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terça-feira, 30 de outubro de 2018

Bernardino António Gomes (1768-1823): 250 anos do nascimento, 206 anos da purificação do primeiro alcalóide



Em 29 de Outubro de 2018, assinalaram-se os 250 anos do nascimento de Bernardino António Gomes (1768-1823), médico e cientista português, aniversário que já foi aqui lembrado por Carlos Fiolhais. A sua contribuição pioneira para a extracção e purificação do primeiro alcalóide na forma de base pura, obtido da casca da quina (cinchona), usada no tratamento da malária, foi um feito notável que está na origem do desenvolvimento da química medicinal moderna baseada em compostos bioactivos.  

Ao composto que obteve na forma cristalina e identificou com a “virtude febrífuga” das quinas, chamou cinchonino, nome que a partir de 1819, passou a ser cinchonina, seguindo a nomenclatura adoptada universalmente para os alcalóides. Este composto que apresenta as mesmas caracterísiticas terapêuticas da casca de quina, não existia noutras cascas de árvores que eram comercializadas, por fraude ou desconhecimento, também como medicamento para as febres intermitentes da malária. Este trabalho notabilíssimo, realizado em 1812 por solicitação da Academia das Ciências de Lisboa, no Laboratório da Casa da Moeda, de que era director Bonifácio de Andrada e Silva, abria assim o caminho para métodos de controlo de qualidade químicos e de programas de pesquisa de outras plantas que tivessem o mesmo princípio activo.

A descoberta de Gomes foi confirmada em 1820 por Pelletier e Caventou, autores que identificaram um outro dos alcalóides na casca da quina, a quinina, que existe em maior quantidade na casca, e que haviam já descoberto e purificado, em 1817 a estricnina, seguindo em ambos os casos o procedimento de Bernardino António Gomes. É de realçar que a morfina havia já sido isolada em 1806 por Friedrich Serturne, mas a obtenção do primeiro alcalóide puro e o estabelecimento dos princípios do método corrente que permitiu, a partir das primeiras décadas do século XIX, purificar dezenas de compostos alcalóides podem ser atribuídas à publicação de Bernardino António Gomes.

Podemos perguntar por que razão não são mais conhecidas estas contribuições de Bernardino António Gomes e por que razão esta efeméride tão redonda (250 anos) está a passar, tanto quanto sabemos, quase despercebida. Obviamente a questão de Portugal ser um país periférico, sem grande tradição científica, tem sido relevante, mas não é essa a única razão.

Gomes, embora com grande entusiasmo pela investigação irá continuar essencialmente um médico (notável e pioneiro também na vacinação contra a varíola e no estudo da elefantíase entre outros trabalhos), mas não continuou o trabalho sobre a quina, nem o estendeu a outras plantas, nem motivou outros investigadores portugueses a continuaram esse trabalho. Se o trabalho analítico e químico de Bernardino António Gomes tivesse tido continuidade, teria tido com certeza muito mais visibilidade. Assim, aquilo que seria provavelmente a grande motivação e o resultado mais importante do trabalho: identificar a “virtude febrífuga das quinas” que designaríamos actualmente pela busca do princípio activo ou do composto responsável pelo efeito terapêutico, abrindo a possibilidade pioneira na ciência da época de obter este composto de outras formas, substituíndo a necessidade de recorrer à quina, foi rapidamente esquecido e não teve continuidade. 

Para o abandono do projecto e para o quase esquecimento do feito concorreram em grande medida razões locais. Os resultados de Bernardino António Gomes foram duramente criticados por José Feliciano de Castilho no "Jornal de Coimbra" com repercussões internacionais no "Investigador Português em Inglaterra". Tomé Rodrigues Sobral que arbitrou a disputa, optou por uma resposta inconclusiva sugerindo que a “virtude febrifúga” poderia ter uma origem múltipla, pondo-se assim termo à continuação do projecto. 

Mais tarde, com a República e com o Estado Novo, Bernardino António Gomes foi sendo evocado, embora de forma tímida, como um grande cientista português. Mas estas evocações que podem confundir-se com as formas propagandísticas do nacionalismo não ajudaram a consolidar a sua memória num país com tão pouca tradição em homenagear de forma devida a sua ciência. Tem um busto no Jardim Botânico de Lisboa, o nome em algumas ruas, foi declarado fundador da dermatologia portuguesa e patrono da Sociedade Portuguesa de Dermatologia e, este ano, foi incluído numa emissão filatélica “Vultos da História e da Cultura”, a qual inclui o Padre Himalaya, outro cientista português que deveria ser mais conhecido, mas é pouco, muito pouco, como reconhecimento de tão notável personagem da história da ciência e da cultura portuguesas.

Bernardino António Gomes nasceu a 29 de Outubro de 1768 e foi baptizado, segundo Virgílo Machado, em Paredes do Coura, embora haja autores, incluindo o próprio filho homónimo, indicam como local de nascimento Arcos de Valdevez. Doutorou-se em medicina na Universidade de Coimbra em 1793, tendo ido exercer medicina para Aveiro até 1797. O interesse pela investigação chamava-o e muda-se para Lisboa onde pouco tempo depois é médico da Armada, embarcando para o Brasil. Dessa viagem surge uma publicação sobre a canela do Rio de Janeiro a que se seguirão vários outros trabalhos sobre plantas medicinais do Brasil. Casa em 1801 com Leonor Violante Mourão, jovem viúva sete anos mais nova com quem tem cinco filhos, o mais conhecido é o homónimo Bernardino António Gomes filho que foi professor da Universidade de Coimbra. Este casamento foi tumultuoso e envolveu separações e um divórico público que foi até já alvo de um estudo académico. Em 1806 publicou um trabalho sobre o tifo. Em 1812, esteve envolvido na fundação do Instituto Vacínico de que foi o primeiro director. Incansável investigador e autor, escreveu também sobre as boubas (peste bubónia), a desinfecção de cartas, doenças de pele, a elefantíase e a ténia. Em 1817 acompanhou como médico a princesa Maria Leopoldina até ao Rio de Janeiro. Morreu com 54 anos em Lisboa de “afecção malígna no estômago”. Foi sócio efectivo da Academia das Ciências de Lisboa (1812), cavaleiro da Ordem de Cristo (1812), Médico Honorário da Câmara Real (1813), entre outras distinções.

Há ainda bastantes aspectos da vida e dos trabalhos de Bernardino António Gomes que merecem ser melhor estudados. Felizmente, há neste momento pelo menos duas investigadoras, estudantes de doutoramento, que estão a realizar estudos que poderão lançar mais alguma luz sobre os seus trabalhos. Conhecer e divulgar na justa medida a história das descobertas e polémicas em que se viu involvido é uma contribuição importante para entendermos melhor a nossa História e as razões das nossas dificuldades passadas e pode contribuir para uma maior confiança colectiva na ciência portuguesa. 

Bibliografia
AMORIM DA COSTA, A. M., "Thomé Rodrigues Sobral (1759-1829). A Química ao serviço da Comunidade" in História e Desenvolvimento da Ciência em Portugal, Publicações do II Centenário da Academia das Ciências de Lisboa, 1 (1986), 373-402.   

GOMES, Bernardino António, Ensaio sobre o cinchonino e sobre a sua influencia na virtude da quina, e d''outras cascas, Memórias de Mathemática e Physica da Academia das Sciencias, 1812 (disponível online em várias fontes, republicado na Revista Portuguesa de Química Pura e Aplicada em 1908)

HEROLD, Bernardo, "Bernardino Gomes, pai e Agostinho Lourenço, precursores portugueses da química dos alcalóides e dos polímeros sintéticos" in História e Desenvolvimento da Ciência em Portugal, Publicações do II Centenário da Academia das Ciências de Lisboa, 1 (1986), 417-433.

HEROLD, Bernardo, CARNEIRO, Ana, Bernardino António Gomes, Biografias, SPQ (http://www.spq.pt/files/docs/Biografias/BAGomesport.pdf acedido 29 de Outubro de 2018). 

