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sexta-feira, 24 de abril de 2026

No Dia Mundial do Livro

Celebrando o Dia Mundial do Livro, merece destaque um artigo de Rui Couceiro na Revista Visão (ver aqui), sob o título "A Europa, o Mundo e o Dia Mundial do Livro", que reflecte sobre a importância do livro e da leitura, especialmente nos tempos que vivemos.

É a leitura que nos ajuda a compreender o mundo, que nos faz reflectir sobre as questões da justiça e da liberdade, sobre a paz e as tragédias da guerra, que nos pode levar a agir de acordo com princípios humanitários, que nos torna, talvez, mais humanos.

Desse artigo, alguns parágrafos:

Muitos dirão amor, alguns excitação, outros prazer, haverá quem diga paz ou calma e muitas mais hipóteses surgirão, várias delas interligadas ou conducentes a outras sensações ou outros estados. Eu, como coisa que mais gosto de sentir, elejo o entusiasmo. Na origem grega, entusiasmo significa inspiração divina – e como não adorar a fervilhante vontade de agir que tal bênção instala em nós? Para quem é um pouco como Erasmo de Roterdão, que gastava todo o dinheiro nas livrarias e só depois pensava em necessidades como a comida ou a roupa, poucas coisas entusiasmam tanto quanto comprar livros. Na procura e, sobretudo, na descoberta de novas leituras, não só antecipamos como começamos já a sentir o entusiasmo que vai tomar conta de nós quando começarmos a ler a obra que, naquele momento, nos atrai. E isso dá-se porque poucas coisas satisfazem tanto como ler um bom livro.  

Em 2026, a comemoração ganha especial importância porque, em certas geografias, parece ter havido gente a viajar no tempo. E o que direi não cheira a ficção científica, mas sim a ficção histórica: há um país que voltou a proibir livros – coisa que, já no longínquo ano de 1763, no livro Carta Sobre o Comércio dos Livros, Diderot afirmava abominar e considerava “uma contradição estranhíssima”. Mas, de facto, os nossos dias parecem regidos por gente vinda dos atrasos de outras épocas. No ensaio Esse Vício Ainda Impune, de 2006, o crítico literário Michel Crépu já dizia, sem saber que tais palavras fariam ainda mais sentido 20 anos depois, que éramos guiados por “um exército de patetas radiantes de estupidez e de uma ambição feroz”, “imbecis (…) reconhecíveis pelo mau gosto, pela incapacidade de usarem com bom senso e justeza o poder de que gozam”. Este parece um texto escrito a propósito do mundo de hoje, razão pela qual, além de fonte de entusiasmo e prazer, ler será também, e cada vez mais, um imprescindível ato político. Ler para se saber mais, para se pensar melhor, para se ser livre e capaz de recusar o retrocesso. O que, naturalmente, perante medidas proibicionistas adotadas na maior potência global, só reforça a importância deste Dia Mundial do Livro. Obras de autores como Gabriel García Márquez, Toni Morrison, George Orwell ou Margaret Atwood, ou seja, algumas das mais importantes da história da literatura do último século, foram proibidas em escolas e estados americanos. Até certos volumes de Harry Potter, que tanto fez pela imaginação de tantas crianças e jovens, foram retirados de bibliotecas escolares daquele país.

Com a sua matriz humanista, um ideal orientador baseado na razão, na igualdade e nos direitos humanos, caberá à Europa assumir um papel de interventiva rejeição e condenação do retrocesso para o qual temos sido conduzidos, baseando-a no conhecimento histórico-social e filosófico-moral. A afirmação de tal postura conduzirá sempre, porque neles baseada, à valorização do livro e da leitura.

Em 1995, a UNESCO aprovou a proposta espanhola de que 23 de abril passasse a ser uma celebração global da maravilha que, enquanto grandes promotores do conhecimento e da empatia, o livro e a leitura representam. Foi uma boa ideia. Saibamos continuar a honrá-la e engrandecê-la. Só fará bem ao mundo.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

Livro “Lições de Química”


“Lições de Química” é um livro publicado pela ASA em 2022. Trata-se de tragicomédia negra, mas também muito luminosa e séria. Tem a química como mote, mas trata de relações humanas e é, dessa forma, para todos os leitores - não apenas para os aficionados da química ou para os que sabem desta ciência. (Deste livro, está a ser feita uma série televisiva que estreará em 2023). 

Curiosamente, se pensarmos bem, poderem existir escolas para jovens feiticeiros ou haver relações amorosas e sociais entre vampiros e humanos é tão improvável como uma cientistas química ter um programa culinário de sucesso na televisão. Mas, curiosamente, esta última possibilidade, embora fosse infinitamente mais provável, também não existe que eu saiba. Isso tem a ver com a forma como está organizado o mundo que nos rodeia. O que é uma pena pois assim estamos a deitar fora uma boa parte da cultura e literacia que, ainda por cima, é interessante e libertadora. 

E, sempre que mostrei a capa, havia alguma retração das pessoas. “Química?!” - diziam, ou pensavam! Um professor de literatura, que conheço, disse a propósitos de “Os Lusíadas” que esse tipo de retração das pessoas revela "um trauma." De facto, quando dizemos que somos químicos, a maioria das pessoas ou fica calada ou diz que “nunca percebeu nada de química.” Ora não é razão para tal. O livro é muito divertido, sendo que ao ao mesmo tempo é muito sério, como já referi. Com bastante humor negro refere as atitudes machistas e conservadoras da sociedade americana dos anos 1950, de que ainda hoje temos reflexos. Mas tem, além disso, de tudo um pouco: pessoas más, pessoas boas e pessoas assim-assim. Tem remadores que se tornaram obstetras ou cientistas, tem cientistas medíocres, cientistas abusadores e prepotentes, jornalistas que se redimem, cães sábios, filhas acutilantes, violência doméstica, eclesiásticos que não acreditam em Deus ou que são cínicos. É uma girândola de possibilidades e personagens que tem como cenário a sociedade americana da altura e a química. Vale a pena referir de novo o conservadorismo e o machismo, pois há duas personagem (uma delas a heroína) que não acabam o doutoramento devido a assédio sexual. Talvez não seja assim agora, mas li noutro livro que muitas internas de medicina passavam por esse tipo de problemas. 

