"Qualquer coisa vem imperceptivelmente acontecendo ao ensino da Filosofia no Secundário que é talvez mais preocupante do que se pode crer (...). Assim se apaga lentamente, sem barulho, uma disciplina (...).
Porquê este menosprezo pela Filosofia? Uma certa corrente de opinião considera-a inútil, improdutiva, um luxo dispensável. Numa sociedade pragmática (no mau sentido) em que o valor e a pertinência de uma actividade se medem cada vez mais pelo critério exclusivo da produtividade económica, a Filosofia aparece como a disciplina menos necessária, mais vã e mesmo, para alguns, nefasta, porque perturbadora do funcionamento controlado da "sociedade do conhecimento". Pois não é certo que nem conhecimento produz? Não são os filósofos os primeiros a afirmar que a filosofia não tem nem objecto nem finalidade precisas? Abaixo, pois, a Filosofia — a religião substitui-a plenamente e com proveito para a boa ordem social (...).
Sobre aqueles que desprezam o ensino da Filosofia por ser inútil, direi que mesmo do seu ponto de vista se enganam redondamente: por exemplo, sabe-se que o ensino da Filosofia para crianças abre extraordinariamente as competências dos alunos na aprendizagem das outras disciplinas. E, porque é inútil, a Filosofia alarga o conhecimento, estabelece pontes novas entre domínios científicos diferentes, proporcionando a criação de novos objectos e novas disciplinas. O trabalho do conceito é um trabalho de criação, e a Filosofia é, antes de mais, criação de pensamento. Daí as suas repercussões, da política ao design — atravessando toda a cultura, a arte e o conhecimento; assim como na ética e prática da democracia. Daí a sua importância (reconhecida em vários dossiês da UNESCO) para a educação da cidadania (...).
"Sem a música, a vida seria um erro", escreveu Nietzsche. Extrapolando: "Sem a Filosofia, a vida seria um erro."
O texto integral pode se lido aqui.
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quarta-feira, 10 de março de 2010
A formação da linguagem artística e a filosofia
Em entrevista, na rádio, ao princípio da manhã, disse que a docência lhe proporcionou múltiplas oportunidades de "pensar com...". São essas oportunidades, essência do ensino e da aprendizagem, que é preciso perguntar se estamos, de facto, a preservar. Sobre o assunto deixamos o extracto de um texto deste filósofo.
segunda-feira, 22 de junho de 2009
O QUE É A BELEZA?

Informação recebida da editora Guerra e Paz:
Dos prados às pessoas, de Safo ao canto das aves, a beleza tem seduzido e confundido a humanidade. Platão viu a beleza como o objecto do desejo e uma porta de entrada no transcendental. S. Tomás de Aquino viu-a como um atributo do Ser e uma dádiva de Deus.
Mas a beleza também pode ser perigosa, como a de Carmen, perturbante, como a do David de Miguel Ângelo, ou até imoral, como a da música de Strauss quando Salomé beija a boca inerte de João Baptista.
O que queremos dizer exactamente por «beleza» e que lugar deverá ela ocupar nas nossas vidas? Nesta obra directa e estimulante, Roger Scruton alega que a beleza tem tanta importância quanto a que Platão lhe atribuía e que ela não deve ser vista como um mero sentimento subjectivo daquele que a contempla.
Pelo contrário, a beleza é fundamental para uma vida bem vivida e o mundo não seria um lugar aprazível sem o interesse generalizado que ela desperta.
"Durante mais de 30 anos, Roger Scruton foi um eloquente admirador da beleza vulgar. O seu novo livro constitui um lúcido e elegante compêndio das suas reflexões sobre a estética do quotidiano: sobre as escolhas que envolvem, como ele diz, o pôr da mesa, a arrumação do quarto ou a construção de um website." (Prospect)
A beleza pode ser consoladora, perturbadora, sagrada ou profana; pode revigorar, atrair, inspirar ou arrepiar. Pode afectar -nos de inúmeras maneiras. Todavia, nunca a olhamos com indiferença: a beleza exige visibilidade. Ela fala -nos directamente, qual voz de um amigo íntimo. Se há pessoas indiferentes à beleza é porque são, certamente, incapazes de percebê-la.
