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quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Asimov: centenário da escrita e leitura compulsivas

[O JL de 26 de agosto de 2020, traz artigos meus que vou aqui colocar sobre os vários centenários de autores de ficção científica. Falo de vários autores (aproveito para corrigir algumas gralhas), nascidos em 1920, que transbordaram, ou estão ligados, a a este universo.O Jornal recomenda, entretanto, várias obras dos autores publicadas recemente. Além destes trabalhos e de outros artigos, notas e sugestões, o JL tem entrevistas a Ondjaki e João Alvim, discute as feiras do livro de Lisboa e Porto, o teatro, a fotografia e outros assuntos. Boas leituras!]

Isaac Asimov, nome inglês de Isaak Yudavich Azimov, nasceu na Rússia, antigo União Soviética, a dois de janeiro de 1920, segundo o próprio, e morreu em Brooklyn a 6 de abril de 1992. Os dados parecem estar na Wikipédia, mas olhemos para eles com mais atenção.

Isaac descreve numa sua autobiografia desde que nasceu até aos anos 1950, publicada em 1979, que queria inicialmente ser médico e que se formou em ciências com um major em química, em 1939. Que fez um mestrado em química, insistindo muito com os professores, nomeadamente com Urey, prémio Nobel em 1934. Refere que adorava a química mas que pensava ganhar a vida a escrever. Embora, por essa altura, muitos manuscritos seus fossem rejeitados. A guerra apanhou-o e foi para a Marinha e só se doutorou em 1948. Ao mesmo tempo que fazia um pós-doc, concorria para vários lugares e foi sendo recusado. Acabou num inesperado lugar de professor de bioquímica numa escola médica de Boston, ele que desistiu de ser médico! Hoje, muitas pessoas acham que ele era bioquímico e de facto foi (mas antes foi químico). Fez alguma investigação e ensinou esta matéria. Mas o que gostava mais, diz, era de ensinar, escrever e divulgar. É engraçado que o seu primeiro livro famoso tenha surgido quando conseguiu esse lugar e na contracapa apareça a sua afiliação, o que o faz pensar em demissão. Diz-lhe o presidente da escola que se o livro era bom a escola não se importava de ficar associada a ele.

Muitos professores ensinam aquilo que não aprenderam, como é óbvio. Tiveram de estudar. As pessoas podem tornar-se especialistas se estudarem a sério. Lavoisier não era formado em química, mas sim em direito. Quando as coisas correm mal gostamos de dizer que as pessoas eram de outra área. Thomas Midgley Jr., ligado à gasolina com chumbo e os CFC, formou-se em mecânica e só depois obteve um doutoramento em química. Dirac era formado em engenharia antes de tornar o génio matemático e físico que conhecemos. Em Portugal atualmente (não vou referir nomes) torcem o nariz às pessoas que ensinam uma coisa e tiveram formação inicial noutra. São raros os que têm lugares fora do sua área inicial. Gostamos de referir o percurso, por exemplo, de Bento de Jesus Caraça, mas quando as coisas correm mal lembramo-nos da formação inicial...

Gosto especialmente do conto de Asimov sobre a galinha dos ovos de ouro (Mistérios, Vega, 1990). É a mesma história, mas travestida de ciência e tecnologia. Está muito bem feita porque as pessoas quase acreditam. A bioquímica é razoável, assim como a física nuclear. Mas nunca vimos uma galinha dos ovos de ouro e o investigador, levando-a para o laboratório, desmontando-a, mata-a e acaba com os ovos de ouro.

São também muito famosos os seus livros de contos sobre robôs. Mais ainda as suas leis da robótica que como é sabido têm mais de 70 anos. Hoje em dia, tempo da inteligência artificial (AI), de Internet das coisas (IoT), de e Big Data e comunicação permanente, presentes de forma ubíqua, em particular nos telemóveis, lembramo-nos por vezes que muitas das atividades decididas pelos computadores e feitas por máquinas. Os pilotos automáticos deram lugar às aterragens conduzidas por máquinas. Os carros autónomos comunicam como se fosse telepatia entre condutores gentis. As profissões e atividades transformam-se de forma imprevisível. Claro que temos as distopias do controlo como o 1984 e o Admirável Mundo Novo, mas não era isso que referia.

Referia-me ao conto do robô que aprendeu a mentir. Esse conto é admirável por si só e, na minha opinião, não precisa de sobrenatural. O robô lê pensamentos, ninguém sabe como, mas não era necessário explicitar que ele lia mesmo pensamentos. Ler pensamentos é interpretar os pensamentos, pensar o que os outros pensam. E as máquinas podem fazer isso muito bem. Podem aprender a perceber os sentimentos e agir em conformidade. Podem aprender a identificar padrões melhor que os humanos. Voltando atrás, um robô aprende a perceber o que as pessoas querem ouvir, mas ele dá também conta que de isso é muito complexo. Então pede romances e livros humanos, que segundo ele, seriam muito mais complexos do que os livros de mecânica quântica. O robot começa a perceber que a psicóloga de robôs de meia idade está a apaixonada, que um cientista quer o lugar do outro, e diz-lhes o que eles querem ouvir. Assim, temos uma psicóloga que se arranja e pinta e um cientista que é arrogante com o chefe que se vai demitir, o que surpreende por os robot nunca mentirem. Confrontado com a contradição, o robô não a consegue resolver e autodestrói-se. Hoje não seria assim com a lógica difusa, por exemplo.


Isaac Asimov morreu relativamente novo (pelos padrões de hoje), com 72 anos, e só começou a publicar regularmente depois dos 30 anos. Mais de quatrocentos dos seus cerca de quinhentos livros foram publicados depois dos cinquenta anos. Tem uma produtividade média de onze livros por ano e atingirá a sua produtividade máxima aos 69 anos com quase quarenta livros. A escola estava tão contente por ter esse autor entre os seus académicos que não lhe dava aulas regulares.

Em oposição, António Nobre só publicou um livro. Harper Lee também o queria fazer, mas descobriram um livro dela depois de morta (é muito perigoso estar morto).