MACHADO, Virgílio, O Doutor Bernardino Gomes (1768-1823) : a sua vida e sua obra. Lisboa : Portugalia, 1925 (disponível em http://purl.pt/420)

REIS, Fernando, Bernardino António Gomes, Ciência em Portugal: personagens e episódios. Instituto Camões (http://cvc.instituto-camoes.pt/ciencia/p21.html, acedido 29 de Outubro de 2018)

SIMÕES, Manuela Lobo da Costa, Um divórcio na Lisboa oitocentista. Livros Horizonte: Lisboa, 2006. 

SUBTIL, Carlos, Bernardino António Gomes: ilustre médico iluminista nascido em Paredes de Coura. Município de Paredes do Coura, 2017.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

POÇÕES E PAIXÕES

Texto primeiramente publicado na imprensa regional.



Podemos imaginar que a vida é uma Ópera em que um número astronómico de moléculas e iões contracenam para desencadear uma experiência única na história do planeta: a humanidade. Esta ideia é inspirada e fundamentada pela leitura de um livro que deve fazer parte de todas as bibliotecas portuguesas, públicas (incluindo as dos Conservatórios e Escolas de Música) e privadas: “Poções e Paixões – Química e Ópera”. É um livro magistralmente composto pelo químico João Paulo André, Professor de Química na Universidade do Minho, que nele nos mostra a sua extensa cultura operática, para além da sua grande capacidade de divulgar ao grande publico a ciência que domina: a Química.

Este livro teve 1ª edição em Março deste ano, 2018, e foi publicado pela editora Gradiva na sua incontornável colecção “Ciência Aberta”, dirigida desde o número 201 pelo Professor Carlos Fiolhais. Nesta biblioteca de cultura científica, este é o volume número 226. Fascinante! Deve passar a fazer parte da bibliografia das disciplinas de História da Música e da Química, onde as houver!

É que esta obra é singular, mesmo a nível internacional, na sua mestria de mostrar sem artifícios que a Química está presente de forma natural num número inimaginável de Óperas, género que teve o seu início em 1597, em Florença, com a Ópera “Dafne”, de Jacopo Peri, no seio da Camerata Fiorentina. A Química moderna “nasce” cerca de dois séculos depois, em 1789 e em Paris, com a obra “Tratado Elementar de Química” de Antoine Lavoisier (saliente-se, que em Coimbra, Vicente Coelho de Seabra, antecipa, a meu ver, este “nascimento” da Química, com a publicação menos conhecida do primeiro volume de “Elementos de Chimica”, em 1788).

Ao longo de 450 páginas (fôlego impossível para qualquer cantor ou actor operático, apesar de algumas óperas se desenvolverem ao longo de muitas horas), João Paulo André não se limita à Química e à Ópera. Para as contextualizar, descrever e eventualmente explicar, escreve amplamente sobre a cultura humana no seu todo. A Ópera, afinal de contas, aborda temas de toda a história e natureza da humanidade. E a Química, apesar de muitos não o entenderem, está em toda a parte: somos feitos de compostos químicos.

Pautadamente, em dez capítulos, o autor escreve com uma fluidez melódica e surpreendente, sobre a cultura humana. Após um preâmbulo em que o autor apresenta e discute algumas afinidades gerais entre a Química e a Ópera, o livro começa com o fogo (“O elemento roubado”), terminando na radioactividade e na bomba atómica. Pelo meio, revisita o universo alquímico, a metalurgia, o ouro, os metais pesados, as plantas venenosas e farmacêuticas, o tabagismo, as bebidas alcoólicas, o cianeto dos campos de concentração nazis, os neurotransmissores e as hormonas do amor.

Da vasta galeria de personagens que são referidas nesta obra, fazem parte os grandes envenenadores da História e Mitologia (Medeia, Mitridates, Cleópatra, Agripina, Locusta, família Bórgia, Marquesa de Brinvilliers…), vários pares amorosos célebres (Romeu e Julieta, Tristão e Isolda…), passando por Marilyn Monroe ou Rasputin. São os condimentos de poções e paixões que dão corpo ao título deste livro.

Este livro está profusamente ilustrado ao longo de uma narrativa de leitura mais do que acessível: cativante. Sem perder o rigor próprio da ciência, o autor “delicia-nos” com uma prosa elegante. Isto debruado com a referência cuidada a inúmeras óperas e árias líricas, e à história da música e da ciência centrada, neste caso, principalmente na Química.

Como nota de referência, refira-se que na génese deste livro de divulgação científica encontra-se a palestra “Ópera, Venenos e outros Químicos”, proferida pelo autor na Universidade do Minho em Novembro de 2011, no âmbito do Ano Internacional da Química.

João Paulo André

Neste livro, para além das oportunas notas de rodapé, encontramos uma cuidada bibliografia que, para além de referenciar o conhecimento descrito, permite novas descobertas para o leitor mais interessado. Ademais, o autor proporciona-nos no final um muito interessante glossário de “termos científicos e musicais, onde, num encontro inesperado de culturas, a par de entradas como “agonista” ou “barbitúrico” se pode encontrar, por exemplo, “atonal” ou “barítono”, refere-nos João Paulo André.

"Poções e Paixões - Química e Ópera" mostra, segundo o autor, “que, se por um lado, a Química é a ciência central que está em toda a parte, até mesmo no amor, a Ópera é muito mais do que o espectáculo em que “o barítono ama a soprano, que ama o tenor”.

Ainda na primeira edição, na minha opinião, este livro merece uma outra dimensão editorial: capas duras que suportem um tamanho superior que permita ao leitor desfrutar melhor das inúmeras ilustrações que compaginam a escrita magistral. Mas, nessa eventual outra edição, a actual capa, autoria de Armando Lopes, deve manter-se, tão interessante que é! Deve-se também referir que a presente edição teve o apoio da Sociedade Portuguesa de Química e da Ciência Viva.

Neste livro, que é para todos, o Professor Carlos Fiolhais escreve o prefácio. E nele, diz sobre o autor: “há poucos, muitos poucos, mestres de Química e de Ópera, sábios que consigam fascinar-nos com o entrelaçamento da ciência e da arte. O autor do livro que o leitor tem (pode ter, acrescento eu) entre mãos é um mestre das duas culturas, que afinal são uma só”.

Num país onde, infelizmente, os espectáculos de Ópera praticamente só ocorrem em Lisboa, este livro é uma aurora que permite a quem o lê aprende e desfrutar o melhor da cultura humana. Não hesite. Tome a poção que é este livro e apaixone-se pelo conhecimento!

António Piedade

quarta-feira, 21 de março de 2018

Poema "Marketing" (1969) de Fernando Namora

O poema “Marketing”, de 1969, é um exercício de ironia sobre o mundo moderno e o consumismo, tendo como base mensagens publicitárias da época em que foi escrito (e outros aspectos sociais e políticos que não vou aqui comentar). O que gostaria de referir, ainda que superficialmente, são os muitos produtos referidos que, em alguns casos, têm uma história química interessante e positiva para o bem-estar da humanidade e a sustentabilidade do planeta. Embora a poesia seja para ser lida sem interrupções, olhemos para algumas partes do poema: 

 Aqui a meu lado   o bom cidadão
 escolheu Sagres
 que é tudo   tudo cerveja
 a pausa que refresca
 a longa pausa de um longo cigarro King Size.
                                          atenção ao marketing.

A marca de cerveja Sagres surgiu em 1940 para a Exposição do Mundo Português, lançada pela Sociedade Central de Cervejas e Bebidas, fundada em 1934. A marca de cerveja Super Bock surgiu em 1927, mas a sua distribuição fazia-se apenas no Norte até aos anos 1970, além de que não se colava tanto ao regime como a Sagres. A tecnologia da produção de cerveja industrial envolvem muitos aspectos químicos.
Os cigarros King Size foram muito populares. Fernando Namora, como muitos médicos da altura, assim como as suas personagens, era fumador. Embora já fossem conhecidos os malefícios do tabaco, os anúncios eram livres e, em muitos casos, envolvendo a sugestão de benefícios. Há várias outras referências a tabaco no poema, nomeadamente às marcas Estoril, Valetes, Kaiakes e Marialvas, já desaparecidas e ao uso de filtro nos cigarros.