Sobre as carreiras na química. É, em geral, um epifenómeno; não é dinástico como o direito ou a medicina. Contam-se pelos dedos os casos, que conheço, de filhos que seguiram as carreiras dos pais na química. Uma coisa interessante, é que o livro também retrata de forma indireta, que esses epifenómenos vêm, muitas vezes, das partes menos favorecidas das sociedades. Por exemplo, uma personagem do livro e que seria candidata ao prémio Nobel (se não tivesse morrido) vem de um lar para rapazes. A heroína, por outro lado vem uma família problemática. Vou referir, nesse contexto, dois Nobel, Frederick Sanger, que teve dois prémios e só foi para a universidade devido a ter bolsa. Sendo que o mesmo aconteceu com Robert Burns Woodward.

Os leitores já perceberam que eu não contei muito da história. Mas esta está cheia de partes cómicas, de algumas que são tragicómicas e outras que são mesmo trágicas. E, há momentos delirantes, como a árvore genealógica que tem bolotas e inclui, entre outras mulheres, Amelia Earhart, a aviadora solitária que desapareceu nos anos 1930 e é um ícone da independênca feminina (Mad, a filha da heroína, Elizabeth Zott, refere que os humanos são 99% iguais geneticamente, mas Elizabeth, sempre atenta a esses detalhes, corrige: 99,9% diz ela). O livro, tem, apresar de tudo, um final mais ou menos feliz. Gostei. 

segunda-feira, 5 de setembro de 2022

Rui Couceiro, “Baiôa sem data para morrer”, (Porto Editora, 2022). 446pp.

 “Baiôa sem data para morrer”, da autoria de Rui Couceiro, foi a minha leitura de verão. A apresentação do livro em Lisboa teve lugar, em junho, na Casa do Alentejo, onde aproveitei para comprar o livro e recolher o autógrafo do autor. Nessa sessão de lançamento, tanto o erudito Alberto Manguel, que apresentou o livro, como o jornalista e escritor Luís Osório, que moderou a sessão, teceram desmedidos elogios ao livro. Seriam esses louvores honestos ou exagerados? Nada como ler e tirar as teimas. 

Rui Couceiro é licenciado em comunicação social, mestre em ciências da comunicação, reputado editor e estreia-se agora como escritor. Neste seu primeiro livro, conta a história de um professor que, sem colocação e em situação de esgotamento, com um quadro psicológico depressivo, decide fazer uma pausa na sua carreira docente e refugiar-se na terra dos seus avós, numa aldeia do Alentejo profundo. Aí, gradualmente, vai conhecendo e fazendo amizade com os mais variados elementos da população local. Desses habitantes, destaca-se uma pessoa em particular: Joaquim Baiôa, um idoso obstinado em recuperar as casas, fazendo reparações e caiando as paredes de modo a atrair os proprietários, os seus descendentes ou novos moradores para a aldeia. Esta persistência de Baiôa em ressuscitar uma aldeia envelhecida e que vai perdendo rapidamente os seus habitantes – seja por morte natural, por suicídio, por acidente ou pela ida para os lares – é um dos mistérios do livro, assim como misterioso é também o legado científico de um médico que habitara aquela aldeia.  

O professor, personagem principal, é simultaneamente o narrador e partilha com o leitor as suas observações dos acontecimentos na aldeia, assim como as reflexões frenéticas que assolam a sua mente – vejam-se as suas reflexões sobre as insónias ou sobre o café. Distante da cidade de onde veio, depara-se com uma realidade totalmente diferente, seja pela reduzida população e as consequências sociais que daí advêm, seja por ser reflexo de um local ignorado pelos vários poderes políticos, tanto centrais como locais, retrato de um país a duas velocidades. Apesar deste retrato, Rui Couceiro não cai no erro da caricatura fácil da oposição da cidade avançada comparada com a aldeia retrógrada; pelo contrário, à aldeia já chegara a internet (embora com sinal fraco) e alguns habitantes, como a Ti Zulmira, aventuravam-se nos usos mais avançados fornecidos por essa tecnologia. De facto, a tecnologia e as várias redes sociais, surgem com frequência neste livro, remetendo-nos para uma reflexão relativa ao seu uso e vantagens, mas também aos efeitos que têm no nosso comportamento. 

Para Rui Couceiro, o autor, este livro tem que ver com a vida e com a morte. Eu, enquanto leitor, entendo que a morte é apenas o fio condutor, é o evento mais certo da vida real e que aqui atravessa a obra de ficcional, mas o tema principal é a vida e a obsessão por sobreviver ao esquecimento e ao desaparecimento. Mas é também um livro que versa também sobre a amizade e a esperança. Baiôa é esse símbolo da esperança de que é possível recuperar as casas, revitalizar a aldeia, contrariar o declínio demográfico. Quando todos, inclusive os autarcas locais, parecem negligenciar, não acreditar ou já desistiram do empenho em revitalizar a aldeia, Baiôa demonstra que um só homem possui a capacidade de fazer o improvável – o que seria se outros tivessem a mesma vontade e determinação. 

