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sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Uma biografia de António Arnaut

Foi lançado este ano o livro "António Arnaut - Biografia", da autoria dos jornalistas Luís Godinho e Ana Luísa Delgado. 

António Arnaut (1936-2018) foi um advogado português que nasceu em Penela e viveu a maior parte da sua vida em Coimbra. Teve uma relevante participação cívica e cultural no panorama nacional: do ponto de vista político, foi um dos fundadores do Partido Socialista, foi deputado, vice-presidente da Assembleia da República e Ministro dos Assuntos Sociais; ainda enquanto político, criou e defendeu o Serviço Nacional de Saúde (SNS); foi autor de dezenas de livros de poesia, ficção e ensaios; pertenceu à maçonaria, uma instituição filantrópica, tendo exercido o cargo de Grão-Mestre do GOL. 

Sempre que possível, utilizava o espaço mediático para defender o SNS, a ética, a justiça e a igualdade, assim como para criticar a corrupção e o neoliberalismo.

O livro pode ser divido em oito partes: do capítulo 1 ao 6 é apresentada a história da criação e vicissitudes do SNS, o capítulo 7 aborda os aspetos principais da sua vida, os capítulos 8 a 10 são dedicados à sua experiência militar, o capítulo 11 centra-se na sua relação com a religião e a perda da fé, nos capítulos 12 a 15 é dada a conhecer a sua vida política, os capítulos 16 a 18 são dedicados à sua atividade literária, os capítulos 19 a 21 abordam a sua preocupação com a ética e a sua intervenção cívica e social, o capítulo 22, o último, encerra com o reconhecimento público que mereceu. 


sábado, 28 de março de 2015

O fumo faz mal porque tem mais de 70 compostos cancerígenos e não porque tem mais de 7000 químicos!

 
Fumar faz mal à saúde de quem fuma e de quem está perto. Por isso a campanha iniciada recentemente pela Direcção Geral de Saúde é muito meritória e oportuna. Infelizmente, nalguns dos cartazes e anúncios é usada uma argumentação falaciosa que contém ideias preconceituosas sobre uma entidade mítica que é senso comum actualmente chamar químicos.

O fumo é mau para a saúde porque contém mais de 70 químicos comprovadamente cancerígenos e não porque tem mais de 7000 químicos!

As laranjas, as mangas ou as ervilhas que comemos têm tal como o tabaco centenas ou milhares de químicos, a maior parte de origem natural, mas estes, felizmente, não são na generalidade cancerígenos nem tóxicos nem nocivos, embora alguns desses compostos naturais possam causar alergias, intolerâncias, ou ser, nalguns casos, suspeitos de serem cancerígenos. Para além disso, não os consumimos completamente queimados, nem inalamos o fumo dessa combustão. Se o fizessemos também seríamos expostos a milhares de compostos cancerígenos, neste caso provenientes do fumo das laranjas, mangas ou ervilhas!

Todos os materiais naturais contêm milhares de compostos e o facto de serem naturais não os torna melhores ou piores: os compostos mais venenosos e perigosos são naturais. O mais tóxico de todos é a toxina do botulismo, usado no conhecido botox. O fumo resultante da combustão de produtos naturais é um produto natural, mas infelizmente, no fumo estão presentes muitos compostos cancerígenos.   

O tabaco e o seu fumo têm sido - como é bem sabido - dos materiais mais estudados; por isso conhecemos os tais milhares de químicos. Mas volto a dizer, o problema não é serem químicos, mas sim serem químicos cancerígenos e nocivos que resultam da combustão do tabaco e da presença da nicotina e de outros alcalóides!

A niticotina, por exemplo, que muitos acreditam ser um composto que não causa danos, sendo, supostamente, responsável apenas pelo vício, é um insecticida natural que embora não nos mate provoca, com o seu consumo continuado, alterações fisiológicas e mais danos do que se pensa. E a nicotina queimada no tabaco, ou acidificada de alguma forma, vai originar derivados ácidos que são ainda mais nocivos e reconhecidos como cancerígenos. Para além disso, o fumo do tabaco ou da combustão de qualquer outra planta tem milhares de compostos poliaromáticos (designados muitas vezes como alcatrão), os quais são extremanente cancerígenos.São esses compostos que se acumulam nos dedos, móveis e paredes das casas com a característica cor castanha. Sim, são muito cancerígenos, mas não apenas porque são químicos, mas sim porque se confirmou experimentalamente que provocam tumores, porque se ligam ao DNA e provocam um elevado número de mutações que eventualmente podem conduzir ao aparecimento de cancro passados anos.

Conheci várias pessoas que morreram com um tipo de cancro do pulmão que é específico do fumador e uma delas era apenas fumadora passiva. O fumo faz mal e provavelmente ainda fará pior às crianças por estarem em desenvolvimento. Por isso apoio a campanha, mas não posso aceitar a sua argumentação falaciosa e preconceituosa.

Assim, peço aos autores da campanha que mudem o texto para "muitos dos mais de 70 compostos comprovadamente cancerígenos presentes no fumo do tabaco" e ficará correcto, mantendo-se a importante mensagem.

Em qualquer dos casos recomenda-se o abandono do fumo pois, como é bem conhecido, é caro e nocivo. E se não se abandonar o fumo, pelo menos que não se fume junto de outras pessoas.

Mas também não se recomendam as máquinas de fumar. Estas podem não gerar fumo cancerígeno no sentido clássico, mas a nicotina e os seus derivados, assim como outros compostos que lá sejam colocados (e não nos dizem, em geral, quais são), também podem causar problemas!

[corrigi a expressão vaga "milhares de compostos cancerígenos" para um valor mais correcto e comprovável "mais de setenta compostos comprovadamente cancerígenos"; Mais informação aqui, aqui e aqui.]

quinta-feira, 3 de julho de 2014

VACINAR É PRECISO


A vacinação é um acto de saúde pública que deve envolver todos os indivíduos e que trouxe uma inestimável qualidade de vida a todos, aumentando significativamente a esperança de vida à nascença e diminuindo consideravelmente a mortalidade infantil. Permitiu (e permite) que várias doenças severas e que podem levar à morte tenham sido praticamente erradicadas. De facto, nos países que possuem um programa de vacinação activo, generalizado e disponível a toda a população, doenças como sarampo, a rubéola, meningites, etc., foram praticamente relegadas para os livros de texto.

