Nos últimos anos, diversas universidades públicas portuguesas (deixo as privadas de lado porque não as conheço) redigiram os seus regulamentos disciplinares e... descansaram.
Quer dizer, presumo que tenham descansado, pois do que me é dado perceber, em muitas faculdades e cursos, os comportamentos problemáticos dos alunos, de esporádicos passaram a habituais (ver, por exemplo aqui) e a sua severidade aumentou... Porém, nada de relevante parece acontecer.
A impressão que formei já há algum tempo, e que tenho vindo a reforçar, é a seguinte: quem deve fazer cumprir as normas opta por "assistir ao espectáculo", para evitar problemas de maior, finge que não vê nem ouve, dissimula. Além disso, de tão envolvido que está na convivência conturbada, nem se apercebe do seu agravamento, nem que todos os dias condescende um pouco mais. Isto até deixar de distinguir o que é normal e o que é intolerável nessa convivência
As razões do cenário são muitíssimas e estão bem identificadas na literatura da especialidade, por isso salto esta parte, pois o que me interessa é dizer que, por estes dias, um professor de uma universidade portuguesa, passando por alunos cujo comportamento o inquietou não seguiu em frente, parou e interveio.
Por certo, ele saberia que nada do dissesse iria ser atendido e muito menos acatado pelos alunos, mas, ainda assim, a sua consciência não o deixou avançar. Do que se seguiu, dá conta numa mensagem aberta aos colegas, que foi divulgada na comunicação social, e que se resume em três palavras: manietado, ameaçado e insultado.
Por certo, ele saberá que a divulgação do caso não terá quaisquer consequências para os alunos (ainda que possa ter para si) mas, ainda assim, a sua consciência não o deixou parar. Avançou e contou.
É uma dupla manifestação de coragem (a segunda nada menor do que a primeira) que lhe reconheço e agradeço.
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sábado, 25 de janeiro de 2014
quinta-feira, 1 de novembro de 2012
Aprendizagens experienciais
Volto a um texto que escrevi em Julho passado e a que dei o título Uma caixa de Pandora para dizer que, infelizmente, o que eu conjecturava veio a confirmar-se: o caso do ministro a quem foram reconhecidas competências profissionais capazes de se transformarem numa parte da licenciatura que conseguiu por via aparentemente legal foi apenas e só a parte visível dum iceberg.
De facto muitos, muitíssimos casos estão a vir público. Na notícia que pode ler-se aqui, referem-se oitenta e tal só numa universidade, mas já ouvi falar entre as trezentas e as quatrocentas.
Mas o que é que será legal, certo e moral neste processo?
A avaliar pelos discursos que as próprias universidades - públicas e privadas - adoptam não podemos ter a certeza. A este propósito, consulte-se o programa duma recente conferência internacional intitulada Ensino Superior, Formação ao Longo da Vida e Validação das Aprendizagens Experienciais.
De facto muitos, muitíssimos casos estão a vir público. Na notícia que pode ler-se aqui, referem-se oitenta e tal só numa universidade, mas já ouvi falar entre as trezentas e as quatrocentas.
Mas o que é que será legal, certo e moral neste processo?
A avaliar pelos discursos que as próprias universidades - públicas e privadas - adoptam não podemos ter a certeza. A este propósito, consulte-se o programa duma recente conferência internacional intitulada Ensino Superior, Formação ao Longo da Vida e Validação das Aprendizagens Experienciais.
sábado, 29 de setembro de 2012
Existe indisciplina no Ensino Superior?
Texto composto a partir de um depoimento que me foi solicitado pelo jornal Expresso e que foi publicado na edição do passado dia 15 de Setembro.
Existe indisciplina no Ensino Superior?
Existe, mas sem relativizar o problema, é importante destaca que não é um problema novo nem circunscrito em termos institucionais. Relatos vários (de que os acima reproduzidos constitum xemplos) indicam isso mesmo.
Situando-nos no presente. Se temos muitos estudos sobre a indisciplina no ensino básico e secundário, eles são escassos no ensino superior.
O conhecimento que tenho de diversas faculdades, de Letras e de Ciências, leva-me a concluir que os comportamentos dos estudantes variam de instituição para instituição, de curso para curso, de turma para turma. Uma turma dum determinado ano pode manifestar comportamentos preocupantes e a turma do ano seguinte funcionar bem.
É um problema que merece investigação detalhada para que seja possível compreendê-lo melhor e, em sequência, antecipá-lo, preveni-lo, tanto quanto possível, impedir que se manifeste.
Por outro lado, é preciso investir na organização do ambiente das escolas e das aulas de maneira que seja possível ensinar e aprender da melhor maneira possível. Isto beneficia, obviamente, os estudantes portugueses, mas também os estrangeiros, que tenho visto manifestarem desconforto com o que se passa nas salas de aulas.
Razões do problema?
Por parte dos estudantes, eu indicaria três. Uma é o desconhecimento ou insensibilidade a regras básicas de relacionamento interpessoal e de funcionamento de situações formais como as aulas: falar enquanto o professor ou um colega fala, usar um tom arrogante quando se lhes dirige, atender o telemóvel, entrar e sair da aula, chegar atrasado a exames e achar que isso é normal, não cumprimentar, não pedir licença nem agradecer, são comportamentos que ocorrem. Casos há em que esses comportamento predominam e impedem que as aulas decorram com um mínimo de normalidade.
Outra razão é a falta de conhecimentos básicos e de curiosidade intelectual, sendo que uma coisa está muito ligada à outra. O ensino superior surge naturalmente no percurso escolar, não tendo alguns estudantes feito uma escolha consciente: «pretendo, de facto, prosseguir estudos superiores?», «tenho conhecimentos que me permitem acompanhar esses estudos?». Quando faltam os conhecimentos e a curiosidade muito dificilmente se conseguem acompanhar os raciocínios, realizar as tarefas e a tendência para fazer outra coisa que não acompanhar o ensino deve ser grande.
Outra razão, ainda, é a ideia de que todas as tarefas académicas têm de ser agradáveis, práticas, têm de implicar acção e intervenção dos estudantes. Quando isso não acontece, consideram que não estão a aprender verdadeiramente e derivam a sua atenção para algo mais apelativo...
Da parte das instituições escolares, indicaria as razões que se seguem.
Uma delas, a que me parece mais importante, é não se encarar devidamente o problema desde a entrada na escolaridade básica: antes de se intervir na indisciplina é preciso construir um clima de disciplina: organizar (e separar) tempos e espaços de trabalho e lúdicos, estimular as capacidades dos alunos, proporcionar-lhes desafios adequados mas progressivamente mais exigentes, fazê-los perceber um quadro de valores fundamentais...
Outra razão: as próprias instituições de ensino superior têm deixado ao critério dos professores tudo o que se passa nas suas aulas, alegando que eles são autónomos e responsáveis pelo ensino. Isso é verdade, mas quando os problemas de comportamentos passam de pontuais e ligeiros a recorrentes e muito perturbadores não se resolvendo com uma chamada de atenção, os professores ficam numa situação difícil: sabem que mesmo que apresentem a situação a instâncias superiores, estas podem não ter os instrumentos normativos para lhe fazer face e, mais importante do que isso, temem os juízos que se possam fazer deles: que não sejam suficientemente interessantes e dinâmicos para prenderem os alunos, para estabelecerem uma boa relação com eles... Isto para não falar na avaliação formal a que estão sujeitos. Tudo isto é muito desgastante...
O que se pode fazer?
