quarta-feira, 30 de agosto de 2023

A LÍNGUA PORTUGUESA QUE APRENDI NÃO É A LÍNGUA EM QUE AGORA SE ESCREVE

Por Eugénio Lisboa

A principal virtude que a linguagem pode ter é a clareza 
e nada nos afasta tanto dela como o uso de palavras pouco familiares. 
Hipócrates 

A leitura de muitas páginas dos nossos melhores jornais, bem como a visita de certos centros comerciais, é, para mim, o mesmo que visitar o lado obscuro da lua. A começar pelos títulos, nos jornais, não percebo rigorosamente nada: eles revelam, em condensado, toda a minha ignorância. 

Por exemplo, na página de CULTURA, do PÚBLICO, do dia 29 do corrente mês, deparo com este charabiá: A PARTIR DE SÁBADO, a bienal BoCA CONVIDA AO PAUSE EM TEMPOS DE SWIPE E DE SCROLL. 

Olho para isto e fico, como qualquer leitor medianamente informado: perplexo e quase em estado de choque. Será esta a minha língua? Estarei em Portugal? Terei morrido e entrado em qualquer departamento bizantino do Além? 

Hoje em dia, quem não polvilhe os seus textos com uns pozinhos de inglês, não é gente que preste. E quanto mais obscuro o calão usado, melhor. É o CEO, é o SPREADING, é o BUSINESS SCHOOL, é o TOP10, a RENTRÉE (desta vez recorre-se a uma palavra francesa que os ingleses também usam, o que lhe dá um sabor novo), são os cantores portugueses que adoptam nomes ingleses, é o CHAIRMAN, o BOARD, o PORTUGAL CAFÉ, em vez de CAFÉ PORTUGAL, tal como em português, e por aí fora.

É como se tivéssemos vergonha da nossa própria língua e precisássemos de a “enfeitar” com um cheirinho anglo-saxónico, usando palavras que têm o seu perfeito equivalente em português. É a piroseira, enfeitando-se de snobeira, no seu máximo esplendor. 

Aqui mesmo ao pé de casa, existe um sítio em que se servem bebidas, com este título prodigioso: LIQUID HALL. Não é mesmo chic? As lojas, nos grandes centros, são uma contínua homenagem à nossa língua-mãe: Zara Home, Stone by Stone, Silver Field, Body Cosmetics, Best Travel... Tão distinguished! Tão internacional! 

Nesta Babel grotesca e provinciana, sinto-me como se deve ter sentido o falecido Príncipe Phillip, Duque de Edimburgo, ao ver-se assim tratado, num país africano: “Fella belonging Mrs. Queen”. Estes utentes lusíadas da língua de Shakespeare fazem-me atrozmente lembrar aqueles utentes da língua urdu a definirem, em inglês, o marido da falecida rainha do Reino Unido.

O grande Stuart Mill dizia, em pecado de flagrante optimismo, que a linguagem é a luz do espírito. Mas esta espécie de urdu anglo-saxónico, que por aí se espaneja, não ilumina, antes obscurece o espírito, fazendo da língua uma amostra de areia mijada. 

Eugénio Lisboa

O "POLITICAMENTE CORRECTO" NA MÚSICA

O recorte ao lado é do último número do semanário Expresso, mas a notícia que faz título está numa infinidade de jornais. Parece que é verdade: uma das canções mais "icónicas" dos irreverentes Queen foi omitida na reedição dos seus Greatest Hits, que ficará disponível numa certa plataforma online.

Argumenta-se que a canção intitulada Fat Bottomed Girls é imprópria para crianças pois pode provocar body shaming. Nesta reedição consta também o aviso de que as crianças podem ficar expostas a temas sensíveis como violência e drogas. 

O fundador da banda, Brien May, tem explicado que eram os loucos anos setenta; que, nessa época, quatro rapazes juntos, a inventar música, estavam longe das barreiras morais do presente; que a arte é, por natureza, transgressiva... Se fosse hoje, acrescenta, a canção talvez não tivesse saído, mas saiu. E escondê-la é nada menos que o "politicamente correcto" a funcionar... 

Aqui fica a ligação para que o leitor melhor possa fazer o seu próprio juízo.


terça-feira, 29 de agosto de 2023

DE GATOS FALEMOS! DE QUE MAIS HAVÍAMOS DE FALAR?

O gato sabe o que é bom 
e conhece os certos nichos.
Sabe não ser de bom tom
oporem-se aos seus caprichos.
O sítio que lhe convém 
é aquele, as mais das vezes,
o que eu quero, também.
Se eu quero peixe à Menezes,
é isso o que o gato quer.
Se eu quiser escrever,
se para aí me der,
logo o gato vai escolher
dormir no computador!
Não faz isso por malícia,
nem por ser usurpador,
nem por mera estultícia.
Se o gato quer o que eu quero,
tenham Vocês paciência
– e falo sem exagero –
é por pura coincidência!

Eugénio Lisboa

domingo, 27 de agosto de 2023

AVISO POR CAUSA DA MORAL, DO BOM SENSO E DA LEGALIDADE

 Por Eugénio Lisboa

Quem alguma vez tenha lido A Cidade e as Serras, não terá dúvida nenhuma de que Eça preferiria ficar sepultado em Tormes a ser trasladado para o panteão. Também não duvidará de que Eça detestaria a ideia de ir para o Panteão. Bastava conhecer um bocadinho a obra e a maneira de estar no mundo do autor de Os Maias

Mas, a um senhor que hoje é ministro, ocorreu a ideia macabra de fazer essa trasladação, sem consultar os herdeiros, que são os únicos a poderem, legalmente, dar autorização para uma tal trasladação. E estes, tanto quanto se saiba, não a deram nem a darão. 

A Assembleia da República tem o poder de autorizar a operação, mas não tem o poder de a impor. 

O que se pretende fazer em Setembro é ilegal, afrontoso e próprio de quem nunca leu a sério uma só linha do grande escritor. E é próprio de quem está mais interessado em pôr-se em bicos de pés do que em servir a memória do nosso maior romancista.

Convida-se o maior número de pessoas e instituições culturais a manifestarem-se contra este sinistro atentado. Bastaria, de resto, colocar-se uma simples lápide no Panteão, deixando os ossos do grande homem em paz, onde ele sempre gostou que ficassem!

Estas iniciativas devem sempre partir de gente culturalmente equipada para as tomar e não de políticos ansiosos por fazerem currículo. 

Bons deuses, há limites para o dislate! 

EUGÉNIO LISBOA, 
que pede a todos os que leiam estas palavras e com elas concordem o favor de as divulgar.

quinta-feira, 24 de agosto de 2023

HOLOCAUSTO A HAVER

Os oceanos estão a aquecer,
as suas águas estão a subir.
Os glaciares estão a derreter,
obrigando animais a fugir.

Estes sinais são todos muito claros
do Holocausto que se aproxima.
Dentro em pouco não haverá reparos,
para os males que fizemos ao clima.

Pior que morrer é morrer aos molhos,
atropelando tudo, em confusão;
dizermos: “Tem cuidado, fecha os olhos!”, 
 
tal o horror de tanta convulsão.
Andámos construindo o Holocausto,
seguindo o percurso do outro Fausto.

Eugénio Lisboa

Confiar, mas nem tanto



Por estes dias li, de Hernán Diáz, Confiança (Livro do Brasil, 2022). Não estava à espera de encontrar muita química, mas por acaso encontrei mais do que estava à espera.

