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quarta-feira, 21 de março de 2018

Poema "Marketing" (1969) de Fernando Namora

O poema “Marketing”, de 1969, é um exercício de ironia sobre o mundo moderno e o consumismo, tendo como base mensagens publicitárias da época em que foi escrito (e outros aspectos sociais e políticos que não vou aqui comentar). O que gostaria de referir, ainda que superficialmente, são os muitos produtos referidos que, em alguns casos, têm uma história química interessante e positiva para o bem-estar da humanidade e a sustentabilidade do planeta. Embora a poesia seja para ser lida sem interrupções, olhemos para algumas partes do poema: 

 Aqui a meu lado   o bom cidadão
 escolheu Sagres
 que é tudo   tudo cerveja
 a pausa que refresca
 a longa pausa de um longo cigarro King Size.
                                          atenção ao marketing.

A marca de cerveja Sagres surgiu em 1940 para a Exposição do Mundo Português, lançada pela Sociedade Central de Cervejas e Bebidas, fundada em 1934. A marca de cerveja Super Bock surgiu em 1927, mas a sua distribuição fazia-se apenas no Norte até aos anos 1970, além de que não se colava tanto ao regime como a Sagres. A tecnologia da produção de cerveja industrial envolvem muitos aspectos químicos.
Os cigarros King Size foram muito populares. Fernando Namora, como muitos médicos da altura, assim como as suas personagens, era fumador. Embora já fossem conhecidos os malefícios do tabaco, os anúncios eram livres e, em muitos casos, envolvendo a sugestão de benefícios. Há várias outras referências a tabaco no poema, nomeadamente às marcas Estoril, Valetes, Kaiakes e Marialvas, já desaparecidas e ao uso de filtro nos cigarros.

Eu não gosto de cerveja
mas tenho de gostar que os outros gostem de cerveja
sobretudo da Sagres
para não contrariar os fabricantes de cerveja.
                                              atenção ao marketing.
Ninguém contraria os fabricantes de cerveja
ninguém contraria os fabricantes do Opel e da Super Silver
nem os fabricantes de alcatifas para panaceias
nem as panaceias nem os códigos e os édredons macios
nem as mensagens de natal dos estadistas
nem os negociantes de armas da Suíça
nem o homem de capa negra que virou as costas ao Palmolive.
Está tudo perfeito e deito-me no conforto de um Lusospuma
a ver as procissões passar   mesmo sem anjos   mesmo sem anjos
que são agora selvagens e voam numa Harley.

As marcas de automóveis Opel e Ford, com o modelo Escort desta última a aparecer mais à frente, são aparentemente, na altura, publicitados em Portugal. Os carros desse tempo eram muito menos seguros e fiáveis, além de mais poluentes e muito mais consumidores de combustível. Usavam gasolina com chumbo e ainda não estavam em uso, ou não tinham sido inventados, o airbag, os catalisadores, os vidros duplos, a injecção electrónica,, entre muitas outras coisas que nos parecem normais hoje em dia. As marcas de motas Harley Davidson e Super Silver aparecem aqui num estatuto quase mítico. O Palmolive e o Lux, que aparecerá mais à frente, são sabonetes. Este objecto de higiene que permitia um uso mais frequente do que os sabões, como o Clarim para lavar a roupa, referido mais à frente, está hoje quase completamente substituído pelos sabonetes líquidos que envolvem surfactantes líquidos, na altura ainda não inventados, foi uma revolução.
Lusoespuma era uma marca de colchões de espuma de poliuretano, material ainda hoje usado. Este material sintético substituiu com grande vantagem e versatilidade materiais naturais, como a palha, nos colchões mais económicos e populares. E com a evolução da tecnologia, surgiram colchões de poliuretano e materiais mistos que rivalizam com os melhores e mais caros colchões de materiais naturais mais nobres. Além disso, não seria sustentável nem possível usar sumaúma ou outros materiais naturais para tanto colchão do mundo moderno. No entanto, a reciclagem e a reutilização de tecidos pode abrir novos caminhos.

Deito-me e obedeço aos fabricantes do Clarim
que é uma alta onda ou uma onda alta
sem esquecer as fitas do John Waine e a chama viva do Butagás
e se calhar sentir fome terei toda a frescura serrana
numa fatia de pão.
                                                                        atenção ao marketing.
Vitonizo-me   desodorizo-me   atravesso as ruas nas passagens dos peões
louvo quem me dizem para louvar e desconfio dos negros americanos
e dos blousons noirs   que não usam Lux
e não compram um frigorífico a prestações
e com o meu escudo invisível
protejo-me dos vírus subversivos
sou um bom cidadão   sou um bom cidadão
obedeço ao marketing   à General Motors e ao Pentágono.
Dantes   tinha problemas   era o odor corporal
e eu não o sabia   até me higienizar seis vezes ao dia com o sabonete 
                                                                                               [das estrelas
e as paradas marciais e os 5-3 do Eusébio à Coreia
e o talco Cadum    que ama demoradamente roucamente tepidamente
os corpos que merecem ser amados...

