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quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Dia Internacional da Memória

Nota prévia: Os meus cumprimentos a todos os leitores. Para primeira publicação no blogue, achei pertinente apresentar-me. Faço-o de corpo inteiro, com um video. 

Declaro o dia de hoje, unilateralmente, Dia Internacional da Memória.

Há precisamente um ano atrás, nesse dia, estreou em Coimbra, no Centro de Neurociências e Biologia Celular, a peça da marionet 'MIM - My Inner Mind', tendo por temas centrais o cérebro, a memória e o esquecimento.

O público deambulava pelos corredores e salas daquele centro de investigação, participava num conjunto de cenas que por aí iam sucedendo, e era convidado a usar o telemóvel ou outros dispositivos de gravação para captar imagens dessa experiência.

Este video é uma montagem, incluindo algumas dessas gravações, de uma das cenas da peça intitulada "Um dia fez-se luz na minha cabeça."

Um bom Dia Internacional da Memória para todos, com boas recordações!


quarta-feira, 10 de outubro de 2012

APRENDIZAGEM COM BASE NA RECUPERAÇÃO

Organizada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, realizou-se hoje na Faculdade de Psicologia e de Ciências das Educação da Universidade de Coimbra uma conferência intitulada Avaliação dos alunos.

A primeira intervenção nessa conferência foi feita por Jeffrey D. Karpicke, investigador principal do Laboratório de Cognição da Aprendizagem da Universidade de Purdue, Estados Unidos da América. Na linha de trabalho de autores como R.E. Mayer e de H.L. Roediger, este psicólogo interessa-se pelo estudo duma questão relativamente nova mas já entendida como de grande importância em matéria de avaliação académica: a contribuição desta avaliação para a própria aprendizagem.

Assim, às funções clássicas da avaliação académica (diagnóstica, formativa e sumativa), vocacionadas para a verificação da aprendizagem, pode e deve adicionar-se-lhe a função de suporte à aprendizagem, dada a mobilização que, quando devidamente usada, faz dos processos de memória. Processos que são, no quadro das teorias cognitivistas, entendidos como fundamentais na aprendizagem que se designa por activa e significativa.

A dita intervenção, que está disponível na internet (a indicar aqui logo que possível) e em livro, tem por título Aprendizagem com base na recuperação: a recuperação activa promove uma aprendizagem significativa e começa assim:
"Embora não lhe seja conferido o papel central que merece, a recuperação é o processo-chave para perceber a aprendizagem e promovê-la. A aprendizagem é tipicamente identificada com a codificação ou construção de conhecimento, e a recuperação é considerada como uma mera avaliação de uma aprendizagem adquirida em experiência anterior. A aprendizagem baseada na recuperação como é aqui gizada baseia-se no facto de todas as expressões de conhecimento envolverem recuperação e dependerem dessa recuperação de pistas disponíveis num contexto particular. Além disso, cada vez que alguém recupera conhecimento, esse conhecimento é modificado, pois recorrer à recuperação melhora a capacidade de recuperar novo conhecimento no futuro. Praticar a recuperação não produz uma aprendizagem rotineira e momentânea; produz uma aprendizagem significativa e de longo prazo. No entanto, a prática da recuperação é uma ferramenta que muitos estudantes, cuja consciência metacognitiva desconhecem, não utilizam tantas vezes como deveriam. A recuperação activa é uma estratégica efectiva mas subvalorizada para promover uma aprendizagem significativa. 
Para entender a aprendizagem é essencial perceber os processos envolvidos em recuperar e reconstruir o conhecimento. Podemos pensar que sabemos algo, que as nossas mentes contêm ou possuem algum conhecimento, mas a única forma de examinar o conhecimento é envolver-se no acto de recuperação. As diferenças na capacidade de recuperar conhecimento poderão não advir não do que está «armazenado» nas nossas mentes, mas sim de diferenças nas pistas de recuperação que estão disponíveis em contextos particulares. Dada a importância fundamental da recuperação para entender a aprendizagem, é surpreendente que os processos de recuperação não tenham recebido mais atenção na pesquisa educacional. Podemos verificar que, ao longo da década passada, muitas obras influentes do National Research Council.
Para entender a aprendizagem é essencial perceber os processos envolvidos em recuperar e reconstruir o conhecimento. Podemos pensar que sabemos algo, que as nossas mentes contêm ou possuem algum conhecimento, mas a única forma de examinar o conhecimento é envolver-se no acto de recuperação. As diferenças na capacidade de recuperar conhecimento poderão não advir não do que está «armazenado» nas nossas mentes, mas sim de diferenças nas pistas de recuperação que estão disponíveis em contextos particulares. Dada a importância fundamental da recuperação para entender a aprendizagem, é surpreendente que os processos de recuperação não tenham recebido mais atenção na pesquisa educacional."

terça-feira, 20 de março de 2012

Livros com química: a memória, o sono e o sonho

A propósito da Semana Internacional do Cérebro, e ainda com base na palestra Livros com Química, recordo alguns livros que nos podem conduzir à química da memória, sono e sonho.