Em geral não ligo a spoilers, mas neste caso acho que podem ser importantes e por isso não vou fazer um resumo da história. Eu, pela minha parte, como leio muitas vezes por amostragem, perdi uma parte do sentido do livro, inicialmente. Mas depois de voltar atrás, de ler as críticas e resumos, tudo de repente fez sentido. E foi bastante interessante.

Sobre a química. Um dos personagens era o acionista maioritário da Haber pharmaceuticals, uma empresa fictícia que toma emprestado o nome de Fritz Haber e que tem, com ele, como prioridade "o desenvolvimento de fármacos eficazes para o largo espetro de doenças psiquiátricas que até aqui eram tratadas com pouco mais do que morfina, hidrato de cloral, brometo de potássio e barbital." Ora isto passa-se nos anos 1920, e embora fosse verdade que só havia aquilo, as empresas farmacêuticas não tinham estas prioridades. Não se pensava num fármaco "mágico" para as doenças psiquiátricas.  O primeiro tratamento razoável para doenças mentais vai aparecer nos anos 1950 com a clorpromazina. Curiosamente, isto passa-se na primeira parte do livro e de alguma forma forma pode atribuir-se aos pequenos erros que os livros vão acumulando, tanto mais que se essa parte do livro é atribuido a outro autor.  

Tanto a principal personagem, como a sua mulher, trabalham com  "médicos e químicos farmacêuticos tendo em vista a descoberta de tratamentos mais eficazes contra os distúrbios psiquiátricos", volta a repetir-se. Pouco depois, sabe-se que è mulher cuja saúde mental se deteriora. Vai para a Suíça onde  "um estudo pioneiro de sais de lítio, que a Haber Pharmaceutical seguia com interesse" é de alguma forma parado.

É aqui que a química do livro se torna mais interessante, na minha opinião. O tratamento revolucionário proposto para a mulher do magnata e que estava a ser desenvolvido pela farmacêutica era convulsivo, usando injeções de pentilenotetrazol. É pouco conhecido. mas a ideia das terapias convulsivas surgiu nesta altura com compostos que provocavam convulsões. Só depois evoluiu para a terapia eletroconvulsiva (primeiro foi química com fármacos e depois física, com eletricidade). Tudo isto era bastante bárbaro, embora em nome da ciência, e a mulher acabou por morrer numa dessas sessões convulsivas. Deve notar-se que hoje em dia tem havido um recrudescimento das terapias eletroconvulsivas, mas não só as correntes são muito mais baixas como é feito com o paciente inconsciente. De qualquer forma continua a haver ceticismo em relação a essas terapias. E embora de forma dramática, o livro acaba por referir os vários aspetos do início da terapia.

Afinal dá-se conta de que a mulher não morreu do tratamento psiquiátrico (isto não é um spoiler, mas um teaser!) mas de cancro. Não se diz qual era o cancro, mas há várias referências à morfina e a Paracelso. O livro mostra uma trama muito mais complexa que é um retrato diferente de uma época que, através da visão de diferentes personagens, nos faz pensar na vida e na literatura. 

quarta-feira, 23 de agosto de 2023

SEGREDOS PARA USAR

O segredo há de estar
em coisas muito vulgares,
em palavras com vagar,
sem desejo de negares,

em mistérios muito claros,
em claridades que escondem
recônditos muito raros 
e amores que respondem.

As leis da felicidade
são leis sem complicação:
simplificar a verdade
que vive no coração. 

Gostar de homens e bichos,
que em tudo são iguais;
descobrir os certos nichos,
nos lugares mais banais!

Eugénio Lisboa

MILLÔR FERNANDES: PEQUENAS DEFINIÇÕES (À FALTA DE MAIORES) E PERGUNTAS PERTINENTES PARA OS TEMPOS QUE CORREM

Por Eugénio Lisboa

PEQUENAS DEFINIÇÕES

"Chama-se de civilização esse lento processo pelo qual a humanidade acaba concordando com os loucos."

"Amizade é aquilo que uma mulher tem por outra quando ambas detestam uma terceira."

"Chama-se de subtileza essa faculdade que nos permite ofender uma pessoa com tempo para ir embora antes que ela possa reagir."

"Médico é um sujeito que aplica drogas que mal conhece a organismos que nem conhece."

"Chama-se psicanalista uma espécie de médico que está sempre mais perto da doença do que da cura."  

"Chama-se défice isso que uma pessoa tem quando tem menos do que quando não tinha coisa nenhuma." 

"Chama-se de chato o sujeito que tem um uísque numa das mãos e a nossa lapela na outra."

"Universidade é um local onde a ignorância é levada a suas extremas consequências."

"Chama-se celebridade um débil mental que foi à televisão."

"O pobre trabalha para comer. O rico trabalha para comer fora."

"Círculo é uma linha que resolve ir dar uma volta"

"Pontual é alguém que resolveu esperar muito."

"Solteiro é uma espécie de rato que pensa poder comer o queijo sem cair na ratoeira."

PERGUNTA PERTINENTES PARA OS TEMPOS QUE CORREM

"Quando a sentinela grita 'alto!' Para o anão que vai passando este se ofende? 

"Você ri com a graça de Deus? 

"O cristal da boémia é um jarro pertencente a uma senhora que vive na farra?"

"Um juiz que recebe dinheiro dos dois lados é um juiz imparcial?"

"Os dermatologistas têm a sensibilidade à flor da pele?

"O filho de um dentista é um garoto muito incisivo?"

"A mulher do actor de teatro, quando ele chega tarde em casa, faz uma cena?"

"Quando você vai comprar uma coisa na loja e o homem diz que só vende atacado, você puxa o revólver?"

"A vida dos desenhistas é cheia de riscos?"

"Quem mata a sede vai preso?"

"Então me diz, um criado mudo pode pedir aumento de salário?"

"Um músico pode ser preso por emitir notas falsas?"

"Os laços matrimoniais são dados com nó cego?"

NOTA

Hoje ficamo-nos por aqui. Se quiserem mais, digam. Millôr Fernandes é inesgotável. Ele, refilão sem mácula, foi o homem que disse isto: 
“O que as pessoas não aceitam são pequenas coisas, o facto de eu nunca ter querido poder, de não ter aparecido na TV Globo, afinal alguém tem de ter recato neste país.”

DEZ PÉROLAS DE OSCAR WILDE PARA LER ANTES DE DORMIR

 Por Eugénio Lisboa

Não quero ir para o céu. Nenhum dos meus amigos está lá. 

Um verdadeiro amigo apunhalar-te-á sempre pela frente. 

Tu gostarás sempre de mim. Eu represento, para ti, todos os pecados que nunca terás a coragem de cometer. 
Eu não sou suficientemente novo, para já saber tudo. 
Uma coisa não é necessariamente verdadeira, só porque um homem morre por ela. 
A verdadeira essência do romance é a incerteza. 
O homem é o menos possível ele mesmo, quando fala de si. Dá-lhe uma máscara e dir-te-á a verdade. 
Deus, ao criar o homem, de certo modo exagerou a Sua própria capacidade. 
Perdoa sempre aos teus inimigos. Nada os irrita tanto. 
Viver é a coisa mais rara no mundo. A maior parte das pessoas limita-se a existir. 
Boa e suave dormida!

