sexta-feira, 29 de dezembro de 2023

Na Felinolândia…

Quem presta uma homenagem ao GATO, também presta duas, ora essa!
Um soneto e uma ode exclusivamente para ele.

SER GATO 

Não é gato quem quer, é só quem pode.
Se nem Leonardo inventou o gato,
o melhor é que ninguém se incomode
a querer entrar nesse campeonato.

Ser gato é empresa transcendente,
muito além de qualquer poder humano.
Sonhar sê-lo é sonho de demente,
que ignora as subtilezas do bichano.

O mais que se pode é tender pra gato,

mas sem nunca lá se poder chegar!
O percurso a fazer, longo e chato,

convida o candidato a meditar:
antes, talvez, evitar as alturas,
do que ficar com nódoas e fracturas.

Eugénio Lisboa

ODE (INSUFICIENTE) AO GATO

De bons condimentos, é, de certeza,
feito o gato, emissor de beleza,
inventor de quanto é esbelteza,
descendente da mui alta nobreza,
dotado de altíssima destreza,
com momentos raros de safadeza,
e tiques de inigualável leveza,
mesmo meditando, a cocar a preza,
filósofo, todo ele subtileza,
implacável, mas sempre com fineza,
dado a ademanes de Sua Alteza,
fazendo tal inveja à gentileza,
de cauda perpendicular e tesa,
é tudo isto o gato, de certeza,
pra já não falar da sua esperteza!

Eugénio Lisboa

quinta-feira, 28 de dezembro de 2023

POSTAL DE NATAL

NGC 2264: O «agregado da árvore de Natal», a 2300 anos-luz da Terra

Teilhard de Chardin disse que «à escala do cosmos,  só o fantástico pode ser verdadeiro».

O meu postal de Natal de 2023  é uma imagem da NASA obtida combinando imagens de vários telescópios: as luzes azuis e brancas vêm de estrelas jovens que emitem raios X; o verde da «árvore» é luz visível proveniente de poeiras; e as estrelas a branco na «árvore» e no fundo foram vistas com infravermelhos. A imagem compósita foi rodada para a árvore ficar na vertical.

BOAS FESTAS e BOM ANO, 

com um abraço do
Carlos Fiolhais

Créditos: X-ray: NASA/CXC/SAO; Optical: T.A. Rector (NRAO/AUI/NSF and NOIRLab/NSF/AURA) and B.A. Wolpa (NOIRLab/NSF/AURA); Infrared: NASA/NSF/IPAC/CalTech/Univ. of Massachusetts; Image Processing: NASA/CXC/SAO/L. Frattare & J.Major.

#49 CARLOS FIOLHAIS - Física, Inteligência Artificial, Alienígenas, Espi...

quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

O ESPAÇO EM 2024

Meu texto no mais recente As Artes entre as Letras:

O próximo ano promete-nos trazer-nos novidades no espaço. O principal, lá para o fim do ano se tudo correr como planeado, será o regresso humano à Lua, pela primeira vez desde a Apollo 17, em 1972. Não exactamente ao solo lunar, mas a órbita lunar, tal como a Apollo 8 em 1968. A missão chama-se Artemis 2, integrando-se no programa Artemis (a deusa irmã de Apolo) que a NASA, a agência espacial norte-americana, está a realizar em colaboração com a ESA, a Agência Espacial Europeia, e as agências espacial do Canadá, do Japão e de Israel. Já está escolhida a tripulação de quatro astronautas que seguirá a bordo na nave Oríon, impulsionada pelo foguetão SLS: três astronautas da NASA, um dos quais mulher e outro negro, e um do canadiano. Pela primeira vez viajarão até à Lua seres humanos do padrão de todas as tripulações Apollo: homens brancos norte-americanos. Se tudo funcionar bem, então a Artemis 3 pousará na Lua em 2025, repetindo, agora com novas tecnologias, a proeza da Apollo 9 em 1969.

Para além da colaboração internacional e da participação de privados (o módulo lunar será fornecida pela SpaceX), uma grande diferença relativamente ao programa Apollo será o custo reduzido (a NASA chegou a gastar 4% do orçamento federal nos anos de 1960, quando hoje só gasta 0,5%, embora tenha vindo a crescer: vai, em 2023, em 25 mil milhões de dólares) e o facto de agora não se tratar de uma corrida na «guerra fria» mas sim a demonstração da possibilidade de viver prolongadamente fora da Terra, numa base lunar permanente, servida por uma estação espacial em volta da Lua, de modo a treinar o que for preciso para um dia se ir a Marte (a Lua e Marte estão para a Terra como, no tempo dos Descobrimentos, a Madeira e a Índia estavam para Portugal).

Vivemos, portanto, tempos de regresso ao espaço. Desta vez há grandes empresas empenhadas na indústria espacial, como, além da SpaceX, de Elon Musk (que opera o foguetão Falcon 9, que permite o trânsito para a Estação Espacial Internacional, e que prepara um novo grande foguetão reutilizável, o Starship), há a Blue Origin, de Jeff Bezzos, que em 2024 vai testar o seu foguetão New Glenn, cujo nome homenageia o astronauta e político norte-americano John Glenn, e o Rocket Lab, do neozelandês Peter Beck, que vai testar o foguetão Newton, também reutilizável. A ESA vai, no próximo ano, lançar o Ariane 6, que, ainda antes de ser lançado e quando já deixou de funcionar o Ariane 5, não parece ser competitivo relativamente ao Falcon 9, um verdadeiro «cavalo de batalha» da astronáutica.

A NASA vai lançar em 2024 a sonda Europa Clipper, que se destina a analisar Europa, a lua de Júpiter, em busca de vestígios de vida (chegará lá só em 2020). E as suas outras missões científicas prosseguirão, como a do Telescópio Espacial James Webb, que está a fornecer resultados surpreendentes sobre as primeiras estrelas e galáxias.

Na geopolítica espacial, o segundo país é hoje não a Rússia, cujo orçamento espacial é uma sombra do que já foi e que é alvo de sanções internacionais (a guerra da Ucrânia fez a Rússia anunciar o abandono da sua participação na Estação Espacial Internacional, em órbita terrestre desde 2000, cujo fim está previsto para 2030). Em Maio de 2024 os chineses, que têm a sua própria estação espacial em orbita da Terra, vão voltar à Lua com uma nave não tripulada. A Chang’e 6 (o nome vem do da deusa grega da Lua) poisará no lado oculto da Lua com um robô para recolher amostras lunares a enviar para a Terra. Seguir-se-á, em 2026, a Chang’e 7, no Pólo Sul lunar.

O terceiro pais na exploração espacial não é um país, mas um bloco de 22 países: a ESA, que inclui para além de muitos países da União Europeia, entre os quais Portugal, também o Reino (Portugal só contribui com 0,5% do orçamento da ESA, menos do que o Luxemburgo ou a Roménia), que tem orçamentados em 2023 sete mil milhões de euros (claramente muito pouco comparado com o orçamento da NASA). A ESA vai mandar quatro novos satélites do sistema do seu sistema de navegação Galileo, concorrente do GPS, usando meios da SpaceX, de modo a tornar o sistema ainda mais operacional. Em princípio, será melhor que o GPS, que é gerido pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Embora o seu uso civil esteja generalizado. Mas o momento alto da ESA em 2024 será o lançamento do Ariane 6 da Guianas Francesas. Haverá também um relançamento do Vega-C, um foguetão adequado ao lançamento de numerosos minissatélites.

Depois da União Europeia + Reino Unido o país com mais investimento no espaço é o Japão. Para além da colaboração com a NASA na Artemis, o Japão vai em 2024 lançar uma missão às duas luas de Marte, Fobos e Deimos, a MMX (Martian Moons Exploration). A sonda pousará em Fobos em 2025 de modo a recolher amostras de solo a enviar para a Terra.

Por último, a Índia, que em Agosto de 2023 chamou atenção do mundo quando, com a Chandrayaan-5 (o nome, que vem do sânscrito, significa veículo da Lua), se juntou ao clube muito restrito dos países –Rússia, Estados Unidos  e China – que tinha enviado com sucesso engenhos para solo lunar.  Foi o primeiro fazê-lo para uma zona perto do Pólo Sul, uma região de interesse para as missões Artemis.  Ainda não será nos anos mais próximos que a Chandrayaan-6 partirá para recolher amostras de rochas lunares, mas em 2024 a Índia lançar a sonda Shukrayaan para Vénus, o planeta mais próximo da Terra, que ultimamente não tem sido muito «visitado» (a última visita foi japonesa em 2010). Pretenderá estudar, entre outras coisas, a atmosfera venusiana, de modo a resolver a questão da fosfina, uma molécula que se julga aí existir e à qual alguns atribuem uma origem bacteriana.

Será, portanto, um grande ano para o espaço. Um grande ano para todos!

LIVROS DE CIÊNCIA DO ANO

Meu artigo no último JL:

Como o final do ano é época de balanços, faço aqui um balanço dos livros de ciências publicados em Portugal no ano de 2023. Escolhi quinze títulos, que aqui estão ordenados por ordem alfabética do apelido do autor:

- Alexandre de Angelis, Galileu em Pádua, Gradiva. Trad. de Bárbara Villalobos (revisão científica minha). Um astrofísico italiano conta, usando fontes da época, os anos que foram mais felizes na vida de Galileu: os que passou como professor em Pádua, que culminaram com as suas descobertas com o telescópio.

- Jorge Cham e Daniel Whiteson, Perguntas Frequentes sobre o Universo, Desassossego. Trad. de Joana Honrado. Prefácio de David Marçal. Um cartunista doutorado em Robótica e um físico, autores de «Não fazemos ideia, respondem aqui a muitas questões, com figuras cativantes.

- Albert Einstein, Os Diários de Viagem, ed. Zee’ev Rosenkranz, Gradiva. Trad. minha. O grande físico fez há cem anos uma grande viagem ao Japão, à Palestina e a Espanha, passando por vários outros sítios, que aqui é contada através dos seus diários.

