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segunda-feira, 11 de julho de 2016

Ainda o glifosato: debate no evento Cidade Mais


Na sequência do que escrevi aqui sobre os pesticidas e o glifosato, estive no passado dia 7 de Julho num debate no evento Cidade Mais no Porto. O debate foi organizado pelo Frederico Brandão, moderado pela Mariana Cruz e contou com a presença de Sofia Guilherme da Universidade de Aveiro e José Franco da Câmara Municipal do Porto, além de mim.

Foi um debate cordial e vivo, com bastante intervenção do público presente. Devo, no entanto, referir que durante a minha primeira intervenção de carácter geral em que apresentei uma
"defesa da química" em geral, uma ou duas pessoas fizeram um ar aborrecido e foram embora, mas a grande maioria ficou e fez intervenções pertinentes. Embora nos tenhamos dispersado por vários assuntos acessórios, julgo que o debate foi esclarecedor em muitos aspectos. Pela minha parte, tive oportunidade de conhecer outros pontos de vista e rever as minhas ideias sobre o assunto. O tempo era limitado e, por razões práticas, acabámos por fazer a discussão centrada na apresentação (slides) da Sofia Guilherme, tendo eu e o José Franco abdicado de fazer apresentações. O texto da minha apresentação, com algumas pequenas alterações introduzidas após o debate, será apresentado mais abaixo, mas antes gostaria de dizer mais algumas coisas sobre o debate. 

 A Sofia Guilherme tem realizado investigação sobre o efeito do glifosato nas enguias (vejam-se também as referências anteriores), nomeadamente em termos de alterações genéticas e indicou ter ficado surpreendida com os efeitos verificados para as baixas concentrações que foram testadas. Com base nos resultados publicados no artigo, parece, de facto, haver algum efeito genético nas enguias, embora este efeito pareça ser pequeno e de curto prazo, sendo rapidamente reparado na ausência do pesticida (conclusões minhas). Convém referir que os valores de glifosato testados foram 18 e 36 μg/L, escolhidos com base em valores agudos referidos na literatura, sendo que o limite na UE nas águas de consumo é de 0.1 μg/L, um valor que se espera, na minha opinião, ser actualmente raramente ultrapassado. Foi também referida a possivel relação entre o glifosato e o autismo, o que contestei (discussão mais abaixo).

O José Franco indicou que a Câmara do Porto não usa actualmente glifosato nem outros herbicidas, mas que isso acarreta muito mais mão de obra e terem passeios com ervas de que muito munícipes se queixam. Lembrou que o uso de pesticidas deve ser realizado por pessoas habilitadas e conhecedoras dos seus riscos
. Aliás, actualmente a compra e aplicação de fitofarmacêuticos implica a realização de formação adequada. Referiu também, com base na sua experiência profissional, que muitos produtos ditos tradicionais podem envolver o uso inapropriado de pesticidas, tanto por ignorância como por erro, e que no comércio não tradicional existe mais controlo de limites de poluentes e pesticidas. A audiência e o painel concordaram que deveriam também ser feitas análises de pesticidas nos mercados tradicionais e abastecedores.

O debate evoluiu para alguns aspectos da agricultura convencional e biológica, tendo sido discutido com a audiência questões como a productividade, a erosão e contaminação dos solos, a alimentação saudável e o consumo local, entre outros temas que tinha já, em parte, na minha apresentação.


Pesticidas, agricultura, saúde e tudo o resto... 
(texto da apresentação que acabei por não fazer e que complementa o que escrevi aqui e aqui)

As ervas daninhas são plantas que estão no local errado em má altura. No livro Por favor não matem a cotovia, de Harper Lee, cuja acção se passa em 1936, há uma personagem, Miss Maudie, que asperge obsessivamente as ervas daninhas com um produto que mata tudo, em vez de as arrancar simplesmente. Eu citei esses aspecto no livro Jardins de Cristais, mas não confirmei que herbicida poderia ser. De facto, ou se trata de uma liberdade literária da autora, ou o produto só pode, em princípio, ser um de dois, clorato de sódio ou DNOC (dinitro-orto-cresol), que eram os herbicidas disponíves nessa altura. Estes estão banidos actualmente, assim como o estão uma boa parte dos herbicidas que surgiram nas décadas seguintes.

