem para ter as mesmas leis e no final morrerão. Esperava-se que passado muito tempo. Os cientistas que duvidam são renegados e postos na prateleira. Há aqui um vislumbre de meio académico tacanho mas muito estilizado. O capítulo acaba (aliás todo o livro se baseia nesta citação) referido uma peça de Schiller, “mesmo os deuses são impotentes perante a estupidez.” Devemos notar que Asimov fez muitos guias, desde Shakespeare à medicina, passando pela Bíblia e era (a contragosto diz-se) presidente de uma das associação de sobredotados mais conhecida.

No segundo capítulo aparecem os “deuses”, extraterrestres avançados e muito diferentes. A ficção científica clássica - derivada da fantasia - em toda a sua glória. Duros e flexíveis, racionais e sensitivos, tríades cuja fusão é dificultada pelas variações das leis.  Finalmente temos um capítulo passado na Lua que tem um sincrotrão e pessoas que tendo nascido lá não têm músculos e ossos adaptados à gravidade da terra (este tema é tratado também por Robert Heinlein) que nunca teve um bomba eletrónica. Foi aí que aparecem a notícia da bomba contrária mas fica em aberto o que se passará a seguir. 

Este é grande mote da ficção científica, da literatura e da vida. Não sabermos o que se passará a seguir.

terça-feira, 1 de setembro de 2020

De víbora na mão, em busca do tempo perdido, viagens pelos livros

De Víbora na Mão é um livro autobiográfico de Hervé Bazin de 1948, publicado em Portugal pela coleção Unibolso, provavelmente em 1985. Neste livro, se os filhos são terríveis e planeiam (e tentam) o assassinato da mãe, esta não é menos ao bater-lhes e a castigá-los. Em suma, um livro terrível! Estava a lê-lo, desta vez para anotar os aspectos químicos. Mas não era tanto isso que me interessava. Interessava-me mais a geografia, os tempos envolvidos e a relação, em termos de lugares e atitudes, com A Busca do Tempo Perdido de Marcel Proust, uma obra monumental em sete volumes que acaba um pouco antes da outra começar e que também estive a reler e anotar, e, ainda, Thérèse Desqueyroux, passado nas Landes e publicado em 1927 por François Mauriac (publicado, em Portugal, recentemente pela Cavalo de Ferro, em 2015). Estava eu nisso, a viajar pela França do início do século vinte, a comparar o conservadorismo patético de uns com o sensualismo dos outros. Compararava, sem grande profundidade, é certo, as diferentes atitudes, o dinheiro que a uns, arruinados, faltaria e que, os outros, velhos burgueses, teriam em excesso. Comparava a atitude perante os banhos de mar e a praia, evitada mas verdadeira, de Le Balle na Víbora, com a Balbec imaginária da Busca.

Mas a química voltou outra vez. A verdade é que todos os livros a têm. E só falo da Víbora na Mão. Esta tem, claro, o óleo de rícino, a pólvora piroxilada, também chamada pólvora sem fumo, as gotas de beladona, o cianureto (diz-se actualmente cianeto) de potássio, a ureia e a uremia, a curiosidade de Rayon ser também um lugar, entre outros. Mas esses eu já conhecia. O que me chamou mais a atenção acabou por ser um medicamento para uma crise de fígado, chamado, no livro, Algocoline Zizine. Uma pesquisa mostrou que era uma expressão que só aparecia neste livro e que esta obra era citada ipsis verbis num artigo antroplógico a propósito da questão de serem as “doenças de fígado” uma doença tipicamente francesa. Mais umas pesquisas e estas mostraram que os laboratórios Zizine ainda existem, mas agora são dedicados ao “medicamentos alternativos,” e que “algocoline,” poderia ser outro nome para analgésico. Se fosse o caso, qual seria a sua composição? Foi aí que vi que os laboratórios Zizine não tinham fabricado o “Algocoline Zizine” mas sim o “Alcholine Zizene,” de que há bastantes caixas metálicas à venda na internet. Será que o autor se enganou? Será que teve um liberdade poética? Será que não quis usar um nome registado? Não sei, o que sei é que o Alcholine Zizene era de facto uma marca registada e descrito como um “drenante hepático” (um laxante, diríamos hoje) composto de sulfato de magnésio e pectina. E foi assim que, de uma praia redescoberta pelos parisienses, Le Balle-Escoublanc, encontrei a química de um frasco de medicamento a vajar pela França dos livros. Façamos um passeio à feira do livro e encontremos outras viagens!

sexta-feira, 29 de maio de 2020

Daisy Miller: o turismo popular e (sem nada que ver) as doenças ainda sem cura


“Daisy Miller” é a novela de Henry James (1943-1916) mais conhecida, a qual aponta para as diferenças entre americanos e europeus e para a igualdade das mulheres, numa altura em que esta quase não existia. Também pode ser vista assim, claro, mas não foi isso que mais me chamou a atenção. Foi, por um lado, a popularização do turismo e, por outro, as doenças que existiam e ainda não tinham cura.

Escrita em 1878, a novela refere como o narrador encontrou Daisy Miller, uma jovem americana normal e independente, de certa forma ingénua e sem malícia, com pais ausentes e um irmão mal-educado. Sem pensar nisso nem o desejar propriamente, Daisy causa escândalo. Alguns querem proteger a sua reputação enquanto outros evitam encontrá-la. Curiosamente, Henry James coloca-a como turista americana num hotel (Trois Couronnes) da mesma cidade de Julie ou a Nova Eloisa de Rousseau, Vevy, perto do lago Lemano, em Genebra, agora com muitos turistas americanos. Uns anos antes, Lord Byron alugou um casa, a Vila Diodati, a cerca de cem quilómetros, no mesmo lago. Nesta, esteve com Mary Shelly, Percy Shelley e John Polidori, sendo nesta escrito o “Franskestein” de Mary Shelly e o “Vampiro” de Jonh Polodori.