- Florian Freisteter, A Histórias do Universo em 100 Estrelas, Planeta, Trad, de Alex Tarradellas e Rita Custódio. Um astrónomo e divulgador austríaco apresenta-nos uma enciclopédia de estrelas. Todas diferentes e todas à sua maneira notáveis.

~Michio Kaku, Supremacia Quântica, Bertrand. O físico norte-americano de origem japonesa conhecido pelos seus livros prospectivos fala de computação quântica, que, para certos problemas, já superou a computação que conhecemos.

- Kai-Fu Lee e Chen Qiufan, Inteligência Artificial 2041, Relógio d’Água. Trad. Maria do Carmo Figueira. O gestor de Taiwan, hoje em Pequim, e um autor de ficção científica chinês, usando tanto factos como ficção, fazem uma antevisão do que será o mundo dominado pela Ai daqui a duas décadas.

- Juan José Millás e Juan Luís Arsuaga, A Morte Contada por um Sapiens a um Neandertal, Presença. Trad. Maria Ferro. O reputado escritor espanhol e o não menos reputado arqueólogo da mesma nacionalidade juntam-se de novo em diálogo sobre as nossas origens, incidindo desta vez na morte, depois de terem escrito antes um livro sobre a vida (em 2022, na mesma editora, com capa muito parecida).

– Jim Octaviano, Jim e Leland Myrick, Feynman, Gradiva. Trad. minha. Novela gráfica que narra a biografia do famoso físico norte-americano Richard Feynman, que foi um dos participantes do projecto Manhattan, conducente às primeiras bombas atómicas, e que descobriu a causas do desastre do vaivém espacial Challenger. O físico protagonizou histórias muito divertidas aqui contadas em banda desenhada.

- David Quammen, Sem Ar. A corrida da ciência para derrotar um vírus mortal. Objetiva. Trada. Gonçalo Neves. Um jornalista de ciência norte-americano, autor de Contágio (2020, na mesma editora), um livro que foi premonitório relativamente à pandemia de covid, faz aqui um relato «ao vivo» dessa emergência sanitária.

- Hubert Reeves, Eu Vi uma Flor Selvagem. O herbário de um astrofísico. Gradiva (minha revisão científica). No livro mais recente da colecção «Ciência Aberta», o astrofísico canadiano que faleceu em Outubro passado fala-nos com afecto das flores silvestres que encontrou perto da sua casa de campo francesa. Belas fotos ajudam os leitores a partilhar o prazer das descobertas botânicas. A Gradiva acaba de reeditar o maior êxito de Revés, o há muito esgotado Um Pouco Mais de Azul.

- Carlo Rovelli, Buracos Brancos, Objectiva. Trad. Igor Lobão. Depois de Sagan, Hawking e Reeves terem falecido, Rovelli e Tsyon são talvez os divulgadores de ciência mais célebres. Neste livro. o físico teórico italiano, autor se Sete Lições de Física Moderna (Objetiva, 2015) especula sobre buracos brancos, lugares hipotéticos de onde tudo sai, ao contrário dos buracios nergos. Pequeno livro muito bem escrito-

- Charles Seife, Stephen Hawking, Como vender uma celebridade científica, Kathartica. Trad. de Elsa Vieira (revisão científica minha). O jornalista de ciência norte-americano fez a melhor biografia de Hawking que conheço (e há várias…). Não se inibe de falar da promoção mediática de Hawking, feita com a colaboração do próprio.

- Suze Sheehy, A Matéria de Tudo. Doze experiências que mudaram o mundo. Temas e Debates. Trad. de Isabel Mafra (revisão científica minha). Uma física experimental de partículas australiana escolheu uma dúzia de grandes experiências de física que nos abriram portas ao conhecimento, por exemplo a descoberta do núcleo atómico em 1911-

- Neil deGrasse Tyson, O Mensageiro das Estrelas, Objectiva, Trad. de Manuel dos Santos Marques. O famoso diretor do Planetário Hayden em Nova Iorque foi buscar um título de Galileu (de 1610) para nos falar, à luz da ciência, de várias questões do mundo de hoje.

- João Zilhão, Portugal na Idade do Gelo, Fundação Francisco Manuel dos Santos. Um arqueólogo português com experiência internacional, explica-nos aqui, num rico álbum ilustrado, quem foram os primeiros humanos em território português e como viveram.

Boas leituras e bom ano!

"CONCÍLIO DOS SÁBIOS" NO PORTO

Minhas intervenções no recente Concílio dos Sábios, realizado na Misericórdia do Porto, com João Micael, Annabela Rita e Helena Marujo:

Intervenção do Dr. João Micael:


Foi mencionada a atenção à novidade e à inovação. No estrangeiro, em países avançados, ou pelo menos com maior disposição à novidade e à inovação, enfim ao que de mais moderno se faz, somos por vezes confrontados com realidades onde há alguns atrasos, por exemplo na aplicação da tecnologia. Nós adoptámos rapidamente a  Via Verde, os telemóveis, os cartões de débito e crédito, o MBWay, os carros eléctricos, etc., coisas que são menos comuns noutros lados.  Há  estas contradições.

Professor Carlos Fiolhais, a ciência poderá explicar alguma coisa da realidade portuguesa? Falta-nos ciência ou falta-nos um modelo de gestão, de aliciamento, de gratificação? Ou será que o problema vem de uma cultura em que não se premeia verdadeiramente o talento? O que gostaria, no seguimento das intervenções das nossas duas Sábias, de aqui dizer?

Primeira intervenção do Professor Carlos Fiolhais:

É um privilégio estar nesta instituição multicentenária, aqui no Porto, que é uma marca muito forte da Matriz Portuguesa. A palavra Portugal tem o Porto lá dentro.

Nós temos, de facto, uma longa história de séculos, mas desempenhámos um papel mais relevante na história do mundo nos séculos XV e XVI, o tempo dos Descobrimentos. Trata-se de uma palavra que para alguns é hoje maldita. Sou contra os polícias das palavras e, por isso, se alguém proibir essa palavra, eu irei transgredir.

Falou de várias inovações recentes em Portugal. Faço notar que a palavra “descoberta”  tem origem portuguesa. Foi o povo que fez as descobertas marítimas que precisou de arranjar o termo adequado. «Descobrir», o verbo por trás de «descobrimentos» ou «descobertas», significa destapar, isto é, revelar ao mundo algo que já lá estava, mas não era conhecido, por não ser visível. Foram os portugueses que descobriram boa parte da geografia do mundo: novas terras, novos mares, novas espécies, tanto animais como vegetais, novos povos e culturas e até “novos céus”, como disse o matemático Pedro Nunes. Foi até um português, Fernão de Magalhães, que fez  pela primeira vez essa coisa extraordinária, que foi verificar por  meio de  uma viagem a esfericidade do nosso planeta: já se sabia que  a Terra era  redonda, mas ainda não se tinha  dado a volta ao mundo. Os navegadores  portugueses empreenderam o que hoje podemos chamar a «primeira globalização».

Os Portugueses foram buscar  um étimo  latino e incorporaram na língua portuguesa o termo «descobrimento» que  outros povos tardaram a incluir  nas suas línguas. Porquê? Precisamente porque precisámos desse termo primeiro que os outros: fomos os primeiros a descobrir.  Olhando para os livros antigos, hoje em larga medida digitalizados,  podemos verificar onde começou a utilização da palavra descoberta em título de um livro: tal ocorreu  numa obra do cronista Fernão Lopes Castanheda, em 1551: «História do Descobrimento e Conquista da Índia pelos Portugueses». Eu estudei na Alemanha e gosto muito da cultura germânica, que é uma cultura que preza a boa organização e a eficácia, mas eles eles chegaram à descoberta depois de nós. Só em 1613 saiu um livro em alemão com a palavra «descoberta» no título.

Este facto  não é suficientemente conhecido, mas o historiador inglês David Wootton, que, no livro intitulado «A Invenção da Ciência. Nova História da Revolução Científica», afirma equivocamente que quem «descobriu a descoberta» foram os portugueses.

E depois disso o que aconteceu? Essa é uma questão muito interessante: houve um apagamento, a que alguns chamam «declínio» ou «decadência»,  mas o apagamento do país na cena internacional não diminui em nada a relevância dos  Descobrimentos Marítimos, que foram uma saga extraordinária.

Foi aqui referido Luís de Camões. De facto,  tudo aquilo que forma o espírito da Revolução Científica, que se afirmou  no século XVII com nomes como  Galileu e Newton, incluindo meios poderosos como a observação, a experiência empírica, o raciocínio lógico e a crítica, encontra-se n’«Os Lusíadas».  Veja-se o canto V, por exemplo, designadamente as estrofes em que fala  da observação de fenómenos meteorológicos pelos «rudes marinheiros» como o fogo de Santelmo.

Alguns portugueses estavam a ser cientistas modernos antes de ter despontado a ciência moderna. A ciência moderna precisou dessa atitude anterior, dessa maior atenção que o homem deu à Natureza. Nós fomos, portanto, pioneiros da atitude científica, a atitude que conduziu ao mundo no qual estamos hoje a viver. Quando falamos de tecnologias, temos de enfatizar que, actualmente, as tecnologias mais avançadas se baseiam inteiramente na ciência. São, portanto, o resultado do método científico. A aceleração tecnológica nas últimas décadas, que aconteceu na área da computação após a Segunda Guerra Mundial, deriva puramente de descobertas científicas. Hoje fala-se muito de inovações, mas eu prefiro falar de descobertas. O homem passou das descobertas geográficas para as descobertas científicas, que não têm cessado desde o início da Revolução Científica. Vivemos hoje melhor no mundo simplesmente porque o conhecemos melhor.