Este é um livro com um ritmo inicial lento, mas à medida que a história avança e a trama se adensa o ritmo também acelera. Contudo nunca deixa de ser reflexivo e de mergulhar na vivência da aldeia e nos segredos das várias personagens. A este propósito, a descrição das personagens é tão perfeita que ficamos afeiçoados às mesmas, a tal ponto que, a certa altura, parece que estamos a ler o relato biográfico de pessoas verdadeiras. Aqui, o real e o imaginário parecem misturar-se, diluir-se. As descrições do narrador tornam esta uma história empática, tocante e ternurenta. O que mais tem este livro? Tem humor, tem mistério, tem drama e tem segredos. Tem, portanto, imensos fatores que nos fazem ficarmos agarrados até ao fim, para tentar descobrir o que acontece no final. 

Este livro tem sido, merecidamente, muito mediático e a crítica tem sido no geral favorável ao autor. Já li e ouvi comentadores afirmarem, quanto à forma da escrita, as semelhanças a um Almeida Garret ou a um Eça de Queirós, eu lembrei-me de Laurence Sterne. Mas este livro não é nada disso e ainda bem. Esta é a escrita de um Rui Couceiro, portanto de um escritor original. Seja pela qualidade literária, seja pelos temas abordados, espero sinceramente que este livro venha a ser recomendado como leitura nas salas de aula das escolas deste país. 

Por agora, a nós leitores, resta-nos esperar por um novo livro de Rui Couceiro. Oxalá não demore. 

Para saber mais:
- Semanário Novo;
- Jornal Público;
- Diário de Notícias;
- Notícias Magazine;
- Jornal de Notícias;
- Prova Oral, na Antena 3;
- Entrevista com Inês Menezes.

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Asimov: centenário da escrita e leitura compulsivas

[O JL de 26 de agosto de 2020, traz artigos meus que vou aqui colocar sobre os vários centenários de autores de ficção científica. Falo de vários autores (aproveito para corrigir algumas gralhas), nascidos em 1920, que transbordaram, ou estão ligados, a a este universo.O Jornal recomenda, entretanto, várias obras dos autores publicadas recemente. Além destes trabalhos e de outros artigos, notas e sugestões, o JL tem entrevistas a Ondjaki e João Alvim, discute as feiras do livro de Lisboa e Porto, o teatro, a fotografia e outros assuntos. Boas leituras!]

Isaac Asimov, nome inglês de Isaak Yudavich Azimov, nasceu na Rússia, antigo União Soviética, a dois de janeiro de 1920, segundo o próprio, e morreu em Brooklyn a 6 de abril de 1992. Os dados parecem estar na Wikipédia, mas olhemos para eles com mais atenção.

Isaac descreve numa sua autobiografia desde que nasceu até aos anos 1950, publicada em 1979, que queria inicialmente ser médico e que se formou em ciências com um major em química, em 1939. Que fez um mestrado em química, insistindo muito com os professores, nomeadamente com Urey, prémio Nobel em 1934. Refere que adorava a química mas que pensava ganhar a vida a escrever. Embora, por essa altura, muitos manuscritos seus fossem rejeitados. A guerra apanhou-o e foi para a Marinha e só se doutorou em 1948. Ao mesmo tempo que fazia um pós-doc, concorria para vários lugares e foi sendo recusado. Acabou num inesperado lugar de professor de bioquímica numa escola médica de Boston, ele que desistiu de ser médico! Hoje, muitas pessoas acham que ele era bioquímico e de facto foi (mas antes foi químico). Fez alguma investigação e ensinou esta matéria. Mas o que gostava mais, diz, era de ensinar, escrever e divulgar. É engraçado que o seu primeiro livro famoso tenha surgido quando conseguiu esse lugar e na contracapa apareça a sua afiliação, o que o faz pensar em demissão. Diz-lhe o presidente da escola que se o livro era bom a escola não se importava de ficar associada a ele.

Muitos professores ensinam aquilo que não aprenderam, como é óbvio. Tiveram de estudar. As pessoas podem tornar-se especialistas se estudarem a sério. Lavoisier não era formado em química, mas sim em direito. Quando as coisas correm mal gostamos de dizer que as pessoas eram de outra área. Thomas Midgley Jr., ligado à gasolina com chumbo e os CFC, formou-se em mecânica e só depois obteve um doutoramento em química. Dirac era formado em engenharia antes de tornar o génio matemático e físico que conhecemos. Em Portugal atualmente (não vou referir nomes) torcem o nariz às pessoas que ensinam uma coisa e tiveram formação inicial noutra. São raros os que têm lugares fora do sua área inicial. Gostamos de referir o percurso, por exemplo, de Bento de Jesus Caraça, mas quando as coisas correm mal lembramo-nos da formação inicial...

Gosto especialmente do conto de Asimov sobre a galinha dos ovos de ouro (Mistérios, Vega, 1990). É a mesma história, mas travestida de ciência e tecnologia. Está muito bem feita porque as pessoas quase acreditam. A bioquímica é razoável, assim como a física nuclear. Mas nunca vimos uma galinha dos ovos de ouro e o investigador, levando-a para o laboratório, desmontando-a, mata-a e acaba com os ovos de ouro.

São também muito famosos os seus livros de contos sobre robôs. Mais ainda as suas leis da robótica que como é sabido têm mais de 70 anos. Hoje em dia, tempo da inteligência artificial (AI), de Internet das coisas (IoT), de e Big Data e comunicação permanente, presentes de forma ubíqua, em particular nos telemóveis, lembramo-nos por vezes que muitas das atividades decididas pelos computadores e feitas por máquinas. Os pilotos automáticos deram lugar às aterragens conduzidas por máquinas. Os carros autónomos comunicam como se fosse telepatia entre condutores gentis. As profissões e atividades transformam-se de forma imprevisível. Claro que temos as distopias do controlo como o 1984 e o Admirável Mundo Novo, mas não era isso que referia.

