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quarta-feira, 24 de novembro de 2010

CULTURA CIENTÍFICA NO MUSEU DA CIÊNCIA

Informação recebida do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra:



20 a 28 de Novembro 2010

Na Semana da Ciência e Tecnologia, a cultura científica terá lugar de destaque no Museu da Ciência da Universidade de Coimbra. Converse com cientistas, participe com a sua escola num jogo ou num atelier, conheça os laboratórios do IMAR, envolva a sua família e visite o Gabinete de Física e a Galeria de Zoologia ou participe numa acção de formação. Aproveite ainda para conhecer a exposição Ver a República, distribuída em três pólos: Museu da Ciência, Biblioteca Geral e Museu Nacional de Machado de Castro e visite, ainda, a exposição interactiva Bichinhos na água.

Muitas propostas para uma única semana cheia de ciência. Veja aqui.

CONFERÊNCIA
COLÓQUIO
ACÇÃO DE FORMAÇÃO PARA PAIS E PROFESSORES
ESPECIAL ESCOLAS
ESPECIAL FAMÍLIAS

CONFERÊNCIA
MATHEMATICAL SCULPTURE
George Hart, The Museum of Mathematics, New York
26 de Novembro | 16H30
Local: Gabinete de Física
Entrada livre
Em inglês, sem tradução
Parceria:
Bridges 2011

George Hart will present and discuss examples of his mathematically
informed sculptures, which generally apply computer technology in their
design and/or fabrication. These include works made of metal, wood,
plastic, or found objects, and often use laser-cutting, plasma-cutting
or additive freeform fabrication technologies in their realization.
Also shown will be brief videos of the assembly of some larger
commissions. Mathematical and computer science aspects of these designs
will be discussed.

COLÓQUIO
UNIVERSIDADE E EMPRESAS
25 de Novembro | 16H00-18H00
Entrada livre
Parceria:
ITGROW

No passado mês de Outubro, duas empresas portuguesas ( BPI e Critical Software) anunciavam a criação de um Agrupamento Complementar de Empresas (ITGROW) com o objectivo de aproximar jovens estudantes finalistas e recém diplomados do mundo empresarial.
Para celebrar a Semana da Cultura Científica, o Museu da Ciência organiza uma sessão durante a qual diversos ex-alunos da Universidade de Coimbra nos contarão acerca da sua experiência de passagem entre o mundo académico e o mundo das empresas, indicando quais as vantagens que pode trazer uma instituição que sirva de "sala de reuniões" onde academia e empresas possam ajudar os jovens diplomados a fazer com sucesso esta transição entre os dois mundos.

ACÇÃO DE FORMAÇÃO PARA PAIS E PROFESSORES
27 de Novembro | 16h00-17h00
ESCULTURAS POLIÉDRICAS
por George Hart, The Museum of Mathematics, New York
Em inglês sem tradução | Entrada livre
Marcação prévia para o email: geral@museudaciencia.org
Parceria:
Bridges 2011

This workshop consists of geometric constructions made out of paper and of CDs connected with cable ties. This activity is designed to be suitable for class room use, as a way to teach mathematical and structural ideas.
This type of projects provide students with experience exploring properties and relationships of two-dimensional and three-dimensional geometric figures. Furthermore, as team-building projects, these work well if assembled in groups of two or three students. That encourages collaboration and mathematical communication.

ESPECIAL ESCOLAS
CONVERSAS COM CIENTISTAS
23 e 26 de Novembro
Gratuito | Marcação prévia
Duas tardes para conhecer de perto o trabalho de alguns cientistas da Universidade de Coimbra.

23 de Novembro | CONVERSAS COM CIENTISTAS
16H00
BIODIVERSIDADE DE INVERTEBRADOS AQUÁTICOS
Maria João Feio | Instituto do Mar (IMAR-CMA)

17H00
BIODIVERSIDADE NUMA GOTA: AS MICROALGAS
Raquel Amaral | Departamento de Ciências da Vida, Universidade de Coimbra
Estas minúsculas algas habitam em quase todos os locais imagináveis, em apenas uma gota de um rio há centenas de espécies de microalgas. É um grupo de organismos tão diverso, que estimativas apontam para 800.000 espécies diferentes! Além de contribuírem com muito do oxigénio atmosférico e capturarem dióxido de carbono, produzem compostos que as tornam capazes de sobreviver nas mais variadas condições. Actualmente são encaradas como “fábricas” em miniatura, pois podemos aproveitar esses compostos e convertê-los em medicamentos, biodiesel, etc. Conservar estes organismos é fundamental e estudá-los é a chave para novas descobertas. Uma das maneiras de os guardar no laboratório é congelá-los a temperaturas de -200ºC!

26 de Novembro | CONVERSAS COM CIENTISTAS
16H00
FUNGOS: A BIODIVERSIDADE (QUASE SEMPRE) ESCONDIDA
Susana Gonçalves | Centro de Ecologia Funcional, Departamento de Ciências da Vida, Universidade de Coimbra
Os fungos são parte importante da biodiversidade na Terra e desempenham funções indispensáveis ao Homem. No entanto a importância dos fungos não é suficientemente reconhecida e raramente se pensa em protegê-los. Muitos deles não são sequer conhecidos ou não foram ainda bem estudados pelos cientistas. E como se pode proteger o que não se conhece? Afinal o que são fungos e quantos existem? O que fazem? Porque é importante preservar a sua diversidade? E como podemos contribuir? Venham daí, vamos conversar sobre isso!