O livro Cem anos de Solidão de Gabriel Garcia Marques, escrito em 1967, começa da seguinte forma:

Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendia havia de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou para conhecer o gelo.

Não é dito se o gelo que trazem os ciganos foi ou não obtido de forma artificial, embora muito provavelmente não tenha sido. A produção artificial de gelo só pôde começar a ser realizada em larga escala com os estudos termodinâmicos sobre a expansão dos gases. E, embora lá pelo meio do livro, alguns dos filhos do coronel acabem por ter uma fábrica de gelo, não temos pormenores sobre esta no livro. Também no início do livro, o cigano Melquíades traz utensílios para a construção de um laboratório rudimentar de alquimia e, ao longo da narrativa, este laboratório, assim como alguns resultados alquímicos, vão reaparecendo. Porque se lembrou daquele momento da sua infância o Coronel? A química da criação das memórias e do seu apagamento vai começando agora a ser desvendada. Se a impressão e a atenção que devotamos a um assunto ou situação são importantes, uma proteína conhecida como CREB e um neurotransmissor, a anandamina, parecem ter um papel importante no mecanismo bioquímico de fixação e apagamento das memórias.

É muito curioso, numa dada altura da história, o surgimento da peste da insónia, uma doença de realidade fantástica, que leva à perda da memória. Para evitar o esquecimento, colocam-se etiquetas com os nomes nas coisas, depois completadas com instruções de funcionamento. Por exemplo, isto é uma vaca, tem de se ordenhar. No meio de Macondo coloca-se a placa Deus existe. É feita uma máquina que permite recapitular todos os dias todos os conhecimentos, mas o poder do esquecimento é enorme. Os que queriam dormir, não por cansaço, mas por saudades dos sonhos, recorriam a todo o tipo de métodos de esgotamento. Esta parte do livro, leva-nos através do realismo mágico do autor, às questões do sono, da memória e do sonho. Por que dormimos e sonhamos? Qual é a relação entre o sono e a memória?

A química do sono e dos sonhos é fascinante e tem, na verdade, alguma relação com a memória. A adenosina tem um papel importante em lembrar que está na hora de dormir, embora pareçam existir vários mecanismos cerebrais responsáveis pelo sono. Durante o sono são produzidas menores quantidades dos neurotransmissores serotonina e norepinefrina e os processos nervosos são controlados essencialmente pela acetilcolina, a qual está na origem dos sonhos. Finalmente, o sono parece ser muito importante na formação das memórias e tanto o excesso como a baixa de acetilcolina parecem ter reflexos negativos nesta.

Ao longo do livro encontramos também vários venenos e remédios: noz-vómica, acónito, arsénico, etc. E as compressas de arnica revelam ser um remédio universal para as inflamações. Vamos encontrar este remédio também n'Os Maias de Eça de Queiroz (uma obra de que falaremos noutra altura) no episódio tragicómico que imagina Ega sobre a violência doméstica, seguida de reconciliação dos Cohen. Não nos surpreende que Ega possa imaginar e visualizar cenas que não está a ver ou nunca viu, porque fazemos coisas idênticas a todo o momento mas, se pararmos um pouco para pensar, trata-se de uma coisa verdadeiramente notável, cuja química não deve ser muito diferente da que está envolvida nos sonhos e memória.

Mas voltando aos sonhos. Um dos livros mais influentes de Freud é a Interpretação dos Sonhos. Freud, que começou a sua carreira na química, passou para a zoologia e finalmente chegou à medicina, em muitos aspectos estava errado como têm demonstrado a neurofisiologia e a neuroquímica, e, nas suas experiências, estava muitas vezes mais próximo do Dr. Jekyll de Stevenson que de um cientista moderno. De qualquer forma, dado o seu primeiro interesse científico, não é de estranhar que haja bastantes referências à química e a produtos químicos nesse livro. Curiosamente, um dos sonhos do livro é o do jovem químico que quer livrar-se do que considera ser um vício desagradável, tentando alterar o seu comportamento social. Este sonha com um determinado tipo de reacções químicas, depois de um aluno ter tido um acidente no laboratório. Freud associa e interpreta todos estes dados de uma forma bastante criativa, vingando-se assim, quem sabe, de uma forma verdadeiramente freudiana do seu amor juvenil não correspondido pela química, algo que Freud não parece ter esquecido tão facilmente como as cartas para pessoas de quem não gostava.