Mas, apesar deste avanço civilizacional na saúde pública, continuar a vacinar é uma medida preventiva que é preciso manter. Aliás, como se tem verificado em várias comunidades que optam por não vacinar os seus filhos, as doenças voltam passado pouco tempo e as mortes acontecem. Há vários casos de crianças não vacinadas que morreram devido a um sarampo evitável.

Neste contexto surge a reportagem que a RTP1 passou no telejornal do dia 29 de Junho. Intitulada “Pais optam por não vacinar os filhos”, a reportagem mostrou o testemunho de três famílias que rejeitam a vacinação dos seus filhos com o argumento de que as vacinas já não são necessárias no mundo em que vivemos (nada mais errado) e que os efeitos secundários causados por elas são superiores aos eventuais benefícios.

Na reportagem, na tentativa de estabelecer um contraditório, é dada voz a um único porta-voz da necessidade e importância da vacinação. No peso final, a reportagem privilegia uma mensagem: no mundo em que vivemos, em que já não há doenças, não é necessário vacinar as nossas crianças, para além do que as vacinas são perigosas para a nossa saúde. Esta mensagem faz perigar a saúde pública e estranha-se que a RTP seja difusora desta mensagem!

É que os vírus que causam as doenças continuam a existir. A vacinação colectiva não os elimina, antes protege os indivíduos contra o seu efeito nefasto e reduz grandemente a sua circulação. Uma criança não vacinada pode adoecer severamente, desnecessariamente, e passa também a ser um veículo de disseminação dos vírus, podendo contagiar outras crianças, potenciando assim o alastramento da doença. Põe em risco a sua vida e a dos outros.

Em relação ao problema dos eventuais efeitos secundários causados pelas vacinas e de estas poderem ser prejudiciais à saúde ou mesmo potenciar doenças, refiram-se, por exemplo três artigos científicos agora publicados na revista Pediatrics que indicam a não existência de uma relação de causa efeito neste aspecto.

Um dos estudos científicos, que vai ser publicado no número de Agosto daquela revista, demonstra que as vacinas infantis para o sarampo, papeira ou rubéola não causam autismo (uma ideia antes propagada por algumas pessoas), e conclui ainda que são raros os efeitos secundários graves associados à vacinação das crianças. Este trabalho ampliou o estudo de várias vacinas que não foram analisadas anteriormente, nomeadamente as da hepatite A, meningites [Haemophilus influenzae type b (Hib)], poliomielite, rotavírus e vacina pneumocócica conjugada. Para todos os casos não foram encontrados efeitos secundários potenciadores de doenças.

No número actual (Julho) da revista Pediatrics, são publicados outros dois artigos: um sobre a importância para a saúde pública da vacinação contra os rotavírus (vírus responsáveis por diarreias graves em lactentes e crianças jovens) e outro sobre os grandes efeitos benéficos verificados com a implementação da vacina contra a varicela. No estudo sobre a vacina contra o rotavírus os investigadores concluem que a vacinação, para além de reduzir substancialmente o número de hospitilzações, confere protecção ao longo da infância, e também confere benefícios indirectos às crianças não vacinadas.

Em Portugal, desde a constituição de 1976, deixou de ser obrigatório a vacinação. Somos livres para escolher entre beneficiar do conhecimento científico que reduz a incidência de várias doenças através da vacinação, ou colocar as nossas crianças sujeitas à doença e, eventualmente, à morte. Para além de que uma criança não vacinada pode colocar em perigo a saúde dos outros.

A não vacinação é uma atitude egoísta e ignorante. Vacinar é um acto de inteligência, de responsabilidade social e de cidadania.

António Piedade

segunda-feira, 8 de julho de 2013

DOCUMENTÁRIO: A HISTÓRIA DE UM ERRO


Estreou ontem no Teatro Municipal de Vila do Conde, no âmbito do 21.º Festival de Curtas, o documentário “A história de um erro”. Nas palavras da autora, Joana Barros, publicadas no sítio da Associação Viver a Ciência e aqui reproduzidas com a devida vénia:

"Este documentário revela alguns dos complexos aspectos individuais e sociais associados à Polineuropatia Amiloidótica Familiar Tipo I (PAF), também conhecida como "Doença dos Pezinhos", procurando aliar a transmissão de conhecimento científico à dimensão histórica e ao valor humano desse conhecimento.

A PAF é uma doença hereditária particularmente prevalente no norte de Portugal e não tem cura. Cada portador tem 50% de probabilidade de transmitir a doença a cada um dos seus descendentes. Os sintomas manifestam-se geralmente na terceira década da vida e sem uma intervenção médica atempada, ela própria acarretando os seus riscos, os pacientes perdem progressiva e irreversivelmente a sua autonomia. Se deixada a seguir o seu curso natural, a PAF conduz à morte em dez anos depois de se manifestar.

Este era o destino inelutável de qualquer doente com PAF até há vinte anos atrás, mas importantes conquistas científicas e médicas vieram alterar radicalmente as suas perspectivas. Desde Corino de Andrade que descreveu a doença pela primeira vez, passando por Pedro Pinho Costa e Maria João Saraiva que destrinçaram as suas bases moleculares até Filipa Carvalho e Alberto Barros que desenvolveram um método de diagnóstico pré-implantação que permite aos portadores de PAF ter filhos sem o gene mutado."

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

DIA MUNDIAL DAS DOENÇAS RARAS

Celebra-se hoje, dia 28 de Fevereiro, o Dia Mundial das Doenças Raras


Um espirro anuncia a constipação. Também sintoma de uma gripe que por vezes se diz comum. Estas constipações e gripes são aflições nada raras ao longo de todo o ano e a maior parte de nós já com elas conviveu pelo menos uma vez na história das nossas vidas.

Contrariamente as estas e outras doenças sazonais, “passageiras” e comuns à maioria dos seres humanos, há um conjunto de doenças genéticas que acompanham e afectam gravemente a vida dos seus portadores: as doenças raras. Este ano o Dia Mundial das Doenças Raras celebra-se a 28 de Fevereiro.