Havia turistas de todos os países, claro, mas não tantos como os americanos. Desde meados do século dezanove que o turismo americano era uma indústria em grande crescimento.  Os nobres e intectuais ricos faziam o que ficou conhecido como  o “grand tour,” como parte da sua formação, mas é com os americanos que a actividade de visitar se torna verdadeiramente popular. Por exemplo, Manuel Teixeira Gomes (1860-1941), último presidente da primeira república, antes da ditadura de Oliveira Salazar, trabalhava alguns meses a gerir os negócios e depois viajava durante o resto do ano. Vamos encontrar reflexos dessas viagens nas pitorescas “Novelas Eróticas” onde conhece e foge na Holanda com uma jovem judia, encontra num barco uma jovem brasileira e, em Sevilha, onde encontra uma jovem cigana, entre outras. Sabemos que Teixeira Gomes viajava muito e que tinha até uma mala especial. Por outro lado, no “Moby Dick” vamos encontrar Ismael que nunca pagava para ver o mar e viajar. Vários autores vão escrever sobre as suas viagens. As viagens eram realizadas e comentadas, mas por um grupo restito. Vai ser com os americanos que a actividade de viajar se vai generalizar como indústria. Os mais cultos seguiam os percursos dos seus autores favoritos, enquanto os outros seguiam os primeiros ou compravam os programas das agências. Gerou-se assim um grande fluxo de turistas americanos conhecidos pelo menos até aos anos setenta como “camones”. É muito curioso tentar perceber esse fluxo popular do turismo que se vai estender a todos e agora com a covid-19 está algo parado. E vai haver uma reacção contra a massificação e popularidade desta actividade. Os intelectuais achavam que viajar por motivos “fúteis” era absurdo. Ralph Waldo Emerson (1803-1883), por exemplo, escreverá que "viajar é o paraíso dos tolos." Ele refere-se a encontrar a felicidade em locais longinquos mas a ideia é generalizávela outras actividades  turisticas.

Na mesma altura passavam-se fomes periódicas na Europa. Ainda não tinham sido inventados os adubos sintéticos. Os alemães, suecos, irlandeses, italianos, judeus e polacos, entre outros, vendiam-se quase como escravos para viajarem até ao novo mundo. Os portugueses iam mais para o Brasil, mas alguns também foram para a América. Muitos não tiverem sucesso, quase todos mudaram de nome ou engrossaram os conhecidos bairros étnicos, alguns tiveram sucesso e muitos foram vítimas de xenofobia. É aliás curiosa a pergunta do irmão "se o narrador era mesmo americano." Mas não se julgue que na América tudo eram rosas. A alimentação era má e perigosa. Os medicamentos um risco sem controlo. Nos anos sessenta do século XX, as coisas já tinham melhorado muito para todos, com as férias pagas na Europa os turistas europeus poderão ultrapassar os americanos, Mesmo noutras coisas, como é sabido, a América ficou para trás.  

A paisagem é bela. Temos o lago, as montanhas  e a neve. Mas os mosquitos e as doenças espreitam. A tuberculose, a malária e outras infecções. Algumas pessoas procuram tratamentos, outras a beleza. O lago fica no sopé dos Alpes, onde se situa Davos, a cerca de 300 km, outro local mítico, onde uns anos mais tarde será escrita a “Montanha Mágica”. Chamonix fica a cerca de cem quilómetros. Tudo parece bem. Só que não.

Em Roma, Daisy Miller vai morrer rapidamente de malária (conhecida ali como febre italiana). Como referi, é triste, mas não era uma morte inesperada. As doenças eram muito comuns. O homem mais rico do mundo, um Rothschild, morreu nessa altura de uma infecção, por exemplo. Mais tarde vieram as guerras e a gripe pneumónica.

Na véspera da segunda guerra mundial ainda havia paludismo, ou, o que e sinónimo, malária, junto aos rios e lagos da Suíça, Itália, Espanha e Portugal. Eram as febres tercãs e as sezões. Foi o DDT  que acabou em boa parte com o paludismo nestes paises. Podemos agora saber e dizer coisas que na altura não sabíamos, mas não deveremos esquecer as lições da história da ciência.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Quatro centenários que celebram a humanidade

[No número 1284 do JL de 18 a 31 de dezembro de 2019 refiro o Ano Internacional da Tabela Periódica 2019 e o que aprendi com os centenários de Jorge de Sena, Sophia de Mello Andresen e Fernando Namora a ainda com Vitorino Nemésio e António Gedeão. Mas, eu também aprendi imenso com este número que refere outro centenário, o de João José Cochofel, assim como Arquimedes da Silva Santos, Nuno Maulice e Djaimilia Pereira de Almeida (na capa)]

O Ano Internacional da Tabela Periódica 2019 celebra os 150 anos de Dmitri Mendeleiev (1904-1907) deixando espaços vazios para os actuais 118 elementos químicos ao encontro de Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), Jorge de Sena (1919-1974), Fernando Namora (1919-1989), Rómulo de Carvalho / António Gedeão (1906-1997) e Vitorino Nemésio (1901-1978) que deixaram espaços para nos prenchermos.