A abordagem deve ser primordialmente de carácter institucional. Cada escola pode e deve reconhecer que o problema existe. A este aspecto primordial deve associar-se o acolhimento àquilo que os professores e os alunos têm para dizer sobre o assunto, ponderar os casos que ocorrem e procurar soluções. Enfim, fazer tudo o que estiver ao seu alcance para potenciar ambientes calmos e produtivos sob o ponto de vista do ensino e da aprendizagem.
Algumas universidades começam a tomar medidas formais (por exemplo, a Universidade de Coimbra aprovou recentemente o seu regulamento disciplinar e a Universidade de Lisboa está a prepará-lo), que constituem suportes válidos em casos concretos. Porém, e sem lhes retirar importância, há um trabalho fundamental a fazer em termos de investigação e em termos pedagógicos.
[1] Citadoem Harvard Alumni Bulletin de 1 de Maio de 1965, 583 in Sprinthall, N.A. & Sprinthall, R.C. (1993).
Psicologia Educacional: uma abordagem desenvolvimentista. Lisboa, McGraw-Hill, página 528.
[2] Citação de M. R. Coimbra (1991, 330) in José Ramos Bandeira, Universidade de Coimbra, Coimbra, Casa do Castelo, 1947, 2.º vol., página 140. Este Regulamento estava em vigor no século XIX.
“Tarefas detestáveis de manhã: interrogar três alunos que fizeram sinais a mulheres da rua nos terrenos da Universidade numa tarde de domingo; outros dois que assobiaram no corredor, outro que fumou nos terrenos da Universidade. É para isto que eu sirvo?... A vida que agora levo tem de acabar, ou então será ela que acabará comigo (...). O meu tempo completamente tomado durante todo o dia com os mais repugnantes detalhes de disciplina, capazes de pôr qualquer coração doente: fraude, dissimulação, falsidade, comportamento grosseiro, pais e amigos a aborrecer-me o tempo todo e acreditando estupidamente nas mentiras que os seus filhos lhe contam.”
Edward Everett (reitor da Harvard University), Memórias (1846-1849) [1]
“(…) a disciplina escholar dos estabelecimentos litherários [e punir disciplinarmente] os actos de insubordinação. [Essas punições constavam na] reprehensão dada na presença do secretário da Universidade e notada por elle no livro competente com os motivos que deram logar á demonstração; a participação das faltas literárias e moraies aos paies, tutores ou pessoas em quem possa tocar; a preterição na ordem ou procedência dos actos; a detenção em custódia por tempo de um a oito dias; a sahida da cidade por tempo de seiz mezes a um anno; a exclusão perpetua da Universidade.”
Regulamento da Polícia Académica da Universidade de Coimbra [2]
Existe indisciplina no Ensino Superior?
Existe, mas sem relativizar o problema, é importante destaca que não é um problema novo nem circunscrito em termos institucionais. Relatos vários (de que os acima reproduzidos constitum xemplos) indicam isso mesmo.
Situando-nos no presente. Se temos muitos estudos sobre a indisciplina no ensino básico e secundário, eles são escassos no ensino superior.
O conhecimento que tenho de diversas faculdades, de Letras e de Ciências, leva-me a concluir que os comportamentos dos estudantes variam de instituição para instituição, de curso para curso, de turma para turma. Uma turma dum determinado ano pode manifestar comportamentos preocupantes e a turma do ano seguinte funcionar bem.
É um problema que merece investigação detalhada para que seja possível compreendê-lo melhor e, em sequência, antecipá-lo, preveni-lo, tanto quanto possível, impedir que se manifeste.
Por outro lado, é preciso investir na organização do ambiente das escolas e das aulas de maneira que seja possível ensinar e aprender da melhor maneira possível. Isto beneficia, obviamente, os estudantes portugueses, mas também os estrangeiros, que tenho visto manifestarem desconforto com o que se passa nas salas de aulas.
Razões do problema?
Por parte dos estudantes, eu indicaria três. Uma é o desconhecimento ou insensibilidade a regras básicas de relacionamento interpessoal e de funcionamento de situações formais como as aulas: falar enquanto o professor ou um colega fala, usar um tom arrogante quando se lhes dirige, atender o telemóvel, entrar e sair da aula, chegar atrasado a exames e achar que isso é normal, não cumprimentar, não pedir licença nem agradecer, são comportamentos que ocorrem. Casos há em que esses comportamento predominam e impedem que as aulas decorram com um mínimo de normalidade.
Outra razão é a falta de conhecimentos básicos e de curiosidade intelectual, sendo que uma coisa está muito ligada à outra. O ensino superior surge naturalmente no percurso escolar, não tendo alguns estudantes feito uma escolha consciente: «pretendo, de facto, prosseguir estudos superiores?», «tenho conhecimentos que me permitem acompanhar esses estudos?». Quando faltam os conhecimentos e a curiosidade muito dificilmente se conseguem acompanhar os raciocínios, realizar as tarefas e a tendência para fazer outra coisa que não acompanhar o ensino deve ser grande.
Outra razão, ainda, é a ideia de que todas as tarefas académicas têm de ser agradáveis, práticas, têm de implicar acção e intervenção dos estudantes. Quando isso não acontece, consideram que não estão a aprender verdadeiramente e derivam a sua atenção para algo mais apelativo...
Da parte das instituições escolares, indicaria as razões que se seguem.
Uma delas, a que me parece mais importante, é não se encarar devidamente o problema desde a entrada na escolaridade básica: antes de se intervir na indisciplina é preciso construir um clima de disciplina: organizar (e separar) tempos e espaços de trabalho e lúdicos, estimular as capacidades dos alunos, proporcionar-lhes desafios adequados mas progressivamente mais exigentes, fazê-los perceber um quadro de valores fundamentais...
Outra razão: as próprias instituições de ensino superior têm deixado ao critério dos professores tudo o que se passa nas suas aulas, alegando que eles são autónomos e responsáveis pelo ensino. Isso é verdade, mas quando os problemas de comportamentos passam de pontuais e ligeiros a recorrentes e muito perturbadores não se resolvendo com uma chamada de atenção, os professores ficam numa situação difícil: sabem que mesmo que apresentem a situação a instâncias superiores, estas podem não ter os instrumentos normativos para lhe fazer face e, mais importante do que isso, temem os juízos que se possam fazer deles: que não sejam suficientemente interessantes e dinâmicos para prenderem os alunos, para estabelecerem uma boa relação com eles... Isto para não falar na avaliação formal a que estão sujeitos. Tudo isto é muito desgastante...
O que se pode fazer?
A abordagem deve ser primordialmente de carácter institucional. Cada escola pode e deve reconhecer que o problema existe. A este aspecto primordial deve associar-se o acolhimento àquilo que os professores e os alunos têm para dizer sobre o assunto, ponderar os casos que ocorrem e procurar soluções. Enfim, fazer tudo o que estiver ao seu alcance para potenciar ambientes calmos e produtivos sob o ponto de vista do ensino e da aprendizagem.
Algumas universidades começam a tomar medidas formais (por exemplo, a Universidade de Coimbra aprovou recentemente o seu regulamento disciplinar e a Universidade de Lisboa está a prepará-lo), que constituem suportes válidos em casos concretos. Porém, e sem lhes retirar importância, há um trabalho fundamental a fazer em termos de investigação e em termos pedagógicos.
[1] Citado
[2] Citação de M. R. Coimbra (1991, 330) in José Ramos Bandeira, Universidade de Coimbra, Coimbra, Casa do Castelo, 1947, 2.º vol., página 140. Este Regulamento estava em vigor no século XIX.
sexta-feira, 27 de julho de 2012
sexta-feira, 8 de junho de 2012
O professor e os políticos no Brasil
"Pagar bem o professor é o grande desafio que nós temos nos próximos anos para além de qualquer outra coisa" (Discurso na campanha presidencial de Dilma Rousseff).