17H00
A VIDA NAS ÁGUAS DAS MONTANHAS
Marcos Callisto | Universidade Federal de Minas Gerais
Em diferentes regiões do Planeta Terra temos nascentes de ribeiros em regiões montanhosas, com vegetação exuberante, águas puras e onde vivem inúmeras formas de vida, incluindo plantas, microrganismos, invertebrados, anfíbios, aves...
Na Serra da Lousã, próxima de Coimbra, a história de Portugal mantém nas Aldeias de Xisto a beleza de aldeias cercadas por uma vegetação exuberante, onde há inúmeros ribeiros. Nestes ribeiros temos águas de óptima qualidade e uma grande diversidade biológica de organismos vivos que se alimentam da matéria orgânica de folhas que caem na água, de partículas muito pequenas que são transportadas pela correnteza e que são alimento de
anfíbios, aves e pequenos mamíferos. Nas águas das montanhas da Serra da Lousã temos vida, água e sossego, um paraíso para investigadores em ecologia aquática interessados na conservação da biodiversidade.

VISITAS AOS LABORATÓRIOS DA UC
Os laboratórios do Instituto do Mar (IMAR)
26 de Novembro | 14h00-16h00 |
Duração 45m
Gratuito | Marcação prévia obrigatória

Vem visitar os bastidores da ciência que se faz em Portugal.

26 de Novembro
14h00-16h00 | Duração 45m
Os laboratórios do Instituto do Mar (IMAR)

ESPECIAL ESCOLAS
JOGO E ATELIERS SOBRE BIODIVERSIDADE
23 a 26 de Novembro
10h00-17h00 | Duração 1h
3,5 euros | Marcação prévia

JOGO
AMEAÇA OU PROTECÇÃO | 1º Ciclo (3.º e 4.º anos)

ATELIERS
MAL ME QUER OU BEM ME QUER? | Pré-escolar (3 aos 5 anos)
OINC, OINC! QUEM É? | Pré-escolar (3 aos 5 anos)
PERNAS PARA QUE VOS QUERO | Pré-escolar (5 anos), 1º Ciclo (1º E 2º anos)
ESCONDE-ESCONDE | 1º Ciclo
PINGUINS DO ANTÁRTICO | 1º Ciclo (3º e 4º anos) e 2º Ciclo
BALEIA-COMUM | 1º Ciclo (1º e 2º anos)
GOSTOS DA MINHOCA | 1º e 2º Ciclos
ÁGUIA-IMPERIAL | 1º e 2º Ciclos
COGUMELOS COM PINTAS | 1º Ciclo (1º e 2º anos)
SALMÃO-ATLÂNTICO | 1º Ciclo (3º e 4º anos) e 2º Ciclo
BÁCTERIAS BOAS E MÁS | 1º Ciclo (3º e 4º anos) e 2º Ciclo
DIZ-ME O QUE COMES, DIR-TE-EI COMO ÉS | 1º Ciclo (3º e 4º anos) e 2º Ciclo
PLANTAS COMILONAS | 2º Ciclo e 3º Ciclos (7º ano)
A BELEZA É FUNDAMENTAL? | 1º Ciclo (3º e 4º anos), 2º e 3º Ciclos (7º ano)
CADA MACACO NO SEU GALHO | 3º Ciclo

EXPOSIÇÃO INTERACTIVA BICHINHOS NA ÁGUA
23 a 28 de Novembro | 14h00-18h00
Local: Átrio do Museu da Ciência
Marcação prévia para escolas (a partir 1ºCiclo) Duração 1h
Entrada livre
Parceria:
Projecto Manuelzão, Brasil
Laboratório de Ecologia de Bentos, Brasil

O rio é um excelente laboratório ao ar livre onde se pode aprender muito sobre os seres vivos e a importância da água.
Nesta exposição interactiva, vem conhecer os pequenos invertebrados que vivem no fundo do rio e de que forma são afectados pela poluição.
Podes ainda descobrir o ciclo da água, e perceber por que motivo a água potável é um bem precioso.

ESPECIAL FAMÍLIAS
BIODIVERSIDADE na Galeria de Zoologia do Museu da Ciência
28 de Novembro | 10H00-13H00
Preçário geral do museu

- De pista em pista
- Sábados no Museu
- Ciência ao vivo para a família:
Cubos, octaedros e outros poliedros

BIODIVERSIDADE na Galeria de Zoologia do Museu da Ciência
28 de Novembro | 10H00-13H00
Desafia os teus pais para um dia diferente! Propomos-te que descubras a imensa Biodiversidade da galeria de Zoologia. Num jogo de pista em pista, tu e os teus pais poderão conhecer um pouco a história da origem do Gabinete de História Natural criado no século XVIII, e embarcar numa viagem sobre a diversidade animal que existe nos diferentes habitats e continentes do Planeta Terra. Nas seis salas da galeria poderão, por exemplo, ver o esqueleto do maior mamífero do mundo, os grandes predadores de África, compreender algumas estratégias de sobrevivência no mundo animal, entre outras coisas.