A poesia de Sophia Obra Poética (Assírio & Alvim, 2015) é luminosa e concreta. Mas o que fazem aqui a família e os amigos (e também os inimigos)? Trazem a humanidade multifacetada que precede a imortalidade como espero mostrar. Na ciência parecia mais fácil - pensar em espaços vazios de acordo com fórmulas - mas também não é. Há nesta também um factor humano. Na Menina do Mar, de 1958, fala de química. Parece simples. Sophia era enganadoramente simples.
“-Trouxe-te isto - disse. - É uma caixa de fósforos. 
- Não é muito bonito - disse a Menina.
- Não; mas tem lá dentro uma coisa maravilhosa, linda e alegre que se chama o fogo. Vais ver.
E o rapaz abriu a caixa e acendeu um fósforo.
- A Menina deu palmas de alegria e pediu para tocar no fogo.
- disse o rapaz - é impossível. O fogo é alegre mas queima.
- É um sol pequenino - disse a Menina do Mar.
- Sim - disse o rapaz - mas não se lhe pode tocar.
E o rapaz soprou o fósforo e o fogo apagou-se.”

Podemos encontrar ligações científicas, claro, mas o mais importante é certamente o factor humano. 
O prefácio de Sena às Poesias Completas (Sá da Costa, 1965) de Gedeão, mostra que há uma ciência da literatura contra o impressionismo da crítica, com 70-80% dos seus poemas a não terem uma referência científica [corrijo a minha gralha]. Nas Memórias (Gulbenkian, 2010), no qual deixa um espaço para a sua morte, Rómulo de Carvalho diz que gostou do prefácio de Sena, mas no Hotel Tivoli em Junho de 1967, “Sentado à minha frente, na mesa do almoço, a meio metro de distância de mim, está Vitorino Nemésio que não me falou durante toda a refeição, nem antes nem após ela. Era um intelectual.” Em Nemésio, os poemas de 1971, de Limite de Idade, há hidrogénio, hélio, fósforo, carbono, ouro, azoto, polónio, chumbo, plutónio, néon, árgon, ferro, silício, sódio, cloro, alumínio, magnésio, potássio, enxofre, bromo, boro, estrôncio, mais elementos que em Gedeão! Ele que chumbara, segundo as suas palavras, por não saber a composição centésimal do metano.

Sena gosta de Nemésio, que resolveu triunfar de 1935 até a morte, numa aparentemente  gratuitidade nas metáfora, “Nemésio que conhecia tudo mas aparentava não conhecer nada” ao contário de Namora, segundo Sena. Em Estudos da Literatura Portuguesa II, Sena (Edicões 70) escreve sobre Namora e Domingo a Tarde, de 1969: “«O melro eu conheci-o», perdão o Namora, eu conheci-o, somos da mesma idade, andámos no mesmo liceu. Da mesma carteira. [U]m romancista medíocre e um péssimo escritor. Ou pior: é um narrador convencional” seguindo de “concluamos com uma nota comprovativa da total isenção com que foi escrito este artigo: eu nunca li nenhum romance de Namora, e muito menos este de que me ocupei … a diferença fundamental entre a literatura autêntica e a literatura de consumo está em que para falarmos da última não é necessário lê-la.” Por seu lado, Namora, num dos seus últimos escritos “[o]s homem de letras, detestam as pessoas sem as conhecer, as obras sem as ler.” 

Sena mostra uma infância solitária abatido ao contingente do Sagres, numa ocasião única, ele que sempre sonhara ser oficial de Marinha. No seu Diário, editado por Mécia de Sena refere, por cartas, que vai ser chumbado. Ganhou-se um génio contrariado, talvez, sempre a ler, que se forma em engenharia e vai para a junta autónoma, para o Brasil e depois Universidade da Califórnia. A história é conhecida da wikipedia. 

Namora, também contrariado, estuda medicina, mas esta é uma fonte de inspiração. E é sobretudo um homem do seu tempo. Com tuberculosos e cancros terríveis, gente pobre e rude, acompanhamos a evolução da medicina, desde que os hospitais não eram asilos, até o serem de facto. Em Um Homem Disfarçado, de 1967, e em 1969, surgem as drogas e a crítica social do seu tempo. Em Marketing, de 1969, e depois em Cadernos de um Escritor, e sobretudo, Os Adoradores do Sol, de 1971, numa viagem aos países Escandinavos, que repeti quase cinquenta anos depois e estes não “mudaram muito mas mudaram o suficiente.” Namora traz-nos o tempo com algum bolor e tralha é certo, mas faz-nos pensar na Greta Thunberg e no Mundo em que vivemos.

Namora responde em Março de 1966 na revista Vértice a Augusto Sales que já havia feito comentários à adaptação cinematográfica de o Trigo e o Joio. É assim que os vemos, em lutas entre eles, sempre sufocados e amordaçados, mas a liberdade não os fez melhores, como hoje sabemos.

Sena que foi um grande cultor das cartas. Podemos encontrar cartas a quase todos e todas são importantes, no original. Só no original se percebe o Sena que vê no Gaspar Simões um amigo quando ao Ramos Rosa diz mal dele. Espreitar por de trás da fechadura? Não! Só a humanidade os torna imortais. Citando Sena, fora do contexto (é, de facto, muito perigoso estar morto): “Que os historiadores universitários da literatura meditem nesta tremenda verdade...” 