Eugénio Lisboa
 

UMA HERMENÊUTICA INCONTINENTE

Por Eugénio Lisboa

Os clássicos mudam muito de opinião para agradar os que os interpretam. 
Millôr Fernandes 

Publiquei aqui, há dias, um texto sobre interpretações assanhadamente ideológicas de obras literárias, praticando verdadeiros estupros interpretativos de grandes obras clássicas. 

Não é, diga-se de passagem, um mal nacional: grassa por todo esse mundo literário e universitário, com particular incidência no Brasil, onde todas as tontices importadas do estrangeiro assumem variantes de infecção aguda. Mas não só a ideologia leva ao crime.

Outras modas em vigor inflectem de modo abusivo e desastrado a integridade dos textos. As redes sociais deram a esta incipiente epidemia dimensões assustadoras de pandemia. A ponto de o egrégio Umberto Eco ter declarado que “o drama da internet foi ter promovido o idiota da aldeia a portador da verdade.” Ou, noutra passagem igualmente contundente, que “as redes sociais deram voz aos imbecis”. 

E deram: vê-se isso todos os dias e nem os lugares mais privilegiados ficam isentos de serem visitados por estes parasitas, ignorantes mas atrevidos. As mais delirantes interpretações de textos são promovidas, numa orgia hermenêutica deveras assustadora. 

Seja dito que, na origem deste despautério, vai muita culpa para o próprio Umberto Eco, que, na sua celebrada OBRA ABERTA, abriu imprudentemente as portas às inúmeras interpretações possíveis de um mesmo texto. Se houvesse assim tantas, o texto tornar-se-ia irrelevante ou mesmo não existente. Se o que um autor quis dizer pode não ser fácil de descodificar, por outro lado, o que o texto parece dizer já pode ser um pouco menos problemático. O próprio Eco veio a arrepender-se de ter escancarado demasiado as portas à incontinência hermenêutica e pôs a ela travões, em Os LIMITES DA INTERPRETAÇÃO. 

Mas o mal estava feito e a diarreia interpretativa era demasiado convidativa, para poder ser universalmente abandonada. Os leitores passam a ser os verdadeiros “donos” do texto e o texto degrada-se até se tornar pretexto.

O eminente Tzevetan Todorov troçou de tudo isto, nestes termos: “Um texto não passa de um piquenique, em que o autor traz as palavras e os leitores o sentido.” Num vigoroso ensaio – AGAINST INTERPRETATION – a temível Susan Sontag fulminou esta tara interpretativa, afirmando: “A interpretação é a vingança dos intelectuais contra a arte.” E ainda: “Em vez de uma hermenêutica, do que precisamos é de uma erótica da arte.” 

O curioso é que muitos grandes e acutilantes leitores, como Nietzsche, fulminaram há muito este abuso interpretativo: “O texto desapareceu debaixo da interpretação”, disse o filósofo alemão, no seu PARA ALÉM DO BEM E DO MAL. E o eclético e celebrado Harold Bloom, tentou mostrar que esta prática era milenar, ao dizer isto: “Penso que o Novo Testamento grego é a mais forte e mais bem sucedida desleitura de um grande texto anterior, em toda a história da influência.” 

Nestes despautérios de interpretação, teve grande visibilidade a sexualidade pós-freudiana. Aí, valeu tudo. Numa ida ao Rio de Janeiro, a propósito de um congresso dedicado a José Régio, apareceu-me uma deslumbrada, com a descoberta de que o admirável romance O PRÍNCIPE COM ORELHAS DE BURRO, de José Régio, mostrava que o escritor era homossexual. Estava então muito na moda, descodificar homossexualidade escondida por todo o lado. Ora nem Régio era homossexual, nem aquele romance tinha nada a ver com sexo ou seus arredores. Mas a tese deve ter tido filhos, porque estas descobertas costumam ser muito fecundas. 

Outro exemplo extraordinário foi este, acontecido com a encenação da peça de Montherlant, LE MAÎTRE DE SANTIAGO. A obra é limpamente clássica e tem como protagonista Don Alvaro, Mestre daquela Ordem, cristão sem mácula, totalmente incorruptível. Alguns nobres espanhóis querem usar o seu bom nome, para cobrir negócios sujos, na América recém descoberta. Para aliciá-lo, prometem-lhe arranjar um “bom casamento” para a filha Mariana. Mas esta é exactamente como o Pai. Num diálogo, de um sublime austero, Don Alvaro sonda a filha. Neste momento, Montherlant dá uma pequeníssima indicação de cena: a meio do diálogo, o velho Mestre, apercebe-se de um cabelo no vestido da filha e sacode-o. O autor da peça terá querido significar que a mais austera figura, e mesmo num momento de grande tensão, pode afligir-se com uma pequeníssima coisa que desfigura o vestuário da filha.

Esta ínfima indicação de cena desencadeou na crítica teatral de Paris as mais estapafúrdias “interpretações”: uma delas ia no sentido de dizer que aquele gesto significava que Montherlant tinha querido ter relações sexuais com a mãe, outro, ainda mais ousado, afirmava estar ali a prova de que o dramaturgo sofria de um complexo de castração! Eis a interpretação no seu deslumbrante pior. 

No teatro, onde os encenadores “sabem mais” do que os dramaturgos, já vi desastres semelhantes com grandes encenadores. Cito um caso. Quando vivia em Londres, o grande encenador Peter Hall, resolveu encenar a grande tragédia de Ibsen, O PATO SELVAGEM. Peter Hall acabara de “descobrir” haver na peça um subtexto cómico e resolveu transformar aquela pungente tragédia numa quase comédia. Acontece que o tal subtexto não era nada cómico, mas, sim, dilacerantemente patético. Por outro lado, Peter Hall, embarcado na sua desleitura, esqueceu-se de que na peça de Ibsen uma criancinha se suicida, no final, o que não costuma acontecer nas comédias. 

Dislates destes são frequentes, com as peças de Shakespeare, o que levou o impagável e genial Mel Brooks a parodiar, num seu filme, estes atrevimentos de encenadores, fazendo do sinistro Ricardo III, um invertido efeminado, grotescamente amaneirado. Haverá quem descubra na peça de Shakespeare um subtexto qualquer, que justifique a metamorfose. 

Foram estas e outras que levaram Orwell a afirmar: “Se realmente existe essa coisa de se dar uma volta no túmulo, Shakespeare deve fazer uma data de exercício.”

Eugénio Lisboa

"Eu ainda quero ter essa esperança"

Amin Maalouf, o jornalista, ensaísta e romancista, nascido no Líbano, com ascendentes espalhados pelo Levante, e residente em França, insiste, mais nos seus últimos livros do que nos primeiros, na absoluta necessidade de, em nome da sobrevivência da humanidade, tudo fazermos para se conseguir uma séria e empenhada comunicação, compreensão, convivência entre povos, culturas, etnias, nações, religiões... Em vez de nos fecharmos na nossa "tribo", seja ela qual for, cantando (ou gritando) as suas virtudes, olhemos para os outros, ouçamo-los... E façamos o possível para que olhem para nós, para que nos ouçam. 

Esta será a única e derradeira maneira de travar o iminente "desaparecimento de tudo o que dá sentido à aventura humana". Num ainda recente e muito tocante livro dedicado à mãe e ao pai, aos "sonhos frágeis" que lhe transmitiram, a que deu o título O naufrágio das civilizações, reconhecendo os múltiplos precipícios de que nos temos abeirado, explica a sua "preocupação com o futuro": deixarmos aos nossos vindouros um "mundo de pesadelo".