Luís de Camões estava mais perto da ciência do que normalmente  se presume. Falei da valorização da experiência empírica n’«Os Lusíadas.» Pensa-se, em geral, que  a literatura é uma coisa e a que a ciência é outra, bem distinta, mas eu dou um outro  exemplo de uma ligação entre as duas áreas feita precisamente por Camões. «Os Lusíadas» foram publicadas em 1572, mas nove anos, antes e 1563, foram impressos os primeiros versos de Camões. Isso aconteceu em Goa, na Índia, no introito de um livro de ciências intitulado «Colóquio dos Simples e Drogas e Coisa Medicinais da Índia», da autoria do seu amigo Garcia da Orta, médico no Hospital de Goa. E isso é, de facto, extraordinário. Primeiro, porque é o primeiro livro de ciências escrito de raiz em português, já que até então os cientistas escreviam em latim.

De facto, Orta e Camões eram amigos, porventura encontraram-se à volta de uma mesa em Goa, e o primeiro, tendo o seu livro preparado, pediu um prefácio ao segundo. Camões escreveu : “Olhai que em vossos anos,/ Produz uma Orta insigne várias ervas/ Nos campos lusitanos, As quais, aquelas doutas protervas/ Medeia e Circe nunca conheceram,/ Ainda que as leis da Mágica excederam”. Ele compara duas feiticeiras das antigas mitologias gregas, uma espécie de ilusionistas que faziam aparecer e desaparecer coisas como doenças, ao  médico português, que  propunha novas curas baseadas  em plantas orientais.

O que aconteceu depois? Fernando Pessoa, ou melhor, o engenheiro naval Álvaro de Campos, disse-o  muito bem quando, em verso, afirmou que «pertenço aquele género de portugueses que depois da Índia  descoberta ficaram sem trabalho». Pessoa tinha essa atitude de pensar que quem tinha feito grandes obras não podia fazer as pequenas. Os portugueses como eles seriam os descendentes dos que ficaram e não os descendentes daqueles que partiram. Muitos portugueses acharam porventura que os seus antepassados já teriam feito o suficiente e pouco mais haveria a acrescentar.  Há dois versos de um contemporâneo do Fernando Pessoa, Carlos Queiroz,  poeta da família da namorada de Pessoa, que diz quase a mesma coisa que Álvaro de Campos: “Só fazemos bem/ Torres de Belém”. De facto, não é verdade (fazemos bem outras coisas!), mas percebe-se a ideia.

Os portugueses foram muito tardios a receber a grande mudança que veio depois da Revolução Científica, a Revolução Industrial. E também a concretizar o grande impulso na  escolarização  que essa Revolução exigia. A primeira máquina a vapor no Império Português destinava-se ao Brasil, para um engenho de açúcar, mas o navio que a transportava naufragou. E a primeira a chegar à Metrópole, destinada às minas de carvão de Buarcos, nunca chegou a ser montada. Parece que havia uma maldição na nossa recepção das primeiras máquinas...

Foi aqui no Norte, na  região do Porto, que se fixou mais a indústria do que no Sul, em Lisboa. O primeiro telégrafo foi montado em Portugal em 1853 entre a Foz do Douro e o Palácio da Bolsa para facilitar o comércio, sinalizando os barcos que entravam na Barra. Em Lisboa, o primeiro telégrafo, que foi posterior, serviu, não para a economia, mas para a política: destinava-se a ligar o Terreiro do Paço, sede do governo, com o Palácio das Necessidades, sede do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Não fazemos bem apenas torres de Belém. Também fizemos bem a Torre dos Clérigos e  a Casa da Prelada - aliás o construtor é o mesmo, Nicolau Nasoni, o italiano ao serviço de Portugal. O problema é que não desenvolvemos em grau suficiente nem a indústria, que vinha de fora,  nem a educação.

Eu não sou, de modo algum, apologista de uma atitude negativista, que parece prevalecer ainda hoje, de que não vale a pena fazer nada, pois outros já fizeram. O exemplo de inovações portugueses que deu ou da recepção rápida entre nós de inovações alheias significa que somos abertos à novidade. E sermos abertos à novidade significa ter esperança de que o melhor ainda está para vir. Os estudos científicos na área da psicologia social corroboram essa impressão geral que, em maior ou menor grau, todos temos de  falta de falta de esperança. Talvez não tenhamos esperança por não termos ciência na medida suficiente.  Por uma razão que é fácil de entender: a ciência é a ânsia da descoberta, a ciência procura hoje que o amanhã traga mais saber e, portanto, melhor qualidade de vida. Porque é que eu,  que sou cientista,  quero viver hoje? Quero viver hoje porque amanhã vou saber mais e espero, com isso, viver melhor. Mas o que move primariamente os cientistas? A sua mola  é a curiosidade. A atitude de querer saber é a antecâmara do saber.

Vou usar a palavra «felicidade» que já aqui ouvimos hoje e que não será muito científica, no sentido em que a sua definição  científica é difícil:  saber mais torna-nos mais felizes. Eu quero viver mais para ser mais feliz e isso passa por mais e melhor conhecimento. O novo conhecimento alarga os nossos horizontes. Torna, em geral, a vida melhor. Os cientistas são optimistas por natureza, porque querem sempre saber mais e sabem que o vão conseguir.

Esta atitude é partilhada hoje por muitos portugueses que, sendo investigadores, estão na fronteira do conhecimento, fazendo parte da aventura colectiva de querer saber mais. Não se pode saber mais sozinho: saber mais inclui sempre a colaboração com os outros.

A participação maciça na expansão de fronteiras de conhecimento infelizmente chegou tarde a Portugal. O nosso país foi pioneiro nas descobertas, mas depois adormeceu. Actualmente temos cerca de 50 mil cientistas hoje. Só nos últimos 30 anos é que tivemos a vontade  e a capacidade de formar estes exploradores de fronteira, estes «campeões do desconhecido».

Uma das razões foi que não tivemos antes um sistema educativo amplo e qualificado. Portugal é um país onde os índices de analfabetismo foram e ainda são terríveis: no início do século XX a taxa de analfabetos era 75% e hoje ainda é de 5%, o que parece pouco mas compara mal com as taxas de outros países europeus.  Esse atraso grande na educação demora a recuperar.

O que é preciso? Vou usar uma palavra portuguesa que devia ser mais portuguesa do que o que é: «Confiança», confiança nas pessoas, nas instituições e nos responsáveis.  Falta-nos confiança, que é o cimento social indispensável para o progresso da comunidade.

Falta-nos, em especial, confiar nas pessoas mais bem preparadas, nas pessoas que sabem como é que se pode saber mais. Concedemos bolsas para alargar a  aprendizagem, incluindo  doutoramentos e  pós-doutoramentos, a muita gente jovem, mas  não lhes estamos a proporcionar vidas. Demos-lhes bolsas, mas não lhes demos vidas. E as vidas que eles estão a perder significa que todos nós estamos com vidas diminuídas.  

Não haverá  ninguém que não  conheça casos de jovens portugueses  a trabalhar no estrangeiro. A ciência  e a tecnologia são  internacionais e uma preparação ganha aqui vale lá fora. O mundo é global e há, felizmente, larga circulação. Pertencemos à Europa, onde as fronteiras estão abertas. Mas preocupa-me que os jovens mais qualificados tenham hoje de emigrar por não terem aqui alternativas. Boa parte dele não vão por escolha, são obrigados a ir. Não só há aqui poucas oportunidades como,  quando passam a fronteira, encontram logo salários maiores. Os salários são mais avultados  porque há maior produtividade e há maior produtividade porque há melhor organização. O que é que nos falta? O que falta a Portugal, onde há tantas coisas boas como uma cultura antiga, uma tradição de paz,  boa meteorologia  e boa gastronomia?

Vivi na Alemanha três anos e meio, tendo lá concluído o doutoramento. Posso, por isso, testemunhar que  não me senti menos capaz do que os meus colegas, apesar de ter estudado aqui para obter a licenciatura. O meu principal problema de início foi a  língua. Voltei depois a Portugal porque tinha aqui oportunidades e porque senti que era meu dever ajudar o país. Ora as  novas gerações de hoje não estão a encontrar oportunidades para poderem ajudar o país. E, quando elas perdem oportunidades, nós  perdemos o futuro.

Esta é a principal mensagem que eu queria deixar . A juventude é a fase da vida em que somos mais criativos.  Eu já fui mais criativo do que sou hoje. Os nossos  criativos estão pelo mundo, como se diz hoje «têm mundo». Nós só podemos ter futuro nas instituições e a começar logo pelas universidades e a continuar pela administração pública e em todo o resto se houver  lugares para eles. Nas empresas privadas também. Temos um universo de pequenas e médias empresas e, se formos  ver a escolaridade dos empresários, verificamos que é inferior em média à  dos funcionários. É preciso confiar mais nos jovens.

Eu sei que a ciência não é a única coisa na vida, eu sei que a ciência não dá felicidade sozinha. Mas a  ciência ajuda a dar felicidade. É uma condição indispensável, embora não seja  suficiente.  Não é apenas a ciência nos salva, mas sem a ciência estaríamos perdidos, como mostrou a recente pandemia. Eu sei que há outras dimensões humanas e que a ciência, parte da vasta cultura humana, tem de se conjugar com  essas dimensões. Se se conjugar bem, tenho esperança de que o futuro seja melhor. Pela minha parte, farei o que puder para isso.

Intervenção do Dr. João Micael:

Numa conversa tida há pouco tempo, sobre a comemoração dos 880 anos de Portugal, e também porque se comemoram alguma datas redondas das relações de Portugal com o mundo - os 240 anos da relação de Portugal com os Estados Unidos e os 480 anos da chegada dos primeiros Portugueses ao Japão, a Professora Annabela Rita e eu tivemos uma conversa, via internet, com o Professor emérito Ikunori Sumida, da Universidade de Quioto. O que ele nos disse deixou-nos maravilhados. A importância da chegada dos Portugueses foi mais vasta do que dar a conhecer a espingarda, que alterou a história do Japão,  tendo havido outras coisas do domínio filosófico e inclusivamente do próprio sistema da sociedade japonesa. Nós ficámos, literalmente, com o queixo no chão, quando ele nos disse esta coisa extraordinária - que levámos, através dos Jesuítas, o sentimento e o sentido da humanidade e da igualdade.

