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terça-feira, 29 de outubro de 2019

ComceptCon 2019: Evolução Humana

Evento: ComceptCon 2019: Evolução Humana
Local: Museu de Leiria
Data: 2 de Novembro, a partir das 10h
Entrada gratuita
Programa e inscriçõeshttp://comcept.org/comceptcon-2019/

Mais informações:

A COMCEPT – Comunidade Céptica Portuguesa, associação de promoção da ciência, vai realizar a sua oitava convenção anual, a ComceptCon 2019, que irá decorrer a partir das 10h00 do dia 2 de Novembro, no Museu de Leiria.
O título da convenção deste ano será “Evolução: o ser humano na árvore da vida”.

Durante a ComceptCon irão decorrer quatro conferências dirigidas a todas as pessoas que se interessem pela relação entre a ciência e a sociedade. A manhã começará com uma palestra sobre o ABC da Evolução, pela bióloga Diana Barbosa, Presidente da COMCEPT, seguida de uma intervenção sobre as novidades da Evolução Humana, tendo como oradora Eugénia Cunha, Professora Catedrática convidada na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra e Directora da Delegação Sul do Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses.

Depois de uma pausa para o almoço, João Pedro Tereso, investigador em arqueobotânica no CIBIO-InBIO, falará da Evolução da paisagem e mudanças nas sociedades humanas antes do Antropocénico. A última palestra será dedicada à variação genética humana e ficará a cargo de Jorge Rocha, professor na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e coordenador do grupo de Genética Evolutiva Humana, no CIBIO-InBIO.

No final, haverá um debate com os quatro oradores em torno do tema O que nos dizem os testes genéticos comerciais. Será dada a possibilidade intervenção do público, de modo a proporcionar uma aproximação entre estes e os cientistas.

Mas este ano traz uma novidade: devido ao evento calhar num fim-de-semana prolongado, o Museu de Leiria irá proporcionar uma visita ao Vale do Lapedo e ao Centro de Interpretação do Abrigo do Lagar Velho, para conhecer a história da descoberta do Menino do Lapedo. A vista terá lugar no dia anterior, dia 1 de Novembro, às 15h.

Numa época de nacionalismos e de extremismos, importa conhecer a história do percurso da humanidade para compreender a sua origem comum, o seu percurso migratório e entender que apesar das diferenças morfológicas não há diversidade genética suficiente para falar de raças humanas.

Neste evento, os participantes poderão conversar directamente com os cientistas e esclarecer as suas dúvidas, seja durante o período de perguntas, seja durante o intervalo.
Para mais informações sobre o evento, pode consultar a página do evento: http://comcept.org/comceptcon-2019/


quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Agenda Céptica

Neste mês e no próximo, a ciência e o cepticismo irão ter com os portugueses em vários pontos do país:

18 de Outubro, às 18h: "O logro das chamadas Terapias Alternativas: a importância da Medicina Baseada na Ciência", no Instituto Politécnico de Leiria. Organização da FFMS, com a moderação de David Marçal e tendo como oradores Edzard Ernst, Armando Brito de Sá e João Cerqueira.

19 de Outubro, às 16h: Tertúlia organizada pela Comcept, na Petisqueira Trinkas (na Praça dos Leões), no Porto. Venham para uma conversa informal, preparados para petiscar enquanto se fala de ciência.

2 de Novembro: ComceptCon, este ano dedicada ao tema da Evolução, no Museu de Leiria. Entrada gratuita, mas com inscrição. Saiba mais, aqui.


Outros eventos: 
Entre 15 de Outubro e 16 de Novembro, a Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS) está a organizar um Ciclo de Debates e Conferências no âmbito do Mês da Ciência e da Educação, que terá lugar em 5 cidades diferentes. Para além do evento, acima mencionado, dedicado às Terapias Alternativas, as outras conferências agendadas são:

15 de Outubro: "O que comer? - Conferência de Ciência GPS", na Galeria da Biodiversidade, no Porto.

22 de Outubro: "Como a genética conta a nossa grande história humana", na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra.

30 de Outubro: "Como aprende o cérebro? O papel das ciências cognitivas na educação", Auditório do Liceu Camões, em Lisboa.

07 de Novembro: "A atitude científica: o que é ciência e o que não é", Universidade de Aveiro.





domingo, 23 de junho de 2019

O Conceito de “Raça” Existe? Uma Breve Síntese à Luz da Ciência.


De quando em vez retoma a discussão na sociedade se a espécie humana se divide em raças.  Contudo, desde há décadas que é consensual dentro da comunidade científica, com base do que se conhece de biologia e de genética, que não faz sentido falar-se em raças. Assim se vê que este é um daqueles temas em que o consenso científico ainda não passou para o senso comum da sociedade. Nesta perspectiva, é pertinente a reflexão trazida pelo Miguel Mealha Estrada sobre este tema, que aqui se reproduz. 

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Texto de Miguel Mealha Estrada:

Num mar de desinformação científica, o qual inclui a genética, assistimos cada vez mais à proliferação da iliteracia científica, muita com intuitos nefastos e com o propósito de consolidar o populismo que cimenta as políticas extremistas, alimentando os mais vulneráveis com respostas falsas, não científicas e exponencialmente perigosas.
Historicamente, houve episódios em que a ciência foi abusada, deturpada e encomendada à medida da ideologia vigente na altura ou da crença preferencial. Relembremo-nos que no século XIX foi cunhado o termo Eugenia para designar um conjunto de ideias que ganhava cada vez mais apoios. A ideia subjacente era de uma ciência que servisse a humanidade ao retirar do pool genético “raças inferiores”, indivíduos imorais e com patologias do foro mental e genético.
E a história não para aqui. Ainda mais recentemente, durante o século XX tivemos cientistas na Alemanha Nazi que escreveram acerca de “raças” para o benefício da sua crença, nos EUA vários ideólogos apoiavam-se na ciência para manter a segregação, a escravidão, o colonialismo, e escreviam contra misturas entre etnias e contra a imigração. Tudo isto com o apoio na palavra “raça”.

Mas, ideologias à parte, vamos dar uma olhada à realidade e ver o que nos informa a ciência. Como irão ver, o assunto é extremamente complexo:

Se olharmos para a história da taxonomia e da sua relação com o conceito de ‘raça’, entramos num oceano de disparidades pseudocientíficas (embora tenhamos em conta o rudimentar conhecimento científico de outros tempos, e por tal temos de dar um desconto). Já no período da ciência europeia moderna, o botânico e médico iluminista Carl Linnaeus, mais conhecido por Lineu, viria a adquirir reconhecimento pelas suas intervenções a nível económico, social e científico. Mas foi na área da taxonomia (classificação das espécies com base nas suas características) que ficou globalmente conhecido: não só reuniu as espécies em grupos (filos e famílias) com base em características semelhantes, como criou uma nomenclatura binominal em latim para designar as espécies, permitindo que os naturalistas de qualquer nacionalidade compreendessem numa só língua qual a espécie que estava a ser designada. Lineu delineou que reconhecia as diferentes espécies não por raça, mas muito importante, e no que toca à ciência, por área geográfica: americanos, europeus, africanos e asiáticos.
Contudo, este método de Linnaeus, embora geograficamente correto, apresenta o erro fatal de apresentar em termos taxonómicos uma homogeneidade que simplesmente não existe por mera geografia. No entanto, no trabalho de Lineu havia uma sensação de que a mulher estava a um nível abaixo do homem, herança de uma visão Aristotélica na qual se baseava.
Contudo ainda nos dias de hoje temos cientistas que abusam e deturpam a ciência perante as suas convicções ideológicas e políticas. Existem cientistas que são aliados à extrema-direita, deturpando a ciência à medida da sua crença. Mas talvez o pior, sejam os cientistas bem-intencionados (felizmente cada vez menos), que continuam a usar uma terminologia taxonómica que sugere o conceito de ‘raças’, pelo único propósito de se referirem a um grupo, confundindo ainda mais a ciência.
Por exemplo, na China ensinam às crianças que os Chineses provêm de uma ‘raça’ diferente, diretamente da linhagem do Homo erectus. Tal é a necessidade de um povo em sentir-se diferenciado, superior, o seu narcisismo fantasioso.
Faz-me lembrar um debate na BBC com o então Nick Griffin líder do BNP (British National Party), em que disse ao então secretário do Ministério da Justiça, Jack Straw, que defendia que Inglaterra deveria ser constituída pelo povo indígena que lá habitava desde a idade do gelo. Quando confrontado com a curadora do museu de História Natural em que lhe disse “mas não habitava cá ninguém na idade do gelo”, Griffin num ápice mudou a retórica. Disse “perdão, quando o gelo derreteu”. Parece uma anedota? Mas não é. Existem pessoas que acreditam nesta alucinação e ainda votam nele.

Mas afinal o conceito de raça existe?

A realidade é que é absolutamente inútil tentar dividir a nossa espécie Homo Sapiens em termos de raça. Tem sido demonstrado cada vez mais que subdividir a nossa espécie Homo sapiens em diferentes unidades raciais, numa análise objetivamente cientifica, é uma tarefa falaciosa e completamente inútil.

Mas porquê?

Bom, aqui entra a complexidade da coisa.
A biologia molecular comparativa continua o seu estudo em foco geográfico para determinar diferenças entre populações, e não fazer algum atentado à taxonomia de ‘raça’. Isto é ciência.
Sem dúvida nenhuma que ainda existe debate dentro da ciência não só em relação às diferentes possibilidades de taxonomias entre populações como também nos métodos científicos para atingir consenso. Isto é saudável, pois existe a necessidade, para compreender e estudar os nossos ecossistemas e biodiversidade, de uma linguagem que denomine um certo tipo de conhecimento.
 Contudo, o os cientistas reconhecem que tais métodos não são aplicáveis para a classificação de variantes dentro das próprias espécies, que são as unidades fundamentais de análise quando examinamos e estudamos a estrutura da vida.

O Homo sapiens é o recém-chegado da nossa linhagem evolutiva. Em termos evolutivos, fisicamente as variações na nossa espécie são na realidade uma minoria em relação à totalidade do genoma, e só podem ser compreendidas através do prisma do nosso processo evolutivo num contexto geográfico.
A variação entre espécies é extremamente crucial para a sobrevivência e adaptação da nossa espécie. Relembremo-nos que a evolução não se foca de maneira nenhuma com uma finalidade de atingir uma perfeição, e nem sempre se conforma ao fenómeno de adaptação para evoluir como se pensava. Já Charles Darwin sublinhava que o essencial à evolução é o conceito de variação. E porque é a variação numa espécie essencial à sobrevivência e evolução da mesma? Simplesmente porque a variação consegue oferecer a melhor solução a algum problema evolutivo. Se há um problema evolutivo, por exemplo, a nível de doença, se não existisse variação que pudesse oferecer a melhor resposta a esse problema, o problema ficaria com as ferramentas genéticas que existissem, muito provavelmente guiando-nos à extinção.

Vamos agora dar uma breve olhada em algumas problemáticas na replicação do ADN, pois é essencial compreender este aspeto. É precisamente este aspeto de replicação que é extremamente importante em como atua o conceito de variação entre espécies e se elimina cientificamente do vocabulário o termo de ‘raça’.
O ADN é a peça central à reprodução de organismos, o que também nos elucida em relação à grande diversidade em que a vida no planeta evoluiu. Contudo a nota preliminar e importante é termos a noção que a replicação do ADN não é sempre exata. Na realidade alguns defeitos e erros podem ocorrer e até com alguma frequência. Estes defeitos e erros têm a denominação de mutações.  

Vários fatores podem gerar este fenómeno. Vamos ver o exemplo de Seleção Natural: a seleção natural irá dar atenção a uma nova variação, ou mutação, em 3 sentidos diferentes. Pode ver a mutação como benéfica, em que então irá ficar em favor (e propagar) essa mesma nova mutação, pode ver essa mesma mutação como patogénica, e pelos seus mecanismos eliminar essa mesma mutação da população, ou poderá considerar essa mutação como neutra, à qual não lhe dará importância.

Aqui entramos na área complicada da taxonomia, quando se aborda a temática de ‘raça’. Qualquer subdivisão de uma espécie em subespécies não é geneticamente e em termos taxonómicos suficiente, pois não existe a possibilidade de objetiva e cientificamente determinar a identificação da diferenciação de subespécies a nível de mutação. Neste prisma o processo de reprodução não tem implicação, ou qualquer outro critério, pois não passa de semântica subjetiva.
Na realidade, as pequenas diferenças que se notam no Homo Sapiens são fatores adaptativos à área geográfica onde habitam, que influencia a cor dos olhos, pigmentação da pele, suscetibilidade a certas doenças, altura entre outros poucos fatores. Mas tais fatores na realidade não têm praticamente relevância estatística para sequer poder usar o termo ‘raça’ pela seguinte razão: todas essas variações amontam a 0, 1% do genoma comum humano: sim, independentemente das diferenças mencionadas, o nosso código genético é 99,9% comum ao Homo sapiens.    
Podemos então concluir que usar o termo ‘subespécies’ servirá apenas se for de alguma forma útil em termos de referência específica a um taxonomista.
De resto, como seres humanos, temos a intrínseca necessidade de classificar o que nos rodeia, muito provavelmente no inicio da linguagem há uns 100,000 anos atrás. Por tal, a taxonomia tem as suas origens já desde o inicio da linguagem.

O egocentrismo humano como espécie superior

É interessante termos a noção de como, ao longo da história da ciência, os cientistas deram como adquirido que eramos os seres superiores do planeta: o ato divino de Deus na sua criação mas, como já vimos anteriormente, só para alguns.
Por um fator de curiosidade vamos dar uma olhada à mais famosa árvore filogenética feita por Ernst Haeckel denominada “Pedigree of Man”:


 Baseado no trabalho de Ernst Haeckel, The evolution of man (1896). 