Veja matéria sobre o salário do professor e do político no Brasil:
http://dererummundi.blogspot.com.br/2012/01/salario-de-professor-universitario-no.html
terça-feira, 5 de junho de 2012
Vá para engenharia!
A pergunta anda no ar: quem é tão parvo que escolhe estudar Humanidades… História ou Filosofia por exemplo!? Ou, ainda pior, Clássicas!?
Sabe-se que não dá acesso a emprego, logo não se queixe quem, terminada a sua licenciatura, mestrado, doutoramento e/ou pós-doutoramento, se vir no desemprego… Opte por Engenharias. Há muitas à escolha…
Não, este não é um raciocínio de pessoas desavisadas mas de pessoas cultas que fazem opinião no país e que noutras matérias até se têm mostrado razoáveis. E, neste país, as mais das vezes exaltado mas substancialmente acrítico, a tendência para seguir ideias devastadoras é regra....
Desde que deixei aqui uma reflexão muito completa de José Pacheco Pereira, fiquei mais atenta ao assunto e, naturalmente, mais preocupada com a leitura do problema e suas consequências: o conhecimento que as universidades proporcionam tornado (apenas) instrumental; a negação de sentido às Humanidades, porque não podem ser usadas de imediato; a criação de expectativas de carreira muito provavelmente irrealistas para quem segue áreas tecnológicas... tudo isto, e mais do que isto, revela um estado muito frágil da cultura... Podemos ter subido nas estatísticas, no número de diplomados neste ou naquele patamar académico, mas tal não nos trouxe uma maior consciência da necessidade absoluta de mantermos vivas as diversas dimensões do conhecimento.
Não, este não é um raciocínio de pessoas desavisadas mas de pessoas cultas que fazem opinião no país e que noutras matérias até se têm mostrado razoáveis. E, neste país, as mais das vezes exaltado mas substancialmente acrítico, a tendência para seguir ideias devastadoras é regra....Desde que deixei aqui uma reflexão muito completa de José Pacheco Pereira, fiquei mais atenta ao assunto e, naturalmente, mais preocupada com a leitura do problema e suas consequências: o conhecimento que as universidades proporcionam tornado (apenas) instrumental; a negação de sentido às Humanidades, porque não podem ser usadas de imediato; a criação de expectativas de carreira muito provavelmente irrealistas para quem segue áreas tecnológicas... tudo isto, e mais do que isto, revela um estado muito frágil da cultura... Podemos ter subido nas estatísticas, no número de diplomados neste ou naquele patamar académico, mas tal não nos trouxe uma maior consciência da necessidade absoluta de mantermos vivas as diversas dimensões do conhecimento.
sábado, 17 de março de 2012
Organizar e redigir trabalhos académicos

No próximo dia 21 de Março, na Sala Keynes da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, entre as 14 e as 16 horas, realiza-se uma sessão sobre Como organizar e redigir trabalhos académicos respeitando as normas e a integridade científica.
A acção, dinamizada pelo Doutor Paulo Peixoto, destina-se a estudantes e professores, interessando pelas implicações que a cópia e o plágio têm no quotidiano escolar.
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Ensino Superior,
escrita
terça-feira, 13 de março de 2012
CASAR A CIÊNCIA COM O ENSINO SUPERIOR

O jornal universitário "A Cabra" pediu-me que indicasse uma ideia para o ensino superior. Indiquei-a e foi hoje publicada:
O alemão Wilhelm von Humboldt criou no início do século XIX o conceito moderno de universidade ao enfatizar o papel da criação de conhecimento. Hoje sabemos que a melhor maneira de transmitir novos conhecimentos às novas gerações é criá-los no local onde se transmitem. A ciência desenvolvida numa escola chega aí imediatamente. E o espírito científico paira aí permanentemente.
Em Portugal a ciência experimentou um processo explosivo nos últimos 20 anos. Mas uma parte do sistema científico foi montado à margem das universidades, embora mantendo ligações com elas. Surgiram, por exemplo, instituições privadas sem fins lucrativos, destinadas a absorver os financiamentos e a facilitar a vida aos investigadores, poupando-lhes a burocracia de uma Universidade que, por muito que se fale em autonomia, ainda está sob a alçada do ministro das Finanças. Criaram-se dentro da Universidade muitos, talvez demasiados, centros de investigação, que nem sempre correspondem à estrutura dos Departamentos. De facto, a maior parte dos investigadores científicos são professores e se, de manhã, têm de ensinar, na mesma manhã ou de tarde têm de investigar noutro lado. Contudo, a relação entre a ciência e o ensino superior não tem sido suficientemente debatida e, por isso, aprofundada. A relação entre as instituições privadas sem fins lucrativos e as Universidades é, quase sempre, pouco clara. A inserção dos Centros dentro da Universidade é confusa, pese embora algumas melhorias que se têm ensaiado. Muitos investigadores trabalham na Universidade sem terem os devidos direitos dentro dela.
Numa situação de aperto financeiro como a actual, a ocasião é boa para “casar” a ciência com a universidade. Pode-se dizer que já estão “casados”. Mas trata-se mais de uma “união de facto” em que as duas partes não se sentem muito ligadas, se não mesmo de um simples “namoro”, com os seus altos e baixos. Por exemplo, existe uma avaliação feita pela Fundação para a Ciência e Tecnologia às unidades de investigação, uma avaliação dos cursos pela Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior e ainda uma avaliação dos docentes organizado, de uma maneira muito discutível, por cada universidade. Ora, a melhor maneira de não ter uma boa avaliação da Universidade é ter muitas avaliações...
Os reitores e os directores de Faculdade deviam ter uma palavra mais forte sobre a organização e o financiamento da investigação. Percebe-se que o sistema tenha sido montado sem a sua intervenção, mas, graças ao progresso da ciência entre nós, a universidade melhorou muito e os líderes universitários têm hoje melhor consciência do papel da ciência. Sabem que as melhores escolas são aquelas onde a investigação está mais bem organizada e desenvolvida.
Quanto aos estudantes, eles lucrariam se, desde muito cedo na sua vida universitária, pudessem colaborar nos trabalhos de pesquisa. Adquiririam mais rapidamente o espírito científico. No 3.º ciclo do ensino superior, eles são, aliás, os protagonistas principais da investigação. Não há nova ciência sem eles.
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
A CIDADE DOS VAMPIROS

Minha crónica na última revista "C" (no desenho, traje dos estudantes de Coimbra no século XVI, segundo autores holandeses):
Coimbra mereceu honras de artigo recente no New York Times. Um jornalista norte-americano passou por Coimbra e escreveu uma curiosa crónica. Ficou sobretudo impressionado com o pitoresco dos estudantes de capa e batina, cuja aparência ele, neste tempo da Saga do Crepúsculo, não hesitou em designar de “vampiresca”. Com uma pitada de humor, acrescentou que nenhum deles lhe tentou sugar o sangue...
Tivesse, porém, o visitante vindo a Coimbra num século anterior, essa comparação não lhe teria ocorrido, até porque o Drácula de Bram Stoker só remonta a 1897. O austríaco Heinrich Friedrich Link, que visitou Coimbra em 1798, comparou o traje dos escolares ao dos padres. De facto, o hábito talar tem uma origem eclesiástica, devido à ancestral ligação entre a universidade e a igreja. Link afirmou que “as ruas estão permanentemente cheias dessas pessoas vestidas de negro que oferecem um aspecto triste e fradesco”. Não admira, por isso, que o Marquês de Pombal tenha, embora debalde, querido banir com o traje antigo e que, no início da República, a capa e a batina quase tenham sido proibidas.