O Butagás é (era?) uma marca de botijas de gás butano, usado para cozinhar e aquecimento. Por esta altura o gás já tinha substituído praticamente todos os usos equivalentes do petróelo, mas em boa parte do país em que se cozinhava a lenha e em Lisboa existia o gás de cidade. Vitonizar-se, é aparentemente, tomar um tónico de ferro e fósforo que era publicitado na altura – hoje em dia publicitam-se os de mangustão e cálcio. O desodorizante (mais à frente é referido o Rexina, agora Rexona) é um produto em contínua evolução e desenvolvimento, desde os perfumes aos materiais bactericidas e absorventes do suor. O frigorífico é um objecto que só na segunda metade do século XX se tornou popular, graças ao desenvolvimento e baixo custo dos fréons. O talco (Cadum) é um material natural (rocha) que misturado com perfumes e outros ingredientes era muito popular pelas suas propriedades paradoxalmente simultaneamente hidrofóbicas e hidrofílicas.

Obedeço ao marketing   não contrario.
Ninguém contraria os fabricantes das ideias e os fabricantes do Fula
que é o da cor do sol
ninguém pisa os riscos brancos do tráfego
nem chama os bombeiros sem concorrer ao sorteio
concorro   concorro   e vejo nos sinaleiros o pai natal vestido de Scotchgard
ninguém sai do emprego antes de assinar o ponto a horas fixas
e gastar o dinheiro da semana sábado à tarde
no Dardo   que é tudo a prestações e é mesmo em frente da Música no Coração.
Fazendo Portugal mais alegre com o folclore da TV e a tinta Robbialac
não contrario   obedeço   obedeço e meto os meninos na cama
quando me dizem vamos dormir.
                                     atenção ao marketing.

O óleo Fula ainda hoje existe e é  bem conhecido. A obtenção de óleos a partir de plantas foi algo que se desenvolveu muito no século XX e permitiu acabar com a caça da baleia entre outras práticas pouco sustentáveis. Scotchgard era e é um protector de tecidos, repelente de água, desenvolvido pela 3M. Robbialac é uma marca de tintas que tinha já na altura, se não estou em erro, tintas plásticas que polimerizam ao secar. Hoje em dias a paleta de cores e de propriedades das tintas é muito mais extensa que no tempo de Namora e estes materiais são ambientalmente muito mais eficientes e responsáveis, nomeadamente há cada vez mais tintas e vernizes à base de água e com materiais não tóxicos. Os pigmentos brancos são agora de dióxido de titânio em vez do antigo e tóxico carbonato de chumbo.

Sagres é uma boa cerveja
e eu acabarei por gostar da Sagres
como gosto do Rexina.
Sagres é a pausa que refresca e tem vitaminas
todas as bebidas da televisão têm vitaminas
mesmo as do programa literário que é detergente
e eu uso-as e sou um cidadão perfeito
e até já consigo adormecer com hipnóticos
depois de tomar o Tofa descafeinado
e no Verão visto calções de banho de fibras sintéticas
para me banhar na Torralta
cidadão perfeito perfeitamente bronzeado com o Ambre Solaire.

Também hoje os refrigerantes e bebidas continuam a ter reforços de vitaminas adicionadas, nomeadamente ácido ascórbico (vitamina C). Já não se usam hipnóticos para dormir, os quais eram muito perigosos. Desde o tempo que Namora refere apareceram muitas outras moléculas e terapias que são mais eficazes e seguras. Os processos de obtenção de café solúvel e descafeinado evoluiram também muito. Já não são usados solventes orgânicos, mas fluidos supercríticos, por exemplo. Os calções e muitas roupas são actualmente de fibras sintéticas. Estas acabam por ser mais sustentáveis em termos de produção e têm propriedades de elasticidade e de contacto com a água muito mais alargadas. Há hoje muitos mais protectores solares que o Ambre Solair. E são mesmo protectores solares testados para a protecção anti-UV física ou química.

Também vou arear as caçarolas e os nervos e os miolos
com um pó azul de que não me lembra o nome
não me lembra mas a culpa já não é minha
porque na mesma noite
massajado com Aqua Velva
fiz a barba com Gillette, e Schick e Nacet
e fui não sei aonde sempre com a mesma lâmina
e oito dias depois (eu era actor ou toureiro?)
a lâmina ainda me escanhoou mais uma barba
antes de eu descer no aeroporto
onde me esperava um agente do marketing.
Os produtores viram-me à descida do avião
primeiro julgaram que era o filho da Sophia Loren
ou o Onassis   mas era eu
e gostaram da minha barba bem feita.
(Da barba bem feita
ou do casaco Dralon que não se amarrotara
durante a viagem da Polinésia para Lisboa?)
Confesso que já não me lembra   mas a culpa não é minha
pois na mesma noite
fui o homem de não sei quê que marca o rumo
por vestir regras ou camisas ou calças que não enrugam
e fartei-me de assistir a discursos e a inaugurações
e fartei-me de comer chocolates Regina e pescada congelada
e de lavar a roupa com Ajax e com o Rino
e de me banhar com Omo ou seja uma onda de brancura
e fiz-me mecânico de automóveis
só para que o cavaleiro da armadura branca
me tocasse com a sua lança mágica
e me pusesse branco branco branco
três vezes branco como as páginas do Reader’s
de cérebro irrepreensivelmente lexivizado
pelos locutores da televisão pela oratória dos políticos
e passado a ferro com um ferro eléctrico automático
que talvez fosse – ou não? – uma enceradora Philips.
Tudo coisas admiráveis e desesperadamente necessárias
que eu devo ao marketing
e me são cozinhadas num abrir e fechar de olhos
nas palavras de pressão
de todo o bom cidadão.
E no intervalo bebi café puro o do gostinho especial
Sical Sical que é um luxo verdadeiro
Por pouco dinheiro.
Vitonizado   esterilizado   comprando e concorrendo
esqueci-me de amar   do amor   das árvores e do rio
esqueci-me de mim   tão entretido estava a admirar a Lisnave
esqueci-me do rio e dos barcos
e da saudade de pedra do Fernando Pessoa
e esqueci-me de sonhar que era marinheiro.