Irei guardar para o final do texto a minha proposta de resposta à questão de serem ou não necessários pesticidas, em especial o glifosato. Antes, gostaria de referir a história dos herbicidas, assim como a história e propriedades de alguns destes.

Sem considerar os usos antigos, actualmente quase todos abandonados, como sejam a aplicação das águas ruças provenientes da produção de azeite, de sal, de ácidos (subsiste o uso de vinagre), entre vários outros que destroem também as terras de cultivo, poucas mais formas havia para combater as ervas daninhas do que os meios mecânicos  de arranque ou corte e lavra da terra. O primeiro herbicida sintético foi o DNOC que, como referi acima, está neste momento banido (ou não aprovado, usarei as denominações de forma equivalente, embora não o sejam). Em 1940 surgiu o sulfamato de amónio (também actualmente banido). Em 1941 Porkony sintetizou o 2,4-D (ácido 2,4-diclorofenóxiacético, actualmente ainda em uso) e o 2,4,5-T (ácido 2,4,5-triclorofenóxiacético, actualmente banido por estar associado a impurezas de dioxinas no tristemente célebre agente laranja), mas só em 1944 o 2,4-D foi reconhecido como herbicida. Em 1945 o ácido 4-cloro-2-metilfenoxiacético (MCPA) é testado pela primeira vez; em 1951 o monuron (entretanto banido) mostra-se efectivo no controlo de ervas; em 1958 foram introduzidos a atrazina e o paraquat (banidos, em especial o último que, de tão tóxico, era usado para suicídio). Em 1960 ficou disponível a trifluralina (banida). Também na década de 1960s surgem as piridinas (por exemplo o triclorpir, que está aprovado em Portugal). Em 1971 foi introduzido o glifosato, nos anos 1970s as sulfanilureias, nos anos 1980s as imidazolinonas, nos anos 2000 as sulfaniltricetonas e as pirimidinas. Trata-se de uma história sempre em evolução, com os pesticidadas a serem avaliados e testados de forma regular e com as autorizações de uso sempre provisórias. Entretanto as plantas vão ganhando resistências ou pode descobrir-se que os pesticidas são demasiado tóxicos de variadas formas, sendo, por isso, banidos ou abandonados.

Em Portugal estão aprovados (em junho de 2016,  EU Pesticides Database)  84
Figura 1: Pesticidas aprovados e não aprovados
em Portugal e na UE
substâncias herbicidas (ver figura 1) a que se podem somar-se mais 43 aprovadas na UE, totalizando 127. O glifosato faz parte dessa lista, não sendo o mais tóxico nem, com boa certeza, o mais perigoso. Para além destes 127 herbicidas aprovados, existem 199 que não estão aprovados. Uma situação semelhante ocorre com os insecticidas e fungicidas, assim como outros pesticidas (notar que por razões legais os reguladores de crescimento são classificados como pesticidas). Há 64 insecticidas aprovados em Portugal (104 em toda a UE) e 173 não aprovados na UE (ou banidos), 60 fungicidas aprovados em Portugal (149 em toda a UE) e 143 não aprovados.

O glifosato foi sintetizado nos anos 1950 mas ninguém na altura pensou numa aplicação para a molécula. Nos anos 1970, na Monsanto, uma pesquisa sistemática de compostos herbicidas realizada por uma equipa chefiada por John Franz (n. 1929) revelou que este composto podia ser usado como herbicida. Apesar de toda as páginas web e manifestações contra este composto, a mais recente informação, revista no jornal da EFSA da UE em Novembro de 2015 aponta para a baixa perigosidade desta substância se usada de forma apropriada (infelizmente as evidências científicas não interessam aos fanáticos, em particular aqueles que enviaram pelo correio uma bomba para o laboratório da UE que fez este relatório). Deve também referir-se que a patente do glifosato já expirou há vários anos, sendo esta substância hoje produzida por várias empresas, desde as mais conhecidas às praticamente desconhecidas, em vários pontos do mundo, em particular na China.