Passou mais de uma década depois da descodificação do Genoma Humano. O mapeamento completo dos cerca de 20 mil genes humanos foi apresentado em conferência de imprensa a nível mundial a 14 de Abril de 2003. Um ano antes, foi fundada em Portugal a Associação Nacional de Deficiências Mentais e Raras - “Raríssimas”, mais precisamente a 12 de Abril de 2002.

Na União Europeia, consideram-se doenças raras as que têm uma prevalência inferior a 5 em 10000 pessoas. São conhecidas cerca de sete mil doenças raras, mas estima-se que existam mais, afectando, no seu conjunto até 6% da população, o que significa que atingem 40 milhões de pessoas na Europa e que existirão até 600 mil pessoas com estas patologias em Portugal. São doenças crónicas, graves e degenerativas que diminuem muito a qualidade de vida dos por elas afectados.

Uma lista de algumas doenças raras já diagnosticadas pode ser consultada aqui, por exemplo.

O mapeamento completo do Genoma Humano tem permitido compreender melhor os mecanismos moleculares que estão na origem de inúmeras doenças genéticas, muitas delas doenças raras, para as quais não se vislumbravam quaisquer curas e/ou tratamentos adequados antes do Projecto do Genoma Humano ter sido completado. Mas há ainda muito para fazer e compreender em cada ser humano com o seu específico fenótipo bioquímico.

O desenvolvimento de uma farmacogenómica dedicada à compreensão da base genética e metabólica das doenças, só possível depois do mapeamento do genoma e desenvolvimento e progressiva compreensão do proteoma e metaboloma humanos (entre outros "omas"), veio apresentar novos horizontes tecnicamente exequíveis para as doenças raras, para os metabolismos extremos e externos ao território clássico das ciências farmacêuticas.

Neste contexto, as doenças raras, também conhecidas por “doenças órfãs”, relegadas para os extremos das distribuições estatísticas gaussianas de susceptibilidade a doenças e interacções farmacológicas, ganharam novas e renovadas esperanças: a de ser possível antecipar o seu diagnóstico (inclusive pré-natal ou mesmo pré-concepcional) e eventualmente alterar radicalmente a história de vida de uma pessoa em particular; a de ser possível a compreensão do mecanismo molecular da doença e assim identificar alvos para o desenvolvimento de promissoras estratégias farmacológicas; o desenvolvimento de novos fármacos desenhados e ajustados à especificidade de um indivíduo em particular, eventualmente menos dispendiosos para todos os agentes envolvidos.

A atenção e os esforços sociais em relação aos portadores de uma dada doença designada por rara são sinónimos dos avanços civilizacionais em que a humanidade é substância, em que cada um tem direito a ter a melhor qualidade de vida com dignidade independente das suas especificidades e diferenças.

Aqueles que noutras eras não conseguiriam sobreviver à nascença, têm hoje a possibilidade de partilhar a sua individualidade com a sociedade de que também fazem parte, e enriquecer, com a sua raridade, nós todos, comuns mortais.

António Piedade

Legenda Figura: A Progéria tem origem em um único e pequeno defeito no código genético do bebé, mas tem efeitos terríveis para a vida da criança que geralmente não chega aos 13 anos de idade.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Charlatanice em forma de lei

Com a devida vénia, transcrevo aqui o artigo de opinião de Vasco Barreto, Investigador do Instituto Gulbenkian de Ciência, publicado no Jornal I e também reproduzido no blogue Malomil.

Com o fim da II Grande Guerra e o abandono das bases militares montadas em ilhas do Pacífico, os nativos construíram simulacros de aparelhos de rádio e torres de controlo de tráfego aéreo, passando a imitar o comportamento dos militares, na esperança de que esses rituais trouxessem de volta os aviões e a riqueza material a que se tinham entretanto habituado.

Tal como estas tribos pré-industrializadas, também o nosso parlamento parece ter confundido a essência com o acessório, ao aprovar uma proposta de lei para regulamentar a homeopatia, mas não o fez com a convicção das gentes do Pacífico, tratou-se apenas da derradeira instrumentalização conseguida por um lobby competente. Não há evidência que sustente a homeopatia. Nem lógica: o típico medicamento homeopático é preparado segundo diluições seriadas tão extensas que qualquer eventual princípio activo está ausente na diluição final. Sem conseguirem curar pessoas, é notável o estatuto que os homeopatas têm conquistado pela aposta no acessório: os mais de 200 anos da prática como sinal de garantia, um conceito de “medicina personalizada” que dificulta o seu escrutínio pelos testes da medicina convencional, e institutos, revistas da especialidade e licenças para os seus praticantes. A OMS, que os homeopatas gostam de citar de forma parcial, alertou para os perigos do uso da homeopatia no tratamento da SIDA, da tuberculose, da malária, da gripe e da diarreia infantil. Por outras palavras, diz-nos que não devemos brincar aos homeopatas com as doenças sérias. Mas o nosso parlamento desprezou a validação empírica das práticas médicas e incentivou o recurso a fantasias. Ninguém ficou muito incomodado, porque enquanto a medicina convencional não encontrar a cura para todos os males haverá sempre um filão de expectativas a explorar. Não se percebe é por que motivo, por intermédio do Estado, precisamos todos de ser cúmplices involuntários de uma vigarice. 

Vasco Barreto

Com está a gripe este ano?

Graças à monitorização participativa Gripenet, sabemos que estamos mais ou menos de gripe como estávamos há um ano, com tendência de subida.


A ideia de monitorizar a epidemia sazonal de gripe, utilizando a Internet e com base na participação voluntária dos cidadãos, nasceu na Holanda, em 2003. Tornou-se rapidamente num caso de sucesso de comunicação de ciência e de promoção da saúde. O projecto holandês, entretanto alargado à Bélgica, motivou investigadores do Instituto Gulbenkian de Ciência a encetar uma colaboração internacional que veio dar origem, em 2005, à Gripenet em Portugal.

A gripenet precisa de mais voluntários! Quem se quiser inscrever e reportar semanalmente os seus sintomas de gripe, pode faze-lo aqui.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

A MORTE DE JOSÉ




Crónica publicada primeiramente na imprensa regional.