Aqua Velva, é um after-shave criado em 1935, que tem na sua composição, segundo o site Fragrantica.com, além do solvente, álcool e águas, bergamota, lavanda, hortelã, petitgrain, limão verdadeiro ou siciliano, sálvia esclaréia, jasmim, vetiver, sândalo, cedro, ládano, âmbar, musgo e couro. Estas essências envolvem moléculas odoríficas provenientes de plantas e muitas podem ser hoje obtidas de forma sintética. O âmbar referido pode referir-se a um material obtido dos cachalotes, mas hoje subtituído por um análogo semi-sintético. Gilette, Schick e Nacet são marcas de lâminas de barbear. Os desenvolvimentos técnicos e metalúrgicos que permitiram as lâminas de segurança e mais tarde descartáveis não podem reduzir-se numa frase. Dralon é um tipo de tecido sintético acrílico que ainda hoje se fabrica e é usado. A tecnologia e a química do chocolate, em particular dos Chocolates Regina, tem muito que pode ser referido, nomeadamente as reacções envolvidas na preparação do cacau e o controlo do ponto de fusão e estrutura cristalina do produto final. Ajax, Rino e Omo são detergentes em pó que foram desenvolvidos para serem solúveis e não terem problemas com águas duras, envolvendo fosfatos e surfactantes sólidos solúveis (paralelamente para as máquinas de lavar, foram desenvolvidos detergentes envolvendo persulfatos e silicatos, sendo um dos mais antigos o Persil). Hoje em dia os fosfatos forma substituídos devido ao seu efeito eutrofizante das águas e os surfactantes não biodegradáveis foram substituídos.

Concorra   concorra   foi isso que não reparei
que uma rapariga cortou as veias
talves fosse com uma Diplomatic
que tem o fio e o silvo de uma espada a degolar avestruzes.
No programa só havia bombeiros
nem uma rapariga a cortar as veias (não era a Caprília)
nem o rio nem o amor nem a raiva da Venezuela.
Se mágoa sentia era a de ter esquecido
dar murros no espião da Missão Impossível
(atenção ao marketing)
e já não saí de casa para ver o rio
só pelo gosto de me aquecer com um Ignis.
E na mesma noite noite boa noite branca
fumei Estoril   Valetes   Kayakes e bebi Compal
depois da Salus e da Schweppes
fumei quilómetros e quilómetros de prazer
quilómetros e mais quilómetros – há um Ford no meu futuro –
mais facturas mais fomes mais prazer
e agora já não sei qual dos cigarros com filtro
me soube melhor.
Foram todos foram todos de certeza
pois se me dizem que preciso de Omo
do Ajax   do Estoril   do Dralon
do esquentador e das alcatifas sem nódoas
não me preocupo não te preocupes
o Meraklon não preocupa ninguém
mando para o diabo o amor e o rio e a rapariga que cortou as veias
não me preocupo não me preocupo
digo pois pois ao Jota Pimenta e ao Escort
e hei-de virar-me do avesso para os possuir.
Os corpos que merecem ser amados merecem o talco Cadum.
Numa onda de brancura obedeço ao marketing. Sou um bom cidadão.

Compal, Salus (marca de água da Vidago) e Schweppes são marcas bem conhecidas. No caso das águas, há que contar com as análises química e em alguns casos com a adição de dióxido de carbono ou aromatizantes, caso da Schweppes. A marca Meraklon ainda hoje existe e está relacionada com fibras de polipropileno, entre outras.

E na mesma noite
vi umas bombas que caíam muito ao longe
numa lonjura mais longe que a Lua
onde as pessoas podiam estar quietas a fumar Marialvas
e a lavarem-se com Rino que lava lava lava
lava três vezes mais lava ou mata que se farta
e me ajuda a ser bom cidadão.
                                           atenção ao marketing.
Vi uns homens a inaugurarem estátuas
e vi fardas e paradas e conferências
e crianças a sorrir
para os homens sorridentes que inauguravam estátuas
e vi homens que falavam e pensavam por mim
a escolherem por mim o bom e o mau
de modo a que eu não possa ser tentado
a confundir o mau com o bom ou vice-versa ou vice-versa.
Deitado no conforto de um Lusospuma
vi os porcalhões dos hippies nas ruas de Estocolmo
bem longe   nas ruas de Estocolmo
mesmo a pedirem uns safanões
dos homens que acariciam crianças
e têm todas as verdades na mão
só para que eu seja um bom cidadão.
É isto: marco o rumo. As minhas cuecas marcam o rumo.
Preciso e gosto de uma data de coisas
e só agora o sei.
Menos da Sagres. Mas acabarei por gostar.
Ninguém contraria o marketing por muito tempo.
Ninguém contraria os fabricantes de bem fazer
o bom cidadão.
                       E tudo graças ao marketing.