Os valores máximos diários aceitáveis para o glifosato são na UE de 300 μg/kg peso corporal/dia para o cidadão comum e 200 μg/kg  peso corporal/dia para aplicadores e operadores. Estes valores são dezenas de vezes superiores aos valores que têm sido detectados em medições oficiais e mesmo em medições particulares. É de referir que em modelos animais o nível para não observação de efeitos adversos (NOAEL) é de 100 mg/kg peso corporal/dia. Contrarimente ao que por vezes se afirma, existem imensos estudos científicos sobre o glifosato (basta consultar as bases de dados científicas) e a grande maioria não é patrocinado por empresas. Aliás, o patrocínio da Monsanto (uma empresa pela qual, digo já, não tenho simpatia) é uma das acusações had hominen mais comuns a quem tente discutir este assunto, não se juntando ao coro dos que acham que o glifosato é o diabo. Em particular, são bem conhecidos há décadas (e continuam a ser estudados) os mecanismos bioquímicos que fazem o glifosato ser tóxico para as plantas e ser muito menos para os seres humanos e maioria dos animais.

Vem a propósito disto, referir a hipótese da ligação entre o autismo e o glifosato, baseada em correlações, a qual nunca teve crédito científico mas que, nos últimos anos, pela mão de Stephanie Seneff, voltou à ribalta. Esta autora, especialista em inteligência artificial do MIT, tem vindo a publicar nos últimos anos artigos, com os mais variados autores, em geral investigadores independentes, mas em revistas científicas com revisão, propostas de mecanismos biológicos que explicam a correlação do uso do glifosato com quase todas as doenças possíveis. Não colocando em causa a honestidade desta investigadora, estes artigos não apresentam mais do que hipóteses, algumas pouco lógicas e contrárias ao método científico, de acordo com os poucos autores que se atreveram a comentá-las nas revistas científicas (um deles foi na prática insultado na resposta escrita de um co-autor de Seneff!) Da leitura que fiz, notam-se falhas de química e biologia, assim como um claro bias devido à evocação apenas dos estudos que concordam com as hipóteses, ignorando-se os restantes.  Além disso, há a referir que a maioria destes artigos foram publicados em revistas fora das áreas relevantes (e.g. há dois na Entropy), além de que estão a ser praticamente ignorados pela comunidade científica médica.

Como referi, na minha opinião, o glifosato não será, em princípio, o diabo ou um novo papão. É apenas um herbicida, neste momento genérico, que qualquer empresa pode produzir e todos devem usar com precaução. De entre as outras  83 substâncias herbicidas usadas em Portugal, chamo a atenção para o grupo das sulfaniltricetonas introduzidas nos anos 2000. Uma destas é a mesotriona, cuja patente expirou em 2012, e que foi descoberta por aleloquímica, procurando uma molécula com propriedades herbicidas análogas às da leptospermona, um composto natural presente na “árvore das garrafas”. Também descobertos, seguinda a via da semelhança de propriedades com compostos naturais, temos os piretróides, baseados nas piretrinas dos crisântemos, e os neonicotinóides, baseados na nicotina do tabaco.

Estes compostos pesticidas - tanto os naturais, como os sintéticos - não são inóquos, mas o desenvolvimento de compostos sintéticos é actualmente realizado de forma a maximizar a especificidade e minimizar os riscos e persistência ambiental. São também rigorosamente vigiados. Por exemplo, o imidaclopride esteve suspenso algum tempo devido a suspeitas de risco para as abelhas. Verificou-se, entretanto, que as abelhas estavam a ser dizimadas pelas vespas asiáticas e não pelos pesticidas. E esse não é o único exemplo de um caso em que a natureza, não sendo boa em má em si mesma, nos leva para caminhos que não gostamos (claro que podemos sempre dizer que seja devido às mudanças climatéricas ou movimentos humanos, entre outras coisas, mas parece-me que tais explicações gerais nada explicam pelo facto de serem extrapolações abusivas ou simplistas). Outros exemplos são o escaravelho das palmeiras e o nemátodo dos pinheiros, que têm de ser combatidos, em boa parte usando pesticidas. E isso leva-nos à necessidade, ou não, do uso de pesticidas.