Outro livro que acaba por conter todos os estilos e preocupações de Asimov é o Planeta dos deuses (Livros do Brasil, 1980) de 1972 publicado na coleção Argonauta. Na Terra, passado um século, em 2070, houve uma grande crise (não sabemos qual) e a população passa de seis para dois mil milhões, havendo uma colónia na Lua. Entretanto, descobriram um bomba de energia, chamada “bomba eletrónica” baseada na estabilidade inesperado do inexistente tungsténio 186. Esta bomba era conduzida por para-universo de leis diferentes que usava a segunda lei da termodinâmica para obter energia nos dois universos. Parecia violar aquela lei, mas lançando os problemas no outro universo mutuamente parecia não violar. Há obviamente vários problemas e contradições na ideia, mas parece plausível como toda a boa ficção. Mas os dois universo convergem para ter as mesmas leis e no final morrerão. Esperava-se que passado muito tempo. Os cientistas que duvidam são renegados e postos na prateleira. Há aqui um vislumbre de meio académico tacanho mas muito estilizado. O capítulo acaba (aliás todo o livro se baseia nesta citação) referido uma peça de Schiller, “mesmo os deuses são impotentes perante a estupidez.” Devemos notar que Asimov fez muitos guias, desde Shakespeare à medicina, passando pela Bíblia e era (a contragosto diz-se) presidente de uma das associação de sobredotados mais conhecida.

No segundo capítulo aparecem os “deuses”, extraterrestres avançados e muito diferentes. A ficção científica clássica - derivada da fantasia - em toda a sua glória. Duros e flexíveis, racionais e sensitivos, tríades cuja fusão é dificultada pelas variações das leis.  Finalmente temos um capítulo passado na Lua que tem um sincrotrão e pessoas que tendo nascido lá não têm músculos e ossos adaptados à gravidade da terra (este tema é tratado também por Robert Heinlein) que nunca teve um bomba eletrónica. Foi aí que aparecem a notícia da bomba contrária mas fica em aberto o que se passará a seguir. 

Este é grande mote da ficção científica, da literatura e da vida. Não sabermos o que se passará a seguir.

terça-feira, 22 de abril de 2014

NÃO ESPALHE ESTA MENSAGEM

Excelente artigo, do jornalista Ricardo Nabais na última edição do Sol, para o qual prestei algumas declarações.




Imagine que recebe o seguinte email: «Laranja (ou Vitamina C) + Marisco, Nunca! (veneno fatal produzido no organismo…)». O que faz? a) interrompe tudo o que está a fazer e vai até à marisqueira mais próxima; b) comparece nas urgências do hospital mais próximo, em agonia, a pedir uma lavagem ao estômago; c) vai imediatamente a um notário lavrar o seu testamento.

Se escolheu as respostas b) e c) e reencaminhou o email para a maior parte dos seus amigos e conhecidos, em pânico, pode fundar uma nova igreja, pois acredita em tudo. Se os seus amigos e conhecidos tiverem a mesma reacção, parabéns, a sua igreja terá muitos seguidores.

Mas se escolheu a opção a) está no bom caminho. Será só ao paladar que laranja e marisco não combinam. De resto, ninguém encontrou uma relação tóxica ou perversa entre os dois ingredientes. E a saúde pública – felizmente – não faz os seus alertas assim, de email em email, propagando pânico sem fundamentação. 

Se, ainda assim, acredita nesta tese, basta ler as primeiras linhas daquela mensagem –  «Em Taiwan, uma mulher morreu de repente com sinais de hemorragia em seus ouvidos, nariz, boca e olhos. Depois de uma autópsia preliminar, foi diagnosticado como ‘causa mortis’ envenenamento por arsénico. Mas qual foi a origem do arsénico?». 

HENRIQUE RAPOSO E A NEGAÇÃO DO AQUECIMENTO GLOBAL

Como a ignorância aliada à arrogância vai desembocar na negação do aquecimento global. Gostava de dizer que este texto do Henrique Raposo me surpreende. Mas não. Pelo menos dá para pôr em perspectiva os seus outros textos. Afinal, se escreve isto sobre um assunto acerca do qual existe um consenso científico avassalador, podemos inferir a seriedade com que fundamenta as suas habituais opiniões políticas. 

Henrique Raposo, face ao trabalho voluntário de centenas de cientistas de todo o mundo que revêem todo a ciência publicada acerca de alterações climáticas, num processo transparente e sujeito a revisão pelos pares, o que tem para contrapor? Histórias sobre erupções vulcânicas na Idade Média e considerações chico-espertas, como esta:
se o "homem industrial" é o responsável pelas mudanças climáticas, por que razão o clima mudou tanto antes do advento da revolução industrial?
Vamos rever: Henrique Raposo pensa que é visionário e que viu o que os cientistas climáticas não foram capazes de vislumbrar nos dados das amostras de gelo com 800 mil anos à frente dos seus narizes: que o clima tem uma variabilidade natural. Brilhante. Não tínhamos pensado nisso. Boa. Obrigado. Será que Henrique Raposo não compreende que, apesar do variabilidade natural do clima, as actividades humanas provocaram mudanças que não são devidas a essa variabilidade natural? Henrique Raposo pensa, seriamente, que os cientistas não pensaram nisso? Estavam distraídos a olhar para um panda gigante a jogar à macaca com um koala?

Henrique Raposo comete ainda um erro primário de lógica. Que é mais ou menos assim: se as laranjas são frutos, então como podemos ter fruta sem laranjeiras? Raposo infere que para a actual ciência climática ser válida, toda a variabilidade do clima tem que ser devida à actividade humana. E isso é uma falácia. O clima tem variabilidade natural e, para além disso, há as alterações causadas pelo homem. As laranjas são frutos, mas também há pêras e maçãs.

O consenso científico acerca das alterações climáticas é avassalador. A historiadora de ciência Naomi Oreskes, fez uma análise de todos os artigos científicos publicados entre 1993 e 2003 e chegou à conclusão que nenhum (vou repetir: NENHUM) contrariava a ideia de que o clima está a ser alterado por causa das actividades humanas. 
Desde então, o mesmo têm mostrado os sucessivos relatórios do Painel Internacional das Nações Unidas para as Alterações Climáticas, nomeadamente o quinto relatório, publicado este ano. A posição de Henrique Raposo é a velha corrente TTB (Tá Tudo bem). Podemos continuar a passear nos nossos carros a gasóleo com mais de uma tonelada, a comer toda a carne de vaca que conseguirmos (o metano dos intestinos das vacas também é um gás de efeito de estufa). Não é preciso mudar nada, Tá Tudo Bem, os cientistas são parvos.

Claro que Raposo também pode supor, e aparentemente é o que faz, que há uma conspiração dos poderosos ecologistas contra as indefesas companhias petrolíferas, no sentido de falsificar o conhecimento acerca de alterações climáticas.