Se esquecer algo pode ser mau, nunca esquecer pode ser muito pior. Em Funes o memorioso, um conto de Jorge Luis Borges, a questão do apagamento da memória revela-se de uma forma trágica, mostrando a importância fundamental do esquecimento. Funes memoriza todos os pormenores de tudo e não consegue esquecer nada. A sua memória acaba por ser, diz, uma lixeira. Para não sermos como Funes, temos a CREB e a anandamina para memorizar e esquecer, adormecemos com a adenosina e sonhamos com a dose certa de acetilcolina. E, como é óbvio, os mecanismos do sono, sonho e memória são muito mais complexos do que parecem aqui e há, com certeza, muitas coisas que ainda não sabemos sobre a química do cérebro.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Andringa e o campo da Morte Lenta


Ontem estive numa sessão onde se falou de jornalismo, a propósito do documentário "Tarrafal" de Diana Andringa. Muito interessante o documentário.

Vale a pena ver com atenção. Aprendi com uma mulher muito interessante que fala pelos cotovelos, talvez porque tem tantas coisas para contar. Uma jornalista séria, com opinião e que aponta questões muito importantes.

O documentário fala do Tarrafal, um campo de concentração criado pelo Estado Novo em 1936 (29 de Outubro) com o objectivo de receber presos políticos e todos aqueles que se recusam a submeter-se. O Tarrafal foi construído para humilhar, e nisso foi muito bem sucedido. Como dizia Esmeraldo Pais de Prata, o primeiro médico do Tarrafal, quando entrou no campo pela primeira vez "não estou aqui para curar, mas para passar certidões de óbito".

Do documentário e das palavras da Diana Andringa, retive várias coisas:

1. O jornalismo e o documentário (como forma de jornalismo com opinião) são uma forma de lutar contra o esquecimento. Pois são. E isso é muito importante e infelizmente cada vez mais raro. Mas apresentam uma perspectiva sobre o assunto em causa. A Diana Andringa percebe bem isso e coloca as coisas cruas nos nossos olhos, deixando-nos vê-las pelo seu lado humanista e de "colega sofredora". De resto, deixa os juízos de opinião para nós próprios.

2. "O jornalismo faz-se com os pés". Isto devia estar escrito na porta de todas as escolas de jornalismo. É preciso ir ao local, falar com as pessoas, ver, ouvir e sentir. Uma mensagem muito importante nestes dias de jornalismo de "agências de comunicação".

3. Em todo o documentário, com dezenas de entrevistados, não se sente por uma única vez nada que se pareça com ódio. Não. Mas fica bem clara a marca da humilhação. Muito clara. Nisso o Tarrafal era um enorme sucesso, e a Diana Andringa soube passar bem esse sentimento.

4. Impressionou-me muito o senhor que levou para a entrevista as calças que usava na prisão. Todas rotas, fracas. Eram a marca da humilhação que ele não consegue esquecer, e que nos pede para não esquecermos. Memória. É outro dos objectivos muito bem conseguidos deste documentário. Documentar para memória futura e não esquecer o que fizemos como nação. Nem esquecer, sem julgamentos populares nem apreciações precipitadas, as pessoas envolvidas na organização daquele terror. É uma mensagem que Andringa pretende transmitir e que faz de forma muito subtil passando, por exemplo, um documento do Ministro do Ultramar (Adriano Moreira).

Este documentário deveria ter mais perspectivas e mais depoimentos. Também para memória futura. De pessoas que estiveram do outro lado. Gostava de ter ouvido o director "Fontes", alguns dos guardas da prisão, pessoas do regime ligadas ao Tarrafal, médicos, o alferes que segurava a mão do Capitão Domingos.

Falta memória em Portugal. Mas acima de tudo falta o estímulo à reflexão sobre a nossa história. Será isso que impedirá que se volte a repetir aquilo que todos lamentamos.

A única coisa em que discordo de Andringa é na "vergonha do passado". Eu não me envergonho de nada da nossa história. Lamento que tenham acontecido, e fico chocado com a perversidade e maldade de muitos momentos da nossa história colectiva, mas não me envergonho. Só me envergonho da nossa capacidade de esquecer, e com isso permitir que certas coisas voltem a acontecer. Essa sim é uma forma de "Morte Lenta".

J. Norberto Pires