José não teve tempo de se aperceber da sua “morte anunciada”.

Foi tudo tão súbito, como o sol que se eclipsa numa desatenção involuntária! Apesar de já não ser jovem adulto, aguardava-o ainda umas quatro décadas na esperança de vida para o seu género. Para a sua vida. Para construir memórias com os seus entes queridos,com os seus amigos e inimigos.


E num instante de três meses, um sinal fez-se num melanoma que invadiu o sistema linfático.Fulminantes, as metástases teceram a mortalha do seu leito de morte.

O que é que teria acontecido para que esta ultima estação tivesse chegado sem andorinhas,sem campos verdejantes. Não ter dado atenção àquele sinal que amanheceu na pele? Ter abusado daqueles cremes hidratantes, elixires rejuvenescedores que activam a circulação? Da exposição desdenhosa aos vapores químicos no laboratório? Ou das longas exposições a um Sol abrasador?

Um Calor corrosivo inundou o seu corpo, para depois esfriar sem consciência num último suspiro.

Há alguma impotência nos tratamentos de quimioterapia hoje disponíveis contra alguns melanomas,estes cancros da pele que nos veste, nos dá individualidade, nos protege de agentes patogénicos, da desidratação, das radiações solares nefastas que reescrevem o genoma, alterando as instruções genéticas, causando a produção de proteínas disfuncionais, vésperas de doenças, talvez cancerosas.

Um dos genes,entre outros, que se encontra “alterado” em células de muitos tipos de cancro, é o que codifica uma proteína importante no controlo da qualidade da duplicação do genoma aquando da divisão celular. O gene é o PT53, a proteína a p53 (p de proteína, com 53 kDa de peso molecular).

A p53 é uma “especialista”altamente eficaz em controlar a qualidade da cópia dos genes nos cromossomas a distribuir equitativamente pelas células filhas. Se “detecta” algo errado, uma letra fora do lugar ou ausente, espoleta uma série de acções moleculares que fazem parar a divisão celular. Eventualmente desencadeia um processo de morte celular programada (apoptose) para evitar que uma célula instável se desenvolva e possa evoluir para um estado tumoral ou canceroso.

Quando a p53não se encontra funcional por o gene que a codifica ter sido alterado, por exemplo por acção da radiação UV, a qualidade da duplicação genética fica perturbada e as células que resultam da divisão celular, necessária para a renovação dos tecidos, podem evoluir para um estado tumoral, podem ser o princípio bioquímico de um cancro.

Curiosamente,no caso dos melanócitos que se alteram cancerosamente pela pele fora, pelo corpo adentro, a p53 até está normalmente funcional. Contudo há outras proteínas que impedem que a p53 cumpra a sua função. Uma delas designa-se por Mdm4. Esta bloqueia a p53, e os genomas alterados são disseminados pelas células que se dividem desrespeitando a arquitectura e função do tecido em que estão.

Se se pudesse de alguma forma inibir a Mdm4, restaurar-se-ia a função da p53 e, pelo menos, poder-se-ia esperar que o cancro não progredisse tão rapidamente, dando tempo extra para uma intervenção terapêutica, mesmo que paliativa. Adiava-se a morte.

Foi isso mesmo que uma equipa internacional de investigadores liderados por Jean-Christophe Marine conseguiram, abrindo horizontes para o desenvolvimento de novas estratégias terapêuticas na luta contra os fulminantes melanomas. Num artigo agora publicado primeiramente on line na Nature Medicine no dia 22 de Julho, é apresentada não só a confirmação de que afinal a p53 tem um papel chave naformação de melanomas, que a Mdm4 é um bom alvo para o desenvolvimento de novas drogas para os combater, mas também confirmam a importância da combinação de terapias distintas, incluindo aquela que usa o inibidor, recentemente desenvolvido,para uma outra proteína, a B-Raf (codificada no oncogene BRAF) para uma maior eficácia no tratamento e, principalmente, para reduzir a alta tendência para ressurgimentos dos melanomas.

José já não vive para poder ainda ter uma réstia de esperança nestas novas descobertas. Tivesse ele dado conta do primeiro sinal…

Notar bem: Nesta estação balnear, não se exponha durante períodos prolongados ao sol, principalmente entre as 11h00 e as 16h00, mesmo que tenha aplicado um protector solar adequado ao seu tipo de pele. Não provoque o melanoma.

António Piedade
Ciência na Imprensa Regional

sexta-feira, 18 de maio de 2012

TRETAS ESTAMINAIS

A crioestaminal, uma empresa que se dedica à recolha e preservação de células do sangue do cordão umbilical, iniciou recentemente uma campanha de publicidade bastante reprovável:



Há utilidade reconhecida na preservação das células do sangue do cordão umbilical em bancos públicos, em que as células podem ser transplantadas para qualquer pessoa que delas necessite (não apenas o dador ou os seus familiares). Ao contrário da ideia que se pretende fazer passar no anúncio, e de um modo eticamente abjecto, a preservação de células do sangue do cordão umbilical para uso próprio é altamente controverso, com uma utilidade muito, mas mesmo muito, questionável. Em grande medida, é um exercício de pura futurologia médica, mais próximo da ficção científica do que da ciência.

É muito difícil estimar a probabilidade de uma criança necessitar das células do sangue do seu próprio cordão umbilical. Isto, porque muitas das potenciais aplicações ainda não existem. Mas é muito baixa. Qualquer coisa entre uma hipótese em 1000 e uma hipótese em 200000.

As recomendações da Academia Americana de Pediatria acerca deste assunto são estas:

1. As doações do sangue do cordão umbilical devem ser desencorajadas sempre que o sangue do cordão umbilical seja guardado exclusivamente para uso pessoal. Isto, porque muitas condições clínicas que poderiam ser tratadas com sangue do cordão umbilical já existem no sangue da criança. Os médicos devem estar conscientes de que os bancos de sangue do cordão umbilical privados fazem alegações não fundamentadas aos futuros pais, prometendo uma espécie de seguro para as crianças contra doenças graves no futuro.

2. Não sendo um procedimento habitual, a recolha de sangue do cordão umbilical para uso próprio, deve ser encorajada apenas quando se tem conhecimento da existência de um membro da família com uma condição clínica que possa potencialmente beneficiar com um transplante do sangue do cordão umbilical.