Eu não gosto de cerveja
mas tenho de gostar que os outros gostem de cerveja
sobretudo da Sagres
para não contrariar os fabricantes de cerveja.
                                              atenção ao marketing.
Ninguém contraria os fabricantes de cerveja
ninguém contraria os fabricantes do Opel e da Super Silver
nem os fabricantes de alcatifas para panaceias
nem as panaceias nem os códigos e os édredons macios
nem as mensagens de natal dos estadistas
nem os negociantes de armas da Suíça
nem o homem de capa negra que virou as costas ao Palmolive.
Está tudo perfeito e deito-me no conforto de um Lusospuma
a ver as procissões passar   mesmo sem anjos   mesmo sem anjos
que são agora selvagens e voam numa Harley.

As marcas de automóveis Opel e Ford, com o modelo Escort desta última a aparecer mais à frente, são aparentemente, na altura, publicitados em Portugal. Os carros desse tempo eram muito menos seguros e fiáveis, além de mais poluentes e muito mais consumidores de combustível. Usavam gasolina com chumbo e ainda não estavam em uso, ou não tinham sido inventados, o airbag, os catalisadores, os vidros duplos, a injecção electrónica,, entre muitas outras coisas que nos parecem normais hoje em dia. As marcas de motas Harley Davidson e Super Silver aparecem aqui num estatuto quase mítico. O Palmolive e o Lux, que aparecerá mais à frente, são sabonetes. Este objecto de higiene que permitia um uso mais frequente do que os sabões, como o Clarim para lavar a roupa, referido mais à frente, está hoje quase completamente substituído pelos sabonetes líquidos que envolvem surfactantes líquidos, na altura ainda não inventados, foi uma revolução.
Lusoespuma era uma marca de colchões de espuma de poliuretano, material ainda hoje usado. Este material sintético substituiu com grande vantagem e versatilidade materiais naturais, como a palha, nos colchões mais económicos e populares. E com a evolução da tecnologia, surgiram colchões de poliuretano e materiais mistos que rivalizam com os melhores e mais caros colchões de materiais naturais mais nobres. Além disso, não seria sustentável nem possível usar sumaúma ou outros materiais naturais para tanto colchão do mundo moderno. No entanto, a reciclagem e a reutilização de tecidos pode abrir novos caminhos.

Deito-me e obedeço aos fabricantes do Clarim
que é uma alta onda ou uma onda alta
sem esquecer as fitas do John Waine e a chama viva do Butagás
e se calhar sentir fome terei toda a frescura serrana
numa fatia de pão.
                                                                        atenção ao marketing.
Vitonizo-me   desodorizo-me   atravesso as ruas nas passagens dos peões
louvo quem me dizem para louvar e desconfio dos negros americanos
e dos blousons noirs   que não usam Lux
e não compram um frigorífico a prestações
e com o meu escudo invisível
protejo-me dos vírus subversivos
sou um bom cidadão   sou um bom cidadão
obedeço ao marketing   à General Motors e ao Pentágono.
Dantes   tinha problemas   era o odor corporal
e eu não o sabia   até me higienizar seis vezes ao dia com o sabonete 
                                                                                               [das estrelas
e as paradas marciais e os 5-3 do Eusébio à Coreia
e o talco Cadum    que ama demoradamente roucamente tepidamente
os corpos que merecem ser amados...

O Butagás é (era?) uma marca de botijas de gás butano, usado para cozinhar e aquecimento. Por esta altura o gás já tinha substituído praticamente todos os usos equivalentes do petróelo, mas em boa parte do país em que se cozinhava a lenha e em Lisboa existia o gás de cidade. Vitonizar-se, é aparentemente, tomar um tónico de ferro e fósforo que era publicitado na altura – hoje em dia publicitam-se os de mangustão e cálcio. O desodorizante (mais à frente é referido o Rexina, agora Rexona) é um produto em contínua evolução e desenvolvimento, desde os perfumes aos materiais bactericidas e absorventes do suor. O frigorífico é um objecto que só na segunda metade do século XX se tornou popular, graças ao desenvolvimento e baixo custo dos fréons. O talco (Cadum) é um material natural (rocha) que misturado com perfumes e outros ingredientes era muito popular pelas suas propriedades paradoxalmente simultaneamente hidrofóbicas e hidrofílicas.

Obedeço ao marketing   não contrario.
Ninguém contraria os fabricantes das ideias e os fabricantes do Fula
que é o da cor do sol
ninguém pisa os riscos brancos do tráfego
nem chama os bombeiros sem concorrer ao sorteio
concorro   concorro   e vejo nos sinaleiros o pai natal vestido de Scotchgard
ninguém sai do emprego antes de assinar o ponto a horas fixas
e gastar o dinheiro da semana sábado à tarde
no Dardo   que é tudo a prestações e é mesmo em frente da Música no Coração.
Fazendo Portugal mais alegre com o folclore da TV e a tinta Robbialac
não contrario   obedeço   obedeço e meto os meninos na cama
quando me dizem vamos dormir.
                                     atenção ao marketing.

O óleo Fula ainda hoje existe e é  bem conhecido. A obtenção de óleos a partir de plantas foi algo que se desenvolveu muito no século XX e permitiu acabar com a caça da baleia entre outras práticas pouco sustentáveis. Scotchgard era e é um protector de tecidos, repelente de água, desenvolvido pela 3M. Robbialac é uma marca de tintas que tinha já na altura, se não estou em erro, tintas plásticas que polimerizam ao secar. Hoje em dias a paleta de cores e de propriedades das tintas é muito mais extensa que no tempo de Namora e estes materiais são ambientalmente muito mais eficientes e responsáveis, nomeadamente há cada vez mais tintas e vernizes à base de água e com materiais não tóxicos. Os pigmentos brancos são agora de dióxido de titânio em vez do antigo e tóxico carbonato de chumbo.

Sagres é uma boa cerveja
e eu acabarei por gostar da Sagres
como gosto do Rexina.
Sagres é a pausa que refresca e tem vitaminas
todas as bebidas da televisão têm vitaminas
mesmo as do programa literário que é detergente
e eu uso-as e sou um cidadão perfeito
e até já consigo adormecer com hipnóticos
depois de tomar o Tofa descafeinado
e no Verão visto calções de banho de fibras sintéticas
para me banhar na Torralta
cidadão perfeito perfeitamente bronzeado com o Ambre Solaire.

Também hoje os refrigerantes e bebidas continuam a ter reforços de vitaminas adicionadas, nomeadamente ácido ascórbico (vitamina C). Já não se usam hipnóticos para dormir, os quais eram muito perigosos. Desde o tempo que Namora refere apareceram muitas outras moléculas e terapias que são mais eficazes e seguras. Os processos de obtenção de café solúvel e descafeinado evoluiram também muito. Já não são usados solventes orgânicos, mas fluidos supercríticos, por exemplo. Os calções e muitas roupas são actualmente de fibras sintéticas. Estas acabam por ser mais sustentáveis em termos de produção e têm propriedades de elasticidade e de contacto com a água muito mais alargadas. Há hoje muitos mais protectores solares que o Ambre Solair. E são mesmo protectores solares testados para a protecção anti-UV física ou química.

Também vou arear as caçarolas e os nervos e os miolos
com um pó azul de que não me lembra o nome
não me lembra mas a culpa já não é minha
porque na mesma noite
massajado com Aqua Velva
fiz a barba com Gillette, e Schick e Nacet
e fui não sei aonde sempre com a mesma lâmina
e oito dias depois (eu era actor ou toureiro?)
a lâmina ainda me escanhoou mais uma barba
antes de eu descer no aeroporto
onde me esperava um agente do marketing.
Os produtores viram-me à descida do avião
primeiro julgaram que era o filho da Sophia Loren
ou o Onassis   mas era eu
e gostaram da minha barba bem feita.
(Da barba bem feita
ou do casaco Dralon que não se amarrotara
durante a viagem da Polinésia para Lisboa?)
Confesso que já não me lembra   mas a culpa não é minha
pois na mesma noite
fui o homem de não sei quê que marca o rumo
por vestir regras ou camisas ou calças que não enrugam
e fartei-me de assistir a discursos e a inaugurações
e fartei-me de comer chocolates Regina e pescada congelada
e de lavar a roupa com Ajax e com o Rino
e de me banhar com Omo ou seja uma onda de brancura
e fiz-me mecânico de automóveis
só para que o cavaleiro da armadura branca
me tocasse com a sua lança mágica
e me pusesse branco branco branco
três vezes branco como as páginas do Reader’s
de cérebro irrepreensivelmente lexivizado
pelos locutores da televisão pela oratória dos políticos
e passado a ferro com um ferro eléctrico automático
que talvez fosse – ou não? – uma enceradora Philips.
Tudo coisas admiráveis e desesperadamente necessárias
que eu devo ao marketing
e me são cozinhadas num abrir e fechar de olhos
nas palavras de pressão
de todo o bom cidadão.
E no intervalo bebi café puro o do gostinho especial
Sical Sical que é um luxo verdadeiro
Por pouco dinheiro.
Vitonizado   esterilizado   comprando e concorrendo
esqueci-me de amar   do amor   das árvores e do rio
esqueci-me de mim   tão entretido estava a admirar a Lisnave
esqueci-me do rio e dos barcos
e da saudade de pedra do Fernando Pessoa
e esqueci-me de sonhar que era marinheiro.