Referia-me ao conto do robô que aprendeu a mentir. Esse conto é admirável por si só e, na minha opinião, não precisa de sobrenatural. O robô lê pensamentos, ninguém sabe como, mas não era necessário explicitar que ele lia mesmo pensamentos. Ler pensamentos é interpretar os pensamentos, pensar o que os outros pensam. E as máquinas podem fazer isso muito bem. Podem aprender a perceber os sentimentos e agir em conformidade. Podem aprender a identificar padrões melhor que os humanos. Voltando atrás, um robô aprende a perceber o que as pessoas querem ouvir, mas ele dá também conta que de isso é muito complexo. Então pede romances e livros humanos, que segundo ele, seriam muito mais complexos do que os livros de mecânica quântica. O robot começa a perceber que a psicóloga de robôs de meia idade está a apaixonada, que um cientista quer o lugar do outro, e diz-lhes o que eles querem ouvir. Assim, temos uma psicóloga que se arranja e pinta e um cientista que é arrogante com o chefe que se vai demitir, o que surpreende por os robot nunca mentirem. Confrontado com a contradição, o robô não a consegue resolver e autodestrói-se. Hoje não seria assim com a lógica difusa, por exemplo.


Isaac Asimov morreu relativamente novo (pelos padrões de hoje), com 72 anos, e só começou a publicar regularmente depois dos 30 anos. Mais de quatrocentos dos seus cerca de quinhentos livros foram publicados depois dos cinquenta anos. Tem uma produtividade média de onze livros por ano e atingirá a sua produtividade máxima aos 69 anos com quase quarenta livros. A escola estava tão contente por ter esse autor entre os seus académicos que não lhe dava aulas regulares.

Em oposição, António Nobre só publicou um livro. Harper Lee também o queria fazer, mas descobriram um livro dela depois de morta (é muito perigoso estar morto).

Outro livro que acaba por conter todos os estilos e preocupações de Asimov é o Planeta dos deuses (Livros do Brasil, 1980) de 1972 publicado na coleção Argonauta. Na Terra, passado um século, em 2070, houve uma grande crise (não sabemos qual) e a população passa de seis para dois mil milhões, havendo uma colónia na Lua. Entretanto, descobriram um bomba de energia, chamada “bomba eletrónica” baseada na estabilidade inesperado do inexistente tungsténio 186. Esta bomba era conduzida por para-universo de leis diferentes que usava a segunda lei da termodinâmica para obter energia nos dois universos. Parecia violar aquela lei, mas lançando os problemas no outro universo mutuamente parecia não violar. Há obviamente vários problemas e contradições na ideia, mas parece plausível como toda a boa ficção. Mas os dois universo convergem para ter as mesmas leis e no final morrerão. Esperava-se que passado muito tempo. Os cientistas que duvidam são renegados e postos na prateleira. Há aqui um vislumbre de meio académico tacanho mas muito estilizado. O capítulo acaba (aliás todo o livro se baseia nesta citação) referido uma peça de Schiller, “mesmo os deuses são impotentes perante a estupidez.” Devemos notar que Asimov fez muitos guias, desde Shakespeare à medicina, passando pela Bíblia e era (a contragosto diz-se) presidente de uma das associação de sobredotados mais conhecida.

No segundo capítulo aparecem os “deuses”, extraterrestres avançados e muito diferentes. A ficção científica clássica - derivada da fantasia - em toda a sua glória. Duros e flexíveis, racionais e sensitivos, tríades cuja fusão é dificultada pelas variações das leis.  Finalmente temos um capítulo passado na Lua que tem um sincrotrão e pessoas que tendo nascido lá não têm músculos e ossos adaptados à gravidade da terra (este tema é tratado também por Robert Heinlein) que nunca teve um bomba eletrónica. Foi aí que aparecem a notícia da bomba contrária mas fica em aberto o que se passará a seguir. 

Este é grande mote da ficção científica, da literatura e da vida. Não sabermos o que se passará a seguir.

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Uma biografia de António Arnaut

Foi lançado este ano o livro "António Arnaut - Biografia", da autoria dos jornalistas Luís Godinho e Ana Luísa Delgado. 

António Arnaut (1936-2018) foi um advogado português que nasceu em Penela e viveu a maior parte da sua vida em Coimbra. Teve uma relevante participação cívica e cultural no panorama nacional: do ponto de vista político, foi um dos fundadores do Partido Socialista, foi deputado, vice-presidente da Assembleia da República e Ministro dos Assuntos Sociais; ainda enquanto político, criou e defendeu o Serviço Nacional de Saúde (SNS); foi autor de dezenas de livros de poesia, ficção e ensaios; pertenceu à maçonaria, uma instituição filantrópica, tendo exercido o cargo de Grão-Mestre do GOL. 

Sempre que possível, utilizava o espaço mediático para defender o SNS, a ética, a justiça e a igualdade, assim como para criticar a corrupção e o neoliberalismo.

O livro pode ser divido em oito partes: do capítulo 1 ao 6 é apresentada a história da criação e vicissitudes do SNS, o capítulo 7 aborda os aspetos principais da sua vida, os capítulos 8 a 10 são dedicados à sua experiência militar, o capítulo 11 centra-se na sua relação com a religião e a perda da fé, nos capítulos 12 a 15 é dada a conhecer a sua vida política, os capítulos 16 a 18 são dedicados à sua atividade literária, os capítulos 19 a 21 abordam a sua preocupação com a ética e a sua intervenção cívica e social, o capítulo 22, o último, encerra com o reconhecimento público que mereceu. 


sábado, 1 de novembro de 2014

Vampiros, zombies e bruxas



No Jardins de Cristais, Química e Literatura escrevi um pouco sobre as histórias de vampiros e de zombies. Saliento em particular o excerto seguinte:

Brian Stableford, biólogo e autor de ficção científica britânico, procurou, em O Império do Medo, de 1988, outra forma de apresentar o mito do vampiro, dando‐lhe verosimilhança científica e histórica. Neste livro, fantasia uma história alternativa em que uma aristocracia de vampiros imortais domina a terra. Estes não têm problemas com a luz, mas o aumento do seu número é muito limitado, embora continuem a precisar de sangue, mas apenas em pequenas quantidades. Com o desenrolar da história, que vai de 1623 e 1983, percebe‐se que se trata de uma doença benigna causada por um germe (mais tarde identificado como um vírus) que repara danos celulares e retarda os processos de envelhecimento celular. O sangue, modernamente substituído por comprimidos, é necessário porque alguns neurotransmissores importantes deixam de ser produzidos no corpo transformado, que entra em hibernação na sua falta.