No "Epílogo", apela à consciencialização:
"Se as estradas do futuro estão semeadas de armadilhas, o pior seria avançar de olhos fechados, murmurando que tudo iria correr bem.  

Temos, pois, de ser realistas e, sem desespero mas com determinação, procurar evitar o "pesadelo" em que o mundo, entendido em sentido global, se tornou:

Estou convencido, aliás, de que continua a ser possível um rebate. Tenho dificuldade em acreditar que a humanidade se resignará docilmente à aniquilação de tudo o que construiu. Todas as sociedades humanas e todas as civilizações ficam a perder, se se desorientarem dessa maneira, e todas ganhariam, caso se endireitasse o rumo (...). Portanto, é necessário, e mesmo imperativo, alertar, explicar, exortar e prevenir. Sem cansaço, complacência ou desencorajamento. E, acima de tudo, sem agressividade (...)
Contudo, tal como o leitor terá já feito, questiona:
"Como convencer os nossos contemporâneos de que permanecendo prisioneiros das conceções tribais da identidade, de nação ou de religião, e continuando a exaltar o egoísmo sagrado, estão a preparar para os seus filhos um futuro apocalíptico?"

Será que vamos aprender alguma coisa antes que estas calamidades nos atinjam? Teremos a força de alma necessária para nos recompormos e corrigirmos a situação antes que seja demasiado tarde?

A resposta é, ao mesmo tempo, a declaração de uma vontade e o reconhecimento de uma crença: 
Eu ainda quero ter essa esperança.
 Parecerá uma resposta ingénua, além de contraditória, mas não será a única possível?

terça-feira, 15 de agosto de 2023

AS DORES DO MUNDO

Este mundo está cheio de dores
e a nossa atenção não dá para tanto:
crianças que nunca viram favores,
velhos cuja infância foi só pranto!

Fome, frio, doença – e sem esperança,
é como viver-se numa caverna:
ali não há luz, calor, segurança,
está-se ali como quem hiberna. 

As dores do mundo doem em tantos,
que ajudá-los fica sempre aquém
dos muito necessitados encantos!

Estaria a solução em Belém,
berço do pateta de um profeta,
que sabia ter sonhos de poeta? 

Eugénio Lisboa 

NOTA: AS DORES DO MUNDO é, como se sabe, o título de uma obra de Schopenhauer.

segunda-feira, 14 de agosto de 2023

UMA INTERPRETAÇÃO IDEOLÓGICA DE UM SONETO DE CAMÕES

Por Eugénio Lisboa

Todos conhecem aquele belíssimo soneto de Camões, que começa assim: “Alma minha gentil que te partiste”, seguindo-se-lhe treze versos, cada um mais belo do que o anterior. 

Imagem recolhida aqui.
Tem havido o mais variado leque de interpretações deste poema, que vale uma literatura, incluindo a inevitável “interpretação” biografista, que vê, na “alma minha” uma alusão à amante chinesa, morta afogada, no célebre naufrágio na foz do rio Mekong. Nesse naufrágio, cujas circunstâncias, em pormenor, se desconhecem, Camões teria salvo, a nado, OS LUSÍADAS, mas não conseguiu salvar da morte a sua Dinamene. Até aqui, tudo bem. 

As teses biografistas têm o interesse que têm, embora não sejam exactamente interpretações de um texto. Dizer que, sem o conhecimento biográfico deste episódio, o soneto ficaria incompreensível, é um rotundo disparate. O poema deve ser interpretado pelo que o poeta lá pôs e não pelas circunstâncias que estiveram na origem da sua escrita. 

Mas, à luz de uma minha experiência recente, relacionada com o modo como alguns poemas meus têm sido “interpretados” por ideólogos superaquecidos, estranho que a mesma receita ideológica ainda não tenha sido aplicada ao imortal soneto de Camões. Uma coisa deste gosto: Camões era europeu, branco; Dinamene era chinesa, amarela. Amor, amor, raça aparte. Entre salvar uma inferior chinesa e OS LUSÍADAS, o bardo não hesitou, exibindo um conhecido preconceito racista: salve-se o manuscrito, pereça a chinesa. A partir daqui, o crítico ideológico esquecia os achados poéticos, as lindas metáforas, a linguagem poética de uma inventiva sem igual, e mergulhava, a fundo, nos malefícios das “descobertas”, do racismo, do colonialismo, da exploração do homem pelo homem, do capitalismo selvagem, dando Camões como um peão de forças malévolas e um precursor mal avisado do racismo do século XXI.

Por que não? As redes sociais andam cheias deste tipo de sondagens.

Vou terminar, contando uma história verdadeira, de que tomei conhecimento, no meu tempo de estudante de engenharia. Vivia na Avenida Guerra Junqueiro, muito próxima do Instituto Superior Técnico. Frequentava então uma Pastelaria Mexicana, que ainda existe, a qual era também frequentada por um ideólogo da esquerda dura, obcecado com a ideologia e com Marx. Conta-se que, na sua primeira noite de núpcias, quando finalmente se libertou dos amigos e se fechou no quarto com a noiva, depois de se meter na cama com ela, debruçou-se carinhosamente sobre a amada e perguntou-lhe: “Você já leu O CAPITAL, de Karl Marx?” Consta que o casamento durou poucos dias e até se percebe porquê. Aquela pergunta cabia tanto naquela circunstância, como o racismo cabia no imortal soneto de Camões. 

Eugénio Lisboa

domingo, 13 de agosto de 2023

LUA AZUL

Minha coluna no último JL:

A 31 de Agosto vai haver uma «Lua Azul». Não significa isto que a Lua mostre quaisquer tons de azul (embora haja relatos de visões de uma lua azulada, em casos de grandes erupções vulcânicas), mas trata-se da designação dada, pelo menos desde que a revista Sky & Telescope a popularizou em 1946 num artigo intitulado “Once in a Blue Moon”, à segunda lua cheia no mesmo mês. Portanto, uma lua azul é sempre uma lua cheia, a fase que ocorre quando a Terra está entre o Sol e a Lua e que proporciona o maior luar. No dia 1 de Agosto passado houve uma lua cheia e, passados 30 dias, haverá outra. 

A ocorrência de duas cheias no mesmo mês é relativamente rara. Nunca pode ocorrer em Fevereiro, por não haver dias suficientes (por vezes não há sequer uma lua cheia em Fevereiro) e, para que ocorra num certo mês, é necessário que haja lua cheia logo no início. A última Lua Azul foi a 31 de Outubro de 2020 e a próxima será só em 31 de Maio de 2026. 

Como o ciclo lunar (tempo entre duas luas cheias) tem 29,53 dias, em cada ano, que dura 365,24 dias, cabem 12,37 ciclos lunares. O resultado não é um número redondo porque os tempos das revoluções da Terra em volta do Sol e da Lua em volta da Terra não são exactamente divisíveis. A situação normal é haver 12 ciclos num ano (as fases da Lua estão na base do estabelecimento do mês como unidade do calendário), e, portanto, 12 luas cheias por ano, mas, devido ao excesso de 0,37, em cada 2,8 anos, em média, ocorrem 13 luas cheias no ano. É o caso do ano de 2023 e será também o caso de 2026, A Lua Azul seguinte ocorrerá numa data curiosa: 31 de Dezembro de 2028. Teremos de esperar mais de cinco anos.