Contudo existem erros cruciais nesta filogenia. Apenas o conceito de uma árvore, pequena com ramificações é um erro. De uma forma mais científica, teríamos de ter uma floresta filogenética (outros cientistas preferem a imagem do arbusto) cheia de ramificações, sem um tronco central ou pilar de referência. Para tal teríamos de recuar milhões de anos.
Mas aqui fica como a ciência via a estrutura da vida, onde o homem era o ser superior, numa visão enquadrada no contexto do seu tempo.

Em termos comparativos, ficamos aqui com uma representação filogenética viável e científica da “árvore da vida”, como a compreendemos no presente. Agora vejam bem, na imagem seguinte, a diferença entre o avanço da ciência e a antiga ciência evangelista, em que predomina o homem branco:

Créditos: Visual.ly


Erros Antropológicos na Noção de Divergência Humana

Imaginemos este cenário: estão na baixa de Lisboa e observam vários turistas a passar, com feições distintas. Conseguem adivinhar com certeza de onde vêm? A que continente pertencem? As chances de ficarem incrédulos o quão errados podem estar é altíssima.
Isto quer dizer que a nível morfológico é extremamente difícil, senão impossível detetar a etnia de um esqueleto ou por partes ósseas. O método mais viável de revelar uma etnia é o crânio, devido a fatores típicos de populações, tais como cavidade nasal, perímetro cranial, etc.
Contudo, a ciência não é exata. Vamos ver o exemplo do “Kennewick Man”. O esqueleto do Kennewick Man tem cerca de 9000 anos, e foi encontrado no estado de Washington, EUA em 1996. A análise do esqueleto foi interessante: quando os peritos forenses estudaram o esqueleto, notaram traços Caucasianos no mesmo e nenhuma característica nativa americana. Tendo em conta a idade do esqueleto é no mínimo muito estranho devido à disparidade geográfica das populações de então. Para acentuar o mistério, na zona do pélvis estava feita uma acentuação com uma ponta típica dos Pale indianos exatamente nesse período. Após uma reconstrução feita por especialistas em modelo real, usando a tecnologia mais avançada, qual é o espanto em que na realidade o Kennewick Man se parecia com o ator Britânico Patrick Stewart, mais conhecido pelo seu papel como Capitão da nave USS Enterprise.
Após uns anos, o mistério adensou-se quando com nova tecnologia, os peritos forenses (e usando a métrica craniana), concluíram que a aproximação mais viável a uma etnia não era com americanos nativos ou caucasianos, mas sim com os Ainu, antigos descendentes de ilhas do arquipélago do Japão! Portanto: a tarefa de concluir a identificação de uma etnia através de um crânio é perigosa, pois embora seja mais viável, mesmo assim está suscetível a erros estatísticos.
Por tal os cientistas são muito cuidadosos em assumir uma etnia em relação à morfologia óssea.
Claro que existiram cientistas que aproveitaram a onda da medida do crânio para promover as suas crenças hoje tidas como pseudocientíficas. Um exemplo é o cientista do século XIX Samuel George Norton, que mediu vários crânios de várias etnias em que ele denominava “diferentes raças”, com o propósito de estabelecer uma correlação entre raça e inteligência. Claro que o passo seguinte foi demonstrar que indivíduos de etnia ‘branca’ têm um perímetro cranial um pouco maior e por consequência, maior inteligência. Sabemos hoje que em termos neurobiológicos é uma falácia, como nos demonstra esta meta-análise.
Características tais como inteligência (situação geográfica, cultural e estatuto social), capacidade atlética, dieta, cor da pele e morfologia corporal são de uma complexa vastidão em termos que englobam geografia, adaptação e mutação, como já vimos anteriormente. Mas absolutamente. E nenhuma destas características serve como diagnóstico para descrever diferentes grupos no planeta.

Testes de ADN

Então o que nos dizem os testes de ADN em relação a ‘raça’? Hoje em dia temos à nossa disponibilidade um leque variado de testes de ADN, maioritariamente dedicados a pessoas que têm curiosidade em saber as suas ascendências. Mas na realidade, o que é que realmente esses testes nos informam? Basicamente informam-nos acerca do ADN no nosso genoma e, possivelmente, de onde tem origem.
Contudo, se usarmos métodos diferentes à nossa disposição, poderemos ter resultados completamente díspares. Estes testes resumem-se apenas a genes e ao genoma, mas infelizmente têm vindo a ser conectados com identificação de ‘raças’, o que é cientificamente completamente errado.
Uma nota importante neste erro crasso de identificação é que em cada humano o genoma é um mosaico de ascendências passadas, o qual pode incluir partes de ADN de outras espécies. Inevitavelmente é inviável usar o genoma para identificar ‘raças’ não existentes dentro da nossa espécie, mas sim, diferenças e variabilidade. Resumindo, não dão nenhum significado real à ciência, muito menos em determinar variantes, alelos e adaptações que provêm das mais variadas condições evolutivas.
Claro que existem diferenças genéticas entre diferentes populações em diferentes regiões geográficas, mas para além de melhor adaptação, não têm nenhum significado atribuído  a ‘raça’.
As diferenças estão lá, mas são superficiais. Portanto se o conceito fantasioso de ‘raça’ explica o que quer que seja acerca do Homo sapiens, a resposta científica é redondamente NÃO!

Conclusão:

 A cultura também exerce um peso em certas diferenciações, contudo, a falta dela, especialmente a científica, exerce um peso maior, quando a beleza da biologia e ciência cai nas mãos dos ignorantes, que usam a complexidade da biodiversidade para alimentar crenças populistas. Mais uma vez, um apelo ao governo para que insista na educação científica da população, pois a falta dela certamente alimenta o extremismo, a ignorância, a intolerância e um atalho ao supermercado do pronto-a-pensar.
É desta ignorância que se alimenta a extrema-direita e o populismo, pois é fácil compreender o mundo com a ignorância. Saber dá mais trabalho, mas compensa.
O conceito de ‘raça’ é um constructo social. Só existe uma espécie: Homo sapiens.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

O OXIGÉNIO E A EVOLUÇÃO DA VIDA

Crónica originalmente publicada na imprensa regional.
A evolução da vida na Terra foi marcada pelo aumento do oxigénio na atmosfera e nos oceanos.

No início da formação da Terra, há 4,6 mil milhões de anos, havia muito pouco oxigénio gasoso (oxigénio molecular, O2). O oxigénio então existente estava combinado com outros átomos, como seja o hidrogénio, formando a água que hidratou o planeta ao longo da sua evolução.

E foi em meio aquático, nas ondas dos oceanos primitivos, que as primeiras formas de vida surgiram. As evidências fósseis mais antigas de microrganismos têm 3,6 mil milhões de anos. Não quer dizer que a vida não existisse antes. Quer dizer que ou não deixou rastos, ou ainda não foram encontrados. Aquelas formas de vida unicelulares pertencem ao grupo designado por cianobactérias.

As cianobactérias primitivas possuíam a capacidade de usar a luz solar com fonte de energia para efectuarem a fotossíntese. Nesta, o oxigénio presente nas moléculas de água é combinado para dar origem à molécula de oxigénio que se difunde pelas águas dos oceanos e para a atmosfera. O aumento de oxigénio molecular, produzido pela acção da vida, marcou a evolução da própria vida e mudou a química do planeta.