No caso do mito dos zombies é também possível encontrar ligações químicas. Existe a teoria, mais ou menos confirmada, de que em determinados locais da América Central são usadas toxinas como a tetrodoxina que causa paralisia e outras drogas para fazer zombies através de vodu. Para o sucesso disso, concorre a credulidade das pessoas, mas não é totalmente descabido.
Mas acabei por não referir directamente a questão das bruxas e da química que lhes está associada. É notável a similitude das narrativas que nos chegaram sobre estas mulheres, e também homens, acusados de bruxaria. São em geral pessoas que têm bons conhecimentos empríricos sobre ervas com actividade biológica e que saberiam com certeza quais eram alucinogénicas. Estes conhecimentos eram provavelmente transmitidos como segredos e vários autores acreditam que a similitude das narrativas reside nas propriedades alucinogénicas das moléculas envolvidos. Numa sociedade opressiva para a mulher, possuir segredos sobre a cura e alívio de algumas doenças através das plantas e ter a possibilidade de se libertar das tarefas diárias através do voo numa vassoura, era arriscado mas compensador. Claro que o voo era uma alucinação, mas pareceria muito mais real com a ajuda de compostos como a atropina, a hioscimina e a escapolamina da beladona e figueira do diabo, por exemplo, e da batracotoxina obtida dos sapos, entre vários outros compostos obtidos de plantas e animais. Paralelamente, resistindo ao sofrimento insano causado pelos perseguidores de bruxas, foram sendo preservados conhecimentos importantes sobre plantas medicinais tais como a dedaleira que possui o glicosídeio digitoxina que é um estimulante cardíaco, a casca de salgueiro e choupo com salicina e tantas outras mezinhas ou poções que derem origem ou inspiraram um grande número de medicamentos modernos.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Jardins de Cristais, Química e Literatura



Um pequeno excerto do meu livro Jardins de Cristais, Química e Literatura, editado pela Gradiva:


Há uma pequena história num dos cinco volumes de O Guia Galáctico do Pendura, do escritor britânico Douglas Adams, mais concretamente no volume intitulado O Restaurante no Fim do Universo, que retrata bem o papel, aparentemente modesto, mas fundamental, que a química tem em muitas histórias e na vida em geral. A história tem a ver com um poeta cuja obra é alterada, acabando por desaparecer, no decurso de viagens no tempo efectuadas por um grupo de empresários que o querem convencer a participar num anúncio de um líquido corrector. Mais tarde, a obra do poeta acaba por ser reconstruída a partir de uma cópia vinda do futuro, e, ao lermos a história, fixamos-nos nas grandes questões: o Universo e tudo o resto, em particular na possibilidade de efectuar viagens no tempo e nos paradoxos que essa possibilidade causa. No entanto, esta história só é possível porque um químico criou uma coisa que passa quase despercebida, mas tem um papel fundamental para o desenrolar da história: o líquido corrector.

O livro está disponível a partir de hoje nas livrarias, página da Gradiva e ainda na Wook.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

LER +, LER MELHOR: PIPOCAS COM TELEMÓVEL

Edição do programa da RTP Ler+, Ler Melhor acerca do livro Pipocas com Telemóvel e Outras Histórias de Falsa Ciência, da autoria de David Marçal e Carlos Fiolhais.

Para ver aqui.

domingo, 19 de maio de 2013

LANÇAMENTO DO LIVRO "DOIS DEDOS DE CONVERSA SOBRE O DENTRO DAS COISAS"

No dia 21 de Maio de 2013, às 18h30, na Livraria Ferin, no Chiado – Lisboa, tem lugar a apresentação do livro Dois Dedos De Conversa Sobre o Dentro das Coisas – Um Crente, Um Ateu e a Verdade Como Provocação.

O evento conta com a presença dos autores, Bruno Nobre e Pedro Lind e a intervenção do professor Carlos Fiolhais.

João Lobo Antunes e Carlos Fiolhais são os autores dos prefácios que introduzem esta obra, que reporta a correspondência entre os dois físicos, um crente, jesuíta, e um ateu, num diálogo intenso e sugestivo sobre o modo de entender a relação entre a ciência e a religião.


terça-feira, 16 de abril de 2013

"TODA A CIÊNCIA (MENOS AS PARTES CHATAS)" É O NOVO LIVRO DOS CIENTISTAS DE PÉ

O novo livro dos Cientistas de Pé, um grupo de cientistas que faz stand-up comedy desde 2009, chega às livrarias no final de Abril, editado pela Gradiva.