No século XIX, o uniforme dos estudantes de Coimbra foi comparado com as vestes dos antigos alquimistas. Em 1842, o príncipe polaco Feliz Lichnowsky falou dos “estudantes, com um traje negro, em parte eclesiástico, em parte da idade média, como se fossem discípulos de Fausto ou de Paracelso”. E, na mesma linha, em 1866, o escritor dinamarquês Hans Christian Andersen comentou, após uma visita a Coimbra, que“o traje é pitoresco, lembra Fausto e Teofrasto”.
Estudei em Coimbra pouco após o luto académico de 1969, pelo que não usei capa e batina. Apesar de me parecer um vestuário um pouco quente para o Verão, nada tenho contra o seu uso por quem goste. Todos os visitantes estrangeiros que tenho guiado na Lusa Atenas me têm perguntado pela origem e significado do traje, pelo que não desprezo o valor turístico para a cidade dessa indumentária temporalmente exótica. Já, quanto ao resto do país, acho algo ridícula a imitação que escolas recentes têm feito das tradições coimbrãs, inventando trajes que nunca poderiam ter existido nessas instituições.
Não estranho, pois, a boa recordação que o traje de Coimbra deixa nos modernos visitantes. Mas há um passo da peça do New York Times que me chamou mais a atenção. O jornalista situa a cidade indiferentemente em dois lugares do tempo separados de três séculos e meio: “Igrejas antigas, praças pitorescas e a falta quase total de lojas internacionais podem fazer situar tanto a Alta como a Baixa na década de 1950 - ou na de 1590.” Tal significa afinal que viu, do ponto de vista arquitectónico, urbanístico e comercial, uma cidade parada no tempo. É um pouco injusto, convenhamos. O visitante podia ter referido, por exemplo, o Parque Verde, com o Pavilhão Centro de Portugal, ou o Pólo II da Universidade, com a sede da Faculdade de Ciências e Tecnologia. Mas é, convenhamos também, um pouco justo, já que à beira do Mondego, e pese embora o muito activo Departamento de Arquitectura, são raros os edifícios de traça contemporânea. Os vultos “vampirescos” dos estudantes seriam ainda mais impressionantes se, aumentando o anacronismo, os cenários fossem fachadas dos dias de hoje...
domingo, 8 de janeiro de 2012
Educação, corporativismo e gestão

Novo artigo do físico Armando Vieira:
A educação em Portugal parece viver em crise permanente. Muitas são as causas e muitas as receitas propostas. Na minha opinião o problema central da educação é essencialmente um problema de gestão, sobretudo de gestão do seu principal activo: os recursos humanos.
Em qualquer empresa, o factor crítico de sucesso está indexado aos talentos que consegue captar. Reter os melhores funcionários e criar uma atmosfera onde as suas capacidades possam ser aproveitadas ao máximo é o que muitas vezes dita a diferença entre a sobrevivência ou a morte. No ensino o factor humano é ainda mais crítico. Nenhum computador ou livro pode substituir o entusiasmo e a energia de um professor que sabe motivar os seus alunos e lhes pôr um brilho nos olhos.
As máquinas são importantes mas meramente reactivas. Um bom professor é activo e incita a curiosidade, estimula a dúvida e faz acordar o desejo de saber mais. Pelo contrário, um mau professor pode ter o efeito perverso contrário de matar essa curiosidade ou mesmo ditar o abandono escolar, até de alunos brilhantes. Os maus professores são um activo tóxico numa escola e, mesmo em pequeno número, se não forem removidos, acabarão por destruir o esforço da equipa.
O princípio de premiar e reter os bons professores e dispensar os maus parece uma verdade insofismável de boa gestão de recursos humanos. Porém ele não se aplica às escolas. Não se aplica ao nível do recrutamento dos melhores, quer sobretudo a nível da dispensa dos piores. Uma vez contratado, um mau docente pode ficar o resto da sua vida a leccionar sem que ninguém o possa impedir.
Eu pergunto: que tipo de qualidade pode uma empresa esperar atingir se, depois de contratar alguém, não o puder despedir? Já que não se pode despedir, a contratação acaba por ser o factor crítico que devia obedecer a critérios exigentes e rigorosos. Porém, não é isso que acontece. No caso do ensino secundário a contratação é um mero processo administrativo gerido por uma monstruosa máquina burocrática e a progressão salarial é feita por antiguidade. Ou seja, independentemente do seu esforço, aos olhos da administração, para um professor ser bom basta ser velho. No caso do ensino superior o processo é melhor mas também com imensas deficiências, como já referi em artigos anteriores.
Não é de espantar que nas escolas a meritocracia tenha sido substituída pela burocracia. As escolas estão na mão de burocratas que mantêm o ensino aprisionado num denso e ineficiente labirinto de interesses corporativos. Os sindicatos preocupam-se em defender os “interesses dos professores” sem nunca questionar a sua qualidade ou do serviço prestado. Os administradores, directores ou responsáveis sectoriais agem mais como comissários do ex-regime soviético do que como gestores de uma empresa moderna.
Não tenho dúvidas que, se as escolas fossem uma empresa, estariam há muito falidas. Mas é claro que não são, nem o devem ser. Mas o facto de não estarem obrigadas a critérios de lucro não significa que não devam ser eficientes na gestão do dinheiro público e na formação das próximas gerações. Para isso acontecer muita coisa tem de ser mudada. A mais simples e eficaz é as escolas terem o poder e a autonomia de seleccionarem os seus professores e, sobretudo, pôr na rua os maus professores ao mesmo tempo que recompensam os melhores. É lamentável que estejamos a formar talentos de grande qualidade e que, quase sempre, os melhores acabem por partir para o estrangeiro.
Existem milhares de ideias, projectos, tecnologia e pessoas competentes que querem lutar por modernizar a educação e elevar os standards de qualidade dos alunos. Infelizmente, enquanto não mudarmos radicalmente a organização das escolas, dando-lhes mais autonomia para que sejam geridas de uma forma moderna e eficiente, todos esses esforços de pouco valerão.
Armando Vieira
terça-feira, 6 de dezembro de 2011
Por uma reforma urgente no Ensino Superior Politécnico

Post convidado de Armando Vieira, físico que já tem colaborado neste blogue:
A mediocridade é como uma doença contagiosa, uma vez infectados nunca mais nos vemos livres dela. É uma máxima que se aplica a pessoas e a instituições. Em Portugal convivemos e toleramos demasiado a mediocridade. O resultado é visível em quase todas as áreas, sobretudo as áreas ligadas às estruturas do Estado.
No sector do Ensino Superior esta conivência com a mediocridade é notória. Todos os anos são formados alunos, investigadores e cientistas de excelente qualidade. Estamos na média da percentagem do PIB em investimento na educação e investigação científica. Poderíamos, por isso, ter um ensino superior de excelente qualidade que reflectisse o esforço feito na qualificação dos recursos técnicos e humanos.
Mas a verdade é que não temos. As nossas universidades estão bem longe dos lugares cimeiros nos rankings internacionais. Temos uma produção científica por doutorado abaixo da média e, do ponto de vistas de patentes, estamos também muito abaixo da média. Ainda que existam excelentes cursos onde os alunos saem bem preparados para o mercado de trabalho, a maioria falha nessa missão, como mostra a elevadíssima taxa de desemprego dos recém-licenciados.
Mas se nas Universidades o problema é sério, nos Institutos Politécnicos a situação é desastrosa. Fui docente durante 10 anos no ISEP - Instituto Superior de Engenharia do Porto, por muitos considerado um dos melhores politécnicos do país. É o maior em número de alunos inscritos e é dos poucos que desenvolve alguma investigação científica, tendo alguns grupos bastante activos.