Há evidências geológicas que mostram como foi a evolução da concentração de oxigénio na história da Terra. Sabemos que o nível de oxigénio na atmosfera não aumentou linearmente. Muito pelo contrário, durante os primeiros 3 mil milhões de anos depois do início da sua produção biogénica, a sua concentração na atmosfera permaneceu residual. Mas, há cerca de 2,4 mil milhões de anos ocorreu o que é designado por primeiro grande evento de oxigenação (GOE, na sigla inglesa), e que é caracterizado por um primeiro aumento, mas tímido, no oxigénio atmosférico.

O oxigénio, produto da vida, foi-se primeiramente combinando com outras substâncias, como a pirite (FeS2), presentes nos fundos oceânicos e na superfície dos solos terrestres. Ou seja, este sequestro do oxigénio por diversas substâncias, ao longo de milhares de milhões de anos, impediu que ele estivesse disponível para ser usado para a complexificação da vida.

E, de facto, verifica-se um longo jejum evolutivo durante cerca de 3 mil milhões de anos, com o surgimento de poucas novas formas de vida, que se mantinham principalmente unicelulares ou vivendo em colónias.

Contudo, há cerca de entre 850 a 550 milhões de anos algo mudou no planeta e a concentração de oxigénio disparou para cerca de 31% na atmosfera (10% a mais do nível actual). E essa mudança oxidativa foi acompanhada por uma explosão evolutiva no horizonte da vida. No que é conhecido por explosão câmbrica, verificamos o surgimento de uma miríade de novas expressões de formas vivas muito diversas. Todos os antepassados das plantas e animais actuais surgiram nessa explosão incendiada pelo aumento brusco de oxigénio livre.

Não sabemos o que é que originou este grande aumento de oxigénio num momento designado por segundo grande evento de oxigenação. Mas geólogos da Universidade da Tasmânia, Austrália, descobriram que esse momento foi também acompanhado pelo aumento da disponibilidade de outros elementos e materiais para a vida nos oceanos. Os resultados da equipa liderada por Ross Large vão ser publicados em março na revista “Earth and Planetary Science Letters”.

António Piedade

domingo, 7 de abril de 2013

«A EVIDÊNCIA DA EVOLUÇÃO – POR QUE É QUE DARWIN TINHA RAZÃO»

Recensão crítica publicada primeiramente na imprensa regional.
Numa era em que as pseudociências e o criacionismo se enraízam na superficialidade tornada de fácil consumo pelas novas tecnologias da informação, e em que esta informação tem evolução acelerada, importa ter acesso a bons livros que nos possam dar guarida para pormos os pés (a consciência e o pensamento) em terrenos firmes, férteis sobre um dado assunto, sem perder a criatividade, fortalecendo assim o direito à liberdade de expressão, bem como ao livre pensamento. Mas com a responsabilidade que define a própria liberdade. E o assunto da própria evolução da vida merece a nossa maior atenção, principalmente porque há excesso de má informação a circular sobre esta matéria. Matéria esta que é de importância central para o bom funcionamento das nossas diversas actividades, do nosso relacionamento com a vida do e no planeta Terra.

Enquadra-se neste contexto o excelente livro «A Evidência da Evolução – Porque é que Darwin Tinha Razão», de Jerry A. Coyne, recentemente editado pela Tinta-da-china e cujo original é de 2009, foi traduzido por Paula Almeida e teve revisão científica de Martin P. Melo do CIBIO (Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos). Jerry A. Coyne é professor no Departamento de Ecologia e Evolução da Universidade de Chicago (EUA) e um activo e excelente divulgador de ciência em geral, e da evolução em particular, para o grande público (ver http://whyevolutionistrue.wordpress.com/).

(Ver aqui a apresentação que o Professor Carlos Fiolhais fez deste livro)

A leitura desta obra interdisciplinar recomenda-se a todos, pois para além de ser de agradável leitura, consegue tornar compreensíveis os conceitos envolvidos na evolução das espécies, fornecendo inúmeros e esclarecedores exemplos e factos actualizados sobre esta realidade.

Ao longo de nove capítulos (1 - o que é a evolução; 2 – Escrito nas rochas; 3 – Resíduos: vestígios, embriões e organismos mal concebidos; 4 – A geografia da vida; 5 – O motor da Evolução; 6 – De que forma o sexo acelera a evolução; 7 – A origem das espécies; 8 – Então e nós?; 9 – A evolução revisitada) de notas oportunas e de um glossário útil para refrescar a memória, o leitor é confrontado com uma escrita alimentada por raciocínios lúcidos e rigorosos sobre milhões de anos de evolução da vida neste planeta.

A actualidade e robustez dos argumentos expressa-se não só nos mais recentes registos fósseis encontrados, mas também nos novos dados e confirmações que a genética moderna tem fornecido. A moderna biologia celular e molecular tem permitido confirmar a teoria da selecção natural de Darwin, e também entender o motor da evolução. O autor explica-nos, com simplicidade e rigor, os mecanismos genéticos subjacentes à evolução das coisas vivas. E também a nossa própria evolução.

Precisamos de bons livros para compreendermos melhor a importância da biodiversidade, como ela surgiu e evoluiu, e a nossa relação com a vida no único planeta de que temos conhecimento em que ela evoluiu. Este é um desses bons livros.

Não posso deixar de replicar aqui a acutilante opinião do prestigiado biólogo Richard Dawkins sobre este livro: «Quem não acredita na evolução ou é estupido, ou é louco, ou não leu Jerry Coyne.»

António Piedade

Dados Bibliográficos
Título: A Evidência da Evolução – Porque é que Darwin Tinha Razão
Autor: Jerry A. Coyne
Editora: Tinta-da-china
Tema: Ciência
Tradução: Paula Almeida
Co-edição: CIBIO | Serralves
Adaptação: Martim P. Melo
1.ª edição: Outubro de 2012
N.º de páginas: 376
Tipo de capa: Capa mole
Formato: 14x21 cm
ISBN: 9789896711337

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

ABELHÕES SENTEM CAMPOS ELÉCTRICOS DAS FLORES

Crónica primeiramente publicada na imprensa regional.


Abraço o arco-íris com o olhar visível.

A separação das componentes do espectro da luz solar, ao atravessarem as gotas de água, imprime na minha retina sensações de uma paleta de cores que o meu cérebro retém e compara com outras e anteriores sensações coloridas do mundo em que vivo.

A cada nuance colorida o meu cérebro associa um nome e mesmo outras sensações de alegria, esperança, espanto, confiança, frio ou calor. As cores são elementos da minha comunicação com o mundo que me rodeia, têm um significado modulado pela cultura ocidental em que as aprendi.

Mas há muito mais radiação para além da pequena região da luz que nos impressiona visivelmente no espectro da luz solar. Por exemplo, não conseguimos ver as radiações ultravioletas nem as infravermelhas. Também não conseguimos ver as radiofrequências nem as micro-ondas, e assim por adiante.

