domingo, 6 de setembro de 2026

A PERGUNTA A FAZER É A SEGUINTE: SERÁ DESEJÁVEL RECUPARAR OS RESULTADOS DO PISA?

Neste ano, tanto quanto me recordo, recebi, pela primeira vez, da parte de uma universidade informação sobre o que julgo ser o mais recente relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) sobre o Programa Internacional de Avaliação dos Alunos (PISA). O reconhecimento académico, desta e de outras entidades marginais à educação e à investigação, mesmo que seja inocente, desagrada-me e, por isso, descartei a mensagem sem ler o anexo. 

Presumi, depois, que o assunto fosse o que tem andado pela comunicação social sobre os resultados desse Programa ao longo deste século, com queda a pique a partir de 2012. Fui ver o que consegui encontrar.

 

Esta organização (note-se, de natureza económico-financeira, não educativa, mas que se impõe como primeiro e mais importante parceiro global da educação escolar) formulou, há poucos dias, a seguinte pergunta: será possível recuperar os resultados do PISA?

A pergunta está inquinada, pelo menos por duas razões substanciais.

A primeira razão é que se os resultados baixaram como baixaram o problema é bem capaz de estar no currículo que a própria OCDE promove/impõe: no inicio do século, de modo implícito, através de opções que deram forma ao PISA, e depois, de modo explícito, através da pressão que exerce junto de países e regiões para que reformem a educação em função das suas orientações, recomendações, acompanhamento, etc.

Ora, pelo que li, a organização não questiona o currículo padronizado que constitui a base da medição padronizada, a qual permite chegar aos resultados que regularmente apresenta como o (verdadeiro e único possível) estado da aprendizagem no mundo.

E deveria, pois o currículo (e a medição que a ele está vinculada) assenta numa lógica competencial orientada para a economia mas desligada de princípios éticos fundamentais, como sejam o direito à educação (no sentido de formação humanística do ser humano), e a justiça distributiva (derivado do sentido de bem-comum). 

Portanto, o que o PISA mede são as competências que se quer que as crianças e jovens adquiram, nas áreas da língua materna, da matemática e da ciência no que elas podem ter de útil e funcional para o "mercado de trabalho", onde a pessoa é reduzida a "recurso", a "capital" humano. As competências emocionais e de empreendedorismo, que se têm acrescentado, só reforçam este perfil  que será o das novas gerações. 

Perfil único e limitado, como se vê: capacidades humanas, do foro cognitivo, afectivo ou motor, que não sirvam o propósito em causa ficam de fora; o mesmo acontecendo com a diversidade de conhecimentos que dão corpo à herança civilizacional.

Portanto, em nome do que se designa por "florescimento humano", no seu sentido filosófico, erudito, o que será desejável é que os sistemas de ensino se afastem do currículo determinado pela OCDE e da sua medição. Esperemos, pois, que comece a fazer-se luz nos espíritos de quem tem poder político na educação escolar pública para ver que é preciso seguir outro caminho. E tenha a coragem suficiente para o delinear e fazer valer. Fácil não será.

Passo à segunda razão, que é a seguinte: mesmo com os diversificados e permanentes esforços e pressões para ampliar a sua influência na educação, a OCDE não consegue que, ao fim de algum tempo em que ela, de facto, é exercida, os resultados da aprendizagem sejam aceitáveis. Isto quando ao longo de pelo menos vinte e cinco anos prometeu nada menos do que um futuro admirável.

Reduzida a escolaridade à manifestação comportamental (performance), definida nos standards (que, no nosso país, se designam agora por Aprendizagens Essenciais), é a inteligência humana que vai ficando comprometida, não é capaz de responder ao que de mais básico a constitui. Mas, poderemos perguntar: os professores podem (e, logo, devem) fazer alguma coisa em sentido contrário? Podem e alguns têm "remado contra a maré", mas é de lembrar que a OCDE não tem deixado nada de fora do seu controlo, sendo a formação de professores particularmente visada na "mudança de paradigma". Os professores e os directores escolares são levados a crer que estão mesmo no bom caminho. E depois há que manter as suas escolas em patamares "aceitáveis" dos rankings, transformados em consciência pública.