(na foto a capa da 4ª edição de 1978 rodeada de alguns produtos referidos no poema e de alguns outros que ainda não existiam, ou eram pouco conhecidos em Portugal, em 1969)  


quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

FONTE DOS CORETOS: “UM REFLEXO FOTÓNICO DE LIBERDADE”

Com a devida e merecida vénia e agradecimento, transcrevo a seguir o texto com que o poeta João Rasteiro apresentou o meu livro "Fonte de Coretos" no Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, a 30 de Janeiro de 2018.


Fonte dos Coretos:um reflexo fotónico de liberdade

                                                           Com novas íris te universo.
Vejo-te para além do ar
Até onde não sabia que ainda começas
António Piedade



Arquimedes afirmou: “Dai-me uma alavanca e um ponto de apoio e moverei o mundo”.

E Aristóteles: “O começo de todas as ciências é o espanto de as coisas serem o que são”.

Ora, como sabemos, mesmo que de forma inconsciente, a poesia é por definição um fértil acto criativo, como resplandece do verbo grego poiesis: fazer, criar, aleitar. Num alquímico fermento da sua raiz e substância e, diria eu, da sua “luz e íris” do mundo.
 
Mas se, de alguma forma o homem, desde que chamou a si o olhar poético para ver e apreender as coisas do ‘mundo’, passou a ser um poeta, grafando esse olhar ou não, António Piedade, desde que assumiu o olhar da ciência para apreender o mundo, passou imediatamente a ser, sob este conceito, um poeta, pois a sua linguagem de extraordinário comunicador de ciência é uma linguagem que sempre esteve profundamente fecundada pela mais cristalina linguagem poética.

E é absolutamente claro, pelo menos para mim, que talvez a maior influência, para além de outras, como a manifesta e também bastante forte, tanto na linguagem, como no acto de “fazer ciência”, do Professor Carlos Fiolhais, seja, sem qualquer admiração, Rómulo de Carvalho / António Gedeão – direi até que, talvez mais, de… “Rómulo Gedeão”!

Hoje, é um dado inquestionável que a ciência e a poesia terão tido igual peso e interesse na vida de Rómulo de Carvalho / António Gedeão. E se, pelo menos de forma tão manifesta, aparentemente essa particularidade não será assim perceptível em António Piedade, julgo, no entanto, que na sua escrita em geral, porque o que escrevemos quase sempre reflecte a nossa vida, ou pelo menos o que pretendemos dela, isso também é um facto absolutamente evidente.

Como aliás já referiu o Professor Carlos Fiolhais, julgo que no Prefácio a "Caminhos de Ciência", “há um elemento peculiar na escrita de António Piedade que contribui sobremaneira para o prazer da leitura: é a sua marca literária, por vezes mesmo poética, que ele sabe imprimir à sua escrita”.

Evidentemente que, neste “Fonte dos Coretos”, mantendo-se de forma geral esta marca assinalada por Carlos Fiolhais, assiste-se a uma inversão, afirmo eu, apenas formal. Desta vez, a poesia está na fronte da prosa. O texto e a sua textura vêm até nós explanados no corpo branco da folha, em arquitectura condizente com a poesia e suportada, sobretudo a primeira parte, em fortes anzóis de vigorosas metáforas - em ágeis imagens e analogias da bioquímica, da física, da astronomia, da biologia, ou da matemática. Em suma, em belas ressonâncias e revivescências das mais profundas e consagradas entranhas das apelidadas “ciências exactas”.

Como referiu Graça Capinha (FLUC/UC), temos a consciência de que normalmente usamos como material, muitas vezes em bruto, “as palavras da tribo”: e em António Piedade, a tribo é a ciência em sua desmesurada essência e fulgor.

A consciência do nosso trabalho de escrita, e nomeadamente, de reinvenção da escrita, só fazer sentido numa comunidade mais vasta é o que origina em António Piedade essa permanente indagação e transmissão, com ‘este’ estilo tão peculiar - mais uma vez, dir-se-á: poético -, a partir das vozes que sempre saciaram a sua experiência de vida, e nomeadamente, da sua experiência de vida muito fixada no ensaio e prática da ciência.

E esse é o ‘lugar-tempo’ único, a ‘ordem-conjuntura’ única, que António Piedade conhece e reconhece absolutamente como a sua única quimera e promessa. Ele, um comunicador de ciência, diria até, um comunicador de ciências, nesse “fotão-liberdade” que não se diferencia no seio da sua linguagem, da sua caminhada, nessa “Íris-amor” que é a luz “onde o verbo é ser”, através de uma rota “que viaja dos raios gama às ondas de rádio”, pois, invariavelmente, nenhumas “poeiras cósmicas” impedirão “a nossa luz”, já que “nesse sorriso / nasce a rocha / onde brotam os poetas / um sorriso de ser”.          