Mais uma vez, nada que surpreenda.

terça-feira, 28 de maio de 2013

CIÊNCIA NA IMPRENSA REGIONAL – CIÊNCIA VIVA

Resumo da minha comunicação ontem, dia 27 de Maio, no primeiro Congresso de Comunicação de Ciência em Portugal - SciCom Pt 2013

Créditos da foto: Roberto Keller-Perez


Resultados do programa Ciência na Imprensa Regional – Ciência Viva


O programa «Ciência na Imprensa Regional» é uma iniciativa da Ciência Viva - Agência Nacional para a Cultura Científica eTecnológica, com início em Agosto de 2011. O principal objectivo desta iniciativa é a divulgação da ciência e da tecnologia ao maior número de jornais regionais em todo o país, disponibilizando conteúdos C&T de grande actualidade e interesse para o comum das pessoas.

Até ao momento o programa conta com 60 jornais aderentes (continente e ilhas), 47 colaboradores regulares (cientistas, comunicadores, divulgadores e jornalistas de ciência), cerca de 350 conteúdos produzidos e disponibilizados em quase 1000 publicações.

Um número significativo de jornais aderentes ao programa já criaram uma secção permanente de ciência. Também o volume de artigos publicados atingiu recentemente o número de 90 por mês, numa média de 3 artigos por dia.

Os jornais com edição on line activa (em número de 21) apresentam hoje uma grande fidelização ao programa, publicando regularmente os conteúdos disponibilizados. Mais de 70% dos artigos publicados on line apresentam um número de visualizações superiores a 1000, tendo alguns artigos atingido mais de 8000 visualizações. Registam-se ainda centenas de partilhas efectuadas pelos leitores pelas redes sociais facebook, google + e twitter, sendo que as preferências vão para os artigos que abordam assuntos ligados à astronomia e à saúde.

Conclui-se que os objectivos inicialmente propostos para o programa foram atingidos e nalguns aspectos superados. Os jornais aderentes ao programa publicam hoje imediata e regularmente a quase totalidade dos conteúdos disponibilizados no portal. Portanto, conclui-se ainda que a não publicação de conteúdos de ciência na imprensa regional não se deve a falta de interesse de editores, jornalistas ou leitores mas, simplesmente, à pouca disponibilidade desses conteúdos e à falta de jornalistas especializados nesses meios.

Por fim, consideramos que este programa está ainda em fase piloto e que os seus resultados devem ser analisados de diferentes ângulos tendo em conta o panorama actual da imprensa regional, quer ao nível dos editores quer dos jornalistas e seus públicos. Como potenciar resultados? Como envolver cada vez mais investigadores? Haverá uma abordagem mais regional da ciência? Estas são apenas algumas das questões em aberto neste projecto com resultados muito positivos, mas que devem ser potenciados.

António Piedade

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Um pro­blema clás­sico

A acção profissional, independentemente da área em que a consideremos, não pode deixar de ser influenciada pelos modos de pensar sociais, para os quais ela própria também contribui.

Isto a propósito de texto antes publicado, onde questiono a atitude de alguns profissionais de alguns meios de comunicação jornalística (sublinho alguns para evitar a tentação incorrecta de generalização).

Efectivamente, numa sociedade bastante desorientada em relação ao valor da privacidade e da intimidade, que conduta devem ter os profissionais? Assumir esse valor e pautar a sua conduta por ele, arriscando não cumprir o que lhe é exigido em termos institucionais ou de empresa ou relativizá-lo e alienar as barreiras que impõe, cumprindo índices de produtividade ou outra coisa qualquer que pareça brilhar?

Trata-se de um dilema que nem sempre se afigura com contornos bem definidos e muito menos remete para vias de solução inequívocas.

José Quei­rós, provedor do leitor do jornal Público, num artigo intitulado Fronteiras éticas na busca da verdade, no passado dia 12 de Agosto, analisa em detalhe este dilema a propósito de um certo trabalho jornalístico em que se dão a conhecer dados pessoais dispensando-se a autorização de quem se falava.
"A deon­to­lo­gia jor­na­lís­tica não é uma ciên­cia exacta. Por trás de uma deci­são edi­to­rial con­tro­versa esconde-se fre­quen­te­mente um con­flito entre valo­res con­tra­di­tó­rios, para o qual as nor­mas da ética pro­fis­si­o­nal não são uma bús­sola à prova de erro. Pon­de­rar os valo­res em con­fronto numa situ­a­ção desse tipo e deci­dir quais devem pre­va­le­cer é a prova mais difí­cil a que estão sujei­tos os res­pon­sá­veis de um órgão de comu­ni­ca­ção. É na his­tó­ria des­sas esco­lhas que prin­ci­pal­mente se funda a repu­ta­ção de um jor­nal de qua­li­dade e referência (...).
A imprensa de qua­li­dade é fre­quen­te­mente con­fron­tada com um pro­blema clás­sico no que res­peita à divul­ga­ção de infor­ma­ções que repre­sen­ta uma inva­são inde­vida da vida pri­vada (...). Se recusa fazê-lo, mas vê esses dados (ver­da­dei­ros ou fal­sos, não importa) serem lan­ça­dos com estrondo no espaço público pelos media de voca­ção tablóide, passa a ter de esco­lher entre man­ter o silên­cio ini­cial ou quebrá-lo face a uma medi­a­ti­za­ção que pode ela mesma, por vezes, con­fe­rir inte­resse público a um tema que à par­tida não o tinha.
Este é um terreno escorregadio, onde convirá evitar cedências fáceis, mas em que deverão prevalecer as noções de serviço público e de esclarecimento dos factos (...).
Neste caso, julgo que o Público fez bem em noticiar a diligência judicial que permitiu repor a verdade face a suspeitas de crime lançadas por outros órgãos de comunicação, que fez bem em querer. aprofundar o tema (...). Resta saber se, para o con­se­guir, tinha o direito de reve­lar, sem auto­ri­za­ção espe­cí­fica do pró­prio, dados da vida pri­vada e da his­tó­ria clí­nica de um cida­dão cujo nome e local de habi­ta­ção são reve­la­dos.
Não é por acaso que se lê no esta­tuto edi­to­rial do Público que este jor­nal “reco­nhece como seu único limite o espaço pri­vado dos cida­dãos” e que as suas nor­mas con­si­de­ram “vio­la­ção da pri­va­ci­dade” a “divul­ga­ção de fac­tos da vida pes­soal” e a “explo­ra­ção de (…) dra­mas de natu­reza pes­soal ou fami­liar”, e esta­be­le­cem como regra que “o direito à pri­va­ci­dade sobre­leva o direito e o dever de infor­mar” (...).
Estes são, de facto, valo­res fun­da­men­tais."

quarta-feira, 7 de março de 2012

Os raios X há 95 anos


Crónica a propósito do 95º aniversário do jornal "O Despertar":

Nesta edição, de 2 de Março, que celebra 95 anos de existência de “O Despertar” quero deixar, para além dos votos de que conte muitos mais, o meu agradecimento pelo papel que, nos últimos anos, este jornal tem tido na divulgação de ciência.