A própria cerimónia do chá e o conceito de casa do chá são inspirados na liturgia eucarística católica. Eu achei isto fabuloso.  A casa do chá era o único local onde um samurai se separava da sua espada, se exceptuarmos a sua morte. O nosso contributo teve esta relevância.

Esta conversa continuaria, obviamente, por horas infindas, mas hoje temos, também, que agraciar e reconhecer o valor dos Portugueses.  Professor Carlos Fiolhais, o que falta? Uma nova liderança?

Intervenção do Professor Carlos Fiolhais:

Falta-nos autoestima, organização, liderança. Tudo isso são coisas que precisamos. Mas foi, de facto, extraordinário o intercâmbio de culturas de que nos revelámos capazes. De facto, tivemos e julgo que ainda temos essa maleabilidade, essa capacidade de adaptação a outras culturas.  E, antes do Japão, mostrámos essa capacidade na China, uma vez que os portugueses foram os primeiros europeus a chegar por via marítima à China, onde existia uma civilização  avançada, uma sociedade muito bem organizada. É curioso perceber porque  nós quase não comemorámos a chegada por mar à China em 1509.

Acontece que a sociedade chinesa tinha normas. Os portugueses, procurando maior prosperidade económica, foram lá fazer comércio clandestino, isto é, não respeitando as normas vigentes. Do ponto de vista chinês, não faz sentido que alguém que no fundo estava, vou usar uma palavra um pouco forte, a «piratear», fosse aceite. Houve, por isso, alguns  episódios de confrontação. A mim ensinaram-me, nas aulas de  História, que os chineses eram nossos amigos e que nos deram Macau em sinal de amizade.  Mas Macau só passou a ser um posto de comércio português após décadas de conflitos. Houve muitos prisioneiros e mortos, mas a certa altura a relação assentou e Macau constituiu-se, de facto, um sítio de comércio acordado. Mas, mais importante que do que o comércio feito com a China, através de Macau, os jesuítas de que falou levaram a ciência moderna, no século XVII, para o Império do Meio. A ciência de Galileu só demorou  meia dúzia de  anos a entrar em Pequim, penetrando mesmo no palácio imperial.  Hoje, se formos a Pequim, poderemos visitar um antigo observatório astronómico, perto da praça Tiananmen, que foi um sítio de trabalho de alguns sábios jesuítas, que  sabiam bem, com a moderna ciência adquirida na Europa, fazer calendários, e prever eclipses e outras efemérides astrais.  Eram bastante melhores nisso do que os astrólogos chineses. Ora esta transferência da ciência europeia  não é suficientemente conhecida. Claro que a ciência de Galileu vinha de Itália, mas Portugal foi uma «rampa de lançamento» para o Oriente. Nos últimos tempos, a China, apesar da pandemia que os abalou profundamente, tem sido um bastião de desenvolvimento económico no mundo. O continuado crescimento económico mundial deve-se em boa parte ao crescimento da China.

O crescimento chinês deve-se à ciência e à tecnologia. A chave  do crescimento nos dias de hoje é o  conhecimento científico. Ouvimos falar de realizações chinesas na astronáutica, na electrónica, na genética: de facto, os chineses têm sido inovadores.  Mas quem colocou lá a ciência moderna foi, em primeiro lugar,  um jesuíta português, o Padre Manuel Dias, de Castelo Branco,  que se adaptou à cultura local, vestindo-se como os chineses e, escrevendo em mandarim, apresentou em 1615 a descrição do céu de Galileu, baseada nas observações com o telescópio. Nós temos essa capacidade de intermediação, embora nem sempre  a usemos suficientemente bem. Por vezes não acreditamos em nós  e temos os problemas de  organização que já aqui foram aqui referidos. Por vezes não não nos esforçamos e  e, por vezes, reconhecemos o esforço dos outros.

Vale a pena contar uma anedota sobre o problema de não  admitirmos que alguém se distinga. Um pescador vai à pesca levando um balde com caranguejos, para servir de isco, e a certa altura um caranguejo começa a subir o balde. Quando alguém o avisa de que o caranguejo está  quase a fugir, ao que o pescador responde: «não se preocupe, pois são caranguejos portugueses. Quando um estiver quase a sair, os outros puxam-no para baixo.»

É preciso uma evolução da sociedade no sentido de permitir que cada um  ocupe um lugar adequado às suas características e capacidades, respeitando os direitos de todos. É preciso que a nossa sociedade seja não só mais eficiente como mais justa. Por outras palavras, que cada um dê o melhor  de si, não apenas em favor de si, mas também e principalmente em favor  dos outros, quer dizer, em favor  de todos. Sistemas organizativos que favorecem esse desiderato  não estão montadas em Portugal. Bem sei que não é fácil. A questão é em larga medida  cultural. Não tendo de imitar os outros países em tudo, temos de olhar para os casos mais bem-sucedidos de desenvolvimento. Por exemplo, um país atrasadíssimo como a Coreia do Sul conseguiu, em poucas décadas, criar produtos  que todo o mundo quer, fazendo aumentar  a sua riqueza colectiva.

Todos nós gostaríamos de ser mais ricos e há maneiras de o conseguir : tudo  passa hoje por conhecer mais e aplicar esse conhecimento para a melhoria da nossa vida.  Temos a população mais escolarizada do que no passado, mas, mais importante do que ter um diploma de mestre ou de doutor, é ser capaz de contribuir para a sociedade, o que não está a acontecer na medida suficiente. Mas pode e deve acontecer.

ALGUNS PENSAMENTOS SOBRE A GUERRA

"É proibido matar, portanto, todos os assassinos serão punidos, a não ser que matem em grande número e ao som de trombetas". Voltaire
 
"Deus criou a guerra, para permitir aos americanos aprenderem geografia". Mark Twain

"Só os mortos verão o fim da guerra". Platão

"Os velhos declaram as guerras. Mas compete aos novos lutar e morrer". Herbert Hoover

"Toda a guerra é um sintoma do fracasso do homem, como animal pensante". John Steinbeck

"A guerra não determina quem tem razão – determina só quem sobra". Anónimo
E, por fim, esta cereja no bolo, oferecida pelo famoso general Eisenhower: já reparei que algumas das mais eloquentes palavras ditas contra as guerras vieram da boca de grandes generais: sabem do que falam.
"Cada canhão que é fabricado, cada navio de guerra que é lançado ao mar, cada míssil que é disparado significam, em última análise, um roubo feito àqueles que têm fome e não comem, àqueles que têm frio e não se aquecem. Este mundo armado não está apenas a esbanjar dinheiro. Está a desbaratar o suor dos trabalhadores, o génio dos cientistas, as esperanças das crianças. Isto não é, de maneira nenhuma, um modo de vida, seja em que sentido for. Sob as nuvens da guerra, é a humanidade crucificada numa cruz de ferro. Dwight D. Eisenhower
DEVE SER DIFÍCIL SER-SE MAIS CLARO, MAIS FIRME, MAIS ACUTILANTE. ISTO É DITO POR QUEM METEU AS MÃOS NA MASSA SANGRENTA DA GUERRA. NÃO POR MINISTROS QUE A DECRETAM E NUNCA A EXPERIMENTARAM.
 Eugénio Lisboa,
que selecionou e traduziu.

NATAL

O Natal é uma bonita ficção,
e, como todas as ficções, absurdo:
os condimentos sofrem de inflacção
e a música de fundo encanta um surdo.

Nada, ali, faz, que se veja, sentido:
uma mãe abençoada e virgem,
um filho com pai que não é marido,
grandes mistérios que causam vertigem.

Com tudo isto se faz uma festa,
sem precisar de verosimilhança:
de belos presentes enche-se a cesta,

o Pai Natal intruja a criança
e a mentira fardada de verdade
alegra toda a comunidade.

Eugénio Lisboa

TENDÊNCIAS DE PRIVATIZAÇÃO DA UNIVERSIDADE PÚBLICA. UM CONTRIBUTO DO OUTRO LADO DO MUNDO

Tive, por estes dias, acesso a trabalhos muito interessantes de Margaret Thornton, professora emérita da Australian National University (Camberra), sobre as tendências globais de privatização da universidade pública. Com formação em Direito, ela tem reflectido no impacto das reformas levadas a cabo nesta instituição nas últimas duas décadas. O que diz não destoa da realidade portuguesa e espanhola, que melhor conheço.

Em 2012 publicou o livro Privatising the Public University. The Case of Law, em resultado de uma investigação com base, sobretudo, em entrevistas realizadas a professores e estudantes, precisamente da área do Direito, da Austrália, da Nova Zelândia, do Reino Unido e do Canadá. Nele demonstra como formas comerciais e instrumentais de formação jurídica são favorecidas, ao mesmo tempo que dimensões humanísticas, críticas e de justiça social são corroídas.

Num artigo de 2016, com o curioso título que reproduzo no recorte acima, explica que essas formas são introduzidas com mestria, progressiva e estrategicamente, de modo que os académicos, acantonados num novo individualismo, se vão habituando a elas, não lhes fazendo frente objectiva nem, sequer, as contestando. Na metáfora a que recorre, os professores, tal como o sapo, ficam na panela (universidade), não se apercebendo que a temperatura está a subir e acabam cozidos (mortos sob o ponto de vista intelectual). 

Eis uma síntese desse artigo:

O corporativismo das universidades públicas espalhou-se como um cancro por todo o mundo. Não é apenas a governação de cima para baixo, a centralização, a imposição de modelos de ensino, a auditoria constante e a investigação orientada por métricas que se uniformizaram, mas também a resposta dos académicos. 

A metáfora do "sapo cozido" ilustra a sua anuência à erosão da ideia de universidade. Acenam a cabeça às normas mais iníquas, murmurando eventuais dissidência nos corredores ou à porta fechada. Consideram uma inevitabilidade o que está a acontecer e inútil qualquer resistência.