DE PISTA EM PISTA
28 de Novembro | 14h00-18h00
Desafia os teus pais para um dia diferente! De pista em pista, vem conhecer melhor a luz e a matéria e ver a exposição permanente do Museu da Ciência com outros olhos. Vais ver que vai ser muito divertido!
Preçário geral do museu

SÁBADOS NO MUSEU
MAL ME QUER OU BEM ME QUER?
20 de Novembro | 15h00-16h30
Era uma vez uma flor chamada Maria Papoila...
Vem conhecer a sua história e perceber porque é que as flores e as abelhas são tão amigas há milhares de anos.
Dos 3 aos 5 anos

CIRCUITO CURTO
27 de Novembro | 15h00-16h30
Como acender uma lâmpada? Com fios, pilhas e interruptores, desvenda alguns mistérios da electricidade.
A partir dos 6 anos

CIÊNCIA AO VIVO PARA A FAMÍLIA | CUBOS, OCTAEDROS E OUTROS POLIEDROS
por George Hart, The Museum of Mathematics, New York
27 de Novembro | 11h00-12h00
Preçário geral do museu | Marcação prévia

We will construct attractive geometric sculptures made out of paper simply by cutting out paper pieces and sliding them together.
A number of mathematical skills are developed, concerning geometric structure, coloring patterns, and concrete and mental visualization, providing good classroom activities for middle-school, high school, and college students.
This activity is designed to be suitable for class room use, as a way to learn mathematical and structural ideas with a group art construction.

Parceria:
Bridges 2011

sábado, 6 de novembro de 2010

OS LIVROS DE RÓMULO DE CARVALHO


Aproxima-se - é já a 24 de Novembro - outro aniversário de nascimento de Rómulo de Carvalho, o patrono do Dia Nacional da Cultura Científica. Recupero, por isso, um texto meu sobre os seus livros, que tanto admiro, saído no meu livro "Curiosidade Apaixonada" (Gradiva, 2005):

Para além da sua obra poética e de ficção (da pena de António Gedeão), Rómulo de Carvalho deixou-nos uma vasta e variada bibliografia ensaística, que inclui livros de divulgação científica, obras de história da ciência e manuais escolares. A primeira categoria engloba os livros da colecção “Ciência para Gente Nova” e os dois tomos de “Física para o Povo”, inicialmente editados pela falecida editora Atlântida, de Coimbra, e alguns dos quais foram reeditados pela editora Relógio d’Água, de Lisboa, na sua colecção “Ciência”. Inclui ainda os finos “Cadernos de Iniciação Científica” da Sá da Costa, que entretanto foram também reeditados pela Relógio d’Água num único volume. A segunda abrange um vasto número de títulos à volta da prática científica no Portugal do século XVIII, de que merecem destaque os três pequenos livros de resenha publicados pelo Instituto de Cultura e Língua Portuguesa “A Física Experimental em Portugal no Século XVIII”, “Astronomia em Portugal no século XVIII” e “A História Natural em Portugal no Século XVIII” (Rómulo escolheu para grande tema de estudo a ciência setecentista já que a ciência dos Descobrimentos tinha sido foco da atenção de outros autores e a ciência em Portugal do século XIX pouco mais foi do que inexistente). Merecem ainda referência especial a “História do Gabinete de Física da Universidade de Coimbra”, publicado pela Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, e os dois grandes volumes, um publicado nos últimos anos de vida e outro mesmo póstumo, “Actividades Científicas em Portugal no Século XVIII” (colecção de memórias da Academia de Ciências de Lisboa) e “Colectânea de Estudos Históricos” (estudos vários de história da ciência), ambos do prelo da Universidade de Évora. Por último, de entre os manuais escolares, quase todos em co-autoria e de qualidade não uniforme, merecem destaque os volumes “Ciências da Natureza” para o ciclo preparatório do ensino secundário. Como ensaios não classificáveis no esquema apresentado mas de grande fôlego refiram-se dois, relativamente tardios e ambas editados pelo Serviço de Educação da Fundação Calouste Gulbenkian, “História do Ensino em Portugal” e “O Texto Poético como Documento Social”. É obra!

Vejamos com mais pormenor cada um desses compartimentos bibliográficos.

- Livros de divulgação científica

Rómulo de Carvalho fez divulgação científica - e da melhor! - quando entre nós quase não havia divulgação científica. Embora as suas aulas, conta quem foi seu aluno, tenham ficado inolvidáveis, os livros aumentaram de maneira extraordinária o raio de acção do Professor. Houve quem quis ser cientista para saber os mistérios da física moderna que não apareciam nos manuais de física de antanho (ainda hoje quase não aparecem...) Para além de ter examinado alguns instrumentos baseados na ciência clássica, como o balão, Rómulo levantou a ponta do véu do pequeno átomo e do pequeníssimo núcleo no seu seio nos livros “História do Átomo”, “História da Radioactividade”, “História dos Isótopos” e “História da Energia Nuclear” da colecção “Ciência para Gente Nova”. É nítido logo a partir do título o valor pedagógico da história: a ciência é uma construção humana e aprende-se melhor se se conhecer o modo como ela se desenvolve. Nos livros do Mestre é claro ainda o primado da observação e da experiência: as coisas são como são porque alguém viu e experimentou, e nós, se formos suficientemente curiosos e hábeis, também podemos ver e experimentar. A linguagem, apesar de algo clássica, é sugestiva e motivadora, o que só se consegue por uma mistura da retórica e da imaginação que não está ao alcance dos escritores menores. Por isso, esses livros conservam a frescura inicial e, se o leitor os encontrar numa feira do livro de ocasião, considere-se feliz por os poder levar consigo para sua leitura privada.