De facto, este periódico tem vindo a dedicar espaço regular à ciência e, entre crónicas e notícias, tem contribuído para uma maior proximidade entre a cultura científica e os seus leitores.

Há 95 anos, ou seja em 1917, quando foi lançada a primeira edição desse jornal, a radiação electromagnética genericamente designada por raios X foi notícia.

Os raios X, assim baptizados em 1895 por Wilhelm Röntgen (1845-1923) por desconhecer a sua natureza, compreendem, em rigor, a radiação electromagnética de comprimentos de onda entre 0,005 e 1 nm (1 nm é igual à milionésima parte do milímetro). Desde a sua descoberta acidental que as suas aplicações nunca mais pararam de ser úteis, quer seja para compreender a íntima natureza da matéria (como é que os átomos que formam os cristais, as proteínas, o ADN, etc., estão dispostos no espaço a três dimensões) quer seja no dia-a-dia da medicina, primeiro através das radiografias, depois através das tomografias axiais computadorizadas (TAC), entre outras aplicações no estudo do Universo.

Dizia eu que, em 1917, os raios X foram notícia pelo facto de ter sido atribuído o Prémio Nobel da Física ao inglês Charles Barkla (1877-1944) pelo seu trabalho sobre a difração dos raios X por diversos elementos. Talvez o “O Despertar” tenha publicado essa notícia.

Curiosamente, um outro assunto relacionado com os raios X, nesse ano de 1917, não foi notícia nem nesse, nem em qualquer outro jornal generalista. Se tivesse sido noticiado, o conhecimento que ficou desconhecido teria poupado muito trabalho aos físicos que desenvolveram, no início dos anos 60 do século XX, os princípios do que viria mais tarde a ser designado por TAC. Estes cientistas desconheciam, aparentemente, que um matemático nascido em Děčín (hoje cidade checa), de seu nome Johann Radon (1887-1956), tinha criado, já em 1917, toda a matemática necessária para derivar dados tridimensionais a partir da combinação de um determinado número de feixes de raios X. Ou seja, Radon tinha mostrado como obter uma função a partir de uma série infinita de projecções, o que ficou conhecido por transformada de Randon na área da geometria integral.

Hoje, 95 anos depois e em relação com uma não notícia, endosso os meus parabéns a este jornal conimbricense.

António Piedade

segunda-feira, 5 de março de 2012

Comunicar Ciência com os Media

Informação recebida do Instituto de Investigação Interdisiciplinar da Universidade de Coimbra:

Encontra-se disponível na página do IIIUC as inscrições para o 1º Workshop “Comunicar Ciência com os Media”, que terá lugar no próximo dia 28 de Março.

O objetivo do workshop é tornar os investigadores mais eficientes na comunicação (escrita e falada) com o público e com os media; dar a conhecer aos investigadores o funcionamento dos media de forma a desdramatizar a interação entre os investigadores e jornalistas e destina-se a Investigadores doutorados.

Inscrição: http://www.uc.pt/iii/10anos/comunicarCiencia

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

UM ANO DE C


A revista C de notícias do Centro fez um ano. Eis a minha crónica publicada no número de hoje:

Aprendi a ler a soletrar os títulos dos jornais e revistas: lembro-me, em petiz, em Lisboa de O Século e de O Século Ilustrado. Ganhei o vício da leitura diária da imprensa. Mudado de Lisboa para Coimbra comecei a ler além da imprensa nacional a imprensa local, que na altura pouco mais era do que o Diário de Coimbra. Pese embora a forte tradição daquele diário foi favoravelmente que recebi o aparecimento do jornal As Beiras, da propriedade de António Abrantes, e dele me fiz assinante. De vez em quando espreitava outros jornais regionais como O Campeão das Províncias (um título singular!) e O Despertar. No primeiro cheguei a colaborar ocasionalmente e talvez por isso ficou uma simpatia que me leva ainda hoje a segui-lo regularmente.

A imprensa regional tem um papel insubstituível pela sua proximidade às populações. Sempre assim foi e sempre assim será, apesar das transformações em curso nos jornais e revistas. O que se passa perto de nos interessa-nos mais do que se passa longe: por exemplo, um desastre de trânsito com um morto numa rua em que passamos todos os dias diz-nos muito mais do que uma catástrofe com dezenas de mortos em Pequim. A imprensa regional ajuda-nos, sobretudo, a construir uma identidade. Ajuda-nos a construir uma cidade e uma região.

Coimbra, pese embora o seu fundo enraizamento na história, tem ainda problemas de relação consigo própria e com o país. É de certo modo a capital do Centro, uma região antes e ainda hoje chamada de Beiras, mas assistiu ao desenvolvimento de cidades como Aveiro, Leiria e Viseu, que competem com Coimbra em várias áreas. E tem uma relação difícil com Lisboa. Mas o que une essas cidades será decerto maior do que as separam, estando todas elas próximas entre si e afastadas da capital de um país macrocêntrico.

Foi, por isso, com gosto que vi nascer, pelas mãos de António Abrantes e de uma equipa provinda em parte de As Beiras, um novo magazine devotado a todo a região Centro. Pese embora a ambiguidade do seu título, C (ver aqui o sítio), julgo que esta letra remeterá mais para o Centro do que para a sua capital tradicional, Coimbra. Não só o conceito como o formato eram novos. Passou um ano. Muitos parabéns e os votos de que faca muitos mais!

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

ALVES REDOL (1911 - 2011), CENTENÁRIO DO NASCIMENTO


Informação recebida da Hemeroteca de Lisboa:

Completaram-se em 2011 cem anos sobre a data de nascimento de Alves Redol. Trata-se de um dos mais importantes escritores portugueses do século XX, cujas obras ultrapassam o período temporal das suas vidas e que continuam tão vivas como quando surgiram. Por isso continuam as reedições dos seus livros, e alguns deles fazem até parte dos currículos escolares. Recordemos os romances Gaibéus e Barranco de Cegos, o livro para a juventude Constantino, Guardador de Vacas e de Sonhos, e os livros para as crianças A vida da Sementinha e Uma Flor Chamada Maria, entre outras obras não menos importantes.