À medida que o modelo de governo das universidades deixou de ser colegial, os gestores, mesmo que antes tivessem sido sejam académicos, deslocaram-se dessa condição e tornaram-se a nova elite.

Embora possamos assumir que a lógica pública ainda prevalece nas universidades, o imperativo de privatização, induzido pelo desinvestimento estatal e por uma filosofia de utilizador-pagador, minou-o totalmente.

Os académicos têm, portanto, de retomar uma posição de alerta face às tentativas de instanciar modelos neoliberais de gestão universitária; modelos que levam os reitores e diretores a rodear-se de pessoal cujo papel é dizer aos académicos o que fazer, em vez de os ajudar a cumprir o seu papel.

Maria Helena Damião

sábado, 23 de dezembro de 2023

UM GATO NO INVERNO

Um gato no inverno é outro gato,
muito secreto, mas muito próximo.
Aquece-se com seu espesso fato,
de pelo muito lustroso e finíssimo.

No inverno o gato descobre nichos
impensáveis: só ele os imagina,
entre todos os concebíveis bichos,
co’a sua imaginação felina!

No inverno, melhor que nós, ele sabe
o modo sábio como se aquece
e os bons sítios onde um gato cabe!

Quentinho, escondido, o gato esquece
a actividade que embrutece
e louva o não fazer, que engrandece!

Eugénio Lisboa
NOTA: Este título – UM GATO NO INVERNO – foi-me sugerido pelo título de um romance célebre – UN SINGE EN HIVER – cujo talentoso autor, Antoine Blondin, pertenceu, com Roger Nimier, ao movimento literário conhecido como dos “hussards”.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

ELEIÇÕES E EMOÇÕES

Imagem reproduzida daqui
Tive o gosto de conhecer Félix García Moriyón, professor honorário do Departamento de Didácticas Específicas da Universidade Autónoma de Madrid. Entre várias iniciativas e funções é membro fundador da Sociedade Espanhola de Professores de Filosofia e Coordenador do Grupo de Investigação e Formação em Resolução de Problemas Morais.

Na sua vasta obra inscrita na filosofia,  ética, e educação e, claro, na relação entre elas (tem livros publicados em Portugal),  toca a questão das emoções, na sua ligação com a racionalidade. E, de modo particular, do seu papel nas decisões, incluindo as políticas.

Em tempos, como os que correm, em que a democracia é frontalmente questionada, em que os processos eleitorais são trespassados por fenómenos surpreendentes, vale a pena ler um artigo de opinião do autor acima mencionado e de que deixo abaixo um extracto. Vale a pena lê-lo até pelas referências bibliográficas que nos oferece.

"As emoções e o que atualmente se chama de inteligência emocional constituem uma área fundamental da vida humana. Por um lado, são elementos centrais na motivação de comportamentos, neste caso, no campo da política. Sem emoções, mesmo sem emoções fortes e bem enraizadas, dificilmente é concebível uma intervenção política digna desse nome.

Por outro lado, as emoções (e os sentimentos) manifestam-se frequentemente como paixões, algo que sofremos involuntariamente e perturba a nossa razão e a nossa ação. Neste duplo sentido merecem especial atenção e isso explica o recente aparecimento de vários livros de filosofia que reflectem sobre o tema: Victoria Camps (2011) O governo das emoções; Martha Nussbaum (2013) Emoções Políticas. Por que o amor é importante para a justiça; Manuel Arias Maldonado (2016) Democracia sentimental. Política e emoções no século XXI. Sem esquecer dois autores que há algumas décadas reconsideraram a questão das emoções e da política: Habermas, Jurgen (1989) Identidades nacionais e pós-nacionais e Viroli (1997) Por amor à pátria. Um ensaio sobre patriotismo e nacionalismo."

Maria Helena Damião

quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

BONJOUR TRISTESSE

Bonjour tristesse, bonjour sécheresse,
bonjour monde dépourvu de sagesse,
où on peut jouir encore quelque ivresse
sans qu’on n’écarte de nous la tristesse!

Bonjour ivresse, bonjour petitesse,
bonjour vitesse, bonjour scélératesse,
dans ce monde laid et sans sveltesse:
bonjour tigresse, bonjour impolitesse!

Bonjour finesse, bonjour maladresse,
bonjour bassesse, bonjour gentillesse,
bonjour négresse pleine de promesses!

Bonjour rudesse, bonjour vicomtesse,
bonjour princesse, bonjour pécheresse,
faisons de ce nélange une grande messe!

Eugénio Lisboa

quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

ABAIXO A POESIA!

Por Eugénio Lisboa
                                                Je m’en fous, moi, de la poesie.
                                                Paul Valéry
Estou-me marimbando para poetas
e para a poesia que os pariu:
escrevem coisas que só de profetas,
que pensam ver coisas que ninguém viu.

A poesia inventa metáforas,
que roçam o mais atrabiliário:
mistura a ciência com anáforas
e diz uma coisa e o seu contrário.

Estou-me marimbando prà poesia,
que não ajuda o conhecimento.
A maior parte dela faz-me azia

e não resolve nenhum tormento.
Coma a poesia quem dela gosta
e quem dela não espera resposta!
Eugénio Lisboa
Nota: Há mesmo dias em que não tenho pachorra para a poesia. Então, despejo o saco e atiro para todos os lados. Que diabo, nem só de poesia vive o homem. Escrever poemas como este tem a vantagem de me afastar de um número substancial de jovens poetas, com manuscrito na mão, a quererem saber “a minha opinião.”

segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

PENSAR SOBRE O PENSAMENTO

A. Galopim de Carvalho
 
Feito dos mesmos átomos que existem nas estrelas, nos minerais, nas plantas, nos outros animais e em tudo o mais que existe, o cérebro humano, cuja estrutura vai sendo a pouco e pouco desvendada, é matéria que adquiriu complexidade tal que, além de coordenar toda a actividade vegetativa do corpo em que está inserido, se assumiu com capacidade de se interrogar, de se explicar e de intervir (positiva ou negativamente) no seu próprio curso e no do ambiente onde surgiu e habita como mais um elemento da biodiversidade.
 
Ao interrogar-se e explicar-se, o homem, entendido como expoente máximo da matéria que se questiona a si própria, adquiriu a possibilidade de pensar sobre o pensamento.

A filosofia (do grego philo, amor, e sophía, sabedoria), ou seja, o amor pelo conhecimento, é, sobretudo, a via que conduz o nosso cérebro ou a nossa mente a “pensar sobre o pensamento”, como dizia o meu professor desta disciplina, em Évora, nos meus 6.º e 7.º anos do Liceu (actuais 10.º e 11.º), António Hortêncio da Piedade Morais. Daí que os filósofos sejam, muitas vezes, referidos por “pensadores”.
 
Acrescente-se que devo a este belíssimo professor o ter mantido, ao longo da vida, um certo respeito pela filosofia, uma interessantíssima área do conhecimento que nunca aprofundei. Sei, no entanto, que o Homem, na sua capacidade de adquirir conhecimento, de o aprofundar e de o transmitir, é a manifestação mais elaborada da realidade física do mundo que conhecemos, na qual foi consumida a totalidade do tempo do Universo, avaliada em cerca de 13 800 milhões de anos. 
 
É o expoente máximo da evolução matéria que se questiona a si própria. Foi esta a evolução, que a própria filosofia (como amante da sabedoria que é) desvendou, que permitiu aos pensadores ou filósofos pensarem sobre o pensamento.

O pensamento, que não surgiu no cérebro humano da noite para o dia, é um produto imaterial da matéria. Não tem dimensão física. Não tem volume, nem massa, nem peso, nem cor e não ocupa espaço. Para ele não há gravidade nem distâncias, nem fronteiras materiais. É ubiquista, podendo estar, ao mesmo tempo e a qualquer momento, aqui, no interior de um núcleo atómico, na superfície abrasadora do Sol e nos quasares mais longínquos, nos confins do Universo, a milhares de milhões de anos-luz. 
 
É imaterial, mas produz trabalho. Se produz trabalho é porque tem força, e muita. Sendo precisa, pode “mover montanhas”.
 
“Esforço intelectual” e “trabalho mental” são expressões correntes. Como tal, o pensamento é força e energia com capacidade de interagir com a matéria. E isso tanto acontece no acto de talhar o sílex entre as mãos de um neandertalense, de lapidar um diamante ou de fabricar um computador, por um conjunto de operários especializados.
 
Se tivermos em atenção a evolução do ser humano, desde o mais antigo primata até ao Homo sapiens, o actual, passando pelos australopitecos e pelos outros hominídeos que os estudiosos têm descoberto e descrito, a pergunta que me ocorre fazer é
- a partir de que estádio evolutivo da hominização, os nossos antepassados começaram a pensar racionalmente? Foi no do “Neanderthal”, aparecido há umas centenas de milhares de anos, foi antes dele, ou foi só no do "Cro-Magnon", que se pensa ter exterminado aqueles, há uns trinta ou quarenta mil anos?
Sabemos que muitos animais superiores revelam capacidades cerebrais amplamente investigadas em institutos de psicologia animal. Quem põe em causa a inteligência de um chimpanzé, de um cão, de um golfinho, de um elefante ou, mesmo, do Troodon formosus, o dinossáurio carnívoro, desaparecido há mais de sessenta milhões de anos? 
 
Sabemos, pois, sem sombra de dúvida, que os nossos antepassados pré-históricos exerceram actividade psíquica mais elaborada do que a dos animais vulgarmente ditos irracionais.
 
A pré-história ensina que, ao longo da sua evolução física e psíquica, os nossos antepassados desse longínquo período observaram, experimentaram e estabeleceram relações de causa-efeito, transmitindo aos descendentes o saber que foram acumulando, servindo-se para tal da linguagem de que dispunham, de início o gesto e, mais tarde e progressivamente, a fala. 
 
Fizeram tudo isto e muito mais antes dos sumérios terem iniciado a arte de escrever, há cerca de 5000 anos. 
 
