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segunda-feira, 6 de março de 2017

OS FÓSSEIS MAIS ANTIGOS DA VIDA

Crónica publicada na imprensa regional.

Filamentos e tubos de microfósseis encontrados no Canadá - Matthew Dodd

É atribuída ao filósofo alemão Martin Heidegger a frase “as origens escondem-se sob os começos”! Esta citação adequa-se à questão de sabermos quando é que a vida terá surgido no nosso planeta. É uma questão ainda sem resposta definitiva e assim poderá continuar por muito tempo. É que para sabermos quando é que as primeiras formas de vida unicelulares surgiram, é preciso encontrar registos fósseis dessa ocorrência. E isso é muito pouco provável. É muito difícil identificar e encontrar em rochas, com milhares de milhões de anos, fósseis de células delimitadas só por uma membrana lipídica. A vida primordial dificilmente deixou assinaturas directas da sua existência. A procura tem, assim, de ser indirecta.

Apesar dessa dificuldade, têm vindo a ser descobertas estruturas minerais designadas por estromatólitos, encontradas na Austrália Ocidental, na África do Sul e na Gronelândia, em rochas muito antigas com idades estimadas entre 3500 milhões e 3700 milhões de anos. Os cientistas propõem que esses estromatólitos são o resultado da actividade microbiana que acumulou grãos de metais como o ferro. Diga-se, apropriadamente, que estas estruturas são actualmente também encontradas em fontes hidrotermais ricas naquele metal, no fundo dos oceanos, resultado da actividade de bactérias conhecidas que usam ferro no seu metabolismo energético.

Afinal, a vida microbiana deixa uma impressão mineral da sua existência. Eis um caminho para a descoberta das primeiras formas de vida unicelular!

Na revista Nature desta semana foi publicado um artigo cujo primeiro autor é o biogeoquímico Matthew Dodd, da University College de Londres, que apresenta a descoberta de microfósseis em rochas cuja idade é estimada entre 3770 milhões e 4280 milhões de anos! Estes microfósseis, só visíveis ao microscópio, que estavam aprisionados entre camadas de quartzo, são formados por pequenos filamentos e tubos compostos por óxidos de ferro. Os microfósseis foram encontrados em rochas que se encontram mais precisamente na costa da Baía de Hudson a Nordeste do Quebeque, no Canadá. Os autores do artigo propõem que terão sido formados por microorganismos, pois não encontraram alguma explicação geológica para a sua formação.

Assim sendo, estes microfósseis constituem a evidência mais antiga até agora descoberta da existência de vida na Terra. O espantoso, é que isto implica que a vida terá surgido no nosso planeta só algumas centenas de milhões de anos depois da sua formação, há cerca de 4500 milhões de anos!

Outro aspecto, muito interessante e surpreendente desta descoberta, é o de que a presença de óxidos de ferro implica que nessa época remota já existisse suficiente oxigénio molecular livre para reagir com o ferro. É tentadora a hipótese de a origem desse oxigénio molecular ser produto da actividade dessas formas primevas de vida.

Contudo, a associação descrita neste artigo de vida microbiana a estas estruturas minerais precisa de ser comprovada por outros cientistas, de forma independente. É assim que a ciência funciona. E opiniões contrárias já foram emitidas por alguns cientistas que não participaram na descoberta. Por exemplo, Nicola McLoughlin, uma especialista em paleontobiologia da Universidade Rhodes, na África do Sul, que não participou do estudo, referiu à BBC News que "a morfologia desses supostos filamentos de ferro oxidado no norte do Canadá não é convincente” e não descarta propostas alternativas de origem geológica para a sua formação.

A ciência acende-se sob a luz da origem da vida!


António Piedade


segunda-feira, 11 de abril de 2011

CÉREBRO COM 2500 ANOS



Crónica semanal publicada no "Diário de Coimbra".

A palavra “fóssil” deriva do étimo latino fossilis que significa desenterrado ou extraído da terra. O que é que está enterrado? Restos ou vestígios de animais, plantas e outros seres vivos que remontam a épocas passadas e que aparecem conservados em depósitos sedimentares, rochas encontradas no contexto geológico que é a crosta terrestre e cuja formação foi contemporânea desses seres vivos. Esta premissa permite inferir da idade do fóssil.

Os fósseis constituem o objecto de estudo da ciência designada por paleontologia, disciplina científica a que se deve a maior parte do conhecimento factual sobre o passado e evolução da vida no planeta Terra. A sua actividade experimental não se limita a encontrar fósseis, o que pode ser feito por qualquer cidadão independente da sua formação. O paleontólogo contextualiza o fóssil no registo geológico da história do planeta, reconstitui e interpreta o ecossistema passado, permite o conhecimento dos processos através dos quais a vida interage com o envolvente e evolui.

A ideia generalizada da raridade dos fósseis é falsa e talvez alimentada pela mediatização pontual e enfatizada da descoberta de um fóssil específico, cuja descoberta contribui para a explicação de um elemento em falta. É um pouco como as colecções de cromos. É relativamente fácil encontrar e acumular cromos e rapidamente preencher a caderneta respectiva até à situação da falta de um conjunto pequeno de cromos, ditos raros. O entusiasmo e a notícia empolgada é assim alimentada pela ansiedade de encontrar os poucos cromos em falta e raramente festa é feita quando a caderneta fica preenchida o suficiente para se ter uma ideia global da constelação.

O processo de geração de um fóssil (outro aspecto de interesse da paleontologia) é um fenómeno comum associado à morte e mineralização de um dado organismo. Na realidade, têm sido encontrados fósseis dos mais variados seres vivos, mesmo aqueles que viveram há milhares de milhões de anos.

Dependendo das condições de fossilização, todas as partes dos seres vivos podem deixar registo fóssil, mesmo os componentes orgânicos mais delicados como sejam os tecidos moles. A maior parte das vezes, são outras formas de vida (animais, bactérias, etc.) que degradam e reciclam os restos constituintes de um determinado ser vivo impedindo assim que essas partes fossilizem. A alteração da constituição hídrica dos tecidos orgânicos altera também o registo fóssil em relação à realidade do ser vivo assim deixa testemunho.

Neste contexto, é de registar a descoberta de um cérebro praticamente inteiro no interior de um crânio humano com cerca de 2500 anos de idade (673 – 482 a.C. o resultado da datação por radiocarbono). A conservação do tecido cerebral encontrado, não sendo única, espanta exactamente pela raridade deste tipo de achados. O tecido cerebral é rapidamente degradado a não ser que disso seja inibido por qualquer processo de mumificação ou por condições específicas do seu enterro.


O cérebro pertenceu a um homem, com idade entre 26 e 45 anos, que terá sido enforcado e de seguida ritualmente decapitado. O crânio descoberto em 2008, em Heslington, no estado de York, no Reino Unido, foi estudado por uma equipa multidisciplinar liderada pelo arqueólogo britânico Mark Johnson. Os cientistas investigaram não só as condições singulares que permitiram a conservação do fragmento cerebral preservado desde a Idade do Ferro, mas também análises histológicas e biomoleculares. Foi possível determinar a constituição em aminoácidos, lípidos e proteínas especificamente do tecido nervoso (uma proteína proteolítica da mielina e outra específica dos oligodendrócitos).

Os resultados agora colocados online num artigo a publicar no Journal of Archaeological Science indicam que o crânio deve ter sido enterrado rapidamente numa cova com uma grande espessura de argila húmida, em condições de muito baixo nível de oxigénio, o que, juntamente com outras condições encontradas, pode ter contribuído para a preservação dos tecidos encefálicos.

António Piedade