Mas outros seres, que coabitam connosco este planeta, conseguem percepcionar a luz para além da região do espectro visível. Por exemplo, as abelhas conseguem ver cores ultra-violetas. Este facto levou o biólogo evolucionista Richard Dawkins a referir que para os insectos os campos de flores são “jardins no ultravioleta”. Se para a maioria de nós as pétalas do mal-me-quer são uniformemente brancas ou amarelas, para uma abelha há nelas uma outra riqueza de padrões coloridos que nós não conseguimos discernir.

Vísível vs. UV

(É possível viver as diferenças que a radiação ultra-violeta causam no aspecto das flores na exposição permanente do Museu da Ciência da Universidadede Coimbra.)

É o espelho da co-evolução entre as plantas com flor e os insectos que as polinizam. Ao longo de milhões de anos a evolução natural consertou as adaptações ajustando-as para uma comunicação mais eficaz e rica entre ambos.

Mas a Natureza não para de nos espantar ou pelo menos o conhecimento que adquirimos sobre ela. Num trabalho publicado na última edição da revista Science  mostra-se que pelo menos um dado tipo de abelhões (Bombus terrestris) é sensível à carga eléctrica, (ou melhor ao campo eléctrico) de uma dada flor. E que esta carga eléctrica da corola parece estar associada com o conteúdo em pólen que essa flor possui num dado momento. Os investigadores descobriram que, depois de uma flor ser visitada por uma abelhão, que lhe retira pólen, a sua carga eléctrica altera-se e esta mudança permanece durante alguns minutos. Assim, um outro abelhão, ao se aproximar dessa mesma flor, apercebe-se, provavelmente electrostaticamente, que o conteúdo em pólen é reduzido nesta.


Talvez experiencie a sensação de cabelos ou pelos em pé que nós próprios sentimos quando aproximamos, por exemplo, um braço de um superfície carregada electrostaticamente.

Apesar de toda beleza cromática que apresenta para atrair o insecto, a flor não faz “publicidade enganosa” e comunica ao insecto que não vale a pena, naquele momento, ele nela poisar se ao pólen vem. O abelhão agradece, pois, como em outras actividades, nesta o tempo também é precioso. Para a flor, como também em outros casos, é importante dizer a verdade para que o insecto a ela volte noutra altura de maior abundância polínica.

Para uma abelha um campo de flores não é só um jardim no ultravioleta. Este também está repleto de sensações electroestáticas que tornam a comunicação mais efectiva e rica de significados.

António Piedade

sábado, 11 de agosto de 2012

Entrevista a Alexandra Nobre sobre "A Espiral da Vida"


Entrevista a Alexandra Nobre (Professora Auxiliar do Departamento deBiologia da Universidade do Minho), tradutora e revisora científica da edição portuguesa de "A Espiral da Vida - As Dez Mais NotáveisInvenções da Evolução", livro premiado do Bioquímico Nick Lane, publicado agora em Julho na Colecção "Ciência Aberta" da Editora Gradiva. 





Alexandra Nobre



António Piedade - O livro surpreendeu-a? De que forma?
Alexandra Nobre - Paradoxalmente, sim e não. Sim, porque o livro é uma surpresa a cada esquina, que é como quem diz, a cada virar de página. Não, porque já tinha tido acesso ao “Power, Sex, Suicide: Mitochondria and the Meaning of Life” do mesmo autor, editado há uns anos e, se bem que os livros não se repitam, há algumas temáticas que se imiscuem (aliás, em “Life Ascending” Nick Lane remete para este por diversas vezes) e um estilo comum muito próprio de nos prender.

António Piedade - Este livro mudou algo na forma como olha agora para a evolução da vida no Universo?
Alexandra Nobre - Inevitável e irremediavelmente. Ao longo destes meses, por diversas vezes me questionei se eu elencaria estas dez invenções como as mais notáveis da evolução. “...Começamos com a origem da vida em si e terminamos com a nossa própria morte e procura de imortalidade, passando por pontos altos como o ADN, a fotossíntese, as células complexas, o sexo, o movimento, a visão, o sangue quente e a consciência...” Se bem que algumas me pareçam incontornáveis como o ADN, a fotossíntese e o sexo, outras como o sangue quente, a visão ou mesmo o movimento, à partida já não me parecem tão óbvias e consensuais. É natural que assim seja. Aliás, Nick Lane teve conselhos noutros sentidos. Por exemplo, refere “No início discuti esta lista com um amigo que me propôs o tubo digestivo como emblemático nos animais em substituição do movimento”. Mas Nick Lane, logo na introdução refere os quatro critérios que o levaram a seleccionar estas dez invenções, e legitima deste modo a sua escolha.
Inevitável e irremediavelmente, dizia eu. Mas não de modo fixo e para todo o sempre. A cada dia somos confrontados com novas “evidências”, que põem em causa verdades ainda na véspera consideradas inabaláveis. Haja curiosidade e “Curiosity” e a história da evolução da vida no Universo não terá um ponto final, e muito menos um ponto final parágrafo.

António Piedade - Quais as dificuldades que encontrou na tradução?
Alexandra Nobre - Por um lado, as comparações constantes ao longo do texto que tornam claros, mesmo para leigos no assunto, intrincados mecanismos bioquímicos e/ou fisiológicos, não me tornaram a vida nada fácil. Por outro, o estilo de Nick Lane, muito metafórico, rico em imagens/ figuras de estilo, pejado de duplos e de triplos sentidos que dão todo um colorido e lufada de ar fresco à escrita, também foram, por vezes, nós difíceis de desatar. Mas o osso mesmo duro de roer, o que me deixou por vezes uma mulher à beira de um ataque de nervos, foi sem dúvida arranjar paralelo para algumas expressões idiomáticas ou mesmo provérbios com que tropecei frequentemente. Tentei sempre manter o cariz humorístico, irónico e mesmo sarcástico de Nick Lane e ser o mais fiel possível ao fluir do raciocínio e das ideias. Não sei se consegui. E em simultâneo, acumulei também as funções de revisão técnica e científica. Eram muitas “antenas” sintonizadas ao mesmo tempo...

António Piedade - Quais são os aspectos mais conseguidos e menos conseguidos, na sua perspectiva, pelo Nick Lane, ao abordar as 10 "invenções da evolução"?
Alexandra Nobre - O mais conseguido foi o modo como a história foi sendo desenrolada, capítulo a capítulo, numa lógica coerente, com uma linguagem rica, ora mais poética, ora mais brejeira, de forma clara, agradável e com uns laivos de romance policial à mistura, que nos deixavam expectantes e mesmo em suspense, de um parágrafo para o outro. Também me agradou que, sem prejuízo desta lógica, cada capítulo se bastasse e si próprio e fizesse sentido só por si. Quero com isto dizer que, na minha óptica, podemos encarar cada um dos capítulos como um “mini-livro independente” e escolher a ordem por que os lemos, sem desvirtuar o sentido de toda a obra.
A meu ver, menos conseguido talvez seja o modo como, em todos os capítulos, mais nuns do que noutros, a dada altura começamos a andar em círculos e a repetir as mesmas ideias por outras palavras. É como se Nick Lane nos quisesse ajudar a mastigar muito bem todos os ingredientes que vai apresentando. E às tantas, é também como se já os tivéssemos engolido e fossemos obrigados a regurgitar novamente para mais uma “mastigadela”.