A atitude experimental, que é inimiga da especulação gratuita e do preconceito falacioso, transparece também nos dois tomos de “Física para o Povo” a propósito dos fenómenos da física clássica (os dois tomos foram fundidos num só, na moderna edição da Relógio d’Água, intitulada “A Física no Dia-a-Dia”, com prefácio de José Mariano Gago e patrocínio do Instituto Camões e do Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro). Trata-se de uma prosa didáctica, escrita a pensar directamente no cidadão comum, a quem o autor gentilmente trata por “meu caro amigo”. Elucidativo sobre a omnipresença da ciência nas nossas vidas é o modo como são colocadas questões e dadas respostas sobre os mais fenómenos do nosso quotidiano. A Física não é uma actividade exótica mas tão só a tentativa de descrever e explicar o mundo onde vivemos. A “Física para o Povo” é um conjunto de aulas particulares, explicações, só para o “caro amigo”, o leitor que não quer ficar alheio ao mundo que o rodeia.

Finalmente, os “Cadernos de Iniciação Científica”, da Sá da Costa, que se destinam em primeira linha a jovens (a nova edição, da Relógio d’Água, junta todos os cadernos num só, prático, volume), “pretendem ser um meio de informação atraente, pela simplicidade da linguagem e pela apresentação gráfica, de conceitos fundamentais das ciências físicas” (do texto de apresentação da colecção). São, com os manuais escolares, os mais ilustrados dos livros de Rómulo, mas estes livrinhos, ao invés dos manuais, não querem seguir programas mas sim contar histórias, discutir ideias e prazentear leitores.

- Livros de história da ciência

Desde muito cedo Rómulo de Carvalho se interessou pela história da ciência em Portugal, nomeadamente o século XVIII. Os seus três livros da colecção Biblioteca Breve do Instituto de Cultura e Língua Portuguesa são inescapáveis a qualquer estudante que se queira iniciar na época iluminista em Portugal. Em Coimbra, trabalhou na catalogação do Gabinete de Física, hoje Museu de Física, e escreveu várias memórias sobre peças desse rico acervo. E deixou um volume notável “História do Gabinete de Física da Universidade de Coimbra”, onde, em mais de sete centenas de páginas de aspecto austero e salpicadas de gravuras antigas, se descrevem os preciosos instrumentos científicos da colecção do Museu de Física. Essa colecção, que hoje pode ser visitada “in situ remonta ao Colégio dos Nobres, em Lisboa. Foi Rómulo de Carvalho quem nos contou a “História do Colégio dos Nobres”, num volume da editora Atlântida muito anterior à “História do Gabinete...”. O actual catálogo do Museu (“O Engenho e a Arte”), que no essencial retoma o catálogo (“Les Mécanismes du Génie”) da exposição da Europália na Bélgica, seria impossível sem o trabalho meticuloso e paciente que Rómulo de Carvalho realizou no belo edifício pombalino quando ele ainda estava fechado à curiosidade e à admiração de todos. Também o Museu Maynense da Academia das Ciências deve muito (quase tudo) a Rómulo de Carvalho, que foi seu director. Dedicou a esse Museu e à Academia boa parte dos seus derradeiros anos, como é certificado pelo volume “Actividade Científica em Portugal no Século XVIII”, publicado em Évora por ocasião do doutoramento “honoris causa” concedido justamente pela universidade local. É especialmente útil para os estudiosos a bibliografia muito completa sobre a história da ciência em Portugal, que se encontra nesse volume.

- Manuais escolares

O lema dos compêndios “Ciências da Natureza”, que têm capas do conhecido “designerSebastião Rodrigues, vem logo na Introdução: “Atrás do aprender vem o saber, e o saber é uma riqueza que por mais que se use nunca se gasta”. O melhor elogio que se pode fazer a estes livros é que, por vezes, não parecem manuais escolares. Com efeito, se noutros manuais de Rómulo de Carvalho a sua prosa mais característica se encontra abafada, aqui ela solta-se, trazendo para o universo da escola a indagação e a curiosidade que muitas vezes estão apartadas dele por motivos inexplicáveis. Há quem testemunhe que Rómulo era um professor austero, difícil, autoritário. Estes compêndios mostram o contrário. Há um poeta escondido dentro do professor, e, se o rigor era seu apanágio, ele não aparecia dissociado do encantamento e da sedução que é uma marca dos verdadeiros poetas.

- Outros livros de ensaio

A História do Ensino em Portugal”, com o subtítulo “Desde a fundação da nacionalidade até ao fim do regime de Salazar-Caetano”, é uma obra verdadeiramente enciclopédica, contendo informação factual cuja “secura” é contrabalançada amiúde pelo comentário e opinião. O livro é obrigatório para todos os que se interessam pelo ensino em Portugal. O ensino de hoje é, afinal, resultado de um passado feito de mil incidentes e circunstâncias que não podem ser ignorados se o queremos compreender e, acima de tudo, modificar. Rómulo de Carvalho não foi apenas um dos nossos maiores pedagogos mas também um dos maiores estudiosos da nossa pedagogia.

O “Texto Poético como Documento Social”, ensaio sobre a poesia como arma de documento e crítica, termina, tal como “A História do Ensino em Portugal”, com a revolução de 25 de Abril de 1974. Apesar de lhe ter sobrevivido 23 anos, Rómulo de Carvalho foi, por natural formação, um homem marcado pelo tempo anterior, um homem com uma revolta intelectual algo contida que apenas extravasava em textos poéticos de clara revolta social. Em “O Texto Poético...” procurou dissecar esse poder oculto da poesia que é o poder de transformar o mundo.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Sobre a cultura científica


Parte de uma entrevista que dei a um estudante da Faculdade de Letras de Coimbra, que :

P- Que características definem o conceito de cultura científica em Portugal?