Aqua Velva, é um after-shave criado em 1935, que tem na sua composição, segundo o site Fragrantica.com, além do solvente, álcool e águas, bergamota, lavanda, hortelã, petitgrain, limão verdadeiro ou siciliano, sálvia esclaréia, jasmim, vetiver, sândalo, cedro, ládano, âmbar, musgo e couro. Estas essências envolvem moléculas odoríficas provenientes de plantas e muitas podem ser hoje obtidas de forma sintética. O âmbar referido pode referir-se a um material obtido dos cachalotes, mas hoje subtituído por um análogo semi-sintético. Gilette, Schick e Nacet são marcas de lâminas de barbear. Os desenvolvimentos técnicos e metalúrgicos que permitiram as lâminas de segurança e mais tarde descartáveis não podem reduzir-se numa frase. Dralon é um tipo de tecido sintético acrílico que ainda hoje se fabrica e é usado. A tecnologia e a química do chocolate, em particular dos Chocolates Regina, tem muito que pode ser referido, nomeadamente as reacções envolvidas na preparação do cacau e o controlo do ponto de fusão e estrutura cristalina do produto final. Ajax, Rino e Omo são detergentes em pó que foram desenvolvidos para serem solúveis e não terem problemas com águas duras, envolvendo fosfatos e surfactantes sólidos solúveis (paralelamente para as máquinas de lavar, foram desenvolvidos detergentes envolvendo persulfatos e silicatos, sendo um dos mais antigos o Persil). Hoje em dia os fosfatos forma substituídos devido ao seu efeito eutrofizante das águas e os surfactantes não biodegradáveis foram substituídos.

Concorra   concorra   foi isso que não reparei
que uma rapariga cortou as veias
talves fosse com uma Diplomatic
que tem o fio e o silvo de uma espada a degolar avestruzes.
No programa só havia bombeiros
nem uma rapariga a cortar as veias (não era a Caprília)
nem o rio nem o amor nem a raiva da Venezuela.
Se mágoa sentia era a de ter esquecido
dar murros no espião da Missão Impossível
(atenção ao marketing)
e já não saí de casa para ver o rio
só pelo gosto de me aquecer com um Ignis.
E na mesma noite noite boa noite branca
fumei Estoril   Valetes   Kayakes e bebi Compal
depois da Salus e da Schweppes
fumei quilómetros e quilómetros de prazer
quilómetros e mais quilómetros – há um Ford no meu futuro –
mais facturas mais fomes mais prazer
e agora já não sei qual dos cigarros com filtro
me soube melhor.
Foram todos foram todos de certeza
pois se me dizem que preciso de Omo
do Ajax   do Estoril   do Dralon
do esquentador e das alcatifas sem nódoas
não me preocupo não te preocupes
o Meraklon não preocupa ninguém
mando para o diabo o amor e o rio e a rapariga que cortou as veias
não me preocupo não me preocupo
digo pois pois ao Jota Pimenta e ao Escort
e hei-de virar-me do avesso para os possuir.
Os corpos que merecem ser amados merecem o talco Cadum.
Numa onda de brancura obedeço ao marketing. Sou um bom cidadão.

Compal, Salus (marca de água da Vidago) e Schweppes são marcas bem conhecidas. No caso das águas, há que contar com as análises química e em alguns casos com a adição de dióxido de carbono ou aromatizantes, caso da Schweppes. A marca Meraklon ainda hoje existe e está relacionada com fibras de polipropileno, entre outras.

E na mesma noite
vi umas bombas que caíam muito ao longe
numa lonjura mais longe que a Lua
onde as pessoas podiam estar quietas a fumar Marialvas
e a lavarem-se com Rino que lava lava lava
lava três vezes mais lava ou mata que se farta
e me ajuda a ser bom cidadão.
                                           atenção ao marketing.
Vi uns homens a inaugurarem estátuas
e vi fardas e paradas e conferências
e crianças a sorrir
para os homens sorridentes que inauguravam estátuas
e vi homens que falavam e pensavam por mim
a escolherem por mim o bom e o mau
de modo a que eu não possa ser tentado
a confundir o mau com o bom ou vice-versa ou vice-versa.
Deitado no conforto de um Lusospuma
vi os porcalhões dos hippies nas ruas de Estocolmo
bem longe   nas ruas de Estocolmo
mesmo a pedirem uns safanões
dos homens que acariciam crianças
e têm todas as verdades na mão
só para que eu seja um bom cidadão.
É isto: marco o rumo. As minhas cuecas marcam o rumo.
Preciso e gosto de uma data de coisas
e só agora o sei.
Menos da Sagres. Mas acabarei por gostar.
Ninguém contraria o marketing por muito tempo.
Ninguém contraria os fabricantes de bem fazer
o bom cidadão.
                       E tudo graças ao marketing.

(na foto a capa da 4ª edição de 1978 rodeada de alguns produtos referidos no poema e de alguns outros que ainda não existiam, ou eram pouco conhecidos em Portugal, em 1969)  


quarta-feira, 22 de novembro de 2017

A QUÍMICA DO AMOR




Na próxima 4ª feira, dia 29 de Novembro, pelas 18h00, vai ocorrer no Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra a 2ª palestra do Ciclo "Ciência às Seis"* de 2017/2018, intitulada "A Química do Amor" com Paulo Ribeiro-Claro, Professor do Departamento de Química da Universidade de Aveiro.





Resumo da Palestra:
"O amor é frequentemente celebrado como um fenómeno místico, muitas vezes espiritual, por vezes apenas físico, mas sempre como uma força capaz de determinar o nosso comportamento. Na verdade, é um fenómeno neurobiológico complexo, baseado em actividades cerebrais de confiança, crença, prazer e recompensa, que envolvem um número elevado de mensageiros ou actores químicos. Esta conversa aborda o amor romântico do ponto de vista da química: que substâncias actuam no nosso organismo – no cérebro em particular – e são responsáveis pelas sensações e comportamentos que associamos ao Amor."

*Este ciclo de palestras é coordenado por António Piedade, Bioquímico e Divulgador de Ciência.

ENTRADA LIVRE

Público-Alvo: Público em Geral

Link para o evento no Facebook

sexta-feira, 14 de abril de 2017

A culpa é das estrelas?

Num encontro com alunos do ensino básico (organizado pela Rede de Bibliotecas Escolares), perguntei aos jovens que livros tinham lido. Vários referiram-me “A culpa é das Estrelas” de John Green, um “best-seller” que não conhecia. Pois fui ler e gostei. Bem escrito, com humor – na verdade o que os jovens devem ter gostado mais – e eles não lêem estes livros com os mesmos olhos dos adultos – e, não, não achei nem triste nem lamechas.

Para quem não saiba, o livro tem como heroína Hazel, uma jovem de dezasseis anos que tem um cancro da tiróide com metástases no pulmão e um namorado de dezassete, também com cancro, que conheceu num grupo de apoio, o qual acaba por morrer. As personagens têm aquele tipo de humor optimista e irónico que gostamos em Oscar Wilde e Mark Twain que nos pode reconciliar com a condição humana e o mundo, mas nem sempre... Foi uma pena que não o tivesse lido antes, pois poderia ter dito mais algumas coisas sobre como este livro nos pode fazer reflectir sobre o cancro, o que sabemos sobre esta doença e os medos que nos inspira.