No entanto, o que vi e assisti ao longo desses 10 anos talvez ajude a explicar algumas razões da mediocridade que grassa impune no ensino superior politécnico. Um dos grandes males, senão o mal maior, é o nepotismo. No primeiro júri para Professor Adjunto de que fiz parte deparei-me com uma grelha de avaliação irreal. O CV dos candidatos era avaliado ao metro, sem qualquer critério de qualidade, tanto importava que publicasse num pasquim ou na Nature. Quando chegávamos à parte pedagógica surgia uma outra grelha curiosa. Se o candidato tivesse dado aulas numa universidade tinha um factor multiplicativo de 1, ao passo que se tivesse dado aulas num politécnico o factor seria 2. Se tivesse sido no ISEP então teria um factor 3. Perante 20 candidatos, um deles com excelente curriculum, adivinhem quem ficou em primeiro lugar? Einstein não teria a mínima hipótese neste concurso!
Não se pense que esta é a única escola a ter este tratamento discriminatório e ilegal. Alguns institutos politécnicos chegam ao patético de publicar concursos públicos à medida do candidato que querem colocar para que fique bem claro que os “de fora” não são bem vindos. Neste corporativismo generalizado quem sai penalizado é a qualidade. Não é estranhar que, no meu ex-departamento, o de Física, com um total de cerca de 30 docentes, apenas existam três doutorados na área científica de Física. O pudor impede-me de referir o número de publicações científicas em revistas internacionais que são produzidas anualmente por este departamento.
Não é difícil adivinhar as consequências desta atitude hermética, não promotora da excelência, antes complacente com a mediocridade. A rígida obediência da hierarquia e a antiguidade substitui outros critérios mais compatíveis com o ensino superior, como a capacidade científica, o espírito universalista ou o empreendedorismo. Este não é o ambiente propício ao livre pensamento, ao saudável confronto de ideias, à abertura ao exterior, à inovação pela procura constante de superar os objectivos.
No caso do ISEP vi apoderar-se dos principais órgãos de chefia pessoas que foram impondo um regime de terror, que mais parecia saído de um trama palaciano do final da decadente monarquia francesa. Os alunos têm medo de falar por recearem represálias, os professores têm medo de contestar decisões ad-hoc impostas sem discussão prévia, os colegas espiam-se denunciando pequenas irregularidades, as pressões são constantes para não sair da linha imposta pela direcção. O cúmulo, que para mim foi algo inaudito: as entradas e saídas de docentes e alunos, em todas as salas, eram controladas ao minuto. Nem me arrisco a perguntar se não haveria câmaras de vídeo-vigilância em pontos estratégicos ou microfones nas salas.
Neste regime ditatorial, um regime governado com mão de ferro, é caso para perguntar: não se terá ido longe demais? No início surpreendia-me a baixíssima taxa de participação dos alunos nas aulas. Mais tarde percebi. Ouvi histórias arrepiantes de alguns alunos que foram severamente castigados (na avaliação, claro está) por contestarem alguns professores. No início surpreendia-me existirem disciplinas com altas taxas de reprovação. Mais tarde percebi. A matéria era apresentada para ser decorada, não para ser compreendida. Matéria essa que, por vezes, nada tinha de relevante para o curso em questão.
Escrevo este texto em jeito de desabafo mas também de alerta. O país está a atravessar um período único na sua história. Para conseguirmos sair desta crise ímpar, são necessárias reformas profundas. O ensino superior é dos sectores mais importantes e que consome mais recursos do orçamento. Muito foi feito nos últimos 20 anos, mas é crucial levar a cabo reformas para que o dinheiro dos contribuintes tenha um uso justo e adequado. O Ensino Superior Politécnico tem certamente muitas virtudes, mas é preciso encarar de frente os seus problemas crónicos e aproveitar ao máximo as suas riquezas. É altura de fazer algo a bem da sanidade do ensino superior politécnico e de quem luta para o melhorar substancialmente.
Armando Vieira
terça-feira, 8 de novembro de 2011
NOS CEM ANOS DA FACULDADE DE CIÊNCIAS DE COIMBRA

Entrevista que dei à "CABRA". Jornal Universitário de Coimbra, a propósito do centenário da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra (hoje FCTUC):
P - Quais foram as principais mudanças no ensino das ciências com a Reforma Pombalina?
R- A Reforma Pombalina de 1772 foi uma verdadeiro "terramoto intelectual". Inaugurou em Coimbra o ensino fundado na observação e na experiência, tendo os grandes autores da Revolução Científica como Galileu e Newton entrado nos currícula. O Marquês de Pombal deu Novos Estatutos à Universidade de Coimbra, pretendendo que ela ganhasse "estatuto" internacional. Para isso contratou mestres estrangeiros para as novas Faculdades de Matemática e de Filosofia e criou novos estabelecimentos como um moderno Laboratório Químico (hoje sede do Museu da Ciência), obra notável por ocorrer na época em que a ciência química emergia, um Gabinete de Física Experimental, com os melhores instrumentos (hoje no Museu da Ciência), um Gabinete de História Natural, com as melhores colecções (idem), um Jardim Botânico, um Observatório Astronómico, um Teatro Anatómico, um Dispensário Farmacêutico, etc. Com o afastamento dos jesuítas pouco continuou a ser em Coimbra o que era antes.
P - Qual a grande diferença entre a escola de ciências da Reforma Pombalina e a actual Faculdade de Ciências e Tecnologia? Como ocorreu o processo?
R- A actual Faculdade remonta às Faculdades de Matemática e Filosofia que referi. Apesar de o exercício do método científico ser o mesmo, a ciência e a tecnologia são hoje muito diferentes,dada a extraordinária mudança nos últimos dois séculos e algumas décadas. Hoje existe investigação ligada ao ensino como ainda não existia na altura. Hoje estamos, num mundo global, muito mais internacionalizados e mais actualizados e cultivamos mais áreas do saber. Hoje ensinamos e praticamos as tecnologias, além das ciências. A Reforma Pombalina não continuou com o mesmo vigor do início, mas deixou marcas indeléveis. Há cem anos, houve outra reforma, esta republicana: as duas faculdades pombalinas da área das ciências uniram-se para formar a Faculdade de Ciências, contemporânea com esse nome das Faculdades de Ciências das então novas Universidades de Lisboa e Porto. Em 1973, a Faculdade de Ciências de Coimbra passou também a ser de Tecnologia, a FCTUC de hoje, formando engenheiros. Foi-se tornando a grande escola de ciências e tecnologia que é hoje.
P -Quais foram os momentos mais importantes em termos científicos e que personalidades se destacaram?
R- No século XIX grandes nomes da ciência em Coimbra foram José Bonifácio de Andrada e Silva, professor de Metalurgia e político com papel essencial no processo de independência do Brasil, e Félix Avelar Brotero, botânico formado em França, que alargou o Jardim Botânico, obra continuada por Júlio Henriques. Na Física destacaram-se António Jacinto de Sousa, que criou o Observatório Meteorológico e Magnético, António Santos Viegas, que o desenvolveu, e Henrique Teixeira Bastos, que foi pioneiro entre nós dos estudos com raios X. Na Química esteve entre nós, a dirigir os trabalhos de Laboratório, um dos maiores químicos do século XIX, o alemão Bernhard Tollens. A Revolução Republicana foi um grande momento na renovação da Universidade: o movimento republicano tinha aliás forte inspiração na ciência e políticos como Bernardino Machado, foram professores de ciência. Já no século XX, é justo destacar na Matemática a instalação de equipamentos astrofísicos por Francisco Costa Lobo e, na Física, a acção renovadora de Mário Silva, discípulo de Madame Curie, infelizmente interrompida por impedimento político. O mesmo aconteceu com o botânico Aurélio Quintanilha. Foi um tempo que se perdeu, felizmente ultrapassado nas últimas décadas.