R- A ciência é universal e o conceito de “cultura científica” é o mesmo aqui e em qualquer parte do mundo: a expressão refere-se à parte da vasta cultura humana que tem a ver mais de perto com o empreendimento científico, que de uma forma muito resumida pode ser entendido como a aquisição de conhecimento sobre o mundo. Afirmar que a “ciência é parte da cultura” é ultrapassar a famosa questão das “duas culturas”, a literária e a científica, que C.P. Snow colocou em 1959. Não há duas culturas, mas uma só, sendo a ciência parte inalienável dela. A posse de cultura científica é hoje considerada uma condição de cidadania, isto é, de pertença à sociedade. Mas pergunta-me por Portugal. O nosso país caracteriza-se por uma cultura científica ainda pouco generalizada, resultado de um atraso no cultivo da ciência e na disseminação dela aos cidadãos. Precisamos de mais cultura científica de modo a evitar que, entre nós, muita gente pense que a ciência e a cultura estão divorciadas.

P- Quais os principais elementos que diferenciam a cultura cientifica de outras variantes da cultura?

R- Uma das marcas maiores da ciência é o reconhecimento do erro. Ora, se um resultado científico pode estar errado, julgo que nunca se poderá dizer o mesmo de uma obra de arte. Os critérios de validação da ciência – principalmente o uso do raciocínio lógico e a concordância com a observação ou a experiência - são decerto diferentes dos de outras actividades humanas. Apesar disso, outras áreas da cultura, por muito distintas que sejam da ciência, podem e devem cruzar-se com ela, para enriquecimento mútuo. As artes em geral, que a generalidade dos cidadãos associa mais rapidamente à cultura, constituem uma dessas áreas, abrangendo subáreas como a literatura, as artes plásticas, as artes de palco, etc. Cada vez mais se tem assistido à intersecção da cultura artística com a cultura científica: por exemplo, obras de arte buscam inspiração na ciência e a ciência reinvindica o uso de elementos ou critérios estéticos. Julgo que nessa aproximação não há qualquer risco de confusão ou sincretismo. Um cientista precisa de ter imaginação, mas a sua imaginação não pode ser tão livre como a do artista, tem de estar contida na “camisa de forças” que é a realidade.

P- Como qualifica o actual estado da cultura científica em Portugal?

R- Melhorou muito nos últimos anos, com o investimento enorme que houve na ciência e na sua difusão pública no último quarto de século. Mas o ponto de partida era muito baixo. Assim, há inquéritos internacionais recentes de sociologia da ciência que mostram que os portugueses têm na sua relação com a ciência dificuldades maiores do que as de outros povos europeus. Se muito foi feito, muito há ainda a fazer neste domínio.

P- O que acha que pode ser feito para melhorar a aprendizagem das ciências e a divulgação de cultura científica em Portugal?

R- O ensino da ciência deve ser feito em larga medida na escola e aí tem residido a nossa mais importante falha. O ensino formal da ciência, como é revelado por indicadores internos (resultados dos exames de disciplinas científicas) e por comparações internacionais (PISA e TIMMS), não tem revelado progressos satisfatórios. Ora essa situação não pode ser inteiramente colmatada por via do ensino informal da ciência que sempre se efectua quando há divulgação da cultura científica (através dos média, dos museus e centros de ciência, etc.). Arriscaria dizer que, nos últimos anos, progredimos mais no ensino informal do que no ensino formal da ciência, mas o progresso tanto de um modo como doutro não foi suficiente. Importa, por isso, enfrentar em particular o problema da ciência na escola, começando, na minha opinião, o mais cedo possível. O recurso à experimentação no ensino básico (e, antes disso, mesmo no jardim-escola) é uma via que nos falta percorrer de uma forma mais convicta e eficaz. Para isso, é mister formar mais adequadamente professores desse nível de ensino, melhorar currículos e fornecer bons materiais. Claro que, ao fazer isto na escola, tem de se continuar a fazer tudo aquilo o que já se faz fora da escola, como acontece nas actividades do Ciência Viva, e sempre que possível em coligação com a escola.

P- Qual é o papel do governo na divulgação do conhecimento e da cultura científica?

R- A causa da ciência e da cultura científica é uma causa pública. Diz, portanto, respeito ao governo no qual, em democracia, delegamos a organização da escola pública e dos meios públicos de promoção da cultura científica. Sem investimento público não podemos esperar que a ciência cresça e a cultura científica avance. É também para isso que pagamos os nossos impostos e participamos em eleições. Mas essa delegação não nos isenta das nossas responsabilidades. A causa da ciência diz respeito às empresas e outras instituições privadas, assim como, em geral, aos cidadãos, na medida dos seus saberes e possibilidades. Parte substancial do investimento em ciência e cultura científica deve ser não governamental. Nas sociedades mais avançadas as empresas e os cidadãos dispõem de amplo espaço de iniciativa e podem envidar esforços que se somam ao esforço dos governos. Apesar de alguma aproximação no passado mais recente, Portugal não alcançou ainda um estádio de desenvolvimento suficiente para que o investimento privado na ciência exceda largamente o público, como acontece por exemplo nos países do Norte da Europa.

P- Qual foi o impulso dado à cultura científica pelo programa Ciência Viva?