3. A doação de sangue do cordão umbilical deve ser encorajada quando se destinar a um banco para uso público.

4. Como não há dados científicos suficientes para justificar a preservação de sangue do cordão umbilical para auto-transplantes e é difícil fazer uma estimativa da necessidade desses transplantes, e tendo em conta  possibilidade do transplante a partir de dadores não familiares, a preservação privada do sangue do cordão  como um "seguro biológico" deve ser desencorajada.

Em Portugal, o que faz sentido é doar o sangue do cordão ao Lusocord, o banco público de células de sangue do cordão umbilical. É (relativamente) fácil, é barato (grátis) e pode ajudar milhões.

Infelizmente, o Lusocord está com dificuldades financeiras, o que é absurdo. Esperemos que os problemas sejam ultrapassados e que haja uma aposta do governo em manter e expandir esse serviço público. De qualquer forma, a eventual falta de capacidade do Lusocord não valida a Crioestaminal como alternativa. Quando uma coisa que serve para alguma coisa não está a funcionar, de nada adianta substituí-la por outra que não serve para nada.

Um nota final: o artigo científico citado no anúncio refere-se à probabilidade de transplantes de células estaminais hematopoéticas (presentes no sangue do cordão) ao longo da vida, mas de qualquer origem. Ou seja: não apenas as do sangue cordão umbilical para auto-transplante, mas também transplantes de terceiros, nomeadamente da medula óssea (que podem ser recolhidas ao longo da vida). Usar estes números para sustentar a possível necessidade de auto-transplante, como se isso fosse a única possibilidade, é pura e simplemente intelectualmente desonesto.


Para além disso, e segundo o estudo citado, a probabilidade de necessitar de um transplante de células estaminais hematopoéticas aumenta com a idade, sendo especialmente significativa depois dos 40. O anúncio, já que se baseia neste estudo, deveria ser protagonizado por um quarentão barrigudo e calvo.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Vitamina: um nome centenário (II)


Crónica publicada na Imprensa Regional:
(continuação)

O instinto de sobrevivência cedo deve ter apresentado aos nossos antepassados hominídeos, mamíferos, e anteriores ancestrais, que alimentos diferentes causam efeitos diversificados sobre o estado de saúde e alguns são mais necessários do que outros para não ficarmos doentes. Isto é, não ingerimos alimentos só para crescermos ou termos energia. Complementarmente, necessitamos de ingerir determinados alimentos para não ficarmos doentes, ou de acrescentar á nossa dieta alguns outros para recuperar o estado de saúde perdido. Mas a razão desta relação entre o estado de saúde ou de doença e a presença ou ausência de determinados alimentos na dieta manteve-se desconhecida ao saber humano durante milénios.

Uma primeira relação entre uma doença, o escorbuto, e falta ou ausência de frutos, principalmente citrinos e vegetais na alimentação, foi repetidamente relatada nos diários das longas viagens marítimas. No século XVIII, a marinha britânica passou a incluir citrinos e vegetais frescos (que reabastecia a cada aportagem) nas rações dos seus marinheiros para evitar que adoecessem com escorbuto.

Nos finais do século XIX, mais precisamente em 1897, o médico holandês Christiaan Eijkman (1858 – 1930) demonstrou uma relação causal entre outra doença, o beribéri, e casca dos grãos de arroz. A descoberta de Eijkman foi acidental, como tantas vezes acontece em ciência, apesar de se ter deslocado até á Indonésia exactamente para estudar aquela doença. Teve a perspicácia em relacionar os sintomas em alguns frangos usados no seu laboratório, aquando da alteração, temporária, da sua alimentação. Assim que a alimentação dos frangos doentes foi enriquecida com arroz integral estes melhoravam, e os sãos não adoeciam. Eijkman não identificou nenhum ingrediente responsável por esta relação causal, apesar de ter verificado que o mesmo efeito se verificava em humanos.


Através da privação de fracções e compostos isolados de determinados alimentos, na dieta de cobaias animais, os cientistas apertaram o cerco à natureza bioquímica do que evitava aquela e outras doenças.

Em 1906, o bioquímico inglês Frederick Hopkins (1861 – 1947) sugeriu que os alimentos, para além de proteínas, hidratos de carbono, gorduras, minerais e água, deveriam conter aquilo que denominou por “factores alimentares acessórios”, cuja presença era necessária para manter o estado de saúde.

Eijkman e Hopkins foram galardoados, em 1929, com o Prémio Nobel da Fisiologia e Medicina pelos seus trabalhos que conduziram outros à descoberta das vitaminas.

A identificação bioquímica do “factor alimentar acessório” presente na casca do arroz chegaria mais tarde quando, em 1911, o bioquímico Casimir Funk (1884 – 1967), polaco de nascimento, descobriu que o factor responsável pelo não desenvolvimento da doença beribéri era uma substância que apresentava uma função amina. Isto é, uma molécula que possuía um grupo bioquímico funcional amina (–NH2), composto por um átomo de azoto (N) e dois de hidrogénio (H), ligado a um outro determinado átomo de uma dada molécula presente na casca do arroz. Funk baptizou em 1912, há cem anos, este composto por vitamina (a partir da palavra latina “vita” (vida) e do sufixo amina do grupo bioquímico). Ou seja, o “factor acessório alimentar” de Hopkins era uma amina vital! Hoje sabemos que Funk descobriu a tiamima ou vitamina B1.


Em 1912, Hopkins e Funk postularam a “hipótese da deficiência vitamínica”, propondo que a ausência, num dado sistema orgânico, de quantidades suficientes de uma certa vitamina, poderia levar ao desenvolvimento de uma determinada doença.

O termo “vitamina” foi rapidamente generalizado a todos os “factores alimentares acessórios”. Hoje sabemos que a maior parte das vitaminas, entretanto identificadas e caracterizadas quimicamente, não possuem o grupo funcional amina na sua composição. Contudo, devido à generalização inicial do termo, ainda hoje nos referimos a todas essas substâncias por vitaminas.