Antes de mais é preciso notar, como diz o autor, que se trata de uma obra de ficção, na qual este nem sempre quis seguir os conselhos científicos que lhe foram dando. O cancro de que a heroína sofre, carcinoma diferenciado da tiróide, tem, em geral, diz a literatura, boas possibilidades de tratamento e, os cancros de tiróide, em jovens têm elevado grau de possibilidade de cura (99.7% sobrevivem mais de 5 anos, segundo os mais recentes números - ver abaixo). E têm aparecido novos medicamentos para os casos mais difíceis (por exemplo, a EMA aprovou o lenvatinib em 2013 - a FDA em 2015 – para os casos raros de carcinomas da tiróide resistentes a outras terapias). E há, claro, vários outros medicamentos e tratamentos, mas, em termos individuais e também estatísticos, como veremos adiante, há uma componente de azar e sorte.

É também de notar a envolvência de cuidados de saúde e o apoio aos doentes que se observa no livro. É certo que as coisas nem sempre correm bem e nem sempre as pessoas que trabalham em saúde lidam com perfeição com as situações humanas, mas a procura do controlo do sofrimento e a qualidade de vida que é oferecida aos doentes, são hoje muito mais elevados do que no passado. A Hazel tem à sua disposição analgésicos, oxigénio transportável e muitas outras coisas que aparecem de forma directa ou indirecta no livro. O medicamento que o autor declarou inventar para sua e nossa fantasia, o Falanxifor, não é um nome de um antitumoral genérico (este poderia terminar em mab, se fosse um anticorpo, tinib, se fosse um inibidor da tirosinaquinase, ou ainda em antrone, nercept, fulven, citabin, etc., sufixos de antitumorais) Este nome poderia, claro, ser o da marca do medicamento, mas o mais provável será o autor ter escolhido um nome não causasse confusão com nomes reais.

Dois artigos que sairam recentemente (Siegel et al. 2017 e Tomasetti et al. 2017) levantam algumas questões importantes sobre o cancro, mas é preciso ter cuidado com os mal-entendidos. O cancro é uma questão de sorte ou azar? Há riscos acrescidos? Estão a aparecer mais ou menos casos de cancro? Morre mais gente de cancro? Os novos tratamentos são uma ilusão ao serviço do lucro da indústria farmacêutica? Há distorções no mercado dos medicamentos?

A forma como fazemos as perguntas, condiciona quase sempre as respostas. Comecemos pelas duas últimas (de que os artigos acima não tratam). Não, os novos tratamento e medicamentos não são uma ilusão, mas os milagres são uma questão de fé. Para doenças como as escleroses, as fibroses, alguns tipos de cancro, a hepatite C, a hemofilia, certas doenças genéticas raras, etc., tudo o que se vai conseguindo é bom, mas é preciso mais. E é cada vez mais difícil e caro obter novos medicamentos. Eles vão surgindo a um ritmo médio de apenas trinta por ano, e isso é pouco. Milhares de investigadores nas universidades e em pequenas e grandes companhias vão fazendo descobertas fundamentais e importantes, mas os testes clínicos são tão caros, demorados e complexos, que quando os medicamento inovadores chegam perto do mercado, a maioria das pequenas companhias e as suas patentes são compradas pelas grandes companhis por milhões - não raras vezes vezes biliões - de euros! Tudo isso, claro, se reflecte no preço dos medicamentos inovadores e pode causar (causa certamente) distorções no mercado e na investigação que conduz ao desenvolvimento de novos medicamentos. Para as grandes companhias é actulmente mais lucrativo investir em medicamentos para doenças raras ou de paises "ricos",  do que em infecções de paises "pobres" que precisem de novos antibióticos, ou comprar medicamentos em teste com boas probabilidades de serem aprovados, do que iniciar novos projectos que têm grande probabilidade de falhar ou de não dar lucro. Mas, para os investigadores nas universidades, centros de investigação e pequenas companhias tudo isso é uma oportunidade! A investigação sobre doenças potencialmente menos interessantes para as grandes companhias, como a malária ou outras infecções, vai sendo mantida viva, pela investigação nas universidades e centros de investigação.

Mas voltemos às outras questões. Sim, actualmente morrem mais pessoas de cancro, mas apenas porque somos muitos mais no planeta! E, não, não morrem mais pessoas de cancro em percentagem da população. Todos os estudos (ver as referências) indicam que a incidência de cancro é, em geral, actualmente menor e a percentagem de sobrevivência é cada vez maior. E as crianças e jovens? Mais uma vez, os números dizem que a generalidade do número de cancros não está a aumentar e que a probabilidade de tratamento e cura aumentou claramente nos últimos anos.

É claro que à medida que se envelhece, a probabilidade de ter cancro aumenta, mas pode não se morrer do primeiro cancro, nem do segundo, talvez do terceiro, quarto ou quinto e, eventualmente, todos acabaremos por morrer, seja lá do que for. Claro que há um elemento de sorte ou azar, mas achar que não se pode fazer nada em relação a isso é muito enganador.

Sim, de acordo com o estudo de Tomasetti et al. (2017), cerca de dois terços das mutações que podem conduzir a cancros surgem por acaso e apenas um terço é devido ao aumento do risco. Mas, sim, os riscos acrescidos devido ao fumo do tabaco, a alimentação pobre em legumes e rica em carne e gorduras e outros riscos são também relevantes como referem os autores do estudo, assim como a prevenção e a intervenção atempada. Mais do que isso, mutações não é o mesmo que cancro.

Voltando ao livro. A culpa pode ser das estelas (chamando dessa forma o azar) em dois terços dos casos, mas para a maioria dos casos já existem os medicamentos e por isso a mortalidade média tem diminuido, assim como a qualidade de vida dos doentes tem aumentado.

A longo prazo estaremos todos mortos, escreveu Keynes. Todos, diz a Hazel no grupo de apoio: Chegará uma época em que todos nós estaremos mortos. Todos. (…) mesmo que sobrevivamos ao colapso do Sol, não iremos sobreviver para sempre. (...)

Numa anedota (irónica) que por acaso contei nesse dia aos alunos, uma idosa que assistia a uma palestra sobre astronomia, ouviu que o Sol iria acabar, mas não percebeu bem se seria  nos próximos 10 milhões ou nos pŕoximos 10 biliões de anos... Ah! 10 biliões!? Fico mais descansada... 

Referências
Siegel et al. Cancer statistics, 2017. CA Cancer J Clin. 2017; 67:7–30
Tomasetti et al., Stem cell divisions, somatic mutations, cancer etiology, and cancer prevention, Science 2017, 355:1330-1334
Walsh, M. Reports that cancer is ‘mainly bad luck’ make a complicated story a bit too simple (acedido 13 de Abril de 2017)

Referências adicionais
American Cancer Society, Global Cancer Facts & Figures, 3rd edition, 2015 
Siegel et al. Cancer statistics, 2016. CA Cancer J Clin. 2016; 66:7-30
Ward et al. Childhood and adolescent cancer statistics, 2014. CA Cancer J Clin. 2014;64:83-103

domingo, 5 de fevereiro de 2017

O FERRO E A VIDA

Crónica publicada primeiramente na imprensa regional.



“A influência do elemento Ferro, agora, e mesmo antes de haver vida, é pelo menos tão importante como o ADN na história da própria vida”. Quem o afirmou foi o químico inglês Robert Williams num artigo publicado na revista Nature em 1990 [1]. 

De facto, o Ferro é elemento essencial para a produção de energia e bom estado de saúde, por exemplo, nos seres humanos. Todos sabemos que o Ferro presente na hemoglobina, existente nos glóbulos vermelhos, é essencial para o transporte de oxigênio a todas as células do nosso corpo.

A propósito, e numa outra perspectiva, diga-se que o uso do Ferro também influenciou a história da Humanidade.

Mas a importância do Ferro para a vida é muito anterior ao aparecimento desta no planeta Terra. Comecemos por identificar a origem dos átomos de Ferro no Universo.