António Piedade - Pode contar-nos como experienciou, do ponto de vista racional e emocional, a tradução do livro?
Alexandra Nobre - O que é que posso dizer? Que foi uma tarefa ciclópica porque: nunca tinha feito nada de minimamente semelhante; o livro é, literalmente, de peso; tive que me multiplicar (ou dividir, sei lá...) em diversas tarefas e a responsabilidade me pesava nos ombros a cada segundo. Mas também que, não obstante tudo isto, voltava a aceitar a empreitada.
Neste momento ainda estou demasiado envolvida em todo este processo para poder responder de modo racional e isento de emoções. Quer fazer-me esta pergunta novamente daqui a uns tempos, António?

terça-feira, 31 de julho de 2012

"A ESPIRAL DA VIDA"



Recensão crítica publicada primeiramente na imprensa regional.

A Espiral da Vida - As Dez Mais Notáveis Invenções da Evolução”, da autoria do eminente Bioquímico e divulgador científico Nick Lane, é o novo título, nº 194, da incontornável colecção “Ciência Aberta” da editora Gradiva. É a 1ª edição portuguesa (Julho de 2012) de “Life Ascending—The Ten Great Inventions of Evolution” (publicado em 2009 – ano do bicentenário de Darwin), que venceu em 2010 o prémio para livros de ciência atribuído pela Royal Society.


Realce para a tradução para o português do original inglês efectuada por Alexandra Nobre, do Departamento de Biologia da Universidade do Minho, que conseguiu manter a linguagem acessível mesclada com a frontalidade, o humor e a ironia que caracterizam a escrita de Nick Lane. Mas talvez o aspecto mais positivo da tradução seja o ter mantido a beleza da escrita recorrentemente poética de Nick Lane, que nos oferece inúmeras sínteses poéticas de aspectos da evolução da vida. Frases para mais tarde recordar. De facto, muitas das frases originais que preenchem o livro sobre fenómenos essenciais à vida permanecerão na memória do leitor que revisitará este livro como fonte de informação e inspiração futura.

“Se Charles Darwin saísse do túmulo, eu dar-lhe-ia este livro fabuloso para o animar” disse sobre este livro Matt Riddley, autor de “Genoma” e “A Rainha de Copas” (também publicados pela Gradiva). De facto, se a vida é só por si uma realidade fascinante, enveredar pela aventura espantosa de apreender como é que ela evoluiu desde as primeiras moléculas até à complexidade da consciência, torna-a ainda mais deslumbrante. É este um dos aspectos mais cativantes deste terceiro livro de divulgação científica de Nick Lane, que nos oferece uma admirável compreensão da relação entre a história da vida e do planeta em que evoluiu. A componente animadora reside na perspectiva de que há válidas razões para esperarmos que através do método científico possamos revelar e compreender o longínquo desconhecido berço da vida.

Nick Lane surpreende-nos magistralmente numa síntese original, rigorosa mas acessível, do conhecimento acumulado nos últimos 150 anos sobre a evolução da vida que permitiu que hoje estejamos aqui a ler este texto.

Ao longo de 10 capítulos dedicados a outros tantos marcos evolutivos substanciais à vida, Nick Lane problematiza e actualiza-nos o conhecimento sobre a sua evolução. “Começamos com a origem da vida em si e terminamos com a nossa própria morte e procura de imortalidade, passando por pontos altos como o ADN, a fotossíntese, as células complexas, o sexo, o movimento, a visão, o sangue quente e a consciência”, resume o autor na Introdução.


Nick Lane, Bioquímico, escritor e divulgador científico


Nick Lane transmite, de forma original, questões complexas com uma facilidade cativante. Com coragem intelectual confronta teorias concorrentes, relata episódios de como a ciência se processa e produz conhecimento, pelo que acresce a este livro uma dimensão didáctica sobre como a ciência funciona. Ao longo da leitura do livro, sentimo-nos em cima do promontório do conhecimento actual, sentados na sua fronteira a contemplar o desconhecido no horizonte que se espraia em todas as direcções do tempo (passado, presente e futuro), e sentimos a vertigem do abismo que nos atrai para o erro, que evitamos e minimizamos, nesta humanidade conscientemente falível.

A Espiral da Vida que recebeu as melhores críticas internacionais, é por tudo o que se disse, de leitura aconselhável e agradável para todos, mas imprescindível para todos os que se interessam pela aventura da vida no Universo.

António Piedade
Ciência na Imprensa Regional – Ciência Viva

sexta-feira, 13 de julho de 2012

O OVO “PERDIDO” ENTRE AVES E DINOSSAUROS.


Fósseis de ovos da nova espécie Sankofa pyrenaica encontrados na Catalunha.

Crónica publicada primeiramente na imprensa regional.

Quem é que nasceu primeiro: o ovo ou a galinha? 

Não querendo esgravatar esta pergunta redundante, um facto é o de que a observação e análise de um dado ovo permite hoje identificar a espécie que o gerou.Essa identificação baseia-se na observação da postura de determinado tipo de ovo por parte de indivíduos do género feminino de uma certa espécie. 

Diga-se, a propósito, que se designam por ovíparas as espécies cujo “embrião se desenvolve dentro de um ovo em ambiente externo e sem ligação com o corpo da mãe”. As aves, e uma maioria de espécies de répteis, peixes, moluscos, insectos, e aracnídeos são exemplos de animais ovíparos.

Em relação às espécies extintas que se descobriu também serem ovíparas, a identificação do tipo de ovos com uma dada espécie é paleontologicamente efectuada a partir da correspondência entre ovos fossilizados encontrados junto de espécimes embrionários, juvenis ou adultos também fossilizados. Ou pelo menos por aqueles terem sido encontrados no mesmos períodos e estratos geológicos que as espécies que a eles ficaram associadas.

Como em muitas outras áreas do conhecimento, esta não está isenta de muitas questões por responder, dúvidas, fósseis que faltam para completar o grande puzzle da evolução. Há inúmeros elos perdidos, ou melhor e neste caso, ovos perdidos, necessários para robustecer as hipóteses em cima da mesa do paleontólogo. 

E uma dessas questões tem a ver com a identificação da espécie ancestral e comum às aves e aos dinossauros terópodes. Estes últimos incluem os dinossauros bípedes do Cretácico superior, como os hoje “populares e mediáticos” tiranossauros e Velociraptor.

O fóssil dessa espécie comum continua a permanecer incógnito entre algum sedimento, estrato geológico ainda não explorado. 

Contudo, o seu ovo deste "elo" poderá já ter sido encontrado. É essa a conclusão de um estudo publicado em Narço deste ano na revista Palaeontology. Nesse artigo, paleontólogos espanhóis da Universidade Autónoma de Barcelona e da Universidade Complutense de Madrid, apresentam as conclusões das análises de um conjunto de ovos fósseis encontrados na região de Montsec, perto de Lérida, na Catalunha. Todos os ovos são pertencentes a uma mesma espécie desconhecida de dinossauro terópode que terá vivido entre 70 e 83 milhões de anos atrás.