No entanto, os juízos de beleza dizem respeito a questões de gosto e este pode não ter um fundamento racional. Mas, se for o caso, como explicar o lugar de relevo que a beleza ocupa nas nossas vidas e porque lamentamos o facto – se disso se trata – de a beleza estar a desaparecer do nosso mundo?
Sobre o Autor: Roger Scruton
Filósofo britânico nascido em 1944, Roger Scruton é também jornalista, professor, escritor e compositor. Autor de mais de 30 livros, amplamente traduzidos, é um dos mais brilhantes e polémicos pensadores da actualidade. Os seus textos são muitíssimo abrangentes, abarcando temas como a filosofia, o sexo, a política, a estética, a caça ou a arquitectura. Para além de diversas distinções académicas, foi condecorado pelo presidente Vaclav Havel pelos serviços prestados ao povo checo na resistência à opressão comunista.
Publicou na Guerra e Paz: O Ocidente e o Resto (2006) e Guia de Filosofia Para Pessoas Inteligentes (2007).
Visite o site do autor www.roger-scruton.com
Tradução: Carlos Marques
200 Páginas, Colecção: A Ferro & Fogo, 16,65 €
Nas livrarias a partir de 25 de Junho
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quinta-feira, 23 de outubro de 2008
Introdução à Estética, de George Dickie
Espero que o livro seja útil para estudantes e professores de filosofia, assim como para artistas e críticos de arte, e pessoas interessadas em arte. É uma obra ideal para preparar uma boa cadeira semestral numa universidade, podendo ser complementada com a bibliografia primária que Dickie discute ao longo do texto, de Platão a Goodman.
segunda-feira, 13 de outubro de 2008
Filosofia das artes e das ciências
O Carlos chamou a atenção para um livro apetitoso de Maria Helena Santana, e citou passagens que me parecem muito interessantes, por duas razões.
Primeiro, porque a autora parece identificar a ciência com a verificação. Efectivamente, muitas pessoas têm uma noção verificacionista da ciência; não sei se é o caso da Helena. Esta concepção de ciência, penso, está errada e quem o demonstrou foram precisamente os verificacionistas: os positivistas lógicos. Uma concepção diferente da natureza da ciência encontra-se no capítulo com o mesmo título do livro A Última Palavra, de Thomas Nagel. Concordo com o autor que o que conta na ciência e faz dela ciência não é a verificação, mas a justificação — e a justificação por via da verificação é apenas uma das modalidades da justificação.
Segundo, a Helena parece defender que a literatura ou as artes são contribuições significativas para o nosso conhecimento das coisas. Discordo desta ideia; a literatura e as artes dão-nos apenas um conhecimento aprofundado de coisas como estruturas narrativas, cores, formas, estruturas sonoras, etc. Não encontro na arte quaisquer ideias sofisticadas sobre assuntos como o sentido da vida, a natureza da realidade ou do pensamento, a existência de Deus, etc. A ideia de que há insights fundamentais nas artes sobre estes temas parece-me insustentável.
A posição da Helena parece exprimir uma concepção filosófica interessante da arte: a ideia de que o valor da arte tem de residir no seu contributo cognitivo geral. Isto parece-me insustentável. A arte pode ter valor por outras razões que não as estritamente cognitivas, e mesmo que tenha valor cognitivo, pode ser sobre aspectos muito delimitados da realidade, com os que referi. Ninguém verdadeiramente interessado num qualquer problema relativo à realidade ou ao nosso conhecimento dela fica a saber grande coisa lendo literatura, poesia ou vendo pinturas ou ouvindo música. E por que haveriam as artes de ter de dizer coisas interessantes sobre estes temas?