E não deixa de ser revelador que Namora tenha reescrito, no estilo, mas não no conteúdo, nos anos 1970, o seu romance de juventude, As Sete Partidas do Mundo, de 1938, escrito entre 1936 e 1938, e Jorge de Sena reescreva toda a vida o seu romance, (também) de juventude Sinais de Fogo, publicado ainda incompleto, em 1979, e o tema seja o mesmo, o colégio que os marcou e uniu, um pobre a detestar os burgueses, outro burguês, também a detestar. Focando coisas diferentes, o primeiro as tuberculoses e as pneumonias, o segundo o pavor das gravidezes, antes do aparecimento da pílula (metonímia fantástica de um medicamento que criou um revolução), com diferentes profundidades, sempre na primeira pessoa. Como na tabela periódica que de 118 elementos se fazem mais de 15 mil moléculas todos os dias e de 26 letras se fazem incontáveis palavras todos os segundos, celebrando todos, os elementos e as letras, a humanidade.

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

JL: Amazónia, "onde nasce o perigo, cresce também a salvação?"


[Na edição de 12 de setembro do JL, entre muitas outras coisas, um pequeno dossiê sobre os fogos da Amazónia, de costas, mas não voltadas, com Viriato Soromenho Marques, com quem, aliás, concordo com as teses. Uma visão, apesar de tudo, optimista, baseada na literatura Portuguesa e Brasileira e muito mais]    

A selva, romance autobiográfico de Ferreira de Castro publicado em 1930, descreve o período de 1914/16 que este passou no seringal Paraíso, na Amazónia, no apogeu do ciclo da borracha. Dedica-o a “essa majestade verde, soberba e enigmática, que é a selva amazónica,” pelo que nela sofreu e pela coragem que lhe deu, assim como à gente que “à extracção da borracha entregava a sua fome, a sua liberdade e a sua existência,” numa “epopeia que não ajuíza quem, no resto do Mundo, se deixa conduzir, veloz e comodamente, num automóvel com rodas de borracha … que esses homens, humildemente heróicos, tiram à selva misteriosa e implacável.”

Ferreira de Castro descreve com precisão as duras condições de vida dos seringueiros, a extracção do látex da Hevea brasiliensis e o processo insalúbre de obtenção da borracha, usando o que descreve como fumo ácido e asfixiante. Mais recentemente, em 2008, Milton Hatoum, em Orfãos do Eldorado inventou o bairro “Cegos do Paraíso” onde viviam invisuais vítimas da defumação do látex.  A procura mundial por borracha originou, de 1890 a 1908, no “Estado Livre do Congo” do rei Leopoldo II da Bélgica, um regime de escravatura e atricidades para extrair o látex de um tipo de liana africana. Esta situação foi denunciada por Joseph Conrad em “O coração das trevas”, de 1902, assim como por Mark Twain e Conan Doyle, entre outros. No Brasil não foi tão duro, mas Ferreira de Castro descreve como os trabalhadores ficavam na prática “presos” por terem de pagar as dívidas que se acumulavam. Tudo isso é agora uma memória, mas a recordação do sofrimento ficou.

Monteiro Lobato, em A Geografia de Dona Benta, de 1935, coloca Pedrinho a perguntar por que razão a produção de borracha brasileira foi ultrapassada pelas plantações dos Holandeses e Ingleses que levaram a seringueira para a Ásia. Enquanto no Brasil se explorava a floresta nativa, com umas dez árvores da borracha por hectare, misturadas com muitas outras espécies, na Ásia usava-se o sistema de plantação. Como é também referido por Ferreira de Castro, houve interesse internacional em introduzir esse sistema no Brasil, nomeadamente por Henry Ford, mas tal nunca se concretizou.

O fim do ciclo da borracha, que agonizou até meados do século XX, não foi apenas devido ao aparecimento de outros locais de produção de borracha natural. Foi também causado pelo desenvolvimento da produção de borracha sintética a partir do petróleo. Claro que podemos dizer que subtituímos um problema por outro, mas a necessidade de plantações intensivas, a exploração dos seringueiros e a pressão sobre os ecossistemas, desapareceu.

Mário de Andrade que faz sair Macunaíma – o herói sem nenhum carácter, publicado em 1928, da Amazónia, embora crítico da ideia de progresso de Monteiro Lobato, não a rejeita. Nas suas notas das viagens, realizadas de 1926 a 1929 e publicadas em “O turista aprendiz,” descreve o progresso da Amazónia como algo bom. Está no espírito dos tempos actuais a rejeição filosófica (não na prática) da ideia de progresso. A história da ciência e da técnica mostra-nos que o anacronismo é dificil de evitar e que muitas supostas relações causais ou situações sem saída são ilusões causadas pela nossa falta de conhecimento.

Os incêndios na Amazónia são uma situação grave mas não são uma catástrofe global. Um pico de queimadas, o fumo nas grandes cidades, as imagens de satélite e as redes sociais, chamaram a atenção para um desperdício de energia e recursos ambientais que, infelizmente, acontece há muitos anos. Estes podem – e não é pouco - provocar perturbações nos equilíbrios dos ciclos da água, ameaçar a biodiversidade, aumentar as partículas de fumo na atmosfera, entre outras coisas, mas não vão causar a diminuição do oxigénio no planeta nem originar um grande aumento do dióxido de carbono na atmosfera pois este já havia sido fixado pelas plantas.

O uso do fogo para criar terra livre é referido por Ferreira de Castro, mas usá-lo hoje para criar espaços livres, pastagens e terrenos de cultura na Amazónia não parece fazer sentido. Não é eficiente nem sustentável - em poucos anos esgota os terrenos e acelera a desflorestação - sendo possível manter e até aumentar de outras formas os níveis de produção dos solos já em uso, controlando a erosão, sem ameaçar ecossistemas e aumentar a desflorestação.