«Com esta obra, além de ficarmos a saber mais sobre alguns aspectos das multifacetadas ciências modernas, as ciências que tão fortemente moldam o mundo de hoje, ficamos também com uma imagem mais verdadeira da ciência e dos cientistas. Estes são capazes de não se levar demasiado a sério. Tal como estes Cientistas de Pé, os melhores cientistas são capazes do melhor humor. Uma das anedotas mais engraçadas da ciência que conheço é aquela em que alguém pede a Einstein para fazer uma conta simples, que deveria ser feita mentalmente por um físico laureado com o Nobel. Resposta, surpreendente, de Einstein: 'Julgam que eu sou algum Einstein?'» in Prefácio (Carlos Fiolhais)

Neste livro podem ler-se piadas sobre a ciência que há no futebol, no sexo e no bacalhau. Ficará a saber que as ciências são como as drogas, há as leves e as duras. Conta-se o caso dramático de um jovem privado de homeopatia desde pequenino e a vida de um informático na óptica do utilizador. Ficará rendido à eficácia do speed dating com arroz hermafrodita e preocupado com a crise de identidade do lixo. Também é explicado como a capacidade de planeamento pode prejudicar o desenrascanço e feito um tocante peditório para financiar um programa de reprodução de ideias ameaçadas em cativeiro. A comicidade é assegurada por uma série de rigorosos testes realizados em laboratório, de modo que o leitor nem precisa de se preocupar em rir.

«Do ponto de vista de um observador à velocidade da luz, este livro parece engraçadíssimo.»
Albert Einstein

«Este livro tem e não tem piada ao mesmo tempo.»
Erwin Schrödinger

«Tentei rir-me pouco para não emitir muito dióxido de carbono.»
Al Gore

«Tenho pena não estar cá para ler isto.»
Dodô (Raphus cucullatus)  ave extinta no século XVII

Os autores são os Cientistas de Pé, um grupo de cientistas de diversas áreas (desde a biologia à Buraca) que (desde 2009) faz espectáculos de stand-up-comedy sobre temas científicos. Já actuaram em teatros, anfiteatros, centros de investigação, museus de ciência, jardins e para muitos polícias de trânsito, na esperança de verem perdoada uma multa de estacionamento abusivo de velocípede.

Coordenação: David Marçal
Bruno Pinto
Cheila Almeida
Daniel Silva
Ivette Pacheco
João Cruz
João Damas
Joaquim Paulo Nogueira
Leonor Medeiros
Ricardo Sequeira
Sandra Mateus
Sofia Guedes Vaz
Sofia Leite
Romeu Costa
Sónia Negrão

Na próxima quinta-feira, dia 18 de Abril, irei fazer uma pré-apresentação do livro no Museu da Ciência de Coimbra, às 18h. Ainda sem livro, numa lógica muito semelhante à de consultar o saldo do multibanco "no ecrã". É mais ecológico. No futuro talvez as pessoas também leiam livros no ecrã do Multibanco, já que levantar dinheiro será cada vez mais difícil!

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Passatempo “Pipocas com telemóvel…”: Oferta de um exemplar à resposta mais criativa



A Associação Viver a Ciência oferece um exemplar do livro "Pipocas com telemóvel e outras histórias de falsa ciência" para quem der a resposta mais original sobre mirabolantes refeições que (não) possam ser confeccionadas usando as radiações dos telemóveis. Mais informações aqui.

domingo, 25 de novembro de 2012

BOA TARDE DE PIPOCAS COM TELEMÓVEL NA SIC

A participação de Carlos Fiolhais e David Marçal no programa da SIC Boa Tarde, a propósito do livro Pipocas com Telemóvel, pode ser vista aqui.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

CAFÉ, LIVROS E CIÊNCIA: PIPOCAS COM TELEMÓVEL

PIPOCAS COM TELEMÓVEL, ENTREVISTA NO DIÁRIO DIGITAL

Entrevista aos autores Carlos Fiolhais e David Marçal, publicada no Diário Digital, acerca do livro Pipocas Com Telemóvel e Outras Histórias de Falsa Ciência, editado pela Gradiva.


Carlos Fiolhais: «Não há nenhum fundamento científico que abone a eficácia da homeopatia»

Em «Pipocas com telemóvel e outras histórias de falsa ciência», editado pela Gradiva, David Marçal, doutorado em Bioquímica pela Universidade Nova de Lisboa, e Carlos Fiolhais, doutorado em Físia Teórica pela Universidade de Frankfurt, procuram desvendar algumas das pseudociências que assolam o nosso dia-a-dia, certezas que podem inclusive causar problemas de saúde.

«Iogurtegate», «Pulseiras quânticas», «A racionalidade diluída da homeopatia», «Não há duas sem ómega-3», «A bazófia dos basófilos» são apenas alguns dos sub-capítulos de «Pipocas com telemóvel e outras histórias de falsa ciência», uma obra que tem todas as possibilidades de deixar o leitor incrédulo, já que certamente vai «abalar» com as suas convicções.

Uma obra portanto obrigatória e que deve ser lida com urgência, ainda mais quando procura desvendar as pseudociências que estão um pouco por todo o lado nas nossas vidas diárias.

Como explicam haver tanta falsa ciência a circular no nosso dia a dia?
David Marçal - A ciência tem credibilidade e, por isso, ajuda a vender. Muita gente usurpa a validade científica para vender a sua banha da cobra ou, pelo menos, para exagerar os benefícios dos seus produtos.
Enquanto uns ganham, os outros perdem: a falsa ciência pode fazer muito mal à carteira.

Porque as pessoas estão dispostas a aceitar isso como uma verdade?
Carlos Fiolhais - Por falta de cultura científica, isto é, por estarem pouco familiarizadas com a natureza e o método da ciência. A ciência baseia-se na observação e na experiência e não em auto-intituladas autoridades. Face a uma afirmação alegadamente científica devemos perguntar que provas existem em seu abono. A falsa ciência, em vez disso, apresenta cientistas da NASA que a NASA não sabe quem são ou meninas de bata branca e sorriso amplo em anúncios de televisão. Este tipo de marketing, que tanto vende curas quânticas como iogurtes que eliminam o colesterol, é muito eficaz: faz muitas vítimas.