Note-se que seria na verdade muitíssimo surpreendente que um romancista, um pintor ou um músico pudesse realmente ter qualquer coisa de sofisticado para dizer sobre estes temas, dado que não os estuda sistematicamente como um filósofo ou um cientista. Só a ideia romântica de que os artistas têm um acesso privilegiado à verdade porque foram tocados pelos deuses pode sustentar a ideia de que se encontra na poesia ou na pintura algo de sofisticado sobre a natureza da realidade ou do conhecimento ou qualquer outro tema cognitivamente alheio aos próprios materiais da arte (cores, formas, sons, ritmos, narrativas, etc.). Isto parece concordar aliás com a prática das pessoas, que aparentemente não vão ler romances, ouvir música ou ver pinturas para descobrir se há deuses, qual é a origem do universo ou qual é o caminho da felicidade, mas fundamentalmente para terem um certo tipo de fruição estética que parece ter valor em si, independentemente de as artes terem ou não qualquer papel cognitivo amplo. Penso que esta fruição estética envolve aspectos cognitivos relacionados com o conhecimento de formas, sons, narrativas, etc., mas apenas nesse aspecto há cognição na fruição da arte.
Sobre este e outros temas da filosofia da arte, vale a pena ler este livro.
terça-feira, 15 de abril de 2008
SALVADOR DALI AOS JOVENS PINTORES

Quando era jovem reuni estas máximas de Salvador Dali aos jovens pintores, que ainda hoje uso, e que julgo serem úteis não apenas para os jovens pintores:
1) "Não te preocupes em ser moderno. É a única coisa que, infelizmente, faças o que fizeres, não poderás evitar."
2) "Não temam a perfeição. Nunca chegarão a ela."
3) "Se sois medíocres, mesmo que vos esforceis por pintar muito, muito mal, notar-se-á que sois medíocres".
4) "Pintor. Lembra-te que não és um orador! Pinta e cala-te!"
5) "Se vos recusais a estudar a arte da anatomia, a arte do desenho e da perspectiva, as matemáticas da estética e a ciência da cor deixai-me dizer-vos que é mais um sinal de preguiça do que de génio".
6) "Mal-hajam as obras-primas preguiçosas!"
7) "Começai por desenhar e pintar como os antigos mestres e depois fazei como vos aprouver - sereis sempre respeitados".
8) "A crítica é uma coisa sublime. É apenas digna dos génios".
quinta-feira, 18 de outubro de 2007
Vale a pena ler
Título: O Que é a Arte?Autor: Nigel Warburton
Tradução: Célia Teixeira
Edição: Bizâncio, 2007, 186 pp.
Com a sua habitual clareza e precisão, Nigel Warburton apresenta neste pequeno livro as teorias filosóficas centrais sobre o problema da definição da arte. Aparentemente, todos sabemos o que é a arte; contudo, mal tentamos articular uma definição ou mesmo uma simples caracterização, enredamo-nos imediatamente em dificuldades. Será a arte fundamentalmente expressão de emoções ou vivências? Ou será sobretudo uma linguagem, uma forma significante? Poderá a arte ser realmente definida, ou será um conceito aberto insusceptível de ser definido?
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terça-feira, 5 de junho de 2007
Vale a pena ler
Título: Linguagens da Arte: Uma Abordagem a uma Teoria dos SímbolosAutor: Nelson Goodman
Tradução: Vítor Moura e Desidério Murcho
Editor: Gradiva, 2006
"Como Dewey, Goodman revoltou-se contra o dogma empirista e os dualismos kantianos que compartimentalizaram o pensamento filosófico […] Ao contrário de Dewey, Goodman fornece uma argumentação pormenorizada e incisiva, e mostrou precisamente onde os dogmas e dualismos se desfazem." -- Richard Rorty, The Yale Review
"A diferença entre arte e ciência não é a que existe entre sentimento e facto, intuição e inferência, deleite e deliberação, síntese e análise, sensação e cerebração, concreção e abstracção, paixão e acção, mediação e imediação ou verdade e beleza, mas antes uma diferença de dominância de certas características específicas de símbolos." -- Nelson Goodman
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