Outra fonte de problemas na Amazónia é a mineração. Para além dos receios em relação à possibilidade de serem atribuídas licenças para exploração mineira de grandes dimensões na Amazónia, um grande problema têm sido as muitas minas artesanais ilegais que vão causando desflorestação e contaminando os solos e as pessoas que nelas trabalham ou com elas contactam.

O mapeamento das espécies e o registo das assinaturas genéticas e das composições químicas, são fundamentais para a preservação e valorização da biodiversidade da Amazónia - o conhecimento aberto e público dificultam a apropriação e contribuem para o uso racional. No entanto, a ideia, sustentada pelas estimativas de espécies ainda desconhecidas, de que poderemos encontrar com maior probabilidade novos medicamentos na floresta da Amazónia é uma ilusão. A maior parte dos cerca de quarenta novos medicamentos descobertos anualmente no mundo é sintética. E poderemos igualmente encontrar, tal como no conto de Borges, tesouros no nosso quintal: moléculas de novos medicamentos escondidas nas plantas do nosso jardim. E não tenhamos receio: se descobrirem novos fármacos em plantas amazónicas, a indústria preferirá inventar um processo de síntese a partir de materiais sustentáveis e baratos do que enfrentar o problema do cultivo da planta, ou, o que seria inaceitável, da sua exploração ilegal. 

Como nos mostra a história da borracha e da química medicinal, os problemas vão criando novas soluções que criam novos problemas que, em todo o caso, só se resolvem com mais ciência. Não esqueçamos o verso de Hölderlin que se reinventa em Heidegger, Ulrich Beck e Hubert Reeves: “onde há o perigo, cresce também a salvação.”

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Descer na Lua com as mãos na Terra


Artigo do JL de 28 de Agosto de 2019 (número com destaque para o centenário de Fernando Namora, a literatura de Cabo Verde, fotos de minas abandonadas e o regresso da coluna de Carlos Reis) a propósito dos cinquenta anos da descida na Lua e da relação desse feito notável com a literatura e outros feitos igualmente épicos que se repercutem no mundo actual. [corrigi algumas gralhas da minha responsabilidade]

A 20 de Julho de 1969, Miguel Torga escreveu no Diário: “O homem desceu na Lua. Ensacado num fato espacial e de foguetão no rabo, tanto teimou que conseguiu pôr os pés fora da Terra. E lá anda aos saltos, a lutar com a imponderabilidade, ridículo mas triunfante.” Mas logo de seguida, Torga reflete sobre o seu entusiasmo com o feito e a tristeza perante as “monótonas e desconsoladas aventuras que restam à humanidade” que, em vez de “arredondarem a fraternidade”, alargam a solidão, completando o que havia escrito em Dezembro de 1968: “O homem tem pela primeira vez a grandeza do universo cósmico.”

Referi alguns aspectos da relação entre a ciência e a literatura, a propósito da ida à Lua, em Jardins de Cristais (Gradiva, 2014), mas uma evocação mais completa foi feita por David Seed no artigo Moon on the mind: two millenia of lunar literature da revista "Nature" de Julho de 2019. Já em 1943, Agostinho da Silva, numa publicação de divulgação cultural, "Viagem à Lua", editada por Helena Briosa e Mota, em Páginas Esquecidas (Quetzal, 2019), analisou a ciência de algumas ficções sobre a ida à Lua. Mas ainda mais interessante é a discussão do que para Agostinho é uma certeza – que o homem irá chegar à Lua - envolvendo o leitor na análise do que se sabe sobre a Lua e sobre os problemas dessa viagem, mais de 25 anos antes desta ter ocorrido!

O primeiro passo na Lua foi dado, como é sabido, por Neil Armstrong às 2 horas e 56 minutos (hora de Greenwich) do dia 21 de Julho. Na manhã seguinte, os jornais fizeram edições especiais com imagens de capa dos astronautas na Lua, passando quase despercebida, também na primeira página de alguns jornais, uma pequena notícia sobre o primeiro transplante realizado em Portugal - em Coimbra, a equipa de Linhares Furtado fez nessa mesma noite o transplante de um rim. Será que podemos comparar os dois feitos, aparentemente tão díspares? Será que a literatura dá atenção suficiente e compreende o que representa, em termos científicos e técnicos, a possibilidade de realização de transplantes, para além das muitas distopias que nos questionam – e bem - como Nunca de deixes de Kazuo Ishiguro?

A odisseia que foi (e continua a ser) o desenvolvimento das técnicas de transplante não envolve os meios financeiros e humanos da ida à Lua, mas é, em termos científicos, um feito com mais novidade científica. De facto, a ida à Lua é um resultado tecnológico que congregou, de forma fascinante e enorme complexidade, ciência e tecnologia já existentes, enquanto que o sucesso dos primeiros transplantes envolveu algo novo e desconhecido: o controlo químico da imunidade. Para além da perícia e excelência cirúrgica, os transplantes tornaram-se possíveis devido à sintese, por Gertrude Elion, no final dos anos 1950, da primeira molécula imunossupressora eficaz - a azatiotropina. É a invenção desta molécula que permitirá a Roy Calne nos anos 1960 iniciar um programa de transplantes que se generalizou a todo o planeta e está em contínuo desenvolvimento científico. Para além disso, a possibilidade de realização transplantes envolveu uma grande quantidade de descobertas e desenvolvimentos prévios como a anestesia, a assepsia, os grupos sanguíneos e transfusões de sangue e antibióticos, entre outros feitos da química medicinal e da medicina. Curiosamente, Miguel Torga no Diário refere o “milagre da ciência moderna” que são os antibióticos, mas não encontrei referências a imunossupressores. Muitos feitos médicos de base química, são quase invisíveis, mesmo para médicos, e, obviamente, também para a literatura.