R- A Agência Ciência Viva tem concretizado vários projectos, que confluem todos eles na defesa e alargamento da cultura científica. Sem o Ciência Viva estaríamos muito piores. Foi uma das boas ideias que frutificaram entre nós nos últimos tempos e só espero que continue o bom trabalho que tem realizado. Em Coimbra, temos desde há pouco tempo o Centro Ciência Viva Rómulo de Carvalho a funcionar em pleno, em homenagem ao grande poeta e divulgador de ciência.

P- Qual foi o papel da “Física Divertida” no panorama nacional da divulgação científica?

R- “Física Divertida” é um livro que escrevi em 1991 e que teve uma sequela, há três anos, com “Nova Física Divertida”. Nesses livros apenas pretendi contar algumas histórias da física, clássica primeira e moderna depois, de uma maneira compreensível para um público alargado, na tradição de outros livros de divulgação científica. Se o consegui ou não, não sei. Não posso ser juiz em causa própria.

P- Acha que existe um público alvo para a cultura científica, ou assimilação desta é universal e acessível a todas as faixas etárias e classes sociais?

R- A cultura científica deve ser de todos. Em particular, é para todas as idades, e é tanto para pobres como para ricos. Claro que os mais jovens estão numa fase da vida mais particularmente susceptível à aprendizagem, na fase em que frequentam a escola. E claro que os pobres ficarão ainda mais pobres se, na escola e fora dela, não lhes for proporcionada a cultura científica. Deve haver uma atenção especial tanto para os mais jovens como para os mais pobres.

P- À luz do conhecimento cientifico hoje existente, e considerando que o progresso é imparável, quais são os limites impostos à ciência pela ética?

R- A ciência tem de ser acompanhada por consciência, isto é, não pode desenvolver-se sem a ética. Pode-se fazer muita coisa na investigação científica, mas nem tudo se deverá fazer. Os limites devem ser impostos não apenas pelos próprios cientistas, mas pela sociedade em geral. Esses limites têm de ser continuamente pensados e redefinidos.

P- Se alguém lhe dissesse que é possível alcançar a verdade absoluta que resposta daria?

R- É possível, de facto, alcançar o conhecimento, como mostra toda a história da ciência. Quanto à “verdade absoluta”, não sei o que é isso. A ciência é cumulativa, isto é, cada vez se sabe mais e o que se sabe de novo não prejudica tudo o que se sabe, mas apenas uma pequena parte. Como este processo tem sido contínuo, é difícil defender, em ciência, o conceito de “verdade absoluta”. Mas é perigoso cair na contingência e no relativismo: há conhecimentos que foram adquiridos e que não vão mudar, como, por exemplo, a Terra é o terceiro planeta mais distante do Sol, que o nosso corpo é feito de células, etc.

terça-feira, 22 de junho de 2010

POR UM NOVO MUSEU DE CIÊNCIA DA UNIVERSIDADE DE LISBOA


Está hoje em discussão o futuro dos Museus da Politécnica da Universidade de Lisboa. Sem querer "meter a foice em seara alheia", dou, tal como me foi pedido, a minha contribuição, como cidadão interessado pela cultura científica:

1. Os actuais “Museus da Politécnica” da Universidade de Lisboa, juntamente com o Jardim Botânico a eles anexo, ocupam um espaço nobre e histórico da cidade de Lisboa e albergam um notável património científico que importa sobremaneira cuidar, valorizar e promover. Um grande projecto científico-cultural que envolvesse a universidade e a cidade deveria proporcionar um novo centro de atracção na capital. Por outro lado, é uma oportunidade para a Universidade e para o país de tratar de modo profissional todo os eu património científico (incluindo espólio de medicina e astronomia que está noutros sítios, e que corresponde a um legado de importantes actividades científicas nos séculos XIX e XX). Acima de tudo, representa uma oportunidade de a Universidade se abrir ainda mais à cidade, ao país e ao mundo, promovendo a cultura científica para o maior número possível de cidadãos

2. A actual situação, com dois museus em larga medida divorciados um do outro, é insustentável. Ao défice de uma estratégia conjunta e à não optimização dos custos de gestão e “marketing”, acresce o facto de se revelar confuso para o visitante o actual trajecto dentro do espaço. Fez bem, portanto, a Comissão Internacional que apresentou um relatório sobre os museus em propor a constituição de um único Museu de Ciência. Caminhar nessa direcção representaria não só uma sinergia de esforços mas também uma economia de investimento. E significaria desistir de uma tradição de isolamento das várias áreas disciplinares, que é feita tendo em atenção interesses particulares e não o interesse geral do público. A moderna ciência é, de resto, altamente interdisciplinar.

3. O novo museu exige uma refundação que pressupõe um novo nome (procurando, por exemplo, um patrono num dos nomes históricos da ciência em Portugal: Pedro Nunes, Garcia da Horta, Domingos Vandelli, Egas Moniz?) e um novo programa, que deve ser procurado de um modo o mais colectivo possível. Não é curial que o novo Museu seja desde já baptizado com o nome de um dos dois museus actualmente coligados sob a designação de “Museus da Politécnica”. Não andou bem, por isso, a referida Comissão ao propor o nome de “Museu Nacional de História Natural” para o novo Museu. Se se tivesse de escolher uma das actuais, “Museu de Ciência” seria uma designação mais abrangente do que História Natural pois esta faz parte da Ciência e não vice-versa. A concretização desta proposta da Comissão levaria provavelmente à exacerbação de tensões internas em vez de ajudar na indispensável colaboração dos vários sectores disciplinares no projecto, para além da perda, sem honra nem glória, do actual Museu de Ciência. Além disso, as colecções de História Natural existentes em Lisboa, apesar do seu indubitável valor, não justificam essa designação (o último incêndio foi uma catástrofe!). Por último, a escolha do nome sugerido conduziria à desvalorização ou eventualmente exclusão do magnífico Laboratório Químico e do notável Observatório Astronómico, cuja ligação à História Natural só dificilmente é justificável.