E foi só, a partir do momento em que passaram a viver em grupos progressivamente mais alargados, que se depararam com questões associadas à linguagem e aos valores morais, estéticos, políticos e religiosos. 
 
Nesta caminhada surgiram os primitivos filósofos, designação genérica pela qual são habitualmente referidos os mais antigos geógrafos, historiadores, astrónomos, matemáticos e outros pensadores.
 
Há tempos tive curiosidade em passar os olhos sobre um Programa oficial desta disciplina (não sei se ainda em uso), no nosso ensino secundário, e uma das frases que li e que, como se costuma dizer, fiquei de boca aberta, com esta evidente tentativa de impressionar o leitor com propósitos de manifestações de erudição bacoca. Diz-se aí:
“Iniciar à discursividade filosófica, prestando particular atenção, nos discursos/textos, à análise das articulações lógico-sintácticas e à análise dos procedimentos retórico-argumentativos”.
Com uma tal fraseologia, acentuou-me a convicção de que um discurso tão desnecessariamente rebuscado aparenta mostrar o elevado nível filosófico de quem o escreveu, mas deixa-me sérias dúvidas e perplexo no que respeita a sua qualidade pedagógica. 
 
Discursos assim fazem fugir “a sete léguas” um qualquer adolescente. A mim, cuja idade pesa mais do que cinco adolescentes, foi o que me aconteceu, fugi.
 
Com boa vontade, podemos admitir que todos somos filósofos sempre que procuramos saber ou investigar algo, seja sobre minerais ou rochas, borboletas, literatura, castelos, gastronomia, pintura, planetas e satélites, jardinagem ou até, mesmo, futebol, moda ou tauromaquia. Tudo é sabedoria e tudo é, de facto, para os respectivos cultores, motivo de amor ou interesse. Mas o conceito académico de filosofia é algo mais profundo, a tratar por quem ganhou estatuto para tal. É, por assim dizer, uma sabedoria com uma longa história, vasta e complexa, que abarca a universalidade do conhecimento, que o questiona, explora e, tantas vezes, vai à frente dele.
 
Como disciplina do secundário, a Filosofia é um ramo do conhecimento como qualquer outro. Afasta muitos alunos porque, como se viu, usa um vocabulário para eles erudito e hermético, fora do seu dia-a-dia e, portanto, sem interesse. Acontece que, se este “falar caro” for “trocado por miúdos”, deixa de “meter medo”, passa a ter significado e, até, acredite-se, pelo menos para mim, tem beleza. Como filósofo que sou, no estrito sentido de gostar de saber coisas, das mais simples e vulgares, como levantar uma parede de tijolos ou ferrar um cavalo, as ondas de gravidade previstas por Einstein há 100 anos e agora, finalmente, descobertas, ou o bosão de Higgs, não resisto a “meter o nariz e espreitar” este maravilhoso domínio do génio humano.
 
Fique claro que não pretendo “meter a foice em seara alheia”. Não adquiri preparação académica em filosofia. Limito-me, pois, a procurar tornar acessíveis as leituras que a condição de “arrumado na prateleira”, como aposentado, desde 2001 (há 22 anos, é muito tempo), me vão ensinando.
 
Que perdoem os muitos que tratam por tu o discurso filosófico. Não é para eles (que, certamente, dispensarão, estas minhas despretensiosas incursões) que escrevo. A eles peço, sim, que me corrijam onde eventualmente possa errar ou ser menos claro ou incompleto. Escrevo para os que não tiveram oportunidade de contactar com os temas que habitualmente divulgo e que, todos os dias esperam estes meus escritos. E é a pensar neles que vou pondo aqui, e “enquanto é tempo” (o horizonte de vida não permite dilatar o tempo), o que aprendi e continuo a aprender, bem como o que meditei ao longo da vida.
 
Com boa vontade, podemos admitir que a filosofia interessa a todos. Tanto podem falar dela os académicos, numa linguagem elitista, só a eles acessível, mas hermética para o cidadão comum, como nós, numa exigência mais modesta, ao nível da chamada divulgação. Todos somos filósofos sempre que procuramos saber ou investigar algo, seja o que for. Tudo é sabedoria, pelo que tudo é filosofia. Mas, volto a dizer, o conceito académico de filosofia é algo mais profundo, a tratar por quem ganhou estatuto para tal. É uma sabedoria vasta e complexa, com uma longa história, que abarca a universalidade do conhecimento, que o questiona, explora e, tantas vezes, vai à frente dele.
 
Foi o confronto entre a realidade e as ideias que, a partir dela, foram formulando, que conduziu os pensadores no caminho de uma ciência embrionária que, nessa fase, se confunde com a filosofia. É nesta fase que a filosofia ganha o estatuto de “mãe de todas as ciências". Foi a admiração e a perplexidade decorrentes de tudo o que os sentidos traziam ao seu conhecimento, que desencadearam neles esta atitude mental que está na base do maravilhoso edifício do conhecimento científico e tecnológico que temos ao nosso alcance.

Já o dissemos e continuamos a poder dizer que foi entre os gregos que começou a audácia e a grande aventura do pensamento. Há quem afirme que terá sido no decurso do século VII a.C., com o desenvolvimento e progresso nos trabalhos diários, que alguns gregos começaram a esboçar explicações racionais que foram conduzindo à progressiva rejeição das explicações míticas da realidade.
 
É hoje consensual que a filosofia, como superior elaboração do pensamento, nasceu da recusa ao carácter sobrenatural dos mitos, que então dominavam as crenças, não só da sociedade grega, mas de toda a Ásia Menor. A passagem de uma mentalidade fundamentada em crenças de carácter religioso, a uma outra, assente no raciocínio, marca, pois, o início da filosofia.
 
A filosofia surge, assim, como uma espécie de rompimento com a visão mitológica do mundo grego. Enquanto que os mitos não dispunham de qualquer suporte racional, a filosofia inaugurava o discurso abstrato e universal, amparado na reflexão e argumentação, formulando concepções do mundo isentas de contradições e imperfeições no que respeita o raciocínio lógico.
 
Ao contrário da religião (neste caso, também a mitologia), baseada na fé, que não contesta, respeita e, praticamente, não se afasta da tradição e dos textos sagrados, a filosofia serve-se exclusivamente da razão para aceitar ou rejeitar as teses que se lhe deparam. A dinâmica social em crescimento nas cidades-estados (“polys”, em grego) jónicas, nas colónias gregas da Ásia Menor, apagou progressivamente as instituições e os valores arcaicos, dando nascimento a uma nova maneira de ver e pensar o mundo.
 
Um parêntesis para lembrar que, na Grécia antiga, cidadão era aquele - nunca aquela - que gozava do direito de participar na vida política da “polys”, um direito igualmente vedado a estrangeiros e a escravos. Foi por essa secundarização da mulher, na chamada civilização ocidental (praticamente, até começos do século XX), que a filosofia, as ciências e muitas outras atribuições lhes foram vedadas.
 
Durante o século VII a.C., as novas condições de vida nas ditas “polys” acentuaram-se com o fortalecimento do artesanato, do comércio e da navegação, marcando definitivamente a decadência da organização social baseada numa estrutura de base agrária, patriarcal e gentílica. Este tipo de organização social deu lugar a uma nova forma de pensamento racional, que não partia da tradição mítica, mas de realidades apreendidas na experiência humana quotidiana.
 
Dito de outra maneira, os resultados da experiência sensível no dia-a-dia conduziu à laicização da cultura e à sua integração numa visão racional e unificadora
 
Neste quadro, admite-se que tivessem surgido, nas colónias gregas da Ásia Menor, as primeiras manifestações de um pensamento racional, embrião da filosofia, abrangendo os primórdios de uma ciência teórica (sem qualquer apoio experimental). Admite-se ainda que foram também certas particularidades da mitologia grega que conduziram ao pensamento filosófico e que a contribuição dos primeiros filósofos foi dessacralizar e despersonalizar as narrativas tradicionais sobre a origem e organização do cosmos.
 
Por outras palavras e por fim, não esqueçamos que, não obstante os mitos serem narrativas fictícias, afastadas do discurso racional (“logos”), foram eles que levaram à reflexão por parte dos filósofos, tornando-se, assim, num domínio de fronteira entre as crenças religiosas e a filosofia.

A. Galopim de Carvalho

DEZ PENSAMENTOS SOBRE PRÉMIOS LITERÁRIOS

Por Eugénio Lisboa
I – Um escritor que aceita um prémio literário desonra-se. – Paul Léautaud

II – Os prémios literários dão um complexo de superioridade aos membros do júri e um complexo de inferioridade aos eleitos. – Georges Perros

III – O Goncourt é um pouco como a eleição de Miss França. Sem futuro. – Patrick Mondiano

IV – O comércio de livros inventou os prémios literários, para estimular as vendas, não para recompensar o mérito. – Michael Moorcock

V – Vocês podem ter uma data de prémios, seguidores e dinheiro. Eu tenho a minha luta. – Avijeet Das

VI – Tudo o que tens a fazer para ganhares o Pulitzer [de jornalismo] é passares a vida a correr de um lugar horrível para outro lugar horrível e escreveres sobre todas as coisas horríveis que vires. O mundo civilizado lê, depois esquece, mas põe-te em destaque pelo que fizeste e dá-te uma recompensa, por não teres mudado coisa nenhuma. – David Baldacci

VII – Como é que os juízes do Book Award podem estar certos, quando sabemos que, se submetermos os mesmos livros a diferentes painéis, os vencedores serão diferentes? – Mouloud Benzadi

VIII – O mundo é glacial, quando chega a altura de reconhecer o talento. – Stewart Stafford

IX – Mas nada, na vida humana, é sem misturas e as honras inevitavelmente equilibram-se com a auto-dúvida. Toda a gente sabe que as medalhas são de borracha. – Donald Hall

X – Não é a honraria que deves levar contigo, mas a herança que legas. – Branch Rickey
NOTA: Os pensamentos que lego acima, na sua aliciante diversidade, são da responsabilidade dos seus autores e não da minha. Seria pois aconselhável que não se iniciasse tiroteio nesta direcção, como fizeram, por vezes, espectadores de teatro que, confundindo actor com personagem, perante um actor encarnando o personagem de vilão, subiram indignados ao palco e encheram-no de pancada. A minha reacção a estes dez pensamentos varia de pensamento para pensamento, mas revejo-me sobretudo no pensamento, apesar de já ter recebido vários prémios.