António Piedade

Vitamina: um nome centenário (I)



Crónica publicada na Imprensa Regional:

Percorro o hipermercado em passo de passeio. Os meus olhos observam, sem muito esforço, as prateleiras repletas de embalagens. Embalagens contendo os mais variados produtos alimentares. Desde os “ovos da páscoa”, da Páscoa que aí está a chegar, redentora, passando pelos vegetais embalados prontos a consumir sem lavagens prévias, pelas carnes já temperadas e prontas a cozinhar sem demora, aos enlatados representativos dos reinos vegetal e animal (e mineral se tivermos em conta a própria embalagem metálica). Caixas contendo cereais modelados nas formas mais engraçadas e imaginativas para alegrar os pequenos-almoços e lanches da pequenada, mas também para ajustar as silhuetas das beldades ao imaginário colectivo da beleza e formusura. Embalagens plásticas contendo aperitivos, guloseimas, pastilhas elásticas para esticar o tempo ou abreviar a espera.

Ao longo das prateleiras variam os géneros, mas todos estão regulamentarmente rotulados, com as datas de embalagem e de fim de presença na prateleira, a história codificada em linhas negras mais ou menos finas e justapostas, e literatura resumida sobre alguns compostos nutrientes inclusos. Muitas vezes, alguns destes ganham destaque na embalagem em frases capitais, com cores garridas a inspirar vitalidade e energia. De entre eles, as vitaminas aparecem muitas vezes em doses de riqueza generosa.

Em ordem abecedária variável, letras substantivas aparecem capitalizadas e adjectivadas por vitaminas: C, E, A, D, B, K… Se estão na embalagem é porque o conteúdo é bom para a saúde e não se pensa mais no assunto. Se não estão, a sobrancelha céptica bolina o olhar até as encontrarmos numa embalagem vizinha.

De facto, o nome “vitamina” ocupa hoje lugar cativo na primeira fila da maior parte dos rótulos dos diversos alimentos embalados. A indicação de que o alimento em causa possui determinadas vitaminas, transmite-nos a confiança de que ele possui, pelo menos uma substância, em dose adequada, que é benéfica e essencial para mantermos ou repormos um determinado estado de saúde. Mas se isto é hoje uma constante dos menus rotulados, só há cerca de cem anos é que se estabeleceu uma relação causal entre estas substâncias e o estado de saúde.

(Continua)

António Piedade

quinta-feira, 1 de março de 2012

A "Balada da Neve", os Velhos e os Doentes


“Quem já é pecador /Sofra tormentos, enfim!/ Mas as crianças, Senhor,/ Porque lhes dais tanta dor?!.../ Porque padecem assim?!...” ( "Balada da Neve", Augusto Gil, 1873-1929).

Em medida do actual governo, passa a contar para efeitos de desconto do IRS apenas 10% de despesas de saúde do contribuinte agravadas por um determinado tecto, enquanto, em anos anteriores, essa dedução abrangia 30% sem qualquer limitação. Ou seja, em Portugal, país de brandos costumes para quem não merece e de mão de ferro para quem não deve, a condição de velho e doente crónico, em vez de ser havida com uma desgraça, passa a ser taxada como um luxo.

Notícias do tempo do consulado de José Sócrates davam-nos conta da possível aplicação de taxas moderadoras diferenciadas em função dos rendimentos auferidos pelos doentes. Ora, como se sabe, o valor do IRS e os descontos para a ADSE (no caso dos funcionários públicos) não são iguais para todos, fazendo com que os que declaram maior rendimento comparticipem em dose maior nas despesas de saúde. Além disso, uma possível bondade de taxas moderadoras diferenciadas seria contrariada, ab initio, pelo facto de nem sempre o valor colectável ser digno de crédito, pese embora o esforço da máquina tributária em contrariar tal situação motivada pela dificuldade em evitar a fuga aos impostos devido a paraísos fiscais e à impossibilidade de acesso a contas bancárias.

Digno de crítica me parece, igualmente, porque afectando pessoas idosas muito diminuídas por doenças graves e/ou crónicas, “com pesares que os ralam na aridez e na secura da sua desconsoladora velhice” (Garrett), uma outra medida do Partido Socialista que defendia uma redução do plafond com as despesas de saúde para efeitos de IRS, penalizando, desta forma, inevitáveis gastos com médicos e medicamentos. Aliás, medida aproveitada pelo actual Governo em terreno previamente adubado pela governação de Sócrates.

Como escreveu Jean-Baptiste Colbert, ministro de Estado e da Economia de Luís XIV, o acto detributar é idêntico ao depenar de um ganso, procurando obter o máximo de penas com a menor gritaria”. Pelos vistos, os queixumes dos velhos e os gemidos dos doentes vítimas desta penalizante redução não serão suficientemente ruidosos para evitar o actual depenar dos que sofrem. Mas não deverá ser obrigação de qualquer governo de rosto humano a constante preocupação com a saúde dos seus cidadãos? Ou seja, a bem ou a mal, como advertiu, já no século XIX, Henry Thoreau, "os cidadãos hão-de aprender que a política não é moral ocupando-se apenas do que é oportuno".

Simples contas de cabeça são suficientes para demonstrar a falta de razoabilidade em deixar adoecer a população por poupança forçada nos respectivos cuidados de saúde que terão como desfecho trágico passar a gastar rios de dinheiro da fazenda pública com o subsequente estado de agravamento de doenças em estratos de pessoas menos abastadas. Aliás, a excepção das grandes fortunas confirma a regra de uma pobreza quase generalizada por um desemprego crescente e diminuição acelerada do poder de compra, fazendo com que a classe média seja substituída por uma legião de remediados obrigados a contar os cêntimos no dia-a-dia gastos para sobreviver com um mínimo de vergonha na cara para não acumular dívidas difíceis de saldar.

É reconhecida a humanização da saúde em países com preocupação de natureza social. Só se ignora em Portugal onde, por exemplo, foi defendida, por Manuela Ferreira Leite, na SIC Notícias (10/01/2012), a medida economicista de serem restringidos os gastos com a saúde, através da não comparticipação estatal de sessões de hemodiálise para maiores de 70 anos. Desta forma desapiedada (em que a partir dos 70 anos de idade os pobres e remediados perderiam o “direito à vida”, consignado no artigo III da Declaração Universal dos Direitos Humanos) seriam reduzidas as despesas com as reformas e com a saúde dos portugueses vítimas de letais patologias dos rins.