Associando-se a estas comemorações, a Hemeroteca Municipal de Lisboa colocou na sua biblioteca digital um jornal pouco conhecido do grande público: o Goal. Semanário Ribatejano de Desporto, Literatura e Arte, dirigido por Alves Redol, e publicado em Vila Franca de Xira, em 1933 (acessível aqui). Divulgamos agora mais um conjunto de conteúdos digitais relacionados com autor (biografia, entrevistas, contribuições na imprensa, obras de e sobre Alves Redol existentes na Rede Municipal de Bibliotecas de Lisboa, para além de uma exposição virtual cedida pelo Museu do Neo-Realismo) - um contributo para revisitarmos a vida e obra de um melhores escritores do neo-realismo português, aqui.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

HACKS: SHODDY PRESS COVERAGE OF SCIENCE.


Destaque à coluna semanal "What's New" de Robert Park:

"The Leveson Inquiry into the standards and ethics of the UK press, headed by Lord Justice Brian Leveson, was prompted by the News of the World phone-hacking scandal. The seamy British tabloid was the top-selling English-language newspaper in the world when owner Rupert Murdoch had to close it five months ago after its news-collection methods were exposed. The intense public interest in the sex and drug culture of celebrities is certainly troubling, but the same journalistic standards applied to science news may be more dangerous. In 1998, for example, Andrew Wakefield, an obscure British gastroenterologist, set off a worldwide vaccination panic when he falsely identified the common MMR vaccination as a cause of autism. Widely reported by the press, Wakefield's irresponsible assertion led to a precipitous decline in vaccination rate and a corresponding 14-year rise in measles cases. An editorial in the current issue of Nature (8 Dec 2011) urges scientists to "fight back against agenda-driven reporting of science." Who could disagree? It is, after all, a fight against ignorance."

Robert Park

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

CIÊNCIA NA IMPRENSA LOCAL E REGIONAL



Lembro-me bem da ligação afectiva que o meu pai, enquanto emigrante, mantinha com o jornal regional “A Voz de Loulé”, que assinava e que o informava das notícias da sua terra natal, a milhares de quilómetros de distância.

Assim como o meu pai, o mesmo aconteceu e acontece com milhões de portugueses aquém e além terras lusitanas. Para além de muitos outros aspectos, esta ligação afectiva a inúmeros jornais locais e regionais amenizou a saudade, fortaleceu a esperança do regresso, mantém elos nativos, é por ventura para muitos o primeiro contacto com as notícias escritas.

Disse inúmeros. Mas sabemos quantos são. Segundo um relatório sobre a “Imprensa Local e Regional em Portugal” (obter aqui), efectuado pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), e no ano de 2009, estavam recenseadas “728 publicações periódicas de âmbito local e regional nos 18 distritos de Portugal Continental e nas duas Regiões Autónomas”. Desses, apenas 18 títulos têm periodicidade diária (2,5 %). A periodicidade predominante é a mensal (37,5%), seguida da semanal (29,4 %) e por último os quinzenário/bimensais (23,9%).

Ressalve-se que o número de publicações periódicas registadas na ERC, em 2009 , era muito superior àquele utilizado para o estudo mencionado. De facto, e ainda segundo o mesmo relatório, o número registado era igual a 2942, apresentando diversos perfis e características que saiam fora do âmbito do estudo. Refira-se, a propósito, que este documento é uma ferramenta útil para compreender a realidade da imprensa local e regional portuguesa no século XXI.

Por outro lado, o documento mencionado baseou-se também no estudo Bareme Imprensa Regional, efectuado pela Marktest. Segundo este, 49,7 por cento dos portugueses tem por hábito ler jornais regionais, sendo os de periodicidade semanal os mais lidos, com 28,3 por cento do total. O número foi, para mim, surpreendente. Mais de cinco milhões de portugueses lêem, folheiam jornais locais e regionais.

(Curiosamente, o distrito de Castelo Branco, cuja cidade vai receber o 29º Encontro da Associação Juvenil de Ciência (ver notícia relacionada aqui) é o que apresentava um maior número de leitores de jornais regionais: 71,3 % da população!)

A notícia da actualidade local e regional é do maior interesse dos cidadãos que assim melhor se vêm identificados com ela, sendo este, entre outros aspectos, um elemento propiciador para uma melhor democracia pluralista, para uma maior consciência de cidadania participativa.

Aqueles números indicam-me também que a imprensa local e regional é de extrema importância para os hábitos de leitura dos portugueses, muitos deles com um grau de literacia muito baixa, num país que conquistou na última década um número significativo de doutorados. Será que estes últimos também lêem jornais locais e regionais?

E surge então a pergunta que me move: no universo de periódicos estudados, qual a percentagem de conteúdos sobre ciência e tecnologia em relação ao total de notícias publicadas? Qual a proximidade que 49,7 % dos portugueses tem com notícias, conteúdos sobre, ou relacionados, com ciência e tecnologia?

A resposta: o espaço dedicado a temáticas relacionadas com ciência e tecnologia foi inferior a 0,7% em 2009, no universo composto por toda a temática publicada no universo da imprensa local e regional estudada, incluindo todas as temáticas de manchete, chamadas na primeira página, textos e/ou crónicas de informação e/ou opinião. Este valor sobe para 0,9% quando a temática saúde é incorporada na análise.

(De momento, não tenho dados sobre a imprensa dita nacional)

Ou seja, a imprensa local e regional é muito insatisfatória no que respeita a aproximar os seus leitores com a ciência e tecnologia.

O que é que isto significa? Que os leitores não têm interesse, curiosidade, pela ciência?

Estudos recentes mostram que não há desinteresse dos “públicos portugueses” por assuntos relacionados com o conhecimento científico e tecnológico (e.g., A.F. Costa, P. Ávila e S. Mateus, Públicos da Ciência em Portugal, ed. Gradiva, 2002).

Numa primeira formulação, pode dizer-se que a insignificante publicação pode encontrar explicação, mesmo que parcial, na dificuldade da imprensa regional em ter acesso a conteúdos sobre ciência e tecnologia dedicados e ajustados às suas especificidades. Se esta for uma pergunta, temos de verificar o que aconteceria se o acesso a conteúdos, atractivos mas cientificamente rigorosos, de boa escrita, em bom português, fosse, de alguma forma, facilitado.

Em parte, a experiência editorial dedicada à ciência, de que a Gradiva é, e foi, pioneira, responde positivamente: se houver conteúdos de qualidade disponíveis em português, há público para eles, os projectos são viáveis, atraem publicidade e outras formas de financiamento para a inserção desses mesmos conteúdos.

O que acontecerá na imprensa local e regional?

