Crónica publicada na Imprensa Regional:
(
continuação)
O instinto de
sobrevivência cedo deve ter apresentado aos nossos antepassados hominídeos, mamíferos, e anteriores ancestrais, que alimentos diferentes causam efeitos
diversificados sobre o estado de saúde e alguns são mais necessários do que outros para não ficarmos doentes. Isto é, não ingerimos alimentos só para crescermos ou termos energia.
Complementarmente, necessitamos de ingerir determinados alimentos para não ficarmos doentes, ou de acrescentar á nossa dieta alguns outros para recuperar o estado de saúde perdido. Mas a razão desta relação entre o estado de saúde ou de doença e a presença ou ausência de determinados alimentos na dieta manteve-se desconhecida ao saber humano durante milénios.
Uma primeira relação entre uma doença, o escorbuto, e falta ou ausência de frutos, principalmente citrinos e vegetais na alimentação, foi repetidamente relatada nos diários das longas viagens marítimas. No século XVIII, a marinha britânica passou a incluir citrinos e vegetais frescos (que reabastecia a cada
aportagem) nas rações dos seus marinheiros para evitar que adoecessem com escorbuto.
Nos finais do século XIX, mais precisamente em 1897, o médico holandês
Christiaan Eijkman (1858 – 1930) demonstrou uma relação causal entre outra doença, o beribéri, e casca dos grãos de arroz. A descoberta de
Eijkman foi acidental, como tantas vezes acontece em ciência, apesar de se ter deslocado até á Indonésia exactamente para estudar aquela doença. Teve a perspicácia em relacionar os sintomas em alguns frangos usados no seu laboratório, aquando da alteração, temporária, da sua alimentação. Assim que a alimentação dos frangos doentes foi enriquecida com arroz integral estes melhoravam, e os sãos não adoeciam.
Eijkman não identificou nenhum ingrediente responsável por esta relação causal, apesar de ter verificado que o mesmo efeito se verificava em humanos.
Através da privação de fracções e compostos isolados de determinados alimentos, na dieta de cobaias animais, os cientistas apertaram o cerco à natureza bioquímica do que evitava aquela e outras doenças.
Em 1906, o bioquímico inglês
Frederick Hopkins (1861 – 1947) sugeriu que os alimentos, para além de proteínas, hidratos de carbono, gorduras, minerais e água, deveriam conter aquilo que denominou por “factores alimentares acessórios”, cuja presença era necessária para manter o estado de saúde.
Eijkman e Hopkins foram galardoados, em 1929, com o Prémio Nobel da
Fisiologia e Medicina pelos seus trabalhos que conduziram outros à descoberta das vitaminas.
A identificação bioquímica do “factor alimentar acessório” presente na casca do arroz chegaria mais tarde quando, em 1911, o bioquímico
Casimir Funk (1884 – 1967), polaco de nascimento, descobriu que o factor responsável pelo não desenvolvimento da doença beribéri era uma substância que apresentava uma função
amina. Isto é, uma molécula que possuía um grupo bioquímico funcional
amina (–
NH2), composto por um átomo de azoto (N) e dois de hidrogénio (H), ligado a um outro determinado átomo de uma dada molécula presente na casca do arroz.
Funk baptizou em 1912, há cem anos, este composto por vitamina (a partir da palavra latina “
vita” (vida) e do sufixo
amina do grupo bioquímico). Ou seja, o “factor acessório alimentar” de Hopkins era uma
amina vital! Hoje sabemos que
Funk descobriu a
tiamima ou vitamina B1.
Em 1912, Hopkins e
Funk postularam a “hipótese da deficiência
vitamínica”, propondo que a ausência, num dado sistema orgânico, de quantidades suficientes de uma certa vitamina, poderia levar ao desenvolvimento de uma determinada doença.
O termo “vitamina” foi rapidamente generalizado a todos os “factores alimentares acessórios”. Hoje sabemos que a maior parte das vitaminas, entretanto identificadas e
caracterizadas quimicamente, não possuem o grupo funcional
amina na sua composição. Contudo, devido à generalização inicial do termo, ainda hoje nos referimos a todas essas substâncias por vitaminas.
António Piedade