4. Existindo outras Universidades portuguesas (Coimbra e Porto) com espólios científicos do mesmo tipo, impõe-se, num país pequeno, de escassos recursos e ainda por cima numa situação de crise, que haja uma colaboração eficaz entre elas, numa estrutura em rede, quer no trabalho técnico de organização e mostra, tanto real como virtual, das colecções, quer ainda na permuta de exposições temporárias ou, pelo menos, de instrumentos, objectos e documentos a incluir nestas. É bom que as escolas superiores com maiores tradições convirjam na defesa de cultura científica. A ligação entre Lisboa e Coimbra, em particular, devia ser reforçada, atendendo até à história comum (Museu da Ajuda devido a Vandelli, Gabinete de Física em Coimbra com origem no Colégio dos Nobres, etc.) A reivindicação junto do governo da nação – que, infelizmente, tem olvidado quase por completo o património científico – de condições de trabalho adequadas poderia e deveria ser conjunta, aumentando com isso a sua probabilidade de êxito. Programas específicos de apoio deveriam contemplar de modo diferenciado o que é específico nas instituições de ensino superior, complementando algoritmos de distribuição orçamental baseados quase só no número de alunos. Essa reivindicação não deve fazer esquecer a angariação de apoios que tem de ser feita junto da sociedade em geral. A sociedade, para ter memória e identidade, necessita da preservação e exibição em condições adequadas do património científico. E este necessita, decerto, de toda a ajuda que a sociedade lhe puder dar.

terça-feira, 1 de junho de 2010

O FIM DAS HUMANIDADES? (1)

Novo post de Eugénio Lisboa:

Por todo o lado – e não só em Portugal – se começa a murmurar e até mesmo a proclamar em voz alta e indiciadora de algum pânico o fim dos estudos humanísticos, alegadamente cilindrados pela proeminência devastadora da cultura científica que, primeiro lentamente, depois em aceleração assustadora, se tem vindo a impor e a tomar conta do palco nos teatros do mundo. Como é de regra, também nesta história, não há culpados, de um lado, e inocentes, do outro. As culpas distribuem-se cartesianamente bem pelos dois lados e alguma inocência também. Quando, em 1959, C. P. Snow lançou o grito de alarme, com o seu célebre ensaio sobre As Duas Culturas, embora não estivesse a dizer nada de novo, levantou ondas de aplauso sonoro, simultaneamente com gritos de indignação e mesmo, nalguns casos, com feios exemplos de vitupério e de vitríolo. A reacção do célebre académico de Cambridge, F. R. Leavis, considerado pelos britânicos como o maior crítico literário do nosso tempo, ultrapassou, em violência e desaforo, tudo quanto a tradicional cautela universitária tem por costume aconselhar. Reacções destas não pareciam sugerir – como visara Snow – a futura construção de pontes que ligassem a cultura humanística à cultura científica. O bioquímico Michael Yudkin, aludindo à controvérsia e entrando nela em cheio, fazia uma lúgubre profecia, nestes termos: “Há, infelizmente, dúzias de culturas no uso que Sir Charles faz do termo, mesmo que o fosso entre o cientista e o não-cientista seja provavelmente o maior... Não haverá [no futuro] construção de pontes através desse fosso, não aparecerão modernos Leonardos, não haverá migração de cientistas para a literatura. Em vez disso, verificar-se-á a atrofia da cultura tradicional e uma gradual anexação feita pelo científico – anexação não de território mas de homens. Talvez não passe muito tempo até se chegar a uma cultura única que vai ficar.”

Nada disto fora a intenção de Sir Charles Snow, ao escrever o ensaio sobre As Duas Culturas. Num texto que publicou quatro anos depois (1963), Snow confessa, com alguma candura, que não esperava muito, em termos de reacção ao seu livro: “Não esperava grande coisa”, observa ele na adenda intitulada "Two Cultures: A Second Look”. E acrescentava: “Muita gente andava a dizer coisas semelhantes. Pareceu-me que era tempo de se falar a uma só voz.” Nesta mesma adenda, ele resume, deste modo, a modesta intenção do seu ensaio, que tanto ruído viria a produzir: “Na nossa sociedade (isto é, na sociedade avançada do ocidente) perdemos a mais ínfima pretensão a uma cultura comum. Pessoas educadas com a mais elevada intensidade sabe-se que deixaram de saber comunicar umas com as outras no plano das suas maiores preocupações intelectuais. Isto é grave para a nossa vida criativa e intelectual e ainda mais grave para a nossa vida normal.” E dizia ainda: “Dei o mais agudo exemplo desta falta de comunicação sob a forma de dois grupos de pessoas que representavam o que eu baptizei de ´as duas culturas´. Um destes grupos incluía os cientistas, cujo peso, realização e influência não precisam de ser realçados. O outro grupo continha os intelectuais da literatura. Entre estes dois grupos – os cientistas e os intelectuais da literatura – existe pouca comunicação e, em vez de um sentimento de companheirismo, verifica-se algo de muito parecido com hostilidade.” Snow acrescenta ainda, com alguma melancolia, que pretendera, com o seu ensaio, descrever apenas com alguma grosseira aproximação, um estado de coisas – o fosso entre duas culturas -, fosso esse que detestava. Para sua surpresa, verificou que alguns comentadores presumiram que ele o aprovava.