Tal como em Rómulo de Carvalho / António Gedeão, a ligação, a junção, entre a ciência e a poesia era firme e persistente, e isso percebe-se facilmente no léxico científico e metafórico que empregou nos seus vastos e singulares poemas, também em António Piedade tal se verifica, embora isso seja mais óbvio na primeira parte deste livro, e que talvez por isso, e de forma geral, terão sido os poemas que escreveu mais recentemente.

A poesia e, sobretudo, a linguagem poética, não tem de ser forçosamente demasiado elaborada e dissimulada em seus modelos ou artifícios, sejam eles estilísticos ou metafóricos, para que se possa afirmar como “boa poesia”. Albert Einstein afirmou: “No meio da confusão, encontre a simplicidade. A partir da discórdia, encontre a harmonia. No meio da dificuldade reside a oportunidade”.

 Daí que, também, neste livro, e em grande parte destes 16 poemas, a simplicidade aparente não é sinónimo de simplismo. E se em nota introdutória é o próprio poeta, em carácter de humildade, a afirmar sobre o livro: “Aqui está. Imperfeito, ingénuo como meu primeiro livro nesta arte maior que é a Poesia”, e sendo lógico que tal como nos restantes livros por si publicados, e desde o seu primeiro livro, foi burilando o(s) texto(s), também no seu próximo livro de poesia irá acabar, como aliás todos nós fazemos, por burilar algumas ramagens dos seus novos, ou até antigos, poemas.

Aqui a questão que emana é só uma: estes textos, estes poemas, em sua génese definida são já o prenúncio de uma caminhada poética assente em certos alicerces a que o autor não irá, nem quererá, certamente, fugir na caminhada que continuará a criar e percorrer.

Se atentarmos em Rimbaud, que nos diz que “O poeta faz-se vidente através de um longo, imenso e sensato desregramento de todos os sentidos”, ou em Keats, que afirma que “Se a poesia não surgir tão naturalmente como as folhas de uma árvore, é melhor que não surja mesmo”, então, categórico, afirmo: sim, é a ‘isso’ que ‘aqui’, neste seu primeiro livro, já se assiste a brotar, por vezes frágil, mas em visível viço de primavera!

Refira-se, e poderá ser apenas uma coincidência feliz, o facto de o livro, com 16 poemas, estar dividido em duas partes de 8 (oito) cada, pois, o número 8 “é, universalmente, considerado o símbolo do equilíbrio cósmico. É um número que possui um valor de mediação entre o círculo e o quadrado, entre a terra e o céu, e por isso está relacionado com o mundo intermediário e um simbolismo de equilíbrio central. Deitado, simboliza também o infinito, e representa a inexistência de um começo ou fim, do nascimento ou da morte, e aquilo que não tem limite, e ainda a ligação entre o físico e o espiritual: e afianço eu aqui, a religação entre as ciências, entre a bioquímica e a poesia.

Atente-se em alguns títulos da primeira parte: “Com novas íris te universo”, “Átomo ao espelho”, “Lágrimas com riso dentro” - onde logo nos aflora o poema “Lágrima de preta”, de António Gedeão -, “A luz do teu pólen”, “Vida”, etc., onde o corpo da ciência se incorpora sem contemplação no corpo da poesia, no corpo do poema, e onde “dentro del(a)e explodem miríades de pequenos arco-íris”.

 Nesta primeira parte, onde termos e imagens como Íris, Poeiras Cósmicas, Fotão, Princípio de Pauli, spin, Caleidoscópio, miríades, Líquido Translúcido, Sirius e Saturno, Seio vulcânico, Explosão estelar, Lua, entropia, Caminhos neurais ou átomo, só para citar alguns, irrompem “por entre canteiros de ficções oníricas / Indistinguíveis da pura magia”, penso que o poema que abre o livro, intitulado “Com novas íris te universo” - ainda e sempre a…ÍRIS -, quase poderia ser encarado como o texto programático do poeta-cientista, ou do cientista-poeta, António Piedade. Diz-nos:

Com novas íris te universo.
Vejo-te para além do ar
Até onde não sabia que ainda começas

Com novas íris despojo-te das poeiras cósmicas
Descubro-te onde não tens cor
Com novas íris alianço-me nos deuses antigos
E redesenho a abóboda celeste
Com mitos modernos
Cegos de contemplação de tanto espanto

Com novas íris volto a ser criança a olhar o céu
E tento apanhar as estrelas num gesto, num salto
Com novas íris me visto de ti
Num novo cosmos invisível à nudez dos meus olhos
E descubro no céu um arco-íris
Que viaja dos raios gama às ondas de rádio

Este primeiro poema do livro, que, no plano teórico, será, senão o último, um dos últimos que terão sido escritos, reenvia-nos - principalmente através “das poeiras cósmicas” ou do “arco-íris” da sua última estrofe -, precisamente para a essência da segunda parte do livro, em que curiosamente, ou não, o primeiro poema dá título ao livro: “Fonte de Coretos”.