António Piedade

terça-feira, 14 de junho de 2011

Mais de 1100 cientistas temem cortes no investimento

Reproduzo aqui a notícia do Expresso de sexta-feira passada sobre o Manifesto para a Ciência portuguesa, já assinado por mais de 1100 cientistas:

Manifesto pela Ciência em Portugal é um movimento inédito que alerta para o papel central da investigação

Começou a circular precisamente há uma semana, e na hora de fecho desta edição mais de 1100 cientistas, empresários e gestores ligados ao sector já tinham assinado o Manifesto pela Ciência em Portugal, incluindo cerca de 200 cientistas com cargos de direção e chefia nos centros de investigação onde trabalham, em Portugal ou no estrangeiro.

Os mais influentes investigadores portugueses, muitos com carreiras internacionais brilhantes e vencedores de prémios de grande prestígio, defendem que a investigação científica "é um motor de inovação indispensável para ultrapassar a atual crise económica" e que a ciência portuguesa, "por ser potenciadora de mais-valias praticamente inesgotáveis, deve constituir um desígnio nacional suprapartidário e uma área de investimento prioritário baseado numa estratégia claramente definida a longo prazo".

A iniciativa deste numeroso grupo surge numa altura em que pairam ameaças sérias de cortes no investimento público e privado em infraestruturas científicas e recursos humanos, por causa da crise e das dificuldades orçamentais. Está é uma das principais preocupações. "Ao longo de sucessivos governos, Portugal investiu na criação de uma comunidade científica internacionalmente reconhecida e competitiva", recorda o manifesto. Este investimento permitiu a criação de empresas de base tecnológica e científica "que geraram emprego, exportaram conhecimento, estão representadas em vários países e atraíram substancial investimento internacional".

Cientistas de todas as áreas do conhecimento Mónica Bettencourt Dias, investigadora principal do Instituto Gulbenkian da Ciência (IGC), e uma das porta-vozes do manifesto, sublinha que este "surgiu, antes das eleições legislativas, de um movimento espontâneo, com cientistas de todas as tendências políticas, áreas do conhecimento e gerações, de norte a sul do país e do estrangeiro". E José Pereira Leal, também investigador principal do IGC, explica que "não se planeia ciência em ciclos de quatro anos" como os ciclos eleitorais, porque há investimentos "que só têm retorno depois de 10 a 20 anos". Por isso, "uma estratégia de longo prazo é fundamental".

O presidente e fundador da empresa farmacêutica Alfama, Nuno Arantes Oliveira, que é também um dos promotores do manifesto, assinala que "é difícil encontrar noutro sector da sociedade portuguesa um movimento tão consensual como este, que envolve não apenas cientistas mas pessoas ligadas à ciência". O empresário reconhece que a ciência feita em Portugal já alcançou bons resultados, mas insiste que "ainda há muito que fazer", sendo necessário o apoio continuado a um sector "que tem um papel central na competitividade do país".

Mónica Bettencourt Dias
Investigadora principal do Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC) e porta-voz do Manifesto pela Ciência

- Que impacto esperam deste manifesto e da sua divulgação?

- Esperamos que haja uma mobilização da sociedade em volta desta causa, que é muito importante para o progresso do país, e esperamos começar um movimento de diálogo com os governantes no sentido de valorizar e de pôr em prática soluções de sustentabilidade para a ciência portuguesa.

- Se houvesse um recuo no investimento em infraestruturas científicas e na formação de recursos humanos, o que poderia acontecer em Portugal?

- A melhor analogia é um avião a descolar, que é a situação em que a ciência portuguesa se encontra. Ela desenvolveu-se imenso nos últimos anos porque houve um investimento muito grande, conseguiu atrair pessoas que podiam estar a trabalhar em qualquer parte do mundo mas que querem fazer ciência em Portugal. E há que garantir que este avião descola, para a ciência ter um impacto positivo na sociedade portuguesa, se não o avião pode cair. Mas temos confiança que quem vai governar o nosso país, em conjunto com a comunidade científica, consiga encontrar uma solução que garanta a sustentabilidade da ciência nacional.

- Como avaliam a sensibilidade dos decisores portugueses para a importância estratégica da ciência?

- Em geral, a ciência tem sido uma prioridade para Portugal, tanto que tem havido um investimento grande e desenvolveu-se muito nos últimos anos. Por isso, acreditamos que a maior parte dos governantes achará que vale a pena manter esta aposta.

VIRGÍLIO AZEVEDO

terça-feira, 7 de junho de 2011

FICÇÃO: Portugal em 2111


A revista Pública desafiou-me para um exercício de ficção, para distrair das eleições no dia das mesmas, imaginar como comunicaremos daqui a 100 anos. Receio que a distracção não fosse muito necessária, dado o elevado (e já tradicional) nível de abstenção e o excelente dia de praia. Aqui fica o texto escrito pela jornalista Natália Faria com base nos meus contributos. As ilustrações da imagem são de João Fazenda.

Telemóveis de origem biológica

Em 2111, segundo o bioquímico David Marçal, o entendimento cabal das vias metabólicas — a rede intrincada de transformacões que ocorrem nos organismos vivos — permite o surgimento de uma engenharia própria e o desenvolvimento de infra-estruturas de comunicacão globais que são gigantescas redes de células vivas. Neste cenário, a informacão transmite-se sob a forma de impulsos eléctricos, alimentadas por estações fotossintéticas. “Os utilizadores usam a rede através de dispositivos orgânicos, que nalguns casos interagem com os próprios impulsos eléctricos do cérebro. Estes interfaces telepáticos são cada vez mais populares.” Tanto podem ser usados para controlar um veículo (que também será feito em materiais biológicos) como para comunicar com outras pessoas. E, lembra Marçal, “como o modo de transmitir a informacão é o mesmo tipo de impulsos eléctricos que há entre células nervosas, é possível transmitir ideias e emoções, para além de conteúdos verbais ou visuais”. No fundo, “é como se essa rede de comunicação fosse uma extensão do sistema nervoso do próprio indivíduo, funcionando segundo os mesmos princípios e permitindo transmitir ideias e emocões de um cérebro para o outro”. Mesmo se uma das pessoas está em Portugal e outra na Austrália.