Esta “desaproximação” entre estes dois universos vinha de longe. Já os pensadores gregos do período romano, nota Asimov com alguma ironia, no seu utilíssimo New Guide to Science, se “viram cada vez mais arrastados para os subtis prazeres da filosofia moral e para longe da aparente esterilidade da filosofia natural”. E acrescentava: “O cristianismo , com a sua ênfase na natureza de Deus e da sua relação com o homem, introduziu uma dimensão inteiramente nova no tema da filosofia moral, que aumentou a sua superioridade aparente enquanto trabalho intelectual, relativamente à filosofia natural. Entre 200 d.C. e 1200 d.C. os europeus preocuparam-se quase exclusivamente com a filosofia moral, em particular com a teologia. A filosofia natural [isto é, a ciência) foi quase esquecida.”

Deve-se aos árabes a preservação de Aristóteles e Ptolomeu – arautos da filosofia natural, mesmo com os seus erros colossais – e foi, graças a isto, escreve ainda Asimov, que “as principais figuras do Renascimento deslocaram o centro do interesse das matérias relativas a Deus para as obras da humanidade” e, por isso, estas foram designadas de “humanistas”. Os grandes cientistas do Renascimento acabaram por virar resolutamente as costas aos preconceitos típicos dos pensadores gregos, mesmo dos grandes, os quais veneravam sobretudo a “perfeição”, a “beleza” do método dedutivo e não a menor esbelteza ou elegância do indutivo. Para os gregos, confirmar uma teoria pelo processo “grosseiro” da experimentação e da verificação estava fora do seu horizonte. Asimov nota, com ironia perversa, que “não se sabe se Aristóteles alguma vez deixou cair duas pedras de peso diferente a fim de verificar o seu pressuposto de que a velocidade da queda é proporcional ao peso do objecto.” E Bertrand Russell observaria, com a sua acutilância felina, que Aristóteles poderia ter evitado afirmar que as mulheres têm menos dentes do que os homens, pelo processo expedito de pedir à Sra. Aristóteles que abrisse a boca. Galileu, no Renascimento, pediu vénia ao grande filósofo grego e foi, ainda assim, verificar, com dois objectos de peso diferente, que a afirmação milenar do grande filósofo era falsa: o peso do objecto que cai não tem qualquer influência na aceleração do movimento. Citando de novo Asimov, “verificar uma teoria perfeita usando instrumentos imperfeitos não impressionava os filósofos gregos como modo válido de obter conhecimento.” Era por causa deste amor à esbelteza do conhecimento dedutivo que os astrónomos andaram mais de mil anos a dizer que os movimentos dos astros em torno de outros astros se faziam percorrendo circunferências porque, sendo a circunferência uma curva perfeita e, nos céus, por ali não haver corrupção, só haveria lugar para a perfeição, o movimento de um astro em torno de outro astro teria que obedecer a esse mandato de perfeição. Mesmo quando a observação directa e o registo implacável dos factos recomendavam a elipse, alguns grandes astrónomos, como Copérnico, já em pleno Renascimento, obstinavam-se na circunferência preferindo duvidar dos factos da observação e privilegiar o apetite de elegância. Mas foi a partir do século XVI que o cientista passou a usar o método indutivo como “processo essencial de obter conhecimento”. Galileu, Tycho Brahe e Kepler abriram o caminho à monumental construção de Newton, que são as suas três simples e elegantes leis do movimento: simples e elegantes mas verdadeiras porque verificáveis experimentalmente e não verdadeiras por serem simples e belas... Newton, porventura o maior cientista de todos os tempos, foi idolatrado e a eminência do seu feito veio a constituir-se num potente motor de arranque para a extraordinária evolução que a ciência experimentou a partir dele. Mas foi, sobretudo, a partir da Segunda Guerra Mundial, que se começou a assistir a uma aceleração estonteante no progresso da investigação científica em todos os campos. Na física, na química, na astronomia, na biologia, na medicina. Em alargamento e em profundidade, aprende-se hoje mais em cinco anos do que se aprendia antes em dois milénios. Um aluno do secundário sabe hoje mais do que sabia Newton ou Galileu. E, com isto, vai-se criando, no domínio da ciência, uma linguagem cada vez mais opaca para o leigo nestas matérias. Como nota Asimov, no precioso livro que já citei: “As publicações de cientistas relativas ao seu trabalho individual nunca foram tão copiosas – e tão ilegíveis para toda a gente excepto os especialistas dos mesmos ramos. Isto transformou-se num prejuízo para a própria ciência, pois os avanços básicos do conhecimento científico decorrem muitas vezes da fertilização de conhecimentos entre diferentes especialidades.” E acrescenta: “Ainda pior, a ciência perdeu cada vez mais o contacto com os não cientistas. Nestas circunstâncias, os cientistas acabaram por ser vistos quase como mágicos – mais temidos que admirados. E a impressão de que a ciência é uma magia incompreensível, apenas compreendida por alguns escolhidos que são suspeitamente diferentes da humanidade normal, tende a afastar muitos jovens da ciência.”

Eugénio Lisboa
(CONTINUA)