Mas abandonar os doentes à sua triste sina nem sequer é original. Segundo Séneca (4 a.C – 65 d.C ), “matam-se os cães quando estão com raiva; exterminam-se os touros bravios; cortam-se as cabeças das ovelhas enfermas para que as demais não sejam contaminadas; matamos os fetos e os recém-nascidos monstruosos se nascerem defeituosos e monstruosos. Afogamo-los, não devido ao ódio, mas à razão, para distinguirmos as coisas inúteis das saudáveis “.

Ou seja, por a doença ser tida, ao longo dos tempos, como pesado fardo de uma sociedade que encara a saúde em termos de gastos públicos, os recém-nascidos da Roma Antiga, com malformações congénitas, e os actuais doentes renais, no Portugal do século XXI, com 70 ou mais anos de idade e carências económicas, necessitados da hemodiálise para sobreviver como que se identificariam num destino trágico. Daqui, a reevocação adaptada que faço da Balada da Neve: “Mas os velhos e doentes, senhores governantes,/ Porque lhes dais tanta dor?!... / Porque padecem assim?!...”

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

NASCIDO PARA VIVER


Informação da Fundação Francisco Manuel dos Santos:

Portugal foi um dos países que mais rapidamente diminuiu a sua Taxa de Mortalidade Infantil, sendo actualmente uma das melhores do mundo.

Como chegámos até aqui? O que foi preciso mudar para estarmos hoje ao lado dos países mais desenvolvidos? “Nascido para viver” é um filme que fala deste caminho.

Não perca a exibição, no dia 28, às 22h na SIC Notícias no Contracorrente, seguido de debate com Maria do Céu Machado e Lincoln da Silva.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Partos em casa


Uma notícia triste, acerca de uma australiana de 36 anos, defensora dos partos em casa, que morreu a dar à luz a sua segunda filha.

Em 1960 morriam em Portugal 29 em cada mil recém nascidos e 18% dos partos eram realizados no hospital/maternidade. Em 2010 morreram menos de dois em cada mil recém nascidos e 99% dos partos ocorreram em ambiente hospitalar. O mesmo se aplica a mortes fetais e da mãe durante o parto (Dados PORDATA).

Quem quer ter partos em casa deve conhecer estes números e assumir as responsabilidades. Não se pode ter o melhor de dois mundos: o ambiente zen e a segurança acrescida que os meios de um hospital permitem. E o Estado não tem que pagar ambulâncias "plenamente equipadas" à porta de casa, com equipas médicas de prevenção, como alguns defendem.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Química das coisas boas: da farinha de trigo, ovos e açúcar aos pastéis de Tentúgal


Uma versão inicial deste texto foi escrita para a Noite da Química no Laboratório Chimico, mas acabou por ficar inédita. Procurava-se, de forma simples, mas tão completa quanto possível, dar uma ideia da química envolvida neste doce maravilhoso

A farinha é um pó desidratado rico em amido, contendo também proteínas, obtido por moagem de cereais. O que torna a farinha de trigo única é o glúten, uma proteína amorfa muito elástica devido às suas ligações de enxofre e de hidrogénio. Esta proteína encontra-se na farinha em partículas de uma grande variedade de diâmetros em torno de um décimo de milímetro. O processo tradicional de peneirar a farinha serve para separar as partículas mais pequenas, obtendo-se assim farinhas adequadas para massas finas, ou seja com espessuras muito pequenas.

O glúten é insolúvel em água. Por isso, a farinha é inicialmente misturada com gorduras que, para além de melhorarem o sabor, formam uma dispersão, à qual se junta posteriormente a água que ajuda a ligar todo o conjunto. A adição de fermentos biológicos, ou orgânicos e inorgânicos, faz com que se forme dióxido de carbono no interior da massa, o que origina um aumento de volume do sistema, devido à elasticidade do glúten, sem que haja qualquer vantagem nutritiva. Posteriormente, no processo de aquecimento no forno todo o sistema fica mais rígido por perda de água e formação de uma estrutura reticulada, ficando os orifícios do interior da massa. São assim obtidos os pães vulgares e bolos comuns, mas não as massas finas dos pastéis de Tentúgal.

Para obter massas finas não se usam fermentos. No processo de as estender há quebra e formação de novas ligações de enxofre e de hidrogénio do glúten. E se for utilizada compressão, estas ligações aumentam de número originando uma maior rigidez da massa, a qual depois de levada ao forno se torna deliciosamente estaladiça. Para os pastéis de Tentúgal obtêm-se espessuras da ordem de metade do décimo de milímetro!

A sacarose, vulgarmente conhecida como açúcar, é um hidrato de carbono e simultaneamente um dos produtos mais puros, no sentido químico, que podemos encontrar no dia-a-dia. Trata-se de um sólido de cor branca que é muito solúvel em água. Essa solubilidade aumenta com a temperatura, assim como o ponto de fusão da solução resultante, podendo obter-se os bem conhecidos pontos do açúcar que correspondem a zonas de temperaturas características. A temperaturas relativamente elevadas a sacarose começa a decompor-se e a polimerizar ficando com a característica cor do caramelo, um material mais rico em carbono que em água.

A gema faz parte de uma célula gigante que é o ovo e tem no seu interior proteínas e lípidos, para além de uma grande quantidade de água. As propriedades químicas dos compostos que contém fazem dela um bom ligante para tintas no processo ancestral da têmpera e para a actual formação da emulsão conhecida como maionese. É também um material único e fundamental na doçaria portuguesa.

Para preparar o creme de ovo, ou ovos moles, usa-se uma calda quente de açúcar que vai coagular as proteínas das gemas de ovo e formar uma mistura muito agradável ao paladar e ao tacto bucal. A massa fina estaladiça do exterior dá forma ao conjunto de forma única.

Os pastéis de Tentúgal têm química e isso é muito bom!


Para saber mais: no blogue Uma Química Irresistível têm sido publicados textos detalhados sobre a química de alguns dos ingredientes alimentares referidos no texto e sobre vários aspectos da química na cozinha.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Química das coisas boas: pimentos de Padrón

Em resposta (com algum atraso) a uma questão do meu amigo Albino M. que mantém um interessante blogue de poesia (Rua das Pretas) vou procurar a química do prazer de comer pimentos de Padrón.