No dia 5 Julho de 1963, depois de ter salvo um doente com muito esforço, Torga compara a dignidade das actividade humanas que se fazem todos só dias de forma competente, como salvar um doente, ou apertar bem um parafuso, com os feitos ainda por realizar. Para estes últimos escolhe a ida à Lua, referindo com melancolia: “Lá chegaremos, na mesma tristeza com que pisámos pela primeira vez as terras da Patagônia.” Essa tristeza é, para mim, a condição humana que a literatura ajuda a dar sentido, humanizando a ida à Lua, dando grandiosidade às coisas comuns, ou mostrando que os desenvolvimentos científicos e técnicos quase não mudam a natureza humana.

No Poema do Homem Novo, António Gedeão começa por enumerar alguns dos maravilhosos aspectos científicos e tecnológicos que envolvem o passeio na Lua de Neil Armstrong, concluindo de forma crua que o “Homem Novo” fez exactamente o que faria o “Homem Velho:” espetou a bandeira da sua pátria na Lua!  É revelador que o fato espacial de Neil Armstrong seja um catálogo dos polímeros (plásticos) sintéticos disponíveis na altura – não, não foi a NASA que inventou o teflon ou qualquer dos polímeros usados no fato – e as suas várias camadas tenham sido cosidas por costureiras de uma fábrica especializada em sutiãs e cintas. Seis camadas de poliamidas, algumas aluminadas, uma de policloreto de vinilo, uma de elastano, duas de poliacrilonitrilo, nove de poliésteres, algumas com tecido de fibra de vidro, e duas de politetrafluoroetileno, com nomes comerciais, nylon, vinyl, spandex, nomex, neopreno, mylar, dacron, kapton e teflon, para além do capacete de policarbonato e das luvas com silicone. O sucesso da aventura da ida do homem à Lua envolveu mais de 400 mil pessoas, muitas delas engenheiros e operários nas muitas companhias que contribuíram para o projecto. Não é, por isso, estranho que muitas companhias tenham feito anúncios em que de forma directa, ou indirecta, ligavam os seus produtos à ida à Lua.

A ida à Lua foi um feito notável, mas os objectos e processos que nos rodeiam, ligados ou não à ida à Lua, têm histórias que podem ser igualmente épicas. Reflectindo com base no conhecido poema de Sophia, a civilização em que estamos é errada, talvez não tanto porque o pensamento se desligou da mão, uma vez que os arados são desde há muitos anos demasiado complexos, mas porque o pensamento não sabe qual o poder e os limites do alcance da mão nem se apercebe da real complexidade dos arados.

Frankenstein 200.0


Recupero um ensaio breve publicado no JL em 2018 a propósito dos duzentos anos do Frankenstein de Mery Shelley

Imagine-se a comissão de ética de uma universidade a analisar um projecto a submeter por uma equipa multidisciplinar de cientistas de vários países e empresas de biotecnologia a financiamento europeu: criar um ser humano a partir de tecidos e órgãos cultivados em laboratório ou colhidos em cadáveres. Um cenário equivalente é proposto na revista Science de Janeiro de 2018 para evocar os duzentos anos de Frankenstein de Mary Shelley: Victor Frankenstein propõe ao comité de ética da Universidade de Ingolstadt usar um “mecanismo de animação electroquímica” numa montagem de “peças anatómicas” e “restaurar a vida” assegurando que seguirá as melhores práticas éticas em relação à criatura obtida. Para além das dúvidas científicas sobre a viabilidade destes projectos, as propostas seriam muito provavelmente rejeitadas devido aos problemas éticos que levantam. Em Frankenstein o projecto é realizado em segredo e somos convidados a reflectir sobre as consequências deste ter sido realizado.

Ao longo dos últimos duzentos anos, os detalhes do processo de animação da criatura têm sido imaginados, a partir dos indícios presentes no texto e da ciência da época, como sendo de natureza eléctrica e química. Humphrey Davy, químico e poeta, protótipo do cientista do Romantismo, autor de trabalhos pioneiros de electroquímica, é citado de forma quase literal pela voz do professor de química Waldman, “com as mãos sujas e debruçados sobre os seus microscópios e cadinhos, [os químicos] fazem milagres; penetraram nos segredos da Natureza, sobem aos céus; descobriram a circulação do sangue e a natureza do ar que respiramos. Adquiriram poderes quase ilimitados; comandam o raio do céu, simulam os terramotos e até zombam do mundo invisível servindo-se das suas sombras“. Também a influência de Percy Shelley, amante e futuro marido de Mary, com o seu fascínio pela alquimia, química e electricidade, assim como os ecos das demonstrações com electricidade e cadáveres de Aldini, são relevantes para a formação desta imagem. O fascínio pela electricidade, vista como uma panaceia, mantém-se até ao século XX, mas já está presente no final do século XVIII. A ideia de que a electricidade poderia ser usada para ressuscitar pessoas “aparentemente mortas”, que conduziu ao desfibrilador actual, já aparece, embora de forma tímida, por exemplo, num texto do químico, farmacêutico e médico português, Manuel Henriques de Paiva, publicado em 1790, Método de restituir a vida às pessoas aparentemente mortas por afogamento ou asfixia.