Figura 3: Custos dos dois tipos de agricultura  (EUA)
Figura 2: Produtividade dos dois tipos de agicultura (EUA)





Dada a inferior produtividade, em cerca de 30%, da agricultura biológica (figura 2), a passagem de toda a agricultura para este tipo não seria sustentável. Mas é curioso que este tipo de agricultura, que envolve menos custos, (figura 3), acabe por ser 30% mais rentável, devido à combinação destes dois factores e dos preços que estes produtos atingem. Na figura 3 vê-se que um dos maiores custos da agricultura biológica são o amanhe dos terrenos e a necessidade de mão de obra, sendo que nos maiores custos da agricultura convencional se incluem as sementes e os adubos. Curiosamente os custos com pesticidas (insignificantes na agicultura biológica) não são demasiado elevados na agricultura convencional.
Figura 4: Aumento da população, esperança de vida, produtividade, área agrícola ocupada e evolução dos empregos na agricultura (gráficos provenientes de várias fontes)
Dada a pressão ambiental e humana actual não é ainda, em princípio, viver sem pesticidas e não sabemos se algum dia será possível (na figura 4 mostram-se os diversos factores envolvidos nessa questão). Por um lado tem de se manter ou aumentar a produtividade actual, por outro deve evitar-se a erosão dos solos e o aumento da área agrícola. Nos anos 1990 a produção atingiu as necessidades, mas ainda há grande pressão devida ao aumento da população (que ainda está a aumentar, mas com a sua velocidade a diminuir) em paralelo que a esperança de vida que está a aumentar, mas parece dirigir-se para um patamar com as duas velocidades a igualarem-se cerca de 2045. Também a mão de obra envolvida na agricultura tem diminuido imenso desde o século XIX para a actualidade. A produtividade da agricultura biológica está a aumentar, acompanhando a da agricultura convencional, mas a questão da gestão dos solos e do maior gasto de energia e mão de obra não estão resolvidas.

Para além de não se poder, nas condições actuais, passar sem pesticidas, não será possível nunca passar sem “químicos”, pois todos os materiais são “químicos”. A quimiofobia que actualmente se manifesta radica no equívoco de se associar a química a supostos compostos prejudiciais sintéticos ou artificiais que seriam adicionados a tudo, desde alimentos a tabaco, os quais num mundo utópico natural não seriam adicionados. Um dos primeiros anúncios que refere “sem químicos” é do final do século XIX e é de um chocolate. Desde essa altura, esta ideia falaciosa, tornou-se quase uma forma de senso comum. Mas é preciso não esquecer que os compostos mais perigosos são de origem natural e que só nos fazem mal os compostos - naturais, sintéticos ou artificiais - que interagem negativamente com os nossos mecanismos biológicos.

Figura 5: Percentagem de cancros e tipos de exposição

Em particular, há uma grande discussão em relação ao suposto efeito cancerígeno do glifosato, mas o fumo do tabaco é com certeza muito mais cancerígeno. Na verdade quase 20% dos cancros são devidos ao fumo do tabaco (figura 5). Para além disso quase 10% dos cancros são devidos a má alimentação, falta de legumes, excesso de carne, etc.

Nesse contexto, pode perguntar-se por que razão se fala tanto de efeitos cancerígenos de alguns compostos e materais e não de outros. É preciso perceber como funciona a literatura científica e lembrar a questão económica dos custos de oportunidade. Se alguém submeter hoje um artigo a dizer que descobriu que o tabaco provoca o cancro, este não será aceite pois não há novidade - toda a gente sabe isso. Novidade seria descobrir-se que o tabaco afinal não provocava o cancro, mas esse artigo seria muito dificil de ser publicado numa boa revista, não só porque os revisores desconfiariam de que teria erros ou fraude, mas também porque é muito mais dificil publicar resultados negativos. No entanto, se o estudo resistir à avaliação dos revisores, poderá ser tomado em consideração, mas isso não anula todos os outros estudos anteriores. Voltando ao glifosato: devemos considerar todos os estudos que passaram pelos crivos dos revisores científicos e nos oferecem confiança, tanto positivos como negativos, e eventualmente chegaremos a conclusões, que serão sempre provisórias, mas cada vez mais informadas. Quando aos custos de oportunidade: quando se dá muita atenção a um estudo, há muitos outros que são ignorados e nada nos diz que são menos importantes.