Selecção e tradução de Eugénio Lisboa

domingo, 17 de dezembro de 2023

A DESVALORIZAÇÃO CONSENTIDA DOS DIPLOMAS ESCOLARES

"Hoje, as escolas têm de preparar os estudantes para uma mudança socioeconómica 
mais rápida do que alguma vez foi,  para empregos que ainda nem sequer foram criados, 
para usar tecnologias que ainda não existem e resolver problemas que ainda não sabemos que vão surgir (...) o mundo já não recompensa as pessoas apenas por aquilo que sabem - o Google sabe tudo - 
mas por aquilo que conseguem fazer com isso."
Diretor do Departamento de Educação e Competências da OCDE, 2016.
 
 

Recorte da notícia do jornal Expresso, que pode encontrada aqui
Muito em virtude da insistente e persistente pressão de organismos supranacionais, entre os quais se destaca a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), uma multiplicidade de sistemas educativos têm aceitado que o seu fim último seja a preparação para o mercado de trabalho. Com o modelo empresarial por referência, passaram a focar-se na aquisição de competências necessárias ao funcionamento competitivo de tal mercado. 

Os currículos - para o ensino básico, secundário e superior - foram transformados em função desse fim, o mesmo acontecendo com a avaliação. 

Se nos colocássemos na óptica dessa organização, diríamos "perfeito"! E... enganávamo-nos! 

É que as empresas, com as quais a dita organização tem um diálogo privilegiado, passaram a declarar que, afinal, não lhes interessam os diplomas obtidos na escola ou na universidade pública: eles não querem dizer nada, não são garantia de coisa nenhuma... Os diplomas oficiais, que atestam a aquisição de competências ajustadas às necessidade do mercado de trabalho, perdem validade nesse mercado.

A desconcertante declaração, com alguns anos a circular pelo mundo, ganha força em Portugal:

“O diploma de licenciatura é cada vez menos importante, as empresas conseguem medir competências, não precisam do carimbo da Universidade (...) para certificar a qualidade",

disse alguém (ver aqui), em entrevista ao jornal Expresso do dia 12 deste mês, replicando alguém (ver, por exemplo, aqui).

(Na educação, a replicação do discurso - por parte de diversos agentes situados em diversas instâncias - tende a consolidá-lo, mesmo que ele não seja compatível com os desígnios da educação).

Entregue-se, pois, a educação ao cuidado de quem sabe do funcionamento do mercado, de quem é empreendedor e sabe como se produzem empreendedores. Na notícia, a jornalista, presume a partir das palavras do entrevistado que:

"A educação, tal como qualquer indústria, depende de incentivos".

 E, voltando a palavras do entrevistado:

"É fundamental permitir que as escolas sejam geridas de forma eficaz e com os incentivos certos para termos a educação que queremos".

A "educação que queremos", expressão acarinhadíssima pela OCDE, suscita, naturalmente a pergunta: "quem quer"? E outras se seguem: "para que quer"?; "Como quer?"...

Mas quem está interessado, mesmo que tenha responsabilidades no sistema educativo público, em pensar nestas perguntas e, evidentemente, nas preocupantes respostas a que seria conduzido?

quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

O SEGUNDO CARDEAL PORTUGUÊS A RECEBER O PRÉMIO FERNANDO PESSOA

Por Eugénio Lisboa

É a segunda vez que o Prémio Fernando Pessoa é atribuído a um cardeal português. A primeira vez foi concedido, em 2009, a D. Manuel Clemente, que nessa altura era ainda Bispo do Porto e, agora, ao cardeal Tolentino de Mendonça. Em qualquer dos casos, parece-me difícil justificar ambos os galardões, a não ser por um grande apetite de arrastar a asa à Igreja Católica. A obra de investigação histórica de D. Manuel Clemente poderá interessar muito mais à Igreja Católica do que aos Portugueses em geral e a que interessa aos portugueses não me parece que tenha nem a importância nem a dimensão da produzida por outros historiadores.

Quanto à obra Poética e crítica de Tolentino de Mendonça, não tem nem a dimensão nem tem suficiente idade, que justifique tão apressada consagração. E tem até perturbadoras atitudes, como a de excluir de uma antologia de poesia dedicada à temática de Deus, dois nomes maiores da literatura portuguesa, tais José Régio e Miguel Torga, que, nesse território, têm poucos rivais. Mas tratava-se talvez de não ofender certas vestais, um pouco confusas com a ideia de “modernidade”, conceito responsável por alguns dos maiores dislates escritos em língua portuguesa.

Porém, conhecendo o nosso milieu literário como conheço, mentiria se dissesse que este prémio foi, para mim, uma surpresa. Comentei com vários amigos meus, por várias vezes, que estava escrito nas estrelas que ou o Camões ou o Pessoa não demoraria muito a ser atribuído àquele cardeal português, não por razões de mérito (que tem algum), mas por razões bizantinas, daquelas que se sussurram nos corredores e que nunca chegam à superfície. No campo da historiografia ou do ensaio literário ou da ficção ou poesia, não seria minimamente difícil encontrar nome mais consensual de escritor, com obra começada há muito mais tempo. Mas talvez seja muito “chic” incluir príncipes da Igreja, na lista dos laureados. Por que não? É sabido que a Academia Francesa adora lá meter marechais do reino e altas hierarquias da Igreja, porque eles dão, com seus trajos e condecorações, enorme brilho àquela sociedade. Anatole France dixit.

Júris do Camões, tenham coragem: D. José Tolentino de Mendonça aguarda com alguma impaciência a vossa decisão.

Eugénio Lisboa

terça-feira, 12 de dezembro de 2023

Breve elogio do bom-senso esclarecido. O caso da restrição de ecrãs na escola

Disponibilizo aqui a ligação para o último texto que escrevi para o Ponto SJ - Portal dos Jesuítas Portugueses.

 

SONETO À CLAREZA

As ideias claras são muito raras.
A clareza é um caldo perigoso,
que rejeita as barafundas ignaras
e fende o obscurantismo teimoso.

A ideia clara induz mau sangue
aos que, morcegos, detestam a luz.
O trapaceiro usa o bangue-bangue,
que opõe à luz que, só ela, seduz.

Se a clareza é a boa fé
dos filósofos, como um deles disse,
mesmo que fosse só em rodapé,

que bom seria que ela luzisse,
iluminando a obscuridade
e, mostrando, dela, a sujidade.

Eugénio Lisboa

20 PENSAMENTOS DE BERTRAND RUSSELL

I – Uma vida bem sucedida é a que é inspirada pelo amor e guiada pelo conhecimento.
II – Não receies ser excêntrico, nas tuas opiniões, porque todas as opiniões hoje aceites já foram consideradas excêntricas.
III – Eu nunca morrerei em nome das minhas crenças porque posso estar errado.
IV – Eu detesto o comunismo porque não é democrático e detesto o capitalismo porque favorece a exploração.
V – O medo é a principal fonte da superstição e uma das principais fontes da crueldade. Vencermos o medo é o começo da sabedoria.
VI – O amor é sábio – o ódio é tolo.
VII – O mais difícil, na vida, é aprendermos quais as pontes a atravessar e quais a queimar.
VIII – O tempo que te dá prazer desperdiçar não é tempo desperdiçado.
IX – Os homens nascem ignorantes, mas não estúpidos. Tornam-se estúpidos pela educação que recebem.
X – Um dos sintomas de um iminente colapso nervoso é a convicção de que aquilo que fazemos é terrivelmente importante.
XI – Devemos ser cépticos até acerca do nosso cepticismo.
XII – Há dois motivos para se ler um livro: um é termos prazer nisso; o outro é podermos gabar-nos de o ter lido.
XIII – Sem coexistência não há existência.
XIV – Em todos os assuntos, é saudável, uma vez por outra, pormos um ponto de interrogação, naquilo que, durante muito tempo, tivemos por garantido.
XV – E, contudo, não cometi suicídio, porque queria saber mais alguma coisa de matemática.
XVI – O medo colectivo estimula o instinto de rebanho e tende a instigar ferocidade contra aqueles que não são considerados membros do rebanho.
XVII – Não me sinto de modo nenhum envergonhado por ter mudado de opinião.
XVIII – Porquê repetir erros antigos, se há tantos novos a cometer?
XIX – A única coisa que redimirá a humanidade é a cooperação.
XX – As esperanças que inspira o comunismo são, no essencial, tão admiráveis como as instiladas pelo Sermão da Montanha. Mas são sustentadas de modo igualmente fanático e produzem tantos danos como aquele.
Selecção e tradução
de Eugénio Lisboa

O PISA EM ESPANHA

Retiro do jornal online ABC os extractos abaixo sobre os resultados do PISA em Espanha. As mesmas considerações poderiam ser feitas para Portugal. Ambos os países, que participam no PISA (programa da OCDE), ressentem-se das orientações/recomendações da OCDE, que têm implementado. De outro modo: ambos os países integraram nos seus sistemas de ensino as linhas estabelecidas pela OCDE para a educação global; agora percebem (perceberão?) que essas linhas os conduzem a resultados muito preocupantes na testagem da mesma OCDE. Devemos, na verdade, interrogar-nos dentro de portas, mas não podemos deixar de nos interrogar acerca do rumo (desconcertante) que a OCDE tem dado ao currículo e à avaliação.
 
No nosso país, grande parte da energia política é investida a tentar resolver problemas gerados pelos próprios políticos. Enquanto isto acontece (...) degradamos a forma como educamos os mais jovens. 
 
Os dados do último relatório PISA, o primeiro após a Covid-19, sendo preocupantes, exigiriam a adopção de medidas ambiciosas e urgentes.
 