Os dispositivos que desempenham as funções dos telemóveis, das televisões e dos computadores terão uma origem biológica, ou seja, serão feitos de tecidos “produzidos por microrganismos ou plantas com as características físicas adequadas à sua função (por exemplo dureza)”, o que significa que “são biodegradáveis e regeneráveis”. Ou seja, a era dos resíduos de plástico do tempo do petróleo há muito que ficou para trás.

terça-feira, 17 de maio de 2011

A CIÊNCIA COM AS ARTES E AS LETRAS


Texto que saiu no último número do jornal cultural "As Artes entre as Letras", que acaba de fazer dois anos:

Tenho o gosto de colaborar, desde o primeiro número, no jornal As Artes Entre as Letras, em boa hora aparecido na cidade do Porto há 50 números, por feliz iniciativa da sua directora, Nassalete Miranda, que competentemente congregou e dinamizou uma pleiade de colaboradores (sinto-me um anão ao lado dos gigantes da cultura nacional). Dada a periodicidade quinzenal, o jornal apareceu há 25 meses atrás, que é como quem diz há cerca de dois anos. Cresceu e apareceu, promete crescer e aparecer mais, muitos parabéns!

Uma vez por mês, tenho enviado uma crónica onde falo de livros, em geral de divulgação de ciência, mas por vezes de outras áreas, incluindo a literatura. Julgo que a ciência fica bem ao lado das artes e das letras pois ela é afinal, de uma forma cada vez mais reconhecida entre nós, uma forma de cultura. Como outros colaboradores, venho do suplemento, com grande tradição entre nós, Das Artes e das Letras, que durante anos a fio saiu semanalmente com o Primeiro de Janeiro, sob a direcção sempre extraordinária de Nassalete Miranda. Já nessa publicação a ciência ficava bem com as artes e as letras. E já aí era permitido a um cientista que se alargasse sobre os temas do seu agrado. O ecletismo cultural e a liberdade intelectual sempre foram marcas distintivas tanto do Das Artes e das Letras como do As Artes Entre as Letras.

Que tem a ciência a ver com as artes e as letras? Pois tem muito mais do que o vulgo reconhece. Tanto a ciência como as artes e as letras são expressões elevadas da criatividade humana. Tanto umas como outras enriquecem quem as dá e quem as recebe. Se a ciência procura essa coisa tão sedutora mas ao mesmo tempo tão esquiva a que, à falta de melhor termo, chamamos verdade, as artes e as letras procuram essa outra coisa, à qual podemos dar os mesmos atributos, que dá pelo nome de beleza. O mais curioso é que verdade e beleza surgem, regra geral, intimamente entrelaçadas. Muitos cientistas usam até a beleza como critério na selecção da verdade. E muitos artistas não fogem à verdade, apesar de todo o fingimento de que são capazes. Como que justificando uns e outros, o poeta inglês John Keats, no seu poema Ode a uma Urna Grega, foi ao ponto de fundir os dois conceitos: “A beleza é a verdade, a verdade é a beleza, e isto é tudo/ o que sabes na Terra e tudo o que precisas de saber.”

Para procurar tanto a verdade como a beleza, existe um instrumento comum: a imaginação. A diferença é que a imaginação em demanda da verdade tem de estar limitada pelo nosso conhecimento do mundo, ao passo que a imaginação em demanda da beleza pode voar sem essa constrangedora peia.

Porquê a verdade? Porquê a beleza? Porque são luzes por onde nos podemos guiar. O gigante da ciência Albert Einstein resumiu assim a sua biografia, um ano antes de morrer, não se esquecendo de antepor a dimensão ética às dimensões estética e epistemológica: “Os ideais que iluminaram o meu caminho foram a bondade, a beleza e a verdade.”

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

GRANDES ERROS: A FRAUDE DA HOMEOPATIA


Há um vício de alguns órgãos de comunicação social de quererem, perante problemas que em boa verdade são incontroversos, levantar a controvérsia dando igual espaço às pessoas "prós" e aos "contras". Criam um dilema, que parece ter dois lados em paridade, quando em rigor ele não existe. Aconteceu mais uma vez com a "Visão" desta semana, em que a revista se interroga na capa: "Homeopatia: cura ou fraude?" e dá espaço substancial aos "dois lados", num artigo de Luís Ribeiro. Não sei o que está fazer a interrogação no final. Sabe-se há muito que a homeopatia é uma completa fraude. Se algumas pessoas que tomam produtos homeopáticos vêm a curar-se por uma ou outra razão, não será seguramente devido à acção directa desses produtos.

Veja-se apenas a explicação pseudo-científica da homeopatia dada na revista por um seu defensor (Francisco Patrício, presidente da Sociedade Homeopática de Portugal):

"A homeopatia baseia-se na energia, na radiação. A informação passa através de fotões. Da mesma forma que acontece com as pessoas: os olhos vêem e o cérebro regista essas imagens".

Quando o jornalista responde que a água não tem olhos e nem cérebro, o homeopata não se fica:

"Sim, mas o princípio é o mesmo. No caso da água, as vibrações da substância que por lá passou vinculam a informação, através de um efeito químico".

Estas frases não fazem sentido nenhum. Não há nenhum efeito físico, nem sequer químico. Porque não usar o Ano Internacional da Química para desmascarar as virtudes desta alquimia moderna que usa fraseologia aparentemente científica para veicular os maiores dislates?

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Os conteúdos online dos jornais portugueses devem ser pagos pelo leitor?


A minha contribuição para o think thank Contraditório, acerca da tema:

Acho que a questão que está subjacente a este debate é qual é o futuro do jornalismo. É evidente que ninguém irá pagar por conteúdos que possa ter gratuitamente ou que não tenham um valor objectivo para si. E mesmo que a diferença exista, entre o pago e o gratuito, ela pode não ser suficiente.

Veja-se o caso da enciclopédia Britannica (em vários volumes em papel), que tinha sem duvida muito mais informação do que a Encarta da Microsoft (em CD-ROM), e que custava a mesma coisa do que um computador pessoal (que vinha já com a Encarta). A Britannica, como a conhecíamos, desapareceu, a Encarta também desapareceu e hoje temos a wikipedia.

Uma possibilidade - levantada há mais de dez anos quando as tecnologias de informação estavam mesmo na moda e todos achavam que iam ficar ricos com os banners publicitários na Internet (afinal ficou só o google) - é que os mediadores entre os produtores de conteúdos e o público passarão a ser plataformas tecnologias sistemáticas de agregação de conteúdos, passando cada consumidor a ser o seu próprio editor. Isto dita o fim da industria discográfica, das distribuidoras de filmes, dos jornais, etc. Os leitores poderiam escolher subscrever um determinado jornalista (que já não trabalha num jornal) pagando por isso algo que apenas paga o jornalista e uma comissão à plataforma agregadora (o Google News ou a Apple Store, por exemplo), que é quem passa a ter o poder.