P - Qual o papel da FCTUC no panorama cientifico internacional e nacional? Que descobertas têm causado mais impacto?
R- A Faculdade de Ciências de Tecnologia, a maior da Universidade de Coimbra, é hoje uma escola moderna, que está a par do que mais recente se faz. É nacional e internacionalmente competitiva. Os seus professores e investigadores publicam numerosos artigos, alguns dos quais são muito citados. E registam patentes. Prossegue uma política antiga de ligação a outras Faculdades, como por exemplo a de Medicina, e uma política moderna de ligação ao mundo empresarial, designadamente através do Instituto Pedro Nunes, que já ganhou um prémio destinado a galardoar as melhores incubadoras de empresas do mundo.
P - Nestes cem anos de FCTUC o que é que ainda faz falta no ensino científico e investigação científica?
R- Falta fazer mais e melhor. Falta sempre fazer mais e melhor. Podemos ainda ser mais competitivos, mas para isso era preciso ligar melhor a ciência e a investigação, o que pode ser reforçado pela incorporação no ensino de jovens investigadores.
P - Acha que é necessária outra reforma?
R- É sempre necessário pensar noutras reformas. Uma Universidade que não muda é porque está parada. Não é, porém, preciso outro Marquês de Pombal. Embora haja quem tenha dúvidas que as Universidades de auto-reformem, nos dias de hoje, em que a autonomia universitária está consagrada, temos de ser nós os Marqueses de Pombal.
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
As vias alternativas
No ano passado, por esta altura, foi notícia o caso de alunos que, após terem obtido o certificado do 12.º ano, através das Novas Oportunidades, inscrevem-se em cursos superiores que exigiam notas altíssimas, passando à frente de alunos do ensino regular cujo esforço para aí chegar foi incomparavelmente maior.
Neste ano, ao que li, aumentou o número de alunos que não tendo frequentado o ensino regular, entrou por outras vias, pela "porta do cavalo", como diz Carlos Fiolhais.
No sistema educativo todos devem estar em pé de igualdade. Isto é o que está escrito nos documentos da tutela: quem frequentou o ensino regular, quem saiu do que resta do ensino recorrente, quem passou pelas Novas Oportunidades, quem optou pelo ensino profissional, quem está em condições de acesso para maiores de 23 anos, quem veio de outras vias que aqui omito. É assim exactamente, e eu concordo.
Por isso mesmo, para que todos estejam em pé de igualdade, tem de ser feita uma triagem que discrimine aqueles que estão em condições de entrar no ensino superior e aqueles que não estão.
Essa triagem não é feita? Não, não é.
Não é feita porque as diferentes vias de ingresso a esse grau de ensino não são equivalentes nos conhecimentos que exigem e se reconhecem aos estudantes. E porque os estudantes que se decidem por vias mais discutíveis, digamos assim, são beneficiados em relação aos que se decidem por vias reconhecidas como de maior qualidade.
Estando a triagem dependente de regras cegas que traduzem as inúmeras e confusas possibilidades de candidatura ao ensino superior, não se poderá ter em conta os conhecimentos e o mérito. Mas, se a triagem ficasse dependente das instituições de ensino superior, o cenário pioraria decerto, porque, para sobreviverem, essas numerosas instituições precisam de clientes, que escasseiam.
Neste ano, ao que li, aumentou o número de alunos que não tendo frequentado o ensino regular, entrou por outras vias, pela "porta do cavalo", como diz Carlos Fiolhais.
No sistema educativo todos devem estar em pé de igualdade. Isto é o que está escrito nos documentos da tutela: quem frequentou o ensino regular, quem saiu do que resta do ensino recorrente, quem passou pelas Novas Oportunidades, quem optou pelo ensino profissional, quem está em condições de acesso para maiores de 23 anos, quem veio de outras vias que aqui omito. É assim exactamente, e eu concordo.
Por isso mesmo, para que todos estejam em pé de igualdade, tem de ser feita uma triagem que discrimine aqueles que estão em condições de entrar no ensino superior e aqueles que não estão.
Essa triagem não é feita? Não, não é.
Não é feita porque as diferentes vias de ingresso a esse grau de ensino não são equivalentes nos conhecimentos que exigem e se reconhecem aos estudantes. E porque os estudantes que se decidem por vias mais discutíveis, digamos assim, são beneficiados em relação aos que se decidem por vias reconhecidas como de maior qualidade.
Estando a triagem dependente de regras cegas que traduzem as inúmeras e confusas possibilidades de candidatura ao ensino superior, não se poderá ter em conta os conhecimentos e o mérito. Mas, se a triagem ficasse dependente das instituições de ensino superior, o cenário pioraria decerto, porque, para sobreviverem, essas numerosas instituições precisam de clientes, que escasseiam.
domingo, 25 de setembro de 2011
As (muitas) fraudes em trabalhos académicos – 2
Um texto anterior que escrevi sobre o tema para que aponta este título foi inspirado num artigo muito esclarecedor e completo da autoria de Teresa Guilherme, intitulado “O mundo das fraudes académicas” e publicado na revista Visão do dia 15 do corrente mês Setembro.
A jornalista aponta se não todas as vertentes do assunto, pelo menos as que estão mais directamente ligadas à cópia e ao plágio que (nisso parece haver um acordo) estão implantadas “de pedra e cal” nas instituições de ensino superior.
De “de pedra e cal” porque, ao conhecimento que essas instituições não podem deixar de ter do assunto, junta-se uma estranha inércia para o enfrentar de modo eficaz. Por outro lado, não se pode negligenciar o facto de estarmos a falar de práticas que beneficiam de larga aceitação social, fazendo nascer e consolidar-se à sua volta múltiplas empresas, devidamente identificadas, que a alimentam de modo (aparentemente) impune.
No referido artigo de investigação põe-se a tónica no facto de os estudantes cometerem fraudes mas os professores também, sendo acrescida, naturalmente, a responsabilidade destes últimos em tal matéria; no facto de os estudantes, mesmo que já estejam em mestrado e doutoramento, desconhecerem que devem identificar as fontes consultadas para realizarem os trabalhos e como o devem fazer; na falta de controlo por parte dos professores, que, desdobramos em múltiplos afazeres burocráticos, não conseguem, mesmo que queiram, dar a devida atenção aos trabalhos que, obrigatoriamente, têm de solicitar às suas muitas dezenas ou centenas de estudantes; na corrida a graus académicos de quem tem um genuíno interesse pelo saber e de quem tem a ideia de que, por ter pago as propinas tem direito ao grau, independentemente do que apresentar para o obter.
Para os leitores que se interessam por este assunto deixamos a ligação para a entrevista realizada no âmbito do trabalho jornalístico em causa, a Isabel Capeloa Gil, directora da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica de Lisboa: aqui.
A jornalista aponta se não todas as vertentes do assunto, pelo menos as que estão mais directamente ligadas à cópia e ao plágio que (nisso parece haver um acordo) estão implantadas “de pedra e cal” nas instituições de ensino superior.
De “de pedra e cal” porque, ao conhecimento que essas instituições não podem deixar de ter do assunto, junta-se uma estranha inércia para o enfrentar de modo eficaz. Por outro lado, não se pode negligenciar o facto de estarmos a falar de práticas que beneficiam de larga aceitação social, fazendo nascer e consolidar-se à sua volta múltiplas empresas, devidamente identificadas, que a alimentam de modo (aparentemente) impune.