A proficiência em leitura, matemática e ciências foi significativamente reduzida [acompanhando a de] outros países (...). O mal dos outros não poderá servir de justificação para que Espanha torne crónicos os seus problemas educativos (...). Não só as políticas públicas falham, como as premissas que as inspiram parecem mostrar sinais de esgotamento. 
 
As novas pedagogias, o emotivismo ou a recepção acrítica da inovação tecnológica pesam na (...) forma como, durante décadas, decidimos educar crianças e adolescentes (...).
 
A seleção dos professores, a cultura do esforço e do conhecimento, os rácios de sala de aula, os programas curriculares e um correcto financiamento são, sem dúvida, elementos-chave a ponderar (...).
 
A ideia de que tudo tem que ser fácil prejudica uma abordagem realista (...) que, mais tarde, se manifesta inclusivamente no ensino secundário e na universidade. 
 
Além disso, a diferença entre o público e o privado está a agravar-se, o que num quadro de descentralização pode acabar por evidenciar novas diferenças entre os espanhóis (...).
 
A fúria legislativa com que realizámos reforma após reforma condenou-nos ao improviso e impediu-nos de construir um quadro estável, fiável, exigente e duradouro. 
 
Existem evidências suficientes para mostrar que grande parte dos pressupostos das novas pedagogias falharam e, por isso, a nossa educação pública requer protecção (...)
 
A Espanha precisa de estabelecer um pacto educativo, mas a cegueira ideológica e as políticas em vigor parecem continuar a condenar as gerações futuras.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

PISA 2022: Parecer da Sociedade Portuguesa de Matemática

Deixo a ligação para o parecer da Sociedade Portuguesa de Matemática aos resultados da última passagem do PISA (ver aqui). 

"Os resultados PISA 2022, de Portugal, evidenciaram uma queda significativa das pontuações nos três domínios avaliados, sendo em Matemática que ela é mais acentuada (20 pontos). 

Após uma melhoria sistemática dos resultados em todas as edições até 2015, e de estagnação em 2018, os alunos portugueses obtêm agora uma pontuação (472) próxima da obtida em 2006 (466), revelando um cenário de um enorme retrocesso"

domingo, 10 de dezembro de 2023

OS TICS DO ESTADO NOVO

Por Eugénio Lisboa 
 
Há comportamentos e afirmações que são tristemente reveladores de que as marcas identitárias do Estado Novo ainda não desapareceram. 
 
Uma delas é o sentimento subliminar de que a respeitabilidade está sempre à direita ou chegada a ela. O que leva, às vezes, a esquerda a ter tics de direita. Outra é um partido que se diz social democrata – o PSD – considerar-se de direita e afirmar constantemente que o seu “aliado natural” é o CDS, que, pelo menos, nas mãos de Nuno Melo, é um partido assumidamente de direita.
 
 Mas há mais. 
 
Durante a vigência do Estado Novo, qualquer cidadão que se opusesse ao regime era imediatamente acusado de ser um perigoso comunista e um traidor. Não sei se o faziam por convicção ou por manobra. O certo é que o faziam. 
 
Eu próprio fui dezenas de vezes “acusado” de comunista perigoso pelos próceres do Estado Novo. Nunca refutei publicamente tais “acusações” porque seria, na altura, cobarde e pouco estético fazê-lo, em relação aos verdadeiros comunistas, entre os quais tinha bons amigos que muito respeitava. Seria quase o mesmo que estar a dizer que eles tinham lepra e fazer o jogo do Estado Novo. Mas os meus escritos e os mestres em que me abonava nada tinham que ver com o comunismo, antes com uma convicta social democracia e com uma intransigente defesa da liberdade de pensamento.
 
Seja como for, é penoso ver hoje o líder do PSD, Luis Montenegro, a acusar membros da esquerda do PS de gonçalvismo! Tudo quanto não seja aquela direita mole e gananciosa é perigoso gonçalvismo e traição à pátria. Tudo quanto seja levar a sério os deveres e obrigações de uma autêntica social democracia é logo demonizado por um partido que tem social democracia no nome. Se isto não é táctica típica de autocracias, não sei o que seja.  O actual PSD devia fazer um longa e profunda reflexão sobre as suas origens. Mencionar Sá-Carneiro, a torto e a direito, não chega: é preciso ir ver o que ele realmente pensava. De certo, ele não se reveria neste PSD que vê a direita como a sua família “natural”. 

O mais grave, porém, é que estes tics estadonovistas não se detectam só no PSD. Um dos candidatos à próxima eleição de secretário geral do PS, José Luis Carneiro, enferma dos mesmos trejeitos próprios de quem receia ver um reformismo sério e preocupado com uma verdadeira e vívida social democracia, como coisa pouco respeitável, senão como gonçalvismo a bater à porta. 
 
Lembro-me, não sei porquê, da peça de Ionesco, O RINOCERONTE.
 
Eugénio Lisboa

ROBESPIERRE

Robespierre era incorrupto,
detestava sangue e violência,
mas foi assassino ininterrupto,
porque odiava a divergência.

Mal comia, não bebia, não fumava
e corpo de mulher não conhecia.
Quimicamente puro, trabalhava,
por um ideal que enlouquecia.

A liberdade era um farol,
que só ele julgava que entendia.
Bicho caseiro que odiava o sol,

a virtude que nele florescia
era bem mais letal do que veneno,
oriundo daquele extraterreno.

Eugénio Lisboa

A DECADÊNCIA DA EDUCAÇÃO ESCOLAR

Por Isaltina Martins e Maria Helena Damião
 

Não podemos deixar de reproduzir uma parte alargada do texto de opinião com o sugestivo título que se pode ler acima, assinado por António Carlos Cortez e saído no Diário de Notícias do passado dia 8 (ver aqui). Como o autor destaca, os resultados da última passagem do Programa Internacional de Avaliação dos Alunos (PISA) revelam a decadência da educação escolar pública. E, acrescentamos, no que ela tem de mais básico: a demonstração de competências para resolução de situações do quotidiano em três áreas disciplinares.
"Com os resultados da oitava ronda do PISA, só se espanta quem seja ingénuo ou cobarde. Ou quem, irresponsavelmente, insiste em declarar que a educação em Portugal (...) está no bom caminho seja para o que for a que queiramos chamar "o futuro" (...). Portugal tem o 29.º resultado (em trinta países!) em Matemática; tem o último lugar na literacia científica e ocupa o 24.º lugar no que respeita à leitura.
A culpa não será só da pandemia. Mas a pandemia agravou as dificuldades do quotidiano escolar e universitário. O tele-ensino foi apenas, como sempre neste país, "para inglês ver" e a equipa ministerial fazer o elogio da classe que jamais protege, mas sempre engana.
Sejamos honestos: não só a profissão docente está absolutamente comprometida, como a própria escola pública (...) e a Universidade no seu futuro.
As condições de recrutamento não aliciam ninguém (...). Os que entrarem depressa irão rumar a outras paragens. Os que persistirem serão carne-para-canhão dum sistema que paga mal, brutaliza, estupidifica e é cúmplice da ignorância larvar.
Com efeito, os resultados do PISA revelam o que a maioria sabe: que o que se vive no dia-a-dia das escolas impede qualquer hipótese de crianças e adolescentes aprenderem seja o que for de relevante.
O quotidiano escolar é simples de descrever: os professores, esmagados por centenas de alunos, tendo a braços mil-e-um afazeres de natureza burocrática, deslocados da sua área de residência, congelados neste ou naquele escalão, tendo ordenados de miséria - os professores não possuem qualquer estatuto real ou simbólico para enfrentar o que enfrentam (...)
Que realidade é essa que os professores enfrentam? Esta: Uma geração inteira de adolescentes que, com 13, 14, 15, 16, 17 anos são mal-educados, ignorantes e sem curiosidade. Adolescentes cujos pais pressionam, com apoio das direcções, para que os seus filhos obtenham resultados de não menos que 16 a todas as disciplinas. O perfil dos jovens que frequentam hoje a escola portuguesa roça a delinquência. Mas são delinquentes com óptimas notas! É vê-los com as cabeças mergulhadas, durante as aulas, nos ecrãs dos tenebrosos telemóveis. É vê-los falar no português de caserna que espelha a ausência de utopia, a incuriosidade, a formatação de reformas educativas que visaram empobrecer a capacidade crítica.
No digital - aí é que está a autoridade: os influencers, os tik-tokers, os magos da estupidez a fingir de progresso. Esses são os verdadeiros educadores do país.
Na maioria das escolas as direcções são coniventes. O rigor é atropelado pela facilidade; reprovar um aluno significa correr o perigo de ter os pais à espera. No melhor dos casos significa escrever um relatório inútil a justificar por que razão a reprovação faz sentido - facto que as direcções se apressam a desfazer. Professores competentes - que os há, ainda - são convidados a serem "flexíveis" (...).
Criámos, portanto, os monstros: futuros juízes, políticos, advogados, médicos, professores, engenheiros, arquitectos, que nada leram, não sabem escrever e não sabem pensar (...) as sucessivas reformas - com a diluição de disciplinas como História, Filosofia e Literatura (as que exigem a escrita reflexiva!) - são a raiz da nossa degradação social.
Os resultados do PISA espelham bem cinco causas da nossa decadência acelerada:
1.º) As reformas curriculares facilitistas;
2.º) a má preparação científica da classe docente;
3.º) a pobreza salarial dos professores, não permitindo o acesso à cultura, sempre cara neste país pobre;
4.º) a incapacidade de pensar a educação supra-partidariamente e
5.º) a "vã cobiça", as modas, tudo quanto, sob a capa do discurso do sucesso, abre as portas à corrupção, à anarquia, à indigência.
(...)"

"Nós, professores, já não lemos. Nem sequer estudamos."

O artigo que aqui traduzimos, assinado por Diego Garrocho, não traz nada de novo, mas o que traz é importante, fundamental, precisa de ser r...