A mais consensual teoria sobre a origem do Universo diz-nos que o Big Bang terá ocorrido há cerca de 13,8 mil milhões de anos. Os primeiros elementos atómicos a serem formados, algumas centenas de milhares de anos depois, foram o Hidrogénio (maioritariamente), o Hélio e algum Lítio. Muito depois, formaram-se as estrelas e a sua evolução levou à nucleossíntese de elementos mais pesados como o Carbono e o Oxigénio. Estima-se que 200 milhões de anos depois do Big Bang, o Universo terá entrado na “Era do Ferro”: as estrelas, atingindo um determinado estado nas suas “vidas”, começam a produzir ferro. Com o fim da vida destas estrelas, explodindo em supernovas, o Ferro, assim como muitos outros elementos, ter-se-ão espalhado pelo Universo em nebulosas. Algumas destas nebulosas terão dado origem a sistemas planetários.

Há cerca de 4,6 mil milhões de anos, ter-se-á formado o nosso Sistema Solar a partir de uma dessas nebulosas. E o Ferro terá sido fundamental para a formação planetária. No caso que nos interessa agora, refira-se que o Ferro é o elemento mais abundante no planeta Terra: é elemento maioritário dos núcleos internos e externos do centro da Terra, e é o quarto elemento mais abundante da crosta terrestre.
As propriedades magnéticas do Ferro estão na origem do campo magnético terrestre. Este campo é fundamental para proteger a Terra das partículas energéticas presentes no vento solar, assim como de outras radiações que, caso chegassem à superfície do planeta o tornariam muito pouco adequado para hospedar a vida tal qual a conhecemos. Podemos, assim e com alguma certeza, afirmar que sem a presença de Ferro não haveria vida na Terra.

Tanto quanto podemos saber hoje, as primeiras formas de vida na Terra, com vestígios fósseis conhecidos, já existiam há 3,6 mil milhões de anos. Nesta altura, a atmosfera terrestre era praticamente desprovida de Oxigénio. Curiosamente, esta atmosfera pobre em Oxigénio, associada a temperaturas de cerca de 100 graus Celsius e uma pressão inferior à actual, poderá ter permitido, segundo alguns autores, determinados ciclos de reacções químicas que produziriam energia utilizável para a síntese de substâncias hoje ditas orgânicas.

De acordo com o químico alemão Günter Wächtershäuser (1938 - ) e a sua teoria hipotética do “Mundo de Ferro-Enxofre” [2], esta química à volta de pirites de ferro, num ambiente consistido por chaminés hidrotermais nos fundos marinhos, terá estado na origem da primeira química da vida. Esta hipótese postula que uma primitiva forma de metabolismo antecedeu o aparecimento da genética na história da evolução das primeiras formas de vida unicelular.

Muito milhões de anos após, com o aumento de Oxigénio devido à actividade fotossintética de células conhecidas por cianobactérias, o Ferro, reagindo com o Oxigénio, tornou-se muito menos solúvel em água e óxidos de Ferro precipitaram-se nos fundos de lagos e mares. Isto teve um impacto na evolução da vida e na geologia do planeta. Mas estes são aspectos a desenvolver numa próxima crónica.

Referências:

 António Piedade

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Devemos temer os químicos?

Créditos: Dicasfree

O Diário de Notícias (DN) publicou hoje a minha opinião sobre o receio generalizado dos químicos, que pode ser lida aqui: Devemos temer os químicos?.

Surgiu a ideia deste texto após ter lido uma notícia, na semana passada, precisamente sobre os perigos dos químicos. Esta notícia tinha por base um estudo que analisou as substâncias químicas no interior das casas dos Estados Unidos da América. Apesar do artigo científico apresentar uma análise ponderada, a notícia saiu com um tom algo alarmista. Além disso, também o químico monóxido de di-hidrogénio (H2O) foi descrito como um perigo, mesmo tendo reconhecido que se tratava da água. 

Assim, é de valorizar o trabalho do DN pela abertura em publicar agora este texto, que esperamos que ajude a esclarecer conceitos. 

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Camilo e a química - o tabaco e os romances...

O jornal Expresso está a oferecer reedições de alguns livros de Camilo Castelo Branco. No sábado passado foi a vez de O que Fazem Mulheres.  Trata-se de um livro verdadeiramente divertido e irónico que antecipa "os modernos processos da literatura inter-activa" segundo escreveu Annabela Rita no Prefácio. 

Camilo avisa no capítulo inícial a todos os que lerem (antecipando o que virá a seguir, realcei algumas frases com referências científicas e químicas):
"É uma história que faz arrepiar os cabelos.
Há aqui bacamartes e pistolas, lágrimas e sangue, gemidos e berros, anjos e demónios.
É um arsenal, uma sarrabulhada, e um dia de juizo final.
[...]
Há aí almas de pedra, corações de zinco, olhos de vidro, peitos de asfalto?
[...]
Aqui há cebola para todos os olhos.
[...]
Cadinhos de fundição metalúrgica para todos os peitos.
[...]
O leitor sabe o que isto é? Já sentiu na alma o apertar de um cáustico? Excruciaram-no, alguma vez, os flagelos da inspiração corrosiva, com duas onças de sublimado?
Se não sabe o que isto é, estude farmácia, abra um expositor de química mineral, e verá."
Segue-se um "Capítulo Avulso -  Para ser colocado onde o leitor quiser", linhas de reticências que aparecem mas não significam nada, voltas, viravoltas e reviravoltas narrativas, dialógos com os leitores e editores, cartas anónimas que o autor não conseguiu ler e por isso não sabe o seu conteúdo, mulheres espertas, diabólicas e santas, e homens vagamente tolos. E termina com dois finais antagónicos, em dois capítulos com a palavra "FIM", sendo que o último destes é denominado "Suplemento - Prefácio".
  
Há também um charuto com um papel secundário mas importante que aparece inicialmente no capítulo avulso numa diatribre contra o tabaco (antecipando também os anúncios anti-tabágicos chocantes - e não é igualmente chocante a imagem acima!?),
"Para vós, Bórgias, para vós, raça de Locusta, e de Brinvilliers, para vós envenenadores impunes, o patíbulo neste mundo, donde fugiu espavorida a vergonha e a justiça; e os caudais de súlfur em combustão eterna nas furnas tartáreas, onde é de fé que dá urros medonhos um condenado chamado Nicot, que trouxe para a Europa o tabaco, e teve a impudência de o trazer a Portugal em 1560, onde viera com embaixada de França.
Porque os vossos charutos propinadores de venenos, enegrecem as substâncias orgânicas, como o ácido sulfúrico.
São amargos e cáusticos como o ácido nítrico.
Calcinam os beiços como o ácido hidroclórico.
Queimam a laringe como o ácido fosfórico.
Laceram o esófago como o acetato de chumbo.
Fulminam e despedaçam como o ácido hidrociânico."
Estas referências químicas, que são razoavelmente exactas tanto quanto é conhecido das substâncias referidas, tinham-me escapado, por não conhecer este livro, quando escrevi sobre a química em Camilo! O que foi uma pena, pois, em seguida Camilo refere que,
"Um manual de química para uso dos leitores de romances é instantemente reclamado. Sente-se na literatura este vazio, desde que a novela é um estendal da ciência humana;"

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Ainda o glifosato: debate no evento Cidade Mais


Na sequência do que escrevi aqui sobre os pesticidas e o glifosato, estive no passado dia 7 de Julho num debate no evento Cidade Mais no Porto. O debate foi organizado pelo Frederico Brandão, moderado pela Mariana Cruz e contou com a presença de Sofia Guilherme da Universidade de Aveiro e José Franco da Câmara Municipal do Porto, além de mim.

Foi um debate cordial e vivo, com bastante intervenção do público presente. Devo, no entanto, referir que durante a minha primeira intervenção de carácter geral em que apresentei uma
"defesa da química" em geral, uma ou duas pessoas fizeram um ar aborrecido e foram embora, mas a grande maioria ficou e fez intervenções pertinentes. Embora nos tenhamos dispersado por vários assuntos acessórios, julgo que o debate foi esclarecedor em muitos aspectos. Pela minha parte, tive oportunidade de conhecer outros pontos de vista e rever as minhas ideias sobre o assunto. O tempo era limitado e, por razões práticas, acabámos por fazer a discussão centrada na apresentação (slides) da Sofia Guilherme, tendo eu e o José Franco abdicado de fazer apresentações. O texto da minha apresentação, com algumas pequenas alterações introduzidas após o debate, será apresentado mais abaixo, mas antes gostaria de dizer mais algumas coisas sobre o debate. 