As duas luas cheias deste Agosto foram luas cheias especiais, chamadas «superluas», o nome que se dá à lua quando ela está mais próxima da Terra no seu movimento elíptico em volta da Terra e a lua nos aparece ligeiramente maior (cerca de 14% maior). A órbita da lua é praticamente circular, com um raio de cerca de 384,472 mil quilómetros, o que significa que a luz do luar (que é a luz do Sol reflectida pela Lua) demora pouco mais de um segundo a chegar à Terra. A distância de 384 000 quilómetros é aproximadamente a distância percorrida por um automóvel ao longo do seu tempo de vida. Se uma viatura automóvel viajasse à média de 100 quilómetros por hora pelo espaço, demoraria, portanto, 3840 horas, isto é, 160 dias, pouco mais de cinco meses na viagem da Terra à Lua. As naves espaciais demoram, contudo, apenas alguns dias, bastante menos, pela simples razão de serem movidas por foguetes. O facto de a órbita lunar ser elíptica em vez de circular faz com que o nosso satélite natural tenha uma posição mais próxima da Terra (perigeu) e outra mais longe (apogeu), a primeira a pouco menos do que 384 000 quilómetros e a segunda a pouco mais. A maior proximidade da Terra causa uma maré mais alta. Pululam superstições sobre a sua ligação a outros fenómenos, como terramotos e erupções vulcânicas, mas não passam de mitos. 

O nome «superlua» só surgiu nos anos de 1970, dado por um astrólogo. Em contraste com as Luas Azuis, as superluas são relativamente frequentes: antes da do dia 1 de Agosto tinha havido outra em 3 de Julho e, depois da de 30 de Agosto, haverá uma outra em 29 de Setembro. De facto, chama-se «superlua» mesmo quando a Lua não está exactamente no perigeu, mas apenas nas proximidades dele. Das 12 ou 13 luas cheias em cada ano, três ou quatro podem ser classificadas como superluas. A sobreposição Lua Azul-superlua que vai ocorrer em 30 de Agosto próximo não é frequente: só voltará a acontecer em Agosto de 2032. Quem não vir agora,  terá de esperar quase uma década.

Em inglês Lua Azul diz-se «Blue Moon». A expressão «once in a Blue Moon» significa “raramente”. Para falar com inteira propriedade devia ser de três em três anos… Mas a dita expressão significa “quase nunca”. «Blue Moon» remete-nos imediatamente para o mundo da música. Com efeito,  esse é o título de uma canção dos compositores norte-americanos Richard Rodgers (1902-1979), autor da música, e Lorenz Hart (1895-1943), autor da letra. Toda a gente se lembrará da melodia e do poema, que começa por falar da solidão (“Blue moon/ You saw me standing alone / Without a dream in my heart/ Without a love of my own”) para acabar no encontro amoroso (“Blue moon/ Now. I’m no longer alone / Without a dream in my heart / Without a love of my own.”).

Escrita em 1933 inicialmente para o filme Hollywood Party, mas depois retirada, “Blue Moon” tornou-se, com a versão de 1934, uma canção clássica, uma das mais conhecidas do século XX. Foi cantada por grandes artistas como Billie Holiday, Elvis Presley, Frank Sinatra, Bob Dylan e Cliff Richard. Amália Rodrigues também a cantou, tendo sido incluída no seu álbum “Amália na Broadway” (1984). Na cultura popular, essa canção já apareceu em filmes musicais como Grease (1978), com John Travolta e Olivia Newton-Jones. E também apareceu nos filmes At the Circus (1939), dos irmãos Marx, e Apollo 13 (1995), com Tom Hanks, que conta a história na nave enviada à Lua pela NASA que teve de voltar sem cumprir sem alunar. “Blue Moon” é ainda o hino do Manchester City, campeão inglês e europeu, equipa que costuma jogar com equipamento azul.

Em breve haverá o regresso do homem à Lua. O programa Artemis da NASA, sucessor do programa Apollo (Artemis é irmã de Apolo na mitologia grega), está em curso, após ter sido lançada com êxito no ano passado a Artemis 1. A Artemis 2, levando astronautas para uma órbita lunar, será lançada em Novembro de 2024, estando a tripulação já escolhida: inclui uma mulher. 

A próxima alunagem está prevista para 2025 e é possível que também tenha participação feminina. Curiosamente, o nome «Blue Moon» foi dado a um dos aterrissadores que irá descer na Lua. Foi recentemente celebrado um contrato da NASA com a empresa Blue Origin, de Jeff Bezos (o fundador da Amazon), para a construção de um módulo lunar com capacidade para quatro astronautas que deverá começar a funcionar com a Artemis 5, planeada para 2029. Na próxima sobreposição de Lua Azul com uma superlua pode bem ser que haja uma «Blue Moon» pousada na Lua…

sexta-feira, 11 de agosto de 2023

DIZ-ME O QUE LÊS, DIR-TE-EI QUEM ÉS

Por Eugénio Lisboa
Na literatura, como no amor,
ficamos admirados com 
as escolhas que os outros fazem. 
André Maurois

Temos sempre curiosidade de saber o que os outros, em especial, os nossos amigos ou simples conhecidos, andam a ler. Como se, a partir de aí, pudéssemos ficar a conhecê-los melhor. Ou por simples curiosidade, sem segundo sentido. Seja como for, temos frequentemente grandes surpresas. De algumas dessas escolhas, partilhamos, outras deixam-nos simplesmente perplexos. 

Vejo constantemente, nos jornais, questionários dos mais variados formatos, nos quais acaba por aparecer a inevitável pergunta “quais os seis ou os dez livros que o marcaram” ou “quais os personagens de ficção que mais o impressionaram”. As respostas, na maioria dos casos, são, no mínimo, inquietantes, não pelo que indicam de leituras feitas, antes pelo que indiciam de leituras, mais do que provavelmente, não feitas. Outras vezes, as respostas – as menos interessantes – revelam apenas um exibicionismo provinciano, como o caso do entrevistado que dá, como personagem de ficção que mais o marcou, o Bloom, do ULISSES, de James Joyce! Como se alguém pudesse acreditar em tal tolice! Como se Joyce tivesse jamais pretendido ou conseguido criar qualquer verdadeiro personagem de ficção! Muito menos, um personagem minimamente atraente! Como se, de uma tão rica panóplia de gente ficcional propiciada pelas grandes literaturas de todos os tempos, alguém se pudesse lembrar de Bloom, como seu personagem preferido!

Mas o que verdadeiramente me surpreende e não pouco me inquieta são certas escolhas, não só por se referirem a obras mais do que insignificantes, como, sobretudo, por dizerem respeito apenas a obras publicadas nos nossos dias: como se o riquíssimo passado não existisse. Como se a literatura tivesse começado ontem ou anteontem. Quando se interroga toda uma coorte de notáveis da nossa praça, acerca de poetas preferidos, fica-se com a ideia perturbante de que a poesia portuguesa começou com a Sophia: antes dela, nada houve a assinalar. 

Eu tive e tenho ainda hoje um grande problema: tento acompanhar, o melhor que sei e posso, a literatura do meu tempo, mas sempre com a angústia de estar a ignorar uma obra-prima do passado, que ainda não tenha visitado. É talvez isto mesmo que se reflecte no atrevido aforismo do conhecido ensaísta e moralista francês, Joseph Joubert (Século XVIII/XIX), quando diz: “O pior que há nos livros novos é impedirem-nos de ler os velhos.” 