Acreditam que a pseudociência é o principal mal da ciência?
David Marçal - A pseudociência é um mal da sociedade, não da ciência. Vendedores da banha da cobra sempre existiram e hoje em dia os vendedores de banha de cobra científica  evocam a ciência apenas para fazer passar melhor a sua mensagem. Curiosamente, nas sociedades modernas, que são modernas devido à ciência, a pseudociência continua a ter um lugar de relevo.

Mas essa pseudociência não acaba por atrair mais pessoas para a área?
Carlos Fiolhais - Não, de modo algum. A pseudociência não tem nada a ver com o processo de construção do conhecimento científico. Baseia-se até na negação desse processo. A pseudociência apenas atrai mais pessoas para a pseudociência. A cultura científica, o melhor conhecimento da ciência, é que atrai mais gente para a ciência.


Se a pseudociência chega ao dia a dia como uma verdade, não há uma falha da própria Ciência na sua comunicação?
David Marçal -  Sem dúvida. Em primeiro lugar há falhas no ensino das ciências, no qual falta demasiadas vezes a componente experimental. Por outro lado, há também falhas no transporte dos resultados e da atitude da  investigação científica aos cidadãos. Os cientistas devem intervir mais na sociedade e partilhar os seus conhecimentos e os seus valores. Nesse último aspecto, temos tido um grande progresso em Portugal nas últimas décadas graças, por exemplo, à editora Gradiva, à Agência Ciência Viva e a várias associações e instituições de investigação científica. Trata-se de uma aposta que tem que ser mantida e reforçada. Mas, faça-se o que se fizer, haverá sempre vendedores da banha da cobra. Poderão é ser menos ouvidos.

Como tiveram a ideia de explicarem a ciência através da falsa ciência?
Carlos Fiolhais - A falsa ciência assenta em equívocos acerca da natureza ciência e do processo científico. Esclarecer esses equívocos é uma das maneiras de mostrar o que é a ciência. O nosso livro anterior teve muito êxito (já vai na 3.ª edição) e nele já tratávamos a falsa ciência.

Na vossa opinião, qual a pseudociência mais popular?
David Marçal - A concorrência é grande! Talvez os produtos de grande consumo, tais como iogurtes com probióticos, que alegadamente têm benefícios para a saúde, ganhem nessa «competição». Tais benefícios não estão demonstrados e, por causa disso, as empresas produtoras têm sido multadas por publicidade enganosa e até proibidas de emitir certos anúncios em vários países. Por exemplo: há cerca de um mês, no Canadá, a Danone foi obrigada a indemnizar os seus consumidores ao abrigo de um processo judicial, por induzir erradamente a ideia de que os iogurtes reforçam o sistema imunitário. Cada consumidor vai receber entre 15$ e 50$. Não é muito, mas é simbólico, e, em Portugal, neste tempos de crise, seria certamente uma ajuda.

E qual a que provoca mais espanto?
Carlos Fiolhais - As falsas ciências que têm os defensores mais acérrimos são talvez as medicinas alternativas. E elas provocam-nos grande espanto. Entre elas, a homeopatia conseguiu adquirir um estatuto especial e muitas pessoas ficam surpresas quando lhes dizemos que não tem  qualquer fundamento científico. Pensam que há um fundamento qualquer porque é vendida em farmácias e há sistemas de saúde de alguns países que a comparticipam. Por isso nunca é demais dizer: não há nenhum fundamento científico que abone a eficácia da homeopatia. Nos ensaios clínicos que foram realizados (e são muitos) não funciona melhor do que um placebo. O que não admira porque os remédios homeopáticos são preparados através de um conjunto de diluições sucessivas e, no final, não sobra nada da substância original. É só água e açúcar. Na apresentação do livro eu e o David tomámos uma sobredose de medicamentos homeopáticos e estamos vivos.

Portanto, em termos sociais, a pseudociência na saúde, por exemplo um iogurte que afirma reduzir o colesterol, é o principal problema de uma sociedade?
David Marçal - Os iogurtes não são problemas desde que as pessoas que precisam de medicamentos para o colesterol não os troquem por iogurtes. Do ponto de vista social, o principal problema está nos falsos tratamentos médicos que levam as pessoas com doenças graves a abandonarem tratamentos com provas dadas substituindo-os por outros que nada fazem ou até agravam a situação. Por exemplo, na África do Sul, no início do século XXI, foram vendidos suplementos vitamínicos para tratar a SIDA, levando muitas pessoas a usa-los em vez dos medicamentos anti-retrovirais. Isto foi criminoso e resultou na morte prematura de milhares de pessoas. Outro caso é o dos adeptos dos movimentos anti-vacinas, que não só se colocam em risco a si próprios como a toda a comunidade...

Apesar de ser um tema sério, a pseudociência, escolheram o tom do humor na hora da escrita. Porquê?
Carlos Fiolhais - Se a ciência pode ser divertida, a pseudociência, com todo o carrossel mirabolante de ideias que a procura justificar, pode ser muito mais divertida. Nalgumas situações rir poderá ser o melhor remédio. Mas há vários tons no livro, não apenas o humorístico. Este é um livro sério sobre um assunto sério. Se o leitor duvida, experimente ler.


sexta-feira, 16 de novembro de 2012

PIPOCAS COM TELEMÓVEL NA SÁBADO

Foi ontem publicado da Revista Sábado um artigo sobre o livro Pipocas com Telemóvel e Outras História de Falsa Ciência, da autoria de David Marçal e Carlos Fiolhais.


(clique para ampliar)


Por limitações de espaço da revista, penso que será útil fazer aqui alguns esclarecimento adicionais acerca da preservação de células do sangue do cordão umbilical em bancos privados, para uso próprio. 