Finalmente, gostaria de lembrar os químicos que desenvolveram os pesticidas que contribuiram para o aumento da produtividade agrícola, assim como os químicos que desenvolveram os medicamentos e contraceptivos que não tinhamos até aos anos 1960. Fizeram-no, em nome da ciência, sem pensarem nas consequências – que muitas vezes não poderiam prever - tanto positivas como negativas. Hoje já não seria assim, os desenvolvimentos químicos tomam em consideração os resultados sociais e os impactos para a saúde e ambiente. Devemos isso à evolução da sociedade, mas também a duas mulheres excepcionais: Raquel Carson (1907-1964), que nos anos 1960 chamou a atenção para o excesso de uso de pesticidas, mas que não era contra a completa proibição destes, e Frances Kesey (1914-2015) que, na FDA, impediu a comercialização nos EUA de um composto que parecia não fazer mal nenhum – a talidomida. Carson no ambiente e Kesey na saúde são nomes que devemos sempre lembrar, mas não devemos usá-los para transformar as dúvidas e a precaução em certezas inversas. Por exemplo, a talidomida que sabemos hoje ser um potente agente teratogénico, proibido para grávidas, encontrou um caminho terapêutico na cura da lepra e alguns cancros. 

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Abril, águas mil!


Crónica Publicada na Imprensa Regional:

A água é uma constante da vida!

Sem essa molécula, H2O, sem as propriedades a que ela dá lugar nos diversos estados físicos que se lhe conhecem (líquido, gasoso, sólido), nas condições de temperatura e pressão dos vários locais onde a vida foi encontrada no nosso planeta, sem essa molécula não estaríamos aqui.

Nem eu teria escrito este texto, nem o leitor o estaria, porventura, a ler!

 Na geringonça cíclica em que a substância água faz mover informação e energia no nosso planeta, a chuva desde sempre foi necessária para fertilizar com vida as rochas e terrenos emersos dos continentes, penínsulas, istmos e ilhas.

No regresso aos oceanos, a água corrente dos rios finais beija o mar com aromas, compostos, matéria e vida que recolheu e transporta desde as suas fontes nascentes, desde o local a montante onde brota e nasce despida, fresca, promessa de vida a jusante. Logo que a Humanidade se fixou na ideia da “urbe”, assentou os alicerces junto a cursos de água. Todas as antigas civilizações se semearam, cultivaram, disseminaram junto ou entre grandes rios (Tigre, Eufrates, Ganges, Nilo, Danúbio, Guadalquivir, Douro, Tejo, Guadiana, Sado, Mondego, entre tantos outros).

Mas sem chuva a trazer de volta água à terra que pisamos, a miséria instala-se. Se tarda, se demora, se se ausenta, quebrando os ritmos sazonais anuais, seculares, logo se instalam severas preocupações com a morte a substituir o mar a jusante.

Quase todos ouvimos o ditado popular “em Abril, águas mil”. Quase nenhum de nós o questiona. É um saber feito de tempo, saber tácito feito de regularidade passada que teima em se repetir anualmente, pouco tempo depois do equinócio (da primavera) em regiões acima da nossa latitude até ao círculo polar árctico. 

Aquele ditado não existe só em terras lusas. Que se encontre também em Espanha não é de espantar. Mas que faça parte da “sabedoria popular” por essa Europa acima, isso já levanta algum espanto (e pede ciência). Encontramos o provérbio em França - "les giboulées de Mars” -, no Reino Unido e Irlanda – “April showers”, "April showers bring May flowers" – e, exemplo nórdico, até na Noruega – “April bygger”.

O fenómeno meteorológico que alimenta o provérbio assenta no aumento do período de luminosidade solar incidente de forma progressivamente mais perpendicular a partir do equinócio da primavera (no hemisfério norte). Isto provoca um aumento progressivo da temperatura do solo, o que causa evaporação da água (mesmo que pouca devido a outonos e invernos menos chuvosos – como foi o caso este ano) retida e presente nos interstícios da terra.