A continuar o raciocínio relativo a esta segunda razão, reproduzo abaixo extractos de um texto de grande interesse, saído ontem no jornal Público com assinatura de João Marôco (ver aqui)

A OCDE descobriu, finalmente, o declínio das aprendizagens. E está tão preocupada que anda a espalhar este gráfico por todas as redes sociais: Só se esqueceu de acrescentar uma coisa: a declaração de responsabilidade.
Porque há uma pergunta incómoda que este gráfico não faz: "Quantos destes países chegaram aqui, pelo menos em parte, seguindo o receituário que a própria OCDE promoveu durante anos?"

Em Portugal, não estamos a falar de uma relação meramente académica. A própria OCDE avaliou o projeto-piloto de Autonomia e Flexibilidade Curricular. E o então ministro (...) explicou publicamente (...) que as recomendações dessa avaliação contribuíram para o modelo que viria a ser generalizado (...) tudo apresentado como modernização, inovação e resposta às exigências do século XXI. 

Mas há uma pergunta que já não pode ser evitada: o novo paradigma produziu os resultados que prometia? Se correr bem, será mérito das reformas. Se correr mal, será culpa dos telemóveis, da pandemia, dos professores, dos alunos ou da sociedade (...).

Uma organização que influencia tão profundamente as políticas educativas - e um governo que transforma essas recomendações em política pública - não pode recomendar um caminho, acompanhar a sua implementação e, anos depois, limitar-se a publicar o gráfico do desastre sem fazer a pergunta mais importante: "Teremos recomendado mal?" 

E, se as recomendações estavam certas, perceber por que razão os resultados não corresponderam às expectativas. Se estavam erradas, reconhecê-lo. E, se o problema esteve na forma como foram transformadas em política pública, assumi-lo e, mais importante ainda, corrigi-lo. Essa é a declaração de responsabilidade que falta.

7 comentários:

Mário R. Gonçalves disse...

Lá venho eu discordar. Primeiro, fazem uma 'avaliação' ou 'julgamento' da OCDE por uma evolução no tempo dos resultados de uma política social. Ora eu tenho a certeza de que nesse campo a OCDE tem os melhores, os mais sábios e preocupados especialistas, em Educação, Psicologia, Sociologia, Métodos Matemáticos de avaliação... Tenho a certeza de que é gente que sabe o que está a fazer, é bem intencionada, trabalha com alma e coração, esforça-se com sinceridade. Acredito bem menos nos críticos como o João Marôco de que ninguém ouviu falar, não tem o mínimo crédito, está na Lusófona e não numa Universidade séria e decente, é doutorado em produção vegetal e agronomia.

Evidentemente que as coisas vão de mal a pior, e devemos estar gratos à OCDE por ser tão clara ao sinalizar esta decadência. Mais uma vez, culpar o mensageiro (OCDE) é disparate, as causas são sociais - e não é só a Educação que está em decadência - . políticas (governamentais), e Históricas - o enorme surto de imigração na Europa de famílias sem a mínima base cultural favorável à Educação, a brutal massificação do ensino com abaixamento dos níveis de exigência, a relativização ética que vai muito além do Woke e infecta a maioria dos governantes. Se um organismo avaliasse com rigor o grau de cultura e o nível de civilização, os resultados seriam os mesmos: uma queda abrupta.

Portanto, obrigado OCDE pela seriedade e pela coragem de mostrar como vamos em direcção à indigência; vaia e booooo pata os comentadores da bolha e do pedagogismo serôdio que insistem em caminhos lunáticos, perigosos de lunáticos, porque são mentirosos.

Rui Ferreira disse...