Em primeiro lugar há uma confusão muito grande acerca dos vários tipos de células estaminais.  O processo de diferenciação celular, ou seja, o modo como as células se especializam, tem algumas semelhanças com o percurso escolar. As células totipotentes, ou seja, as que se podem diferenciar em todas as células e dar origem a um organismo completo, apenas existem numa fase muito inicial do desenvolvimento do embrião (o óvulo fecundado). Depois, há as células pluripotentes, que se podem diferenciar em várias linhas celulares, ou seja, em quase todos os tipos de células do organismo, mas que já não podem dar origem a um organismo completo. Na senda de potencial decrescente seguem-se as células multipotentes, que apenas se podem diferenciar em todas as células de uma determinada família. É este o caso das células hematopoéticas, que se obtêm a partir do sangue do cordão umbilical e que podem dar origem a todos os tipos de células do sangue. Há ainda as células unipotentes, que podem dar origem apenas a células especializadas iguais a elas próprias. Para que não restem dúvidas, o potencial de
diferenciação decrescente é o seguinte:

Totipotentes → Pluripotentes → Multipotentes* → Unipotentes

O asterisco assinala onde se encaixam as células do sangue do cordão umbilical. São células estaminais adultas, produzidas pela medula óssea e que podem também ser colhidas ao longo da vida. As células estaminais de que, por vezes se fala quando se aborda a medicina regenerativa são células embrionárias, pluripotentes. Mas estas podem colher-se apenas até cerca de quatro ou cinco dias após a fecundação. As células estaminais do cordão umbilical são essencialmente hematopoéticas. Isto significa que podem dar origem a todos os tipos de células do sangue. Já foram detectadas nalgumas amostras de sangue do cordão umbilical células estaminais pluripotentes, em quantidades muito pequenas. No entanto, está por demonstrar que possam ser usadas.

Como é mencionado na Sábado, a utilidade das células do sangue do cordão é muito reduzida, já que muitas das potenciais aplicações ainda não existem. São um exercício de pura futurologia médica, mais próximo da ficção científica do que da ciência. Acresce a isto que muitas condições clínicas que poderiam ser ser tratadas com células do sangue do cordão umbilical já existem no sangue da criança. E, fazendo futurologia médica, não há razão para pensar que a medicina regenerativa do futuro seja baseada em auto-transplantes de células do sangue do cordão umbilical. Pode, por exemplo, ser baseada em reprogramação de células diferenciadas, que são induzidas a voltarem a ser células estaminais. Esta técnica de reprogramação celular esteve na origem da atribuição do Prémio Nobel da Medicina deste ano.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

PORTUGUESES ENGANADOS COM A HOMEOPATIA

O Correio da Manhã de hoje publica uma notícia sobre o lançamento do livro Pipocas com telemóvel, com as primeiras reacções homeopáticas à nossa demonstração de ontem. Como é típico da falsa ciência, o presidente da Sociedade Homeopática de Portugal evoca argumentos de autoridade (é usado em hospitais, é antiga) em abono da sua hipótese e neste caso também da falta de autoridade (nossa!). Só que a ciência não se baseia em figuras de autoridade, mas sim em provas. Não explica porque é que julga que funciona. Isso sim, seria interessante e esclarecedor. Apenas diz que há autoridades que acreditam que a homeopatia funciona. Isso vale muito pouco.

"Portugueses enganados com homeopatia"

Os investigadores Carlos Fiolhais e David Marçal apresentaram esta segunda-feira o livro ‘Pipocas com telemóvel’, no qual apresentam exemplos de falsa ciência. A homeopatia, uma forma de terapia alternativa, adoptada por milhões de portugueses, é para os autores o melhor exemplo de falsa ciência.
“Diz-se que há cerca de 3 milhões de portugueses a serem tratados pela homeopatia. Estão a ser enganados, porque não é mais do que água com açúcar”, afirmou David Marçal, doutorado em bioquímica pela Universidade Nova de Lisboa.
Carlos Fiolhais, professor catedrático no departamento de Física da Universidade de Coimbra, corrobora. “Alguém os anda a enganar. A verdade é que aquilo que as pessoas tomam não faz mal nenhum, a não ser à carteira”, comentou ao CM.
Para demonstrar que a homeopatia não funciona, Carlos Fiolhais e David Marçal tomaram uma caixa inteira de um medicamento homeopático à frente de uma plateia de cerca de 30 pessoas.
“O conceito passa por diluir uma substância activa para se atingir um resultado. A diluição é tão grande que não sobra nada da substância inicial. A memória da água, ao contrário do que já se tentou demonstrar, não existe”, afirmou David Marçal, sublinhando: “A homeopatia não tem base nenhuma de conhecimento científico”.
Confrontado com as declarações de Carlos Fiolhais e David Marçal, o presidente da Sociedade Homeopática de Portugal questionou os conhecimentos de ambos. “Dá vontade de rir ou talvez de chorar. São detractores da homeopatia, que é usada em muitos hospitais de referência em todo o mundo, como São Paulo, Viena ou Munique”, afirmou Francisco António Franco Patrício, recomendando aos dois investigadores “mais estudo sobre o que é a homeopatia”.
“Estes cientistas pensam que são o supra-sumo da barbatana. Deviam era estudar mais e melhor o que é a homeopatia”, acrescentou o médico de clinica geral, que pratica a homeopatia há 30 anos.
No livro são mostrados outros exemplos de falsa ciência, inclusive usada pelas escolas. “As crianças índigo, as lâmpadas que melhoram as capacidades das crianças são tudo exemplos de falsa ciência que são apresentados neste livro”, referiu Carlos Fiolhais.

UM CAMINHO CURRICULAR PARA A FORMAÇÃO HUMANISTA?

Entenda-se este texto não como um elogio acrítico a uma nova escola de iniciativa privada, mas como uma reflexão acerca da estrutura curricu...