 A Sofia Guilherme tem realizado investigação sobre o efeito do glifosato nas enguias (vejam-se também as referências anteriores), nomeadamente em termos de alterações genéticas e indicou ter ficado surpreendida com os efeitos verificados para as baixas concentrações que foram testadas. Com base nos resultados publicados no artigo, parece, de facto, haver algum efeito genético nas enguias, embora este efeito pareça ser pequeno e de curto prazo, sendo rapidamente reparado na ausência do pesticida (conclusões minhas). Convém referir que os valores de glifosato testados foram 18 e 36 μg/L, escolhidos com base em valores agudos referidos na literatura, sendo que o limite na UE nas águas de consumo é de 0.1 μg/L, um valor que se espera, na minha opinião, ser actualmente raramente ultrapassado. Foi também referida a possivel relação entre o glifosato e o autismo, o que contestei (discussão mais abaixo).

O José Franco indicou que a Câmara do Porto não usa actualmente glifosato nem outros herbicidas, mas que isso acarreta muito mais mão de obra e terem passeios com ervas de que muito munícipes se queixam. Lembrou que o uso de pesticidas deve ser realizado por pessoas habilitadas e conhecedoras dos seus riscos
. Aliás, actualmente a compra e aplicação de fitofarmacêuticos implica a realização de formação adequada. Referiu também, com base na sua experiência profissional, que muitos produtos ditos tradicionais podem envolver o uso inapropriado de pesticidas, tanto por ignorância como por erro, e que no comércio não tradicional existe mais controlo de limites de poluentes e pesticidas. A audiência e o painel concordaram que deveriam também ser feitas análises de pesticidas nos mercados tradicionais e abastecedores.

O debate evoluiu para alguns aspectos da agricultura convencional e biológica, tendo sido discutido com a audiência questões como a productividade, a erosão e contaminação dos solos, a alimentação saudável e o consumo local, entre outros temas que tinha já, em parte, na minha apresentação.


Pesticidas, agricultura, saúde e tudo o resto... 
(texto da apresentação que acabei por não fazer e que complementa o que escrevi aqui e aqui)

As ervas daninhas são plantas que estão no local errado em má altura. No livro Por favor não matem a cotovia, de Harper Lee, cuja acção se passa em 1936, há uma personagem, Miss Maudie, que asperge obsessivamente as ervas daninhas com um produto que mata tudo, em vez de as arrancar simplesmente. Eu citei esses aspecto no livro Jardins de Cristais, mas não confirmei que herbicida poderia ser. De facto, ou se trata de uma liberdade literária da autora, ou o produto só pode, em princípio, ser um de dois, clorato de sódio ou DNOC (dinitro-orto-cresol), que eram os herbicidas disponíves nessa altura. Estes estão banidos actualmente, assim como o estão uma boa parte dos herbicidas que surgiram nas décadas seguintes.

Irei guardar para o final do texto a minha proposta de resposta à questão de serem ou não necessários pesticidas, em especial o glifosato. Antes, gostaria de referir a história dos herbicidas, assim como a história e propriedades de alguns destes.

Sem considerar os usos antigos, actualmente quase todos abandonados, como sejam a aplicação das águas ruças provenientes da produção de azeite, de sal, de ácidos (subsiste o uso de vinagre), entre vários outros que destroem também as terras de cultivo, poucas mais formas havia para combater as ervas daninhas do que os meios mecânicos  de arranque ou corte e lavra da terra. O primeiro herbicida sintético foi o DNOC que, como referi acima, está neste momento banido (ou não aprovado, usarei as denominações de forma equivalente, embora não o sejam). Em 1940 surgiu o sulfamato de amónio (também actualmente banido). Em 1941 Porkony sintetizou o 2,4-D (ácido 2,4-diclorofenóxiacético, actualmente ainda em uso) e o 2,4,5-T (ácido 2,4,5-triclorofenóxiacético, actualmente banido por estar associado a impurezas de dioxinas no tristemente célebre agente laranja), mas só em 1944 o 2,4-D foi reconhecido como herbicida. Em 1945 o ácido 4-cloro-2-metilfenoxiacético (MCPA) é testado pela primeira vez; em 1951 o monuron (entretanto banido) mostra-se efectivo no controlo de ervas; em 1958 foram introduzidos a atrazina e o paraquat (banidos, em especial o último que, de tão tóxico, era usado para suicídio). Em 1960 ficou disponível a trifluralina (banida). Também na década de 1960s surgem as piridinas (por exemplo o triclorpir, que está aprovado em Portugal). Em 1971 foi introduzido o glifosato, nos anos 1970s as sulfanilureias, nos anos 1980s as imidazolinonas, nos anos 2000 as sulfaniltricetonas e as pirimidinas. Trata-se de uma história sempre em evolução, com os pesticidadas a serem avaliados e testados de forma regular e com as autorizações de uso sempre provisórias. Entretanto as plantas vão ganhando resistências ou pode descobrir-se que os pesticidas são demasiado tóxicos de variadas formas, sendo, por isso, banidos ou abandonados.

Em Portugal estão aprovados (em junho de 2016,  EU Pesticides Database)  84
Figura 1: Pesticidas aprovados e não aprovados
em Portugal e na UE
substâncias herbicidas (ver figura 1) a que se podem somar-se mais 43 aprovadas na UE, totalizando 127. O glifosato faz parte dessa lista, não sendo o mais tóxico nem, com boa certeza, o mais perigoso. Para além destes 127 herbicidas aprovados, existem 199 que não estão aprovados. Uma situação semelhante ocorre com os insecticidas e fungicidas, assim como outros pesticidas (notar que por razões legais os reguladores de crescimento são classificados como pesticidas). Há 64 insecticidas aprovados em Portugal (104 em toda a UE) e 173 não aprovados na UE (ou banidos), 60 fungicidas aprovados em Portugal (149 em toda a UE) e 143 não aprovados.

O glifosato foi sintetizado nos anos 1950 mas ninguém na altura pensou numa aplicação para a molécula. Nos anos 1970, na Monsanto, uma pesquisa sistemática de compostos herbicidas realizada por uma equipa chefiada por John Franz (n. 1929) revelou que este composto podia ser usado como herbicida. Apesar de toda as páginas web e manifestações contra este composto, a mais recente informação, revista no jornal da EFSA da UE em Novembro de 2015 aponta para a baixa perigosidade desta substância se usada de forma apropriada (infelizmente as evidências científicas não interessam aos fanáticos, em particular aqueles que enviaram pelo correio uma bomba para o laboratório da UE que fez este relatório). Deve também referir-se que a patente do glifosato já expirou há vários anos, sendo esta substância hoje produzida por várias empresas, desde as mais conhecidas às praticamente desconhecidas, em vários pontos do mundo, em particular na China.

Os valores máximos diários aceitáveis para o glifosato são na UE de 300 μg/kg peso corporal/dia para o cidadão comum e 200 μg/kg  peso corporal/dia para aplicadores e operadores. Estes valores são dezenas de vezes superiores aos valores que têm sido detectados em medições oficiais e mesmo em medições particulares. É de referir que em modelos animais o nível para não observação de efeitos adversos (NOAEL) é de 100 mg/kg peso corporal/dia. Contrarimente ao que por vezes se afirma, existem imensos estudos científicos sobre o glifosato (basta consultar as bases de dados científicas) e a grande maioria não é patrocinado por empresas. Aliás, o patrocínio da Monsanto (uma empresa pela qual, digo já, não tenho simpatia) é uma das acusações had hominen mais comuns a quem tente discutir este assunto, não se juntando ao coro dos que acham que o glifosato é o diabo. Em particular, são bem conhecidos há décadas (e continuam a ser estudados) os mecanismos bioquímicos que fazem o glifosato ser tóxico para as plantas e ser muito menos para os seres humanos e maioria dos animais.