Correntes de ar quente e vapor de água ascendem, aumentando a humidade relativa do ar. Como a temperatura média do ar também subiu, maior quantidade de água passa e fica na atmosfera (maior humidade relativa), prenúncio de nuvens, certezas pluviais. Este movimento, por convecção de ar quente e água (quer no estado gasoso quer no liquído), provoca fenómenos meteorológicos súbitos que nos “estragam” os passeios primaveris, mas que redistribuem a água preciosa, minorando os efeitos de secas nefastas para a maltratada agricultura.

O curioso e certo é que, apesar da seca deste ano, temos vivido um Abril que faz justiça ao ditado! Transcrevo, para terminar, a resposta que o Prof. António Galopim de Carvalho me enviou  à minha pergunta sobre o provérbio:

"Os ditados populares são testemunhos de muita sabedoria. São a síntese de um saber colectivo de gerações. A suposta tendência actual (no nosso hemisfério) da desertificação estar a migrar para norte, leva-me a pensar que, num passado geologicamente muito recente, tivemos aqui, no sul da Península, um clima chuvoso como o da chamada Ibéria Húmida, bem exemplificado no nosso Minho e na Galiza, clima esse que poderia estar na base do referido ditado."

António Piedade

(Agradeço a colaboração do Ricardo Cardoso Reis, na investigação para esta crónica.)

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

O GENOMA DA BATATA



Crónica publicada no "O Despertar".


Quando comer a próxima batata (cozida, assada, frita, etc) acompanhe-a com o conhecimento íntimo que sobre ela foi recentemente publicado na revista Nature. Ao trincar a próxima batata imagine que está a saborear o genoma deste tubérculo, cujo conjunto de genes que codificam proteínas é agora melhor conhecido.

Publicado no passado dia 10 de Julho naquela revista pelo consórcio internacional (29 grupos de investigação provenientes de 14 países) dedicado à sequenciação do seu genoma desde Janeiro de 2006, sabemos agora que este é constituído, pelo menos, por 39 mil genes que codificam proteínas (quase o dobro dos existentes no genoma humano) distribuídos em 12 cromossomas.

O genoma existente em cada uma das células da batata é estruturado por quatro cópias destes 12 cromossomas (48 cromossomas no total), enquanto o humano só possui uma cópia de 23 cromossomas (46 cromossomas). A relação complexa que se estabelece entre os genes, do tetraplexo cromossómico do genoma da batata, tem tornado a sua compreensão muito difícil.

O consórcio internacional, que sequenciou 840 milhões de bases (o humano possui cerca de 340 milhões) do ADN (ácido desoxirribonucleico) da batata para chegar ao resultado agora publicado, enfrentou inúmeras dificuldades no mapeamento dos genes, entre elas a grande heterozigosidade que existe mesmo numa única das inúmeras variedades da batata. A variabilidade genética, específica e singular a cada indivíduo (o mesmo é válido para nós), apresenta uma elevada frequência na batata.

Da batata são conhecidas actualmente mais de 3000 variedades, que se consubstanciam em cores, tamanhos, formas e valores nutritivos, e é, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, a terceira principal fonte de alimento agrícola (depois do trigo e do arroz), tendo em 2009 sido produzidas 330 milhões de toneladas. A batata é, na dieta, uma importante fonte de amido (um carboidrato ou hidrato de carbono polímero de glicose), proteínas, substâncias antioxidantes, vitaminas e sais minerais.

O conhecimento da composição e estrutura do seu genoma pode permitir a redução substancial do tempo, actualmente de 10 a 12 anos, necessário para obter por cultivo novas variedades. Isto é importante, quer para encontrar variedades resistentes a pragas e doenças que afectam o seu cultivo, quer para obter tubérculos mais produtivos e com maior qualidade nutritiva.

A batata, cujo nome científico é Solanum tuberosum L., foi "encontrada" pelos espanhóis no Peru em 1536. Disseminada rapidamente por toda a Europa, foi primeiramente, e durante muito tempo, utilizada como medicamento devido às suas propriedades “energizantes”.

No final do século XVIII, a batata era cultivada por toda a Europa instalando-se progressivamente na alimentação de base europeia. A sua dominância agrícola na Irlanda, por exemplo, era tão grande que a seca nos plantios de batata ocorrida em meados do século XIX, causou a morte de milhões de pessoas e é apontada como um dos principais motivos para a imigração massiva daquele povo para os Estados Unidos da América.

António Piedade