No referido artigo de investigação põe-se a tónica no facto de os estudantes cometerem fraudes mas os professores também, sendo acrescida, naturalmente, a responsabilidade destes últimos em tal matéria; no facto de os estudantes, mesmo que já estejam em mestrado e doutoramento, desconhecerem que devem identificar as fontes consultadas para realizarem os trabalhos e como o devem fazer; na falta de controlo por parte dos professores, que, desdobramos em múltiplos afazeres burocráticos, não conseguem, mesmo que queiram, dar a devida atenção aos trabalhos que, obrigatoriamente, têm de solicitar às suas muitas dezenas ou centenas de estudantes; na corrida a graus académicos de quem tem um genuíno interesse pelo saber e de quem tem a ideia de que, por ter pago as propinas tem direito ao grau, independentemente do que apresentar para o obter.
Para os leitores que se interessam por este assunto deixamos a ligação para a entrevista realizada no âmbito do trabalho jornalístico em causa, a Isabel Capeloa Gil, directora da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica de Lisboa: aqui.
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
As (muitas) fraudes em trabalhos académicos - 1
As conversas sobre fraudes em trabalhos académicos saíram definitivamente dos gabinetes e corredores das escolas e universidade para os jornais, televisões, blogues, rádios. Estão na rua.
Não era assim até há bem pouco tempo: os plagiadores faziam do seu acto grande segredo e creio que a consciência de alguns ganharia peso com o passar do tempo. Quem sabia, por ter escutado qualquer coisa em surdina à mesa do bar, olhava-os como pecadores para o resto da vida. Mesmo que ganhassem graus académicos perdiam em reputação. Alguns eram afastados discretamente, com um “convite” para desistirem das provas ou para deixarem lugar vago. A poucos se fazia passar a vergonha da divulgação pública. Nos casos que conheci, vi aliada a punição à complacência.
Porém, de um momento para o outro tudo parece ter mudado, e apenas falo da minha experiência na universidade, naquela a que pertenço e noutras que visito: passo pelos corredores e ouço um estudante dizer, muito naturalmente e em voz alta, qualquer coisa do género, “manda-me o trabalho que apresentaste em… para eu apresentar amanhã em…”; leio a parte de uma tese que se me afigura familiar e percebo que fui eu que a escrevi; passo os olhos por um ensaio e o que vejo é uma manta de retalhos sem qualquer sentido, com umas partes em português de Portugal e outras em português do Brasil, porque o seu “autor” nem se deu ao trabalho de o tratar e uniformizar.
E isto em licenciaturas, mestrados e… doutoramentos. Ou, na terminologia de Bolonha, no primeiro, segundo e terceiro ciclos. Falo de jovens, mas também de pessoas na meia idade; falo de quem nunca desempenhou nenhum cargo, mas também de quem desempenha cargos que implicam responsabilidade e honestidade.
Quando confronto os estudantes, sempre com evidências na mão, por mais diversos que sejam, duma coisa posso ter a certeza: porão um ar desentendido e terão dois tipos de reacção. Uma reacção é uma quase não reacção, do tipo “sim, e depois!?”, reconhecem, portanto, o que fizeram, mas não vêem onde está o problema; outra reacção é mais reacção e pode traduzir-se na negação, ou na afirmação repetida de não perceberem onde quero chegar, ou que não tiveram qualquer intenção de usar obra alheia, ou de nunca lhes terem explicado como se pode usar essa obra… ou, ainda, tudo isto.
Mais grave do que as reacções dos estudantes são as circunstâncias que têm permitido a sua expansão e consolidação. Parece que foi preciso a comunicação social dar atenção continuada às fraudes para que se começasse a estudar o assunto nas universidade. Mas daqui a fazerem algo de substancial para as reduzir pode falar pouco ou pode faltar muito tempo. Convinha que não faltasse muito porque é o prestígio dos graus académicos, já tão ameçados por outros factores, que está em causa.
Não era assim até há bem pouco tempo: os plagiadores faziam do seu acto grande segredo e creio que a consciência de alguns ganharia peso com o passar do tempo. Quem sabia, por ter escutado qualquer coisa em surdina à mesa do bar, olhava-os como pecadores para o resto da vida. Mesmo que ganhassem graus académicos perdiam em reputação. Alguns eram afastados discretamente, com um “convite” para desistirem das provas ou para deixarem lugar vago. A poucos se fazia passar a vergonha da divulgação pública. Nos casos que conheci, vi aliada a punição à complacência.
Porém, de um momento para o outro tudo parece ter mudado, e apenas falo da minha experiência na universidade, naquela a que pertenço e noutras que visito: passo pelos corredores e ouço um estudante dizer, muito naturalmente e em voz alta, qualquer coisa do género, “manda-me o trabalho que apresentaste em… para eu apresentar amanhã em…”; leio a parte de uma tese que se me afigura familiar e percebo que fui eu que a escrevi; passo os olhos por um ensaio e o que vejo é uma manta de retalhos sem qualquer sentido, com umas partes em português de Portugal e outras em português do Brasil, porque o seu “autor” nem se deu ao trabalho de o tratar e uniformizar.
E isto em licenciaturas, mestrados e… doutoramentos. Ou, na terminologia de Bolonha, no primeiro, segundo e terceiro ciclos. Falo de jovens, mas também de pessoas na meia idade; falo de quem nunca desempenhou nenhum cargo, mas também de quem desempenha cargos que implicam responsabilidade e honestidade.
Quando confronto os estudantes, sempre com evidências na mão, por mais diversos que sejam, duma coisa posso ter a certeza: porão um ar desentendido e terão dois tipos de reacção. Uma reacção é uma quase não reacção, do tipo “sim, e depois!?”, reconhecem, portanto, o que fizeram, mas não vêem onde está o problema; outra reacção é mais reacção e pode traduzir-se na negação, ou na afirmação repetida de não perceberem onde quero chegar, ou que não tiveram qualquer intenção de usar obra alheia, ou de nunca lhes terem explicado como se pode usar essa obra… ou, ainda, tudo isto.
Mais grave do que as reacções dos estudantes são as circunstâncias que têm permitido a sua expansão e consolidação. Parece que foi preciso a comunicação social dar atenção continuada às fraudes para que se começasse a estudar o assunto nas universidade. Mas daqui a fazerem algo de substancial para as reduzir pode falar pouco ou pode faltar muito tempo. Convinha que não faltasse muito porque é o prestígio dos graus académicos, já tão ameçados por outros factores, que está em causa.
terça-feira, 13 de setembro de 2011
O PHD MOVIE
~
O mundo dos candidatos a doutoramento num filme que pode ser visto num dos muitos campus de todo o mundo. Foi filmado com alunos e professores autênticos no Caltech, com base nas histórias aos quadradinhos de Jorge Cham, um engenheiro mecânico de Stanford.
PHD Movie Trailer from PHD Comics on Vimeo.
O mundo dos candidatos a doutoramento num filme que pode ser visto num dos muitos campus de todo o mundo. Foi filmado com alunos e professores autênticos no Caltech, com base nas histórias aos quadradinhos de Jorge Cham, um engenheiro mecânico de Stanford.
domingo, 4 de setembro de 2011
Um caso que nos deve fazer pensar
Não negando o sentido do texto Cortes na educação: certo ou errado?, que Armando Vieira amavelmente nos enviou, e reconhecendo, como já fiz no De Rerum Natura, que o financiamento é apenas parte do problema de eficácia com que os sistemas educativos se confrontam, acrescento a nota que se segue.