Os pimentos de Padrón (Capsicum annuum L.) pertencem à grande família dos pimentos, malaguetas e piri-piris originária na América do Sul. Na Galiza, estes pimentos são colhidos ainda imaturos e não são, em geral, picantes. Para além do estado de maturação, o seu sabor característico resulta provavelmente do clima, selecção das sementes e métodos de cultivo. De facto, invernos amenos, verões temperados e chuva abundante parecem dar origem a um menor conteúdo em hidratos de carbono e maior percentagem de amido em relação às variedades da América do Sul. Por outro lado, o tratamento cuidadoso e a colheita precoce evitam o stress vegetal responsável pela produção de capsaicina (o composto responsável pelo sabor picante).

Os pementos de Padrón, uns pican e outros non, dizem na Galiza. Na minha opinião, só os galegos poderiam ter inventado uma coisa tão improvável quanto agradável: pimentos picantes que só picam às vezes!

Com mais de noventa por cento de água e uma quantidade relativamente baixa de lípidos e hidratos de carbono, a presença dos ácidos málico, oxálico e quínico manifesta-se no subtil sabor ligeiramente amargo. Para além disso, embora a capsaicina presente quase não seja detectada na boca, a pequena quantidade disponível poderá ainda (especulo eu) interagir com os receptores celulares dopamínicos, contribuindo para aumentar as sensações agradáveis. Finalmente, o azeite usado na sua fritura, o sal grosso e o odor característico, resultante de ficarem ligeiramente queimados, completam o prazer.

Sabe-se hoje que o sal em excesso e alguns compostos presentes nos alimentos queimados aumentam o risco de cancro entre outras doenças. Existem dúvidas sobre o efeito benéfico ou nefasto da capsaicina. Mas todos os estudos concordam que os pequenos prazeres que diminuem o stress, contribuem para uma melhor saúde.

Assim, não tenho dúvidas de que um final de tarde de verão ou início de outono a petiscar uns pimentos e beber uma cerveja na companhia de amigos é um pequeno prazer com química! E, estando nós em pleno inverno (embora atípico), a recordação desses momentos é reconfortante.

Referência:
Chemical composition of Padron peppers (Capsicum annuum L.) grown in Galicia (N.W. Spain), Lopez-Hernandez J.; Oruna-Concha M.J.; Simal-Lozano J.; Vazquez-Blanco M.E.; Gonzalez-Castro M.J.Food Chemistry 57 (1996) 557-559.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

O tecto para as despesas na saúde

Embora não goste, alturas há em que tenho de transcrever posts já aqui publicados, quanto mais não seja para avivar a memória de todos, incluindo a dos governantes. Reproduzo, ligeiramente adaptado, parte do meu post Um tecto para as despesas de saúde? de 15/03/2010, na altura em que o PEC já incluía medidas desse tipo, que agora se estão a agravar. Revejo-me nas palavras de Eça: “Deixemos no bengaleiro a nossa perpétua inclinação nacional de escutar odes – e entremos só com a tendência humana de resolver problemas":

"Em declarada crise económica que assola grande parte do planeta e num pequeno país como Portugal, em que há um evidente desequilíbrio entre as despesas públicas e as receitas fiscais, tomam-se medidas de desenrascanço de apertar o cinto que pouco afectam quem usa suspensórios!

Desta forma, em vez de se cortarem em esbanjamento de dinheiros públicos (finalmente e pelos vistos, pelo menos o TGV e o Aeroporto de Alcochete parecem estar em banho-maria) tenta-se cortar em despesas com pouco significado positivo para os cofres estatais e muita expressão negativa no que diz respeito à justiça social.

(...) Actualmente são deduzidos para efeitos de IRS 30% das despesas feitas nas farmácias com determinados medicamentos. Ou seja, quem tem uma saúde de ferro beneficia do dom precioso em não gastar um cêntimo em medicamentos. Por outro lado, quem tem uma saúde frágil que anda associada, frequentemente, a achaques da velhice, como sejam, por exemplo, para não falar de outras graves bem mais graves, doenças do foro reumatismal, em que, para apaziguar dores insuportáveis, o paciente é obrigado a encharcar-se em analgésicos, gastando quantias que fazem perigar, ainda mais, o seu periclitante equilíbrio financeiro em busca de uma dignidade humana que não se curve amparada por uma bengala para não abdicar da sua ascendência bípede de milhões de anos.

A ser levada a medida de cortar nas deduções para efeitos de saúde, um doente de magros ou remediados cabedais de vencimento ou esquálida reforma que, porventura, tenha uma gripe ao atingir o referido tecto terá que deitar contas à vida e pedir a Deus para que uma possível pneumonia não lhe bata à porta na pior altura. Ou, nessa infelicidade, empenhar os anéis para ficar com os dedos, ou mesmo sem os anéis e os dedos, como se a própria vida 'não fosse o último hábito que se quer perder porque é o primeiro que se toma", como escreveu Alexandre Dumas Filho'.

(...) Ir buscar umas migalhas no cotão de certos bolsos que a actual crise virou do avesso e não em ordenados escandalosos, sinecuras principescas e chorudas contas bancárias é o mesmo, como nos ensina a sabedoria popular, que "poupar no farelo para gastar na farinha", promovendo o desaparecimento de uma classe média com reformas que se degradam de ano para ano, necessitadas, como tal, de cuidados fiscais intensivos que lhes transmita e à economia portuguesa um novo e desejável alento para sair do pântano em que se encontram mergulhadas.

Num abreviar de razões, a solução deve ser procurada numa ainda mais apertada malha que taxe o cidadão com sinais exteriores de riqueza de quem "cabritos vende e cabras não tem", segundo os seus reais rendimentos e haveres e não sobre aquilo que ele dolosamente possa declarar serem os seus hipotéticos rendimentos e haveres. A isto, sim, chamar-se-ia, com toda a propriedade, justiça fiscal!"

Pelas razões atrás expostas, nunca, por nunca, baixar o tecto das despesas dos velhos reformados da classe média com a saúde para um terço do montante actual!