E nesta segunda parte, onde sobressaem de algum modo, poemas como “Silêncio”, “Ponteiro das horas”, “Luz”, “Adeus” ou “Sorriso”, poemas que como refere o autor na ‘Nota breve’, são poemas, exceptuando o recente “Sorriso”, mais antigos - e que contudo, de forma ligeira, já são pincelados com algumas ‘palavras de ciência’ -, o que imediatamente perpassa é uma constante dialéctica entre o amor - em sentido lato, pois é possível pressentir um amor carnal, conjugal, maternal, um amor ao cosmos, etc. - e a liberdade. E, quer seja na ambição de alcançar esse tal amor e essa tal liberdade, quer seja no temor de perder, ou não alcançar, esse amor e essa liberdade.

Há um permanente olhar e uma permanente voz - que se pode aplicar, que se vislumbra, também, no poema que inicia o livro, “Com novas íris te universo” -, que são simultaneamente o olhar e a voz de uma criança e de um adulto. E, na verdade, se mais ou menos palpável, em cada adulto está sempre a criança que se reteve em nós, aqui, porque de um poeta, porque de linguagem poética se trata, esta particularidade é ainda mais evidente. A criança, a infância, a utopia, o brilho dos astros nas estrelas do olhar.

É pois na dialéctica entre os primeiros poemas de cada parte da obra que se pode encontrar não só “um céu reinventado nos risos com que a lágrima se fez”, como “nesse sorriso / nasce o mar inteiro / e a espuma das estrelas”.

Enquanto, como já referi, “Com novas íris te universo”, pode ser encarado quase como o texto programático do poeta-cientista, ou do cientista-poeta, António Piedade; “Fonte do Coreto” é a metáfora primordial por “onde brotam os poetas” e a poesia, pois simboliza toda a possibilidade de liberdade. A liberdade através da oferta ‘de mundo’: música, poesia, teatro, cultura, convivências, etc. - Vida! O/Um lugar vivo, onde se aprendia a “ver um pouco de mundo”, onde o verbo é/era “ser”. O voo ansiado no futuro azul entre a terra e o céu em “sua metáfora / onde a liberdade é o refrão / Estribilho em rima solta. A ânsia da infinda utopia: “Um reflexo fotónico de liberdade”. Daí que:


Há na minha aldeia
Uma fonte de coretos
Onde desagua a liberdade

Uma fonte de coretos
Onde todos nascem
Adentro de sonoros sonetos
Sonetos de pessoas
Cada um a sua métrica
A sua metáfora
Onde a liberdade é o refrão
Estribilho em rima solta

Há na minha aldeia
Uma fonte de coretos
Onde o verbo é ser

Não deixando de destacar na primeira parte - mesmo não o desenvolvendo, pois isso levar-nos-ia talvez para outras leituras e interesses do autor -, as referências a Cyrano de Bergerac, Gulliver ou Frankenstein, assinalo algo que é perceptível, embora com algum desequilíbrio ao longo dos poemas das duas partes do livro, e que também já foi aludido pelo Professor Carlos Fiolhais no que concerne à linguagem das crónicas. A presença de uma certa musicalidade, ou até mais patente, de um certo compasso rítmico que perpassa pelo corpo dos poemas, onde essa musicalidade e ritmo se mostram por vezes com um vigor exclusivo, para além da alegoria. 

Em conclusão, António Piedade, com este seu primeiro livro de poemas, que pela particularidade de ser uma primeira obra, granjeia, ou pode granjear, simultaneamente as suas virtudes e fragilidades, intitulado “Fonte de Coretos”, coloca-se de imediato à porta desse “cosmos invisível à nudez” de poetas em que a linguagem da poesia e a linguagem da ciência se funde e se expande, “cósmica”.

Como afirmou Maria Sousa, cientista e poeta, “A melhor ciência está próxima da poesia”. Ora, em António Piedade, isso é uma verdade inquestionável, nesse seu habitual diálogo que perpassa a sua escrita, seja ela prosa ou poesia. A ciência é poesia, e a poesia é ciência. Em António Piedade, brota a una luz do verbo, pois: “A luz do teu pólen / É nossa, minha, tua / É uma viagem solar / É Terra com nova Lua”.


João Rasteiro

RÓMULO- Centro Ciência Viva/Universidade Coimbra, 30/01/2018

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Apresentação de Livros de António Piedade





Apresentação de Livros de António Piedade, Bioquímico e Divulgador de Ciência:

- "Fonte de Coretos", editado em Setembro de 2017 - Será apresentado pelo Poeta João Rasteiro.
- "Íris Científica 4", editado em Novembro de 2017 - Será apresentado pelo Professor Carlos Fiolhais.

ENTRADA LIVRE
Público-Alvo: Público em Geral

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

FONTE DE CORETOS




Fonte de Coretos é o título do meu primeiro livro de poesia que está para sair nesta primeira semana de Setembro numa edição de autor.

Deixo aqui a Nota Breve que introduz o pequeno livro, assim como um dos poemas que nele fica publicado.