E o que é que isto tem de novo? É que estes ovos têm uma forma ovoide assimétrica, ao contrário de outros encontrados para dinossáurios  terópodes do mesmo período que apresentam uma forma simétrica!



Esquema comparativo da forma de ovos de diferentes espécies - de A a G ovos de Dinossauros - de I a P ovos de aves - H - Sankofa pyrenaica.

Ou seja: encontraram-se ovos que se assemelham aos das aves (do tamanho dos ovos das galinhas) mas que foram gerados por uma espécie ainda desconhecida de dinossauros terápodes.

E como é que os cientistas sabem que a postura foi efectuada por terápodes e não por aves? A análise da estrutura cristalina da casca aparenta-os mais à dos ovos de dinossauros (não avianos) do que aos dos das aves. Uma nova espécie de ovo com a casca do tipo da dos ovos dos dinossauros terópodes do mesmo período, mas com a forma ovóide assimétrica como a dos ovos das aves.

Assim, na falta do fóssil da espécie que os gerou, os ovos serviram aos cientistas para identificar a nova espécie, a que deram o nome de Sankofa pyrenaica, candidata a ser o um ancestral comum a aves e dinossauros.

Neste caso, bem se pode dizer que foi o ovo que “apareceu” primeiro!

António Piedade

sexta-feira, 23 de março de 2012

A História do Aperfeiçoamento Humano - Sábados com Ciência


Mais uma sessão de "Sábados com Ciência", neste sábado dia 24 de Março, subordinada ao tema "A História do Aperfeiçoamento Humano". A palestra vai estar a cargo de João Lourenço Monteiro, biólogo e comunicador de ciência no Departamento das Ciências da Vida da UC.

A sessão decorrerá entre as 17h30 e as 19h00, no auditório da Livraria Bertrand (Dolce Vita - Coimbra) e é dirigida a todos.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

REEDIÇÃO DE “OS DRAGÕES DO ÉDEN” DE CARL SAGAN

“Os Dragões do Éden - Especulações Sobre A Evolução Da Inteligência Humana E Das Outras”.



Eram tardes de início do Verão de 1985.

Quatro jovens, estudantes de Bioquímica, Química, Física e Biologia, passeavam sem fim determinado por vários terraços, recantos, estufas, entre outros espaços, do deslumbrante Jardim Botânico da Universidade de Coimbra, cuja biodiversidade permite, mesmo ao mais desatento, viajar pela história da vida e da sua dispersão e evolução no planeta Terra. Evidências de evolução por toda a parte. De criação, só a que resulta do cultivo que os jardineiros executam para manter o Jardim!

Passeavam empolgados como se tivessem descoberto todo um mundo novo. A conversa, ou melhor, as conversas bolinavam adentro a história da vida, pela capacidade que a inteligência humana tinha em fazer eclodir conhecimento. Numa confrontação multidisciplinar, cada um esgrimia pontos de vista diferentes e tentava a partir deles levar os outros a especular sobre constelações de “e se o cosmos”, “e se a vida”, “e se o acaso”, “e se a evolução”, “e se o espanto fosse surpreendido a partir de outra inteligência, não humana, talvez artificial, ou melhor, talvez extraterrena?”.

Naquele passeio imerso no ecossistema do Jardim Botânico, primeiramente escola de descobertas, os quatro estudantes não iam sós mas acompanhados por um livro. Liam, uns para os outros, as passagens que lhes tinham fertilizado a curiosidade e alimentado a inteligência com destino marcado para o conhecimento. O que liam? Liam, reliam e discutiam o livro de Carl Sagan, premiado em 1977 com o prémio Pulitzer, e que a editora Gradiva tinha acabado de publicar em português: “Os Dragões do Édem - Especulações Sobre A Evolução Da Inteligência Humana E Das Outras”.

Depois de termos viajado pelo “Cosmos” através da escrita de Carl Sagan, este foi o segundo livro traduzido para português e incluído, com o n.º 8, na ininterrupta colecção “Ciência Aberta”, da editora Gradiva, do Guilherme Valente. Lembro-me bem o impacto que teve ao abrir-nos outras perspectivas, novas formas de abordar certos assuntos, tirando-lhes o pó dogmático e cómodo do saber não questionado. Ao mostrar as insuficiências do criacionismo para explicar todo um mundo de evidências evolutivas.


Ao longo das nossas formações académicas iriam ficar (e ficaram) bem vivas na memória essas discussões edificantes e sedimentadas pela Alameda da Tílias do referido Jardim, que mantiveram atenta a nossa capacidade para questionar a inteligência humana, a sua evolução, a sua relação com a possibilidade de outras inteligências, aqui e nas estrelas.

Passados que foram 26 anos, a memória dessas tardes foi de novo espoletada com a reedição, em Novembro de 2011, de “Os Dragões do Éden”, a 8.ª edição em Portugal, agora incluída na colecção “Obras de Carl Sagan” (6.º título) que a Gradiva dedica a esse incontornável comunicador e divulgador de ciência e tecnologia, passados 15 anos da sua morte.



Esta nova edição daquela que “para alguns é a mais bela obra de Carl Sagan” apresenta-se agora mais agradável, com uma paginação mais generosa e cómoda à leitura, com as anotações cuidadas na sua localização mais apropriada, com uma melhor impressão das imagens originais e constantes na primeira edição portuguesa. Recorde-se que a tradução desta obra foi efectuada pela Ana Falcão Bastos e que a revisão científica foi do físico José Mariano Gago e dos biólogos Maria Margarida Perestrello Ramos e Carlos Henriques de Jesus.

O volume actual, com 269 páginas, compagina a introdução, nove capítulos principais, mais um outro de agradecimentos, uma extensa, rica e diversificada bibliografia, e por fim, um glossário generoso. Capítulo a capítulo, Carl Sagan apresenta-nos uma progressiva problematização, a um só tempo lúcida, estimulante e sem preconceitos, da evolução do cérebro e da inteligência humana. Numa abordagem interdisciplinar, facilitada pelo amplo domínio que Sagan tinha de várias áreas do conhecimento científico, filosófico e histórico da humanidade, somos embalados numa leitura cativante que questiona a nossa importância, lugar e presença na evolução da vida e do Universo.

Sem receio de revisitar e desmistificar as origens incrustadas na diversidade cultural humana, provoca o leitor com hipóteses ainda hoje arrojadas e que incendeiam aquilo que porventura julgava bem estabelecido. De capítulo em capítulo, Sagan leva-nos por uma viagem sem nunca nos desacompanhar. Compara, confronta a evolução e a actividade do cérebro, visitando e transmitindo o que então se conhecia da biologia daquele órgão, presente em nós e noutros seres vivos.

Sagan contagia-nos com a sua paixão pelo conhecimento, apresentando-nos as várias construções, umas mais abstractas e científicas, outras mais concretas e tecnológicas, fruto da actividade daquele órgão capaz de produzir pensamentos, emoções e de as integrar com a informação que recebe do exterior, desenvolvendo culturas e mitos, modelando comportamentos e estabelecendo hierarquias conceptuais nas relações intra e inter-espécies.