A OCDE não é o mensageiro, é o problema. É com base nas suas sugestões que as políticas educativas são implementadas.
Em conjunto com outras instituições, a OCDE é um problema.
Os sábios da OCDE são muito bons, sem ironia. Muito bons na defesa dos seus interesses.

Mário R. Gonçalves disse...

Interesses? Então quais? Eles lucram conforme as propostas que fazem ? Mais parece o João Ferreira com os interesses dos grande monopólios capitalistas e do imperialismo internacional. Aliás, acho insultuoso para eles. Muito mais 'interesses' há em aplicar mal e desvirtuar as estratégias - que eu não defendo à letra - para provocar o descalabro. Se houvesse mãozinha russa, não me admirava.

Helena Damião disse...

O "E" de OCDE não é de "Educação" é de "Economia". Esta organização não delineia as suas orientações e recomendações em função do que beneficia a pessoa e a sociedade em geral, mas do que potencia a economia (sem preocupações de justiça, nomeadamente da justiça distributiva).
Quanto aos especialistas, sim, devem ser competentes no cumprimento das linhas mestras da OCDE, mas desviam-se em absoluto da ideia de formar o ser humano para o mundo nas suas múltiplas valências
O "argumento de autoridade" que faz desvalorizar a análise de João Marôco é fácil de rebater: leia-se Stephen Ball, nome de primeira linha na investigação sobre as influências que organizações transnacionais exercem nas políticas de educação ou Ricardo Petrella que bem conhece estas organizações por ter passado por elas e as ter estudado.
Cordialmente, MHDamião

Mário R. Gonçalves disse...

Grato pela resposta, Drª Helena Damião. Sabe que não sou muito de ficar aqui a polemizar eternamente, mas estou fortemente convencido de que as piores contribuições não vêm de economistas, mas da área das Ciências Humanas (excepto História). Quem tem avançado as piores medidas são pedagogos, sociólogos e outros 'pensadores', peritos em manobrar o pensamento e impingir banha da cobra como se fosse ciência. Estou furioso, revoltado, com o que aconteceu na ONU onde gente dessa conseguiu fazer passar um "novo" Mapa do Mundo dito 'Equal Earth' que está nos antípodas da Ciência, é uma vigarice que se calhar vai passar a ser obrigatório nas Escolas. Em vez de Geógrafos, foram políticos e 'pensadores' que o produziram, impondo uma deformação bem pior que aquela que resultava da Ciência de Mercator. Há a revisão da História que mata a História, a revisãp da Música que matou a música, agora veio a revisão da Geografia. O mapa da OCDE mostra a verdade verdadinha do que está a acontecer; não agrada, não, mas somos todos culpados daquilo, não é a OCDE.

Helena Damião disse...

Depende, prezado Leitor, de quem são os especialistas de que fala. Há economistas, psicólogos, pedagogos, sociólogos, etc. da educação com os melhores e com os piores propósitos. Talvez demos mais conta destes nas reformas de ensino, na formação de professores, etc.
E, sim, a OCDE não está sozinha na formulação de políticas educativas: o BM, a UE e, até a UNESCO, na sua ambiguidade, acompanham-na. Basicamente, tudo o que não for útil e funcional (a partir de critérios financeiros e políticos) é afastado da escola, deturpado... o que vemos.
MHDamião

Mário R. Gonçalves disse...

"El sistema educativo español no recompensa la excelencia y desincentiva el esfuerzo. El «modelo competencial» del currículo de la Ley Celaá, que ha priorizado el «bienestar emocional» de los estudiantes por encima de los conocimientos, paradójicamente ha vuelto a los alumnos menos competentes y tampoco ha contribuido a solucionar una crisis de malestar sin precedentes." ("El Mundo" 8 Set). Diagnóstico com que estou mais alinhado.

UMA CONSULTA PÚBLICA QUE INCLUI A OCDE

    Cumpre-se a formalidade: está em consulta pública um conjunto de documentos designados por  Orientações para a utilização responsável da...