Nota breve

Este livro reúne uma selecção dos poemas que escrevi ao longo das últimas três décadas. Para mim, que me tenho dedicado à ciência e à divulgação científica, há uma razão para agora publicar este meu primeiro livro de poesia. É que os poemas que agora aqui reúno foram sendo lidos por um número considerável de pessoas, que me incentivaram para os reunir em livro. Aqui está. Imperfeito, ingénuo como meu primeiro livro nesta arte maior que é a Poesia.
Acrescento, que alguns destes poemas já foram publicados em antologias de poesia que aqui não discrimino. Agora, por altura desta edição, os poemas que aqui vos entrego foram revisitados e aqui e ali alterados, pelo que, na forma em que os apresento, são todos inéditos.
A primeira parte deste livro reúne poemas que, de alguma forma, estão ligados à ciência e que foram escritos depois de 2010. A segunda parte, reúne poemas mais antigos, com excepção do “Sorriso”, que foi escrito há muito pouco tempo.
Um agradecimento à Florbela Oliveira pela cedência da foto que ilustra a capa (o seu trabalho fotográfico pode ser desfrutado aqui: www.facebook.com/Bomdia.coimbra).
Antes do fim desta nota breve, um agradecimento antecipado aos eventuais leitores. Estes poemas passam a ser deles.
Condeixa-a-Nova, 29 de Agosto de 2017


E o poema...



Com novas íris te universo


Com novas íris te universo.
Vejo-te para além do ar
Até onde não sabia que ainda começas

Com novas íris despojo-te das poeiras cósmicas
Descubro-te onde não tens cor
Com novas íris alianço-me nos deuses antigos
E redesenho a abóbada celeste
Com mitos modernos
Cegos de contemplação de tanto espanto

Com novas íris volto a ser criança a olhar o céu
E tento apanhar as estrelas num gesto, num salto
Com novas íris me visto de ti
Num novo cosmos invisível à nudez dos meus olhos
E descubro no céu um arco-íris
Que viaja dos raios gama às ondas de rádio


Os interessados num exemplar devidamente autografado e numerado deverão contactar-me pelo email antoniopiedade2011@gmail.com

Obrigado

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Em homenagem a Herberto Helder e Manoel de Oliveira

De vez em quando chega à minha caixa de correio electrónica a ligação para um novo e invariavelmente excelente texto publicado no blogue A nossa rádio.

O texto que hoje me chegou é sobre Herberto Helder (aqui).
O que me havia chegado antes é sobre Manoel de Oliveira (aqui).

Tanto um como outro são de ler e guardar.

sábado, 21 de março de 2015

Ciência e poesia

Há poesia na ciência e há ciência na poesia.

A propósito do dia internacional da poesia que se celebra hoje, dia 21 de Março, partilho quatro poemas em que a ciência está presente.

Do químico conimbricense João Paiva, professor na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, o poema “Densidade” publicado no seu livro “quase poesia quase química” (2012):

Quando me
centro em mim,
cresce a minha densidade.
Mais massa
no mesmo volume
das minhas possibilidades.
Cheio,
deixo de flutuar.

Da poetisa e professora de físico-química aposentada, Regina Gouveia, o poema “Silêncio Cósmico”:

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,
ao Cosmos de onde vim.
no espaço interestelar, vazio, negro, frio,
havia de soltar um grito bem profundo
e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Do escritor açoriano Vitorino Nemésio, do livro “Limite de Idade” (1972), o poema “Deutério moderador”:

Deutério moderador
(Para alguns água pesada)
De teus dedos me dirija
A reacção encadeada.
Que eu só acelero por Amor
Por morrer com Energia.
Não chores mais, flor do isótopo,
Que tudo isto é poesia
E tempestade num copo
De H2O+ bem comum:
Sem número de massas nem Z antes,
Que seu destino é nenhum.

E termino com o incontornável António Gedeão, pseudónimo de Rómulo de Carvalho, com o seu poema “Máquina do Mundo”, do seu livro “Máquina de Fogo” (1961):

O Universo é feito essencialmente de coisa nenhuma.
Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea.
Espaço vazio, em suma.
O resto é matéria.
Daí, que este arrepio, este chamá-lo e tê-lo, erguê-lo e defrontá-lo,
esta fresta de nada aberta no vazio,

deve ser um intervalo.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Análise químico-forense do poema Os ratos de Fernando Pessoa


Três ratos foram encontrados mortos, supostamente por envenenamento acidental, e um outro sobreviveu a uma tentativa de suicídio, há um tempo indeterminado, mas que se pode situar como anterior a 1935. A possibilidade de acesso aos restos mortais e aos supostos meios envolvidos nos acontecimentos é remota. Não há também informação suficiente para localizar a mercearia onde tudo teria ocorrido. Só nos resta um texto em forma de poema, no qual o poeta Fernando Pessoa, com alguma graça, mas sem grande rigor científico-forense, teceu algumas hipóteses e conjecturas, de certa forma tendenciosas, que procuraremos analisar, com o objectivo de encerrar o caso.

Os ratos

Viviam sempre contentes,
No seu buraco metidos,
Quatro ratinhos valentes,
Quatro ratos destemidos,

Despertaram certo dia
Com vontade de comer,
E logo à mercearia
Dirigiram-se a correr.