Não se diga que é reacionarismo, porque não é. Quantos nunca tiveram, por exemplo, o prazer de ler essa extraordinária obra-prima do romance psicológico e autobiográfico, que é o ADOLPHE, de Benjamin Constant, ou essa perturbante descida aos abismos da condição humana, que é A CONFISSÃO DE STAVROGUINE, de Dostoiewsky, por não quererem perder a última novidade, de que "se“fala”. 

Quantos nunca leram o sábio, cândido e eternamente saboroso Montaigne, por causa da premência que faz um best-seller aparecido na semana passada. Eu sei que a tentação é grande, porque eu próprio a sinto. Mas há que encontrar um “equilíbrio delicado” entre as riquezas do passado e as do presente. A pólvora foi inventada pelos chineses, há muitos séculos, e não por qualquer moderno aprendiz de feiticeiro.

Eugénio Lisboa

quarta-feira, 9 de agosto de 2023

UM TRISTÍSSIMO ARGUMENTO

A autarquia de uma mega-cidade, a maior de um certo país democrático, contratualizou várias empresas para instalarem "20 mil câmaras com tecnologia de reconhecimento facial" (ao que parece outras autarquias já haviam feito). A justificação já se adivinha: "combater a criminalidade". O negócio é de muitos milhões, mais agora, à partida, menos em continuidade.

Imagem colhida aqui.
Entre os locais seleccionados estão as escolas situadas em contextos sociais degradados e problemáticos. Uma notícia destas não pode deixar de fazer pensar na diferença que fariam os milhões se fossem investidos na educação escolar, mas não em qualquer uma; naquela que é proporcionada em contextos sociais privilegiados.

Não é, porém, esta questão que surge na comunicação social, ainda que nela conste (e bem) a que se afigura mais óbvia e urgente: o direito à privacidade, posto em causa com o armazenamento, recolha e escrutínio de dados pessoais (incluindo dados biométricos), com recurso à dita "inteligência artificial", por entidades, em primeira instância, privadas:
"câmaras vão comparar as imagens gravadas com as bases de dados de pessoas procuradas pelas forças de segurança e enviar um alerta quando houver uma correspondência de 90% nos traços faciais. As imagens serão primeiro analisadas por um comité operacional do programa de vigilância e depois enviadas, se necessário, para a polícia."
Sendo a "cor da pele" considerada em qualquer documento de teor ético como "dado sensível" (uma vez que essa característica não é neutra, pois tendemos a discriminar, positiva ou negativamente, os outros em função dela), a autarquia em causa comprometeu-se a deixá-la de fora. Mesmo que assim seja, a cor da pele é associada a outras características fisionómicas que serão captadas pelo mecanismo. Não há como fugir a este e a outros problemas que ele suscita. É uma caixa de Pandora que se abre quando se permite a sua instalação. Mas nessa caixa, lembremo-nos, está a "esperança", não aquela que se declara resignada, antes aquela que não se conforma.

No caso, foram vereadores e diversas organizações que, não se conformando, apresentaram queixa ao Ministério Público procurando impedir o processo. Parecem não confiar no tristíssimo argumento que, sendo usado reiteradamente, foi replicado pelo presidente da autarquia: "aqueles que não fizeram nada contra a lei podem ficar tranquilos".

Como disse acima, esta notícia não se reporta ao nosso país, mas devemos pensar nela pois, além de dar conta do estado do mundo, poderemos, mais tarde ou mais cedo, ter o mesmo problema em mãos, ainda que a União Europeia esteja atenta ao assunto e a trabalhar nele.

Ver a notícia aqui.

A LINGUAGEM CRÍTICA E A LINGUAGEM ORACULAR

Por Eugénio Lisboa

O comunismo, como todas as religiões reveladas,
é largamente feito de profecias.

H. L. Mencken 

O que o grande humorista americano disse do comunismo pode também dizer-se de muita linguagem alegadamente crítica, que grassa em meios intelectuais, dentro e fora das universidades. Em vez de uma prosa lavada, escorreita e isenta de miasmas oraculares, uma prosa que visa iluminar e não obscurecer, temos, frequentemente, um delírio obscurantista, que tenta iluminar um quarto escuro, apagando a luz e mergulhando-o numa triunfal escuridão. 

A prosa de Agustina é muitas vezes – demasiadas vezes – desta natureza obscurantista, sibilina, fazendo supor grandezas abissais, onde se encontra apenas o delírio do arbitrário. E o escrever sobre Agustina convoca, um igual número de vezes, uma prosa crítica que nada ilumina, antes obscurece mais o já de si obscuro. Também se chama a isto “linguagem”. Eu prefiro pensar que a linguagem serve para esclarecer e não para confundir. 

Como dizia António Sérgio, com aquela intrépida inteligência que ainda hoje lhe não perdoam os cultores e amantes da prosa arrebicada, um eclipse do sol é uma obscuridade, mas a explicação científica de um eclipse deve ser uma claridade. 

Um bom professor deve ser um senhor que esclarece e não que obscurece. Os grandes e lendários professores, como Ortega y Gasset ou Bergson, enchiam as suas aulas até à rua, com a sua linguagem lavada, despretensiosa e sedutora. Por outras palavras, enchiam as salas e as almas de luz. 

Quando deparo, por todo o lado, com fraseado delirante que aspira a frenesi mais ou menos oracular, desanimo, quanto ao futuro do milieu intelectual lusíada. Ainda hoje, num artigo dedicado ao centenário do grande poeta Mário Cesariny, num prestigioso diário lisboeta, leio isto e empalideço: 
“Quando olhamos as suas pinturas, sabemos que há nelas um segredo sagrado e uma potência electromagnética que as torna ímanes do Deus desmedido que apenas se aproxima de nós – e existe – naquelas cores que o fazem nosso ou naquelas formas que o fazem dele.”
Se, a partir deste arrazoado frenético e epilético, alguma coisa se fica a saber da pintura de Cesariny e do que nela podemos encontrar, agradeço o favor de mo explicarem, mas em linguagem que me não ponha a mim epilético. 

Cada vez mais a linguagem crítica prevalecente anda mais preocupada com espanejar-se, “criativamente”, do que com esclarecer empenhadamente o objecto estudado. Em tomar de assalto o palco que, de direito, lhe não pertence.

Pede-se humildade: entender e fazer entender. Acrobacias parolas de linguagem não ajudam.

Eugénio Lisboa

segunda-feira, 7 de agosto de 2023

Ainda o projeto MAIA ou os novos Pavlovs de uma escola funcionalista

Por Carlos Fernandes Maia

Se o público dos meios de comunicação social não precisasse das notícias de desgraças e defeitos dos outros para se abstrair dos próprios, poderia haver espaço para notícias de atos de independência e heroicidade que todos os dias acontecem. Na verdade, o equilíbrio mais ou menos estável de uma sociedade como a portuguesa pode justificar-se em grande parte porque a maioria dos seus membros não se deixa corromper nem pretende fazê-lo. 