No que respeita, em particular, ao Ensino Superior, não nos podemos esquecer que as academias, mesmo as mais prestigiadas, na busca e/ou manutenção da tão alejada qualidade (termo que está longe de ser inequivocamente entendido e definido), podem, digamos, ser obrigadas a optar por uma conduta menos própria sob o ponto de vista ético.
O recente caso de financiamento da London School of Economics deve fazer-nos pensar sobre este assunto, que, certamente, nos irá inquietar num futuro mais próximo do que imaginamos.
sábado, 3 de setembro de 2011
Cortes na educação: certo ou errado?
Artigo de opinião recebido de Armando Vieira:
A educação, ensino superior e a ciência vão sofrer cortes de financiamento do Estado da ordem dos 10% para 2012. Significa isso que o país está a desinvestir na formação dos jovens, comprometendo ainda mais o nosso desenvolvimento a longo prazo? Não necessariamente. Pelo contrário, creio que pode ser uma oportunidade para se fazerem as reformas necessárias.
Sempre considerei que os nossos problemas estruturais não se resolvem atirando mais dinheiro sobre os mesmos. Normalmente essa é uma forma fácil de agravar ou disfarçar os problemas. E na educação tem sido precisamente isso que aconteceu nos últimos 15 anos. Aumentámos os orçamentos mas não revolvemos algumas das questões de fundo do funcionamento das escolas. O resultado está à vista: a qualidade manteve-se a níveis baixos, nalguns casos agravou-se mesmo, como comprovam os relatórios da OCDE sobre o desempenho dos nossos alunos a nível internacional.
A nível do ensino superior, nasceram escolas como cogumelos por todas as cidades e vilas deste país; como se criar uma boa universidade fosse sinónimo de construir um, muitas vezes caro, edifício. O número de cursos explodiu, numa oferta desajustada à procura, com muitos de qualidade duvidavel. Não havendo critérios rigorosos, andámos a enganar uma geração inteira que agora luta desesperadamente para conseguir um emprego para o qual a sua formação não os preparou.
Para mim o dinheiro do Estado é para ser visto como um investimento, não uma despesa. E como todos os investimentos, temos de ter medidas do seu retorno. Para se aferir se um investimento é rentável ou não temos de fazer benchmarking. Embora seja difícil fazê-lo, podemos recorrer a alguns números reveladores.
1. Existem vários rankings que comparam a qualidade das universidades de todo o mundo. Dos ratings que consultei não encontrei nenhuma universidade portuguesa entre 100 primeiras e apenas uma constava entre as duzentas melhores. Muitos institutos politécnicos nem sequer aparecem entre as 1000 melhores.
2. Nalguns casos podemos ter acesso a medidas mais exactas da actividade científica de cada departamento de forma a perceber as razões do nosso baixo ranking. Por exemplo em http://ranking.zeit.de/, comparei o departamento de física de uma universidade alemã com o departamento de física do instituto onde leccionei, durante o último ano lectivo:
Parâmetro Univ. Gotinga / ISEP
Números docentes 32 / 30
Alunos 768 / 280
Alunos de doutoramento 35 / 2
Artigos revistas internacionais 243 / 5
Citações por artigo 11.3 / ?
Patentes por 10 cientistas 0.5 / ?
Projectos financiados por Investigador 242 000 €/ ?
3. Em termos de despesa na educação, o nosso esforço na é da ordem de 6% do Produto Nacional Bruto. Um valor muito próximo de países como a Irlanda ou o Reino Unido. Estaremos nós uma qualidade a este nível? Muito provavelmente não.
Como resolver o problema? Simples, indexar o financiamento ao desempenho da Universidade. Sem qualidade não há dinheiro. De resto, cortar ainda mais o financiamento até este estar ao nível da qualidade do ensino prestado.
Armando Vieira
segunda-feira, 20 de junho de 2011
Nuno Crato
O matemático Nuno Crato é o novo ministro da Educação, Ensino Superior e Ciência. É uma excelente escolha de Pedro Passos Coelho. Terá nas mãos uma tarefa hercúlea, imensas resistências e muitas dificuldades de uma máquina pesada. Mas encontrará também uma comunidade sedenta de oportunidade e com vontade de colocar toda a sua experiência ao serviço do país.
Boa sorte Nuno.
:-)
Boa sorte Nuno.
:-)
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domingo, 19 de junho de 2011
Reformular o Ensino Superior Politécnico
Texto recebido de Armando Vieira, que foi professor coordenador do Ensino Politécnico antes de abraçar uma vida empresarial:
Existem razões para ter esperança que o estado do educação em Portugal pode vir a melhorar. Pela primeira vez, desde há muitos anos, o Ministério será ocupado por uma pessoa que sabe sobre educação. Embora polémico, é alguém que tem ideias próprias e que tem denunciado os disparates colossais que têm sido feitos nos últimos 20 anos nesta área tão importante.
Das muitas tarefas que tem pela frente, irei abordar o ensino superior politécnico. O papel destas escolas precisa ser urgentemente repensado. De universidades de segunda têm de passar a ser escolas de engenharia aplicada de primeira. Essa mudança só pode ser conseguida reescrevendo o seu enquadramento legal, separando-o do modelo universitário.
Três aspectos serão fundamentais:
1) Introdução de um novo modelo de financiamento, com mais exigência de fontes de financiamento autónomas e um indexante não só ao número de alunos como também ao desempenho científico e tecnológico
2) Colocar exigências mais rigorosas e continuadas sobre o corpo docente. A contratação de docentes nestas escolas sofre de um coorporativismo atávico e bloqueador da inovação e da excelência. Validar a experiência empresarial e incentivar a investigação aplicada em parceria com empresas.
3) Apoio incondicional ao empreendedorismo. Estas escolas têm de estar ao serviço da economia e devem apoiar projectos inovadores, quer através de organismos próprios, quer através de parcerias com associações de Business Angels e Venture Capitals. O empreendedorismo em Portugal é residual e precisa ser fortemente estimulado. Não há local mais indicado para o fazer.
Armando Vieira
Existem razões para ter esperança que o estado do educação em Portugal pode vir a melhorar. Pela primeira vez, desde há muitos anos, o Ministério será ocupado por uma pessoa que sabe sobre educação. Embora polémico, é alguém que tem ideias próprias e que tem denunciado os disparates colossais que têm sido feitos nos últimos 20 anos nesta área tão importante.
Das muitas tarefas que tem pela frente, irei abordar o ensino superior politécnico. O papel destas escolas precisa ser urgentemente repensado. De universidades de segunda têm de passar a ser escolas de engenharia aplicada de primeira. Essa mudança só pode ser conseguida reescrevendo o seu enquadramento legal, separando-o do modelo universitário.
Três aspectos serão fundamentais:
1) Introdução de um novo modelo de financiamento, com mais exigência de fontes de financiamento autónomas e um indexante não só ao número de alunos como também ao desempenho científico e tecnológico
2) Colocar exigências mais rigorosas e continuadas sobre o corpo docente. A contratação de docentes nestas escolas sofre de um coorporativismo atávico e bloqueador da inovação e da excelência. Validar a experiência empresarial e incentivar a investigação aplicada em parceria com empresas.
3) Apoio incondicional ao empreendedorismo. Estas escolas têm de estar ao serviço da economia e devem apoiar projectos inovadores, quer através de organismos próprios, quer através de parcerias com associações de Business Angels e Venture Capitals. O empreendedorismo em Portugal é residual e precisa ser fortemente estimulado. Não há local mais indicado para o fazer.
Armando Vieira
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