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sábado, 30 de dezembro de 2017

Opinião: Íris Científica 4

Faz já doze anos que António Piedade publicou o seu primeiro livro Íris Científica (2005), pela editora Mar da Palavra. Foi preciso esperar seis anos para o leitor conhecer o seu segundo livro, Caminhos de Ciência (2011). A partir daí, o autor já não mais parou, apresentando ao público um novo livro ao ritmo de quase um por ano. Entretanto, poderíamos ir acompanhando a sua escrita sobre ciência nas crónicas que publica regularmente na imprensa regional. Têm sido, aliás, esses os textos que têm alimentado a coleção Íris Científica, que já vai no quarto volume. Este novo livro é constituído por trinta e três textos, divididos em duas partes: “Além no Espaço” e “Aqui na Terra”.



A coleção Íris Científica é muito mais do que uma coletânea de textos publicados na Imprensa Regional. Trata-se de uma seleção de temas, que nos dá a conhecer as mais recentes descobertas e avanços científicos, e que vai sendo atualizada anualmente. Para quem, por motivos profissionais ou por falta de tempo, não consegue acompanhar o conhecimento produzido em várias áreas da ciência, pode encontrar neste livro um resumo de uma parte da investigação realizada tanto a nível nacional como internacional. Além disso, por estar escrito de um modo claro para diversos públicos, tanto pode ser lido por jovens alunos como por adultos interessados na ciência. Estou certo que este livro ainda servirá para aqueles que, no futuro, tenham curiosidade em conhecer que ciência fora produzida no passado – o nosso presente. Porventura, ainda poderá servir de ponto de partida a futuros historiadores da ciência. Trata-se, pois, de uma coleção útil a ter por perto, em qualquer biblioteca pessoal. Que o ano 2018 traga o quinto número desta coleção.


sexta-feira, 26 de agosto de 2011

CIÊNCIA NA IMPRENSA LOCAL E REGIONAL



Lembro-me bem da ligação afectiva que o meu pai, enquanto emigrante, mantinha com o jornal regional “A Voz de Loulé”, que assinava e que o informava das notícias da sua terra natal, a milhares de quilómetros de distância.

Assim como o meu pai, o mesmo aconteceu e acontece com milhões de portugueses aquém e além terras lusitanas. Para além de muitos outros aspectos, esta ligação afectiva a inúmeros jornais locais e regionais amenizou a saudade, fortaleceu a esperança do regresso, mantém elos nativos, é por ventura para muitos o primeiro contacto com as notícias escritas.

Disse inúmeros. Mas sabemos quantos são. Segundo um relatório sobre a “Imprensa Local e Regional em Portugal” (obter aqui), efectuado pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), e no ano de 2009, estavam recenseadas “728 publicações periódicas de âmbito local e regional nos 18 distritos de Portugal Continental e nas duas Regiões Autónomas”. Desses, apenas 18 títulos têm periodicidade diária (2,5 %). A periodicidade predominante é a mensal (37,5%), seguida da semanal (29,4 %) e por último os quinzenário/bimensais (23,9%).

Ressalve-se que o número de publicações periódicas registadas na ERC, em 2009 , era muito superior àquele utilizado para o estudo mencionado. De facto, e ainda segundo o mesmo relatório, o número registado era igual a 2942, apresentando diversos perfis e características que saiam fora do âmbito do estudo. Refira-se, a propósito, que este documento é uma ferramenta útil para compreender a realidade da imprensa local e regional portuguesa no século XXI.

Por outro lado, o documento mencionado baseou-se também no estudo Bareme Imprensa Regional, efectuado pela Marktest. Segundo este, 49,7 por cento dos portugueses tem por hábito ler jornais regionais, sendo os de periodicidade semanal os mais lidos, com 28,3 por cento do total. O número foi, para mim, surpreendente. Mais de cinco milhões de portugueses lêem, folheiam jornais locais e regionais.

(Curiosamente, o distrito de Castelo Branco, cuja cidade vai receber o 29º Encontro da Associação Juvenil de Ciência (ver notícia relacionada aqui) é o que apresentava um maior número de leitores de jornais regionais: 71,3 % da população!)

A notícia da actualidade local e regional é do maior interesse dos cidadãos que assim melhor se vêm identificados com ela, sendo este, entre outros aspectos, um elemento propiciador para uma melhor democracia pluralista, para uma maior consciência de cidadania participativa.

Aqueles números indicam-me também que a imprensa local e regional é de extrema importância para os hábitos de leitura dos portugueses, muitos deles com um grau de literacia muito baixa, num país que conquistou na última década um número significativo de doutorados. Será que estes últimos também lêem jornais locais e regionais?

E surge então a pergunta que me move: no universo de periódicos estudados, qual a percentagem de conteúdos sobre ciência e tecnologia em relação ao total de notícias publicadas? Qual a proximidade que 49,7 % dos portugueses tem com notícias, conteúdos sobre, ou relacionados, com ciência e tecnologia?

A resposta: o espaço dedicado a temáticas relacionadas com ciência e tecnologia foi inferior a 0,7% em 2009, no universo composto por toda a temática publicada no universo da imprensa local e regional estudada, incluindo todas as temáticas de manchete, chamadas na primeira página, textos e/ou crónicas de informação e/ou opinião. Este valor sobe para 0,9% quando a temática saúde é incorporada na análise.

(De momento, não tenho dados sobre a imprensa dita nacional)

Ou seja, a imprensa local e regional é muito insatisfatória no que respeita a aproximar os seus leitores com a ciência e tecnologia.

O que é que isto significa? Que os leitores não têm interesse, curiosidade, pela ciência?

Estudos recentes mostram que não há desinteresse dos “públicos portugueses” por assuntos relacionados com o conhecimento científico e tecnológico (e.g., A.F. Costa, P. Ávila e S. Mateus, Públicos da Ciência em Portugal, ed. Gradiva, 2002).

Numa primeira formulação, pode dizer-se que a insignificante publicação pode encontrar explicação, mesmo que parcial, na dificuldade da imprensa regional em ter acesso a conteúdos sobre ciência e tecnologia dedicados e ajustados às suas especificidades. Se esta for uma pergunta, temos de verificar o que aconteceria se o acesso a conteúdos, atractivos mas cientificamente rigorosos, de boa escrita, em bom português, fosse, de alguma forma, facilitado.

Em parte, a experiência editorial dedicada à ciência, de que a Gradiva é, e foi, pioneira, responde positivamente: se houver conteúdos de qualidade disponíveis em português, há público para eles, os projectos são viáveis, atraem publicidade e outras formas de financiamento para a inserção desses mesmos conteúdos.

O que acontecerá na imprensa local e regional?

António Piedade