Não sei se isto é bom, nem se é o que vai acontecer. Mas não posso deixar de pensar que o futuro das notícias não seja de editores e projectos editoriais, mas de programadores e plataformas tecnológicas. E que o consumidor irá continuar a pagar: seja com um valor monetário (apenas para os jornalistas e autores que escolher e não para um pacote editorial) ou seja com os seus dados pessoais e preferências de consumo.

O caso da wikileaks também merece reflexão. Por um lado ilustra bem como a programação pode esvaziar em grande medida o poder dos editores e jornalistas passando-o para os agregadores sistemáticos de conteúdos. Por outro lado, com desenvolvimentos recentes, a propria wilileaks a fazer acordos com jornais de vários países, a edição e análise jornalista sai revalorizada.

Penso que a transferência do modelo de negócio dos jornais em papel para o on-line é improvável. Surgirá outro modelo de negócio, que poderá ter diferenças significativas em relação ao que é o jornalismo actual. Penso que haverá sempre algo parecido com jornalistas locais em Portugal, que podemos subscrever talvez através do iTunes, agora já não tenho a certeza quanto a jornais portugueses.

Público esclarece golpe publicitário mais deprimente do ano

O Público esclareceu a treta da notícia do dia mais deprimente do ano, publicada por vários jornais portugueses (entre os quais o Público) num texto assinado por Ana Gerschenfeld. Já era tempo!

O golpe publicitário mais deprimente do ano
Por Ana Gerschenfeld

Aqui vai a explicação do que está por detrás do chamado Blue Monday, com muitas aspas à mistura.

A dita “fórmula” foi oportunamente “inventada”, em 2005, por Cliff Arnall, na altura docente da Universidade de Cardiff, para uma campanha publicitária de uma agência de viagens entretanto encerrada, a Sky Travel. A ideia, da autoria de uma agência de comunicação empresarial, a Porter Novelli, era que um “cientista” desse o seu aval (mediante pagamento) à dita fórmula para fazer aumentar a venda de viagens para paragens menos deprimentes.

Já em Novembro de 2006, Ben Goldacre, do Guardian, escrevia nas páginas daquele jornal britânico acerca de Arnall: “É provavelmente o mais prodigioso de todos os produtores de ‘equações’ da treta.” E acrescentava que “as equações de Cliff Arnall são estúpidas e algumas até nem conseguem fazer sentido em termos matemáticos”.

Diga-se de passagem que o diário foi levado a publicar, na semana seguinte, uma declaração da Universidade de Cardiff a dizer que Arnall já não trabalhava naquela instituição desde Fevereiro de 2006.

O próprio Arnall não nega a sua impostura. Num outro artigo publicado por Goldacre, pouco antes do Natal de 2006 – onde o autor chegava ao ponto de apelidar Arnall de “prostituta empresarial” (“corporate whore”) –, o jornalista contava que o “cientista” lhe tinha enviado um email a propósito da sua crónica anterior, informando-o de que tinha acabado de receber um cheque do grande fabricante de gelados Wall’s. A pedido da Wall’s, Arnall tinha inventado uma outra “fórmula”, desta vez para determinar o dia mais feliz do ano (que, já agora, calha supostamente em finais de Junho, na abertura, por assim dizer, da temporada dos gelados...).
O Público ainda reconheceu o erro:
PÚBLICO ERROU
Assim como vários jornais em todo o mundo, o PÚBLICO online noticiou, esta segunda-feira, a fórmula matemática através da qual o investigador da Universidade de Cardiff, Cliff Arnall identificava o dia 24 de Janeiro como o dia mais deprimente do ano. Baseamo-nos nas informações publicadas no Daily Telegraph que não referia o estudo como uma campanha publicitária. Na realidade, como a notícia acima mostra trata-se de um golpe publicitário que a imprensa insiste em publicar todos os anos desde 2005. Aos leitores, as nossas desculpas.
Assumir e corrigir um erro é sempre de elogiar. Esperemos que sirva para que 2011 tenha sido o último ano do dia mais deprimente em Portugal.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Dia da notícia da treta mais deprimente do ano


Hoje é o dia da habitual notícia de ciência da treta do início do ano, segundo a qual estamos no dia mais deprimente do ano!! Iupie, a partir daqui só pode melhorar. i, Publico, Radio Renascença e TVNet (pelo menos) deram esta notícia recorrente, a par dos seus embasbacados congéneres internacionais, que lhe chamam "blue monday". Esta é a notícia da treta mais deprimente do ano, segundo a fórmula (que eu inventei agora):

N/C + J/S

Em que N é o número de anos em que esta notícia vem sendo repetida nos media, C a credibilidade da afirmação, J o número de jornalistas que transcreve este press release e S o sentido crítico dos mesmos. É que não é preciso ter muita cultura científica para olhar para a fórmula apresentada pelo alegado psicólogo investigador (aliás não muito diferente da que eu inventei) e para a sua conclusão fabulosa, para torcer o nariz. Essa torcidela deveria desencadear uma pequena investigação, procurar referências na literatura ou, na ausência de tempo, pura e simplesmente abandoná-la. Convenhamos que não é informação com que não possamos viver (talvez seja útil para escolher o dia mais adequado para cortar os pulsos ou saltar da janela). Mas vivemos a ditatura do engraçadismo e uma coisa destas está de acordo com o regime.

Será que é para o ano que algum destes órgãos de informação averigua a credibilidade desta coisa antes de transcrever o press release?

Correcção: Um leitor atento fez-me chegar esta correcção à minha formula, que passo a transcrever e subscrever:

Como a credibilidade tende para 0, o primeiro termo tende para infinito e logo o segundo termo é desnecessário.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Adeus Carlos!


Estive com ele há poucos meses numa entrevista que realizou com o Prof. Veiga Simão na Biblioteca Joanina (não sei se a RTP já a transmitiu). Na ocasião, mostrou ao ex-ministro da Educação uma foto que retratava os dois, um jovem repórter e o outro jovem ministro, numa entrevista ao DN, no início dos anos 70, quando a reforma hoje conhecida pelo nome do ministro foi anunciada. Voltei a estar com ele há poucas semanas numa entrevista que me fez na Biblioteca Municipal de Oeiras, a propósito das comemorações da República. No jantar que houve antes fez mais perguntas do que na entrevista, pois interessava-se por tudo e mais alguma coisa. Tanto numa ocasião como noutra, estava vivíssimo, dono de uma excelente memória e senhor de uma grande energia. As histórias que contava eram sempre engraçadas porque eram contadas por ele. Desde há horas que já não está entre nós. Vamos ter saudades de um jornalista singular, de um grande amigo da cultura. Adeus, Carlos Pinto Coelho!