Embora Victor Frankenstein refira a passagem por cemitérios, morgues e matadouros, quase nada no texto de Frankenstein se opõe a uma visão actualizada, obviamente anacrónica mas plausível, dos processos usados para animar a criatura. É certo que no livro não encontramos o trabalho de equipa da ciência actual, nem a participação de empresas, nem o financiamento público, ou a submissão prévia a uma comissão de ética, pois a narrativa segue os padrões da ciência romântica e a imagem do cientista solitário. Mas as possibilidades actuais de transplante de corpo (ainda em discussão), o uso de imunossupressores, a fecundação in vitro, a genética, a modificação genética, a edição de genes e a terapia genética, a clonagem, a biotecnologia, o crescimento de tecidos e órgãos in vitro, por exemplo, não são excluídos pelo texto. O facto de não “desvendar” o processo de animação da vida, um segredo que só Victor Frankenstein possuía e ainda hoje não conhecemos, faz com que um livro escrito antes da síntese da primeira molécula orgânica a partir de matéria inorgânica, do desenvolvimento da assepsia, da anestesia e do coma induzido, da identificação dos microorganismos e dos vírus, do estabelecimento da estrutura tridimensional das moléculas, em particular dos aminoácidos e das proteínas, da descoberta do ADN e dos genes, entre tantas outras coisas desconhecidas no tempo de Mary Shelley, continue relevante para a discussão dos problemas éticos e científicos actuais.

Frankenstein é muito mais do que a primeira obra de ficção científica no sentido contemporâneo ou um reflexo do Romantismo e do deslumbramento e temor perante a ciência. É um livro com múltiplas leituras que propõe dilemas éticos mais do que problemas técnicos e científicos. No final, o que acaba por ser mais importante são as questões morais que o livro coloca. Podemos ou deveremos fazê-lo? Se o fizermos como deveremos agir? De acordo com isso, vários autores têm referido Frankenstein como uma história a ser lida por todos os cientistas, como parte da sua formação.

O professor Waldman, ecoando Davy, diz a Victor que “para ser um cientista e não apenas um experimentador, deve estudar todos os ramos da ciência”. Abel Salazar, mais tarde, dirá que “um médico que só sabe medicina, nem medicina sabe”. A formação humana é fundamental, mas Frankenstein vai mais longe e interroga-nos sobre os limites da ciência e as falhas do escrutínio científico e ético realizados pelos pares e sociedade.

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Bernardino António Gomes (1768-1823): 250 anos do nascimento, 206 anos da purificação do primeiro alcalóide



Em 29 de Outubro de 2018, assinalaram-se os 250 anos do nascimento de Bernardino António Gomes (1768-1823), médico e cientista português, aniversário que já foi aqui lembrado por Carlos Fiolhais. A sua contribuição pioneira para a extracção e purificação do primeiro alcalóide na forma de base pura, obtido da casca da quina (cinchona), usada no tratamento da malária, foi um feito notável que está na origem do desenvolvimento da química medicinal moderna baseada em compostos bioactivos.  

Ao composto que obteve na forma cristalina e identificou com a “virtude febrífuga” das quinas, chamou cinchonino, nome que a partir de 1819, passou a ser cinchonina, seguindo a nomenclatura adoptada universalmente para os alcalóides. Este composto que apresenta as mesmas caracterísiticas terapêuticas da casca de quina, não existia noutras cascas de árvores que eram comercializadas, por fraude ou desconhecimento, também como medicamento para as febres intermitentes da malária. Este trabalho notabilíssimo, realizado em 1812 por solicitação da Academia das Ciências de Lisboa, no Laboratório da Casa da Moeda, de que era director Bonifácio de Andrada e Silva, abria assim o caminho para métodos de controlo de qualidade químicos e de programas de pesquisa de outras plantas que tivessem o mesmo princípio activo.

A descoberta de Gomes foi confirmada em 1820 por Pelletier e Caventou, autores que identificaram um outro dos alcalóides na casca da quina, a quinina, que existe em maior quantidade na casca, e que haviam já descoberto e purificado, em 1817 a estricnina, seguindo em ambos os casos o procedimento de Bernardino António Gomes. É de realçar que a morfina havia já sido isolada em 1806 por Friedrich Serturne, mas a obtenção do primeiro alcalóide puro e o estabelecimento dos princípios do método corrente que permitiu, a partir das primeiras décadas do século XIX, purificar dezenas de compostos alcalóides podem ser atribuídas à publicação de Bernardino António Gomes.

Podemos perguntar por que razão não são mais conhecidas estas contribuições de Bernardino António Gomes e por que razão esta efeméride tão redonda (250 anos) está a passar, tanto quanto sabemos, quase despercebida. Obviamente a questão de Portugal ser um país periférico, sem grande tradição científica, tem sido relevante, mas não é essa a única razão.

Gomes, embora com grande entusiasmo pela investigação irá continuar essencialmente um médico (notável e pioneiro também na vacinação contra a varíola e no estudo da elefantíase entre outros trabalhos), mas não continuou o trabalho sobre a quina, nem o estendeu a outras plantas, nem motivou outros investigadores portugueses a continuaram esse trabalho. Se o trabalho analítico e químico de Bernardino António Gomes tivesse tido continuidade, teria tido com certeza muito mais visibilidade. Assim, aquilo que seria provavelmente a grande motivação e o resultado mais importante do trabalho: identificar a “virtude febrífuga das quinas” que designaríamos actualmente pela busca do princípio activo ou do composto responsável pelo efeito terapêutico, abrindo a possibilidade pioneira na ciência da época de obter este composto de outras formas, substituíndo a necessidade de recorrer à quina, foi rapidamente esquecido e não teve continuidade. 