O primeiro mais ladino,
A uma salsicha saltou,
E um bocado pequenino
Dessa salsicha papou.

Eu choro do rato a sina,
Que a tal salsicha matou,
Por causa da anilina
Com que alguém a colorou.

Confunde-se usualmente a anilina, que é um composto tóxico, com os corantes que são obtidos a partir desta molécula. Esses compostos sintéticos, em geral da família dos corantes azo, não são tóxicos nas quantidades usadas nos alimentos, sendo exemplos destes a tartarazina (E102, amarelo) e o amaranto (E123, vermelho). Este último pode ter sido usado na salsicha para lhes dar uma cor mais vermelha, mas o próprio tratamento das carnes com nitrito e nitrato já lhes dá alguma cor característica. Modernamente, usam-se também corantes como a hemoglobina e a mioglobina. Em qualquer dos casos, nenhum destes aditivos é venenoso. A morte do rato poderia, assim, ser devida ao uso criminoso de um corante tóxico como o mínio, um óxido de chumbo, ou o vermelhão, sulfureto de mercúrio, entre vários outros possíveis, mas em princípio não seria um corante da família das anilinas. Uma hipótese, mais provável para a morte do rato, poderá ser a intoxicação com a toxina do botulismo ou com salmonelas, em ambos os casos por deficiente conservação ou preparação da salsicha. Actualmente, os excessos nos aditivos, a falsificação, ou a contaminação biológica, poderiam ser detectados em análises de rotina. Em conclusão: provavelmente a acusação ao corante foi precipitada, sendo mais certa outra causa para o envenenamento.

O segundo, coitadinho,
À farinha se deitou,
E comeu um bocadinho,
Um bocadinho bastou.

Após comer a farinha
Teve ele a mesma sorte,
Pois o alúmen que ela tinha
Conduziu-o assim à morte.

O alúmen é um sulfato de alumínio e potássio com muitos usos tradicionais. Um destes, conhecido desde há vários séculos, era como aditivo da farinha, para facilitar a preparação do pão, funcionando talvez também como conservante. Actualmente, pode ainda aparecer em preparações de farinhas auto-levedantes (não consegui verificar). Não é, com certeza, um sal venenoso em pequenas quantidades (um bocadinho bastou), embora recentemente tenha havido alguma preocupação com a presença do alumínio, quando este foi injustamente associado à doença de Alzheimer. Para causar a morte do rato, ou o alúmen estaria numa quantidade inaceitável e facilmente detectável, ou ocorreu um erro relativamente comum até há alguns séculos: trocar o saco da farinha com o do óxido de arsénio (conhecido como arsénico) já que são ambos pós brancos! De novo a acusação é infundada, continuando desconhecida a razão do óbito.

O terceiro, pra seu mal,
Gotas de leite sorveu,
Mas o leite tinha cal;
Foi por isso que ele morreu.

A adição de cal ao leite numa quantidade que fosse perigosa é uma falsificação desconhecida pois o leite ficaria irremediavelmente alterado, provavelmente precipitando. São conhecidas várias falsificações do leite, algumas relativamente perigosas, mas, actualmente, este é um dos alimentos mais controlados, tanto em termos químicos como biológicos e isso seria imediatamente detectado. Em tempos idos, o leite não pasteurizado e não analisado poderia transportar doenças como a brucelose ou o carbúnculo, ter toxinas contaminantes como aquela que matou a mãe de Lincoln nos Estados Unidos, ou ainda sofrer adulterações químicas com dicromato, hipoclorito, água oxigenada ou bicarbonato, para ajudar à sua conservação. Não hoje: como referido anteriormente, todas estas possibilidades são analisadas de forma rotineira e, destas últimas, só o dicromato poderia oferecer algum perigo. Assim, conclui-se que a possibilidade do óbito ter sido causado pela cal no leite é muito remota.

O quarto, desmiolado,
A negra morte buscou,
E julgou tê-la encontrado,
Quando veneno encontrou.

E sorvendo sublimando,
Enquanto este gastava,
(Agora invejo-lhe o fado)
O feliz rato engordava.

É só cá neste terreno,
Que caso assim é passado-
Até o próprio veneno
Já fora falsificado!

Sublimado é o nome pelo qual era conhecido em Portugal o sublimado corrosivo, cujo nome moderno é cloreto de mercúrio II. Este composto é muito tóxico e foi usado como medicamento para infecções, em particular para a sífilis, numa altura em que não existiam antibióticos. Claramente, estamos na presença de uma falsificação também indeterminada. O rato não poderia engordar com a ingestão de cloreto de mercúrio, nem sobreviver às doses que estaria a tomar para tentar o suicídio. Para além disso, este composto é corrosivo e causaria queimaduras na garganta além de complicações físicas generalizadas. Assim, ou se tratava de uma falsificação, ou de um medicamento homeopático que de cloreto de mercúrio teria quase nada e de açúcar tudo.

O poema é muito interessante, mas a sua química forense é especulativa e na generalidade incorrecta. Caso encerrado de forma inconclusiva.