Vem a propósito disto, referir a hipótese da ligação entre o autismo e o glifosato, baseada em correlações, a qual nunca teve crédito científico mas que, nos últimos anos, pela mão de Stephanie Seneff, voltou à ribalta. Esta autora, especialista em inteligência artificial do MIT, tem vindo a publicar nos últimos anos artigos, com os mais variados autores, em geral investigadores independentes, mas em revistas científicas com revisão, propostas de mecanismos biológicos que explicam a correlação do uso do glifosato com quase todas as doenças possíveis. Não colocando em causa a honestidade desta investigadora, estes artigos não apresentam mais do que hipóteses, algumas pouco lógicas e contrárias ao método científico, de acordo com os poucos autores que se atreveram a comentá-las nas revistas científicas (um deles foi na prática insultado na resposta escrita de um co-autor de Seneff!) Da leitura que fiz, notam-se falhas de química e biologia, assim como um claro bias devido à evocação apenas dos estudos que concordam com as hipóteses, ignorando-se os restantes.  Além disso, há a referir que a maioria destes artigos foram publicados em revistas fora das áreas relevantes (e.g. há dois na Entropy), além de que estão a ser praticamente ignorados pela comunidade científica médica.

Como referi, na minha opinião, o glifosato não será, em princípio, o diabo ou um novo papão. É apenas um herbicida, neste momento genérico, que qualquer empresa pode produzir e todos devem usar com precaução. De entre as outras  83 substâncias herbicidas usadas em Portugal, chamo a atenção para o grupo das sulfaniltricetonas introduzidas nos anos 2000. Uma destas é a mesotriona, cuja patente expirou em 2012, e que foi descoberta por aleloquímica, procurando uma molécula com propriedades herbicidas análogas às da leptospermona, um composto natural presente na “árvore das garrafas”. Também descobertos, seguinda a via da semelhança de propriedades com compostos naturais, temos os piretróides, baseados nas piretrinas dos crisântemos, e os neonicotinóides, baseados na nicotina do tabaco.

Estes compostos pesticidas - tanto os naturais, como os sintéticos - não são inóquos, mas o desenvolvimento de compostos sintéticos é actualmente realizado de forma a maximizar a especificidade e minimizar os riscos e persistência ambiental. São também rigorosamente vigiados. Por exemplo, o imidaclopride esteve suspenso algum tempo devido a suspeitas de risco para as abelhas. Verificou-se, entretanto, que as abelhas estavam a ser dizimadas pelas vespas asiáticas e não pelos pesticidas. E esse não é o único exemplo de um caso em que a natureza, não sendo boa em má em si mesma, nos leva para caminhos que não gostamos (claro que podemos sempre dizer que seja devido às mudanças climatéricas ou movimentos humanos, entre outras coisas, mas parece-me que tais explicações gerais nada explicam pelo facto de serem extrapolações abusivas ou simplistas). Outros exemplos são o escaravelho das palmeiras e o nemátodo dos pinheiros, que têm de ser combatidos, em boa parte usando pesticidas. E isso leva-nos à necessidade, ou não, do uso de pesticidas.

Figura 3: Custos dos dois tipos de agricultura  (EUA)
Figura 2: Produtividade dos dois tipos de agicultura (EUA)





Dada a inferior produtividade, em cerca de 30%, da agricultura biológica (figura 2), a passagem de toda a agricultura para este tipo não seria sustentável. Mas é curioso que este tipo de agricultura, que envolve menos custos, (figura 3), acabe por ser 30% mais rentável, devido à combinação destes dois factores e dos preços que estes produtos atingem. Na figura 3 vê-se que um dos maiores custos da agricultura biológica são o amanhe dos terrenos e a necessidade de mão de obra, sendo que nos maiores custos da agricultura convencional se incluem as sementes e os adubos. Curiosamente os custos com pesticidas (insignificantes na agicultura biológica) não são demasiado elevados na agricultura convencional.
Figura 4: Aumento da população, esperança de vida, produtividade, área agrícola ocupada e evolução dos empregos na agricultura (gráficos provenientes de várias fontes)
Dada a pressão ambiental e humana actual não é ainda, em princípio, viver sem pesticidas e não sabemos se algum dia será possível (na figura 4 mostram-se os diversos factores envolvidos nessa questão). Por um lado tem de se manter ou aumentar a produtividade actual, por outro deve evitar-se a erosão dos solos e o aumento da área agrícola. Nos anos 1990 a produção atingiu as necessidades, mas ainda há grande pressão devida ao aumento da população (que ainda está a aumentar, mas com a sua velocidade a diminuir) em paralelo que a esperança de vida que está a aumentar, mas parece dirigir-se para um patamar com as duas velocidades a igualarem-se cerca de 2045. Também a mão de obra envolvida na agricultura tem diminuido imenso desde o século XIX para a actualidade. A produtividade da agricultura biológica está a aumentar, acompanhando a da agricultura convencional, mas a questão da gestão dos solos e do maior gasto de energia e mão de obra não estão resolvidas.

Para além de não se poder, nas condições actuais, passar sem pesticidas, não será possível nunca passar sem “químicos”, pois todos os materiais são “químicos”. A quimiofobia que actualmente se manifesta radica no equívoco de se associar a química a supostos compostos prejudiciais sintéticos ou artificiais que seriam adicionados a tudo, desde alimentos a tabaco, os quais num mundo utópico natural não seriam adicionados. Um dos primeiros anúncios que refere “sem químicos” é do final do século XIX e é de um chocolate. Desde essa altura, esta ideia falaciosa, tornou-se quase uma forma de senso comum. Mas é preciso não esquecer que os compostos mais perigosos são de origem natural e que só nos fazem mal os compostos - naturais, sintéticos ou artificiais - que interagem negativamente com os nossos mecanismos biológicos.

Figura 5: Percentagem de cancros e tipos de exposição

Em particular, há uma grande discussão em relação ao suposto efeito cancerígeno do glifosato, mas o fumo do tabaco é com certeza muito mais cancerígeno. Na verdade quase 20% dos cancros são devidos ao fumo do tabaco (figura 5). Para além disso quase 10% dos cancros são devidos a má alimentação, falta de legumes, excesso de carne, etc.

Nesse contexto, pode perguntar-se por que razão se fala tanto de efeitos cancerígenos de alguns compostos e materais e não de outros. É preciso perceber como funciona a literatura científica e lembrar a questão económica dos custos de oportunidade. Se alguém submeter hoje um artigo a dizer que descobriu que o tabaco provoca o cancro, este não será aceite pois não há novidade - toda a gente sabe isso. Novidade seria descobrir-se que o tabaco afinal não provocava o cancro, mas esse artigo seria muito dificil de ser publicado numa boa revista, não só porque os revisores desconfiariam de que teria erros ou fraude, mas também porque é muito mais dificil publicar resultados negativos. No entanto, se o estudo resistir à avaliação dos revisores, poderá ser tomado em consideração, mas isso não anula todos os outros estudos anteriores. Voltando ao glifosato: devemos considerar todos os estudos que passaram pelos crivos dos revisores científicos e nos oferecem confiança, tanto positivos como negativos, e eventualmente chegaremos a conclusões, que serão sempre provisórias, mas cada vez mais informadas. Quando aos custos de oportunidade: quando se dá muita atenção a um estudo, há muitos outros que são ignorados e nada nos diz que são menos importantes.

Finalmente, gostaria de lembrar os químicos que desenvolveram os pesticidas que contribuiram para o aumento da produtividade agrícola, assim como os químicos que desenvolveram os medicamentos e contraceptivos que não tinhamos até aos anos 1960. Fizeram-no, em nome da ciência, sem pensarem nas consequências – que muitas vezes não poderiam prever - tanto positivas como negativas. Hoje já não seria assim, os desenvolvimentos químicos tomam em consideração os resultados sociais e os impactos para a saúde e ambiente. Devemos isso à evolução da sociedade, mas também a duas mulheres excepcionais: Raquel Carson (1907-1964), que nos anos 1960 chamou a atenção para o excesso de uso de pesticidas, mas que não era contra a completa proibição destes, e Frances Kesey (1914-2015) que, na FDA, impediu a comercialização nos EUA de um composto que parecia não fazer mal nenhum – a talidomida. Carson no ambiente e Kesey na saúde são nomes que devemos sempre lembrar, mas não devemos usá-los para transformar as dúvidas e a precaução em certezas inversas. Por exemplo, a talidomida que sabemos hoje ser um potente agente teratogénico, proibido para grávidas, encontrou um caminho terapêutico na cura da lepra e alguns cancros.