Para o abandono do projecto e para o quase esquecimento do feito concorreram em grande medida razões locais. Os resultados de Bernardino António Gomes foram duramente criticados por José Feliciano de Castilho no "Jornal de Coimbra" com repercussões internacionais no "Investigador Português em Inglaterra". Tomé Rodrigues Sobral que arbitrou a disputa, optou por uma resposta inconclusiva sugerindo que a “virtude febrifúga” poderia ter uma origem múltipla, pondo-se assim termo à continuação do projecto. 

Mais tarde, com a República e com o Estado Novo, Bernardino António Gomes foi sendo evocado, embora de forma tímida, como um grande cientista português. Mas estas evocações que podem confundir-se com as formas propagandísticas do nacionalismo não ajudaram a consolidar a sua memória num país com tão pouca tradição em homenagear de forma devida a sua ciência. Tem um busto no Jardim Botânico de Lisboa, o nome em algumas ruas, foi declarado fundador da dermatologia portuguesa e patrono da Sociedade Portuguesa de Dermatologia e, este ano, foi incluído numa emissão filatélica “Vultos da História e da Cultura”, a qual inclui o Padre Himalaya, outro cientista português que deveria ser mais conhecido, mas é pouco, muito pouco, como reconhecimento de tão notável personagem da história da ciência e da cultura portuguesas.

Bernardino António Gomes nasceu a 29 de Outubro de 1768 e foi baptizado, segundo Virgílo Machado, em Paredes do Coura, embora haja autores, incluindo o próprio filho homónimo, indicam como local de nascimento Arcos de Valdevez. Doutorou-se em medicina na Universidade de Coimbra em 1793, tendo ido exercer medicina para Aveiro até 1797. O interesse pela investigação chamava-o e muda-se para Lisboa onde pouco tempo depois é médico da Armada, embarcando para o Brasil. Dessa viagem surge uma publicação sobre a canela do Rio de Janeiro a que se seguirão vários outros trabalhos sobre plantas medicinais do Brasil. Casa em 1801 com Leonor Violante Mourão, jovem viúva sete anos mais nova com quem tem cinco filhos, o mais conhecido é o homónimo Bernardino António Gomes filho que foi professor da Universidade de Coimbra. Este casamento foi tumultuoso e envolveu separações e um divórico público que foi até já alvo de um estudo académico. Em 1806 publicou um trabalho sobre o tifo. Em 1812, esteve envolvido na fundação do Instituto Vacínico de que foi o primeiro director. Incansável investigador e autor, escreveu também sobre as boubas (peste bubónia), a desinfecção de cartas, doenças de pele, a elefantíase e a ténia. Em 1817 acompanhou como médico a princesa Maria Leopoldina até ao Rio de Janeiro. Morreu com 54 anos em Lisboa de “afecção malígna no estômago”. Foi sócio efectivo da Academia das Ciências de Lisboa (1812), cavaleiro da Ordem de Cristo (1812), Médico Honorário da Câmara Real (1813), entre outras distinções.

Há ainda bastantes aspectos da vida e dos trabalhos de Bernardino António Gomes que merecem ser melhor estudados. Felizmente, há neste momento pelo menos duas investigadoras, estudantes de doutoramento, que estão a realizar estudos que poderão lançar mais alguma luz sobre os seus trabalhos. Conhecer e divulgar na justa medida a história das descobertas e polémicas em que se viu involvido é uma contribuição importante para entendermos melhor a nossa História e as razões das nossas dificuldades passadas e pode contribuir para uma maior confiança colectiva na ciência portuguesa. 

Bibliografia
AMORIM DA COSTA, A. M., "Thomé Rodrigues Sobral (1759-1829). A Química ao serviço da Comunidade" in História e Desenvolvimento da Ciência em Portugal, Publicações do II Centenário da Academia das Ciências de Lisboa, 1 (1986), 373-402.   

GOMES, Bernardino António, Ensaio sobre o cinchonino e sobre a sua influencia na virtude da quina, e d''outras cascas, Memórias de Mathemática e Physica da Academia das Sciencias, 1812 (disponível online em várias fontes, republicado na Revista Portuguesa de Química Pura e Aplicada em 1908)

HEROLD, Bernardo, "Bernardino Gomes, pai e Agostinho Lourenço, precursores portugueses da química dos alcalóides e dos polímeros sintéticos" in História e Desenvolvimento da Ciência em Portugal, Publicações do II Centenário da Academia das Ciências de Lisboa, 1 (1986), 417-433.

HEROLD, Bernardo, CARNEIRO, Ana, Bernardino António Gomes, Biografias, SPQ (http://www.spq.pt/files/docs/Biografias/BAGomesport.pdf acedido 29 de Outubro de 2018). 

MACHADO, Virgílio, O Doutor Bernardino Gomes (1768-1823) : a sua vida e sua obra. Lisboa : Portugalia, 1925 (disponível em http://purl.pt/420)

REIS, Fernando, Bernardino António Gomes, Ciência em Portugal: personagens e episódios. Instituto Camões (http://cvc.instituto-camoes.pt/ciencia/p21.html, acedido 29 de Outubro de 2018)

SIMÕES, Manuela Lobo da Costa, Um divórcio na Lisboa oitocentista. Livros Horizonte: Lisboa, 2006. 

SUBTIL, Carlos, Bernardino António Gomes: ilustre médico iluminista nascido em Paredes de Coura. Município de Paredes do Coura, 2017.