Ao longo do livro Sagan guia-nos pelo retrato, possível à época (desde então muitos foram os avanços obtidos pelas neurociências e mesmo na área da psicologia evolutiva), da estrutura orgânica das fundações da nossa inteligência, das nossas paixões, dos nossos medos e das nossas realizações. Identifica e situa a inteligência humana no contexto da evolução da inteligência dos seres vivos.

O último capítulo, famoso também pelo seu título, que, aliás, ecoa na última frase do livro, propõe-nos uma direcção para a descoberta: “O conhecimento é o nosso destino – inteligência terrestre e extraterrestre”.



35 anos depois da primeira edição original em inglês, esta obra prima e clássico da literatura científica popular, continua extremamente actual na forma como contextualiza e problematiza a inteligência humana como a última fronteira do nosso conhecimento.

Ademais, a sua reedição é oportuna nesta época em que “pseudociências irracionais” e diversos engodos tipo “banha-da-cobra" e "elixires da juventude” têm ganho espaço e privilégio nalguns meios de comunicação social, tirando partido da iliteracia científica que grassa de forma indiferenciada e sem qualquer respeito pela inteligência dos cidadãos. A sua leitura, ou releitura, permitirá ao leitor fortalecer o espírito crítico e adquirir ferramentas para desbravar os terrenos férteis do conhecimento com a ajuda da inteligência cativante e contagiosa de Carl Sagan.

domingo, 18 de dezembro de 2011

A VIRGEM E O COELHO

Crónica publicada no "Diário de Coimbra".

A Virgem e o Coelho” ("Madonna del Coniglio", no italiano original), é um óleo sobre tela do pintor italiano Tiziano Vecellio (1473? – 1590) que pode ser actualmente apreciado no museu do Louvre, em Paris. Tiziano é um dos principais representantes da escola veneziana do Renascimento Europeu, e este seu quadro referencia a pureza da fertilidade e da concepção imaculada de Maria, representada pela alvura, símbolo de pureza, do coelho enquanto espécie associada à fertilidade. Nesta pintura renascentista, Maria recebe de Catarina de Alexandria o menino Jesus. Este contempla um coelho branco bem seguro pela mão esquerda de sua mãe imaculada. As mãos de Maria fazem a interligação entre o menino Jesus e a pureza representada pelo coelho branco.

Como veremos mais à frente, há razões para uma intencionalidade para este simbolismo do coelho com a pureza e com a concepção sem pecado. Neste contexto, pode dizer-se que a obra faz uma alusão ao mistério da incarnação e da imaculada concepção de Maria, numa interpretação de Tiziano do culto mariano e dos novos evangelhos bíblicos. Mas note-se também na presença de um cesto semiaberto com fruta, uma maçã, numa alusão ao pecado original relatado nos Velhos testamentos.

Esta obra “A Virgem e o Coelho” contém ainda informação insuspeita sobre da evolução da humanidade na sua relação com o mundo. Muito para além do renascimento e vitória da luz sobre as trevas, ajustado pela cristandade ao solstício de inverno, apropriada e primeiramente celebrada nas festividades natalícias neste canto ocidental da humanidade, para celebrar o nascimento do menino Jesus.

Mais do que possamos extrair a partir dos estudos derivados da História da Arte, de outros contextos implícitos em segundos e outros planos, também eles férteis em informação histórica nas suas matrizes telúricas, bucólicas (a figura do pastor) mas também de urbanas modernidades, este quadro encerra em si uma informação que corrobora, imagine-se, conhecimento recente provindo da genética e genómica modernas: o da domesticação do coelho!

E porquê? Porque é uma das primeiras obras de arte conhecidas em que um coelho branco é representado em contacto directo com uma figura humana, mesmo sendo a de Maria, mãe de Jesus.

Saliento: coelho branco e não cinzento que é a cor do bravo, endémico e nativo.

Por outras palavras, este quadro indica-nos que, pelo menos em 1530, o coelho já tinha sido domesticado. Embora caçado desde tempos imemoriais pelo Homem, caçador-recolector, para fonte de carne e pele, a domesticação do coelho selvagem terá ocorrido não há mais de 1500 anos. Esta informação ressalta dos estudos de divergência entre os genomas das variadíssimas espécies de coelhos domesticados hoje conhecidas e do seu “primo” selvagem.

Estudos efectuados nos últimos anos pelo biólogo e geneticista português Miguel Carneiro (e seus colaboradores), investigador no Campus Agrário de Vairão do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos, mostram que o coelho europeu (Oryctolagus cuniculus) é o antepassado comum de todos os actuais coelhos domésticos. Curiosamente, esta espécie é nativa da Península Ibérica onde duas subespécies divergiram há cerca de 1,8 milhões de anos, sendo muito bem distinguíveis geneticamente: a O. c. algirus, ainda existente no sudoeste da península, principalmente em Portugal, e a O. c. cuniculus presente no noroeste da Ibéria e também no sul da França. Os trabalhos de referência estão publicados nas revistas Molecular Biology and Evolution (2011, 28(6):1801-1816) Genetics (2009, 181:593-606) e Evolution (2010, 64: 3443-3460), entre outras.

Há muitas evidências históricas de uma farta utilização de coelhos durante a ocupação da Península Ibérica pelo Império Romano. De facto, no século I a.C. os Romanos referiam-se à Hispânia como a terra dos coelhos. Cercados de coelhos terão sido utilizados para amplificar a sua reprodução e satisfazer a procura da carne de coelho, mas sem que uma deliberada reprodução selectiva de certas características tenha sido efectuada pelos Romanos ou povos ocupados, pelo que os investigadores excluem a ocorrência de uma efectiva domesticação do coelho durante esse período.

Um outro registo histórico, bem documentado (ver referências nos artigos atrás citados), surge aos investigadores como testemunho de uma domesticação intencional do coelho ancestral, com uma forte pressão de selecção artificial para fixar características de interesse, como seja a docilidade de trato ou a cor da pelagem. Esta selecção parece ter-se iniciado, ou pelo menos intensificado, a partir do século VI d.C. em Mosteiros do Sul de França, propulsionada por um decreto do Papa Gregório I (c. 504 – 12 de Março 604), também conhecido como S. Gregório Magno, em que é reconhecida a pureza carnal dos coelhos recém-nascidos! Diga-se, por oportunidade musical, mesmo que aqui dissonante, que Gregório I foi responsável pela divulgação do tipo de música que hoje designamos por gregoriana.


Segundo o referido édito papal, os coelhos recém-nascidos não eram considerados carnais pelo que poderiam ser consumidos durante a quaresma sem que daí adviesse pecado para aqueles que os consumissem! Eis uma forte razão para os manter em cativeiro, para os domesticar. Há registos da troca de coelhos no ano de 1194 entre mosteiros do centro da Europa e do Sul de França, o que mostra que a sua domesticação era comum já no primeiro milénio d.C.

A natureza não carnal dos coelhos recém-nascidos, sugerindo uma concepção sem pecado, encontra assim eco na associação do coelho branco do quadro de Tiziano ligado à concepção imaculada do menino Jesus por Maria, nascimento celebrado nesta quadra natalícia pela cristandade.

António Piedade
Ciência na Imprensa Regional – Ciência Viva