É evidente, claro, que uma outra justificação desse equilíbrio assenta na contenção que os dispostos a perpetuar a corrupção apresentam esperando a sua vez de serem corruptos ou de se deixarem vantajosa-mente corromper – o que explica a manutenção desse cancro social e ético. A corrupção, como a ferrugem, pode surgir por uma certa inadvertência ou desleixo; mas também pode derivar de uma propensão para afirmar uma supremacia injustificada ou mesmo um temperamento favorecedor de inflação ou deflação no auto conceito. A origem psicológica destes dois aparentes opostos é a mesma: a incapacidade de adquirir por mérito, esforço ou persistência próprios o que faz falta ou aquilo que razoavelmente é bom e digno aspirar. 

Um modo mais corrosivo socialmente de corrupção é a expansão de uma ideologia de indiferença axiológica ou, pior ainda, de desvalorização ou até negação das qualidades humanas que possam acrescentar dignificação pessoal e social. 

Com todas as limitações ou até defeitos, a escola em moldes de classes de aula estendida a todo um território foi o modo mais eficaz de tornar os seus cidadãos com perspetivas de futuros melhores e exigência de progresso no aperfeiçoamento do ser humano. Mesmo a escola mais elitista e doutrinadora acabou por gerar contestação ao modelo e conteúdos publicitados e ocasionou a evolução de conteúdos, métodos e relações. O que não tem exemplo histórico é a procura de degradação da escola para se conseguirem os objetivos supra mencionados.

Parece, portanto, que a atual desvalorização da escola, a pretexto de um igualitarismo ou falsa integração democrática só serve para enganar quem não tem capacidade para atingir um grau cultural elevado e se contenta – ou até compraz – com ser rei numa terra de cegos, tendo só um olho. O sistema educativo que negue o acesso à escola por razões (injustas) de raça, sexo, religião ou outros afins é iníquo para os rejeitados e prejudicial à sociedade. Mas o sistema aberto a todos que igualitariza pela mediania ou pela inferioridade os seus frequentadores é também iníquo: negar a quem pode correr a disposição para aumentar a velocidade porque há pessoas que não correm do mesmo modo é tão iníquo como impedir estes de aceder a uma atividade desportiva em que possam brilhar. 

Ao longo da história, a constante inalienável da educação fez surgir propostas mais ou menos diversas para a sua concretização formal. O direito universal à educação, como antes a criação das escolas palacianas e depois as escolas democráticas foram propostas benignas. Outras houve de menor alcance, mas bem intencionadas, como as propostas de Pestalozzi e Montessori, ou as experiênciais das escolas autogestionárias. Até a visão de uma sociedade desescolarizada de Iven Illich pode ter razão de ser no sentido de aproveitar ao máximo as ‘disposições’ ou potencialidades dos educandos e não limitá-los a uma formação uniformizada.

O projeto «Monotorização, Acompanhamento e Investigação em Avaliação Pedagógica» – divulgado com a sigla MAIA – apresenta-se, como tantos outros anteriores, de mais ou menos curta duração e de maior ou menor impacto com preocupações de qualidade e justiça. Na verdade, há nele duas linhas orientadoras que têm sido assinaladas: pretende uma inclusão pela perda de qualidade; e impõe aos professores atitudes, materiais e formulações burocráticas em que a vertente classificativa teoricamente negada é a que sobressai na prática. 

O projeto começa logo por retirar da sigla o P final. De facto, ao contrário do que afirma, trata-se de um método de estandardização da classificação, aplicável a qualquer situação de emprego, especialmente de produção em série. Quem foi e é verdadeiramente professor sabe que muitas vezes ‘dá uma nota’ positiva a um aluno pelo esforço manifestado e algum progresso conseguido e não por ter atingido o nível equivalente a essa ‘positiva’. Isso é avaliar.

O que o MAIA faz é classificar, partindo, inclusive e erradamente, de um material uniformizado que nem a qualidade do ‘livro único’ tem. O meu ‘livro único’ de história era do Professor José Mattoso! 

Se há exemplo de um ato falhado freudiano, a falta do P na sigla é um deles. Uma pincelada de ironia pela mania de traduzir tudo em inglês poderia levar-nos a pensar que o projeto deveria ser antes My up (mai+ap). Na realidade, reproduzir um arquétipo de relação, método e conteúdos nunca ensaiados e desvalorizando o saber constituído só promove um professor que não tem formação ou criatividade, quem não experienciou verdadeiramente o que é ser ‘educador’.

Antes de me inteirar do que se tratava, pensei que MAIA se referisse à ninfa Maia, a mãe de Hermes. Mensageiro, Hermes, era, segundo Esopo, um endiabrado sempre a pregar partidas. Mas sem ferir a dignidade – apesar de também ser deus dos ladrões, o que o professor deve fazer em relação à ignorância dos alunos. E a sua mãe fez por merecer a confiança de Zeus, pai de Hermes, mas também da mulher do chefe dos deuses, Hera. Quando digo que Maia gerou alguém que era mensageiro dos deuses não atribuo ao professor, como é evidente, o papel e a infalibilidade dos que estão acima dos homens; mas ele, qual Hermes, deve ter a capacidade de anunciar o melhor, o mais diverso e o mais propício aos destinatários; não a fação política governante, as empresas, os grupos financeiros ou os lobbies de um qualquer quadrante ideológico. 

O projeto de que falo faz dos educandos novos cães condicionados por Pavlovs que não põem a hipótese sequer de o cão precisar de outra comida e, sobretudo, de lhe propor comida diferente para ele salivar ao imaginar uma terceira. Se a escola e a sociedade em geral não transmitirem o mais rápido, fácil e globalmente a cultura disponível, estamos a negar a muitíssimos educandos a oportunidade da sua realização; e a limitar essa possibilidade só para os dotados por natureza biológica ou social. 

Negar uma escola de grande qualidade a todos, com vista a uma generalização da elite, é defender uma escola sectária – embora o não pareça no imediato, por não se apoiar em critérios eletivos de crença, raça, género ou origem social. 

A escola é um local – ou, antes, instituição – de ensino e de aprendizagem, de sociabilização e de trabalho, de formação pessoal e social, e de estímulo ao aperfeiçoamento possível – pela superação de limitações, desperto de potencialidades e proposição de novas metas válidas.

Carlos Fernandes Maia

SOBRE A MINHA POUCA IMPORTÂNCIA

O que é ser e o que é não ser?
Haverá, então, alguma diferença?
Meu ser fez a galáxia estremecer?
Pra luzir, ela pede-me licença?

Que peso tem, na galáxia, meu ser?
Que peso tem minha insignificância?
Fez alguma diferença o meu nascer?
Trouxe significado e importância

eu ter nascido e ter tido infância?
O mundo, sem mim, seria pior?
Trouxe comigo alguma concordância?

Ou tornou-se o mundo melhor?
Eu, quanto mais penso, menos existo 
e, não existindo, fico-me nisto. 

Eugénio Lisboa

sexta-feira, 4 de agosto de 2023

MODOS DE MORRER ou NEM TODAS AS MORTES SÃO SUAVES OU GLORIOSAS

Por Eugénio Lisboa

Depois de uma vida gloriosa, de poeta, dramaturgo, romancista ou filósofo, seria de justiça uma boa morte, cheia de luz e serena ou dramática beleza. Infelizmente, os deuses são, por vezes, estupidamente brincalhões e acabam por não ter graça nenhuma. 

Vejamos só alguns dos muitos exemplos que há. Dou também o exemplo de Mark Twain, por ser muito curioso, embora, neste caso, o desejo do autor tenha sido satisfeito e tenha tido uma morte muito interessante. 
O poeta grego Anacreonte morreu, engasgando-se numa semente de uva. 
O poeta grego Terpander encontrava-se a cantar uma das suas canções, quando alguém lhe atirou um figo, que lhe foi entupir a traqueia. Morreu engasgado, o que é totalmente desajustado a quem sempre viveu da palavra e para a palavra. 
Luciano “O Blasfemo” morreu à boca raivosa de uma matilha de cães, diz-se que devido à sua irreverência religiosa. 
O grande dramaturgo grego Eurípedes também morreu retalhado por cães raivosos, embora haja quem opte por outra versão: teria morrido às mãos de um colectivo de mulheres furiosas, devido a uma das suas peças de teatro. 
Heráclito teve uma morte mal cheirosa, quando se cobriu com excremento de vaca, para se aquecer e secar. 
O conhecido historiador grego Políbio morreu aos 82 anos, por ter caído desastradamente de um cavalo. 
O dramaturgo Menandro, nadando no Pireu, teve um ataque de caimbras e morreu afogado. 
O escritor romano Lucrécio endoideceu por ter tomado um afrodisíaco e suicidou-se. 
Depois de ter escrito um tratado sobre os prazeres do palato, o poeta romano Quintus Ennius morreu de gota.
O poeta chinês Li Po (c. 700-762) caiu de um barco e afogou-se, quando tentava beijar o reflexo da lua na água. 
O dramaturgo e poeta Ben Jonson (1572-1637) disse que queria ser enterrado “de pé”. O rei James I tomou-o à letra e Jonson encontra-se enterrado de pé, na Abadia de Westminster. 
Molière morreu poucas horas depois de ter representado o papel de um hipocondríaco. Durante a peça, cuspiu sangue, mas continuou galhardamente a representar. A peça era sua e intitulava-se LE MALADE IMAGINAIRE. 
O grande poeta russo Alexandre Pushkine morreu, como se sabe, em duelo. 
Também morreu em duelo outro poeta russo, Lermontov, que, inspirado por Pushkine, escrevera o poema SOBRE A MORTE DE UM POETA. 
O grande romancista inglês, William Thackeray, autor, entre outros romances, de A FEIRA DAS VAIDADES, morreu por ser glutão. 
O grande ficcionista e humorista americano Mark Twain nasceu em 1835, ano em que apareceu o cometa Halley e morreu, tal como previra e desejara, quando o cometa reapareceu em 1910. Entretanto, escrevera: “Será o maior desapontamento da minha vida, se eu não me for embora com o cometa Halley. Tenho a certeza de que o Altíssimo disse: ‘Ora aqui estão dois irresponsáveis malucos: apareceram juntos, devem desaparecer juntos’.” 
O poeta revolucionário russo Sergei Esenin (1895-1925) cortou os pulsos, escreveu um poema com o seu próprio sangue e, depois, enforcou-se.
Eugénio Lisboa

quarta-feira, 2 de agosto de 2023

EÇA NO PANTEÃO NÃO TEM ADESÃO

 Por Eugénio Lisboa

Somos um país de modas mais ou menos efémeras. De vez em quando, descobrimos uma moda nova e pomo-la de serviço, sem rei nem roque. 

Durante décadas e décadas, ninguém se preocupou com o Panteão, nem sequer se lembrou de que ele existia. Mas quando alguém se lembrou dele, já nem sei a propósito de quê ou de quem, o Panteão passou a ser o prato de arroz doce de todos os banquetes culturais. Estar ou não estar no Panteão, eis a questão. Quando uma personalidade de algum destaque cultural, científico, desportivo, militar ou político morria, aqui d’El-Rei que deve ir para o Panteão. À falta de melhor manjar, a comunicação social pegava neste e os opinantes ganhavam o dia. Tema qualquer serve, como diria a grande Irene Lisboa. 

Propunha-se levianamente despachar para aquele sítio feioso e pouco acolhedor os restos mortais de alguém, sem realmente se ter em conta se esse teria de facto sido um desejo do falecido ou dos seus próximos, em representação dele. Ora não é difícil supor que um Pascoais preferiria, de longe, ficar no Marão, um Régio, em Vila do Conde, um Ferreira de Castro, em Ossela ou Sintra, um Camilo, em S. Miguel de Seide ou Porto, um Torga, em S. Martinho de Anta e um Eça, em Tormes. Isto, para dar só alguns exemplos.

Se a autorização final deve caber ao Parlamento, a iniciativa da trasladação deve competir aos familiares, em consulta com os conhecedores profundos da obra e das idiossincrasias do falecido. 

Pensar que o Panteão é o desejo ardente dos notáveis é ignorar o enorme poder de atracção que outros locais, carregados de magnetismo emocional, possam ter tido para o ilustre falecido. Por exemplo, ser enterrado na terra natal, ou na terra em que se foi feliz ou junto do companheiro ou companheira de toda uma vida. Tais sítios são pólos de atracção muito mais poderosos do que um Panteão álgido, hostil e escassamente visitado. 

Um Panteão, perdoem-me a franqueza rude, é mais um depósito pouco atraente do que um lugar aprazível, para final de percurso. A grande maioria dos grandes de França não se encontram sepultados no Panteão, estão no Père Lachaise ou noutros cemitérios onde preferiram ficar sepultados.

Esta gritaria recente, para se enviar Eusébio, Amália, Sophia, para o Panteão, faz parte do nosso irredimível provincianismo, que não é capaz de ver para além de falsos cenários. Em Portugal, quando verificamos TODAS as personalidades de alto relevo, que nunca tiveram lugar no Panteão Nacional, apetece mesmo lá não estar. 

A anunciada e próxima futura trasladação dos restos mortais de Eça de Queirós para o Panteão Nacional é uma perfeita aberração e, ao que sei, não obteve a devida aprovação de quem de direito. Foi uma ideia oportunista e provinciana de alguém que é hoje ministro e que provavelmente conhece mal a obra e a personalidade do autor de O CRIME DO PADRE AMARO, mas conhece bem a arte de se tornar visível, à boleia de uma péssima ideia. 

No Panteão de Paris, estão apenas os restos mortais de 75 personalidades, e a esmagadora maioria dos grandes escritores franceses não está lá. Dos escritores do século XX está lá só UM, André Malraux, e não estão lá Anatole France, André Gide, Marcel Proust, Henry de Montherlant, Romain Rolland, Paul Valéry, Paul Claudel, Colette, Georges Duhamel, Roger Martin du Gard, François Mauriac, Julien Green, Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Albert Camus, Aragon, Jean Giraudoux, Marcel Aymé, Maurice Barrès, Antoine de Saint-Exupéry, Jean Anouilh, Raymond Queneau, Jacques Prévert, Jules Supervielle, Saint-John Perse, Jean Giono, Georges Simenon, etc. 

NÃO ESTAR no Panteão está portanto longe de ser uma humilhação ou apenas razão de melancolia. Digamos que a melhor companhia até está cá fora e é cá fora, em Tormes, que Eça deve ficar. E ficará muito bem: estou certo de que assim o diria, se pudesse falar. 

Eugénio Lisboa

Rushdie e a decência humana

Imagem recolhida no jornal El País : aqui Depois de Segunda Grande Guerra, o Ocidente declarou "nunca mais": nunca mais à destruiç...